Her Ruthless Warrior - R. G. Angel
Her Ruthless Warrior - R. G. Angel
Oji – Tio.
Nuhi – Escravo/Servo.
Giri – Dever/Obrigação.
Aishitemasu – Eu te amo.
Īe – Não.
Musuko – Filho.
Yome – Esposa.
Suītohāto – Querida.
DEDICATÓRIA
Aos meus leitores, muito obrigado por darem uma chance às
minhas histórias. Vocês estão mudando minha vida.
Às mulheres que conheci e ainda conhecerei, vocês são a força
motriz deste mundo, e estou muito orgulhosa de nós (exceto você,
Amber, não estou orgulhosa de você).
Aos homens com Big Dick Energy,1 obrigada por serem uma
fonte constante de inspiração para meus heróis (estou falando de
vocês, Chris, Henry, Idris, Tom, Simu... basicamente a maioria dos
uniformes justos da Marvel e da DC).
Ao café, obrigado por ser meu salvador, meu herói não celebrado
enquanto escrevia este livro. Sua contribuição pode ser silenciosa,
mas nunca esquecida.
À minha mãe, nada neste livro é seguro... NADA. Então, por
favor, apenas siga em frente.
PREFÁCIO
Koi No Yokan – O sentimento de saber, ao conhecer alguém pela
primeira vez, que você inevitavelmente se apaixonará por essa
pessoa.
CAPÍTULO 1
Vi
— Não tenho certeza se estou acompanhando — murmurei
lentamente enquanto mexia as mãos, inquieta, diante da mesa do Sr.
Reynolds.
Ele pigarreou e se recostou na cadeira, seu rosto redondo muito
mais vermelho do que o habitual.
— Bem, não sei o que há para acompanhar aqui — retrucou, na
defensiva. — Este foi um programa de treinamento de seis meses. Os
seis meses acabaram, então você não é mais necessária. — Ele
apontou para a porta atrás de si. — Vire-se e saia.
É claro que ele esperava que eu baixasse a cabeça e saísse. Eu
não era uma confrontadora, sempre seguia todas as regras e ordens
para permanecer fora do radar, para garantir que não fosse um peso
excessivo para minha mãe. Continuei assim, mesmo após sua morte.
Ele esperava que eu simplesmente fosse embora porque ele era o
diretor de marketing e eu era a assistente da assistente dele, mas era
hora de eu me posicionar. Era hora de perguntar por que, mais uma
vez, eu estava perdendo o pouco que havia conquistado com tanto
esforço.
Eu não tinha mais nada a perder.
Por favor, Deus, me dê um alívio. Eu realmente preciso de uma
vitória.
— Senhor, desculpe-me insistir, mas quando fomos admitidos
neste programa de aprendizado, nos disseram que o melhor
desempenho receberia uma posição permanente. Fui assegurada, por
meio das avaliações mensais, que eu seria a escolhida para essa
posição. A Sra. Taylor até me pediu para voltar esta manhã para
assinar meu contrato e iniciar o cargo permanente.
O rosto dele ficou ainda mais vermelho enquanto ele ajustava
sua posição na cadeira, sua barriga imponente pressionando contra a
mesa ao se inclinar para frente.
— As coisas mudam todos os dias no mundo corporativo, Srta.
Murphy. Você saberia disso se tivesse se esforçado para se educar e
não tivesse abandonado a escola aos dezesseis anos.
Inspirei profundamente, sentindo o impacto verbal. Esse golpe
doeu mais do que eu esperava, especialmente considerando o motivo
pelo qual abandonei a escola tão jovem.
Nunca foi minha escolha — não, foi apenas mais uma coisa boa
que a vida me roubou.
Pisquei e baixei o olhar, perdendo a pequena chama de injustiça
que ardia em mim — o que me levou a lutar por mim mesma.
Ele suspirou.
— Escute, as empresas passam por reestruturações o tempo
todo. A posição que antes seria preenchida não existe mais.
Um flash de vermelho no canto do meu olho chamou minha
atenção, e olhei pela parede de vidro do escritório para ver a
sobrinha do Sr. Reynolds sentada no que foi minha mesa pelos
últimos meses.
— Entendo... — murmurei, derrotada demais para tentar. Não
era nada que eu tivesse feito, nada que a empresa realmente tivesse
feito, era simplesmente um caso de nepotismo.
Ele seguiu meu olhar e lançou um olhar fulminante para a
sobrinha, que deu a ele um sorriso tímido antes de se virar para a
tela.
Eu deveria me sentir melhor por ele querer esconder isso de
mim? Era para preservar meus sentimentos delicados ou para
garantir que eu não fizesse uma cena?
Ele suspirou.
— Escute, Violet.
Agora era Violet, não é? Ele obviamente sabia que eu era
inteligente o suficiente para entender a situação.
— Você foi boa, muito boa até, e não está saindo de mãos vazias.
Nós... — Ele olhou ao redor da mesa e parou no talão de cheques
corporativo encadernado em couro. — Se você tivesse me deixado
terminar antes, saberia que decidimos conceder a você um bônus
generoso de duas semanas para agradecer pelo seu trabalho árduo.
Saiba também que, caso uma posição inicial fique disponível, seu
nome estará no topo da lista.
Olhei para ele enquanto ele pegava o talão e preenchia um
cheque. Generoso? Esse aprendizado mal pagava o salário mínimo, e
eu precisei trabalhar algumas noites por semana na lavanderia da
rua só para sobreviver.
Eu deveria começar hoje um emprego com um salário de
quarenta e cinco mil dólares por ano. Nada de extraordinário para a
maioria das pessoas, mas para mim... isso teria mudado toda a
minha vida.
Em vez disso, eu sairia com sonhos despedaçados, tempo
desperdiçado e um cheque de... Estendi a mão para pegar o pedaço
de papel branco que ele me entregou e li o valor. $932,15?! Ele estava
falando sério? Olhei para ele. Esse canalha ainda descontou os
impostos!
— Essa experiência é inestimável, Violet. Você passou seis meses
trabalhando para uma das maiores empresas imobiliárias da
Califórnia. Não é algo insignificante, sabe, e estou disposto a fornecer
uma referência excepcional, caso precise.
Eu sabia o que ele não estava dizendo. Saia sem fazer uma cena,
e eu te ajudarei.
Olhei novamente para o cheque. Meu Deus, como eu queria não
precisar desse dinheiro. Como eu queria poder amassá-lo e enfiá-lo
tão fundo na garganta dele que ele não conseguisse mais respirar.
Recuei. De onde veio isso? Eu não era violenta, nunca fui, mas
esse impulso...
Está nos seus genes.
Sacudi a cabeça e pisquei enquanto lágrimas ardiam no fundo
dos meus olhos.
— Eu... Sim, obrigado, senhor. — Eu estava agradecendo ao
homem que provavelmente roubou minha única chance de sair da
minha situação, apenas para dar o emprego à sua sobrinha mimada,
que só queria o cargo por capricho ou como punição.
— Não há de quê. Desejo a você toda a sorte do mundo.
Assenti em silêncio, completamente exausta e sem palavras, e
me virei para sair.
— Violet? — ele chamou quando alcancei a porta.
Virei a cabeça para ele, a esperança florescendo em meu coração
contra meu próprio conselho. Talvez ele tivesse percebido que era
injusto, talvez tivesse encontrado uma solução. Talvez ele apenas...
— Não se esqueça de deixar seu crachá com a segurança lá
embaixo.
Meu coração despencou novamente enquanto a vergonha pela
minha própria estupidez se juntava às outras emoções furiosas.
Eu deveria saber... Quando foi que a vida deu um alívio para
pessoas como eu?
Puxei a alça da minha bolsa de brechó mais para cima no ombro
e caminhei pelo corredor com o máximo de dignidade que consegui
reunir, tentando responder aos pequenos sorrisos tristes que as
pessoas me davam pelo caminho.
Sandra, assistente do departamento financeiro, entrou no
elevador justo quando a porta se fechava atrás de mim.
— Isso é uma merda! — exclamou ela, com as bochechas
vermelhas e os olhos brilhando com uma indignação que, de alguma
forma, me fez sentir melhor e pior ao mesmo tempo.
— O quê?
— Tudo! — Ela fez um gesto amplo com as mãos, forçando-me a
dar um passo para o lado para evitar ser atingida no olho por uma de
suas unhas longas e pontiagudas. — Aquele velho pervertido mais
uma vez ferrou esta empresa ao contratar um de seus parentes
atrasados, e ninguém faz nada — bufou ela. — Juro, esse homem
sabe de algo para se safar com tanta porcaria.
Concordei com ela, é claro. Eu tinha visto muita coisa nos
últimos seis meses, incluindo os olhares lascivos que ele não tinha o
direito de lançar a jovens mulheres mal saídas da adolescência, mas
eu não estava com humor para alimentar o fogo. Estava com raiva,
sim, mas principalmente triste e cansada, tudo envolto em uma
avassaladora sensação de derrota e fatalidade.
— É o que é. — Dei de ombros, desejando que o elevador
descesse um pouco mais rápido.
É o que é... A história da minha vida.
— Vou ficar bem, não estou preocupada. — Talvez, se eu dissesse
isso o suficiente, acreditaria. Suspirei aliviada quando o elevador
apitou, anunciando que meu destino havia sido alcançado. — É
melhor você voltar agora antes que se meta em problemas. Até mais
— acrescentei, saindo rapidamente do espaço fechado, apertando o
passe de plástico na mão, sentindo-o cravar dolorosamente na
palma.
Parei na recepção branca e encontrei Reginald, que me lançou o
mesmo olhar de pena que recebi lá em cima. Ele era do mesmo
bairro que eu, então sabia o peso da oportunidade que me foi
roubada.
— Sinto muito, pequena — disse ele suavemente, descansando
sua grande mão sobre a minha.
Olhei para o gesto gentil e minha compostura frágil rachou,
deixando algumas lágrimas ardentes escaparem.
Reginald era uma figura paterna gentil que me tratou com nada
além de bondade desde meu primeiro dia aqui e conseguiu me fazer
sentir confortável quando eu estava à beira de hiperventilar.
— Você tem vinte e um anos, menina, você vai se reerguer. Sei
que vai.
Funguei, ainda mantendo os olhos baixos, olhando para minhas
poucas lágrimas brilhando no balcão branco.
Ele apertou minha mão.
— Deixe-me chamar um Uber para você, você merece. A empresa
te deve essa corrida.
— Obrigada. — Normalmente, eu teria recusado, temendo que
ele se metesse em problemas.
Mas eu não estava com vontade de fazer a viagem de trinta e
cinco minutos, com duas trocas de ônibus, para casa, vestindo um
vestido que coçava e os saltos desconfortáveis que comprei no brechó
da rua para parecer profissional.
Eu me senti uma fraude o caminho todo até aqui, e agora, além
de uma fraude, sentia-me uma fracassada.
— O carro estará aqui em alguns minutos.
— Obrigada, Reginald... por tudo.
— De nada, pequena. Não seja uma estranha.
Saí, decidindo esperar o carro do lado de fora, esperando que o
sol quente me fizesse sentir um pouco melhor.
Peguei meu celular e liguei para Jake. Eu precisava do meu
namorado agora. Precisava que ele me fizesse sentir melhor, mesmo
que ele tivesse me avisado desde o início para não criar expectativas.
O telefone tocou e caiu direto na caixa postal. Ele provavelmente
estava “na zona”, trabalhando em algum de seus projetos freelance.
Suspirei, guardando o celular na bolsa enquanto um sedã verde
desacelerava e parava na minha frente.
— Carro para Violet?
— Sim, obrigada.
Sentei-me no banco traseiro e, em vez de dar meu endereço, dei
o de Jake. Ele morava muito mais longe do centro e, de alguma
forma, a pequena mesquinhez de saber que essa corrida custaria o
dobro para me levar até lá, em vez do meu pequeno apartamento, me
fez sentir um pouco melhor. Eu estava dando o troco ao sistema —
mesmo que fosse por meros trinta dólares.
Jake não morava no meu bairro degradado. Ele conseguiu
escapar e subir alguns degraus na escada da vida, vivendo em uma
área com menos armas do que pessoas. Ele “conseguiu”, como
gostava de repetir a cada oportunidade.
Eu tinha certeza de que ele poderia fazer uma pausa em seu
projeto atual e me fazer sentir melhor. Fechei os olhos e me encostei
no encosto de cabeça, deixando as vibrações do carro me acalmarem
e aliviarem um pouco do estresse.
Não consegui evitar uma careta ao pensar em voltar a trabalhar
no Sunset Strip, o suposto clube de cavalheiros “de alto padrão” que
abrigava o mesmo tipo de pervertidos que clubes de strip baratos,
exceto que os clientes tinham carteiras mais recheadas... e corações
mais sombrios.
Suspirei, abrindo os olhos e encontrando o olhar curioso do
motorista, que logo voltou a olhar para a estrada.
Eu já podia imaginar o sorriso sarcástico de Liam quando eu
voltasse e pedisse meu emprego de garçonete de volta. Como ele me
daria a segunda parte do discurso que fez quando eu disse que estava
saindo. Ele me diria, mais uma vez, que o Sunset Strip era uma
família e que você não simplesmente abandona sua família. Então,
em sua magnânima bondade, e em memória de seu pai e da minha
mãe, ele me daria meu emprego de volta.
Não consegui conter o pequeno grunhido de irritação que
escapou da minha boca com o pensamento.
— Você pertence a este lugar, Violet, como sua mãe. Por que
está tentando tanto escapar? — Porque eu não queria a mesma vida
que ela teve, porque ela não queria nada além de que eu conseguisse
escapar. Porque eu devia a ela tentar com todas as minhas forças.
— Olá? Senhorita?
Meus olhos se abriram e olharam pela janela, surpresa por ter
sido arrancada dos meus pensamentos.
Fitei a pequena casa térrea de Jake do outro lado da rua,
tentando recompor meus pensamentos e minha compostura, pelo
menos o suficiente para contar tudo a ele.
— É o endereço errado? — perguntou ele, sem se preocupar em
esconder a irritação na voz.
— Não, desculpe-me. — Sacudi a cabeça e abri a porta. — Está
certo, desculpe-me.
Ele murmurou algo por baixo do fôlego, e eu mal tinha fechado a
porta atrás de mim quando o carro acelerou.
Atravessei a rua e parei na calçada, franzindo a testa para o
pequeno carro vermelho estacionado logo atrás do Volvo de Jake.
Era um carro bem popular, mas algo me fez dar alguns passos
hesitantes em direção a ele, enquanto uma sensação ruim se
instalava no fundo do meu estômago.
Minha testa franziu ainda mais quando notei o par de sapatilhas
vermelhas penduradas no retrovisor. Podia ser um carro comum,
mas aquele adorno? Não era.
Era o carro de Serena. Serena, minha suposta amiga e uma das
strippers mais populares do Sunset Strip. Serena, que morava do
outro lado da cidade e que só encontrou Jake duas vezes antes.
Virei-me para a casa e caminhei lentamente enquanto a sensação
ruim se transformava em gelo no meu estômago.
Quanto mais me aproximava da porta da frente, mais eu
hiperventilava, imaginando o pior.
Deve haver uma explicação. Podia ser apenas uma coincidência.
Jake não faria isso comigo, não depois de tudo pelo que passei.
Eu disse a ele que queria esperar, que minha virgindade tinha valor
para mim, e ele disse que estava de acordo com isso. Disse que
esperaria o tempo que fosse necessário, e, apesar de estarmos juntos
há mais de um ano, ele nunca me pressionou. Eu temia descobrir
agora por que isso poderia ter acontecido.
A bile subiu à minha garganta ao alcançar a porta da frente,
incerta se queria enfrentar o que poderia estar acontecendo ou, se
nada sórdido estivesse ocorrendo, enfrentar minha própria
desconfiança injustificada. Pensei que havia superado meus
problemas de confiança. Pensei que estava pronta para os próximos
passos nesta relação, mas se uma simples coincidência podia abalar
toda a base do nosso relacionamento, talvez eu não estivesse tão
pronta assim.
Levantei a mão para bater, mas pensei melhor e olhei ao redor,
tentando descobrir onde ele escondia a chave reserva.
Olhei sob os vasos de plantas no pátio e sob o tapete da porta
sem sorte, até me lembrar que ele comprou aquela pedra falsa
ridícula durante uma de nossas idas ao Target.
Olhei ao redor e, apesar da preocupação crescendo dentro de
mim, sorri ao notá-la ao pé dos arbustos que roçavam os degraus de
madeira.
Peguei-a e soltei um pequeno suspiro de alívio ao encontrar a
chave aninhada dentro dela.
Se nada de sórdido estivesse acontecendo, ele provavelmente
questionaria minha visita não convidada, mas eu estava preocupada
demais para pensar nisso agora.
Abri a porta lentamente e não precisei questionar minha decisão
ao ouvir um gemido gutural de prazer.
Apertei a chave, sentindo suas bordas na palma da mão
enquanto dava um passo lento após o outro, tentando garantir que
ele não ouvisse o toc dos meus saltos quadrados estúpidos contra o
piso de madeira.
Quanto mais me aproximava do quarto, mais altos ficavam os
sons. Também podia ouvir Serena chamando o nome dele, pedindo
que ele a possuísse com mais força com seu pênis grande e grosso.
Parei, apoiando a mão na parede enquanto meu estômago se
revolvia violentamente.
Quase desejei vomitar agora mesmo e fazer ele limpar depois de
selar meu dia horrível com a pior traição.
Sacudi a cabeça. Chega! Eu não podia continuar me torturando,
ouvindo os sons do prazer deles. Eles precisavam saber que eu sabia.
A porta do quarto estava entreaberta, e eu a empurrei com força,
fazendo-a bater contra a parede — a adorável parede amarela que eu
pintei para ele no último mês.
Que estúpida eu fui! Queria ajudá-lo a ter uma casa bonita —
onde pensei que um dia me mudaria, mas claramente não com a
intenção de que ele transasse com outra mulher.
Apesar de saber o que encontraria, foi quase demais para
suportar.
Ela, de quatro, sobre a colcha de girassóis que escolhi para
combinar com o quarto, e ele, segurando seu longo rabo de cavalo
enquanto a penetrava por trás, com a cabeça jogada para trás em
puro abandono.
Ela gritou ao me ver e caiu de cara na cama.
Ele olhou para trás, e seu rosto passou de prazer absoluto para
choque em um instante, e, apesar da dor dilacerante, senti-me um
pouco melhor sabendo que arruinei seu prazer — assim como ele
acabara de arruinar um ano da minha vida.
Eu não me tornaria minha mãe!
Virei-me e comecei a correr quando ele gritou meu nome. Corri
para fora e pela rua, minha visão embaçada pelas lágrimas e minhas
pernas trêmulas, tanto pela turbulência dolorosa dentro de mim
quanto pelos saltos que não estava acostumada a usar.
Ouvi ele chamar meu nome novamente e percebi que ele me
seguia pela rua!
Merda! Corri mais rápido, apesar dos meus olhos ardentes
comprometerem minha visão. Peguei ruas laterais aleatoriamente só
para despistá-lo.
Atravessei uma rua sem olhar — um erro, um de muitos, na
verdade — mas o que percebi que custaria minha vida quando vi a
forma de um carro preto vindo em alta velocidade na minha direção.
Meu tornozelo torceu quando meu salto encontrou uma
irregularidade no meio da rua, e caí pesadamente.
Ouvi a buzina, o barulho dos pneus e fechei os olhos com força,
preparando-me para o impacto.
Sim, eu ia morrer hoje, em desgraça e vergonha... Era irônico
como as coisas completaram um ciclo.
Eu ia morrer do mesmo jeito que nasci.
CAPÍTULO 2
Vi
Prendi a respiração, mas não senti nada. Estava morta? Não, as
dores ardentes nas palmas das mãos e nos joelhos me diziam que eu
ainda estava muito viva.
Era para eu me sentir aliviada com isso? Por um segundo,
apenas uma fração de segundo, pensei que talvez não fosse tão ruim
se eu finalmente partisse, se pudesse apenas parar de lutar. Tudo
estava ficando tão exaustivo.
Abri um olho e vi um par de sapatos derby pretos brilhantes.
Abri o outro olho e levantei a cabeça lentamente, observando as
calças sociais pretas, o cinto de couro caro, a camisa branca, o paletó
preto e a gravata listrada até chegar ao rosto, que não consegui ver,
pois fui cegada pelo sol. Parecia uma forma escura cercada por um
halo, como se ele fosse meu anjo guardião.
Soltei uma risada quebrada com o pensamento. Eu realmente
poderia usar um desses agora.
O homem se agachou na minha frente, e eu pude ver seu rosto —
bem, parcialmente, já que ele usava óculos de sol estilo club-master.
Mas, apesar dos meus sentimentos horríveis, eu podia ver que
ele era deslumbrante, com ombros largos, maxilar bem definido,
lábios amplos e um nariz reto e longo. Era um exemplar perfeito,
como os que se vê em revistas. Ele provavelmente era um daqueles
modelos masculinos aqui para alguma sessão de fotos. Isso não era
tão excepcional por aqui. Estávamos perto o suficiente de Los
Angeles para isso ser comum.
O que me surpreendeu foi a mecha de cabelo preto longo que
escapou de seu coque masculino. De alguma forma, eu não esperava
que alguém vestido como ele usasse o cabelo assim.
— Eu?
Pisquei para ele, claramente perdendo o que ele disse.
— Você consegue me ouvir?
Assenti enquanto a suavidade de sua voz grave se instalava bem
na base da minha espinha. Ele poderia ser um anjo, afinal —
ninguém soava assim na vida real.
Ele suspirou com alívio.
— O que passou pela sua cabeça para correr na frente de um
carro assim?! Você poderia ter...
— Violet!
Encolhi-me quando a voz nasal de Jake me deu vontade de
vomitar.
O homem olhou na direção da voz e ficou tenso.
— Acho que tenho minha resposta — murmurou sombriamente.
— Vá embora, Jake. Não tenho mais nada a dizer para você. —
Meu Deus, eu precisava soar tão quebrada e patética?
— Não, precisamos conversar, Violet.
— Eu não fazia ideia de que seu projeto de trabalho envolvia
transar com minha amiga. Desculpe-me por estar chateada, Jake.
Que irracional da minha parte! — retruquei com sarcasmo.
Os lábios do homem se curvaram em um lado, e eu não precisava
ver seus olhos para saber que ele estava, de alguma forma, orgulhoso
de mim.
— Deixe-me ajudá-la a se levantar — disse ele gentilmente,
estendendo a mão para mim.
Ele me segurou, ajudando-me a levantar, e envolveu o braço ao
redor da minha cintura, aproximando meu rosto de seu peito.
Fechando os olhos, inspirei profundamente seu perfume amadeirado
e caro.
Seu toque e movimentos eram surpreendentemente gentis para
alguém do seu tamanho, e eu quase não senti dor quando ele me
levantou.
Ele me estabilizou, descansando as mãos nos meus quadris. Eu
não era uma mulher alta, mas aquele homem era particularmente
alto. Eu diria pelo menos um metro e noventa, ou um metro e
noventa e dois, já que, mesmo com esses saltos, eu mal alcançava seu
peitoral.
— Você está bem? — perguntou ele novamente.
— Tire suas mãos dela — ameaçou Jake.
Eu acabara de pegá-lo no flagra com outra mulher, e ele ousava
ser territorial? Depois de tudo o que acabou de fazer? Eu quase
deixaria esse estranho me possuir no meio da rua pelo que Jake fez.
A imagem passou pela minha cabeça, e corei profundamente —
esperando que eles interpretassem isso como uma onda de raiva em
vez de um desejo vergonhoso por esse completo estranho.
O homem manteve as mãos nos meus quadris, apertando
levemente enquanto virava a cabeça para Jake.
Segui seus olhos e olhei para Jake pela primeira vez desde sua
chegada, e não foi difícil perceber o que ele estava fazendo antes de
sair, com a camiseta do avesso, o jeans abotoado errado e os pés
descalços.
— Eu disse tire suas mãos — repetiu Jake, encarando onde o
estranho me segurava.
Abri a boca para responder, mas o homem foi mais rápido.
— E eu tenho certeza de que ela disse para você sumir... e você
ainda está aqui. Acho que nenhum de nós é muito bom em ouvir o
que nos dizem.
Jake deu um passo em nossa direção, avaliando o homem com
cautela.
— Violet, deixe-me levá-la para casa e podemos conversar. — Ele
apontou para minhas pernas. — Você não pode pegar o ônibus assim.
Olhei para meus joelhos, finalmente ciente da dor que senti
quando caí.
— Oh. — Foi tudo o que consegui dizer, olhando para os
arranhões sangrentos nos dois joelhos.
— Eu a levarei para casa — disse o estranho de voz suave com
certeza, soltando meus quadris.
Sinos de alarme soaram quando levantei a cabeça com surpresa,
olhando para o estranho. Eu ouvi podcasts suficientes e assisti
documentários sobre assassinatos para saber que ir com ele
provavelmente era a melhor maneira de acabar morta.
— Não, você não vai — protestou Jake.
Encolhi-me. No estado atual das coisas, eu preferia arriscar com
meu potencial assassino do que ficar em um carro com Jake pelos
próximos vinte minutos.
Olhei para o homem e assenti.
— Isso seria muito gentil da sua parte.
Ele se abaixou para recuperar o conteúdo da minha bolsa no
chão enquanto Jake dava um passo em minha direção.
Dei um passo instintivo para o lado e esbarrei no homem
enquanto ele se levantava com minha bolsa na mão. Ele a entregou
para mim.
— Entre no carro, está destrancado.
Eu ainda estava muito abalada para ouvir os sinos de alerta na
minha cabeça. Caminhei até a porta do passageiro do SUV luxuoso
antes de me virar e olhar para as costas do homem enquanto ele
caminhava lentamente em direção a Jake, uma tatuagem aparecendo
na gola de sua camisa na nuca.
Ele abaixou a cabeça e sussurrou algo no ouvido de Jake que fez
Jake dar alguns passos para trás enquanto toda a cor sumia de seu
rosto.
— Entendido? — disse o homem, e Jake assentiu bruscamente
antes de me lançar um olhar impotente.
O homem suspirou e virou-se antes de abrir a porta para mim e
me ajudar a entrar.
Isso não era algo que Jake ou qualquer outra pessoa já tivesse
feito por mim. Como era triste que um perfeito estranho me
mostrasse mais consideração do que meu namorado jamais
mostrou?
Olhei para os assentos de couro e o painel de madeira e cromo.
Quanto custava esse carro?
Olhei para ele enquanto ele se acomodava ao meu lado, seu
perfume e presença me confortando contra todas as probabilidades.
— Você está bem?
Assenti.
— Eu gostaria de ouvir palavras, se não se importar.
Olhei para baixo.
— Eu... estou bem. — Estava? Algum dia estaria?
Ele suspirou e levou a mão em minha direção.
— Oh, você está sangrando! — exclamei ao notar o corte em seu
dedo indicador e a gota de sangue que pingava no carpete preto do
assoalho.
Ele olhou para o dedo e deu de ombros.
— Não é nada.
Era estranho não ver seus olhos, realmente parecia que ele
estava escondido atrás de uma parede, e eu estava recebendo apenas
metade das informações.
— Não, não. Não queremos manchar seu carro. — Revirei minha
bolsa em busca de algo para ajudar com o sangramento quando notei
a caneca de café quebrada dentro dela. Foi um presente de Jake — no
final das contas, era bom que estivesse tão destruída quanto nosso
relacionamento.
— Não importa. Este carro já viu coisas piores do que algumas
gotas de sangue.
— Viu coisas piores? — perguntei, lançando lhe um olhar de
lado. Ele poderia ser um assassino em série, afinal.
Ele soltou uma risada grave.
— Quis dizer passageiros bagunceiros, não poças de sangue.
Finalmente encontrei o que procurava no bolso lateral da minha
bolsa e corei com o padrão do curativo. Não tinha percebido que era
aquele que guardei para emergências.
— Desculpe-me. É tudo o que tenho. — Encolhi-me enquanto
colocava o curativo de Hello Kitty em seu dedo.
— Ah. — Ele olhou para o curativo por um segundo antes de
soltar uma risada baixa. — Acho que isso me dá um charme a mais.
Ele ligou o carro e começou a dirigir pela rua.
— Sou Violet — ofereci depois que ele fez um retorno na rua, e
passamos por um Jake carrancudo — não que ele pudesse me ver
através da janela escura.
O homem virou a cabeça para me lançar um olhar rápido antes
de se concentrar na estrada novamente.
— Desculpe-me. Eu deveria ter me apresentado antes. Não estou
acostumado a pessoas não... — Ele sacudiu a cabeça. — Sou Hoka.
— Hoka? — Tentei, incerta se tinha entendido corretamente. Era
um nome que nunca ouvi antes.
Ele me deu um aceno brusco.
— Hoka — repeti mais uma vez com um sorriso. — Gosto dele.
— Fico feliz que aprove.
Encolhi-me com o quão estúpido deve ter soado, como se ele se
importasse se eu gostava do nome dele ou não.
Estava prestes a me desculpar quando ele virou à esquerda no
final da rua de Jake para ir ao centro em vez da rodovia, e percebi
que não tinha dado meu endereço.
Ele também não perguntou, não é? Lancei lhe um olhar suspeito
de lado. Isso realmente estava começando a parecer um episódio de
Dateline.
— Você está indo pelo caminho errado. Eu moro em Eastend.
Hoka olhou para mim novamente, suas sobrancelhas saltando
acima dos óculos de sol — o único sinal de sua surpresa com onde eu
morava.
— Estou levando você ao hospital St. Mary’s. Você está
machucada.
Olhei para minhas pernas e meus joelhos arranhados cobertos
de sangue seco e pequenos pedregulhos pretos. Não doía realmente
até agora, provavelmente por causa da adrenalina causada por toda a
situação, mas agora que olhava, começava a arder.
— Não.
Ele desacelerou e virou a cabeça para mim lentamente. Nossa,
que reação para apenas uma ida ao hospital. Talvez ele achasse que
eu era louca e se arrependesse de me oferecer uma carona.
— Eu só... não é nada que eu não tenha lidado antes. — Apontei
para meus joelhos e soltei o que esperava ser uma risada
desdenhosa, embora soasse quebrada e patética aos meus ouvidos.
Não tenho seguro. Sou extremamente pobre e não considerarei ir ao
hospital a menos que a morte esteja à minha porta. — Apenas me
deixe na clínica Fremont na rua Bellsway, está bem.
— Clínica Fremont... — A maneira como ele pronunciou as
palavras deixava claro que ele sabia exatamente o que era e não
aprovava.
Ele parou em um cruzamento, apesar da rua estar vazia, e ficou
ali por alguns segundos, como se estivesse pensando.
Talvez ele não soubesse onde ficava.
— Se você... — comecei enquanto ele ligava a seta e virava à
esquerda. — A rua Bellsway é para o outro lado.
— Eu sei, mas essa clínica... — Ele sacudiu a cabeça. — Suponho
que você não tenha seguro, mas pelo menos me deixe levá-la ao meu
médico particular. Ele está de plantão, então não me custará nada a
mais.
Torci a boca para o lado com incredulidade. Eu mal acreditava
que alguém realmente tivesse um médico de plantão, mas, ao mesmo
tempo, não estava com vontade de esperar quatro horas só para ver
um médico que preferia estar em qualquer outro lugar.
— São apenas arranhões, nada com que se preocupar.
— Talvez, mas prefiro garantir que não seja nada mais. A estrada
é uma placa de Petri para germes e bactérias. Quem sabe o que pode
acontecer se não for tratado adequadamente? — Ele gesticulou em
direção aos meus pés, mantendo os olhos na estrada. — Seu
tornozelo também está ficando um pouco mais escuro. Só quero
garantir que nada esteja quebrado.
Olhei para baixo e, de fato, meu tornozelo esquerdo estava um
pouco inchado e com um leve tom azulado. Lancei-lhe outro olhar de
lado enquanto minhas perguntas sobre esse homem subiam a outro
nível. Como ele notou isso? Ele não tirou os olhos da estrada.
Não podia dizer que tinha medo dele, embora devesse, mas eu
estava cautelosa e, apesar de ele me mostrar o que parecia ser uma
bondade genuína, não podia evitar que meu nível de cautela subisse
alguns degraus.
Talvez fosse apenas quem ele era, mas ele era tão imponente, tão
avassalador com apenas algumas palavras.
— Entendo. Você não gostaria que eu morresse de sepse sob sua
responsabilidade. — Minha voz tremeu, apesar da tentativa de
leveza.
Ele virou-se para mim, provavelmente notando o estresse na
minha voz. Será que esse homem perdia alguma coisa?
Ele sorriu mais intensamente do que antes, revelando uma
pequena covinha na bochecha esquerda.
— Estou assustando você, desculpe.
— Não, eu... — Olhei para minhas mãos no colo, sentindo as
bochechas corarem.
Ele suspirou.
— Não foi minha intenção. Estou acostumado a assumir o
comando, é o meu trabalho, e às vezes esqueço que nem todos sabem
disso. — Ele soltou uma risada desdenhosa. — Não conheço pessoas
novas com frequência.
A admissão de alguma forma aliviou minha apreensão. Ele
acabou de compartilhar algo que provavelmente era um pouco difícil
de admitir.
— Só não me sinto confortável sendo um fardo para qualquer
pessoa — admiti. — Você claramente tinha algum lugar para ir, e se
sente obrigado a ajudar quando não é culpado. — Era apenas uma
verdade parcial, mas eu não podia dizer que sua presença era
avassaladora. Ele claramente não tinha controle sobre isso.
— Eu estava dirigindo rápido demais.
— Talvez — concedi com um aceno. — Mas fui eu quem
atravessou a rua sem olhar, usando sapatos assassinos.
— Tudo bem, então ambos fizemos coisas estúpidas. Que tal
culparmos o namorado traidor? — ofereceu ele com um sorriso
sarcástico. — Ele não merece menos.
— Como você sabe que ele está traindo?
— É clássico, realmente. O quão chateada você estava, o estado
de desleixo dele. A ousadia do homem de ousar reivindicar você.
— Ele é um canalha.
Ele riu antes de ficar sério novamente.
— Algo precisa ser dito, no entanto. Não sei da situação entre
vocês dois, e não preciso saber, mas você precisa entender que
nenhum homem, e quero dizer nenhum homem no mundo inteiro,
merece que você arrisque sua vida por ele.
Assenti em silêncio. Não havia muito que eu pudesse dizer,
porque eu sabia disso — era algo que minha mãe repetia para mim
desde que eu era pequena.
Olhei pela janela enquanto as casas se transformavam em
prédios de médio porte e depois em arranha-céus à medida que nos
aproximávamos do centro.
Hoka parou o carro em frente a um prédio moderno branco e
prateado, e o porteiro desceu correndo os degraus para abrir minha
porta e me ajudar a sair.
Desci e estremeci quando meu pé tocou a calçada. Agora que a
adrenalina e a raiva haviam diminuído, eu podia definitivamente
sentir dor no tornozelo.
Droga, por favor, que não seja sério... Eu precisava dos meus pés
se quisesse meu emprego de volta.
Dei alguns passos na calçada e estremeci, olhando para meus
sapatos de bico aberto e unhas pintadas de rosa.
O que tentar parecer bonita e feminina fez por mim? Nada. Se
eu tivesse continuado usando minhas botas de combate, estaria bem.
— Você está com dor — apontou Hoka, vindo ficar ao meu lado.
O tom dele não deixava margem para dúvidas, e eu tinha certeza
de que meu rosto dizia tudo o que ele precisava saber. Não havia
sentido em negar.
— Sim, mas é...
Não consegui terminar, pois ele removeu os óculos de sol e se
abaixou para me carregar.
Soltei um gritinho quando ele me levantou no estilo noiva, como
se eu não pesasse nada, e subiu os degraus.
— O que você está fazendo?! Me coloque no chão! — gritei
enquanto entrávamos no prédio e todas as pessoas no saguão se
viraram para nós.
— Todos estão olhando — sibilei enquanto ele continuava
caminhando com a cabeça erguida em direção aos elevadores.
— Provavelmente não teriam notado se não fosse pelos gritos e
contorções — respondeu ele enquanto as portas se abriam para uma
mulher, que saiu olhando para ele com tanto desejo que não pude
evitar corar com a intensidade.
— Isso é ridículo. Posso ficar de pé agora. Além disso, eu... Seus
olhos... — sussurrei a última palavra, hipnotizada quando ele olhou
para baixo e seus olhos encontraram os meus.
Inclinei a cabeça para o lado, esquecendo que estava sendo
carregada em um elevador.
Fiquei feliz por ele ter mantido os óculos antes, ou eu não teria
conseguido parar de encarar.
Seus olhos eram âmbar — não o castanho claro que às vezes
chamamos de âmbar, não, os dele eram inquietantes, como se ouro
derretido tivesse sido colocado em seus olhos.
— Sim? — Seus olhos percorriam meu rosto, como se
procurassem algo. Não tinha certeza do que ele buscava, mas eles
pararam nos meus lábios por apenas um segundo. Foi o suficiente
para fazer meu coração pular.
O elevador apitou e a porta se abriu, mal aliviando meu coração
acelerado.
O constrangimento e a surpresa que senti por ser carregada
assim começaram a se dissipar. De repente, eu estava muito ciente
do corpo dele contra o meu, do suave perfume fresco de sua colônia,
do plano firme de seu abdômen contra meu quadril.
Olhei para cima enquanto ele caminhava até o balcão de
recepção, sem se importar com quem estava sentado ali ou como isso
poderia parecer. Detalhei sua mandíbula esculpida, descendo pela
coluna de seu pescoço, até a borda de sua camisa, onde outra
tatuagem mal aparecia.
— Nishimura-Sama. — A urgência no tom dela me fez virar para
olhá-la enquanto a jovem se levantava rapidamente e fazia uma
reverência para ele.
— Minha amiga caiu e se machucou. Quero que ela seja atendida
pelo Dr. Mori, agora. — Ele olhou para mim com um pequeno
sorriso, e não pude evitar me perguntar quem ele poderia ser para
justificar tal saudação.
Como se isso fosse acontecer. Um médico largando tudo para...
— Sim, claro. Por favor, siga-me até a sala três, e eu o chamarei
imediatamente.
Sério, quem é esse cara? Um príncipe ou algo assim? Meus
olhos se estreitaram enquanto seu sorriso se transformava em um
sorriso arrogante.
Lancei um olhar para as pessoas sentadas na sala de espera, que
compartilhavam vários olhares de irritação, enquanto seguíamos a
mulher por um corredor.
— O Dr. Mori estará aqui em breve — disse ela rapidamente,
fechando a porta atrás de si enquanto ele me colocava na mesa de
exame coberta com papel preto.
— Isso foi desnecessário, estou bem.
Ele se encostou na parede, cruzando os braços no peito.
— Então me faça o favor.
Estava prestes a dizer que talvez tivéssemos que esperar um
pouco quando a porta se abriu, revelando um homem asiático baixo
com cabelos grisalhos.
— Nishimura-San. — Ele fez uma reverência para Hoka, que
ainda estava encostado na parede.
Hoka deu uma pequena inclinação de cabeça e se endireitou.
— Minha amiga está machucada. Agradeceria se você pudesse
examiná-la e oferecer o atendimento premium total.
Inclinei a cabeça para o lado para perguntar o que era o
atendimento premium, mas Hoka acenou e saiu da sala antes que eu
tivesse a chance.
Soltei um pequeno suspiro de alívio, sua presença era tão
avassaladora que parecia que eu finalmente podia respirar
novamente quando ele saiu.
O médico se aproximou, examinando meu rosto com interesse
detalhado, como se eu fosse um espécime raro.
— Sou o Dr. Mori, senhorita...? — perguntou, pegando uma
prancheta em sua mesa.
— Sou Violet Murphy.
— O que aconteceu com você?
— Eu... hum, caí — ofereci, apontando para meus joelhos, e
então mostrei a palma da minha mão direita. Tive sorte de meu pulso
parecer estar bem, porque eu poderia dar adeus ao meu emprego se
ele estivesse quebrado.
Espere um minuto, eu não tenho emprego agora, e nada
garante que Liam me daria ele de volta.
Ele assentiu e trouxe um banquinho com rodinhas para a minha
frente. Sentou-se e puxou uma lâmpada redonda que brilhava mais
forte que o sol, posicionando-a bem acima dos meus joelhos.
— Onde você caiu?
— Na rua. Asfalto, acho?
— Entendo, sim... — sussurrou ele, ajustando os óculos no nariz
e pegando uma pinça em uma bandeja de metal. — Você fez bem em
vir. Há alguns resíduos na ferida.
Ficamos em silêncio enquanto ele limpava e fazia curativos nas
feridas, e eu olhei ao redor da sala. Quando terminou de limpar meus
joelhos, ele moveu meu tornozelo, e eu sibilei de dor.
— Desculpe. — Ele olhou para mim enquanto removia meu
sapato. — Não tenho máquina de raio-X aqui. Só quero garantir que
não está quebrado. — Ele moveu meu pé de um lado para o outro,
causando uma dor aguda, mas eu apertei os lábios, tentando engolir
qualquer outro sibilo que revelasse meu desconforto.
— Não, não, está bem. Desculpe-me por tomar seu tempo...
Tenho certeza de que você tem uma agenda lotada.
Ele suspirou e recuou, seu rosto suavizando. Então, ele estava
irritado com a interrupção.
— Está bem, Srta. Murphy. Ajudar a amiga do Sr. Nishimura é
uma honra.
Hoka Nishimura. Adorei o som do nome dele.
Ele se levantou e pegou um rolo de cor creme de um pequeno
armário de metal contra a parede.
— Seu pé não está quebrado, apenas torcido. — Ele sentou-se
novamente. — Vou enfaixá-lo. Tente manter a atividade baixa por
alguns dias.
Assenti. Não havia sentido em dizer a ele que eu não podia me
dar ao luxo de tirar alguns dias. Seria um dia, dois no máximo.
— Pode remover seu cardigã para o exame de sangue?
Franzi a testa, apertando o cardigã ao meu redor.
— Não precisa se preocupar. O Sr. Nishimura pediu para dar a
você o atendimento premium, o que inclui um check-up completo...
incluindo exames de sangue. Quando foi seu último exame de sangue
de rotina?
Olhei para minhas mãos no colo. Não achava que já tinha feito
algum. Para ser honesta, não conseguia lembrar de ter feito um
exame de sangue antes.
— Entendo. — Acho que meu silêncio foi resposta suficiente para
o médico. — Quantos anos você tem?
Olhei para cima.
— Vinte e um.
Ele assentiu e escreveu algo na prancheta.
— Não vou forçá-la a fazer algo que não quer, mas você
realmente deveria considerar. Não custará nada a mais para você ou
para ele.
— Tudo bem... — murmurei, ainda incerta enquanto removia
meu cardigã.
Era tudo tão estranho. Eu era cuidadosa o suficiente, mas tudo o
que acabei de fazer era tão diferente de mim. Ao mesmo tempo,
nunca tive tantas coisas ruins acontecendo ao mesmo tempo antes.
Sentia como se meu cérebro estivesse desligando, como se estivesse
em sobrecarga devido a todas as informações ruins que o atingiram
ao mesmo tempo. Tinha que ser muito para qualquer pessoa — ser
demitida, descobrir que foi traída e ter uma experiência de quase
morte, tudo em cerca de uma hora, certamente faria isso com você.
Eu nem sabia por que estava seguindo as ordens, atendendo a
todos os pedidos de Hoka e do médico. Era mais fácil do que pensar,
suponho, mais fácil do que abrir a porta para a parte do meu cérebro
que tentava processar tudo, gritando por alívio.
O médico coletou o sangue, etiquetou-o, e eu removi meu outro
sapato enquanto dava a ele meus dados de contato para os
resultados.
Ele me ajudou a descer, e eu tentei apoiar no pé, ofegando
quando uma pontada de dor subiu pela minha perna.
O médico me lançou um olhar que parecia dizer: Sério, o que
acabei de dizer?
— Preciso andar — disse eu, na defensiva.
Ele suspirou com resignação.
— Pelo menos mantenha ao mínimo e evite colocar muito peso
sobre ele, e também — ele apontou para meus saltos — isso não vai
funcionar por algumas semanas, no mínimo.
Franzi a testa para os sapatos na mesa de exame, como se eles
fossem os culpados por todo esse sofrimento e não minha própria
impulsividade. Nunca mais usaria saltos estúpidos.
Olhei para meus pés descalços no chão frio. Teria que me
permitir um Uber para casa, apesar do estado das minhas finanças.
Não podia pegar transporte público descalça.
Talvez fosse um carma instantâneo. Decidi pegar um Uber para a
casa de Jake — só para dar o troco à Sunny Valley Real Estate — e
aqui estava eu, pagando pela minha própria viagem para casa.
— Isso não será um problema.
— Muito bem, deixarei você se juntar ao seu... — Ele parou,
detalhando meu rosto mais uma vez, como se não conseguisse
compreender que Hoka e eu estivéssemos em algum tipo de contato.
— Amigo — ofereci, porque de alguma forma soava melhor do
que estrangeiro que quase me atropelou.
— Certo. — Ele me olhou por mais um instante antes de bater o
dedo na prancheta. — Devo ter seus resultados em alguns dias.
Ligaremos para você então.
— Obrigada novamente por tudo.
Coxeei de volta à recepção e vi Hoka através de uma porta de
vidro. Ele estava em uma sala, falando ao telefone.
Quando seus olhos encontraram os meus, meu estômago revirou
com a intensidade. Alguém já se acostumava com esses olhos? E eu
não me referia apenas à cor, mas também à ferocidade por trás deles.
Ele desligou e voltou, mantendo os olhos em mim, e eu estava
hipnotizada, esquecendo a dor e tudo o que aconteceu hoje por
alguns segundos.
— Você está bem?
Quando assenti, ele olhou atrás de mim.
— Não há nada muito sério, apenas alguns arranhões profundos
e um tornozelo torcido — respondeu o médico, e virei a cabeça para
encontrá-lo bem atrás de mim.
Que idiota! Ele precisava garantir que eu não estava mentindo.
Virei-me de volta e encarei Hoka, fazendo-o rir.
— Tenho a sensação de que você prefere se incendiar a admitir
que precisa de ajuda.
Abri a boca, mas a fechei novamente. Como ele sabia disso? Eu
era realmente tão transparente?
Ele olhou para o médico e inclinou a cabeça levemente.
— Arigato gozaimasu — murmurou antes de se concentrar em
mim novamente, ou melhor, nos meus pés descalços.
O médico disse algo que não entendi antes de chamar o próximo
paciente da sala de espera.
Hoka estendeu a mão para a recepcionista, e ela lhe deu uma
pequena bolsa.
— Acabaram de entregar — esclareceu ela.
Olhei para ela com curiosidade antes de me virar para Hoka.
— Suspeitei que você não conseguiria andar com esses hoje.
Aqui. — Ele estendeu a bolsa.
Hesitei antes de pegá-la. Quem era esse bom samaritano? Minha
mãe sempre dizia para nunca confiar em um homem, especialmente
um que parecesse perfeito demais — e este havia sido mais que
perfeito desde o momento em que nos conhecemos.
Peguei a bolsa e tirei uma pequena caixa branca dela.
Cuidadosamente, abri-a e encontrei um par de sapatilhas de couro
bege.
— Elas se adaptam ao tamanho dos seus pés — explicou a
recepcionista. — Desculpe-me, foi tudo o que consegui encontrar em
tão pouco tempo.
— Oh, não, não. São perfeitas. — Cometi o erro de apoiar no pé
machucado e estremeci. Eu frequentemente mexia as mãos quando
estava envergonhada e, aqui, estava recebendo um pedido de
desculpas de uma mulher que foi além por mim. Isso era tão
injustificado. — Agradeço muito, e desculpe-me pelo transtorno, de
verdade.
Na verdade, eu estava desesperada demais para não aceitar essa
caridade. Esses sapatos significavam que eu podia pegar o ônibus
para casa e economizar pelo menos vinte dólares — não era uma
quantia pequena para uma idiota desempregada.
Hoka alcançou a caixa, e eu a segurei com mais força, não pronta
para soltá-los.
— Sem carregar — avisei. Agora que ele sabia que não era uma
lesão séria, ele não poderia me colocar naquele constrangimento
novamente.
— Sem carregar — concordou ele com uma risada baixa que
causou uma sensação desconhecida explodir no meu estômago.
Ele pegou os sapatos macios na caixa, e eu ofeguei de surpresa
quando ele se ajoelhou na minha frente e pegou meu pé na mão para
calçar o sapato.
Enquanto seus dedos quentes traçavam o arco do meu pé, senti
como se meu pé estivesse em chamas, enquanto uma onda de
sensações desconhecidas causava um arrepio de prazer que subiu
pela minha perna até a base da minha espinha.
Ele parou, hesitando por apenas uma fração de segundo, mas foi
o suficiente para presumir que ele não perdeu como me afetou.
Quanto mais constrangimento eu poderia suportar em um dia?
Como era triste que o simples toque de seus dedos no meu pé me
fizesse reagir tão visceralmente? Esperava que ele interpretasse isso
como uma reação de dor pela lesão e não o que era
vergonhosamente... pura atração.
Seja realista, Violet, você é um caso de caridade, nada mais que
a boa ação dele do dia. Ele é atraente, muito mais velho e,
obviamente, super rico. Controle-se... isso só pode significar trauma
emocional, a pequena voz da razão, que soava exatamente como
minha mãe, me lembrou.
Olhei para a recepcionista, que estava inclinada sobre o balcão,
olhando para ele com olhos arregalados, a boca ligeiramente aberta,
como se estivesse testemunhando o impossível.
Ele deu um passo mais perto ao se levantar, e estava tão perto
que eu podia sentir a ponta de seus sapatos brilhantes tocando os
meus através do couro fino.
Ele me encarava, e quando olhou para baixo com um pequeno
sorriso no rosto, esqueci como respirar.
— Você é extremamente baixa — murmurou, ainda muito mais
perto do que a sociedade ditava que estranhos deveriam estar.
Continuei olhando para cima, tão hipnotizada por seus olhos
âmbar e os pequenos pontos verdes neles que momentaneamente
esqueci como falar.
Ele ergueu uma sobrancelha, seu sorriso se transformando em
um sorriso sarcástico, e finalmente encontrei minha voz.
— Eu... hum... não sou tão baixa. Nem todo mundo é
absurdamente alto, sabe.
— Tenho um metro e noventa e três, não é tão incomum.
— Claro... Mas é óbvio que todos serão baixos para você. Sou de
tamanho médio para uma mulher. — Eu não o satisfaria dizendo que,
na verdade, tinha apenas um metro e cinquenta e oito — um pouco
abaixo da média.
— Se você diz. — Ele respondeu brincalhão enquanto estendia o
braço para mim. — Pelo menos concordará em me deixar ajudá-la a
descer?
Assenti, descansando a mão em seu braço antes de olhar para a
recepcionista, que ainda encarava com tanta intensidade que
ignorava completamente a mulher na frente do balcão.
— Obrigada novamente — disse a ela antes de seguir Hoka até o
elevador.
Enquanto o elevador descia, virei-me para ele.
— Obrigada novamente, por tudo. Você foi além por mim.
— Foi o mínimo que eu podia fazer.
Não era, nós dois sabíamos disso. O mínimo que ele poderia ter
feito era verificar se eu ainda estava viva e seguir seu caminho.
— Você vai ficar bem? — perguntou ele enquanto saíamos do
elevador e atravessávamos o enorme saguão, felizmente atraindo
muito menos atenção na saída do que na entrada.
— Sim, estou muito melhor agora. Sinto-me como uma nova
mulher!
Ele me lançou um olhar de lado claramente cético. Sim, talvez eu
tenha exagerado nessa.
Meu estômago traiçoeiro escolheu aquele momento exato para
roncar constrangedoramente alto — alto o suficiente para Hoka olhar
para meu estômago com uma sobrancelha erguida.
— Estou com fome também, na verdade — comentou ele, dando
um tapinha em seu abdômen plano.
Eu duvidava muito que fosse verdade, mas estava envergonhada
demais para dizer qualquer coisa.
— Conheço um ótimo restaurante de Dim Sum na esquina. Deve
estar vazio agora, já que o horário de pico do almoço passou.
— Já tomei muito do seu tempo. Tenho certeza de que você tem
lugares para estar.
— Não mais. Vamos, vamos comer. — Ele deu um passo
descendo os degraus e estendeu o braço para mim novamente.
Peguei seu braço com um suspiro derrotado.
Sério, o que esse homem pensava de mim? Que eu era um
completo e absoluto desastre. Foi uma má sorte tremenda que o
conheci nessas circunstâncias. Bem, eu geralmente era um pouco
bagunçada, e estava um pouco perdida, mas nada como a mulher que
ele viu hoje.
Abri a boca para dizer isso a ele, mas a fechei novamente, porque
qual era o sentido? Não era como se eu fosse vê-lo novamente depois
de hoje.
Mas você gostaria, não é? Obviamente, sim. Qualquer mulher
hétero com olhos gostaria.
— Então, você é especialista em Dim Sum? — perguntei,
tentando puxar conversa.
— Está perguntando porque sou asiático? Sou japonês, não
chinês.
Parei de andar, completamente mortificada. Meu Deus, as coisas
poderiam piorar?
— N-não. Perguntei porque você sabia exatamente que havia um
restaurante e... — Sacudi a cabeça. — Eu... — Olhei para cima e vi
seus lábios tremerem. — Espere — estreitei os olhos. — Você está me
provocando!
Ele riu.
— Sim, estou. Vamos.
Entramos no restaurante praticamente vazio enquanto meu
estômago roncava novamente.
— Quando foi a última vez que você comeu? — perguntou ele
enquanto nos sentávamos em uma mesa no canto.
Dei de ombros.
— Ontem. Eu planejava tomar café da manhã, mas hoje
realmente foi o pior dia. — Por alguma razão, odiava a ideia de ele
pensar que, além de ser um desastre, eu também era negligente com
meu bem-estar.
Deixei-o pedir a comida, tentando pensar no que dizer para
corrigir a opinião dele sobre mim e talvez subir um degrau do caso de
caridade que ele provavelmente achava que eu era.
Abri a boca para simplesmente dizer que havia outra versão de
Violet que ele ainda não conheceu. Uma versão danificada, sim, mas
não no nível do que ele testemunhou hoje.
Mas, em vez disso, as comportas se abriram, e tudo saiu,
começando pelo aprendizado milagroso, a demissão injusta esta
manhã, o namorado mentiroso e traidor, até quase ser esmagada por
seu carro.
Finalmente parei quando minha garganta estava seca, e olhei
para a mesa e vi que a comida fumegante já estava lá.
Olhei ao redor do restaurante, e o garçom não estava perto da
mesa. Por quanto tempo falei?
Olhei para Hoka, esperando que ele me olhasse como se eu
tivesse perdido completamente a cabeça, mas ele estava
simplesmente me estudando, com os hashi na mão.
— Vamos comer — disse ele simplesmente, alcançando alguns
pratos diferentes.
Assenti e silenciosamente o imitei.
Ótima maneira de explicar que você não é louca! Me repreendi,
mordendo um delicioso siu mai de camarão.
Ao despejar tudo sobre ele, provavelmente só confirmei a ideia...
Já podia imaginar a conversa que ele teria com a namorada ou
esposa sobre a garota louca que conheceu hoje. Meus olhos foram
para sua mão esquerda, e senti um certo alívio ao ver seu dedo anelar
livre de qualquer compromisso óbvio.
Soltei um pequeno gemido com a absurdidade do meu
pensamento.
Ele olhou para cima, arqueando uma sobrancelha
questionadora.
Acenei a mão de forma desdenhosa.
— Só queria explicar que não sou louca. — Suspirei, alcançando
outro dim sum e mergulhando-o no molho. — Percebo que
provavelmente só piorei as coisas.
Ele sacudiu a cabeça.
— Não acho que você seja louca. Imprudente? Claro. Mas não
louca.
Olhei para cima, boca ligeiramente aberta de choque.
Ele riu.
— Você parece mais ofendida por ser chamada de imprudente do
que de louca.
— Estou! Agi um pouco insanamente, então a suposição era
justificada, mas imprudente?
— Você entrou em um carro com um homem que não conhece.
Abri a boca para responder, mas a fechei novamente, porque era
verdade.
— Não sou assim, normalmente. — Sacudi a cabeça. — A vida me
ensinou melhor que isso — acrescentei evasivamente.
Ele me olhou com aquele olhar inquisitivo novamente. Aquele
que parecia enxergar diretamente as partes mais escuras e
escondidas de mim, e isso fez meu coração pular uma batida.
Ele alcançou o paletó e pegou uma caneta prateada fina e um
cartão de visita branco. Ele o virou e escreveu algo antes de deslizá-lo
sobre a mesa em minha direção.
— Este é meu número de celular particular. Ligue se precisar de
algo.
Olhei para o cartão e o virei, mas havia apenas duas linhas nele.
Uma que presumi ser seu nome, pois estava escrita em kanji, e a
segunda era um número de telefone.
Sabia que ele não pretendia, mas isso me ofendeu de alguma
forma.
— Não preciso de caridade. — Empurrei o cartão de volta para
ele.
Ele colocou a mão sobre a minha, interrompendo meu
movimento.
— Não pensei que precisasse. — Ele franziu a testa, olhando para
a mão dele sobre a minha, embora a mantivesse no lugar. — Não sou
um homem muito caridoso.
Certo... Mantive os olhos na mão dele sobre a minha. Sua mão
era tão grande que escondia completamente a minha, e sua pele era
tão quente e seca — era agradável, mesmo com os pequenos calos
que eu podia sentir. Recusei-me a mover nem um dedo, temendo que
isso o fizesse quebrar o contato.
— O que você fez hoje prova o contrário.
Ele riu, removendo a mão e acenando de forma desdenhosa.
Suspirei, sentindo falta do calor de seus dedos, e deixei o cartão
na mesa para comer mais.
— Isso também não está nos meus hábitos.
— Então por que fez?
Ele inclinou os olhos para o lado, olhando por cima dos meus
ombros para a parede, como se estivesse vendo algo que não estava
lá.
— Não sei.
A honestidade de sua resposta de alguma forma matou qualquer
pergunta subsequente que eu pudesse ter tido.
Terminamos a refeição em silêncio, e Hoka falou novamente
justo quando o garçom saiu com uma gorjeta que provavelmente era
mais do que a própria refeição.
