0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações28 páginas

Document 38

O protagonista, recém-chegado a uma nova cidade, sente falta de seus amigos e se depara com a estranheza do lugar, especialmente em relação à floresta e seus avisos sobre perigos. Durante uma caminhada, ele encontra um garoto chamado Noa, que parece ter um conhecimento peculiar sobre a floresta e suas 'runas' de proteção. A interação entre eles revela um misto de curiosidade e tensão, enquanto o protagonista tenta entender o que realmente acontece naquele ambiente misterioso.

Enviado por

maryjhanyoficial
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
9 visualizações28 páginas

Document 38

O protagonista, recém-chegado a uma nova cidade, sente falta de seus amigos e se depara com a estranheza do lugar, especialmente em relação à floresta e seus avisos sobre perigos. Durante uma caminhada, ele encontra um garoto chamado Noa, que parece ter um conhecimento peculiar sobre a floresta e suas 'runas' de proteção. A interação entre eles revela um misto de curiosidade e tensão, enquanto o protagonista tenta entender o que realmente acontece naquele ambiente misterioso.

Enviado por

maryjhanyoficial
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

SUMÁRIO

2
1- A caminhada 3
2- Noa? 16
2
Capítulo 1 – A Caminhada
Cidade nova, coisas novas...

Já faz uma semana desde que minha família se mudou pra cá.
Ainda não decidi se gosto do lugar.
Tem muita natureza, algumas lojinhas, cafeterias escondidas e casas
antigas...
O básico pra sobreviver.
Mas não era isso que eu queria.
De vez em quando, olho pela janela do quarto e imagino meus amigos,
lá longe.
O que será que estão fazendo agora? Será que sentem minha falta?
A verdade é que eu sinto.
Sinto falta até das conversas aleatórias no portão, das piadas ruins no
grupo da escola...
Das coisas pequenas que, agora, parecem enormes.
Aqui tudo parece quieto demais.
Os vizinhos são... estranhos. Não são rudes, mas têm aquele tipo de
silêncio que pesa.
Quando passo por eles, percebo os olhares.
Fixos. Como se estivessem tentando adivinhar alguma coisa sobre mim.
Mas se eu olho de volta, desviam rápido.
Como se não quisessem ser flagrados.
Na escola não é muito diferente.
Ontem, a professora de História passou quase a aula inteira falando
sobre a cidade.
Fundação, floresta, datas... parecia que ela decorou um discurso.
Eu tentei prestar atenção, mas o tédio venceu.
Acabei cochilando.
Quando acordei, o tom da aula tinha mudado. A voz dela estava mais
baixa. Mais... tensa.
Olhei ao redor. Alguns alunos pareciam estranhamente atentos.
3
Como se soubessem o que vinha a seguir.
A única frase que consegui ouvir antes do sinal tocar foi:
— Ninguém entra na floresta depois do pôr do sol.
Ela disse isso como se fosse uma regra. Não uma recomendação. Uma
regra real.
Desde então, essa frase não saiu da minha cabeça.
Hoje é sábado. E é outono — minha estação favorita.
O céu está cinza, mas não chuvoso. Aquele tipo de dia que parece
suspenso no tempo.
Decido sair um pouco. Andar. Respirar.
Talvez tirar umas fotos da natureza.
Talvez esquecer da cidade por uns minutos.
Por falar nisso... onde foi que deixei minha câmera?
Vasculho a estante. Nada.
Reviro gavetas, olho embaixo da cama...
— Hã?
Tem uma flor ali.
Uma flor pequena, branca.
Com pétalas delicadas e um caule fino, como se tivesse acabado de ser
colhida.
Eu não lembro de ter colocado isso aqui.
Me levanto devagar, intrigado. E lá está a câmera.
Na estante. Bem onde eu juro que já tinha olhado antes.
— Ok... meu TDAH tá mesmo afiado hoje.
Pego a câmera e desço as escadas. A casa está silenciosa.
Meu pai provavelmente foi trabalhar.
Abro a porta da frente, a brisa da manhã logo me atinge.
— Haaah...
A rua está vazia, exceto por um ou outro carro ao longe.
Decido caminhar até a floresta.
Ainda é cedo.
4
O sol está alto, a luz filtrando pelas nuvens.
E, pra ser sincero... não é como se eu acreditasse naquele aviso da
professora.
Caminho pela calçada. Podia ter pego a bicicleta, mas quer saber? A
manhã tá boa demais.
Penso em voltar pra buscar meu mp3 Player.
— Hmm... deixa pra lá. Já tô longe demais de casa. Preguiça de voltar.
Do outro lado da rua tem um playground. Algumas crianças brincam,
correm, riem alto. Pelo menos elas parecem normais... Até que reparo
numa coisa. Uma delas tá parada. De costas. Não corre, não fala, não
se move. Só fica ali, de frente pra cerca, olhando fixamente pra dentro
da floresta.
Penso em continuar andando, mas... paro. Algo me incomoda nessa
cena.
Então, como se soubesse que eu estava olhando, ela vira o rosto. Só o
rosto. Muito devagar.
E sorri.
Mas não é um sorriso fofo. É... estranho.
Muito estranho.

