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Binswanger Vs Heidegger

O documento analisa a diferenciação entre a analítica do Dasein e a Daseinsanalyse, destacando críticas ao pensamento heideggeriano por áreas como psicologia e antropologia. A conclusão enfatiza a relação tensa entre ontologia fundamental e antropologia filosófica, ressaltando a importância da compreensão fenomenológica na análise do Dasein. A Daseinsanalyse, segundo Heidegger, não deve ser vista como parte da analítica do Dasein, pois carece de uma reflexão crítica adequada sobre suas estruturas existenciais.

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Binswanger Vs Heidegger

O documento analisa a diferenciação entre a analítica do Dasein e a Daseinsanalyse, destacando críticas ao pensamento heideggeriano por áreas como psicologia e antropologia. A conclusão enfatiza a relação tensa entre ontologia fundamental e antropologia filosófica, ressaltando a importância da compreensão fenomenológica na análise do Dasein. A Daseinsanalyse, segundo Heidegger, não deve ser vista como parte da analítica do Dasein, pois carece de uma reflexão crítica adequada sobre suas estruturas existenciais.

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ANALÍTICA DO DASEIN E DASEINSANALYSE

DASEIN’S ANALYTICAL AND DASEINSANALYSE

Nelson José de Souza Júnior1

RESUMO
Análise de construtos heideggerianos elaboradas nos seminários do final de 65, sobretudo a
diferenciação entre os horizontes e as estruturações da analítica do Dasein e a Daseinsanalyse;
críticas ao pensamento heideggeriano pela psicologia, psicopatologia e antropologia;
clarificação inicial do lugar, numa acepção estritamente fenomenológica, em que Heidegger,
desde o início, posiciona as determinações mais importantes e sugestivas destas críticas: a
dependência com a metafísica e a necessidade da objetivação dos entes e, particularmente, do
homem. Conclusão: sobre a relação entre a Daseinsanalyse e a analítica do Dasein é oportuno
salientar que o modo no qual Heidegger realiza sua crítica, sem dúvida desconstrutiva, nos
posicionamentos de Binswanger tem a motivação de proporcionar um acesso, bem mais
consistente e conseqüente, aos núcleos da relação, sempre tensa nuançada, entre ontologia
fundamental e antropologia filosófica.
PALAVRAS-CHAVE: fenomenologia, analítica do dasein, daseinsanalyse.

ABSTRACT
Analysis of constructed heideggerians elaborated in the seminars in the end of 1965, above all
the differentiation between the horizons and the Dasein’s analytical structuring and
Daseinsanalyze; critics to the heideggerian thought by the Psychology, psychopathology and
anthropology; initial clarification of the place, in a strictly phenomenonlogic meaning, in that
Heidegger, since the beginning, establish the most important and suggestive determinations of
these critics: the dependence with the metaphysics and the need of the objectivation of the
beings and, particularly, of men. Conclusion: about the relation between Daseinsanalyze and
Dasein’s analytical is opportune to point out that the way in which Heidegger accomplishes
his critic, with no doubts unconstructive; in the Binswanger’s positioning has the motivation
of providing an access, much more solid and consequent, to the nuclei of the relation, always
tense nuance, between fundamental ontology and philosophical anthropology.
KEY-WORDS: phenomenology, dasein’s analytical, daseinsanalyze.

1
Doutor em Filosofia. Diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Federal do
Pará (UFPA). E-mail: nsouzajr@[Link].
Artigo Recebido em 6 de novembro de 2008. Aceito para publicação em 2 de fevereiro de 2009.

