ARTIGO ORIGINAL
A saúde de mulheres lésbicas e bissexuais:
experiências das profissionais de saúde no
município de Belford Roxo/RJ
The health of lesbian and bisexual women: experiences of healthcare
professionals in Belford Roxo/RJ
Sheila Cristina Corrêa da Silva1, Adriane Neves da Silva2, Mably Jane Trindade Tenenblat3, Ernane
Alexandre Pereira4
DOI: 10.1590/2358-28982023E19040P
RESUMO O trabalho visa conhecer a percepção das profissionais de saúde no cuidado de mulheres lésbicas
e bissexuais. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com 12 profissionais de diferentes áreas e unidades de
saúde da cidade de Belford Roxo (RJ). Em relação aos resultados, destacam-se duas temáticas com seus
respectivos núcleos de sentidos: 1) o atendimento prestado a mulheres lésbicas e bissexuais na unidade
de saúde; 2) facilitadores e dificultadores do acesso de mulheres lésbicas e bissexuais aos serviços.
Apesar do reconhecimento de que a diversidade no cuidado à saúde da mulher faz parte do cotidiano das
profissionais entrevistadas, as demandas e as especificidades de saúde de mulheres lésbicas e bissexuais
ainda são pouco valorizadas nas práticas de cuidados, mantendo protocolos heteronormativos. O diálogo
sobre a diversidade feminina, acerca do conhecimento e da materialização da Política LGBT é essencial
para os profissionais e gestores, propiciando mudanças nesse cenário e minimizando as dificuldades de
acesso. Por fim, é preciso discutir em que medida a política de saúde da população LGBTQIA+ vem sendo
abordada nos currículos e está na agenda de compromissos da gestão municipal de modo a garantir os
direitos dessa população nos serviços de saúde.
PALAVRAS-CHAVE Minorias sexuais e de gênero. Acessibilidade aos serviços de saúde. Saúde da mulher.
Homossexualidade feminina.
1 Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz), Escola Nacional ABSTRACT This study aims to understand the perception of healthcare professionals regarding the care of
de Saúde Pública Sérgio lesbian and bisexual women. This qualitative research project involves 12 professionals from several fields
Arouca (Ensp) – Rio de
Janeiro (RJ), Brasil.
and Belford Roxo, Rio de Janeiro, healthcare facilities. Regarding the results, we underscore two main themes
[Link]@[Link] with their respective core meanings: 1) Care provided to Lesbians and Bisexuals in Healthcare Facilities;
2) Facilitators and barriers for Lesbians and Bisexuals to accessing services. Despite the recognition that
2 Universidade Estadual
Paulista (Unesp) – São
diversity in women’s healthcare is part of the daily routine of the interviewed professionals, the health needs
Paulo (SP), Brasil. and specificities of lesbian and bisexual women are still undervalued in care practices, preserving heteronor-
mative protocols. Dialogue on female diversity, knowledge, and the materialized LGBT policy is essential for
3 Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ) – Rio
professionals and managers, enabling changes in this setting and minimizing access difficulties. Finally, we
de Janeiro (RJ), Brasil. should discuss how LGBTQIA+ health policy is being addressed in curricula and is on municipal management
commitments’ agenda to guarantee this population’s rights in health services.
4 Secretariade Estado de
Desenvolvimento Social
e Direitos Humanos KEYWORDS Sexual and gender minorities. Health services accessibility. Women’s health. Homosexuality,
(SEDSODH) – Rio de female.
Janeiro (RJ), Brasil.
