RESUMO DE AULA: DIREITO CIVIL – PARTE GERAL
DAS PESSOAS
DA PERSONALIDADE E DA CAPACIDADE
PERSONALIDADE JURÍDICA: O QUE É E POR QUE IMPORTA
PERSONALIDADE JURÍDICA
Personalidade jurídica é o atributo que transforma alguém em sujeito
de direitos. Ao nascer com vida, a pessoa automaticamente adquire
personalidade, tornando-se apta a ser titular de direitos e assumir
obrigações na ordem civil. É o que permite contratar, adquirir
propriedade, casar e participar de relações jurídicas.
Essa universalidade da personalidade nem sempre existiu. No Direito
Romano, escravos eram tratados como coisas, desprovidos de
qualquer direito. Não podiam contratar, ser proprietários ou figurar
como sujeitos de relações jurídicas, apenas como objetos sobre os
quais outros exerciam domínio.
O Código Civil brasileiro de 2002 consagra o princípio da
universalidade no artigo 1º ao estabelecer que "toda pessoa é capaz
de direitos e deveres na ordem civil". Não há exclusões: todos os
seres humanos têm personalidade jurídica, independentemente de
qualquer condição.
Além das pessoas naturais, o ordenamento jurídico reconhece
personalidade também às pessoas jurídicas. São entidades formadas
pela união de pessoas físicas com objetivos comuns (como
sociedades e associações) ou pela destinação de patrimônio a
finalidade específica (fundações). Uma vez constituídas legalmente,
essas organizações adquirem existência jurídica própria, podendo ter
CNPJ, patrimônio, contratar, ser processadas e praticar atos na ordem
civil.
Em síntese, personalidade jurídica é o reconhecimento jurídico da
existência de alguém como sujeito capaz de direitos e deveres, sendo
pressuposto indispensável para participar de relações reguladas pelo
Direito.
CONCEITO DE PESSOA NATURAL
Dispõe o art. 1º do Código Civil (CC) que: “toda pessoa é capaz de
direitos e deveres na ordem civil”.
Pessoa natural é o ser humano considerado como sujeito de direito e
obrigações. Para qualquer pessoa ser assim designada, basta nascer
com vida.
COMEÇO DA PERSONALIDADE NATURAL
Prescreve o art. 2º do CC que: “a personalidade civil da pessoa
começa com o nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a
concepção, os direitos do nascituro”.
Segundo o dispositivo legal, o nascimento com vida é o marco inicial
da personalidade. Entretanto, respeitam-se os direitos do nascituro,
desde a concepção, pois desde esse momento já começa a formação
do novo ser.
Há três teorias que buscam explicar a situação jurídica do nascituro:
I – natalista: a personalidade civil somente se inicia com o nascimento
com vida;
II – personalidade condicional: sustenta que o nascituro é pessoa
condicional, pois a aquisição da personalidade acha-se sob a
dependência de condição suspensiva, o nascimento com vida, não se
tratando propriamente de uma terceira teoria, mas de um
desdobramento da teoria natalista, visto que também parte da
premissa de que a personalidade tem início com o nascimento com
vida.
III – concepcionista: admite que se adquire a personalidade antes do
nascimento com vida, ou seja, desde a concepção, ressalvado os
direitos patrimoniais, decorrentes de herança, legado e doação, que
ficam condicionados ao nascimento com vida.
O Superior Tribunal de Justiça tem acolhido a teoria concepcionista,
reconhecendo ao nascituro o direito à reparação do dano moral:
“Direito civil. Danos morais. Morte. Ação ajuizada 23 anos após o
evento. O nascituro também tem direito aos danos morais pela morte
do pai, mas a circunstância de não tê-lo conhecido em vida tem
influência na fixação do quantum.
AULA II – Bloco I: CAPACIDADE, INCAPACIDADE E
LEGITIMAÇÃO
1. TEORIA GERAL DA CAPACIDADE
A capacidade é conceituada classicamente como a medida da
personalidade, pois para uns ela é plena e, para outros, limitada.
Para sua completa compreensão, deve-se distinguir suas duas
espécies:
1.1. Capacidade de Direito (ou de Aquisição / Gozo)
Conceito: É a aptidão genérica para adquirir direitos e contrair
deveres na ordem civil.
Propriedade: Todas as pessoas possuem, sem exceção, desde o
nascimento com vida (Art. 1º do CC).
Exemplo: Um bebê recém-nascido pode ser proprietário de um
imóvel (ex: recebido por herança), pois possui capacidade de direito.
1.2. Capacidade de Fato (ou de Exercício / Ação)
Conceito: É a aptidão para exercer, pessoalmente e por si só, os
atos da vida civil (ex: assinar contratos, vender bens).
Propriedade: Nem todas as pessoas possuem. Por faltarem alguns
requisitos materiais, como maioridade, saúde, etc., a lei, com intuito
de protegê-las, sonega-lhes a capacidade dessas pessoas se
autodeterminarem, de os exercer pessoal e diretamente.
A falta desta capacidade gera a Incapacidade, que pode ser suprida
pelos institutos da:
Representação (para absolutamente incapazes);
Assistência (para relativamente incapazes).
O exemplo clássico: Um bebê recém-nascido tem capacidade de
direito? Tem. Por isso ele pode ser dono de um apartamento (recebido
de herança, por exemplo). Ele figura na matrícula do imóvel como
proprietário. Entretanto, embora ele seja dono do apartamento, ele
não pode ir ao cartório vender o imóvel sozinho. Falta-lhe a
capacidade de fato.
Quando a pessoa não tem essa capacidade de fato (o bebê, por
exemplo), a lei cria mecanismos para suprir essa falta: a
Representação e a Assistência.
1.3. Capacidade Civil Plena
Ocorre quando a pessoa reúne ambas as capacidades:
Capacidade de Direito + Capacidade de Fato = Capacidade
Civil Plena
2. TEORIA DAS INCAPACIDADES
Incapacidade, destarte, é a restrição legal ao exercício dos atos da
vida civil, imposta por lei somente aos que, excepcionalmente,
necessitam de proteção, pois a capacidade é a regra.
2.1. Premissas Fundamentais
Regra e Exceção: Capacidade é a regra; a incapacidade é a
exceção.
Legalidade: A incapacidade decorre estritamente da lei. Não existe
incapacidade "contratual".
Finalidade: O instituto visa proteger o incapaz, e não o punir.
