Intencionalidade, jornalismo opinativo e leitura
Luiz Antonio Ferreira1
Os caminhos da leitura na escola estão sendo repensados por muitos
estudiosos e, assim, a função hermenêutica da retórica ganha corpo cada
vez mais expressivo quando a concebemos, como o faz Olivier Reboul (1998)
em sua obra Introdução à Retórica, que para ser bom orador – e,
completamos, bom leitor – é preciso saber a quem se está falando (ou quem
fala), não se deter no texto, mas ir além e compreender o discurso com suas
intenções manifestas ou latentes, a fim de detectar as possíveis ciladas, de
sopesar as forças de seus argumentos e sobretudo de captar o não-dito.
Vista pelo prisma heurístico, por sua vez, a retórica admite que a verdade
raramente é evidente e, assim, seu papel seria também o da descoberta.
Nessa perspectiva, é possível retomar em Maingueneau a afirmação de que
cada discurso estabelece seu tom por meio de uma voz que repousa na
figura do orador e de seu ethos. Ao leitor, compete buscar, na materialidade
da linguagem e no contexto, os sentidos possíveis pela identificação precisa
das estratégias persuasivas. Tendo por base o discurso jornalístico, este
texto pretende associar os conceitos da pragmática discursiva, ou
especificamente o de intencionalidade local e global, de Anne Reboul e
Moeschler, com os estudos da retórica de Perelman e de Olivier Reboul a fim
de contribuir para os estudos que pretendem a busca de caminhos para uma
pedagogia da leitura capaz, sobretudo, de ampliar a criticidade pelo
desvendamento das estratégias utilizadas no conjunto de traços de
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Professor de Lingüística da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP.
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operações da enunciação.
Para a realização desses objetivos, valemo-nos, como artifício didático, de
um texto jornalístico opinativo, denominado “Carta a um Jovem Repórter”,
publicado em 21 de maio de 1998, na Folha de São Paulo, assinado por Jorge
da Cunha Lima, jornalista e escritor, de sessenta e cinco anos, identificado
no rodapé como presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da
TV Cultura. O texto tematiza o confronto entre duas visões jornalísticas,
uma antiga e outra moderna, com evidente viés opinativo favorável à
tradição. Essas categorias, modernidade e tradição, convivem em qualquer
sociedade, coabitam em qualquer época e, por isso, independentemente da
posição do orador, dão pistas ao auditório de um modo de entender a
experiência humana e, sobretudo, permitem entender como se legitimam os
discursos, os modos de vida e os comportamentos. Essas duas categorias
motivam, no plano temático, o autor a analisar duas posturas possíveis: a
da paixão (supostamente necessária ao repórter) e a que a esta se
contrapõe, a da exacerbada visão crítica de mundo, que privilegia o plano da
relevância da informação:
Tenho minhas dúvidas de que um repórter sem paixão possa
prestar serviço relevante ao jornal em que trabalha. Na falta de
paixão, sobra-te uma visão crítica do mundo, o que não é mau em
si, mas se torna deletério no abuso.
Essa afirmação nasceu de um comentário primeiro do repórter, como
mostra o parágrafo a seguir:
Outro dia, um jovem repórter dizia-me, com grande convicção, que
mantém sempre distância absoluta dos fatos e das pessoas, uma
clara neutralidade diante do sujeito e do objeto, para ser justo nas
suas reportagens.
Evidentemente, o repórter dá mostras de crenças adquiridas durante sua
formação. A partir daí, o jornalista mais experiente desencadeia uma
discussão que põe em xeque tanto a função do jornalista no mundo
contemporâneo quanto o lugar da razão e da afetividade em nossos dias. A
afirmação do jovem repórter advém, por certo, de uma concepção de fazer
jornalismo que, por sua vez, pode ter sido herdada do mito do objetivismo
que dominou a cultura ocidental e, particularmente, a filosofia ocidental,
dos pré-socráticos até nossos dias (racionalismo cartesiano, empirismo,
filosofia kantiana, positivismo lógico). A razão na modernidade, diz-nos o
estudioso da comunicação Adriano Duarte Rodrigues (1994), “desempenha
o papel inquestionado de ponto de fuga da representação, de unificação
dos saberes, pela indagação da natureza, dos modos de funcionamento do
mundo e pela descoberta das leis que o regem” e, complementa, é o lugar
invisível a partir do qual o mundo é posto em perspectiva. Contra essa
postura cartesiana se insurge o experiente jornalista, ao propor uma nova
ordem de representação que admite como também possível a construção
subjetiva do real, como se percebe na seguinte afirmação: “Perdes, pela
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neutralidade ascética, o juízo maior, que não se produz pela simples
distância, mas por um contato muito próximo da razão e da sensibilidade
com o assunto de tua reportagem.”
