Plantas Medicinais Comercializadas No Mercado Municipal de Campo Grande-MS
Plantas Medicinais Comercializadas No Mercado Municipal de Campo Grande-MS
Revisão
de Campo Grande-MS
al., 2009; Santos et al., 2009). de utilização (chá, infusão etc.), atividade biológica e sua
A cura de doenças por meio de substâncias distribuição.
biologicamente ativas foi, em sua maior parte, originada
de conhecimentos etnofarmacológicos (Elisabetsky, 1991; Identificação botânica do material vegetal
Albuquerque & Hanazaki, 2006; Gette et al., 2009). As
observações populares sobre o uso de plantas medicinais As plantas medicinais indicadas pelos raizeiros
contribuem de forma relevante para a sugestão de efeitos foram adquiridas e encaminhadas para o Herbário de Mato
medicinais e a utilização desses conceitos para estudos Grosso do Sul (HMS) e para o Centro Nacional de Pesquisa
farmacológicos e químicos (Maciel et al., 2002; Sousa et de Gado de Corte (CNPGC-EMBRAPA) e identificadas
al., 2008). pelos botânicos Dr. Anildo Pott e Vali Joana Pott.
O interesse acadêmico a respeito do conhecimento
de plantas medicinais tem crescido, após a constatação de Levantamento bibliográfico e sistematização de
que a base empírica desenvolvida ao longo dos séculos informações populares e científicas
pode em muitos casos ter uma comprovação científica
que possibilitaria atender ao binômio segurança e eficácia Posteriormente, realizou-se um levantamento em
exigida pelos órgãos de controle de medicamentos literatura científica (Portal Capes) das plantas indicadas
(Montanari, 2001; Silveira et al., 2008). pelos raizeiros, segundo a identificação botânica, com a
O estudo das plantas medicinais e seus extratos finalidade de confirmar e obter informações, tais como:
vegetais são de grande relevância, tendo em vista a nome científico, família, parte utilizada, origem, área
utilização das substâncias ativas como protótipos para de distribuição, propriedades terapêuticas, constituição
o desenvolvimento de novos fármacos sintéticos e química entre outros. Com estas informações foi possível
como fonte de matérias primas farmacêuticas, tanto construir uma tabela sobre os dados farmacológicos e
para a obtenção de fármacos modificados quimicamente etnofarmacológicos de plantas indicadas pelos raizeiros e
(menos tóxicos e mais eficazes), quanto de adjuvantes e identificadas pelos botânicos.
fitofármacos (Schulz, 2002; Barbosa-Filho et al., 2007;
Saúde-Guimarães & Faria, 2007; Barbosa-Filho et al., RESULTADOS E DISCUSSÃO
2008; Corrêa et al., 2008; Quintans-Júnior et al., 2008;
Mariath et al., 2009). Alguns vendedores coletam as espécies no campo
Diversas pesquisas sobre a utilização de plantas e posteriormente vendem no Mercado Municipal, mas
em tratamentos terapêuticos têm sido realizadas. Entretanto, normalmente eles são intermediários que compram as
ainda há muito a se conhecer sobre o uso terapêutico, plantas de outras pessoas que realizam a coleta no campo e/
eficácia e segurança comprovada dos produtos derivados ou que cultivam as plantas e/ou importam. De modo geral,
de plantas. as plantas estavam acondicionadas em sacos plásticos ou
Os objetivos do presente trabalho foram realizar amarradas com barbante ou cordas, muitas delas estavam
um levantamento etnofarmacológico das principais úmidas e contaminadas com insetos e fungos, o que
espécies vegetais indicadas pelos raizeiros que trabalham impossibilitou muitas vezes a sua identificação. O preço
no Mercado Municipal de Campo Grande-MS e investigar médio de cada planta medicinal variou entre R$ 1,00
as informações científicas disponíveis sobre essas espécies e 3,00. Mais de 90% das plantas medicinais indicadas
e compará-las com as informações populares. estavam presentes em todas as bancas.
Foram realizadas entrevistas com todos os
MATERIAL E MÉTODOS raizeiros do Mercado Municipal de Campo Grande (dez
raizeiros) e as plantas consideradas nesse trabalho tiveram
Informações etnobotânicas mais de 50% de indicações, perfazendo um total de 117
espécies.
