0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações18 páginas

Modulo 10

O documento explora a evolução da compreensão do Universo, desde a Teoria da Relatividade Geral de Einstein até a Cosmologia contemporânea, incluindo a descoberta da expansão do Universo por Edwin Hubble e a teoria da inflação proposta por Alan Guth. A Relatividade Geral interliga matéria e geometria do espaço-tempo, enquanto a Cosmologia Relativista é baseada no Princípio Cosmológico e no Postulado de Weyl. A inflação resolve problemas do modelo padrão do Big Bang, explicando a isotropia da radiação cósmica de fundo e a geometria plana do Universo.

Enviado por

rodrigovaratojo
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações18 páginas

Modulo 10

O documento explora a evolução da compreensão do Universo, desde a Teoria da Relatividade Geral de Einstein até a Cosmologia contemporânea, incluindo a descoberta da expansão do Universo por Edwin Hubble e a teoria da inflação proposta por Alan Guth. A Relatividade Geral interliga matéria e geometria do espaço-tempo, enquanto a Cosmologia Relativista é baseada no Princípio Cosmológico e no Postulado de Weyl. A inflação resolve problemas do modelo padrão do Big Bang, explicando a isotropia da radiação cósmica de fundo e a geometria plana do Universo.

Enviado por

rodrigovaratojo
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Da Relatividade Geral à Cosmologia

Contemporânea
Curso de Iniciação à Astronomia e Observações Astronómicas

Laurindo Sobrinho
Grupo de Astronomia da Universidade da Madeira
astro@[Link]

Resumo

Neste módulo são exploradas algumas teorias, ideias e descobertas que levaram ao
estabelecimento do modelo do Big Bang como descrito no módulo anterior. Procura-se
dar uma ideia do que é hoje a nossa compreensão do Universo visto como um todo.

1 - A Teoria da Relatividade Geral


Num artigo publicado em 1905, Einstein (Fig. 1) mostra, a
partir de uma análise cuidadosa da simultaneidade de
acontecimentos distantes entre si, que o conceito de tempo
universal ou absoluto, no qual se baseia a Mecânica de
Newton (também designada por Mecânica Clássica), tem de
ser abandonado. Einstein apresenta uma nova cinemática
baseada em dois postulados: o Princípio da Relatividade e o
Princípio da Constância da velocidade da luz. A Teoria da
Relatividade Restrita (como acabou por ser chamada)
forneceu aos físicos uma orientação segura na procura de
novas teorias dinâmicas de campos e de partículas.

Fig. 1 - Albert Einstein em


1905

Em 1915 Einstein apresentou um trabalho onde expandia a Teoria da Relatividade


Restrita por forma a incluir o efeito da gravidade sobre o espaço-tempo. Esta nova
teoria ficou conhecida como Teoria da Relatividade Geral (TRG). A TRG é uma
teoria da Gravitação. A sua base assenta no Princípio da Equivalência que afirma que as
Leis da Física devem possuir a mesma forma em todos os referenciais de coordenadas
(Fig. 2).

Einstein procurou uma teoria na qual matéria e geometria do espaço-tempo estivessem


interligadas. Na ausência da gravidade as equações da TRG teriam de se reduzir às
equações da Relatividade Restrita e, para pequenos campos gravitacionais e velocidades
baixas as equações deveriam reduzir-se às da Mecânica Newtoniana.

As Leis da Física na TRG são expressas por equações tensoriais. Um tensor é uma
entidade geométrica que é independente do sistema de coordenadas (referencial)
escolhido. Assim, uma equação tensorial válida num determinado sistema de
coordenadas será também válida em qualquer outro sistema de coordenadas. Na TRG a
informação acerca da geometria do espaço-tempo é condensada num tensor designado
por tensor de Einstein. Por sua vez a informação relativa à distribuição de massa e
energia do espaço-tempo é condensada no chamado tensor energia-momento. Einstein
considerou que existe uma relação direta entre os dois tensores, ou seja, que matéria e
energia alteram a geometria do espaço-tempo. Considerou ainda que essa relação deverá
ser do tipo mais simples, ou seja, os dois tensores devem ser proporcionais.

