REVISTA BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ( v.
24, 2024)
DOSSIÊ
A SOCIOLOGIA SAI DA ESCOLA :
a Reforma Capanema de 1942 e as disputas dos católicos
em torno da disciplina no Brasil
Sociology gets expelled from school: the Capanema Reform of 1942
and the disputes of the Catholics over the discipline in Brazil
La sociologia es expulsada de la escuela: la Reforma de Capanema de 1942
y las disputas de los católicos en torno a la disciplina em Brasil
THIAGO DA COSTA LOPES
Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: lopes_47@[Link].
Resumo: O artigo analisa, de uma perspectiva histórica, o contexto intelectual e político em que se operou, a
partir da Reforma Capanema de 1942, a exclusão da sociologia como disciplina obrigatória do currículo das
escolas secundárias. Partindo das interpretações que se cristalizaram em torno desse episódio-chave para a
história das ciências sociais no Brasil, busca complexificar as leituras correntes à luz do exame das fontes
primárias disponíveis, em especial daqueles presentes no Arquivo Gustavo Capanema. Conforme argumenta, a
saída da sociologia das escolas esteve intimamente ligada às disputas em torno de sua cientificidade travadas
pelos católicos, fração importante da base de apoio do Estado Novo. Como é possível depreender dos pareceres
de intelectuais católicos contrários à permanência da sociologia como disciplina escolar, a crítica apontava para
as visões secularistas e anticlericais que aquela ciência poderia veicular. Nesse sentido, razões políticas e
ideológicas, e não apenas pragmáticas e operacionais, estiveram na raiz de sua exclusão da grade curricular.
Palavras-chave: reforma do ensino secundário; sociologia católica; Gustavo Capanema; história do ensino
da sociologia no Brasil.
Abstract: The article analyzes, from a historical perspective, the intellectual and political context in which
sociology was excluded as a mandatory subject from the secondary school curriculum following the
Capanema Reform of 1942. Starting from the interpretations that crystallized around this key episode for the
history of social sciences in Brazil, it seeks to nuance and complicate current readings by considering the
available primary sources, especially those present in the Gustavo Capanema Archive. As it is argued, the
exclusion of sociology from schools was closely linked to the disputes surrounding its scientificity waged by
Catholics, an important fraction of the support base of the Estado Novo. As can be seen from the opinions of
Catholic intellectuals who opposed the permanence of sociology as a school subject, the criticism pointed to
the secularist and anti-clerical views that that science could convey. In this sense, political and ideological
reasons, and not just pragmatic and operational ones, were at the root of its exclusion from the curriculum.
Keywords: secondary education reform; catholic sociology; Gustavo Capanema; history of sociology
teaching in Brazil.
Resumen: El artículo analiza, desde una perspectiva histórica, el contexto intelectual y político en el que la
sociología fue excluida como materia obligatoria del currículo de la escuela secundaria con la Reforma
Capanema de 1942. A partir de las interpretaciones que cristalizaron en torno a este episodio clave para la
historia de las sociedades ciencias en Brasil, busca matizar y complicar las lecturas actuales considerando las
fuentes primarias disponibles, especialmente las presentes en el Archivo Gustavo Capanema. Como sostiene,
el alejamiento de la sociología de las escuelas estuvo estrechamente vinculado a las disputas en torno a su
cientificidad libradas por los católicos, una fracción importante de la base de apoyo del Estado Novo. Como se
desprende de las opiniones de los intelectuales católicos que estaban en contra de la permanencia de la
sociología como materia escolar, las críticas apuntaban a las visiones secularistas y anticlericales que esa
ciencia podía transmitir. En este sentido, razones políticas e ideológicas, y no sólo pragmáticas y operativas,
estuvieron en la raíz de su exclusión del plan de estudios.
Palabras clave: reforma de la educación secundaria; sociología católica; Gustavo Capanema; historia de la
enseñanza de la sociología en Brasil.
[Link]
e-ISSN: 2238-0094
A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
I NTRODUÇÃO
As antigas escolas secundárias e normais constituíram, no Brasil dos anos 1920
e 1930, importantes espaços a abrigar e a transmitir modalidades de conhecimento
sociológico. Da mesma forma, os manuais produzidos para professores e alunos neste
contexto acabaram contribuindo para a construção e a legitimação de um lugar para a
sociologia no universo cultural e intelectual brasileiro (Meucci, 2011).
A área de Ensino da Sociologia na Educação Básica tem sido prolífica na
produção de estudos, especialmente de balanços, sobre a presença, mas também a
ausência, ao longo do século XX, da disciplina nas escolas (Machado, 1987; Guelfi,
2001; Carvalho, 2004; Moraes, 2011; Oliveira, 2013; Meucci, 2015). O reingresso da
sociologia na educação básica brasileira no início do século XXI, assim como as
adversidades mais recentemente encontradas em seu processo de institucionalização
no nível médio de ensino, parecem ter reavivado o interesse dos estudiosos da área
pelo exame das condições de possibilidade e dos obstáculos enfrentados pela
sociologia enquanto disciplina escolar no passado1.
Dificilmente se compreende, no entanto, a falta de estudos acerca da sociologia
escolar na bibliografia, que tem se ampliado nas últimas décadas, sobre a história das
ciências sociais no Brasil feita por pesquisadores interessados em sua rotinização
como prática científica e acadêmica 2. Tal ausência pode ser, quando muito, explicada
sociologicamente ao considerarmos, por exemplo, a persistente tendência à
diferenciação e à hierarquização das formas de saber entre os praticantes da disciplina
nas universidades, tidas tradicionalmente como lócus por excelência da produção de
conhecimento e da pesquisa empírica, e nas escolas, tidas como um espaço de saberes
derivados, “traduzidos”, “adaptados”, “transpostos” e, portanto, de segunda ordem.
Não obstante, como nos lembram referências teóricas clássicas da historiografia das
ciências (Fleck, 2010), para a compreensão histórica e sociológica do desenvolvimento
do conhecimento científico, o exame das atividades de ensino e divulgação, a exemplo
da produção de manuais didáticos, é tão relevante quanto a análise das proposições
teóricas e dos trabalhos de pesquisa básica ocorridos no passado. Aquelas atividades
contribuem, afinal, para a circulação do conhecimento produzido “intramuros”
acadêmicos, impulsionando sua legitimação social e sua cristalização na forma de
pressupostos e modos compartilhados de enxergar a realidade. Estes, por sua vez,
1
Nos livros organizados por Handfas & Oliveira (2008); Handfas et al. (2015) e Silva e Gonçalves (2017),
encontram-se não apenas análises sobre a situação da sociologia como disciplina escolar no início do
século XXI, mas também avaliações e estudos sobre sua ocorrência no passado. O interesse despertado
pelo ensino da sociologia como tema de pesquisa, no âmbito de programas de pós-graduação em ciências
sociais, com a reintrodução da disciplina no ensino médio brasileiro em 2008 foi examinado, entre outros,
por Bodart & Cigales (2017) e Oliveira e Melchioretto (2020).
2
Ver, por exemplo, os volumes organizados por Miceli (1995, 2001), que constituem importante referência
para essas discussões.
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Lopes, T. C.
podem constituir relevantes pontos de partida, enquanto conhecimentos assentados,
para a socialização das novas gerações de estudiosos e cientistas.
No Brasil, a história da sociologia como ramo que se pretendia autônomo e
específico do conhecimento esteve, em um primeiro momento, estreitamente
vinculada ao ensino secundário e às escolas normais 3. Tal vinha sendo a relevância
desses níveis de ensino na construção de um lugar para formas de saber sociológico
na sociedade brasileira que o fim da obrigatoriedade da disciplina no currículo escolar
com a Reforma Capanema de 1942 produziu repercussões significativas, ainda não
inteiramente investigadas, sobre o campo de atuação profissional e a identidade
social, então em vias de construção, das primeiras gerações de sociólogos que se
formavam nas faculdades de filosofia do país 4. Embora a reforma seja um episódio-
chave para a história das ciências sociais no Brasil – e não apenas para a história de
suas modalidades escolares –, ainda permanecem pouco claras as circunstâncias que
a presidiram e, sobretudo, o papel que desempenharam os intelectuais católicos nesse
processo. Neste artigo, buscamos reunir, a partir de pesquisa arquivística, algumas
pistas capazes de alargar nossa compreensão do contexto intelectual e político de
exclusão da sociologia dos cursos secundários.
Concentrando-nos na Reforma Capanema, exploramos a hipótese de que as
disputas empreendidas pelos católicos no terreno das ciências sociais constituíram
elemento decisivo do contexto que levou à retirada da sociologia das escolas brasileiras
e à consequente mudança nos rumos de sua institucionalização no país. Argumentamos
que as posições assumidas por representantes daquele grupo confessional nos debates
sobre o caráter científico da sociologia e nos esforços de definição de suas fronteiras
disciplinares, bem como a ascendência que exerceram sobre quadros-chaves do alto
escalão do governo Vargas, precisam ser mais bem compreendidas se quisermos
alcançar uma interpretação historicamente densa e matizada desse que foi um evento
significativo para a história das ciências sociais no Brasil.
