Era uma sexta-feira que começou fingindo ser normal, mas o disfarce durou menos de
quinze minutos. Acordei com o despertador tocando “Macarena” em volume de show de
estádio, sendo que eu tinha colocado pra despertar com som de passarinho há três
anos e nunca mais mexi. Levantei rápido demais, bati a cabeça na prateleira e uma
chuva de chaveiros velhos caiu na minha cara — chaveiros que eu juro que joguei
fora em 2018. Um deles era um bonequinho do Pikachu sem orelha esquerda, e quando
peguei, ele piscou pra mim. Piscou de verdade. Olhos de LED amarelo. Guardei no
bolso porque não tinha energia pra surtar logo cedo. Desci pra cozinha e a
geladeira estava aberta, mas não tinha comida dentro: tinha um portal roxo girando
devagar, do tamanho de uma porta de armário. Do portal saía uma voz de criança
cantando “parabéns pra você” em câmera lenta e com eco de caverna. Fechei a porta
com força. A geladeira tremeu e soltou um arroto que cheirava a brigadeiro
queimado. Sentei na cadeira e percebi que a mesa agora era feita de jujuba verde-
limão. Toda vez que eu apoiava o braço, ficava grudado. Tentei fazer café, mas a
cafeteira tinha virado um passarinho mecânico gigante que cuspia grãos de café
torrado direto na minha mão. Peguei um punhado, joguei na boca e o gosto era
exatamente o de infância misturado com saudade de alguém que eu nem lembro mais o
nome. Foi quando o interfone tocou. Não era o som normal. Era um solo de gaita de
fole misturado com latidos de cachorro com voz de gente. Atendi. Uma voz rouca
disse: “Já devolveu os 47 segundos de sono que pegou emprestado na quarta passada?
Senão vamos ter que mandar os pinguins.” Perguntei que pinguins. A pessoa
respondeu: “Os que usam colete de segurança e cobram juros.” A ligação caiu. Olhei
pela janela e o céu estava cor-de-rosa choque, mas não era pôr do sol — era um céu
inteiro feito de algodão-doce gigante. Nuvens com formato de marshmallow flutuavam
e de vez em quando pingavam calda de morango na rua. Um carro passou e o motorista
estava dirigindo deitado no teto do veículo, acenando como se fosse desfile. Voltei
pra dentro e o passarinho-cafeteira agora estava dançando forró com uma torradeira
que usava saia de palha. Eles giravam e gritavam “ô lá em casa tem!” em vozes
metálicas. Eu só fiquei olhando, porque naquela altura já tinha aceitado que o dia
ia ser longo. Sentei no chão (que agora era feito de carpete de massinha de
modelar) e comecei a rir. Não de nervoso. De alívio. Porque pelo menos agora eu
sabia que não precisava fingir que entendia alguma coisa. Foi exatamente aí que a
parede da sala abriu como cortina de teatro e entrou um homem vestido de carteiro,
mas o uniforme era feito de páginas de gibi antigo. Ele entregou um envelope
gigante com meu nome escrito em glitter comestível. Dentro tinha um bilhete:
“Parabéns, você foi selecionado pra ser o humano-piloto do Protocolo Surrealismo
Nível 9. Favor comparecer imediatamente na geladeira. Assinado: O Gerente de
Absurdos Autorizados.” Eu olhei pra geladeira. Ela piscou a luz de dentro como quem
diz “vem logo, tô esperando”. Respirei fundo, abri a porta e entrei no portal roxo.
Do outro lado tinha uma escada rolante subindo pro nada, e cada degrau cantava uma
música diferente da minha playlist do ensino médio. Subi. E a loucura só aumentou.