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Do Universo: O Estado

O livro 'O Estado do Universo' de Pedro G. Ferreira oferece uma introdução acessível à cosmologia, abordando desde as concepções gregas até teorias modernas como a relatividade e a matéria escura, sem utilizar fórmulas complexas. Embora o autor consiga simplificar temas difíceis, há algumas confusões e erros factuais que poderiam ser corrigidos em futuras edições. O livro é recomendado para leitores que desejam entender os mistérios do Universo sem um conhecimento prévio extenso.

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Do Universo: O Estado

O livro 'O Estado do Universo' de Pedro G. Ferreira oferece uma introdução acessível à cosmologia, abordando desde as concepções gregas até teorias modernas como a relatividade e a matéria escura, sem utilizar fórmulas complexas. Embora o autor consiga simplificar temas difíceis, há algumas confusões e erros factuais que poderiam ser corrigidos em futuras edições. O livro é recomendado para leitores que desejam entender os mistérios do Universo sem um conhecimento prévio extenso.

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O Estado do Universo livros e multimédia


VOL. 31 - n.1/2
Pedro G. Ferreira - Editorial Presença, Porto, 2007 -
ISBN: 978-9-722-33851-6

Estamos cheios de livros sobre cosmologia. “antes” quando o tempo nem


Livros que falam dos primeiros instantes do sequer existia? Mas deixa
Universo, do Big Bang, da geometria do espaço esta parte para os capítulos
e do tempo, da formação dos primeiros núcleos finais, onde nos dá uma visão
atómicos, da radiação cósmica de fundo, da sobre o começo do Universo
matéria negra, da energia escura. Mas quando e sobre os problemas que
menos esperamos há sempre algum cosmólogo envolvem a origem de tudo
a escrever mais um. A tentar uma nova receita o que conhecemos. É uma
para cativar o leitor, que ainda não reparou que abordagem inteligente que
temos o mercado cheio de livros de cosmologia. O dá uma visão de conjunto
Pedro Gil Ferreira, que dá aulas em Oxford, decidiu ao leitor pouco habituado
escrever mais um. Não para o leitor que está farto a este tipo de temáticas.
de ler livros de cosmologia, mas para aquele que Depois nota-se um esforço
pouco sabe sobre os mistérios do Universo. E o constante do autor para
resultado não é nada mau para um primeiro livro tornar temas complexos
sobre cosmologia. Não cosmologia técnica cheia de acessíveis. O caso da
fórmulas, mas cosmologia para todos perceberem. teoria da relatividade é um
O livro chama-se “O Estado do Universo” e de forma bom exemplo disso. Nada de fórmulas (aliás,
simples conta a história das nossas descobertas não se vê uma única ao longo do livro). Percebe-se que a
cósmicas, desde Newton, que descobriu a famosa ideia é apresentar as noções fundamentais das várias teorias
Lei da Atracção Universal, até aos tempos modernos, que descrevem o Universo sem grandes complicações.
à investigação de coisas estranhas como a matéria Não é um trabalho fácil, mas o autor até consegue lá
escura ou a energia negra. O livro tem a vantagem chegar usando uma linguagem simples e ali e acolá alguma
de ser escrito por um “cosmólogo praticante” como ilustração. No entanto, as ilustrações que surgem no livro
o próprio autor diz na introdução da obra. Ou seja, são demasiado básicas (feitas pelo ilustrador Jem Finer), e
por alguém que sabe do que fala. Por alguém podiam ter sido melhor exploradas na obra de forma a tornar
que tenta todos os dias “deslindar a história e os os conceitos mais elucidativos. É claramente uma falha neste
mecanismos do Universo, usando uma combinação livro. Não é a única. A capa da edição portuguesa também é
de ferramentas matemáticas, observações um pouco pobre. A Presença podia ter apostado numa capa
efectuadas com potentes telescópios e, acima de mais atractiva. Encontram-se também algumas confusões
tudo, hipóteses fundamentadas”. É claro que falar pontuais, que escaparam à revisão científica de João
de “hipóteses fundamentadas” quando falamos de Pimentel Nunes.
teorias de cordas ou de gravidade quântica com Quando Ferreira, na pág. 58, diz que “os Herschel
laços ou de mundos-brana é um pouco exagerado. conseguiram descobrir a nossa localização na galáxia,
Fundamentadas em quê? Em especulações distante do centro, naquilo que actualmente sabemos ser
matemáticas? Mas o próprio autor avisa-nos disso um dos seus braços espirais”; está a confundir um pouco
quando no capítulo final diz: “que a teoria das cordas a história da descoberta da nossa posição na Via Láctea.
é prometedora e elegante, mas por agora ainda Quem descobriu a nossa posição verdadeira na galáxia
está nos primórdios. Pode deter a chave para a não foi Herschel, mas Harlow Shapley em 1918, pela
quantização da gravidade, mas, de momento, ainda observação de enxames globulares situados por cima do
é incapaz de reproduzir alguns dos resultados mais plano da galáxia. Ou quando na pág. 78 diz que a antena
básicos na Física de partículas”. É bom recado vindo dos Laboratórios Bell, que descobriu a radiação cósmica de
de um cosmólogo praticante. fundo “foi usada para reflectir os sinais de microondas de um
O livro começa com as concepções gregas sobre o balão meteorológico plástico” está a confundir um satélite
Universo, que situavam a Terra no centro de tudo. com um balão meteorológico, que nunca entra em órbita
Depois passa pelo mundo heliocêntrico de Copérnico da Terra. Embora o satélite em questão (o Echo 1) tivesse o
para depois entrar na Teoria da Relatividade de aspecto de um balão gigante, a verdade é que esteve em
Einstein. O autor não se debruça logo sobre o órbita terrestre, característica que o distingue claramente de
problema da origem propriamente dito. Ou seja, um balão meteorológico na terminologia espacial.
como era o Universo no primeiro instante? Havia Depois na pág. 161, quando fala do horizonte cosmológico,
alguma coisa antes? Ou fará sentido falar num alimenta uma confusão frequente em cosmologia, que é