29 Revista do Nufen - Ano 01, v. 01 abril-agosto, 2009


_____________________________________________________________Analítica do dasein e daseinsanalyse

INTRODUÇÃO

É, sem dúvida, pertinente e, mais do que isso, indispensável afirmar que a procura

pelo entendimento, principalmente nos seminários do final de 65, efetuada por Heidegger

acerca da diferenciação entre os horizontes e as estruturações da analítica do Dasein e a

Daseinsanalyse propicia um alcance central no qual se tornam nitidamente visíveis o teor e a

composição das críticas feitas ao pensamento heideggeriano pela psicologia, psicopatologia e

antropologia, tomadas nos seus sentidos mais usuais; assim como, também, possibilita a

clarificação, pelo menos inicial, do a partir do que, ou seja, do lugar, numa acepção

estritamente fenomenológica, em que Heidegger, desde o início, já posiciona as

determinações mais importantes e sugestivas destas críticas: a dependência com a metafísica e

a necessidade da objetivação dos entes e, particularmente, do homem.

Heidegger, nestes seminários, parte das três críticas que são, segundo ele,

freqüentemente dirigidas tanto à analítica do Dasein quanto a Daseinsanalyse, no entanto mais

fortemente à segunda. Diante deste direcionamento preliminar cabe ao que tudo indica,

esclarecer por que estas duas “análises” parecem permanecer constitutivamente hostis, ou

melhor, refratárias à ciência, à objetividade e a conceptualidade. Contudo, a distribuição dos

elementos, sempre fenomenológica, realizada por Heidegger estabelece que tais críticas

jamais poderão ser devidamente aclaradas e respondidas antes da compreensão do significado

dos termos analítica e analisar para elas. O que isso quer dizer?

O deslocamento da interpretação do âmbito dos conteúdos da crítica para os dois

seus pressupostos, isto é, dos seus a priori, garante a Heidegger o alicerçamento, ainda que

tênue, em que uma pergunta capital se torna concretizável: O que, propriamente, entende a

psicologia, quando fala em análise?

Como se dá, então, a compreensão fenomenológica do termo análise,

fundamentalmente na analítica do Dasein? Em primeiro lugar, Heidegger enfatiza que a

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palavra analítica foi retirada da Crítica da Razão Pura de Kant, e, daí, absorvida, durante os

anos 20, pelo projeto de elaboração de uma ontologia fundamental, em bases

fenomenológico-hermenêuticas. Porém, esta articulação, em nenhum momento, pretende

afirmar a dependência estrutural e metodológica da analítica do Dasein frente aos

posicionamentos kantianos. O que propicia em vista disso, seu esclarecimento mais

pormenorizado?

Em Kant, para Heidegger, o conceito de analítica evidencia, definitivamente, que

ela é, sim, uma decomposição da faculdade do entendimento. Contudo, o que importa ser

notado aqui é que o caráter constitucional de uma composição, e que já se encontra presente

em Kant, não consiste, apenas, na decomposição em elementos. A decomposição, na primeira

Crítica, se caracteriza por ser, fundamentalmente, não a recondução a supostos elementos

primários, mas a uma unidade, isto é, a uma síntese de possibilitação da própria objetividade

de objetos da experiência; o que para Heidegger corresponde a possibilitação ontológica do

ser dos entes. Neste sentido, no conceito fenomenológico de analítica, na medida em que ele

guarda o significado kantiano de uma unidade possibilitadora, não mantém nenhum vínculo

positivo e produtivo com o problema da causalidade, uma vez que este problema apenas é

concernente a uma relação ôntica, desde sempre orientada entre uma causa e um efeito. Qual,

então, a legítima finalidade da analítica em Heidegger?

A motivação nuclear da analítica em Heidegger consiste na clarificação da

unidade originária da estrutura da compreensão, isto é, da compreensão do ser, que é o

próprio acontecimento do Dasein. Dizendo mais propriamente, a analítica, de acordo com os

desenvolvimentos de Heidegger, tematiza uma “recondução”, ou melhor, um retroceder ao

que efetivamente une, conecta estruturas sempre co-originárias. Dessa maneira, a analítica

possui como tarefa mais própria mostrar, num sentido especialmente fenomenológico, o que

sustenta e organiza a unidade das condições de possibilitação ontológicas, sempre

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estruturantes e apriorísticas. Conseqüentemente, a analítica deve ser concebida como uma

analítica ontológica, e nunca ôntica, como ainda ocorre em Kant, que possui, como já foi dito,

o papel de articular a unidade máxima de estruturas co-originárias e eqüidistantes. Mas, qual a

importância destes deslindamentos para o exame?