O repórter, para Jorge da Cunha Lima, deveria posicionar-se como um
analista da realidade, como um intérprete e não como mero reprodutor de
fatos. Nesse sentido, parece concordar com Moeschler e Reboul quando
solicitam que o intérprete focalize as intenções de todos os implicados num
processo comunicativo e, assim, assuma uma postura cognitiva
explicitamente intencionalista, justamente para ressaltar dois pontos
fundamentais que levam em conta, primeiramente, o fato de os envolvidos
na comunicação serem agentes racionais, e, depois, de os mesmos agentes
serem dotados de crenças, desejos e outros estados mentais. Os parágrafos
2
A origem etimológica iniciais da “carta” são bastante enfáticos nesse sentido:
e a evolução do termo
tradição (do verbo
latino tradere,
Ao falar isso com um certo orgulho, mas sem brilho nos olhos, deu-
composto de dare, dar
ou transmitir, me a impressão de se tratar do cultor de uma língua que só
entregar, e do prefixo
trans-,
admitisse predicados, de uma justiça que dispensasse toda
completamente, de um afetividade ou de uma crítica incapaz de se comprometer.
lado ao outro) é
bastante sugestiva,
uma vez que, em latim, Pois és, jovem repórter do primeiro parágrafo, o mais vulnerável
traditio podia ser
utilizado tanto para dos “focas”. É bem provável que tenhas lido com fervor reverencial
indicar uma ação de o manual de redação mais próximo, mas tua contribuição ao jornal
entregar ou de dar
algo ou alguma coisa, talvez não vá muito além do computador que usas para promover a
quanto para uma justiça factual de cada dia.
narrativa ou história
que relatasse
acontecimentos
supostamente
O jornalista, então, lê o fato ocorrido e o transforma, pelo processo de
passados. Uma outra comunicação, em fato informado. E o faz pelo discurso que, por sua vez,
acepção referia-se à
traição, ato de entrega
evidencia as inferências feitas a partir de seu repertório e visão de mundo.
a um inimigo de Pensar o discurso do dia-a-dia, que se transmuta em fato, seria, então, um
alguém ou de alguma
coisa. Traditor exercício de compreensão e de inferências que advêm da dinamização de
poderia ser tanto o fenômenos diversos, capazes de revelar parte do repertório e das
mestre que transmite
um ensinamento experências de determinado sujeito, como bem pontuam Moeschler e
quanto o traidor que Reboul. Ressalte-se que a mesma postura investigativa seria desejável no
entrega às escondidas
alguém a um inimigo. leitor.
Confundidas, na Pautando-se nos considerados “notáveis”, Jorge da Cunha Lima justifica
origem, a partir de um
mesmo étimo, os sua posição favorável a um jornalismo outro, que se interponha à corrente
termos tradição e
traição ganharam
objetivista apregoada pelo jovem repórter:
contornos distintos a
partir do século XIII.
De qualquer modo, a No meu percurso de jornalista, conheci três notáveis, que pouco se
palavra tradição ainda enquadrariam nessa neutralidade justiceira que professas hoje.
guarda resquícios do
sentido primeiro, na Exerciam a sua profissão com a mesma ética diante do poder, da
medida em que não é autoridade ou da miséria explícita. Tinham a paixão na medula,
um conhecimento
exato e formalmente embora fossem tão diversos – quase opostos, se confrontados.
