Raps
Raps
JOINVILLE – SC
2020
SECRETÁRIO DA SAÚDE
Jean Rodrigues da Silva
ELABORAÇÃO
Luci Leia Honorato de Carvalho – Psicóloga, Apoio Técnico da Saúde do Adulto (Coordenação da Saúde da
Família)
Marlon Willfried Fritze Soares – Psiquiatra, Gerência de Gestão Estratégica e Articulação da Rede em Saúde
COLABORAÇÃO
Ana Lúcia Alves Urbanski – Terapeuta Ocupacional, Gerente da Unidade de Saúde do Servidor
Ângela Andréa de França – Terapeuta Ocupacional, Coordenadora UBSF Bakita
Camila Silva – Enfermeira, Hospital São José
Carin Albino Lucolli Tonchuk – Psiquiatra, CAPS AD
Douglas Calheiros Machado – Enfermeiro, Diretor de Gestão Hospitalar do Hospital São José
Flávia Favaretto – Agente Administrativo, Núcleo de Apoio à Rede de Atenção à Saúde
Kátia Pessin – Assistente Social, Coordenadora CAPS Infantojuvenil
Guilherme Carvalho dos Reis Lima – Médico, Gestão do Trabalho e Educação em Saúde
Juliana Prebianca – Psicóloga, Núcleo de Apoio à Rede de Atenção à Saúde
Louise Domeneghini Chiaradia Delatorre – Farmacêutica, Gerente da Gerência de Assistência Farmacêutica e
Laboratório Municipal
Maria Simone Pam – Médica, Reguladora da Atenção Primária à Saúde
Nasser Haidar Barbosa – Psicólogo, CAPS Infantojuvenil
Patricia Cristiane Wielewski - Agente Administrativo, Núcleo de Apoio à Rede de Atenção à Saúde
Patricia Luzia Johann Teochi – Pedagoga, CREAS 2
Rosemeri Aparecida Maciel – Enfermeira, Gestão do Trabalho e Educação em Saúde
Roselaine Elisa Radtke – Psicóloga, Coordenação Núcleo de Apoio à Rede de Atenção à Saúde
Shirlei Vicente – Terapeuta Ocupacional, Hospital São José
Sibele da Costa Pereira – Psicóloga, Núcleo de Prevenção de Violências e Acidentes
Vivianne Samara Conzatti – Psicóloga, Núcleo de Apoio à Rede de Atenção à Saúde
2
LISTA DE FIGURAS
3
LISTA DE QUADROS
Quadro 26 – Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol, Revised (CIWA-Ar) ........................ 202
Quadro 28 – Cut down / Annoyed / Guilty / Eye-opener Questionnaire (CAGE) .................................... 210
Quadro 29 – Níveis plasmáticos de álcool (mg%), sintomatologia relacionada e condutas ................... 211
Quadro 30 – Teste de Fagerström para dependência da nicotina ......................................................... 217
Quadro 31 – Cocaína: formas ilícitas de apresentação ......................................................................... 219
Quadro 32 – Principais características da alteração da personalidade na dependência química .......... 221
4
Quadro 33 – Sinais e sintomas decorrentes do consumo da maconha ................................................. 230
Quadro 34 – Déficits motores e cognitivos observados durante a intoxicação aguda de maconha ....... 231
Quadro 35 – Classificação dos benzodiazepínicos (não disponíveis na REMUME Joinville e são
prescritos conforme critério médico, descritos aqui para informação educacional) ................................ 238
Quadro 36 – Diagnóstico diferencial do transtorno afetivo bipolar ......................................................... 250
Quadro 37 – Lista de Exames ............................................................................................................... 253
Quadro 38 – Psicofármacos no tratamento de transtorno afetivo com episódios de mania ................... 253
5
AA: Alcóolicos Anônimos
AAIDD: Associação Americana de Deficiência Intelectual e Desenvolvimento
AAS: Ácido Acetilsalicílico
ABP: Associação Brasileira de Psiquiatria
ACS: Agente Comunitário de Saúde
ACTH: Hormônio Adrenocorticotrófico
ADT: Antidepressivo Tricíclico
ADTC: Antidepressivos Tricíclicos
AIDS: Acquired Immuno Deficiency Syndrome (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida)
AIH: Autorização de Internação Hospitalar
AINH: Anti-Inflamatórios não Hormonais
AIVD: Atividades Instrumentais de Vida Diária
AN: Anorexia Nervosa
AP: Antipsicótico
AP: Atenção Primária
APA: American Psychiatric Association (Associação Americana de Psiquiatria)
≅: Aproximadamente Igual
APS: Atenção Primária à Saúde
AVC: Acidente Vascular Cerebral
AVD: Atividades de Vida Diária
BCC: Bloqueadores de Canal de Cálcio
bpm: Batimentos por minutos
BN: Bulimia Nervosa
BZD: Benzodiazepínicos
CAGE: Cut down / Annoyed / Guilty / Eye-opener Questionnaire
CALOCUS: Child and Adolescente Levels of Care Utilization System
CAM: Confusion Assessment Method
CAMCOG: Cambridge Cognitive Examination
CAP: Compulsão Alimentar Periódica
CAPS: Centro de Atenção Psicossocial
CAPS AD: Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas
CAPS IJ: Centro de Atenção Psicossocial infantojuvenil
CAS: Stent da Artéria Carótida
CBAF: Componente Básico da Assistência Farmacêutica
CBCL: Child Behavior Checklist
CDT: Transferrina Carboidrato-Deficiente
CEA: Carotid Endarterectomy (Endarterectomia de Carótida)
CEAF: Componente Especializado da Assistência Farmacêutica
CENTRO POP: Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua
6
CER: Centros Especializados de Reabilitação
CEREST: Centro de Referência em Saúde do Trabalhador
CFM: Conselho Federal de Medicina
CID: Classificação Internacional de Doenças
5-HT3: 5-hidroxitriptamina, enteramina ou serotonina
CHAT: Checklist for Autism in Toddlers
CIF: Classificação Internacional de Funcionalidade
CIWA-Ar: Clinical Institute Withdrawal Assesment for Alcohol (Classificação da Gravidade da
Síndrome da Abstinência do Alcoólica)
cm: Centímetro
CNS: Cartão Nacional de Saúde
COAP: Contrato Organizativo da Ação Pública da Saúde
CPAP: Contiunous Positive Airway Pressure
CRAS: Centro de Referência em Assistência Social
CREAS: Centro de Referência em Assistência Social, Proteção Social Especial
CYP2B6: Enzima Hepática
CYP2C19: Enzima Hepática
CYP2C9: Enzima Hepática
CYP2D6: Enzima Hepática
CYP3A4: Enzima Hepática
DAE: Drogas Antiepilépticas
DCL: Demência dos Corpúsculos de Lewy
DE: Despersonalização
DEL: Distúrbios Específicos de Linguagem
DFT: Demência Fronto Temporal
DI: Deficiência Intelectual
DIAF: Diretoria de Assistência Farmacêutica do Estado
DM: Diabetes Mellitus
DNA: Ácido Desoxirribonucléico
DP: Doença de Parkinson
DPOC: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica
DSM-IV: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – quatro
DSM-V: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – cinco
DT: Delirium Tremens
eAPP: Equipe de Atenção Primária Prisional
ECA: Enzima Conversora de Angiotensina
ECA: Estatuto da Criança e do Adolescente
ECG: Eletrocardiograma
eCR: Equipe de Consultório na Rua
ECT: Eletroconvulsoterapia
7
EDM: Episódio Depressivo Maior
EE: Exaustão emocional
EEG: Eletroencefalografia
EIP: Esquizofrenia de Início Precoce
ELISA: Enzyme-Linked Immunosorbent Assay
EPDS: Edimburg Postpartum Depression Scale (Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo)
ESCALA SS: Symptom Severity (Escala de Gravidade de Sintomas)
eSF: equipe de Saúde da Família
ESF: Estratégia Saúde da Família
EUA: Estados Unidos da América
EV: Via Endovenosa
FAE: Farmácia Escola
FAN: Fator Antinuclear
FC: Frequência Cardíaca
FDA: Food and Drug Administration
g: Grama
GABA: Ácido gama-aminobutírico
GAMA GT: Gama Glutamil Transferase
GATs: Pesquisa Especial de Tabagismo
GDS: Geriatric Depression Scale (Escala de Depressão Geriátrica)
GECOR/SUR: Gerência dos Complexos Reguladores / Superintendência de Serviços
Especializados e Regulação
GGT: Enzima Gama Glutamil Transferase
GM/MS: Gabinete do Ministro / Ministério da Saúde
H: Horas
H2: Hidrogênio
HAS: Hipertensão Arterial Sistêmica
Hb Glicada: Hemoglobina Glicada
HbsAg: Substância Presente na Superfície do Vírus da Hepatite B
HCV: Vírus da Hepatite C
HD: Hospital-dia
HGT: Hemoglicoteste
HIV: Vírus da Imunodeficiência Humana
HJAF: Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria
HSJ: Hospital São José
HSHs: Homens que Fazem Sexo com Homens
HRHDS: Hospital Regional Hans Dieter Schmidt
IAM: Infarto Agudo do Miocárdio
IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
ICC: Insuficiência Cardíaca Congestiva
8
IG: Idade Gestacional
IgE: Imunoglobulina E
ILPI: Instituição de Longa Permanência para Idoso
IM: Intramuscular
IMAO: Inibidores da Monoamino-oxidase
IMC: Índice de Massa Corpórea
INPAD: Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Políticas Públicas do Álcool e Outras
Drogas
IQCODE: Informant Questionnaire on Cognitive Decline in the Elderly
IRSS: International Review for the Sociology of Sport
IRSN: Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina e Noradrenalina
ISRS: Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina
IST: Infecções Sexualmente Transmissíveis
ITU: Infecção do Trato Urinário
IV: Intravenosa
KCl: Cloreto de potássio
kg: Quilograma
kg/m²: Quilograma por metro quadrado
LA: Liberdade Assistida
LC: Linha de Cuidado
LENAD: Levantamento Nacional de Álcool e Drogas
LES: Lúpus Eritematoso Sistêmico
LGBT: Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros
LME: Laudo de Solicitação, Avaliação e Autorização de Medicamento(s)
LSD: Lysergic acid diethylamide (Dietilamida Ácido Lisérgico)
MAO: Inibidores da Monoaminoxidase
mcg: Micrograma
M-CHAT: Modified Checklist for Autism in Toddlers
MEEM: Mini Exame do Estado Mental
mEq: Miliequivalente
mEq/l: Miliequivalente por litro
min: Minutos
mg: Miligrama
mg %: Miligrama por porcentagem
mg/dia: Miligrama por dia
mg/dL: Miligramas por decilitro
mg/dose: Miligrama por dose
mg/kg: Miligrama por quilograma
mg/kg/dia: Miligrama por quilograma por dia
mg/kg/dose: Miligrama por quilograma por dose
9
mg/mL: Miligrama por mililitro
mL: Mililitro
MMSE: Mini–Mental State Examination
MS: Ministério da Saúde
MS/GM: Ministério da Saúde / Gabinete do Ministro
MS/SAS: Ministério da Saúde / Secretaria de Atenção à Saúde
MSMs: Mulheres que Fazem Sexo com Mulheres
NA: Anorexia Nervos
NaCl: Cloreto de sódio
NAIPE DI/TEA: Núcleo de Atenção Integral à Pessoa com Deficiência Intelectual e do Transtorno
do Espectro do Autismo
NARAS: Núcleo de Apoio às Redes de Atenção à Saúde
NASF: Núcleo de Saúde da Família
ng/mL: Nanogramas por Mililitro
NIDA: National Instituteon Drug Abuse
nmol/L: Nanomol por Litro
NMN: N-metil-nicotinamida
NPVA: Núcleo de Prevenção à Violência e Acidentes
nº: Número
OHD3: Vitamina D
OMS: Organização Mundial de Saúde
ONG: Organização não Governamental
OPM: Órteses, Próteses e Meios Auxiliares de Locomoção
PA: Pressão Arterial
PA 24 horas: Pronto Atendimento 24 horas
PAIF: Programa de Atenção Integral às Famílias
PAV: Programa de Prevenção e Atendimento às Vítimas de Violência
PCDI: Serviço de Proteção Social para Pessoas com Deficiência, Idosos(as) e suas Famílias
PCDT: Protocolo Clínico e Diretrize Terapêutica
pCO2: Pressão Parcial de Dióxido de Carbono
PDSS: Postpartum Depression Screening Scale
PECS: Picture Exchange Communication System
PET Scans: Positron Emission Tomography
p. ex.: por exemplo
PH: Potencial Hidrogeniônico
PKU: Fenilcetonúria
PNAB: Política Nacional da Atenção Básica
PNAISP: Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no
Sistema Prisional
Pós-IM: Pós Infarto do Miocárdio
10
PO2: Pressão Parcial de Oxigênio
PSC: Prestação de Serviços a Comunidade
PSG: Polissonografia
PTS: Projeto Terapêutico Singular
§: Parágrafo
%: Por cento
QDC: Questionário do Desenvolvimento da Comunicação
QI: Quociente Intelectual
RAPS: Rede de Atenção Psicossocial
RAS: Rede de Atenção à Saúde
RD: Redução de Danos
REMUME: Relação Municipal de Medicamentos da Atenção Básica
RM: Ressonância Magnética
RP: Baixa Realização Profissional
SAA: Síndrome de Abstinência do Álcool
SAMU: Serviço de Atendimento Móvel de Urgência
SAOS: Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono
SAPS: Serviço Ambulatorial de Psiquiatria
SAS: Secretaria de Assistência Social
SC: Santa Catarina
SEI: Sistema Eletrônico de Informação
SENAD: Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas
SNAP-IV: Questionário Usado no Diagnóstico Coadjuvante do TDAH
SEAS: Serviço Especializado em Abordagem Social
SEP: Sintomas Extrapiramidais
SER: Serviço Especializado em Reabilitação
SES/Joinville: Secretaria da Saúde / Joinville
SES/SC: Secretaria da Saúde / Santa Catarina
SIDA: Síndrome da Imunodeficiência Adquirida
SIG: Sistema Integrado de Gestão
SINAN: Sistema de Informação de Agravos de Notificação
SISREG: Sistema de Regulação
SNA: Sistema Nervoso Autônomo
SNC: Sistema Nervoso Central
SOE: Sem Outra Especificação
SOIS: Serviço Organizado de Inclusão Social
Sono NREM: Movimento não Rápido dos Olhos
Sono REM: Movimento Rápido dos Olhos
SOF: Segunda Opinião Formativa
SPA: Substância Psicoativa
11
SPI: Síndrome das Pernas Inquietas
SRT: Serviço Residencial Terapêutico
SUAS: Sistema Único de Assistência Social
SUS: Sistema Único de Saúde
SUS/SIGTAP: Sistema Único de Saúde / Sistema de Gerenciamento da Tabela de Procedimentos
TA: Transtorno Alimentar
TAB: Transtorno Afetivo Bipolar
TAP: Tempo e Atividade da Protrombina
T-A-DA: Tolerate, Antecipate, Don’tAgitated
TAG: Transtorno de Ansiedade Generalizada
TB: Transtorno de Humor Bipolar
TBI precoce: Transtorno Bipolar de Início Precoce
TBI tardio: Transtorno Bipolar de Início Tardio
TC: Tomografia Computadorizada
TCAP: Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica
TCC: Tomografia Computadorizada de Crânio
TCE: Traumatismo Crânio-encefálico
TDAH: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
TEA: Transtorno do Espectro do Autismo
TEPT: Transtorno de Estresse Pós-traumático
TFD: Tratamento Fora de Domicílio
TGO: Transaminase Glutâmico-Oxalacética
TGP: Transaminase Glutâmico-Pirúvica
THC: Tetra-hidrocanabinol
TID: Transtorno Invasivo do Desenvolvimento
TMC: Transtornos Mentais Comuns
TMO: Transtornos Mentais Orgânicos
TOC: Transtorno Obsessivo-compulsivo
TP: Transtorno do Pânico
TP: Transtorno de Personalidade
T4: Hormônio Tiroxina
TR: Teste Rápido
TSH: Hormônio Estimulante da Tireóide
TTP ATIVADA: Tempo De Tromboplastina Parcial Ativada
U: Unidade
UAA: Unidade de Acolhimento Adulto
UBS: Unidades Básicas de Saúde
UBSF: Unidade Básica de Saúde da Família
UI: Unidade Internacional
UNIFESP: Universidade Federal de São Paulo
12
UPA: Unidade de Pronto Atendimento
UPA 24 horas: Unidade de Pronto Atendimento 24 horas
UTI: Unidade de Tratamento Intensivo
UVB: Radiação Ultravioleta
25-OHD3: 25-Hidroxicolecalciferol
VCM: Volume Corpuscular Médio
VDRL: Venereal Disease Research Laboratory
VE: Vigilância Epidemiológica
VHC: Vírus da Hepatite C
VIH: Vírus da Imunodeficiência Humana
VO: Via Oral
WPI: Widespread Pain Index (Índice de Dor Generalizada)
μg: Micrograma
>: Maior que
≥: Maior ou Igual
< : Menor que
SUMÀRIO
1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................................. 22
2 O QUE É LINHA DE CUIDADO (LC) .......................................................................................... 23
3 O QUE É A REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) ...................................................... 24
4 REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NO MUNICÍPIO ............................................................ 26
4.1 Atenção Primária à Saúde ...................................................................................................... 26
4.1.1 Estratégia da Saúde da Família (ESF) .................................................................................. 26
4.1.2 Núcleos Ampliados de Saúde da Família (NASF) .................................................................. 27
13
4.1.3 Equipe de Consultório na Rua (eCR) ..................................................................................... 28
4.1.4 Equipe de Atenção Primária Prisional (eAPP) ................................................................. 29
4.1.5 Telessaúde ............................................................................................................................. 29
4.1.6 Matriciamento ou Apoio Matricial ............................................................................................ 30
4.1.7 Projeto Terapêutico Singular (PTS) ....................................................................................... 31
[Link] Elaboração do Projeto Terapêutico Singular no Apoio Matricial de Saúde Mental ............. 32
4.1.8 O Papel da Atenção Primária à Saúde na RAPS ................................................................... 33
4.2 Atenção Secundária e Terciária ............................................................................................. 33
4.2.1 Ponto de Atenção Secundária ................................................................................................ 33
[Link] Serviço Ambulatorial de Psiquiatria (SAPS) ........................................................................ 34
[Link] Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ............................................................................. 34
[Link] Centro de Atenção Psicossocial II (CAPS II) ....................................................................... 35
[Link] Centro de Atenção Psicossocial III (CAPS III) ..................................................................... 35
[Link] Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CAPS AD) ................................. 35
[Link] Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPS IJ) ................................................... 36
[Link] Serviços Organizados de Inclusão Social (SOIS) ............................................................... 36
[Link] Núcleo de Prevenção à Violência e Acidentes (NPVA) ....................................................... 37
[Link] Núcleo de Atenção Integral à Pessoa com Deficiência Intelectual e do Transtorno do
Espectro do Autismo (NAIPE DI/TEA) .............................................................................................. 37
[Link] Serviço Especializado em Reabilitação (SER) .................................................................. 38
[Link] Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) ............................................ 39
[Link] Serviço Residencial Terapêutico (SRT) ............................................................................. 39
[Link] Unidade de Acolhimento Adulto (UAA) .............................................................................. 41
4.2.2 Ponto de Atenção Terciária .................................................................................................... 41
[Link] Ponto de Atenção na Urgência e Emergência e Serviço de Atendimento Móvel de Urgência
192 (SAMU) ..................................................................................................................................... 41
4.2.3 Ponto de Atenção Hospitalar .................................................................................................. 43
[Link] Serviço de Emergência Psiquiátrica em Hospital Geral ...................................................... 43
4.3 Sistema Logístico .................................................................................................................... 44
4.3.1 Regulação ............................................................................................................................... 44
[Link] Encaminhamento via Sistema Integrado de Gestão (SIG) – Consulta em Psiquiatria –
Adulto e Consulta em Psiquiatria – Pediatria .................................................................................. 44
4.4 Sistemas de Apoio ................................................................................................................... 44
4.4.1 Sistemas de Apoio Diagnóstico e Terapêutica ....................................................................... 44
[Link] Laboratório Municipal .......................................................................................................... 44
[Link] Assistência Farmacêutica .................................................................................................... 45
[Link].1 Acesso aos Medicamentos .............................................................................................. 45
5 CRITÉRIOS DE ENCAMINHAMENTOS PARA RAPS ................................................................ 48
5.1 Conduta .................................................................................................................................... 48
5.2 Fatores de Risco ...................................................................................................................... 48
5.3 Serviço Ambulatorial de Psiquiatria (SAPS) ......................................................................... 49
5.4 Centros de Atenção Picossocial – CAPS .............................................................................. 49
5.5 Situações de Urgência e Emergência .................................................................................... 50
14
5.5.1 Encaminhamento para Rede Hospitalar (conforme Deliberação 181/CIB/2017) ..................... 50
5.5.2 Encaminhamento para UPA/PA ............................................................................................. 51
5.5.3 Orientações Gerais ................................................................................................................. 51
6 FLUXOGRAMA DA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS) ........................................ 52
7 ARTICULAÇÃO COM A SECRETARIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (SAS)................................ 53
7.1 Proteção Social Básica ........................................................................................................... 53
7.1.1 Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) e Programa de Atenção Integral às
Famílias (PAIF) ................................................................................................................................ 53
7.2 Proteção Social Especial de Média Complexidade .............................................................. 53
7.2.1 Centro de Referência em Assistência Social, Proteção Social Especial (CREAS) ................ 54
7.2.2 Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP) .... 55
8 AVALIAÇÃO CLÍNICA E PSIQUIÁTRICA ................................................................................... 56
8.1 Avaliação Geral ........................................................................................................................ 56
8.2 Avaliação das Funções Psíquicas ......................................................................................... 56
8.3 Avaliação Infantil e Adolescente ............................................................................................ 57
8.4 Avaliação na Gestação e no Puerpério ................................................................................. 58
8.5 Avaliação do Idoso .................................................................................................................. 59
8.6 Instrumentos de Avaliação e Encaminhamento ................................................................... 63
8.6.1 Cartão Babel ........................................................................................................................... 63
9 TRANSTORNO MENTAL ORGÂNICO E COMORBIDADES CLINICAS ................................... 65
9.1 Avaliação e Diagnóstico ......................................................................................................... 66
9.1.1 Exames Laboratoriais e Complementares .............................................................................. 66
9.1.2 Exames Laboratoriais e Complementares úteis para o Diagnóstico de Transtornos Mentais
Orgânicos ........................................................................................................................................ 67
9.2 Endocrinologia ......................................................................................................................... 68
9.2.1 Diabetes .................................................................................................................................. 68
9.2.2 Doenças da Tiróide ................................................................................................................. 69
9.3 Cardiologia ............................................................................................................................... 71
9.4 Pneumologia ............................................................................................................................ 73
9.4.1 Asma Brônquica ..................................................................................................................... 73
9.4.2 Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) ...................................................................... 73
9.5 Reumatologia ........................................................................................................................... 74
9.5.1 Artrite Reumatóide .................................................................................................................. 74
9.5.2 Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) ....................................................................................... 74
9.5.3 Fibromialgia ............................................................................................................................ 75
[Link] Avaliação e Diagnóstico ...................................................................................................... 76
[Link] Diagnóstico Diferencial ........................................................................................................ 77
[Link] Tratamento .......................................................................................................................... 78
9.6 Infectologia .............................................................................................................................. 78
9.6.1 Sífilis ...................................................................................................................................... 78
9.6.2 Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) .............................................................................. 79
9.6.3 Hepatite .................................................................................................................................. 80
9.7 Neurologia ................................................................................................................................ 82
15
9.7.1 Traumatismos ......................................................................................................................... 83
9.7.2 Declínio Cognitivo e Demência ............................................................................................... 83
[Link] Avaliação e Diagnóstico ...................................................................................................... 84