Nesse caso, afastamo-nos dos estudos predominantes acerca da trajetória da
sociologia na educação básica, que tendem a optar por abordagens amplas, ao modo
dos balanços, perpassando diferentes momentos do Brasil contemporâneo – enfoque
certamente valioso que nos permite uma visão panorâmica dos caminhos e
3
Em suas análises sobre o desenvolvimento da sociologia no Brasil, Fernando de Azevedo, referindo-se aos
escolanovistas, observa o impulso a ele conferido “[...] pelos educadores e reformadores que viam nos
estudos científicos da sociedade o ponto de partida e a base sólida para transformações racionais das
instituições e dos sistemas escolares, em sua estrutura e em suas finalidades” (Azevedo, 1955, p. 381).
Destaca, igualmente, que o ensino da sociologia na educação básica e nas escolas normais precedeu à sua
oferta nos cursos superiores de ciências sociais (Azevedo, 1967).
4
Conforme observa Luiz de Aguiar Costa Pinto, os cursos de ciências sociais das faculdades de filosofia do
país – para os quais o curso da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (FNFi), iniciado
em 1939, deveria funcionar como modelo – tinham como uma de suas finalidades o incremento da
formação de professores para as escolas secundárias, onde então a sociologia constituía matéria
obrigatória (Costa Pinto, 1949).
Rev. Bras. Hist. Educ., 24, e334, 2024 p. 3 de 31
A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
descaminhos da disciplina no nível médio de ensino, mas que acaba, por vezes,
deixando de lado a investigação circunstanciada de momentos-chaves da história da
sociologia escolar no país. Tais trabalhos, cobrindo longos períodos, carecem,
ademais, de um conjunto robusto de fontes primárias capazes de respaldar a análise.
Tomando por base publicações de diferentes formatos produzidas pelos círculos
católicos, bem como notícias de jornal, decretos-leis e a documentação constante do
arquivo pessoal de Gustavo Capanema, buscamos realizar um exame focalizado e
vertical do episódio em questão. Foi com esse intuito que procedemos a uma análise
de conteúdo de textos publicados na revista A Ordem, importante periódico da
intelectualidade católica, que abordassem as reformas educacionais do período ou
refletissem sobre a sociologia como ciência. A respeito desse último tema,
consideramos particularmente as publicações de Alceu Amoroso Lima (1931),
proeminente representante do laicato católico e autor de Preparação à sociologia.
Nessas leituras, buscamos identificar o sentido atribuído à sociologia e a posição dos
católicos quanto à presença dessa disciplina no ensino secundário. No caso do Arquivo
Capanema, concentramo-nos no exame das ocorrências do termo “sociologia” na
pasta que reúne seus materiais sobre a reforma de 1942, parte da Série “Ministério da
Educação e Saúde – Educação e Cultura”, conforme classificação do CPDOC/FGV (RJ),
que abriga esses documentos5.
Ao abordarmos as concepções dos católicos sobre a cientificidade da sociologia,
partimos da perspectiva teórica, cara à historiografia das ciências contemporânea, que
examina a atividade científica em sua historicidade, concebendo-a como um conjunto
de práticas e ideias, de sentido variável, levadas a cabo por atores sociais situados no
tempo e no espaço.6 Assim, no lugar de ajuizarmos a validade epistêmica da sociologia
que os católicos propuseram a partir de critérios supostamente fixos e atemporais
reunidos sob a rubrica do chamado método científico, buscamos compreender seus
esforços em delimitar as fronteiras daquela disciplina, processo não apenas cognitivo
mas também social que somente adquire inteligibilidade à luz das disputas
intelectuais e políticas que travaram. Considerar a discussão promovida por esses
atores sobre a sociologia enquanto ciência é fundamental, como indicaremos, para o
entendimento das estratégias que adotaram em face de sua modalidade escolar.
Inicialmente, retomamos as leituras que se sedimentaram acerca da reforma.
Em seguida, abordando o contexto intelectual e político em que esta se desdobrou,
buscamos nuançar tais interpretações com base nas fontes arquivísticas examinadas.
5
Os documentos do Arquivo Capanema aqui analisados se encontram na pasta GC g 1936.03.24/1 da Série
Ministério da Educação e Saúde - Educação e Cultura.
6
Ver, entre outros, Shapin (2013). Tal perspectiva se alinha à preocupação, demonstrada por estudiosos
da história da sociologia como disciplina escolar, em examinar os distintos significados por esta assumida
no passado (Meucci, 2015).
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Lopes, T. C.
INTERPRETAÇÕES SOBRE A REFORMA
Nos balanços mais conhecidos sobre o percurso da sociologia nas escolas
brasileiras, palmilhado por intermitências, avanços e recuos, a Reforma do Ensino
Secundário instituída durante o Estado Novo pelo Ministro da Educação e da Saúde de
Vargas, Gustavo Capanema, constitui um marcador cronológico relevante. Ela
inaugura o longo período de sua ausência enquanto disciplina obrigatória na educação
básica depois de uma breve experiência, nas décadas de 1920 e 1930, como
componente curricular dos anos finais do antigo ensino secundário, ligados aos cursos
complementares e preparatórios para o vestibular (Machado, 1987; Santos, 2002;
Moraes, 2003; Zanardi, 2013)7.
Permanecem ainda em aberto, entretanto, as razões que levaram à exclusão da
sociologia do novo modelo curricular introduzido pela Reforma Capanema, que
passou a estruturar a escola secundária em dois ciclos (ginasial e colegial), dividindo
o segundo em clássico e científico, no esforço de conferir identidade e função
específicas a este nível do ensino, até então visto apenas como etapa complementar e
preparatória ao ingresso nos cursos de formação superior (Montalvão, 2021).
A ideia segundo a qual na origem da decisão, tomada por um regime autoritário
e nacionalista repleto de preconceitos de natureza ideológica, estaria a ameaça
representada por um saber crítico e, portanto, potencialmente questionador da ordem
vigente, é rechaçada como simplista e anacrônica especialmente por Moraes (2011). O
autor enxerga na supressão da sociologia do currículo motivações mais pragmáticas e
operacionais, ligadas tanto à nova estrutura de ensino quanto ao próprio
desenvolvimento incipiente da Sociologia como ciência. Assinalando que as
mudanças empreendidas por Capanema não tinham a disciplina como alvo, o autor
argumenta que a Reforma apenas instituiu uma proposta curricular no interior da qual
a sociologia, ainda às voltas com a definição de seus domínios e de uma identidade
cognitiva própria, dificilmente conseguiria se encaixar, já que nem se identificava
como parte da formação clássica e humanista – em razão, sobretudo, da preocupação
em se diferenciar da Literatura – nem seria capaz de perfilar ao lado das disciplinas
propriamente científicas. A leitura de Moraes tem sido endossada por diferentes
autores (Oliveira, 2013; Souza, 2017; Rodrigues, 2018). Ela problematiza, sobretudo,
a associação automática entre a ausência da sociologia no currículo escolar e o espírito
cerceador dos governos autoritários do passado recente.
Sem divergir explicitamente de Moraes, Meucci (2015) procura acrescentar um
nível de compreensão do episódio a partir de interpretação mais propriamente
sociológica. Conforme argumenta, o ingresso da sociologia nas escolas em meados dos
7
Note-se, todavia, como indicou Fraga (2020), que ideias e pontos de vista sociológicos foram, ainda assim,
veiculados, ou em formatos alternativos no ensino secundário, como parte do conteúdo de outras
disciplinas, por exemplo, ou em diferentes espaços institucionais que não os da escola.
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A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
anos 1920 guarda íntima conexão, no contexto de crise do pacto oligárquico da Primeira
República, com a crescente insatisfação quanto ao descompasso entre o ordenamento
político liberal e a vida social do país e com as aspirações das elites por um
conhecimento mais acurado da realidade brasileira. A saída da disciplina produzida pela
Reforma Capanema refletiria, por sua vez, o esgotamento do projeto do Estado Novo,
cujos agentes enxergariam na sociologia um fundamento para sua proposta de
organização antiliberal da nação (Meucci, 2015). Como nos lembra a autora, a sociologia
não possuía um sentido unívoco, mas se prestava a variadas definições que, por sua vez,
ligavam-se a distintas compreensões do seu objeto – o “social” –, e, consequentemente,
a diferentes projetos políticos de reordenamento da sociedade.
