SECÇÃO II
NOTAS SOBRE NACIONALIZAÇÕES E CONFISCOS
Aspectos gerais
É já sabido, que sector empresarial do Estado é, em larga medida, resultado de um extenso programa de
nacionalizações levado a cabo desde a entrada em vigor da constituição de 1975.
Importa agora saber em que consistem as nacionalizações, os principais problemas que levantam e a forma
como se desenvolveram em Angola.
Entende-se por nacionalização, a medida coactiva que opera a transferência da propriedade de empresas,
participações sociais, universalidade de bens, prédios rústicos e/ou urbanos ou ainda outros bens, de
pessoas privadas para públicas, por razões de política económica e social. Do conceito acima referenciado,
é possível isolar alguns traços essenciais:
I. A nacionalização opera sempre por via coactiva, não se podendo falar de nacionalização se tiver
havido uma compra pelo Estado, de bens privados.
II. É necessário que se verifique uma transferência efectiva da propriedade dos bens que integram o
sector privado.
III. A nacionalização tem sempre uma motivação de ordem económica e social, visando que os bens
atingidos fiquem ao serviço do interesse geral.
Figuras afins
Entendida a nacionalização nos termos que ficaram assinalados, torna-se necessário agora, distingui-la de
outras figuras afins.
A primeira figura que importa referenciar e que levanta problemas especialmente melindrosos, é a da
expropriação. Ambos limitam e atingem o direito de propriedade e têm em comum o princípio da legalidade.
A distinção entre os dois conceitos é, normalmente, feita com apelo a um conjunto de características, que a
seguir enunciamos:
1. A nacionalização é um acto de soberania e um acto político legislativo que reveste sempre a forma
de lei, enquanto que a expropriação obedece à lei, mas é concretizada através de um acto
administrativo.
2. O acto de nacionalização não é susceptível de impugnação judicial, excepto quando estiver ferido
de inconstitucionalidade, enquanto que a expropriação pode ser atacada com base na ilegalidade.
3. A nacionalização tem fundamentos político-ideológicos ou político-económicos, ao passo que a
expropriação é um acto normal praticado pela administração pública.
4. A lei que leva a efeito a nacionalização produz efeitos automáticos, contrariamente, a lei que autoriza
a expropriação pressupõe actos jurídicos posteriores.
5. A expropriação pressupõe sempre uma justa indemnização, contrariamente à nacionalização, que
apenas oferece uma expectativa de indemnização.
A nacionalização distingue-se ainda da requisição administrativa, que corresponde a uma transferência
temporária da posse ou gozo de certos bens móveis ou imóveis, de particulares para entidades públicas,
para fazer face a certas situações de necessidade.
A nacionalização distingue-se também da reversão, que se dá quando, por efeito de extinção de certo
organismo ou pessoa colectiva pública, o seu património reverte para o Estado.
A nacionalização distingue-se, ainda, do confisco, que consiste na apreensão e perda a favor do Estado de
todo ou parte do património do agente de uma infracção sem que haja lugar a qualquer indemnização. Por
outro lado, o confisco tem um carácter sancionatório.
A nacionalização não se deve confundir ainda com intervenção. De facto, são dois conceitos que se
distinguem claramente, pois enquanto no primeiro caso a titularidade dos meios de produção é atingida, no
segundo não o é.
AS RAZÕES DAS NACIONALIZAÇÕES
As nacionalizações são muitas vezes levadas a cabo numa óptica de política marxista, como forma por
excelência de transformação do sistema económico, abolindo a propriedade individual e criando relações
de produção socialistas. Não parece no entanto que um processo de nacionalizações, seja condição
suficiente para determinar a criação de um regime económico socialista. Por outro lado, as nacionalizações
não aparecem sempre ligadas à razões ideológicas, como sucede por exemplo, com as nacionalizações
isoladas que visam dar resposta a dificuldades económicas concretas, dificuldades estas que se podem
designar por falhas de mercado e que se podem ficar a dever a uma série de factores tais como, a existência
de mercados monopolistas ou oligopolistas, existirem externalidades, verificarem-se problemas de escala
ou de ajustamentos lentos dos mercados em face da existência de problemas de informação.