[Link] Tratamento .......................................................................................................................... 87
[Link] Encaminhamento ................................................................................................................. 89
9.7.3 Acidente Vascular Cerebral (AVC) ......................................................................................... 90
9.7.4 Epilepsia ................................................................................................................................. 90
[Link] Tratamento Medicamentoso ................................................................................................ 91
9.8 Doença de Parkinson (DP) ...................................................................................................... 93
9.9 Dermatologia ............................................................................................................................ 94
9.9.1 Psoríase .................................................................................................................................. 94
9.9.2 Dermatite Atópica ................................................................................................................... 94
9.10 Gastroentorologia .................................................................................................................. 95
9.10.1 Síndrome do Intestino Irritável .............................................................................................. 95
9.10.2 Dispepsia Funcional ............................................................................................................. 96
9.11 Distúrbios Nutricionais ......................................................................................................... 97
9.11.1 Deficiência de Niacina – Vitamina B3 ................................................................................... 97
9.11.2 Deficiência de Tiamina – Vitamina B1 .................................................................................. 98
9.11.3 Deficiência de Cobalamina – Vitamina B12 .......................................................................... 99
9.11.4 Deficiência de Ácido Fólico – Vitamina B9 ........................................................................... 100
9.11.5 Deficiência de Vitamina D ..................................................................................................... 102
10 TRANSTORNOS MENTAIS COMUNS ...................................................................................... 104
10.1 Depressâo .............................................................................................................................. 104
10.1.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 104
10.1.2 Infância e Adolescência ........................................................................................................ 105
10.1.3 Gestação e Puerpério ........................................................................................................... 106
10.1.4 Idoso ..................................................................................................................................... 106
10.1.5 Diagnósticos Diferenciais ..................................................................................................... 107
10.1.6 Tratamento ........................................................................................................................... 108
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 108
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 108
10.2 Ansiedade ............................................................................................................................... 111
16
10.3.3 Tratamento ........................................................................................................................... 121
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 121
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 124
10.4 Insônia .................................................................................................................................... 124
10.4.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 125
[Link] Polissonografia .................................................................................................................. 127
[Link] Insônia da Apneia do Sono ................................................................................................ 128
[Link] Hipersonia Primária e Narcolepsia .................................................................................... 128
[Link] Parassonias ....................................................................................................................... 129
10.4.2 Infância e Adolescência ........................................................................................................ 129
10.4.3 Gestação e Puerpério ........................................................................................................... 131
10.4.4 Idoso ..................................................................................................................................... 131
10.4.5 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 132
10.4.6 Tratamento ........................................................................................................................... 132
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 132
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 136
11 EMERGÊNCIAS PSIQUIATRICAS ............................................................................................ 140
11.1 Suicídio ................................................................................................................................... 140
11.1.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 142
11.1.2 Fatores de Risco e de Proteção ........................................................................................... 143
11.1.3 Infância e Adolescência ........................................................................................................ 146
11.1.4 Gestação e Puerpério ........................................................................................................... 146
11.1.5 Idoso ..................................................................................................................................... 147
11.1.6 Tratamento e Encaminhamento ........................................................................................... 148
11.1.7 Avaliação do Risco ............................................................................................................... 149
11.1.8 Posvenção do Suicídio ......................................................................................................... 151
11.1.9 Prevenção ............................................................................................................................. 152
11.2 Delirium .................................................................................................................................. 152
11.2.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 153
11.2.2 Diagnósticos Diferenciais ..................................................................................................... 155
11.2.3 Tratamento ........................................................................................................................... 157
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 157
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 158
11.2.4 Prevenção ............................................................................................................................. 159
11.3 Agressividade e Agitação Psicomotora .............................................................................. 160
11.3.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 161
11.3.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 162
11.3.3 Infância e Adolescência ........................................................................................................ 163
11.3.4 Gestação e Puerpério ........................................................................................................... 164
11.3.5 Idoso ..................................................................................................................................... 165
11.3.6 Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ................................................................ 165
11.3.7 Tratamento Medicamentoso ................................................................................................. 168
11.4 Manejo de Situações de Estresse Agudo ........................................................................... 177
17
11.4.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 178
11.4.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 181
11.4.3 Infância e Adolescência ........................................................................................................ 181
11.4.4 Gestação e Puerpério ........................................................................................................... 182
11.4.5 Idoso ..................................................................................................................................... 182
11.4.6 Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ................................................................ 182
11.4.7 Tratamento Medicamentoso ................................................................................................. 184
12 ABUSO OU DEPENDÊNCIA QUIMICA ..................................................................................... 187
12.1 Introdução .............................................................................................................................. 187
12.1.1 Intoxicação Aguda ................................................................................................................ 188
12.1.2 Uso Nocivo para a Saúde ..................................................................................................... 188
12.1.3 Síndrome de Dependência ................................................................................................... 188
12.1.4 Síndrome de Abstinência (ou estado de abstinência) .......................................................... 189
12.1.5 Delirium Tremens ................................................................................................................. 189
12.1.6 Transtorno Psicótico ............................................................................................................. 189
12.1.7 Síndrome Amnésica (ou amnéstica, ou confabulatória) ....................................................... 189
12.1.8 Transtorno Psicótico Residual ou de Instalação Tardia ....................................................... 190
12.1.9 Avaliação .............................................................................................................................. 190
[Link] Questões Essenciais para a Investigação do Consumo de Drogas Psicoativas ............... 191
[Link] Sinalizadores de Problemas Decorrentes do Uso de Álcool, Crack e outras Drogas ....... 191
[Link] Sinais Físicos Sugestivos do Uso de Álcool, Crack e outras Drogas ................................ 191
[Link] Critérios de Gravidade ....................................................................................................... 191
[Link] Recomendações Gerais às Equipes de Saúde ................................................................. 192
[Link] Redução de Danos ............................................................................................................ 194
[Link] Infância e Adolescência ..................................................................................................... 196
[Link] Gestação e Puerpério ........................................................................................................ 199
12.2 Síndrome de Abstinência ...................................................................................................... 200
12.2.1 Síndrome de Abstinência do Álcool – Nível I ........................................................................ 203
12.2.2 Síndrome de Abstinência do Álcool – Nível II ....................................................................... 204
12.2.3 Encaminhamento .................................................................................................................. 207
12.3 Álcool ...................................................................................................................................... 208
12.3.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 209
12.3.2 Triagem ou Rastreamento .................................................................................................... 209
12.3.3 Tratamento Medicamentoso ................................................................................................. 211
[Link] Dependência de Álcool ...................................................................................................... 212
[Link] Naltrexona (não se encontra na REMUME e são prescritos conforme critério médico) .. 212
[Link] Topiramato ......................................................................................................................... 213
[Link] Ondansetrona (não se encontra na REMUME e são prescritos conforme critério
médico) ............................................................................................................................................ 213
12.3.4 Encaminhamento .................................................................................................................. 213
12.4 Nicotina ................................................................................................................................... 214
12.4.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 215
12.4.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 218
18
12.4.3 Tratamento ........................................................................................................................... 218
12.5 Cocaína .................................................................................................................................. 218
12.5.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 219
[Link] Dependência – Síndrome de Abstinência ......................................................................... 221
[Link] Complicações Clínicas ...................................................................................................... 222
12.5.2 Tratamento ........................................................................................................................... 222
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 222
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 223
[Link] Desintoxicação .................................................................................................................. 224
[Link] Critérios para Internação ................................................................................................... 224
12.6 Maconha ................................................................................................................................. 227
12.6.1 Uso Medicinal ....................................................................................................................... 228
12.6.2 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 228
12.6.3 Tratamento ........................................................................................................................... 232
12.7 Sedativos e Hipnóticos ......................................................................................................... 234
12.7.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 235
12.7.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 237
12.7.3 Tratamento ........................................................................................................................... 238
[Link] Estratégias não Medicamentosas ...................................................................................... 238
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 239
13 SINDROMES PSIQUIATRICAS ................................................................................................. 242
13.1 Transtorno de Humor Bipolar ............................................................................................... 242
13.1.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 242
13.1.2 Infância e Adolescência ........................................................................................................ 247
13.1.3 Gestação e Puerpério ........................................................................................................... 248
13.1.4 Idoso ..................................................................................................................................... 249
13.1.5 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 250
13.1.6 Tratamento ........................................................................................................................... 251
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 251
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 252
[Link] Tratamento Profilático / de Manutenção ............................................................................ 261
13.2 Psicose e Esquizofrenia ........................................................................................................ 262
13.2.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 263
[Link] Sinais e Sintomas .............................................................................................................. 266
13.2.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 267
13.2.3 Tratamento ........................................................................................................................... 270
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 270
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 273
14 TRANSTORNOS MENTAIS NA INFÂNCIA .............................................................................. 277
14.1 Deficiência Intelectual .......................................................................................................... 277
14.1.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 277
14.1.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 282
14.1.3 Tratamento ........................................................................................................................... 285
19
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 285
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 287
14.1.4 Encaminhamento .................................................................................................................. 288
14.2 Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) ........................................................................ 289
14.2.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 289
[Link] Níveis de Gravidade para Transtorno do Espectro do Autismo......................................... 295
14.2.2 Diagnósticos Diferenciais ..................................................................................................... 297
14.2.3 Tratamento ........................................................................................................................... 298
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 298
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 300
14.3 Transtornos de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ............................................ 301
14.3.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 301
14.3.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 305
14.3.3 Tratamento ........................................................................................................................... 306
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas ............................................................. 306
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 309
15 TRANSTORNOS ALIMENTARES ............................................................................................. 311
15.1 Anorexia Nervosa .................................................................................................................. 312
15.1.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 312
15.1.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 317
15.1.3 Tratamento ........................................................................................................................... 320
[Link] Estratégias não Medicamentosas ...................................................................................... 320
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 323
15.2 Bulimia Nervosa ..................................................................................................................... 324
15.2.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 325
15.2.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 330
15.2.3 Tratamento ........................................................................................................................... 331
[Link] Estratégias não Medicamentosas ...................................................................................... 331
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 334
15.3 Compulsão Alimentar Periódica .......................................................................................... 335
15.3.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 335
15.3.2 Diagnóstico Diferencial ......................................................................................................... 337
15.3.3 Tratamento ........................................................................................................................... 338
[Link] Estratégias não Medicamentosas ...................................................................................... 338
[Link] Tratamento Medicamentoso .............................................................................................. 340
15.4 O Papel da Atenção Primária à Saúde nos Transtornos Alimentares .............................. 340
16 ABUSO E VIOLÊNCIA ............................................................................................................... 341
16.1 Conceitos ............................................................................................................................... 342
16.2 Violência Contra Criança e Adolescente ............................................................................. 345
16.2.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 346
16.2.2 Tratamento ........................................................................................................................... 350
16.3 Violência Contra a Mulher .................................................................................................... 354
16.3.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 354
20
16.3.2 Tratamento ........................................................................................................................... 356
16.4 Violência Contra Idosos ....................................................................................................... 357
16.4.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 357
16.4.2 Tratamento ........................................................................................................................... 358
17 SEXUALIDADE, DISFORIA DE GENERO E SAÚDE MENTAL DA POPULAÇÃO DE
LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS (LGBT) ................................. 360
17.1 Conceitos ............................................................................................................................... 361
17.2 Sexualidade e Identidade de Gênero na Infância e na Adolescência ............................... 362
17.3 Vulnerabilidade e Saúde da População de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais .................................................................................................................................... 363
17.3.1 Dificuldade de Acesso à Saúde e de Comunicação com Profissionais de Saúde ............... 363
17.4 Saúde Mental .......................................................................................................................... 364
17.4.1 Ansiedade ............................................................................................................................. 366
17.5 Disforia de Gênero ................................................................................................................. 367
17.5.1 Disforia de Gênero em Crianças (F64.2) .............................................................................. 367
17.5.2 Disforia de Gênero em Adolescentes e Adultos (F64.1) ...................................................... 368
17.6 Tratamento ............................................................................................................................. 369
18 SINDROME DE BURNOUT / ESGOTAMENTO ........................................................................ 371
18.1 Avaliação e Diagnóstico ....................................................................................................... 371
18.2 Prevenção e Tratamento ....................................................................................................... 374
18.3 Questionário Preliminar de Identificação da Síndrome de Burnout ................................. 375
REFERÊNCIAS ............................................................................................................................... 377
ANEXO A – Guia de Matriciamento................................................................................................. 400
ANEXO B – Rede Cegonha: Critérios para encaminhamentos para serviços Ambulatoriais de
Gestação de Alto Risco ................................................................................................................... 401
ANEXO C – CALOCUS Instrument ................................................................................................. 402
1 INTRODUÇÃO
21
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010 a população
brasileira era de 190.732.694 de habitantes (IBGE, 2010), estimando-se em cerca de 21% da
população brasileira (40 milhões de pessoas), o total de pessoas que necessita ou vai necessitar
de atenção e atendimento em algum tipo de serviço de Saúde Mental (ANS 2008, apud ABP 2006).