Guardadas as suas diferenças, o modelo interpretativo esboçado por Meucci,
que busca compreender os sucessos e azares da sociologia nas escolas a partir de
movimentos mais gerais da própria sociedade, parece ter em Luiz de Aguiar Costa
Pinto um de seus primeiros formuladores (Costa Pinto, 1949; Costa Pinto & Carneiro,
2012). Costa Pinto enxerga o que chama de “surto das ciências sociais” no Brasil dos
anos 1930, incluindo a confirmação da inserção da sociologia no nível médio de ensino
em âmbito nacional pela Reforma Francisco Campos, de 1931, como repercussão, na
vida cultural, das transformações socioeconômicas por que vinha passando o país, e
que culminaram na Revolução de 1930.
Produto cultural de um tempo de crise societal, a sociologia, não sem razão,
teria se alimentado, aqui como alhures, dos esforços de setores da sociedade em
examinar cientificamente os problemas gerados pelas avassaladoras mudanças
modernizadoras desencadeadas pela urbanização e pela industrialização de modo a
serem capazes de se orientar neste processo e, no limite, conduzi-lo racionalmente.
As contramarchas sofridas pela sociologia uma década depois, cuja expressão maior,
para Costa Pinto, é justamente a retirada da disciplina do currículo escolar,
decorreriam, por seu turno, de impasses e contradições produzidos pela própria
mudança social. Esta, na perspectiva do sociólogo, longe de apresentar um sentido
linear, estaria presa a uma dinâmica contraditória, em que nem os padrões
tradicionais e os arcaísmos advindos do passado nem os princípios e valores modernos
que irrompiam no seio da sociedade brasileira teriam força suficiente, em si mesmos,
para preponderar sobre o conjunto das transformações em curso, o que colocava o país
em uma situação de “marginalidade estrutural” 8.
Não à toa, Costa Pinto identifica a exclusão da sociologia operada pela Reforma
Capanema como reflexo, no plano da cultura, dos reveses sofridos pelo processo
revolucionário a partir do ano de 1935, com o progressivo fechamento do regime que
8
Com esse conceito, o sociólogo tinha em mente um tipo de estrutura social que, no processo de mudança,
perpetuava-se como híbrida, já não mais exclusivamente “tradicional”, mas tampouco capaz de levar a termo
sua modernização em um sentido capitalista. Estudos sobre a centralidade desse conceito na obra de Costa
Pinto se encontram em Maio & Villas Bôas (1999). Para uma análise circunstanciada do balanço de Costa Pinto
sobre a história das ciências sociais no Brasil, ver Brasil Jr. (2012).
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Lopes, T. C.
culminou, dois anos depois, com o Estado Novo e a contenção das forças renovadoras
que, na avaliação do sociólogo, estariam dispostas a levar às últimas consequências o
movimento de transformação política iniciado em 1930. O resultado contraditório
deste quadro, segundo Costa Pinto, foi a explosão, durante o Estado Novo, do uso do
termo “social” na vida cultural e intelectual do país (“legislação social”, “literatura
social”, “assistência social”, “política social” etc.), acompanhada, todavia, da crença
de que seria “perigoso” estudar o social cientificamente (Costa Pinto & Carneiro,
2012). A “ideologia educacional” das elites dirigentes, no intervalo de uma década,
teria abandonado o interesse em munir os estudantes de ferramentas necessárias à
compreensão racional da vida social em constante mudança, base para sua integração
consciente e ativa ao mundo, em prol de uma postura obscurantista, avessa às ciências
e preocupada com a defesa da ordem política (Costa Pinto & Carneiro, 2012). À medida
que ameaçava desnudar os fundamentos do status quo, revelando-lhe as contradições
e os fatores dinâmicos capazes de conduzi-lo à mudança, o ensino da sociologia se
tornava “tabu” (Costa Pinto & Carneiro, 2012).
Independentemente da validade explicativa da leitura de Costa Pinto, que supõe,
à semelhança das outras, uma interpretação específica sobre os acontecimentos
políticos do Brasil dos anos 1930, ela possui o mérito de não perder de vista os
imbricamentos entre a institucionalização da sociologia escolar e a institucionalização
da sociologia no nível superior, enquanto prática de ensino e pesquisa a partir da
universidade. Isto é, enxerga as adversidades que enfrentou para se firmar no currículo
escolar como elemento fundamental para se compreender o desenvolvimento da
sociologia como ciência e como atividade profissional no país (Costa Pinto & Carneiro,
2012). A análise de Costa Pinto nos parece igualmente valiosa porque foi produzida por
um ator diretamente envolvido nos esforços de institucionalização das ciências sociais
a partir da Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, instituição na qual se
formou e à qual passou a estar profissionalmente vinculado, inicialmente como
assistente da cadeira de sociologia (Maio & Lopes, 2015)9.
Apesar do seu inegável valor, a leitura de Costa Pinto, como as demais, não se
detém na análise do contexto intelectual específico em que a exclusão da sociologia
se processou. Este parece apontar para um quadro mais complexo do que aquele
sugerido pelas interpretações correntes, envolvendo debates ferozes, alimentados
particularmente pelos intelectuais católicos, sobre a cientificidade da disciplina e a
natureza do seu objeto10.
9
A relevância que Costa Pinto atribuiu à presença da sociologia no currículo escolar, que não dissociava,
como indicamos anteriormente, dos destinos da sociologia como um todo no país, pode ser aferida ainda
da tese que escreveu para o concurso à livre docência na FNFi, em setembro de 1947, cujos resultados
foram posteriormente publicados na revista Sociologia (Costa Pinto, 1947a, 1949).
10
Embora não se refira explicitamente aos católicos em sua análise da “reação obscurantista” das elites
dirigentes no terreno educacional durante o Estado Novo (Costa Pinto & Carneiro, 2012), Costa Pinto
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A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
A fim de contribuir para um melhor esclarecimento da questão, debruçamo-nos,
a seguir, sobre o interesse dos intelectuais e educadores vinculados ao laicato católico
pela sociologia e as disputas teóricas e institucionais que vinham travando em torno
da disciplina no Brasil. O enfoque sobre os católicos se justifica uma vez que
lembramos que esse grupo confessional, principalmente por intermédio de Alceu
Amoroso Lima, exerceu forte ascendência junto a Gustavo Capanema, que atuou como
Ministro da Educação e Saúde de Vargas de julho de 1934 até o final do Estado Novo.
Também as fontes primárias existentes, até o momento pouco exploradas pela
literatura, sublinham o papel desses círculos na exclusão da sociologia como disciplina
da grade escolar.
AS CIRCUNSTÂNCIAS DA REFORMA
A Lei Orgânica do Ensino Secundário foi instituída pelo Decreto-lei nº 4.244, de
9 de abril de 1942, em plena vigência do regime autoritário, e perdurou até a
reestruturação do sistema escolar implementada pela Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional de 1961. Ela fazia parte de ambicioso projeto do ministro de Vargas,
que buscava conferir unidade, homogeneidade e maior controle, por parte da
administração central, à educação do país, em sintonia com as tendências políticas
centralizadoras do período e as expectativas das elites intelectuais, que avaliavam como
central o papel das instituições de ensino na modelagem da futura nacionalidade
(Saviani, 2011). Desde que assumira o ministério, Capanema vinha buscando
reestruturar os diferentes níveis de ensino, amarrando-os a um projeto de nação, como
se entrevê nas discussões em torno do Plano Nacional de Educação (Horta, 2010).
Em suas linhas gerais, a Reforma se colocava em continuidade com aquela
instituída uma década antes por Francisco Campos, que buscou dotar o ensino
secundário de fisionomia própria e estabelecer normas e padrões mínimos, nacionais,
a serem seguidos pelos estabelecimentos de ensino do país, que passaram a receber
inspeção federal11. Sem destoar do entendimento, então dominante, de que se tratava
reconhece o peso que esses grupos tiveram no debate sobre a sociologia científica no Brasil. Em seu
conhecido texto “Sociologia e mudança social”, ele qualifica a sociologia proposta pelos católicos,
interessados, a seu ver, em transformar a ciência da sociedade em um “repositório de ‘regras de bem
viver’”, como uma “utopia normativa”, e observa: “Vale o consolo de que, do ponto de vista teórico, a
ofensiva que dirigem contra o método científico, contra o que chamam a ‘chamada ciência’, é muito débil
e não constitui ameaça séria. Mesmo no Brasil, onde por tanto tempo só se conheceu esse tipo de
sociologia, foi a verificação de sua pobreza lamentável – e a desconfiança em relação a tudo mais – um
dos fatores da exclusão das ciências sociais do currículo da escola secundária” (Costa Pinto, 1947b, p. 323,
grifo do autor). Na terceira seção deste artigo, teremos a oportunidade de examinar com atenção a visão
dos católicos quanto à cientificidade da sociologia.
