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Inter Vent

O principezinho aprende sobre a importância das relações e da responsabilidade ao cativar a raposa, que o ensina que o essencial é invisível aos olhos. Ele reflete sobre a beleza do deserto e a busca por água, percebendo que o que realmente importa é invisível e que a verdadeira felicidade pode ser encontrada nas coisas simples. Ao final, ele se preocupa com sua rosa e a promessa de cuidar dela, enquanto se prepara para um encontro que pode mudar seu destino.

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Emanuel Messias
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Inter Vent

O principezinho aprende sobre a importância das relações e da responsabilidade ao cativar a raposa, que o ensina que o essencial é invisível aos olhos. Ele reflete sobre a beleza do deserto e a busca por água, percebendo que o que realmente importa é invisível e que a verdadeira felicidade pode ser encontrada nas coisas simples. Ao final, ele se preocupa com sua rosa e a promessa de cuidar dela, enquanto se prepara para um encontro que pode mudar seu destino.

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Assim o principezinho cativou a raposa.

Mas, quando chegou a hora da partida, a


raposa disse:
- Ah ! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste
que eu te cativasse ...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar ! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada !
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou:
- Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás
para me dizer adeus, e eu te farei presente de um segredo.
Foi o principezinho rever as rosas:
- Vós não sois absolutamente iguais à minha rosa, vós não sois nada ainda.
Ninguém ainda vos cativou, nem cativastes a ninguém. Sois como era a minha raposa. Era
uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu fiz dela um amigo.
Ela é agora única no mundo.
E as rosas estavam desapontadas.
- Sois belas, mas vazias, disse ele ainda. Não se pode morrer por vós. Minha rosa,
sem dúvida um transeunte qualquer pensaria que se parece convosco. Ela sozinha é,
porém, mais importante que vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Foi a ela que pus sob a
redoma. Foi a ela que abriguei com o pára-vento. Foi dela que eu matei as larvas (exceto
duas ou três por causa das borboletas). Foi a ela que eu escutei queixar-se ou gabar-se, ou
mesmo calar-se algumas vezes. É a minha rosa.
E voltou, então, à raposa:
- Adeus, disse ele...
- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o
coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se
lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves
esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável
pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se
lembrar.
XXII
- Bom dia, disse o principezinho.
- Bom dia, respondeu o guarda-chaves.
- Que fazes aqui? perguntou-lhe o principezinho.
- Eu divido os passageiros em blocos de mil, disse o guarda-chaves. Despacho os
trens que os carregam, ora para a direita, ora para a esquerda.
E um rápido iluminado, roncando como um trovão, fez tremer a cabine do guarda-
chaves.
Eles estão com muita pressa, disse o principezinho.
O que é que estão procurando?
- Nem o homem da locomotiva sabe, disse o guarda-chaves.
E trovejou, em sentido inverso, um outro rápido iluminado.
- Já estão de volta? perguntou o principezinho...
- Não são os mesmos, disse o guarda-chaves. É uma troca.
- Não estavam contentes onde estavam?
- Nunca estamos contentes onde estamos, disse o guarda-chaves.
E um terceiro rápido, iluminado, trovejou.
- Estão perseguindo os primeiros viajantes? perguntou o principezinho.
- Não perseguem nada, disse o guarda-chaves. Estão dormindo lá dentro, ou
bocejando - Só as crianças esmagam o nariz nas vidraças.
- Só as crianças sabem o que procuram, disse o principezinho. Perdem tempo com
uma boneca de pano, e a boneca se torna muito importante, e choram quando a gente a
toma ...
- Elas são felizes ... disse o guarda-chaves.
XXIII

- Bom dia, disse o principezinho.


- Bom dia, disse o vendedor.
Era um vendedor de pílulas aperfeiçoadas que aplacavam a sede. Toma-se uma por
semana e não é mais preciso beber.
- Por que vendes isso? perguntou o principezinho.
- É uma grande economia de tempo, disse o vendedor.
Os peritos calcularam - A gente ganha cinqüenta e três minutos por semana.
- E que se faz, então, com os cinqüenta e três minutos?
- O que a gente quiser...
“Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria
caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte. . .”