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative
Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer
meio, sem restrições, desde que o trabalho original seja corretamente citado. SAÚDE DEBATE | RIO DE JANEIRO, V. 47, N. ESPECIAL 1, e9040, DEZ 2023
2 Silva SCC, Silva AN, Tenenblat MJT, Pereira EA
Introdução Material e métodos
Apesar de assegurado o direito à saúde, Trata-se de um estudo descritivo-explora-
garantido na Constituição de 19881, alguns tório, com abordagem qualitativa. O método
grupos populacionais, quando procuram escolhido foi o de interpretação dos sentidos,
atendimento, encontram dificuldades de para compreender os sentidos atribuídos pelas
acesso aos serviços de saúde. Mulheres lés- profissionais de saúde durante o atendimento
bicas e bissexuais vêm denunciando que suas às mulheres lésbicas e bissexuais7.
demandas e especificidades são invisibili- Os cenários de estudo foram unidades de
zadas pelos profissionais de saúde, sendo saúde localizadas no município de Belford
isso influenciado pela heterossexualidade Roxo, no Rio de Janeiro. Participaram da pes-
compulsória, que contribui para o apaga- quisa: 12 profissionais selecionadas por critério
mento dessas mulheres – e quando conse- de gênero, de diferentes áreas e unidades de
guem acesso, são expostas a discriminação saúde, que aceitaram voluntariamente fazer
e preconceito. parte da pesquisa. Foram excluídos profis-
Em relação às mulheres lésbicas e bisse- sionais do gênero masculino, as que estavam
xuais, afiguram-se especificidades e singu- afastadas por férias, licença especial e por
laridades, que são atravessadas pela questão motivo de doença no período em que foram
de gênero, orientação sexual, identidade realizadas as entrevistas.
de gênero, podendo inclusive se fazer um A produção dos dados foi realizada por
recorte étnico-racial e de classe 2. Diante meio da técnica de entrevistas narrativas8,
da existência desses marcadores sociais, a utilizando um roteiro semiestruturado, feita
situação de invisibilidade dessas mulheres, a entrevista no local de atuação das partici-
promovida de forma consciente ou incons- pantes, no período de maio de 2022. Houve
ciente, pode comprometer a experiência das também um questionário sociodemográfico
mulheres lésbicas durante o atendimento e informações sobre processo de formação e
por parte dos serviços de saúde3, contri- tempo de atuação. As narrativas das profissio-
buindo para uma busca menor por consultas nais de saúde foram gravadas e posteriormente
ginecológicas em relação às mulheres hete- transcritas.
rossexuais, acarretando a vulnerabilidade, Os passos para a interpretação das narrati-
o adoecimento e o agravamento do quadro vas foram: a) leitura compreensiva do material;
de saúde ou até a morte. b) identificação e problematização das ideias
Em que pesem os avanços e as conquistas, explícitas e implícitas nos materiais; c) busca
fruto da luta por garantias de direitos à saúde de sentidos relacionados com as falas e as ações
pelos movimentos feministas e lésbicos, as dos sujeitos da pesquisa; e d) elaboração de
especificidades e as demandas de Lésbicas, síntese interpretativa, procurando articular
Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e objetivo do estudo, base teórica adotada e
Transgêneros, Queer, Intersexo, Assexuais dados empíricos8.
e outras (LGBTQIA+) ainda não têm apre- A pesquisa seguiu as recomendações e dire-
sentado o devido reconhecimento4. Desde trizes éticas e legais necessárias à boa prática
a publicação da Política Nacional de Saúde de pesquisa, de acordo com as Resoluções
Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, nº 466/2012 e nº 510/20161 do Conselho
Travestis e Transexuais (PNSI-LGBT)5, um Nacional de Saúde; sendo aprovada pelo
marco no reconhecimento das demandas Comitê de Ética e Pesquisa da Escola Nacional
desse grupo populacional, têm se intensifi- de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação
cado as denúncias por violações de direitos Oswaldo Cruz – Ensp/Fiocruz (Certificado de
e exclusão nos serviços de saúde6. Apresentação para Apreciação Ética – CAAE
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A saúde de mulheres lésbicas e bissexuais: experiências das profissionais de saúde no município de Belford Roxo/RJ 3
57021522.1.0000.5240, número do parecer: mental (33,3%), seguida de especialização em
5.434.546). Todas as participantes assinaram o violência (16,6%). Uma participante relatou
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; especialização latu sensu em psicologia social,
e para manter o anonimato dos participantes, e outra, em nutrição clínica.
designou-se, a cada uma delas, um código: de
S1 até S12. É importante ressaltar que a pes- O Atendimento prestado a mulheres
quisa não contou com recursos financeiros de lésbicas e bissexuais na unidade de
patrocinadores para a sua realização, ou seja, saúde
foi realizada com recursos próprios.