— Pegue o cartão, por favor. — Ele apontou com a cabeça para
ele. — Se não for por você, faça por mim. Ficarei mais tranquilo
sabendo que você o tem.
Não pude evitar sorrir.
— Então, basicamente, estarei fazendo um favor a você?
Um sorriso brilhante e largo encheu seu rosto, revelando uma
covinha na bochecha direita.
— Exatamente.
Senhor, tenha piedade, por que ele tinha que ficar cada vez
mais atraente?
Saímos, e pisquei algumas vezes, adaptando-me ao sol brilhante
após o almoço no restaurante escuro. Ele gesticulou para o carro.
— Deixe-me levá-la para casa.
Assenti, sabendo que seria inútil discutir e também, estava tão
cheia do almoço que preferia estar em casa em dez minutos de carro
do que em uma viagem de vinte e dois minutos de ônibus.
— Obrigada pela comida, estava deliciosa — disse enquanto ele
abria a porta do passageiro para mim.
— A melhor que você já comeu, não é? — perguntou ele, antes de
fechar minha porta e contornar o carro para se acomodar atrás do
volante. — Para onde?
Dei meu endereço e não perdi o tique de seus lábios quando lhe
disse, mas não havia sentido em defender onde morava. Era um
desastre, e todos sabiam disso. Eu me mudaria em um piscar de
olhos se tivesse outra escolha.
— Estava deliciosa — respondi rapidamente, temendo que ele
comentasse sobre a área onde morava. — Mas não tão deliciosa
quanto o Loon Fung.
Ele me lançou um olhar tão surpreso que o carro desviou um
pouco.
— Você conhece o Loon Fung? Fechou há anos.
Ri, mas assenti.
— Sim, minha mãe e eu morávamos no pequeno apartamento
acima dele quando eu era pequena. — Sorri, apesar da memória
agridoce. — Foi um bom momento...
— As coisas são muitas vezes mais simples quando somos jovens
— respondeu ele, e terminamos a viagem em silêncio, ambos
perdidos em nossas memórias de infância.
Saí do carro assim que ele parou em frente ao meu prédio de três
andares, temendo que ele pudesse oferecer ajuda para subir até meu
apartamento. Eu preferiria morrer a deixá-lo ver o interior da toca de
coelho que chamava de lar.
— Foi bom conhecê-lo, Hoka Nishimura. Obrigada por tornar
um dia particularmente ruim muito mais suportável — disse justo
antes de fechar a porta, interrompendo qualquer resposta que ele
pudesse ter dado.
Foi preciso toda a minha força de vontade para subir e entrar no
meu apartamento sem olhar para trás e ver se ele ainda estava lá ou
se já tinha ido embora.
CAPÍTULO 3
H a
Observei enquanto ela subia as escadas, desejando que se
virasse, mas, de alguma forma, sabendo que ela não faria.
Não entendia exatamente por quê, mas saber que ela estava
aqui, neste bairro, não me agradava. Precisei usar toda a minha força
de vontade para não dizer a ela que viesse para casa comigo.
Não fazia sentido. Eu não a conhecia. Ela não era nada — pelo
menos, nada importante na minha vida.
Fiz tantas coisas incomuns desde o momento em que saí do
carro para verificar se a mulher encolhida em posição fetal no meio
da rua estava bem.
Eu não deveria ter dado a ela meu número. Não era algo que
compartilhávamos amplamente, especialmente com pessoas comuns,
mas agora ela tinha meu cartão com meu número de celular
particular escrito à mão.
Também assumi um risco — embora calculado — quando decidi
passar o dia com ela em vez de cumprir o que deveria fazer. Decidi
deixar de lado minhas responsabilidades, minha obrigação, por
algumas horas.
Presumi que fosse porque ela não sabia quem eu era. Ela não
conhecia Hoka, o chefe da máfia, o homem que as pessoas fingiam
gostar porque o temiam. Não, essa mulher gostava de mim, pelo
menos, da parte que mostrei a ela. Ela conheceu Hoka, o homem
comum. Foi bom brincar e conversar com alguém que não sabia
quem eu era, que não se sentia obrigado a concordar e me bajular.
Por um dia, por um minuto, foi bom ser esse homem, mas agora
era hora de voltar à minha vida, ao homem que eu realmente era.
Agora era hora de ser o chefe da máfia novamente.
Dirigi até o clube, sem saber ao certo o que diria a Jiro. Nunca
precisei explicar por que não apareci, por que não cumpri minhas
responsabilidades. Não estava acostumado a ser descuidado, não
estava acostumado a colocar a mim mesmo em primeiro lugar. Eu
deveria contar a ele sobre Violet… Violet. A garota com a pele
semelhante a porcelana, cabelos negros como um corvo e olhos de
um turquesa tão único que parecia que eu estava na margem do Lago
Bishamon.
Tudo nela era uma contradição, tanto na aparência quanto na
atitude. Ela estava quebrada, abatida, mas, apesar de sua óbvia
suavidade, havia uma força, uma combatividade que poderia
rivalizar com alguns dos meus melhores homens.
Ela era meu segredo, pelo menos por agora, um sonho efêmero.
Era bom ter algo só para mim — algo não manchado pelo meu estilo
de vida.
Como esperado, encontrei Jiro parado em frente à porta do meu
escritório, com os braços cruzados sobre o peito, seu característico
olhar carrancudo firmemente estampado no rosto.
— Qual é o problema? Parece que estou enfrentando minha mãe
depois de faltar à escola.
Seu olhar ficou ainda mais sombrio.
— Talvez eu devesse repreendê-lo. Você perdeu a reunião com a
Tríade. Sabe o quão importante era?
Revirei os olhos.
— Sempre é importante com a Tríade. Qual foi o problema dessa
vez? Alguém mijou no cereal deles? — Abri a porta do meu escritório
e me sentei na minha cadeira de couro absurdamente cara. Sentia-
me seguro no meu espaço, no meu universo. Aqui, eu podia controlar
tudo, ao contrário dos sentimentos insidiosos que aquela pequena
mulher causava em mim.
— Você foi quem disse que queria mais responsabilidades. Você
lidou com eles, não foi?
Jiro ficou de pé diante da minha mesa, com as pernas
ligeiramente afastadas, como se estivesse se preparando para uma
guerra. Será que ele realmente estava com vontade de brigar comigo
hoje?
— Claro que sim — bufou ele. — Não havia nada de especial, mas
faltar a algo assim não é do seu feitio. — Jiro arqueou uma
sobrancelha. — Tem algo a ver com esse curativo ridículo no seu
dedo? É uma nova marca de estilo?
Olhei para minha mão sobre a mesa, percebendo tarde demais
que não removi o curativo de Hello Kitty que Violet colocou no meu
dedo.
— O que você quer que eu diga? Tenho um fraco por gatinhos.
Jiro riu.
— Quem não tem? Gatinhos são os melhores! — afirmou com
uma piscadela, como se eu pudesse não ter captado a insinuação.
Recostei-me na cadeira com um suspiro cansado.
— O que eles queriam?
Jiro acenou a mão de forma desdenhosa.
— Eles têm um pequeno problema territorial. Aparentemente,
alguns hispânicos cruzaram a fronteira para os territórios deles para
vender suas drogas. Queriam saber se você os ajudaria a recuperá-lo
em caso de guerra.
Sacudi a cabeça.
— Não nos metemos nos assuntos dos outros. — Bati o dedo
indicador na mesa. — Não temos nada a ganhar com isso. Porque
pensaram que nos envolveríamos? Porque somos asiáticos? — Soltei
uma risada sarcástica. — Esperavam que tivéssemos algum tipo de
lealdade racial?
— O desespero pode levar a atitudes estúpidas. — Ele deu de
ombros, e eu sabia o quão certo isso podia ser. Já estivemos à beira
do desespero uma vez.
— O que você disse a eles?
— Disse que não podíamos fazer nada por eles. Lembrei-os de
que não nos metemos nos assuntos alheios. — Jiro sentou-se à
minha frente com um suspiro. — Eles ficaram furiosos, pelo menos
até eu lembrá-los de uma vez em que precisamos deles e eles
decidiram não ajudar. Também os lembrei de que não retaliamos
naquela época, e que seria do interesse deles fazerem o mesmo.
Assenti, aprovando a decisão de Jiro. Eu teria feito o mesmo.
Éramos muito parecidos, ele e eu, o que era a principal razão pela
qual o escolhi como meu braço direito. Ele pensava como eu, o que
não sei se era necessariamente um elogio.
— Viu? Você nem precisou de mim lá. Eu não teria feito nada
diferente.
Ele revirou os olhos.
— Nunca duvidei da minha decisão. Mas sua presença teria sido
crucial caso eles se recusassem a recuar. O chefe deles poderia ter se
ofendido com sua ausência. Poderia ter significado que você
considerava a reunião deles indigna de você.
Destravei minha gaveta e peguei meu laptop.
— O que eu acho — confirmei, ligando o laptop. — Não é meu
problema se os chineses não conseguem controlar seus negócios ou
territórios. Não sou babá, sou o chefe da yakuza.
Comecei a verificar meus e-mails, me perguntando por que Jiro
ainda estava sentado ali, me encarando.
— Quem é a garota? — perguntou ele finalmente, inclinando-se
para frente e apoiando os cotovelos nos joelhos.
Ah, aí está. Alguém falou.
Dei um sorriso sarcástico.
— Quem falou?
Ele deu de ombros.
— Isso não deveria importar. Você deveria ter me contado.
Desde quando eu te devo alguma explicação? Franzi a testa,
ficando irritado a cada segundo. Ele parecia ter esquecido seu lugar.
— E, por favor, me diga, desde quando eu te devo qualquer tipo
de explicação? — Apontei para meu peito. — Eu sou o chefe. —
Apontei para o peito dele. — E você trabalha para mim. Não o
contrário. É melhor você nunca esquecer isso. A lealdade só te leva
até certo ponto.
Jiro ergueu as mãos em rendição.
— Não estou questionando você. Bem, talvez um pouco, mas não
quero desrespeitá-lo. Sua segurança é primordial para mim. Você
confiou sua vida e seus negócios a mim. Somos amigos desde antes
de sabermos falar. Você nunca escondeu nada de mim. Só me
pergunto por que começaria agora?
Fiquei em silêncio por alguns instantes, esfregando o curativo
que Violet me deu com o polegar.
— Não te contei porque não há nada a dizer. — Suspirei. —
Estava dirigindo rápido demais, sem prestar atenção na estrada, e
quase a matei. — Fiz um gesto desdenhoso em direção à porta. — Ela
é apenas uma garota em apuros. — Dei de ombros. — E, por uma vez,
foi bom ser o cavaleiro de armadura brilhante em vez do bicho-papão
espreitando nas sombras.
Jiro me olhou por alguns segundos, examinando meu rosto,
claramente tentando encontrar qualquer sinal de engano. Ele não
encontraria, porque era a verdade, mesmo que parcial.
— Você não é do tipo caridoso — insistiu ele, e quase ri. Era
exatamente o que eu disse a Violet.
— Eu sei, mas também tenho um certo código que gosto de
seguir, e essa mulher estava, literal e metaforicamente, no chão. Ela
estava sendo perseguida por um ex-namorado psicótico. — Um
pouco de exagero, mas… — Ela realmente precisava escapar, e você
sabe quais são nossas regras sobre mulheres e crianças.
— Benevolência e misericórdia — disse ele, relutante.
— Não vá procurar algo que não existe, Jiro. — Mantive os olhos
na tela do computador, não querendo encará-lo diretamente, caso ele
pudesse ver algo que eu não queria que visse. — Tenho trabalho a
fazer — continuei enquanto começava a digitar, minha maneira não
tão educada de dispensá-lo. Tinha outras coisas para fazer, e não
estava com vontade de ser estudado como um inseto sob o
microscópio.
Ele se levantou com um aceno e caminhou até a porta.
— Precisa de mais alguma coisa?
Olhei para o curativo e, de alguma forma, senti que, se vingasse a
garota, talvez pudesse esquecê-la.
— Temos algum negócio com a Sun Valley Real Estate?
— O que quer dizer com negócios? Como se tivéssemos
comprado algo deles?
— Compramos?
Ele deu de ombros.
— Suponho que sim. É a maior empresa por aqui. Devemos ter
comprado, mas posso pedir ao contador para verificar.
Assenti.
— Faça isso, mas o que quero saber é se temos alguma
participação nela. Possuímos alguém lá?
— Entendi. — Ele assentiu. — Isso é um pouco mais complicado,
mas terei a resposta até a noite. Posso perguntar por quê?
— Tenho uma pequena vingança mesquinha para instigar. —
Respondi de forma evasiva.
Jiro me deu um sorriso travesso.
— Esse é o melhor tipo de vingança.
— Você sabe disso. — Ri.
— Quase esqueci, Aiya ligou quando não conseguiu falar com
você no celular. Ela amou as flores e aceitou seu convite para o jantar
hoje à noite.
Meus dedos congelaram no teclado, e me concentrei nele
novamente, com as sobrancelhas erguidas.
— Engraçado, não me lembro de ter enviado flores ou convidado
ela para jantar.
Ele piscou.
— Você enviou. Hoje à noite, às oito, no Le Trésor.
Meus lábios se curvaram para baixo, pouco impressionado.
Porra, tinha que ser o restaurante francês caro e pretensioso, não é?
— É o favorito dela. Já te disse mil vezes, você atrai mais moscas
com mel do que com vinagre.
Dei de ombros.
— E atrairia ainda mais com merda. Não vejo seu ponto.
Ele revirou os olhos.
— De nada. Ela te rejeitou uma vez, mas não fará isso
novamente. Ela aprendeu com seus erros. Terei suas respostas sobre
a Sun Valley em breve. Ligue se precisar de mim.
Enviei um e-mail rápido para meu investigador particular —
aquele que usava quando queria manter as coisas discretas, até
mesmo de Jiro. Pedi que ele fizesse uma pesquisa básica sobre
Violet, algo que eu preferiria ter pedido pessoalmente, especialmente
porque não era fã de rastros digitais, mas não tinha tempo hoje, não
depois que Jiro me comprometeu com um jantar com Aiya.
Le Trésor. Soltei um grunhido e me levantei, caminhando até a
janela escura e olhando para os jogos de cassino clandestinos
acontecendo lá embaixo.
É claro que era o favorito dela. Não havia ninguém mais elitista
que Aiya Sato.
E, ainda assim, eu a escolhi como minha futura esposa, apesar
disso.
O anúncio de Jiro teria me satisfeito ontem. Eu precisava me
estabelecer e gerar um herdeiro, o que garantiria nossa linhagem,
mas isso era ontem.
Hoje, tudo era diferente.
Hoje, eu a conheci.
Desatei meu cabelo, deixando-o cair pelas costas, e massageei
meu couro cabeludo, tentando me livrar da dor de cabeça pulsante
que começou assim que entrei no meu escritório.
Violet Murphy.
Nunca acreditei realmente nas histórias de ninar que minha mãe
me contava quando eu era menino. Eram sempre mais incríveis que
a anterior, cheias de Orochis e bravos guerreiros samurais dos quais
eu descendia.
Eram apenas histórias e contos folclóricos, pelo menos, era o que
eu pensava até hoje.
Estava particularmente irritado esta manhã quando aquela
mulher histérica caiu na frente do meu carro, quase causando um
incidente. Pretendia repreendê-la e mandá-la seguir seu caminho,
mas então ela abriu os olhos e, quando eles se fixaram nos meus…
Koi No Yokan. Esse pressentimento que não é exatamente amor à
primeira vista, mas sim uma confiança na inevitabilidade do amor
quando você conhece alguém pela primeira vez, e aconteceu bem ali,
no meio de uma rua suburbana.
Esfreguei o peito, ainda sentindo o eco disso.
Eu não deveria olhar para trás, não deveria tentar vê-la
novamente.
Aquela garota já tinha problemas suficientes. Trazê-la para meu
mundo seria perigoso e inútil. Não era como se pudéssemos ter um
futuro. Ela era uma gaijin, alguém que normalmente seria malvista
apenas por pisar no nosso mundo. Mas uma gaijin como parceira do
oyabun? Não havia chance de eu conseguir isso, mesmo com o
potencial dos meus sentimentos por ela.
Suspirei, enfiando as mãos nos bolsos, e caminhei para o outro
lado do escritório, olhando pela outra janela escura para o lado dos
empréstimos do negócio.
Era estranho como o desespero silencioso dela falava com minha
alma. Eu quis envolvê-la em meus braços e confortá-la, quando
normalmente me alimentava do desespero das pessoas diariamente,
sem sentir um pingo de culpa.
Olhei para o homem extremamente magro que estendia seu
cheque sob o vidro divisor com uma mão trêmula. Ele estava
claramente desesperado para vir aqui, onde os empréstimos têm
juros acima de cinquenta por cento, e, ainda assim, eu continuava
ganhando dinheiro com eles. Alguns estavam na outra sala agora,
jogando em um cassino que nunca venceriam.
O que ela pensaria de mim se soubesse o que eu comandava?
Será que ainda me veria como seu herói?
Não, claro que não. Provavelmente me olharia com o mesmo
medo que vejo nos olhos da maioria das pessoas, a falsa reverência
que me deixava enjoado.
Queria manter a imagem que tinha dela — a maneira como ela
me olhou com atração e descrença.
Não podia vê-la novamente, no entanto, ela precisava
permanecer como minha memória efêmera. Era melhor para nós
dois se eu ficasse longe e se ela nunca me ligasse.
Mas isso não significava que eu não poderia vingá-la das
sombras… Abraçar minha natureza de bicho-papão e fazer com que
pagassem pela dor que vi nos olhos dela, pelas cicatrizes, pelas
rachaduras que eu podia sentir dentro dela.
Eu ia trazer um inferno sobre eles, e depois esqueceria tudo
sobre ela.
Estejam preparados, porque Hoka Nishimura, chefe da yakuza,
está vindo por vocês. E eu vou saborear o doce gosto da sua queda.
CAPÍTULO 4
Vi
Levei dois dias para decidir que estava pronta para enfrentar o
mundo. Ainda sentia alguma sensibilidade no tornozelo, e estremeci
um pouco ao amarrar meus tênis.
Tudo bem, eu não estava completamente pronta para enfrentar o
mundo, mas minha conta bancária, com apenas dois dólares e
setenta e seis centavos, e a crescente necessidade de pagar contas e
comprar comida, me diziam que eu estava. O cheque de piedade
precisava ser depositado hoje se eu quisesse comer esta noite e
continuar desfrutando do luxo da eletricidade.
Suspirei, relutante em ligar meu celular e enfrentar a realidade.
Voltei para casa do meu dia com Hoka com nada menos que vinte
chamadas perdidas de Jake e um número insano de mensagens.
Queria pesquisar sobre Hoka Nishimura quando cheguei em
casa, mas o Sr. Scott, meu vizinho pervertido do 3C, escolheu aquele
dia para mudar a senha do Wi-Fi, e eu não tinha mais dados.
Não estava com humor para lidar com nenhum de seus pedidos
estranhos para acessar seu Wi-Fi. Qualquer pesquisa teria que
esperar. Não que isso realmente importasse, não era como se eu
fosse ver aquele homem novamente.
Talvez fosse melhor que eu não tivesse internet. Podia
simplesmente desligar o celular e esquecer tudo durante meus dois
dias de isolamento forçado.
Quando liguei o celular novamente, minha caixa de mensagens
estava cheia, e o número de mensagens estava na casa dos três
dígitos. Fiquei surpresa que ele não tivesse aparecido na minha
porta. Não, na verdade, não estava. Jake era orgulhoso demais para
vir aqui com o risco de ser rejeitado na frente de testemunhas.
Ele era um partidão, afinal. Soltei uma risada sarcástica. Uma
chance de pegar clamídia era mais provável.
Sacudi a cabeça com um suspiro, guardando o celular no bolso
traseiro dos meus jeans pretos. Jake teria que esperar. Eu tinha
minha vida para resolver, e ele agora fazia parte do meu passado.
Eu não me tornarei minha mãe, pensei novamente e continuaria
repetindo isso se algum dia pensasse em dar a ele uma segunda
chance.
Deslizei a chave na fechadura justo quando o pervertido do 3C
saiu do seu apartamento. Sério, hoje, de todos os dias?
— Violet — disse ele com uma carranca, empurrando os óculos
para cima no nariz. Ele claramente não estava satisfeito por eu não
ter implorado pela nova senha no fim de semana.
Forcei um sorriso ao me virar para ele.
— Sr. Scott, como está?
Ele olhou para meus pés, e senti meu estômago revirar, como
sempre acontecia quando ele os encarava, mesmo que eu estivesse
usando tênis.
O Wi-Fi dele costumava ser de acesso livre, até que um dia ele
colocou uma senha. Fui ingênua o suficiente para ser direta e pedir a
senha. Não tinha muito dinheiro, mas ofereci alguns reais por ela.
Ele recusou o dinheiro e apenas perguntou se podia tirar uma foto
dos meus pés com meias em troca da senha.
Achei isso estranho? Imensamente. Concordei? Obviamente!
Estava no meio de um episódio de The Witcher em que Henry estava
na banheira! Eu era virgem, mas ainda era mulher.
Depois disso, ele pediu para tirar fotos dos meus pés toda vez
que mudava a senha do Wi-Fi — o que estava se tornando cada vez
mais frequente. Isso fazia Jake rir, apesar do meu desconforto.
— Seu namorado causou uma cena neste fim de semana —
continuou ele, sua carranca se aprofundando.
Jake veio? Bem, eu teria que agradecer ao cara da manutenção
do prédio por ser o idiota incompetente que era e não consertar meu
interfone. Por uma vez, sua preguiça realmente jogou a meu favor.
— Se isso acontecer novamente, terei que informar o síndico —
prosseguiu ele, sua irritação ainda palpável.
Eu poderia ter simplesmente rido disso. O síndico? Era o nome
chique dado ao Jimmy Viciado do 1A, e eu adoraria vê-lo agir sobre
qualquer reclamação, independentemente da gravidade.
Parecia que o Sr. Scott tinha esquecido em que área da cidade
vivíamos.
Apesar de ser um homem grande com um fetiche esquisito por
pés, eu sabia que ele era, em grande parte, inofensivo, mas não era
necessário brigar com ele, não hoje, pelo menos. Eu precisava de
toda a paciência que tinha para enfrentar Liam.
Assenti simplesmente.
— Não vai acontecer novamente. — Pelo menos, eu esperava que
Jake tivesse captado a mensagem e me deixasse em paz. — Vou te
dar meu par de meias quando voltar, o que acha? — Sabia que ele as
vendia, junto com as fotos que tirava dos meus pés — a Dona
Reynolds, da frente, me contou sobre isso, mas, novamente, eu não
me importava. Cada um com seus prazeres.
Ele grunhiu e abriu a porta do apartamento, revelando que não
tinha para onde ir e provavelmente estava espiando pelo olho
mágico, esperando que eu fizesse algum movimento.
— Só coloque-as em um saco Ziplock e deixe na minha caixa de
correio — disse ele, como se fosse uma conversa totalmente normal.
Ele começou a fechar a porta, mas parou quando restava apenas uma
fresta. — A senha do Wi-Fi é ShelikeSit69. S maiúsculo. — Então
fechou a porta completamente.
— Obrigada — chamei enquanto me virava e fazia uma careta.
Ele realmente era nojento.
Saí do prédio e parei por um segundo, inspirando
profundamente o ar fresco antes de soltá-lo com um suspiro.
Ar fresco era um pouco exagero… Não havia muito de fresco
neste bairro, mas depois de passar dois dias inteiros trancada no
meu micro apartamento de sete metros quadrados, que eu tinha
certeza de que costumava ser um depósito, entre os vários cheiros de
comida e outros odores indefinidos que eu tentava ignorar, o ar
parecia fresco.
Nunca percebi o quão dessensibilizada eu realmente era até sair
e respirar ar de verdade, por mais poluído que fosse.
Não tive muito tempo para questionar nada, pois o ônibus 19
dobrou a esquina, e precisei correr até a parada, torcendo para não
machucar ainda mais meu tornozelo em recuperação. Precisaria dos
meus pés funcionando plenamente se Liam me desse meu emprego
de volta.
Ele vai, tranquilizei-me, ofegante, enquanto entrava no ônibus
poucos segundos antes de as portas fecharem.
Sentei-me no fundo e olhei pela janela, observando as mudanças
na paisagem urbana enquanto passávamos pelas áreas.
Vivi aqui desde bebê, e conhecia esta cidade como a palma da
minha mão. Você poderia me deixar em qualquer lugar, e eu diria
exatamente onde estava, apenas com base na cor do prédio, nas
pichações nas paredes e na limpeza da rua.
Parei a algumas ruas antes do Sunset Strip para sacar meu
mísero cheque de piedade antes de caminhar até lá muito mais
lentamente do que deveria, não apenas por causa do meu tornozelo,
mas também porque ainda estava relutante em pedir meu emprego
de volta a Liam.
Ainda era cedo, e o clube normalmente não começava a encher
até o final da tarde, mas, ainda assim, suspirei aliviada ao ver o
estacionamento quase vazio e, especialmente, sem o carro de Serena.
Eu não estava pronta para ela ainda.
Estarei algum dia? Sacudi a cabeça. Não era como se eu tivesse
escolha.
Era uma das desvantagens de ser pobre: nem sempre podíamos
nos dar ao luxo de ter esse tipo de escrúpulo.
Caminhei até a entrada dos fundos e sorri ao ver Conor. Ele era
um dos meus seguranças favoritos aqui, e um dos primeiros a me
dizer que eu era boa demais para Jake. Se ao menos eu tivesse
escutado na época.
— Olha só, V! O que te traz aqui? Faz tempo que não te vejo.
Acenei de forma desdenhosa.
— A vida, acho… — disse com uma risada.
Provavelmente soou tão falsa quanto era, porque o sorriso de
Conor diminuiu, e ele assentiu como se entendesse exatamente o que
eu queria dizer.
— Liam está aqui? — perguntei, sabendo muito bem que ele
estava, depois de avistar seu BMW ostentoso estacionado perto das
portas principais do clube.
Perguntei apenas para avaliar se Liam estaria receptivo ao meu
retorno. Sabia o quão rápido ele era para colocar pessoas na lista
negra e as mentiras típicas que a equipe tinha que contar por ele.
Conor assentiu e se afastou da porta, abrindo-a para mim.
— Sim, ele provavelmente está no escritório. Vai ficar feliz em te
ver.
Caminhei pelo corredor escuro, meus passos um pouco mais
leves agora que esperava um bom resultado, apesar de ter que
implorar por um emprego que estava matando meu espírito.
Estava prestes a bater na porta verde horrível do escritório
quando meu celular tocou no bolso traseiro.
Respirei fundo, sabendo que devia ser Jake novamente. Decidi
ignorar, embora soubesse que eventualmente teria que enfrentá-lo.
Parecia que eu, fugindo e entrando no carro de um completo
estranho, em vez de passar mais um minuto com ele, não tinha sido
claro o suficiente para expressar meu desejo de manter distância.
Talvez eu devesse levar Conor comigo quando decidir falar com
ele. Ele provavelmente gostaria de assustar Jake.
Sacudi a cabeça e bati. Agora não era hora de pensar nisso.
Precisava recuperar meu antigo emprego enquanto mantinha pelo
menos um pouco da minha dignidade, se isso fosse possível.
— Entre.
Por favor, não seja um idiota, implorei mentalmente a Liam
enquanto abria a porta.
Ele estava em seu lugar habitual atrás da mesa, na sua grande
cadeira de couro, usando uma de suas camisas de colarinho largo
características, desabotoada até o meio do peito, revelando seus
pelos ruivos e uma corrente dourada exagerada com um pingente de
trevo. Ele era um clichê ambulante dos anos setenta.
— Ora, ora, ora, se não é a filha pródiga. — Ele sorriu, pegando
um cigarro e acendendo-o. — Entre. — Gesticulou, soprando a
fumaça na minha direção, fazendo-me franzir o nariz.
Eu odiava o cheiro de cigarros, especialmente em um espaço tão
fechado que também cheirava a cerveja velha e suor rançoso.
Entrei na sala e pigarreei enquanto o cheiro desagradável
parecia revestir a parte de trás da minha garganta.
Ele apontou para a cadeira do outro lado da mesa e manteve
seus olhos castanhos em mim até que eu me sentasse.
— O que você precisa, leanbh-cailín? — perguntou com o mais
leve sotaque irlandês, recostando-se na cadeira.
Garotinha? Liam era a personificação da arrogância, mesmo
sem motivo para isso. Não era feio, mas era apenas comum. Um
homem mais baixo que a média, que tentava compensar passando
tempo demais na musculação — o que o fazia parecer atarracado em
vez de forte. Também era bastante ridículo ouvi-lo usar um sotaque
irlandês e ostentar tudo que exibia a glória irlandesa quando nunca
havia pisado na Irlanda.
— Preciso do meu emprego de volta. — Não precisava rodeios
com Liam. Ele sabia, desde o momento em que entrei, o que eu
queria.
— É mesmo? — Ele assentiu e se levantou, caminhando até a
janela escura que oferecia uma vista privilegiada do palco. — Pensei
que você fosse melhor que isso agora.
Suspirei. Lá vamos nós…
Também me levantei e fui ficar ao lado dele. Uma stripper que
eu nunca tinha visto antes estava fazendo seu show para os poucos
homens que não tinham nada melhor para fazer antes do almoço.
Liam chamava isso de “fazer suas aulas”. Você precisava ganhar
seus distintivos para conseguir os turnos noturnos, onde poderia
receber muito mais gorjetas.
— Você sabe que não tinha nada a ver com pensar que sou
melhor que este lugar. — Concentrei-me nos movimentos
desajeitados da garota. Franzi a testa; ela parecia recém-saída da
escola. — Você não pode me culpar por tentar conseguir uma vida
melhor.
— O que há de tão errado com esta? Eu te tratei injustamente? —
Ele encarou meu perfil intensamente.
Lancei-lhe um olhar de lado.
— Você sabe que não. Só não me via sendo garçonete em um
clube de strip até o dia da minha morte.
— Você não precisaria ser.
Sabendo muito bem o que ele estava insinuando, dei um
pequeno passo para o lado, criando um pouco de distância entre nós.
Eu poderia ser promovida de garçonete a namorada residente se
quisesse, assim como minha mãe e o pai dele foram há muitos anos.
Ela queria algo diferente para mim, mas o problema era que eu
não tinha certeza se isso era possível.
— Você sabe que não há saída para pessoas como nós, não de
verdade — acrescentou ele, como se pudesse ler meus pensamentos.
— Pode me culpar por tentar?
Ele franziu os lábios, e eu sabia que ele podia. Ele levou isso
muito mais para o lado pessoal do que se qualquer outro membro da
equipe tivesse saído. Sabia que ele sempre presumiu que, por eu ser
filha da minha mãe, acabaria sendo sua garota um dia. Minha mãe
fez o que fez por amor a mim, por seu senso de dever, mas eu não
tinha as mesmas obrigações — fiz tudo o que podia para não cometer
os mesmos erros.
— Posso voltar ou não? — perguntei quando ele permaneceu em
silêncio, enquanto ainda sentia seus olhos queimando no lado do
meu rosto.
— Seis meses, Violet, foi quanto tempo você ficou fora. Ingrid
assumiu e está fazendo um bom trabalho.
Arqueei uma sobrancelha e dei alguns passos para a esquerda,
tanto para criar ainda mais distância entre nós quanto para ter uma
melhor visão do bar.
Ingrid estava lá, com os seios meio apoiados no balcão, flertando
com um dos clientes enquanto ignorava completamente outro.
Virei-me para ele.
— Posso ver que ela está fazendo um trabalho estelar. Quantas
bebidas ela consegue servir em uma hora?
Ele franziu a testa, cruzando os braços sobre o peito.
— O que posso dizer? Ela tem outros atributos que agradam os
clientes.
— Então, o que está dizendo? — Meu coração despencou, mas
consegui manter o rosto impassível. Ele não precisava saber o quão
desesperada eu estava.
— Estou dizendo que esse emprego está preenchido há um
tempo, mas ainda há a posi…
— Não — interrompi, sacudindo a cabeça. — Absolutamente não!
Minha mãe foi a maior estrela deles, com cabelos cacheados
ruivos, pele cremosa, olhos azuis brilhantes e curvas para dias — a
chamavam de The Irish Pride. Eu parecia muito com ela, exceto pelo
cabelo preto e longo que herdei do doador de esperma que a
engravidou quando ela tinha apenas dezessete anos.
Liam tinha na cabeça restaurar o Orgulho Irlandês fazendo com
que eu a substituísse, desde que eu tinha idade suficiente para que
fosse legal. Ele até inventou um nome para mim, Snow White.
Embora não fosse muito inovador, ele sabia tão bem quanto eu que a
ideia de pureza atrairia os pervertidos mais ricos. Homens prontos
para jogar dinheiro em mim na esperança de roubar uma inocência
que nunca poderiam sonhar em ter.
Jurei para minha mãe em seu leito de morte, quando a falta de
dinheiro e o desespero me fizeram considerar esse caminho, que
nunca me tornaria uma stripper, não importava o quão ruins as
coisas ficassem. Eu honraria essa promessa, custasse o que custasse.
— Tudo bem. — Virei-me antes que ele pudesse ver as lágrimas
de decepção nos meus olhos. — Acho que não há mais nada a dizer
aqui. Tenha uma boa vida, Liam.
— Espere! Porra, V, espere! — chamou ele enquanto eu
alcançava a porta. — Meu Deus! Sim, você pode recuperar seu
emprego.
Virei-me, a onda de alívio tão poderosa que quase solucei.
Sua carranca se aprofundou, ele estava relutante em ceder, isso
eu sabia, mas também tinha certeza de que Ingrid era péssima nesse
trabalho como ninguém.
— Não me faça me arrepender. Não me faça questionar sua
lealdade novamente. Porque, Violet, se você sair de novo — ele
sacudiu a cabeça — não voltará.
Assenti. Isso parecia justo.
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto antes de voltar para sua
mesa.
— Amanhã, turno da tarde.
— Estarei lá, obrigada.
Ele assentiu, sentando-se novamente atrás de sua mesa.
— É isso que a família faz, só não se esqueça disso.
O celular vibrou novamente quando saí do escritório, e decidi
enfrentar a realidade.
As quatro mensagens não eram de Jake, como eu esperava, mas
de Sandra. Será que ele finalmente captou a mensagem e desistiu?
Sandra
Meu Deus, ele foi demitido!
Sandra
Sandra
H a
Recostei-me na cadeira, já entediado com o dia. Eu precisava
fazer isso. Eu era o chefe, mas em dias como este, sentia-me muito
mais como um pai severo do que um chefe da máfia.
Mais como um juiz e júri, na verdade.
Meu computador emitiu um bipe com a chegada de um novo e-
mail, e eu mal tive tempo de ver que era da Sun Valley antes de Jiro
abrir a porta, deixando entrar um homem trêmulo e suado, que sabia
que nunca era bom ser chamado ao escritório do chefe.
Porra, eu poderia ter usado dois minutos de descanso, pensei
com irritação, fixando meu olhar no homem que, sem querer,
atrasava qualquer notícia sobre Violet.
— Oyabun — disse ele com reverência, embora um pouco
ofegante, curvando-se na cintura.
O medo fazia isso com as pessoas.
Mantive o rosto impassível enquanto apontava com a cabeça
para a cadeira à frente da minha mesa. Estava ficando seriamente
entediado com as ameaças hoje. Bem, não eram ameaças, não no
nosso mundo, eram promessas, pois sempre cumpríamos o que
dizíamos.
— Sabe por que está aqui hoje?
Ele se remexeu na cadeira enquanto Jiro se posicionava atrás
dele, meu executor sempre presente.
— Eu… n-não. Não tenho certeza.
Suspirei. Então era assim que ele queria jogar? Que perda de
tempo.
Abri a pasta sobre minha mesa e bati o dedo indicador na folha
que detalhava suas contas dos últimos seis meses.
— Os lucros têm diminuído constantemente nos últimos seis
meses, apesar dos valores dos empréstimos mensais serem bastante
estáveis. — Coloquei a mão sobre o papel. — Por que isso?
— É difícil para as pessoas nestes di…
— Sabe o que eu penso? — interrompi. Normalmente, achava
engraçado vê-los tentar inventar uma desculpa estúpida, e eu gostava
da tortura mental, mas, acima de tudo, gostava de lembrá-los para
quem trabalhavam e o código de conduta — nosso bushido — que ele
era obrigado a seguir. Mas agora eu queria um fim rápido, queria ler
aquele e-mail e seguir com o dia. — Penso que ou você está
emprestando dinheiro para pessoas sem incentivos fortes o
suficiente para forçar o pagamento, ou não está sendo assertivo o
bastante para exigir nosso dinheiro de volta. — Dei de ombros. — De
qualquer forma, o escritório de empréstimos 159 é sua
responsabilidade. Os outros estão se saindo bem, e você também
deveria.
Jiro me lançou um meio sorriso cúmplice. Ambos sabíamos que
alguns não estavam se saindo bem, e um deles agora estava
permanentemente fora do jogo.
O homem empalideceu, e continuei:
— Preciso pedir ao Jiro para te mostrar como fazer seu trabalho?
Ele balançou a cabeça veementemente.
— Não, não, por favor. Isso não é necessário.
Ter Jiro investigando seus negócios frequentemente significava
morte, ou pelo menos um Yubitsume. Jiro e eu tínhamos feito tantos
desses no início que agora sabíamos como cortar dedos com o
mínimo de respingos de sangue. Era sempre tão difícil de limpar.
— Quero essas contas quitadas e os lucros recuperados até o fim
do ano. Entendeu? Não me faça te chamar de volta a este escritório.
— Encarei-o, garantindo que ele compreendesse plenamente o
significado das minhas palavras. Porque você não sairia deste prédio
vivo estava muito implícito. Olhei para Jiro e assenti.
Jiro tocou o ombro do homem, que pulou da cadeira —
claramente aliviado demais por ser autorizado a sair com todos os
membros intactos.
Ele se curvou.
— Obrigado, Oyabun. — Deu um passo para trás em direção à
porta, curvando-se novamente. — Obrigado pela sua generosidade. —
Outro passo, outra reverência. — Vou recuperar as contas. — Outro
passo e uma reverência ainda mais baixa.
Tive que me controlar para não revirar os olhos. Esses membros
inferiores estavam exagerando demais ultimamente.
— Você não vai se arrepender de me dar uma chance —
acrescentou ele com uma reverência final enquanto suas costas
encostavam na porta atrás dele.
— Espero que não. Sua vida depende disso — lembrei-o
enquanto ele abria a porta e saía da sala como se estivesse fugindo do
próprio Diabo.
Mas ele está, não é? Eu sou o diabo.
Suspirei.
— Siga-o e garanta que ele não mijará no carpete ao sair.
Jiro riu.
— Akira está aqui.
Franzi a testa. Meu tio geralmente me evitava; ele não gostava
muito de me atualizar sobre como lidava com sua parte dos negócios.
— Por que?
Ele deu de ombros.
— Seu palpite é tão bom quanto o meu.
Balancei a cabeça. Realmente estava se tornando o dia que
nunca terminava.
— Enrole-o por alguns minutos. Tenho algumas coisas a fazer.
Os olhos de Jiro se estreitaram nos cantos enquanto ele estudava
minha mesa. Ele sabia que eu estava escondendo algo, mas, apesar
de nossa relação próxima, ele não cruzaria essa linha.
Virei-me para o computador assim que ele fechou a porta e abri
o e-mail.
Li uma vez, balancei a cabeça e li novamente. Devo ter lido
errado, era a única explicação lógica.
Não. Soltei um grunhido de frustração enquanto me recostava
na cadeira. Aquela mulher idiota recusou a oferta?
Apertei os maxilares ao pensar nela trabalhando em um clube de
strip. Senti uma onda de possessividade e raiva quando li no
relatório do investigador particular que ela trabalhava em um clube
de strip. A única coisa que me impediu de ir lá e incendiar o lugar foi
porque ela era apenas garçonete de bar, e também porque era em
Buenaventura. Pelo menos era uma das melhores áreas da cidade.
Mas por que ela recusaria? Ela me contou o quanto a Sun Valley
significava para ela, como queria que sua vida fosse diferente. Eu me
certifiquei de que a oferta fosse ainda melhor dessa vez, então por
que ela…
Meus pensamentos foram interrompidos por uma batida forte
na porta, o que significava que meu tio já havia esperado o suficiente.
Ele abriu a porta e tinha seu habitual olhar carrancudo de
descontentamento no rosto.
— Tio, o que posso fazer por você?
Ele se sentou sem ser convidado e balançou a cabeça.
— Esperei quase uma hora.
Olhei rapidamente por cima do ombro dele, e Jiro revirou os
olhos antes de fechar a porta atrás de si, deixando-me sozinho com
meu tio. Traidor!
— Tive algumas situações para resolver. Você sabe como é estar
no comando. Nem sempre podemos fazer o que queremos.
Seus lábios, que antes estavam apertados em uma linha fina,
relaxaram, como eu sabia que fariam. Meu tio pensava que era um
mistério, o símbolo do orgulho da yakuza, mas para mim ele era
apenas um homem envelhecido, preso em seus modos obsoletos,
com um ego inflado demais. Esse ego sempre seria sua maior
fraqueza, e alimentá-lo era a melhor maneira de desarmar uma
situação tensa.
Ele assentiu, levando a mão ao rosto e apoiando o dedo
indicador na boca, exibindo a tatuagem na parte de trás da mão: 893,
o símbolo da yakuza. Todos nós tínhamos essa tatuagem de uma
forma ou outra, mas apenas as gerações mais velhas a exibiam para
todos verem. Eu estava orgulhoso de quem era, da missão que me foi
dada, mas ajudava tremendamente na vida — tanto no lado legítimo
quanto no ilegítimo dos negócios — não gritar minha afiliação. Onde
meu tio via isso como falta de orgulho ou covardia, eu via como
inteligência.
— Os chineses disseram que você recusou ajudar — disse ele
finalmente, olhando ao redor do meu escritório como se estivesse
tentando encontrar algo. O quê? Eu não tinha certeza.
— Recusei.
— Bem — bufou ele —, eles disseram que seu Nuhi recusou.
Suspirei. Não ia ter essa conversa novamente. Me irritava que ele
ousasse chamar Jiro de Nuhi, que não era nada além de um escravo
— a classe mais baixa possível de séculos atrás. Eu sabia que meu tio
desejava que isso ainda estivesse em vigor.
— Jiro é meu wakagashira, sempre foi. Ele apenas disse a eles o
que eu mesmo teria dito.
Meu tio bufou, aparentemente ainda não superando o fato de
que escolhi meu melhor amigo como meu braço direito, meu
primeiro tenente, em vez de seu filho incapaz, que estava muito mais
interessado em cheirar cocaína e ser chupado por qualquer coisa com
uma boca, independentemente do gênero, do que lidar com o
sindicato.
Já faz três anos, tio, hora de superar isso.
— Temos um acordo com a Tríade.
— Temos. — Assenti, ficando mais irritado por ter que justificar
minhas ações para ele. Bem, na verdade, não precisava, mas meu tio
era um dos membros mais antigos da yakuza neste país e carregava
um certo poder que, para meu maior aborrecimento, eu não podia
ignorar. — Com relação à divisão de negócios e áreas de operação,
assim como temos com os coreanos. Nunca concordamos em lutar as
batalhas deles. Assim como eles se recusaram a ajudar quando
precisamos, caso você não se lembre.
— Não me dê uma aula de história. Sei muito bem o que
aconteceu com a Tríade. Eu estava no meio disso enquanto você
ainda usava fraldas.
Coloquei as duas mãos sobre a mesa e me inclinei para frente,
esquecendo minha máscara de frieza enquanto lançava a ele um
olhar cauteloso.
— Recomendo fortemente que você se lembre com quem está
falando, tio.
As narinas do meu tio se dilataram, e seus maxilares se
contraíram de raiva.
Mantive o olhar fixo nele em desafio até que ele abaixasse a
cabeça, quebrando o contato visual.
— Moushiwake gozaimasen — murmurou ele, e eu sabia o
quanto custava a ele se desculpar comigo. O sangue impuro, o
homem-criança que ele achava inadequado para o trono.
— Temos coisas suficientes para lidar em nossos próprios
negócios. Não estamos aqui para lutar as guerras de outras máfias.
Embora os mexicanos não sejam nossos aliados, também não quero
adicioná-los à nossa lista de inimigos. — Acenei a mão de forma
desdenhosa. — Meu pai pensava o mesmo — acrescentei, esperando
que isso tivesse peso suficiente para ele seguir em frente.
— A Tríade nos devendo um favor poderia ter sido útil, e não
podemos dizer que seu pai era o símbolo de decisões perfeitas. Ele
tomou várias escolhas questionáveis em seu tempo.
Apertei a mão em punho sobre a mesa. Eu sabia muito bem o
que ele queria dizer. Ele nunca superou o fato de meu pai ter
escolhido minha mãe em vez da noiva japonesa perfeita que haviam
selecionado para ele. Aquela mulher fora criada e treinada para ser
sua esposa, mas, quando ele viajou para conhecê-la, apaixonou-se
por outra mulher da vila — uma Hafu, meio japonesa, meio
americana. Isso era algo que meu avô e meu tio sempre ressentiram
contra meu pai. O rancor do meu tio era tão profundo, especialmente
porque ele foi forçado a se casar com a mulher originalmente
prometida ao meu pai. Uma mulher cheia de rancor e amargura por
estar casada com o segundo filho.
A tia Yua foi uma mulher horrível, e, por mais triste que pareça,
ninguém realmente a lamentou quando ela faleceu há dois anos.
— Não vou me envolver nas guerras deles. Este é o fim da
discussão. — Inclinei a cabeça para o lado, estalando o pescoço. —
Bem, se era só isso que você…
— Fui informado de que você foi jantar com Aiya Sato.
— Fui. — Foi a pior noite que tive em muito tempo, e,
honestamente, quis arrancar minhas unhas uma a uma no final.
— Ela é a noiva perfeita para você. Botan Sato é um membro
forte e poderoso da nossa organização. Ela tem maneiras perfeitas e
uma linhagem pura.
— E sem nenhum compasso moral. Desde que eu compre
diamantes e roupas de grife, ela faria vista grossa para o sangue,
assassinatos e eventuais amantes — acrescentei, incapaz de conter a
amargura na minha voz.
Meu tio riu com um leve aceno de cabeça.
— Exatamente! Não é perfeita? Um verdadeiro presente dos
nossos ancestrais! — concordou, confundindo minha crítica com
elogios. — Vejo que você está fazendo escolhas mais sábias que seu
pai.
— Cuidado, tio… A mulher que você está menosprezando tão
facilmente é minha mãe.
— Não foi minha intenção, sua mãe é uma mulher admirável que
merece respeito. — Eu sabia que ele falava sério, porque, apesar de
sua oposição à união deles, era impossível não gostar da minha mãe.
— Ela simplesmente não era adequada para esta vida e sua posição.
— Essa é a sua opinião. — Bati os dedos na mesa. — Tenho
trabalho a fazer.
Ele assentiu e se levantou, finalmente desistindo.
— Eu também. Preciso ir a Buenaventura.
Isso chamou minha atenção.
— Buenaventura? Por quê?
— Eles não parecem muito receptivos à mais recente adição da
Nishimura Holding.
— As novas torres de escritórios? Qual é o problema deles? Isso
trará negócios para eles.
— Alguns acham que vai descaracterizar a área. Eles têm apenas
lojas pequenas, e não querem que isso mude.
— Todos os negócios têm problema com isso? — Por favor, diga
que sim. Por favor, me dê uma razão para vê-la novamente.
Ele deu de ombros.
— Quase todos, sim, exceto a dona da floricultura. Até o clube de
strip está contra. — Ele balançou a cabeça. — Você pensaria que ele
estaria ansioso para atrair todos os pervertidos com carteiras gordas.
Mas não se preocupe, farei com que reconsiderem.
Destino. Tem que ser o destino.
— Vou falar com eles — declarei, levantando-me e ajustando
meu paletó.
Meu tio deu um passo para trás, arqueando uma sobrancelha em
surpresa.
— Você? Você sempre recusou fazer essa parte do trabalho.
— E hoje eu quero. Deixe-me ir ao clube de strip.
Meu tio riu.
— Não sabia que você era do tipo. São todas gaijin lá.
Balancei a cabeça com um bufado desdenhoso enquanto me
abaixava, fingindo pegar algo na gaveta, só para o caso de ele
conseguir ler algo no meu rosto que eu não queria que visse.
— Tenho alguns padrões, tio. Não tocarei em nenhuma das
garotas. — Não era uma mentira completa. A maioria dessas
mulheres fazia esse trabalho por desespero, e eu não era do tipo que
se alimentava desse tipo de desespero. Queria uma mulher que viesse
para a minha cama sem medo ou obrigação. Queria que ela se
entregasse a mim porque me desejava.
Você me deseja, Violet Murphy? Está pensando em mim da
maneira que estou pensando em você?
Levantei o olhar e deixei os olhos questionadores do meu tio
examinarem os meus. Ele disse algo?
Pisquei algumas vezes.
— O quê?
— Eu disse para deixar comigo. Lido com essa parte dos negócios
há anos.
— E você tem se saído bem — disse, tentando apaziguá-lo. —
Mas você sabe quem é o verdadeiro dono deste clube, e sabe que
minha presença pode ter um pouco mais de peso. Não há sentido em
começar a torturar todos e irritar outro sindicato. Não concorda?
Ele deu de ombros, e eu soltei uma pequena risada.
— Só me pergunto por que agora? — perguntou ele. Eu
realmente não precisava que ele investigasse isso de perto e
encontrasse Violet. Ela nunca faria parte deste mundo, eu nunca
faria isso com ela. Vou mantê-la à distância, perto o suficiente para
tocar sua pele e me livrar dessa obsessão, mas também longe o
suficiente para que ela nunca saiba quem eu realmente sou e o perigo
que represento.
— Me pergunto por que você é tão contra a minha visita? Há
algo, ou alguém, que está tentando esconder? — Aqui, vamos virar o
foco para você e ver como você gosta.
Meu tio ergueu as mãos em rendição.
— Faça como quiser, não tenho nada a esconder. Me avise se não
conseguir nada. Eu assumo.
Tive que me esforçar para não rir. Quem ele pensava que era?
— Adeus, tio.
Ele se curvou para mim.
— Oyabun — disse antes de virar e sair da sala.
Sorri enquanto ajustava a arma no coldre.
Até logo, Violet.
Vi
Após a saída de Hoka, fiquei surpresa que Liam não reclamasse
ou me fizesse ficar até mais tarde para atrapalhar meu encontro.
Conhecia-o há anos, e, apesar de coisas que eram em grande
parte não ditas, também sabia que ele acreditava ter um direito sobre
mim apenas por causa da história dos nossos pais. Mas, em vez de
me atrapalhar, ele foi muito melhor do que eu jamais esperava.
Ele esperou Hoka sair e se virou para uma das garçonetes para
me substituir por alguns minutos, então me levou ao seu escritório.
Estava pronta para enfrentá-lo, mas ele apenas se sentou ali e
me olhou em silêncio por alguns minutos antes de balançar a cabeça.
— Sabe o que eu disse ontem? Não falei sério, Violet. Estava com
raiva, mas não foi justo da minha parte te ameaçar.
Fiquei ali, chocada demais com seu pedido de desculpas. Liam
sempre achou que era bom demais para se desculpar.
— Somos uma família, Violet, e a maneira como agi não foi como
família. — Ele desviou o olhar, como se as próximas palavras lhe
custassem algo muito maior. — Você merece algo melhor do que faz,
e eu deveria te incentivar a conseguir isso, não te impedir.
— Tudo bem…?
— O que estou dizendo é, não importa o que aconteça, você
sempre terá um emprego aqui, então aproveite todas as
oportunidades que surgirem no seu caminho. Se falhar, ainda
estaremos aqui.
Franzi os olhos, sentindo-me inquieta. Isso era muito diferente
dele. Liam não era altruísta ou compreensivo.
— Por quê?
Ele inclinou a cabeça para trás, surpreso e bufou.
— Por quê? Eu esperava um Obrigada, Liam.
— Conheço você a maior parte da minha vida, Liam. Por que está
fazendo isso?
Ele balançou a cabeça.
— Porque era o que sua mãe queria, e meu pai a amava. Ele
também gostaria disso para você. Considere isso como uma forma de
honrar sua memória.
Liam não honrava nada além de si mesmo, mas isso não
importava… Essa era a rede de segurança que eu precisava.
Assenti.
— Obrigada.
Ele acenou de forma desdenhosa antes de olhar para o relógio.
— Vá agora, faltam apenas trinta minutos do seu turno. Você
precisa se preparar para seu encontro — acrescentou, o tom frio em
sua voz inconfundível, mas eu não ia questioná-lo mais. Aceitaria o
que ele me dava e seria grata por isso, mesmo que houvesse segundas
intenções.
Condenada se fizer, condenada se não fizer. Bem, então não me
importo se fizer.
Peguei todas as minhas coisas rapidamente e corri para a parada
de ônibus antes que aquela versão de Liam desaparecesse e ele viesse
me procurar só para dizer que mudou de ideia.
Acabei de chegar à parada quando meu ônibus apareceu na
esquina. Nossa, hoje realmente era um dia decente.
Sorri ao subir no ônibus. Nunca esperei ver Hoka novamente.
É um encontro. Fiz uma careta quando uma onda de vergonha
me atingiu no peito enquanto tomava meu assento no ônibus.
Toquei minhas bochechas ardentes, balançando a cabeça,
esperando que a mortificação diminuísse antes de vê-lo hoje à noite,
ou eu seria um tomate ambulante e falante durante todo o jantar.
Mal acreditei que ele me convidou para jantar, e então, quando
disse que era um encontro, ele concordou.
Fiz uma pesquisa no Google sobre ele quando recuperei o Wi-Fi,
e, apesar de não encontrar muito, descobri que Hoka Nishimura era
o CEO de um grande conglomerado que valia bilhões.
O que um homem rico e atraente poderia querer com a pequena
e velha eu? Bem, eu sabia o que ele poderia querer — não era tão
ingênua — mas seria muito esforço para alguém como eu, que era
bastante comum.
Estava ansiosa com a ideia desta noite. E se ele me achasse
chata? E se eu o envergonhasse?
Fui pega de surpresa pelo pensamento quando o ônibus parou
em frente ao meu prédio.
Eu o envergonharia? Não, ele tinha que saber que eu não era
uma pessoa do mundo dele. Tentei me tranquilizar enquanto
caminhava pelo caminho até meu prédio decrépito.
Parei em frente à porta enferrujada que levava ao corredor e
observei a tinta descascada e as pichações menos que agradáveis nas
paredes.
Ele viu onde eu trabalhava e onde morava… Não podia estar
esperando muito, podia?
Por que você não seria o suficiente? Uma vozinha que soava
exatamente como a da minha mãe ressoou na minha cabeça
enquanto girava a chave na fechadura, sacudindo a porta com toda a
força do meu peso para destravar o trinco defeituoso.
Eu fazia isso com frequência — imaginando o que minha mãe
teria dito em algumas situações.
Perdi-a jovem demais, poucos dias após meu décimo sexto
aniversário, mas ela já vinha desvanecendo, perdendo sua batalha
contra o câncer por quase um ano antes disso.
Minha mãe lutou contra o câncer como uma guerreira,
mostrando-me uma quantidade de força, dignidade e coragem que
eu não tinha certeza se poderia alcançar, apenas aspirar.
Meu coração afundou no peito enquanto subia as escadas
pegajosas até meu apartamento, o eco da dor que senti quando ela
morreu ainda muito presente, me lembrando que, não importa o
tempo de cura que supostamente deveria trazer, alguns cortes nunca
cicatrizariam completamente.
Perdi-a jovem demais… Bem, suponho que sempre é cedo
demais para perder aquela pessoa que te ama tão
incondicionalmente. Perdi-a antes de saber o que era ser eu, antes de
saber o que realmente significava ser mulher.
Entrei no meu apartamento estúdio e me sentei pesadamente na
minha cama de solteiro, fechando os olhos e imaginando-a me
ajudando com o estresse do meu encontro iminente.
Imaginei-a sentada ao meu lado na cama, e quase podia sentir o
leve perfume de frésia dela.
Ela teria sorrido com o quanto eu estava nervosa, dizendo que
era normal.
Eu teria perguntado por que um homem como Hoka gostaria de
passar tempo com uma mulher como eu.
— Porque ele é claramente um homem inteligente, Vi. Ele viu
que joia você é sem qualquer artifício ou teatralidade. Esse homem
vê um verdadeiro tesouro sem a necessidade de brilho. Nem tudo
que brilha é ouro, doce garota, e esse homem claramente sabe disso.
Mantive os olhos fechados. Não estava pronta para abandonar a
imagem perfeita dela sentada ao meu lado na cama, seus olhos azuis,
tão parecidos com os meus, cheios de amor e bondade, apesar da
vida ter mostrado a ela apenas suas arestas duras. Recostei-me
contra a parede fria, deixando algumas lágrimas de tristeza correrem
pelas minhas bochechas.
Imaginá-la era sempre um enigma, me fazendo sentir melhor e
pior ao mesmo tempo.
Passei a mão para o lado, onde a imagem dela era tão vívida que
quase esperei que minha mão tocasse sua pele macia e quente em vez
do lençol desgastado e lavado demais.
Abri os olhos quando minha mão pousou no tecido áspero, a
ilusão desfeita.
Respirei fundo.
— Sinto tanto a sua falta, mãe.
Levantei-me e balancei a cabeça, desejando que a tristeza
diminuísse e voltasse para sua caixa por enquanto.
Abri a porta única do meu armário multifuncional/cozinha e
percebi o que já sabia. Meu guarda-roupa consistia em três pares de
jeans, um par de calças sociais e o vestido que Hoka já tinha me visto
usar.
Fechei a porta e me encostei nela. Isso era uma má ideia, tudo
isso. Peguei o celular do bolso traseiro e girei-o na palma da mão.
Talvez eu devesse simplesmente cancelar, não precisava dar uma
desculpa. Poderia apenas dizer que não podia ir.
Mas eu quero ir, não quero?