Se a centralidade do sentido da analítica em Heidegger corresponde ao seu caráter

ontológico, se torna cabível e até mesmo, imprescindível, a partir daqui, o empenho para a

realização de uma crítica, ou seja, de uma diferenciação fenomenológica entre a analítica do

Dasein e a Daseinsanalyse. De que maneira esta distinção pode ser inicialmente delineada?

Antes de qualquer coisa, Heidegger afirma que a Daseinsanalyse deve ser entendida como a

“Daseinsanalyse psiquiátrica” de Binswanger. Isto significa dizer que Heidegger admite que

na Daseinsanalyse elaborada por Binswanger haja, inquestionavelmente, a presença de

elementos extraídos da analítica do Dasein, além de Heidegger reconhecer, sem grandes

reservas, que Binswanger consegue, por assim dizer, obter uma “idéia”, ainda que geral, isto

é, vaga e confusa da totalidade estrutural do Dasein, enquanto ente privilegiado. Entretanto, o

que deve ser destacado na Daseinsanalyse frente à analítica do Dasein?

Primeiramente, Heidegger rejeita, de maneira peremptória, toda tentativa de tornar

a Daseinsanalyse de Binswanger uma “parte” da analítica do Dasein. O que, talvez, permita

dimensionar com maior consistência e abrangência esta inadequação para Heidegger seja a

sua necessidade de salientar, irônica e repetidamente, o “mal-entendido” produzido por

Binswanger em relação à analítica do Dasein. No que ele consiste? Fundamentalmente, na

afirmação de Binswanger de que há a indispensabilidade de uma complementação da

estrutura existencial central que é o cuidado por um “tratado sobre o amor”, o que teria sido,

pretensamente, negligenciado pro Heidegger em Ser e Tempo. O que exprime, para

Heidegger, este posicionamento, no mínimo bastante singular e inusitado de Binswanger?

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A necessidade metodológica da complementação do existencial cuidado pelo

“amor” evidencia, muito marcadamente, uma insuficiência, ou melhor, uma falta de

Binswanger em relação ao que é propriamente elaborado em Ser e Tempo. Em outras

palavras, Heidegger está apontando para a ausência na Daseinsanalyse de Binswanger de uma

reflexão crítica suficientemente bem sustentada acerca de aspectos capitais da analítica do

Dasein efetuada em Ser e Tempo. Quais aspectos, por conseguinte, parecem ser

negligenciados pela Daseinsanalyse? Antes de tudo, na analítica do Dasein é firmado que este

ente se ocupa primordialmente de si mesmo. Contudo, também é estabelecido que o Dasein se

constitui como um ser-com-os-outros igualmente originário. Dessa maneira, ocupando-se de

si mesmo, o Dasein, desde sempre já está se ocupando dos outros entes, possuindo estes o seu

caráter compreensivo ou não. Por essas razões, não há na analítica do Dasein nenhuma

possibilidade deste ente vir a ser considerado como manifestação ou efetivação de uma

subjetividade muito especial ou, muito mais preocupante e inadequado, de uma redução

solipsística.

Contudo, para Heidegger o “mal-entendido”, de Binswanger não consiste na sua

incapacidade de compreensão que o Dasein é, ao mesmo tempo, um ocupar-se de si se

comportando com outros entes, o que propiciaria a reorientação da analítica do Dasein para o

âmbito de subjetividade moderna. Muito antes disso, o que não ocorre em Binswanger é a

mínima visualização que não só o cuidado, mas todas as estruturas co-originárias do Dasein

possuem, necessariamente, um sentido existencial, isto é, ontológico, o que põe a analítica do

Dasein como o questionamento, enquanto interpretação, dessas estruturas existenciais-

ontológicas, e, por essa medida, já a distancia e, no fundo, a impede de abranger o que diz

respeito à descrição, pura e simples, dos fenômenos e da fenomenalidade ôntica do Dasein.