Para análise dos dados, foi utilizado o re- Podem-se destacar duas concepções nessa
ferencial teórico de Pierre Bourdieu: habitus, categoria: abordagem durante o atendimento
campos e violência simbólica9,10, visto que a mulheres lésbicas e bissexuais; e deman-
esses conceitos são fundamentais para com- das apresentadas pelas mulheres. Quando as
preender como, no campo, perpetuam-se as profissionais foram questionadas como esses
desigualdades e como essas profissionais cons- atendimentos ocorrem, as respostas foram
troem seus cuidados, já que essas são respon- similares entre as entrevistadas no que se
sáveis, no campo, em legitimar as necessidades refere ao fato de que não necessariamente a
de saúde da população. busca por atendimento está relacionada com
as questões de saúde, o que pode ser observado
nas narrativas:
Resultados e discussões
[...] questões de conflitos familiares. A procura
No conjunto de dados analisados, afiguram-se foi por conta de conflito familiares e no decorrer
três categorias de análise: 1) conhecendo as do atendimento, elas verbalizaram a orientação
profissionais de saúde do município de Belford sexual. (S1).
Roxo; o atendimento prestado a mulheres
lésbicas e bissexuais na unidade de saúde; [...] é difícil identificar. Não lembro de ter atendido.
e facilitadores e dificultadores do acesso de Somente um homem trans e com uso de nome
mulheres lésbicas e bissexuais aos serviços. social. (S5).
Conhecendo as profissionais de Nesse sentido, a decisão de procurar os ser-
saúde do município de Belford Roxo viços de saúde está relacionada com outros
problemas, tais como: conflitos familiares e
Quanto as 12 profissionais de saúde entrevis- desconhecimento sobre terem atendido essa
tadas, observa-se que, em relação ao gênero, população. Outro fato que aparece na fala de
há predomínio de mulheres cis (100%). Sobre uma das entrevistadas refere-se ao simbolismo
a sexualidade, a maioria delas definiu-se como do feminino:
heterossexual, ou seja, 66,7%. Em relação à
religião, a predominante era a católica (33,3%). [...] acho que houve uma identificação simboli-
Essas mulheres estavam situadas na faixa camente do feminino. (S1).
etária de 50 a 56 anos (41,7%).
As participantes possuem experiência no [...] o fato de ser uma mulher lésbica acho que
cuidado à saúde, visto que possuem mais de me ajuda. (S9).
sete anos de atuação. Quanto à capacitação
profissional, a maioria das participantes tinha Existe a necessidade de refinar a abordagem
alguma especialização lato sensu, porém, da questão do acesso a cuidados ginecológicos
com predomínio da especialização em saúde entre mulheres lésbicas e bissexuais, levando
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4 Silva SCC, Silva AN, Tenenblat MJT, Pereira EA
em conta a diversidade dessas mulheres, de suas tomar os sujeitos enunciados pelo movimento
experiências e as diferentes representações que como sempre abertos à inclusão, acolhendo
têm sobre o próprio corpo, o risco de adoecimento novas e diferentes demandas, questionando
e o papel da busca por cuidados ginecológicos, de arranjos hierárquicos11.
modo a produzir ações mais efetivas no sentido Quanto à organização dos serviços, para
de reduzir as dificuldades ao acesso11. atender às demandas das mulheres lésbicas
Por outro lado, acreditam que a visibilidade e bissexuais, as narrativas mostraram que há
existente nas mulheres lésbicas masculini- ausência de acolhimento que permita a escuta
zadas facilitaria o atendimento. O habitus de suas vivências. Além disso, os protocolos
heteronormativo presente nas práticas de de atendimentos mantêm formato para aten-
saúde leva as profissionais a realizarem seus dimento a mulheres heterossexuais, o que
cuidados voltados à heterossexualidade, o mostra nas narrativas:
que pode contribuir para a naturalização da
heterossexualidade e o não reconhecimento Falta inclusão... (S1).
de vivências sexuais e de gênero plurais12.