Figura 2 - Não é possível distinguir, num sistema fechado, os efeitos produzidos pelo campo gravítico
daqueles produzidos pela aceleração do próprio sistema.

A métrica de Schwarzschild, obtida por Karl Schwarzschild em 1916, permite


determinar distâncias entre eventos ocorridos num espaço-tempo com simetria esférica.
Esta solução descreve o campo em torno de corpos como as estrelas, planetas e buracos
negros. Prevê efeitos como o desvio da luz ou a deformação do espaço-tempo. Permite
explicar o avanço do periélio do planeta Mercúrio (ver Fig. 3). Atualmente a TRG é
aplicada em Astrofísica quando se estudam buracos negros, estrelas de neutrões,
quasares, lentes gravitacionais, ondas gravitacionais ou modelos cosmológicos. O
próprio sistema de posicionamento global (GPS) também não poderia funcionar com
tamanha precisão se não tivesse em conta os efeitos previstos pela TRG.

Figura 3 - Avanço do periélio do planeta Mercúrio. Este facto observacional não era bem explicado pela
teoria clássica e por isso era um problema em aberto. Com a TRG foi possível dar uma explicação
satisfatória.
2 - Cosmologia Relativista
De acordo com o que observamos vivemos num Universo plano, homogêneo (todos os
pontos são equivalentes) e isotrópico (todas as direções são equivalentes). Claro que
esta constatação só é válida quando consideramos o Universo em larga escala (escalas
superiores a aprox. 100 milhões de anos luz) – ver Fig. 4. Localmente vemos, por
exemplo, aspetos diferentes quando olhamos em direções diferentes.

Figura 4 - Imagem de uma pequena secção do Universo profundo obtida com o HST. Nesta imagem
praticamente todos os pontos são galáxias a diferentes distâncias.

A Cosmologia, ou seja, o estudo dinâmico do Universo como um todo é baseado no:

Princípio Cosmológico - em qualquer época o Universo apresenta o


mesmo aspeto a partir de qualquer ponto (aparte pequenas
irregularidades).

Estamos assim a assumir que existe um tempo cósmico válido para todos os pontos do
espaço (o Universo evolui seguindo esse tempo cósmico). O Princípio Cosmológico
implica que não existem nem pontos nem direções especiais. Quando olhamos para o
Universo em larga escala o movimento dos enxames e superenxames de galáxias é
muito semelhante ao movimento de partículas num fluido. Esta ideia está expressa no:

Postulado de Weyl - as partículas do substrato (fluido) descrevem no


espaço-tempo um conjunto de linhas (geodésicas) que apenas se
intersectam num ponto do passado e/ou num ponto do futuro.

O postulado requer que essas linhas geodésicas (que descrevem o movimento dos
enxames e superenxames de galáxias) não se intersectem em nenhum ponto a não ser no
passado ou no futuro. Por outras palavras em cada ponto pode passar apenas uma e só
uma geodésica. Embora isto não seja exatamente verdade os desvios são relativamente
pequenos e aleatórios.

Isto significa que o Universo pode ser descrito como se fosse um fluido perfeito. Os
fluidos perfeitos são caracterizados por apenas dois parâmetros: densidade de energia e
pressão. Em geral a descrição de um fluido envolve outros parâmetros como
viscosidade, condução de calor, resistividade..., o que conduz a equações muito mais
complexas. No caso de um fluido perfeito a equação é bastante simples o que facilita
bastante a elaboração de um modelo para o Universo. A expansão do Universo é
governada por um fator de escala R o qual depende apenas do tempo.

Resumindo: A Cosmologia Relativista assenta sobre três pilares fundamentais:

- Teoria da Relatividade Geral


- Princípio Cosmológico
- Postulado de Weyl

3 - A descoberta do Universo em expansão


Fazendo a luz que nos chega, de uma determinada fonte, atravessar um prisma podemos
decompor esta nas suas diversas cores (do violeta ao vermelho). Observando com
detalhe o espectro obtido podemos notar que existem algumas riscas (escuras no caso de
um espectro de absorção e coloridas no caso de um espectro de emissão). Mais, cada
elemento tem um conjunto de riscas característico e único (é como se fosse a sua
impressão digital) - ver Fig. 5. Comparando, por exemplo o conjunto de riscas obtido a
partir da luz de uma estrela com o de diversos elementos obtidos em laboratório
podemos ficar a conhecer a composição dessa estrela. Decompondo a luz que nos chega
de galáxias distantes podemos ficar a conhecer a composição das mesmas.
Figura 5 - Espectro do Hidrogénio, Hélio, Lítio e Oxigénio. Note-se que o conjunto de riscas é bem
diferente em cada caso.

