Nunca nos cansamos de ler e meditar certos livros de oração, quando procuramos aprender a rezar da maneira certa,
isto é, sem buscar a nós mesmos, mas querendo apenas glorificar a Deus, sumo bem de todas as coisas. Ainda em
nossos dias, surgem bons livros que têm a santa ambição de nos ensinar a rezar. Mesmo assim, não devemos nos
esquecer que o Espírito Santo é nosso único mestre de oração. E que Jesus continua sendo o melhor exemplo de vida de
oração, feita de amor, comunhão e diálogo íntimo com o Pai. Andamos à procura de autores espirituais que, usando
uma linguagem mais apropriada para a nossa caminhada pessoal, consigam timidamente F R E I L U Í S D E G R A N A D A
5 balbuciar algo sobre o mistério do nosso relacionamento com Deus. E, mais uma vez, é Jesus quem nos ensina o
caminho: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as
revelaste aos pequeninos, sim, ó Pai, assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o
Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos
os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é
leve.” (Mateus 11, 25-30) O caminho da oração que Jesus nos ensina é o da simplicidade. Deus revela-se aos que o
buscam com simplicidade e àqueles a quem Ele quer se revelar. Jesus, na sua bondade infinita, deu-nos apenas uma
oração, que é o Pai-Nosso. Ele tinha acabado de falar com Deus, quando os discípulos lhe pediram “Mestre, ensina-nos a
rezar”. Nosso Senhor não fez outra coisa senão TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO B R E V E R E C O M P I L A Ç Ã O 6
nos ensinar a oração que pouco antes ele mesmo tinha dirigido ao seu Pai. Na vida da Igreja, ao longo dos séculos,
temos muitíssimos santos mestres de oração, desde Agostinho, Cipriano, Tertuliano, Bernardo de Claraval, Teresa de
Ávila, João da Cruz e, saltando alguns séculos, Teresinha do Menino Jesus, Elisabete da Trindade, Teresa de Calcutá etc.
E citei apenas os santos. Tem-se escrito montanhas de livros sobre oração. E isso mostra como o tema é inesgotável e
atual. No entanto, creio eu, estamos sempre em dívida no que se refere ao nosso dever de fazer oração. Todas as nossas
ações devem nascer da oração. Toda evangelização e toda a vida da Igreja, sem oração, tornam-se um mero serviço
social. O Papa Francisco deu-nos a preciosa Carta Apostólica Gaudete et Exsultate, sobre os novos caminhos da
santidade, ainda pouco meditada pela pastoral da Igreja, mas de suma importância. O Frei dominicano Luís de Granada
(1504-1588) foi contemporâneo de Santa Teresa d’Ávila, homem de profunda cultura e amor à pregação do Evangelho.
Seus F R E I L U Í S D E G R A N A D A 7 contemporâneos diziam que ele possuía a gratia predicationis, ou seja, o carisma
da pregação. Vamos encontrá-lo pregando em vários lugares da Espanha, sempre dedicado ao estudo teológico. Mas
nem a pregação nem o estudo o afastaram da sua maior preocupação: Cultivar um relacionamento íntimo com Deus e
ensinar aos seus ouvintes os caminhos da oração e da meditação. Escritor fecundo, publicou ainda em vida mais de uma
dúzia de livros que tiveram enorme difusão, para os padrões de seu tempo. Entre os seus livros, devemos sublinhar este
que estamos publicando com ótima tradução. Frei Granada nunca encontrou pessoalmente Santa Teresa d’Ávila. Mas
ela escreveu-lhe uma carta que, na minha opinião, podemos considerar como o maior elogio da obra de Frei Luís de
Granada. Teresa recomenda às Prioresas do Carmelo Descalço que tenham bons livros em suas bibliotecas,
especialmente os de Frei Luís de Granada. Ousaria dizer que são como que livros de formação para os Mosteiros
fundados pela andariega e mística Teresa. Ela mesma leu este TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO B R E V E R E C O M
P I L A Ç Ã O 8 livro e se beneficiou dele em sua caminhada ao encontro do Senhor. Frei Luís usa uma linguagem simples
que toca o coração, falando-nos da hora da morte, das dificuldades que temos para fazer oração e aconselhando-nos a
não permitir que “os muitos afazeres e preocupações com as coisas do mundo” nos afastem do caminho de oração,
perdendo de vista a centralidade de Cristo. Encontramos aqui orações para pedir o amor de Deus e o amor ao próximo,
e conselhos para viver uma vida santa em meio às nossas responsabilidades de cada dia. Sem dúvida, este Tratado de
Oração vai fazer um imenso bem a todos os que o lerem com calma, pois as dificuldades que temos para orar são as
mesmas em todos os tempos. Para avançar na oração, é necessário ter uma determinada determinação, como diz Santa
Teresa, buscando perseverantemente o encontro cotidiano com Deus, desde o início até o fim do dia. Na Segunda Parte
do livro, encontramos conselhos práticos em dez pontos, que são F R E I L U Í S D E G R A N A D A 9 quase um decálogo
para vivermos uma vida de oração que nos faz crescer diariamente no amor a Deus e ao próximo. Especialmente
interessante é o capítulo que trata de como ter a “verdadeira devoção” (Capítulo 1). Luís de Granada vive no Século de
Ouro da Espanha, tempo de grandes místicos, como João da Cruz, Teresa de Jesus, Inácio de Loyola e João de Ávila (este
último era seu amigo pessoal e foi nomeado Doutor da Igreja). É um rosário de santos e místicos de tamanha riqueza
espiritual que poucas vezes na história da Igreja encontramos reunida no mesmo tempo e lugar. Mas aquela também foi
uma época em que surgiram alguns “iluminados” que muitas vezes deixaram-se levar por suas ilusões místicas e caíram
em certas formas de heresias combatidas pela Inquisição. Mas o que Santa Teresa nos fala sobre Luís de Granada? A
carta que ela lhe escreveu, que transcrevo parcialmente a seguir, é a melhor expressão do apreço que ela tem por sua
pessoa: TRATADO DE ORAÇÃO E MEDITAÇÃO B R E V E R E C O M P I L A Ç Ã O 10 “A graça do Espírito Santo esteja
sempre