Acelero o passo.

5
Retiro o que eu disse: as crianças são bizarras.
Dou uma olhada discreta por cima do ombro...
A criança não está mais lá.
Nem brincando, nem parada. Simplesmente sumiu.
Acelero sem pensar muito. Talvez tenha corrido, ou ido pra outro canto.
Sei lá. Só sei que não quero descobrir.
Logo, a floresta aparece.
Galhos altos balançam com o vento leve de outono.
As folhas secas no chão fazem aquele som crocante que eu sempre
gostei.
Levanto a câmera, o visor liga. Por um segundo, vejo meu reflexo escuro
na lente. Me olho ali, com a floresta atrás...
E algo se move.
Rápido. Muito rápido.
Viro pra trás. Nada. Só árvores, folhas caídas, e o cheiro de madeira
molhada no ar.
— Tá tudo bem — murmuro. — É só o vento. Ou um esquilo. Um
passarinho. Alguma coisa assim.
Respiro fundo.
Levanto a câmera.
Click.
A primeira foto do dia.
Ou... não.
O visor pisca:
Erro. Arquivo corrompido.
— Porcaria de câmera velha... — Olho pra cima. — Bem, já que
caminhei até aqui, é melhor aproveitar.
Olho ao redor. Só árvores, pedras cobertas de musgo, folhas
espalhadas.
As folhas secas estalam sob minhas botas. Que som agradável. Gosto
dessa sensação.
6
Um corvo passa voando entre os galhos, acima da minha cabeça. Preto
como carvão, asas largas.
Corvos são fascinantes. Tem gente que acha que trazem azar, ou que
são mensageiros da morte.
Mas eu os amo. Sempre achei que são só... mal interpretados. Tipo os
gatos pretos.
Observo enquanto ele some entre os galhos.
Desaparece na parte mais densa da floresta.
Fico ali por alguns segundos, só ouvindo. O vento balança as folhas,
bem de leve.
Tudo ao meu redor parece... atento.
Como se a floresta tivesse olhos.
Ou talvez seja só a forma como as linhas nos troncos das árvores se
agrupam. Lembram... olhos.
Paro em frente a uma das árvores com esse desenho.
Linhas escuras no tronco, curvas naturais formando o contorno exato de
um olho. Sem cílios.
Levanto a câmera.
Click.
Mais uma foto.
Respiro fundo e volto à minha pequena exploração.
A trilha se desfaz em folhas secas e raízes.
Avisto um longo tronco caído no chão, coberto de musgo.
Não perco tempo. Subo logo em cima dele.
Me equilibro com os braços abertos, como se fosse uma corda bamba.
A madeira range sob minhas botas a cada passo.

7
Crack...
Paro por um segundo, penso que vai quebrar.
Olho pra baixo. O tronco ainda está firme, só... velho.
Sigo andando, concentrado.
A brisa toca meu rosto, o som das árvores se sacudindo acima de mim é
como música.
Um sussurro no meu ouvido.
Minha bota escorrega no musgo do tronco.
As folhas amortecem minha queda, bem, nem tanto, porque o chão é
duro.
Sinto uma dor no tornozelo.
— Ha! Porra!
Fico deitado por alguns segundos.
O sussurro ainda ecoa na minha cabeça.
Não sei se foi real... ou se foi só o vento.
Mas parecia tão perto. Quase como uma voz.
Me sento devagar.
— Droga...