objetivável que a
tradição transmite,
mas, sim, algo que O apoio explícito do velho jornalista vincula-se a uma espécie de
pertence à ordem da
valorização ético-humanística encontrada em tradição2 bastante recente,
reminiscência, algo que
os discursos podem uma vez que limita a argumentação ao “seu” percurso de jornalista. Sua fala
trair ou deixam
transpirar.
pretende ressaltar a intencionalidade, a paixão dos velhos jornalistas,
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envoltos numa prática de natureza dissertativo-expositiva e, por isso, dotada
de intencionalidade enunciativa, capaz de traduzir e até de trair quando as
crenças éticas do orador esconderem, para ele mesmo, as outras faces de
uma suposta verdade. O interesse real do jornalista estaria no investigar a
significação do fato que comenta. Enfim, seu interesse é negociar os
sentidos.
Quer nos parecer que, embora não o diga explicitamente, Cunha Lima
confia na capacidade interpretativa do leitor, capacidade de entender a
intencionalidade do jornalista diante dos fatos e que, por meio de um
processo de interpretação, ambos devem ser capazes de chegar às suas
próprias conclusões. Há, nessa suposta crença, uma visão de leitura como
evento social (Bloome, 1993), como um processo que permite ao indivíduo
orientar a si e aos outro, controlar a si e ao outro, comunicar o que pensa e
sente por meio da negociação dos sentidos possíveis de um texto ou de
vários, postos em relação intertextual.
Cabe, neste momento, refletir, ainda que brevemente, sobre algumas
questões ligadas à educação e à formação de leitores. O jovem repórter, em
seu discurso, está convicto de que procede muito bem ao evitar, a qualquer
custo, o aspecto subjetivo, o sinal mínimo de envolvimento emocional para
ressaltar o aspecto racional e frio da análise estrita do fato. Querendo
informar, pretende instaurar uma espécie de observação supostamente
científica da realidade. O velho jornalista, por seu turno, ressalta que no
centro do processo de profissionalização não está o fazer, mas o saber-fazer
e isso seria muito mais do que o exercício rotineiro de um ofício, já que
admite a reinvenção constante, movida por um impulso capaz de lançar um
olhar valorativo sobre os fatos, sem abandonar a visão de mundo do orador
ou do auditório. Enfim, o que Cunha Lima reclama do repórter é o que se
exige de um leitor proficiente: capacidade para descobrir o tom de cada
discurso, desvendar na voz do orador o seu ethos. De acordo com esse
raciocínio, cabe ao leitor a interpretação, cabe ao leitor saber que “a idéia
de uma linguagem idealmente transparente às coisas não é verdadeira
nem mesmo para o discurso mais comum, já que a enunciação deixa
sempre seu vestígio no enunciado e que a linguagem só pode designar
designando-se” (Maingueneau, 1996).
Assim, a neutralidade do repórter seria apenas um mito. Escrever para
um jornal como um ato que procura fazer crer que o que se diz é
verdadeiro, é simplesmente um ato ou esforço retórico. Ao leitor compete
saber por que meios um discurso é persuasivo para dar o efeito de verdade.
Como afirma Olivier Reboul (1998, XVII), esses meios são de ordem racional
alguns, de ordem afetiva outros, já que em Retórica, razão e sentimento são
inseparáveis.
Os meios de competência da razão fundam-se no argumento, nem sempre
lógicos, como bem nos mostra Perelman (1996); os meios que dizem
respeito à afetividade centram-se em dois pólos distintos e complementares:
de um lado o ethos, o caráter que o orador assume e demonstra para
chamar a atenção e angariar a confiança do auditório; de outro, o pathos, as
tendências, os desejos, as emoções do auditório das quais o orador procura
tirar partido.
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Jorge da Cunha Lima procura dar essa visão ao jovem jornalista quando,
ao referir-se a Júlio Mesquita Filho, diz:
Tomava partido o tempo todo, falava e escrevia em nome dos seus
princípios, desconhecia a neutralidade. Tinha enorme afeto pelas
pessoas, inclusive adversários ideológicos, que abrigava com
generosidade em seu jornal. Era amado e odiado, mas morreu
respeitado como grande jornalista.