Para os físicos e amigos da física.


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confundir o tempo que a luz demora a chegar dos lugares idade do Universo. Calculo que tenha alimentado
mais remotos do Universo com a distância percorrida em esta confusão por querer simplificar o conceito, mas
anos-luz. A luz de uma galáxia pode demorar 13 mil milhões num livro de cosmologia é algo que não se deve fazer
de anos a chegar à Terra, mas isto não significa obviamente sob pena de semear uma ideia errada.
que a galáxia esteja a 13 mil milhões de anos-luz. É que Em resumo, não é fácil escrever um livro sobre
durante o tempo em que a luz viajava, o espaço entre nós um tema tão complexo e vasto como a origem do
e a galáxia em questão aumentou devido à expansão do Universo. E mesmo alguém como Pedro Ferreira (que
Universo e, hoje em dia, a galáxia já está muito mais distante domina claramente o tema) pode equivocar-se ali
do que o tempo que a luz demorou a chegar à Terra. Ora, isto ou acolá. Mas nada que não se possa corrigir numa
significa que o mais longe que conseguimos ver não é 15 mil próxima edição actualizada da obra. Em suma, um
milhões de anos-luz (número similar à idade do Universo) que bom livro para quem sabe pouco sobre o trabalho de
o autor afirma, mas mais do que isso, dado que o horizonte um cosmólogo praticante.
cosmológico em anos-luz é superior (cerca de 3 vezes) à José Matos (zematos@[Link] / [Link])

Uma Paixão Humana


– O Seu Cérebro e a Música
Daniel J. Levitin – Editora Bizâncio (edição PORTUGUESA) – ISBN: 978-9-725-303664