Em suma, quando se assiste a um programa extenso de nacionalizações, pode dizer-se que os mesmos
correspondem de uma forma geral aos seguintes objectivos:
1. Colocar certos sectores de actividade económica considerados de interesse social decisivo, sob a
orientação do Estado.
2. Combater os monopólios privados e submeter o poder económico ao poder político.
3. Assegurar uma melhor distribuição de riqueza.
Mas mesmo à margem de considerações de política económica, é possível encontrar casos de
nacionalização como retaliação de acções de nacionalização desencadeadas por outro Estado.
Também não se poderão ignorar as nacionalizações que ocorreram nos países que ascenderam
tardiamente à independência, e que viram nas nacionalizações uma forma de reforçar os seus poderes de
decisão, ou de se afirmarem na ordem internacional, como sucedeu com a decisão de nacionalização do
Canal de Suez. Também têm ocorrido nacionalizações para fazer face à situações de falência técnica em
casos de especial melindre. Como exemplo deste último caso temos as nacionalizações, ainda que parciais,
que estão a ser efectuadas um pouco por toda a Europa para fazer face à actual crise financeira, a
nacionalização do grupo RUMASA pelo governo Espanhol em 1983, etc. Nos E.U.A. a nacionalização das
empresas de refinanciamento hipotecário Freddie Mac e Fannie Mae, a nacionalização da seguradora AIG
e a apreensão de activos do banco Washington Mutual e a revenda, logo em seguida ao concorrente,
JPMorgan Chase por 1,9 bilhão de dólares.
AS NACIONALIZAÇÕES EM ANGOLA
A problemática das nacionalizações praticamente só se vem colocar em Angola após a sua ascensão à
independência. Elas tiveram início com a entrada em vigor da Lei n.º 3/76 de 3 de Março onde, nos seus
art.ºs 1º e 2º se afirma que o “Conselho da Revolução poderá determinar a nacionalização da totalidade ou
parte de empresas .... que venham a ser consideradas importantes para a economia de resistência; e de
bens das empresas que tenham sido objecto de apoio financeiro por parte do Estado e que não tenham
aplicado esses financiamentos em operações de interesse da respectiva empresa e para a economia
nacional”.
O movimento de nacionalizações, que teve uma grande extensão, orientou-se por dois critérios básicos: (i)
a extinção dos maiores grupos económicos e (ii) a cobertura de sectores básicos estratégicos, tendo dado
origem a um amplo sector público.
Foram nacionalizadas a quase totalidade das empresas dos sectores bancário, seguros, petróleos,
siderurgia, electricidade, os transportes aéreos, marítimos e ferroviários, e ainda, as outras empresas
dispersas pelo vários sectores de actividade, como por exemplo, as empresas cervejeiras. No diploma que
determinou as nacionalizações, apontam-se as razões que estivaram na sua base. As nacionalizações de
empresas foram efectuadas por via legislativa, nacionalizando-se nalguns casos todo o património da
empresa – que adquiriu a forma legal de empresa pública - e noutros, apenas parte das participações
sociais.
As empresas nacionalizadas foram, na maior parte dos casos transformadas em empresas públicas; em
muitos outros casos, verificou-se a fusão e concentração de numerosas pequenas ou médias empresas
privadas, em grandes empresas públicas. Porém, algumas empresas nacionalizadas vieram a ser extintas
por inviabilidade económica.
As indemnizações
Como ficou visto, a privação da propriedade anda sempre associada à ideia de indemnização compensatória
que substitui o direito de propriedade pelo direito ao valor da propriedade. Não deixa de ser curioso o facto
de que, mesmo tendo objectivos marcadamente ideológicos, se previu a atribuição de indemnizações (art.
9º da Lei n.º 3/76). Contudo, o processo de atribuição das indemnizações foi um processo muito moroso e
complexo que se continua a arrastar por instâncias internacionais e a determinar acesas críticas doutrinárias.
Por outro lado, apesar de se admitir implicitamente critérios específicos de indemnização, estes não
coincidem com os critérios de justa indemnização aplicável à expropriação.
