…porque a escada rolante não parava nunca.
Ela ia subindo, subindo, e os degraus
começaram a ficar cada vez mais macios, até virarem uma espécie de tapete de nuvem
que grudava nos pés. No meio do caminho passou um grupo de flamingos de smoking
tocando violino com o bico. Eles executavam uma versão clássica de “Ai se eu te
pego” em ritmo de valsa vienense. Um deles virou pra mim e disse com voz de locutor
de rádio: “Boa tarde, passageiro. Cuidado pra não pisar nas recordações soltas.
Elas mordem quando estão com saudade.” Continuei subindo. Cheguei numa sala
circular toda coberta de espelhos. No centro tinha uma poltrona de veludo roxo e,
sentada nela, uma versão minha de uns 12 anos, usando boné do Pokemon e tênis que
brilhavam no escuro. O menino-me olhou e falou: “Demorou, hein. Tava quase
desistindo de você.” Perguntei o que ele estava fazendo ali. Ele respondeu: “Eu sou
a parte sua que ainda acredita em tudo. Você me trancou aqui faz tempo, mas o
universo resolveu me soltar hoje.” Ele levantou, veio até mim e entregou um
controle remoto minúsculo feito de bala de goma. “É pra você. Aperta o botão
amarelo quando estiver pronto pra decidir o que quer que aconteça com essa sexta-
feira.” Perguntei o que o botão fazia. Ele sorriu: “Ele decide se o dia vira filme
de terror, comédia pastelão, drama existencial ou desenho animado dos anos 90. Você
escolhe.” Fiquei olhando pro controle. Enquanto isso, os espelhos ao redor
começaram a mostrar versões alternativas minhas: eu como astronauta, eu como dono
de food truck de pastel de pizza, eu como músico de rua tocando ukulele em Paris,
eu como cara que desistiu de tudo e mora numa kombi na praia. Todas as versões
pareciam… felizes. Mesmo as que pareciam sofridas, tinham um brilho de quem sabe
que valeu a pena. O menino-me falou: “Elas são todas você. Só que você nunca deixou
elas respirarem. Agora pode escolher qual delas vai ganhar o dia de hoje.” Eu
apertei o botão amarelo sem pensar muito. A sala inteira tremeu. Os espelhos
racharam e viraram confete brilhante. Quando a poeira baixou, eu estava de volta na
cozinha, mas agora tudo era versão cartoon: as cores saturadas, os contornos pretos
grossos, os efeitos sonoros exagerados. O passarinho-cafeteira agora tinha
sobrancelhas enormes e falava com voz de Zé Carioca: “E aí, chefia? Bora tomar um
café daqueles?” A geladeira abriu sozinha e de lá saiu um unicórnio de óculos
escuros segurando uma bandeja de brigadeiro. Ele disse: “Serviço de quarto cósmico.
Assinatura premium.” Peguei um brigadeiro. Tinha gosto de vitória misturada com
nostalgia. Foi quando percebi que o controle remoto ainda estava na minha mão. E
tinha um botão novo piscando: “continuar a palhaçada”. Apertei. O chão virou pista
de dança. A torradeira e o passarinho começaram a fazer passinho. O unicórnio jogou
purpurina no ar. E eu, pela primeira vez em muito tempo, dancei sem me preocupar se
estava dançando errado. Porque naquele momento, tudo estava exatamente tão errado
quanto precisava estar. E isso era perfeito.