Mordi o lábio inferior. Por que eu queria ir? Não era como se
isso pudesse levar a algum lugar. Em que universo um bilionário
sexy de trinta e poucos anos construiria uma vida com uma órfã de
vinte e um anos, sem educação e pobre? Isso só acontecia em livros e
filmes da Hallmark.
No entanto, quero tentar, não quero?
Revirei os olhos para meu debate interno. Se levasse isso um
passo adiante, desenvolveria uma personalidade dividida.
— Os arrependimentos nascem principalmente de
oportunidades perdidas. — Minha mãe sempre dizia, e não
importava quantas vezes ela caísse, ela sempre se levantava
novamente.
Agora era a hora de seguir seus passos e mostrar ao mundo que
eu estava pronta para correr outro risco.
Olhei para a alça prateada que aparecia debaixo da minha cama
e puxei a mala azul-pombo de casca dura onde guardava minhas
posses mais preciosas do mundo.
Apoiei-me nos calcanhares e peguei a toalha que secava no pé de
metal da cama para limpar a fina camada de poeira que se
acumulava na mala.
Raramente a abria — fazia mais de dois anos desde que ousara
olhar dentro dela. Abri-la, embora às vezes reconfortante, muitas
vezes trazia uma nova onda de dor, perda e tristeza.
A mala continha a essência de quem minha mãe tinha sido. Não
guardei muito, não podia. Se fosse possível, teria guardado tudo que
ela tocou, tudo que ela possuiu, como se isso a mantivesse mais perto
de mim de alguma forma.
Mas, infelizmente, uma semana após sua morte, o proprietário
veio pedir um aluguel que eu obviamente não tinha. Não tive outra
escolha senão deixar o lugar para me mudar para algum lugar muito
mais barato, fora do radar dos serviços sociais até completar dezoito
anos.
A única coisa que pude fazer foi guardar os poucos pertences que
sabia que ela mais amava nesta mala velha, feia e amassada. Alguns
livros de bolso tão lidos que as páginas mal estavam coladas. Alguns
vestidos que eu sabia que eram seus favoritos — a maioria presentes
do pai de Liam. Também guardei um conjunto de colar e brincos de
pérola que não tinha certeza se valia muito. Nunca perguntei muito
sobre eles porque via como ela os manuseava com cuidado, que,
independentemente de quanto custassem, para ela, eram
inestimáveis. Estivemos em muitas dificuldades financeiras ao longo
dos anos, mas, apesar de vender quase tudo que possuía — tudo que
tinha algum valor, tudo que era bonito — ela nunca se convenceu a
vender esse colar. Não sabia quem o deu a ela, e a tristeza em seus
olhos quando o usava me impedia de perguntar. Suspeitava que
tinha sido um presente do meu doador de esperma. Não podia
chamar aquele homem de pai, não quando ele baniu minha mãe por
estar grávida de mim e se recusar a abortar.
Muitas vezes me sentia culpada por forçá-la a essa vida de
miséria. Ela sempre ficava chateada quando eu dizia isso, no entanto.
Dizia que nunca se arrependeu de me ter, que eu era o melhor
presente que uma pessoa poderia sonhar. E eu tentei… Tentei tanto
ser a filha que ela merecia, tentei ajudá-la não causando problemas e
não pedindo nada. De alguma forma, queria expiar pecados que nem
cometi.
Pensei que ela não notava todos os sacrifícios que eu fazia, e não
achava que ela sofria tanto ao me ver fazer todas as coisas que fazia.
Mas, quando percebeu que estava perto da morte, ela abriu essa
grande noz de dor. Fez-me prometer começar a viver, não ter medo,
não me afogar em minha tristeza e culpa mal colocada. E eu prometi
isso a ela. Para ser honesta, teria prometido qualquer coisa no
mundo só para aliviar a preocupação que se acumulava sobre sua
doença.
Passei a mão pelo tecido azul suave do vestido que usaria hoje à
noite. Sempre amei esse vestido, e minha mãe o usava raramente,
embora soubesse que era um de seus favoritos. Suspeitava que ela o
mantinha em boas condições porque sempre tinha em mente que eu
o usaria um dia. Ela brincava sobre isso antes de adoecer, quando
pensávamos que eu ainda tinha um futuro brilhante pela frente.
Dizia que quase podia me imaginar usando-o na minha formatura do
ensino médio. Formatura do ensino médio… Algo que parecia tão
claro no meu futuro, quase escrito nas estrelas, mas que escapou
pelos meus dedos quando recebemos o diagnóstico da minha mãe.
Suspirei enquanto pegava o vestido e o desdobrava
cuidadosamente na cama. Às vezes me perguntava se ela podia me
ver de onde estava e se estava decepcionada com o rumo que minha
vida tomou. Não fiquei grávida aos dezessete anos como ela, mas era
difícil não notar todas as semelhanças em nossas vidas. Às vezes me
arrependia de ter abandonado o ensino médio. Menti para mim
mesma, dizendo que era só por alguns meses, só para ganhar um
pouco mais de dinheiro para ajudar um pouco mais com as contas do
hospital que se acumulavam tão rapidamente. Não havia como pagar
isso, mesmo que trabalhasse a vida toda. E então ela simplesmente
morreu, apesar de toda a luta que colocou nisso. Apesar do desejo
ardente de ficar aqui comigo, ela partiu. Parte de mim estava grata,
mesmo que apenas por ela, porque ver a mulher que ela costumava
ser — cheia de luz, vida e risos — tornar-se uma sombra de si mesma
era difícil demais de suportar, e eu não conseguia imaginar o quão
difícil deve ter sido para ela.
Balancei a cabeça novamente. Talvez abrir a mala não fosse a
melhor ideia, caminhar por essa estrada de memórias tão perto do
meu encontro com Hoka era loucura. Não podia me permitir seguir
por esse caminho, porque, se o fizesse, não tinha certeza de quando
veria a luz novamente.
Concentrei-me no vestido, e fiquei aliviada ao ver que aqueles
anos dobrado na mala não o danificaram. Experimentei-o pela
primeira vez quando minha mãe o trouxe para casa. Eu tinha quinze
anos então, e meu corpo era mais de criança do que o da mulher que
sou hoje. Desenvolvi muitas curvas femininas desde então, e me
perguntava se ainda caberia nele.
Olhei para o relógio e percebi que Hoka estaria aqui em menos
de quarenta minutos.
Como o tempo voa quando você se perde na sua tristeza.
Corri para o banheiro e tomei o banho mais rápido da história,
lavando o cabelo de qualquer jeito, esperando conseguir arrumá-lo
de alguma forma. Normalmente, pegava um secador ou uma
chapinha emprestados com minha vizinha do outro lado do corredor,
mas ela estava trabalhando hoje à noite, então tive que fazer o
melhor com o que tinha.
Depois de tomar banho, voltei para o quarto com minha melhor
calcinha de algodão rosa. Peguei o vestido da cama, abri o zíper
lateral e entrei cuidadosamente no material sedoso. Puxei-o para
cima e quase parei de respirar quando senti que estava um pouco
apertado nos quadris.
Não, por favor, Deus, não faça isso comigo, pensei, ou melhor,
implorei a um Deus que eu nem tinha certeza se existia.
Prendi a respiração enquanto puxava um pouco mais forte e
soltei um suspiro de alívio quando o material passou pelos meus
quadris sem rasgar.
Caminhei descalça até o espelho de corpo inteiro colado na porta
de entrada e me olhei enquanto deslizava os braços nas mangas e
puxava o vestido para cima.
Prendi a respiração enquanto fechava o zíper. Este era o
momento da verdade. Não pude evitar sorrir quando o zíper
cooperou, e olhei de volta para o espelho. Eu era a imagem cuspida
da minha mãe, todos diziam isso. No entanto, hoje percebi que,
apesar da minha dieta de macarrão instantâneo, desenvolvi mais
curvas do que ela.
O vestido me fazia parecer bonita, distinta e feminina — todas as
coisas que eu não era.
Passei a mão pelos lados, seguindo as linhas do meu corpo como
uma segunda pele, parando logo acima do joelho. O decote
arredondado era bastante conservador na frente, mas, quando me
virei e estiquei o pescoço para olhar as costas, vi que ele se abria em
um V bem profundo que terminava na base da minha coluna.
Assenti em aprovação. Esse vestido fora a escolha certa, e
esperava que Hoka concordasse.
Na verdade, estava feliz por não ter me dado muito tempo para
me arrumar — isso me impedia de pensar demais em tudo. Ele
estaria aqui em poucos minutos, e, se eu não quisesse me apresentar
descalça e sem maquiagem, não podia contemplar mais minha
escolha de roupa.
Escovei o cabelo molhado e o prendi em um coque. Minhas
habilidades eram limitadas, e era realmente a única coisa que eu
podia fazer. Optei por apenas um pouco de rímel e gloss rosa —
novamente, minhas opções eram bastante limitadas, já que minha
nécessaire era uma saboneteira de plástico contendo quatro itens
com desconto.
Apesar da minha baixa estatura, optei por sapatilhas pretas
porque ainda não estava totalmente confiante com meu tornozelo, e
porque os saltos tiravam qualquer confiança que eu tinha no simples
ato de caminhar.
Olhei para a mala aberta e a caixa de veludo bordô contendo as
pérolas da minha mãe.
Passei os dedos pelo pescoço nu, contemplando usá-las.
Adicionaria um toque de feminilidade a essa bela roupa.
Abri a caixa e passei os dedos pelas pérolas lisas, frias e
brilhantes.
Ela gostaria que eu as usasse? Claro que sim. Ela gostaria que eu
tivesse o melhor de tudo.
Meu celular apitou, e olhei para a tela para ver que Hoka estava
me esperando lá embaixo.
A hesitação foi substituída por urgência, e peguei o colar,
prendendo-o ao redor do pescoço, sem nem me dar ao trabalho de
me olhar no espelho, caso isso me fizesse reconsiderar tudo mais
uma vez.
Tive que correr agora. Estava grata por ele não ter tentado subir
para me buscar.
Fui tão firme na minha recusa em deixá-lo me ajudar a subir
após o acidente, envergonhada demais para mostrar onde morava,
que ele provavelmente se lembrou. E isso, de alguma forma, me fez
gostar ainda mais dele, mas eu não tinha certeza se ele esperaria
muito mais.
Respondi rapidamente enquanto pegava o xale preto sintético,
que resgatei da mala para colocá-lo nos ombros, escondendo o
mergulho escandaloso das costas. Foi um erro? Estava mostrando
demais? Ele pensaria menos de mim?
Sabia que esse xale não combinava com o vestido — não era nem
de longe tão bonito ou novo, mas era isso ou minha jaqueta jeans.
Parei no último degrau para olhar para Hoka enquanto ainda
estava escondida da vista.
Tomei um fôlego brusco só de vê-lo. Como isso era possível?
Como um homem que eu mal conhecia causava tantas emoções em
mim?
Ele estava encostado despreocupadamente na porta do
passageiro do seu carro, as mãos enfiadas nos bolsos do seu terno
preto perfeitamente ajustado, e, apesar de estar usando a melhor
roupa que possuía, ainda me sentia tão deslocada, tão fora do meu
alcance.
Ele olhava para o prédio, as sobrancelhas franzidas, parecendo
muito mais um guerreiro feroz do que um homem de negócios, e não
pude evitar sentir que esse homem poderia enfrentar o mundo se
quisesse. Só o olhar dele, ao mesmo tempo relaxado e feroz, me fazia
sentir tanto em perigo quanto segura ao mesmo tempo. Como isso
era possível?
Dei um passo mais perto da porta enquanto meu coração pulava
uma batida, antecipando o momento em que seus olhos finalmente
se voltariam para mim.
Empurrei a maçaneta para baixo, e sua cabeça imediatamente se
moveu na minha direção, mostrando que, mesmo parecendo perdido
em pensamentos, ele estava claramente muito atento ao seu entorno.
Assim que seus olhos encontraram os meus, seu olhar suavizou,
e um pequeno sorriso roçou o canto dos seus lábios enquanto me
observava antes de caminhar em minha direção com passos
tranquilos.
Meu estômago se contorceu com uma onda de ansiedade ao vê-
lo. Seus olhos ficaram mais escuros e intensos quanto mais ele me
olhava, e não pude evitar corar, sabendo que provavelmente parecia
uma colegial apaixonada.
Ele parou bem na minha frente, muito mais perto do que deveria
para ser apenas um conhecido.
A ponta de seus sapatos polidos tocou a ponta das minhas
sapatilhas, e ele se inclinou sobre mim, olhando para baixo. Entre o
calor do seu corpo e o leve aroma escuro, esfumaçado e de couro do
seu pós-barba, senti como se estivesse sendo envolvida pela sua
presença masculina como uma manta protetora. Não senti nenhum
medo ou apreensão enquanto esticava o pescoço para olhar em seus
olhos âmbar misteriosos.
— Oi — deixei escapar em um sussurro rouco e fiz uma careta
internamente. Uma simples palavra poderia carregar a extensão da
sua atração por uma pessoa? Parecia que sim.
Seu sorriso se alargou, e tive que apertar meu xale enquanto
sentia a força dele perfurar o centro do meu peito.
— Violet Murphy… — Sua voz profunda soou ainda mais grave,
mais rouca. — Você está absolutamente deslumbrante — acrescentou
antes de dar um passo para trás, permitindo-me respirar novamente.
Ele estendeu o braço para mim. — Vamos?
Assenti e apoiei a mão no braço dele enquanto caminhávamos
até seu SUV de luxo, sentindo como se tivesse entrado em um
daqueles romances de época.
— Para onde estamos indo? — perguntei depois que ele me
ajudou a sentar e tomou seu lugar no banco do motorista.
— Há um restaurante encantador a cerca de cinco minutos
daqui, na verdade. Despretensioso, mas a comida é de morrer. — Ele
olhou para mim enquanto ligava o carro. — Tudo bem?
— Mais do que tudo bem — respondi com sinceridade, sentindo-
me um pouco mais relaxada. Ele não estava me levando a um
restaurante chique com cinco garfos e facas que eu não fazia ideia de
como usar.
Não havia nada chique por aqui, pelo menos, nada chique o
suficiente para me fazer passar vergonha.
Ele não mentiu, e quase assim que saímos do meu prédio, ele
pegou uma rua estreita de mão única e estacionou em frente a um
restaurante mal iluminado e despretensioso chamado Roma.
— Sei que não parece grande coisa, mas posso te garantir, a
comida é de outro mundo.
— Não estou preocupada. Nem tudo que brilha é ouro. O
contrário também é verdade.
Ele parou ao abrir a porta do carro e me olhou como se estivesse
me vendo pela primeira vez.
— Sim, sempre pensei o mesmo.
Ele contornou o carro para me ajudar a sair, e era tão bom ser
tratada como se eu fosse especial. Jake nunca fez nada assim antes.
Ele me considerava garantida desde o primeiro dia, e eu
simplesmente aceitava.
Hoka descansou a mão na base das minhas costas, e, apesar do
xale criar uma barreira entre sua pele e a minha, ainda podia sentir o
rastro de fogo que ele deixava na minha pele.
— Senhor Nishimura! — exclamou o homem mais velho com um
forte sotaque italiano de trás do pequeno bar de madeira.
Hoka sorriu para ele, curvando-se levemente.
— Senhor Beldoni.
— Faz anos que você não vem — acrescentou o homem robusto,
contornando o balcão e vindo ficar na nossa frente, suas bochechas
um pouco vermelhas de excitação.
— Eu sei, me desculpe. — Ele me puxou um pouco mais para
perto. — Precisava compartilhar essa pequena joia italiana com
minha amiga.
O homem se virou para mim, seu sorriso se alargando.
— Você é quem tem a joia, meu amigo.
Hoka me olhou, e o olhar de intimidade sombria em seus olhos
enviou um arrepio pela minha espinha.
— Sim… de fato, eu tenho.
— Venham, venham. — O homem gesticulou para frente antes de
começar a andar entre as mesas. — Você teve sorte de ligar. Reservei
a mesa da sua mãe. É a mais valiosa — acrescentou enquanto parava
ao lado de um reservado no canto dos fundos. — Como ela está?
Hoka assentiu enquanto me ajudava a sentar, e senti seus dedos
deslizarem suavemente pela minha espinha após me ajudar a tirar o
xale, fazendo meu pulso bater muito mais forte no estômago e entre
as coxas.
— Ela está bem. Ainda está em casa, mas planeja visitar em
breve — respondeu ele, como se não tivesse me tocado.
Será que imaginei isso?
Respirei fundo, me acalmando, e olhei ao redor do restaurante
enquanto o homem continuava conversando com Hoka.
O salão não era grande, havia apenas cerca de quinze mesas,
com apenas algumas ocupadas. Talvez porque já fosse um pouco
tarde para o jantar.
A atmosfera era realmente reconfortante, e parecia que eu tinha
entrado em um velho filme italiano com as luzes fracas, as toalhas de
mesa xadrez e as velas em cada mesa.
— Então, o que achou?
— Gostei, é adorável. Não é à toa que sua mãe gosta.
— Sim, minha mãe é meio japonesa, meio ítalo-americana. Acho
que faz parte da herança dela.
— Ah, sim, é compreensível. — Deus sabia que havia uma parte
da minha herança que eu tentava muito matar. — Então — abri o
cardápio — o que você sugere?
— Honestamente, você está segura com qualquer coisa no
cardápio, a comida é incrível.
— Como você não vem mais vezes se é tão bom? — Baixei o
olhar, corando, mortificada pela minha ousadia.
Ele riu enquanto eu mantinha os olhos fixos no cardápio,
examinando as opções sem realmente olhar.
— Eu deveria vir mais vezes, mas trabalho muito, demais, na
verdade. A maioria das noites acabo pegando comida para viagem ou
aquecendo algo que minha governanta cozinhou antes de ir para a
cama.
Levantei o olhar para ele novamente.
— Parece muito estressante e muito solitário.
Ele me deu um sorriso que não alcançava seus olhos, ele parecia
tão triste.
— Sim, sim, é.
Pedimos nossa comida — penne arrabbiata para mim e braciola
de carne para ele, mais uma boa garrafa de vinho tinto.
— Então, alguma novidade com você? — perguntou ele enquanto
me servia uma taça de vinho.
— Quer dizer depois do desastre que você testemunhou? —
perguntei com um tom divertido, embora, no fundo, ainda estivesse
envergonhada por ele ter me conhecido no meu pior momento.
— Todos temos dias ruins, Violet. Tento não julgar ninguém
durante um deles.
Dei-lhe um sorriso grato enquanto uma espécie de paz se
estabelecia entre nós.
— Eles me ligaram de volta, a Sun Valley.
— Oh. — Ele se recostou no assento. — Quando você volta para
lá?
Balancei a cabeça antes de tomar um gole de vinho. Não era
especialista, mas o sabor frutado desse vinho era mais que delicioso.
— Não vou. É que… — Suspirei. — Eles me descartaram sem
pensar duas vezes. Não posso confiar neles novamente.
— Mas você gostava do emprego, não gostava?
Assenti com cautela, incerta sobre aonde ele queria chegar.
— Gostava. Definitivamente é melhor do que servir bebidas em
um clube de strip onde os homens frequentemente têm a suposição
errada sobre quais são realmente suas funções.
Suas narinas se dilataram, e seus olhos brilharam com algo
possessivo. Seria ciúmes?
— E se você viesse trabalhar para mim, então? — perguntou ele
com um pequeno dar de ombros.
Soltei uma risada surpresa, não esperando isso, mas também
muito certa de que tinha que ser uma brincadeira.
— Você nem sabe se sou boa no meu trabalho, ou mesmo o que
eu fazia!
Ele deu de ombros novamente.
— Tenho certeza de que você era boa nisso. Sou um bom juiz de
caráter e posso ver que você é muito confiável.
Confiável… sim, essa seria eu.
— E tenho certeza de que você sabe quem eu sou — continuou
ele, mas sua voz parecia conter uma certa cautela.
Assenti, porque mentir seria estúpido.
— Sim. Pesquisei você no Google.
Seus lábios tremeram no canto enquanto eu me remexia no
assento.
— E o que dizia?
— Você é o CEO de uma empresa que vale milhões.
— Bilhões — corrigiu ele, o humor ainda flutuando em seus
olhos.
— Mas não é por isso que estou aqui — apressei-me. — Não
quero que pense que estou jantando com você por causa disso. Quis
te ver novamente, mesmo antes de saber quem você era. Quis te ver
novamente assim que a porta do meu apartamento se fechou atrás de
mim. Você é muito atraente e… — Parei de falar, mortificada com o
quanto falei e todas as coisas que disse que não deveria ter admitido
em voz alta.
Fiz uma careta e olhei para as portas vaivém que levavam à
cozinha — desejando, ou melhor, implorando para que se abrissem
com nossa comida. Precisava de uma distração agora.
— Fico feliz que ache que sou atraente. É recíproco, caso você
não tenha percebido.
Comecei a brincar com o colar de pérolas, sem saber realmente
como responder. Ele era tão diferente dos namorados que já tive.
Todos eram bem jovens e imaturos, a maioria tão pobre quanto eu.
Mas Hoka era um homem adulto, sexy e rico.
— É um colar adorável — disse ele gentilmente.
Lancei-lhe um olhar grato, sabendo que ele só mudou de assunto
para meu benefício.
— Ah, sim, obrigada. — Esfreguei-o suavemente, a superfície fria
de alguma forma apaziguando. — Era da minha mãe, assim como
este vestido, na verdade.
— Você era próxima da sua mãe?
O garçom chegou com nossos pratos, e fiquei feliz por ter alguns
segundos de pausa para pensar na minha resposta.
— Éramos. Só tínhamos uma à outra neste mundo, sabe. — Dei
um pequeno sorriso. — Era ela e eu contra o mundo. Ela faleceu
quando eu tinha dezesseis anos, de câncer, e, apesar de saber que
isso aconteceria, apesar de vê-la desvanecer, perdê-la não foi mais
fácil.
— Não, presumo que não seja. Perdi meu pai há três anos de um
ataque cardíaco. Ele era saudável como um touro, e nenhum de nós
viu isso chegar. Não achava que estava pronto para assumir tudo,
mas fui jogado nisso sem aviso. Alguns dias ainda me pergunto se
sou capaz de administrar os negócios dele.
— Sim, entendo. Eu estava com ela e, de repente, estava sozinha.
Tive sorte de ter Liam e o clube, na verdade. Minha mãe trabalhava
lá como dançarina, mas não pôde mais no último ano de sua vida.
Liam e seu pai ajudaram com as contas, e, quando ela se foi, Liam
me deu um emprego. Liam e as garotas do clube me ajudaram a me
sustentar. Uma delas até me deixou ficar na casa dela por quase um
ano até que eu estivesse segura o suficiente dos serviços sociais para
ter meu próprio lugar. Devo muito a ele.
Hoka comeu algumas mordidas em silêncio.
— Ele não apoia seu desejo por algo mais?
Franzi a testa, pensando na nossa conversa, que ainda não fazia
sentido.
— Surpreendentemente, ele apoia.
— Tudo bem, então não vejo o problema.
— Eu… — Inclinei a cabeça para o lado. — Quero te conhecer,
mas não como um chefe, um homem rico, ou algo assim. Quero
conhecer o homem por dentro, e acho que trabalhar para você me
impediria de fazer isso.
— Você realmente quer dizer isso? — perguntou ele com
admiração. — Tudo bem. — Ele assentiu. — E se eu te ajudasse a
conseguir um emprego em outro lugar, mas prometo não me
envolver, e você manterá ou perderá o emprego com base apenas nos
seus méritos. O que acha?
Queria algo mais na vida do que apenas ser garçonete, mas não
ao preço da nossa relação incipiente.
— Isso seria incrível, mas não gosto de você pelo que você
representa.
Ele soltou uma pequena risada.
— Acredite, eu sei disso. Por mais inacreditável que seja,
acredito em você, e, se for completamente honesto, se você aceitar o
emprego, será muito mais para meu benefício do que para o seu, sem
mencionar para minha sanidade também.
Segurei o garfo a meio caminho da boca.
— Sua sanidade?
Ele fez uma careta, franzindo o nariz com desconforto, e achei
isso incrivelmente fofo.
— Sim, eu… — Ele balançou a cabeça como se estivesse tentando
encontrar as palavras certas. — Não fiquei exatamente feliz em te ver
trabalhando no clube do Liam, e fiquei particularmente irritado ao
ver aquele homem te olhando do jeito que estava.
Apesar de tudo, não pude evitar sorrir enquanto um calor se
instalava no meu peito. Não estava louca antes, ele estava com
ciúmes. Eu importava para ele.
— Você está gostando do meu dilema, não está? — Ele estreitou
os olhos em um olhar, mas a brincadeira em sua voz me mostrou que
era tudo fingimento.
— Talvez um pouco — admiti.
— Você vai me ajudar, então? Me ajudar a não ser consumido
pelo ciúme e me salvar de ter que largar meu emprego de CEO para
sentar naquele bar idiota em todos os turnos que você fizer?
Ri, livrando-me da última tensão que sentia. A atração e o apego
estranho que senti eram definitivamente recíprocos.
— Oh, não gostaria que você perdesse seu emprego e sua
sanidade por minha causa. Tudo bem, vou considerar um emprego,
mas precisa ser para outra empresa.
— Obrigado! — Ele descansou a mão no peito em um alívio
fingido.
Sorri.
— Não mencione isso.
E ficamos assim por alguns minutos, apenas nos olhando com
sorrisos brincalhões nos rostos.
Esse homem já estava sob minha pele, e eu gostava dele demais,
rápido demais. Ele logo teria todo o poder, poderia facilmente se
tornar meu céu ou meu inferno. Só tinha que rezar para que fosse o
primeiro.
O resto do jantar foi bastante relaxado enquanto ficávamos em
assuntos mais neutros, e fiz centenas de perguntas sobre o Japão e a
vida lá.
Saímos logo depois, enquanto Hoka fazia uma promessa ao dono
de que voltaríamos em breve, e meu estômago se agitou de felicidade
com a menção de “nós”.
Voltamos em um silêncio amigável, e não pude evitar suspirar
quando paramos em frente ao prédio, e ele contornou o carro para
me ajudar a sair.
Ele me acompanhou lentamente até a porta, como se ele
também não quisesse que a noite terminasse.
Suspirei ao chegarmos ao nosso destino antes de me virar para
ele, sabendo que, apesar da minha relutância, era hora de dizer
adeus.
Hoka estava tão perto de mim, mas não tinha certeza se fui eu
que diminuí a distância ou se foi ele. Tudo o que sabia era que ele
parecia um ímã para mim.
Sobressaltei-me quando ele levou a mão ao meu rosto,
segurando meu queixo enquanto seu polegar esfregava suavemente
minha maçã do rosto.
— Estou tentando ser bom, mas quando você me olha assim,
com esse sorriso. É perigoso — murmurou ele, inclinando-se para
baixo.
Ele era demais. Lindo demais, alto demais, grande demais, perto
demais… perigoso demais para meu coração.
Eu deveria tê-lo afastado. Acabei de terminar um
relacionamento, e sabia que esse homem à minha frente poderia me
destruir de maneiras que Jake nunca poderia.
— O que é tão perigoso? O que há para temer?
— Eu — respondeu ele enquanto sua mão deslizava do meu
queixo para meu pescoço, e sua boca descia sobre a minha.
Enrijeci de surpresa quando seus lábios quentes roçaram os
meus, uma, duas vezes, antes de pressionar com mais insistência,
capturando meu lábio inferior entre os dele.
Ele envolveu meu corpo com o braço livre, colando meu corpo ao
seu rígido. Seus lábios ficaram mais insistentes enquanto suas mãos
percorriam minhas costas até agarrar meu quadril.
Soltei um pequeno suspiro quando ele me puxou mais para
perto, e ele aproveitou a oportunidade para aprofundar o beijo.
Sensações explodiram na boca do meu estômago enquanto sua
língua tocava a minha.
Não conseguia pensar, não conseguia controlar nada, meus
pulmões se expandiam de forma instável enquanto sua boca
explorava a minha.
Levantei os braços, envolvendo-os ao redor do pescoço de Hoka,
enterrando os dedos em seu cabelo macio, ainda preso em um coque.
Ele soltou um grunhido contra meus lábios antes de interromper
o beijo, deixando seus lábios correrem suavemente ao longo da
coluna do meu pescoço enquanto sussurrava palavras em uma língua
que eu não entendia.
— Hoka — gemi enquanto seus lábios paravam no ponto mais
sensível na curva do meu pescoço, e ele arrastava os dentes
suavemente sobre minha carne tenra, lambendo o ponto mais
vulnerável do meu pescoço.
Estava completamente afogada no meu desejo e luxúria por esse
homem, e, por um minuto, esqueci que estávamos sob a luz
tremeluzente e pouco lisonjeira da entrada do meu prédio. Tudo o
que queria era que ele aliviasse a dor que sentia no fundo do meu
ventre e entre minhas pernas trêmulas.
Ele lambeu de volta e parou quando seus lábios alcançaram a
pequena fenda atrás da minha orelha. Senti seu sorriso enquanto ele
beijava o local, fazendo-me tremer mais uma vez.
— Meu Deus, nunca pretendi corromper você, mas sou incapaz
de resistir a você — sussurrou ele, sua voz profunda com desejo. —
Preciso de você. — Ele capturou meu lóbulo da orelha na boca,
chupando-o.
Me tenha, então, pensei em um momento de insanidade. Estava
prestes a dizer isso quando o som alto de metal da porta principal
batendo me trouxe de volta à realidade.
— Tem crianças neste prédio — murmurou uma mulher.
— Não — sussurrei sem fôlego, empurrando seu peito.
Ele me soltou imediatamente e deu alguns passos para trás, seu
peito subindo e descendo em um ritmo tão errático quanto o meu,
sua expressão confusa e atordoada também correspondendo à
minha.
Ele não pretendia se deixar levar como fizemos. Ele deixou seu
olhar deslizar para meus lábios doloridos e inchados e deu um passo
em minha direção, seus olhos hipnotizados.
Ele parou e balançou a cabeça, como se estivesse tentando
afastar o feitiço que parecia ter caído sobre nós dois.
— Você deve dizer boa noite e subir agora, Violet — disse ele, sua
voz tensa com desejo não gasto. — Você precisa fazer isso agora,
tanto pela minha sanidade quanto pela sua virtude.
— Eu…
— Diga, “Boa noite, Hoka,” e se vire agora.
Ele ajustou sua posição com uma careta, e apenas um olhar para
o sul mostrou que ele estava tão excitado quanto eu, mas ele me
oferecia uma saída, e eu tinha que aceitá-la.
Era cedo demais.
— Boa noite, Hoka — respondi e me virei rapidamente, inserindo
a chave na porta, sacudindo-a como uma louca para abri-la.
— Vou te mandar uma mensagem amanhã — disse ele, mas não
ousei me virar. Apenas assenti e corri pelo corredor.
— Boa noite, Sourumeito. — Foi a última coisa que ouvi antes
que a porta se fechasse atrás de mim.
Hoka Nishimura me marcou com aquele beijo, e eu estava ao
mesmo tempo eufórica e aterrorizada para descobrir o que viria a
seguir para nós.
CAPÍTULO 7
Vi
Hoka cumpriu sua palavra, e acordei no dia seguinte com uma
mensagem dele contendo um endereço e o nome de uma pessoa que
estaria me esperando no dia seguinte às nove da manhã para uma
entrevista. Talvez eu estivesse lendo demais nas entrelinhas, mas a
mensagem era muito clínica, distante — nada do que eu esperava de
alguém que me beijou de uma forma que nunca havia sido beijada
antes, alguém que admitiu um certo nível de atração e ciúmes. Talvez
eu tivesse interpretado tudo errado, porque, apesar de toda a merda
que passei na vida, eu ainda era bastante inexperiente no quesito
relacionamentos, e meu histórico estava longe de ser impressionante.
Passei o dia desejando outra mensagem de Hoka, mas nenhuma
veio, e, conforme a hora avançava, mais desanimada eu ficava com
relação à nossa noite juntos. Talvez aquele beijo não tenha sido tão
impactante para ele quanto foi para mim. Era possível que ele não
achasse que o encontro tinha ido tão bem, ou talvez eu tivesse feito
algo que o desagradou.
Pousei os dedos nos lábios. Será que eu era uma má beijadora?
Não tinha beijado muitos homens na vida antes dele, mas nunca ouvi
reclamações. Exceto pelo seu ex te traindo…, provocou a vozinha na
minha cabeça.
Bem, talvez fosse melhor assim. Eu nem saberia como lidar com
um homem como ele. Ele era maduro demais, grande demais,
muito… Ele me fazia sentir demais, e sentimentos eram perigosos.
Minha mãe cometeu tantos erros em nome do amor quando era
jovem — erros que provavelmente nunca incomodaram o homem
que a destruiu, mas erros que a seguiram em todos os aspectos da
sua vida até seu último suspiro.
— Sim, é melhor assim — repeti para mim mesma e decidi deixar
toda essa questão para trás.
Apesar da minha frágil resolução de que não me envolver com
Hoka era o melhor, não consegui evitar a euforia que senti quando
abri a porta na manhã seguinte para ir à entrevista e encontrei um
enorme buquê de camélias vermelhas diante dela. Não consegui
conter o sorriso largo que se espalhou pelo meu rosto enquanto
pegava as flores e as colocava sobre o balcão.
Peguei o cartão dourado anexado e li, um calor inundando meu peito
ao ler as doces palavras que nunca esperei que ele escrevesse.
O tempo é precioso, e o amanhã não é garantido. Desejo tantos
amanhãs com você. Que meu desejo seja atendido. H
Corei de prazer enquanto apoiava o cartão contra o lindo vaso e
tirei uma foto, sentindo de alguma forma que agora tinha permissão
para mandar uma mensagem para ele.
Violet
H a
Hoka
***
Desconhecido
Acha que ela vai sair por aqui também? Estarei esperando. Tic
Tac… Tic Tac…
Olhei para meu relógio antes de olhar para Jiro, que já parecia
em alerta máximo — provavelmente vendo o olhar de pânico no meu
rosto.
A escolha foi feita por mim. Eu tinha que ir até ela agora e
mantê-la segura, mesmo que isso significasse trazê-la para o meu
mundo.
CAPÍTULO 9
Vi
Olhei para as fotos espalhadas sobre a mesa de conferências,
tentando selecionar as três que indicaria para a escolha final da
senhorita Chase.
Mordi o lábio inferior ao ver a tela do meu celular acender na
minha mesa, do outro lado da parede de vidro.
Eu era uma completa covarde, e depois de tudo o que Hoka fez
por mim, parecia especialmente errado dar um passo atrás.
Estava confusa com tudo — com o que ele me fazia sentir, com
quem ele poderia ser, e com o fato de que, por mais aterrorizante que
fosse, talvez eu não me importasse tanto assim.
Você realmente se envolveria com um criminoso? Um
assassino? Há algumas semanas, eu teria rido e dito que não havia a
menor chance no inferno. Mas agora? Eu simplesmente não tinha
mais certeza.
— Senhorita Murphy? — A voz da pessoa do RH me tirou dos
meus pensamentos.
Pisquei algumas vezes e olhei, atônita, para Michaela Chase,
surpresa por ela me chamar pelo sobrenome em vez de Violet, como
de costume.
Felizmente, ela não estava olhando para mim, mas para o
telefone sobre a mesa de conferências.
— Sim? — respondi.
— Poderia descer até o RH, por favor? Parece que você recebeu
os formulários errados para o plano de saúde, e precisamos que você
os atualize.
Olhei para a senhorita Chase, que assentiu em aprovação.
— Leve sua bolsa também — acrescentou a pessoa do RH. —
Parece que não temos uma cópia do seu documento de identidade e
cartão de previdência social.
Franzi a testa. Eu tinha entregado tudo isso no dia em que
comecei.
O telefone emitiu um bipe, sinalizando o fim da chamada.
A senhorita Chase revirou os olhos.
— Juro, o RH… — murmurou ela. — Realmente é preciso um
tipo especial de pessoa para fazer esse trabalho. — Sua boca se
inclinou para baixo, mostrando que não era um elogio.
— Não vou demorar — disse enquanto me levantava.
Ela suspirou.
— Ah, como você é doce e ingênua por acreditar nisso. Você vai
ficar lá uma eternidade. Uma vez que você desce, não há como
prever quando encontrará alguém eficiente. — Ela olhou para a mesa
e para as fotos que eu havia selecionado. — De qualquer forma, você
já fez tudo o que eu precisava. O resto era só para ganhar
experiência. Não se estresse.
Assenti e caminhei até minha mesa, irritada por perder algo
novo. No entanto, essa irritação rapidamente deu lugar à culpa
quando notei cinco chamadas perdidas de Hoka e a mensagem
enviada há vinte minutos: Por favor, responda, é urgente. Não era
minha intenção ignorá-lo — apenas queria colocar alguma distância
entre nós por alguns dias, tentar deixar a atração diminuir para que
eu pudesse pensar com mais clareza e avaliar todas as bandeiras
vermelhas.
Peguei minha bolsa e decidi ligar para ele enquanto descia as
escadas até o RH. Eram apenas dois andares, e isso me daria a
desculpa perfeita para encerrar a ligação antes que eu dissesse algo
estúpido e voltasse atrás na decisão de cancelar o jantar de sábado.
Disquei o número dele assim que passei pela porta de metal que
levava à escada dos fundos.
— Violet — murmurou ele com um suspiro de alívio.
Mais uma vez, a culpa me corroeu. Não gostava da ideia de ter
causado preocupação a ele, ou a qualquer pessoa.
— Desculpe — disse rapidamente enquanto descia as escadas
com pressa. — Estava ocupada e perdi suas ligações. — Como
desculpa, não era das piores. Parei no corredor entre os dois andares
e comecei a andar de um lado para o outro. — Você parece
preocupado. O que está acontecendo?
— Não tenho certeza — respondeu ele, e eu podia ouvir vozes
femininas ao fundo.
Franzi a testa, não gostando da ideia de ele estar com outras
mulheres. Não era justo da minha parte, eu sabia que Hoka não
havia feito promessas. Caramba, fui eu quem deu alguns passos
atrás, mas o ciúme irracional estava me consumindo por dentro.
— Onde você está? — perguntei, voltando a descer as escadas. —
O que é tão urgente? — Agora eu duvidava que a urgência fosse
legítima. Se ele estivesse realmente preocupado com algo, teria me
dito imediatamente.
— Eu… — ele suspirou. — Não esperava que você me ligasse de
volta — disse com um tom defensivo que eu não conseguia entender.
Coloquei a mão na maçaneta fria de metal que levava ao
escritório do RH. Era hora de encerrar essa conversa.
— Não estou certa de que entendi. Você queria falar comigo. Não
deveria estar tão surpreso.
Fui eu quem suspirou dessa vez. O RH estava me esperando, e
essa descida já tinha levado muito mais tempo do que deveria em
qualquer circunstância.
— Escute, estou no trabalho. Ligo para você mais tarde, quando
sair, e podemos conversar então.
— Violet, escute…
Eu já estava encerrando a ligação e não ouvi o resto da frase.
Abri a porta e dei de cara com o próprio Hoka.
Dei um passo rápido para trás, surpresa. Como ele estava aqui?
Ele deveria estar em Seattle até amanhã. Balancei a cabeça. Será que
eu o conjurei? Isso era mesmo possível?
Ele estendeu a mão em minha direção.
— Posso explicar — disse rapidamente. — Você não estava
atendendo, e eu estava preocupado.
Passado o choque inicial, contornei-o em direção ao escritório do
RH. Jiro, seu chefe de segurança, estava no meio da sala, com seu
rosto estoico no lugar. Os funcionários continuavam seus trabalhos
como se nada estivesse acontecendo, como se esses dois homens
tatuados e assustadores não estivessem ali.
Olhei para a direita e vi a mulher que me ligou conversando com
um candidato em seu escritório, revisando papéis como fez comigo
no meu primeiro dia. Ela estava claramente no meio de uma
entrevista e não queria falar comigo.
Voltei a olhar para Hoka, meus olhos se estreitando com
desconfiança e irritação.
— Você fez isso! — apontei para ele, acusadoramente. — Você
não pode fazer isso! — acrescentei, sem me importar que estava
causando uma cena.
Hoka lançou um olhar rápido para Jiro, que ergueu uma
sobrancelha com um meio sorriso que parecia dizer “Eu te avisei”.
— Entendo — respondeu ele com um tom conciliador que me
irritou ainda mais. — Eu não teria feito isso se não fosse urgente.
Bati o pé com sandália no carpete verde horroroso como uma
criança birrenta, minha irritação e raiva tomando conta de mim.
— Não vejo o que poderia ser urgente o suficiente para
atrapalhar minha chance de uma carreira fantástica.
Os músculos da mandíbula dele se contraíram, mostrando que
ele também estava ficando irritado.
— Sua vida — cuspiu ele antes de me mostrar o celular e um
vídeo de mim que alguém deve ter gravado esta manhã sem que eu
notasse. As palavras no topo fizeram meu coração parar e meus
pulmões se contraírem dolorosamente no peito.
Olhei para o rosto dele com olhos arregalados, não apenas
irritada, mas aterrorizada.
— Por que? Por que me ameaçar? Eu não fiz nada.
Ele suspirou, passando a mão cansada pelo rosto.
— Isso é por minha causa — admitiu. — Alguém percebeu que eu
me importo, e isso tem um preço.
Eu estava preocupada e assustada demais com a ameaça velada
para compreender completamente o que ele acabou de dizer, o que
acabou de admitir. Balancei a cabeça.
— Eles me querem para pedir resgate? Porque você é bilionário?
Jiro bufou, mas não disse nada.
Hoka deu de ombros.
— Não é impossível, mas preciso que você venha comigo agora.
Instintivamente, dei um passo para trás, mas Hoka foi mais
rápido, segurando meu pulso com suavidade, como se temesse que
eu fosse correr. Será que eu teria corrido? Talvez. Tudo isso era
simplesmente louco demais!
— Para onde estamos indo? Eu simplesmente… — Olhei ao
redor, impotente, sabendo muito bem que ninguém interviria para
ajudar. — Não posso simplesmente ir embora. Vou ser demitida.
— Não, você não vai — interrompeu Jiro enquanto se movia de
seu lugar para chamar um elevador.
Eu estava prestes a perguntar como ele sabia disso quando ele
continuou.
— Você não pode ser demitida quando está transando com o
chefe. — Ele entrou no elevador e segurou a porta com um braço. —
Vamos, venham.
Hoka rosnou para ele, puxando-me suavemente em direção aos
elevadores, e eu o segui, confusa demais com tudo. Minha mente
estava tão ocupada tentando entender tudo que não conseguia dizer
ao meu corpo para parar de se mover.
— Não está ajudando — murmurou Hoka enquanto entrávamos,
sem soltar meu pulso.
— Eu não estava tentando — respondeu Jiro, apertando o botão
para o estacionamento subterrâneo.
Eu tentava processar o comentário dele. Eu certamente não
estava transando com a senhorita Chase ou com o senhor Greenall.
Eu não era gay, e o senhor Greenall provavelmente tinha quase
setenta anos, então isso era nojento.
Estava prestes a retrucar quando a ficha caiu, e tentei puxar meu
pulso da mão de Hoka, mas ele apenas apertou seus dedos fortes ao
redor dele.
— Você é o dono da empresa?! — gritei, a raiva mais uma vez
tomando a frente da minha miríade de emoções. — Eu te disse que
não queria isso!
Ele suspirou, como se eu fosse uma criança mimada tendo um
ataque.
— É exatamente por isso que não te contei — respondeu, como
se tudo fizesse sentido.
— Ah, você não contou a ela? Ops, meu erro — disse Jiro,
claramente não se importando nem um pouco.
Hoka lançou um olhar fulminante para ele, mas, apesar de tudo,
eu gostava do homem. Ele era um idiota que não gostava de mim,
mas pelo menos era honesto.
Quando as portas se abriram e Jiro saiu primeiro, eu me
tensionei, recusando-me a sair.
— Violet… — Hoka disse meu nome como uma súplica, como se
estivesse cansado demais para continuar lutando. — Não vamos fazer
isso agora. Nós dois sabemos que eu poderia te mover se quisesse.
É claro que eu sabia que aquele homem — que era um gigante e
tinha pelo menos o dobro do meu peso — poderia me mover como se
eu não fosse nada, mas eu não ia facilitar as coisas para ele.
Ele deve ter visto a determinação no meu rosto, porque
murmurou algo em japonês em voz baixa, e eu não precisava falar a
língua para saber que era um palavrão.
— Por que você está fazendo isso comigo? — perguntei,
encarando o carro preto estacionado na frente dos elevadores.
Eu não era uma pessoa dramática, já tinha passado por muita
merda para ser excessivamente dramática, e não sabia exatamente
por quê, mas sabia que, ao entrar naquele carro, minha vida mudaria
para sempre.
O rosto dele suavizou, sua ferocidade anterior substituída por
preocupação e uma certa exaustão que eu não esperava.
— Não estou… — Ele olhou para cima, como se pedisse
orientação divina. — Eu não sabia que estava te colocando em risco.
Pensei que, pela primeira vez, poderia ser egoísta e ter algo só para
mim.
Suas palavras eram enigmáticas e não faziam muito sentido, mas
sua honestidade e o olhar de súplica em seus olhos me fizeram ceder,
embora com relutância.
— Não me faça me arrepender de confiar em você — sussurrei,
sabendo que não confiava realmente nele, mas era o máximo que
conseguia no momento.
Ele soltou um suspiro de alívio.
— Vou tentar. — Ele colocou a mão nas minhas costas e me
guiou até o carro.
Lancei um olhar rápido para ele antes de entrar no banco
traseiro e me acomodar contra o assento de couro luxuoso,
preocupada demais para realmente aproveitar o conforto do veículo.
“Vou tentar” não era exatamente o conforto que eu buscava, mas
pelo menos era honesto. E, no momento, era tudo o que eu podia
realmente pedir.
— Para onde estamos indo? — perguntei depois que Hoka fechou
a porta do carro e se sentou mais perto de mim do que o necessário,
seu perfume amadeirado e quente me envolvendo como um cobertor.
— Minha casa — respondeu, descansando as mãos fortes nos
joelhos.
Meu coração começou a bater furiosamente, como o ritmo das
asas de um beija-flor. Respirei superficialmente algumas vezes,
tentando, sem sucesso, me acalmar com a ideia de entrar na casa de
Hoka.
— Por quanto tempo? — perguntei debilmente, deixando meus
olhos descerem até as mãos dele nos joelhos, detalhando seus dedos
longos e fortes, unhas curtas e limpas, sua pele dourada. Não havia
cortes ou hematomas, como você esperaria de um bandido, e só notei
algumas cicatrizes brancas aqui e ali, mas nada fora do comum.
Essas não eram mãos de um assassino. Era tudo um erro, certo? Um
mal-entendido, um rumor sem fundamento, algo que Jake disse por
despeito e ciúmes.
Suspirei, relaxando no assento. Sim, tinha que ser uma mentira,
mas eu não era ingênua o suficiente para não perceber que ele estava
escondendo muito de mim.
— Não posso ir para a sua casa, Hoka — acrescentei quando ele
não respondeu à minha pergunta e encontrei os olhos acusadores de
Jiro no retrovisor.
— Violet, é só por alguns dias. Preciso descobrir se é uma
ameaça vazia, e não conseguirei fazer isso de forma eficiente se tiver
que me preocupar com você ao mesmo tempo. Você será tudo o que
estará na minha mente.
Mais uma vez, ele admitiu alguns de seus sentimentos por mim,
mas, mais uma vez, não era o momento certo.
— Preciso da verdade, Hoka, não importa o quê. Você não pode
me arrastar por aí como se eu fosse apenas um brinquedo.
Ele assentiu.
— Eu sei. — Ele se virou para mim, seus olhos tão intensos que
parecia que era a última vez que me via. — Prometo, assim que você
estiver segura na minha casa, eu contarei.
Jiro murmurou algo que não entendi, mas a forma como Hoka
apertou os lábios mostrou que não era algo agradável.
— Podemos passar no meu apartamento, por favor? Preciso de
algumas coisas.
Hoka olhou para o relógio e assentiu.
— Claro, vamos lá. Jiro?
O homem não respondeu, mas fez a curva seguinte em direção
ao meu bairro.
— Suba com Jiro — disse Hoka enquanto Jiro estacionava o
carro em frente ao meu prédio. — Tenho algumas ligações a fazer.
Seja rápida.
Saímos do carro, e Hoka olhou para Jiro, sua expressão aberta
mudando para uma de advertência, seus olhos mais frios que gelo.
— Mantenha-a segura.
Jiro revirou os olhos.
— Tenho certeza de que posso lidar com o pervertido com fetiche
por pés do outro lado do corredor — grunhiu, pegando as chaves da
minha mão e caminhando até a porta enferrujada.
Essa revelação me fez hesitar, e quase tropecei no pequeno
degrau em frente à porta.
— Como você sabe? — perguntei a Jiro enquanto o seguia escada
acima.
— Sei o que? — respondeu ele friamente, sem nem se dar ao
trabalho de se virar.
— Sobre meu vizinho. Sobre as… tendências dele — acrescentei,
ofegante, enquanto tentava acompanhar seu ritmo.
Ele deu de ombros, devolvendo minhas chaves quando
chegamos à minha porta.
— Pergunte ao Hoka, ele é o homem com todas as respostas.
Era impossível não perceber o tom de sarcasmo e o julgamento
mal disfarçado em sua voz.
— Estou perguntando a você — insisti enquanto abria a porta e o
convidava a entrar.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Então você vai ficar muito desapontada esperando por uma
resposta. — Ele estalou os dedos. — Vamos, ande logo. Estamos
perdendo tempo.
Eu o encarei, xingando-o mil vezes na minha mente. Esse
homem era o maior babaca do planeta.
Peguei a pequena bolsa esportiva debaixo da pia e comecei a
guardar algumas coisas essenciais para dois ou três dias. Eu não
daria a Hoka mais do que isso, afinal, era a minha vida.
— Não vai levar isso? — ouvi Jiro chamar da sala principal
enquanto eu pegava minhas coisas no banheiro.
Voltei para a sala e corei de vergonha quando o vi segurando
uma camiseta cinza de dormir, grande demais, na frente dele, com
um sorriso zombeteiro em seu rosto estúpido.
O rosto dele não era estúpido. Ele era muito bonito, e eu sabia
disso, mas ainda assim o encarei com raiva.
Era uma camiseta de dormir para mim, mas nele? Parecia uma
camiseta normal.
— Isso é… Não — respondi enquanto olhava para o coala em um
galho, mastigando eucalipto, com a frase “Passe um tempo de
qualidade com um coala” escrita na frente.
O sorriso cruel dele desapareceu, substituído por algo próximo a
preocupação. Ele torceu a boca para o lado e jogou a camiseta de
volta na cama.
Ele balançou a cabeça.
— Você é só uma criança.
Eu teria discutido com ele se sua voz não soasse tão triste.
Quando ele olhou para mim novamente, sua expressão havia
perdido um pouco da hostilidade, mas o inclinar de suas
sobrancelhas e a expressão em seus olhos pareciam muito com pena,
e percebi que preferia a hostilidade à pena. Ele parecia estar me
levando para a forca em vez de para a segurança.
— Estou pronta — anunciei enquanto colocava a bolsa no ombro.
Apontei para a mala azul que espreitava debaixo da cama. Eu sabia
que ficaria fora apenas por alguns dias, mas estava com muito medo
de deixar as coisas da minha mãe — elas eram importantes demais.
— Você poderia pegar aquela para mim, por favor?
Ele franziu a testa, provavelmente se perguntando por que se dar
ao trabalho de levar uma mala velha escondida debaixo da cama para
alguns dias fora, mas a pegou sem questionar.
— Vamos.
Assenti e o segui escada abaixo, encontrando Hoka terminando
uma ligação, suas narinas dilatadas de raiva, os músculos da
mandíbula tão tensos que eram visíveis.
Jiro lançou um olhar questionador para ele, mas Hoka balançou
a cabeça levemente.
— Pronta? — Hoka se virou para mim, tentando muito suavizar
suas feições para o meu benefício, embora os sinais de sua irritação
ainda fossem perceptíveis nas linhas tensas ao redor dos olhos, na
linha reta de sua boca e no tom frio de sua voz, que eu sabia não ser
direcionado a mim.
— Sim.
Estava mesmo?
Ele pegou minha bolsa esportiva e a entregou a Jiro, que acabara
de abrir o porta-malas.
— Vai ficar tudo bem — disse enquanto abria a porta traseira,
ajudando-me a entrar, e dessa vez eu não tinha certeza se ele estava
falando comigo ou consigo mesmo.
Dirigimos pelo que pareceu uma eternidade, mas não poderia ter
sido mais do que quinze minutos. Eu continuava abrindo e fechando
a boca para fazer perguntas, mas tantas lutavam na minha mente
que eu não sabia qual deveria perguntar primeiro e acabei não
perguntando nada.
No entanto, todas as perguntas que eu poderia ter foram
deixadas de lado quando os portões de ferro se abriram, revelando
uma mansão deslumbrante que me lembrava as casas de estilo
revival espanhol que vi em alguns programas da Netflix.
Mantive o rosto colado na janela enquanto nos aproximávamos
da casa pelo lado. Era absolutamente deslumbrante, claro, com
paredes externas brancas, telhas de terracota vermelhas e vigas de
madeira de suporte. Eu esperava algo muito mais moderno de Hoka,
algo todo de vidro, metal e linhas limpas. Isso parecia muito mais
uma casa de família. Só de olhar para as janelas em arco e a pesada
porta de madeira, senti um calor no peito.
— Minha mãe escolheu — disse Hoka suavemente, respondendo
à minha pergunta não dita, o que já era impressionante, já que ele
não podia ver meu rosto. — A maior parte dos designs, tanto internos
quanto externos, também é dela. Ela voltou para o Japão há três
anos, mas não senti vontade de mudar nada.
Assenti, como se pudesse entender como ele se sentia. De certa
forma, eu podia, a mala azul no porta-malas podia atestar isso.
— Adorei. Parece um lar — respondi rapidamente, como se
minha opinião importasse. Quando me virei para ele e vi seu sorriso
satisfeito, pareceu que importava.
Jiro parou o carro em frente às portas duplas em arco, e Hoka
saiu antes de se inclinar e estender a mão para me ajudar a sair.
Ele era sempre tão atencioso, tão cuidadoso. Agir assim por
instinto, apesar de todos os sinais de alerta ao seu redor, me ajudava
a me sentir mais segura.
— Deixe as bolsas por enquanto, eles as levarão para você.
— Quem? — perguntei, olhando ao redor e não notando
ninguém, mas de alguma forma sentindo como se estivesse sendo
observada. Notei várias câmeras e senti a preocupação voltar. Quem
precisava de tanta segurança? Criminosos e pessoas ricas.
Hoka era apenas um ou ambos?
Olhei para ele enquanto ele colocava a mão nas minhas costas, e
subimos os três degraus até a porta principal, que se abriu assim que
a alcançamos.
Olhei para o homem parado na porta, minha boca ligeiramente
aberta. Ele era um mordomo de verdade! Vestido com seu terno
preto, as costas retas como uma vara, até seu rosto parecia o de um
empregado britânico estereotipado.
— Senhor — ele inclinou a cabeça ligeiramente. — Senhorita
Murphy — ele inclinou a cabeça para mim. — O quarto está pronto,
como o senhor instruiu.
Acertei em cheio! — comemorei internamente, sorrindo para o
sotaque britânico do homem.
No mesmo momento, uma mulher asiática mais velha e muito
baixa veio de uma porta à esquerda, usando um avental azul
brilhante, com um olhar de desaprovação fixo em Hoka.
Hmm, parece que Jiro não é o único que não gosta de mim.
Hoka se tensionou ao meu lado. Eu podia sentir seus dedos se
apertando nas minhas costas enquanto a mulher parava ao lado da
escada, parecendo muito mais uma mãe prestes a repreender seu
filho rebelde do que uma empregada.
— Obāsan — começou ele enquanto nos aproximávamos da
escada — esta é Violet Murphy, ela ficará conosco por um tempo. —
A suavidade em sua voz era surpreendente.
Ela me lançou um olhar desdenhoso e começou a discutir com
Hoka em japonês, apontando um dedo para ele, depois para mim, e
depois para a escada, balançando a cabeça.
De repente, Hoka se endireitou, e sua expressão gentil se
transformou em aço. Ele respondeu a ela em japonês, com uma voz
calma e uniforme que carregava uma frieza cortante que me fez
estremecer.
Ela abriu a boca para começar novamente.
— Eu disse agora — disse ele em inglês, e aquelas três palavras
foram suficientes para me aterrorizar. Agora eu podia ver o potencial
chefe da máfia nele. Ele olhou para mim, seu rosto ainda reservado.
— Vá com Himari. Ela te levará ao seu quarto.
— O quê? — Ele queria me deixar com a harpia? Eu podia
totalmente imaginá-la me batendo com uma colher de madeira. —
Você prometeu me contar tudo.
— E eu vou, mas estou atrasado para uma reunião e preciso ir.
Mais tarde, eu prometo. Você está segura agora.
Abri a boca e a fechei novamente, olhando para ele impotente
enquanto ele saía da casa ao mesmo tempo que um jovem entrava
com minha bolsa e mala, sem nem reconhecer minha presença.
Suspirei enquanto olhava ao redor, agora sozinha com o
mordomo britânico, a cozinheira mal-humorada e o outro homem.
Quase desejei que Jiro, o babaca, ainda estivesse por aí!
O hall era exatamente o que eu esperava, com seu teto
abobadado e azulejos decorativos na parede. Coloquei a mão no
corrimão de ferro forjado e olhei para a mulher, pronta para
enfrentar a música.
Forcei um sorriso que esperava parecer genuíno, apesar da
apreensão de estar em um lugar desconhecido, cercada por estranhos
que pareciam me odiar à primeira vista.
— Olá, meu nome é Violet. É muito bom conhecê-la, Himari.
Ela manteve o rosto completamente impassível enquanto me
encarava de volta. Torci a boca para o lado. Será que ela entendia
inglês? Talvez ela falasse japonês, não para me fazer sentir mal, mas
porque não conseguia se comunicar de outra forma. Apesar disso,
continuei em inglês, esperando que ela entendesse pelo menos um
pouco.