Estima-se que, em um ano, cerca de um milhão e meio de habitantes de Santa Catarina
venha a se queixar, em algum momento, temporariamente, de sintomas relacionados a alguma
categoria de transtornos psiquiátricos. Boa parte deles levará estas queixas às equipes de saúde
da família, na Atenção Primária à Saúde ou Pronto Atendimento.
Tais queixas, geralmente, não representam doenças, mas apenas sintomas avulsos
passageiros, que se resolvem espontaneamente, por atitudes e práticas individuais, ou por
mecanismos sociais (como os religiosos, rede de apoios comunitários, entidades de auto-ajuda,
Alcoólicos Anônimos, etc.).
Contudo, cerca de um décimo da população levará tais queixas aos serviços de saúde,
demandando deles alguma conduta. Eventualmente eles representam sinais e sintomas de
transtornos mentais e comportamentais importantes. Uma fração menor da população (cerca de
1%) demandará assistência especializada.
Diante do desafio constante de consolidar as ações descritas nas portarias e nas práticas
em saúde baseadas em evidências, no acompanhamento de sua evolução, onde o usuário não é
mais estigmatizado, nem assistido em instituições manicomiais, se faz necessária a criação desta
linha de cuidado. Este conteúdo não tem como objetivo criar um tratado e nem tão pouco algo rígido,
mas sim um guia aos diferentes serviços para uma melhor integração e assistência ao usuário.
22
A Linha de Cuidado funciona também com base nos Projetos Terapêuticos Singulares, ou
seja, o Projeto Terapêutico aciona, ou, dispara a Linha de Cuidado. Ela representa um continuum
assistencial composto por ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação. As Linhas de
Cuidados são estratégias de estabelecimento de “percursos assistenciais”. É o itinerário que o
usuário faz por dentro de uma rede organizada de saúde (SES/PR).
A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) é um conceito em Saúde Mental que tem como
objetivo ser um mapeamento interativo, integrado, articulado e efetivo, entre os diversos pontos de
atenção, para atender as pessoas com demandas decorrentes de sofrimento mental e demandas
decorrentes do consumo de álcool e outras substâncias psicoativas. Deve considerar as
especificidades regionais, dando ênfase a serviços de base comunitária, capazes de se adequar às
necessidades dos usuários. Deve atuar na perspectiva territorial, conhecendo suas dimensões,
gerando e transformando lugares e relações.
A Lei Federal nº 10.216, de 06 de abril de 2001, propõe um modelo de atenção à saúde
mental aberto e de base comunitária, oferecendo cuidados com base nos recursos que a
comunidade oferece, focando a inserção social do cidadão.
23
A Rede de Atenção Psicossocial, é instituída com a Portaria nº 3.088, de 23 de dezembro
de 2011, com republicação em 21 de maio de 2013. Ela dispõe sobre a criação, ampliação e
articulação de pontos de atenção à saúde para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com
necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do Sistema Único de
Saúde.
Diretrizes da RAPS:
Respeito aos direitos humanos, garantindo a autonomia, a liberdade e o exercício da
cidadania;
Promoção da equidade, reconhecendo os determinantes sociais da saúde;
Garantia do acesso e da qualidade dos serviços, ofertando cuidado integral e assistência
multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar;
Ênfase em serviços de base territorial e comunitária, diversificando as estratégias de
cuidado, com participação e controle social dos usuários e de seus familiares.
Para maiores informações, conferir o link:
[Link]
raps.
24
Serviço Residencial Terapêutico – SRT I E SRT II
25
(ESF) encontra-se em expansão no município, com aumento significativo no número de equipes
nos últimos anos (SES/Joinville, 2020).
"A Atenção Primária caracteriza-se por um conjunto de ações de saúde, no âmbito
individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção
de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, a redução de danos e a
manutenção da saúde como objetivo de desenvolver uma Atenção Integral que
impacte na situação de saúde e autonomia das pessoas e nos determinantes e
condicionantes de saúde das coletividades” (BRASIL, 2017).
A APS tem uma importância significativa no que se refere aos cuidados em saúde mental,
principalmente por suas características que são: longitudinalidade, primeiro contato, integralidade e
coordenação do cuidado. Mesmo sendo necessário o usuário ser atendido na atenção secundária
ou na terciária, a atenção primária à saúde mantém a responsabilidade sobre o usuário que continua
sendo do seu território de abrangência.
Os usuários que necessitarem de consulta com psiquiatra, deverão ser referenciados para
o atendimento ambulatorial de psiquiatria via Sistema Integrado de Gestão (SIG) - SaudeTech, no
consultório informatizado, em requisições de procedimentos, pelo médico assistente, com descrição
do quadro, Classificação Internacional de Doenças (CID) que justifique o encaminhamento e
resultados de exames prévios (quando houver) relacionados ao quadro clínico, relação de
medicamentos em uso, para otimizar a avaliação e regulação da classificação de critérios de risco
dos encaminhamentos, ou pedir orientação por meio da Teleconsultoria.
Na APS, Joinville conta com profissionais de saúde mental, psicólogos e terapeutas
ocupacionais, integrantes das equipes multidisciplinares, que trabalham conforme o disposto no
Manual do NASF.
26
A definição de território para as equipes de saúde da família busca reorganizar os processos
de trabalho mediante atuações intersetoriais, de promoção, prevenção e assitência à saúde. Isto
permite conhecer as pessoas deste território, estabelecer vínculo, afetividade e confiança entre os
profissionais e os usuários, premissas importantes para o cuidado em saúde.
27
encontra em condições de vulnerabilidade e com os vínculos familiares interrompidos ou
fragilizados.
Na estrutura organizacional, a equipe do Consultório na Rua está lotada na UBSF Bucarein
e conta com uma equipe multiprofissional. O Consultório na Rua é um serviço itinerante e tem
horários diferenciados, ocorrendo em período diurno e noturno de segunda a sexta-feira. O trabalho
da equipe é realizado de forma itinerante e se adequa às demandas das pessoas em situação de
rua. O atendimento prioriza o cuidado no local, com ações compartilhadas e integradas às unidades
de saúde, geralmente do local onde este usuário se encontra, Centro de Atenção Psicossocial
(CAPS), serviços de urgência e emergência, e outros pontos da RAS e intersetorial.
4.1.5 Telessaúde
O Telessaúde tem como escopo a expansão e melhoria da rede de serviços de saúde,
principalmente da APS, e sua interação com os demais níveis de atenção fortalecendo as Redes
de Atenção à Saúde (RAS) do SUS.
28
Dentro do programa Telessaúde, há a teleconsultoria, que é uma consulta registrada e
realizada entre trabalhadores, profissionais e gestores da área da saúde, por meio de instrumentos
de telecomunicação bidirecional, com o objetivo de esclarecer dúvidas sobre procedimentos
clínicos, ações de saúde e questões relativas ao processo de trabalho, com respostas baseadas
em evidências científicas e adequadas às características loco-regionais.
Conforme preconiza o Ministério da Saúde, os tratamentos dos quadros leves a moderados
devem ser conduzidos pela Atenção Primária à Saúde (médicos, enfermeiros e equipes de saúde
mental) de acordo com os critérios técnicos, segundo cada patologia e, em caso de dúvidas ou
necessidade de algum apoio para a condução do cuidado, o profissional de saúde poderá solicitar
teleconsultoria para que o usuário permaneça sob seus cuidados no território. Desta forma, a
teleconsultoria realiza apoio assistencial e de educação permanente a todos os profissionais da
Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) em até 72 horas, visando ampliar a capacidade resolutiva
de quem a solicita através do endereço eletrônico [Link]
Outra ferramenta do Telecssaúde é a Segunda Opinião Formativa, que consiste em uma
resposta sistematizada, construída com base em revisão bibliográfica, nas melhores evidências
científicas e clínicas e no papel ordenador da atenção primária à saúde, a perguntas originadas das
teleconsultorias, e selecionadas a partir de critérios de relevância e pertinência em relação às
diretrizes do SUS (Portaria GM/MS nº 2.546, de 27 de outubro de 2011). Além disso, a
teleconsultoria objetiva auxiliar na qualificação do acesso aos usuários, promovendo o respeito à
equidade.
A Segunda Opinião Formativa (SOF) é originada de uma teleconsultoria assíncrona com
assuntos relevantes para a Atenção Primária à Saúde e considerados de interesse nacional.
Responde as dúvidas dos profissionais da saúde e seus objetivos são a qualificação destes
profissionais e o aumento da resolutividade dos casos clínicos e processo de trabalho.
29
apresentada por uma pessoa ou um coletivo, que pode ser uma família, uma comunidade ou uma
equipe.
Na horizontalização decorrente do processo de matriciamento, o sistema de saúde se
reestrutura em dois tipos de equipes:
Equipe de Referência;
Equipe de Apoio Matricial.
O Apoio Matricial é distinto do atendimento realizado por um especialista dentro de uma
unidade de atenção primária tradicional. Ele pode ser entendido como “um suporte técnico
especializado que é ofertado a uma equipe interdisciplinar em saúde a fim de ampliar seu campo
de atuação e qualificar suas ações” (FIGUEIREDO E CAMPOS, 2009, p. 130). Isso implica numa
estratégia que tem como base a troca de experiências e de conhecimentos téorico-práticos, que
inclui a discussão, reflexão e pactuações de responsabilidades para a continuidade das ações.
Matriciamento não é:
Encaminhamento ao especialista;
Atendimento individual pelo profissional de saúde mental;
Intervenção psicossocial coletiva realizado apenas pelo profissional de saúde mental.
Quando solicitar um Matriciamento?
Nos casos em que a equipe de referência sente necessidade de apoio da saúde mental para
abordar e conduzir um caso que exige, por exemplo, esclarecimento diagnóstico,
estruturação de um projeto terapêutico e abordagem da família;
Quando se necessita de suporte para realizar intervenções psicossociais específicas da
atenção primária, tais como grupos de usuários com transtornos mentais;
Para integração do nível especializado com a atenção primária no tratamento de usuários
com transtorno mental, como, por exemplo, para apoiar na adesão ao projeto terapêutico de
usuários com transtornos mentais graves e persistentes em atendimento especializado em
um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).
Com o intuito de qualificar a discussão no processo de matriciamento, foi elaborada um Guia
de Matriciamento (anexo A).
Ao aumentar a capacidade das equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF) em lidar com
o sofrimento psíquico e integrá-las com os demais pontos da rede assistencial, o apoio matricial
possibilita que a prevenção e o tratamento dos transtornos mentais, assim como a promoção da
saúde e a reabilitação psicossocial, aconteçam a partir da atenção primária. A corresponsabilização
pela demanda – tanto a equipe de Saúde da Família, quanto a Equipe de Saúde Mental na Atenção
Primária são responsáveis por determinado território – leva à desconstrução da lógica de referência
e contrarreferência, que favorece a desresponsabilização e dificulta o acesso da população.
(SARAIVA & CREMONESE, 2008).
A responsabilização compartilhada pelos casos visa aumentar a capacidade resolutiva da
equipe local, estimulando a interdisciplinaridade e transdisciplinaridade, e a aquisição de novas
competências (BRASIL, 2004). Esse cuidado torna-se um dispositivo para que os usuários também
possam se corresponsabilizar pelo seu tratamento, pela sua vida, produzindo outras relações com
30
o seu processo de adoecimento, estimulando a proatividade e a autonomia do sujeito na construção
do seu projeto de vida.
31
ocupacional, dentista, nutricionista, médico especialista e quem mais se fizer necessário de acordo
com a demanda apresentada. Assim, a soma das habilidades e saberes individuais de cada membro
de uma equipe, de forma complementar, possibilita melhores resultados comparados aos resultados
obtidos a partir de ações realizadas individualmente.
Não é viável nem necessário elaborar um PTS para todas as pessoas atendidas nos serviços
da atenção primária à saúde, casos mais difíceis com maior gravidade e complexidade devem ser
priorizados (BRASIL, 2013). Para isto, devem considerar a extensão e/ou intensidade de problemas
apresentados por uma pessoa, família, grupo ou coletivo, bem como avaliar quão diversas
dimensões estão afetadas (biológica, psicológica e social). Além disso, o PTS também pode ser
sugerido nos casos que exigirem maior articulação com a equipe e nas situações em que há
necessidade de ativação de outras instâncias como os recursos comunitários e outros serviços de
saúde e instituições.
A utilização de um roteiro norteador pode ajudar na organização de um PTS, estabelecendo
momentos sobrepostos, são eles:
O diagnóstico situacional;
A definição de objetivos e metas;
A divisão de tarefas e responsabilidades e a reavaliação do PTS (BRASIL, 2013 apud
OLIVEIRA, 2008).
Formulação de Projeto Terapêutico Singular:
Abordagens biológicas e farmacológicas;
Abordagens psicossociais e familiares;
Apoio do sistema de saúde;
Apoio da rede comunitária;
Trabalho em equipe: quem faz o quê?
32
Ser responsável por coordenar o caminhar dos usuários pelos outros pontos de atenção da
rede, quando suas necessidades de saúde não puderem ser atendidas somente por ações
e serviços da APS;
E de manter o vínculo com estes usuários, dando continuidade à atenção (ações de
promoção da saúde, prevenção de agravos, entre outros), mesmo que estejam sendo
cuidados também em outros pontos de atenção da rede.
33
psicólogo, terapeuta ocupacional e enfermeiro. Em alguns CAPS, há também o profissional
farmacêutico para atendimento aos usuários que são acompanhados neste serviço.
O acolhimento inicial é realizado por demanda espontânea (é um serviço “porta aberta”) ou
referenciada, incluindo as situações de crise no território.
Este acolhimento consiste em avaliações do grau de gravidade do usuário e, por
conseguinte, se este necessitará dos cuidados mais intensivos do CAPS, ou se será encaminhado
aos pontos da RAPS: Atenção Primária à Saúde, UPAS Leste e Sul, PA Norte, Hospital Regional
Hans Dieter Schmidt (HRHDS), Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria (HJAF).
Cabe ao CAPS:
Realizar atenção psicossocial, com abordagem interdisciplinar;
Proporcionar a inclusão social dos usuários;
Proporcionar a participação dos usuários e familiares na construção do Projeto Terapêutico
Singular (PTS);
Diminuir o índice de internações hospitalares;
Articular e promover os cuidados com os pontos de atenção da Rede de Atenção
Psicossocial (RAPS) e da Rede intersetorial, especialmente com a assistência social,
educação, justiça e direitos humanos;
Fomentar ações de educação e, ou conscientização à comunidade sobre saúde mental;
Contribuir com a formação profissional no âmbito psicossocial;
Proporcionar atenção humanizada;
Realizar apoio matricial às equipes da APS;
Realizar busca ativa dos usuários do município notificados com tentativa de suicídio;
Realizar busca ativa dos usuários acompanhados no serviço;
Desenvolver e monitorar as atividades desenvolvidas nas Residências Terapêuticas;
Articular e promover acessos aos dispositivos oferecidos pela comunidade em que reside,
tais como, associação de moradores, igrejas, clubes, praças, parques entre outros.
34
Constitui-se em um serviço de atenção psicossocial que tem por objetivo oferecer atenção
psicossocial às pessoas a partir de 18 anos que apresentam transtorno mental grave e/ou
persistente, referenciados ou por demanda espontânea, residentes no território de sua referência
Além da atenção psicossocial diurna, possui o serviço de Hospitalidade Noturno para
usuários referenciados pelos CAPS, que funciona 24 horas, inclusive nos feriados e finais de
semana com 05 vagas para o Município. O serviço de hospitalidade não é porta aberta, poderão
permanecer em hospitalidade, usuários com indicação médica de internação, visto que necessita
de prescrição médica para permanecer em hospitalidade. Ressalta-se que é uma alternativa de
tratamento ofereceida para usuários já em atendimento pelos CAPS do município, que necessitem
de cuidados intensivos naquele momento.
Horário de funcionamento ao público: 2ª à 6ª feira, das 8h às 18h, exceto feriados e pontos
facultativos
Público-alvo: Adultos a partir de 18 anos.
E-mail: caps3@[Link]
Fone: (47) 3423-0245 e 3422-8526
Localização: Rua Tubarão, 128 – América
35
substâncias psicoativas. Referência no Município de Joinville promove ações intersetoriais, visando
compor uma rede de cuidados que faça interface com outros setores.
Assim como os demais Caps, faz acolhimento por procura espontânea ou referenciada.
Horário de funcionamento ao público: 2ª, 3ª, 5ª e à 6ª feira, das 7h às 17h; 4ª das 7h às 16h,
exceto feriados e pontos facultativos.
Público-alvo: crianças e adolescentes, de 0 a 17 anos, 11 meses e 29 dias.
E-mail: capsij@[Link]
Fone: (47) 3422-7636 e 3432-3602
Localização: Rua Alexandre Schlemm, 275 – Bucarein
36
[Link] Núcleo de Prevenção à Violência e Acidentes (NPVA)
O objetivo do NPVA é sistematizar os dados do município sobre violências e acidentes de
trânsito, para elaboração de ações de prevenção e promoção de saúde, buscando a redução em
médio e longo prazo. Foi criado em 2008 integrando a Rede Nacional de Núcleos de Prevenção de
Violências e Promoção de Saúde – Portaria MS/GM nº 936, 18 de maio de 2004.
Todas as formas de violências identificadas devem ser notificadas e as notificações
encaminhadas à Vigilância Epidemiológica (VE). A notificação é como um instrumento de proteção
e não de denúncia e punição (disponível no sistema de informação vigente, em serviços /
documentos / formulário de notificação de violência interpessoal/autoprovocada).
Horário de funcionamento: 2ª à 6ª feira, das 8h às 17h, exceto feriados e pontos facultativos
E-mail: [Link]@[Link]
Fone: (47) 3417-1353 – 3417-1368
Localização: Rua Abdon Batista, 172 – Centro
37
[Link] Serviço Especializado em Reabilitação (SER)
O Serviço Especializado em Reabilitação (SER) é parte integrante da Rede do Sistema
Único de Saúde (SUS), compõe os Serviços de Atenção Especializada (Nível Secundário de Média
Complexidade) e a Rede de Atenção à Saúde da Pessoa com Deficiência (RAD). Teve início em 02
de janeiro de 2018, com o objetivo de promover saúde e inclusão social mediante a reabilitação e a
habilitação de crianças e adultos (independente da faixa etária) com deficiência física, por meio de
um planejamento interdisciplinar e individualizado.