O destino das empresas nacionalizadas
A nacionalização de sociedades, tanto pode abranger todo o capital com apenas parte dele, pelo que a
situação da empresa, no que respeita ao seu lugar no contexto dos sectores de propriedade dos meios de
produção, depende da extensão do capital nacionalizado. Porém, normalmente, o objectivo da
nacionalização é a transferência da propriedade para o sector público.
No caso mais corrente de nacionalização da empresa ou da totalidade do seu capital, ela passa a pertencer
ao Estado. Todavia, uma vez consumada a nacionalização, nada impede que, em vez de ser transformada
em empresa estatal, ela seja transferida para outras entidades públicas, ou seja integrada noutros sectores,
nomeadamente no sector cooperativo ou social.
Efeitos jurídicos das nacionalizações1
Os efeitos jurídicos das nacionalizações podem distinguir-se em efeito nuclear ou central e efeitos periféricos
cuja sede legal é representada pelos artigos 6.º a 9.º da lei n.º 3/76 de 3 de Março.
1. Efeitos centrais
1.1 Aquisição originária
Ainda que a lei o não contemple expressamente, este efeito estaria implícito na natureza do
acto de nacionalização, ou pelo menos em cada acto casuístico de nacionalização. A lei n.º
3/76 prevê expressamente que: “os direitos relativos aos bens nacionalizados consideram-se
transmitidos para o Estado para todos efeitos legais, independentemente de quaisquer
formalidades, ónus ou encargos que sobre eles impendam”. Esta transferência, ope legis, para
o Estado de direitos dos ex-titulares dos bens objecto de nacionalização, representa uma
aquisição originária e não derivada, pois não depende da maior ou menor extensão do direito
anterior sobre ele existente.
Um, outro efeito central das nacionalizações é a alteração do regime de gestão a que estavam
sujeitos os bens nacionalizados – antes sujeitos ao regime de direito privado, e depois, a um
regime de gestão pública.
1 Vide a esse respeito José Armando Morais Guerra, op cit.
2. Efeitos periféricos
O objecto das nacionalizações limita-se exclusivamente aos bens das empresas. Assim, os efeitos
periféricos referem-se a parte ou o todo da universalidade dos bens, direitos e obrigações que a
empresa representa na ordem jurídica–económica.
Distinguiremos assim, quatro efeitos periféricos: (i) efeitos em relação a ex – empresa privada; (ii)
efeitos em relação aos ex – titulares da empresa; (iii) efeitos em relação à nova empresa; e (iv)
efeitos em relação aos trabalhadores.
I. Efeitos em relação à ex-empresa privada
Nos termos do artigo 7º da lei n.º 3 /76, «os órgãos sociais das sociedades nacionalizadas
serão dissolvidos na data da respectiva nacionalização». Equivale isto dizer que os órgãos
sociais constituídos nos termos da legislação comercial, estando dissolvidos, ope legis,
perdem toda a legitimidade para exercerem as suas funções legais e estatutárias.
Consequentemente, todo o activo e passivo da ex – empresa privada, é também transferido
para o Estado, pelo que o efeito regra é o da constituição de uma nova entidade jurídica e
a dissolução, ipso iure, da sociedade de direito privado, salvo nos casos em que, nos termos
gerais da lei n.º 3/76 (art.º 7º n.ºs 2 e 3), as sociedades mantenham a sua personalidade
jurídica. Um exemplo característico de casos em que as sociedades mantêm a sua
personalidade jurídica é o caso do Banco Comercial de Angola, nacionalizado pela Lei n.º
70/76, que se limitou a alterar-lhe a denominação para Banco popular de Angola,
continuando a reger-se pelas disposições legais e estatutárias vigentes na parte em que
não contrariassem o disposto naquela lei.
II. Efeitos em relação aos ex-titulares; o direito à indemnização
Com a dissolução dos órgãos sociais e com a consequente transmissão para o Estado dos
bens nacionalizados, os sócios das empresas nacionalizadas, perdem todos os seus
direitos de sócios. Como reverso da perda da qualidade de sócio, estes ganham uma
expectativa de indemnização.
III. Efeitos em relação à nova empresa
Viu-se anteriormente, que em relação a ex-empresa privada pode-se verificar um efeito
alternativo: o da manutenção da personalidade ou o da dissolução desta. Aqui, cumpre
destacar os efeitos mediatos num caso e noutro.
