Em meio às incontáveis pedras de gelo que flutuavam ao redor do gigante gasoso, uma
astronave avançava em alta velocidade rumo à lua de Encélado. Deslizava pelos anéis
como uma lâmina silenciosa, fendendo o campo de detritos com precisão quase cirúrgica,
sem deixar rastro além da perturbação sutil do gelo em suspensão.
Seu formato lembrava o de uma agulha: um corpo metálico longo e esguio, do qual pendiam
arcas retangulares dispostas verticalmente, alinhadas como apêndices rígidos ao longo do
tronco central. Essas estruturas conduziam à seção principal da nave, uma circunferência
ovalada e achatada, em cujo núcleo girava incessantemente uma esfera espelhada,
refletindo a luz difusa do planeta em padrões lentos e hipnóticos.
As cores terrosas de Saturno projetavam-se sobre uma das janelas da esfera. Por ela,
via-se o interior de uma ampla cabine: ao centro, uma mesa circular emitia um mapa estelar
holográfico, cujas linhas luminosas pulsavam com cadência suave, como um organismo
vivo. Ao redor dela, sentavam-se duas figuras elegantemente trajadas, envoltas em uma
conversa contida, enquanto a fumaça fina de um longo cigarro metálico se espalhava no ar
controlado.
Um homem de terno vinho e luvas escuras ajeitava os cabelos grisalhos enquanto falava,
com entusiasmo cuidadosamente dosado, à mulher à sua frente. Comentava sobre um
leilão que ocorreria em dezoito horas e vinte e três minutos, nas plataformas orbitais de
Titânia. Uma cicatriz cortava os lábios do homem, que se moviam de forma suave enquanto
ele colocava seu olhar perfurante em um brinco azulado no lóbulo da mulher à sua frente.
— Os núcleos valem, individualmente, novecentos marcos — respondeu a mulher, com um
forte sotaque neptuniano. Ajustou a estola de raposa branca sobre os ombros com um
gesto estudado, quase pedante. — E creio que seus afazeres não despertam meu
interesse. Esta é minha oferta. Tenho mais quatro minutos para discutir os termos; depois
disso, será necessária a sua retirada.
A indiferença da licitante era inequívoca. Sem alternativas, o homem cedeu. Concordou em
adquirir trezentos núcleos, e a transferência foi realizada de imediato. Um sorriso breve,
quase imperceptível, desenhou-se no rosto da neptuniana. Com um toque leve na superfície
da mesa, ela acionou um mecanismo oculto: de uma abertura precisa emergiram duas
taças cilíndricas, adornadas com padrões geométricos em relevo, semelhantes a cristais
lapidados. Ergueu uma delas em brinde à transação recém-concluída.
A porta da sala abriu-se em um contorno losangular perfeito. Duas figuras em armaduras
surgiram no limiar. Usavam botas pesadas de antigravidade, capacetes poligonais que
ocultavam por completo o rosto, e um par de braços biônicos suplementares projetava-se
de suas costas, imóveis, como membros adormecidos. O homem compreendeu sem
necessidade de explicações. Levantou-se, apertou a mão da comerciante, que retribuiu o
gesto com frieza polida, e seguiu escoltado para fora da sala.
À medida que atravessava o interior da esfera em rotação constante, as janelas em forma
de diamante revelavam, à distância, a silhueta crescente do satélite natural de saturno,
refletindo a luz solar de maneira espectral. No extremo oposto, além de um corredor de
acoplamento, aguardava sua elegante nave de transporte.
Enquanto isso, a nave acicular principal prosseguia em seu trajeto linear sobre a fina
superfície congelada do último anel uniforme de Saturno, que se estendia no horizonte
como uma cicatriz interminável. Ao aproximar-se da zona gravitacional de Encélado, as
pequenas pedras de gelo começaram a oscilar, como ondas em um oceano tempestuoso,
montanhas e vales efêmeros surgindo e colapsando em meio ao mar de detritos capturados
pela órbita da lua.
Olhos atentos, porém, perceberiam algo que não estivera ali momentos antes.
A gigantesca astronave, com seu quilômetro de extensão, agora carregava um ponto escuro
quase imperceptível aderido à sua estrutura. Presa a um dos grandes contêineres
retangulares, uma pequena nave se agarrava ao casco com quatro braços robóticos longos
e angulosos. Sua silhueta era inequivocamente insetoide, um corpo compacto e
segmentado, revestido por placas negras de brilho opaco, como obsidiana polida. Não havia
marcas, luzes externas ou cores visíveis: apenas uma forma escura, absorvendo a luz ao
redor, imóvel e paciente, como um predador à espreita.
Na parte inferior da criatura mecânica, em contato direto com a superfície adamantina do
contêiner, uma estrutura circular elevou-se lentamente. Dela partiram finos feixes luminosos
de tom índigo, que giraram em alta velocidade, cortando o casco com precisão absoluta.
Em segundos, um círculo perfeito foi traçado, abrindo passagem para o interior.
Dois seres em armaduras atravessaram o corte recém-formado e sinalizaram para que
pequenos drones circulares, munidos de braços articulados, ingressassem no
compartimento. Ali, sustentado por campos de contenção invisíveis, erguia-se um grande
cofre. Suas prateleiras organizadas abrigavam dezenas de orbes de antimatéria,
preenchidas por uma substância gasosa que lembrava um olho humano, a pupila arroxeada
pulsando suavemente no centro.
Setenta e cinco metros quadrados, calculou mentalmente a figura de maior estatura,
enquanto observava os robôs removerem as orbes com precisão matemática e
transportá-las para o interior da nave insetoide.
Na cintura da figura menor, uma bainha alongada refletiu a luz das lanternas dos drones,
revelando uma espada de guarnição singular: anéis prateados concêntricos, dispostos
como a estrutura de um átomo, protegiam um cabo fino e uma lâmina ainda embainhada. A
figura pousou a mão com firmeza sobre o punho e virou o capacete em direção ao
companheiro.
Após alguns segundos, sua voz suave ecoou abafada pelo visor escuro:
— Merda… fomos detectados. Cinco guardas vindo rápido demais. Dois metros por
segundo. Não dá tempo. Evacuar imediatamente!
Do lado de fora, ondas gravitacionais lançavam fragmentos de gelo contra o casco da nave
principal. Um dos picos de detritos emergiu abruptamente ao seu flanco, colidindo com
violência e forçando o eixo da astronave a girar alguns graus para a esquerda, enquanto o
caos dos anéis se reorganizava ao seu redor.