O público alvo são pessoas com deficiência física, potencialmente incapacitante, baseada
no Decreto nº 5.296 de 02 de dezembro de 2004, Art. 70, pessoas acometidas por acidente ou
doença recente, que predispõe ao risco para adquirir deficiência física permanente e potencialmente
incapacitante, e, pessoas que precisam de avaliação para Órteses, Próteses e Meios Auxiliares de
Locomoção (OPM). O acesso ao SER é regulado e o usuário é encaminhado via SIG.
O objetivo do tratamento junto ao usuário não é a cura, mas a busca por sua recuperação,
adaptação, educação, reinserção social, visando sua independência e qualidade de vida.
Horário de funcionamento: 2ª à 6ª feira, das 7h às 18h, exceto feriados e pontos facultativos
Público-alvo: crianças, adolescentes e adultos
E-mail: [Link]@[Link]
Fone: (47) 3432-5709
Localização: Avenida Alwino Hansen, 1.118 – Adhemar Garcia
38
Conforme a Lei nº 3.090, de 23 de dezembro de 2011: "Os Serviços Residenciais
Terapêuticos configuram-se como dispositivo estratégico no processo de desinstitucionalização.
Caracterizam- se como moradias inseridas na comunidade destinadas a pessoas com transtorno
mental, egressas de hospitais psiquiátricos e/ou hospitais de custódia. O caráter fundamental do
SRT é ser um espaço de moradia que garanta o convívio social, a reabilitação psicossocial e o
resgate de cidadania do sujeito, promovendo os laços afetivos, a reinserção no espaço da cidade e
a reconstrução das referências familiares". Joinville atualmente possui duas Residências
Terapêuticas tipo II, sendo que a primeira iniciou seu funcionamento em 2010 e a segunda em 2016.
A desinstitucionalização de usuários de internações psiquiátricas de longa permanência é
apoiada, também, pelo “Programa de Volta para Casa”, criado pelo Ministério da Saúde. Trata-se
de um programa de reintegração social de pessoas acometidas de transtornos mentais e egressas
de longas internações, que implica um incentivo financeiro federal a inclusão social e a reabilitação.
O Programa é regulamentado pela Lei nº 10.708, de 31 de julho de 2003, e pela Portaria
MS/GM nº 2.077, de 31 de outubro de 2003, e busca atender ao disposto na Lei nº 10.216, de 06
de abril de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos
mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.
As residências terapêuticas constituem-se como alternativas de moradia para um grande
contingente de pessoas que estão internadas há anos em hospitais psiquiátricos por não contarem
com suporte adequado na comunidade, e são regulamentadas pela Portaria MS/GM nº 106, de 11
de fevereiro de 2.000, que introduz os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) no âmbito do SUS.
As indicações dos moradores são realizadas pelos CAPS do município, e o número de
usuários pode variar desde 01 indivíduo até um pequeno grupo de no máximo 08 pessoas, que
deverão contar sempre com suporte profissional sensível às demandas e necessidades de cada
um.
O município de Joinville possui dois serviços de residência terapêutica, ambos do tipo II.
O suporte de caráter interdisciplinar (seja o CAPS de referência, seja uma equipe da atenção
básica, sejam outros profissionais) deverá considerar a singularidade de cada um dos moradores,
e não apenas projetos e ações baseadas no coletivo de moradores. O acompanhamento a um
morador deve prosseguir, mesmo que ele mude de endereço ou eventualmente seja hospitalizado.
Cada casa deve ser organizada segundo as necessidades e gostos de seus habitantes:
afinal é uma moradia! Por isso, a rigor, deverão existir tantos tipos de moradias quanto de
moradores. No entanto, pensando em termos bem gerais, temos dois grandes tipos de SRTs:
39
definitivas na comunidade. Este é o tipo mais comum de residência, onde é necessário apenas a
ajuda de um cuidador.
SRT II – São moradias destinadas àquelas pessoas com transtorno mental e acentuado nível de
dependência, especialmente em função do seu comprometimento físico, que necessitam de
cuidados permanentes específicos e que estão em processo de desospitalização. Este tipo de SRT
deve acolher no mínimo 4 (quatro) e no máximo 10 (dez) moradores.
O suporte é focalizado na reapropriação do espaço residencial como moradia, na construção
de habilidades para a vida diária e na inserção dos moradores na rede social existente. Constituída
para clientela carente de cuidados intensivos, com monitoramento técnico diário e pessoal auxiliar
permanente na residência, este tipo de SRT pode diferenciar-se em relação ao número de
moradores e ao financiamento, que deve ser compatível com recursos humanos presentes 24h/dia.
A SRT estará vinculada a um serviço/equipe de saúde mental de referência que dará o suporte
técnico profissional necessário.
40
O Município de Joinville possui sob a gestão municipal 03 (três) Unidades de Pronto
Atendimento 24 horas (PA 24 horas Norte, UPA Sul e Leste) e 01 (uma) Unidade Hospitalar, Hospital
São José (HSJ). Já, sob a gestão estadual, há 03 (três) unidades hospitalares: Hospital Regional
Hans Dieter Schmidt (HRHDS), Maternidade Darcy Vargas e Hospital Infantil Dr. Jesser Amarante
Faria (HJAF). Joinville ainda conta com 01 (uma) unidade conveniada de urgência, emergência,
ambulatorial e cirúrgica, o Hospital Bethesda.
Os serviços de saúde PA 24h Norte, UPA 24h Sul e UPA 24h Leste atendem usuários em
caso de urgência, realizam a triagem e quando identificada a necessidade de consulta com o
psiquiatra, o munícipe é encaminhado ao serviço de sobreaviso do Hospital Regional Hans Dieter
Schmidt (adultos e adolescentes) ou Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria (crianças).
O que a Organização Mundial da Saúde vem propondo é a qualificação de prontos-socorros
regulares, de hospitais gerais, para poderem atender urgências e emergências psiquiátricas. Além
disso, o preparo do SAMU, das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) e das salas de
estabilização para atender, entre todos os tipos de casos, os psiquiátricos, é um ideal a ser buscado.
Está relegada ao passado a ideia de criar serviços de atendimento a emergências puramente
psiquiátricos. Muitas das emergências psiquiátricas criadas nos anos 60 e 70, em várias cidades do
mundo, se transformaram em pontos de procura para consultas ambulatoriais eletivas, pontos de
pedidos de repetição de receitas e pontos de recepção para casos sociais. Estes são riscos
presentes em qualquer pronto-socorro, mas têm maior facilidade para se potencializar no caso das
emergências puramente psiquiátricas.
É fator decisivo para o bom funcionamento tanto da unidade de emergência, como da rede
de saúde mental em que ele está inserido, que haja integração dos serviços de emergência com os
demais serviços de saúde da região. Os serviços de emergência com capacidade de atendimento
de situações psiquiátricas, se funcionarem bem, podem melhorar a organização do fluxo de usuários
dentro da rede e evitar sobrecargas desnecessárias.
Os prontos-socorros e as unidades de pronto-atendimento podem representar um marco
central na estruturação das redes de saúde mental. Na prática, eles são um termômetro do
funcionamento da atenção primária e secundária. São uma das principais portas de entrada para a
rede de saúde mental, especialmente no caso dos usuários em primeiro surto psicótico. Os serviços
de emergência podem se tornar pontos importantes para prevenir e fazer diagnósticos precoces,
incluindo usuários na rede de atenção psicossocial.
O maior erro potencial em psiquiatria de emergência consiste em ignorar uma doença física
como causa de um quadro psiquiátrico. Qualquer sintoma psiquiátrico pode ser causado ou
exacerbado por um distúrbio clínico não psiquiátrico e, quando um usuário chega a um serviço de
emergência com alteração do pensamento, do humor ou do comportamento, é incumbência do
médico que o avalia excluir etiologias clínicas.
É importante que o internista e o médico não psiquiatra tenham noções de psiquiatria que
lhes permitam atender urgências e emergências deste tipo. Como regra, os doentes mentais têm
altas chances de apresentar comorbidades clínicas, mas o controle delas é menor que na população
geral, essa população torna-se facilmente susceptível a intercorrências variadas.
41
A Associação Brasileira de Psiquiatria, assim como a Associação Americana de Psiquiatria,
recomenda atender as urgências e emergências psiquiátricas de forma integrada a hospitais gerais.
42
Trata-se de um evento que ressalta a dinâmica e o movimento de determinados saberes e práticas
em relação à loucura. Diante desse quadro, é indispensável a intervenção imediata de uma equipe
multiprofissional, no intuito de evitar maiores prejuízos à saúde do indivíduo, ou de eliminar
possíveis riscos à sua vida ou à de terceiros.
No hospital geral dispõe-se de especialidades variadas para consulta imediata e de recursos
diagnósticos apropriados à correta detecção de distúrbios orgânicos que possam estar causando o
transtorno psiquiátrico. Nele, também, encontra-se a oportunidade para evitar o isolamento da
psiquiatria, ao integrá-la ao atendimento à saúde em geral. Ao mesmo tempo, evitam-se a
discriminação e a estigmatização do doente mental. Nestas circunstâncias, cabe geralmente ao
clínico de plantão, prestar o primeiro atendimento e decidir pela liberação, observação ou internação
do caso, até a avaliação do psiquiatra. No cotidiano deste ambiente, defende-se a prática
profissional voltada para a realidade identificada.
4.3.1 Regulação
Também denominada Regulação de Acesso ou Regulação Assistencial, tem como objetos
a organização, controle, gerenciamento e priorização do acesso e dos fluxos assistenciais no âmbito
do SUS, sendo estabelecida pelo complexo regulador e suas unidades operacionais, abrangendo a
regulação médica, exercendo autoridade sanitária para a garantia do acesso baseada em
protocolos, classificação de risco e demais critérios de priorização (Portaria GM/MS nº 1.559, de 01
de agosto de 2008).
43
O encaminhamento para consulta em psiquiatria – pediatria, deve ocorrer para usuários
com idade até 14 anos, 11 meses e 29 dias; já para os usuários a partir dos 15 anos, devem ser
encaminhados para consulta em psiquiatria – adulto.
44
Importante salientar que os medicamentos sujeitos a controle especial do CBAF fornecidos pelo
município são aqueles que constam na REMUME (Relação Municipal de Medicamentos Essenciais)
de Joinville.
As Unidades de Saúde que possuem farmacêuticos são: UBSF Aventureiro I, UBSF
Comasa, UBSF Fátima, UBSF Floresta, UBSF Jarivatuba, UBSF Bucarein, UBSF Pirabeiraba,
UBSF Vila Nova, UBSF Jardim Paraíso I e II, UBSF Costa e Silva e UBSF Morro do Meio.
Para ter acesso aos medicamentos sujeitos a controle especial do Componente
Especializado da Assistência Farmacêutica (CEAF), o usuário deve estar enquadrado em um dos
Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDTs) do Ministério da Saúde. É necessário
encaminhar o usuário, familiar ou responsável à Farmácia Escola (FAE) para orientação, devendo
ir presencialmente ou via e-mail, pois dependendo da patologia são necessários diferentes
documentos. A FAE agenda abertura de processo para o usuário e a documentação é enviada à
Diretoria de Assistência Farmacêutica do Estado (DIAF) para análise. Após retorno da DIAF, a
Farmácia Escola entra em contato com o usuário e, caso a documentação esteja de acordo, o
usuário é agendado para retirada do medicamento na Farmácia Escola.
45
CLORPROMAZINA, 25 mg – comprimido
CLORPROMAZINA, 100 mg – comprimido
CLORPROMAZINA, 40 mg/mL, solução oral – gotas
FENITOÍNA, 100 mg – comprimido
FENOBARBITAL SÓDICO, 40 mg/mL, solução oral – gotas – frasco 20mL
FENOBARBITAL SÓDICO,100 mg – comprimido
FLUOXETINA, 20 mg – cápsula
HALOPERIDOL, 2 mg/mL, solução oral – gotas, frasco 20 mL
HALOPERIDOL, 5 mg – comprimido
HALOPERIDOL, SAL DECANOATO, 50 mg/mL, solução injetável – ampola 1mL
IMIPRAMINA, 10 mg – comprimido
IMIPRAMINA, 25 mg – comprimido
LEVOMEPROMAZINA, 25 mg – comprimido
LEVOMEPROMAZINA, 100 mg – comprimido
Fonte: REMUME – SES/Joinville, 2020
Quadro 04 – Medicamentos sujeitos a controle especial presentes na Caixa de emergência das
Unidades de Saúde
Quadro 05 – Medicamentos sujeitos a controle especial de uso Exclusivo dos Prontos Atendimentos
e Unidades de Saúde Mental
DIAZEPAM, 10mg
46
5 CRITÉRIOS DE ENCAMINHAMENTOS PARA RAPS
Critérios de Inclusão:
Residir em Joinville;
Apresentar alterações do estado mental e sofrimento psíquico, que apresente prejuízo na
capacidade funcional (relações sociais, laborais, familiares, escolares, entre outras);
Apresentar dependência e/ou prejuízo relacionado ao uso abusivo de álcool e/ou outras
drogas.
Critérios de Exclusão:
Não residir em Joinville;
Apresentar alterações do estado mental, mas sem prejuízos na capacidade funcional;
Apresentar doença neurológica, sem transtorno mental associado.
5.1 Conduta
47
Realizar avaliação clínica completa, se apresentar comorbidades clínicas orientar o
tratamento indicado na APS;
Em caso de Urgência/Emergência deverá ser feito contato com o SAMU.
48
Usuários em sofrimento psíquico moderado a grave e que não caracterizem urgência e
emergência clínica/psiquiátrica, encaminhar ao CAPS de referência. Vale lembrar que o
encaminhamento ao CAPS não é consulta regulada, funciona com acolhimento porta aberta. Caso
o usuário seja atendido em algum outro serviço de saúde e conforme critérios, seja encaminhado
ao CAPS, a referência deve ser feita.
Deve-se encaminhar o usuário a um tratamento no CAPS, CAPS AD e no CAPS
Infantojuvenil quando houver algum desses fatores:
Apresenta intenso sofrimento psíquico, que impossibilita de viver e realizar seus projetos de
vida;
Antecedente de comorbidade psiquiátrica;
Risco de suicídio ou plano suicida;
Desesperança significativa e impulsividade;
Continuar o abuso e ou dependência química;
Sintomas psicóticos: o juízo crítico e o contato com a realidade podem estar comprometidos,
porém não apresenta episódios de auto ou heteroagressividade, aceita o manejo e o
tratamento;
Não adesão ou impossibilidade de seguir tratamento ambulatorial;
Apoio social precário (mora sozinho, familiares distantes, etc.).
Algumas situações de saúde mais comuns que necessitam de encaminhamento aos Pontos
de Atenção de Urgência e Emergência são contempladas nesta linha de cuidado.
É responsabilidade do profissional de saúde, tomar a decisão e orientar o encaminhamento
ao serviço apropriado, conforme sua avaliação. Como regra geral, os profissionais de saúde devem
lembrar que sinais e sintomas psiquiátricos podem ser a primeira manifestação de:
Problemas clínicos;
Problemas neurológicos;
Uso, abuso ou síndrome de abstinência de substâncias psicoativas;
Transtornos psiquiátricos.
Usuários que apresentam violação de direitos (violência física, psicológica e sexual)
encaminhar ao SUAS/CREAS, conforme protocolos vigentes.
Uma vez havendo a necessidade de encaminhamento para uma especialidade clínica ou
cirúrgica deve-se seguir as recomendações e protocolos de cada uma delas.
49
5.5.1 Encaminhamento para Rede Hospitalar (conforme Deliberação 181/CIB/2017)
Crianças de até 14 anos, 11 meses e 29 dias: encaminhar para o Hospital infantil Dr. Jeser
Amarante Faria;
Adolescentes a partir de 15 anos: encaminhar para o Hospital Regional Hans Dieter Schmidt.
Deve-se encaminhar o usuário para um Pronto Socorro (HRHDS e HJAF) para
avaliação clínica e psiquiátrica de emergência quando:
Apresenta elevado risco de auto ou hetero agressão;
Surto psicótico com agitação psicomotora;
Critérios na ideação ou tentativa de suicídio:
Constância de pensamentos autodestrutivos permanentes ou recorrentes;
Alto nível de intenção de morrer nas próximas horas ou nos próximos dias;
Existência de plano destrutivo imediato, realista, envolvendo métodos eficazes;
Tentativa de suicídio ou apresentou ideação com planejamento nos últimos sete dias
(pensamentos obsessivos com conteúdos mórbidos e presença de desesperança);
Agitação ou pânico;
Comorbidade psiquiátrica;
Suporte social precário e dificuldades para manter vínculos.
Gestantes:
Adolescentes até 14 anos, 11 meses e 29 dias que apresentar transtorno mental ou
alteração do comportamento deverá ser encaminhada para avaliação ao Hospital Infantil Dr.
Jeser Amarante Faria;
A partir de 15 anos, toda gestante que apresentar transtorno mental ou alteração do
comportamento deverá ser encaminhada para avaliação para o Hospital Regional Hans
Dieter Schmidt.
50
Encaminhamentos com dados insuficientes à avaliação do médico regulador e/ou sem
enquadramento aos critérios estabelecidos pelo protocolo da regulação, serão devolvidos
ao médico assistente;
Em caso de piora do estado mental e/ou sofrimento psíquico, reavaliar os fatores de risco e
comorbidades clínicas e pedir novo encaminhamento conforme o fluxograma da RAPS
(figura 02).