11
Assim como Capanema, Francisco Campos provinha dos grupos políticos mineiros que, em meio à crise
sucessória do governo Washington Luís, apoiaram a movimentação que deflagrou a denominada
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Lopes, T. C.
de modalidade superior de ensino médio – distinta, portanto, dos ensinos agrícola,
industrial e comercial, que preparavam o aluno imediatamente para o mundo do
trabalho –, a lei sobre o ensino secundário instituída por Capanema fixava um
conjunto básico de conhecimentos, atitudes e comportamentos que deveriam fazer
parte do primeiro ciclo formativo, o ginásio, com duração de quatro anos. Este poderia
ser seguido tanto pelos que buscavam a inserção em cursos profissionalizantes quanto
por aqueles que se preparavam para o ingresso nas universidades (na prática, os filhos
das elites) (Schwartzman et al., 2000). Nesse segundo caso, após o ciclo ginasial, o
aluno deveria optar ou pelo ensino clássico ou pelo científico conforme o curso
superior pretendido.
Se o currículo do ensino secundário instituído por Francisco Campos ampliava
o leque de disciplinas até então ofertadas, conferindo papel destacado às ciências na
formação dos alunos, a Reforma Capanema abria o espaço às humanidades clássicas,
como o Grego e, principalmente, o Latim, tornado matéria obrigatória nas quatro
séries do curso ginasial e nas três séries do curso clássico 12. Em texto introdutório ao
projeto de reforma endereçado a Vargas, Capanema observa que o ensino secundário,
voltando-se para a “preparação das individualidades condutoras” (a saber, as futuras
elites do país), deveria ter como finalidade específica a formação da “consciência
patriótica” e da “consciência humanística” dos adolescentes. Conforme argumentava,
se as ciências constituíam importante fonte de orientação no mundo moderno,
dominado pela máquina e pela racionalidade técnico-científica, a educação não
poderia descuidar da herança clássica, que constituiria uma das bases da “cultura
nacional” (Capanema, 1942). O Latim, em particular, era o “fundamento e a estrutura
da língua nacional” (Capanema, 1942).
Embora Capanema procure amarrar o ensino das humanidades clássicas à
retórica nacionalista inflamada característica do Estado Novo, ele também convergia
com as concepções pedagógicas e os interesses católicos. Para esses, o ensino das
letras clássicas assumia centralidade. Em 1940, Alceu Amoroso Lima lastimava o “[...]
abandono do sentido humanista da formação do homem brasileiro [...]” com o advento
da República, que teria assistido, em conformidade com uma orientação pedagógica
utilitária e profissionalizante, de inspiração positivista e cientificista, à
sobrevalorização de conteúdos disciplinares relacionados à ciência e à técnica em
Revolução de 1930. Em Minas Gerais, ele havia sido secretário do Interior do governo Antônio Carlos
(1926-1930), implementando uma reforma educacional, de caráter modernizador e inspirada em ideais
escolanovistas, que projetou seu nome nacionalmente. Com a Revolução, Campos assumiu o Ministério
da Educação e Saúde Pública criado pelo governo provisório em fins de 1930, nele permanecendo até 1932
(Malin, 2015).
12
As ciências naturais deixam de figurar nas duas primeiras séries do ciclo básico e comum aos alunos do
ensino secundário, ao passo que elas estavam contempladas na grade do curso fundamental instituído
pela Reforma Francisco Campos – nas duas primeiras séries, como “ciências físicas e naturais” e nas três
últimas séries como “Física”, “Química” e “História Natural”. Cf. Decreto nº 19.890 (1931); Decreto-lei
nº 4.244 (1942).
Rev. Bras. Hist. Educ., 24, e334, 2024 p. 9 de 31
A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
detrimento das humanidades clássicas (Lima, 1940a, p. 465). Em conformidade com
essa visão, a defesa do Latim, língua oficial da Igreja, enquanto componente do
currículo escolar destinado à educação das futuras elites, era ponto pacífico nas
páginas d’A Ordem, a revista dos católicos (Azzi, 1929; Van Acker, 1933).
O amplo espaço dado às letras clássicas no novo currículo nos permite entrever
a ascendência dos católicos sobre a Reforma Capanema. Assumindo, como veremos
na próxima seção, posições salientes nos debates educacionais dos anos 1920 e 1930,
representantes desse grupo confessional constituíram interlocutores-chaves de
Capanema durante o Estado Novo.
A supressão da sociologia do ensino secundário também deve ser
compreendida, conforme argumentamos, a partir dessas conexões. No Arquivo
Capanema, encontram-se, entre os documentos sobre a Reforma, três pareceres de
educadores vinculados ao mundo católico posicionando-se contrariamente à
permanência da disciplina nas escolas. Eles fazem parte de um conjunto de
apreciações, realizadas por educadores, do anteprojeto da Lei Orgânica do Ensino
Secundário que Capanema procurou reunir antes de encaminhar o plano a Vargas13.
Um dos pareceres é de autoria de Alceu Amoroso Lima. Educador, crítico
literário e escritor profícuo, conhecido pelo pseudônimo Tristão de Ataíde, Amoroso
Lima foi uma das mais expressivas lideranças do laicato católico no país, travando,
nos anos 1930, acirradas disputas com representantes da Escola Nova no terreno
educacional (Daros, 2013). É igualmente conhecida a forte ascendência que manteve
junto a Capanema no recrutamento de professores e na montagem dos cursos da
Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, fundada em 1939, após a
extinção da antiga Universidade do Distrito Federal, na qual Amoroso Lima havia
exercido o cargo de reitor entre 1937 e 1938 (Oliveira, 1995; Almeida, 2001) 14.
Observando que era preciso “[...] aliviar os cursos dos colégios (clássico-científico),
exageradamente sobrecarregados [...]”, Amoroso Lima propõe a incorporação da
cadeira de Literatura pela de Português. A respeito da Sociologia, assevera: “Sugiro
ainda, de modo veemente, a supressão da cadeira de ‘Sociologia’, que, em hipótese
alguma, deve ser cadeira do curso secundário e apenas do curso superior” (Lima, n.d.,
p. 5, grifo do autor). Teremos oportunidade, à frente, de examinar as razões com que
13
Horta (2010) chamou a atenção para a existência desses pareceres, ainda que seu interesse, diverso do
nosso e mais geral, tenha sido o de evidenciar as consequências, para as políticas educacionais do período,
das vinculações de Capanema com os católicos.
14
O projeto da Universidade do Distrito Federal, vinculado à administração de Pedro Ernesto na então
capital do país, foi sustado por Vargas em meio à crescente e tensa polarização política que levou ao
afastamento de um de seus principais idealizadores, o educador escolanovista Anísio Teixeira, acusado
de colaboração com o levante comunista de 1935 e alvo da ferrenha crítica dos católicos (Schwartzman et
al., 2000). O anticomunismo não foi um elemento desprezível na construção da crítica dos católicos à
Escola Nova e às “novas ciências do homem” (como a sociologia) a que esses educadores recorriam a fim
de dar lastro às suas propostas educacionais. Como buscaremos indicar, ele também informa a posição
dos católicos em favor da supressão da disciplina no currículo das escolas secundárias.
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Lopes, T. C.
o intelectual buscou fundamentar sua visão sobre o espaço institucional adequado
para a disciplina. Notemos, por ora, que sua sugestão é apresentada como uma medida
capaz de tornar o currículo das escolas mais enxuto.
Outro parecer, do padre jesuíta Leonel Franca, afirma: “Inclino-me a julgar que
a sociologia não se ensina com grande proveito nos cursos secundários” (Franca, n.d.,
p. 2). À semelhança de Amoroso Lima, Franca aponta que o currículo proposto pela
reforma estaria “sobrecarregado de disciplinas”: “Dispersão e superficialidade levarão
inexoravelmente ao enciclopedismo e à memorização de conhecimentos [...]” (Franca,
n.d., p. 1). Nesse caso, a Sociologia não parece ser o único alvo, mas também a História
das Artes, os Trabalhos Manuais e a Literatura. Os conteúdos dessa última disciplina,
conforme sugere o parecerista, aproximando-se igualmente da visão de Amoroso
Lima, poderiam ser incluídos nos dois últimos anos dos programas de Português,
Latim e Línguas Modernas (Franca, n.d.). Próximo ao cardeal Sebastião Leme, Franca
desempenhou papel-chave, ao lado de Amoroso Lima, na defesa do ensino religioso
na educação básica que mobilizou as hostes católicas nas discussões constituintes dos
anos 1930. Atuou igualmente, desde esse período, na construção do sistema de
instituições de ensino superior que, em 1946, conformaria a Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (Oliveira, 2021).
Um terceiro parecer é de autoria do também padre jesuíta Arlindo Vieira. Ainda
que não tão conhecido como aqueles acima referidos, seu nome integra os debates,
travados nos anos 1930, sobre a forma a ser assumida pelo ensino secundário no Brasil,
matéria a respeito da qual escreveu os livros O problema do ensino secundário (1936) e
O ensino das humanidades (1936), além de artigos em jornais, sempre em tom polêmico
(Rocha, 2005). Vieira não somente contou com o apoio de Amoroso Lima na
divulgação de seus trabalhos (Vieira, 1943), como também atuava, à época, como
diretor do Colégio Santo Inácio, instituição fundada pelos jesuítas que alcançou
renome entre as escolas particulares frequentadas pela elite da então capital federal.
