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A Estrada Que Lembrava

O documento apresenta quatro narrativas que exploram temas de memória, tempo e comunicação. A primeira história fala sobre uma estrada que aparece para aqueles que buscam algo, enquanto a segunda reflete sobre um relógio que simboliza a profundidade do tempo. As últimas duas narrativas discutem a liberação de mensagens não enviadas e a observação silenciosa dos animais em relação à verdade e à mentira.

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Felipe Andrade
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A Estrada Que Lembrava

O documento apresenta quatro narrativas que exploram temas de memória, tempo e comunicação. A primeira história fala sobre uma estrada que aparece para aqueles que buscam algo, enquanto a segunda reflete sobre um relógio que simboliza a profundidade do tempo. As últimas duas narrativas discutem a liberação de mensagens não enviadas e a observação silenciosa dos animais em relação à verdade e à mentira.

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9.

A Estrada que Lembrava

A estrada não aparece em mapas. Surge apenas quando alguém dirige sem
destino, tarde demais para voltar e cedo demais para desistir. O asfalto é antigo,
rachado, mas perfeitamente alinhado, como se soubesse onde precisa levar
quem passa.

Ele entra nela numa noite silenciosa, com o tanque quase vazio e a cabeça cheia
demais. O rádio só capta estática, mas a estática parece ritmada, como uma
memória tentando se organizar.

A cada quilômetro, a paisagem muda para lugares que ele reconhece: a curva
onde aprendeu a dirigir, o posto onde brigou pela última vez com o irmão, a ponte
que nunca teve coragem de atravessar a pé. Não são cópias — são lembranças
intactas.

Quando o carro para, o combustível acabou. A estrada termina num acostamento


amplo, iluminado por um amanhecer suave. Ele entende que não está ali para
continuar, mas para deixar algo. Ao sair do carro, a estrada desaparece atrás dele,
levando consigo tudo o que ele finalmente soltou.

10. O Relógio que Andava para Dentro

O relógio fica pendurado na parede da cozinha há décadas. Não marca horas.


Marca profundidades. Seus ponteiros giram lentamente para dentro, como se
atravessassem o próprio centro.

Ela cresce observando o movimento hipnótico. Quando criança, sente que os dias
são longos. Na adolescência, o relógio acelera. Na vida adulta, quase não percebe
seu giro — até que ele começa a puxá-la.

Em dias difíceis, o som do tique-taque se torna pesado, como passos em água


funda. Ela entende: quanto mais foge de si mesma, mais fundo o relógio a leva.

Um dia, para os ponteiros com a mão. Não quebra o mecanismo, apenas


interrompe. O silêncio é assustador. Depois, libertador. O tempo volta a fluir —
não para frente, não para dentro — apenas ao redor dela.

11. O Correio das Mensagens Não Enviadas

O prédio do correio fica espremido entre lojas modernas, ignorado por quase
todos. Lá dentro, não há cartas comuns. Apenas envelopes sem endereço, cheios
de palavras que nunca chegaram a alguém.
Ela trabalha organizando as mensagens por sentimento: arrependimento, amor
contido, raiva mal resolvida. Algumas cartas são tão pesadas que dobram o papel.
Outras quase não existem.

Num fim de tarde, encontra uma mensagem escrita com sua própria letra.
Reconhece cada curva, cada hesitação. É uma carta que nunca teve coragem de
enviar anos atrás.

Ela não a lê inteira. Não precisa. Rasga o envelope e sente o ar do prédio circular
melhor, como um pulmão desobstruído. Algumas mensagens não precisam de
destino — apenas de liberação.

12. Quando os Animais Começaram a Observar

Primeiro são os pássaros. Param de cantar e apenas observam. Depois os cães,


sentados demais, atentos demais. Gatos não piscam. O mundo animal parece
esperar.

As pessoas estranham, mas seguem vivendo. Só ele percebe o padrão: sempre


que alguém mente, um animal próximo fixa o olhar. Não em julgamento — em
registro.

Ele testa. Diz algo falso em voz alta. Um cachorro o encara sem piscar. Diz a
verdade. O animal perde o interesse. O mundo ficou com testemunhas.

Com o tempo, as pessoas falam menos. Escolhem melhor as palavras. O silêncio


cresce, mas não é vazio. É cauteloso. Os animais continuam observando,
pacientes, até que a linguagem volte a merecer ser usada.

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