Ao examinar a luz emitida por galáxias distantes


Edwin Hubble (Fig. 6) verificou, em 1929, que esta
aparecia sempre desviada para o vermelho (Fig. 7).
Este fenómeno é conhecido por efeito Doppler e
acontece sempre que observamos um objeto que se
afasta de nós. Isto significa que todas essas galáxias
estão a afastar-se da Nossa Galáxia. Verificou ainda
que quanto maior a distância maior é a velocidade de
afastamento. Apenas para algumas galáxias do Grupo
Local acontecia o inverso, ou seja, o desvio para o azul
(galáxia em aproximação).
Fig. 6 - Edwin Hubble.

A conclusão lógica a tirar desta observação é a de que o Universo está em expansão


(Fig. 8). Pouco anos antes tínhamos descoberto que a Nossa Galáxia não era única no
Universo e agora descobríamos que quase todas as outras galáxias se afastavam da
nossa.

Figura 7 - Neste esquema temos o espectro de absorção de três galáxias a diferentes distâncias. O
conjunto de riscas, em cada caso, é exatamente o mesmo (trata-se do mesmo elemento). No entanto a sua
posição varia com a distância. Quanto mais distante a galáxia mais as riscas estão desviadas para a direita,
ou seja, na direção do vermelho.
Figura 8 – Esquema representando o Universo em expansão. Como o Universo é homogéneo e isotrópico
qualquer observador em qualquer ponto do Universo faz a mesma leitura relativamente à expansão: para
ele todas as galáxias distantes estão a afastar-se da sua própria galáxia.

Como já foi referido antes a observação do Universo quando feita em escalas a partir
dos 108 anos-luz mostra que este é homogéneo (todos os pontos são equivalentes) e
isotrópico (todas as direções são equivalentes). Assim, a expansão do universo é
governada por um fator de escala R o qual depende apenas do tempo. No contexto
da Teoria da Relatividade Geral a evolução do fator de escala, ou seja, a evolução do
Universo é descrita pela chamada equação de Friedmann:

No âmbito deste curso apenas nos interessa referir as quantidades que aparecem em tão
importante equação. São elas:

R - fator de escala,
G - constante de gravitação universal (comum à Mecânica Newtoniana),
c - velocidade da luz,
r- densidade do Universo
L - constante cosmológica,
k - curvatura do espaço-tempo.

A presença de uma constante cosmológica não nula é equivalente a assumir que a


matéria não é a única responsável pela gravidade existindo outra fonte adicional que
poderá ser atrativa (Λ<0) ou repulsiva (Λ>0). De acordo com a Teoria da Relatividade
Geral um Universo sem constante cosmológica estaria em expansão ou em contração.
Este fato incomodou Einstein, levando-o a introduzir um valor de L nas equações por
forma a garantir um Universo estático. Pouco tempo depois ficamos a saber que o
Universo está em expansão e Einstein teve então de ceder chegando mesmo a afirmar
que este tinha sido o maior erro da sua vida. Voltaremos a falar da constante
cosmológica mais adiante.

O valor de k indica qual a geometria do universo: k=1 : universo elíptico (fechado);


k=0 : universo plano; k=-1 : universo hiperbólico (aberto) – Fig. 9.
Jogando com os valores possíveis para k e Λ podemos construir diferentes modelos de
universos (Fig. 10). Em alguns desses modelos a expansão continua eternamente ao
passo que noutros a expansão dá lugar à contração. Até há bem pouco tempo não
sabíamos qual o modelo mais adequado. Os resultados mais recentes, obtidos na sua
grande maioria com o satélite WMAP, apontam para k=0 (universo plano) e Λ>0.