8
Massageio o tornozelo, tentando entender se torci ou se foi só o impacto.
Parece suportável. Dói, mas nada quebrado.
Olho pra cima.
O tronco de onde caí tem uma flor em cima dele, a mesma de mais
cedo.
Fico sentado ali por alguns minutos, encarando ela.
Um arrepio percorre minha espinha.
Atrás de mim, o som de passos sobre as folhas secas.
Um... dois... três...
E param.
Perto. Perto demais. Bem atrás de mim.
Meu corpo inteiro se enrijece. Uma corrente gelada percorre minha
espinha.
Sem nem perceber, prendo a respiração.
Minha mão se fecha em torno da pedra mais próxima. Os dedos tremem.
O coração bate tão alto que parece preencher todo o silêncio ao redor.
Tento me virar... mas não consigo.
É como se eu estivesse grudado ao chão.
Sinto o peso de uma presença, quente, respirando atrás de mim.
O som das folhas secas ainda ecoa, como se tivesse acabado de
acontecer.
Tudo fica muito, muito quieto.
Até que algo — frio, leve — toca meu ombro.
Dedos. Finos.
— Ei...
Me levanto num pulo, tropeçando nas próprias pernas, e empurro o que
quer que seja.
A pedra ainda está na minha mão, erguida, pronta para ser usada.
Mas antes que eu a jogue, reconheço o rosto.
— Noa?!
Ele cai no chão com um baque surdo, os olhos arregalados.
9
Logo se levanta, num impulso seco, e me empurra de volta.
— Qual o seu problema, esquisitão?!
— Você quer que eu tenha um infarto me assustando assim?! — minha
voz sai mais alta do que devia.
— E não me chama de esquisitão!
Ele bufa, irritado.
— Sai de cima, seu idiota!
Dou um passo pra trás, ofegante. A pedra escorrega da minha mão e cai
no chão, esquecida.
— O que você tá fazendo aqui? — pergunto, tentando manter a voz
firme.
Ele se levanta devagar, batendo a terra da calça com desgosto.
— Isso não é da sua conta.
— Além disso... o que você tá fazendo aqui?
— Só... tirando umas fotos. Dando uma volta.
— Fotografando a floresta? — Ele me encara como se eu tivesse dito a
coisa mais absurda do mundo.
O silêncio que se instala é desconfortável.
Fico ali parado, sujo de terra.
Ele me observa. Com atenção demais. Como se tentasse adivinhar
quem eu sou.
— Você é novo, né? — pergunta por fim.
— É. Cheguei faz uma semana.
— Hm.
Ele cruza os braços. O olhar continua duro, mas por trás tem algo...
curioso.
Um tipo de interesse que ele não quer demonstrar.
— Você vem aqui com frequência? — arrisco.
— Às vezes.
— E já viu... coisas estranhas?
— Tipo você caindo do tronco? — Um sorriso torto surge no canto da
10
boca. Dá pra ver um pouco do vão entre os dentes da frente.
— Muito engraçado...
O vento sopra por entre os galhos altos. As folhas farfalham.
O cheiro de madeira molhada continua no ar... mas há outra coisa agora.
Umidade. Mofo. Algo... parado. Esquecido.
— Noa, né? — pergunto.
Ele hesita por um segundo. Depois assente com um leve movimento de
cabeça.
— E você é...
— Henrique. Mas pode me chamar de Rick. — Estendo a mão, tentando ser
amigável.

Ele me olhou por um tempo, em silêncio. O olhar dele era difícil de


decifrar — direto, quase frio, mas... havia algo ali.
Então, apertou minha mão. Os dedos eram meio longos, ossudos, mas o
aperto era firme. Seguro demais pra alguém que me olhava daquele
jeito.
— Então... Rick — disse, com a voz baixa, quase como se estivesse
testando meu nome.
— Você não deveria ir tão fundo na floresta. Vai acabar se perdendo
desse jeito.
É fácil se desorientar aqui.
Soltou minha mão devagar.
As palavras dele ficaram no ar, mais pesadas do que deviam.
— Eu tô só explorando um pouco — respondi, tentando parecer mais
tranquilo do que me sentia.
— Ainda é de manhã. Não fui tão longe assim.
Ele não respondeu de imediato. Só olhou ao redor, como se escutasse
alguma coisa que eu não podia ouvir.
— Mesmo de dia, não é seguro — disse, enfim.

11
— A floresta muda. Os caminhos também.
— E você vem aqui mesmo assim?
Noa sorriu, mas não foi um sorriso simpático. Parecia mais... resignado.
— Eu sei onde piso.
Fiquei em silêncio. Não era exatamente uma resposta.
O vento passou por nós, sacudindo as folhas secas no chão.
Por um segundo, tive a estranha sensação de que algo estava se
movendo entre as árvores — longe, mas observando.
— Você sempre fala assim? — perguntei, provocando.
— Tipo... cheio de enigmas?
Ele deu de ombros.
— Você sempre anda com uma câmera e enfia a cara nos lugares
errados?
Sorri de canto, meio sem graça.

Ele se abaixa no chão e pega uma pedrinha — redonda e achatada.