2.2. Estatuto da Pessoa com Deficiência (EPD - Lei 13.146/15)
O EPD alterou significativamente o Código Civil.
A deficiência não afeta a plena capacidade civil da pessoa (Arts. 6º e
84 do EPD).
A pessoa com deficiência é, a priori, totalmente capaz.
A curatela é medida extraordinária, proporcional e restrita a atos de
natureza patrimonial e negocial.
2.3. Graus de Incapacidade
A) Absolutamente Incapazes (Art. 3º, CC)
Critério: Apenas o critério etário: Menores de 16 anos.
Regime: Devem ser representados.
Consequência: O ato praticado sem representação é NULO.
O ato somente poderá ser praticado pelo representante legal do
absolutamente incapaz. A inobservância dessa regra provoca a
nulidade do ato, nos termos do art. 166, I, do Código Civil.
Presunção: Há uma presunção absoluta de imaturidade ("menor
impúbere").
B) Relativamente Incapazes (Art. 4º, CC)
Critério: Proteção àqueles cujo discernimento é reduzido ou em
desenvolvimento.
Papel:
1. Maiores de 16 e menores de 18 anos.
2. Ébrios habituais e viciados em tóxicos.
3. Aqueles que, por causa transitória ou permanente, não
puderem exprimir sua vontade (ex: coma, sedação
profunda).
4. Pródigos.
Regime: Devem ser assistidos.
Consequência: O ato praticado sem assistência é ANULÁVEL.
Teoria do “Tu Quoque” (Art. 180, CC): O menor entre 16 e 18
anos não pode invocar a sua incapacidade para anular um ato se,
dolosamente, ocultou sua idade ou declarou-se maior no momento da
celebração.
Há no Código Civil um sistema de proteção dos incapazes. Para os
absolutamente incapazes, a proteção é incondicional. Os maiores de
16 anos, porém, já tendo discernimento suficiente para manifestar a
sua vontade, devem, em contrapartida, para merecê-la, proceder de
forma correta. Preceitua, com efeito, o art. 180 do aludido diploma:
“Art. 180. O menor, entre dezesseis e dezoito anos,
não pode, para eximir-se de uma obrigação,
invocar a sua idade se dolosamente a ocultou
quando inquirido pela outra parte, ou se, no ato de
obrigar-se, declarou-se maior”.
Tendo que optar entre proteger o menor ou repelir a sua má-fé, o
legislador preferiu a última solução, mais importante, protegendo
assim a boa-fé do terceiro que com ele negociou. Exige-se, no
entanto, que o erro da outra parte seja escusável. Se não houve
malícia por parte do menor, anula-se o ato, para protegê-lo.
Constituindo exceção pessoal, a incapacidade só pode ser arguida
pelo próprio incapaz ou pelo seu representante legal. Por essa razão,
dispõe o art. 105 do Código Civil que “a incapacidade relativa de uma
das partes não pode ser invocada pela outra em benefício próprio,
nem aproveita aos cointeressados capazes, salvo se, neste caso, for
indivisível o objeto do direito ou da obrigação comum”.
Como ninguém pode locupletar-se à custa alheia, determina-se a
restituição da importância paga ao menor, se ficar provado que o
pagamento nulo reverteu em seu proveito. Prescreve, com efeito, o
art. 181 do Código Civil que “ninguém poderá reclamar o que, por
uma obrigação anulada, pagou a um incapaz, se não provar que
reverteu em proveito dele a importância paga”.
A lei presume, inicialmente, que o incapaz desperdiçou ou não soube
usar o dinheiro recebido por conta de sua falta de discernimento. Por
isso, quem pagou perde o dinheiro se o negócio for anulado.
Entretanto, caso provado que o dinheiro foi usado para algo útil, o juiz
determinará que o menor restitua esse valor.
2.4. Observações Específicas
Pródigos: A interdição atinge apenas atos de disposição patrimonial
(emprestar, transigir, dar quitação, alienar, hipotecar). Podem casar e
ser testemunhas sem curador. No casamento, se não houver pacto, o
regime será o da comunhão parcial.
Povos indígenas: A capacidade é regulada por lei especial (Estatuto
do Índio - Lei 6.001/73).
Surdo-Mudo: Em regra, é plenamente capaz. Só será considerado
relativamente incapaz se não puder exprimir sua vontade.
2.5. Tomada de Decisão Apoiada (Art. 1.783-A, CC)
Processo judicial onde a pessoa com deficiência elege pelo menos
duas pessoas idôneas de sua confiança para prestar apoio na tomada
de decisões sobre atos da vida civil. Difere da curatela por manter a
capacidade de fato do apoiado.
3. EMANCIPAÇÃO
É a aquisição da capacidade civil plena antes da idade legal (18
anos). É irrevogável.
3.1. Espécies
A) Voluntária (Parental)
Concedida pelos pais (ou um na falta do outro).
Requisitos: Menor com no mínimo 16 anos.
Forma: Escritura pública (independe de homologação judicial).
B) Judicial
Aplicável quando o menor tem tutor (não tem poder familiar).
Requisitos: Mínimo 16 anos.
Forma: Sentença do juiz (o tutor é apenas ouvido).
C) Legal (Automática)
Independe de vontade ou sentença, decorre do fato:
1. Casamento: (Idade mínima 16 anos). O divórcio ou viuvez não
anulam a emancipação. Casamento putativo (nulo/anulável com
boa-fé) mantém a emancipação.
2. Exercício de emprego público efetivo.
3. Colação de grau em ensino superior.
4. Economia própria: Pelo estabelecimento civil/comercial ou
relação de emprego (requisito: ter ao menos 16 anos e
economia própria).
3.2. Efeitos na Responsabilidade Civil
Enunciado 530 CJF: A emancipação não afasta a aplicação do
ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).
Responsabilidade Solidária: Na emancipação voluntária, os
pais continuam solidariamente responsáveis pelos atos ilícitos
do filho até que ele complete 18 anos
(Jurisprudência/Enunciados para evitar fraudes contra
credores/vítimas).
4. LEGITIMAÇÃO
Capacidade não se confunde com legitimação.
4.1. Conceito e Diferenciação
Capacidade de Fato: Aptidão genérica. A falta é suprida por
representação/assistência.
Legitimação: Aptidão específica exigida pela lei para certos atos,
devido à posição da pessoa em relação ao objeto ou a terceiros. Em
regra, a falta de legitimação não se supre por representação simples
e impede o ato.