Figura 9 – Geometria elíptica, Euclidiana (plana) e hiperbólica.

Figura 10 - Jogando com os valores possíveis para k e Λ podemos construir diferentes modelos de
universos.
4 – O mecanismo de Inflação
Embora o modelo Standard do Big Bang tenha tido grande sucesso, por exemplo, na
previsão da existência da radiação cósmica de fundo de micro-ondas e na explicação do
processo de núcleosíntese primordial dos elementos, não é capaz de dar resposta a
outros problemas, como por exemplo, o problema do horizonte e o problema
relacionado com o facto de termos um universo plano.

A partir da observação sabemos que a distribuição da radiação cósmica de fundo é


isotrópica (Fig. 11), isto é, é a mesma em qualquer direção em que se olhe. Isto significa
que em algum momento do passado todos os pontos do universo devem ter estado
em contacto causal entre si (deve ter sido possível ir de um extremo ao outro do
Universo a uma velocidade não superior à da luz num intervalo de tempo inferior à
idade do Universo).

Figura 11- Radiação cósmica de fundo.

Sabemos a dimensão e a idade do Universo. Atendendo à velocidade de expansão


podemos recuar no tempo até ao instante inicial e ver se em algum momento a dimensão
do Universo permitiu o contacto causal entre todos os seus pontos. Verifica-se que isso
nunca aconteceu (Fig. 12). Existe assim uma falha no modelo Standard do Big Bang. É
o chamado Problema do Horizonte.

Figura 12 – Recuando para o passado (linha vermelha) verificamos que o Universo nos instantes iniciais
era já bastante grande para que fosse possível um contacto entre todas as partes do Universo. Por outro
lado, supondo que no início todos os pontos do Universo estiveram em contacto então a expansão teria
conduzido a um Universo cuja dimensão no presente seria inferior a 1 metro (linha verde) o que sabemos
ser falso.
As observações recentes mostram que o Universo é plano. Mas, se não fosse assim já
nos instantes iniciais as consequências teriam sido catastróficas para o Universo
impedindo a formação de estrelas e galáxias. A teoria do Big Bang não consegue
explicar por si só a razão pela qual o Universo é plano.

Para resolver estes e outros problemas Alan Guth sugeriu


em 1981 a ideia de um Universo inflacionário. O universo
continua a ser descrito de acordo com a teoria do Big Bang
mas com uma fase adicional introduzida no final da era da
Grande Unificação. Durante breves instantes o Universo foi
dominado por uma força que venceu a força de gravidade e
acelerou exponencialmente a expansão do Universo. O
campo responsável pela inflação designa-se normalmente
por inflatão.
Fig. 13 – Alan Guth.

A inflação teve início quando a idade do Universo era de 10-35s e terminou


aproximadamente aos 10-33s. Durante este período a dimensão do Universo aumentou
de um fator entre 1050.e 1070. Depois da inflação a expansão do Universo retomou a
normalidade (Fig. 14). Durante a inflação o Universo arrefeceu exponencialmente. No
entanto a energia libertada no final da inflação voltou a aquecer o Universo para uma
temperatura semelhante à que se verificava antes. Antes da inflação todas as regiões do
Universo estavam em contacto causal. Depois da inflação o horizonte de qualquer
observador passa a ser muito menor do que o Universo. Para cada observador existe um
Universo Observável cuja dimensão, que designaremos por horizonte, é muito inferior à
dimensão do Universo na sua globalidade (Fig. 15).

Figura 14 – O Universo começa por ser muito pequeno com todas as suas regiões em contacto (como na
linha verde da Fig. 12), depois o seu tamanho é inflacionado durante breves instantes para depois
continuar a sua expansão normal. Em comparação com a Fig. 12 durante a inflação saltamos da linha
verde para a linha vermelha.
A inflação explica, assim, de uma forma muito simples a isotropia da radiação
cósmica de fundo pois garante que no passado todos os pontos estiveram em contacto
causal (Fig. 15). Explica também de uma forma muito simples a geometria plana do
Universo, pois, o Universo observável é apenas uma pequena fração do todo (Fig. 16).