51
6 FLUXOGRAMA DA REDE DE ATENÇÃO PSICOSSOCIAL (RAPS)
52
7 ARTICULAÇÃO COM A SECRETARIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (SAS)
A Proteção Social Básica tem como objetivos prevenir situações de risco por meio do
desenvolvimento e aquisição de potencialidades, e do fortalecimento de vínculos familiares e
comunitários. Destina-se à população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente da
pobreza, privação (ausência de renda, precário ou nulo acesso aos serviços públicos, dentre outros)
e/ou fragilização de vínculos afetivos, relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias,
étnicas, de gênero ou por deficiências, dentre outras). Abrange os seguintes programas/projetos e
serviços:
53
“A Proteção Social Especial (PSE) organiza a oferta de serviços,
programas e projetos de caráter especializado, que tem por objetivo
contribuir para a reconstrução de vínculos familiares e comunitários, o
fortalecimento de potencialidades e aquisições e a proteção de famílias
e indivíduos para o enfrentamento das situações de risco pessoal e social,
por violação de direitos. Na organização das ações de PSE é preciso
entender que o contexto socioeconômico, político, histórico e cultural
pode incidir sobre as relações familiares, comunitárias e sociais, gerando
conflitos, tensões e rupturas, demandando, assim, trabalho social
especializado” (BRASIL, 2011a, p. 17).
Serviço de Proteção Social para Pessoas com Deficiência, Idosos(as) e suas Famílias - PCDI
Oferta atendimento especializado a pessoas com deficiência, idosos e suas famílias que
vivenciam limitações agravadas por violação de direitos, caracterizados pelas seguintes formas de
54
violência: física, sexual, social, negligência, abandono, psicológica, financeira, emocional, auto
negligência e confinamento ou isolamento que comprometam sua autonomia. Promove ações para
superação das situações violadoras de direitos, propiciando a autonomia e melhoria da qualidade
de vida; incentivo e fortalecimento do direito a convivência familiar e comunitária; realiza o
encaminhamento para acesso a benefícios da rede socioassistencial e demais políticas públicas.
7.2.2 Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP)
O Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP)
é uma unidade de serviço social especializado do Sistema Único de Assistência Social (SUAS),
que oferta serviço sócio-assistencial para pessoas que utilizam as ruas como espaço de moradia
e/ou sobrevivência, assegurando atendimento e atividades direcionadas para o desenvolvimento
desociabilidades, na perspectiva de fortalecimento de vínculos interpessoais e/ou familiares que
oportunizem a construção de novos projetos de vida.
55
8 AVALIAÇÃO CLÍNICA E PSIQUIÁTRICA
O período perinatal – que abrange toda a gestação até um ano do nascimento é um momento
de especial vulnerabilidade aos transtornos mentais, especialmente às doenças afetivas e
transtornos ansiosos. Não há evidências na literatura de que a gravidez seja de alguma forma
protetora no que se refere à doença mental.
O primeiro mês do pós-parto é um período de desafios para a mãe (como cuidar de um
recém-nascido, restabelecer-se do parto, dormir pouco, tentar estabelecer uma rotina para a
amamentação e se ajustar a uma nova dinâmica familiar). Dessa forma, toda mãe recente com
antecedentes psiquiátricos deve ser acompanhada com mais proximidade pela equipe de saúde.
Até 85% das mulheres experimentam alguma alteração de humor durante o período puerperal. Os
sintomas são leves para a maioria delas. No entanto, entre 10 e 15% das puérperas vivenciam
sintomas clinicamente significativos.
A história psiquiátrica, os sintomas atuais e a atitude do usuário diante do uso da medicação
durante a gestação devem sempre ser avaliados.
Toda gestação com algum transtorno psiquiátrico importante deve ser considerada
de alto risco. A gestante e o feto devem ser monitorados cuidadosamente durante toda a gestação
e o pós-parto atuais e seguintes.
58
Crianças com maior incidência de transtornos psiquiátricos
59
pela AVD mais complexas (avançadas e instrumentais) até comprometer o auto-cuidado (AVD
básicas).
DEPENDÊNCIA (0 pontos)
ATIVIDADES INDEPENDÊNCIA (1 ponto)
COM supervisão, orientação ou
Pontos SEM supervisão, orientação ou
assistência pessoal ou cuidado
(1 ou 0) assistência pessoal
integral
Independente = 6 pontos
Parcialmente dependente = 4 pontos
Dependência total = 2 pontos
60
Quadro 08 – Escala de Lawton-Brody – Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD)
ATIVIDADE AVALIAÇÃO
Sem ajuda 3
1 Consegue usar o telefone? Com ajuda parcial 2
Não consegue 1
Sem ajuda 3
Consegue ir a locais distantes, usando algum transporte,
2 Com ajuda parcial 2
sem necessidade de planejamentos especiais?
Não consegue 1
Sem ajuda 3
3 Consegue fazer compras? Com ajuda parcial 2
Não consegue 1
Sem ajuda 3
4 Consegue preparar suas próprias refeições? Com ajuda parcial 2
Não consegue 1
Sem ajuda 3
5 Consegue arrumar a casa? Com ajuda parcial 2
Não consegue 1
Sem ajuda 3
Consegue fazer os trabalhos manuais domésticos, como
6 Com ajuda parcial 2
pequenos reparos?
Não consegue 1
Sem ajuda 3
7 Consegue lavar e passar sua roupa? Com ajuda parcial 2
Não consegue 1
Sem ajuda 3
Consegue tomar seus remédios na dose certa e horário
8 Com ajuda parcial 2
correto?
Não consegue 1
Sem ajuda 3
9 Consegue cuidar de suas finanças? Com ajuda parcial 2
Não consegue 1
Independente = 27 a 19 pontos
Parcialmente dependente = 18 a 10 pontos
Dependência total = < 9 pontos
61
Quadro 09 – Mini Exame do Estado Mental (MEEM)
Usuário:
Avaliador: Data da avaliação: _____/_____/_____
ORIENTAÇÃO
Dia da semana (1 ponto) ( ) Dia do mês (1 ponto) ( )
Mês (1 ponto) ( ) Ano (1 ponto) ( )
Hora aproximada (1 ponto) ( ) Local específico (1 ponto) ( )
Instituição (residência, hospital, clínica)(1 ponto) ( ) Bairro ou rua próxima (1 ponto) ( )
Cidade (1 ponto) ( ) Estado (1 ponto) ( )
MEMÓRIA IMEDIATA
Fale 3 palavras não relacionadas.
Posteriormente pergunte ao usuário pelas 3 palavras.
Dê 1 ponto para cada resposta correta. ( )
Depois repita as palavras e certifique-se de que o usuário as aprendeu, pois mais adiante você irá
pergunta-las novamente.
ATENÇÃO E CÁLCULO
(100-7) sucessivos, 5 vezes sucessivamente (1 ponto para cada cálculo correto)
( )
(Alternativamente, soletrar MUNDO de trás para frente)
EVOCAÇÃO
Pergunte pelas 3 palavras ditas anteriormente (1 ponto por palavras) ( )
LINGUAGEM
Nomear um relógio e uma caneta (2 pontos) ( )
Repetir “nem aqui, nem ali, nem lá” (1 ponto) ( )
Comando: “pegue este papel com a mão direita, dobre ao meio e coloque no chão” (3 pontos) ( )
Ler e obedecer: “feche os olhos” (1 ponto) ( )
Escrever uma frase (1 ponto) ( )
Copiar um desenho (1 ponto) ( )
ESCORE: (______/30)
Ponto de
Escolaridade Comentários
Corte
O ponto de corte no MEEM depende da sensibilidade e especialidade que
Analfabetos / se deseja do teste (Avaliação Quantitativa). Assim, o que importa é o
baixa 18 pontos
desempenho qualitativo do usuário, particularmente nos itens que mais
escolaridade
avaliam a memória episódica e, portanto, mais precocemente
comprometidos nos quadros amnésticos, como a doença de Alzheimer. A
presença de erros nas perguntas referentes à memória de evocação e
8 anos ou mais
26 pontos
de escolaridade orientação temporal devem ser mais valorizados, mesmo que a pontuação
final esteja dentro da faixa considerada “normal” (Avaliação Qualitativa).
63
Figura 03 – Cartão Babel de Saúde Mental na Atenção Básica
64
9 TRANSTORNO MENTAL ORGÂNICO E COMORBIDADES CLÍNICAS
65
se pensa que um humor depressivo é uma reação psicológica a uma doença grave ou que até
mesmo coloque a vida em risco.
Embora não haja diretrizes infalíveis, alguns indícios úteis podem despertar a suspeita de
uma causa orgânica para o transtorno psiquiátrico:
Início dos sintomas psiquiátricos em idade atípica (ex: psicose após 30 anos, mania após 30
anos);
Ausência de história familiar de doenças psiquiátricas;
Ausência de antecedentes pessoais de doenças psiquiátricas;
Resposta inadequada ao tratamento dos sintomas psiquiátricos;
Sintomas mais graves do que seriam esperados na condição psiquiátrica presumida;
Presença de condição psicopatológica seguindo uma mudança de personalidade abrupta;
Coexistência de doenças físicas, as quais sabidamente produzem sintomas psiquiátricos;
Presença de déficits cognitivos, especialmente envolvendo a memória e o nível de
consciência;
Nexo temporal, isto é, a relação temporal entre o começo, a exacerbação ou a remissão de
um transtorno mental e uma condição médica geral (p. ex., um quadro de desinibição que
iniciou até seis meses depois de um traumatismo craniano);
Redução dos sintomas do transtorno mental com o tratamento da condição médica
subjacente (p. ex., um quadro apático ou amnéstico que desapareceu com o tratamento do
hipotireoidismo);
Presença de características atípicas para um transtorno mental primário: início em uma
idade improvável, sintomas polimórficos e oscilatórios (p. ex., alucinações visuais que
iniciam na terceira idade e que pioram sempre ao anoitecer);
Presença de correspondências bem estabelecidas na literatura de um transtorno
mental com uma condição médica em particular (p. ex., déficit cognitivo súbito com
infecção urinária; confusão mental com endocardite bacteriana).
66
9.1.2 Exames Laboratoriais e Complementares úteis para o Diagnóstico de Transtornos
Mentais Orgânicos
9.2 Endocrinologia
9.2.1 Diabetes
A depressão, independentemente de outros fatores de risco, foi associada a um maior
risco para o desenvolvimento do diabetes e também a pior adesão ao tratamento, piora do
controle glicêmico e maior risco para o desenvolvimento de complicações relacionadas à doença.
A prevalência de depressão em usuários com diabetes é de 11 a 15%, no entanto, quando
se considera um critério mais amplo, como sintomatologia depressiva significativa, a prevalência
varia de 21,8 a 60%. Além disso, o risco de usuários com diabetes tipo 1 apresentarem depressão
é três vezes maior do que o de usuários não diabéticos, e, para usuários portadores de diabetes
tipo 2, o risco é duas vezes maior do que em usuários não diabéticos.
Aspectos clínicos comuns a diabetes e depressão dificultam o diagnóstico desta segunda,
podendo facilmente se atribuir o aumento ou a perda de peso, o cansaço ou o aumento do apetite
apenas ao diabetes. A investigação de depressão nesses casos ganha maior confiabilidade quando
sentimentos, como desesperança e desamparo, são levados em conta. Do ponto de vista
fisiológico, sabe-se que a resistência à insulina pode ocorrer devido ao estresse emocional
por meio de alterações em citocinas e do cortisol.
68
Os Inibidores Seletivos da Recaptação da Serotonina (ISRS), como a Fluoxetina,
tendem a diminuir a resistência periférica à insulina e são bem-tolerados de forma geral e
mostraram eficácia semelhante na redução dos sintomas depressivos em usuários com diabetes.
É relevante para o tratamento analisar o risco de os antidepressivos aumentarem o peso e,
independentemente, apresentarem um efeito hiperglicemiante, elevando o risco de diabetes no uso
prolongado (mais de 24 meses) em doses consideradas moderadas a altas. Paradoxalmente, o
tratamento de curto prazo de episódios depressivos com ISRS está associado a uma redução de
aproximadamente 30% da glicemia de jejum e diminuição da hemoglobina glicada (estudos de até
um ano).
Alguns fatores, incluindo complicações clínicas do diabetes e maior gravidade dos
sintomas depressivos, podem reduzir a taxa de resposta aos antidepressivos.
Outra causa de alteração psiquiátrica relacionado com a diabetes é a encefalopatia
hipoglicêmica causada pelo excesso de insulina, seja por produção endógena, seja por
administração exógena. Os sintomas premonitórios, os quais não ocorrem em todos os usuários,
incluem náusea, sudorese, taquicardia e sensações de fome, apreensão e inquietude. Com o
avanço do distúrbio, podem se desenvolver desorientação, confusão e alucinações, bem como
outros sintomas neurológicos e clínicos. Podem ocorrer estupor e coma, e uma demência residual
e persistente, às vezes, pode constituir uma sequela neuropsiquiátrica grave dessa condição.
Vários estudos demonstram a eficácia da psicoterapia, da orientação psicológica e da
psicoeducação para depressão em usuários com diabetes. Na população infantil e adolescente com
diabetes, há evidências de que a intervenção psicológica é positiva para o controle dos níveis
glicêmicos. Já em usuários adultos, a psicoterapia em grupo mostra-se não só capaz de reduzir o
estresse relacionado ao diabetes e o sentimento de vergonha, mas também de melhorar a forma
como o usuário lida com a doença e de auxiliar na manutenção glicêmica adequada naqueles com
diabetes tipo 1 e 2.
70
9.3 Cardiologia
Doenças Cardiovasculares
Bloqueadores alfa-adrenérgicos ([Link]., prazosina,
Depressão, disfunção sexual
doxazosina)
Amiodarona Alterações do humor por disfunção da tireoide
Inibidores da enzima conversora de angiotensina
Elevação do humor ou depressão (raro)
([Link]., captopril, enalapril)
Agentes antiarrítimicos ([Link]., verapamil,
Alucinações, confusão e delirium
adenosina)
Bloqueadores beta-adrenérgicos (p. ex., atenolol,
Fadiga e disfunção sexual
propranolol)
Digoxina Alucinações visuais, delirium, depressão
Anorexia, fraqueza e apatia secundárias a distúrbio
Diuréticos (p. ex., hidroclorotiazida, furosemida)
eletrolítico
Doenças Respiratórias
Paranoia, alucinações visuais e táteis, perda de
Atropina
memória, delirium e agitação
71
Beta-agonistas
Tremores, ansiedade, insônia e palpitações
(p. ex., salmeterol, salbutamol)
Ansiedade, insônia, tremores, inquietação,
Aminofilina e teofilina abstinência, hiperatividade, psicose, delirium e
mutismo
Corticosteroides inalados Incomum
Depressão, mania, labilidade, ansiedade, insônia,
Corticosteroides orais ([Link]., prednisona,
psicose, alucinação, paranoia, mudanças na
dexametasona)
personalidade
Inibidor de leucotrienos (montelucaste) Fadiga, astenia, ideação suicida
Alfa e beta-agonistas mistos (p. ex., epinefrina, Ansiedade, tremor, psicose, alucinações, insônia,
fenilefrina, fenilpropanilamina) inquietação, depressão e agressividade
72
9.4 Pneumologia
73
O tratamento da DPOC deve ser feito com o uso de antidepressivos e psicoterapia,
evitando-se o uso de BZD s, como na asma, por causa da redução do limiar respiratório.
9.5 Reumatologia
9.5.3 Fibromialgia
A fibromialgia é caracterizada por dor e rigidez dos tecidos moles, como músculos,
ligamentos e tendões. As áreas locais de sensibilidade são conhecidas como “pontos de ativação”.
As áreas cervical e torácica são as mais afetadas, mas a dor pode se localizar nos braços, nos
ombros, na região lombar ou nas pernas.
Além do quadro doloroso, estes usuários costumam se queixar de fadiga, distúrbios do sono,
rigidez matinal, parestesias de extremidades, sensação subjetiva de edema e distúrbios cognitivos.
É frequente a associação a outras comorbidades, que contribuem com o sofrimento e a piora da
qualidade de vida destes usuários. Dentre as comorbidades mais frequentes podemos citar a
depressão, a ansiedade, a síndrome da fadiga crônica, a síndrome miofascial, a síndrome do cólon
irritável e a síndrome uretral inespecífica.
Há uma sobreposição significativa de comorbidades entre usuários com fibromialgia e
transtornos psiquiátricos, como depressão, pânico e ansiedade e transtorno de estresse pós-
traumático (TEPT). A fibromialgia costuma estar presente na síndrome de fadiga crônica e nos
transtornos depressivos. O início da comorbidade psiquiátrica costuma ocorrer mais de um
ano antes do início da fibromialgia.
A fibromialgia é uma das doenças reumatológicas mais frequentes - em um estudo realizado
no Brasil, em Montes Claros, a fibromialgia foi a segunda doença reumatológica mais frequente,
após a osteoartrite. Neste estudo, observou-se prevalência de 2,5% na população, sendo a maioria
do sexo feminino, das quais 40,8% se encontravam entre 35 e 44 anos de idade
Há também comorbidade relevante entre usuários com fibromialgia e problemas
reumatológicos, como artrite reumatóide, lúpus sistêmico e outros. Contudo, a sintomatologia da
75
fibromialgia não se correlaciona bem com atividade de doença das condições clínicas associadas
quando tais doenças estão presentes.
Embora seja uma doença reconhecida há muito tempo, a fibromialgia tem sido seriamente
pesquisada somente há três décadas, pouco ainda é conhecido sobre sua etiologia e patogênese.
Até o momento, não existem tratamentos que sejam considerados muito eficazes.
Determinação
1. WPI: note as áreas em que sentiu dor na última semana. Em quantas áreas sentiu dor? A pontuação
varia de 0 a 19.
Quadril (nádega, troncater),
Ombro, esquerdo Mandíbula, esquerda Costas, superior
esquerdo
Ombro, direito Quadril (nádega, troncater), direito Mandíbula, direita Costas, inferior
Braço superior,
Perna superior, esquerda Tórax Pescoço
esquerdo
Braço superior, direito Perna superior, direito Abdome
2. Escala SS
Fadiga
Acorda sem descanso
Sintomas cognitivos
Para cada um dos três sintomas anteriores, indique o nível de gravidade na última semana usando a
escala a seguir:
0 = sem problema
1 = poucos sintomas
76
2 = problemas moderados, consideráveis, frequentemente presentes e/ou em nível moderado
3 = grave: problemas constantes, contínuos, com consequências para a qualidade de vida
Considerando os sintomas somáticos em geral, indique se o usuário apresenta*:
0 = nenhum sintoma
1 = poucos sintomas
2 = número moderado de sintomas
3 = grande quantidade de sintomas
A pontuação na escala SS é a soma da gravidade dos três sintomas (fadiga, acordar sem descanso,
sintomas cognitivos) mais a extensão (gravidade) dos sintomas somáticos em geral. A pontuação final
varia de 0 a 12.