Há muitos livros sobre Música. Mas expressiva e não especializada através


este é diferente: é sobre a Ciência da de uma viagem pela física, feita a
Música e não (só) sobre ondas de som e três níveis distintos. No primeiro nível,
acústica, decibéis, harmónicas, notas e começa por definir a música como
instrumentos musicais. E sendo um livro som organizado, e caracteriza as
de (neuro)ciência está longe de ser uma ondas de som, gerais e abundantes
neura. A aridez de muitos livros técnicos num mundo em que a matéria e os
sobre estes assuntos foi colorida aqui pela objectos vibram a muitas frequências,
perspectiva da neurociência cognitiva. O ou modos, diferentes. No segundo
tema de base é a percepção da música. nível da narrativa, a ligação entre a
Como é que a música afecta o nosso Física e a Música vai mais fundo:
cérebro, e a nossa mente? Como é que o à própria noção de tempo. Um
cérebro organiza a percepção de som nas organismo vivo, como o homem,
dimensões complexas de ritmo, harmonia e não escapa à orquestra universal
melodia? que o envolve e, ao longo de um
O autor é um especialista, em todas tempo de evolução suficientemente
as facetas: especialista em música longo, desenvolve forçosamente no
contemporânea, em jazz e blues, passou cérebro uma unidade de processamento para essas
por bandas, foi produtor musical e engenheiro de som. regularidades do tempo. E... o que é o tempo?
Mas é também especialista-cientista. Formou-se no MIT e Sabemos que a física se alicerça nas noções de
doutorou-se em Stanford. Conta-nos como o conselho de tempo (quando) e de espaço (onde). Ora como é
Francis Crick, “estude as conexões...”, definiu magicamente que o cérebro adquire a noção de tempo? Como
o percurso posterior que fez da psicologia cognitiva para é que os padrões temporais são analisados ou
a neurociência cognitiva dos processos de pensamento, apercebidos por nós? A Música liga-se pois à
memórias, emoções. A partir de imagens do cérebro, Física: o processamento da música está ligado ao
determinou as regiões envolvidas no processamento da processamento e organização do tempo, e sem
música. Nessas imagens, o córtex auditivo, as regiões tempo nada poderia acontecer, não haveria física.
frontais e os centros de prazer ou medo activam-se, (Sem espaço também não! Mas isso dá outra
sucessivamente, em cascata, com a chegada de música, história).
um sinal mecânico transformado em acontecimento A terceira via pela qual a física está presente, é
neuroquímico. Mas é o cerebelo, a parte do cérebro mais pelos dados experimentais apresentados para
antiga em termos de evolução da espécie, herdada dos a base neuronal da extracção de ritmo do som,
répteis, que está presente, do princípio ao fim do processo, por exemplo, e também da emoção que lhes
criando a noção de ritmo. está associada. Há modelos matemáticos desta
Mas, assim sendo, que ligação tem este livro com a física? extração criados nos anos noventa, mas, cientista
Apesar do conhecimento formal próprio de um desta década, Levitin apoia-se antes na explosão
neurocientista, o autor conduz-nos numa linguagem de resultados das novas tecnologias de imagem do

Para os físicos e amigos da física.


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Física Existe uma rica tradição de tratados de
Electromagnetismo saídos do Instituto