Levanto uma sobrancelha, curioso.
— O que você tá fazendo?
— O que parece? — responde sem nem me olhar. — Tô pegando uma
pedra, não tá vendo?
Reviro os olhos.
— Cara, você pode parar de ser tão seco?
Ele finalmente me encara. Não parece bravo. Só... cansado.
— Não tô sendo seco. Você é que faz pergunta demais.
— É, e você responde de menos.
Ele dá um suspiro leve, quase imperceptível, e enfia a pedra no bolso da
calça como se fosse a coisa mais comum do mundo.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
Só o som das folhas sendo arrastadas pelo vento preenche o espaço
entre nós.

12
A expressão dele suaviza um pouco.
O maxilar relaxa, os olhos deixam de parecer tão duros.
— ...Desculpa... — murmura, quase inaudível.
Ele desvia o olhar por alguns segundos.
Depois, como se estivesse reunindo coragem pra admitir algo, completa:
— Eu vou fazer runas. Com pedras.
Fico olhando pra ele, sem entender de imediato.
— E o que é isso?
Ele passa a mão no cabelo, parece meio sem paciência... mas não do
jeito de antes.
Agora é mais como alguém que não sabe por onde começar.
— São... símbolos. De proteção.
Ou sorte.
Depende de como você usa.
— Tipo... mágica? — pergunto, meio cético, meio interessado.
Ele dá um meio sorriso.
— Tipo isso. Mas não do jeito que você tá pensando.

Ficamos em silêncio por um instante. Um silêncio diferente agora.


Mais leve. Quase confortável.
Mas aí eu não resisto.
— Peraí... — digo, abaixando e pegando uma pedra qualquer do chão.
— Acho que essa aqui tá me chamando. Tô sentindo uma... vibração
cósmica.
Noa me olha com a sobrancelha arqueada, em silêncio.
— Shhh — faço um gesto sério, com o dedo nos lábios. — Preciso me
concentrar.
Me ajoelho dramaticamente no meio da trilha, posiciono a pedra sobre
uma raiz e coloco as mãos ao redor dela como se fosse uma bola de
cristal.

13
— Grande espírito da floresta — começo, em tom grave — revelai-me os
segredos do musgo sagrado e dai-me visão além do alcance!
Noa revira os olhos tão forte que parece que vai cair pra trás.
— Você é um idiota completo.
— Shhh! Eu tô canalizando energia!
— Eu invoco a sabedoria dos pinheiros ancestrais! Das samambaias
milenares! Das corujas introvertidas!
— Corujas introvertidas?
— Cala a boca, druida! O ritual exige silêncio!
Pego um graveto e começo a desenhar um símbolo aleatório na terra.
— Este é o... olho místico do Guardião das Pedrinhas.
— Dizem que, se você ativar essa runa com... — olho ao redor — com...
folha seca e babado de sarcasmo, ela abre um portal direto pra lan
house mais próxima.
Noa não estava nem um pouco divertido.
O sorriso tinha sumido do rosto dele. Os olhos estavam fixos em mim,
duros de novo.
— Você acha engraçado zombar das minhas crenças?
A pergunta me pegou de surpresa.
Fiquei parado por um segundo, ainda ajoelhado no chão com o graveto
na mão, o símbolo rabiscado diante de mim.
— Ei... eu só tava brincando — respondi, tentando aliviar o tom.
— É sempre “só brincadeira”.
Levantei devagar, batendo a terra da calça.
— Eu não queria te ofender. É que, sei lá... não esperava que você
levasse isso tão a sério.
— Pois eu levo.
O silêncio que se instala agora é bem diferente do anterior.
Mais frio. Tenso.
A floresta parece ter percebido também — as folhas pararam de se
mover. Nem o vento fala.
14
Noa passa a mão no bolso, como se verificasse se a pedrinha ainda
estava ali.
Depois, encara o símbolo que eu desenhei no chão, agora torto e sem
sentido.
— Tem coisa que você não entende, Rick.
— E só porque você não entende... não quer dizer que seja idiota.
Eu queria responder. Dizer algo que tirasse aquele peso do ar.
Mas tudo que me vinha à mente parecia errado, ou pior: vazio.
Então fiquei quieto por um tempo.
— Eu... é sério, Noa, não foi pra zoar. Quer dizer... talvez tenha sido,
mas não do tipo maldoso. Eu não sabia que era tão importante pra
você...

15
Capítulo 2
Cheguei em casa às 17h55. Me desculpei com Noa, mas ele ainda
parecia meio chateado.
Limpei a sola da minha bota no carpete antes de entrar. A porta rangeu
levemente ao se abrir.
— Henrique... — meu pai chamou da cozinha. — Onde você estava?
— Tava dando uma volta pela cidade — respondi, enquanto tirava as
botas.
— Sozinho? — ele perguntou, se encostando no batente da porta da
cozinha.