O experiente jornalista procura mostrar ao jovem repórter a existência de
um conceito outro de competência humana, que pode aliar, num todo
orquestrado, razão e emoção, e que é necessário fazer da disponibilidade de
aprender, apreender e sentir o centro da atuação profissional.
Evidentemente, tais habilidades não são mágicas, mas, sim, processuais.
Nesse sentido, a escola muito poderia contribuir. Se tivéssemos alternativas
mais sólidas para ensinar a ler e para permitir que o educando construísse o
seu percurso de leitura, encontraríamos meios de evidenciar que mais do
que trilhar rotineiramente e com absoluta segurança caminhos certos do
texto, é possível ler discursos para recriar efeitos de sentido, ler para
descobrir como o discurso do outro, constituido de diversos planos,
reproduz a variedade do mundo e sobretudo a polarização do pathos e do
logos.
O ato de ler, então, assume outras proporções, pois, no plano
fenomenológico, encaminharia o indivíduo para o pensar como ato de
descoberta permanente. Não há, pois, “modelos”, mas produção interacional
de percepção e conhecimento. Ler, nesse sentido, seria um processo de
aprender e diz respeito a habilidades ligadas ao ato de sentir, interrogar,
raciocinar para entender. Em outro plano, o pedagógico, ler envolveria a
capacidade de desenvolver no educando a habilidade de intervir na realidade
de modo crítico e criativo, uma face que leva em conta a formação do
cidadão e que, com base na capacidade de análise e compreensão para além
do plano formal, pode moldar o sujeito histórico e o habilitar a criar e viver
GEORGES BRAQUE, Natureza Morta, 1918. Instituto de Arte de Chicago.
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consciente e produtivamente, ao mesmo tempo, sua história própria
e a coletiva. Outras habilidades como a da livre emoção (que permite
o envolvimento subjetivo) e a de transferir para demonstrar
concretamente o saber pensar são requeridas nesse processo. Assim,
no percurso desse descobrir permanente o educando estaria sendo
encaminhado para uma aprendizagem realmente efetiva, para um
aprender que não conseguiria descansar sobre esquemas feitos, pré-
moldados, pré-determinados, como há tanto tempo costuma
acontecer na escola. Ler, nessa perspectiva, implicaria o
desaparecimento da visão “treineira” da leitura que teima em habitar
nossas escolas. Expressões como “criar hábito de leitura” , “incentivar
a prática de leitura” podem esconder uma concepção de leitura ligada
ao fazer repetitivo, ligada ao desejo de treinar sempre e com tal
intensidade que a resposta seja invariavelmente um bem repetir que,
convenhamos, é uma técnica nem sempre educativa. O ato de ler,
assim, seria um fenômeno que permitiria constantemente a
recriação, que poderia ser ampliado constantemente pelo desejo de
julgar com parcimônia e conhecimento de causa, pois o julgar é
produto de avaliação e apreciação dos aspectos constitutivos e
persuasivos do texto e do discurso que o sustenta. Ler, nesse sentido,
seria demonstração cabal de que toda a leitura tem um propósito:
lemos para deleite de nosso espírito, lemos para fazer resenhas na
universidade, lemos para resumir e lemos, sobretudo, para entender
o outro, seus desejos, suas habilidades discursivas, suas técnicas
persuasivas.
Referências bibliográficas
BLOOME, D., EGAN-ROBERTSON, A. The social construction of intertextuality in classroom: reading
and writing lessons. Read. Res. Quart., v.28, n.4, p.48-55, 1993.
MAINGUENEAU, D. Pragmática para o discurso literário, São Paulo: Martins Fontes, 1996.
PERELMAN, C., OLDEBRECTHS-TYTECA, L. Tratado da argumentação - a nova retórica. São
Paulo: Martins Fontes, 1996.
REBOUL, A., MOESCHLER. Pragmatique du discours: de l´interpretation de l´ énoncé à l’
ínterpretation du discours. Paris: Armand Colin, 1998.
REBOUL, O. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
RODRIGUES, A. D. Comunicação e cultura: a experiência cultural na era da informação. Lisboa:
Presença, 1993.
PALAVRAS-CHAVE: jornalismo; leitura; comunicação persuasiva.
KEY WORDS: journalism; reading; persuasive communication.
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