Sua posição no quadro das instituições de ensino do Rio de Janeiro nos ajuda a
compreender o canal de comunicação que logrou construir com Capanema, de cujo
gabinete se tornou frequentador (Montalvão, 2021). Em seu parecer, Arlindo Vieira
nota, à semelhança dos demais, o que considera o excesso de disciplinas na grade
curricular, defendendo a diminuição da carga horária semanal dedicada ao estudo das
ciências. Para os dois últimos anos do percurso formativo, sugere, em conformidade
com os outros pareceres, a diluição dos conteúdos de Literatura na disciplina de
Língua Portuguesa. Acerca do ponto que nos interessa, escreve:
A sociologia, introduzida na França, outrora, por fins sectários, não
faz parte dos programas de ensino secundário da Europa. É matéria
de um curso superior. / Aqui essa experiência no curso complementar
foi desastrosa. Em quase todos os cursos de colégios leigos, essa
disciplina se converteu em cátedra de propaganda subversiva. Disso
Rev. Bras. Hist. Educ., 24, e334, 2024 p. 11 de 31
A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
temos pleno conhecimento, mediante as notas de aula que nos foram
apresentadas por nossos antigos alunos e outros. Os pobres rapazes,
sem madureza intelectual para ajuizar do valor das doutrinas de
mestres sem consciência, facilmente se deixam levar por essas
tiradas de pura demagogia. Seria, pois, conveniente suprimir essa
disciplina do curso secundário (Vieira, 1941, p. 5).
O parecer de Arlindo Vieira compartilha com os outros a perspectiva de que,
diante da necessidade de se combater o ensino enciclopédico, a sociologia se
encontrava entre as disciplinas que poderiam ser suprimidas da extensa e pesada
grade curricular do ensino secundário. A referência ao “enciclopedismo” se tornou
ponto comum na crítica católica à Reforma Francisco Campos. Conforme se depreende
das páginas da revista A Ordem, a expressão indicava a desaprovação desses
intelectuais em relação ao peso que a educação moderna conferia às disciplinas
científicas, considerado excessivo15.
O comentário do padre Vieira assume relevo particular para nossa análise na
medida em que expressa abertamente o receio de que as aulas de sociologia se
convertessem, sub-repticiamente, em espaço para a difusão de visões de mundo
anticlericais e secularistas combatidas pela Igreja, sobretudo as filosofias materialistas
representadas pelo positivismo e pelo comunismo. Ao afirmar que, na Europa, a
disciplina constava apenas do currículo do ensino superior, e não do secundário, Vieira
se aproximava de argumento acionado por Alceu Amoroso Lima. Conforme veremos na
próxima seção, para este, a exclusão da sociologia das escolas se justificava diante da
falta de maturidade dos alunos, que não saberiam avaliar, de um ponto de vista
metateórico, o mérito relativo das correntes e teorias em disputa no seio daquela
ciência, vista como incipiente. O resultado não poderia ser outro que não um amálgama
heterogêneo e confuso dos mais diferentes autores, teorias e conceitos.
Os pareceres dos católicos constituem fontes valiosas que nos ajudam a matizar
as interpretações correntes envolvendo a supressão da disciplina pela Reforma
Capanema. Antes, contudo, de investigarmos de modo mais minucioso as posições
intelectuais que esses documentos refletem, que somente adquirem sentido quando
consideramos a ofensiva lançada por esses intelectuais no terreno das “novas ciências
do homem”, convém examinarmos brevemente como a sociologia vinha se
constituindo, até então, nos planos para o ensino secundário esboçados por
Capanema. Essa questão é importante já que, no lugar de expressar a tomada de
posição do Estado Novo como um todo, a retirada da sociologia do currículo escolar
15
No Brasil, de acordo com a perspectiva católica, a ênfase pedagógica nas ciências teria suas origens no
positivismo da Primeira República. Nas palavras de Leonardo Van Acker, professor de Filosofia da
Faculdade de São Bento de São Paulo, o período teria substituído as humanidades clássicas por “[...] um
mistifório inominável, feito de bacharelice verbalista e cientismo utilitário” (Van Acker, 1933, p. 738).
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Lopes, T. C.
parece refletir a pressão de grupos específicos com os quais aquele buscava barganhar
apoio político16.
Uma leitura atenta da documentação relativa à reforma mantida por Capanema
revela que a disciplina constava do novo modelo curricular vislumbrado pelo ministro
que, em esboços do decreto-lei sobre o ensino secundário, previa a sua inclusão na
terceira série do segundo ciclo – e isto tanto para as turmas do curso clássico quanto
para aquelas do científico (Capanema, n.d., 1941a). Isto é, a disciplina parecia
constituir um ingrediente essencial tanto à formação humanística (em que
preponderava o estudo das letras antigas) quanto àquela centrada no ensino da
matemática e das ciências naturais. Em discursos rascunhados para o anúncio do novo
modelo, a Sociologia, ao lado da História, da Geografia e da Filosofia, era mencionada
por Capanema como uma das matérias fundamentais para a formação dos futuros
cidadãos. Nas palavras do ministro, em declaração à imprensa publicada em diversos
jornais do país:
Se, em tempos remotos, muitos brasileiros souberam latim e
matemática, se muitos souberam escrever com finura e critério,
quantos, quão numerosos são, hoje em dia, os nossos patrícios ainda
jovens, que falam e escrevem o latim, que conhecem a fundo a
história, a geografia e a sociologia, que são mestres nas outras
ciências, que possuem um conhecimento admirável das matérias
filosóficas e que sabem escrever exemplarmente (Capanema, 1941b).
As fontes do Arquivo Capanema reforçam a hipótese de que a posição dos
católicos em relação à sociologia foi decisiva para a ausência da disciplina na versão
final do decreto-lei que instituía o novo ensino secundário. Como seus documentos
pessoais sugerem, Capanema não parecia apresentar dúvidas quanto ao lugar da
sociologia no currículo escolar. À falta de fontes que nos esclareçam as posições do
ministro a respeito da disciplina, podemos supor que, de sua parte, o ensino da
sociologia não seria a princípio problemático porque poderia assumir um sentido e um
conteúdo afinados com o projeto estadonovista de construção da sociedade nacional
ou, no pior dos cenários, não representaria uma ameaça séria a esses planos.
A hipótese de que Capanema não apresentava razões particulares para se opor
à presença da sociologia no ensino secundário nos leva a crer que a exclusão da
disciplina foi produto de um esforço acomodatício característico do estilo político de
16
Além desses, há pelo menos mais um parecer, de autoria não identificada, que sugere a supressão da
disciplina da grade escolar. Pelo teor do texto, supõe-se que seja de quadro de uma instituição de ensino
das forças armadas que esposava uma concepção positivista das ciências: “No tocante à Sociologia, já foi
ela eliminada do curso da Escola Militar que é indiscutivelmente superior ao clássico ou científico, em
apreço. Além do mais, como ensinar Sociologia a quem não precisa nem estudou Biologia?” (Lei do Ensino
Secundário, n.d.).
Rev. Bras. Hist. Educ., 24, e334, 2024 p. 13 de 31
A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
Vargas, representando, acima de tudo, uma concessão feita a uma demanda dos
católicos, tidos como importantes aliados. Nesse caso, a fonte das oposições mais
intransigentes ao ensino da sociologia parece se deslocar do alto escalão do governo
Vargas para a Igreja e seus representantes laicos, restando-nos compreender por que
esses últimos tomaram posição tão categórica pelo fim da obrigatoriedade da
disciplina nas escolas.
A SOCIOLOGIA CATÓLICA NO BRASIL: INSTRUMENTO DE LUTA OU PROJETO
CIENTÍFICO?
Embora tenha demonstrado inicialmente sérias reservas a Vargas e à Revolução
de 1930, a Igreja Católica vinha se aproximando do governo e, no decorrer daquela
década, logrou assegurar que algumas de suas mais importantes reivindicações no
terreno educacional fossem atendidas, como a permissão para o ensino religioso
facultativo nas escolas públicas, possibilidade excluída pela constituição republicana
e laicizadora de 1891. Francisco Campos enxergava os católicos como importantes
aliados no esforço de consolidação, junto às instituições e à sociedade, do novo regime
que o movimento iniciado em 1930 buscava consolidar e, à época que em que esteve à
frente do Ministério da Educação e Saúde, atuou como um dos artífices da
aproximação entre esse grupo confessional e o Palácio do Catete (Schwartzman et al.,
2000; Horta, 2010). Para os objetivos que nos interessam, não podemos esquecer, em
particular, das estreitas relações que Capanema manteve com Alceu Amoroso Lima,
decisivas para a modelagem de instituições e projetos educacionais no período
(Saviani, 2011).