4.2. Terminologia Técnica
Legitimação: Direito Material (Civil).
Legitimidade: Direito Processual (Condição da Ação).
o Usar: O Art. 20 do CC usa equivocadamente o termo
"legitimação" ao tratar de direito de imagem.
4.3. Casuística (Exemplos de Falta de Legitimação)
1. Venda de Ascendente a Descendente (Art. 496, CC)
O pai tem capacidade, mas não tem legitimação para vender ao
filho sem consentimento.
Exige-se anuência expressa dos outros descendentes e do
cônjuge.
Sanção: Anulável.
2. Compra de bens pelo Tutor (Art. 497, CC)
O tutor não pode comprar bens do tutelado.
Sanção: Nulo (ordem pública).
3. Vênia Conjugal (Art. 1.647, CC)
Pessoas casadas (exceto no regime de separação absoluta)
precisam de autorização do cônjuge para:
o Alienar ou gravar imóveis.
o Prestar fiança ou aval.
o Fazer doações de bens comuns (não remuneratórias).
Locação (Lei 8.245/91): Contrato de locação por prazo igual
ou superior a 10 anos exige vênia conjugal. A falta torna o
contrato ineficaz em relação ao cônjuge que não consentiu.
AULA 2 (PARTE 2): INCAPACIDADE RELATIVA, EPD E
EMANCIPAÇÃO
1. O PRÓDIGO: GASTAR DEMAIS É INCAPACIDADE?
Vamos começar por uma figura curiosa do Art. 4º, inciso IV: os
Pródigos.
Quem é o pródigo? É aquele que gasta desordenadamente, colocando
em risco seu patrimônio a ponto de cair na miséria.
A "Meia" Interdição:
A interdição do pródigo é diferente. O curador dele só coloca a mão
em questões patrimoniais (emprestar, vender, dar quitação).
Atos da Vida Civil:
o Casamento: O pródigo pode casar? Pode! E não precisa
do curador para dizer "sim" no altar.
o Pacto Antenupcial: Opa! Aqui envolve bens. Se ele
quiser escolher um regime de bens diferente (fazer
pacto), aí precisa da assistência do curador.
o Filhos: Ele pode autorizar o casamento da filha de 16
anos sozinho? Pode, pois é direito familiar, não
patrimonial.
2. A REVOLUÇÃO DO ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
(EPD)
Como vimos na primeira parte, a deficiência não gera mais
incapacidade automática. A regra é a capacidade plena. Mas e se a
pessoa precisar de ajuda?
O EPD trouxe dois institutos importantes:
A) Curatela (A Medida Extrema)
É uma medida extraordinária e deve durar o menor tempo possível.
Limitação: O curador cuida apenas de direitos patrimoniais e
negociais (Art. 85, EPD).
Proibição: O curador não manda no corpo, na sexualidade, no
matrimônio, na privacidade, na saúde, no voto ou no trabalho
do curatelado.
A curatela sofreu alterações profundas com a Lei n. 13.146/2015
(Estatuto da Pessoa com Deficiência). O foco deixou de ser a
"interdição total" para se tornar uma medida de apoio.
Princípio da Extraordinariedade: A curatela é medida
protetiva extraordinária, proporcional e deve durar o menor
tempo possível (Art. 84, § 3º, EPD).
Limitação Material: Afeta exclusivamente atos de natureza
patrimonial e negocial.
o Nota: Não se interdita mais para "todos os atos da vida
civil". O curatelado mantém direitos existenciais (casar,
votar, etc.).
Tese do STF: A enfermidade mental, por si só, não retira
automaticamente o discernimento para atos da vida civil.
Sujeitos à Curatela
Estão sujeitos à curatela os relativamente incapazes (Art. 1.767,
CC) e aqueles definidos pela nova sistemática:
Aqueles que, por causa transitória ou permanente, não
puderem exprimir sua vontade.
Ébrios habituais e viciados em tóxicos.
Pródigos.
Atenção: A pessoa com deficiência física é capaz ao atingir 18 anos.
A curatela foca na proteção de quem possui transtorno mental que
afete o discernimento negocial.
Aspectos Processuais (Rito)
O procedimento segue os arts. 747 e seguintes do CPC, aplicando-se
subsidiariamente a Lei de Registros Públicos.
Requisitos Obrigatórios (sob pena de nulidade):
1. Interrogatório (Entrevista): O juiz deve examinar
pessoalmente o interditando. É uma análise minuciosa sobre
vida, bens, vontades e laços afetivos.
2. Perícia Médica: Exame por perito (ou equipe multidisciplinar)
para avaliar a capacidade prática.
3. Ministério Público: Atua como custos legis (fiscal da ordem
jurídica) se não for o autor da ação.
4. A Sentença de Interdição
4.1. Natureza Jurídica
Há divergência doutrinária, mas prevalece a Natureza Mista
(posicionamento de Maria Helena Diniz):
Declaratória: Reconhece uma situação de fato preexistente (a
incapacidade/deficiência).
Constitutiva: Cria uma nova situação jurídica (sujeição à
curatela) com efeitos, via de regra, ex nunc (daqui para frente).
4.2. Eficácia e Retroatividade (Atos Passados)
A sentença não tem eficácia retroativa automática (ex tunc) para
invalidar atos passados.
Regra Geral: A interdição produz efeitos a partir da
sentença/publicação (ex nunc).
Atos Anteriores à Sentença: Para anular um ato praticado
antes da interdição, é necessária uma ação autônoma.
o Prova: O laudo da interdição pode ser usado como prova
emprestada para demonstrar que a incapacidade já
existia na época do ato, mas o juiz analisará caso a caso.
o Jurisprudência (TJSP e Pontes de Miranda): A fixação de
"data de início da incapacidade" na sentença de
interdição não faz coisa julgada material para terceiros,
exigindo comprovação específica em ação própria.
5. Validade dos Negócios Jurídicos
Para fins didáticos, podemos dividir a validade dos atos em dois
momentos temporais:
Momento do
Status Legal Requisito para Invalidação
Ato
A sentença gera presunção de
Após a
incapacidade. O ato é viciado e
Publicação Anulável
a nulidade é mais fácil de ser
da Sentença
reconhecida.
Depende de prova inequívoca
Antes da Anulável de que a incapacidade já existia
Interdição (Condicional) no momento do ato (ônus do
interessado).
