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Postit

O narrador vive um dia surreal, onde objetos ganham vida e oferecem consolo, levando-o a refletir sobre sua própria gentileza. Ele escreve um desejo de ser gentil consigo mesmo, o que transforma sua percepção do dia a dia. Ao acordar no dia seguinte, encontra um post-it que o lembra da importância de cuidar de si, mesmo em dias comuns.

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Postit

O narrador vive um dia surreal, onde objetos ganham vida e oferecem consolo, levando-o a refletir sobre sua própria gentileza. Ele escreve um desejo de ser gentil consigo mesmo, o que transforma sua percepção do dia a dia. Ao acordar no dia seguinte, encontra um post-it que o lembra da importância de cuidar de si, mesmo em dias comuns.

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Era uma terça-feira que amanheceu com a clara intenção de fingir que era só mais um

dia comum, mas desistiu da farsa antes mesmo do despertador tocar. Acordei com o
celular vibrando em cima do criado-mudo, mas não era alarme nem mensagem: o
aparelho inteiro estava dançando um passinho desajeitado sozinho, como se tivesse
aprendido funk num tutorial do YouTube de madrugada. A tela piscava sozinha
mostrando apenas um emoji de palhaço repetido mil vezes. Peguei o celular e ele
parou imediatamente, como se tivesse sido pego no flagra. Coloquei ele de volta na
mesa e, nesse exato momento, o criado-mudo soltou um suspiro longo e humano,
daqueles que a gente solta quando chega em casa depois de um dia horrível. Olhei
para ele. Ele não olhou de volta, porque móveis não têm olhos, mas juro que senti
julgamento.

Levantei e o chão do quarto estava coberto por uma camada fininha de areia colorida
de praia, mas só nas cores pastel: rosa bebê, azul clarinho, lilás, amarelo ovo.
Cada passo fazia um barulhinho de “crac-crac” como se eu estivesse pisando em
biscoito de arroz inflado. Fui até a janela e abri. Lá fora não tinha rua, nem
prédio da frente, nem barulho de carro: tinha um mar calmo de um tom de azul que
não existe na natureza, e no horizonte um sol nascendo em câmera lenta, mas o sol
era laranja-sorvete-de-creme e tinha um sorriso desenhado com raios. O vento que
entrava pela janela cheirava a algodão-doce quente misturado com café coado na
hora. Respirei fundo e senti vontade de chorar de saudade de algo que nunca vivi.

Desci as escadas. Cada degrau era um chocolate meio amargo que ia derretendo um
pouquinho com meu peso, mas nunca acabava de derreter de verdade. Quando cheguei na
sala, o sofá tinha virado um nuvem gigante cor-de-rosa com textura de marshmallow.
Sentei e ele me abraçou. Literalmente. Dois braços fofos e quentes saíram da nuvem
e me envolveram como se eu fosse criança de cinco anos tendo pesadelo. Uma voz
suave, meio rouca de quem fuma há pouco mas não muito, saiu de dentro do sofá:
“Relaxa, meu bem. Hoje ninguém vai te cobrar produtividade. Pode ficar aqui o dia
inteiro se quiser.” Respondi que tinha que trabalhar. O sofá riu baixinho e falou:
“Trabalhar é só uma das várias formas de existir. Tem outras bem mais honestas.”

Fui até a cozinha mesmo assim. A geladeira estava cantando baixinho uma versão
acústica de “Garota de Ipanema” com voz de violão e tudo. Abri a porta esperando
encontrar comida. Em vez disso tinha um portal pequeno, redondo, do tamanho de uma
pizza grande, com bordas brilhando em tons de arco-íris pastel. Do outro lado dava
pra ver uma biblioteca infinita onde os livros voavam devagar como borboletas e se
abriam sozinhos pra mostrar páginas que brilhavam. Entrei sem pensar. Quando cruzei
o portal, caí de pé num corredor de madeira antiga. O chão era coberto por tapete
persa gasto, daqueles que parecem ter histórias costuradas nos fios. As estantes
subiam até onde a vista alcançava e continuavam subindo. Não tinha teto.

Comecei a andar. Os livros sussurravam quando eu passava perto. Um deles, de capa


verde-musgo, se inclinou pra mim e falou com voz de avô contando causo: “Ei, moço.
Quer saber o que teria acontecido se você tivesse dito sim naquela tarde de 2014?”
Respondi que não sabia se queria saber. O livro suspirou e voltou pro lugar dele.
Outro livro, de capa vermelha brilhante, gritou: “Ei! Aqui tem a versão em que você
foi aprovado naquele concurso que nem tentou! Vem ver!” Ignorei e continuei
andando.