A movimentação cultural e intelectual católica no Brasil adquire forte impulso
na década de 1920 (Pierucci et al., 2007). Em um cenário de efervescência política
diretamente ligado à crise do pacto oligárquico e à emergência de novos atores sociais,
vinculados aos setores médios urbanos, a Igreja passa a envidar esforços para
recuperar sua antiga ascendência sobre a sociedade, golpeada pela instauração da
República liberal no Brasil, vista como anticlerical (Pierucci et al., 2007). Em 1921,
Jackson de Figueiredo, intelectual identificado às hostes católicas, cria a revista A
Ordem. Em 1922, ano marcado por movimentos artístico-culturais e políticos
renovadores, ele alia a iniciativa editorial à fundação, no Rio de Janeiro, do Centro
Dom Vital. Estavam lançadas as bases para a ação do laicato católico a partir de um
ideário que pregava a restituição da “ordem moral” da sociedade brasileira, cujos
valores e instituições, plasmados pelo catolicismo, vinham sendo, conforme
argumentavam os católicos, ameaçados pelo individualismo e pelo secularismo
modernos (Salem, 1982).
A questão da educação estava no centro da agenda dos católicos. Embora
constituísse pauta obrigatória dos reformadores do período, que apontavam para a
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Lopes, T. C.
necessidade de reconstrução nacional com base na remodelação do ensino, a
educação, sobretudo aquela que se processava nas escolas secundárias e nas
universidades, foi valorizada pelos católicos enquanto canal privilegiado para a
recristianização do país e a formação de classes dirigentes aptas a operar a
reaproximação entre sociedade, Estado e Igreja. O Centro Dom Vital foi importante
espaço de coordenação dos esforços destinados à preparação, em moldes cristãos, das
futuras elites. Sob a liderança de Amoroso Lima, que assumiu a presidência da
organização com a morte de Jackson de Figueiredo em 1928, a atuação do grupo se
traduziu na fundação de uma série de organismos e instituições de ensino, como a
Associação dos Universitários Católicos do Rio de Janeiro em 1928, o Instituto Católico
de Estudos Superiores em 1932, e as Faculdades Católicas em 1941, tornadas
universidade em 1946 (Salem, 1982).
Os intelectuais e educadores católicos também marcaram presença no âmbito
da educação básica, travando conhecidas disputas com os escolanovistas nos anos
1930 (Cury, 1984). Ainda foi pouco debatido pelos estudiosos, entretanto, o empenho
desses círculos em construir alternativas às ciências sociais, de matriz francesa e
norte-americana, que à época abriam espaço no ambiente intelectual brasileiro
graças, em grande medida, às concepções pedagógicas modernas ventiladas pela
Escola Nova, que então buscavam se alicerçar nas chamadas “novas ciências do
homem” (biologia, psicologia e sociologia da educação) (Consolim, 2021). A
sociologia, em sua institucionalização, muito se beneficiou do movimento
escolanovista, sendo possível observar, nos anos 1920, a criação de cadeiras dedicadas
à disciplina nas escolas normais por iniciativa de intelectuais como Fernando de
Azevedo (Azevedo, 1955).
Diante do avanço que os escolanovistas pareciam obter na veiculação de suas
ideias e na conquista de espaços institucionais, o laicato católico no Brasil cedo passou
a construir sua própria visão sobre a sociologia, que denominou “cristã”, assentando-
a explicitamente em pressupostos filosófico-antropológicos que julgava mais
compatíveis com a cosmovisão da Igreja. É o que se depreende das páginas do livro
Preparação à sociologia, de Alceu Amoroso Lima (1931), uma das primeiras expressões
mais tangíveis do tipo de sociologia que será pleiteada pelos católicos. A obra marcava
a tomada de posição da importante liderança do laicato católico diante do processo de
disseminação da disciplina no país desde fins dos anos 1920 a partir do ensino
secundário e das escolas normais. Tal lugar institucional parecia se consolidar com a
chegada de Vargas ao poder após a Reforma Francisco Campos, que confirmava a
sociologia como disciplina obrigatória dos cursos complementares e normais (Decreto
nº 19.890, 1931).
O delineamento de uma “sociologia cristã” – também denominada “integral”
por Alceu Amoroso Lima, como veremos – deveria tornar os católicos aptos a
competir, no mercado das ideias, com as sociologias de corte naturalista (materialistas
e positivistas, conforme as classificavam), que vinham sendo introduzidas no país
Rev. Bras. Hist. Educ., 24, e334, 2024 p. 15 de 31
A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
principalmente a partir da obra de Durkheim. Essas correntes eram tidas como vetores
culturais nocivos porque comprometidas, na perspectiva católica, com visões de
mundo agnósticas e ateias, de caráter anticlerical, que era preciso a todo custo
combater17.
Ainda que o status científico da sociologia fosse por vezes posto em dúvida, os
católicos, aparentemente, não estavam interessados em atacar a disciplina enquanto
tal. Em um movimento que marcou sua inserção nos debates sobre as ciências
humanas, buscaram, em realidade, reivindicar posições próprias no seio das
tendências intelectuais do período. Nesse caso, insistiam, conforme ponderava
Amoroso Lima, que a sociologia era uma “[...] ciência em ser, em via de formação [...]”,
ou ainda, uma “[...] ciência informe” (Lima, 1931, p. 8). Da perspectiva católica, a
afirmação do caráter embrionário da sociologia servia ao argumento de que ela ainda
se encontrava envolvida em querelas filosóficas sobre seus fundamentos (Lima, 1931).
Assim, de acordo com Amoroso Lima, mesmo aquelas correntes que afirmavam se
basear em uma ciência social positiva e exclusivamente empírica se apoiavam em
pressupostos metateóricos e leituras da realidade que extrapolavam o universo do
observável (Lima, 1931). Fazendo a sociologia depender de postulados e definições
apriorísticas sobre a realidade e o ser humano, os católicos a colocavam no plano dos
debates e das controvérsias metafísicas, nas quais poderiam se envolver a partir de
suas próprias práticas intelectuais, afeitas à filosofia e à teologia. Isto é, sublinhar a
natureza não consensual do âmbito próprio da sociologia e de seu objeto constituía
parte do esforço dos católicos em participar, “enquanto católicos”, da discussão
intelectual sobre a cientificidade da disciplina sem que fossem de imediato rechaçados
como não científicos. Retornaremos mais à frente a esse ponto, que nos ajuda a
compreender as estratégias utilizadas por esses intelectuais no debate sobre a
presença da sociologia nas escolas.
Em um movimento característico dos católicos na busca por espaços, Amoroso
Lima participará, em 1930, do concurso para a cadeira de Sociologia promovido pela
Escola Normal do Distrito Federal, sem, no entanto, obter êxito. O certame, suspenso
no final daquele ano, provocou celeuma nos jornais pela participação, na banca
examinadora, do padre Leonel Franca, presença considerada espúria por
representantes da Escola Nova (Souza, 2021). Como já se indicou anteriormente, a
Reforma Francisco Campos também não havia agradado de todo aos católicos, que
enxergavam na presença significativa de disciplinas científicas uma perigosa
tendência secularista e ateia (Sobral Pinto, 1931). A despeito das derrotas, os católicos
avançam em meio à maré montante da sociologia escolar nos anos 1930. Escrevem e
publicam manuais introdutórios à disciplina (Cigales, 2019) e asseguram cadeiras nas
comissões nacionais encarregadas de aprovar os livros didáticos de sociologia
17
É o que sugere Amoroso Lima ao se referir à “sociologia determinista” e ao marxismo: “Na realidade social
de nossos dias, bem como na doutrina sociológica, os dois grandes polos humanos são Roma e Moscou, o
Vaticano e o Kremlin” (Lima, 1931, p. 16).
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Lopes, T. C.
(Ferreira, 2008). Também constroem lugares institucionais próprios para a veiculação
das formas de conhecimento sociológico que defendiam, a exemplo do Curso de
Sociologia ministrado por Alceu Amoroso Lima nos primeiros anos do Instituto
Católico de Estudos Superiores, inaugurado em 1932 a partir de esforços da
intelectualidade reunida no Centro Dom Vital (A Ordem, 1936).
O programa de sociologia estabelecido como referência nacional para os cursos
complementares do país, que serviam como preparação para o ingresso no ensino
superior, sinaliza relevante conquista dos católicos nesse terreno de disputas.
Oficializado a partir de portaria assinada por Gustavo Capanema em março de 1936, o
texto acompanha a visão metateórica de Amoroso Lima sobre a sociologia e converge
com sua concepção cristã em pontos específicos, porém fundamentais, sobre aquelas
que seriam as visões mais substantivas dos católicos acerca da vida social (Lima, 1931).