Buscando uma explicitação mais nuançada e minuciosa, o que compreende o

projeto do que Heidegger expressa como o “ser-homem como Dasein no sentido ek-stático” é

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inteiramente ontológico, principalmente porque, de um modo mais direto, este projeto supera

de modo não-dialético, ou seja, rejeita acentuando as insuficiências e os comprometimentos

da tradicional representação do homem da filosofia moderna, desde Descartes, como

subjetividade, consciência de si, reflexividade, e assim por diante. Porém, qual o verdadeiro

propósito destas articulações operadas por Heidegger em confronto com a Daseinsanalyse?

A pergunta pela constituição ontológica do ser-homem como Dasein permite

tornar claro e presente que a compreensão do Ser (Seyn) é o que constitui fundamentalmente

o Dasein. De um modo mais imediato, como acentua Heidegger, este caráter constitutivo é

decisivo para o início do questionamento da relação entre o Dasein, ou seja, do ser-homem

como existente e o ser dos entes, isto é, tanto dos entes que não possuem o caráter do Dasein

quanto do próprio Dasein. Portanto, o questionamento da relação entre o Dasein e o ser dos

entes somente pode emergir do questionamento primordial do sentido do Ser, o qual, por sua

vez, pertence inequivocamente ao acontecimento compreensivo do próprio Dasein.

Se estas insuficiências estão marcadamente presentes e condicionam, de uma vez

por todas, o entendimento das motivações da analítica do Dasein pela Daseinsanalyse, o que,

se os termos são pertinentes, molda e envolve a psiquiatria de Binswanger? De acordo com

Heidegger, a questão do Ser enquanto tal, radicalmente distinta da questão do ente enquanto

ente e da questão de ente em relação ao seu ser, jamais foi posta pela filosofia. A não

visualização deste pressuposto crucial por Binswanger evidencia, inegavelmente, a partir da

própria afirmação de que Ser e Tempo continua e desdobra o que já havia firmado por Kant e

Husserl, dependências, aparentemente insuspeitadas, em suas formulações e conceituações

que necessitam ser aclaradas. O que isto quer significar?

É correto afirmar, ainda que de modo bastante resumido, que a fenomenologia de

Husserl, tal como Heidegger a tematiza, permanece no território de uma fenomenologia da

consciência. Em virtude direta disso, a sua permanência no âmbito da consciência pura, de eu

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transcendental a impede de perceber as modificações essenciais, segundo Heidegger, trazidas

pela hermenêutica fenomenológica do Dasein. Desse modo, e sem que se possa, aqui,

desenrolar os elementos mais relevantes da relação entre Dasein e a intencionalidade da

consciência, o que efetivamente interessa para a analítica do Dasein é o estabelecimento das

determinações nas quais há o esclarecimento da relação do ser do Dasein com o Ser enquanto

tal. Isso é, de alguma maneira, condizente com o projeto psiquiátrico de Binswanger?

Sem dúvida alguma, não. Contudo, ainda que se esteja buscando uma

aproximação criteriosa e bem sustentada entre analítica do Dasein e a Daseinsanalyse, já se

pode afirmar, sem grandes riscos, que a Daseinsanalyse se move no nível que corresponde,

ineliminavelmente, ao da pergunta o que é o homem. Com isso, ela revela, de modo decisivo e

definitivo, o seu caráter antropológico, se dedicando abertamente à execução, ou seja, ao por

em operação certos caracteres essenciais do Dasein retirados da analítica de Heidegger, por

intermédio de uma vinculação ao que ocorre em um indivíduo, ou melhor, em um existente

histórico-socialmente determinado em cada caso. Objetivando uma explicitação mais

adensada, a constituição da Daseinsanalyse intenciona, nos seus próprios limites, alcançar a

completude de uma disciplina possível que se auto-impõe a tarefa de demonstrar os

fenômenos existenciais comprováveis do Dasein social-histórico e individual relacionados no

sentido de uma antropologia ôntica, supostamente oriunda da analítica do Dasein. No entanto,

isto se fundamenta, se sustenta?