1. No caso de manutenção da personalidade jurídica da empresa privada, cumpre
destacar que essa continuidade se dá com uma implícita alteração dos seus estatutos,
nomeadamente, quanto ao elemento pessoal da sociedade comercial e quanto aos
órgão sociais. Quanto ao elemento pessoal este vê-se reduzido a um único sócio – o
Estado – se e enquanto não forem integrados outros sócios. Trata-se de um caso de
sociedade unipessoal consentida pela legislação sobre nacionalizações, ao arrepio da
legislação comercial. Todavia, esta sociedade unipessoal continua a ser regida pela
legislação comercial em tudo que não contrarie aquela legislação. Resulta assim que,
rigorosamente, neste caso, não se está perante uma nova empresa, mas sim perante
uma pessoa jurídica com alteração em alguns dos seus elementos estruturais.
2. Em caso de dissolução da sociedade, constitui-se em regra uma nova empresa estatal.
IV. Efeitos em relação aos trabalhadores
Os trabalhadores da ex-empresa privada permanecem com os seus vínculos laborais
incólumes porque transferidos para a nova empresa (em caso de criação de uma nova
empresa). Ou seja opera-se aqui uma pequena transformação num dos elementos pessoais
da relação jurídico-laboral.
SECÇÃO III
AS PRIVATIZAÇÕES
Aspectos Gerais
A Privatização é um processo de transmissão da titularidade de empresas do sector empresarial do Estado
para o sector privado, podendo estar ou não enquadradas em sectores estratégicos e/ou essenciais (por
exemplo: fornecimento de água tratada e coleta de esgotos, de energia elétrica, de telefonia fixa, de gás
canalizado, e outros).
O interesse pelas privatizações no mundo emanou originalmente das iniciativas de desregulamentação
proclamadas pelas administrações Ford, Carter e Reagam nos E.U.A., e pela administração Thatcher no
Reino Unido, que particularmente favoreciam a minimização do papel e das responsabilidades do Estado
ou do sector público da economia, e assim transferiram essa responsabilidade ao sector privado.
Modernamente, esse processo iniciou-se no Chile em 1973 e atingiu seu ápice na década de 1980 nos
países desenvolvidos como Reino Unido e E.U.A.. Estendeu-se, na década de 1990 à América Latina, onde
foi incentivada pelo FMI e pelo Banco Mundial, sendo uma estratégia que, segundo os seus seguidores,
aceleraria o crescimento económico nos países que o adoptassem.
Parece que depois de um período de largas décadas em que no mundo ocidental se acreditou na excelência
da actuação pública e na vantagem da existência de um sector público alargado, entrou-se num período em
que se dá primazia à iniciativa privada e aos mecanismos de mercado como forma de conseguir o máximo
bem-estar na sociedade.
O conceito de privatização é utilizado, muitas vezes, em sentido amplo, que o identifica com todas as formas
de redução do universo público em benefício do privado.
Este movimento se tem desenvolvido por diversas vias, de entre as quais convém destacar:
- A abolição de serviços públicos, deixando espaço à iniciativa privada;
- A restrição do financiamento dos serviços públicos, de modo a que aqueles que deles usufruem
tenham de assegurar uma participação na cobertura dos custos;
- A transferência para o sector privado de actividades até aí entregues a pessoas colectivas
públicas;
- A concessão de serviços públicos à entidades privadas;
- A venda de terrenos ou habitações de entidades públicas a particulares.
Importa, no entanto, ter presente que, quando se fala em privatizações, se está, sobretudo, a pensar na
transferência de unidades produtivas do sector público para o sector privado.
Mas, mesmo neste domínio mais restrito, têm-se encontrado diversas formas para reequilibrar os sectores
público e privado. Uma das formas é por exemplo, a criação de empresas de economia mista, que associam
capitais públicos e privados e se submetem às regras normais do direito societário.
Outra forma de privatização consiste na criação de acordos de participação em determinados projectos (joint
venture), caso em que mesmo sem a institucionalização de uma nova empresa, há uma junção de capitais
públicos e privados.