Assim, por exemplo, o programa da disciplina se preocupava em assinalar a diferença
entre sociologia e “sociologismo” – termo utilizado pelos católicos para classificar o
que enxergavam como o abuso da abordagem durkheimiana (ao menos como a
interpretavam) ao pretender reduzir o indivíduo, e instituições consideradas naturais
e atemporais pela Igreja, como a família nuclear e a monogamia, a mero efeito de
forças sociais e históricas contingentes (Brasil, 1936).
À semelhança da perspectiva de Amoroso Lima, o programa de sociologia de
1936 sublinhava as ligações entre a disciplina e o que denominava “ciências conexas”,
como a filosofia social e a filosofia moral. Como contraponto à “Escola de Durkheim”,
o programa enfatizava a existência da “Escola histórico-cultural” (Brasil, 1936).
Conhecida dos leitores da revista A Ordem, aquela corrente, em que despontavam os
estudos antropológicos do padre Wilhelm Schmidt, de Viena, sustentava que os
arranjos variáveis que a família assumia em diferentes épocas e culturas não
autorizavam a leitura durkheimiana de que esta era um simples precipitado de
estruturas sociais específicas. As diferenças observadas na instituição familiar
deveriam ser entendidas, isto sim, como reflexo de deformações em sua configuração
original e essencial (leia-se, baseada na união conjugal monogâmica, como prescrevia
a Igreja) provocadas pelo meio social. De acordo com o padre Schmidt e seus adeptos,
tal estrutura familiar original seria ainda identificável em “grupos primitivos” como
os pigmeus. Isto é, os diferentes tipos de sociedade agiam sobre a família, favorecendo
ou dificultando o seu funcionamento “normal”, mas não lhe alteravam as
características fundamentais, concebidas como perenes.
Na historiografia das ciências sociais no Brasil, poucos estudiosos se dedicaram
a examinar com atenção os temas, teorias e postulados metateóricos da sociologia
católica, que se prendia a movimentos intelectuais mais amplos, supranacionais,
salientes em países como a França de Jacques Maritain, pensador neotomista e uma
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A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
das principais referências para autores como Alceu Amoroso Lima (Lima, 1931) 18.
Recentemente, Cigales (2019) realizou cuidadoso trabalho de análise de manuais de
sociologia de inspiração católica adotados por escolas brasileiras nos anos 1920 e
1930, buscando identificar, de forma mais ou menos sistemática, seus traços.
O desafio metodológico que se coloca para a/o historiadora/historiador da
sociologia – com frequência também ela/ele socióloga/sociólogo – é o de evitar que
suas próprias concepções sobre a cientificidade da disciplina o impeçam de apreciar o
que significou, a seu tempo, o esforço de sistematização de uma sociologia que se
afirmava abertamente como cristã ou católica, reivindicando uma concepção de
ciência radicalmente distinta daquelas que vieram a se institucionalizar a longo prazo.
Bodart & Cigales (2020) argumentam que a sociologia católica deve ser
compreendida como resultado de um conjunto de predisposições incorporadas pelos
intelectuais católicos, um “conatus”, como o denominam, apoiando-se na sociologia
de Pierre Bourdieu. Nesse caso, ela não refletiria necessariamente um “projeto”, no
sentido de um intento consciente e deliberado, ou de ações racionalmente planejadas,
mas constituiria parte de uma reação, no terreno simbólico, à perda gradativa da
ascendência cultural católica sobre a sociedade. No contexto das mudanças
modernizadoras do período, a defesa dessa sociologia expressaria, conforme aqueles
autores sustentam, a busca dos católicos por um lugar no incipiente campo
educacional a partir do qual poderiam transmitir, para as novas gerações, sua
interpretação do mundo social, avalizada pela Igreja. Assim, se pareciam fazer
concessões à modernidade, aderindo a uma disciplina tida como um de seus produtos
intelectuais típicos, tal movimento representaria, sobretudo, a tendência desses
intelectuais a se posicionarem em prol da perpetuação dos valores e preceitos
católicos, que os distinguiam, em meio às transformações culturais em curso (Bodart
& Cigales, 2020).
Com efeito, parece-nos precipitado supor, com base nas pesquisas arquivísticas
até aqui realizadas, que as distintas e variadas ações dos católicos em prol de uma
“sociologia cristã” (o que incluiu a publicação de livros didáticos) respondessem a um
esforço coordenado ou orquestrado a partir de diretrizes explicitamente formuladas.
A nosso ver, entretanto, uma questão permanece, a saber: se a sociologia católica deve
ser entendida apenas como um episódio das lutas no campo educacional brasileiro em
formação, arma refletida ou irrefletidamente acionada pelas hostes confessionais para
se contraporem às visões secularistas da pedagogia escolanovista, que combatiam, ou
se seus proponentes, concebendo-a como uma modalidade de empreendimento
18
Mencionemos os trabalhos de Azevêdo (2006), Meucci (2011) e Brochier (2016) que, não obstante, não
fazem da sociologia católica no Brasil o foco de sua atenção. Dada a forte presença dos católicos no ensino
normal e na educação básica brasileira, não surpreende que, entre os estudiosos, aqueles dedicados à
história da sociologia como disciplina escolar tenham demonstrado, mais do que outros, interesse em
analisar suas concepções sociológicas. Ver, por exemplo, Silva & Bodart (2019); Bodart & Cigales (2020).
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intelectual válida em si mesmo, também envidaram esforços, a partir de espaços e
práticas específicas, para institucionalizá-la19.
Na revista A Ordem encontramos elementos que lançam luz sobre o problema.
Anunciando, em editorial de 1929, a assunção do cargo de diretor da revista, Alceu
Amoroso Lima sintetizava o ambicioso plano dos intelectuais católicos em restituir a
dimensão cognitiva da fé religiosa. Esta, conforme afirmava, havia sido reduzida, com
o avanço da secularização do mundo, a puro sentimento e emotividade e circunscrita
à esfera da subjetividade: “Àqueles que desprezam a Razão, é preciso mostrar que a Fé
é um ato de inteligência. Àqueles que só creem na Razão, é preciso mostrar que a Fé é
a luz final do conhecimento” (Lima, 1929, p. 5).
Segundo Amoroso Lima, o objetivo maior de A Ordem seria mostrar que o
pensamento católico também aspirava a ser uma visão racional do mundo sem deixar
de ser, “ao mesmo tempo”, uma bússola moral e política para os torvelinhos da era
moderna. Ou seja, a missão de apreender cognitivamente a realidade social não deveria
estar destituída da missão, igualmente importante, de intervir normativamente sobre
ela. Conforme argumentava, os católicos pretendiam restituir a unidade perdida com a
crescente especialização do conhecimento científico, fenômeno análogo, no plano
intelectual, ao que se passava na vida social, marcada pelas forças disruptivas e
dissolventes do individualismo moral e da anarquia. A recuperação da validade
epistêmica do catolicismo, posta em xeque pelos movimentos intelectuais da
modernidade, como o Iluminismo, implicava o investimento na formação de uma
intelectualidade capaz de mobilizar não apenas a sensibilidade religiosa mas também a
inteligência. Para Amoroso Lima, era preciso disputar esta última contra as tendências
naturalistas e monistas que, após a cisão entre religião e ciência ao final da Idade Média,
pretendiam ser as únicas representantes legítimas da racionalidade humana,
descartando o pensamento católico como metafísico (Lima, 1929).
O que valia para a ciência em geral valia para a sociologia em particular. Em
Preparação à Sociologia, Amoroso Lima argumenta que, contra as correntes comtianas
e durkheimianas, coisificantes, que faziam da personalidade humana produto
exclusivo da sociedade, igualando esta à natureza, era preciso afirmar o caráter
multifacetado da “pessoa”, que não se reduzia a seu aspecto empírico, possuindo uma
dimensão ultraterrena. Contra o determinismo sociologizante, fazia-se necessária
uma “sociologia integral”, conforme afirmava, na esteira de Maritain, que
reconhecesse a existência de personalidades livres e capazes de vida moral: “O
19
Trata-se de problema de pesquisa mais abrangente, que foge ao escopo deste artigo. Uma forma de
abordá-lo, no entanto, deverá levar em consideração a atuação dos intelectuais católicos no nível superior
de ensino, em particular nos cursos de ciências sociais das faculdades de filosofia do país, sobre os quais,
a partir sobretudo da antiga Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, exerceram, como
é sabido, forte influência em seus primeiros anos. Uma análise das aulas de Jacques Lambert, professor
de sociologia da missão francesa que atuou na FNFi, encontra-se em Lopes (2020), que destacou suas
afinidades com o pensamento católico.
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A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
indivíduo existe para a sociedade, a sociedade existe para a pessoa, a pessoa existe
para Deus – eis a hierarquia social completa, que defendemos” (Lima, 1931, p. 78). Daí
decorria uma gnosiologia própria, que, contrariando a hierarquia das ciências
proposta por Comte, subordinava a Sociologia à Metafísica, “ciência dos primeiros
princípios”, e à Ética (Lima, 1931). Nesse esquema, filosofia, moral e ciência social
estariam estreitamente associadas, não podendo esta última pretender completa
autonomia em face daquelas.