Figura 15 – O Universo antes e depois da inflação. Antes da inflação o Universo Observável coincidia
com o Universo em si. Depois da inflação o Universo passou a ser muito maior do que o Universo
Observável.

Figura 16 – Mesmo que a geometria do Universo não seja plana, o fato de o Universo Observável ser
apenas uma pequena fração do todo, faz com que não consigamos obter informação sobre essa geometria.
Façamos a seguinte analogia: uma pequena porção da superfície terrestre pode considerar-se plana. Se
isso for o nosso Universo Observável então dizemos que a geometria é plana. A curvatura da superfície
terrestre só se torna relevante quando consideramos áreas maiores.

Na natureza não se observam monopolos magnéticos. Sempre que temos um íman


existe um polo Norte e um polo Sul. Muitas teorias preveem que no Universo
primordial possam ter sido criadas grandes quantidades de monopolos magnéticos
estáveis. No entanto isso teria acontecido antes dos 10-35 s, ou seja, antes da inflação.
Com a inflação os monopolos magnéticos foram diluídos no Universo pelo que a sua
observação atualmente é muito improvável. Esta é mais uma das questões resolvidas
pela inflação.
5 – A Radiação Cósmica de Fundo
Quando a temperatura do Universo desceu o suficiente para
permitir que os eletrões se combinassem com os núcleos
atómicos formando átomos neutros o Universo tornou-se
transparente para a radiação, ou seja, para os fotões. Isto
aconteceu quando o Universo tinha cerca de 380 000 anos. A
radiação libertada nessa altura viajou livremente pelo Universo
podendo ser detetada atualmente como uma radiação de fundo
em micro-ondas. A existência desta radiação foi prevista em
primeira mão em 1948 por George Gamow. Figura 17 – George
Gamow.

Esta radiação de fundo só veio a ser detetada em 1965, de forma acidental, quando dois
rádio astrónomos, Arno Penzias e Robert Wilson, estavam a calibrar uma antena de
micro-ondas altamente sensível (Fig. 18). Eles pretendiam eliminar ao máximo o ruído
introduzido pelo próprio equipamento. Havia, no entanto, sempre um ruído de fundo
que não conseguiam reduzir. Estava descoberta a radiação prevista vários anos antes por
Gamow. A descoberta, que valeu o prémio Nobel a Penzias e Wilson, é um dos marcos
mais fortes a favor da Teoria do Big Bang.

Figura 18 - Arno Penzias, Robert Wilson e o recetor de micro-ondas responsável pela deteção da radiação
cósmica de fundo.

6 - Matéria Escura
Ao observar em 1933 o enxame de galáxias de Coma o
astrofísico suíço Fritz Zwicki (Fig. 19) verificou, baseando-se
no movimento das galáxias próximas dos extremos do enxame,
que este possuía muito mais massa para além daquela estimada
a partir do brilho das suas galáxias.

Fig. 19 – Fritz Zwicki.


Estimou que a massa do enxame de Coma (Fig. 20) deveria ser cerca de 400 vezes
superior ao observado a partir do brilho das suas galáxias. Esta questão ficou conhecida
como o "problema da massa em falta". Essa massa em falta veio a designar-se por
matéria escura.

Figura 20 - Enxame de galáxias de Coma. Todos os objetos que vemos na imagem são galáxias. A
exceção é o objeto bastante luminoso no canto superior direito que é uma estrela da Nossa Galáxia que
está no mesmo campo de visão (O. Lopez-Cruz and I. K. Shelton.
[Link]

Em 1975 a astrónoma Vera Rubin (Fig. 21) descobriu que a


maior parte das estrelas numa galáxia espiral orbitam em torno
do núcleo galáctico praticamente à mesma velocidade
independentemente da sua distância ao centro (Fig. 22). Este
resultado sugere que, ou a Teoria Newtoniana da gravidade não
é Universal, ou mais de metade da massa das galáxias está
contida num halo escuro sob a forma de matéria escura.

Fig. 21 – Vera Rubin.