— Sinto muito por entrar na sua vida assim. Sei que devo ser um
fardo a mais que você não precisa, mas farei o meu melhor para ser o
menos incômoda possível. Além disso, por favor, me coloque para
trabalhar, qualquer coisa que eu possa fazer para ajudar. — Apertei o
corrimão um pouco mais forte.
Ela me olhou com sua fachada fria por mais alguns batimentos
cardíacos antes de soltar um suspiro, relaxando os ombros tensos.
— Não estou brava com você — disse ela em inglês perfeito, com
apenas um leve sotaque. — Você não é um problema, e é bem-vinda
aqui. — Ela balançou a cabeça. — Venha, vou te mostrar seu quarto.
Subimos a escada curva por dois andares e seguimos por um
corredor amplo até que ela parou em frente a uma porta de madeira
escura em arco, tão semelhante a todas as outras portas da casa.
Ela a abriu, e não pude evitar olhar para o quarto com admiração
enquanto entrava atrás dela. Olhei ao redor para o que devia ser o
quarto mais deslumbrante do mundo! Não sabia porquê, mas
esperava encontrar algo no estilo da casa — um quarto de hóspedes
combinando com o estilo espanhol, mas isso parecia pessoal, como
se tivesse sido projetado com alguém em mente. E, se eu não
soubesse, quase pensaria que foi projetado para mim.
As paredes eram de duas cores — brancas na parte superior, que
gradualmente se transformavam em uma bela gradação entre branco
e vermelho que me lembrava flores de cerejeira em plena floração. As
paredes harmonizavam perfeitamente com o piso de madeira
branqueada.
Himari interrompeu minha inspeção pigarreando.
— Preciso terminar o jantar. Você pode contatar a equipe
pressionando o botão vermelho no telefone. — Ela apontou para o
pequeno telefone branco em uma das mesinhas de cabeceira.
— Ah, tudo bem, obri… — Não tive tempo de terminar a frase,
pois ela já havia saído. — Encantadora — murmurei, pegando minha
bolsa esportiva do chão e colocando-a no pequeno banco ao pé da
cama.
O quarto inteiro era branco e com aquele tom específico de rosa.
A cama king-size era branca com pequenas almofadas rosa, e parecia
o paraíso. A penteadeira na parede oposta também era branca,
embora a almofada da cadeira fosse rosa. No entanto, o lugar que
mais me atraía era a poltrona de leitura rosa suave, estrategicamente
colocada ao lado das portas francesas da varanda, que davam vista
para uma piscina olímpica e um jardim tão grande que eu mal
conseguia ver a parede do fundo. Podia me imaginar sentada ali à
noite, lendo um livro com as portas abertas, aproveitando a brisa
fresca da Califórnia.
Suspirei, abrindo a janela e saindo para a varanda, apoiando-me
nela e olhando para o jardim escurecendo, tentando distinguir tudo o
que poderia explorar nos meus poucos dias ali. Tudo era uma
confusão gigantesca agora, isso era verdade, mas a casa era
deslumbrante, e o quarto era algo saído diretamente de um sonho.
Fechei os olhos e inspirei profundamente, sentindo o aroma
salgado, mas fresco, do oceano enquanto a brisa mudava.
Virei-me ligeiramente nessa direção, onde o sol estava se pondo.
Fiquei na ponta dos pés, apoiando-me no corrimão de ferro e
madeira, e, ao semicerrar os olhos, consegui distinguir o oceano
enquanto o sol parecia ondular em sua superfície, engolindo-o para a
noite.
Muitas perguntas precisavam de respostas, muitos problemas
não estavam resolvidos, mas por essa noite decidi simplesmente
parar de pensar, parar de me preocupar e aproveitar esse belo sonho,
só por uma noite.
CAPÍTULO 10
H a
— Ela está indo embora.
Levantei os olhos do contrato que estava lendo para encontrar
Jiro encostado na porta do meu escritório. Não precisei perguntar de
quem ele estava falando, especialmente porque ele parecia estar se
vangloriando um pouco.
— Como ela pode estar indo embora? — perguntei com a maior
calma possível, apesar de meu estômago ter despencado até os pés
quando ele disse as palavras que eu não sabia que temia ouvir.
— Ela pediu ao Charles para chamar um Uber. — Ele suspirou. —
Você pode culpá-la? Você fez promessas e não deu nenhuma
resposta. Ela foi até mais paciente do que eu pensei que seria.
Levantei-me, ajeitando meu paletó.
— Ela não pode ir agora. Não estou nem um pouco mais perto de
descobrir quem está ameaçando-a. — Peguei meu celular na mesa e o
coloquei no bolso. — Onde ela está?
— Na cozinha. Himari está ensinando-a a fazer gyoza.
Arqueei uma sobrancelha.
— Himari?
Os lábios de Jiro tremeram enquanto ele lutava contra um
sorriso.
— Sim.
— Ensinando algo? Para uma gaijin?
Jiro sorriu.
— Ela gosta dela.
— Himari não gosta de ninguém. — Embora fosse verdade que
era impossível não gostar de Violet. Respirei fundo. — Não tenho
escolha, preciso contar a verdade a ela.
Jiro se moveu de seu lugar para bloquear meu caminho.
— Não, você não precisa — disse ele com uma urgência que me
fez parar para ouvir. — Você pode simplesmente mandá-la embora,
para longe do perigo. Pode permitir que ela comece uma nova vida
em qualquer lugar do mundo.
Franzi a testa diante do conselho não solicitado.
— Você é bilionário, é Hoka Nishimura! Você poderia… não sei.
— Ele olhou ao redor, como se estivesse tentando encontrar
inspiração. Seus olhos pousaram na foto em preto e branco da Torre
Eiffel na minha parede. — Mandá-la para trabalhar na Nishimura
Corp em Paris. Que mulher não gostaria de morar lá? Deixe-a ir,
Hoka. Deixe-a se apaixonar por um francês e comer croissants.
Deixe-a viver sua vida. Não a sobrecarregue com seus segredos.
— O que isso importa para você? — perguntei com um tom frio.
— Você parece estar levando isso muito mais a sério do que o
necessário com ela.
— Você sabe por quê. Não cometa os mesmos erros que eu. Você
ainda tem uma chance de libertá-la.
— É diferente da sua situação. Não sou um jovem de dezenove
anos que acreditava que o amor poderia conquistar tudo. Sou um
homem, vi o suficiente para saber mais, e não sou qualquer um, sou
o chefe do 893. Sou poderoso o suficiente para mantê-la segura.
— Você está tirando as escolhas dela, Hoka. Ela não sabe o que
suas respostas às perguntas dela podem acarretar.
Eu sabia que ele estava certo, claro que estava, mas era tarde
demais, e eu não era um homem bom — pelo menos, não bom o
suficiente para deixá-la ir.
— Preocupações anotadas. — Gesticulei para que ele se movesse.
— Vou lidar com isso do meu jeito.
Jiro suspirou, balançando a cabeça, mas se afastou.
Caminhei pelo corredor até a cozinha, e minha ansiedade
aumentava a cada passo, ainda sem a menor ideia de quanto contar a
ela. Eu só precisava contar o suficiente para fazê-la ficar, mas não
tanto a ponto de ela me rejeitar.
Parei em meus passos quando ouvi uma risada — a risada dela
— e, porra, ela atravessou meu corpo e perfurou minha alma.
Apoiei a mão na parede ao ouvir o som melodioso. Não
conseguia lembrar a última vez que houve tal risada nesta casa.
Provavelmente foi antes da morte do meu pai, quando a casa estava
livre de convidados, e minha mãe podia deixar de lado sua persona
controlada para revelar seu verdadeiro caráter despreocupado.
Lembrei-me de quando eu era muito mais jovem, minha mãe ria
assim depois que meu pai fazia ou dizia algo bobo. Meu pai
geralmente abandonava seu exterior severo e se tornava um homem
despreocupado nesses momentos, e ele sorria como se fosse um
super-herói quando a fazia rir assim. Eu não entendia na época o que
havia de tão especial nisso, especialmente porque eu fazia as pessoas
rirem o tempo todo, mas agora, ouvindo-a rir assim, eu entendia.
Entendia tudo.
Eu sangraria para que essa risada fosse minha, e sabia que, se ela
decidisse ficar, faria tudo ao meu alcance para impedir que a
escuridão a alcançasse e para que essa risada fosse algo comum,
apesar de tudo.
Ela riu novamente enquanto a voz de Himari se elevava um
pouco, repreendendo-a gentilmente por estar colocando mais farinha
no rosto do que na tigela.
— É toda a diversão de cozinhar, Himari. Você deve fazer uma
bagunça.
Não consegui evitar sorrir quando entrei na cozinha, mas meu
bom humor despencou rapidamente quando o sorriso dela diminuiu
e seus ombros se tensionaram. Ela estava frustrada e irritada comigo.
Ela teria que se acostumar, porque, mesmo que eu tentasse ao
menos ser o homem que ela merecia, sabia que nem sempre seria
possível. Ela merecia o melhor, e eu não era ele — embora fosse
tentar mantê-la mesmo assim.
— Himari. — Ajustei a lapela do meu paletó, tentando me ocupar
sob os olhares escrutinadores das duas mulheres. — Violet. — Olhei
para sua bolsa e mala encostadas na parede da cozinha. — Vejo que
você decidiu nos deixar.
— O que você esperava? Ela é uma jovem assustada que não faz
ideia do mundo em que acabou de entrar, e você se tornou um
fantasma, deixando-a aos cuidados de uma velha irritável. Estou
surpresa que ela tenha ficado tanto tempo — gritou Himari em
japonês.
Não consegui evitar uma careta, apesar do meu desejo de apenas
aceitar como homem. As críticas de Himari eram raras, mas me
afetavam muito mais do que as de qualquer outra pessoa.
— Eu tinha coisas a fazer, Himari. Coisas para protegê-la. Tive
decisões a fazer. — Respondi calmamente na mesma língua.
Os olhos de Violet se estreitaram, seu olhar indo de Himari para
mim e vice-versa. Sua testa se franziu ainda mais, e seu rosto
assumiu um adorável tom vermelho, mas não era induzido por
desejo ou sentimentos românticos, ela estava ficando cada vez mais
frustrada.
Era rude, eu sabia disso, mas não era uma discussão que eu
pudesse ter em inglês antes de termos nossa própria conversa.
— Que decisão? — continuou Himari, jogando um bolinho na
água fervente com frustração. — Qualquer decisão que você precisava
tomar foi feita por você quando a trouxe por essas portas e deu a ela
aquele quarto. Todos sabem que ela está aqui, e todos sabem o que
isso significa. Não se iluda.
— Não preciso que você seja a defensora dela, Himari! — Elevei a
voz, apesar de todo o amor e respeito que tinha pela velha, que eu
considerava como uma avó. Ela estava cruzando a linha e dizendo
coisas que eu odiava ouvir.
Porque são todas verdadeiras, provocou uma vozinha na minha
cabeça.
Mas Himari não se curvou, e eu deveria saber disso. Seu olhar
apenas se intensificou enquanto ela alcançava uma colher de
madeira. Não tinha certeza se ela não pretendia usá-la nas minhas
canelas, como fazia quando eu era mais jovem.
— Por que não? Alguém precisa ser, e claramente não é você,
meu menino. Estou desapontada.
Isso me fez recuar, forçando-me a dar um passo atrás, como se
suas palavras fossem um golpe físico. Eu estava farto de discutir com
ela.
— Tudo bem — disse em inglês antes de me virar para Violet, que
estava tirando o avental. — Violet…
— Estou indo agora — interrompeu ela, e odiei como sua voz
soava incerta e pequena. — Você poderia pedir a alguém para me
levar para casa, por favor?
Dei um passo em direção a ela, mas parei quando ela me lançou
um olhar de advertência, dando um passo para trás. Ela estava
preocupada? Franzi a testa, odiando aquela rejeição vindo dela. Doía
como o caralho, e isso não era algo que eu podia aceitar.
— Me dê alguns minutos, por favor. Há uma explicação atrasada,
e peço desculpas por não ter vindo até você antes.
Himari murmurou alguns palavrões desagradáveis em voz baixa
enquanto se virava para se concentrar na panela de água fervente.
Como Violet conseguiu se tornar a favorita da mulher em menos
de quarenta e oito horas era nada menos que um milagre. Himari
odiava estranhos, e geralmente levava anos para ela ser ao menos
educada com alguém.
— Acho que já passamos disso — respondeu Violet, limpando o
rosto para tirar um pouco da farinha. Ela perdeu um ponto no
queixo, e eu podia me imaginar inclinando-me e lambendo aquele
ponto até limpá-lo.
Meu corpo reagiu imediatamente, e a faísca de desejo na base da
minha espinha fez meu pau pulsar. Não, agora não!
Pigarreei, forçando-me a pensar em tudo o que era um matador
de humor, e o rosto julgador do meu tio passou pela minha cabeça,
matando instantaneamente qualquer desejo que eu sentia.
— Dez minutos, Violet, por favor. — Minha voz soava muito mais
rouca do que o normal.
Não escapei ao olhar surpreso que Himari lançou em minha
direção. Eu não era o tipo de homem que dizia “por favor” e
realmente queria dizer isso — nem estava acostumado a soar como
um idiota implorando.
Ela soltou um pequeno suspiro enquanto assentia, e eu senti
como se tivesse acabado de vencer uma guerra de clãs.
Gesticulei para que ela me seguisse, e caminhamos lado a lado
em silêncio. Apesar da falta de palavras, a tensão entre nós era tão
palpável que dificultava respirar.
Levei-a ao meu escritório principal no andar de baixo, aquele
que eu geralmente usava para conduzir negócios. Era o que havia
sido completamente projetado pelo meu pai e parecia muito
ocidental. Ele dizia que isso deixava os empresários mais
confortáveis, e eu entendia o que ele queria dizer. Katanas exibidas
no escritório de um chefe da máfia tendiam a deixar as pessoas
nervosas.
— Por favor, sente-se — ofereci, apontando para as confortáveis
poltronas de couro marrom ao lado da lareira.
Ela balançou a cabeça.
— Prefiro ficar de pé, obrigada — respondeu, e odiei o tom de
cautela em sua voz, a tensão em seu corpo. Parecia que ela estava se
preparando para uma situação de luta ou fuga, e era uma forma que
eu nunca queria que ela se sentisse na minha presença.
— Muito bem — respondi, sentando-me, esperando que, após
alguns minutos, ela seguisse meu exemplo. — Então — estendi as
pernas e as cruzei nos tornozelos, apoiando os braços nos
confortáveis apoios da minha poltrona habitual. — Por onde você
quer que eu comece?
— Você é da máfia? — soltou ela, apoiando-se na parede ao lado
da porta.
Não consegui conter minha surpresa com a pergunta. Arqueei as
sobrancelhas tão alto que provavelmente alcançaram a linha do meu
cabelo, enquanto minha boca ficou entreaberta.
— O quê?
— Você está na máfia? — repetiu ela, e eu podia ver a lateral do
seu pescoço pulsar em sincronia com seu batimento cardíaco.
A mulher estava completamente aterrorizada, mas ainda assim
fazia as perguntas. Ela era a personificação da coragem.
Respirei fundo enquanto meu coração batia com apreensão.
— Não, Suītohāto, eu não estou na máfia.
Seus olhos se estreitaram ligeiramente, mostrando suas dúvidas.
— Eu sou a máfia.
Ela inspirou profundamente, pressionando as costas contra a
parede. Ela podia ter suspeitado, talvez até lhe tivessem dito, mas
ouvir a confirmação vindo de mim fazia toda a diferença.
Não movi um músculo, preocupado que um único movimento a
assustasse e a fizesse fugir. Apenas a encarei, como se fosse feito de
pedra, tentando decifrar todas as emoções que passavam por ela ao
mesmo tempo.
Ela franziu e suavizou as sobrancelhas, inclinou a cabeça para o
lado como se estivesse tendo um debate interno. Abriu e fechou a
boca algumas vezes, e eu apenas esperei, o mais pacientemente que
pude, tentando manter meu rosto o mais inexpressivo possível,
apesar do aperto de apreensão que esmagava meu coração e
estômago a ponto de causar dor física.
Ela estava tentando entender tudo, tentando decidir se queria
saber mais ou ir embora.
Deixei meus olhos descerem até seu peito, observando-o subir e
descer rapidamente com suas respirações curtas. Então meu olhar
desceu até seus adoráveis dedos pequenos, que ela torcia com tanta
força que estavam vermelhos. Queria me levantar, tomar aquelas
mãos adoráveis nas minhas para impedi-la de se machucar. Queria
beijá-las, beijar cada dedo adorável, traçar minha língua pelas linhas
de suas palmas, prometendo a ela que, se ela nos desse uma chance,
ela nunca se arrependeria.
Mas eu não posso fazer essa promessa, essa vida é perigosa
demais para prometer isso. E, no entanto, eu estava pronto para
isso.
— Vo-você vai me matar? — perguntou ela, com um gemido.
— Claro que não. Eu cortaria minha própria mão antes de te
machucar — disse a ela com o tom solene da certeza. Era uma
evidência, como uma regra escrita. Ela era meu ikigai. Eu nunca
poderia machucar meu ikigai.
Ela me olhou, seus olhos azuis brilhando com lágrimas não
derramadas, incerta sobre o que fazer com minhas palavras.
— Há quanto tempo você sabe? — perguntei, me perguntando
quem eu teria que punir por isso, já que era meu segredo para
contar. Eu planejava contar a ela de uma certa maneira, e isso
estragou tudo.
De repente, me ocorreu. — Você sabia quando cancelou nosso
jantar?
Ela mordeu o lábio inferior, um sinal de sua ansiedade. Sim, ela
sabia.
Ela assentiu, e eu estava grato por sua constante honestidade.
Agora eu estava realmente preocupado. Não achava que ela não me
aceitaria. Não achava que ela poderia simplesmente ir embora, mas
isso era porque eu presumia que os sentimentos dela por mim eram
tão intensos e avassaladores quanto os meus, mas e se não fosse o
caso? E então? Isso mudava tudo. Jiro me disse que eu precisava dar
a ela a liberdade de ter uma vida simples e segura. Eu discordava
porque achava que a necessidade dela de estar comigo seria tão
grande quanto a minha de estar com ela. Mas se não fosse o caso,
então eu tinha que conceder a ela essa liberdade.
— Você não precisa ter medo — ofereci com a maior suavidade
que consegui. Eu não estava acostumado a tentar acalmar as pessoas,
estava muito mais versado em aterrorizá-las e ameaçá-las. — Isso
não é o fim, Violet. Sei que alguém te ameaçou para me atingir. Ficou
claro com as flores e o vídeo, mas…
— As flores não eram suas? — perguntou ela, e a vergonha e o
constrangimento em seus olhos me fizeram lamentar ainda mais por
não ser eu quem enviou as flores. Ela deveria receber flores todos os
dias pelo resto de nossas vidas.
Balancei a cabeça.
— Meu Deus. — Ela cobriu o rosto com as mãos, e odiei perder o
acesso à janela de seus sentimentos. Seus olhos eram um livro
aberto, e eu precisava vê-los. — Estou tão envergonhada. Meu Deus…
A mensagem que te enviei então… — Ela manteve as mãos no rosto.
— Queria ter enviado essas flores, queria mesmo… Se eu tivesse
ouvido a mim mesmo, teria comprado todas as rosas vermelhas da
cidade e as entregado na sua porta, mas não queria te assustar com a
intensidade dos meus sentimentos. Embora, acho que consegui isso
mesmo assim. — Sério, meu tom soava tão triste e patético quanto
parecia aos meus próprios ouvidos?
Ela tirou as mãos do rosto, suas maçãs do rosto e nariz em um
adorável tom de rosa. Seus olhos perderam um pouco do medo e da
cautela, e ela parecia mais curiosa e conflituosa agora. Talvez
mostrar a ela minha vulnerabilidade fosse a chave para seu coração.
— Você não precisa ter medo — repeti. — As flores e os vídeos
são preocupantes, sim, mas não é nada que não possa ser resolvido.
Você não precisa ficar aqui comigo ou mesmo sair comigo para estar
segura. — Respirei fundo. Essas palavras me machucaram muito
mais do que eu esperava. — Como você sabe, tenho empresas em
todo o mundo. Escolha um lugar, e eu te arrumo lá. Você pode
começar sua nova vida com o pé direito.
— Você quer que eu vá?
Porra, não! Quero você na minha vida, na minha cama… Quero
você em tudo, enrolada em mim como você já está enrolada no meu
coração, no meu cérebro, já correndo livremente pelo meu sangue,
como uma obsessão que tomou conta.
— Seria a opção mais segura e razoável para você — respondi
evasivamente, as palavras doendo de uma forma que quase me fez
cair de joelhos.
— Mas você quer que eu vá?
— Não, claro que não. — Quero você aqui comigo para sempre.
— Cancelei o jantar porque não sabia como me sentia em relação
a tudo isso, principalmente porque não me incomodava tanto quanto
deveria.
Inclinei-me para frente na minha cadeira, apoiando os cotovelos
nos joelhos enquanto a esperança florescia no meu peito, aliviando
ligeiramente o aperto da preocupação.
Ela olhou para o sofá de dois lugares à minha frente e se moveu
para sentar-se nele. Quase gritei de vitória quando ela visivelmente
se relaxou.
— Eu… — Ela parou e olhou ao redor do meu escritório, como se
estivesse tentando entender seus sentimentos, tentando explicá-los.
Boa sorte com isso, querida. Esses sentimentos que
compartilhávamos eram diretamente de um livro de contos de fadas
para velhas.
— Eu me vejo como uma boa pessoa, e não tenho certeza do que
diz sobre mim querer estar com alguém que é… — Ela parou e fez
uma pequena careta cômica enquanto me olhava.
— Não tão bom? — completei com um meio sorriso.
— Sim…
— É justo. Não vou tentar justificar quem sou e o que faço. Nasci
e fui criado nesta vida e para esta posição. Não sou um monstro e
nunca machuco os inocentes. Tenho um código moral, e embora
possa diferir muito do seu, ele existe.
— Por que Himari estava tão brava com você outro dia? —
perguntou ela. Fiquei um pouco confuso com a mudança de assunto,
mas presumi que ela precisava de tempo para processar.
— Ela não te contou?
Ela balançou a cabeça.
— Não, ela me disse para te perguntar.
— Ela era contra o quarto que te dei. — Esperava que isso fosse
resposta suficiente, mas deveria saber que não seria, pois ela me
olhou expectante, esperando mais.
Suspirei. Lá vai nada.
— Eu te dei o quarto da Tsuma, o quarto da esposa — traduzi
rapidamente. — Ela achava que não era apropriado nesta situação. —
Eu discordava completamente.
— Oh. — A cor voltou às suas bochechas, e meu coração floresceu
novamente com esperança. Será que ela ficou satisfeita com isso? —
A… hum, esposa. Ela… — Ela se remexeu no assento, o que me
intrigou.
Puxei-me para a beirada da cadeira, ainda inclinado para frente,
tentando diminuir a distância entre nós sem realmente me mover do
meu lugar.
Estava perto o suficiente para sentir seu leve perfume floral e vi
suas pupilas dilatarem em reação à minha proximidade. Não
consegui evitar o sorriso convencido que se espalhou pelos meus
lábios. Ela podia não estar emocionalmente tão envolvida e
intoxicada quanto eu, mas mostrava todos os sinais de uma atração e
desejo profundos — e isso era algo com o qual eu podia trabalhar.
— Sim? — encorajei-a com um tom suave, e meu sorriso se
alargou quando ela estremeceu.
— As esposas, elas… elas não dividem o quarto com seus
maridos? — perguntou ela, o adorável tom de rosa em suas
bochechas aprofundando-se para um vermelho brilhante.
— Entendo.
Ela olhou para as mãos no colo, e tudo o que eu queria era pular
do meu lugar e sentar ao lado dela para beijar todas as suas
preocupações e inquietações. Queria beijá-la até que ela esquecesse
como respirar, até que entendesse que, se fosse minha, eu faria
qualquer coisa ao meu alcance para passar todas as noites ao seu
lado.
— Muitos casamentos são arranjados, então ter dois quartos
ajuda. Quando é uma união criada por amor, como a dos meus pais
— E como a nossa seria — o casal mantém dois quartos apenas no
nome. É bom ter seu próprio espaço às vezes… Sabe, se seu marido
estiver na casa do cachorro, pelo menos ele não precisa dormir no
sofá. — Ri.
Ela olhou para mim com um pequeno sorriso.
— Então, eu não deveria ter dormido lá?
— Isso deu uma certa visão do nosso relacionamento, e não foi
justo da minha parte fazer isso sem te dar todas as informações. —
Inclinei a cabeça para o lado. Tinha que abordar a parte mais
delicada dessa discussão — a parte que eu achava que ainda poderia
fazer ela reconsiderar um relacionamento — e esperava que, se fosse
o caso, eu fosse honrado o suficiente para deixá-la partir.
Soltei um suspiro profundo, de certa forma lamentando não ter
me servido de um copo cheio de licor forte antes de começar essa
conversa. Recostei-me na cadeira, quebrando a intimidade para me
dar um pouco mais de clareza no que tinha que explicar agora.
— Estar comigo não será fácil. — Eufemismo do ano. — Muitas
pessoas ao meu redor são… — Pensei por um segundo, inclinando a
cabeça para o lado, tentando encontrar palavras para expressar o que
queria dizer sem preocupá-la mais do que o necessário — à moda
antiga e não verão com bons olhos estarmos juntos.
— Porque não sou japonesa?
Assenti.
— É parte disso, sim, mas também porque você é uma estranha,
e, como você pode entender, não costumamos ser muito receptivos
com estranhos. Vou te proteger o máximo que puder, mas,
infelizmente, a escuridão que cerca minha vida vai te afetar. — Apoiei
o queixo na mão. — Você precisa decidir se quer tentar isso ou se
quer ir embora.
— O que isso significa para o meu trabalho?
Tive que admitir que doeu como o caralho. Não tinha certeza do
que esperava, mas parte de mim esperava que ela simplesmente
dissesse sim e fosse minha, não importando o custo. A resposta para
essa pergunta era uma que eu sabia que ela não gostaria, mas, por
mais que quisesse persuadi-la, não podia mentir para ela.
— Essa pode ser difícil, quer você fique ou vá. Eu… sou um
homem com poucas fraquezas, e vivo em um mundo de tubarões. Se
eles virem uma brecha, vão atacar para matar. — Ótima maneira de
se vender, idiota. Você terá sorte se ela não fugir antes do final do
dia.
— E eu sou essa brecha.
— Você é.
Ela respirou fundo e desviou os olhos, olhando para a foto em
preto e branco da Torre Eiffel que Jiro estava olhando antes.
— Eu não sabia.
A culpa levantou sua cabeça feia novamente. Estava se tornando
um sentimento tão recorrente, o que era bastante irônico, já que era
algo que eu raramente sentia antes. Ela estava certa, e eu sabia disso.
Desde o momento em que a resgatei, sabia que estava cometendo
erro após erro, condenando-a a se tornar um alvo sem saber. Sabia
que não estava sendo justo, mas continuei nesse caminho.
— Não, você não sabia. Eu me certifiquei disso — admiti,
mostrando a ela um vislumbre da minha crueldade. — Fique ou vá,
esse trabalho está acabado agora. Você pode ir para Paris, se quiser,
e eu te arrumo um. Você estará longe de qualquer perigo.
— Estarei longe de você — murmurou ela, mantendo os olhos na
foto.
Prendi a respiração. Era relutância que ouvi em sua voz? Estava
eu lendo demais nisso? Estava ouvindo o que queria ouvir?
— Essa é a ideia. Se você estiver longe, não será mais vista como
uma fraqueza. Se você ficar, porém, eu te manterei segura, mas, para
isso, nós… — Não minta para ela, Hoka. — Você terá que fazer
sacrifícios e abrir mão de um pouco da sua liberdade.
— Entendo — respondeu ela evasivamente, voltando-se para
mim novamente e chupando o lábio inferior cheio entre os dentes.
Você realmente não entende.
— Você ainda poderá trabalhar, claro, mas para mim dessa vez.
Você estaria aqui para me ajudar com o outro lado dos meus
negócios, o legítimo. É muito a se pedir de qualquer forma. Não era
uma escolha que eu deveria ter jogado em você assim. — Não era
uma escolha que ela deveria ter que fazer, e, se eu tivesse sido mais
forte, ela não precisaria.
Ela assentiu novamente.
— É muito para assimilar. Eu… preciso de tempo — respondeu
com um pequeno sorriso.
A esperança que eu sentia antes murchou. Eu esperava que ela
simplesmente aceitasse tudo e talvez declarasse seu amor eterno por
mim na mesma maldita respiração.
— Claro. — Levantei-me. Precisava sair desta sala agora, antes
que fizesse algo de que me arrependeria, como implorar
descaradamente para que ela ficasse. — Tenho uma reunião para ir,
mas… — Pigarreei, o nó de decepção e dor alojado ali, dificultando a
deglutição. — Você vai ficar, certo? Não posso te proteger lá fora.
Apenas prometa que vai ficar até decidir o que quer fazer.
Ela assentiu, acompanhando-me com os olhos enquanto eu
caminhava até a porta. Será que ela podia ver minha angústia com
sua hesitação?
Olhei para o relógio ao alcançar a porta.
— Estou atrasado, desculpe. — Atrasado para nada e sem lugar
para ir. Eu podia ir ao cassino, suponho. Quebrar alguns dedos de
maus pagadores sempre me animava e ajudava a aliviar um pouco a
tensão. — Te vejo mais tarde.
Não dei a ela tempo para concordar e saí da sala rapidamente,
fugindo do meu próprio escritório e casa.
Não sabia o que ela ia fazer, mas sabia o que queria que ela
fizesse. Queria que ela me escolhesse, escolhesse nosso futuro.
Queria que ela me visse como digno, que apesar de toda a
escuridão, sangue e perigo que uma vida comigo traria, eu fosse
suficiente para fazer tudo valer a pena.
Que arrogante isso me tornava? Que egoísta? Eu já disse antes, e
diria novamente. Não era um homem bom, mas por ela? Eu estava
pronto para tentar.
CAPÍTULO 11
Vi
Eu não sabia o que fazer ou o que dizer. Queria respostas —
todas elas — mas agora não tinha certeza se isso havia sido uma boa
ideia.
Ele era o criminoso que me disseram que era. Não apenas fazia
parte da máfia, ele era o chefe da máfia, e a pior parte de tudo isso
era que isso não me incomodava tanto quanto deveria. O que isso
dizia sobre mim? Eu nunca entendi como minha mãe se envolveu
com meu doador de esperma — como ela se permitiu apaixonar por
um homem como ele — mas agora, pela primeira vez, comecei a
entender.
Eu o evitei na noite passada e durante todo o dia de hoje. Sentia-
me culpada por fazer isso depois que ele se abriu para mim,
mostrou-me vislumbres de suas vulnerabilidades e a profundidade
de seus sentimentos por mim.
Nada disso fazia sentido — nem nossa conexão, nem nossa
atração avassaladora. A forma como me doía fisicamente só de
pensar em me afastar dele.
Tomei um banho frio rápido para acalmar minha pele ardente,
mas não achava que qualquer quantidade de água pudesse aplacar
esse calor. Não era por causa do verão californiano, não, era por
causa do homem que eu sabia estar em um quarto a poucos passos
de mim.
Vesti meu pijama de short azul e regata e parei em frente ao
espelho do banheiro. Eu parecia a mesma, ainda parecia a mesma
pequena Violet, a garota que tinha medo de tudo, medo de abrir seu
coração mais do que o necessário. Determinada, quase paranoica, a
não cometer o mesmo erro que sua mãe cometera. Erros que
pareciam se repetir, não importava o quanto eu tentasse evitá-los,
mas talvez esse relacionamento fosse diferente. Talvez eu pudesse
quebrar a maldição. Hoka não era casado, e eu não era seu segredo
sujo. Ele se importava comigo, de verdade.
Apoiei as mãos no balcão fresco de mármore italiano branco e
me inclinei para frente, examinando cada linha do meu rosto. A
questão era que eu sabia o que deveria fazer e o que ia fazer, e eram
duas coisas muito diferentes. Não tinha certeza se meu cérebro
estava pronto para aceitar essa escolha, especialmente sabendo que,
uma vez que escolhesse um caminho, não haveria volta.
A escolha era completamente minha, sem qualquer pressão —
embora eu soubesse que ele provavelmente queria que eu ficasse
tanto quanto eu queria ficar.
Esse sacrifício por si só já era suficiente para me confortar na
minha decisão. Caminhei descalça até a poltrona de leitura, pronta
para me imergir em um dos romances que peguei na biblioteca,
qualquer coisa para evitar pensar nele.
Ouvi um barulho e olhei pela janela bem a tempo de vê-lo
amarrando um roupão ao redor de si. Ele acabou de nadar, e eu me
xinguei por ter demorado tanto me satisfazendo no banho, tentando,
sem sucesso, aliviar um pouco da tensão.
Ver seu corpo quase nu, nadando, teria me dado muito mais
material para minhas sessões noturnas de prazer, que não
apresentavam nenhum outro homem.
Ele olhou para cima, como se pudesse sentir meus olhos sobre
ele, e eu congelei quando seus olhos âmbar se conectaram aos meus.
Mesmo de tão longe, eu podia ver a cautela e a tristeza flutuando
neles, uma tristeza que foi apenas reforçada pela tentativa de sorriso
que ele me deu.
Ele acha que vou deixá-lo, que não me importo o suficiente
para ficar.
Hoje, quando tive certeza de que Hoka havia deixado a casa,
desci para a cozinha, e Himari me disse, enquanto eu a ajudava com
o almoço, que Hoka era um homem muito solitário, tanto por
circunstâncias quanto por escolha.
Eu entendi o que ela não estava dizendo também. Hoka
precisava de alguém que lutasse por ele. Alguém que se importasse
apenas com ele, não com o poder que ele transmitia ou o medo que
podia induzir. Hoka precisava ser visto pelo homem que era, não
pelo papel que representava.
E eu o estava vendo, o homem, o homem cansado e belo.
Esfreguei o peito onde meu coração inquieto causava certo
desconforto.
Como eu podia sentir algo tão intenso por ele? Como podia estar
tão profundamente envolvida tão rápido? Não era apenas
inquietante, era aterrorizante! Se eu expressasse como me sentia,
abriria todas as portas, derrubaria todas as paredes, e ficaria
completamente vulnerável — dando a ele todas as armas para me
destruir por completo.
Recostei-me na poltrona de leitura e fechei os olhos, evocando a
memória da minha mãe. Eu precisava da ajuda dela, de seus
conselhos sábios. Precisava de seu amor e otimismo inabalável,
mesmo que fosse apenas na minha cabeça.
Eu podia imaginá-la sentada ao pé da poltrona, colocando meus
pés em seu colo e batendo nos meus dedos um por um.
— Devo dar a ele o poder de me destruir? — sussurrei.
A imagem na minha cabeça sorriu, e eu quase podia sentir o
calor da palma dela contra a curva do meu pé, a pressão de seu
aperto.
— Não seria pior o contrário? — ela teria perguntado
sabiamente. — Não explorar algo que já é tão incrivelmente
apaixonado? Sempre se perguntando o que poderia ter sido? Você
conseguiria viver com o arrependimento de se afastar sem ter
certeza de algum dia sentir algo mesmo que remotamente
parecido? Tente, querida, você deve isso a si mesma para se jogar.
É aterrorizante, excitante e avassalador ao mesmo tempo, mas,
uma vez que você mergulhar, sentirá uma liberdade como nenhuma
outra — uma paz interior sem igual por ter feito a escolha. Seja
corajosa.
— Seja corajosa — repeti, abrindo os olhos e olhando para o
lugar vazio que ela ocupava nos meus pensamentos. — Seja corajosa!
— Levantei-me, pronta para compartilhar minha decisão com Hoka.
Apesar da hora tardia, isso não podia esperar. Eu não podia me dar a
chance de reconsiderar ou ter medo novamente.
Sabia o que queria fazer. Soube desde o momento em que os
lábios dele tocaram os meus, e agora tinha a força para admitir isso.
Saí do meu quarto e caminhei até o de Hoka com passos
determinados.
— Seja corajosa — murmurei enquanto parava em frente à sua
porta e a abria sem ser convidada.
Hoka escolheu aquele momento para sair do banheiro, com uma
toalha baixa ao redor da cintura, seu cabelo molhado do banho que
acabou de tomar, caindo livremente sobre os ombros e costas. Agora
eu sabia com certeza que seu cabelo era muito mais longo que o de
Jiro.
Ele parou quando me viu, apertando a mão ao redor do nó da
toalha.
— Violet? Você está bem? — Ele arqueou as sobrancelhas em
surpresa.
— Estou sendo corajosa — respondi enquanto empurrava a porta
para fechá-la atrás de mim, apoiando-me contra ela.
Ele deu um passo em minha direção.
— Você já é corajosa.
— Estou sendo mais corajosa, então — repliquei, dando alguns
passos em direção a ele, meus olhos fixos em seu peito e braços.
Quase não havia pele visível sob os belos desenhos integrados, cheios
de cores, flores vermelhas e carpas koi. Mantive meus olhos neles,
tentando decifrar as menores peças enquanto me aproximava,
hipnotizada por seu corpo.
Ele permaneceu onde estava enquanto eu me aproximava,
finalmente perto o suficiente para ver cada pequeno detalhe de suas
tatuagens e sentir o aroma herbal de seu sabonete corporal.
Mantive meus olhos na gota d’água que se formava na ponta de
uma mecha de cabelo e a segui enquanto ela caía, descendo por seu
peitoral, seus abdomens rígidos, até o V definido antes de ser
absorvida pelo tecido grosso de sua toalha branca.
Engoli em seco enquanto meu coração batia forte no peito. Eu
podia sentir meu desejo em todos os lugares — na minha cabeça, no
meu ventre, entre minhas pernas.
Levantei a mão, querendo traçar o padrão serpentino no meio de
seu peito, mas parei no meio do caminho.
Ele levantou a mão também, descansando-a lentamente nas
costas da minha e a puxou contra seu peito, sobre seu coração, que
parecia bater tão rápido quanto o meu.
Apoiei minha mão em sua pele, amando o calor e a suavidade
dela. Ele inspirou bruscamente enquanto soltava minha mão, e, em
vez de retirá-la, deixei meus dedos deslizarem por sua pele.
— Violet? — Sua voz era profunda e sem fôlego, como se ele
estivesse lutando para manter o controle, mas eu não tinha certeza se
queria que ele o fizesse.
Parei quando meus dedos alcançaram a borda da toalha e olhei
para cima. Seus olhos âmbar pareciam negros agora, suas pupilas
dilatadas ao máximo. Eu não era especialista, mas sabia, sem sombra
de dúvida, que ele me desejava tanto quanto eu o desejava.
— Sei que ir embora seria a melhor decisão. Seria a escolha mais
simples, a mais saudável — comecei, minha voz trêmula, minha
respiração rápida — mas o problema é que isso significa ficar longe
de você, dizer adeus e nunca estar com você, e isso parece muito mais
difícil do que qualquer outra coisa. — Deixei meus dedos deslizarem
um pouco sob a borda da toalha, e ele deu um passo à frente,
pairando sobre mim, sua força me envolvendo. — Não posso me
afastar desses sentimentos. Não quero acordar um dia me
perguntando o que poderia ter sido. Posso não ser especialista, mas
vi o suficiente na vida para saber que a conexão que temos é rara, e
não suporto a ideia de virar as costas para ela. Quero estar com você.
Ele levantou a mão e roçou os nós dos dedos contra minha
bochecha.
— É rara — concordou, sua voz um sussurro sedutor, fazendo
meu baixo ventre se contrair e criando a umidade do desejo entre
minhas pernas. — É tão rara, na verdade, que meu povo a
transformou em parte do nosso folclore.
Inclinei-me para frente e beijei sua pele, fazendo-o estremecer.
Apesar da minha apreensão em dar esse salto, não pude evitar me
sentir gratificada pela reação que causei nesse homem grande e
experiente.
Ele descansou a mão na parte de trás da minha cabeça e sibilou
enquanto eu lambia seu mamilo.
— Violet, querida, não sou conhecido pela minha contenção. Se
você não parar agora, acho que não sairá deste quarto com sua
virgindade intacta.
Olhei para cima e encontrei seus olhos para mostrar que não
tinha nenhuma dúvida — pelo menos, não sobre me entregar
completamente a ele.
— Não quero sair deste quarto de jeito nenhum.
Ele me puxou para si, colando meu corpo ao dele tão fortemente
que eu podia sentir cada contorno, incluindo a dureza de sua ereção
contra meu ventre.
Ele esmagou seus lábios nos meus enquanto agarrava minha
bunda, apertando-a e me fazendo ofegar, permitindo que ele
aprofundasse o beijo e invadisse minha boca, dominando-me nesse
beijo como dominava tudo em sua vida.
Ele tinha gosto de menta fresca, e nunca pensei que pasta de
dente pudesse ser excitante, mas aquele beijo por si só me fazia
queimar por dentro, minhas calcinhas encharcadas e meu corpo
ansiando por uma invasão que nunca conheceu antes.
Como meu corpo podia ansiar por algo que ainda não havia
experimentado? Uma de suas mãos soltou minha bunda e subiu
pelas minhas costas, parando na faixa de pele nua, traçando minha
pele ardente até o ponto de combustão.
Agarrei a toalha com mais força e puxei, deixando-a cair no
chão.
Hoka rosnou contra meus lábios, seus dedos fortes envolvendo
meu queixo e pescoço, virando meu rosto ligeiramente para cima
para aprofundar ainda mais o beijo, possuindo-me completamente.
Suas mãos se apertaram enquanto ele me puxava para o lado até que
senti a suavidade da colcha em suas costas contra a parte de trás da
minha coxa e, sem interromper o beijo, ele me empurrou para a
cama.
Ele finalmente interrompeu o beijo, deixando seus lábios macios
deslizarem gentilmente pela linha do meu queixo e descerem pelo
lado do meu pescoço, chupando suavemente meu ponto de pulsação.
Era hipnotizante como um homem tão grande, tão cheio de força
bruta viril, podia ser tão gentil, tratando-me como se eu fosse feita de
vidro.
— Hoka — sussurrei, deslizando meus dedos por seu cabelo,
fechando os olhos para me concentrar puramente na sensação de
seus lábios na minha pele, seu peso sobre mim.
Sua perna deslizou entre as minhas, sua coxa pressionando onde
eu doía tão desesperadamente.
Seus lábios continuaram descendo pela minha garganta,
explorando cada pequeno canto como se minha pele fosse um mapa
do tesouro, levando-o ao presente mais precioso.
Ele mordiscou o tendão que conectava meu ombro ao pescoço, e
meus quadris se ergueram inconscientemente, esfregando meu
centro contra sua coxa poderosa, dando-me prazer instantâneo e um
segundo de alívio.
Ergui os quadris novamente, uma, duas vezes, esfregando mais
rápido, tentando alcançar o alívio de qualquer maneira que pudesse.
Ele lambeu a concha externa da minha orelha e sibilou:
— Você está tão molhada por mim, linda. Sinto isso através do
seu short.
Em qualquer outra circunstância, eu ficaria horrorizada ao saber
que meu desejo era tão evidente, mas estava tão fora de mim que não
me importava — o desejo e a luxúria me roubando a última parte da
minha autoconsciência. Tudo o que importava agora era que
satisfizéssemos a dor que se espalhava pelo meu corpo.
Gemi seu nome, balançando os quadris mais alto e com mais
força enquanto sua coxa dava a quantidade certa de pressão no meu
feixe de nervos excessivamente sensível no topo da minha fenda.
Ele moveu a perna, e eu gemi ao perder a deliciosa fricção. Abri
os olhos e franzi a testa em frustração por ter sido interrompida do
meu orgasmo iminente.
— Paciência, querida. Temos a noite toda — sussurrou ele
enquanto seus lábios desciam pelo meu peito, parando na pele
exposta do meu umbigo. — Seria uma pena se você gozasse agora. —
Ele olhou para cima, seu queixo descansando no meu ventre
enquanto travava os olhos nos meus.
Seu cabelo secando estava uma bagunça por causa dos meus
dedos inquietos, e seus lábios estavam vermelhos e inchados de
nossos beijos apaixonados. O homem já era atraente antes, mas
agora, meu Deus, ele era tão lindo que doía.
Ele se inclinou e eu soltei um gritinho de surpresa quando ele
passou a língua ao redor e dentro do meu umbigo.
— Tenho tantos planos para nós esta noite, tantos cenários com
os quais fantasiei, repetidamente, quando me toquei pensando em
você. Vou fazer você gozar tantas vezes esta noite que você vai
implorar para eu parar. — Ele subiu as mãos, agarrando a barra da
minha regata. — Diga-me, querida, você também se tocou pensando
em mim?
Mordi o lábio inferior e assenti. Não havia sentido em mentir
para ele.
Ele rosnou com satisfação e puxou minha regata para cima,
tirando-a dos meus braços, e a jogou no chão em um movimento
rápido.
Eu nunca tinha ido tão longe com ninguém antes. Participei de
algumas sessões intensas de amassos, algumas explorações por cima
da roupa, mas nunca algo assim.
Não tive tempo de me sentir exposta enquanto ele olhava para
meus seios.
— Deslumbrante — sussurrou ele antes de roçar os lábios
suavemente sobre meu mamilo e lambê-lo com golpes longos e
fortes.
Enterrei meus dedos em seus cabelos negros sedosos, querendo
que ele ficasse ali e desse prazer aos meus seios até que eu não
conseguisse respirar. Ele fechou os lábios, chupando meu mamilo em
sua boca quente, girando sua língua quente ao redor da ponta
endurecida.
Fechei os olhos e gemi alto, arqueando as costas. É sempre tão
bom assim?
— Meu Deus… Meu Deus, Hoka, isso é… — Soltei um pequeno
grito quando ele puxou a ponta, não forte o suficiente para causar
dor real, mas o suficiente para induzir uma corrente elétrica que
correu pelo meu corpo e parou na minha entrada, criando uma nova
onda de umidade que encharcou completamente meu short.
Ele repetiu a mesma atenção no meu outro mamilo antes de
beijar meu corpo para baixo, enquanto suas mãos grandes e fortes
permaneciam nos meus seios, segurando-os e amassando-os. Seus
lábios pararam bem na borda do meu short.
— Tem certeza de que quer isso? — perguntou ele, soltando
meus seios e enganchando os dedos no meu short. — Porque, uma
vez que você for minha, querida, você será minha. Não haverá volta.
Eu sabia que ele estava tão perdido quanto eu, seu corpo
provavelmente doendo tanto quanto o meu, mas ele ainda se
preocupava com meu consentimento, meu desejo, e isso o tornava
ainda mais precioso para mim.
— Sim. — Balancei os quadris ligeiramente para dar ênfase às
minhas palavras. — Quero tudo com você.
Ele puxou meu short um pouco para baixo para beijar meu osso
do quadril, quase com reverência, antes de puxá-lo completamente
para baixo.
Eu estava nua, na frente de um homem, pela primeira vez na
minha vida. Apertei os olhos com força enquanto segurava a colcha,
tentando não me cobrir. Estremeci quando senti um pouco do ar
fresco da noite que vinha da janela aberta contra meu sexo.
— Abra os olhos, Violet. Preciso ver seus olhos. — Sua voz era
grave, quase irreconhecível, tanto por sua luxúria quanto pelo
esforço de se conter.
Abri os olhos e olhei para a fera que era o homem de pé ao pé da
cama, em toda sua glória nua, olhando para mim com tanta paixão
ardente que me senti como uma virgem sacrificada em um altar, e ele
era o lobo prestes a me devorar.
Como se pudesse ler meus pensamentos, ele lambeu os lábios, e
eu tive que impedir minhas pernas de se abrirem instintivamente.
— Não sei o que fiz para merecer você — disse ele, deixando seus
olhos vagarem lentamente do meu rosto, ao meu peito, e descerem
pelo meu estômago antes de pararem no ápice das minhas coxas e na
faixa de pelos bem aparada, felizmente. Sua análise foi tão intensa
que parecia uma carícia ardente na minha pele.
Deixei meus olhos descerem pelo corpo dele, e a excitação deu
lugar ao medo quando vi sua ereção orgulhosamente erguida. Não
era difícil adivinhar que ele estava bem acima da média e muito
maior do que Jake. Engoli em seco. Era impossível que uma parte tão
grande dele coubesse em mim.
Ele pareceu ler meu medo e voltou para a cama, moldando seu
corpo ao meu lado, sua grossura descansando contra meu quadril.
— Vai caber, querida. Você foi feita para mim, e eu vou garantir
que você esteja pronta. — Ele se moveu e beijou a curva do meu seio.
— Não quero te machucar, e mesmo que alguma dor seja inevitável,
vou garantir que, antes que a noite termine, você esteja se afogando
em prazer.
Ele começou a lamber e esfregar o rosto na minha garganta
enquanto sua mão descia pelo meu estômago até segurar a parte
mais íntima de mim em um gesto tão possessivo que abri minhas
coxas ligeiramente.
— Hmm, boa menina — ronronou ele contra minha mandíbula
enquanto seus dedos esfregavam para cima e para baixo, abrindo
minha fenda.
— Hoka, Hoka… — gemi, ondulando meus quadris sob sua
carícia suave, seus dedos fortes e calejados causando um efeito muito
mais forte do que os meus jamais tiveram.
— Acho que nunca vou me cansar de ouvir você gemer meu
nome, querida. É o som mais sedutor do mundo. — Ele pressionou o
polegar contra meu clitóris antes de inseri-lo lentamente em mim.
Soltei um gemido, sem saber como expressar em palavras tudo o
que ele estava me fazendo sentir e o que eu queria que ele fizesse.
Queria estender a mão e empurrar seu polegar mais fundo dentro de
mim, qualquer coisa para aliviar a insanidade dessa sensação
ardente no meu núcleo.
— Mais…
Ele me beijou selvagemente, abandonando qualquer pretensão
de suavidade enquanto seu lado dominante assumia completamente,
e seu polegar pressionava completamente dentro de mim, movendo-
se em círculos tortuosamente lentos.
— Mais… — implorei novamente. Eu queria sua ereção completa
em mim, não importava o quão pronta eu estivesse ou o quanto
doesse, porque sentia que, se ele continuasse assim, mantendo-me
na beira do prazer, eu perderia a sanidade para sempre.
Ele interrompeu o beijo e levantou a cabeça, fazendo-me gemer
de prazer dolorido.
Ele levou o polegar à boca e chupou, meus olhos revirando de
prazer.
— Quero provar tudo — disse ele antes de descer pela cama até
chegar ao pé.
Agarrei seus ombros duros, que estavam abrindo minhas pernas
completamente, não escondendo nada de sua visão, e apenas sua
respiração quente tão perto da minha abertura me fez estremecer.
Sua boca desceu, pressionando alguns beijos de boca fechada
entre minhas pernas antes de lamber entre meus lábios, abrindo-me
e pressionando a parte plana de sua língua na carne interna.
Soltei um suspiro entrecortado enquanto apertava meu agarre
em seus ombros, minhas unhas cravando em sua pele quente.
Ele segurou meus quadris para me manter no lugar enquanto
enterrava o rosto completamente entre minhas pernas, seus lábios e
língua brincalhões e exigentes, alternando entre mordidas leves e
lambidas reconfortantes. Sua respiração era rápida, e era um certo
conforto saber que ele estava tão perdido quanto eu.
Balancei meus quadris em um movimento impotente, buscando
algo que apenas ele podia me dar. De repente, enquanto sua língua
entrava em mim, um orgasmo explodiu sem aviso, cegando-me com
sua força enquanto eu finalmente caía da beira, gritando seu nome.
Ele levantou a cabeça, seus lábios e queixo brilhando com meu
desejo, orgulho misturado com luxúria em seus olhos.
Ele beijou seu caminho de volta pelo meu corpo enquanto eu
tentava recuperar o fôlego, e parou na minha boca, seus beijos mais
intensos do que antes. Provar a mim mesma em sua língua e lábios
tornava tudo ainda mais erótico. Deixei minha mão vagar entre
nossos corpos e a apoiei contra o comprimento duro de sua ereção
pulsante, o frio da apreensão se instalando novamente no fundo do
meu estômago, apesar da minha necessidade física urgente de tê-lo
profundamente dentro de mim. Passei meus dedos sobre seu
comprimento, sentindo cada cume, cada veia, de alguma forma
maravilhada que uma característica tão dura, impressionante e
masculina pudesse ser tão macia. Hesitantemente, envolvi meus
dedos ao redor de sua dureza, sentindo-a pulsar na minha mão e
apertei suavemente.
Hoka gemeu contra minha boca, e eu retirei minha mão
imediatamente. Talvez não devesse ter apertado assim.
— Eu te machuquei?
Ele pegou a mão que eu acabei de envolver ao seu redor e beijou
minha palma.
— Não, querida, muito pelo contrário. Sua mão no meu pau
parece tão boa, é como o paraíso, mas não posso deixar você fazer
isso agora. Quero você demais, e quero gozar com meu pau enterrado
tão fundo dentro de você que não saberíamos dizer onde você
começa e onde eu termino.
Corei e abri minhas pernas para deixá-lo completamente entre
elas e levantei os joelhos para envolver seus quadris em um abraço
íntimo, seu pênis pressionando contra minha fenda.
— Hoka… Hoka, me tome agora. Eu q-quero você dentro de
mim. Quero você mais do que quero minha próxima respiração.
Quero… Quero… — Movia minha cabeça de um lado para o outro. —
Quero…
Ele não me deixou terminar enquanto me interrompia com outro
beijo profundo, sua língua brincando com a minha enquanto sua
mão esquerda agarrava meu seio.
Ele se moveu ligeiramente, e eu podia sentir a cabeça bulbosa de
seu membro contra minha entrada, pressionando suavemente.
— De quem você é? — perguntou ele, interrompendo o beijo e
cutucando minha entrada um pouco, apenas para deslizar a ponta.
— Sua — concordei, deixando minhas mãos descerem por suas
costas, fazendo-o estremecer antes de virar a cabeça para o lado para
beijar seu bíceps forte, que estava ao lado da minha cabeça.
— Diga de novo — ordenou ele entre dentes cerrados, deslizando
um pouco mais para dentro, o suficiente para eu começar a sentir o
estiramento de sua invasão.
— Sou sua.
Naquela última palavra, ele avançou em um impulso longo e
forte, e eu não consegui conter o grito de dor. Hoka jogou a cabeça
para trás e soltou um som que era mais animalesco do que humano
enquanto se acomodava completamente dentro de mim, claramente
perdido em seu prazer.
Ver o quanto ele estava perdido em mim ajudou a aliviar um
pouco da dor ardente da invasão forçada. Eu sabia que, por mais
molhada e pronta que estivesse, ter algo tão grosso e longo dentro de
mim iria doer.
— Desculpe-me — disse ele com uma voz estrangulada. Ele se
moveu um pouco, e eu fiz uma careta, fazendo-o congelar
imediatamente. — Não vou me mover até que você esteja pronta. —
Sua voz era entrecortada, e eu sabia que exigia uma força sobre-
humana para impedir seu corpo de seguir seu impulso de avançar.
Ele começou a me beijar em todos os lugares que podia alcançar,
numa tentativa de aliviar a dor. Beijou minha garganta, meu seio,
traçando meu mamilo com a língua, murmurando palavras de amor
e paixão que eu não tinha certeza se ele realmente queria dizer.
Ele se moveu um pouco, e meu aperto ao redor de seu membro
afrouxou enquanto a dor lentamente diminuía.
Ele arqueou uma sobrancelha em uma pergunta silenciosa, e eu
assenti. Ele começou a avançar suavemente, entrando e saindo da
minha carne sensível até que a dor desaparecesse completamente,
deixando uma plenitude maravilhosa em seu lugar.
Movi minhas pernas, apoiando os calcanhares nas covas de sua
bunda, permitindo que minhas pernas se abrissem ainda mais.
Ele soltou um gemido gutural e começou a avançar mais fundo,
mais forte, mais rápido, preenchendo-me até que eu estivesse
completamente esticada ao seu redor. Instintivamente, meus quadris
começaram a acompanhar cada movimento, cada impulso profundo,
até que a dor desaparecesse completamente, deixando a pressão
esquisita de seu comprimento dentro de mim.
Senti a tensão aumentar, cada vez mais alta com cada um de
seus impulsos poderosos.
— Goze para mim, meu amor — sussurrou ele sombriamente no
meu ouvido enquanto uma de suas mãos descia entre nossos corpos
e beliscava meu clitóris pulsante entre seus dedos.
Mais uma vez, senti meu mundo implodir em um fogo celestial,
intensificando todos os meus sentidos para que eu pudesse sentir
cada linha de sua dureza enquanto meu corpo se contraía ao redor
dele com cada espasmo orgástico.
A pressão dos meus espasmos foi suficiente para fazê-lo perder o
controle, e após alguns impulsos erráticos, ele gozou, gemendo meu
nome.
Ele caiu pesadamente sobre mim, tão sem fôlego quanto eu, seu
batimento cardíaco rápido ecoando o meu. O zumbido suave do
prazer continuou mesmo depois que nossas respirações voltaram ao
normal, e eu soltei um suspiro relaxado, desfrutando do peso de seu
corpo sobre o meu.
Ele soltou um suspiro enquanto rolava para o lado, forçando-se a
se retirar de mim.
— Não quero te sufocar — disse ele, sua voz grave e sonolenta. —
Você está bem? — Ele olhou para mim com preocupação.
Sorri, rolando para o lado e me aninhando na curva de seu braço
antes de levar a mão ao seu queixo.
— Estou mais do que bem. Foi como nada mais neste mundo.
Nunca pensei que alguém pudesse sentir tanto prazer. — Beijei seus
lábios em uma carícia suave antes de me acomodar novamente em
seu braço, meu rosto enterrado em seu pescoço.
— Não é normalmente tão bom — respondeu ele enquanto movia
a perna para pegar o cobertor que estava dobrado ao lado da cama e
o puxava sobre nossos corpos nus. — Nunca conheci um prazer como
esse na minha vida. Quando estava dentro de você, percebi que era
assim que queria morrer enterrado profundamente no paraíso
apertado do seu corpo.
Estremeci.
— Não fale de morte agora. Estou feliz demais para pensar em
perigo. — Apoiei um braço em seu peito e levantei a perna para ficar
entre as dele, sentindo seu pênis agora macio contra minha perna
enquanto me aninhava mais perto dele.