A Questão da Boa-fé (Terceiros)
Corrente "Notoriedade" (Influência Francesa/Silvio
Rodrigues): Se a loucura não era notória e o terceiro estava de
boa-fé, o ato deve ser mantido. Se era notória ou perceptível,
anula-se.
Corrente STJ (Proteção ao Incapaz): Tende a proclamar a
invalidade mesmo se a outra parte desconhecia a incapacidade.
Contudo, protege o terceiro de boa-fé garantindo restituição
do valor pago e indenização por benfeitorias.
Publicidade
Para ter eficácia erga omnes (contra todos), a sentença deve cumprir
rigorosos requisitos de publicidade (CPC, art. 755, § 3º):
1. Inscrição no Registro Civil de Pessoas Naturais.
2. Publicação no site do Tribunal e na plataforma do CNJ (por 6
meses).
3. Imprensa local (1 vez) e órgão oficial (3 vezes).
Observação Final: Senilidade
A velhice (senilidade) não é causa autônoma de interdição. Só
justifica a curatela se evoluir para um estado patológico que afete o
discernimento mental.
B) Tomada de Decisão Apoiada (A Novidade!)
A tomada de decisão apoiada é o processo pelo qual a pessoa com
deficiência elege pelo menos 2 (duas) pessoas idôneas, com as quais
mantenha vínculos e que gozem de sua confiança, para prestar-lhe
apoio na tomada de decisão sobre atos da vida civil, fornecendo-lhe
os elementos e informações necessários para que possa exercer sua
capacidade.
A Tomada de Decisão Apoiada constitui, destarte, um terceiro gênero
(o de pessoas que apresentam alguma deficiência física ou mental,
mas podem exprimir a sua vontade e por essa razão podem se valer
do benefício da Tomada de Decisão Apoiada), ao lado das pessoas
não portadoras de deficiência e, portanto, plenamente capazes, e das
pessoas com deficiência e incapazes de exprimir a sua vontade,
sujeitas, desse modo, à curatela.
O pedido de tomada de decisão apoiada será requerido pela pessoa a
ser apoiada, com indicação expressa das pessoas aptas a prestarem o
apoio previsto no caput deste artigo” (art. 1.783-A, § 2º, do CC).
O Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp 1.795.395,
considerou que, à luz da interpretação sistemática dos §§ 1º, 2º e 3º
do art. 1.783-A do CC, não é possível a tomada de decisão apoiada de
ofício pelo juiz, sendo exigível o requerimento da pessoa com
deficiência, que detém a legitimidade exclusiva para pleitear a
implementação da medida.
Este é um "caminho do meio", mais brando que a curatela, previsto
no Art. 1.783-A do Código Civil.
Como funciona? A própria pessoa com deficiência escolhe
pelo menos 2 pessoas idôneas (de sua confiança) para apoiá-
la.
Processo: É judicial. O juiz ouve a pessoa, os apoiadores, o
Ministério Público e uma equipe multidisciplinar.
Validade: A decisão tomada com esse apoio tem validade
plena perante terceiros.
3. OBTENÇÃO DA CAPACIDADE: A EMANCIPAÇÃO
A menoridade acaba aos 18 anos. Mas é possível antecipar a
capacidade civil plena através da Emancipação.
Regra de Ouro: Emancipação é irrevogável! Uma vez emancipado,
não volta a ser incapaz (salvo anulação do ato por vício).
O que é a emancipação? Trata-se da aquisição da capacidade civil
antes da idade legal, ou seja, da antecipação da capacidade de fato
ou de exercício.
Vamos detalhar as três espécies:
A) Emancipação Voluntária (A dos Pais)
É um ato de confiança dos pais.
Quem concede? Pai e mãe (ou um, se o outro faltar).
Requisitos: O filho deve ter 16 anos completos.
Forma: Escritura Pública no Cartório (não precisa de juiz!).
Responsabilidade: Atenção aqui! Embora o filho se torne
capaz, a jurisprudência entende que os pais continuam
solidariamente responsáveis pelos atos ilícitos do filho (para
evitar que emancipem o filho "problemático" só para fugir de
indenizações).
B) Emancipação Judicial (A do Juiz)
A única hipótese de emancipação judicial, que depende de sentença
do juiz, é a do menor sob tutela que já completou 16 anos de idade.
Ocorre quando o menor não tem pais (está sob tutela).
O Tutor pode emancipar? Não! Tutor não tem esse poder.
Como funciona? O próprio menor (com 16 anos) pede ao juiz.
O tutor é apenas ouvido, e o juiz decide por sentença.
Os pais não ficam isentos da obrigação de indenizar as vítimas dos
atos ilícitos praticados pelo menor emancipado, para evitar
emancipações maliciosas. Entende-se que os pais não podem, por sua
exclusiva vontade, retirar de seus ombros responsabilidade ali
colocada pela lei. Essa afirmação só se aplica, pois, às emancipações
voluntariamente outorgadas pelos pais, não às demais espécies.
C) Emancipação Legal (A Automática)
Acontece independentemente da vontade de pais ou juiz. Ocorreu o
fato, emancipou.
1. Casamento: Exige idade núbil (16 anos).
o Dica: Se enviuvar ou divorciar, a emancipação continua.
o Casamento Putativo: Se o casamento for anulado, mas o
menor estava de boa-fé, a emancipação se mantém para
ele.
2. Exercício de Emprego Público Efetivo: Precisa entrar em
exercício, não basta tomar posse.
3. Colação de Grau: Em curso de ensino superior.
4. Economia Própria: Se o menor (com 16 anos) tiver
estabelecimento civil/comercial ou emprego e conseguir se
sustentar sozinho.
4. CASOS ESPECIAIS FINAIS
Para fechar, a professora Mônica Queiroz pontuou situações
específicas:
Indígenas: A capacidade deles não está no Código Civil, mas
em lei especial (Lei 6.001/73 - Estatuto do Índio) 27272727.
Ausente: É considerado plenamente capaz. A curadoria de
ausentes serve para proteger os bens deixados, não porque a
pessoa seja incapaz 28.
Surdos: Em regra, são plenamente capazes. Só serão
enquadrados como relativamente incapazes se não puderem
exprimir sua vontade 29.
AULA 2 (PARTE 3): A AQUISIÇÃO DA CAPACIDADE E A
EMANCIPAÇÃO
1. COMO SE OBTÉM A CAPACIDADE PLENA?
Até agora falamos de quem não tem capacidade (os incapazes).
Agora, a pergunta é: como se livrar da incapacidade?