Sintomas somáticos que podem ser considerados: dor muscular, síndrome do intestino irritável, fadiga,
cansaço, pensar no problema ou lembrar-se dele, fraqueza muscular, dor de cabeça, dores/caibras no
abdome, dormência/formigamento, tontura, insônia, depressão, constipação, dor no abdome superior,
náusea, nervosismo, dor no peito, visão enevoada, febre, diarreia, boca seca, coceira, respiração ofegante,
fenômeno de Raynaud, urticária/coceira, zumbido nos ouvidos, vômitos, azia, úlceras orais,
perda/mudança de gosto, convulsões, olhos secos, perda de fôlego, perda de apetite, erupção,
sensibilidade ao sol, dificuldades de audição, facilidade de gerar hematomas, perda de cabelo, urinação
frequente, urinação dolorosa e espasmos da bexiga.
(Extraída de Wolfe, F., Clauw, D.J., Ftzcharles M.A., Goldenberg, D. L., Katz, R.S., Mease P., Russell, A.S.,
Russell, I.J., Winfield, J.B., Yunus, M.B. The American College of Rheumatology preliminary diagnostic
criteria for fibromyalgia and measurement of symptom severity. Arthritis Care Res. 2010;62(5):607, com
permissão.)
[Link] Tratamento
Intervenções e Estratégias não Medicamentosas: A dor crônica é um estado de saúde
persistente que modifica a vida, o objetivo do seu tratamento é o controle e não sua eliminação. Os
usuários com fibromialgia devem ser orientados a realizarem exercícios musculoesqueléticos pelo
menos duas vezes por semana. Programas individualizados de exercícios aeróbicos podem ser
benéficos para alguns usuários
O programa de exercícios deve ter início em um nível logo abaixo da capacidade aeróbica
do usuário e progredir em frequência, duração ou intensidade assim que seu nível de
condicionamento e força aumentar. A progressão dos exercícios deve ser lenta e gradual e se deve,
sempre, encorajar os usuários a dar continuidade para manter os ganhos induzidos pelos
exercícios. Programas individualizados de alongamento ou de fortalecimento muscular também
podem ser benéficos.
Outras terapias, como reabilitação e fisioterapia ou relaxamento, podem ser utilizadas no
tratamento da fibromialgia, dependendo das necessidades de cada usuário. A psicoterapia também
pode ser utilizada no tratamento da fibromialgia.
9.6 Infectologia
9.6.1 Sífilis
A neurossífilis (também denominada paresia geral) surge 10 a 15 anos após a infecção
primária por Treponema. Com o advento da penicilina, a neurossífilis tornou-se um transtorno raro,
embora a AIDS esteja associada com a reintrodução da neurossífilis à prática médica em alguns
78
centros urbanos. É também importante ressaltar que a partir do ano de 2013 os casos de
neurossífilis aumentaram no Brasil, devido à epidemia de sífilis.
Essa doença geralmente afeta os lobos frontais e resulta em alterações na personalidade,
baixo discernimento, irritabilidade e redução dos cuidados consigo mesmo. Delírios de grandeza
estão presentes em 10 a 20% dos usuários afetados.
Os primeiros sintomas incluem perda gradual de memória, diminuição da capacidade
intelectual e alterações da personalidade e do comportamento. O desenvolvimento de
manifestações psicóticas pode levar ao internamento destes doentes em hospitais psiquiátricos.
A doença avança com o desenvolvimento de demência e tremor até que o indivíduo fique
paralisado. Os sintomas neurológicos incluem pupilas de Argyll-Robertson, que são pequenas,
irregulares, desiguais e sem reflexo fotomotor, tremor, disartria e hiperreflexia. O exame do líquido
cerebrospinal exibe linfocitose, aumento de proteína e resultado positivo no teste de VDRL
(Laboratório de Pesquisa para Doenças Venéreas).
Caso não seja tratada, a paralisia geral evolui para apatia, hipotonia, deterioração física e
demência, levando à morte em 4 a 5 anos. O tratamento interrompe a progressão, mas raramente
ocorre recuperação das funções neurológicas e cognitivas perdidas
O tratamento indicado da neurossífilis consiste na administração de 18-24 milhões U por dia
de penicilina G aquosa cristalizada, por via endovenosa, fracionada em doses de 3-4 milhões U de
4 em 4 horas, durante 10 a 14 dias.
No caso de alergia à penicilina, poderá utilizar ceftriaxona na dose de 2g por dia, por via
endovenosa ou intramuscular, durante 10 a 14 dias. Existem, no entanto, poucos estudos
controlados que demonstrem a eficácia do tratamento alternativo com ceftriaxona, pelo que só
deverá ser usado se a história de alergia à penicilina for consistente, podendo, no entanto, ocorrer
reação cruzada entre os dois antibióticos. Em mulheres grávidas com neurossífilis que referem
alergia à penicilina, deverá ser feita dessensibilização previamente à administração de penicilina.
79
Os ISRSs parecem mais tolerados do que os ADTs e possuem um menor perfil de
risco de interação medicamentosa com os antirretrovirais.
A psicoterapia e a intervenção psicoeducacional podem aumentar a adesão aos agentes
antirretrovirais, assim como reduzir os sintomas depressivos.
Diante de um quadro maniforme (agitação psicomotora, euforia, ansiedade, insônia, etc.) em
usuário com infecção por HIV/aids, deve-se considerar que esse pode não ser apenas a
manifestação do transtorno bipolar, mas sim decorrente de efeitos adversos de medicamentos ou
condições relacionadas à aids. De modo geral, quadros de mania secundários à infecção por
HIV/aids tendem a ocorrer nas fases mais tardias da infecção.
Vale ressaltar que quadros clínicos com déficit cognitivo associado à infecção por HIV
podem apresentar períodos de irritabilidade e hipomania. A abordagem farmacológica de
sintomas maníacos inclui antipsicóticos e/ou estabilizadores do humor, sendo que a interação com
antirretrovirais deve ser sempre considerada.
Efavirenz
Substrato da CYP3A4
Aumento no nível de: lorazepam, midazolam e pimozida
Principalmente indutor, mas também
Redução no nível de: bupropiona, carbamazepina e
inibidor da CYP3A4
sertralina
Inibidor da CYP2C19
Carbamazepina reduz nível de efavirenz
Inibidor da CYP2D6
Etravirine
Substrato da CYP3A4, da CYP2C9 e da
Aumento no nível de diazepam
CYP2C19
Carbamazepina, fenitoína e fenobarbital reduzem o nível
Fraco indutor da CYP3A4
de etravirine
Fraco inibidor da CYP2C9 e da
CYP2C19
Fonte: Ricardo 2018, Adaptada de Taylor e colaboradores, 2015
9.6.3 Hepatite
A insuficiência hepática, por exemplo, está geralmente associada a história pregressa ou
atual de alcoolismo, com sinais clínicos claramente sugestivos do diagnóstico: icterícia,
telangectasias, hepato e esplenomegalia, “flapping” e odor hepático.
80
Em alguns casos, a primeira manifestação psiquiátrica da doença é um
comportamento hipomaníaco, ainda que a maioria evolua para um quadro de delirium apático
e, em casos não tratados, coma e óbito. Acredita-se que o excesso de amônia circulante seja
responsável pelo desenvolvimento da encefalopatia hepática.
Cerca de 350 milhões de pessoas no mundo são portadoras do vírus da hepatite B, enquanto
170 milhões carregam o vírus da hepatite C. Apesar de ser mais prevalente, a hepatite B apresenta
menor porcentagem de evolução para cronicidade (10% versus 60% na hepatite C). Ambas estão
relacionadas à cirrose e ao carcinoma hepatocelular.
Em relação aos transtornos psiquiátricos associados, ambas apresentam maior prevalência
de depressão. Acredita-se que o diagnóstico de hepatite e a falta de informações sobre a
progressão da doença contribuam para o surgimento de uma reação de ajustamento que pode
evoluir para um transtorno depressivo. Além disso, o vírus da hepatite C, ao contrário do vírus da
hepatite B, é neurotrópico, podendo infectar macrófagos e células gliais, o que pode contribuir para
o fato de a depressão ser mais frequente em usuários com hepatite C do que em portadores de
hepatite B.
A infecção pelo vírus da Hepatite C (VHC) representa atualmente uma situação pandêmica,
tendo sido estimado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que 3% da população mundial
(aproximadamente 170 milhões de indivíduos).
De acordo com os dados mais recentes, a via mais comum de transmissão do HCV está
relacionada com o uso de drogas por via endovenosa. A transmissão sexual não é um mecanismo
comum, tendo-se encontrado uma prevalência estimada de apenas 1.5% nos parceiros sexuais de
indivíduos com Hepatite C.
A progressão para Hepatite C crônica ocorre em 50 a 85% dos casos, com um curso
insidioso e prolongado nos primeiros 20 anos. A hepatite moderada a grave desenvolve-se em 1/3
dos doentes 20 anos após a infecção, e a cirrose ocorre em 15 a 20% dos doentes com hepatite C
crônica. Os fatores que promovem a progressão para hepatite crônica incluem o consumo de álcool,
sexo masculino, idade superior a 40 anos na altura da infecção e forma histológica grave na altura
do diagnóstico inicial. A co-infecção com VIH e/ou Hepatite B também constituem fatores de risco
para doença hepática mais grave e precoce.
Para além destes problemas, os indivíduos infectados com VHC podem apresentar uma
ampla gama de problemas de natureza neuropsiquiátrica, entre os quais fadiga crônica, ansiedade,
depressão e déficits cognitivos.
Duas linhas distintas de evidência epidemiológica parecem sugerir a existência de uma
associação entre a infecção por VHC e a ocorrência de depressão. Por um lado, os indivíduos com
Hepatite C crônica têm uma maior prevalência de perturbações psiquiátricas, incluindo depressão.
O tratamento de ambas as patologias é feito com o uso de interferon alfa em associação a
outros antivirais e tem duração de 6 a 12 meses. Trinta por cento dos usuários que utilizam interferon
desenvolvem sintomas depressivos, o que contraindica seu uso em usuários com transtornos
mentais instáveis.
81
O interferon aumenta a secreção de interleucinas pró-inflamatórias Il-6 e IL-8 e ambos levam
à indução de enzimas que degradam o triptofano, precursor da serotonina, reduzindo a quantidade
dessa substância no organismo. Os sintomas depressivos costumam aparecer dentro das primeiras
12 semanas de tratamento, de forma rápida, e se relacionam à dose do interferon, ao tempo de
tratamento e à presença de sintomas depressivos prévios. O interferon também pode induzir
sintomas de mania ou hipomania.
Quando se relacionam sintomas depressivos com a hepatite C, devemos nos lembrar de
que a principal via de contaminação é o uso de drogas endovenosas. Entre os usuários de drogas,
incluindo álcool, existe uma grande comorbidade com transtornos do humor. A contaminação
com vírus do HIV dar-nos-ia particularidades diferentes da população exposta ao risco, assim como
das medicações necessárias para o seu tratamento, sem contar as infecções oportunistas às quais
os portadores do vírus já estão expostos.
O tratamento da depressão em usuários com hepatites virais, tanto primárias quanto
induzidas pelo interferon, deve ser feito com o uso de ISRS. Embora considerados seguros,
sua associação com o interferon aumenta o risco de hemorragia gastrintestinal, retiniana e
disfunção plaquetária, devendo ser usados com cautela.
O uso de antidepressivos tricíclicos e inibidores da monoamino-oxidase (IMAO) não é
indicado, por causa dos efeitos colaterais e do risco de interação medicamentosa. O uso de
benzodiazepínicos deve ser evitado, em razão do potencial de sonolência, associado a sua
metabolização errática em usuários hepatopatas.
Os usuários podem evoluir com rebaixamento do nível de consciência. Assim, quando
houver necessidade da prescrição deles, deve-se dar preferência aos de curta meia-vida e que
possuem menor número de passagens hepáticas.
Entre os estabilizadores do humor, o lítio, e também a carbamazepina, parecem ser opções
seguras, e as duas últimas, pelo potencial de alterações hepáticas menores, devem ser monitoradas
de perto. Os sais derivados do ácido valproico estão associados a um grande número de relatos de
hepatotoxicidade (acima de 1/10.000 usuários), especialmente em usuários pediátricos.
Trata-se de um problema complexo, mas não é por isso que não poderá ser tentado um
atendimento conjunto para o benefício de todos os usuários. Na literatura mais recente, são comuns
os relatos de tratamentos simultâneos da citocina com antidepressivo, obtendo-se bons resultados.
9.7 Neurologia
82
9.7.1 Traumatismos
Um dos modelos iniciais é o de lesão traumática, como no caso de Phineas Gage,
trabalhador de rodovias que sofreu uma lesão nos lobos frontais em meados do século XIX. O
padrão e a gravidade da lesão podem estar associados a diferentes alterações comportamentais e
cognitivas, que podem estar presentes a partir de seis meses após a lesão (em especial depressão,
mas também êxito suicida, ansiedade em geral e TEPT ou, excepcionalmente, em períodos
superiores a um ano (no caso de psicoses e transtornos mentais relacionados ao álcool e outras
substâncias).
As principais alterações comportamentais relacionadas a lesão traumática cerebral são:
depressão, TEPT, agressividade e psicose, sendo ainda relatados quadros maniformes. Há,
também, associação entre maior risco de êxito em suicídio e antecedente de lesão traumática
cerebral.
O manejo dos quadros relacionados à lesão traumática cerebral é sintomático, mas muitas
vezes, é central para melhorar a adesão ao tratamento global, bem como para melhorar a qualidade
de vida do usuário. Antidepressivos devem ser usados para o manejo de quadros depressivos e
ansiosos devido à extrapolação de sua eficácia no manejo de transtornos psiquiátricos primários.
Carbamazepina e ácido Valproico são recomendados como primeira linha de
tratamento em portadores de lesão traumática cerebral para o manejo de agitação,
agressividade, raiva e irritabilidade, em especial na presença de oscilação do humor.
O uso de neurolépticos apresenta eficácia questionável para o manejo preventivo de quadros
de agitação, agressividade ou irritabilidade, mas há evidência para o manejo de quadros agudos. O
uso de BZDs deve ser realizado com cuidado, em especial pelo potencial de efeitos paradoxais e
risco de sedação excessiva.
83
Figura 04 – História natural da síndrome demencial comparada ao envelhecimento normal
86
Quadro 15 – Escala de Depressão Geriátrica (GDS)
10 Acha que tem mais problemas de memória que a maioria? Sim = 1 Não = 0
[Link] Tratamento
O tratamento do declínio cognitivo e da demência inicial é baseado na abordagem
comportamental, que, por meio de técnicas de fácil utilização, auxiliam o usuário no trato com
problemas do dia a dia. Preconiza-se o uso de calendários, agendas, relógios e correção cuidadosa
dos erros cometidos.
Em casos de demência moderada ou grave, o uso de medicações procura retardar o declínio
cognitivo. As mais utilizadas são os inibidores da acetilcolinesterase, como donepezil, rivastigmina
e galantamina.
O uso de antidepressivos em usuários com demência é incerto. As metanálises não
encontraram grandes diferenças entre os medicados e os não medicados para sintomas
depressivos em quadros de demências
O uso de antipsicóticos é reservado para situações nas quais há presença de
alterações comportamentais importantes, como agitação, irritabilidade, delírio e alucinações.
Nesse caso diferentemente do delirium, a preferência recai sobre os antipsicóticos de
segunda geração, devido ao perfil de efeitos colaterais.
Recomendações Gerais
A partir do estudo brasileiro feito por Brucki et al. (2011), pode-se preconizar, no âmbito do
Sistema Único de Saúde:
87
Incentivar atividade física regular para pessoas saudáveis, usuários com doença
cerebrovascular e usuários com declínio cognitivo (nível de evidência B);
Adaptar a dieta e modificação dos hábitos alimentares, incentivando-se o consumo de
alimentos com predomínio de vegetais, ácidos graxos insaturados, grãos e peixes (nível de
evidência B);
Evitar o consumo de doses elevadas de álcool (nível de evidência C);
Incentivar a manutenção de peso adequado (nível de evidência C);
Fazer uso de anti-hipertensivos, nos casos de hipertensão, o que pode reduzir o risco de
declínio cognitivo e demência, incluindo a demência vascular. Não há evidências para
recomendações do uso de uma classe específica de anti-hipertensivos (nível de evidência
B);
O uso de estatinas em indivíduos idosos, em sujeitos com fatores de risco vasculares, não
é recomendado com objetivo exclusivo de prevenção ou tratamento das demências (nível
de evidência B);
Não se recomenda o controle intenso da glicemia (Hb glicada < 6%) para a prevenção
exclusiva de declínio cognitivo em usuários diabéticos (nível de evidência B);
O tratamento das comorbidades potencialmente reversíveis associadas a insuficiência
cardíaca em usuários idosos (anemia, Hipertensão Arterial Sistêmica – HAS, anormalidades
de eletrólitos, hiperglicemia, hipoalbuminemia) pode reduzir o declínio cognitivo nestes
usuários (nível de evidência C). O uso de inibidores da ECA pode ser recomendado em
usuários com insuficiência cardíaca independente do tratamento dos níveis pressóricos
(nível de evidência C);
A apnéia do sono deve ser pesquisada e tratada em usuários com demência, podendo trazer
algum benefício cognitivo (nível de evidência C);
A cessação de tabagismo deve ser recomendada em qualquer época da vida (nível de
evidência C);
Não é recomendado o uso de antiagregantes para prevenção primária de declínio cognitivo
e demência (nível de evidência B). Em usuários com Alzheimer não é indicada a
administração de ácido acetilsalisílico como tratamento da demência, exceto quando
indicado por motivos cardiovasculares (nível de evidência B);
A revascularização carotídea, através de stent na artéria carótida (CEA) ou endarterectomia
de carótida (CAS), em usuários com estenose carotídea sintomática não afeta o
desempenho cognitivo. A revascularização carotídea não deve ser recomendada com
objetivo de preservar ou melhorar a função cognitiva (nível C).