Fechei os olhos e tracei padrões ociosos em seu peito enquanto
começava a deslizar para um sono exausto.
Senti seus lábios roçarem minha testa.
— Durma, meu amor. Seu dragão estará vigiando você.
E adormeci, sentindo-me segura, feliz, desejada e amada pela
primeira vez na minha vida.
CAPÍTULO 12
Vi
Uma noite virou duas, depois três, e quatro. Não dormi no meu
quarto desde aquela primeira noite, e algumas das minhas coisas
estavam começando a aparecer no quarto de Hoka, incluindo minha
escova de dentes ao lado da dele no banheiro, ou meu gel de banho e
shampoo no seu chuveiro italiano gigantesco.
Era tudo muito novo para fazer muito sentido, mas parecia que
estávamos nos acomodando em uma espécie de casulo confortável do
qual eu relutava em sair um dia. Agora, estávamos na casa dele,
cercados por muito poucas pessoas, e eu só via Jiro, com seu olhar
fulminante, de longe.
Hoka ficava fora a maior parte do dia, e eu ficava sozinha para
explorar, aprender a cozinhar com Himari e me imergir em todos os
livros de folclore e cultura japonesa, traduzidos para o inglês, que
conseguia encontrar.
Queria me sentir próxima de Hoka da melhor forma possível, e
parecia que aprender sobre suas origens era o melhor caminho.
Apoiei o livro sobre a breve história dos samurais nos meus
joelhos quando houve uma batida suave na minha porta.
— Entre — chamei, e fiquei surpresa ao ver Hoka. — Já está em
casa?
— Senti sua falta — respondeu ele com um dar de ombros
despreocupado.
Eu ri e me levantei da poltrona de leitura, permitindo que ele se
sentasse.
— Estive procurando por você há um tempo — disse ele,
sentando-se.
— E vir ao meu quarto não passou pela sua cabeça? — respondi
com um sorriso, cutucando-o brincalhona com o pé.
Ele pegou meu pé em sua mão e o levou à boca, beijando o topo
antes de descansá-lo em seu colo, passando a mão para cima e para
baixo na minha canela.
— Você está se escondendo?
Revirei os olhos, mas ele não estava longe da verdade. Eu sabia
que Jiro estava na casa principal hoje, em vez da casa de hóspedes
que ele normalmente ocupava, e eu realmente odiava encontrar seus
olhos cheios de desaprovação.
— Só acho que você ficaria melhor no meu quarto, sabe.
— É diferente quando você não está lá. É o seu espaço. Sinto que
estou invadindo quando estou lá sem você.
Era a verdade. O quarto de Hoka era tão perfeitamente ele, tão
masculino e organizado, com suas katanas inestimáveis em exibição
e seu escritório particular ao lado. Só Deus sabia que tipo de
segredos assustadores aquele quarto guardava.
Ele franziu a testa, interrompendo sua carícia suave e apertou
meu pé.
— Não gosto disso. Quero que você se sinta à vontade lá. Quer
que reformemos?
Meu coração disparou no peito enquanto eu me sentava mais
ereta, mas sua expressão neutra mostrava que ele não achava nada
de especial nisso.
— Seu quarto é lindo, seria uma pena mudar qualquer coisa. —
Pressionei meu pé contra sua virilha em um convite não tão sutil.
— Você está me matando — gemeu ele enquanto se levantava. —
Queria ter tempo, eu te teria nua e curvada sobre essa cama mais
rápido do que você poderia se levantar, mas tenho que ir.
Senti a excitação umedecer minha fenda com as imagens dele me
curvando e me tomando por trás. Ele fez isso na noite passada, após
um banho supostamente rápido que nos deixou ambos muito
atrasados para o jantar, e eu adorei — a dominância da posição, a
penetração profunda, seu hálito quente contra meu pescoço… Eu
quase podia gozar só de pensar nisso.
Suas narinas se dilataram enquanto seus olhos dourados ficavam
quase negros com suas pupilas dilatadas pelo desejo.
— Pare com isso, mulher — ordenou ele, suas palavras
carregadas de calor.
Dei de ombros e estendi a mão para que ele me ajudasse a
levantar, já que não tinha certeza se minhas pernas estariam firmes o
suficiente.
— Você só tem a si mesmo para culpar aqui. Se não usasse sua
katana tão bem, eu não a desejaria o tempo todo.
Ele jogou a cabeça para trás e riu ruidosamente. Eu amava esse
abandono completo de pretensões quando ele era apenas Hoka —
meu homem, meu amante — e não Hoka, “o chefe”, que eu via
quando estávamos na presença de sua equipe.
— Minha katana? — perguntou ele, secando as lágrimas no
canto dos olhos.
Dei a ele um sorriso tímido.
— Ela realmente me destruiu.
Ele balançou a cabeça, beijando minha testa, meu nariz, minha
boca e depois meu queixo. Ele fazia isso todos os dias antes de sair, e
era nesses momentos particulares que eu sentia ele roubar mais
pedaços do meu coração. Eu o amava, não havia duas maneiras de
dizer isso.
— Violet, anata no soba ga, watashi no okiniiri no basho desu2.
Inclinei a cabeça para o lado, amando quando ele falava japonês,
mas odiando não entender. Logo entenderia, no entanto — estava
fazendo aulas online para surpreendê-lo.
— Estar ao seu lado é meu lugar favorito — repetiu ele em inglês.
— De alguma forma, é mais fácil para mim dizer tudo isso em
japonês. — Ele esfregou o pescoço inconscientemente.
Abri a boca. Estava pronta para dizer as palavras agora, mas ele
me interrompeu enquanto alcançava o paletó e tirava uma caixa
longa e plana.
— Não estarei em casa esta noite, mas isso é para você. Espero
que goste.
— Claro que vou gostar. É de você — respondi sinceramente, e
seu rosto suavizou, como se esse tipo de interação fosse raro em sua
vida.
— Não estou acostumado com essa suavidade no meu mundo.
Você sente tudo tão profundamente, é tão…
— É uma coisa ruim? — perguntei, interrompendo-me antes de
abrir a caixa.
— Não, mas deve ser exaustivo.
— Não realmente, estar com você faz valer a pena. — Abri a caixa
e inspirei bruscamente ao ver o colar deslumbrante. Passei os dedos
sobre o dragão primorosamente trabalhado, que era uma cópia exata
do que cobria as costas de Hoka. Havia algumas pedras muito
pequenas imitando as camélias vermelhas que cercavam seu dragão
tatuado, e ele segurava algo que parecia suspeitosamente um
diamante entre suas garras dianteiras.
— É um dragão de platina com rubi e diamante — disse ele
enquanto eu continuava olhando para baixo, meus olhos ardendo
com lágrimas pelas emoções avassaladoras.
— Você não deveria ter feito isso, Hoka. É tão lindo. — Olhei
para cima, dando a ele um sorriso lacrimejante.
Ele estendeu a mão e segurou minhas bochechas gentilmente
antes de passar os polegares sob meus olhos para secar minhas
lágrimas.
— Para que você sempre se lembre que seu dragão é seu
campeão, ele estará sempre lá por você, protegendo-a. — Ele
alcançou o colar. — Vire-se.
Obedeci silenciosamente e deixei que ele deslizasse a corrente ao
redor do meu pescoço, o metal frio do dragão fazendo maravilhas na
minha pele quente.
Ele descansou as mãos nos meus ombros e beijou onde o colar se
fechava.
Virei-me, apoiando a mão sobre ele e respirei fundo, esperando
não estragar a frase que aprendi e repeti para mim mesma para
garantir que fosse perfeita.
— Suki da yo. — Eu te amo.
Ele congelou.
— O quê?
— Oh… — Corei, desejando que o chão me engolisse
completamente. Falhei na coisa mais importante que queria dizer. —
Desculpe-me, não disse certo. Eu q…
Ele se inclinou e me deu um beijo forte e contundente.
— Não, não, foi perfeito, absolutamente perfeito. Só quero ouvir
você dizer de novo. Por favor, diga de novo.
— Suki da yo.
— De novo.
— Suki da yo.
— De novo. — Sua voz estava ficando sem fôlego, sua mão ao
lado do meu pescoço tremendo um pouco.
— Suki da yo.
Seus olhos brilharam levemente, e sua mão no meu pescoço se
apertou. Ele estava sobrecarregado com o que eu disse, e eu não
tinha certeza se isso era uma coisa boa ou não.
Estava prestes a dizer que ele não precisava retribuir quando ele
segurou meu rosto entre as mãos, e eu mais uma vez me maravilhei
com como mãos tão grandes e fortes podiam me tratar com tanta
suavidade.
Ele começou a salpicar meu rosto com beijos.
— Suki da yo. — Ele beijou minha bochecha. — Dai suki da yo.
Eu te amo tanto. — Ele beijou minha outra bochecha. — Anata wa
watashi no sekai desu. Você é meu mundo. — Ele então esmagou sua
boca na minha, passando a língua na costura dos meus lábios,
pedindo entrada. Abri a boca, e ele invadiu, beijando-me com
lambidas rasas de sua língua, começando uma dança erótica que
ambos sabíamos que não podíamos terminar.
Ele rosnou, dando um passo para trás.
— Te vejo mais tarde.
Assenti, apoiando os dedos nos meus lábios. Beijá-lo algum dia
perderia sua novidade?
Ele caminhou até a porta do meu quarto e a abriu, mas parou
antes de cruzar o limiar e virou a cabeça para o lado.
— Diga de novo.
Eu ri.
— Suki da yo.
Ele colocou a mão no peito.
— Eu te amo, doce anjo.
Sentei-me na cama, olhando para a porta fechada antes de
deixar minha mão deslizar até o colar. Eu fiz isso, disse a ele que o
amava, e, por mais inacreditável que fosse, ele também me amava.
Soltei um gritinho, deixando-me cair de volta na cama. Eu era
amada, realmente amada!
Olhei para o teto por alguns minutos, deixando minhas emoções
se assentarem antes de ir à biblioteca pegar outro livro, já que
passaria a noite sozinha.
Estava passando pelas prateleiras quando a porta se abriu atrás
de mim. Virei-me com um pequeno sorriso, pensando que era Hoka
voltando para outro beijo, mas meu sorriso congelou nos lábios
quando meus olhos se conectaram com o olhar julgador de Jiro.
Soltei um suspiro interno.
— Jiro — ofereci, o mais amigavelmente que pude.
Ele abriu a boca e a fechou novamente antes de balançar a
cabeça levemente.
— Ele te deu a escolha, e você escolheu errado.
Virei-me para encará-lo completamente, cansada das falsas
pretensões.
— Por que você me odeia?
— Odiar você? — Ele suspirou com outro leve balançar de
cabeça. — Não te odeio. Muito pelo contrário, na verdade… Gosto
bastante de você.
Franzi a testa, cruzando os braços no peito. Seria algum tipo de
rivalidade para me roubar de Hoka? Será que eu perdi
completamente os sinais? Abri a boca para dizer que ele estava
desperdiçando seu tempo e energia.
Ele riu e levantou a mão para me impedir de me humilhar.
— Não, percebi como isso deve ter soado, mas não quero dizer
assim. — Ele deu alguns passos em minha direção. — Sei que você é
uma boa pessoa, e sei, sem sombra de dúvida, que você realmente se
importa com Hoka.
Eu não apenas me importava, eu o amava profundamente, mas
não ia discutir com Jiro.
— Isso é tão errado assim?
Ele assentiu.
— Sim, é, porque você claramente não pensa direito, e acho que
ele gosta de se ver através dos seus olhos.
Isso doeu, principalmente porque também era um medo meu.
Não que ele fosse vaidoso o suficiente para me querer apenas porque
eu o via como meu herói pessoal, mas que ele me quisesse
principalmente por causa da novidade que tudo isso representava.
— Não devemos nos misturar. — Ele levantou a mão. — Não é
racismo, é um fato. Vá em frente e case com qualquer homem
japonês na rua, isso não é um problema. O problema é casar com um
de nós. — Ele puxou a camisa de dentro das calças para me mostrar a
tatuagem em seu flanco, a que combinava com a de Hoka. — Esta
marca é uma tradição antiga. Fomos criados de uma certa maneira,
temos uma cultura ampla que é tão diferente da sua. Hoka — ele
suspirou com cansaço — está cego demais para ver que você nunca
será aceita como uma de nós. Você não pode ser do clã porque não
nasceu nele.
— Posso aprender — sussurrei enquanto a verdade de suas
palavras envolvia suas mãos frias ao redor do meu coração,
apertando-o até o ponto da dor.
— Não, você não pode. Pode tentar, claro, mas não são apenas
algumas regras e costumes. É uma cultura inteira — milhares de anos
de histórias, lendas e regras — que foi passada para nós desde o
primeiro samurai. E Hoka não é qualquer um, ele é nosso líder, o
portador de todas essas tradições. Como ele pode obrigar as pessoas
a seguir as regras quando sua própria parceira não pode?
— Mas eu… as pessoas gostam de mim — ofereci, de maneira
bastante fraca.
— Gostam, assim como eu gosto. — Sentei-me com confusão
enquanto Jiro explicava: — Gostam, mas apenas porque pensam que
você é uma fase, o capricho de um rei entediado. Eles te aceitam
porque estão convencidos de que você é apenas uma distração
inofensiva e temporária.
Isso cortou ainda mais fundo do que provavelmente era a
intenção, porque também jogava com minhas inseguranças.
— Mas você não acha que sou?
— Acho, mas acho que ele vai perceber tarde demais, quando o
dano já estiver feito para ambos. Mas sei que ele sabe. No fundo, ele
sabe. Ele deveria saber.
Eu deveria ter ignorado, nunca deveria ter aberto a porta para a
dúvida, mas não consegui evitar.
— O que você quer dizer?
— Você sabe onde ele está indo esta noite?
— Em algum lugar onde você também não está — respondi
infantilmente.
Ele me deu um meio sorriso.
— Eu vou para lá. Só precisava pegar uma garrafa de shochu
especial que Hoka esqueceu de levar quando saiu. Hoka está em um
casamento de família onde todos levam seus parceiros — esposas e
namoradas — mas aqui está você, com suas calças de ioga, enquanto
ele desfila lá, solteiro. Por que você acha que ele te levou àquele
restaurante italiano que ele nunca frequenta? — Ele caminhou até o
armário escuro no canto e pegou uma garrafa da prateleira inferior.
— Não tenho prazer em dizer nada disso.
Soltei uma risada sem humor, a dor de suas palavras cortando
tão profundamente, mas eu sabia que ele falava sério.
— Claro que não.
Ele se virou.
— Não tenho — repetiu com convicção. — Você acha que eu
gosto de esmagar sua esperança? De apagar a luz dos seus olhos?
Não gosto. É como esmagar um filhote de pássaro.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque continuo dizendo a ele para te deixar ir, para te
libertar, para não cometer os mesmos erros que eu cometi, mas ele
não está ouvindo. Acho que ele está convencido de que pode ser o
homem que você pensa que ele é. Mas ele não é, não importa o
quanto tente. — Jiro balançou a cabeça. — Um leopardo nunca muda
suas manchas, não importa o quanto queira. Um dia, Hoka vai
acordar e perceber que não pode mudar, e você verá o verdadeiro ele,
o homem cruel que sei que ele é. — Ele soltou um suspiro cansado. —
E você será um dano colateral.
— Sua própria experiência está nublado sua mente? Não é
porque você a machucou e ela te deixou que será o mesmo para nós.
Raiva e dor brilharam em seus olhos, e eu me arrependi
imediatamente das minhas palavras. Ele deu um passo em minha
direção, e, apesar do meu medo, mantive minha posição.
— Estar com você torna a vida dele muito mais difícil do que
precisa ser, e um dia, quando a paixão, a luxúria, ou o que quer que
vocês dois pensem que é, desaparecer, ele vai se perguntar se tudo
isso valeu a pena.
— Não estou dificultando a vida dele.
— Não me diga que você é tão ingênua. Você acha que, por ele
ser o rei, ele pode fazer o que quiser? — Ele revirou os olhos e bufou.
— Claro, você é um problema adicional, e no fundo, você sabe disso.
Se for honesta consigo mesma, tem que ver isso. As noites dele no
escritório, as ligações secretas. Suas escolhas estão sendo
questionadas.
— Eu o faço feliz — respondi teimosamente, muito mais para me
convencer do que a ele.
— Por agora — concordou ele com um aceno. — Ele está tão
envolvido na luxúria, paixão e novidade disso tudo. Ser visto como
herói é emocionante. Eu sei, estive lá, mas acredite, um dia ou outro
a verdade te atinge bem na cara.
— Ele me contou tudo o que há para saber sobre ele.
Jiro riu com desdém.
— Não, ele não contou, porque, se tivesse, você não estaria de pé.
Estaria a dois metros debaixo da terra.
— Hoka não me mataria — respondi enquanto o desconforto se
instalava no meu estômago. Eu estava sozinha com esse homem,
que, apesar de dizer que gostava de mim, me dava todos os sinais de
um assassino pronto para atacar. Ele é mesmo? Você é especialista
agora? A Netflix te deu um doutorado em assassinatos? provocou a
voz na minha cabeça enquanto eu dava um passo para trás. A parte
de trás das minhas pernas bateu no couro macio e frio da poltrona de
Hoka. Caí pesadamente nela, exausta e assustada.
— Não, ele não faria, mas eu faria. Se não tivesse outra escolha,
eu faria. — Ele inclinou a cabeça para o lado, me examinando. —
Hoka te contou sobre meu papel?
Balancei a cabeça em silêncio, não querendo dar a ele um motivo
para fazer o que quisesse.
— Ele te disse que eu era o chefe de segurança, e não era uma
mentira completa. Sou o segundo no comando, mas, acima de tudo,
sou o executor dele. — Ele manteve seus olhos escuros fixos nos
meus, tentando me fazer entender a implicação de suas palavras, e
eu as entendi muito bem.
Executor. Um arrepio de medo correu pela minha espinha.
— Eu sujo as mãos quando ele precisa permanecer limpo, e tomo
as decisões difíceis quando ele não consegue tomá-las.
— O que você quer que eu faça? — perguntei, odiando como
minha voz falhou com o medo. — Deixá-lo ou você me matará?
Ele suspirou com frustração, como se eu estivesse perdendo o
ponto principal.
— Não, ir ou ficar é irrelevante. Eu disse o que tinha a dizer. Se
você fosse uma traidora, por outro lado…
— Não vou traí-lo.
— Então você não tem nada a temer de mim. É todo o resto que
você deveria se preocupar. — Ele olhou para o relógio e caminhou em
direção à porta.
Eu deveria tê-lo deixado ir, ele disse muito mais do que o
suficiente para me fazer pensar sobre tudo o que Hoka e eu éramos
ou quem eu achava que poderíamos ser, mas não consegui me
conter.
— O que você quer que eu faça, então? Por que me contar tudo
isso?
Ele deu de ombros.
— Porque parte de mim se sente culpado por ver você ser
submergida sem saber de nada. É como uma lagosta na água quando
está quente, elas lutam, mas quando as colocamos em água fria e a
aquecemos gradualmente, elas não percebem até que seja tarde
demais. Agora você tem todas as informações, agora pode tomar uma
decisão verdadeiramente informada, e agora posso lavar minhas
mãos do que quer que aconteça.
— Consciência limpa — zombei, levantando o queixo
desafiadoramente.
Ele riu, mas sem humor.
— Ah, é tarde demais para isso. Chame de… — Ele olhou para
trás de mim, mas me recusei a virar e ver o que ele estava encarando.
— Chame de meu pagamento ao universo, ao carma ou ao que você
quiser chamar. — Ele olhou de volta para mim. — Mas saiba que, de
uma forma ou de outra, não tenho nada a ganhar aqui. Fique ou vá,
não afetará minha queda, mas causará a sua, sem sombra de dúvida.
Boa noite, passarinho — acrescentou ele, zombeteiramente.
Assim que a porta se fechou atrás dele, perdi minha bravata e
deixei a mordida das palavras e dúvidas de Jiro me submergirem
completamente.
Tudo o que ele disse adicionou tijolo após tijolo na parede que
costumava proteger meu coração e aplicou uma nova camada de
insegurança como argamassa.
O colar que parecia uma proteção, uma demonstração de amor,
agora parecia pesado ao redor do meu pescoço. Parecia um presente
de culpa — um presente de amante.
Às vezes, eu esquecia que você podia ser a amante mesmo que o
homem fosse solteiro — era fácil ser nada mais do que um
segredinho vergonhoso.
Virei-me para sair e encontrei meu reflexo nas portas de vidro de
uma das vitrines de Hoka, que exibia uma armadura de samurai.
Meu sorriso havia desaparecido, meu rosto estava tenso, naquele
momento, eu parecia um pouco demais com minha mãe para o meu
gosto.
Passei pelas emoções, imaginando como abordar o assunto com
Hoka, mas também me perguntando se era verdade que eu estava
dificultando sua vida. Não era minha intenção.
Himari jantou comigo, perguntando algumas vezes se eu estava
me sentindo mal. Era verdade que eu não estava sendo meu eu
habitual, e não me sentia com vontade de conversar, especialmente
com alguém que fazia parte da vida de Hoka, não da minha.
Se eu realmente pensasse sobre isso, minha vida girava em torno
de Hoka. Eu estava na casa dele, cercada por suas pessoas. O que eu
tinha para mim? A única certeza que eu tinha era que ainda teria um
apartamento quando decidisse voltar para casa, já que Hoka pagou
seis meses de aluguel adiantado, apesar dos meus inúmeros
protestos.
O que eu tinha que não girava em torno dele? Nada, e isso
também me dava um eco vago da vida da minha mãe — das histórias
das quais eu havia sido testemunha sem querer quando era criança.
Estava no ponto de sentir falta do clube, das garotas, e até da
Sandra de Sun Valley. Não podia dizer que era melhor amiga de
nenhuma delas, mas seria bom ter uma mulher para conversar, para
me confidenciar sem o fator máfia.
Talvez eu devesse ligar para Sandra e aceitar sua oferta para um
drinque, só para sair desta casa e da minha cabeça.
Bocejei enquanto terminava meu prato, as noites longas recentes
que tive enquanto Hoka fazia amor comigo e todo o excesso de
pensamentos desta tarde realmente drenaram a pouca energia que
me restava.
Himari recusou minha ajuda para limpar, como eu geralmente
fazia, e me ordenou que fosse para a cama. Olhei para o relógio da
cozinha enquanto me levantava, eram apenas oito da noite, e não
pude evitar imaginar o que Hoka estava fazendo agora naquela festa.
Será que ele estaria dançando com uma mulher? Alguém adequada o
suficiente para ser vista com ele em público? Uma mulher que o faria
esquecer seus problemas, em vez de acumulá-los sobre ele? Uma
mulher digna dele?
Subi as escadas e passei pelo meu quarto para ir ao dele, mas
parei antes de chegar à porta e voltei para o meu.
Ele estava certo, ter meu próprio espaço não tinha preço, e eu
precisava de uma noite longe dele.
H a
Deixei Violet dormindo profundamente na minha cama. Ela não
se mexeu quando me levantei, tomei banho ou quando dei um beijo
em seus lábios.
Sorri ao observá-la, esparramada na minha cama, o cabelo preto
brilhante espalhado pelo travesseiro, os lençois revelando suas costas
esguias e as pequenas marcas vermelhas que deixei quando a acordei
nas primeiras horas da manhã. Dei a ela todo o prazer que estava
cansado demais para oferecer na noite anterior.
Apesar da seriedade da situação e do que eu enfrentaria ao sair
deste quarto, não pude evitar sentir meu ego masculino inflar,
sabendo que a exauri a ponto de um sono tão profundo.
Dei uma última olhada nela antes de sair do quarto e caminhei
em direção à casa de hóspedes de Jiro — a ternura que senti ao ver
Violet dormir sendo substituída por raiva a cada passo que dava.
Bati à porta, e assim que ele a abriu, em vez de dizer tudo o que
queria, meu punho cerrado conectou-se com força ao lado de seu
queixo.
Ele caiu no chão, olhando para mim com surpresa enquanto
segurava o lado do rosto. Eu sabia que, se não o tivesse pego
desprevenido, esse soco não teria acertado. Jiro foi treinado como
eu, e teria desviado facilmente, mas essa foi a primeira vez que o
golpeei com o desejo ardente de continuar batendo.
— Que porra foi essa?
Dei um passo para dentro e chutei a porta para fechá-la — não
precisava que nenhum dos homens patrulhando o perímetro
suspeitasse de alguma desavença entre mim e meu segundo em
comando. Isso iniciaria rumores, que não apenas me prejudicariam,
mas também Violet, e essa foi a única razão que me fez reconsiderar
tudo.
Apontei um dedo acusador para ele.
— Fique fora da cabeça dela!
Ele se apoiou no antebraço e segurou o queixo inferior,
movendo-o de um lado para o outro.
— O que ela te contou?
Lancei lhe um olhar mortal. — Ela não me contou nada. Ela
mostrou uma lealdade que você não merece, mas você é o único que
ousaria.
Ele suspirou, levantando-se rapidamente, mas mantendo-se a
uma distância segura. Homem esperto. Eu não tinha certeza se não
daria outro soco, e esse provavelmente quebraria algo, como o nariz
ou os dentes dele.
— Eu não seria o único a ousar — corrigiu ele, ajeitando a
camisa. — Sou o único que tem acesso a ela. Você a está escondendo
tão bem. — Ele deu de ombros, cruzando os braços sobre o peito. —
Pode negar isso?
— Negar o quê? — perguntei com cuidado.
— Que você está escondendo-a. Eu só disse a verdade a ela.
— Sua verdade, não a minha.
— A verdade é a verdade, Hoka. É universal e imutável, essa é a
beleza dela.
Cerrei os lábios. Era verdade que eu a estava escondendo, mas
não pelos motivos que ele a levou a acreditar — e nem mesmo pelos
motivos que eu disse a ela na noite passada. Eu a escondia porque ela
era meu tesouro precioso, uma mulher com quem eu podia ser
vulnerável. Violet era uma mulher para quem eu podia mostrar um
lado de Hoka Nishimura que ninguém nunca viu antes, e era um lado
que eu não poderia mostrar a ela se estivéssemos em público, no
meio do meu povo, e eu não tinha certeza se ela seria receptiva a
todos os outros lados de mim.
Ele balançou a cabeça, pegando a garrafa de água no balcão, e
percebi que ele estava no meio de um treino.
— Seu silêncio é resposta suficiente.
— Não tenho vergonha dela, e você a fez acreditar que eu tinha.
— Só disse a verdade a ela. Como ela interpretou isso...
— É inteiramente sua culpa! — cuspi. — Ela me aceita por mim!
Ela sabe o que eu faço, mas ainda assim me quer. É tão difícil para
você aceitar que alguém tão gentil poderia estar comigo? Isso é bom
demais para ser verdade?
— Sim, é! — Ele jogou as mãos para o alto em exasperação. — Ou
ela é iludida, ou tem uma agenda oculta.
Franzi a testa. Eu tinha certeza de que não havia nenhuma
agenda oculta, mas iludida não estava tão longe da verdade. Mesmo
que eu me recusasse a admitir, Jiro tinha um ponto, eu estava
escondendo muitas coisas dela — demais.
— Estou cansado de escondê-la — anunciei, mais para mim
mesmo do que para ele. — Vou organizar uma festa para o Dia de
Showa no próximo fim de semana e...
As sobrancelhas de Jiro se franziram com preocupação.
— Hoka, você deveria pensar sobre isso. Ouvir rumores de uma
gaijin envolvida com você é uma coisa, mas exibi-la e tornar isso
oficial é outra.
Eu sabia que era um risco — claro que sabia. Eu estava cercado
por víboras e mulheres vingativas que tentariam devorá-la viva para
tomar seu lugar na minha vida e na minha cama.
Acertei a mão com desdém.
— Você ficará ao nosso lado, mostrando seu apoio inabalável.
— Eu te apoio. Eu apoio! — insistiu ele, vendo o olhar incrédulo
que eu lhe lançava. — Não aprovo — isso é verdade para ambos —
mas não vou virar as costas para você.
Meu rosto suavizou, e parte da minha raiva diminuiu porque,
apesar da minha irritação, Jiro e eu éramos amigos desde antes de
conseguirmos andar, e sempre tivemos as costas um do outro ao
longo de toda a nossa vida. Eu estive lá por ele quando tudo
aconteceu com Anna, e ele me salvou de algumas surras sérias do
meu pai rígido quando me rebelei contra a instituição.
Suspirei, relaxando minha postura, e me encostei na parede.
— Fiz o juramento oficial há três anos, quando você assumiu o
lugar do seu pai, mas ambos sabemos que meu compromisso com
você é muito mais antigo que isso. Minha desaprovação é algo que
expresso apenas em particular. Minha lealdade é sua e sempre será.
Assenti.
— Essa festa vai acontecer.
— Tudo bem. — Ele tomou um gole de água.
Caminhei até a porta.
— Vou ligar para Sakura e pedir que ela organize.
— Vai causar um caos.
— Possivelmente, mas acho que mereço ter algo para mim
mesmo, pelo menos uma vez. — Segurei a maçaneta e girei. — E Jiro?
— Hmm?
— Digo isso com toda a sinceridade... Tente sabotar meu
relacionamento novamente e você está fora, entendeu?
— Claramente. Se for para escolher entre a mulher que você
acabou de conhecer e o amigo que esteve ao seu lado por trinta anos,
será ela.
— Não. Escolherei a pessoa que não está me traindo. Lealdade é
tudo para mim, e, ao fazer isso, você estaria me traindo.
Ele me olhou e assentiu bruscamente.
Assenti também e saí em silêncio, esperando não estar
cometendo um dos maiores erros da minha vida.
Vi
— Você precisa de mais alguma coisa? — perguntou Hoka
quando parou o carro em frente ao café onde eu deveria encontrar
Sandra em dez minutos.
Balancei a cabeça.
— Não, você já me deu demais — respondi. Eu me sentia
realmente constrangida com a quantidade de dinheiro que agora
tinha na minha carteira.
— Não seria um problema se você apenas aceitasse o cartão —
replicou ele, estendendo o cartão de crédito para mim novamente.
— Hoka, por favor. — Suspirei. Toda essa conversa sobre
dinheiro estava me deixando excessivamente consciente do meu
status de sanguessuga, e as palavras de Aiya, puta gananciosa por
dinheiro, continuavam ecoando na minha cabeça. Eu odiaria que
alguém acreditasse que isso era verdade, que eu estava com Hoka
por qualquer coisa além dele mesmo.
Ele podia repetir cem vezes que era um salário justo por todo o
trabalho que eu vinha fazendo como sua assistente em casa, mas ele
acabou de me dar quinhentos dólares por apenas classificar as
campanhas de marketing da empresa dos últimos três anos. Não
podíamos dizer que era um trabalho especialmente exaustivo.
— Sua amiga vai com você comprar o que precisa?
Dei de ombros.
— Acho que sim, mas ainda não perguntei a ela.
Vi sua boca se apertar e suas sobrancelhas franzirem com
preocupação. Alcancei sua mão e apertei.
— Ficarei bem, mesmo sozinha. Estive sozinha por anos, e me saí
muito bem.
— Sim, mas isso foi antes de você ser minha — respondeu ele,
levando minha mão aos lábios e beijando o dorso.
Eu ri, apesar das emoções aquecendo meu coração. Exceto pela
minha mãe, ninguém nunca esteve tão preocupado comigo, e era tão
bom sentir que alguém se importava, saber que, se você
desaparecesse, pelo menos o mundo de uma pessoa seria alterado.
Era bom saber que eu importava.
— Só tenho algumas coisas para comprar para nossa viagem, e é
logo ali. — Apontei para o letreiro vermelho de neon do pequeno
shopping na esquina da próxima rua.
Ele olhou para ele pensativamente por alguns segundos antes
que seu telefone apitasse, lembrando-o de sua reunião iminente.
— Você vai se atrasar.
— Sim — respondeu ele, embora não soltasse minha mão.
— Hoka. — Eu ri após alguns segundos.
— Tudo bem, tudo bem. — Ele me puxou para si e beijou meus
lábios com força. — Divirta-se, mas comporte-se, está bem? Se algo
parecer estranho...
— Vou ficar ao lado de um segurança e te ligar imediatamente.
Ele me olhou, esfregando o queixo, com indecisão escrita por
todo o rosto. Ele soltou um suspiro cansado, finalmente soltando
minha mão.
— E mande uma mensagem quando estiver quase terminando.
Mandarei um carro se não puder vir pessoalmente.
Balancei a cabeça.
— Não seja bobo, posso pegar um Ub...
— Inegociável, querida. Ou você concorda, ou saio do carro
agora e vou com você, dane-se minhas reuniões.
Revirei os olhos, mas não duvidava que ele falava sério.
— Tudo bem, prometo. — Inclinei-me para roçar meus lábios nos
dele. — Eu te amo.
— Também te amo.
Saí do carro e esperei que ele se misturasse novamente ao
trânsito pesado da manhã antes de entrar no café lotado.
Olhei ao redor, mas não consegui ver Sandra. Franzi a testa e
peguei meu telefone. Apesar de todos os seus defeitos, ela não era do
tipo que se atrasava.
Comecei a digitar uma mensagem para ela quando uma mulher
com um avental verde se aproximou de mim.
— Sua mesa está pronta — ofereceu ela com um sorriso
brilhante, apontando para uma cabine no fundo da sala, bem isolada
de tudo. Era um ótimo lugar para privacidade, não que Sandra e eu
estivéssemos compartilhando informações revolucionárias.
— Ah, tudo bem! Não sabia que podíamos reservar aqui. —
Sandra me impressionou ali.
Olhei para meu telefone e mandei uma mensagem dizendo que
estava sentada na nossa cabine e que foi uma boa ideia reservar algo,
já que o café estava quase cheio.
Sentei-me no banco vermelho confortável e peguei o cardápio de
madeira que ela me entregou. Eu estava no centro hipster, isso era
certo.
— Dê uma olhada na nossa seleção de bebidas. O latte do dia é
canela, pera e cenoura, com mel das montanhas canadenses.
Sorri educadamente com um aceno.
— Obrigada — respondi, levantando o cardápio na frente do meu
rosto, esperando que ela não visse meu olhar de nojo.
— Canela, pera e cenoura? Isso parece horrível — disse uma voz
grave, expressando meus pensamentos.
Eu ri e abaixei o cardápio.
— Exatamente o que eu... — Congelei em choque ao sentir meu
coração despencar como um balão de chumbo até o fundo do meu
estômago.
Isso não era real, era um sonho. Olhei ao redor do café antes de
olhar para o homem sentado à minha frente, um sorriso fácil no
rosto, os braços cruzados sobre a mesa.
— Parece que, pela sua expressão, você sabe quem eu sou. — Ele
inclinou a cabeça para o lado, um brilho de humor em seus olhos
ônix. — Você tem sorte de eu não me ofender facilmente, porque essa
reação poderia ferir qualquer homem.
Abri a boca e a fechei novamente algumas vezes como um peixe
moribundo fora d’água. Não apenas parecia um peixe, eu me sentia
como um também, enquanto ofegava por ar e minha visão ficava um
pouco embaçada. Eu estava tendo um ataque de pânico.
— Respire — disse ele gentilmente, descruzando os braços para
apoiar sua mão quente sobre meu braço.
Olhei para baixo, para sua pele oliva sobre a minha cremosa.
Como sua mão era tão gigantesca que provavelmente poderia
envolver meu antebraço com ela.
Seu toque estava me queimando, como se ele estivesse tentando
marcar minha pele como gado.
Retirei meu braço bruscamente.
— Não me toque! — cuspi, encarando-o com todo o ódio que
podia reunir.
Eu não precisava ter falado com o homem antes para saber
quem ele era. Alessandro Benetti, playboy milionário e chefe da
máfia de Chicago nas horas vagas. Sonhei tantas noites que ele viria
me salvar da minha miséria após a morte da minha mãe. Até escrevi
uma carta para ele, perguntando se poderia ir para Chicago. Estava
desesperada e quase sem teto, mas, claro, ninguém veio ao meu
resgate. Não tinha certeza porque esperava algo diferente depois do
que o pai dele fez com minha mãe.
Ele inclinou a cabeça para o lado, detalhando meu rosto.
— Quem diria que uma mistura de irlandês e italiano resultaria
em algo tão bonito?
— Não tenho nada a dizer para você. Minha amiga estará aqui a
qualquer minuto.
— Não, ela não estará. Ela teve problemas com o carro, mas não
se preocupe, ela está recebendo ajuda agora. E nada a dizer para
mim? — Ele apoiou a mão no peito. — Irmã, você me fere.
— Não sou sua irmã! — Recuei com raiva e nojo por ser
associada a ele. — Sou apenas a filha de uma garota pobre e menor
de idade que foi abusada por um homem muito mais velho e sem
escrúpulos.
— Vou te dar essa. Sua mãe tinha apenas cinco anos a mais que
eu.
— E seu pai era um homem de quarenta e seis anos que seduziu
uma garota de dezessete anos, depois ameaçou a vida dela quando
ela ficou grávida.
Ele deu de ombros.
— Não nego isso — o homem era um porco. Mas isso não muda o
fato de que você e eu compartilhamos DNA.
— DNA não faz de você família.
— Isso é literalmente o que significa.
Balancei a cabeça.
— Faz de você relacionado, não família, e quero que você vá
embora.
— Meu pai se foi agora. Eu estou no comando.
Ele dizia isso como se fizesse alguma diferença. Ele era um
homem adulto, e seu pai estava morto há mais de um ano. Ele
poderia ter vindo até mim antes, poderia ter me ajudado.
— Sei que ele morreu. Queria ter tido dinheiro para ir ao funeral.
— Para prestar suas condolências? — perguntou ele com um
sorriso zombeteiro.
— Para cuspir no túmulo dele.
Alessandro riu, sua risada estrondosa atraindo alguns olhares.
— Você terá que pegar uma senha, sorella, provavelmente há
uma fila diária para isso. Eu mesmo me junto a ela de vez em
quando.
Fiquei surpresa por ele expressar seu desgosto pelo pai tão
abertamente, mas suspeitei que era um truque para me amolecer
para o que ele queria.
A garçonete veio e colocou uma xícara pequena na frente dele e
um copo alto na minha frente.
— Espresso duplo e latte de avelã.
Afastei a bebida quando ela saiu.
— Não quero isso.
Ele a empurrou de volta para mim.
— Claro que quer. É o seu favorito. Apenas tome o latte, Violet.
Senti o aroma da bebida enquanto ele a movia, e realmente
cheirava delicioso.
— O que você quer? — perguntei, envolvendo as mãos ao redor
do copo.
— Estou te oferecendo um lugar na nossa família. Volte para
Chicago comigo, deixe toda essa bagunça para trás e seja minha
irmã, oficialmente. Caramba, até te levo ao túmulo dele no caminho
para casa e podemos cuspir juntos. Sei que você quer isso.
Eu quis, há muitos anos. Sonhava com meu irmão vindo me
salvar. Nunca tive esperança no meu genitor, que era um homem
odioso. Sabia que ele só me via como um risco, e acho que também
foi por isso que minha mãe decidiu ir para o outro lado do país e
trabalhar para os irlandeses para ganhar alguma proteção frágil.
— O que você quer? Você não está oferecendo isso por bondade,
especialmente porque não tenho certeza se você ao menos tem um
coração.
— Ai, isso dói. — A risada em seus olhos negava completamente
suas palavras.
Mantive meus olhos fixos nele em silêncio, recusando-me a
engajar até que ele explicasse o que queria.
Ele suspirou, finalmente entendendo que eu não o satisfaria.
— Quero que você me conte tudo o que sabe sobre Hoka
Nishimura.
Ergui as sobrancelhas em surpresa, recostando-me no assento.
Ele só podia estar brincando, certo? Não consegui segurar a risada
com a seriedade de seu rosto, e minha risada aumentou quando seu
rosto se transformou em uma careta de irritação.
— Você quer que eu traia meu... meu namorado por um lugar em
uma família que eu nem quero? — perguntei. Soava ainda mais
estúpido em voz alta.
— Sou sangue.
— Sangue que eu rejeitei, sangue que eu realmente sofreria para
tirar de mim. — Inclinei-me para frente em um momento que
deveria parecer uma cumplicidade para os de fora. — O que você
esperava que eu dissesse, hein? Ó, meu irmão, eu te amo tanto.
Minha lealdade é sua e sempre será. Ninguém nunca mudará isso.
Diga-me o que quer saber sobre Hoka, contarei tudo. — Soltei um
bufo desdenhoso. — Quero que você escute, escute muito bem, e
preciso que confie em mim quando digo que, com todo o respeito,
desprezo tudo relacionado a você, seu nome, sua herança e até sua
cidade. Nunca trairei Hoka, não importa a oferta, mas por você? Eu
não trairia nem meu pior inimigo.
— Ele vai arrancar seu coração um dia e te deixar sangrar sem
remorso. Homens da máfia são uma raça diferente. Alguns pensam
que podem amar, mas estão errados.
— Falando por experiência? — perguntei sarcasticamente.
— Sim.
Desviei o olhar, tentando esconder minha surpresa com sua
resposta direta. Eu não esperava por isso.
— Depois de todo o esforço que tive para te colocar na casa e na
vida do chefe da máfia mais solitário e desconfiado, você vai me
deixar na mão?
Franzi a testa. Sabia que não deveria morder a isca, mas não
consegui impedir a pergunta que escapou da minha boca em um
sussurro.
— O que você quer dizer?
— As flores? As mensagens ameaçadoras? O vídeo. — Ele sorriu.
— Tudo eu!
Minha mente estava em turbilhão. Ele fez tudo isso! Eu nem
estava em perigo real? Balancei a cabeça. Ele estava mentindo.
— Como você saberia disso?
— Ah, você acha que, por estar a três mil quilômetros de
distância, eu não estou te vigiando? — Ele balançou a cabeça. — Você
é sangue, e mesmo que isso não signifique nada para você, significa
algo para mim. Imagine minha surpresa quando me disseram que
você atraiu o interesse do chefe da Yakuza. Era bom demais para ser
verdade.
— Então, você me usou como isca?
— Você sempre esteve segura.
Afastei meu latte intocado, agora frio, e peguei minha bolsa.
— Foi um esforço desperdiçado, eu nunca teria qualquer
lealdade a você ou ao que você representa. Prefiro sangrar no
pavimento, como você tão poeticamente colocou, do que fazer
qualquer tipo de acordo com você. Fique fora da minha vida, agora e
para sempre. — Levantei-me. — Gostaria de dizer que foi um prazer,
mas ambos sabemos que seria uma mentira.
Saí do café, minhas costas erguidas, agindo muito mais confiante
do que me sentia com todas as revelações que ele me deu.
Meu telefone apitou assim que saí do café, e quase esperei que
Alessandro estivesse mexendo mais com minha cabeça, mas era
Sandra me informando que alguém acabou de ajudar a consertar os
problemas do carro, que eu tinha certeza que meu irmão também
criou, e que ela estaria comigo em breve.
Respondi dizendo que o café estava muito cheio, e que ela
poderia me encontrar no shopping, onde poderíamos tomar um café.
Estava me sentindo inquieta durante a caminhada de cinco
minutos até lá, e não conseguia evitar olhar para trás em qualquer
loja em que parava. Também me concentrava nos reflexos das
vitrines das lojas para ver se alguém, qualquer um, estava apenas
parado ali me espionando.
Balancei a cabeça e finalmente entrei em uma pequena loja que
vendia tudo relacionado à praia. Hoka disse que a casa da família
ficava no meio das montanhas, mas que havia um grande lago na
divisa da propriedade onde poderíamos nadar.
Hoka. Meu coração se contraiu com uma sensação de culpa, e,
mesmo que mal colocada, era bastante poderosa. Deveria contar a
ele o que Alessandro me disse? Deveria contar que o homem que
engravidou minha mãe não era apenas um doador de esperma
desconhecido que não queria nada conosco, mas o ex-chefe da máfia
italiana de Chicago?
Tive a oportunidade de contar a ele que meu sangue também era
manchado. Quis contar, mas decidi contra. Temia que isso pudesse
influenciar sua opinião sobre mim ou impactar nosso
relacionamento.
Eu não era uma Benetti, nem um pouco. Era cem por cento
Murphy, e me recusava a deixar esse erro horrível criar ainda mais
problemas na minha vida.
O que Hoka pensaria se eu contasse a verdade agora? Peguei
alguns maiôs aleatoriamente para experimentar, não estando
realmente no clima de fazer compras.
Sabia que deveria contar a ele sobre Benetti ser a fonte das
ameaças — que elas não eram reais — mas então, o que isso traria?
— Adoro esse!
Pulei de surpresa e me virei para ver Sandra sorrindo para mim.
— O quê? — perguntei enquanto ela me puxava para um abraço
estranho. Eu não era muito de contato físico normalmente, mas
estava tão grata por sua presença para me tirar da minha cabeça que
retribuí o abraço.
Ela riu e apontou para o cabide que eu segurava.
— O maiô.
— Ah, sim. — Olhei para o maiô azul-royal de duas peças que
parecia pertencer a um dos filmes de Marilyn Monroe. — Vai ter
natação no lago.
Ela pegou alguns outros maiôs e os estendeu para mim.
— Experimente esses também! — Ela fez um gesto de espantar
em direção aos provadores. — Vamos lá, anda, anda. Experimente
esses, depois podemos pegar um café e um croissant. Estou
desfalecendo.
Balancei a cabeça enquanto tomava a direção que ela indicou.
— Você está sempre com fome.
— Não estou brincando. Sinto que meu estômago está ficando
côncavo! Provavelmente está se comendo enquanto falamos.
— Rainha do drama — murmurei enquanto entrava no provador
e puxava a cortina mostarda.
— Ouvi isso! — bufou ela enquanto ouvia o rangido da cadeira de
couro onde ela provavelmente se jogou.
— Era para ouvir! — Olhei meu reflexo enquanto puxava meu
vestido de verão verde.
Não parecia tão preocupada agora, Sandra era uma bênção. Eu
poderia ter algumas horas de diversão, e talvez então eu tivesse
descoberto o que dizer a Hoka. Só precisava de um pouco de tempo
para superar o choque de falar com Benetti pela primeira, e espero,
última vez.
Experimentei o primeiro maiô por cima da minha roupa íntima e
me virei diante dos espelhos. Aquele azul ficava realmente bonito na
minha pele, e também parecia realçar minhas curvas.
— Me mostra! — gritou Sandra alto do outro lado da cortina.
Corei.
— Não acho que...
— Vamos lá, somos só você e eu e a vendedora esquisita. Sem
ofensas.
Eu ri e revirei os olhos. Como alguém poderia não se ofender ao
ser chamado de 'esquisito' por um estranho?
Suspirei e abri a cortina. Fiquei no cubículo, mas fiz algumas
poses estereotipadas de modelo enquanto fazia careta.
Sandra assobiou.
— Nossa, garota! Quem diria que você tinha um corpo desses
quando trabalhava no Sun Valley? — Ela inclinou a cabeça para o
lado. — Talvez seja bom, porque com o velho pervertido para quem
você trabalhava... — Ela fez gestos de agarrar com as mãos.
Fiz um som de nojo enquanto um arrepio de repulsa percorria
minhas costas ao pensar nas mãos suadas do Sr. Reynold.
— Eu não tinha esse corpo naquela época, é o que uma dieta de
comida normal em vez de macarrão instantâneo vencido faz com
você — respondi, fechando a cortina. Tirei o maiô para experimentar
o rosa neon que ela escolheu.
— Macarrão instantâneo vence? — perguntou ela seriamente. Só
ela para focar na parte mais aleatória da conversa. — Essas coisas são
tão cheias de produtos químicos que tenho certeza de que seriam
comestíveis até o fim dos tempos.
— Verdade — respondi, abrindo a cortina e modelando
novamente.
Ela balançou a cabeça.
— Não, o primeiro é melhor. Bem, o que quer que você esteja
comendo, está funcionando para você. Você é como minha irmã
quando estava grávida. Eu tinha inveja dela até ela passar da fase de
'curvas sensuais' para a fase de 'não consigo ver meus pés'. — Ela
continuou falando enquanto eu fechava a cortina para experimentar
o último. — Você ainda pode querer pegar aquele, mas em uma cor
diferente. A parte de baixo é larga o suficiente para você usar um
absorvente se sua menstruação estiver para chegar.
— Não, eu... — Parei, com uma perna levantada, prestes a entrar
no terceiro maiô. Menstruação! Deixei a parte de baixo do maiô cair
no chão e peguei minha bolsa, desbloqueei meu telefone e abri meu
aplicativo de rastreamento de menstruação.
Nove dias de atraso! Mantive meus olhos na tela, apoiando-me
contra a parede de plástico do provador. Nove dias! Eu nunca
atrasava, nem um dia. Será que eu poderia estar...? Vi a caixa de
plástico em formato de concha coral espiando da minha bolsa. Eu
estava tomando pílula, fazia cerca de seis meses, quando comecei a
considerar dar o próximo passo com Jake. Eu não poderia...
— Você está bem? — A voz de Sandra me trouxe de volta à
realidade.
Eu havia esquecido por alguns segundos onde estava e o que
estava fazendo.
— S-sim, estou bem. Este não serve.
— Quer que eu pegue outro tamanho?
Balancei a cabeça inutilmente e encarei o espelho, apoiando uma
mão trêmula no meu baixo ventre.
— Não, estou bem. — Estou? — Vou pegar o azul. Me dá um
segundo.
Estava grávida? Se estivesse, isso só complicaria ainda mais as
coisas. Eu disse a Hoka que estávamos seguros após nossa primeira
vez, e ele me tomou sem proteção todas as vezes depois disso,
pensando que era verdade.
Era confuso, complicado, aterrorizante, e, apesar de tudo isso,
não podia evitar a pequena sensação de alegria trepidante que se
insinuava no meu coração com a ideia de ter um pequeno Hoka
crescendo em mim.
Esfreguei minha barriga gentilmente algumas vezes. Nada era
certo agora, nada a fazer até que eu tivesse certeza.
Próxima parada, a farmácia, para confirmar se, além de ser a
namorada de um chefe da máfia, eu também estava prestes a me
tornar a mãe de seu filho.
Que bagunça total…
CAPÍTULO 15
H a
Algo estava diferente com Violet — uma cautela, uma certa
reserva que não existia antes, e isso estava me deixando louco.
Sentei-me à minha mesa no escritório do meu quarto e não
conseguia me concentrar nos relatórios financeiros do lado dos
empréstimos do negócio.
Estava distraído pelo som suave da água correndo no banheiro
enquanto Violet tomava banho, preparando-se para o dia. Violet,
ensaboando sua pele nua… Meu pau se mexeu nas calças, e girei
minha cadeira. Eu poderia entrar naquele banheiro agora mesmo, e
ela me receberia de braços abertos e, dependendo do meu humor, me
deixaria fazer amor com ela ou fodê-la com força. Olhei através da
porta aberta do escritório para a cama desarrumada.
Não, sexo não era o problema — ela ainda desejava meu toque —
mas mesmo nos momentos de paixão profunda, quando estava à
beira do orgasmo, ela não se entregava completamente, como se
houvesse uma barreira invisível entre nós. Não era suficiente para
qualquer outra pessoa perceber, mas suficiente para me frustrar.
Estava frustrado, mas principalmente assustado. Assustado de
perdê-la, assustado que ela tivesse finalmente decidido que essa vida
era demais para ela e quisesse sair. Só o pensamento de deixá-la ir
me deixava nauseado.
Passei as mãos pelo rosto. Perguntei a ela algumas vezes, mas ela
não me deu uma resposta direta, e isso também não era típico dela.
Eu era o chefe da Yakuza, então, quando queria saber ou ter algo, eu
simplesmente exigia. Ou as pessoas obedeciam de bom grado, ou eu
tomava à força, enfim, a escolha era delas.
Mas eu não podia fazer isso com Violet. Não podia simplesmente
sentá-la em uma cadeira e mantê-la lá até que ela me contasse o que
eu queria ouvir para que eu soubesse como consertar as coisas.
Minha Violet era toda suavidade e coração, e eu não podia usar a
força bruta que normalmente exibia.
Olhei para o calendário na minha mesa e a data circulada em
vermelho. Três dias… Em três dias, pegaríamos meu avião particular
e deixaríamos todas as preocupações de nossas vidas para trás.
Seriam dez dias inteiros de sermos nós. Ela conheceria minha mãe,
que eu não tinha dúvida de que a adoraria. E então, com paciência e
amor, ela acabaria me contando o que estava errado, e tudo ficaria
bem novamente.
Sorri ao pensar nas duas mulheres que eu mais amava no mundo
finalmente se conhecendo.
Destranquei a primeira gaveta e peguei a pequena caixa preta
que estava lá, passando o polegar pela superfície macia. Eu a levaria
ao lago não muito longe da casa — aquele onde passei todos os meus
verões quando menino, nadando e pescando. Eu a sentaria, de frente
para a vista deslumbrante do Monte Fuji, e lembraria a ela o quanto
a amava. Eu a lembraria de como, apesar de toda a escuridão e
perigo ao redor da minha vida, ela trazia esperança e uma luz tão
brilhante que não apenas mantinha a escuridão afastada, mas a fazia
desaparecer completamente quando ela sorria para mim.
Abri a caixa e olhei para o anel de platina com um diamante de
quatro quilates, cercado por uma fileira de safiras que me lembravam
seus olhos.
Eu me ajoelharia ali mesmo, cercado pelas cerejeiras em flor, e
pediria a ela para se tornar minha esposa, a mãe dos meus filhos.
Pediria a ela para ser minha salvadora, para ficar ao meu lado e me
impedir de afundar na vida para a qual nasci para liderar.
Fechei a mão ao redor da caixa do anel, segurando-a com força.
— Três dias, Hoka… Apenas três dias — murmurei para mim
mesmo.
— Hoka?
Levantei a cabeça em surpresa e joguei a caixa na gaveta antes de
fechá-la com força. Estava tão perdido no meu plano de pedido que
nem a ouvi se aproximar.
Ela franziu a testa com minha reação, seus olhos indo da minha
mão para a gaveta algumas vezes.
Maneira de parecer suspeito, idiota.
— Está tudo bem? — perguntei enquanto meu telefone vibrava
na mesa. Rejeitei a chamada quando vi que era Jiro. Ele poderia lidar
com o que quer que fosse.
— Eu… Sim, estou bem. Só quero falar com você sobre algo,
mas… — Ela mordeu o lábio inferior. Minha garota estava nervosa.
O telefone começou a vibrar novamente, e eu rejeitei a chamada
sem olhar.
— Mas? O que é, querida? — incentivei, tentando não soar tão
desesperado quanto me sentia para ouvir o que estava causando a
barreira entre nós.
Ela abriu a boca para responder, mas parou quando o telefone
vibrou na mesa novamente.
Jiro ia morrer — isso era um fato. Assim que eu colocasse as
mãos no pescoço dele, ele estava acabado.
— Você está ocupado — respondeu ela, soando um pouco
aliviada com a interrupção, como se não tivesse certeza se queria
falar comigo ou como.
— Não, querida. Nunca estou ocupado demais para você. O que
qu… — Parei quando meus olhos caíram na tela e mensagens de Jiro
começaram a aparecer.
Jiro
Jiro não era de dramas, então, o que quer que fosse, não poderia
ser menos que um homicídio em massa.
Olhei para ela, e a expressão no meu rosto parecia dizer tudo o
que eu não podia dizer agora.
— Faça o que precisa fazer, falaremos quando você voltar —
disse ela gentilmente, envolvendo os braços ao redor de si mesma.
Odiava como ela soava compreensiva, como resignada. Era
como se ela esperasse sempre ficar em segundo plano, como havia
sido por toda a sua vida. Apesar da aparência que eu estava dando
agora, ela era minha prioridade. Se eu a deixasse neste momento de
incerteza, era porque Jiro havia descoberto o traidor que estava
ameaçando sua vida, sua segurança, nossa felicidade.
Ao sair agora, eu estava escolhendo ela, e embora ela não
soubesse disso, eu explicaria quando voltasse.
— É muito importante — declarei em tom de desculpas,
levantando-me e pegando meu paletó do encosto da cadeira. — Mas
prometo que, assim que voltar, nos trancaremos aqui e não sairei até
que você tenha dito tudo o que quer me contar. Combinado? — Dei a
ela um sorriso brilhante.
— Combinado. — Ela sorriu de volta. Era sincero — pelo menos,
parecia ser — mas havia uma cautela em seus olhos, apesar do brilho
de seu sorriso, que não estava lá antes.
Caminhei até a porta e, quando ela se moveu para me deixar
passar, envolvi seu quadril com meu braço e a puxei contra mim.
Amava como seu corpo pequeno se moldava ao meu, como apesar de
sua aparente fragilidade, ela podia aguentar e, mais importante,
gostava de toda a aspereza e força que eu nem sempre conseguia
conter.
É porque ela foi feita para você, sussurrou meu coração
enquanto me inclinava para lhe dar um beijo suave.
— Volto assim que puder.
— Sei que sim — respondeu ela, passando as mãos pela lapela do
meu paletó.
Cheguei ao meu escritório não oficial — a sede do lado menos
legal do negócio — em tempo recorde. Quando abri a porta da área
privativa no segundo andar, estava pronto para arrancar a cabeça de
Jiro e do traidor.
Parei abruptamente quando a única pessoa na sala era Jiro,
encostado na minha mesa com um envelope marrom grosso nas
mãos.
— Onde caralho está o traidor? — rosnei, avançando em sua
direção, minhas mãos cerradas em punhos trêmulos ao lado do
corpo. — Juro que, se isso for uma de suas artimanhas para…
— Sente-se — disse Jiro gentilmente, apontando para a cadeira
atrás da minha mesa.
— Não vou me sentar, porra! — gritei na cara dele, e, para seu
crédito, ele nem piscou com o surto repentino.
— Sente-se! — repetiu ele com mais força, e a única razão pela
qual obedeci foi o olhar sombrio em seu rosto.
— Você tem cinco minutos, e é melhor que seja bom, porque a
merda que você acabou de fazer… — Parei abruptamente quando Jiro
jogou uma pilha de fotos na minha mesa.
Olhei para elas com incredulidade, meu corpo de repente
sentindo frio, como se gelo tivesse substituído o sangue em minhas
veias.
Alcancei-as lentamente, como se fossem me atacar, e as puxei
para mais perto para olhar melhor.