A etapa inicial desse trabalho foi caracterizada Muitas das plantas comercializadas já são
pelo levantamento de dados etnofarmacológicos em várias muito conhecidas e usadas tradicionalmente e não foram
ocasiões entre agosto de 2002 a agosto de 2003, através de adquiridas para identificação, tais como: sene, maracujá,
entrevistas com todos os raizeiros do Mercado Municipal melissa, hortelã, gengibre, erva-doce, calêndula, boldo-
de Campo Grande-MS, escolhido por ser uma área de do-chile, babosa, alho, alcachofra etc. O uso dessas
grande atividade comercial de raizeiros e de consumidores plantas é consagrado pela população, e muitas delas já
de seus produtos. As entrevistas foram realizadas com dez foram estudadas cientificamente e constam em literatura
raizeiros, segundo um questionário previamente elaborado especializada (Blumenthal, 1998; Blumenthal et al., 2000;
de acordo com Schardong (1999) e de modo imparcial WHO, 2001; Brandão et al., 2006; 2008; 2009) e na RE
com o objetivo de dar maior liberdade ao entrevistado. O no 89 de 16 de março de 2004 da Agência Nacional de
questionário continha informações como: nome popular vigilância Sanitária, na Lista de Registro Simplificado de
da planta, parte utilizada (raiz, caule, folha, casca), forma Fitoterápicos. Priorizou-se, nesse trabalho, a aquisição
de plantas indicadas originárias dos biomas Pantanal confirmação de suas indicações etnofarmacológicas
e Cerrado. Um total de 34 plantas medicinais foram na literatura. Quando se comparou os dados
adquiridas, e dessas somente 22 foram identificadas etnofarmacológicos com os farmacológicos, verificou-
botanicamente. se que a maioria das espécies (65,2%) não teve qualquer
Das 22 plantas identificadas, dez são típicas do estudo que confirmasse a indicação popular. Somente oito
cerrado, pode-se citar: Cochlospermum regium, Curatella espécies (34,8%) tiveram alguma atividade farmacológica
americana, Dioclea sp., Guazuma ulmifolia, Guazuma confirmada na literatura, pode-se citar: Baccharis trimera
tomentosa, Maclura tinctoria, Mikania glomerata, (carqueja), com atividade bacteriostática e bactericida,
Myracrodruon urundeuva, Phyllanthus corcovandensis, atividade antiinflamatória e analgésica; Cochlospermum
Stryphnodendron oobovatum e Waltheria indica. regium (algodão): atividade depurativa e efetiva no
Algumas plantas citadas têm nomes populares tratamento de gastrite e úlcera; Curatella americana
iguais a de espécies de outras regiões do Brasil, mas (lixeira): atividade anti-hipertensiva e vasodilatadora;
foram identificadas como espécies e famílias diferentes. Equisetum giganteum (cavalinha): atividade diurética;
Pode-se citar como exemplo a vassourinha, cujos nomes Heliotropium indicum (crista-de-galo): atividade
encontrados na literatura foram Borreria quadrifaria antinflamatória; Matricaria chamomila (camomila):
e Borreria verticillata e a espécie vegetal adquirida no efeito sedativo; Mikania cf. glomerata (guaco): atividade
Mercado Municipal e identificada foi Lepidium virginicum broncodilatadora; Myracrodruon urundeuva (aroeira):
L. Um outro exemplo é a amora brava, conhecida como atividade cicatrizante, anti-inflamatório e analgésica.
Trema micrantha (Rizzini & Mors, 1995) em outras Os resultados obtidos demonstram que as
regiões e identificada como Maclura tinctoria. informações dos raizeiros, quanto ao uso terapêutico das
Após a identificação e pesquisa bibliográfica, plantas citadas como medicinais, coincidem em quase
as plantas medicinais foram organizadas em uma tabela 50% com as indicações etnofarmacológicas encontradas
(Tabela 1) com os nomes populares citados pelos raizeiros. na literatura, no entanto, somente 34,8% têm alguma
A maioria das espécies foi citada com os mesmos nomes atividade farmacológica comprovada.
comuns por todos os raizeiros, indicando que as espécies são As informações etnofarmacológicas oferecem
geralmente bem conhecidas como remédios tradicionais. subsídios para estudos fitoquímicos, farmacológicos
A família com o maior número de citação foi e de controle de qualidade de plantas medicinais
Asteraceae (25% - Mikania e Baccharis) seguida de comercializadas e são necessários para avaliação dos
Moraceae (Maclura e Morus), Sterculiaceae (Guazuma) seus efeitos farmacológicos e toxicológicos, buscando
e Leguminosae (10% - Dioclea, Stryphnodendron). estratégias seguras para o uso dessas plantas e para a
Estas famílias representam 47,8% do total de espécies produção de fitoterápicos. Somente assim, as plantas
identificadas. As demais famílias, tais como Anacardiaceae, medicinais chegariam aos usuários com comprovação da
Dilleniaceae, Cruciferae, Rubiaceae, entre outras, têm sua eficácia e ausência de toxidade.
apenas uma espécie citada. A parte das plantas mais Um outro fator a ser considerado é que a
usada é a folha, sendo preparada principalmente como má qualidade das plantas medicinais comercializadas
infusão. Observou-se que treze plantas foram indicadas representa um risco em potencial para a população. Essas
como cicatrizante, sete plantas são usadas para diarréia plantas deveriam ter um controle mais rigoroso, no que
e disenteria, seis plantas como diurético, cinco espécies diz respeito ao conhecimento de origem das plantas, época
para doenças dos rins e vias urinárias e duas plantas da coleta, forma de coleta, armazenamento, secagem,
foram indicadas como purgativo e doenças da pele. Para acondicionamento e contaminação por fungos e outros
problemas do sistema respiratório três espécies foram microrganismos.
indicadas para o tratamento de bronquite, quatro espécies
para tosse e duas espécie como anticatarral e para resfriado.