XXIV

Estávamos no oitavo dia de minha pane. justamente quando bebia a última gota da
minha Provisão de água, foi que ouvi a história do vendedor.
- Ah! disse eu ao principezinho, são bem bonitas as tuas lembranças, mas eu não
consertei ainda meu avião, não tenho mais nada para beber, e eu seria feliz, eu também, se
pudesse ir caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte!
- Minha amiga raposa me disse ...
Meu caro, não se trata mais de raposa .
- Por quê?
- Porque vamos morrer de sede ...
Ele não compreendeu o meu raciocínio, e respondeu:
- É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer. Eu estou muito contente
de ter tido a raposa por amiga...
- Não avalia o perigo, disse eu. Não tem nunca fome ou sede. Um raio de sol lhe
basta.
Mas ele me olhou e respondeu ao que eu pensava:
- Tenho sede também ... procuremos um POÇO ...
- Eu fiz um gesto de desanimo: é absurdo procurar um poço ao acaso, na
imensidão do deserto. No entanto, pusemo-nos a caminho.
Já tínhamos andado horas em silêncio quando a noite caiu e as estrelas começaram
a brilhar. Eu as via como em sonho, porque tinha um pouco de febre, por causa da sede.
As palavras do principezinho dançavam-me na memória:
- Tu tens sede também? perguntei-lhe.
Mas não respondeu à minha pergunta. Disse apenas:
- A água pode ser boa para o coração ...
Não compreendi sua resposta e calei-me... Eu bem sabia que não adiantava
interrogá-lo.
Ele estava cansado - Sentou-se. Sentei-me junto dele.
E, após um silêncio, disse ainda:
- As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...
Eu respondi "mesmo" e fitei, sem falar, a ondulação
da areia enluarada..
- O deserto, belo, acrescentou ...
E era verdade. Eu sempre amei o deserto. A gente se senta numa duna de areia.
Não se vê nada. Não se escuta nada. E no entanto, no silêncio,alguma coisa irradia... e
.. O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço
nalgum lugar.
Fiquei surpreso por compreender de súbito essa misteriosa irradiação da areia.
Quando eu era pequeno, habitava uma casa antiga, e diziam as-lendas que ali fora
enterrado um tesouro. Ninguém, é claro, o conseguira descobrir, nem talvez mesmo o
procurou. Mas ele encantava a casa toda - Minha casa escondia um tesouro no fundo do
coração. . .
- Quer se trate da casa, das estrelas ou do deserto, disse eu ao principezinho, o que
faz a sua beleza é invisível !
- Estou contente, disse ele, que estejas de acordo com a raposa.
Como o principezinho adormecesse, tomei-o nos braços e prossegui a caminhada.
Eu estava comovido. Tinha a impressão de carregar um frágil tesouro. Parecia-me mesmo
não haver na Terra nada mais frágil. Considerava, à luz da lua, a fronte pálida, os olhos
fechados, as mechas de cabelo que tremiam ao vento. E eu pensava: o que eu vejo não é
mais que uma casca. O mais importante é invisível..,
Como seus lábios entreabertos esboçassem um sorriso, pensei ainda: "O que tanto
me comove nesse príncipe adormecido é sua fidelidade a uma flor; é a imagem de uma
rosa que brilha nele como a chama de uma lâmpada, mesmo quando dorme. . . " Eu o
pressentia então mais frágil ainda.
É preciso proteger as lâmpadas com cuidado: um sopro as pode apagar...
E, caminhando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando.
XXV
- Os homens, disse o principezinho, se enfurnam nos rápidos, mas não sabem o que
procuram. Então eles se agitam, ficam rodando à toa ...
E acrescentou:
- E isso não adianta ...
O poço a que tínhamos chegado não se parecia de forma alguma com os poços do
Saara. OS poços do Saara são simples buracos na areia. Aquele, parecia um poço de
aldeia - Mas não havia ali aldeia alguma, e eu julgava sonhar.
- É estranho, disse eu ao principezinho, tudo está preparado: a roldana, o balde e a
corda.
Ele riu, pegou a corda, fez girar a roldana. E a roldana gemeu como gemem os
velhos cata-ventos quando o vento dormiu por muito tempo.
- Tu escutas? disse o príncipe. Estamos acordando o poço, ele canta ...