A lógica é simples: obtém-se a capacidade quando a causa da
incapacidade deixa de existir.
Se a causa for a imaturidade (menoridade), temos duas vias:
1. Via Normal (Maioridade): Acontece automaticamente no dia
em que a pessoa completa 18 anos. A partir daí, ela está
habilitada para todos os atos da vida civil (Art. 5º, caput, CC) 1.
2. Via Especial (Emancipação): É a antecipação da capacidade
civil plena antes dos 18 anos.
Ponto crucial: A emancipação é irrevogável. Uma vez emancipado,
não se volta a ser incapaz (salvo se o ato de emancipação for anulado
por vício de vontade, etc.).
2. AS TRÊS ESPÉCIES DE EMANCIPAÇÃO
A emancipação não é "uma coisa só". Ela se divide em três espécies,
cada uma com requisitos diferentes. Vamos dissecá-las:
A) Emancipação Voluntária (Parental)
É aquela concedida pelos pais.
Quem faz: Pai e mãe. Se um deles divergir, o outro pode pedir
suprimento judicial. Se um for falecido ou destituído do poder
familiar, o outro faz sozinho.
Forma: Escritura Pública (feita no Cartório de Notas). Não
depende de homologação do juiz.
Requisito de Idade: O menor deve ter 16 anos completos.
Responsabilidade (O "Pulo do Gato"):
o O filho se torna capaz para assinar contratos? Sim.
o Mas, se ele causar um dano (bater o carro), quem paga? A
jurisprudência e a doutrina entendem que os pais
continuam solidariamente responsáveis.
o Por que? Para evitar que pais emancipem filhos
"problemáticos" apenas para se livrar da responsabilidade
patrimonial (proteção da vítima).
B) Emancipação Judicial
É aquela concedida pelo Juiz.
Quando ocorre: Ocorre tipicamente quando o menor tem
tutor (não tem pais).
Atenção: O tutor não pode emancipar o tutelado (diferente
dos pais). O tutor apenas é ouvido no processo.
Requisito de Idade: 16 anos completos.
Ato: É feita por Sentença judicial.
C) Emancipação Legal
Decorre da força da lei. Aconteceu o fato, emancipou
automaticamente (não precisa de cartório ou juiz para "criar" a
emancipação, apenas para registrar se necessário).
Hipóteses (Art. 5º, parágrafo único, II a V):
1. Pelo Casamento:
o Exige idade núbil (16 anos).
o E se separar ou enviuvar? A emancipação continua. O
fim do casamento não devolve a incapacidade.
o E se o casamento for anulado? Se o menor estava de boa-
fé (casamento putativo), ele mantém a emancipação. Se
estava de má-fé, a emancipação é desfeita (efeito ex
tunc).
o Nota: União Estável emancipa? A letra da lei fala apenas
em "casamento". Há divergência doutrinária, mas a
corrente majoritária tende à interpretação restritiva (não
emancipa), embora existam julgados equiparando. Na
prova objetiva, foque na lei: Casamento.
2. Pelo Exercício de Emprego Público Efetivo:
o Não basta passar no concurso. Não basta tomar posse.
Tem que entrar em exercício.
o Crítica: É difícil ocorrer na prática, pois a maioria dos
cargos exige 18 anos.
3. Pela Colação de Grau em Ensino Superior:
o Tem que ser curso superior. Terminar o ensino médio ou
curso técnico não emancipa.
4. Pela Economia Própria:
o Pelo estabelecimento civil ou comercial, ou existência de
relação de emprego.
o Requisito: O menor deve ter 16 anos completos E ter
economia própria (conseguir se sustentar com esse
trabalho).
3. QUADRO RESUMO: TUTELA x CURATELA
Para fechar o tema e não restar dúvidas, vamos diferenciar quem
cuida de quem, pois isso confunde muito na hora da prova.
Característi
TUTELA CURATELA
ca
Menores de 18 anos
(cujos pais Maiores de 18 anos
Público-alvo faleceram ou (incapazes/pessoas com
perderam poder deficiência que precisem).
familiar).
Proteger o patrimônio de
Substituir o Poder
Função quem não tem
Familiar.
discernimento pleno.
Pode representar (se
Assistência (regra geral),
Abrangênci < 16 anos) ou
focada em atos
a assistir (16-18
patrimoniais.
anos).
Não. Pais têm poder Sim. Pais podem ser
Pais podem
familiar. Tutela é na curadores dos filhos
ser?
falta dos pais. maiores incapazes.
4. OBSERVAÇÃO FINAL: EFEITOS DA EMANCIPAÇÃO
Lembre-se do Enunciado 530 da VI Jornada de Direito Civil: "A
emancipação, por si só, não elide a incidência do Estatuto da Criança
e do Adolescente".
Isso significa que um menor emancipado de 16 anos é civilmente
capaz (pode assinar contratos, casar, viajar), mas penalmente
continua inimputável (responde por ato infracional no ECA, não crime
no CP) e não pode, por exemplo, dirigir (CTB exige penalmente
imputável), nem frequentar locais proibidos para menores.
AULA 2 (PARTE 4): EFEITOS DA EMANCIPAÇÃO E
RESPONSABILIDADE CIVIL
1. O MENOR EMANCIPADO PODE TUDO? (Efeitos Pessoais)
Muitos alunos pensam que, ao se emancipar, o jovem de 16 ou 17
anos vira um "adulto completo" para todas as áreas do Direito.
Cuidado! Isso está errado.
A emancipação gera efeitos estritamente cíveis.
O que ele pode: Assinar contratos, comprar e vender imóveis,
casar sem autorização, viajar sozinho, constituir empresa.
O que ele NÃO pode: A emancipação não altera a
imputabilidade penal e nem afasta as normas de proteção do
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Enunciado 530 do CJF: "A emancipação, por si só, não elide a
incidência do Estatuto da Criança e do Adolescente".
Na prática:
O emancipado pode tirar carteira de motorista (CNH)? Não. O
Código de Trânsito exige que o condutor seja penalmente
imputável (maior de 18 anos).
O emancipado responde por crime? Não. Continua
respondendo por ato infracional sujeito às medidas
socioeducativas do ECA.
O emancipado pode frequentar locais proibidos para menores
(boates adultas, etc.)? Não. A proteção do ECA continua
valendo.
2. RESPONSABILIDADE CIVIL: QUEM PAGA A CONTA? (Efeitos
Patrimoniais)
Essa é a questão de ouro das provas: Se o menor emancipado causar
um prejuízo a alguém (ex: bater o carro), os pais ainda têm que
pagar?