— Hm... bem, não exatamente. Eu... fiz um amigo.


— Um amigo?
— Quer dizer... não exatamente um amigo. É só... um cara da escola.

16
Meu pai ficou em silêncio por um momento. Observando.
— E vocês estavam fazendo o quê?
— Ah... nada demais. Conversando. Dando uma volta. A gente acabou
se esbarrando ali perto da pracinha e... sei lá, fomos andando.
— Ele é da sua turma?
— Sim...
— E como ele se chama?
— Noa.
— Nome diferente.
— É. Ele também é meio... diferente — digo, quase sem pensar. Mas me
corrijo rápido: — No bom sentido.
Meu pai franze levemente a testa. Não como quem está bravo — mas
como quem está tentando montar um quebra-cabeça sem saber qual é a
imagem.
— Só espero que você esteja tomando cuidado.
— Com o quê?
— Com as pessoas. Com quem você se envolve. Você ainda tá se
adaptando... tudo é novo. É fácil confiar demais logo de cara.
— Eu sei me virar, pai.
Meu pai assentiu devagar, como quem ainda não estava completamente
convencido.
— Tudo bem. Só... fica esperto, tá?
— Tá bom.
Ele voltou para dentro da cozinha, e o cheiro de alho e cebola começou
a se espalhar pela casa. Aproveitei o momento e subi as escadas com
passos rápidos.
Meu quarto ainda era estranho pra mim. As paredes nuas, a cama sem
aquele cheiro de sempre, a janela dando para um pedaço da calçada da
casa da frente.
Coloquei a câmera em cima da escrivaninha.
Liguei o computador, mais por hábito do que por vontade, só pra ver se
17
algum dos meus amigos tinha mandado mensagem.
Nada.

Meu pai grita do andar de baixo:


— O jantar tá pronto!
— Já tô descendo! — respondo, alto o bastante pra ele ouvir.
Saio do meu quarto, desço as escadas e entro na cozinha.
O aroma me acerta como um abraço quente — alho refogado, cheiro de
arroz soltinho, alguma coisa assando no forno. Minha barriga ronca alto,
impaciente, como se tivesse vida própria.
Na mesa, vejo a travessa com frango dourado, coberto por um molho
espesso com cheiro de ervas. Do lado, batatas cortadas em rodelas
grossas, levemente tostadas, salpicadas com orégano e cebola
caramelizada. Tem arroz recém-feito, soltinho, ainda soltando vapor. E
salada também, claro — meu pai sempre coloca salada, mesmo que eu
ignore metade das folhas.
— Senta logo antes que esfrie — ele diz, tirando um pano de prato do
ombro e se sentando à mesa.
Puxo a cadeira e me sento. Meu prato já tá ali, esperando por mim.
O primeiro garfo é quase um alívio. Quente, temperado na medida certa.
Familiar.
Por uns minutos, a única coisa que existe é o barulho dos talheres e o
sabor. Tudo quieto. Quase tranquilo.
Levanto o olhar.
— Como foi hoje na padaria, pai?
Ele mastiga devagar, limpa a boca com um guardanapo e dá de ombros.
— Foi... normal. Movimento fraco de manhã, mas à tarde melhorou.
Teve uma senhora que veio perguntar de novo dos pães de erva-doce.
Jura que só encontra daquele jeito lá.
Dou um pequeno sorriso.

18
— Porque você põe erva-doce demais.
— Não é demais, é o ponto certo. Gente com paladar apurado entende.
— Você quer dizer: gente que não tem mais papilas gustativas? —
provoco, com a boca ainda cheia.
Ele revira os olhos, mas tá rindo.
— Se quiser cozinhar, Henrique, a cozinha é toda sua. Senão, deixa
quem sabe fazer.
Dou de ombros, fingindo pensar.
— Talvez um dia eu te ensine a fazer miojo do meu jeito. Técnica
secreta passada por gerações.
— Ah, claro... o ápice da culinária adolescente.
Sorrimos.
E por um instante, tudo parece simples de novo.
Meu pai dá mais uma garfada, mastiga devagar e então solta:
— Você deveria trazer seu novo amigo lá na padaria um dia... quer dizer,
seu colega.
Ele se corrigiu rápido, como se não quisesse parecer interessado
demais.
Levanto os olhos, meio sorrindo.
— “Colega”, né?
— É, colega — ele repete, tentando manter o tom neutro. — Só achei
que ele podia gostar. A gente tem pão de queijo de verdade, não essas
coisas congeladas.
Dou uma risadinha, mexendo no garfo.
— Vou pensar no caso.