Encontramos ainda, a par dessa técnica, uma série de medidas que visam assegurar que a gestão do sector
público se faça nos mesmos termos que a gestão do sector privado.
Outro aspecto importante corresponde ao fenómeno da desregulamentação e liberalização de sectores até
então vedados à iniciativa privada, a quem é permitido o acesso para actuar em concorrência com o sector
público.
Contudo, é a venda da totalidade da empresa pública aos investidores privados que constitui a forma de
privatização por excelência.
Olhando para as várias experiências de privatização a nível mundial, encontramos modalidades muito
variadas de venda de empresas. Os processos de privatização que se realizaram um pouco por todo mundo,
defrontaram ambientes constitucionais diversos. Nalguns países, como é o caso da Inglaterra, o processo
de privatização foi feito sem legislação própria. Em França, existe uma lei das privatizações, votada com
grande detalhe, na medida em que é aprovado o elenco de empresas a privatizar.
É um pouco difícil, por isso, fazer um balanço do que foi a nível global, o êxito das políticas de privatização.
A intensidade com que o movimento das privatizações se fez sentir nos últimos anos, poderá levar a pensar
que se trata de uma experiência totalmente nova, mas tal não é verdade. Em certo sentido pode dizer-se
que os argumentos que são agora avançados em defesa das privatizações, mais não são do que a
reprodução de ideias sustentadas, dois séculos atrás, pelos grandes economistas liberais.
Por outro lado, ainda na década de 70, encontramos actos isolados de privatização, desencadeados por
governos de países da Europa Ocidental, como a Alemanha que, em 1970, vendeu uma parcela maioritária
da Lufthansa, a Irlanda que em1972, vendeu a Dairy Disposal company, ou a Inglaterra que, em 1977, ainda
com os trabalhistas no poder, vendeu acções da British Petroleum.
De qualquer modo, não pode deixar de reconhecer-se que até finais da década de setenta, os ambientes
intelectual e político eram favoráveis ao sector público.
A década de oitenta é, por seu lado, marcada por concepções diferentes, são anos em que muitas das
principais universidades vivem sob influência de autores de inspiração liberal e em que florescem as
correntes monetaristas, e das expectativas racionais que, com variantes diferentes, apresentam como ponto
comum uma profunda desconfiança quanto às virtualidades da intervenção do Estado na economia.
O movimento de privatizações começa por ser um fenómeno característico dos países ocidentais
desenvolvidos e que vai conhecer ritmos variados que se ligam quer com vicissitudes políticas, quer com
condições económicas gerais. É sabido que o país onde o movimento se desenvolveu de forma mais
acentuada foi em Inglaterra, principalmente durante os Governos de Margareth Tatcher, enquanto que em
países como a França, ainda na década de oitenta, um governo socialista fez a sua última experiências de
nacionalização.
Mais importante e interessante nos problemas económicos e jurídicos que levanta é, entretanto, o processo
de privatizações na Europa do Leste, que se insere num programa de transição de economias planificadas
para economias de mercado que, por razões óbvias, não poderá ser aqui desenvolvido.
Também se reveste de grande importância a privatização que levada a cabo em países em desenvolvimento
(nomeadamente países africanos), sob a influência de políticas de estabilização do FMI e de ajustamento
estrutural do Banco Mundial, que exigem a redução da máquina administrativa e a privatização do sector
público. A privatização do sector produtivo tem-se deparado, contudo, nesses países com problemas da
escassez de capitais privados e dos problemas éticos que coloca no plano da redistribuição de riqueza.
RAZÕES
As explicações do sucesso das políticas de privatizações são múltiplas, mas revestem-se de uma especial
importância a saturação fiscal que se fez sentir em finais da década de 70, quando os contribuintes começam
a dar claros sinais de que não estão na disposição de continuar a suportar o aumento da carga fiscal.
O Estado de Bem-estar Social, instalado após a 2.ª guerra mundial, resistiu mal às crises económicas da
década de 70 e envolveu um aumento da despesa pública que obrigou a repensar globalmente as relações
entre Estado e a economia e criou um clima desfavorável à existência de grandes sectores públicos. A este
pano de fundo vieram juntar-se outras circunstâncias que favoreceram a tendência no sentido das
privatizações, foi o caso, por exemplo, do desenvolvimento da tecnologia em sectores onde normalmente
não havia empresas privadas, por corresponderem a áreas de monopólio do Estado, como sucedeu na área
das telecomunicações.