Cheguei numa sala circular. No centro tinha uma mesa redonda de carvalho. Sentada à
mesa estava uma versão minha de uns 25 anos, barba por fazer, camiseta velha de
banda indie, olhando um caderno com cara de quem está escrevendo algo importante.
Ele levantou os olhos e sorriu daquele jeito meio torto que eu já não faço mais.
“Senta aí, cara. Tô te esperando faz tempo.” Sentei. Ele empurrou o caderno pra
mim. Estava em branco. “Escreve o que você quer que aconteça hoje”, ele disse. “Mas
tem que ser honesto. O papel aqui não aceita mentira.”

Fiquei olhando a página vazia. Ele continuou: “Pode escrever que quer um dia
normal, sem nada estranho. Pode escrever que quer ganhar na loteria. Pode escrever
que quer ligar pra alguém que faz tempo não fala. Pode escrever que quer chorar
tudo que tá engasgado há anos. Pode escrever qualquer coisa. Mas tem que ser
verdade.” Coloquei a caneta no papel (que apareceu na minha mão sem eu ver de onde
veio) e escrevi devagar: “Quero um dia em que eu consiga ser gentil comigo mesmo.
Nem que seja só por hoje.”

O papel brilhou. As letras subiram da página como fumaça colorida e se


transformaram em borboletas minúsculas que voaram ao redor da gente. Meu outro-eu
sorriu. “Boa escolha. É mais difícil do que parece.” Ele se levantou, me deu um
abraço rápido e forte daqueles que a gente dá quando sabe que vai demorar pra se
ver de novo, e falou: “Vai lá. O resto do dia já tá sabendo o que fazer.”

Voltei pelo portal. Saí na cozinha de novo. A geladeira tinha parado de cantar e
agora só zumbia baixinho, como se estivesse satisfeita. O sofá-nuvem ainda estava
lá, braços abertos. Sentei. Dessa vez ele não me abraçou forte; só ficou ali,
quente e quieto, como companhia silenciosa. Peguei o celular. Ele não estava mais
dançando. Abriu normalmente. Tinha uma mensagem de alguém que eu não falava há mais
de dois anos: “Ei… tava pensando em você esses dias. Tudo bem aí?” Respondi na
hora: “Tudo. E contigo? Quer tomar um café qualquer dia desses?” Mandei antes de
pensar demais.

O dia seguiu. Não aconteceu nada extraordinário depois disso. Fiz café de verdade.
Tomei banho. Respondi e-mails. Fiz reunião no Zoom com cara de quem está prestando
atenção. Almocei arroz, feijão e ovo frito. Caminhei na rua. Comprei pão. Voltei
pra casa. Mas em tudo isso tinha uma coisa diferente: eu não estava me cobrando o
tempo inteiro. Quando errava uma frase no e-mail, não me xingava mentalmente.
Quando demorava pra responder alguém, não sentia culpa. Quando olhava no espelho,
não fazia lista de tudo que eu achava errado. Era só… eu. Ali. Existindo. Sem
precisar provar nada.

À noite sentei no sofá-nuvem de novo. Ele não falou mais nada. Só ficou ali. Liguei
a televisão sem som. Coloquei uma playlist antiga que eu ouvia no ensino médio.
Deitei. O teto estava normal outra vez, sem neve cor-de-rosa, sem nada estranho.
Mas antes de apagar a luz, olhei para o criado-mudo. Ele não suspirou mais. Só
ficou quieto. E eu também.

Dormi sem sonhar com prazos, sem sonhar com erros, sem sonhar com “e se”. Dormi
como quem sabe que amanhã pode ser cinza de novo, pode ser pesado de novo, pode ser
comum de novo… mas que, pelo menos por hoje, eu consegui ser gentil comigo mesmo.

E isso foi o bastante.

Acordei na quarta-feira seguinte. O celular tocou o alarme normal. O chão estava


frio e comum. O céu lá fora era cinza de chuva fina. O sofá era só sofá. A
geladeira era só geladeira.

Mas no criado-mudo tinha um post-it que não estava lá antes. Escrito com minha
letra, mas que eu não lembrava de ter escrito:

“Valeu por ontem.


A gente se vê na próxima terça que o universo resolver ser bobo de novo.
Até lá, vai sendo gentil com você.
Você merece.”

Guardei o post-it na carteira.


Não mostrei pra ninguém.
Não precisava.
Porque algumas coisas a gente guarda só pra si mesmo.
E isso também é gentileza.

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