Eu gosto desses momentos com meu pai.


São simples, mas me fazem sentir... em casa.
Terminamos de jantar. Ele guarda a comida que sobrou enquanto eu

19
lavo a louça, em silêncio, ouvindo só o barulho da água e os talheres
batendo.
Depois, subo pro meu quarto.
O sono já começa a pesar.
Tiro o celular do carregador e me jogo na cama, afundando nos lençóis
ainda meio frios.
Fico mexendo no celular, rolando a tela sem prestar muita atenção, só
por hábito.
Nem percebo quando o sono me leva.
Acordei com alguém me chamando.
— Henrique... Henrique...
Me levanto da cama, ainda sonolento, esfregando os olhos.
— Noa...? — murmuro, confuso.
Caminho até a janela, os pés arrastando pelo chão frio.
Mas o que estava lá fora... não era o Noa.
A figura do outro lado da rua parecia saída de um sonho ruim.
Era muito alta, magra como um galho seco, com braços que quase
tocavam o chão.
Os dedos — finos e longos — se mexiam devagar, como se estivessem
tateando o escuro.
A pele parecia tensa sobre os ossos, como se o corpo tivesse sido
puxado para além do natural.
As pernas estavam em um ângulo estranho, e o tronco afundava no
centro, como se faltasse algo por dentro.
Mas o que mais me gelou por dentro foi o rosto.
Ou melhor, o que havia onde o rosto deveria estar.
Havia um sorriso fixo, largo demais para ser comum.
Parado. Silencioso. Como se me observasse com alguma intenção que
eu não conseguia entender.
E então...
A voz que veio daquela coisa era conhecida.
20
— Henrique...
A mesma entonação.
A voz do Noa.
Meu coração dispara.
Dou um passo para trás, sem tirar os olhos da janela.
A respiração fica curta. Meus dedos tremem.
— Não... — sussurro, como se negar aquilo fosse suficiente pra fazê-lo
desaparecer.
A figura continua ali. Parada.
Observando.
Como se soubesse que eu estou vendo.
— Isso não é real... não é real... — repito, tentando convencer a mim
mesmo.
Mas o frio na barriga, o suor nas mãos, o arrepio na nuca... tudo grita o
contrário.
Dou mais um passo pra trás e esbarro na quina da escrivaninha. Um
livro cai no chão com um baque seco.
A figura vira a cabeça. Devagar.
Foi aí que meu corpo reagiu antes da minha mente.
Corri. Corri como se algo pudesse entrar ali a qualquer momento.
Fecho a cortina num puxão. Trêmulo.
Depois me afasto da janela como se ela fosse vidro puro prestes a
quebrar.
Me encosto na parede, respirando rápido, o peito subindo e descendo.
Meu quarto parece pequeno demais. O ar, denso.
E lá fora... silêncio.
Mas aquela voz ainda ecoa na minha cabeça.
"Henrique..."

Abro os olhos num sobressalto.

21
Estou de volta na minha cama.
A respiração ainda está acelerada. Estou suando frio, a camiseta
grudando nas costas.
Olho ao redor. Tudo está como antes.
A luz do abajur ainda acesa. A cortina fechada.
Nenhuma voz me chamando.
Passo a mão no rosto, tentando entender o que acabou de acontecer.
— Foi só um sonho... — murmuro pra mim mesmo.
Sento na beira da cama, ainda tonto, como se o chão estivesse meio
solto.
Meus dedos estão trêmulos.
Ligo o celular. São 3h17 da madrugada.
Fico ali por alguns minutos, sem coragem de voltar a dormir.
Eu não consegui dormir o resto da noite.
Fiquei sentado na cama, de costas pra janela, encarando o chão.
Às vezes fechava os olhos por alguns segundos, mas qualquer barulho
— um estalo, o rangido da madeira, o farfalhar do vento — me fazia abrir
de novo.
O relógio avançava devagar demais.
E mesmo assim, quando os primeiros raios de luz atravessaram as
frestas da cortina, eu já estava de pé.
Desci as escadas devagar, com os pés pesados, como se cada degrau
estivesse mais fundo que o anterior.
O cheiro de café fresco e pão aquecido me atingiu no meio do corredor.
Familiar. Reconfortante. Mas não suficiente pra espantar o aperto no
peito.
Meu pai estava na cozinha, de costas, mexendo na frigideira.
— Bom dia — ele disse, sem olhar.
— Bom dia... — respondi, com a voz baixa, quase rouca.
Sentei à mesa em silêncio, tentando parecer normal.
Mas por dentro, tudo em mim estava fora de lugar.
22
Meus olhos ardiam.
A cabeça doía.
E mesmo assim, parte de mim não conseguia parar de pensar:
Aquilo foi real?
Ou pior...
E se acontecer de novo?
— O que foi? Você tá muito quieto pro meu gosto — é incrível como ele
sempre sabe quando eu não estou bem.
Murmurei:
— Só um pesadelo…
— Você tentou dormir com seu coelhinho? — ele soltou, com aquele tom
meio brincalhão de sempre.
— Pai... — interrompi, com um olhar cansado.
Ele sorriu, dando um gole no café.
— Só tentando aliviar o clima. Você tá com uma cara de quem brigou
com o travesseiro.
— Tô bem. Só cansado.
— Sei. E o coelhinho tá bem?
Revirei os olhos, mas não consegui segurar um sorrisinho de canto.
— Tá aposentado. Vive agora na gaveta, com dignidade.
Meu pai riu baixinho, mas logo fica sério.