Também a internacionalização dos mercados e a crescente mundialização da economia, com as empresas
a terem cada vez mais que estabelecer acordos com empresas de outros países e a criarem processos de
união entre elas, veio acentuar as dificuldades de estrutura da propriedade pública.
Para além das razões de fundo, poder-se-ão encontrar razões de ordem ideológica, económica, política e
financeira.
O movimento de privatizações, na Europa, surge com uma raiz marcadamente ideológica e anti-estatal, mais
precisamente na Inglaterra e França, onde se argumentava que a existência de um vasto sector público
constituía um atentado contra a liberdade dos cidadãos, negando-se a existência de um interesse geral, que
pudesse ser satisfeito pelo Estado, e afirmando que o importante é fazer a defesa do consumidor isolado,
que seria beneficiado pelo desenvolvimento da concorrência.
Nas motivações de carácter económico, há que salientar a intenção de introduzir alterações profundas no
funcionamento de determinadas empresas, associada à ideia de que a gestão privada é mais eficaz que a
pública. Outro argumento de ordem económica, é o que se prende com a maior racionalização das
empresas, opondo-se aquilo que seria o carácter burocrático do sector público, pesado e pouco dinâmico,
que tem outras possibilidades de racionalização.
Muitas vezes há, também, motivações de carácter político por detrás das privatizações, que podem ser de
dois tipos:
✓ Por um lado, os partidos de direita sustentam a ideia de que as empresas públicas são bastiões das
forças sindicais, pelo que as privatizações seriam uma forma de quebrar força à esquerda.
✓ Por outro lado, as privatizações seriam, também, a forma de disseminar acções, vendendo-as a
pequenos accionistas e trabalhadores em condições especiais e fomentando formas de capitalismo
popular que aproximariam muitos cidadãos dos partidos que promovessem tais privatizações.
Finalmente, há que referenciar as motivações de ordem financeira, que são essencialmente de três tipos:
✓ Em primeiro lugar, o facto de as empresas privadas terem um acesso mais rápido aos mercados
internacionais de capitais, que são cada vez mais importantes.
✓ Por outro lado, as privatizações aparecem como um fenómeno capaz de criar uma dinâmica nos
próprios mercados de capitais dos países onde ocorrem.
✓ Por último, há que notar que, com as privatizações, surge a possibilidade de libertar o Estado do
peso dos pedidos de financiamento das empresas do sector público, reduzindo assim as pressões
orçamentais.
Privatizações e realidades afins
As privatizações correspondem a um dos principais aspectos da tentativa de alterar a relação entre a
sociedade e o Estado, tal como existia nas últimas décadas. Para além das privatizações, outros fenómenos
contribuíram para alteração dessa relação. Entre eles, podem-se destacar de forma sintética:
- A desregulamentação, que se traduz no desmantelamento dos controlos à actividade
económica privada, permitindo o seu acesso à actividades anteriormente vedadas à iniciativa
privada.
- A liberalização, que implica um crescente desenvolvimento da concorrência, com fim de
conseguir ganhos significativos de produtividade, bem como ganhos sociais importantes.
- O surgimento de técnicas de descentralização, com a consequente tentativa de aproximação
do centro de decisão financeira aos cidadãos.
- A descentralização e a criação de agências autónomas do Estado, de Institutos públicos, de
empresas públicas que não correspondam às formas tradicionais de Administração pública.
As privatizações em angola
O processo de privatizações que se desenvolveu em Angola, é, por um lado, o reflexo do movimento de
privatizações que se fez sentir um pouco por todo mundo e, por outro, o resultado de circunstâncias
concretas do nosso país, que ocorreu como uma consequência lógica da revisão constitucional de 1992.
Conforme ficou visto na secção anterior, o sector empresarial do Estado assumiu, por força das
nacionalizações realizadas a partir de 1976, dimensões significativas. As medidas legislativas que foram
sendo tomadas desde 1988 (com o pacote legislativo SEF) abriram caminho para a revisão constitucional
de 1992, que veio permitir um desenvolvimento pleno de um programa de privatizações, uma vez que estas
passaram a ficar apenas condicionadas por exigências de ordem processual, para além da reserva
resultante da existência de sectores vedados à iniciativa privada.