Ainda que os intelectuais católicos viessem erguendo um robusto arsenal
intelectual e institucional para o combate às ciências sociais de tipo naturalista – que
se refletiu na construção de posições não apenas no ensino secundário e normal como
também no nascente espaço universitário –, este acúmulo parece não ter sido
suficiente para que o ensino da sociologia nas escolas se visse livre das suspeitas que
sobre ele recaíam. Como vimos, havia, da parte dos católicos, a preocupação em
mostrar que a sociologia comportava múltiplas e divergentes definições metateóricas.
Conforme Amoroso Lima em particular argumentava, tal cacofonia seria prejudicial à
formação dos estudantes nas escolas, induzindo a posturas céticas, não somente
epistemológicas, mas também, o que era mais preocupante, morais. O receio maior
dos católicos, todavia, parecia residir na possibilidade de que as visões naturalistas,
durkheimianas e marxistas, acabassem prevalecendo na rotinização dos conteúdos da
disciplina escolar, dando o tom do que passaria a ser entendido como “sociologia”. Foi
com esse espírito que Amoroso Lima prefaciou o livro didático de Amaral Fontoura,
Programa de Sociologia:
[O autor] tem o cuidado de expor, sempre que o assunto o exige, as
várias correntes em jogo, sem procurar, como é tão comum em
muitos compêndios, iludir o leitor pela adoção de uma determinada
corrente, como se essa fosse a única e a verdadeira. Um dos perigos
da Sociologia ensinada em nível secundário está justamente nesse
duplo escolho. Ou se procede como o autor deste compêndio,
expondo honestamente as constantes divergências de ponto de
vista, e com isso se pode levar a confusão ou o ceticismo ao cérebro
dos adolescentes, ou se faz, como desonestamente tantos outros,
escamoteando as divergências e apresentando como ciência social
o que é apenas hipótese pessoal ou ponto de vista sectário. O
chamado sociologismo, tão corrente entre os que nós e alhures se
ocupam com esses problemas, é típico desse perigoso subterfúgio
(Lima, 1940b, p. 13-14).
O prefácio de Amoroso Lima, além de tornar manifesta a postura contrária ao
ensino da sociologia nas escolas secundárias, evidencia a estratégia católica em se
tratando das discussões sobre a cientificidade da disciplina: insistindo sobre os
dissensos em torno da definição de seu objeto e dos seus pressupostos metateóricos,
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Lopes, T. C.
esses intelectuais tornavam difícil qualquer tentativa de se delimitar as fronteiras da
sociologia científica em bases mais ou menos consensuais. Este era precisamente o
objetivo a que vinham se dedicando, a partir de centros de ensino superior como a
Escola Livre de Sociologia e Política, a USP e a FNFi, diferentes atores do nascente
universo acadêmico das ciências sociais no Brasil (Meucci, 2006; Maio & Lopes,
2015)20. Ao veicular dúvidas sobre a constituição da sociologia como ciência,
assinalando o que ela revelaria de controvérsias metateóricas internamente, os
intelectuais católicos buscavam disputar o seu sentido, aproximando a disciplina de
um terreno intelectual que lhes era familiar, e no qual poderiam agir como
participantes autorizados, o das querelas filosóficas e metafísicas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A saída da sociologia do ensino secundário, indo ao encontro do ponto de vista
dos católicos, representará, para estudantes e professores da disciplina no ensino
superior, especialmente para aqueles então às voltas com a sua rotinização, um duro
golpe. É o que sugere, por exemplo, abaixo-assinado questionando a medida, que
consta do Arquivo Capanema e que apresenta, entre seus primeiros signatários, o
nome de Luiz de Aguiar Costa Pinto (Villas Boas et al., 1942), não apenas, como vimos,
um analista da trajetória inicial da sociologia escolar no país, mas também um de seus
combativos defensores. Os impactos que a reforma teve sobre os esforços de
institucionalização das ciências sociais no Brasil, incluindo as reações imediatas de
protesto que desencadeou, ainda não foram inteiramente apreciados pela literatura.
Dentre outras consequências, ela teria contribuído para produzir, segundo hipótese
aventada por Sarandy (2007), um insulamento acadêmico das ciências sociais diante
do debate público e da agenda educacional nas décadas seguintes. Como o abaixo-
assinado indicava, ficavam sem perspectiva profissional os alunos dos cursos de
ciências sociais das faculdades de filosofia, que acabavam, por seu turno, perdendo
poder de atração.
Para os objetivos deste artigo, importa nesse momento, porém, retomar
algumas questões suscitadas pelas interpretações correntes sobre a reforma à luz da
incursão pelos arquivos. Se, de acordo com Moraes (2011), o próprio desenvolvimento
incipiente da sociologia ajudaria a explicar sua exclusão do currículo, faltando à
disciplina uma identidade própria que lhe permitisse figurar no percurso científico dos
anos finais do ensino secundário, devemos atentar para o fato de que havia grupos
20
Note-se que foi característico, por exemplo, do esforço de Donald Pierson em afirmar a cientificidade da
sociologia o argumento de que a disciplina havia superado o período das disputas entre diferentes escolas
relacionadas à definição do seu escopo. Nesse sentido, ela viria traçando o caminho em direção à ciência,
afastando-se da filosofia. Professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Pierson foi um ator-
chave para a institucionalização das ciências sociais no Brasil dos anos 1940 (Maio & Lopes, 2015).
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A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942
e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil
intelectuais dispostos a alimentar o dissenso nos debates envolvendo sua construção
como ciência. Para Capanema, como vimos, a sociologia poderia constar como
componente curricular tanto do ensino clássico quanto do científico, não
demonstrando o ministro de Vargas, em particular, objeções à disciplina. Com efeito,
como nos lembra Meucci (2015), a sociologia, nesse período, também assumia
sentidos congruentes com projetos antiliberais. O que as fontes primárias sugerem,
não obstante, é que a disciplina escolar se tornou alvo do ataque de frações
intelectuais importantes da base de apoio do Estado Novo, os católicos, dadas as visões
secularistas e anticlericais que ela poderia comportar. Ainda que a sugestão para a
eliminação da sociologia contida nos pareces dos católicos a Capanema parta da crítica
ao “ensino enciclopédico”, esses não hesitam em atribuir riscos de natureza política à
disciplina, o que se entrevê, de modo mais explícito, nas observações do jesuíta
Arlindo Vieira. Em outras palavras, conforme procuramos indicar, a presença da
sociologia nas escolas foi vista como politicamente perigosa. Nesse sentido, à
semelhança do que afirmava Costa Pinto (1949), motivações ideológicas, e não apenas
pragmáticas e operacionais, estiveram na raiz de sua exclusão do ensino secundário.
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Lopes, T. C.
THIAGO DA COSTA LOPES: Possui graduação em RODADAS DE AVALIAÇÃO:
Ciências Sociais (UFRJ) e doutorado em História R1: dois convites; nenhum parecer recebido.
(PPGHCS/ Fiocruz). Sua tese, publicada na forma R2: dois convites; dois pareceres recebidos.
de livro (Em busca da comunidade: ciências
sociais, desenvolvimento rural e diplomacia COMO CITAR ESTE ARTIGO:
cultural nas relações Brasil – EUA), foi agraciada Lopes, T. C. (2024). A sociologia sai da
com o Prêmio Capes-Fulbright de 2019. Foi escola: a Reforma Capanema de 1942 e as
pesquisador visitante nas Universidades de Nova disputas dos católicos em torno da disciplina
Iorque e Novo México, nos EUA (2022). no Brasil. Revista Brasileira de História da
Atualmente, atua como pesquisador em estágio Educação, 24.
pós-doutoral no Departamento de Pesquisa da [Link]
Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.
E-mail: lopes_47@[Link]. FINANCIAMENTO:
[Link] A RBHE conta com apoio da Sociedade
Brasileira de História da Educação (SBHE) e
Recebido em: 12.09.2023 do Programa Editorial (Chamada Nº 12/2022)
Aprovado em: 16.01.2024 do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Publicado em: 24.06.2024 Científico e Tecnológico (CNPq).
EDITORES-ASSOCIADOS RESPONSÁVEIS: LICENCIAMENTO:
Amurabi Oliveira (UFSC) Este artigo é publicado na modalidade Acesso
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[Link] Atribuição 4.0 (CC-BY 4).
Cristiano Bodart (UFAL)
E-mail: cristianobodart@[Link]
[Link]
Raquel Discini de Campos (UFU)
E-mail: raqueldiscini@[Link]
[Link]
NOTA:
Este artigo faz parte do dossiê “História da
Educação e o ensino das Ciências Sociais”, cujo
edital foi lançado em 4 de abril de 2023.
Rev. Bras. Hist. Educ., 24, e334, 2024 p. 31 de 31