— Filho... você não precisa deixar de dormir com ele só porque tá


ficando mais velho...
Ele disse isso com sinceridade, sem ironia. Só aquela preocupação
mansa que ele tem desde sempre.
— Eu sei — respondi, desviando o olhar.
— Mas tem coisa que nem coelhinho de pelúcia resolve.
Ele assentiu devagar, apoiando os cotovelos na mesa.
Ficou ali por um tempo, mexendo na caneca, como se estivesse

23
procurando palavras no fundo do café.
— Às vezes, quando eu era moleque, seu avô me deixava dormir com o
casaco dele — ele disse, sorrindo de lado.
— Eu fingia que era por causa do frio, mas... era o cheiro. Aquele cheiro
familiar me fazia sentir que tava tudo bem, mesmo quando não tava.
Fiquei em silêncio.
— Bom — ele leva a caneca até a pia —, se o coelhinho quiser sair da
aposentadoria, só diz que fui eu quem chamou. Ele me deve um favor.
Ri baixo, quase sem querer.
Ele me deu um tapinha no ombro ao passar pela mesa e foi até o
corredor, pegando a chave da padaria.
— Me manda mensagem se precisar de algo.
— aproveitar o final de semana. Só... se cuida, tá?
— Tá.
— Ah... vai ter um bazar na praça da igreja hoje. Você quer ir? Posso te
dar uma carona — meu pai disse com um sorrisinho.
Ele me conhece bem demais. Enfiei o resto do café da manhã na boca,
mastigando rápido, e me levantei sem dizer nada. Ele me olhou com um
sorriso de canto, como quem já sabia a resposta. Dei só um “já volto”
com a boca cheia e subi pro quarto.
Puxei do armário meu suéter favorito — aquele grosso, com padrão
meio retrô, que parecia ter pertencido a alguém nos anos noventa. O
tecido já começava a ficar macio nas mangas de tanto uso. Vesti por
cima da camiseta surrada e peguei a calça jeans de lavagem gasta. Os
tênis, mesmo encardidos, ainda seguravam firme o visual. Peguei a
bolsa lateral jogada no canto e enfiei a carteira e a câmera dentro.
Me olhei rápido no espelho. Desalinhado, mas funcional. Como sempre.