Heidegger, também, responde a esta pergunta de maneira enfaticamente negativa.

Porém, antes de apresentar os conteúdos centrais da rejeição heideggeriana às finalidades

subjacentes da psiquiatria de Binswanger, cabe elucidar o modo no qual a própria

Daseinsanalyse retira e, principalmente, absorve elementos estruturantes e organizadores,

sempre apriorísticos, da analítica do Dasein, desenvolvida em Ser e Tempo. Heidegger

afirma, inicialmente, que a Daseinsanalyse extrai e, muito especialmente, se apropria, por

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assim dizer, da constituição fundamental do Dasein: ser-no-mundo. Estranhamente, para

Heidegger, Binswanger parece se utilizar, abundante e irrestritamente, deste constitutivo

existencial nuclear, chegando a alicerçar nele os seus desenvolvimentos mais relevantes e

mais sugestivos. Contudo, o que dificulta o modo de absorção efetuado pela Daseinsanalyse

do existencial ser no mundo?

Ao autonomizar precipitadamente o constitutivo ser no mundo, o Daseinsanalyse

se impossibilita, de uma vez por todas, de perceber que este caráter fundamental do Dasein

corresponde, sim, a estrutura primária que é mostrada na primeira parte da ontologia

fundamental, entretanto, e isto é decisivo, ela não é a única estrutura, o único constitutivo

essencial do Dasein e, muito menos, o para o que se dirige às motivações da própria ontologia

fundamental em relação ao Dasein, uma vez que, como já foi salientado anteriormente, a

constituição principal do Dasein corresponde ao que Heidegger denomina de compreensão do

Ser. Em outras palavras, este modo ao mesmo tempo, do Dasein se diferenciar dos demais

entes, e de se fundamentar relacionando-se consigo mesmo compõe, sem dúvida alguma, a

ocupação por excelência de Ser e Tempo.

Em virtude desses aclaramentos, se torna indispensável firmar, em primeiro lugar,

que na analítica do Dasein o que é realizado sobre o esclarecimento do próprio Dasein (ser-

no-mundo, cuidado, ser-para-a-morte, temporalidade, etc) cumpre a tarefa de tornar melhor

dimensionável e determinável o que Heidegger entende como a compreensão do Ser. Além

disso, na estrita medida em que esta compreensão do Ser se encontra na abertura positiva do

aí (Da) do Dasein, constituindo-o mais propriamente, este ente privilegiado se manifesta

enquanto o que mantém, em si mesmo, uma relação ontológica com o Ser. Qual, então, a

necessidade expositiva destas articulações?

Para Heidegger, a relação com o Ser não tem como ser subtraída ou, mesmo,

negligenciada da constituição do Dasein, uma vez que a ocorrência disto acarretaria,

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prontamente, a impossibilitação do pensar o Dasein enquanto Dasein. Esta subtração, razão

dos mais diversos mal-entendidos, reaparece, muito fortemente, na Daseinsanalyse

psiquiátrica. Isto significa dizer, ainda que de maneira muito concentrada, que, como acentua

Heidegger, a compreensão do Ser não deve ser caracterizada como uma determinação

concernente apenas ao domínio da ontologia fundamental. Muito antes disso, ela constitui a

determinação mais fundamental e, portanto, principal do Dasein enquanto tal. Sendo assim,

qualquer pretensa análise do Dasein que negligencia ou, pura e simplesmente, omite a sua

relação com o Ser, que se dá na compreensão, perde, desde o início, o seu alcance ontológico

e mais determinante.

Retornando ao âmbito da Daseinsanalyse, o efeito mais imediato da omissão da

constituição mais fundamental do Dasein consiste, inequivocamente, na realização de uma

interpretação inadequada do ser-no-mundo e de transcendência. O que isto quer dizer? Antes

de qualquer coisa, que estes dois constitutivos, considerados fenomenologicamente, são

tomados, pela Daseinsanalyse, somente como fenômenos de um Dasein, sempre isolado em si

mesmo, caracterizado enquanto representação antropológica do homem enquanto sujeito.