A resposta depende do tipo de emancipação.
Regra Geral (Emancipação Legal e Judicial)
Se a emancipação ocorreu porque o jovem casou, colou grau, tem
economia própria ou foi emancipado pelo juiz (porque não tinha pais),
a lógica é: ele agora é capaz e independente.
Consequência: Os pais (ou tutores) deixam de responder
pelos atos do filho. A responsabilidade passa a ser exclusiva do
emancipado.
A Grande Exceção (Emancipação Voluntária)
Se a emancipação foi aquela concedida pelos pais no cartório
(voluntária), a regra muda.
O Problema: Imagine que os pais tenham um filho de 16 anos
muito rico, mas muito irresponsável ("bad boy"). Para não terem
que pagar as indenizações pelas confusões que ele arruma, os
pais decidem emancipá-lo. Seria fácil se livrar da
responsabilidade assim, não?
A Solução Jurídica: Para evitar essa fraude e proteger a
vítima, a doutrina e a jurisprudência entendem que, na
emancipação voluntária, a responsabilidade dos pais
continua.
Tipo de Responsabilidade: Ela passa a ser SOLIDÁRIA. A
vítima pode cobrar tanto do filho (que tem bens) quanto dos
pais.
Atenção aos Enunciados 41 e 660 do CJF:
O antigo Enunciado 41 dizia expressamente que os pais continuavam
respondendo solidariamente na emancipação voluntária.
Recentemente, o Enunciado 660 suprimiu o 41.
Enunciado 660 CJF: Art. 928: Suprime-se o
Enunciado 41 da I Jornada de Direito Civil do
Conselho da Justiça Federal. ("A única hipótese em
que poderá haver responsabilidade solidária do
menor de 18 anos com seus pais é ter sido
emancipado nos termos do art. 5º, parágrafo
único, inc. I, do novo Código Civil.")
Isso significa que os pais não respondem mais? Não! A supressão
ocorreu apenas porque o texto antigo dizia que era a "única hipótese"
(o que estava tecnicamente impreciso), mas o entendimento
doutrinário de que os pais respondem solidariamente na voluntária
permanece firme.
AULA 2 (PARTE 5): EMANCIPAÇÃO LEGAL E EFEITOS FINAIS
1. EMANCIPAÇÃO JUDICIAL: O PAPEL DO TUTOR
Antes de entrarmos na emancipação legal, um detalhe importante
sobre a judicial que envolve o tutor (aquele que cuida do menor que
não tem pais):
O tutor não tem poder para emancipar o tutelado.
Quem pede? O próprio jovem (com 16 anos).
O que o tutor faz? Ele é apenas ouvido pelo juiz.
Quem decide? O juiz, por sentença. O tutor pode concordar ou
discordar, mas a palavra final é do magistrado.
2. EMANCIPAÇÃO LEGAL: QUANDO A LEI DECIDE
A emancipação legal dispensa a vontade dos pais e a sentença do
juiz. Ela ocorre automaticamente quando se verifica uma das
situações do Art. 5º, parágrafo único.
Vamos analisar as quatro hipóteses:
A) Pelo Casamento (Inciso II)
Idade Mínima: 16 anos (idade núbil).
o Atenção: Com a Lei 13.811/2019, não é mais permitido
casamento de menores de 16 anos em hipótese alguma
(antes permitia-se em caso de gravidez, hoje não mais).
Efeito: O casamento emancipa automaticamente.
Fim do Casamento:
o Se o casamento acabar por morte ou divórcio, a pessoa
volta a ser incapaz? Não. Emancipação não tem "ré".
Uma vez emancipado, continua emancipado.
Nulidade do Casamento:
o Se o casamento for anulado, aplicam-se as regras do
Casamento Putativo (casamento de boa-fé).
o Se o menor estava de boa-fé (não sabia do
impedimento): Mantém a emancipação.
o Se estava de má-fé: A emancipação é desfeita, e ele
volta a ser incapaz.
B) Pelo Exercício de Emprego Público Efetivo (Inciso III)
Palavra-chave: Exercício.
Não basta passar no concurso (aprovação).
Não basta ser nomeado ou tomar posse.
Tem que entrar em exercício (começar a trabalhar).
Obs: É raro na prática, pois a maioria dos concursos exige 18
anos, mas se acontecer, emancipa.
C) Pela Colação de Grau em Ensino Superior (Inciso IV)
Tem que ser curso de Ensino Superior.
Terminar o Ensino Médio ou Técnico profissionalizante não
emancipa.
D) Pela Economia Própria (Inciso V)
Requisitos Cumulativos:
1. Ter 16 anos completos.
2. Ter economia própria (auto-sustento).
Fonte: Pode vir de um estabelecimento civil/comercial (ex:
jovem empresário) ou relação de emprego.
Exemplo moderno: Youtubers e influenciadores digitais menores
de 18 anos que faturam alto e se sustentam.
3. EFEITOS DA EMANCIPAÇÃO (O PONTO CRÍTICO)
Agora que o menor foi emancipado, quais são as consequências
reais?
A) Efeito na Capacidade Civil
O emancipado adquire Capacidade de Fato plena. Pode
assinar contratos, comprar carro, viajar sozinho, sem precisar
de assistência.
B) Efeito na Responsabilidade Civil (Quem paga a conta?)
Aqui reside a maior "pegadinha" de provas. A regra muda conforme o
tipo de emancipação:
1. Emancipação Legal ou Judicial:
o O menor torna-se responsável pelos seus atos e os
pais/tutores ficam isentos. A responsabilidade é exclusiva
do emancipado.
2. Emancipação Voluntária (feita pelos pais):
o Problema: Pais poderiam emancipar filhos problemáticos
só para se livrar de indenizações.
o Solução: A doutrina e jurisprudência (Enunciado 41 CJF,
suprimido pelo 660, mas com entendimento mantido)
determinam que, neste caso, os pais continuam
Solidariamente Responsáveis.
o Ou seja, se o filho emancipado voluntariamente bater o
carro, a vítima pode cobrar tanto do filho quanto dos pais.
Isso evita a fraude.
o Nota sobre os Enunciados: O Enunciado 41 dizia que era a
"única hipótese" de solidariedade. Ele foi suprimido pelo
Enunciado 660 apenas porque a redação estava
tecnicamente restritiva, mas a regra de que os pais
respondem na emancipação voluntária continua valendo.