24
Desci as escadas calado. Meu pai já esperava com a chave girando no
dedo.
— Pronto? — ele perguntou, destravando o carro.
— Uhum — respondi, enfiando as mãos no bolso.
O sol da manhã estava agradável. Mas o suéter me abraçava com um
conforto familiar . Como se fosse uma pequena armadura contra o
mundo lá fora e contra o frio e claro.
O caminho até a praça foi silencioso. O rádio do carro tocava uma
música antiga, dessas que meu pai sempre canta baixinho sem
perceber. Olhei pela janela o tempo todo, vendo as casas passarem
devagar, os postes repetidos, algumas pessoas varrendo a calçada.
Quando ele estaciona perto da praça da igreja, vira pra mim com uma
25
das mãos ainda no volante.
— Se você quiser, passo aqui depois do almoço.
— Tá tudo bem. Acho que vou voltar a pé — respondo, já abrindo a
porta.
— Certo. Se cuida, tá?
— Pode deixar.
Ele espera eu fechar a porta pra dar a partida. Ainda aceno de leve, e
vejo ele levantar a mão em resposta antes de virar a esquina com o
carro. Rumo à padaria.
Caminho entre as barracas, tinha objetos antigos , roupas, coisas
velhas.
Parei em uma das barracas pra olhar alguns anéis, de repente
avisto Noa na barraca ao lado da que eu estava olhando. um arrepio
percorreu meu corpo com a lembrança daquela criatura me chamando
com a voz dele. Por sorte, Noa não me notado ou só estava me
ignorando. Continuo olhando os anéis e assessórios debatendo se
comprava alguma coisa ou não, fico ali por uns bons minutos.
Sinto que tem alguém me olhando, aquela sensação desconfortável de
um olhar queimado minha nuca. Olho pra trás por cima do ombro e lá
estava ele, bem atrás de mim, quase pulo de susto.
—Noa, por que você gosta tanto de aparecer do nada atrás de mim!?!.
—...hm... desculpa...eu só não sabia como chamar sua atenção.— ele
fico ali parado cossando a nuca sem olhar pra mim.
Uau, ele parece um pouco.... socialmente desajeitado. Pensei.
—..... então?.....o que você tá fazendo aqui?
—só dando uma olhada.....— ele fica olhando pro chão enquanto brinca
com os dedos. — eu posso andar com você?....
Então era isso que ele queria. —hm... claro, por que não? Né.
O que se seguiu foi um silêncio constrangedor por alguns minutos, que
mais pareciam uma eternidade.
— Bem… você quer olhar alguns acessórios comigo? — essa foi a
26
minha melhor tentativa de deixar o clima menos estranho.
— …sim… — ele finalmente olhou para mim.
— Ok, vamos lá então.
Não tivemos que andar muito, pois logo ali do lado havia uma barraca
com vários colares e anéis. O cheiro de comida das barracas próximas
estava começando a me dar fome.
Ele estava andando logo atrás de mim. Eu ainda estava um pouco
desconfortável com ele, principalmente porque pisou duas vezes na
parte de trás do meu sapato enquanto andávamos.
Quando chegamos à barraca, não nos falamos; apenas ficamos olhando
algumas joias. Nada me interessou muito. Depois de alguns minutos,
olhei para ele e senti uma sensação estranha na barriga ao lembrar
daquela coisa chamando meu nome. Talvez eu tenha encarado por
tempo demais, porque ele olhou para mim.
— O que foi, Rick?
Senti os pelos da minha nuca se arrepiarem quando ele disse meu
nome.
— Nada, deixa pra lá… — voltei a olhar os anéis, e ele fez o mesmo.
Ficamos ali por um tempo. Noa comprou dois anéis e, sem que nos
déssemos conta, a praça ficou bem mais cheia conforme a manhã
avançava. Comecei a perceber que Noa ficou um pouco mais tenso;
talvez ele só seja antissocial.
Como não encontrei muita coisa do meu interesse nas barracas da
praça, resolvi ir para a padaria em que meu pai trabalha, pois minha
barriga já estava reclamando.
Quando saí da praça, fiquei com aquela sensação de estar sendo
seguido e, ao olhar para trás, Noa ainda estava atrás de mim.
— Onde vamos? — ele me perguntou.
— Eu vou procurar alguma coisa pra comer — espero que ele tenha
entendido que eu não estou convidando ele para ir comigo.
— Ah, ok… — pela cara dele, dá pra ver que ele não entendeu o recado.
27
Foi o jeito continuar andando com ele me seguindo o caminho todo,
como se fosse minha sombra. Mas que saco.
Chegando lá, logo fomos recebidos pelo cheiro de pães e salgados
deliciosos.
Meu pai estava no balcão, olhando alguma coisa no celular.
— Oi, pai — ele finalmente levantou a cabeça e nos viu. Logo contornou
o balcão para nos cumprimentar.
— E aí, garotos — os olhos dele pousaram em Noa. — Ah, então você é
o amiguinho misterioso do meu filho. Noa, não é?
As bochechas do Noa ficaram levemente coradas, ou talvez fosse só a
luz.
— …oi, é… meu nome é Noa… — ele falou baixo.
Meu pai sorriu largo, como sempre fazia com qualquer cliente que
entrasse ali, mas havia um brilho curioso no olhar enquanto observava
Noa.
— Prazer, garoto — disse, estendendo a mão. — Eu sou o pai do Rick.
Noa hesitou por um segundo antes de apertar a mão dele.
— Prazer… — repetiu, ainda em voz baixa.
— Vocês querem comer alguma coisa? — meu pai perguntou, já
voltando para trás do balcão. — Acabou de sair pão de queijo.
Meu estômago respondeu antes de mim.
— Eu vou querer — falei, me aproximando do balcão
— É claro que quer — ele deu uma risada já pegando uma grande quantidade de
pão de queijo.

28

Você também pode gostar