88
Figura 05 – Avaliação diagnóstica dos quadros demências
[Link] Encaminhamento
No caso de suspeita de declínio cognitivo e demência em idosos (acima de 60 anos), após
avaliação clínica (MEEM e escala global) e descartar causa orgânica, deve-se encaminhar para
acompanhamento com a geriatria. No caso dos usuários com menos de 60 anos deve-se
encaminhar para a neurologia.
Em caso de apresentar comorbidade psiquiátrica seguir o protocolo de encaminhamento
conforme a suspeita diagnóstica (depressão, ansiedade, delirium, etc).
89
9.7.3 Acidente Vascular Cerebral (AVC)
O AVC é uma das mais importantes causas de morbimortalidade no mundo, com um número
crescente de pessoas sendo diagnosticadas anualmente. Entre esses usuários, manifestações
psiquiátricas, como quadros depressivos e delirium, são muito prevalentes, podendo ser
observadas, também, taxas altas de sintomatologia ansiosa.
A depressão tem uma relação dupla com o AVC, sendo tanto um fator de risco como
uma complicação comum pós-AVC, acometendo 39 a 57% dos usuários no primeiro ano após
o evento. A depressão pós-AVC está associada a maior mortalidade e pior qualidade de vida.
Alguns estudos sugerem, ainda, menor investimento pessoal na reabilitação, maior permanência
hospitalar e pior função cognitiva. O tratamento dessa comorbidade psiquiátrica é central para a
melhor evolução do quadro de base, assim como há evidências em relação à redução da
mortalidade.
A psicopatologia da depressão pode variar em função da lateralização do AVC; usuários
com AVC no hemisfério direito apresentam, com maior frequência, depressão sem humor
depressivo. A depressão está relacionada a prejuízo cognitivo e à piora do comprometimento
funcional, com impacto direto para o restabelecimento de usuários com sequelas.
Transtornos de ansiedade pós-AVC ocorrem em menor proporção, aproximadamente
20 a 26%, estando associados com piora da reabilitação, assim como afetando de modo negativo
a qualidade de vida e a recuperação em longo prazo.
Para o manejo dos sintomas depressivos e ansiosos, o tratamento é similar ao dado à
população geral, sendo fundamentado em prescrição de antidepressivos e encaminhamento para
psicoterapia. Entre os antidepressivos, de maneira geral a escolha deve levar em conta a existência
de evidência de sintomas depressivos, bem como os riscos associados a seu uso, como efeitos
sobre a pressão arterial e a frequência cardíaca. Em geral, sendo os mais bem-estabelecidos os
inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS).
Alguns aspectos devem ser lembrados:
Hipotensão postural (risco de quedas), principalmente com tricíclicos, mas também com
trazodona;
Diminuição do limiar convulsivo (risco de convulsão), principalmente com bupropiona e
maprotilina;
Diminuição do nível de consciência (risco de delirium), principalmente com tricíclicos.
A associação de psicoterapia, bem como medidas de suporte social, apresentam impacto
positivo na recuperação dos usuários. O foco dessas terapias deve ser a reinserção do indivíduo
no seu contexto social e o treinamento de habilidades que possibilitem uma progressiva
independência funcional do usuário.
9.7.4 Epilepsia
Denomina-se epilepsia o conjunto variado de condições do sistema nervoso central (SNC)
que têm como elemento comum a ocorrência das crises epilépticas recorrentes. As crises
90
epilépticas são eventos súbitos e transitórios que podem se manifestar por uma grande variedade
de sintomas e sinais e que têm como base fisiopatológica uma descarga neuronal excessiva no
SNC, a descarga epileptiforme. As manifestações clínicas das crises epilépticas refletem os
fenômenos de excitação e inibição neuronal na área cerebral afetada.
A prevalência de indivíduos portadores de epilepsia em unidades de saúde mental é nove
vezes maior que a da população geral, o que aponta o alto índice de comorbidade entre epilepsia e
doença mental.
Os transtornos mentais associados à epilepsia são divididos em:
Transtornos periictais: aqueles que surgem em proximidade temporal à ocorrência das crises
epilépticas ou mudanças súbitas na frequência das mesmas. São subdivididos em periictais, pós-
ictais, parasitais e alternantes:
Presença de relação temporal estreita com crises;
Em regra, início abrupto, curta duração (horas a dias) e remissão completa;
Alteração da consciência é comum, porém não obrigatória;
Presença de anormalidades no EEG (com exceções).
Transtornos mentais interceptais: não se observa relação temporal com as crises epilépticas,
elas estão presentes entre as crises ou mesmo na ausência delas. Consciência em geral
preservada, com possíveis exceções. Os transtornos mentais mais comuns associados à epilepsia
são:
Disfóricos;
Depressão ictal, pós-ictal e interictal;
Estado de mal de ausência e parciais complexos;
Delirium pós-ictal;
Psicose pós-ictal e interictal;
Transtornos alternantes - fenômeno clínico da melhora das crises epilépticas;
Associada ao surgimento de quadro psicótico;
Agressividade;
Transtornos de personalidade.
O diagnóstico precoce dos fatores de risco possibilita a instauração de medidas de
prevenção e reabilitação. Programas educativos ao público e aos profissionais de saúde favorecem
a redução do impacto psicossocial associado à epilepsia e facilitam o reconhecimento precoce dos
indivíduos sob risco de transtornos mentais.
Programas psicopedagógicos para grupos de usuários e familiares, grupos de auto-ajuda e
intervenções psicoterapias proporcionam aporte de informação; auxílio na elaboração e aceitação
da doença; combate ao estigma, medo, restrição excessiva, baixa auto-estima e desesperança.
92
Fenotiazínicos também podem provocar a elevação dos níveis séricos de fenitoína e de
valproato de sódio.
93
9.9 Dermatologia
9.9.1 Psoríase
A psoríase caracteriza-se por uma hiperplasia epidérmica na qual a renovação da pele
assemelha-se ao processo cicatricial, com crescimento acelerado dos queratinócitos (2 a 4 dias) e
posterior descamação do excesso de células, produzindo as típicas lesões da psoríase.
É uma doença inflamatória, crônica e recorrente, com componente genético importante, mas
que exige certos fatores ambientais para se manifestar, como:
Estresse;
Tabagismo;
Consumo de álcool;
Trauma;
Infecções;
Uso de certos medicamentos (lítio, inibidores da enzima conversora de angiotensina,
betabloqueadores, bloqueadores de canal de cálcio [bpm:] e anti-inflamatórios não
hormonais [ainh]).
A psoríase apresenta prevalência de 1 a 3% e maior incidência por volta dos 30 anos e o
estado emocional do usuário tem importante impacto na evolução da doença.
O prejuízo da autoimagem corporal gerado pelas lesões descamativas contribui para o
aumento da prevalência de transtornos psiquiátricos na população com psoríase, sendo os mais
importantes:
Transtornos depressivos;
Transtornos ansiosos;
Transtornos de personalidade.
Intervenções psicossociais, meditação e controle de estresse, são eficazes na redução da
atividade da psoríase.
Quanto à psoríase induzida por lítio, sua incidência varia entre 1,8 e 6%. Ocorre nos
primeiros anos de tratamento, com remissão após a suspensão do medicamento.
9.10 Gastroentorologia
96
A dispepsia não contraindica o uso de antidepressivos no tratamento dos sintomas
depressivos e ansiosos dos usuários com dispepsia funcional, sendo os ISRS a primeira opção
de antidepressivo.
99
As alterações neurológicas e mentais como apatia, depressão, irritabilidade e alterações
bruscas de humor, são observadas em cerca de 80% de todos os usuários. Essas alterações são
normalmente associadas a anemia megaloblástica, mas algumas vezes antecedem o início de
anormalidades hematológicas.
Em alguns indivíduos, encefalopatia e os sintomas associados de delirium, delírios,
alucinações, demência, às vezes características paranoides, são proeminentes e também podem
ser chamados de loucura megaloblástica.
Causas:
Cirurgias que reduzem as dimensões do estômago, como as gastrectomias totais ou parciais
e as cirurgias bariátricas;
Doenças inflamatórias do intestino e as que provocam má absorção;
Uso crônico de medicamentos para reduzir a concentração de ácido no suco gástrico
(omeprazol, ranitidina, etc.);
Uso de metformina no diabetes;
Dietas vegetarianas ou pobres em alimentos de origem animal.
Embora níveis sanguíneos de B12 muito baixos estejam associados à deficiência, é raro
encontrá-los. Resultados na faixa de normalidade não excluem a possibilidade de haver déficit.
Exames falso-negativos e falso-positivos são frequentes.
O diagnóstico é feito com base nas dosagens sanguíneas de ácido metilmalônico e
homocisteína, que se encontram elevadas em 98% dos casos. Como a reposição vitamínica
provoca diminuição progressiva dessas concentrações, a primeira dosagem deve ser pedida antes
de iniciar o tratamento.
No tratamento da deficiência da vitamina B12, que não seja por deficiência alimentar,
recomenda-se a administração intramuscular na dose de 1000 μg por semana, durante um mês,
seguida de uma injeção na mesma dose por mês, pelo resto da vida. Doses entre 125 e 500 μg/dia
podem ser administradas em casos de deficiência nutricional ou má-absorção.
As manifestações neurológicas da deficiência de vitamina B12 podem ser interrompidas
rápida e completamente por meio da administração contínua e logo de início de terapia vitamínica
parenteral.
A anemia geralmente é corrigida em dois meses. O quadro neurológico regride parcial ou
completamente em seis meses. O tratamento é mantido por períodos longos ou pela vida toda.
A reposição oral tem sido proposta, já que 1% da vitamina B12 ingerida é absorvida
livremente. A dose por via oral é de 1.000 a 2.000 microgramas diárias. A vitamina B12 não está
incluída na REMUME de Joinville e é prescrita conforme critério médico.
100
o avanço da idade. Sua carência pode causar anemia megaloblástica, alterações bioquímicas,
aumento do fator de risco para doenças cardiovasculares, entre outros.
O metabolismo do folato e da vitamina B12 está intimamente correlacionado. Ambas são
necessárias para a metilação da homocisteína em metionina e para outras reações de metilação
envolvendo o metabolismo de neurotransmissores. Postula-se que um defeito no processo de
metilação seja o motivo central para a base bioquímica dos distúrbios neuropsiquiátricos dessas
deficiências vitamínicas.
Enquanto a deficiência de folato geralmente causa depressão, a deficiência de
vitamina B12 está associada à neuropatia periférica. Ambas causam demência e deficiência
cognitiva, doenças comuns em idosos.
O ácido fólico participa da síntese de purinas e pirimidinas, compostos utilizados na
formação do DNA. As coenzimas do folato são essenciais para a transformação de unidades
monocarbonadas e para maturação das hemácias e dos leucócitos na medula óssea.
A deficiência de ácido fólico está associada a uma ingestão alimentar insuficiente, às
doenças de má absorção intestinal, ao uso abusivo de álcool, à anemia hemolítica, à psoríase, ao
aumento da proliferação celular, à doença hepática, à nutrição parenteral prolongada e ao uso de
determinados medicamentos
Os níveis baixos de folato estão associados a um nível elevado de homocisteína plasmática,
atualmente considerada um fator de risco independente para doenças cardiovasculares. Esse nível
elevado de homocisteína apresenta uma taxa de prevalência de 28 a 42 % em várias populações
com doença cardiovascular e carregam risco elevado para doença vascular oclusiva prematura.
Concentrações elevadas de homocisteína no cérebro estão associadas com risco
aumentado de lesão cerebrovascular e neurotoxicidade. Vários são os mecanismos propostos
para explicar essa relação, tais como: prejuízo da vasodilatação endotélio-dependente, inibição da
enzima óxido nítrico sintetase, promoção da peroxidação lipídica, prejuízo do potencial antioxidativo
celular, aumento da agregação plaquetária, inibição dos anticoagulantes naturais, ativação da
apoptose neuronal e estresse oxidativo aumentado.
Verificaram associação entre a deficiência do ácido fólico e a atrofia do córtex cerebral
em idosos portadores da doença de Alzheimer. O ácido fólico exerce importante papel no
desenvolvimento do sistema nervoso central, no metabolismo de neurotransmissores e na
preservação e integridade da memória com o avanço da idade.
A deficiência de ácido fólico também pode estar associada a sintomas depressivos
seguidos de demência e neuropatia periférica. Baixos níveis de folato e seus derivados estão
correlacionados à gravidade e a duração desses sintomas.
Para muitos pesquisadores, doenças crônicas e inflamatórias, uso simultâneo de múltiplos
medicamentos, sangramento gastrintestinal imperceptível, bem como situação econômica
desfavorável, inabilidade física para compra e preparo das refeições, alcoolismo e desconhecimento
do valor nutricional dos alimentos seriam outros fatores, reconhecidos como desencadeantes de
inadequação e deficiência nutricional.
101
As medicações fenitoína, fenobarbital, primidona, aspirina, colestipol, cicloserina,
metotrexato e enzimas pancreáticas reduzem os níveis de ácido fólico, enquanto que o ácido
aminosalicílico, antiácidos, colestiramina, anticoncepcionais de estrogênios, bloqueadores H2 e a
carbamazepina reduzem sua absorção.
A excreção do ácido fólico está aumentada quando há administração de diuréticos e sua
absorção pode ser diminuída em tratamento com metformina. A suplementação com ácido fólico
pode antagonizar os efeitos do tratamento com pirimetamina.
Os valores séricos considerados como deficiência do nível de folato são considerados
menores que 7nmol/L. Caso seja diagnosticada uma deficiência de ácido fólico, o tratamento
habitualmente consiste na suplementação do mesmo, mas deve-se ter cuidado na administração
de ácido fólico em usuários anêmicos e com deficiência de vitamina B12, pois pode haver
mascaramento dos sintomas da anemia perniciosa, também pode exacerbar as convulsões em
usuários com a patologia reconhecida.
Na prevenção da toxicidade provocada pelo metotrexato deve-se administrar 1 comprimido
de ácido fólico 2 mg ao dia, ou 1 comprimido de ácido fólico 5 mg uma vez por semana durante o
tratamento com metotrexato.
Para o tratamento de hiperhomocisteinemia ou deficiência deve-se administrar 1 comprimido
ácido fólico 5 mg ao dia, por 8 a 12 semanas. A posologia de ácido fólico pode ser alterada a critério
médico, não devendo ultrapassar a dose máxima de 15 mg/dia de ácido fólico.
102
Quadro 16 – Indicadores de saúde para vários níveis da 25-OHD3
20 – 32 50 – 80 Insuficiência
< 1 ano 2000 UI, por 12 semanas Pelo menos 400 UI/dia
Não há recomendação
1-12 anos 3000-6000 UI, por 12 semanas específica sobre doses Pelo menos 600 UI/dia
semanais
> 12 anos 6000 UI, por 12 semanas Pelo menos 600 UI/dia
< 1 ano 2000 UI, por 8-12 semanas 50.000 UI, por 6-8 semanas 400-1000 UI/dia
1-18 anos 2000 UI, por 8-12 semanas 50.000 UI, por 6-8 semanas 600-1000 UI/dia
> 18 anos 6000 UI, por 6-8 semanas 50.000 UI, por 6-8 semanas 1500-2000 UI/dia
103
10 TRANSTORNOS MENTAIS COMUNS
10.1 Depressâo
10.1.4 Idoso
Idosos em depressão têm alto risco de recorrência incapacidade crônica e mortalidade
aumentada. A idade por si só não é fator de risco para depressão, mas situações como viuvez e
doenças médicas com perda de autonomia aumentam a vulnerabilidade.
106
Depressão em idosos é particularmente subdiagnosticada e subtratada pelas diferenças na
apresentação (mais sintomas somáticos), mas também por uma tendência a aceitar os sintomas
depressivos como parte normal do envelhecimento.
A apresentação pode diferir pela maior ênfase em sintomas somáticos, como dores,
tonturas, dispneia, palpitação. Outros sinais e sintomas comuns nos idosos são: energia e
concentração reduzidas, transtornos do sono (insônia terminal, sono entrecortado), perda de apetite
e perda de peso.
O déficit cognitivo pode ser facilmente confundido com demência (pseudo demência, própria
da depressão), e podem ser necessários testes como o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) ou
um ensaio terapêutico com antidepressivos para se ter segurança do diagnóstico.
Em usuários com demência e outros distúrbios neurológicos como Parkinson e sequelas de
acidente vascular cerebral (AVC), a depressão responde a antidepressivos e deve ser tratada da
mesma maneira que nos usuários sem demência da mesma faixa etária.
Idosos têm alto risco de suicídio e solidão é o principal motivo relatado para considerar a
possibilidade de suicídio. Aqueles com perdas recentes, principalmente de cônjuge, e doenças
médicas limitantes e incapacitantes, devem ser rastreados ativamente para depressão e suicídio.
107
10.1.6 Tratamento
109
Doses iniciais de ISRSs para crianças pré-púberes são menores do que as recomendadas
para adultos, mas adolescentes são em geral tratados com as mesmas dosagens indicadas para
adultos.
Os ISRS são os medicamentos mais seguros e com alguma evidência de eficácia em
crianças e adolescentes. Em adolescentes pode-se usar fluoxetina, iniciando com doses de 10
mg e passando a 20mg de acordo com a tolerância. Os tricíclicos têm pouca eficácia em
adolescentes.
Um possível efeito colateral dos ISRSs em crianças deprimidas é a ativação
comportamental, ou a introdução de sintomas hipomaníacos. Nessas situações, os medicamentos
devem ser interrompidos para determinar se a ativação resolve com a descontinuação ou se evolui
para um episódio hipomaníaco ou maníaco. Ativação devido a ISRSs, contudo, não serve
necessariamente para predizer um diagnóstico de transtorno bipolar.
Com base em dados longitudinais disponíveis e no histórico de depressão maior em crianças
e adolescentes, as recomendações atuais incluem manter o tratamento com antidepressivos por 6
meses para crianças que obtiveram boa resposta e retirada gradualmente.
A FDA colocou um alerta “tarja preta” alertando para antidepressivos, incluindo todos os
agentes ISRS, usados no tratamento de qualquer transtorno infantil, devido a preocupações sobre
o aumento no número de suicídios; todavia, nenhum estudo individual sobre depressão infantil
encontrou aumento significativo em termos estatísticos sem ideias ou comportamentos suicidas.