Eu não queria que ele fizesse esforço:


- Deixa que eu puxe, disse eu, é muito pesado para o teu tamanho.
Lentamente, icei o balde até em cima, e o instalei com cuidado na borda do poço.
Nos meus ouvidos permanecia ainda o canto da roldana, e na água, que ainda brilhava,via
tremer o sol.
- Tenho sede dessa água, disse o principezinho. Dá-me de beber ...
E eu compreendi o que ele havia buscado!
Levantei-lhe o balde até a boca. Ele bebeu, de olhos fechados. Era doce como uma
festa. Essa água era muito mais que um alimento. Nascera da caminhada sob as estrelas,
do canto da roldana, do esforço do meu braço. Era boa para o coração, como um presente.
Quando eu era pequeno, todo o esplendor do presente de Natal estava também na luz da
árvore, na música da missa de meia-noite, na doçura dos risos ...
- Os homens do teu planeta, disse o principezinho, cultivam cinco mil rosas num
mesmo jardim ... e não encontram o que procuram ...
- Não encontram, respondi...
E no entanto o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa, ou num
pouquinho d'água ...
- É verdade.
E o principezinho acrescentou:
- Mas os olhos são cegos. É preciso buscar com o coração ...
Eu havia bebido. Respirava facilmente. A areia é cor de mel quando amanhece. E a
cor de mel me fazia feliz.
Por que haveria eu de estar triste? ...
- É preciso, disse baixinho o príncipe, que cumpras a tua promessa. Ele estava, de
novo, sentado junto de mim.
- Que promessa?
- Tu sabes ... a mordaça do meu carneiro ... eu sou responsável pela flor!
Tirei do bolso as minhas tentativas de desenho. o principezinho os viu e disse
rindo:
- Teus baobás parecem um pouco repolhos...
- Oh!
Eu estava tão orgulhoso dos meus baobás!
- Tua raposa. . . as orelhas dela. . . parecem chifres. . . são compridas demais.
Ele riu outra vez.
- Tu és injusto, meu bem, eu só sabia desenhar jibóias abertas e fechadas ...
Não faz mal, disse ele, as crianças entendem.
Rabisquei, portanto, uma pequena mordaça. Mas sentia, ao entregá-la, um aperto
no coração:
Tu tens projetos que eu ignoro...
Ele não me respondeu. Mas disse:
- Lembras-te da minha queda na Terra? Amanhã será o aniversário...
Depois, após um silêncio, acrescentou:
- Caí pertinho daqui ...
E ficou vermelho ao dizê-lo.
E de novo, sem compreender porque, eu sentia um estranho pesar. No entanto,
ocorreu-me a pergunta:
- Então não foi por acaso que vagavas sozinho, quando te encontrei, há oito dias, a
milhas e milhas de qualquer região habitada! Não estarias voltando ao ponto da queda?
O principezinho ficou vermelho de novo.
E eu acrescentei, hesitando:
- Terá sido por causa do aniversário? ...
O principezinho ficou mais vermelho. Não respondia nunca às perguntas. Mas
quando a gente fica vermelho, não é o mesmo que dizer "sim"?
- Ah ! disse-lhe eu, eu tenho medo ...
Mas ele respondeu:
- Tu deves agora trabalhar. Ir em busca do teu aparelho. Espero-te aqui. Volta
amanhã de tarde. . .
Mas eu não estava tranqüilo. Lembrava-me da raposa.
A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar...

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