A indicação terapêutica mais citada foi como cicatrizante,
no tratamento de feridas e dores reumáticas, e as espécies
são usadas externamente.
A maioria das espécies (87%) tem indicação de
utilização para várias patologias, como por exemplo, a
Curatella americana, utilizada para artrite, diabetes, pressão
alta, tosse, bronquite e resfriado e Matricaria chamomila,
utilizada para cólicas, como calmante, cicatrizante, etc.
Entre as espécies indicadas para diversas enfermidades
destacam-se a Matricaria camomila, Baccharis trimera,
Guazuma ulmifolia e Heliotropium indicum.
Após a pesquisa bibliográfica e elaboração da
Tabela 1, observou-se que onze espécies (47,8%) tiveram
Tabela 1. Perfil farmacológico e etnofarmacológico das espécies vegetais comercializadas no Mercado Municipal de Campo Grande
(MS).
Órgão e/ou extrato
Indicações Parte
Nome científico Nome popular Família utilizado e/ou Ação farmacológica
etnofarmacológicas utilizada
substância utilizada
Extrato em Antifúngico (Portillo
diclorometano e et al., 2001)
metanólico
Acanthospermum
Carrapicho, Extrato Antitumoral Bronquite e Folhas e
australe (Loefl.) Asteraceae
Carrapicho-praga. hidroalcoólico (Mirandola et al., disenteria raízes
Kuntze
2002)
Extrato orgânico Atividade antimalária
(Carvalho et al., 1991)
Antifúngico e
Alecrim- Exsudato das
Baccharis antibacteriano
do-campo, folhas Anti-reumática
dracunculifolia Asteraceae (Bankova et al., 1999)
Erva-cidreira-de- anticatarral
D.C. Inibe S. mutans (Leitão
arbusto Extrato das folhas
et al., 2004)
Anti-inflamatório e Utilizada para
Extrato butanólico analgésico inflamação das
(Gené et al., 1996) vias urinárias,
Decocto da planta Bacteriostático e diabetes, vermes
bactericida intestinais, diurético
Baccharis trimera
Carqueja Asteraceae (Avancini et al., 2000) e depurativo. Folhas
(Less.) D.C.
Também dá bons
Extrato Efeito vasodilatador resultados em
diclorometano e (Hnatyszyn et al., inflamações da
metanólico 2003) garganta, caso de
gargarejos
3-O-glicosil- Antinociceptivo
dihidrocanferol (Castro, 2000). Purgativo,
Cochlospermum Extrato Tóxico (Toledo et al., depurativo, usado
Algodão Cochlospermaceae
regium Pilq. hidroalcoólico 2000) para gastrites e
das partes úlceras
subterrâneas
Extrato etanólico Antihipertensivo e
vasodilatador
(Guerrero et al., 2002)
Utilizada para
Extrato Ant-inflamatório
Lixeira, caimbé, artrite, diabetes e
hidroalcoólico e analgésico
Curatella cajueiro-bravo, pressão alta. A flor
Dilleniaceae da casca (Alexandre-Moreira et
americana L. sambaíba, é utilizada para
al., 1999)
marajoara tosse, bronquite e
Extrato Hipoglicemiante e resfriado
clorofórmico da captador de radicais
casca livres (Ospina et al.,
1995)
Extrato Antinociceptivo
hidroalcoólico (Almeida et al., 2003). Utilizada para tratar:
de Dioclea febre, doenças da
Dioclea sp. grandiflora
Olho-de-boi Leguminosae pele, reumatismo, Planta toda
Spreng
Diocleina, um Relaxante da disenteria e para
flavonóide de D. musculatura lisa higiene bucal
grandiflora (Lemos et al., 1999)
Equisetum Extrato Diurético (Perez-
Cavalinha Equisetaceae Infecções renais
giganteum L. clorofórmico Gutierrez, 1985)
Extrato aquoso e Antibacteriana
metanólico (Camporese et al.,
2003)
Guazuma Polímeros de Anti-secretora (Hör et
Chico-magro Sterculiaceae
ulmifolia Lam. Proantocianidina al., 1996)
Extrato metanol: Inibição angiotensina
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