Figura 22 – Velocidade das estrelas em torno do centro de uma galáxia espiral. Perto do centro a
velocidade é máxima. Considerando a teoria Newtoniana da gravitação, de acordo com a massa das
estrelas que observamos numa determinada galáxia, a velocidade destas deveria diminuir com o aumento
da distância ao centro como se indica na curva A. Acontece que em muitos casos o que se observa é o
comportamento indicado na curva B. Isto significa que, para além da massa visível deve existir muito
mais massa encerrada na galáxia que embora não emita luz faz sentir o seu efeito gravitacional.
A quantidade de matéria escura numa galáxia pode ser inferida a partir da relação
massa-luz para essa galáxia. Esta relação é dada por:

Quanto maior este valor maior a percentagem de matéria escura nessa galáxia. Parece
haver mais matéria escura numas regiões do que noutras. Na Nossa Galáxia a matéria
escura é cerca de 10 vezes superior à matéria luminosa. Por outro lado a galáxia
VIRGOHI21, detetada no enxame da Virgem a 50 milhões de anos-luz, parece ser
composta inteiramente por matéria escura (Fig. 23).

Figura 23 - VIRGOHI21 – uma galáxia que parece ser composta 100% por matéria escura.
(Sloan Digital Sky Survey: [Link]

São conhecidos atualmente uma série de objetos pouco luminosos tais como: buracos
negros, anãs brancas, estrelas de neutrões, anãs vermelhas, anãs castanhas e planetas do
tipo “Júpiter”. Estes objetos, que fazem parte daquilo a que chamamos matéria
bariónica, podem ajudar a resolver o problema da matéria escura.

No entanto os estudos revelam que apenas uma pequena fração da matéria escura é de
origem bariónica. Assim, a composição da maior parte da matéria escura é ainda
uma incógnita para nós. Alguns dos candidatos em estudo são os axiões e as WIMPs
(partículas que surgem em estudos teóricos e que ainda não foram observadas) – ver
Fig. 24.

7 - Energia Escura
Observações de supernovas do tipo Ia distantes, efetuadas no final dos anos 90 do
século XX, sugerem que a expansão do universo está acelerando e não o contrário
como era suposto (Fig. 25). A aceleração do Universo iniciou-se, de acordo com as
observações, há cerca de 5 a 10 mil milhões de anos. Antes dessa data a expansão do
Universo estava em desaceleração e era dominada pela matéria (escura e luminosa).
Figura 24 – Vários cenários para a resolução do problema da matéria escura

Figura 25 – A observação de supernovas distantes revelou que a expansão do Universo está a acelerar.
Uma supernova do tipo Ia ocorre quando uma estrela anã branca ganha massa de uma
companheira e cresce até se tornar instável dando origem a uma explosão. A massa
limite para isso acontecer é bem conhecida (é o chamado limite de Chandrasekhar que
corresponde a 1.44 massas solares) e o brilho da explosão é também bem conhecido.
Assim as supernovas Ia são as melhores velas padrão que se conhecem para
observações cosmológicas.

As observações sugerem a existência de uma energia com pressão negativa que atua
contra a força de gravidade. Deu-se-lhe o nome de energia escura.

Nota: não devemos confundir matéria escura com energia escura. A matéria escura diz-
se escura por não emitir luz, mas fazemos alguma ideia do que é. A energia escura tem
esta designação apenas como forma de revelar a nossa ignorância acerca da sua
natureza.

A natureza da energia escura é completamente desconhecida e a sua deteção direta


afigura-se também, para já, muito complicada. A ideia mais simples para a explicação
da energia escura é a de que esta é simplesmente o custo a pagar pela existência de
espaço, ou seja, é a energia intrínseca do espaço.

Observações recentes do satélite WMAP (Fig. 26) revelam um Universo praticamente


plano. Diversos estudos indicam que a totalidade da matéria (luminosa e escura) apenas
contribui com aproximadamente 25% para a densidade total do Universo. Para garantir
que o Universo é plano a maior parte da sua densidade resulta da energia escura.

Figura 26 – O satélite WMAP responsável por grandes descobertas no campo da Cosmologia recente.