C) Efeitos Penais e Administrativos (ECA)
Enunciado 530 do CJF: "A emancipação, por si só, não elide a
incidência do Estatuto da Criança e do Adolescente".
Isso significa que a emancipação é apenas civil.
O emancipado:
o Pode tirar carteira de motorista (CNH)? Não (exige
imputabilidade penal/18 anos).
o Pode ser preso criminalmente? Não (responde por ato
infracional no ECA).
o Pode frequentar locais proibidos para menores? Não.
o Pode comprar bebida alcoólica? Não.
# Benefício da restituição (restitutio in integrum): No direito
romano, maior era a proteção jurídica concedida aos incapazes.
Admitia-se o benefício de restituição (restitutio in integrum), que
consiste na possibilidade de se anular o negócio válido, mas que se
revelou prejudicial ao incapaz. Segundo Beviláqua, trata-se de
“benefício concedido aos menores e às pessoas que se lhes
equiparam, a fim de poderem anular quaisquer outros atos válidos
sob outros pontos de vista, nos quais tenham sido lesadas”. Se,
porventura, o genitor alienasse bem imóvel pertencente ao menor,
com observância de todos os requisitos legais, inclusive autorização
judicial, mesmo assim o negócio poderia ser anulado se se apurasse,
posteriormente, que o incapaz acabou prejudicado (pela valorização
do imóvel, por exemplo, em razão de um fato superveniente). Como
tal benefício representava um risco à segurança dos negócios e à
própria economia, não foi acolhido pelo Código Civil de 1916, que
proclamava, de forma categórica, no art. 8º: “Na proteção que o
Código Civil confere aos incapazes não se compreende o benefício de
restituição”. O nosso ordenamento jurídico rechaçou, portanto, o
aludido benefício, que igualmente não é previsto no Código de 2002.
Malgrado o atual diploma não contenha dispositivo semelhante ao
supratranscrito art. 8º, a impossibilidade de se anular um negócio
válido somente para se beneficiar o menor, sem que tenha havido
qualquer causa de nulidade ou de anulabilidade, decorre do próprio
sistema jurídico, bem como da assimilação desse princípio pela
doutrina e pela jurisprudência.
Hoje, portanto, se o negócio foi validamente celebrado, observados os
requisitos da representação e da assistência e autorização judicial,
quando necessária, não se poderá pretender anulá-lo se,
posteriormente, revelar-se prejudicial ao incapaz.
MODOS DE EXTINÇÃO DA PESSOA NATURAL: EXPLICAÇÃO
DIDÁTICA
Preceitua o art. 6º do Código Civil que “a existência da pessoa natural
termina com a morte; presume-se esta, quanto aos ausentes, nos
casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva”.
Somente com a morte real termina a existência da pessoa natural,
que pode ser também simultânea (comoriência). Doutrinariamente,
pode-se falar em: morte real, morte simultânea ou comoriência,
morte civil e morte presumida.
Morte real
A morte real é apontada no art. 6º do Código Civil como responsável
pelo término da existência da pessoa natural. A sua prova faz-se pelo
atestado de óbito ou por ação declaratória de morte presumida, sem
decretação de ausência (art. 7º), podendo, ainda, ser utilizada a
justificação de óbito prevista no art. 88 da Lei dos Registros Públicos
(Lei n. 6.015/73), quando houver certeza da morte em alguma
catástrofe, não sendo encontrado o corpo do falecido.
A morte real – que ocorre com o diagnóstico de paralisação da
atividade encefálica, segundo o art. 3º da Lei n. 9.434/97, que dispõe
sobre o transplante de órgãos – extingue a capacidade e dissolve tudo
(mors omnia solvit), não sendo mais o morto sujeito de direitos e
obrigações. Acarreta a extinção do poder familiar, a dissolução do
vínculo matrimonial, a abertura da sucessão, a extinção dos contratos
personalíssimos, a extinção da obrigação de pagar alimentos, que se
transfere aos herdeiros do devedor (CC, art. 1.700) etc.
Lembra, todavia, Washington de Barros Monteiro, que “não é
completo o aniquilamento do de cujus pela morte. Sua vontade
sobrevive por meio do testamento. Ao cadáver é devido respeito,
havendo no Código Penal dispositivos que reprimem crimes contra os
mortos (arts. 209 a 212). Militares e servidores públicos podem ser
promovidos post mortem e aquinhoados com medalhas e
condecorações. A falência pode ser decretada, embora morto o
comerciante (Dec. Lei n. 7.661, de 21-6-1945, art. 3º, n. I e art. 9º, n.
I). Por fim, existe a possibilidade de reabilitar-se a memória do
morto”108.
Morte simultânea ou comoriência
A comoriência é prevista no art. 8º do Código Civil. Dispõe este que,
se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião (não precisa
ser no mesmo lugar), não se podendo averiguar qual deles morreu
primeiro, “presumir-se-ão simultaneamente mortos.
Quando duas pessoas morrem em determinado acidente, somente
interessa saber qual delas morreu primeiro se uma for herdeira ou
beneficiária da outra. Do contrário, inexiste qualquer interesse
jurídico nessa pesquisa.
O principal efeito da presunção de morte simultânea é que, não tendo
havido tempo ou oportunidade para a transferência de bens entre os
comorientes, um não herda do outro. Não há, pois, transferência de
bens e direitos entre comorientes. Por conseguinte, se morrem em
acidente casal sem descendentes e ascendentes, sem se saber qual
morreu primeiro, um não herda do outro. Assim, os colaterais da
mulher ficarão com a meação dela, enquanto os colaterais do marido
ficarão com a meação dele.
Essa presunção, todavia, é relativa e poderá ser afastada por laudo
médico ou outra prova segura do momento da morte real (cf. TJSP,
Apel. 9179145-82.2008.8.26.0000, 25ª Câm. Dir. Priv., rel. Des. Hugo
Crepaldi, j. 20-6-2012). Diversa seria a solução se houvesse prova de
que um faleceu pouco antes do outro. O que viveu um pouco mais
herdaria a meação do outro e, por sua morte, a transmitiria aos seus
colaterais. O diagnóstico científico do momento exato da morte,
modernamente representado pela paralisação da atividade cerebral,
circulatória e respiratória, só pode ser feito por médico legista. Se
este não puder estabelecer o exato momento das mortes, porque os
corpos se encontram em adiantado estado de putrefação, por
exemplo, presumir-se-á a morte simultânea, com as consequências já
mencionadas. A situação de dúvida que o art. 8º pressupõe é a
incerteza invencível.
