O momento exato em que
algo deixa de ser
provisório
Quase tudo começa como
provisório. Um plano
temporário, uma solução
improvisada, uma fase
curta. No início, existe a
promessa implícita de
mudança futura. Aguenta-
se porque não é definitivo.
O curioso é que não há um
marco claro quando o
provisório vira
permanente. Não existe
aviso. Um dia, percebe-se
que aquilo que era “por
enquanto” já organizou a
vida inteira ao redor de si.
O provisório confortável é
especialmente perigoso.
Ele não machuca o
suficiente para exigir
mudança, nem satisfaz o
bastante para justificar
permanência. Apenas
ocupa espaço. Aos poucos,
passa a ser defendido,
racionalizado, explicado.
Quando alguém pergunta
há quanto tempo aquilo
dura, a resposta vem
imprecisa. “Alguns meses”,
“um tempo”, “nem sei
mais”. É aí que o provisório
já venceu.
Talvez a pergunta mais
honesta não seja “quando
isso vai mudar?”, mas “em
que momento eu aceitei
que não mudasse?”.
A sensação de estar
atrasado para algo que
não tem horário
Há dias em que a pessoa
acorda com a certeza de
estar atrasada. Não para
um compromisso
específico, nem para um
evento marcado no
calendário, mas para algo
indefinido. É uma pressa
sem destino, um incômodo
sem causa clara. Tudo
parece estar acontecendo
em outro ritmo,
ligeiramente fora de
alcance.
Esse atraso não se resolve
correndo. Pelo contrário:
quanto mais se tenta
acelerar, mais evidente fica
a desconexão. As tarefas
são feitas, os
compromissos cumpridos,
mas a sensação
permanece, como se o
importante estivesse
sempre começando em
outro lugar.
Não é comparação direta,
mas também não é
isolamento. É uma
percepção sutil de
desencontro entre o tempo
interno e o tempo do
mundo. Como se as
instruções tivessem
mudado sem aviso.
Aceitar esse atraso invisível
às vezes ajuda mais do que
combatê-lo. Nem tudo
exige chegada. Algumas
fases pedem apenas
permanência, mesmo sem
saber exatamente onde se
está.
O cuidado excessivo de
não incomodar
Há pessoas que organizam
a própria existência em
torno de não incomodar.
Medem palavras, gestos,
pedidos e até emoções.
Não por timidez extrema,
mas por um senso agudo
de espaço alheio. Querem
existir sem causar ruído.
Esse cuidado começa
pequeno e parece virtude.
Com o tempo, vira filtro.
Vontades passam por ele,
necessidades também.
Muitas ficam pelo caminho,
consideradas excessivas
antes mesmo de serem
expressas.
O problema não é a
consideração, mas a
unilateralidade. Enquanto a
pessoa se dobra para não
ocupar espaço, o espaço
não se ajusta para recebê-
la. Surge então uma
presença discreta demais
para ser notada, mas
intensa demais para
desaparecer.
Aprender a incomodar um
pouco é parte do processo
de
existir de forma inteira.
Nem todo incômodo é
falha. Às vezes é apenas
sinal de contato.