Violet e Alessandro Benetti estavam sentados frente a frente em
uma cabine discreta em um café no centro da cidade. Na segunda
foto, ele tinha a mão repousando sobre a dela em um gesto íntimo.
Ele vai morrer de uma morte lenta e dolorosa por tocar o que é
meu, pensei sombriamente enquanto batia o dedo indicador na foto,
onde sua mão imunda a tocara.
Ele estava rindo na terceira foto, e na quarta — para mim, a pior
de todas — minha Violet estava com a cabeça para trás, rindo como
eu nunca a vi rir antes.
— Você tirou essas fotos pessoalmente? — perguntei, mal
reconhecendo minha própria voz. A dor estava crescendo aos poucos
— raspando as camadas de felicidade e confiança que eu sentia tão
fortemente ultimamente.
Jiro balançou a cabeça.
— Não significa nada. Essas fotos podem ser falsas. Não seria a
primeira vez que tentam mexer com minha cabeça. — Minha voz
falhou. Verdadeiramente, eu não acreditava nas minhas próprias
palavras enquanto as dizia.
Jiro enfiou a mão no envelope e pegou um pen drive.
— Conecte e ouça — disse ele com pesar. — É seguro.
— Você ouviu? — perguntei, pegando-o da mão dele.
— Sim.
Não perguntei quando ele conseguiu isso ou como, já que essas
eram perguntas para depois.
Liguei meu laptop, minha mente entorpecida, já me preparando
para o pior.
Minha mão tremia enquanto tentava conectar o pen drive — a
única marca externa da tempestade que se formava dentro de mim.
Jiro notou, mas não disse uma palavra enquanto se sentava na
cadeira em frente à minha mesa.
No início, só ouvi o ruído de fundo de pessoas conversando e
xícaras tilintando.
— Volte comigo para Chicago. Deixe toda essa bagunça para
trás e seja minha irmã, oficialmente.
Tensionei-me com a voz de Alessandro Benetti e pausei a
gravação.
Não era muito familiar com ele, mas o encontrei em algumas
ocasiões anos atrás, quando meu pai tentou fazer um acordo inútil
com os italianos, que explodiu na primeira barreira. Máfias não
foram feitas para criar alianças. Já tínhamos tantos problemas para
nos entendermos internamente — dentro de nossos próprios clãs —
tentar criar uma aliança com outra família mafiosa era simplesmente
estúpido.
Sua voz, no entanto, eu lembrava bem, e era inconfundivelmente
ele.
Irmã… Encontrei os olhos de Jiro com uma pergunta, e ele
assentiu lentamente. Pensei que eram amantes quando vi as fotos,
mas sua irmã? Não tinha certeza se isso era melhor ou pior.
Respirei fundo, preparando-me para o golpe enquanto apertava
o “play”.
— Não tenho certeza.
Essa voz. Meu coração se apertou dolorosamente com o tom
baixo e o ritmo gentil de sua voz. Não havia como confundir, era
minha Violet falando, sua voz era tão única, como uma cantora de
antigamente que fumava um pouco demais. Eu conhecia sua voz de
cor.
— Depois de todo o esforço que tive para te colocar na casa e na
vida do chefe da máfia mais recluso e desconfiado.
Fitei a tela, sentindo uma fúria e uma dor que nunca senti antes.
Era tão intensa que me senti preso, imóvel, paralisado pelo excesso
de emoções. Tudo o que podia fazer era olhar para a linha modulante
na tela, minhas mãos cerradas em punhos na mesa.
O golpe mortal veio apenas um segundo depois.
— Ó, meu irmão, eu te amo tanto, minha lealdade é sua e
sempre será. Ninguém nunca mudará isso. Diga-me o que quer
saber sobre Hoka, eu te contarei tudo.
Uma náusea subiu pela minha garganta, e meio que esperei
vomitar meu café da manhã no laptop.
Ela me enganou! Fez-me acreditar que… Balancei a cabeça e
joguei o braço, enviando o laptop voando e colidindo contra a
parede. Não era possível. Eu não podia ser tão ingênuo! Ela não
podia ser tão boa.
Estava respirando pesadamente, meu peito subindo e descendo
rapidamente enquanto minha raiva superava a dor da traição, pelo
menos por agora.
Olhei para Jiro, meus olhos duros.
— Temos certeza de que isso é verdade? — Não reconheci minha
voz sob a aspereza do tom.
Jiro suspirou.
— Temos.
— Não finja estar triste com a ideia — cuspi. — Não finja que não
está gostando da minha queda depois de me avisar que poderia ser
bom demais para ser verdade. Não finja…
— Não estou fingindo. Ela me enganou também.
Lancei-lhe um olhar fulminante, e tinha certeza de que, se
olhares matassem, ele estaria no chão agora. Não era a mesma coisa,
de forma alguma, e ele sabia disso.
— Fale — ordenei, não pronto para me deixar levar por suas
falsas condolências.
— Recebemos este envelope ontem de manhã de um benfeitor
anônimo, ou assim dizia na frente. Olhei as fotos e ouvi a gravação.
— Por que não me contou imediatamente? — gritei, pulando da
cadeira e me inclinando sobre a mesa ameaçadoramente. Eu
precisava culpar alguém agora, e Jiro era a vítima perfeita.
Ele permaneceu sentado, sua aparência calma me enfurecendo
ainda mais diante do meu próprio tumulto.
— Precisava ter certeza de que era real antes de abrir essa porta.
Fui informado que Benetti veio para a Califórnia há cinco dias. Fiz
uma pequena investigação, e algumas coisas sobre a mãe de Violet
desapareceram convenientemente — acredito que apenas homens
poderosos poderiam conseguir algo assim. Liguei para alguns
contatos para investigar. Tomo voltou hoje de manhã e me disse que
havia um velho rumor sobre Benetti Sênior. Aparentemente, ele
gostava de garotas do ensino médio e causou um pouco de drama há
cerca de vinte anos. Sua esposa até voltou para o país de origem por
seis meses depois disso. Faz sentido.
Claro que fazia. Claro que ela era irmã dele! Caminhei pelo
escritório, tentando controlar os sentimentos furiosos. Precisava
pensar racionalmente, e agora estava simplesmente desequilibrado
demais. Não sabia se queria ir até lá e meter uma bala na cabeça dela
ou fodê-la com força, dolorosamente, por dias como pagamento por
toda a dor que ela causou.
— Como ela passou por…? — Passou por quê? Segurança?
Vigilância de Jiro? Minha própria paranoia?
— Acho que o acidente de carro foi realmente um acidente, não
acho que tudo foi premeditado. Acho que simplesmente virou uma
oportunidade no caminho.
Nem tudo premeditado. Isso era tão ruim quanto. Fui enganado,
e eu me tornaria motivo de chacota do nosso sindicato.
De repente, parei de andar e virei para Jiro.
— Quem sabe? — perguntei enquanto o pavor se acumulava
sobre minha raiva e dor. Se alguém soubesse o que ela fez, estaria
fora das minhas mãos.
Jiro deu de ombros.
— Seu palpite é tão bom quanto o meu. No entanto, acho que é
alguém do seu lado, porque qualquer outra pessoa — ele bateu no
envelope descansando em seu colo — teria usado isso em uma das
reuniões da família.
Estremeci. Isso teria sido um desastre completo, tanto para mim
quanto para ela.
— Isso é traição — disse lentamente, enterrando as mãos nos
bolsos da calça.
— Eu sei.
Caminhei até a janela, olhando para o cassino vazio. Era cedo
demais para os jogadores estarem lá.
Apesar da raiva que sentia por ela, também me sentia derrotado.
Derrotado porque, não importa as coisas imperdoáveis que ela fez,
eu não achava que poderia fazer o que era exigido de mim.
— Sabe o que o código diz sobre traição de qualquer tipo… —
acrescentei, como se Jiro não soubesse o que eu quis dizer antes.
— Traição é morte.
Assenti e fechei os olhos enquanto o cansaço me preenchia
completamente. Não importava o quê, eu não poderia fazer isso.
— Não posso fazer isso — admiti, odiando-me por essa fraqueza.
— Eu sei. — Não havia julgamento em sua voz, apenas uma
tristeza resignada.
Virei a cabeça e mantive o contato visual.
— E você também não pode. Não acho que poderia perdoá-lo por
isso. — Não fazia sentido, eu sabia que não, mas era verdade, mesmo
assim. Apesar de sua natureza desprezível, uma parte de mim
provavelmente sempre amaria a pessoa que ela fingia ser, e eu não
achava que poderia perdoar a pessoa que lhe desse o golpe final —
não importa o quanto ela merecesse.
— Eu sei.
Franzi a testa. Era tudo o que ele ia dizer? Que sabia de tudo?
— Você não precisa matá-la — disse Jiro. — A pessoa que enviou
as evidências está te dando uma chance de corrigir a situação. — Ele
acenou com a mão no ar. — Mande-a embora, humilhe-a
publicamente. Mostre a todos que você não se importava com ela, e
se as coisas vierem à tona, ela estará bem longe em Chicago, sob a
proteção do irmão dela.
Trinquei os dentes, os músculos do meu pescoço doloridos sob a
pressão. Eu a odiava com cada fibra do meu ser. Odiava-a por me
fazer amá-la, odiava-a por me fazer acreditar que eu merecia a luz.
Odiava-a por me tornar fraco a ponto de não conseguir fazer o que
deveria fazer — o que fui criado para fazer. Odiava-a por me quebrar.
E, acima de tudo, odiava-a porque uma parte de mim ainda a amava.
Soltei um grito quebrado de frustração. Queria voltar no tempo,
nove semanas atrás, quando quase a atropelei com meu carro.
Deveria tê-la deixado lá e continuado. Apoiei a testa no vidro frio.
Não, na verdade, só queria voltar as últimas vinte e quatro horas.
Queria voltar para a noite passada, sabendo que seria a última vez
que a beijaria e faria amor com ela. Teria tomado o tempo para beijar
cada curva, cada depressão, cada sarda. Teria saciado aquele desejo
que sabia que continuaria queimando muito depois que ela se fosse.
— Sinto muito, Hoka.
Virei-me, lançando-lhe um olhar duro.
— Não, você não sente. Guarde suas falsas condolências para
alguém que as queira. Já lidei com pretensões falsas o suficiente por
uma vida inteira. Você estava certo, eu estava errado. Você foi o
esperto, eu fui o tolo. Era isso que você queria ouvir?
Ele abriu a boca para responder, mas levantei a mão.
— Não me importo com qualquer resposta que você possa dar.
Preciso ligar para Sakura, tenho um traidor para expulsar.
CAPÍTULO 16
Vi
— Estou grávida! — Balancei a cabeça, olhando meu reflexo no
espelho. Não, isso era direto demais.
Eu precisava ser mais gentil. Fiz três testes de gravidez no
banheiro do shopping antes de começar a acreditar, e isso foi há três
dias, mas tudo parecia tão surreal.
Limpei a garganta.
— Hoka, sei que não estamos juntos há tanto tempo, mas
acredito em nós, nos nossos sentimentos um pelo outro. As coisas
estão mudando, e não é algo ruim. Na verdade, é empolgante… Você
vai ser pai. — Sorri, apoiando a mão na minha barriga. Sim, essa era
a maneira de dizer.
Estava sendo boba, de qualquer forma. Hoka me amava, e ele
amaria nosso filho, não importava como eu anunciasse.
Uma vez que isso fosse dito, eu teria que ter outra conversa
constrangedora — aquela sobre minha herança genética, a parte
indesejada de mim. Agora que Alessandro Benetti apareceu na
minha vida, eu tinha que contar a Hoka.
Ouvi um bipe vindo do escritório dele, anunciando a abertura
dos portões. Caminhei até a janela bem a tempo de ver seu carro
descendo a entrada em alta velocidade.
Meu coração pulou de excitação, e verifiquei se estava
apresentável antes de correr pelo corredor.
Eu ia contar a ele imediatamente, apenas arrancar o curativo e
fechar a distância entre nós. Quanto mais eu esperava, pior ficava, e
mais nervosa eu me sentia. Ele podia sentir isso, e eu não podia
esperar mais.
Corri escada abaixo, pronta para me jogar em seus braços, mas
meus passos vacilaram quando o vi entrar em casa de mãos dadas
com uma das mulheres da festa.
Eles estavam rindo, e perdi o último degrau, esparramando-me
no chão frio de azulejos do salão principal quando ele a puxou para si
e a beijou tão apaixonadamente quanto me beijava.
É um pesadelo. Violet, acorde. Acorde! — implorei, fechando os
olhos com força para evitar olhar para o horror que se desenrolava
diante de mim.
— Levante-se.
Abri os olhos, mal acreditando que a voz fria e dura que ouvia
era de Hoka e que ele estava falando comigo.
Ele pairava sobre mim, ereto e orgulhoso, seu rosto uma
máscara de desprezo.
— Hok…
— Levante-se! — exigiu, seu tom como um chicote contra minha
pele.
Levantei-me desajeitadamente, ficando de pé apesar da sensação
ardente que descia do meu quadril direito até o pé.
— Não ent…
Ele acenou com a mão de forma desdenhosa.
— Escute, Violet, você é uma garota legal, e sinto muito que
esteja acontecendo assim. — Seu rosto não estava apologético, mas
sim cheio de irritação, como se eu não fosse nada além de uma tarefa
tediosa, um peso morto que ele tinha que descartar.
Lancei um olhar curioso para trás dele, para a mulher
deslumbrante da festa, que pelo menos teve a decência de desviar o
olhar.
— A questão é que sempre quis estar com Sakura.
Sakura, sim, esse era o nome dela.
Desviei o olhar dela e me concentrei em Hoka novamente,
atônita demais para dizer uma palavra.
— Ela não me queria, e no começo, pensei que trazer alguém
novo para casa ajudaria. Pensei que faria ela perceber que ia me
perder e a traria de volta aos sentidos.
Franzi a testa, olhando para meus pés descalços. Não fazia
sentido, não depois de tudo o que ele me disse, não depois do jeito
que me tocava. Não, não era possível!
— Mas você disse que me amava.
Ele soltou uma risada amarga que carregava tanta escuridão que
adicionou outro balão de chumbo ao meu estômago pesado.
— Amar você? — Ele balançou a cabeça, revirando os olhos como
se eu fosse uma criança estúpida que ele estava tolerando. —
Querida, por favor, seja realista por um minuto, está bem? Sou um
bilionário de trinta e quatro anos com responsabilidades e
obrigações que você nunca poderia começar a compreender. — Ele
torceu a boca em uma careta de desgosto. — E você é uma garota
pobre e sem educação, recém-saída da infância. O que eu poderia
amar em você? Você sabe que só casamos com os nossos, Jiro te
disse.
Dei um passo para trás, o golpe atravessando qualquer defesa
que eu pudesse ter, apunhalando meu coração com um golpe mortal.
O que eu poderia argumentar? Era verdade. Eu estava tão abaixo
dele em tantos níveis, mas, por alguma razão, esperava que meu
coração fosse suficiente para ele.
Uma onda de náusea me atingiu, e apoiei a mão na boca para
contê-la enquanto o sangue esquentava na minha barriga, como se o
bebê estivesse tentando me lembrar que ele estava lá.
— E quanto ao Japão? — sussurrei, incerta.
— Era a única maneira de ela perceber que me perdeu. Conhecer
minha mãe é o compromisso final, e foi por isso que contei a ela
sobre isso na festa.
Olhei para a mulher novamente, mas ela ainda estava desviando
o olhar. Não podia negar, ao olhar para ela, que eles faziam sentido.
Ambos eram absolutamente deslumbrantes, com a mesma origem e
cultura. Ela era a esposa que ele precisava, mas eu o amava. Eu o
amava mais que a vida, e tinha nosso bebê em mim.
Ele mataria você e seu bebê, gritou a voz de autopreservação na
minha cabeça. Assim como seu pai quis.
— Você está livre para ir agora. Estou acabando com você.
A náusea venceu, e vomitei no chão, algumas gotas respingando
em seus sapatos pretos brilhantes.
Ele soltou um grunhido de nojo antes de murmurar algo em
japonês que soava tudo menos elogioso.
— Quero que você vá embora. Agora.
Abri a boca e a fechei novamente.
Ir para onde? Não tenho nada.
— Mas preciso falar com você.
Ele revirou os olhos novamente.
— Nada do que você possa dizer importa mais. Tenho Sakura
agora. Você foi uma doce distração diferente o suficiente para
garantir que Sakura soubesse que poderia me perder e voltar. O que
você pensou? — ele bufou.
— Hoka — tentei novamente, meus olhos se enchendo de
lágrimas. — Eu… eu te amo.
Uma dúvida cintilou em sua expressão, mas morreu tão rápido
que parecia que eu tinha imaginado.
Nunca pensei que essas três palavras poderiam enfurecer
alguém, mas, com base em como seu rosto passou de uma
indiferença fria para uma raiva absoluta, eu queria engolir as
palavras de volta.
Ele enfiou a mão dentro do paletó e puxou sua arma. Pressionou
o cano contra minha testa, a sensação da máquina assassina muito
mais suave e fria do que eu jamais poderia ter imaginado.
Seus olhos estavam fixos nos meus enquanto ouvi o clique
inconfundível de ele engatilhando a arma, e a dor que senti naquele
momento era quase insuportável. Tinha certeza de que era tão
poderosa quanto se ele tivesse realmente puxado o gatilho.
— Você vai embora agora, antes de causar uma cena e antes de
fazer Sakura duvidar da escolha dela de estar comigo. Quero atirar,
realmente quero. Não me faça fazer isso — sibilou ele, seus olhos
expressando morte enquanto suas narinas se dilatavam com uma
raiva que ele mal conseguia conter. — Você tem dois minutos para
sair, ou juro, Violet, que puxarei o gatilho.
O terror avassalador que senti naquele momento me fez perder
todo o controle de mim mesma.
— Hoka, olhe — A voz suave atrás dele me fez querer morrer.
Hoka olhou para baixo e viu meu jeans escurecendo na virilha.
— Você mijou nas calças? — Ele riu, e naquele momento, eu
morri — gatilho puxado ou não.
— Porra, você é tão patética. Saia da minha casa agora!
Lancei um olhar desamparado para o andar de cima.
— Minhas coisas…
Ele apontou para a porta.
— O carro está esperando. Suas coisas seguirão. — Ele se virou
para Sakura. — Preciso do quarto agora, de qualquer forma, para a
ocupante legítima.
Caminhei até a porta, sentindo-me tão entorpecida que nem me
importava que estivesse sem sapatos.
— Violet?
Peguei minha bolsa no balcão e me virei para olhar para ele,
derrotada demais agora para sentir qualquer coisa.
— Reze para que eu não te veja por aí — advertiu ele, e parte de
mim desejou que ele simplesmente acabasse com minha miséria
agora. Desejei que ele apenas levantasse a arma ao seu lado e atirasse
em mim.
Ele levantou a mão para Sakura e a puxou para si. Virei-me bem
quando ele se inclinou para beijá-la, não querendo ver isso nunca
mais.
Ela disse algo para ele em japonês, sua voz incerta, e ele
respondeu bruscamente enquanto a pesada porta se fechava atrás de
mim.
Entrei no carro, e o motorista me lançou um olhar de pena
enquanto se acomodava no banco do motorista. Não podia ver meu
rosto, mas se eu parecia apenas metade do que sentia, entendia sua
preocupação.
Deixei as lágrimas caírem quando alcançamos o portão, o medo
entorpecedor agora recuando e deixando a tristeza avassaladora da
traição e promessas quebradas em seu lugar.
Ele vai arrancar seu coração um dia e te deixar sangrar sem
remorso. Alessandro me disse que isso aconteceria, e eu não quis
acreditar o quão certo ele estava.
O que devo fazer agora? Apoiei uma mão trêmula na minha
barriga. Como vou criar este bebê?
Aqui estava eu, com o coração partido, sem um tostão, assustada
e grávida. O passado da minha mãe, sua maldição, caiu sobre mim.
Como o destino era assustador? Apesar de fazer tudo o que podia
para não repetir o passado, aconteceu mesmo assim.
Ninguém poderia escapar do seu destino, assim como ninguém
poderia escapar da morte. Hoka Nishimura foi meu Encontro em
Samarra.
***
Quatro dias.
Foi quanto tempo levou para eu perceber que Hoka não voltaria.
Fiquei no meu apartamento, grata por ele ter pago seis meses de
aluguel quando fiquei em pânico com o emprego quando ele me
levou para sua casa pela primeira vez.
Deveria ter percebido quando um homem austero apareceu na
minha porta no dia seguinte à minha dispensa com a mala da minha
mãe e todas as minhas roupas — incluindo tudo o que comprei com o
dinheiro que ele me deu e tudo o que ele comprou para mim.
Mas por quatro dias, esperei, rezei e chorei olhando para meu
telefone, comendo as caixas de macarrão instantâneo que restavam
no armário e pedidos de delivery que fiz usando o que sobrou do
dinheiro de Hoka.
Toda noite, adormecia, encolhida em mim mesma, esperando
que, quando acordasse pela manhã, estaria de volta na cama king-
size dele, aninhada contra seu corpo quente.
No quarto dia, acordei sentindo uma presença no meu quarto e
encontrei Alessandro Benetti encostado no balcão, olhando para
mim.
Pulei da cama, meu coração batendo forte no peito.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, envolvendo os
braços ao redor de mim — bem ciente de que estava usando apenas
uma calcinha e uma camiseta velha e gasta.
— Vim te pedir para reconsiderar. — Sua voz estava tão séria que
dei um passo mais perto, examinando seu rosto, mal visível na luz
fraca do início da manhã.
Seu rosto havia perdido a jocosidade e o toque de brincadeira
maliciosa que tinha no café, agora estava tão sério quanto sua voz. Se
eu não soubesse, diria que ele até parecia preocupado com meu bem-
estar, mas eu sabia. Eu sabia de tudo.
Olhei para o relógio de plástico na parede, ainda não eram cinco
da manhã.
— Há quanto tempo você está aqui? — perguntei, ignorando sua
pergunta.
Ele deu de ombros, olhando ao redor.
— Há quanto tempo você vive aqui?
Parecia que esquivar-se de perguntas era uma característica de
família.
— Desde que minha mãe morreu. É o que acontece com filhos
bastardos indesejados pela família.
Ele suspirou, endireitando-se.
— Eu não sabia como era.
Balancei a cabeça.
— Não me importo. Falei sério no café. Nunca trairia Hoka.
Nunca quero fazer parte da sua família, e nunca quero te ver
novamente.
Ele franziu a testa, franzindo os lábios em irritação.
— Ele partiu seu coração, exatamente como eu previ que faria.
— Como você sabe disso?
Alessandro acenou com a mão de forma desdenhosa.
— Como eu sei não importa. O que ele fez com você importa. Ele
te chutou para o meio-fio, chorando e derrotada.
Dei a ele um sorriso amargo.
— Obrigada, mas eu estava lá. Sei como terminou. — Levei três
chuveiros antes de me sentir limpa novamente, de alguma forma
ainda sentindo o cheiro de urina na minha pele.
— Você está do lado dele, mesmo depois de tudo o que ele fez? —
perguntou ele.
E tudo o que você não fez.
— Não estou escolhendo ninguém. Estou ficando fora de tudo.
Disse a você no café que queria que você ficasse fora da minha vida.
— Volte para casa comigo, por favor. Não vou te pedir para traí-
lo novamente.
— Claro que vai, e quando perceber que não vou, você me
expulsará nas ruas de Chicago ou me venderá para alguém.
— Madre de Dio, você tem a teimosia dos Benetti. Não vou te
vender ou trair. Você é minha irmã, e quero que você deixe esse
buraco infernal e volte para casa, onde sempre pertenceu. — Ele
olhou para seu relógio caro. — Meu avião está pronto na pista.
Partiremos em uma hora. Respeitarei sua lealdade a ele, desde que
você me dê o mesmo.
— Não. — Estava farta de homens da máfia, e nunca daria a
nenhum deles a capacidade de me alcançar ou me machucar
novamente. — Você pode ir agora e, por favor, se tiver alguma
decência, apenas esqueça que eu existi.
Ele estreitou os olhos.
— Você está jogando fora a possibilidade de uma família e uma
vida de luxo por isso? — Ele gesticulou para meu apartamento
patético. — Juro para você, esquecerei que você já dividiu a cama de
um Yakuza.
Balancei a cabeça novamente.
— Não. — Apontei para a porta atrás dele. — Você está anos
atrasado. Precisa ir agora e nunca mais voltar.
Ele suspirou e enfiou a mão dentro do paletó, e não pude evitar
recuar quando ele tirou a mão. Se o homem que pensei que me
amaria para sempre colocou uma arma na minha testa, meio que
esperava que meu irmão afastado realmente fizesse o que Hoka não
fez.
Sua expressão ficou sombria, mostrando que ele não perdeu
minha reação e ficou ofendido por ela.
Ele colocou um cartão de visita branco no meu balcão e bateu
nele.
— Aqui estão meu número de celular e e-mail. Ligue para mim
dia ou noite, quando estiver pronta para dizer adeus a essa vida
miserável, e comprarei uma passagem de avião para casa.
— Sua casa, não a minha.
— Poderia ser sua se você desse uma chance.
— Adeus, Sr. Benetti — respondi, olhando diretamente para a
porta.
Ele me olhou por alguns segundos, como se estivesse tentando
bolar um plano alternativo, antes de balançar a cabeça e girar nos
calcanhares, saindo do apartamento em silêncio.
Peguei o cartão e o amassei na mão antes de jogar a bola de
papel no lixo.
Algumas coisas estavam claras agora, na luz crua da manhã.
Hoka não voltaria para mim, ele não faria as pazes, e Alessandro
Benetti não desistiria.
Eu tinha que sair, desaparecer e começar de novo em outro
lugar, longe das memórias e o mais longe possível da máfia, qualquer
máfia.
Toquei o dragão ainda em volta do meu pescoço e pensei nos
itens de luxo que Hoka me comprou e nos poucos que pertenciam à
minha mãe. Se eu vendesse tudo, talvez pudesse começar uma nova
vida longe daqui, oferecendo uma chance real ao bebê crescendo
dentro de mim.
Apoiei a mão na minha barriga e esfreguei gentilmente enquanto
o novo plano tomava um pouco da minha tristeza e a transformava
em determinação.
Eu ia deixar a Califórnia hoje.
CAPÍTULO 17
H a
Oito semanas depois...
Vi
Quatro semanas depois…
Vi
Virei-me na cama e abri os olhos, olhando para as katanas na
mesinha de cabeceira.
Pisquei algumas vezes e soltei um suspiro de contentamento
enquanto levantava os braços acima da cabeça e arqueava as costas
em um alongamento matinal.
À medida que a névoa cerebral induzida pelo sono começava a se
dissipar, fiquei rígida enquanto a realidade desabava sobre mim.
Sentei-me na cama, encontrando Hoka sentado na poltrona no
canto, com o cotovelo no apoio de braço e a mão sob o queixo,
olhando-me intensamente.
— Não entre em pânico — disse ele, sem mover um músculo.
— Não entrar em pânico? — Puxei o cobertor com força contra
mim. — Não entrar em pânico? Você me sequestrou! Eu… — Balancei
a cabeça. — O que você fez comigo? — perguntei, lembrando-me da
pressão no meu pescoço e de nada mais. — Como você me trouxe
para cá?
— Tenho um avião, então a logística não importa. Precisamos
conversar.
— A logís… Você está se ouvindo? — Puxei os cobertores de mim
e me levantei, de alguma forma grata por ainda estar usando o
pijama de flanela que vesti quando fui para a cama, quando quer que
isso tenha sido. — Você não precisava me sequestrar e me levar a
milhares de quilômetros da minha casa para conversar.
Ele moveu a mão da boca, mas permaneceu sentado.
— Sequestrar é uma palavra muito forte — disse com um leve
tom de repreensão. — Eu apenas te trouxe de volta para onde você
pertence. Parrish Fall, Montana, não é sua casa. Aqui é sua casa. —
Ele gesticulou para seu quarto. — Este é seu quarto, sua cama.
Soltei uma risada sem humor.
— Não, pelo visto, esta é minha prisão! Você poderia ter dito o
que precisava dizer lá. — Comecei a andar pelo quarto e olhei para a
porta, embora soubesse que era inútil. Vi o terreno, mesmo que eu
passasse por essa porta, não havia chance de chegar ao fim do
corredor antes que ele me alcançasse.
— Não. — Ele se inclinou para a frente na cadeira, e eu recuei
rapidamente, meu coração pulando no peito com medo.
Seus olhos brilharam com frustração e tristeza enquanto ele
apoiava os antebraços nas coxas.
— Você não tem nada a temer. Não vou te machucar, Violet.
Eu teria rido se não estivesse tão abalada. Ele me machucou
mais do que qualquer pessoa na minha vida! Estar com ele me
custou quase tudo.
— Sim, claro. — Não tinha plano de discutir com ele. — Tracy vai
ficar preocupada. Ela vai chamar a polícia, e de alguma forma, não
acho que você seja dono daqueles.
— Você ficaria surpresa com quem eu possuo, e não se preocupe
com Tracy… Eu cuidei dela.
Parei de andar e o encarei, olhando-o completamente pela
primeira vez desde que acordei. Ele estava tão incrivelmente bonito
como sempre esteve, talvez apenas um pouco menos arrumado, com
sinais mais pronunciados de preocupação e privação de sono visíveis
nas linhas mais tensas ao redor dos olhos e na coloração mais escura
sob eles.
Ele me lançou um olhar cheio de incredulidade antes de
balançar a cabeça com um suspiro cansado.
— Que opinião você deve ter de mim?
Que você é um criminoso cruel, sem coração, implacável e de
sangue frio, pensei com os lábios franzidos, mas apenas fiquei ali,
esperando que ele me dissesse exatamente o que fez com ela.
— Pelo amor dos ancestrais — murmurou ele, suas narinas se
alargando com frustração.
Ele estava tentando manter o controle de si mesmo e do que
quer que estivesse fervendo logo abaixo da superfície. Eu quase
desejava que ele explodisse e deixasse de lado a fachada falsa,
mostrando-me o monstro escondido por baixo mais uma vez.
— Não machuquei ela nem ninguém. Não machuco inocentes.
Concordo em discordar. Olhei para baixo. Não precisava que ele
tentasse me convencer do contrário, já que seria uma perda de tempo
e esforço.
— Falei com ela no restaurante e disse que você precisava passar
um tempo com sua família.
— Minha família está morta.
— Eu sou sua família — respondeu ele teimosamente.
— Não. — Cruzei os braços sobre o peito. — Eu quero ir embora.
— Não. — Ele cruzou os braços sobre o peito, imitando minha
posição. — Me conte o que aconteceu.
— Você sabe o que aconteceu. Você me ameaçou e me jogou na
sarjeta, doente e coberta com meu próprio xixi — respondi friamente,
e senti um pequeno lampejo de vitória quando ele fez uma careta.
— Você sabe que não é isso que quero dizer. — Sua voz era
afiada, mas seus olhos eram suaves, a poça de ouro líquido que eu
amava quando ele me olhava com carinho. — O que aconteceu?
— Se eu te contar, você me deixa ir?
Ele balançou a cabeça.
— Não, temos muitas coisas para resolver, muitas coisas para
discutir.
— O que Sakura diria? Sabendo que estou aqui. — Não
importava o quanto eu fingisse estar superada, ainda sentia a
pontada de dor e ciúmes ao pensar naquela mulher na vida dele. —
Ela mudou de ideia novamente? Foi por isso que você veio atrás de
mim? Ela fez a escolha certa? — Aquela que eu fui estúpida demais
para fazer quando estava cega pelo amor? Eu me odiava por não ter
ido embora quando tive a oportunidade.
— Sakura não tem nada a ver com você e comigo — respondeu
ele com um tom que não deixava espaço para discussão. — Ela é
minha melhor amiga, nada mais. Ela não ama homens, nunca amou.
Quer ouvir isso da boca dela?
Balancei a cabeça.
— Não precisa. — Queria dizer a ele que era inútil, que não havia
nada que ele ou a mulher pudesse dizer ou fazer que mudaria minha
opinião, mas Hoka era o homem mais teimoso do planeta. Ele só
precisava de alguns dias para ver isso, e então se cansaria de mim.
— Você pode pelo menos me devolver meu quarto? Só a ideia de
compartilhar sua cama… — Um arrepio percorreu minhas costas,
embora não fosse de desejo. Só a ideia das mãos dele em mim…
Ele ficou rígido, a indignação tão flagrante em seu rosto
enquanto apertava as mãos em punhos cerrados descansando nas
coxas.
— Tudo bem, você pode ter o quarto de volta.
Sentei-me ao pé da cama, o mais longe possível dele, sabendo
que era o melhor que ele me daria agora.
— Eu estava assustada, sozinha e grávida. — Olhei para minhas
mãos, para minhas unhas que roí quase até sangrar. — Sentia que
estava me afogando, mas percebi que tinha que ir embora e encontrei
minha salvação em Parrish Fall. Tracy me jogou a corda salva-vidas
que eu desesperadamente precisava, e comecei a me reconstruir. Era
um terreno instável, claro, porque é difícil reconstruir fundações
quando elas foram reduzidas a pó, mas eu tentei. Então fui ao
médico e — sorri apesar da dor incapacitante que transborda meu
coração — ouvi o batimento cardíaco do meu bebê, e foi o som mais
lindo que já ouvi. Era mágico, forte e constante. — Senti o familiar
calor e umidade das lágrimas correndo pelas minhas bochechas. —
Sabia que tinha que lutar pelo meu bebê. Precisava ser a mãe que
esse bebê merecia, e funcionou até que… — Parei enquanto a dor da
perda apertava meus pulmões em um torno, espremendo forte
demais para eu respirar. Fechei os olhos por alguns segundos,
tomando respirações laboriosas, forçando meu corpo a cooperar, a
superar toda a dor, mesmo que por um momento. Soltei um pequeno
soluço, e estava grata por ele não ter vindo me confortar. Não achava
que poderia suportar seu toque. — Mas então acordei no meio da
noite, com uma dor tão intensa que pensei que alguém estava me
cortando de dentro para fora. Puxei os cobertores e o sangue…
Nunca vi tanto sangue, e então a dor veio novamente. Gritei, e
desmaiei. — Ainda podia ver as imagens na minha cabeça. — Quando
acordei dois dias depois, estava no hospital. Meu bebê estava morto,
mas anunciaram que conseguiram salvar meu útero. — Apoiei a mão
baixo na minha barriga, onde estava a pequena incisão na linha do
biquíni. — Não me importava com meu útero ou ovários ou qualquer
coisa. Tudo o que importava era que eu tinha perdido meu bebê. Um
bebê que vi na tela. Ouvi sua vida, vi ele. Eu o amava tanto e ele
simplesmente… se foi. Mais alguém que eu amava se foi. — Olhei
para ele por baixo dos cílios.
Ele estava congelado no tempo, sua testa franzida em uma
expressão dolorosa, seus olhos brilhando com lágrimas. Sua dor, sua
aparente expressão de perda, tirou um pouco do meu luto e o
substituiu por ressentimento e indignação, uma raiva semelhante.
Como ele ousava fingir que sentia algo? Por que ele achava que tinha
o direito de sofrer?
Levantei a cabeça e o encarei com o maior desdém que consegui
reunir. Enfrentei sua expressão, enfrentei a perda que ele estava
vivenciando, mas não merecia.
— O engraçado é que fui virgem por tanto tempo porque minha
mãe sempre disse que sexo era importante e você não deveria
compartilhá-lo com qualquer um. Estive tão convencida disso
durante toda a minha vida crescendo. Estava convencida de que,
uma vez que encontrasse aquele a quem queria me entregar, seria o
certo, o homem com quem passaria o resto da minha vida. — Soltei
uma risada sem humor. — Ela me teve muito jovem. Teve-me com o
criminoso desavergonhado a quem deu sua virgindade. Ela era jovem
demais, ingênua demais, e acreditou em todas as grandes palavras e
promessas de amanhã dele. — Respirei fundo. — É irônico, quase
poético de uma maneira sombria à la William Blake ou Robert Frost.
Cometi exatamente os mesmos erros que ela cometeu enquanto
tentava tanto não cometê-los. Mas talvez a vida tenha sido mais
caridosa comigo ou com a criança que eu estava condenando a uma
vida semelhante à minha. Talvez tenham levado meu bebê como um
gesto de misericórdia, não como punição. — Era isso que eu repetia
para mim mesma nas últimas semanas, e quanto mais dizia, mais
acreditava.
— Não, você não cometeu os erros da sua mãe — disse ele
veementemente, levantando-se da cadeira e vindo parar na minha
frente.
— Por que? — perguntei e olhei para cima. A determinação em
seu rosto quase me derrubou.
Engasguei quando ele caiu de joelhos diante de mim, agarrando
minhas mãos que estavam descansando nas minhas coxas. Não tinha
percebido o quão frias estavam as minhas até sentir sua pele ardente
na minha.
— Porque eu te amo — começou ele, inclinando-se mais perto,
abanando meu rosto com seu hálito quente. — Porque eu escolhi
você, sempre você. — Ele levou minha mão ao seu peito, apoiando-a
bem no centro, sobre seu coração, que batia mais rápido que o
normal. — Porque você me possui completamente, corpo, coração e
alma. Porque não há nada que eu não faria para consertar isso para
você, para tirar um pouco da dor.
Tentei puxar minha mão de seu peito, mas seu aperto se
intensificou. Abri a boca para dizer que queria que ele me soltasse.
— Peça-me para me arrepender, para expiar meus pecados.
Peça-me para sangrar, para implorar, para rastejar, e eu o farei…
mas não me peça para te deixar ir, Violet. Não posso fazer isso, agora
não, nunca.
Ele puxou minha mão de sobre seu coração e beijou minha
palma, mas, mais uma vez, o toque que costumava acalmar e iniciar
desejo apenas causou mais dor e desconforto.
— Eu te amo, minha alma gêmea, meu coração. Você vai me
perdoar, não há outro jeito. — Apesar da certeza de suas palavras,
sua voz era suplicante.
Ele se inclinou, e virei o rosto justo antes que seus lábios
tocassem os meus.
— Por favor, pare de me tocar. Faz minha pele se arrepiar —
disse honestamente.
Ele recuou e soltou minha mão como se eu o tivesse esbofeteado.
Moveu-se de sua posição ajoelhada para sentar-se sobre os
calcanhares em um movimento gracioso.
Seus olhos examinaram meu rosto especulativamente, e eu
encontrei seus olhos. Não tinha certeza do que ele estava
procurando, mas eu estava quebrada demais para que ele
encontrasse qualquer encorajamento que parecia estar buscando.
Vi a luz da esperança diminuir em seus olhos enquanto ele se
levantava.
— Tudo bem, deixe-me te levar ao seu quarto.
Soltei um suspiro de alívio por finalmente estar livre de sua
presença.
— Não precisa, sei onde fica.
Ele se virou para a porta.
— Por favor.
Segui-o silenciosamente até meu quarto, imaginando se ele
realmente tinha se dado ao trabalho de embalar minhas coisas ou se
eu teria que viver com meu pijama de flanela pelo futuro próximo, o
que certamente seria desconfortável no calor da Califórnia.
Ele abriu a porta e me fez um gesto silencioso para entrar.
Todas as minhas perguntas foram respondidas assim que entrei.
Junto com a bolsa que eu tinha em Montana, também encontrei
todas as roupas que vendi antes de partir — e todas as coisas da
minha mãe que me partiu o coração vender.
Soltei um soluço sem lágrimas quando vi o colar de pérolas na
cômoda e rapidamente o alcancei, apertando-o contra o peito.
— Pensei que nunca o veria novamente!
— Tudo o que você vendeu está aqui — respondeu ele de seu
lugar no limiar.
Assenti, grata por ele não ter entrado no quarto.
— Não me importo com a maioria… só com as coisas da minha
mãe.
— Seu colar de dragão está na caixa ali — disse ele, apontando
para a penteadeira.
Dei de ombros.
— Pode ficar com ele. É inútil para mim. — Nem disse isso com
qualquer má intenção, era apenas a verdade. O dragão me fazia
sentir segura, era como se eu carregasse um pedaço do meu
guerreiro implacável comigo, meu escudo contra o mundo. Mas esse
escudo não me protegeu dele.
— É seu. Foi feito para você.
Suspirei.
— Não se surpreenda se for vendido assim que eu sair daqui.
Ele franziu os lábios, ficando um pouco mais reto, preparando-se
para uma briga que eu não ia dar. Eu só queria paz.
— Tenho que ir agora. Vá como quiser pelo terreno. Te vejo no
jantar hoje à noite.
— Duvido.
Seus olhos se estreitaram ligeiramente.
— Não há saída, Violet, você sabe disso.
— Sim, eu sei. Você terminou?
Ele me deu um aceno brusco.
— Por enquanto.
Virei as costas para ele e comecei a desfazer minha bolsa
esportiva, muito consciente dos olhos de Hoka em mim, embora o
ignorasse e continuasse a tirar minhas roupas da bolsa
metodicamente até ouvir o leve clique da porta se fechando.
Soltei um suspiro de alívio e virei-me para olhar a porta fechada.
Estava finalmente sozinha, livre para pensar sem interferência, e
qual era a primeira coisa que eu tinha que descobrir?
Como diabos sair daqui.
CAPÍTULO 20
Vi
Faz cinco dias desde que Hoka me trouxe de volta para sua casa
— cinco dias durante os quais não estive nem um pouco mais perto
de encontrar uma saída, e apesar do meu comportamento frio e
desdenhoso, ele não parecia nem um pouco mais próximo de me
deixar ir do que esteve no primeiro dia.
Fiz de evitá-lo um esporte, mas ele sempre me encontrava onde
quer que eu estivesse escondida. Ele sentava lá, onde quer que eu
estivesse, em completo silêncio enquanto comia o prato de comida
que carregava.
Eu poderia ter achado isso cativante — sua determinação de
jantar comigo não importava o que eu fizesse ou onde estivesse —
mas não agora, não depois de tudo pelo que passamos.
Ele não se desencorajava. Continuava deixando presentes na
frente da minha porta, que eu simplesmente pegava e deixava sem
abrir no canto do quarto.
O único destaque nesta casa era Himari e sua obsessão em me
alimentar enquanto murmurava sobre o quão magra eu estava e
como eu precisava voltar a ser a jovem cheia de sol que fui.
Eu comia sua comida, bem, não tudo o que ela colocava no meu
prato, mas a maior parte. Ela estava certa, eu estava magra demais, e
se eu quisesse escapar deste lugar, precisava recuperar minhas
forças.
O momento mais constrangedor foi ontem, quando Sakura veio
falar comigo. Escutei-a por alguns minutos enquanto ela me dava a
mesma desculpa bem ensaiada que Hoka me dera. Quando não
aguentei mais as mentiras, interrompi-a e expliquei em termos claros
que, fosse verdade ou não, nada do que ela dissesse teria impacto na
minha vida daqui para frente. Disse a ela que seria muito melhor
para ela economizar seu fôlego e meu tempo virando-se e nunca mais
falando comigo.
Ela concordou e me deixou em paz até que Hoka entrou na
cozinha, sentando-se no balcão como um cachorrinho infeliz
enquanto eu terminava de comer meu almoço, lavava meu prato e
saía como se ele não estivesse lá.
Estive andando pela casa e pelo terreno muito mais do que antes
— principalmente para ver se conseguia encontrar um ponto fraco,
mas também para encontrar a única pessoa que ainda não tinha
visto. A pessoa que eu costumava evitar antes, mas que agora via
como minha salvação… Jiro.
Quase desisti de encontrá-lo, suspeitando que ele talvez não
estivesse mais aqui, quando ele entrou na biblioteca no início da
tarde enquanto eu estava aninhada na poltrona de couro sob um
cobertor fino, lendo um livro. Ultimamente, eu sentia frio com
frequência. Himari dizia que era porque eu não tinha mais gordura, e
pensei que talvez ela tivesse razão, afinal.
— Oh! — Seus olhos se arregalaram quando me viu, e ele deu um
passo para trás, olhando ao redor desconfortavelmente. — Não
esperava que você estivesse aqui.
— Eu preferiria estar em qualquer outro lugar que não aqui. Mas
meu quarto está se tornando uma jaula, e sempre gostei desta sala. É
bem agradável estar aqui quando ele não está.
— Não devo… — Ele parou. — Só preciso pegar algumas coisas
para uma reunião. É… Vou levar só um minuto.
Fechei o livro e sentei-me um pouco mais reta.
— Não, tudo bem. Na verdade, estive procurando por você.
Preciso falar com você.
— Comigo? — perguntou ele, apontando para o peito, lançando-
me um olhar de lado cheio de incredulidade.
Assenti.
— Não devemos conversar. Hoka não aprovaria.
Bufei.
— Como se eu ligasse a mínima para o que Hoka aprova ou não.
As sobrancelhas de Jiro se ergueram em surpresa, mas ele não
disse uma palavra.
— Quero que você me ajude… — comecei, indo direto ao ponto.
Sempre estava preocupada em ouvir o carro dele descendo a entrada,
forçando-me a me retirar para meu quarto. Só Deus sabia quando eu
poderia falar com Jiro novamente.
— Ajudar você a fazer o quê?
— Sair. — Apontei para a janela da biblioteca, que eu sabia com
certeza estar trancada. — Você não me quer aqui, eu não quero estar
aqui. Apenas me diga como escapar, porque tenho certeza de que
você sabe.
Seus olhos escuros me estudaram por alguns segundos antes que
ele balançasse a cabeça.
— Não.
— Por que não? — quase choraminguei.
— Porque eu… — Ele balançou a cabeça novamente. — Estava
errado.
Em qualquer outro momento, eu poderia ter me vangloriado, o
todo-poderoso Jiro admitindo que estava errado. Quase esperei que
ele engasgasse com a palavra.
— Não, você não estava. Na verdade, você estava certo desde o
primeiro momento, mas eu não vi. Você abriu meus olhos, e por isso,
obrigada.
Ele estreitou os olhos com desconfiança.
— Não fiz nada.
Bufei e acenei com a mão de forma desdenhosa. Ou ele achava
que eu era completamente estúpida ou desinformada, mas, de
qualquer forma, estava longe de ser um elogio.
— Você mostrou a Hoka as fotos de mim e Alessandro Benetti,
você pesquisou minha linhagem. Você plantou a semente da dúvida
na cabeça dele, sabendo muito bem que eu não era uma traidora.
Ele fechou a porta atrás de si e encostou as costas nela.
— Como eu saberia disso?
— Porque se você realmente pensasse que eu era uma traidora,
eu estaria morta.
Ele franziu os lábios, mas permaneceu em silêncio, dando-me
toda a confirmação que eu precisava.
Movi as pernas de baixo de mim e sentei-me mais
adequadamente na cadeira.
— Você me disse um dia que era o executor de Hoka. Que era
você quem fazia todas as coisas que Hoka não podia ou não deveria
fazer. Você disse que agia quando ele precisava manter as mãos
limpas.
— Sei o que disse — retrucou ele, aparentemente não gostando
de ser confrontado com suas próprias palavras. — Estou na casa dos
trinta, não sou senil.
Assenti.
— Hoka deveria ter me matado naquele dia, ele nunca deveria
ter me expulsado.
— Sim, ele deveria. Traidores são mortos imediatamente. Ele te
poupou porque te ama.
Bufei novamente.
— Não te imaginava como romântico, Jiro. Que decepção.
Suas narinas se alargaram, o único sinal de que minha alfinetada
acertou.
— E eu não te imaginava como uma vadia cínica, mas aqui
estamos.
Dei de ombros com um sorriso genuíno.
— Isso é o que quase um ano no seu mundo fez comigo. A luz
não sobreviveu à escuridão, e só um tolo poderia pensar o contrário.
Você deveria se dar um tapinha nas costas, no entanto. Graças a
você, estou muito mais sábia. — Acenei com a mão para a resposta
que sabia que ele estava prestes a me dar. — Sentimentos são
irrelevantes aqui, de qualquer forma. Sei que você teria feito o que
ele não pôde fazer. Se você tivesse suspeitado, mesmo por um
minuto, que eu era uma traidora, então eu estaria morta antes do
amanhecer.
Ele soltou um som sibilante enquanto passava a mão pelo rosto,
encostando-se ainda mais na porta. Ele olhou para mim e, apesar do
quanto ele tentava esconder, vi o quão impressionado ele estava com
minha dedução.
Ele deu de ombros.
— E se eu fiz ou não fiz? Não vejo o que isso tem a ver com esta
situação.
— Não vê? — Arqueei uma sobrancelha. — Sério?
Ele franziu os lábios e me encarou.
— Tudo bem, deixe-me te educar — acrescentei sarcasticamente.
Não me importava mais se o irritava ou não, se ele me odiava ou não.
Esse desapego era deliciosamente libertador. — O homem com quem
eu estava dormindo, o homem em quem confiei com tudo o que tinha
para dar, embora não fosse muito, acreditou que eu era uma traidora
sem pensar duas vezes. Algumas fotos, uma árvore genealógica, e
pronto, ele terminou. No entanto, você — apontei meu dedo para ele
— o homem que mal me conhecia e que não era fã, sabia melhor.
Diga-me, Jiro, o que isso diz sobre nosso amor? — Minha voz
pingava com veneno que agora envenenava todo o meu ser.
— Pensei que me livrar de você o tornaria mais forte, mais
focado em seu papel, em seu legado, mas, em vez disso, o tornou
mais fraco. Você pode não ter sido quem eu teria escolhido para
Hoka, mas você é exatamente o que ele precisa. Foi por isso que
mostrei a ele o vídeo de você no seu apartamento quando você
enfrentou Benetti. Para ser justo, eu sabia que ele estava procurando
uma maneira de te trazer de volta. Ele não era o mesmo homem sem
você, ele mal existia sem você. Ele só precisava de uma maneira de te
trazer para casa, e eu apenas dei a ele a desculpa.
— Entendo. — Assenti. — Então você não vai me ajudar?
— Acho que você não estava ouvindo o que eu disse.
— Não importa o que você disse. Ou você me ajuda, ou não.
— Ele cometeu um erro, como você cometeu quando não disse a
ele quem você era. Como você cometeu quando seu irmão veio até
você, e você guardou o segredo.
Franzi os lábios.
— Nunca fingi ser perfeita. — Desviei o olhar. — Mas dei demais
a essa luta, e não tenho mais nada para dar a esse relacionamento.
Perdi meu bebê — acrescentei, virando-me para ele.
Ele olhou para baixo envergonhado.
— Eu sei… Sinto muito por isso, e farei qualquer coisa para
compensar vocês dois.
— Fará?
— Sim.
— Então me ajude a sair. Defenda minha causa para ele, Jiro. —
Apontei para a porta. — Diga a ele que estou acabada. Faça-o
entender que qualquer plano que ele teve ao enviar você e Sakura
para defender sua causa não é nada além de um esforço
desperdiçado. Não há mais causa para defender.
— Você acha que Hoka me enviou? — perguntou ele, arqueando
as sobrancelhas em surpresa. Ele soltou uma risadinha. — Hoka me
ordenou especificamente para ficar longe de você. — Sua boca se
torceu em um sorriso triste. — Acredite em mim quando digo que
Hoka não me enviou, porque ele terminou comigo. Não acho que ele
mijaria em mim se eu estivesse em chamas.
Sua expressão era triste demais, desprotegida demais para ser
falsa. Jiro era todo sobre força e falta de sentimentalismo. Mostrar
esse lado dele devia ser nada menos que excruciante.
— Eu mijaria em você.
— O quê?
— Se você estivesse em chamas, eu mijaria em você. Sou muito
boa em fazer xixi em mim mesma em público, você deveria perguntar
ao Hoka — acrescentei com um sorriso irônico.
Ele fez uma careta com o comentário cortante, mas fora isso,
olhou para mim como se eu estivesse deixando passar algo.
— Você entendeu o que eu disse antes, certo? Eu sou o que
causou tudo isso. — Ele apontou para o peito. — Eu sou o que reteve
informações por semanas. Eu. — Ele bateu no peito. — Ninguém
mais.
Dei de ombros.
— Você não pode estar com raiva de Hoka e não de mim. Não é
justo.
Ri.
— Oh, Jiro, ambos sabemos que não é assim que a culpa ou a
raiva funcionam. — Assenti e comecei a dobrar o cobertor que estava
usando. — E depois do que todos vocês me fizeram passar, acho que
é meu direito sentir o que quiser, porra.
— Mas…
— Você deu a ele informações. Você não alterou as fotos ou a
gravação. Você apresentou a ele o que tinha. — Balancei a cabeça e
cuidadosamente coloquei o cobertor nas costas da cadeira antes de
me virar para Jiro. — Teria levado dois minutos a Hoka, dois
minutos do seu tempo, para acertar tudo. Dois minutos para evitar
todo o drama que se seguiu, dois minutos para poupar a quantidade
de sofrimento que passei. Mas eu não valia a pena… Depois de tudo o
que dei a ele, eu não valia nem a decência de uma explicação real. —
Peguei o livro da mesa lateral e caminhei até a prateleira de onde o
tirei. — Se ele tivesse me concedido esses minutos inestimáveis, ele
saberia que eu nunca tinha visto aquele homem antes e nunca
pretendi vê-lo novamente. Bem — bati o dedo contra a lombada de
couro do livro que acabei de devolver — nunca pretendi vê-lo
novamente por minha própria vontade.
— Ele foi ao seu apartamento e pediu sua lealdade contra Hoka.
Assenti. Não havia sentido em negar o que eu sabia que ele viu
no vídeo.
Virei-me para ele e apoiei o ombro na estante.
— Aparentemente, uma mulher desprezada é uma força a ser
reconhecida. — Soltei uma risada cansada. — Benetti deveria saber
melhor, realmente.
Jiro inclinou a cabeça para o lado.
— Mas você tinha que saber que, ao dizer não, estava dando sua
lealdade a Hoka, apesar do jeito que ele te machucou.
Dei de ombros.
— Talvez eu só não seja muito de buscar vingança.
— No entanto, você está fazendo-o sofrer mais do que ele jamais
sofreu. Estando aqui, perto o suficiente para ele tocar, mas também
tão longe e intocável. — Os olhos de Jiro estavam tão tristes. — Não
preciso que ele fale comigo para ver a agonia dentro dele.
— Não é de forma alguma minha intenção — respondi,
caminhando mais perto dele, esperando que ele pudesse ver a
sinceridade em meus olhos. — Desejo-lhe o melhor,
verdadeiramente. Quero que ele seja feliz, e um dia ele será. Um dia,
ele encontrará alguém além de mim, e ele te agradecerá por isso.
— Duvido muito que ele algum dia me perdoe, e também não
acredito que ele algum dia te supere.
— Não sou a pessoa certa para ele. Sei disso agora, e um dia ele
também saberá. Ele encontrará a mulher feita para ele, aquela
nascida para estar ao seu lado, e ele esquecerá tudo sobre a pequena
gaijin.
— Você não é qualquer uma, você é a… — Ele parou e desviou o
olhar por alguns segundos, seus olhos fixos em um pôster na parede
que eu sabia que ele não estava realmente olhando. — Sabe, sei que
não vai justificar o que fiz, mas uma vez, eu me apaixonei por alguém
como você.
— A filha bastarda de um inimigo? Quais eram as chances?
Ele me lançou um olhar irritado.
— Ela era uma pessoa comum, e nós nos amávamos
profundamente.
— Ah, mas às vezes o amor não é suficiente, certo?
Ele me lançou um olhar surpreso.
— Você disse exatamente o oposto não faz muito tempo.
— E eu estava errada, e você me provou isso. Parabéns, você
estava certo.
— Por uma vez, desejei não estar — murmurou ele, encostando a
cabeça na porta e fechando os olhos.
Suspirei.
— Ele me deixará ir logo, você verá. Uma vez que ele perceber
que estamos acabados, ele me deixará ir.
Ele tinha que me deixar ir porque eu não sabia quanto tempo
poderia manter minha sanidade estando tão perto dele.
Hoka Nishimura já foi meu paraíso, mas agora era meu inferno.
Eu só não sabia por quanto tempo poderia continuar caminhando
pelas chamas sem queimar completamente no processo.
Ele tinha que me libertar porque meu coração não podia
suportar outro golpe. Eu não podia me perder completamente. Só me
restava um pouco de luz, e eu tinha que preservá-la com tudo o que
tinha.
CAPÍTULO 21
H a
Pensei que tê-la de volta aqui comigo tornaria as coisas melhores
e me faria sofrer menos, mas era quase pior.
Vê-la todos os dias tão estoica, tão fria, ainda a mesma, mas tão
vastamente diferente, e saber que eu era o único culpado era
devastador para a alma.
Ela era a coisa mais preciosa do mundo. Era meu tudo, e eu a
quebrei, como haviam me avisado que faria.
Ela ainda era linda, mas a luz em seus olhos havia desaparecido.
Suas bochechas não adquiriam aquele tom adorável de rosa que
costumava me enlouquecer. Tudo o que eu dizia era recebido com
um olhar vago e um aceno de cabeça.
Ela estava agindo de forma muito semelhante às esposas
quebradas das gerações mais antigas, as mulheres cujo espírito foi
destroçado para se tornarem as coisas vivas que seus maridos
precisavam.
Nunca quis isso na minha vida, e saber que minha desconfiança
roubou algo de Violet me matava.
Sabia que haveria obstáculos. Esperava raiva — eu podia lidar
com a raiva dela, podia traçar um plano — mas não esperava esse
vazio, essa completa falta de emoção, exceto pelo ecoar automático
de nojo toda vez que eu a tocava.
Mesmo durante a noite, quando eu entrava furtivamente em seu
quarto para vê-la dormir, ela não parecia em paz. Suas sobrancelhas
estavam franzidas, seus lábios contraídos. Ela estava preocupada,
mesmo enquanto dormia — quase com dor — e tudo o que eu queria
era deitar ao seu lado, beijar sua testa e prometer que tudo ficaria
bem. Mas eu não tinha permissão para confortá-la quando era a
fonte de sua dor.
Olhei para a imagem do ultrassom na minha mesa — aquela que
encontrei na gaveta da mesinha de cabeceira dela, logo abaixo da
caixa de comprimidos para dormir. Passei os dedos sobre ela
enquanto a sensação de perda ardia em meu peito. Ela passou por
um inferno, e eu venderia o que restava da minha alma para tirar um
pouco de sua dor, mas, apesar do meu desejo de fazer isso, eu não
podia.