Tendo em vista, porém, que “o juiz apreciará livremente a prova”
(CPC, art. 371), cumpre-lhe, em primeiro plano, “de ofício ou a
requerimento das partes, determinar as provas necessárias ao
julgamento do mérito” (CPC, art. 370), ou seja, apurar, pelos meios
probatórios regulares, desde a inquirição de testemunhas até os
processos científicos empregados pela medicina legal, se alguma das
vítimas precedeu na morte às outras. Na falta de um resultado
positivo, vigora a presunção da simultaneidade da morte, sem se
atender a qualquer ordem de precedência, em razão da idade ou do
sexo.
Morte civil
A morte civil existiu na Idade Média, especialmente para os
condenados a penas perpétuas e para os que abraçavam a profissão
religiosa, permanecendo recolhidos, e que permaneceu até a Idade
Moderna. As referidas pessoas eram privadas dos direitos civis e
consideradas mortas para o mundo. Embora vivas, eram tratadas pela
lei como se mortas fossem. Foi, porém, sendo abolida pelas
legislações, não logrando sobreviver no direito moderno.
Pode-se dizer que há um resquício da morte civil no art. 1.816 do
Código Civil, que trata o herdeiro, afastado da herança, como se ele
“morto fosse antes da abertura da sucessão”. Mas somente para
afastá-lo da herança. Conserva, porém, a personalidade, para os
demais efeitos. Também na legislação militar pode ocorrer a hipótese
de a família do indigno do oficialato, que perde o seu posto e
respectiva patente, perceber pensões, como se ele houvesse falecido
(Dec.-Lei n. 3.038, de 10-2-1941).
Morte presumida
A morte presumida pode ser com ou sem declaração de ausência.
Presume-se a morte, quanto aos ausentes, nos casos em que a lei
autoriza a abertura de sucessão definitiva (CC, art. 6º, 2ª parte). O
art. 37 permite que os interessados requeiram a sucessão definitiva e
o levantamento das cauções prestadas dez anos depois de passada
em julgado a sentença que concede a abertura da sucessão
provisória. Pode-se, ainda, requerer a sucessão definitiva, provando-
se que o ausente conta 80 anos de idade, e que de cinco datam as
últimas notícias dele (art. 38).
A declaração de ausência, ou seja, de que o ausente desapareceu de
seu domicílio sem dar notícia de seu paradeiro e sem deixar um
representante, produz efeitos patrimoniais, permitindo a abertura da
sucessão provisória e, depois, a definitiva. Na última hipótese,
constitui causa de dissolução da sociedade conjugal, nos termos do
art. 1.571, § 1º.
Prescreve, com efeito, o aludido dispositivo legal que “o casamento
válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges ou pelo divórcio,
aplicando-se a presunção estabelecida neste Código quanto ao
ausente”. Se este estiver vivo e aparecer, depois de presumida a sua
morte e aberta a sucessão definitiva, com a dissolução da sociedade
conjugal, e seu cônjuge houver contraído novo matrimônio,
prevalecerá o último.
A lei que concedeu anistia às pessoas que perderam os seus direitos
políticos por terem participado da Revolução de 1964 (Lei n. 6.683, de
28-8-1979) abriu uma exceção, permitindo aos familiares daqueles
que desapareceram e os corpos não foram encontrados a propositura
de ação de declaração de ausência para todos os efeitos, inclusive
pessoais, sendo a sentença irrecorrível.
O art. 7º do Código Civil permite a declaração de morte presumida,
para todos os efeitos, sem decretação de ausência:
“I – se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo
de vida;
II – se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não
for encontrado até dois anos após o término da guerra.
Parágrafo único. A declaração da morte presumida, nesses casos,
somente poderá ser requerida depois de esgotadas as buscas e
averiguações, devendo a sentença fixar a data provável do
falecimento”.
Quando os parentes requerem apenas a declaração de ausência, para
que possam providenciar a abertura da sucessão provisória e, depois,
a definitiva (CC, art. 22), não estão pretendendo que se declare a
morte do ausente, mas apenas que ele se encontra desaparecido e
não deixou representante para cuidar de seus negócios. Na hipótese
do art. 7º retrotranscrito, pretende-se, ao contrário, que se declare a
morte que se supõe ter ocorrido, sem decretação de ausência. Em
ambos os casos, a sentença declaratória de ausência e a de morte
presumida serão registradas em registro público (CC, art. 9º, IV).
Dispõe o Enunciado n. 614 da VIII Jornada de Direito Civil: “Os efeitos
patrimoniais da presunção de morte posterior à declaração da
ausência são aplicáveis aos casos do art. 7º, de modo que, se o
presumivelmente morto reaparecer nos dez anos seguintes à
abertura da sucessão, receberá igualmente os bens existentes no
estado em que se acharem”.
A Lei dos Registros Públicos (Lei n. 6.015/73, art. 88) prevê um
procedimento de justificação, destinado a suprir a falta do atestado
de óbito, que não pode ser fornecido pelo médico em razão de o
corpo do falecido não ter sido encontrado. Preceitua, com efeito, a
referida lei:
“Art. 88. Poderão os juízes togados admitir justificação para o assento
de óbito de pessoas desaparecidas em naufrágio, inundação,
incêndio, terremoto ou qualquer outra catástrofe, quando estiver
provada a sua presença no local do desastre e não for possível
encontrar-se o cadáver para exame.
Parágrafo único. Será também admitida a justificação no caso de
desaparecimento em campanha, provados a impossibilidade de ter
sido feito o registro nos termos do art. 85 e os fatos que convençam
da ocorrência do óbito”.
O procedimento a ser observado, nesse caso, é o previsto nos arts.
381 e s. do Código de Processo Civil, específico para a justificação da
existência de algum fato ou relação jurídica (cf. § 5º).
O Código Civil amplia, no art. 7º, I e II, as hipóteses de morte
presumida, usando expressão genérica: “Quem estava em perigo de
vida”. Desse modo, abrange não somente aqueles que
desapareceram em alguma catástrofe, como também os que estavam
em perigo de vida decorrente de qualquer situação, sendo
extremamente provável a sua morte. Nesse caso, somente poderá ser
requerida a declaração de morte presumida “depois de esgotadas as
buscas e averiguações, devendo a sentença fixar a data provável do
falecimento”.