Relativista, Superior Técnico. Considere-se, por


exemplo, o “Teoria da Electricidade” de
Mecânica e António da Silveira [1] ou o “Propagação
e radiação de ondas electromagnéticas”
Electromag- de Abreu Faro [2], obras clássicas na
literatura científica portuguesa, e que
netismo marcaram gerações de engenheiros.
O mais recente livro a inscrever-se
Jorge Loureiro nesta tradição chega-nos através
IST Press, Lisboa (2008)
ISBN: 978-9-728-46968-9 da IST Press, com autoria de Jorge
Loureiro, e de título “Física Relativista,
Mecânica e Electromagnetismo”. O autor
é Professor Associado com Agregação
do Departamento de Física do IST, e
investigador em Física dos Plasmas, tendo-
se especializado em modelos cinéticos de electrónica de
gases. Além disso, possui uma longa experiência no ensino
cérebro. Como diz o neurocientista francês Stanislas
de diversas disciplinas, em particular de electromagnetismo
Dehaene, hoje “a psicologia tornou-se mais como
e electrodinâmica. Estreia-se agora, com mérito, na autoria
a física”! É a era dos psicofísicos: os cientistas que
de livros de carácter científico, ao oferecer-nos este novo
estudam como o cérebro interage com o mundo
texto, solidamente concebido e escrito num estilo claro e
físico.
acessível.
Oliver Sacks, neurocientista com provas dadas
O volume começa por impressionar o leitor pelo cuidado
também como escritor de ciência, apreciou muito
posto no visual (parabéns à IST Press!). A edição é
o capítulo final sobre as origens do cérebro musical
magnífica, de excelente aspecto. O conteúdo está muito
na evolução natural. E escreveu que este é um
bem estruturado, sobretudo ao iniciar-se, desde logo,
livro “estimulante, do princípio ao fim”, que só um
com os fundamentos da relatividade restrita, remetendo
neurocientista “profundamente musical” poderia
o electromagnetismo para mais tarde: é uma abordagem
escrever.
mais interessante, introduzindo o leitor à dinâmica
Entendo bem estes comentários! Li o livro num só
relativista, aspecto fulcral na formação de qualquer físico
trago, em cinco horas passadas na obscuridade
ou engenheiro. O grau de profundidade, sendo adequado
de uma cabine de avião. Naquele dia, um nevão
ao público-alvo de estudantes universitários de Física
súbito em Nova Iorque forçou o avião do regresso a
ou de Electrotecnia, é rico em detalhes, notando-se a
Lisboa a ficar estacionado na pista, até tudo acalmar.
preocupação em esclarecê-los. O impacto didáctico é
Impedidos de sair, os passageiros dormiam à minha
sobretudo potenciado pela abundância de exercícios
volta. Mas o meu cérebro estava bem iluminado.
acompanhados de resoluções, muitos dos quais
Li os sete capítulos sofregamente, saltitando entre
inspiradores e sugestivos. Merece ainda referência um
eles, sem seguir a ordem do autor. Fui escolhendo
último capítulo sobre a massa efectiva do fotão, pouco
pelos títulos, como faço nas revistas. “Music and
convencional neste tipo de textos, e que pode estimular
the Mind machine”, “From pitch to timbre”, “Music,
a curiosidade dos alunos para áreas mais avançadas do
Emotion, and the Reptilian Brain”, etc... O capítulo
electromagnetismo.
final “Evolution”, deixei de facto para último. E
Esta obra vem assim ocupar um lugar necessário na
revelou-se um grande finale. Trata de música e
literatura pedagógica, num registo intermédio entre os
coesão social, música na preparação dos nossos
livros de referência sobre electrodinâmica clássica, como
ancestrais pré-humanos para a comunicação falada,
o Jackson [3] ou Lifshitz&Landau [4], e os livros mais
música na divulgação dos mitos e religiões. E muito
elementares sobre electromagnetismo, muito abundantes
mais. E acaba, com “(...) como instrumento para
na literatura científica anglo-saxónica, mas que raramente
despertar sentimentos e emoções, a música é
abordam a relatividade, ou o fazem de forma deficiente. Em
melhor que linguagem. E a combinação das duas,
português, não tem equivalente, pelo que é merecedor de
como bem exemplificado nas canções de amor, é a
calorosas boas-vindas.
melhor forma de namorar”... se formos dotados para
a música, claro está, o que não é um problema para Gonçalo Figueira ([Link]@[Link])
Levitin. A grande maioria tem de recorrer a outras José Tito Mendonça (titomend@[Link])
estratégias para a reprodução da espécie.
Foi quando levantei voo, e adormeci outras cinco
[1] António da Silveira, “Teoria da Electricidade” (2 vols.), Bertrand,
horas que me pareceram poucos minutos, até Lisboa (1941); Lisboa (1958) / [2] Manuel Abreu Faro, “Propagação e
chegarem os sons e os cheiros do pequeno-almoço. radiação de ondas electromagnéticas” (2 vols.), Técnica, Lisboa (1979
e 1980) / [3] J. D. Jackson, “Classical Electrodynamics” (3rd Ed.), Wiley
Teresa Peña (teresa@[Link]) (1998) / [4] E. M. Lifshitz, L. D. Landau “The Classical Theory of Fields:
Vol. 2” (4th Ed.), Butterworth-Heinemann (1980)

Para os físicos e amigos da física.


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