Outro ponto importante foi o não reconhe- Não vejo nenhuma ação. (S3).
cimento das demandas reais das mulheres
lésbicas e bissexuais. Quando as profissionais Não estão organizadas. (S4).
foram questionadas sobre seu conhecimento
sobre as principais demandas apresentadas e Não tem ações… (S6).
a não vinculação com os serviços e as equipes,
as respostas foram preocupantes: Nenhum trabalho e nenhuma ação. (S7).
[...] as demandas de saúde encontrada na equipe Não tem nenhuma organização para esse aten-
são na saúde emocional e na busca dos atendimen- dimento. (S8).
tos no cuidado da saúde da mulher. (S4).
Corroborando as narrativas, outros estudos
[...] as demandas são muito poucas e somente quando apontam que um dos desafios nos atendimen-
os colegas têm dúvidas eles me acionam. (S10). tos enfrentados por mulheres lésbicas e bis-
sexuais no acesso aos serviços de saúde está
[...] elas não voltam por causa dos preconceitos. no atendimento humanizado, com um olhar
Principalmente nas portas das unidades... [aco- para as especificidades das pacientes lésbicas
lhida e recepção]. As perguntas na entrada dos e bissexuais, o que requer dos profissionais
atendimentos, dependendo de como são feitas, as preparo e qualificação para o reconhecimento
pessoas se recolhem e não se sentem acolhidas. das necessidades dessa população. Isso implica
Ou pior, se sentem constrangidas. (S2). a ressignificação das habilidades e compe-
tências durante o processo de formação dos
A percepção das entrevistadas aponta que profissionais de saúde, para o reconhecimento
as experiências vivenciadas pelas mulheres das reais demandas da população que está sob
lésbicas e bissexuais durante o atendimento seus cuidados, promovendo um espaço de aco-
nos serviços de saúde contribuem para que elas lhimento, criação de vínculo, que respeite às
não retornem. Considerando essa realidade, singularidades e desconstrua qualquer forma
faz-se necessário manter um olhar atento às de violência institucionalizada12.
inclusões, às exclusões, às possibilidades e aos Além disso, a não inclusão da PNSI-LGBT
limites que colocam no processo cotidiano de na formação dos profissionais, a utilização
trazer dado sujeito político, com suas deman- de protocolos e as intervenções a partir de
das, para o espaço público. Tal olhar possibilita um olhar heteronormativo vêm dificultando
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A saúde de mulheres lésbicas e bissexuais: experiências das profissionais de saúde no município de Belford Roxo/RJ 5
a construção de vínculos e o cuidado, pro- [...] acho que seria de grande valia que esses pro-
duzindo um atendimento fragmentado, que fissionais fossem capacitados para isso dentro
contribui para exclusão e violência simbólica, das unidades. Para que eles pudessem a abrir o
dificultando o acesso e a permanência dessas espaço para escuta, muito mais do que o trata-
mulheres nos serviços de saúde12,13. mento. Porque eu acho que a escuta é secundária
A invisibilização das demandas e das especi- e abrir grupos de escutas para saber o que essas
ficidades de mulheres lésbicas e bissexuais no mulheres trazem de demandas, de experiências,
atendimento à saúde está atrelada ao habitus9,10 de sofrimentos, em questões familiares, de rela-
heteronormativo, presente nas práticas de cionamento. Acho que falta escuta! (S1).
saúde e no processo de formação dos profis-
sionais de saúde, que direcionam seu cuidado Não ter preconceito. (S9).
voltado para mulheres heterossexuais12. Essa
naturalização vem contribuindo para violência [...] a rede poderia facilitar o acesso das demandas
simbólica e fragmentação do cuidado integral. das profissionais da ponta. (S11).
