Seguindo a mesma linha de seu mestre, São João de Ávila, Frei Luís de Granada faz da oração o tema dominante
de sua
vida e obra. E ensina que o fiel deve contemplar os sofrimentos do Senhor, imaginando que está presente em cada
passo da Paixão. Mas não como um acontecimento passado, e sim como presente; não como dor alheia, mas como
própria, de modo a colocar-se no lugar de Cristo para sentir Suas dores físicas e morais. Esse modo de meditação
imaginativa tem ampla aceitação no século XVI, a tal ponto que o Livro de Oração e Meditação, publicado por Frei
Granada em 1554, alcança enorme sucesso. O Livro traz modelos de oração mental que introduzem principiantes e
iniciados nos caminhos da alta espiritualidade. Frei Luís F R E I L U Í S D E G R A N A D A 13 acredita que qualquer um
pode iniciar-se nos exercícios da vida contemplativa por meio da oração mental, que é o caminho mais fácil para o
homem se unir a Deus. Ao mesmo tempo, ele não descarta, de modo algum, a oração vocal, já que esta última é
absolutamente necessária aos iniciantes, que ainda não alcançaram as vias superiores da oração mental. Os seus livros
recebem várias edições nos séculos XVI e XVII, em espanhol, português, francês, italiano, alemão, inglês e latim.
Estimase que, até 1578, houve sessenta e quatro edições do Livro de Oração e Meditação na Europa1. Além disso, o seu
nome é mencionado em diversas crônicas de ordens religiosas, de Dominicanos, de Jesuítas, de Carmelitas Descalços e
de Agostinianos. A fundadora do Carmelo Descalço, Santa Teresa de Jesus, recomenda os livros de Granada às suas
irmãs carmelitas, tendo inclusive registrado no livro 1 Gran Enciclopedia Cervantina, Editorial Castalia, 2009, pg. 5463,
Vol. 4. TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO B R E V E R E C O M P I L A Ç Ã O 14 das Fundações que elas “governavam-se
pelos livros de Frei Luís de Granada e Frei Pedro de Alcântara” (Capítulo 28, 41). Em vista do alto preço do volumoso
Livro de Oração e Meditação, alguns autores escreveram suas versões resumidas dessa obra com a intenção de torná-la
acessível aos pobres. Embora aprovasse a ideia, Frei Granada não se agradou dos textos assim produzidos e decidiu
publicar a própria versão condensada do seu Livro, que foi impressa em Lisboa por Juan Blavio de Colonia, entre 1557 e
1559, sob o título Tratado de Oração e Meditação. Entretanto, por erro do impressor e sem má intenção, as edições
seguintes foram atribuídas indevidamente a São Pedro de Alcântara. Dada a confusão que assim se estabeleceu sobre a
autoria da obra, debateu-se posteriormente quem seria o autor do texto original. A questão foi examinada pelo Frei
Dominicano Justo Cuervo (1859-1921), no estudo crítico Fray Luis de Granada Verdadero y Único Autor del Libro de la
Oración, publicado em Madri, no ano de 1918, onde ele afirma que: F R E I L U Í S D E G R A N A D A 15 – Frei Luís de
Granada é o verdadeiro e único autor do Livro de Oração e Meditação, impresso pela primeira vez em Salamanca, por
Andrea de Portonaris, no ano de 1554. – São Pedro de Alcântara resumiu o Livro de Oração e Meditação de Frei
Granada e publicou a sua versão, entre 1556 e 1558 (data incerta), sob o título Tratado de Oração Mental e Exercícios
Espirituais. 2 – Frei Granada também resumiu o seu Livro de Oração e Meditação, produzindo, porém, um texto mais
completo, com o dobro 2 Frei Álvaro Huerga, biógrafo de Frei Granada, observa que “por desgraça, não se conhece
nenhum exemplar do opúsculo de São Pedro de Alcântara. E isso contribuiu para que persistissem o barulho e as
dúvidas. Por outro lado, com o tempo, foram aparecendo velhas edições que desmontaram velhas lendas. Cada
exemplar que o Padre Cuervo encontrava, observou Paul Dudon, era um golpe na frágil hipótese do capuchino Miguel
Angel, aguerrido defensor da atribuição do Tratado a São Pedro de Alcântara” (Fray Luis de Granada, Una vida al servicio
de la Iglesia, La Editorial Católica, 1988, p. 136). TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO B R E V E R E C O M P I L A Ç Ã O 16
de páginas daquele escrito por São Pedro de Alcântara. Para comprovar suas descobertas, Frei Justo aponta, entre
outras evidências, o testemunho do conceituado impressor Domingo de Portonarijs, na dedicatória À Duquesa de Alba,
e do próprio Frei Granada, na apresentação Ao Leitor, ambas inseridas na edição de 1574 e reproduzidas na presente
publicação. Ademais, Frei Granada voltou a reivindicar a autoria do Tratado, por ocasião do lançamento de suas obras
completas, em 1579, afirmando que escreveu uma versão resumida do Livro de Oração, a qual “não vai aqui, primeiro,
porque é parte deste Livro, tomado palavra por palavra dele e, segundo, por ser livro pequeno, [...] mais adequado para
rezar ou meditar por ele do que para ser impresso em volume grande”. Em vista desses argumentos, dentre outros
expostos em seu estudo crítico, Frei Justo conclui que o Tratado de Oração e Meditação, que por muito tempo circulou
sob o F R E I L U Í S D E G R A N A D A 17 nome de São Pedro de Alcântara, foi, na verdade, escrito pelo Frei Luís de
Granada. Foram ainda incluídas nesta edição a Licença para Impressão e a Licença para Venda, dadas à edição de 1574,
nas quais também se atribui a Frei Luís a autoria da presente obra, corroborando as conclusões de Frei Justo Cuervo.
TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