Eu também estava de luto. Estava de luto por um bebê que amei
mesmo na morte, um bebê que eu teria desejado tão ardentemente
que mal conseguia respirar. Um bebê com Violet, um pedaço de nós.
Isso era um milagre ao qual eu aspirava. Queria tomá-la em meus
braços e sofrer com ela, tomar um pouco de sua dor e carregá-la.
Beijá-la e abraçá-la até que ela se sentisse um pouco melhor, até que
eu visse a luz voltar aos seus olhos.
Himari e Sakura me disseram que ela precisava de tempo.
Disseram que eu precisava estar lá nas sombras e esperar até que ela
quisesse me alcançar, mas parecia que quanto mais ela estava lá,
menos esperança eu tinha.
Houve uma batida suave na minha porta, e meu coração deu um
salto. Poucas pessoas ousariam entrar no meu quarto para me
perturbar no meu escritório particular — um espaço que eu
geralmente ocupava quando precisava de confidencialidade total ou
calma. Nestes dias, eu o usava pela privacidade que me dava — a
certeza de que ninguém me veria chorar.
Por favor, seja você… implorei, mas meu rosto desmoronou
quando Jiro colocou a cabeça pela fresta.
— Você não é bem-vindo nesta casa ou neste escritório.
— Eu sei, mas Himari…
— Você pode ainda ser meu wakagashira em público, mas é
apenas por aparência. Eu te disse antes que, uma vez que essa
situação estiver resolvida, você está fora.
— Eu sei! — retrucou ele. — Acredite, estou contando os dias
tanto quanto você. Não estou exatamente prosperando em um
ambiente cheio de ódio e ressentimento.
Franzi o cenho, entendendo muito bem. Eu também estava
vivendo nesse ambiente, mas com o amor da minha vida.
— O que você quer?
— Alessandro Benetti está esperando no portão da frente.
Virei a cabeça para o lado, oferecendo meu ouvido. Devo ter
ouvido errado. Não era possível de outra forma.
— Quem?
— Alessandro Benetti. Ele está solicitando uma audiência agora.
Disse que, se seu pedido for recusado, ele iniciará uma guerra.
Dei uma risada, arqueando as sobrancelhas.
— Oh, é mesmo? — Quase quis chamar seu blefe. Assenti, meus
problemas com Jiro temporariamente esquecidos. — Ele ameaça
iniciar uma guerra comigo na minha cidade?
— Ele disse que você mantém um membro da família dele contra
a vontade dela, o que é contra o código.
Isso me fez parar imediatamente. Se eu estivesse mantendo um
membro da família Benetti contra sua vontade, isso seria motivo
para guerra.
Suspirei e me levantei.
— Deixe-o entrar, só ele. Não o perca de vista até levá-lo à
biblioteca.
— Vejo que está confiando em mim agora?
Balancei a cabeça.
— Não, absolutamente não. Só confio ainda menos nele.
Jiro assentiu e saiu do quarto enquanto eu corria para trocar
minha camisa amarrotada, ajeitar meu cabelo e pegar um paletó.
Saí do meu quarto e parei por um segundo na frente do quarto
de Violet. Apoiei a mão na porta, vendo a luz suave que vinha dela.
Sabia que ela havia tomado meu lado duas vezes quando
confrontada por Alessandro Benetti, mas seria o mesmo agora?
Depois que a trouxe para casa contra sua vontade…?
Sequestro, Hoka. Foi um sequestro. Ouvi a voz dela na minha
cabeça.
Soltei um pequeno grunhido de frustração enquanto descia as
escadas apressadamente. Acabei de servir um copo de licor quando
Jiro abriu a porta para deixar Benetti entrar na sala.
Olhei para Jiro.
— Você pode esperar no corredor. O senhor Benetti não ficará
aqui por muito tempo.
Ele assentiu, mas a leve careta mostrou o quanto ele era contra
essa ideia. Normalmente, eu teria pedido que ele ficasse — era a coisa
sábia a fazer — mas eu só podia lidar com uma cobra de cada vez.
Detalhei o homem parado na minha casa, seu rosto duro e
acusador, como se eu o tivesse ofendido de alguma forma.
Tomei um gole da minha bebida, examinando seu rosto com
mais atenção agora que sabia que Violet compartilhava DNA com ele.
Estava tentando ver algumas semelhanças. Podia ver isso na
escuridão de seus cabelos e talvez na quadratura de seus queixos,
mas não havia muito mais ali. Ela era claramente mais irlandesa do
que italiana.
— Eu te ofereceria uma bebida, mas você não ficará aqui tempo
suficiente para apreciá-la — disse a ele, não o convidando a entrar
mais na sala.
— Não, não ficarei. — Ele virou-se para o bar e fez uma careta. —
Além disso, você claramente não saberia reconhecer um bom licor
mesmo que ele te acertasse na cara.
Eu conheci Benetti alguns anos atrás, quando nenhum de nós
ainda estava no comando. Naquela época, estávamos apenas
acompanhando nossos respectivos pais, ambos não concordando
totalmente com suas decisões antiquadas. Não havia amor perdido
entre os italianos e nós, mas naquela época, por algumas horas, nos
entendemos.
— Não sei o que você está tentando alcançar aparecendo na
minha casa sem aviso, jogando ameaças.
— Não são ameaças, são promessas.
Soltei uma risadinha. Esse homem era tão impulsivo quanto eu,
e em qualquer outra circunstância, eu poderia ter apreciado isso,
mas hoje não era o dia.
— Eu poderia ter sua cabeça por isso. — E no fundo, eu estava
considerando, nem que fosse para vingar um pouco da injustiça que
Violet sofreu.
Você terá que cortar sua própria cabeça, então.
— Eu gostaria de ver você tentar. — Ele me deu um meio sorriso.
Era o sorriso de um homem que raramente era negado ou desafiado,
o sorriso de um homem que se via como intocável. Eu sabia disso
porque era o mesmo tipo de homem… ou pelo menos, costumava ser.
— Nenhum homem é uma ilha, Benetti. Todos nós temos essa
fraqueza, não importa como ou onde a escondamos atrás de muros
ou no meio do Oceano Pacífico. Há sempre aquela pessoa que sabe.
Ele ficou tenso, os músculos do pescoço pulsando em sua
tentativa de controlar o que quer que estivesse sentindo. Seu olhar
desafiador rapidamente se transformou em um olhar mortal de
raiva.
Eu sorri. Eu sabia seu segredo mais profundo, e agora ele sabia
disso também.
Balancei a cabeça.
— Volte para Chicago enquanto eu ainda tenho um mínimo de
paciência sobrando.
Ele assentiu.
— Claro. Estarei a caminho assim que você me devolver minha
irmã.
Isso me parou, meu copo a meio caminho dos meus lábios.
— Como é?
— Violet.
— Sei quem ela é — retruquei, irritado por ouvir o nome dela
saindo de seus lábios. — Conheço ela melhor do que você.
— Possivelmente. — Ele deu de ombros. — Mas ela foi trazida
para cá contra sua vontade, e isso não é algo que eu levo na
brincadeira.
Estreitei os olhos em suspeita, imaginando quem seria o traidor
que o informou. Suspeitei parcialmente de Jiro, especialmente
porque não tinha mais um pingo de confiança naquele homem.
— E você acha que me ameaçar com uma guerra ajudaria? Se, e
isso é um grande se, ela foi trazida para cá contra sua vontade, você
acha que seria inteligente colocá-la na linha de fogo? Permita-me
duvidar de suas boas intenções.
— O que você quer por ela? — perguntou ele, como se estivesse
se rendendo. — Te dou Sacramento.
Isso desmoronou todas as minhas teorias sobre a visita de
Benetti. Sacramento era uma fonte de contenção entre nossos dois
sindicatos há tanto tempo quanto eu podia lembrar. A máfia italiana
na Califórnia era fraca — apenas presente para certos negócios
importantes, que floresciam em seus territórios na Costa Leste.
Sacramento era uma das cidades que eles tinham, e o negócio de
apostas deles lá era uma fonte de dor para nosso próprio jogo e
extensão de empréstimos no norte da Califórnia. O chefe da máfia
italiana na Califórnia era o primo mais jovem de Benetti, e ele ou
Gianluca Montanari, da máfia italiana de Nova York, poderiam parar
isso quando quisessem.
Se eu dissesse sim agora, conseguiria algo que meu pai falhou
em fazer, apesar de ter tentado por anos. Eu expandiria nosso
controle para todo o estado.
Toda a minha educação, tudo para o que nasci, me impelia a
dizer sim. Eu poderia até ter feito isso quando conheci Violet pela
primeira vez, mas não era mais possível, não agora. Em algum
momento pelo caminho, Violet se tornou muito mais importante do
que meus deveres, do que meu papel dentro do meu próprio
sindicato.
Ao escolhê-la agora, acima dessa oferta insana, eu estava
quebrando não apenas uma das principais regras do nosso jingi —
nosso código de conduta — mas também indo contra o bushido — o
antigo código de conduta dos samurais japoneses que era a base de
tudo o que construímos.
E sim, apesar de tudo isso, eu não hesitei por um segundo. Violet
vinha em primeiro lugar, não importava a oferta que estivesse na
mesa.
Estava grato que a oferta tivesse sido feita a portas fechadas e
seria a palavra dele contra a minha, porque se minha recusa fosse
pública...
— Fique com Sacramento. Acho que suas fontes estão
enganadas.
— Tudo bem. — Ele cruzou os braços sobre o peito. — Então me
deixe falar com ela. Quero perguntar a ela cara a cara.
Tomei outro gole da minha bebida, terminando-a de uma vez,
tentando esconder minha apreensão sobre como essa reunião
poderia potencialmente correr.
Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Há algo errado?
— Não, vou buscá-la para você.
— Prefiro ver onde ela está ficando, se não se importar.
Eu me importava. Eu me importava pra caralho. Não queria o
bastardo italiano vagando pela minha casa, não com Jiro, de quem
eu não tinha certeza se não estava trabalhando com ele.
— Tudo bem. — Caminhei até a porta e a abri. — Preciso
perguntar a ela se ela quer te ver primeiro.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Oh, entendi. Deixe-me adivinhar, ela não vai querer, né? Que
conveniente.
— Não sei, mas se ela não quiser, então você vai embora, guerra
ou não. — Virei-me para Jiro. — Leve-o para o segundo andar e
espere no final do corredor. Vou perguntar a Violet se ela quer vê-lo.
Virei as costas para eles, e finalmente pude deixar de lado minha
máscara de desprezo frio para deixar a preocupação correr seu curso.
Se eles conversassem e ela decidisse segui-lo, não haveria nada
que eu pudesse fazer. Eu teria que vê-la ir embora. Meu coração doía
com a ideia de perdê-la para sempre.
Ela pode não ser minha agora, mas sua presença me ajudava a
continuar. Me ajudava a manter a pequena esperança de que um dia
ela falaria comigo de boa vontade, sem ser pressionada, que ela
compartilharia uma refeição comigo, que ela pararia de recuar toda
vez que eu a tocasse.
Parei na frente da porta dela e bati uma vez.
— Violet, sou eu — disse gentilmente, sabendo que tinha uma
audiência.
Como esperado, ela não respondeu, mas entrei como se ela
tivesse respondido e agradeci a todos os ancestrais que ela não tinha
trancado a porta. Teria sido particularmente constrangedor se eu
tivesse tirado a chave do bolso para destrancá-la.
Ela estava sentada na poltrona de leitura ao lado das portas
francesas abertas, o que eu suspeitava que ela fazia todas as noites.
Doía-me ver que ela havia parado de ler todos os livros sobre cultura
e folclore japoneses, ela parou de se importar em se encaixar no meu
mundo, e isso me feria muito mais do que qualquer um poderia
imaginar. Ela ainda estava vestida como esteve o dia todo — com um
par de calças de moletom velhas e uma camiseta amarelo-pálido que
já viu dias melhores. Ela parecia uma sem-teto na maioria dos dias,
recusando-se a usar qualquer uma das roupas que comprei para ela.
— Boa noite, Violet — disse o mais formalmente que pude,
apesar de seu adorável perfume floral sobrecarregar meus sentidos.
Não podia ser intenso com ela. Sempre que eu era demais, ela se
retraía em sua concha, e nada mais conseguia passar.
Ela fechou o livro no colo e olhou para mim em silêncio, seu
rosto uma máscara de fria indiferença.
Olhei para o título do livro que ela estava lendo, A Estrada Não
Tomada e Outros Poemas de Robert Frost. Como era apropriado ao
clima atual do nosso relacionamento.
Dei alguns passos para dentro.
— Robert Frost. — Apontei para o livro dela. — Uma leitura leve,
pelo que vejo.
— O que posso fazer por você esta noite, Hoka?
Por que seu tom frio me machucava tanto? Pelo menos ela
estava falando, e eu deveria estar grato, mas ainda assim, sentia falta
de seu calor. Era como se uma parte dos meus pulmões tivesse sido
removida, e eu não conseguisse respirar direito com essa versão de
Violet.
— Seu irmão está aqui para te ver.
Suas sobrancelhas se ergueram, o único sinal de sua surpresa.
Pelo menos eu sabia com certeza que ela não seria a que pediria
ajuda a ele. Ela controlou suas feições e balançou a cabeça.
— Não quero vê-lo. — Ela acenou com a mão para a porta. —
Mande-o embora.
Porra, eu queria poder, mas ele estava certo. Se eu o dispensasse,
ele presumiria o pior — o que, admito, não estava tão longe da
verdade. Ela tinha que vê-lo e mandá-lo embora ela mesma.
— Seu irmão se importa com sua situação. Ele me ofereceu
Sacramento em troca de você.
Ela franziu os lábios, visivelmente descontente por ser tratada
como uma transação comercial.
— Eu recusei — acrescentei rapidamente.
Ela deu de ombros, passando a mão sobre a capa verde suave do
livro no colo.
— Não faço ideia do que isso significa. Mas suponho que deveria
te agradecer por não me vender ao maior lance.
A frustração levantou sua cabeça feia, e apertei as mãos em
punhos para me impedir de retrucar. Não havia nada que eu pudesse
fazer que ela considerasse certo.
— Ele acha que te mantenho aqui contra sua vontade.
— Você está me mantendo contra minha vontade.
— Não exatamente. — Não exatamente? Que tipo de resposta
fodida foi essa?
— Sim, você está.
Revirei os olhos e tentei um ângulo diferente.
— Ele acha que vou te machucar.
— Você me machucou — respondeu ela em um tom tão natural
que, de alguma forma, doeu mais do que se ela tivesse dito com
raiva.
Porra, essa doeu mesmo.
— Sem querer.
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Concordo em discordar.
— Pare de ser tão difícil e fale com ele para que ele possa ir
embora.
— Me deixe ir — disse ela desafiadoramente, sentando-se mais
reta na espreguiçadeira.
— Não — respondi, e acrescentei um olhar furioso para reforçar.
— Então não vou parar de ser difícil. Não se preocupe com meu
irmão, ele está mais interessado no que eu posso trazer para ele do
que qualquer outra coisa. Ele vai desistir logo. — Ela suspirou e se
recostou na cadeira, claramente encerrando a conversa.
Bem, que se foda. Eu também estava acabado.
— Sabe de uma coisa… Vou mandá-lo entrar, e você pode dizer a
ele você mesma. Diga o que quiser. — Acenei com a mão
desdenhosamente. — Comece uma porra de uma guerra de sindicato
e veja quantas mortes estarão na sua cabeça. Só espero que você
esteja pronta para carregar essa cruz.
— Você deveria saber.
— Sim, eu sei — sibilei entre os dentes cerrados. A culpa era
pesada, mesmo nas almas mais escuras.
Virei-me bruscamente e caminhei até a porta. Abri-a e fiz um
gesto para ele avançar. Se ela quisesse causar estragos, que o fizesse
ela mesma.
Se ela quisesse queimar o mundo, eu lhe entregaria os fósforos e
queimaria junto com ele. Não continuaria lutando contra isso, estava
cansado demais.
Alessandro caminhou rapidamente, os ombros retos e as mãos
fechadas em punhos ao lado do corpo.
— Demorou, hein — cuspiu ele ao me alcançar, mas parou
quando fiquei no limiar, bloqueando seu acesso e visão do quarto. —
Com o que você a ameaçou?
— Eu estava nua. — A voz dela veio de trás de mim. — Desculpe-
me por não estar pronta para visitantes, especialmente um que eu
especificamente exigi nunca mais ver.
Soltei um pequeno suspiro enquanto um pouco da tensão
deixava meus ombros. Talvez ela ficasse do meu lado, afinal. Não era
uma batalha de quem ela amava mais, era de quem ela odiava
menos, e apesar de toda a dor que causei a ela, suspeitava que ainda
era o vencedor nisso.
Movi-me ligeiramente, forçando-o a deslizar entre mim e o
batente da porta.
Ele me lançou o olhar mais sombrio enquanto passava por mim,
e eu sorri. Que os jogos comecem, idiota.
Virei-me depois que ele estava dentro e vi suas feições
suavizarem imediatamente quando olhou para o rosto de Violet.
Era surpreendente, realmente, e ela poderia estar muito
envolvida em seus próprios sentimentos para ver o que estava bem
na frente dela. Alessandro Benetti se importava profundamente com
sua irmã.
Ela gesticulou para si mesma.
— Como você pode ver, estou viva e relativamente bem. — Ela
fez um gesto de espantar para a porta. — Você pode ir agora.
Sua mandíbula se contraiu em frustração, e eu tossi uma vez,
tentando esconder a risada que não consegui conter. Sabia
exatamente como ele se sentia e, de alguma forma, podia empatizar
com o que ele estava prestes a passar.
Essa versão de Violet seria um teste até para o homem mais
paciente.
— Preciso falar com você.
Ela revirou os olhos.
— Deixe-me adivinhar… você não vai embora antes disso?
Vi o lado de seu pescoço pulsar com o rápido influxo de sangue,
mostrando que sua paciência estava se esgotando.
— Você está correta — respondeu ele, sua voz mais fria do que
antes. Ele me lançou um olhar de lado. — Podemos ter alguma
privacidade?
Assenti e virei-me para sair quando Violet me deteve.
— Não, quanto mais, melhor, certo? — Ela virou-se para mim,
tentando suavizar os olhos para enganar seu irmão, mas minha
Violet não era muito boa em mentir e carregava o coração na manga.
— Fique e feche a porta. O senhor Benetti não ficará por muito
tempo.
Eu poderia tê-la beijado ali mesmo, e se não corresse o risco de
ter meus olhos arrancados e minha língua mordida, eu o faria,
testemunha ou não.
— Fale — exigiu ela, movendo-se de seu lugar na cadeira e
apoiando os pés descalços no chão de madeira, pronta para se
levantar.
— Fui informado que você foi trazida para cá contra sua vontade.
— Tudo bem?
— Tudo bem? — Ele franziu o cenho. — O que você quer dizer
com tudo bem?
Ela deu de ombros.
— Aqui, de boa vontade ou não, não sei como isso tem algo a ver
com você. Presumo que você me queira para alguma vantagem
contra Hoka. Apenas diga a ele o que você quer agora e acabe com
isso.
— É isso que você pensa? Que você é uma mercadoria? — A voz
dele carregava uma certa tristeza.
— Vinte e um anos levou para você aparecer, e apesar de ser
mandado embora duas vezes, você apareceu novamente. Então, ou
você é lento — disse ela, levantando um dedo — o que é muito
duvidoso, ou você tem algo grande dependendo de eu ir com você. —
Ela levantou um segundo dedo. — O que eu honestamente acho que é
o caso… então apenas nos diga o que é.
Ele me lançou um olhar de lado, visivelmente desconfortável por
compartilhar o que quer que fosse compartilhar na minha frente.
Que pena, porque eu não ia a lugar nenhum.
— Quando você tinha dez anos, você queria uma bicicleta. Era
um grande aniversário, dois dígitos! Você ficava dizendo que não era
mais uma garotinha. — Ele sorriu.
Olhei para Violet, que estava completamente tensa, seu rosto
uma mistura de confusão e tristeza com a memória de sua infância.
— Havia aquela bicicleta na loja de segunda mão a algumas
portas do seu apartamento. Uma azul e verde. Era uma bicicleta de
menino, e estava um pouco avariada, mas você ficava dizendo à sua
mãe que era aquela que você queria. Não era o caso, claro, porque
você queria a bonita cor de pêssego com a cesta branca na frente. A
nova e brilhante que você olhava toda vez que sua mãe te levava para
a escola, mas você sabia que era cara demais e não queria deixar sua
mãe triste, então não disse a ela. — Ele deu alguns passos em direção
a ela e se apoiou no pé da cama dela.
— Como? — Ela deixou escapar em um sussurro quebrado
enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.
— Uma mãe sabe. — Ele respirou fundo. — Queria que você
tivesse aquela bicicleta, você merecia aquela bicicleta. Comprei a
bicicleta para você e… — Ele alcançou dentro do paletó para pegar
sua carteira e estendeu uma foto velha e desgastada. Podia-se ver
pelas marcas de dobra que ela havia sido olhada muitas vezes.
Ela segurou a foto com uma mão trêmula.
— Esse sorriso, os dentes da frente faltando, fizeram tudo valer a
pena.
Virei-me para olhar para ele e, apesar de ver apenas suas costas
e pescoço, percebi a verdade, que era tão abundantemente clara em
sua voz. Não era um truque, não era um jogo, não para ele. Ele
genuinamente amava sua irmã.
Olhei para baixo, para meus sapatos, lutando com meu próprio
senso moral. Agora que eu sabia disso, deveria incentivá-la a ir com
ele. Estar com alguém que não a machucou como eu fiz, alguém que
poderia oferecer a ela o amor e o cuidado que ela merecia. Um amor
curador que ela rejeitava de mim.
Mas, infelizmente, eu não era esse homem. A ideia de deixá-la ir
era dolorosa demais, insuportável demais para sequer considerar.
Isso me levaria diretamente à beira da insanidade.
Olhei para cima bem a tempo de vê-la devolver a foto a ele.
— Estive na sua vida o máximo que pude sem levantar suspeitas.
Eu ainda era muito jovem, e não estava em uma posição alta o
suficiente na família na época, mas posso te garantir que ajudei nas
sombras sempre que pude mesmo no final, quando sua mãe
precisava de todos aqueles cuidados. A caridade não cobriu tudo, eu
cobri.
Ela olhou para as mãos no colo enquanto torcia os dedos, e meu
coração afundou. Ela estava fazendo isso porque estava em conflito, e
pela primeira vez, realmente pensei que ela ia escolhê-lo.
Fechei os olhos por um segundo. Não faça isso, não o escolha.
Não me faça começar uma guerra.
— Por que você me deixou sozinha quando ela morreu? Se você
me vigiava, por quê?
— Porque, acredite ou não, com Giovani Benetti ainda no
comando, você estava melhor pobre do que em casa. Ele teria… — Ele
balançou a cabeça. — Você estava melhor bem longe, e eu não tinha o
poder de te proteger. Uma vez que ele se foi, precisei de tempo para
consolidar minha posição e então — ele olhou para mim, seus olhos
cheios de acusação — as coisas ficaram complicadas. — Ele voltou-se
para ela.
Ela olhou dele para mim, e meu coração saltou no peito
enquanto seu olhar permaneceu em mim alguns segundos a mais do
que o usual.
— Diga as palavras e eu te levo daqui para casa em Chicago
comigo. O que você diz?
— Serei livre?
O pavor que senti antes agora se misturava com desespero. Ela
estava me deixando. Respirei tremulamente enquanto meus pulmões
se recusavam a se encher, e ela me lançou um olhar rápido de lado
antes de olhar para Benetti novamente.
— Livre?
— Sim. Livre para ir e vir e fazer o que eu quiser.
Ele levou a mão ao queixo, esfregando-o.
— Suponho que você possa dizer que sim, mas eu te reconhecerei
como minha irmã e como uma… princesa da máfia. — Ele
obviamente desgostava da palavra tanto quanto eu. — Então, você
terá que tomar algumas medidas de segurança, mas te darei tanta
liberdade quanto puder.
Ela assentiu.
— Entendo. — Ela respirou fundo e olhou para mim novamente.
— Obrigada pela oferta, mas acho que vou ficar aqui.
Abri a boca e a fechei novamente. Será que eu realmente ouvi
isso, ou meu cérebro estava me pregando peças?
— O quê? Depois de tudo o que te contei? — perguntou ele,
espelhando meu nível de choque.
Ela assentiu.
— Não estou aqui contra minha vontade, senhor Benetti.
— Por favor, me chame de Sandro. Somos família.
Ela lhe deu um pequeno sorriso.
— Sou grata pelo que você fez por mim no passado,
verdadeiramente, mas não estou procurando por uma família. Eu
tinha uma, e ela se foi. Desejo-lhe o melhor, senhor Benetti. Desejo
que você encontre a família que tanto deseja, mas não serei eu.
— Você… Por favor, apenas…
— Acho que você a ouviu — disse bruscamente, uma vez que me
recuperei da surpresa. Não podia acreditar na minha sorte. Apesar
de todas as probabilidades, ela me escolheu, e eu não queria lhe dar
mais um minuto para reconsiderar.
Abri a porta e fiz um gesto para ele sair.
— Jiro o acompanhará de volta ao seu carro.
Alessandro deu alguns passos em direção à porta e virou-se.
— Se você precisar de algo ou mudar de ideia… apenas me ligue,
dia ou noite.
— Farei isso.
Ele estreitou os olhos com o tom desdenhoso dela.
— Você ainda tem meus contatos?
— Não, mas se for para ser, eu os adivinharei.
Ele murmurou algo em italiano antes de se afastar. Parou na
minha frente, estendendo um cartão de visita branco.
— Posso pelo menos pedir que você dê isso a ela quando ela
recuperar o juízo e decidir que quer me ligar?
Assenti, pegando o cartão e deslizando-o para o bolso.
Observei-o caminhar pelo corredor e, quando ele alcançou Jiro,
fechei a porta e virei-me para ela. Ela já estava deitada de volta na
cadeira, um livro na mão novamente.
— Você me escolheu? — Ainda estava tão surpreso que não pude
evitar que minha voz soasse como uma pergunta. — Depois de tudo…
você me escolheu.
— Parece que sim.
Dei alguns passos em direção a ela. Queria sacudi-la, beijá-la,
gritar com ela. Queria emoções, não importava o quão destrutivas.
Não queria essa casca de humana, essa mulher entorpecida e
quebrada que ela estava tentando ser de forma tão exasperante.
Olhei para ela abrindo seu livro novamente, e algo simplesmente
estalou dentro de mim — talvez devido ao medo que acabei de sentir
por quase perdê-la.
— Pare com isso! — gritei, fazendo-a pular. — Você não pode
simplesmente fingir que não sente nada. Isso não é você, Violet! Você
pode fingir o quanto quiser, mas não é esse robô frio e sem
sentimentos que você tem fingido ser na última semana! Porra! —
Passei a mão no cabelo em frustração, desfazendo o nó no processo.
— Me amaldiçoe, grite comigo, chore! Faça algo! Porra! Seja uma
lutadora! — Respirei fundo. — Seja mais como sua mãe.
Vi isso acontecer, a mudança de raiva e indignação, e sabia que
ela estava prestes a explodir, e eu ia receber tudo.
Ela pulou da cadeira.
— Como você ousa falar da minha mãe? — rugiu ela, vindo até
mim e empurrando meu peito com toda a força que podia, mas eu
não me movi. — Foi por causa dela que ainda estou aqui hoje! Eu
queria morrer!
Ela jogou as mãos para cima em exasperação enquanto meu
sangue gelava. Sabia que ela havia sofrido, mas morte? Nunca pensei
que ela tivesse contemplado a morte.
Abri a boca para falar, mas ela continuou.
— Pensei em todas as maneiras que poderia morrer. Estava tão
sozinha, acabei de perder tudo! Meu corpo estava trabalhando contra
mim e levou o único pequeno ser que me amaria sem restrições. —
Sua voz quebrou enquanto ela andava de um lado para o outro na
minha frente. — Quis morrer tantas vezes, esperando apenas
adormecer e nunca mais acordar. Estou tão cansada, tão cansada de
tudo. Estou cansada de nunca ser a primeira escolha, cansada de
estar sempre com dor, de as coisas nunca melhorarem. Estou
cansada de lutar por um futuro que parece cada vez mais sombrio.
Estou simplesmente cansada, Hoka Nishimura. — Ela parou na
minha frente, as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo. — Mas
sempre me lembrarei de como ela lutou para permanecer viva.
Como, mesmo quando tudo, incluindo seu próprio corpo, a estava
derrubando, ela lutou para continuar respirando, e eu não podia
fazer isso. Não podia acabar com minha vida. — Ela enxugou os
olhos com raiva, secando as lágrimas com as costas da mão. — Não
podia insultar e trair a pessoa que ela era fazendo isso, então
continuei caminhando, um passo após o outro.
Meu peito se partiu, e meus joelhos cederam sob o poderoso
golpe de tristeza e luto que suas palavras transmitiam. Sentei-me
pesadamente na cama dela, completamente em silêncio.
Pensei que poderia aguentar tudo, mas estava errado.
Ela retomou seu caminhar.
— A única maneira de continuar foi não sentir nada. Você
realmente acha que é tão fácil superar tudo? Superar você? Não acha
que eu não daria qualquer coisa para deixar ir? Porque, não importa
o que agora, eu perco, Hoka. Eu. Perco! — Ela bateu o dedo
indicador com tanta força no peito que pude ver a vermelhidão
aparecer em sua pele. — Não posso te perdoar. Preciso parar de te
amar! Preciso não sentir nada por você, e a única maneira de fazer
isso é você me ajudar. Preciso que você me deixe ir, e sei que você o
fará quando perceber que não há salvação para nós. Você me deixará
ir e então, finalmente, serei livre. É uma liberdade que nunca terei se
entrar no mundo de Alessandro.
Como eu poderia ter causado toda essa dor à única pessoa que já
amei?
— Você me traiu! — gritou ela novamente. — Você traiu nosso
amor, minha confiança, minha lealdade a você! Você traiu tudo em
que eu acreditava. Estava completamente sozinha quando deveria
estar sofrendo com você, quando você deveria ter me ajudado a
carregar o fardo da dor de perder nosso bebê. Você deveria estar lá!
A única outra pessoa que poderia entender essa perda, porque esse
bebê era uma parte de você também! — Ela tomou um fôlego
ofegante. As emoções eram demais para suportar. — Onde você
estava quando eu precisava de palavras de conforto? Quando eu
precisava do consolo dos seus braços? Quando eu precisava de
esperança? Você me deixou completamente sozinha, e mesmo que
isso não tenha me matado, algo dentro de mim morreu naquele dia.
Apoiei a mão no peito, mal acreditando que meu coração ainda
estava dentro do meu peito e não no chão aos pés dela. Nunca pensei
que palavras poderiam machucar, mas eu preferiria receber mil
facadas a ter uma discussão como essa novamente.
Assenti. Precisava tentar uma última vez, e então, apesar da
minha natureza egoísta, teria que deixá-la ir. Teria que expiar meus
pecados fazendo o maior sacrifício…
Eu a perderia.
— Uma semana — sussurrei.
— O quê?
Olhei para cima e sua respiração estava ofegante, suas bochechas
vermelhas de sua explosão, e era a versão mais viva dela que vi desde
que a encontrei em Montana.
— Prometi a você o Japão uma vez. Deixe-me te levar.
Partiremos no domingo. Me dê uma semana lá, e então, se você
ainda quiser ir embora, eu te deixarei ir. — Uma náusea subiu pela
minha garganta só de pensar nisso.
Ela estreitou os olhos.
— Qual é o truque?
Balancei a cabeça.
— Sem truque. Uma semana durante a qual você será
completamente minha como era antes, como se os últimos meses
nunca tivessem acontecido. Fazemos a viagem que deveríamos ter
feito, e você me deixa te beijar, te amar, estar com você, e então, se
você ainda quiser ir embora, eu te ajudarei.
— Como sei que você está falando sério?
— Dou minha palavra.
— Desculpe, mas isso não significa muito. Você jurou nunca me
machucar antes…
Aceitei o golpe em silêncio.
— O que você tem a perder?
Ela ficou tensa, seu rosto se fechando, e eu sabia o que ela não
estava dizendo. “Muito.” Ela franziu os lábios antes de morder o
lábio inferior, e eu sabia que ela estava considerando a ideia.
Apoiei as mãos nas coxas, tentando parecer muito mais relaxado
do que me sentia.
— Você espera sexo? — perguntou ela hesitantemente.
Assenti.
— Não vou me forçar em você, mas se você quiser cumprir sua
parte do acordo, então sim, espero sexo de boa vontade. Eu saberei.
— Passei o dedo sobre meu lábio inferior, quase sentindo sua
umidade quente nele, quase sentindo seu gosto na minha língua.
Ela olhou para o teto antes de me olhar novamente.
— Tudo bem — bufou ela. — Mas tenho uma condição. Você
usará preservativos.
Franzi o cenho, não feliz com a ideia.
— Estou limpo. Não estive com ninguém desde você.
Ela deu de ombros.
— Não importa. Quando você me sequestrou, bagunçou minha
pílula, e não cometerei o mesmo erro que cometi antes.
Levantei-me, uma pontada de ofensa agora se filtrando na
tristeza.
— Você considera nosso filho um erro.
— A vida obviamente considerou. — Ela cruzou os braços sobre o
peito, projetando o queixo em desafio. — Preservativos. Aceite ou
desista.
Trinquei os dentes com a ideia de usar preservativo com ela, mas
poder tocá-la novamente era um atrativo grande demais.
— Feito — respondi, caminhando de costas para a porta. — Faça
as malas. Em menos de quarenta e oito horas, você será toda minha.
Ela virou as costas para mim, mas não antes que eu visse um
pouco de excitação se misturar com seu medo e apreensão.
Você verá que pode me perdoar, Violet, que pode nos dar uma
chance novamente, pensei enquanto caminhava pelo corredor até
meu quarto.
Precisava ligar para minha mãe e organizar tudo.
Quando voltássemos, Violet estaria usando meu anel. Qualquer
outra alternativa não era aceitável.
Violet Murphy pertencia a mim. Ela só precisava se lembrar
disso.
CAPÍTULO 22
Vi
Estava sentada no jato particular de Hoka enquanto ele
caminhava até a frente do avião para falar com o piloto. Alguns
momentos depois, a comissária de bordo fechou a porta e sentou-se
no assento dobrável ao lado da porta da cabine de comando.
Perguntei-me como conseguiria lidar com um voo de doze horas
com Hoka tão perto de mim.
Virei-me para a janela e olhei para a fina garoa que cobria o
asfalto. Chuva era extremamente rara para essa época do ano na
Califórnia, e eu não podia deixar de me perguntar se era algum tipo
de presságio do que estava por vir.
Queria tanto ter aceitado a oferta de Alessandro Benetti, muito
mais do que eu esperava, mas não queria deixar mais ninguém
entrar.
Estava aprendendo com meus erros, e não estava mais
comprando os deveria, poderia, faria. Se Alessandro quisesse fazer
parte da minha vida, ele teria encontrado um jeito. Todo o resto
eram desculpas.
O mesmo poderia ser dito sobre Hoka. No final das contas, ele
não confiou em mim o suficiente. Não me amou o suficiente para me
dar o benefício da dúvida, e isso, por si só, era o problema.
Desabafar e explodir com ele outro dia foi a decisão certa, e
aliviou um pouco do peso que eu vinha carregando. Estava
respirando melhor agora, e também percebi que ele me quebrou
profundamente o suficiente para eu entender o que valho — e era
mais do que sua confiança frágil.
Aceitei ir ao Japão por algumas razões. A primeira era porque
era uma oportunidade única na vida. A segunda era para provar a ele
que, mesmo sem todas as barreiras e distância óbvias entre nós, não
havia conserto para isso. Finalmente, queria dar a esse
relacionamento um adeus apropriado — ter um último beijo, um
último orgasmo — sabendo que seria o último.
Meu assento tremeu um pouco quando Hoka tomou o lugar ao
meu lado.
— Você sabe que os outros doze assentos estão desocupados,
certo? — perguntei, olhando intencionalmente ao nosso redor.
— Estou ciente, obrigado. Gosto de me sentar ao seu lado. — Ele
apontou com a cabeça para a porta da cabine de comando. — O avião
decolará em alguns segundos, e assim que as rodas deixarem o chão,
você será minha.
O calor em seus olhos e a promessa baixa em sua voz me fizeram
estremecer de antecipação e medo. Era uma aposta arriscada, e
quanto mais eu pensava sobre isso, mais temia perder.
Você não pode se perder novamente, Violet. Você não pode se
permitir se apaixonar por ele novamente, porque ele vai partir seu
coração outra vez, e dessa vez você não conseguirá sobreviver. Esse
seria meu mantra pelos próximos sete dias. Ele tinha que me ajudar
a seguir em frente, e só poderia fazer isso me deixando ir.
Os motores rugiram à vida, e a apreensão de voar conseguiu me
distrair dos olhos possessivos de Hoka por alguns minutos.
O avião começou a se mover lentamente, girando até estar de
frente para a longa pista. Quando começou a acelerar, recostei-me no
assento, fechei os olhos com força e agarrei o apoio de braço com
toda a minha força.
— Você tem medo de voar? — sussurrou Hoka, e eu podia sentir
seu hálito no meu rosto. Ele estava tão perto, perto demais, mas,
apesar de tudo, senti-lo ali me fazia sentir melhor.
— Não sei. Nunca voei antes — respondi com o coração na
garganta enquanto o avião ganhava velocidade, o motor
ensurdecedor.
Ele soltou minha mão do apoio de braço e entrelaçou nossos
dedos, palma com palma, e eu apertei sua mão com toda a força que
podia.
— Deixe-me te distrair. — Senti seus lábios roçarem a concha
externa do meu ouvido.
Estava prestes a dizer que nada poderia me distrair dessa
máquina de morte voadora quando senti sua mão livre segurar meu
rosto e ele virou minha face para ele.
Não tive nem chance de abrir os olhos antes que seus lábios
estivessem nos meus — suaves, quentes e reconfortantes. Ele me
beijou gentilmente no início, apenas roçando os lábios nos meus.
Sem nem mesmo um pensamento consciente meu, passei a ponta da
língua pela junção de seus lábios, e isso teve o efeito de gasolina no
fogo.
Ele agarrou a parte de trás da minha cabeça e, quando deixei
escapar um pequeno suspiro de surpresa, ele invadiu minha boca
com sua língua — provando-me, possuindo-me, marcando-me com
toda a masculinidade poderosa que o tornava quem ele era.
Ele mordeu meu lábio inferior, e eu imediatamente retribuí,
fazendo-o sorrir contra minha boca.
— Aí está você, gatinha. Senti sua falta — murmurou ele antes de
aprofundar o beijo tão completamente que parecia que ele estava
tentando me virar do avesso.
Gemi e agarrei seu coque, puxando-o para perto e deixando-me
mergulhar nas sensações que percorriam todo o meu corpo como
centenas de pequenas correntes elétricas correndo pelas minhas
veias. Afoguei-me no sabor dele — café forte e algo mais que eu não
conseguia identificar, mas suspeitava que era apenas algo cem por
cento Hoka e absolutamente viciante.
Quando ele finalmente interrompeu o beijo, encostou sua testa
na minha enquanto ambos tentávamos recuperar o fôlego.
Abri os olhos e pisquei algumas vezes, sabendo que deveria me
afastar de seu abraço, mas incapaz de fazê-lo ainda.
— Então, funcionou? — perguntou ele, movendo-se ligeiramente
e levantando a mão para segurar meu rosto.
— Funcionou?
Ele me deu um meio sorriso cheio de orgulho.
— A distração. — Ele roçou o polegar na minha bochecha. — Vou
tomar isso como um sim.
— Oh! — exclamei enquanto olhava pela janela, notando que
agora estávamos alto no céu. — Eu… Sim, suponho que funcionou —
respondi de forma bastante estúpida.
— Ótimo. — Ele continuou esfregando minha bochecha
suavemente e beijou meus lábios, uma, duas vezes, antes de se soltar
e se virar para frente, gesticulando para a comissária avançar.
Pedi um copo de vinho branco, esperando que acalmasse meus
nervos, porque permitir que ele me desse todos aqueles pequenos
atos de ternura estava machucando minha alma pelo quanto eu
amava seu toque, o quão bem seus lábios podiam me fazer sentir, e o
quão fácil seria para mim voltar ao nosso relacionamento.
— Onde você mora no Japão? — perguntei uma vez que
tínhamos nossas bebidas e um prato cheio de petiscos de dar água na
boca.
Ele se recostou no assento, o copo de licor na mão. Suspirou com
contentamento, como se tudo estivesse certo em sua vida. Como se
ele tivesse esquecido que esse fingimento era apenas temporário.
— Temos uma propriedade nas montanhas, afastada de tudo e
de todos. Fica a cerca de uma hora de Fujiyoshida e faz fronteira com
o Lago Kawaguchi. Do outro lado do lago, você tem uma vista
deslumbrante do Monte Fuji.
— Parece um paraíso — disse, tentando imaginá-lo na minha
cabeça.
— Realmente é. Está na minha família desde 1571, e meu
tataravô, um samurai muito poderoso, construiu para nós.
— Espero que tenha sido atualizado desde então.
Ele riu, e apesar de tudo, gostei do brilho de humor em seus
olhos.
— Prometo que é tudo de última geração. Não haverá banhos no
lago, uso de balde como banheiro ou cozinhar sua comida no fogo de
lenha. É mais como uma banheira de hidromassagem em todos os
oito banheiros, TVs de tela plana, geladeira falante e outros
aparelhos ridículos! Minha mãe não viveria em nenhum lugar menos
que isso.
Isso me deixou um pouco mais sóbria. Era uma coisa fingirmos
estar juntos novamente, fingir que podíamos consertar isso, mas era
outra coisa envolver outras pessoas e enganá-las.
— O que você disse à sua mãe sobre mim?
Ele tomou um gole de sua bebida e virou a cabeça para mim.
— Nada que não seja verdade.
Torci os lábios para o lado, não gostando da sua resposta.
— Hoka…
Ele revirou os olhos.
— Disse a ela que estava trazendo o amor da minha vida.
— Hoka! Você… você não pode dizer coisas assim para ela.
— Por que não?
Balancei a cabeça.
— Porque não é verdade!
Ele franziu o cenho.
— Sim, é. Você é o amor da minha vida, Violet Murphy, acredite
ou não. Nada do que disse a ela sobre você, sobre nós, é mentira.
— Eu… — O que eu poderia dizer a ele? Ele não estava disposto a
ouvir. Peguei um canapé de salmão defumado e enfiei na boca.
— Eu te quero — disse ele diretamente, fazendo-me engasgar
com a comida.
Lancei um olhar para a comissária, que era bastante boa em
fingir estar ocupada arrumando os copos no pequeno bar.
— Acho que será difícil fazer qualquer coisa com testemunhas
por perto.
Ele sorriu e se levantou, como se estivesse esperando que eu
caísse em sua armadilha.
— Não se preocupe com isso. — Ele apontou para trás. — Tenho
uma bela cama esperando por nós.
Peguei sua mão e o segui pelo corredor até o quarto
impressionantemente grande.
Meu coração, já confuso demais, batia forte no peito. Não estava
pronta para isso — para ceder à intimidade à qual eu era viciada, a
intimidade que ainda desejava, fazendo-me odiar a mim mesma.
Empurrei-o para a cama e montei nele. Tinha que manter o
controle, porque tinha certeza de que, se me perdesse em seus
braços, não me encontraria novamente.
Ele sorriu, descansando as mãos nos meus quadris e levantando
a pélvis, esfregando seu pau duro contra meu jeans.
Ele apertou meus quadris.
— Senti sua falta, querida. Senti tanta falta de você.
Inclinei-me e beijei seu queixo afiado, descendo pelo pescoço,
abrindo os botões de sua camisa, beijando seu peito, descendo
lentamente.
Não podia negar que sentia falta do cheiro de sua pele, de sua
suavidade, do calor de seu grande corpo, e de suas belas tatuagens
que descreviam toda a sua história.
Pare de beijá-lo quando cheguei ao centro de seu peito e notei a
nova tatuagem ali. Tracei-a levemente com as pontas dos dedos.
Ele colocou a mão sobre a minha.
— Fiz essa há alguns meses, quando estava te procurando. — Ele
passou os dedos nas costas da minha mão. — Essa é a única
tatuagem que não está relacionada ao meu papel ou à minha cultura.
Essa tatuagem é a mais preciosa que tenho porque é nós, nosso
amor. — Ele soltou minha mão para que eu pudesse olhar para ela.
— É um buquê de violetas, cercado por camélias. Você e eu,
sempre.
Sempre… Se ao menos fosse verdade, pensei enquanto beijava a
tatuagem e continuava descendo pelo seu corpo.
Ele sibilou e levantou os quadris enquanto eu desabotoava seu
cinto e puxava suas calças e cueca para baixo, seu pau duro saltando
livre, batendo forte e irritado contra seu estômago.
Envolvi a mão ao redor dele, apertando um pouco como sabia
que ele gostava.
Girei a língua ao redor da ponta, e ele deixou escapar um gemido
enquanto eu lambia as gotas de pré-gozo. Nunca teria esperado isso,
mas amava fazer boquete nele, amava o poder que minha boca tinha
sobre esse homem. Como apenas minha língua podia desmontá-lo.
Comecei a lambê-lo de cima a baixo, minha mão circulando a
base de seu pau e acariciando em direção à minha boca, alternando
entre minha língua e minha mão.
— Violet, porra… Eu te amo — rosnou Hoka em êxtase, movendo
os quadris.
Envolvi meus lábios ao redor da cabeça de seu pau e lentamente
abaixei minha boca sobre ele até que ele atingiu o fundo da minha
garganta. Comecei a mover a cabeça para cima e para baixo com
fervor.
Ele movia os quadris mais rápido, mais forte, gemendo e
suspirando sem vergonha. Comecei a chupar mais firmemente a cada
movimento para baixo.
Não pude evitar gemer, desfrutando tanto do prazer dele que
senti a umidade cobrindo minha calcinha.
Puxei seu pau para dentro da minha boca, engolindo enquanto
ele atingia o fundo da minha garganta para levá-lo o mais fundo
possível.
Ele gemeu mais alto enquanto fechava a mão no meu cabelo,
empurrando-me para baixo no último centímetro. Seu pau estava
completamente dentro da minha boca, suas coxas pressionadas
contra minhas bochechas, meu nariz em seu colo.
Sua respiração tornou-se errática enquanto ele soltava meu
cabelo e chamava meu nome, sua voz implorando por alívio.
Comecei a acariciar seu saco pesado, e ele murmurou palavras
em japonês — um sinal de que seu orgasmo era iminente.
— Violet, Violet! Isso é… Porra! Senti falta da sua boca perversa.
Querida, você está me matando! — gritou ele, e aumentei o ritmo e a
intensidade a cada movimento.
Senti sua ereção flexionar, e foquei minha boca e língua na
cabeça de seu pau. Ele explodiu com um rugido, e eu movi a cabeça
rapidamente, engolindo jato após jato de porra quente enquanto
descia pela minha garganta.
Completamente exausto, ele suspirou, os braços pesados ao lado
do corpo, os olhos semicerrados. Lentamente, tirei seu pau mole da
minha boca e o coloquei de volta em suas calças.
Estava prestes a me levantar quando ele me alcançou. Ele era
insanamente rápido para alguém à beira do sono.
— Fique comigo. — Sua voz estava pesada de sono. — Por favor
— acrescentou ao ver a hesitação no meu rosto.
Suspirei e deitei ao lado dele, apoiando a cabeça em seu peito
enquanto ele envolvia o braço ao meu redor.
— Eu te amo, Violet.
Beijei seu peito, mas permaneci em silêncio, sabendo que, se
dissesse as palavras em voz alta, começaria a sangrar novamente.
Assim que sua respiração se aprofundou, movi-me e olhei para
seu rosto relaxado. Tracei a linha reta de seu nariz, a borda afiada de
sua mandíbula.
Beijei seus lábios suavemente.
— Eu também te amo… Que Deus me ajude, eu amo. Só não
quero — sussurrei antes de sair do quarto e fechar a porta atrás de
mim.
Sentei-me no assento que ocupava antes e olhei pela janela,
vendo nada além de céu azul.
Aceitei a comida e a bebida da comissária, depois reclinei o
assento para deitar ali com um dos livros que peguei da biblioteca de
Hoka. Como era triste que um assento de avião fosse muito mais
confortável do que a maioria das camas em que dormi?
Li algumas páginas até que meus olhos começaram a pesar — a
falta de sono nas últimas duas noites e a turbulência emocional
estavam me esgotando completamente.
A visita de Alessandro foi inesperada, e todas as suas palavras
soavam boas demais para serem verdadeiras, muito bem ensaiadas,
mas as coisas que ele sabia sobre mim e minha mãe, a foto… era
difícil negar. Depois, havia Hoka e todas as suas palavras de amor e
devoção.
Ceder seria fácil, doce e reconfortante, mas eu não era a mesma
mulher que fui antes, e não o via com os mesmos óculos embaçados
que tinha antes.
Fechei os olhos com um suspiro. Precisava dormir. Precisava
estar pronta para enfrentar o mundo e a outra vida de Hoka assim
que o avião pousasse. Encolhi-me de lado, de frente para a parede, e
tentei deixar de lado todos os pensamentos preocupantes enquanto o
som monótono dos motores me embalava para o sono.
Fui acordada por uma mão acariciando suavemente minha
bochecha.
— Hmm? — Mantive os olhos fechados, aninhando meu rosto na
mão quente.
Senti lábios contra minha testa, e abri os olhos, piscando para
afastar a nebulosidade do sono.
— Hoka? — Minha boca estava seca e pesada. Só podia imaginar
o hálito de morte que eu tinha.
Ele continuou inclinado sobre mim, sentado no assento ao meu
lado.
— Querida — disse ele, ainda tocando meu rosto com seus dedos
gentis, afastando uma mecha de cabelo da minha testa.
Ele estava recém-banhado, vestindo um terno limpo e
impecável, seu perfume único de sabonete de verbena e colônia
amadeirada tão reconfortante no meu estado meio acordado. Queria
apenas me encolher contra ele e enterrar meu rosto em seu pescoço.
Seu rosto se abriu em um sorriso terno enquanto sua mão
parava para segurar minha bochecha.
— Bom dia, linda. — Sua voz estava mais profunda que o usual
enquanto seus olhos dourados giravam com uma mistura de
emoções, aparentemente tão em guerra com seus sentimentos
quanto eu estava com os meus.
Virei-me de costas, quebrando o contato visual e meu desejo
crescente de beijá-lo. Esfreguei os olhos.
— Que horas são?
— Depende de onde você está no mundo. Se está se perguntando
que horas são em casa, provavelmente são sete da noite, mas se quer
saber sobre Fujiyoshida… são onze da manhã.
Assenti enquanto me espreguiçava.
— Vamos pousar em algumas horas. Pensei que você poderia
querer um banho.
Virei-me de volta para ele.
— Já?
— Sim. — Seu sorriso tornou-se malicioso. — Parece que me dar
aquele boquete alucinante te relaxou tanto quanto relaxou a mim.
Senti o calor de um rubor tingir minhas bochechas.
Hoka tomou um fôlego rápido.
— Oh, como senti falta do seu rubor. Senti falta da sua vida. —
Ele se inclinou e roçou os lábios na maçã do meu rosto. — Não pense
que não sei por que você fez isso — murmurou contra minha pele. —
Se você não está pronta para intimidade física, não precisa me
enganar, não que eu não tenha apreciado. — Ele riu.
Virei a cabeça para olhá-lo em silêncio.
— Tudo bem se você não quiser fazer sexo, sabe. Entendo que
deve ser difícil se entregar a mim desse jeito depois… depois de tudo.
— Mas o acordo?
Seu sorriso feliz tornou-se um pouco triste.
— O acordo não é importante. Só queria que você tentasse
quando estivesse pronta. Não quero que você se entregue a mim a
menos que realmente queira.
Meu coração se encheu com uma onda de gratidão.
— Não fiz nada que não quisesse fazer.
Alívio tomou conta de seu rosto, e ele beijou a ponta do meu
nariz antes de se sentar mais reto.
— Deixei roupas e uma toalha para você na cama.
Assenti e corri para o banheiro. A cabine era tão pequena que
parecia que eu havia entrado em um filme de ficção científica.
O banho foi maravilhoso, e rapidamente me vesti com o lindo
vestido verde que Hoka escolheu para mim e puxei meu cabelo para
trás com a faixa de cabelo combinando. Olhei-me no espelho e senti
uma certa satisfação e paz que não sentia há meses.
Minhas bochechas estavam mais cheias, minha pele voltou ao
seu tom leitoso normal, deixando para trás o tom acinzentado.
Meus lábios ainda estavam um pouco inchados e vermelhos do
boquete que dei a Hoka, e o leve rubor com a memória me fazia
parecer mais saudável.
Eu parecia a garota que fui antes, e se não fosse pelas cicatrizes
pulsantes no meu coração, poderia quase acreditar que era.
Quando voltei para a cabine principal do avião, Hoka gesticulou
para a comissária, que colocou um prato de comida quente na mesa à
frente do meu assento.
— Venha, coma e aproveite a vista — disse ele, estendendo a mão
para mim.
Peguei sua mão e, mais uma vez, apenas o pequeno contato fez
meu corpo vibrar com consciência enquanto ele me puxava
gentilmente pelo corredor até meu assento.
Sentei-me e olhei pela janela para a forma da ilha que ficava
clara enquanto começávamos a descer lentamente.
— Estamos aqui — sussurrei, mal acreditando que estava no
Japão.
— Bem-vinda à minha segunda casa, Suītohāto. — Ele
pressionou um beijo na parte de trás do meu pescoço. — Mal posso
esperar para compartilhá-la com você.
CAPÍTULO 23
Vi
A descrição de Hoka sobre sua casa não fazia justiça a ela. Desci
do avião na pista particular, e fomos escoltados pela equipe de
segurança até o Range Rover preto de luxo. Meu rosto esteve
grudado na janela até chegarmos ao posto de segurança da entrada
da propriedade da família de Hoka.
Estava tão fascinada pela beleza que se desdobrava diante dos
meus olhos que nem me incomodei que Hoka segurasse minha mão
desde o momento em que saímos do avião. Nem tive chance de sentir
nervosismo apropriado por conhecer sua mãe até que o carro parou
em frente à gigantesca Minka vermelha e branca, e uma mulher mais
velha deslumbrante, com olhos tão dourados quanto os de Hoka,
estava no topo das escadas com um sorriso.
Ela me recebeu com um abraço de urso e um entusiasmo que eu
não esperava. Até pediu que eu a chamasse pelo primeiro nome, Ena.
Por algum motivo, esperei que a mãe de Hoka fosse toda sobre
decoro e polidez fria, como uma esposa de político.
Não esperava uma mulher alegre e acolhedora que não parecia
ter mais de trinta anos, se não fosse pelas mechas brancas em seu
cabelo.
Ela me tomou em seus braços e me mostrou a casa com
entusiasmo, e lancei um último olhar para Hoka antes de virar a
esquina. O olhar que ele nos deu fez meu estômago dar um salto.
Essa semana seria a prova da minha vida…
— Pensei que teria que enviar uma equipe de busca.
Virei a cabeça para o lado e vi Hoka descendo pelo caminho
empoeirado, o cabelo em um coque bagunçado e vestindo um par de
calças de pijama. Tive uma visão deliciosa de seu peito tonificado e
abdômen definido — tudo isso que eu amava traçar com minha
língua.
Lancei um olhar furioso para a visão tentadora e virei a cabeça
para o lago plácido que refletia o Monte Fuji, que se erguia
orgulhosamente no horizonte.
Ele sentou-se ao meu lado sob a cerejeira e permaneceu em
silêncio, como se apenas estar perto de mim fosse suficiente.
— Não percebi que era tão cedo — admiti depois de um tempo,
levantando as pernas e apoiando o queixo no topo do joelho. — O sol
já estava tão brilhante, e acordei me sentindo tão bem descansada.
— Sim, o sol nasce muito cedo aqui, e fico feliz que você tenha
dormido bem, é sempre difícil em um lugar novo.
Virei a cabeça para ele, mantendo minha posição, minha
têmpora agora apoiada contra meu joelho.
— Você dormiu bem?
— Sim, poderia ter sido melhor, no entanto, mas não posso
reclamar. — Ele passou a mão pela extensão das minhas costas. Sabia
o que ele queria dizer, sua mãe nos colocou em quartos interligados,
e Hoka deixou a porta entre eles aberta. Era obviamente um convite
para eu dar o primeiro passo, mas depois de tudo o que já havia
acontecido entre nós no avião, eu não era imprudente o suficiente
para aceitá-lo.
— Você parecia tão tranquila sentada aqui. Quase não quis te
incomodar.
— Você não está me incomodando. — Virei-me para o lago
novamente, sentindo-me aquecida apenas por sua mão descansando
nas minhas costas. — Sua mãe me deu um tour pelos terrenos ontem,
e este lugar é simplesmente… — Fechei os olhos e respirei fundo,
apreciando o leve perfume floral que a brisa carregava. — Não é à toa
que ela decidiu ficar aqui.
— Ela te ama — disse ele, passando o polegar ao longo da base da
minha coluna.
— Ela é uma mulher incrível — respondi, ignorando
propositalmente seu comentário.
— Você se encaixa perfeitamente nesta cena, sabe. Você verá isso
na festa hoje à noite.
A apreensão me encheu mais uma vez. As pessoas de Hoka na
América desaprovavam-me, e eu só podia imaginar como as pessoas
dele aqui me veriam.
Não deveria me importar com como eles me viam. Na verdade,
seria melhor se me odiassem, dando-me mais um motivo para me
afastar de Hoka.
— Aprendi a nadar aqui, mas minha avó me contou uma história
sobre um dragão que vivia neste lago. Fiquei tão aterrorizado, mas
não queria mostrar ao meu pai, então entrei bravamente. Então vi
algo se mover na água provavelmente era um peixe pequeno,
intrigado pelo movimento na água, mas a história que minha avó me
contou simplesmente veio à mente. — Ele riu. — Enquanto saía
correndo da água, soltei um grito agudo tão alto que minha mãe
ouviu do outro lado da casa.