Facilitadores e dificultadores do Observou-se, contudo, que os facilitado-
acesso de mulheres lésbicas e res dependem exclusivamente do olhar de
bissexuais aos serviços cada profissional. Além disso, para o cuidado
integral de mulheres lésbicas e bissexuais,
Ao serem questionadas a respeito das facilida- é preciso o estabelecimento de vínculo, re-
des ao conduzirem os atendimentos de lésbicas conhecimento e respeito à singularidade,
e mulheres bissexuais nos serviços de saúde, desconstruindo todas as formas de violência,
observou-se que a existência de profissionais estigma e discriminação4,12. Isso influencia na
lésbicas e bissexuais na equipe é um facilitador construção de espaços que possam acolher
nas experiências de atendimento: essas mulheres e profissionais de saúde que,
por um lado, não conheceram as reais neces-
[...] acho que o fato do feminino. Talvez, o fato delas sidades e, por outro, ao serem afetados pelo
carregarem ainda em si essa questão do feminino. preconceito e discriminação, contribuam para
Acho que houve uma identificação simbolicamente o cuidado fragmentado.
do feminino. (S1). O respeito ao direito à saúde esteve presen-
te nas narrativas das entrevistadas, sendo visto
[...] o fato de ser uma mulher lésbica acho que como um dificultador no cuidado às mulheres
me ajuda. (S9). lésbicas e bissexuais. Todavia, há uma dificuldade
por questões religiosas e posturas conservadoras:
[...] acreditamos que qualquer unidade de saúde
tem que ter uma visão holística, onde possamos [...] é mostrar por outro que trabalha com você,
ver um todo por igual. Uma vez que, um olhar que aquela pessoa tem direitos e que ela precisa
amplo no atendimento pode facilitar o acolhimento ser respeitada. Mas o que me deixa angustiada é
do paciente. E, incluo ainda, que temos mulheres o profissional querer doutrinar essa pessoa [reli-
lésbicas e/ou bissexual em nossa equipe, o que nos giosidade]. (S2).
capacita todos os dias. (S12).
[...] senti dificuldade quando ela me perguntou se
Ainda sobre os facilitadores de acessos e o profissional que eu estava encaminhando seria
atendimentos, ao serem questionadas sobre uma pessoa sensível. (S10).
quais facilidades elas acreditam ser necessá-
rias para conduzirem esses atendimentos, as Há uma preocupação com a necessidade
profissionais afirmaram que: de mudança no olhar das profissionais com
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6 Silva SCC, Silva AN, Tenenblat MJT, Pereira EA
posturas conservadoras. Corroborando um mulheres lésbicas e bissexuais. Tal sentimento
documento do Ministério da Saúde, os conser- pode ser compreendido pela ausência desse
vadores acham que esse não é um problema a diálogo nos espaços de formação e pelo enten-
ser debatido no Sistema Único de Saúde (SUS), dimento de que o SUS é universal, equânime
sendo esse debate visto como uma pauta não e integral. No entanto, a falta de visibilidade
realizada nos serviços, exceto nos serviços e representatividade dessas mulheres con-
especializados de atendimento a Doenças tribui para a perpetuação do estigma, da dis-
Sexualmente Transmissíveis (DST)/aids3. criminação e da violência simbólica9,10 que
Outro aspecto relevante nas entrevistas diz elas enfrentam. Assim, é fundamental que
respeito ao constrangimento das mulheres lésbi- mulheres lésbicas e bissexuais aproximem
cas e bissexuais ao revelar ou não sua orientação as suas vivências dos profissionais de saúde3.
sexual, por terem vivenciado experiências negati-
vas durante o atendimento, quando pressionadas
a revelar sua orientação sexual12. Conclusões
[...] ouvir o sofrimento e não ter pra onde direcionar Apesar do reconhecimento de que a diversida-
no momento. (S7). de no cuidado à saúde da mulher faz parte do
cotidiano das profissionais, as demandas e as
[...] perceber o constrangimento da paciente. (S9). especificidades de saúde de mulheres lésbicas
e bissexuais ainda são pouco valorizadas nas
Cabe destacar que as consultas devem ser práticas de cuidados, mantendo protocolos
permeadas da construção de vínculo, levando heteronormativos, desvalorizando, assim, suas
essas mulheres à livre revelação da sua orienta- trajetórias e práticas sexuais.