Neste sentido, o que está em jogo na absorção de certo traços na analítica do Dasein nada

mais é do que a procura por uma caracterização, no máximo mais adequada e promissora, da

subjetividade do sujeito. Como, então, isto pode ser reconhecido?

Heidegger diz que a tematização do sujeito, ou melhor, da subjetividade do sujeito

se ancora, na época moderna, numa rigorosa e inflexível divisão entre sujeito e objeto. Ao

tomar para si o existencial ser-no-mundo, a psiquiatria de Binswanger, na verdade, pretende

eliminar esta separação através de uma pretensa transposição direta. Contudo, o que a

Daseinsanalyse não consegue perceber no domínio ontológico da compreensão do Ser,

condição de possibilidade do ser-no-mundo, é que não é mais necessária a persistência na

representabilidade do sujeito e do objeto. Muito pelo contrário, o que Heidegger está

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intencionando afirmar é que o “problema” da subjetividade per si não é um problema

autenticamente filosófico, porém, um problema derivado. Positivamente, entretanto, o que

passa a revelar um exame mais cauteloso e crítico da incorporação de elementos da analítica

do Dasein pela psiquiatria de Binswanger é, no fundo, ao eliminar o caráter central da

ontologia fundamental, isto é, a compreensão do Ser enquanto, um entendimento distorcido e

bastante trivializado da relação, igualmente capital em Heidegger, entre a própria ontologia

fundamental e as ontologias regionais, uma vez que a ontologia fundamental cumpre o papel

ineliminável de ser uma pressuposição ôntico-ontológica para toda e qualquer ciência,

inclusive a psiquiatria, ou melhor, a psicoterapia. Como dimensionar, portanto, melhor este

arranjo?

Durante o final da década de 20, Heidegger, em diferentes momentos e lugares,

afirma que a ontologia fundamental não pode ser considerada como uma simples ontologia

maximamente universal frente às ontologias regionais. Decididamente, esta não é a tarefa a

ser realizada por ela, já que ela não se encontra num suposto âmbito mais elevado frente às

regionais. Muito diferentemente disso, o Heidegger visa enfatizar é que a ontologia

fundamental necessita ser entendida como um pensar que se movimenta no fundo de toda

ontologia. Isto significa dizer, ainda que sucintamente, que a ontologia fundamental funda as

demais ontologias, na medida em que mostra, fenomenologicamente, o modo de ser o Dasein:

ser-no-mundo. Assim como tem a condição de possibilidade para a ocorrência de ser-no-

mundo: a compreensão do Ser. E, mais importante, revela no que está propriamente fundada

esta condição de possibilidade: o desvelamento do Ser pelo Dasein enquanto destinação do

próprio Ser. Diante, portanto, deste tríplice escopo, nenhuma ontologia regional pode aclarar

os pressupostos nos quais as ontologias, desde sempre, já se encontram e são essenciais para

as suas fundamentações. Desse modo, a ontologia regional da psiquiatria, que se institui,

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enquanto investigação, no âmbito da essência do homem, não tem como reservar para si o

papel de ontologia fundamental.

Mas, o que estas articulações sobre a relação entre a Daseinsanalyse e a analítica

do Dasein permitem perceber com maior agudeza? Talvez seja oportuno salientar que o modo

no qual realiza sua crítica, sem dúvida desconstrutiva, nos posicionamentos de Binswanger

tenha a motivação de proporcionar um acesso, bem mais consistente e conseqüente, aos

núcleos da relação, sempre tensa nuançada, entre ontologia fundamental e antropologia

filosófica.

REFERÊNCIAS

HEIDEGGER, M. Seminários de Zollikon. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

STEIN, E. Diferença e Metafísica. Porto Alegre, RS: EDIPUCRS, 2000.

__________. Pensar é Pensar a Diferença. Ijuí, RS: Ed. Unijuí, 2002.

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