Ri, relaxando as pernas e virando-me para ele novamente. Podia
vê-lo na minha mente tão perfeitamente depois que sua mãe me
mostrou fotos dele como menino na noite passada. Ri ainda mais
forte, imaginando seu pai severo tentando acalmá-lo.
Será que ele provocaria nosso filho da mesma forma? O
pensamento surgiu na minha cabeça sem aviso, e meu bom humor
esvaziou em um segundo.
Senti o vazio do meu ventre novamente, e o eco da perda me
acertou como um tapa no rosto.
Hoka notou a mudança enquanto seu sorriso desaparecia, e ele
estendeu a mão para mim.
Rolei para o lado para desviar de seu toque e me levantei,
limpando a parte de trás das minhas calças de ioga da terra em que
estive sentada.
— É melhor eu me preparar para o dia. Sua mãe quer me levar
pelo vilarejo, e depois preciso me arrumar para a festa hoje à noite.
— Para onde você foi? — perguntou ele de seu lugar no chão, os
cantos dos olhos tensos com preocupação.
Olhei para o caminho.
— Acabei de voltar à realidade. Parece que me esqueci por um
minuto. — Admiti tristemente. — Isso não acontecerá novamente. —
Virei-me, movendo-me lentamente de volta para a casa, deixando-o
digerir minhas palavras.
— Case comigo.
Tropecei em uma pequena pedra e girei.
Hoka me seguiu pelo caminho tão silenciosamente que pensei
que ele tinha ficado no lago, a algumas centenas de metros atrás.
— O quê?
— Case comigo — repetiu ele, ficando ereto, seu rosto mostrando
a determinação de um homem indo para a guerra.
Olhei quase suplicante para a casa. Estava tão perto! Poderia
apenas dar alguns passos e me esconder no conforto do meu quarto.
— Hoka — balancei a cabeça. — Não.
— Você não vê como você se encaixa bem em tudo isso? Nesta
casa, na minha vida, no meu coração. Você não vê que esta vida é
onde você pertence?
— Agora não é hora de discutir isso. — Nunca seria o melhor.
— Mas você vê, certo? — Ele deu um passo hesitante em minha
direção. — Você vê que pertence a mim.
— Vejo que você acredita nisso. — Por enquanto. Respirei fundo
e balancei a cabeça. — Preciso me preparar. Te vejo depois.
— Watashi wa anata to issho ni iru toki, motto watashi rashiku
naru — chamou ele enquanto eu alcançava as escadas.
Olhei para cima e vi sua mãe na sombra da porta aberta, suas
mãos apoiadas sobre o coração enquanto ela me olhava com uma
compaixão que quase me fez cair de joelhos.
Assenti enquanto passava por ela, não confiando na minha voz
no momento.
— Sou muito mais eu quando estou com você — sussurrou ela
enquanto eu passava.
Parei, mantendo as costas para ela.
— Foi o que ele disse. “Sou muito mais eu quando estou com
você.” — Sua voz carregava uma tristeza que imaginei ser o luto de
uma mãe diante da turbulência de seu filho.
Fechei os olhos e tentei engolir o nó de emoções na minha
garganta.
— E eu me perco quando estou com ele — respondi tão
suavemente quanto, mas com um desespero que esperava transmitir
minha própria luta. Retomei minha caminhada, grata por ela não
adicionar nada até que eu alcançasse a relativa segurança do meu
quarto designado.
***
— Está realmente tudo bem para mim usar isso… — Parei, não
lembrando o nome.
Ena colocou as mãos nos meus ombros, e encontrei seus olhos
no espelho.
— Wafuku, e sim, por que não estaria?
— Oh, você sabe que não sou… — Deixei alguns segundos
passarem, sem certeza de como dizer as coisas. — Japonesa.
Ela riu, aproveitando meu desconforto.
— Você não precisa ser, querida, não é assim que funciona.
Apenas pessoas insuportáveis e arrogantes como o tio de Hoka
parecem pensar que é.
Virei-me, olhando para ela com a boca aberta em choque.
— O quê? — Ela deu de ombros. — Você não pode negar.
Foi minha vez de rir, apoiando a mão na boca.
— Não, não posso.
Ena estava usando um traje semelhante ao meu, mas o dela era
mais sóbrio, feito de tecido marrom e vermelho escuro. O meu era
vermelho-sangue com flores brancas e amarelas.
— As cores significam algo? — perguntei, olhando-me
novamente no espelho, observando como ela prendia meu cabelo e
fazia minha maquiagem.
— Você é tão linda — disse ela com um sorriso orgulhoso que
quase me fez chorar. Era o tipo de sorriso que minha mãe costumava
me dar.
Ela se aproximou e passou suavemente o dedo em direção ao
canto dos meus olhos para limpar um pouco do kohl preto que havia
borrado.
— Sempre quis uma filha. Terei que agradecer aos ancestrais
amanhã por me darem uma.
Uma pitada de culpa se adicionou à pilha já crescente que eu
sentia por enganar a mulher.
— Sabe, eu… não sei ao certo o que Hoka te disse, mas não
estamos juntos, não realmente, não assim.
— Eu sei. — Ela assentiu algumas vezes. — Mas vejo como ele te
olha e o jeito que você olha para ele quando acha que ninguém está
olhando.
Olhei para baixo e corei por ser tão transparente, mesmo para
alguém que mal conhecia.
— Não fui feita para isso, não fui feita para a vida dele. Ninguém
aprova nós.
Ela segurou meu rosto e beijou a outra bochecha.
— Eu aprovo. Aprovo com todo o meu coração. Rezei por alguém
como você.
— Por que?
Ela suspirou.
— Todos estão preocupados com o poder, mas eu só me importo
com o coração dele. Você o ama, profundamente.
Olhei para a porta.
— É melhor irmos, não? — Estava muito mais inclinada a
enfrentar uma sala cheia de pessoas desaprovadoras do que ter essa
conversa coração a coração com a mãe onividente de Hoka.
Ela me deu um meio sorriso, mostrando que sabia exatamente o
que eu estava tentando fazer.
— Precisamos esperar o chamado — respondeu rapidamente. —
Eu te vi esta tarde, sabe, parada nas sombras do templo, olhando
para Hoka no campo.
Minhas bochechas arderam de vergonha. Senti-me como uma
voyeur olhando para ele, sem camisa e ajoelhado, fazendo
movimentos com sua katana, seus músculos poderosos das costas se
movendo com cada um de seus movimentos precisos.
— Parecia privado, e não quis interromper. — Que mentira! Vê-
lo me deixou com tesão pra caralho, e sabia que um olhar quente
dele teria sido suficiente para me colocar de boa vontade sob ele.
— Era penitência, o pedido dele aos ancestrais para concederem
sua alma, sua força vital de volta — explicou ela.
Franzi o cenho.
— Ele a perdeu? — Ele parecia bem poderoso para mim.
— Sim — respondeu ela tristemente. — Quando ele te perdeu.
Isso me machucou por ele, e mesmo que quisesse fazê-lo se
sentir melhor, fazê-lo se sentir inteiro novamente, tinha que me
proteger primeiro.
— Aconteceu muita coisa.
— Mas você o ama.
— Menos. — Não havia sentido em negar que ainda o amava. A
verdade era que agora o via claramente, o que me impedia de ser do
jeito que ele queria que eu fosse, do jeito que ele precisava que eu
fosse.
— Não é tarde demais para permitir-se perdoar e ser feliz. — Ela
se abaixou e pegou minha mão entre as dela. — Há uma dualidade no
meu filho. A bondade que ele mostra a você e a crueldade que ele
mostra ao mundo… e às vezes isso vaza.
Abri e fechei a boca, sem saber o que poderia dizer quando um
gongo alto me fez pular.
— Ah. — Ela me deu um olhar brincalhão. — Você foi
literalmente salva pelo gongo. Vamos, Yome.
Quando entramos na área de recepção, fiquei aliviada ao ver que
havia muito menos pessoas do que eu esperava. Também fiquei
satisfeita ao perceber que a maioria dos olhares na minha direção
eram curiosos e especulativos, desprovidos de qualquer objeção ou
desaprovação.
Sorri para algumas pessoas enquanto Ena me apresentava em
japonês, e usei as poucas palavras que lembrava, como
hajimemashite, que significava “Prazer em conhecê-lo”. As pessoas
aqui estavam simplesmente encantadas com meus esforços, e após
alguns minutos, senti-me relaxada o suficiente para sorrir um pouco
mais naturalmente.
Pelo menos isso era verdade, até que uma porta nos fundos se
abriu e Hoka entrou, seguido por alguns homens. Todos estavam
usando quimonos pretos, mas o de Hoka tinha uma faixa dourada
que combinava com sua katana preta e dourada pendurada ao seu
lado. Ele se destacava sobre todos, parecendo tão feroz e poderoso.
Quando o olhei assim enquanto ele procurava pela sala, quase
esqueci tudo o que me impedia de dar o salto novamente e mergulhei
na sensação de segurança que sua mera presença na sala incutia em
mim.
— Esse é o olhar de que eu estava falando — sussurrou sua mãe
no meu ouvido. Seus olhos conectaram-se com os meus, e o calor que
irradiava de seu olhar me fez estremecer, mas não era por frio ou
medo — era meu corpo chamando por ele.
Ele atravessou a sala, mantendo os olhos em mim, afastando as
pessoas como um homem em uma missão.
Parou bem ao meu lado e envolveu seu braço ao meu redor,
puxando-me para perto de seu corpo.
— Obrigado por este presente, Okan. Eu cuido a partir daqui —
disse ele à sua mãe, inclinando-se para beijar sua bochecha antes de
se virar para mim, olhando-me com tanta emoção em seus olhos que
quase parecia que ele estava prestes a chorar.
— Hoka? — Tentei, um pouco envergonhada com seus olhares
silenciosos e ardentes. Deve ter sido muito constrangedor para as
pessoas ao nosso redor. Lancei um olhar para o lado, mas notei que
sua mãe e as duas senhoras mais velhas com quem ela estava
conversando agora estavam ausentes. — Hoka, diga algo.
Ele se abaixou e roçou o nariz no meu antes de olhar para cima
novamente.
— Eu poderia ter jurado esta manhã que não poderia te amar
mais do que já amo, mas agora, acabei de superar isso, e sei que
amanhã também o farei. — Sua mão apertou contra meu quadril.
— Qual é o presente?
Ele me deu um sorriso malicioso.
— Ela te vestiu como uma noiva nova. Vê-la assim só me motiva
ainda mais a tornar isso oficial.
— Oh! — Olhei ao redor e lancei um olhar exasperado para sua
mãe, que apenas arqueou uma sobrancelha com um sorriso astuto. —
Ela é astuta.
— Ela é a melhor. Vamos, amor, deixe-me te mostrar por aí.
— Hoka, não — sibilei enquanto ele me puxava pela multidão até
o grupo de homens com quem chegou. — Não sou sua noiva.
— Você é. Talvez não oficialmente, talvez nem mesmo para você,
mas para mim… você é. Fiz esse compromisso com você em todos os
sentidos que importam e por meio de um juramento de sangue aos
ancestrais. — Ele olhou para mim logo antes de alcançarmos os
homens. — Você pode não se ver como minha, mas eu sou seu,
Violet, e isso é tudo o que preciso saber.
Eu também sou sua, Hoka Nishimura. Só não estou disposta a
te dar de volta esse poder.
CAPÍTULO 24
H a
Ver Violet vestida de noiva me destruiu completamente. Tudo o
que eu queria era cair de joelhos diante dela e implorar por outra
chance. Implorar como eu havia implorado aos ancestrais por ajuda
para tê-la de volta.
Minha mãe demonstrou total apoio ao vesti-la assim e estar ao
seu lado quando entraram na sala. Não acho que Violet entendia o
peso que esta noite teria para nós. Ela conheceu os verdadeiros
anciões esta noite — os homens mais poderosos da yakuza. Os
anciões eram muito mais poderosos do que eu, mas eu a fiz acreditar
que eram meus tios ligeiramente senis. Seu grande coração e
compaixão pelos mais frágeis tomaram conta, como eu sabia que
fariam, e ela os encantou tão facilmente quanto me encantou.
Sabia que, até amanhã, a notícia da noiva de Nishimura teria
chegado aos Estados Unidos, junto com a aprovação dos anciões.
Se eu tivesse sorte o suficiente, Violet daria o salto mais uma vez.
Sabia que ela era corajosa o suficiente para tentar novamente. Ela
não achava que podia, não achava que tinha força, mas eu sabia
melhor. Eu vi com meus próprios olhos. Violet tinha o coração de
uma leoa. Ela só precisava querer lutar mais uma vez, e eu faria da
minha vida uma missão nunca mais machucá-la, nunca mais duvidar
dela, e garantir que ela nunca se arrependesse de me dar mais uma
chance.
Estiquei o pescoço e estremeci com a dor. A roupa e a katana ao
meu lado a noite toda não foram as mais confortáveis, e comecei a
sentir a dor.
Violet e minha mãe haviam se retirado há mais de uma hora,
mas os anciões quiseram falar um pouco mais sobre os negócios nos
Estados Unidos, e eu não tinha escolha senão obedecer. Afinal, eu
vinha adiando essa viagem por tempo demais.
Parei em frente ao quarto de Violet e quis bater. Meu pau se
agitou novamente com a imagem dela vestida como minha noiva.
Essa mulher era meu vício.
Respirei fundo e me forcei a dar alguns passos em direção ao
meu quarto. A porta de conexão estava aberta, então era decisão
dela.
Entrei no meu quarto e, mesmo sem vê-la ainda, sabia que ela
estava lá. Meu corpo vibrava em reconhecimento, como sempre fazia
quando ela estava por perto. Minha mãe me assegurou que era o laço
ikigai, ela sabia disso porque era o que compartilhava com meu pai.
Ela me garantiu que, por mais que Violet negasse, ela provavelmente
sentia o mesmo.
Virei-me para onde o perfume dela parecia originar, e a
encontrei olhando pela janela, de costas para mim.
— A lua parece muito maior aqui — murmurou ela depois que
deslizei a porta para fechá-la atrás de mim.
Removi minha katana e a coloquei no chão antes de dar alguns
passos e acender a vela no console, com medo demais de ligar a luz e
quebrar o encanto de qualquer momento que estivéssemos prestes a
compartilhar.
— Sim, também notei isso. — Parei atrás dela, não perto o
suficiente para tocar, mas perto o suficiente para ver todos os sinais
de seu nervosismo e apreensão. Eu podia ver isso no pulsar da veia
em seu pescoço esguio, na respiração superficial que ela tomava, e no
jeito que ela torcia as mãos juntas.
— Tudo é muito mais bonito aqui. As cores são mais vívidas, a
comida tem mais sabor, as estrelas brilham mais intensamente. Sinto
como se estivesse em um sonho particularmente bom, e não quero
acordar.
Dei um pequeno passo mais perto e, ao pressionar meu peito
contra suas costas, inclinei-me para beijar o topo de sua cabeça.
— Por que você não quer acordar, querida?
— Porque temo que não sentirei o que sinto agora. Porque não
quero acordar antes de fazer todas as coisas que quero fazer.
Envolvi meus braços ao redor dela e a puxei contra mim,
sabendo que ela podia sentir meu pau endurecendo contra suas
costas.
Esperei que ela se afastasse do volume crescente, mas meu
coração pulou na garganta quando ela se pressionou um pouco mais,
um convite silencioso para lhe dar o que eu queria.
Rosnei com satisfação enquanto deixava uma das minhas mãos
subir e apertava um de seus seios, enquanto a outra descia e
esfregava sua boceta através do material pesado do wafuku.
Ela soltou um gemido longo, e isso foi suficiente para me colocar
em ação.
Girei-a e tomei seus lábios em um beijo apaixonado,
empurrando meus quadris para frente enquanto ela abria a boca e eu
deslizava minha língua para encontrar a dela, lambendo
intensamente como pretendia fazer com sua boceta.
Enquanto a beijava, alcancei os lados e desfiz os nós que
mantinham sua roupa unida. Uma vez feito, interrompi o beijo e dei
um passo para trás, empurrando o material de seus ombros, fazendo-
o cair pesadamente no chão.
Respirei fundo e trêmulo enquanto olhava para minha deusa ali,
em nada além de sua calcinha branca estilo biquíni, seus mamilos
endurecidos de desejo.
Caí de joelhos diante dela e, por causa da nossa diferença de
altura, minha boca estava exatamente na altura de seus seios
magníficos.
— Bom o suficiente para comer — murmurei antes de chupar um
mamilo em minha boca, girando minha língua ao redor dele.
Ela gemeu meu nome, e senti o pré-gozo vazar na ponta do meu
pau. Queria tomar meu tempo e desfrutar de seu corpo, queria me
reacostumar com cada curva e contorno, mas sabia que, se esperasse
muito, gozaria no meu quimono como um maldito colegial.
Soltei seu mamilo com um estalo alto e cuidei do outro enquanto
massageava o que acabei de deixar.
Deixei meus lábios deslizarem ao longo de sua caixa torácica, e
parei por um segundo para olhar a pequena tatuagem que não estava
lá antes. Era uma tatuagem de batimento cardíaco, terminando em
uma linha reta e uma data. Aquela data fatídica. Um dia que
lamentarei não estar com ela pelo resto da minha vida.
Apoiei meus lábios na tatuagem, forçando a culpa e as sombras
para longe, concentrando-me na mulher disposta diante de mim. A
mulher que possuía tudo de mim.
Continuei pontuando pequenos beijos pelo seu estômago até
alcançar a borda de sua calcinha. Puxei-a para baixo e, enquanto
beijava sua linha de biquíni, notei a fina cicatriz vermelha que agora
estava lá também. Tinha apenas alguns centímetros de
comprimento, mas eu sabia o impacto que teve nela. Beijei a cicatriz
e continuei empurrando sua calcinha para baixo até que ela se
acumulou ao redor de seus tornozelos.
Cuidadosamente levantei um pé e deslizei a calcinha por ele. Fiz
o mesmo com a outra perna, mas, em vez de colocar seu pé de volta
no chão, enganchei-o sobre meu ombro e levantei-o um pouco até
que ela estivesse aberta e minha boca estivesse alinhada com sua
abertura molhada.
— Eu te amo mais do que qualquer coisa — disse a ela com a voz
quebrada. Ela não disse de volta, mas vi em seus olhos, e sabia que
seria o máximo que eu poderia pedir agora.
Meu pau vazou ainda mais pré-gozo com o cheiro almiscarado
de seu desejo por mim, e sabia que só tinha alguns minutos para
relaxá-la e fazê-la gozar com minha língua antes que eu tivesse que
afundar meu pau onde ele pertencia.
Agarrei seus quadris com força e enterrei meu rosto entre suas
pernas, lambendo, mordendo e bebendo-a como um animal se
alimenta de sua presa. Podia dizer, pelo jeito que ela envolveu as
mãos no meu cabelo enquanto movia os quadris, tentando cavalgar
meu rosto enquanto gemia sem vergonha, que ela gostava da
selvageria e da bagunça da minha boca e língua.
Ela gozou gritando meu nome, e seus joelhos cederam, a única
coisa que a mantinha de pé era meu aperto firme e meu rosto
esmagado contra sua boceta inchada e pingando.
Levantei-me, pegando-a nos braços, e lambi meus lábios
enquanto a carregava para a cama. Coloquei-a na cama e removi meu
quimono em tempo recorde, rasgando algumas costuras no caminho.
Rastejei entre suas coxas abertas e me embalei em uma estocada
poderosa.
Tomei-a tão violentamente quanto a comi, com estocadas
rápidas e fortes que faziam a cama bater na parede. Queria tomar
meu tempo e ser gentil, queria adorá-la, mas a desejava como um
louco. As semanas sem ela foram uma tortura, mas as últimas
semanas, quando ela estava perto o suficiente para tocar, mas tão
proibida, foram um inferno na terra. Não tinha controle sobre a
besta dentro de mim agora, ela exigia seu devido, o corpo dela, sua
única redenção. A única garantia era que seus quadris encontravam
os meus, estocada por estocada, e seus gritos eram de prazer, não de
dor.
Gozamos rápido demais, e a única esperança que eu tinha era
que, após um cochilo, ela estivesse disposta a me conceder uma
segunda rodada e me permitir mostrar tudo o que ela merecia.
Saí dela e deitei de lado, puxando-a contra mim. Ela permitiu o
contato — satisfeita e exausta demais para dizer ou fazer qualquer
coisa.
Apesar do meu cansaço, não consegui evitar o sorriso
convencido que se espalhou em meus lábios enquanto ela se
aninhava contra mim.
— Durma, meu amor. O sonho não precisa terminar de manhã.
Uma palavra sua e ele pode continuar até nossos últimos suspiros —
sussurrei enquanto sua respiração voltava ao normal e se
aprofundava enquanto ela adormecia.
Puxei-a ainda mais perto e apoiei minha mão em seu estômago,
fechando os olhos e caindo em um sono tranquilo e sem sonhos — o
primeiro desde que a mandei embora.
Vi
As coisas estavam diferentes entre nós desde o momento que
compartilhamos no lago, e eu não tinha certeza de como me sentia
sobre isso.
Quando ele me disse que ia organizar o voo de volta — quatro
dias antes do que deveríamos partir — foi uma mensagem clara de
que ele estava desistindo. Ele estava parando a luta e me devolvendo
minha liberdade. Era exatamente o que eu queria, o que vinha
pedindo a ele desde o momento em que acordei em seu quarto. Mas
então por que eu estava me sentindo tão triste?
Por que essa sensação de finalidade vinha me sufocando desde o
momento em que entramos no avião e ele não se sentou ao meu
lado?
Sabia que era a escolha certa. Sobrevivi sem ele antes, mesmo
enfrentando uma das maiores perdas que uma pessoa poderia
experimentar. Eu poderia sobreviver sem ele novamente.
Mas sobreviver é suficiente? perguntou a voz enquanto a noite
de paixão que compartilhamos continuava a fazer minha pele vibrar
e meu corpo estremecer.
Sobreviver era tudo o que eu podia me permitir agora, porque
enfrentar sua crueldade, seu desprezo quase me matou da primeira
vez, e eu tinha a pequena vida dentro de mim me empurrando para
lutar. Agora eu não tinha mais motivo para lutar.
Minha mãe sempre dizia, “Quando as pessoas te mostram quem
elas realmente são, acredite nelas na primeira vez.” Era essa dúvida
que me impedia de tentar novamente.
— O que é?
Pisquei algumas vezes, encontrando o olhar questionador de
Hoka do outro lado do corredor. Rapidamente percebi que estava
encarando-o sem ver enquanto estava perdida em meus
pensamentos.
— Eu… — Balancei a cabeça. — Nada.
— E se eu me afastasse?
— De quê?
— Desta vida, deste papel. E se eu entregasse isso ao meu tio, e
nós apenas nos mudássemos para qualquer lugar? E se eu pudesse te
dar a vida de cerca branca que você merece? O cachorro e os dois
filhos e meio? Secretamente suspeito que o meio pode acabar sendo
meu favorito.
Soltei uma risadinha, e por um minuto, pude imaginar aquela
vida com Hoka. Nossos bebês, nossos churrascos de domingo no
quintal, mas essa versão de Hoka não era meu Hoka. Ele não era o
homem que eu amava, e sabia que, se o fizesse escolher, ele se
arrependeria um dia, e me ressentiria por isso.
— Não, você está onde deveria estar. É quem você nasceu para
ser.
— Suponho que sim… Nasci para ser um monstro. — Meu
guerreiro parecia tão derrotado agora com o jeito que me olhava. Era
como se ele tivesse deposto sua arma e perdido sua alma no
processo.
Queria fazê-lo se sentir melhor, nem que fosse por algumas
horas — para dizer adeus da maneira certa.
— Sabe — apontei para o quarto nos fundos — tecnicamente
ainda sou sua pela próxima hora.
Ele olhou para o quarto atrás dele e sorriu, mas seus olhos
permaneceram tão tristes quanto estavam.
— Por mais tentadora que a oferta pareça, acho que vou passar.
— Oh… tudo bem, claro. — Virei-me de volta no assento,
fingindo olhar pela janela para que ele não visse o quanto sua
rejeição me machucou.
— Você poderia nos deixar, por favor? — perguntou ele à
comissária, e uma vez que ela estava trancada na outra sala, dando-
nos privacidade, ele continuou: — Quero você, Violet. De maneiras
que assustariam os homens mais insanos, mas não posso continuar
tendo apenas partes de você. Não posso te ter por apenas alguns
minutos. Não é justo comigo, e mesmo que eu seja um viciado
sempre procurando pela minha próxima dose de você, sei que haverá
um tiro que me matará, e ontem à noite quase foi esse tiro.
Virei a cabeça para olhar para ele. Ele estava virado de lado, a
cabeça apoiada no encosto, o cansaço tão intenso que eu não
conseguia dizer nada.
— Não posso me satisfazer com partes quando sei como é te ter
inteiramente. Então, estou te deixando ir, mas não estou desistindo
porque não posso. Não há mais ninguém para mim, Violet, só você.
Então, esperarei até que você esteja pronta para tentar comigo
novamente. Esperarei um dia, um mês, um ano, uma vida inteira
para que você volte para mim, se for necessário. Você pode não se ver
como minha por agora, querida, mas serei sempre seu.
— Hoka… — Não achava que ele sabia o quanto suas palavras me
afetavam.
— Não espero nada de você, nem agora nem nunca. Você merece
sua liberdade, e se concebemos um bebê ontem à noite, juro proteger
vocês dois e nunca separá-los. Não me tornei tão cruel quanto meu
pai, porque minha mãe deixou um pouco de sua luz me afetar. Você é
toda sol, amor e compaixão, meu doce amor, e não quero nada
menos para nosso filho. Quero uma ruptura com o passado, e não
quero que nosso filho se torne eu. Quero que ele seja feliz e não
destrua as coisas boas em sua vida como eu fiz.
— Eu ficaria feliz se nosso filho fosse como você.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Isso é porque você está cheia de amor. Eu nunca gostaria de
amaldiçoá-lo com isso.
Era bastante irônico, mas aceitar minhas escolhas, deixando-me
ir tão graciosamente quanto fez, deixando-me saber que ele estaria
pronto para esperar por mim, fez-me questionar minhas escolhas.
Pela primeira vez desde que ele me trouxe de volta, comecei a pensar
que talvez pudesse confiar nele novamente.
— E agora?
— Agora? Bem, haverá um carro esperando por você na pista.
Ele te levará ao Marriott no centro, onde Lucy, uma funcionária da
Nishimura Corp em quem confio completamente, estará esperando
por você com empregos e locais para você escolher. — Ele piscou,
vendo a surpresa no meu rosto. — Preciso garantir que você esteja
segura, bem provida e feliz enquanto espero que você volte para
mim.
Balancei a cabeça com uma risadinha.
— Não há como eu ficar brava com você quando você coloca
assim.
— Esse era o plano. — Ele ficou sério quando o piloto anunciou
que estávamos a caminho do pouso. — Por tudo o que vale, mesmo
que você volte para mim, não acho que serei capaz de me perdoar por
te deixar passar por aquela perda sozinha. Eu tinha que estar lá, não
importava o quê. Você merecia ter apoio e amor naquele momento, e
mesmo que eu passe o resto da minha vida para expiar isso, talvez
nunca me perdoe.
— Tudo bem, você não sabia. Não posso te culpar por algo que
você não sabia. — Mesmo que eu o culpasse. Era a raiva que me
ajudou após a perda.
— Com o jeito que eu te amava, com o jeito que eu sabia que você
me amava… não importava. Eu não deveria ter te mandado embora.
A questão é que já tinha tanta dificuldade em acreditar que uma
mulher como você poderia amar um homem como eu, poderia ver
além de todas as falhas e pecados e ainda querer estar ao meu lado.
Era muito mais fácil acreditar que você era uma traidora, fazia muito
mais sentido do que acreditar que eu era bom o suficiente para
alguém como você.
Olhei para ele com toda a incredulidade que sentia. Este homem
tinha muitas falhas, muitas cicatrizes, e uma crueldade fria que
poderia destruir uma pessoa — eu mesma havia experimentado isso
em primeira mão. Mas também sabia o quão altruísta, feroz, protetor
e amoroso ele podia ser. Este homem podia ser tanto o céu quanto o
inferno, mas para mim, ele era meu coração.
Tudo o que acabamos de discutir fez todas as minhas certezas
desmoronarem em pó, e a única coisa que eu queria fazer era pular
em seus braços e implorar que ele me levasse para casa.
Peguei sua mão quando a porta do avião se abriu, e gentilmente
beijei sua palma. Eu tiraria alguns dias de folga, apenas para ter
certeza de que era realmente o que eu queria fazer e não todas as
emoções que estavam nublando meu julgamento.
Ele manteve minha mão na sua enquanto descíamos as escadas.
Olhei para o motorista pegando minha mala e bolsa no outro carro,
esperando por mim do outro lado do dele.
Ele puxou minha mão aos lábios e beijou as costas.
— Espere por mim. — Não tinha a intenção de dizer isso em voz
alta, mas quando vi a luz brilhar em seus olhos, não me arrependi.
— Sempre — respondeu ele, soltando minha mão.
Caminhei até o carro e virei-me uma última vez. Ele ainda estava
parado ao pé dos degraus, as mãos enterradas profundamente nos
bolsos, olhando para mim com um sorriso próprio.
— Eu te amo, Hoka Nishimura — sussurrei e entrei no carro.
Olhei para cima ao fechar a porta e, sentado à minha frente,
estava o homem que esteve com o tio de Hoka na festa — o homem
que Hoka me disse para ficar longe.
— Que porra… — Alcancei a maçaneta, mas as portas trancaram.
— Hoka — gritei, vendo-o caminhar até seu carro. — Hoka! —
Algo foi borrifado perto do meu rosto, e minha visão embaçou
enquanto minha garganta começou a queimar.
— Ho…
Fechei os olhos e mergulhei na escuridão.
H a
— Violet!
Sentei-me ereto e ofeguei com a dor aguda que senti por toda as
costas.
— Violet está perfeitamente bem. Acalme-se, você vai puxar os
pontos. — Senti uma mão fria no meu ombro, e caí pesadamente no
meio dos travesseiros macios.
Jiro inclinou-se sobre mim.
— Você nos assustou. Quase te perdemos por um momento.
Balancei a cabeça. Tudo o que conseguia lembrar era irromper
no armazém, ver o rosto de Violet coberto de sangue e meu tio
prestes a atirar nela.
Também me lembro da dor aguda da bala me atingindo, e então
tinha certeza de que a ouvi dizer que me amava e implorar a alguém
para me salvar.
— Como ela está? — perguntei, minha voz rouca de sede.
Jiro pegou o copo na mesa e me deu um pouco para beber antes
de me ajudar a deitar na cama novamente.
— Ela está bem, está bastante machucada, mas apavorada com a
ideia de te perder. Apesar do que passou, não conseguimos fazer com
que ela saísse do seu lado até que Benetti a lembrou que ela estava
fedendo e precisava de um banho. — Jiro riu, sentando-se
novamente na cadeira ao lado da minha cama. — Ela tomou o banho
e adormeceu. Ela vai querer nossas cabeças por isso. Queria estar ao
seu lado quando você acordasse.
— Pensei que ela ia morrer.
— Eu sei. Vocês dois quase morreram. — Ele passou as mãos
pelo rosto, claramente tão exausto quanto eu. — Não é algo que
quero experimentar novamente.
— Akira?
— Morto.
Assenti com um suspiro de alívio. Pelo menos era algo que eu
não teria que fazer eu mesmo.
— Quem o matou?
Jiro ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu.
Tentei virar na cama e sibilei, puxando os pontos.
— Porra, Hoka. Se acalme, caralho! A bala causou danos sérios.
Você perdeu o baço. Você precisa se acalmar.
— Por que você o matou? Você sabe o quão ruim será para você
agora. Você não tinha autoridade para isso, não importa o que ele
quisesse fazer com Violet, você só deveria incapacitá-lo. Agora,
agora… — Balancei a cabeça.
— Você tem que me banir. — Ele me deu um sorriso triste. — Era
o que você queria fazer de qualquer forma.
— Não exatamente. — Estava bravo e magoado, mas Jiro sempre
foi meu melhor amigo. Os poucos dias no Japão e as decisões
altruístas que se seguiram me permitiram ver que todas as suas
decisões equivocadas foram movidas pelo desejo de me proteger e
me poupar da dor que ele sofreu. — Preciso de você.
— Não, você não precisa. Você tem uma mulher adorável que
está tão desesperadamente apaixonada por você que usou o próprio
corpo como escudo para te proteger, assim como você fez com ela.
Ela implorou a todos e seus cachorros para te salvar, e até a ouvi
dizer uma oração aos “ancestrais de Hoka que eu não conheço.” —
Ele soltou uma risadinha. — Ela é forte, corajosa e tão resiliente. Eu
estava errado, meu amigo, essa mulher foi feita para você. E agora
você terá até um cunhado italiano. Você poderá criar a aliança que
nosso clã sempre quis. Essa é a resposta para todos os problemas.
Ninguém jamais olhará torto para ela ou tentará roubar seu lugar,
nunca.
Olhei para ele em silêncio. Como ele parecia estar tentando
justificar todas as coisas boas na minha vida, como se estivesse
tentando se convencer de algo.
— Você não o matou, não é? Você não teria feito isso, você sabe
que não deveria.
— É melhor assim. Apenas deixe para lá, Hoka.
— Ninguém trabalhando na família teria matado Akira. Eles o
teriam ferido. — Ele inclinou a cabeça para o lado. — Apenas um
italiano teria feito isso.
Jiro franziu os lábios.
— Por que você está encobrindo ele? Ele nos ajudou a salvar
Violet, mas…
— Não tem nada a ver com isso.
Franzi o cenho.
— Então o que é?
Quando cheguei em casa e me disseram que Violet nunca chegou
ao hotel, fiquei furioso e assustado. Contatei Benetti e ameacei a vida
de todo italiano na Califórnia em troca de Violet.
Sua explosão de raiva com o desaparecimento dela e minha
“flagrante inaptidão” em mantê-la segura foram suficientes para me
fazer saber que ele não tinha nenhum papel nisso.
Ele me informou que estaria pegando seu jato e me encontraria
em cinco horas. Ele também me fez jurar imunidade ao seu
infiltrado. Eu teria jurado qualquer coisa que ele quisesse, desde que
me ajudasse a recuperar minha Violet.
Foi assim que descobri sobre Oda. Gostava do garoto, e não fazia
ideia de que ele era meio japonês e meio italiano quando se juntou às
nossas fileiras aos dezessete anos, ele provavelmente era o melhor
espião que já conheci. Ele não era apenas um agente duplo
trabalhando para mim e Alessandro, mas nos informou que também
estava trabalhando para meu tio. Só para garantir que as coisas não
saíssem muito dos trilhos.
Ele jurou de pés juntos que não sabia do sequestro de Violet, e
eu estava feliz em conceder-lhe imunidade por sua ajuda, mesmo que
ainda fosse mandá-lo embora até Chicago. Eu não precisava de um
espião na minha casa.
— Ele salvou sua vida, Hoka. Se você está aqui hoje, é por causa
dele e do médico dele. Ele te protegeu, agiu tão rápido e com uma
precisão que me gelou até os ossos. Ele estava agindo como se fosse
um cirurgião, e te costurou e manteve a mão pressionada na ferida
por uma hora até chegarmos ao nosso cirurgião de verdade.
Olhei para ele com incredulidade.
— É ridículo! Por que ele faria isso por mim?
Jiro revirou os olhos.
— Ele não fez. O homem te detesta muito. Ele fez isso por ela.
Ele faria qualquer coisa por ela. Ela implorou que ele te salvasse, e
ele lutou pela sua vida como se fosse a dele. — Ele respirou fundo. —
Ela precisa dele na vida dela. Admitir que ele matou Akira só
iniciaria uma guerra familiar que causará danos para ambos os lados
e machucará Violet mais ainda.
Assenti sombriamente. Por mais que odiasse isso, Jiro era o
bode expiatório perfeito.
— Vou encontrar uma maneira, sou o chefe. Não tenho que te
mandar embora.
— Você tem que fazer isso, e honestamente, eu quero. — Ele se
recostou na cadeira. — Preciso reavaliar as coisas, não tenho certeza.
Eu… pensei que tinha aceitado a morte de Anna, mas acho que não.
Preciso trabalhar nisso.
— Para onde você vai?
— Ainda não sei, mas preciso descobrir o homem que sou. Sei
que você pode entender isso.
— Entendo, mas, apesar da minha raiva, você é a pessoa em
quem mais confio no mundo.
— Não, não mais. — Ele sorriu, e havia um toque agridoce nisso.
— Ela é a pessoa em quem você mais confia, como deveria ser. Você é
o mundo dela também, Hoka.
— Ela é bem especial… — Sorri. — Vou sentir sua falta.
Jiro revirou os olhos.
— Acho que os analgésicos estão te deixando emotivo. Estarei
fora, não morto. Terei um telefone. — Ele olhou para o relógio no
console e se levantou. — Preciso avisar o médico e todos os outros
que você acordou.
— E se você vir Violet…
Ele levantou as mãos.
— Não, não vou contar a ela. Ela vai me estrangular por não
chamá-la assim que você abriu os olhos. Ela é baixinha, mas
aterrorizante.
Ri.
— Ela é feroz, meu pequeno foguete.
Jiro abriu a porta e virou-se para mim.
— Deveria ter dito tudo isso há muito tempo, mas fico feliz que
você esteja feliz, meu amigo. O amor te cai bem.
Assim que Jiro saiu do quarto, sentei-me e virei para o lado da
cama, puxando as pernas para a borda com um grunhido doloroso.
Cerrei os dentes e fechei os olhos com força enquanto apoiava a
mão na mesa de cabeceira para me ajudar a levantar.
— Filho da puta. — Fui baleado, mas parecia que meu corpo
inteiro havia sido espancado. Porra. Olhei para meus pés no chão de
madeira escura. Até meus malditos dedos dos pés doíam. Como isso
era possível?
Forcei meu traseiro lamentável até o banheiro, arrastando os pés
no chão como um velho doente. Queria usar o banheiro e me tornar
um pouco mais apresentável para Violet. Ela estava obviamente
preocupada comigo.
Fiz o que precisava fazer e virei-me para o espelho, apoiando as
mãos no balcão. Havia uma bandagem ao redor da minha parte
inferior, mas exceto por isso, eu não parecia tão perto da morte
quanto me sentia.
Lavei o rosto e prendi o cabelo em um coque antes de tentar
voltar para a cama.
Minha cabeça começou a girar quando cheguei ao limiar, e
agarrei o batente da porta antes que me encontrasse de cara no chão.
Houve uma batida forte na minha porta, e xinguei baixo. Agora
não era a hora, mas não achava que conseguiria voltar para a cama
sem ajuda, mesmo que fosse da minha alma gêmea de um metro e
meio.
— Entre — chamei, tentando ficar ereto e suavizando minhas
feições para que ela não visse a extensão do meu desconforto.
Alessandro Benetti entrou no meu quarto, e eu não tinha certeza
se isso era melhor ou pior do que Violet.
Ele me olhou com as sobrancelhas levantadas e olhou para trás
antes de fechar a porta.
Um dos chefes da máfia italiana estava no meu quarto enquanto
eu estava ferido e fraco. O que poderia possivelmente dar errado?
— O que você está fazendo de pé? — perguntou ele, sua voz uma
mistura de irritação e impaciência.
— Por quê? Está preocupado comigo? — perguntei com um
sorriso convencido, mas qualquer tentativa de bravata desapareceu
quando tentei dar um passo à frente e meus joelhos cederam.
— Cretino — murmurou ele antes de correr em minha direção.
Ele envolveu o braço alto ao redor das minhas costas e me ajudou a
caminhar até a cama. — Não, realmente não me importo, mas você
vai estragar meu trabalho impressionante e então Violet vai me
culpar por isso.
Ele me soltou assim que sentei na cama e deu alguns passos para
trás, como se quisesse colocar a maior distância possível entre nós.
— Você me deve um terno novo, a propósito. Estraguei minha
jaqueta de linho Cucinelli feita sob medida para pressionar sua ferida
e salvar seu traseiro lamentável.
Dei uma risada.
— Vou fazer uma transferência bancária. — Franzi o cenho para
suas roupas. — Essas são minhas?
— Sim, era isso ou minhas roupas cobertas com seu sangue. —
Ele olhou para a camisa branca egípcia impecável. — Um pouco
apertada, no entanto… Acho que tenho mais músculos que você.
Ah, era um momento de “quem é o mais forte”.
— Hum, mas um pouco longa demais, vejo. — Apontei para a
bainha das calças pretas que eu sabia que eram minhas. — Acho que
sou bem mais alto que você. — Estava exagerando. Só tinha alguns
centímetros a mais que o homem, mas a tensão em seu maxilar
mostrou que o acertei exatamente onde queria. — Obrigado, no
entanto — disse relutantemente. — Sei que deve ter custado caro
salvar um inimigo.
— Não te salvar teria me custado muito mais. — Ele suspirou e
sentou-se sem ser convidado. — Você não é meu inimigo. Bem, pelo
menos não mais. — Ele acrescentou quando viu a descrença no meu
rosto. — Você nunca será meu amigo ou meu aliado, mas vou te
tolerar, assim como sei que você me tolerará. Por Violet.
— Não há nada que eu não faria por ela — admiti, sem me
preocupar que isso pudesse ser usado contra mim, já que ambos
compartilhávamos a mesma fraqueza.
— Eu sei, e é irritantemente o mesmo para ela. — Ele balançou a
cabeça e apoiou os antebraços nas coxas. — Sei que você e eu nunca
veremos as coisas da mesma forma e tudo bem, mas Violet é
importante para mim. Ela pode pensar que é tudo uma encenação,
mas não é. Ela não entende as circunstâncias, mas você entende. —
Ele franziu os lábios. — Você sabe o pouco valor que as gerações mais
velhas de qualquer sindicato dão à vida das mulheres.
— Matriz de reprodução e conexão — concordei, odiando isso,
mas tão grato por meu pai não ter tratado minha mãe assim.
Alessandro assentiu.
— Ela não vê o quadro completo, e não vou forçá-la a ver. Mas
ontem e hoje ela se abriu para mim, acho que podemos construir um
relacionamento e, se isso significa ter você por perto… — ele deu de
ombros — que seja.
— Quero que Violet tenha uma família além de mim. Não sou
imortal, e na nossa linha de trabalho, nada é certo. Ficarei mais em
paz sabendo que, se algo acontecer comigo, ela terá você para
protegê-la. Não vou interferir no seu relacionamento, até o
encorajarei. Além disso, seremos família em breve.
— Madre de Dio, você vai se casar com ela, não é?
Não consegui evitar rir, causando uma pequena pontada de dor
nas costas.
— Na primeira chance que tiver.
Ele revirou os olhos e se levantou, ajudando-me a me reclinar na
cama antes de alcançar o frasco de comprimidos de plástico na mesa
de cabeceira e empurrá-lo em minha direção.
— Não banque o heroi, tome os comprimidos. Dois a cada seis
horas.
— Eles me deixam um pouco sonolento. Quero ver Violet
primeiro.
— Violet adormeceu enquanto comia seu sanduíche. Ela está na
espreguiçadeira, apagada. Você tem tempo. — Ele suspirou, olhando
ao redor do meu quarto, mas sem procurar nada em particular.
— O que é?
— Seu amigo está assumindo a culpa.
Assenti sombriamente.
— Ninguém pode se dar ao luxo de uma guerra agora.
— Eu faria de novo, mesmo sabendo das consequências.
— E não te culpo. Ele mereceu aquela bala, mas seria melhor se
você esquecesse que é o culpado.
— Vou tentar. Você sabe que sigilo não é comum na nossa linha
de trabalho — respondeu ele zombeteiramente.
Movi-me na cama e gemi.
— Tome os malditos comprimidos! Quer que minha irmã fique
mais preocupada do que já está? — Ele inclinou a cabeça para o lado.
— Quer que ela te veja como um inválido?
Isso me colocou em ação, e engoli dois comprimidos de uma vez
com um copo d’água. Amava que minha Violet me visse como seu
super-heroi quando não me via como seu monstro, e queria que
continuasse assim.
Ele assentiu e caminhou até o pé da cama.
— Vou partir hoje à noite. Não que eu não aprecie sua
companhia incrível, especialmente quando você está desmaiado, mas
o segredo sobre Violet está descoberto, e preciso gerenciar isso.
— Precisa que eu faça algo?
— Acho que você já fez o suficiente. Apesar da minha relutância,
você vai se casar com ela. — Ele me deu um sorriso amargo. — Não é
como se eu pudesse te impedir, de qualquer forma. Posso estar a
milhares de quilômetros de distância, mas nunca será longe o
suficiente se você a machucar novamente. Entende? — Seu rosto
carregava toda a seriedade de um homem em uma missão, e eu
estava feliz que fosse para proteger o amor da minha vida. — Se ela
ao menos me ligar chorando, vou caçar você, e não temerei nenhuma
guerra.
— Entendo, e se eu a machucar, te darei minha katana.
Alessandro torceu a boca para baixo.
— Espadas? Não estamos mais na era medieval. Uma arma é o
caminho a seguir.
Senti o calor dos comprimidos começar a se espalhar por mim, e
a dor começou a diminuir.
— Não vou machucá-la. Bem, não de uma forma que ela não
goste.
Alessandro soltou um som de nojo.
— Você está ficando chapado agora. Estou indo.
— Vou dar a ela muitos e muitos bebês. Amo estar dentro dela.
Ele fez um som de engasgo, e ouvi a porta fechar. Meus olhos
estavam fechados enquanto eu continuava a explicar todas as
maneiras que planejava dar prazer a ela.
Quando acordei, não estava sozinho na cama. Violet estava
deitada de lado, seus grandes olhos azuis me observando.
— Sabe, você estava certo. Acordar com alguém te encarando
enquanto dorme é assustador. — Dei a ela um pequeno sorriso.
— Pensei que você ia morrer — sussurrou ela, sem se mover de
sua posição na cama. — Não percebi realmente antes disso o que isso
significaria para mim. Foi uma agonia que nunca quero enfrentar
novamente.
— Ainda estou aqui, querida, não há como me tirar de você. Sou
teimoso demais para isso. — Deixei meus olhos vagarem até o
curativo na lateral de sua cabeça. — Sei como você se sente —
respondi seriamente. — Quando entrei naquele armazém e te vi
deitada no chão, metade do seu rosto coberto de sangue… —
Estremeci com a nova onda de horror. — Se você tivesse morrido, eu
queria morrer com você.
Ela deslizou para mais perto de mim e, ao apoiar a bochecha
cautelosamente contra meu ombro, esqueci toda a dor e desconforto.
Aquela mulher não era apenas um bálsamo para minha alma,
mas também para meu corpo. Virei a cabeça para beijar o topo da
dela.
— Quando pensei que ia morrer, não estava com medo. Tudo o
que conseguia pensar era que não tive a chance de te dizer que ainda
te amava, que você ainda era, e sempre seria, o único para mim, e
que temia mais minha reação a você partir meu coração novamente
do que você me machucar. — Ela sussurrou, seu hálito quente
acariciando meu pescoço.
— Quero consertar isso. Quero que você acorde com essa certeza
todos os dias.
— Você quase morreu por mim.
— E faria isso de novo.
Ela subiu para beijar minha mandíbula.
— Prefiro que não. Preciso de você vivo.
Virei a cabeça e dei um beijo rápido em seus lábios.
— Igualmente. Agradeceria se você não nos matasse, porque,
querida, meu coração vive no seu peito. Cuide dele, porque se você
morrer, eu morro.
Ficamos em silêncio por um tempo, apenas desfrutando da
presença um do outro.
— Você vai ficar, não é? — perguntei hesitantemente.
— Claro.
— Para sempre? — perguntei esperançosamente.
Ela olhou para cima com um brilho de humor nos olhos.
— Esse é o plano.
— Ótimo. — Sorri de volta. — Posso te pedir um favor?
— Claro. O que você precisa?
Apontei com a cabeça para meu escritório.
— Pode pegar na primeira gaveta? O código é 884. Pode pegar a
caixa de madeira quadrada?
Ela assentiu e correu para o meu escritório. Assim que ela saiu
de vista, puxei-me para uma posição sentada antes que ela pudesse
ver as caretas e grunhidos que isso causava.
— Aqui está.
— Então, desculpe-me por não fazer isso como planejei, mas… —
Abri a caixa e peguei a menor caixa preta dentro dela.
Violet inspirou bruscamente e sentou na cama.
— Quando te pedi em casamento no Japão, não foi por impulso.
Comprei este anel antes de te mandar embora. Comprei depois que
fizemos amor pela primeira vez, e acho que, quando imaginei meu
pedido, era nesta cama, nus, possivelmente comigo ainda tão fundo
dentro de você.
Ela corou, e eu sorri. Às vezes, essa era a única razão para fazer
isso — apenas para ver a adorável coloração em sua pele.
— Você é meu ikigai, Violet Murphy. Sabe o que isso significa?
Ela balançou a cabeça, olhando para a caixa fechada na minha
mão.
— Ikigai significa seu propósito na vida, mas também é sua
razão de ser ou sua felicidade. É o que te inspira a sair da cama todos
os dias. Violet, meu propósito nesta vida é te amar, cuidar de você,
viver ao seu lado. Você é quem penso todas as manhãs e todas as
noites. Você é a razão pela qual continuo respirando.
— Hoka, eu te amo. — Sua voz estava carregada de emoção.
Limpei a garganta, ficando igualmente emocionado.
— Cometi muitos erros na minha vida, cometi muitos pecados,
mas a única coisa que fiz certo foi dar meu coração a você. Você é
muito mais incrível do que qualquer sonho que já tive, e sei que o
momento provavelmente não é o ideal. Pode ainda ser cedo demais,
mas por favor, Violet, eu te imploro. — Abri a caixa, revelando o anel
feito sob medida para ela. — Salve-me e torne-se minha esposa.
Ela piscou rapidamente e teve um pequeno fungado adorável.
— Me chame de antiquada, mas eu definitivamente casaria com
um homem que está disposto a tomar uma bala por mim.
— Isso é um sim? — Por alguma razão, apesar de todos os sinais
do seu amor por mim, ainda duvidava da sua resposta.
Ela assentiu, fungando novamente.
— Preciso ouvir as palavras, querida.
— Sim, vou me casar com você, escuridão e tudo. Acho que nos
amamos o suficiente para manter isso afastado do nosso amor, e não
consigo me ver em nenhum outro lugar senão ao seu lado é meu
lugar favorito para estar.
Coloquei o anel em seu dedo trêmulo e beijei sua mão.
— Você é minha vida, Violet Murphy.
— Você é meu coração, Hoka Nishimura.
EPÍLOGO
Seis meses depois
H a
— Estaremos aí. — Suspirei, fingindo estar calmo enquanto
Alessandro Benetti começava a surtar do outro lado da linha. —
Tenho meu próprio maldito avião, Sandro, pelo amor de Deus. Não
vou apressá-la, especialmente agora.
Eu não estava calmo, estava levando minha linda esposa até
Chicago para selar a aliança entre os italianos e a yakuza, mas
também para ele apresentar Violet como uma Benetti ao seu
sindicato.
Violet Murphy-Benetti-Nishimura — que nome comprido. Mas
para mim, seu nome era muito mais simples… Minha. Violet era
minha, e eu era dela.
— Estaremos aí. Vou te mandar uma mensagem quando
partirmos. — Desliguei antes que ele pudesse adicionar algo mais.
— Meu irmão está te dando trabalho?
Girei para encontrar minha bela esposa parada no limiar da
biblioteca, pronta para ir.
— Ele está estressado como uma noiva no dia do casamento.
— Está mesmo? — Ela levantou as sobrancelhas com um sorriso
brincalhão. — Não me lembro de ser eu a nervosa no nosso
casamento.
— Tá bom! Ele está nervoso como um chefe da máfia no dia do
casamento.
— Assim está melhor. — Ela riu e caminhou até mim,
envolvendo os braços ao redor do meu pescoço enquanto eu envolvia
os meus ao redor das suas costas para beijá-la.
Casei-me com ela assim que consegui andar depois de ser
baleado, e sentia uma falta imensa de Jiro. Ele deveria ter sido meu
padrinho, mas a vida decidiu diferente.
Graças ao acordo com os italianos, todas as pessoas que nos
olhavam torto agora beijavam os pés dela.
— Como está nosso menino? — perguntei, apoiando a mão no
pequeno inchaço de sua barriga.
Ainda estava maravilhado com nosso filho crescendo
pacificamente dentro dela. Estávamos um pouco apreensivos,
especialmente com base no nosso histórico, mas ela estava agora
com cinco meses de gravidez, e o médico estava muito confiante.
Ela apoiou a mão sobre a minha.
— Nosso menino é o motivo de eu estar atrasada. Nada me cabe
mais.
— Mas você ainda está tão pequena. — Meus olhos caíram sobre
seus seios inchados, e meu pau se agitou. — Bem, não em todos os
lugares.
— Não, não. Conheço esse olhar. Não podemos nos dar ao luxo
desse olhar agora.
— Eu te amo. Te desejo. Pode me culpar?
— Não, não posso, mas Sandro vai te matar se nos atrasarmos.
Ele me ama, mas você…?
Rosnei, empurrando meus quadris contra ela, fazendo-a sentir
meu pau crescendo.
— Droga, Hoka — gemeu ela enquanto interrompia nosso abraço
e dava um passo para trás. — Você está me forçando a ser a razoável
quando sou eu quem está cheia de hormônios tarados.
— Amo seus hormônios — respondi sugestivamente, dando um
passo em sua direção. Ela estava realmente desejando sexo nas
últimas semanas. Ela me procurava a cada chance que tinha, e eu
estava mais do que feliz em satisfazê-la. Eu a tomava em cada
superfície plana e a fodia até meu pau cair.
— Sabe o quê? Vamos entrar nesse avião, e vou deixar você fazer
o que quiser comigo durante o voo de quatro horas.
Sorri.
— Amo seu jeito de negociar, esposa. Sabia que havia um motivo
para ter me casado com você.
Ela estendeu a mão para mim.
— Vamos, marido.
Peguei sua mão e entrelacei nossos dedos enquanto
caminhávamos em direção à porta.
Agradecia aos ancestrais todos os dias por me concederem esse
presente. Por me permitirem sentir-me completo e amado, e pela
oportunidade de ser amado.
Violet Murphy era minha danação, minha redenção e, acima de
tudo, minha vida.
***
Seis anos depois
Vi
Respirei fundo, saindo da casa. Era tarde, apesar do sol ainda
estar alto no céu.
Passávamos seis semanas todos os anos no Japão, onde Hoka
podia ser completamente meu marido e pai dos nossos filhos,
deixando o chefe da máfia para trás.
A risada alta do nosso filho, seguida de perto pela risada grave
de Hoka, fez-me rir também enquanto descia o caminho até o lago.
— Mamãe! — gritou ele ao me ver chegar à margem.
Olhei para dois dos meus homens favoritos no mundo no lago.
Meu lindo marido e meu filho, que estava agarrado nas costas do pai
como um pequeno macaco.
— Mamãe, vi o monstro! — disse ele, pulando de excitação.
— Viu mesmo? — Levantei uma sobrancelha para Hoka, que me
deu um sorriso tímido.
Sabia que contar a Yuko a história sobre o dragão levaria a horas
e horas de busca no lago.
— Você vai precisar retomar sua busca amanhã, bebê. A vovó
está preparando um banho para você, e o jantar estará pronto em
breve.
— Mamãe… — choramingou ele, usando a força de seus olhos de
cachorrinho em mim.
Balancei a cabeça. Aquele menino era tão encantador quanto o
pai. Ele era a cara de Hoka quando criança. Mesmo cabelo escuro e
rosto afiado, mas seus olhos eram todos meus.
— Vou precisar tirar fotos para mostrar ao tio Sandro.
— Amanhã, filho — respondeu Hoka, nadando de volta à
margem. — Mamãe disse que terminamos, e você lembra o que
dissemos.
— Sempre fazemos o que a mamãe diz porque ela sabe o que é
melhor.
— Exatamente.
Yuko desceu das costas do pai e correu para a toalha que eu
segurava aberta para ele.
Envolvi-a ao redor dele e esfreguei seus braços. Beijei o topo de
sua cabeça antes de dizer:
— Vá. A vovó está esperando, e Sara também.
Yuko correu pelo caminho, e assim que ele desapareceu colina
acima, virei-me para meu marido, que caminhava preguiçosamente
em minha direção, todo molhado e magnífico.
Ele era meu há seis anos, e eu ainda o amava e desejava tanto
quanto antes. Não, isso era mentira — eu o desejava mais, amava-o
mais. Cada vez que o via brincar de piratas com nosso filho de seis
anos ou tomar chá com nossa filha de quatro anos, eu o amava ainda
mais. Meu Hoka sempre me tratava como se eu fosse o presente mais
precioso do mundo. Mesmo agora, enquanto eu estava grávida do
nosso terceiro filho, ele ainda tratava a situação com o mesmo
assombro que teve durante minha primeira e segunda gravidez.
— Olá, bela esposa. — Ele parou na minha frente. — Gosta do
que vê?
Sorri.
— Sempre gosto.
— O que acha de tirar esse vestido e me deixar fazer o que quero
com você no lago?
— Não sei… — Deixei a frase no ar, já desabotoando o vestido e
deixando-o cair no chão, ficando ali completamente nua, sentindo-
me ainda mais sexy no meu estado grávido. — Sua mãe vai manter
nossos filhos ocupados.
— Oh, você tinha tudo planejado, sua safada! — Ele tirou o short,
mostrando-me seu pau duro. Ele estendeu a mão para mim. —
Venha, esposa. Deixe-me te apresentar ao monstro do lago.
Peguei sua mão e entrelacei nossos dedos.
— Conheço esse monstro intimamente, amo ele dentro de mim.
Ele soltou um rosnado feral enquanto entrávamos no lago.
Hoka Nishimura tinha muitas coisas — meu céu, meu inferno e,
acima de tudo, meu coração.
Notas
[←1]
Energia de pau grande
[←2]
O seu lado é o meu lugar favorito
[←3]
Quando eu te vejo, eu vejo o resto da minha vida diante dos meus olhos.
[←4]
Um bebê?
[←5]
Eu te amo.
[←6]
Eu sei. Me desculpe.