ção sexual, quando elas têm o direito de revelar No município de Belford Roxo, as unidades de
ou não aos profissionais. Isso implica, durante saúde, em relação a estruturas, não estão prepa-
o cuidado, considerar as diversas possibilida- radas para acolher as demandas dessas mulheres,
des de prevenção e condutas existentes para ou seja, que tenham programas que abranjam as
cada uma das práticas sexuais informadas14. questões de gênero e orientação sexual. Embora
A falta de espaço de acolhimento para mu- as entrevistadas tenham demonstrado empatia
lheres lésbicas e bissexuais é uma realidade a esse grupo social, sabe-se que não é suficiente
enfrentada diariamente por elas, aparecen- para melhorar, de maneira geral, a qualidade
do como dificultador trazido nos relatos das do atendimento, pois são ações pontuais, não
profissionais: estruturais. Nesse sentido, existe a necessidade
de refletir sobre o processo de cuidado a partir
da perspectiva do gênero e da sexualidade. Além
[...] falta de espaço na unidade para que pudésse- disso, traz a ênfase para a necessidade de uma
mos fazer este atendimento, espaço físico e profis- formação profissional e educação permanente
sional, partindo da gestão para que o profissional, que contemple a integralidade do cuidado à
possa criar esses trabalhos. (S1). saúde, o que implica o diálogo sobre políticas
públicas LGBTQIA+ e a abordagem e o reconhe-
[...] talvez por eu ser mulher, eu não tenha nenhuma cimento das demandas e especificidades dessa
dificuldade. Acredito que a maior dificuldade está população. Isso possibilita maior acolhimento e
nessas mulheres não se sentirem confortáveis em pertencimento no momento que essa população
ser atendidas por homens. (S5). procura unidades de saúde para atendimento,
caminho para desconstruir a perpetuação do
As profissionais demonstraram incômodo habitus heteronormativo nas práticas de cuidados
pela inexistência de espaços para atender e da violência simbólica.
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A saúde de mulheres lésbicas e bissexuais: experiências das profissionais de saúde no município de Belford Roxo/RJ 7
Por fim, o diálogo sobre a diversidade fe- Colaboradores
minina, acerca do conhecimento e da mate-
rialização da PNSI-LGBT é essencial para os Silva SCC (0000-0001-6452-221X)* contribuiu
profissionais e gestores, de modo a promover para elaboração e construção do delineamento
mudanças nesse cenário, minimizando as di- da pesquisa, análise e interpretação dos dados,
ficuldades de acesso de mulheres lésbicas e discussão dos resultados, redação e aprovação
bissexuais aos serviços de saúde, nos quais da versão final do manuscrito. Silva NA (0000-
suas experiências sejam valorizadas. Além 0001-5383-2618)* contribuiu para confecção
disso, trazer ênfase ao conhecimento sobre em do artigo, participando ativamente da discus-
que medida a política de saúde da população são dos resultados, da revisão e da aprovação
LGBTQIA+ vem sendo abordada nos currícu- da versão final do manuscrito. Tenenblat MJT
los e está na agenda de compromissos da gestão (0000-0002-8109-5712)* e Pereira EA (0000-
municipal, a fim de garantir os direitos dessa 0001-6681-5016)* contribuíram para a revisão
população nos serviços de saúde. do manuscrito. s
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Recebido em 18/11/2023
13. Santana ADS, Lima MS, Moura JWS, et al. Dificul- Aprovado em 15/12/2023
Conflito de interesses: inexistente
dades no acesso aos serviços de saúde por lésbicas,
Suporte financeiro: não houve
gays, bissexuais e transgêneros. Rev. enferm UFPE.
Editora responsável: Vania Reis Girianelli
2020; 13:e243211.
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