O problema das privatizações em Angola apresenta particularidades curiosas, que começam logo, pela
circunstância de o crescimento do sector empresarial do Estado ter sido, em Angola, mais tardio do que na
generalidade dos países. Aqui as privatizações iniciaram-se lenta, gradualmente e de forma incipiente,
ganhando impulso apenas a partir de 1994. A partir de então, o programa de desestatização passou a
constituir-se num importante instrumento de política económica, incluído num amplo conjunto de reformas
estruturais voltadas para a reformulação do papel do Estado na economia. Este último passaria a ter uma
função mais reguladora e menos produtora. O processo de privatizações, iniciado pelo pacote legislativo
SEF, visou essencialmente, reordenar, readequar e reajustar as empresas do sector empresarial do Estado
e transferi-las para o sector privado ou criar formas de associação entre o Estado e os privados.
Em finais da década de 80 (1988), a administração do Estado alienou empresas de pequena e média
dimensão. Contudo, não houve uma política consistente de privatização nesse período, uma vez que os
programas de privatização implementados nessa década eram constituídos por iniciativas desarticuladas da
política macroeconômica interna. A isso acresceu, ainda, o facto de as nacionalizações por se terem
efectuado quase sempre em obediência a factores de ordem ideológica ou política, como ficou visto no
capítulo anterior, não permitiram dotar o sector público da racionalidade económica que teria sido
necessária. Por outro lado, os constrangimentos de ordem constitucional à realização de um programa
integral de privatizações são o último aspecto a ter em consideração. O princípio das privatizações surgiu
subjacente a um princípio mais vasto a que o legislador convencionou chamar de redimensionamento do
sector empresarial do Estado, inaugurado pelo pacote legislativo S.E.F: lei n.º 10/88, Dec. N.º 32/89 e Dec.
N.º 34/89 ambos de 15 de Julho. O redimensionamento é assim assumido como forma de alcançar uma
maior eficiência na gestão da propriedade estatal. Apesar da existência de um ambiente favorável às
privatizações, vários obstáculos tiveram de ser transpostos: grande resistência política, dificuldade de
escolha dos modelos de venda das empresas etc.
Três fases distintas marcaram o processo de privatizações em Angola. A primeira fase ocorreu ao longo dos
anos 80 e foi marcada pelas “reprivatizações” de empresas que tinham pertencido ao sector privado e
posteriormente foram nacionalizadas a apartir de 1976 com a aprovação da Lei 3/76, tendo sido privatizadas
uma parte das empresas absorvidas pelo Estado naquela época, em geral por apresentarem um elevado
grau de endividamento junto do sector público. Importa frisar que o que esteve na base de todo esse
processo não foi tanto alterar a forma de intervenção do Estado na economica mas tão o saneamento
financeiro do sector público empresarial.
A segunda fase iniciou-se com a aprovação da L.C. de 1992, estando inserida num contexto de
racionalização de recursos públicos, desintervenção do Estado na economia, redução e redefinição do papel
do Estado. Nesse sentido, o Estado reduziria significativamente a sua actuação nas áreas da indústria, infra-
estrutura e serviços, transferindo à iniciativa privada a responsabilidade pelos elevados investimentos
necessário ao desenvolvimento de tais actividades. O Estado passaria, então, a actuar mais como regulador
e fiscalizador do que como prestador de bens e/ou serviços, a excepção de alguns sectores essenciais como
o saneamento básico, fornecimento de água e energia eléctrica, etc.
A terceira fase do processo privatizações teve início a partir de 1994 com a aprovação da Lei 10/94 – Lei
das privatizações - e mais tarde com a aprovação da Lei de Delimitação dos Sectores de Actividade
Económica - Lei 2/05 - cujo objectivo era estabelecer as bases sobre as quais o governo concederia a
terceiros os direitos de exploração de áreas de reserva do Estado bem como estabelecer os pressupostos
e determinar o processo sobre que deverá assentar a transferência da propriedade das empresas do Estado.