A aceleração do Universo iniciou-se, de acordo com as observações, há cerca de 5 a 10


mil milhões de anos. A continuar assim as galáxias fora do superenxame local vão sair
do nosso horizonte deixando de ser visíveis. Por outro lado se a energia escura se tornar
atrativa no futuro então o Universo poderá contrair-se dando origem ao Big Crunch. Se
a energia escura acabar por dominar todas as outras forças então tudo o que existe no
Universo será despedaçado dando origem a um Big Rip. Neste momento todas estas
ideias são pura especulação.
8 - Aceleradores de partículas e o Modelo do Big Bang
Como vimos no módulo 9 o Modelo do Big Bang tem como um dos seus pilares
fundamentais o Modelo Standard de Física de Partículas. Nos aceleradores de
partículas, como o LHC, sempre que se provoca uma colisão de alta energia estamos a
simular por breves instantes as condições existentes no Universo Primordial (Fig. 27).
Ao longo dos últimos anos foram construídos aceleradores cada vez mais potentes.
Quanto maior a potência maior o nosso recuo em direção ao passado. O LHC atinge
energias ou temperaturas da ordem das que se verificavam quando o Universo tinha
apenas cerca de 10-10s.

Figura 27 – Aspeto de uma colisão protão-protão no LHC. Analisando o rasto dos “destroços” podemos
identificar diversas partículas e eventualmente descobrir outras novas.

9 - Em que Universo vivemos?


O Universo Observável é:

Plano, Isotrópico e Homogéneo;


Está em expansão acelerada;

É composto sobretudo por (Fig. 28).

energia escura (cerca de 70%) – que não sabemos o que é!


matéria escura (cerca de 25%) – que fazemos apenas alguma ideia do que é!
Nuvens de Hidrogénio e Hélio (cerca de 4 %) – são os elementos mais simples
Estrelas (cerca de 0.5%) – matéria luminosa
Neutrinos (cerca de 0.3%) – interagem pouco com a matéria
Elementos pesados (cerca de 0.03%) – incluem-se planetas, pessoas,....

Existem diversas questões em aberto. No início dos anos 90, do século XX, o grande
problema era a matéria escura. De repente, no final da década a matéria escura
continuava (e continua) a ser um problema, mas encontramos um aparentemente ainda
maior: a energia escura. Para resolver questões como estas e outras desenvolvem-se
novas teorias que podem levar para cenários mais exóticos como a inclusão de mais
dimensões espaciais (além das três que nos são reveladas todos os dias pelos nossos
sentidos), universos paralelos, alargamento da população do modelo de partículas
elementares etc.

Por vezes os problemas também trazem consigo soluções para outros problemas. Outro
grande problema que nos atormentava no final do século XX era o fato de a idade das
estrelas mais velhas da Nossa Galáxia ser superior à idade do Universo (de acordo com
os modelos vigentes). A descoberta da energia escura revela que o Universo é na
realidade um pouco mais velho, o suficiente para acomodar as tais estrelas mais velhas!

Figura 28 – Composição do Universo de acordo com o modelo atual.

Bibliografia principal:

• Freedman R. A. & Kaufmann III, W. J., 2005, Universe, seventh edition, W. H.


Freeman and Company, New York.

• Kutner, M. L., 2003, Astronomy: A Physical Perspective, 2nd edition,


Cambridge University Press, United Kingdom.

• Sobrinho J. L. G., 2011, The possibility of primordial black hole direct


detection, UMa [[Link]

• Modulo 8 - A Via Láctea e o Universo Local, Curso de Iniciação à Astronomia e


Observações Astronómicas, 2012, Sobrinho J. L. G., Grupo de Astronomia da
Universidade da Madeira.
• Modulo 9 - O Big Bang e a evolução do Universo, Curso de Iniciação à
Astronomia e Observações Astronómicas, 2012, Sobrinho J. L. G., Grupo de
Astronomia da Universidade da Madeira.

Nota: este texto foi especialmente preparado para ser utlizado como material de apoio ao módulo 10 do
“Curso de Iniciação à Astronomia e Observações Astronómicas” o qual teve lugar entre 14 de abril e 05
de maio do ano de 2012, numa iniciativa conjunta da Associação de Astrónomos Amadores da Madeira
(AAAM) e do Grupo de Astronomia da Universidade da Madeira (GAUMa).
[[Link]

> 2012 Grupo de Astronomia da Universidade da Madeira.

Você também pode gostar