Manejo de episódio depressivo unipolar:
Quadros leves: medidas de suporte ou tratamento psicossocial, se disponível. Caso não haja
resposta em 4 a 6 semanas: psicoterapia e medicação.
Quadros moderados: medidas de suporte ou tratamento psicossocial, se disponível; em
alguns casos, medicação. A medicação também deve ser usada se os pacientes não se
beneficiarem após 4 a 6 semanas de medidas de suporte ou tratamento psicossocial.
Quadros graves: tratamento psicossocial junto com medicação.
Depressão psicótica: tratamento de quadro grave, mas adiciona antipsicótico de segunda
geração.
Tratamento Medicamentoso na Gestação e Puerpério: Se optar por prescrever um
antidepressivo durante a gestação, a fluoxetina é o que tem menos riscos conhecidos. Os
tricíclicos também podem ser utilizados, sem aumento de risco de malformações. Todos os
antidepressivos podem causar sintomas discretos de abstinência e de toxicidade no neonato
(irritabilidade, choro, flacidez, inquietação, tremor, dificuldades com sono e alimentação), mas estes
geralmente são leves e transitórios.
Quanto ao uso durante a lactação, os efeitos dos antidepressivos no bebê são menos
conhecidos, sendo os mais estudados e considerados seguros os tricíclicos, preferencialmente em
dose única ao deitar. Os efeitos colaterais, como sedação e irritabilidade, devem ser pesquisados
no bebê.
110
Benzodiazepínicos podem ser prescritos apenas em casos de agitação ou ansiedade
intensa e por curtos períodos, pelos riscos de fenda palatina e síndrome do bebê flácido
(floppy infant). Mulheres que engravidam quando em uso de benzodiazepínicos devem retirá-los
gradativamente, substituindo-os por outras estratégias de manejo de ansiedade.
Tratamento Medicamentoso para o Idoso: O tratamento psicofarmacológico da depressão no
idoso depende essencialmente do perfil de tolerabilidade do usuário em relação aos
antidepressivos.
Os ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) como a Fluoxetina constituem a
primeira escolha.
Em geral, os antidepressivos tricíclicos não constituem a primeira escolha para usuários
idosos devido aos efeitos adversos, principalmente anticolinérgicos. Quando for necessário
prescrever medicamento dessa classe, recomenda-se a amitriptilina, iniciando-se com baixas
doses e com elevação cautelosa das mesmas.
Deve-se ter atenção para os efeitos adversos dos medicamentos prescritos e para o
risco de interação medicamentosa. Devido à presença de várias enfermidades que comumente
acometem os idosos, eles tendem a fazer uso de vários medicamentos, com risco elevado de
interação medicamentosa com potencialização de efeitos adversos.
Cuidado especial deve-se ter ao prescrever diazepam, que se acumula nos tecidos
lipofílicos e pode ter uma meia vida de 4 a 5 dias em idosos, gerando aumento progressivo de efeito
e risco de ataxia, sonolência, confusão, quedas e déficit cognitivo. A fluoxetina também pode
se acumular com o tempo de uso e ter seu efeito (e toxicidade) aumentado após várias semanas
de uso, devendo-se ter cautela com a dose utilizada.
Especialmente, devem-se evitar drogas que produzam ou potencializem efeitos
anticolinérgicos, hipotensão postural, distúrbios do sistema de condução cardíaca e delirium.
10.2 Ansiedade
111
10.2.1 Avaliação e Diagnóstico
Conforme a CID-10 (F41) ansiedade generalizada e persistente que não ocorre
exclusivamente nem mesmo de modo preferencial numa situação determinada (a ansiedade é
“flutuante”). Os sintomas essenciais são variáveis, mas compreendem:
Nervosismo persistente;
Tremores;
Tensão muscular;
Transpiração;
Sensação de vazio na cabeça;
Palpitações;
Tonturas e desconforto epigástrico.
Pelo menos três de seis sintomas precisam estar presentes para um diagnóstico:
Inquietação ou nervosismo;
Fadiga;
Perda de concentração;
Irritabilidade;
Tensão muscular;
Sono perturbado.
Medos de que o usuário ou um de seus próximos irá brevemente ficar doente ou sofrer um
acidente são frequentemente expressos. Sua sinonímia inclui estado ansioso, neurose ansiosa e
reação de angústia. Deve ser diferenciado da neurastenia, codificada em outra seção.
O diagnóstico deve avaliar, portanto, se há desproporcionalidade, interferência muito
incômoda, diminuição de capacidades, prejuízos atuais e cronificação. Deve-se fazer o diagnóstico
diferencial de uma angústia normal, advinda de situações causadoras de sofrimento, das condições
neuróticas, vinculadas a predisposições e a características particulares da personalidade, montadas
na infância.
A equipe de saúde deve pesquisar ansiedade em usuários com:
Múltiplas consultas médicas (mais de cinco por ano);
Muitos sintomas físicos sem origem explicada, principalmente aqueles devido a
hiperatividade autonômica e tensão muscular;
Dificuldades no trabalho e nas relações interpessoais;
Fadiga, alteração de peso e problemas de sono.
O processo diagnóstico necessita de informações sobre a história pessoal, medicações em
uso (inclusive auto-medicação), antecedentes dos tratamentos prévios e respostas a eles, uso de
substâncias psicoativas (nicotina, álcool, cafeína, drogas recreativas), comorbidades clínicas,
funcionamento pessoal diário, vida social, manutenção de estressores crônicos e desenvolvimento
de sintomas fóbicos e evitativos.
Algumas perguntas podem ajudar na avaliação inicial do grau de ansiedade:
Você se considera muito preocupado?
112
Você já teve ataques de pânico?
Existem lugares ou situações que você evita?
Como a ansiedade e a evitação afetam sua vida?
Um cuidado que a equipe de saúde, na atenção primária precisam ter é o de não se apressar
para fazer o diagnóstico. Na ansiedade, como na depressão, há riscos de fazer identificações
equivocadas (falsos positivos).
Em caso de efetivo diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada deve haver diálogo
com o usuário sobre o tema, em linguagem pouco medicalizadora e não biologicista, tão logo
possível, para ajudar as pessoas a entender o problema, a se responsabilizar por ele, a repensar
suas pautas de relacionamento com pessoas e situações.
Encaminhar usuário para Equipe de Saúde Mental na Atenção primária referência da
Unidade de Saúde.
A medicalização excessiva provoca consumo abusivo e contraproducente de serviços
de saúde, fazendo declinar a capacidade de enfrentamento autônomo do cidadão. Nesta
situação, ele corre o risco de deixar ao médico a obrigação, fantasiosa, de conseguir um remédio
que extinga, magicamente, a causa dos sintomas. É comum que tais usuários, sem se preocupar
em buscar um sentido para seu sofrimento, visitem vários médicos, exigindo remédios que trocam
seguidamente, por dificuldade de entenderem os fatores pessoais, psíquicos e relacionais
envolvidos.
113
10.2.3 Gestação e Puerpério
Algumas mulheres podem vivenciar a gravidez como uma fonte de felicidade, satisfação e
autorrealização, outras, porém, podem vivenciar, neste momento, alterações em sua saúde mental,
como o desenvolvimento de ansiedade.
A evidência sobre a ansiedade pré-natal ainda é relativamente limitada quando comparada
à depressão pré-natal. Ainda que os índices de ansiedade materna durante a gravidez sejam
heterogêneos, sintomas de ansiedade e distúrbios são comuns no período perinatal, e os sintomas
podem variar de leve a grave.
As evidências sugerem que a probabilidade de sofrer ansiedade na gravidez aumenta em
caso de comorbidade psiquiátrica, eventos estressantes, vulnerabilidade social, histórico de aborto
espontâneo, morte fetal, parto prematuro ou morte neonatal precoce, histórico prévio de doença
mental e uma história de tratamento psiquiátrico durante uma gravidez anterior ou em qualquer
momento da vida.
10.2.4 Idoso
Os transtornos de ansiedade são comuns e causam grande impacto nos idosos. Com as
mudanças na demografia da população em geral, os transtornos de ansiedade na terceira idade se
tornaram uma fonte de alto custo pessoal e social. No entanto, sua detecção e seu diagnóstico são
complicados por comorbidades clínicas, declínio cognitivo e alterações nas circunstâncias da vida
que não são enfrentados por grupos etários mais jovens. Além disso, a expressão e o relato dos
sintomas de ansiedade podem diferir com a idade.
A prevalência estimada desses transtornos na terceira idade varia de 3,22 a 14,2%.3 Com
relação aos diagnósticos específicos, a prevalência de ansiedade generalizada varia de 1,2 a 7,3%.
A alta comorbidade de ansiedade com a doença médica é multidimensional. A ansiedade é
uma síndrome complexa e pode ser uma reação a uma doença médica, ser expressa como
sintomas somáticos, ou ser um efeito colateral de medicamentos. Estudos descobriram uma
associação entre ansiedade e doenças médicas, como diabetes, demência, doença coronariana,
câncer, doença pulmonar obstrutiva crônica e doença de Parkinson. Além disso, pelo menos um
estudo observou que a ansiedade está associada com maior risco de morte por todas as causas
em pessoas com idade a partir de 75 anos.
114
Doenças neurológicas: Doença cerebrovascular, epilepsia, doença de Huntington, doença
de Ménière, enxaqueca, esclerose múltipla, acidente vascular isquêmico, transitório, tumor,
doença de Wilson.
Doenças endócrinas: Doença de Addison, síndrome carcinoide, síndrome de Cushing,
diabetes, hipertireoidismo, hipoglicemia, hipoparatireoidismo, distúrbios da menopausa,
feocromocitoma, síndrome pré-menstrual.
Intoxicações por drogas: Anfetamina, nitrito de amilo, anticolinérgicos, cocaína,
alucinógenos, maconha, nicotina, teofilina, antidepressivos (ISRS).
Abstinência de drogas: Álcool, anti-hipertensivos, opiáceos e opioides, sedativo-hipnóticos
Outras condições: Dor crônica, anafilaxia, deficiência de vitamina B12, desequilíbrios
eletrolíticos, intoxicação por metais pesados, infecções sistêmicas, lúpus eritematoso
sistêmico, arterite temporal, uremia.
10.2.6 Tratamento
115
Em caso de dúvida pode-se solicitar segunda opinião formativa via
Teleconsultoria/Teleregulação ou Matriciamento.
As seguintes recomendações gerais devem ser feitas a todos os usuários e familiares
independente da prescrição de tratamento farmacológico:
O usuário deve ser encorajado a praticar métodos de relaxamento diários para reduzir os
sintomas físicos de tensão;
O usuário deve ser encorajado a envolver-se em atividades prazerosas e exercícios físicos
e a retomar atividades que foram úteis no passado;
Identificar e desafiar preocupações exageradas ou pensamentos pessimistas podem reduzir
os sintomas de ansiedade;
Identificar eventos que desencadeiam preocupação excessiva pode ajudar a formular
estratégias para reduzir a ansiedade;
Discutir o que o usuário está fazendo para manejar as situações desagradáveis,
identificando e reforçando atitudes que estão funcionando;
Identificar algumas medidas específicas que o usuário pode tomar nas próximas semanas;
Café, tabaco, bebidas alcoólicas, maus hábitos de sono e drogas ilícitas são fatores que
podem piorar os sintomas.
Técnica de relaxamento respiração diafragmática: Esta técnica de respiração consiste em
concentrar o ar na região do diafragma (músculo que fica na altura do estômago), fazendo a barriga
estufar e voltar ao normal ao puxar e soltar o ar, respectivamente. Deve ser feita lentamente,
geralmente usando uma contagem até 3 para inspirar e até 6 para expirar.
Dirigir o ar inspirando para a parte inferior dos pulmões;
Colocar uma mão a baixo do umbigo e a outra em cima do estômago;
Dirigir o ar para a parte inferior do abdômen, levantando a mão colocada abaixo do umbigo;
Tentar não levantar o peito ou a mão em cima do estômago;
Sinta o movimento da sua barriga: Quando inspira, a barriga vai para fora. Quando expira,
a barriga vai para dentro;
Simule o movimento do diafragma com as mãos: Quando inspira, ponha os dedos para
baixo, direitos. Quando expira, ponha os dedos para cima, em forma de cone;
Sincronize os movimentos e faça a respiração diafragmática durante uns minutos.
116
pessoas. Os usuários devem ser vistos novamente em uma semana e monitoradas para
pensamento suicida e autolesão durante o primeiro mês de tratamento.
Estes fármacos apresentam um número elevado de interações medicamentosas, e deve-se
fazer uma pesquisa sobre este aspecto ao introduzir ou descontinuar este ou outros medicamentos
do esquema terapêutico do usuário.
Há cuidados a serem tomados, na escolha dos antidepressivos, se o sujeito apresenta
alguma doença física de base:
Os ISRS podem piorar os sintomas parkinsonianos, e, por isso são indicados os tricíclicos
para estes usuários;
Os tricíclicos diminuem o limiar convulsivo e, por isso, em usuários com risco de convulsões
devem ser usados os ISRS;
A fluoxetina inibe o sistema enzimático de citocromos no fígado e pode levar a
aumento da concentração sérica de antiarrítmicos e betabloqueadores. Por este
motivo, em usuários fazendo uso de várias medicações está indicada a troca para
compatibilização. Em caso de não se poder trocar os antiarrítmicos e betabloqueadores, os
tricíclicos teriam menor risco de interação do que a fluoxetina;
Se o usuário tem dor neuropática pode ter alívio da mesma com o uso de baixas doses de
tricíclicos (mas não com os ISRS);
Os tricíclicos podem levar a aumento do desejo por doces, aumento de peso e
hiperglicemia, devendo ser usados com cuidado em diabéticos;
Os ISRS aumentam a chance de sangramentos, tendo trabalhos que já comprovam sua
associação com maiores riscos de hemorragia digestiva alta;
Os tricíclicos, devido aos seus efeitos anticolinérgicos podem levar a: aumento da pressão
intra-ocular sobretudo naqueles com glaucoma de ângulo estreito, retenção urinária nos que
têm hipertrofia prostática e constipação, sendo problemático sobretudo em usuários com
doença diverticular.
Benzodiazepínicos, devem ser usados, preferencialmente, como coadjuvantes do
tratamento, por até 4 semanas, depois das quais deve-se reduzir a dose e descontinuar
gradativamente a medicação. Há perda da eficácia a longo prazo. Usar a menor dose eficaz no
alívio da ansiedade.
As medicações com meia-vida mais longa são mais fáceis de retirar. Pode ocorrer piora da
ansiedade após a retirada. Sempre alertar para o risco de dependência. Atenção para efeitos
colaterais sobre o SNC (sedação, prejuízo da coordenação motora e da concentração, distúrbios
de memória), principalmente em idosos e usuários de outros psicotrópicos.
Tratamento Medicamentoso na Infância e Adolescência: Uma metanálise de ensaios
controlados, aleatórios, de agentes antidepressivos para ansiedade infantil oferece evidências de
que ISRSs, são eficazes no tratamento de ansiedade infantil. Com base nessas evidências, os
ISRSs são a primeira escolha de medicação no tratamento de transtornos de ansiedade em
crianças e adolescentes.
117
A dosagem da fluoxetina de 20 mg/dia, é segura e efetiva para crianças com esses
transtornos, sendo os efeitos colaterais menores, incluindo distúrbio gastrintestinal, dores de cabeça
e sonolência.
Drogas tricíclicas não são mais recomendadas em razão de seus efeitos cardíacos
adversos potencialmente graves.
119
Por outro lado, dispõe-se de argumentos para pensar que a perda de uma função é, neste
transtorno, a expressão de um conflito ou de uma necessidade psíquica. Os sintomas podem
ocorrer em relação temporal estreita com um “stress” psicológico e ocorrer frequentemente de modo
brusco.
O transtorno concerne unicamente quer a uma perturbação das funções físicas que estão
normalmente sob o controle da vontade, quer a uma perda das sensações.
Os transtornos que implicam manifestações dolorosas ou outras sensações físicas
complexas que fazem intervir o sistema nervoso autônomo, são classificados entre os transtornos
somatoformes (F45.0).
Há sempre a possibilidade de ocorrência numa data ulterior de um transtorno físico ou
psiquiátrico grave.
Inclui: histeria, histeria de conversão, reação.
10.3.3 Tratamento
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas
Combinar mais de um componente na intervenção:
Orientação e autoajuda;
Monitoramento sistemático dos sintomas e aderência;
121
Apoio nas tomadas de decisão relativas à medicação e supervisão de especialistas.
Oferecer cuidados de intensidade progressiva: Os tratamentos se iniciam com cuidados de
baixa intensidade (atividade física em grupo, panfletos de autoajuda, grupos de apoio), passando
por psicoterapia de grupo ou individual e evoluindo para o uso de antidepressivos, com supervisão
especializada, caso necessário.
Oferecer alternativas para os usuários que rejeitam tratamentos usuais, por exemplo: Grupos
psicoeducacionais ou grupos de apoio que explorem questões como autoestima ou resiliência. É
importante que esses grupos não sejam direcionados nem divulgados apenas para portadores de
um diagnóstico.
Trabalhar em equipe: Todos os integrantes das equipes de saúde da família e CAPS, podem
assumir papéis no monitoramento de sintomas e da aderência, além de oferecer e facilitar
intervenções psicoterápicas de baixa complexidade.
Adequar a intervenção ao contexto do território: Diferenças culturais influenciam a apresentação
psicopatológica dos sintomas e a aceitação e resposta aos tratamentos propostos. As intervenções
propostas também precisam ser aceitáveis para os profissionais de saúde que a implantarão.
Em caso de dúvida pode-se solicitar segunda opinião formativa via Teleconsultoria/Teleregulação
ou Matriciamento.
Recomendações Gerais
Leve em conta que a situação clínica pode ser agravada por proporcionar ao usuário
o ganho secundário que ele ou ela está procurando. Assim, o fornecimento de uma
medicação pedida, cuja prescrição seja irracional, deve ser negado, com explicação
plausível e amistosa, dando-se em troca a atenção e a escuta. Deve-se tomar cuidados,
também no fornecimento de atestados por médico, por psicólogo, por fisioterapeuta, ou
outros profissionais, avaliando o possível uso inadequado do documento;
Evite intervenções diagnósticas e terapêuticas invasivas;
A apresentação do diagnóstico ao usuário, se ele solicitar insistentemente, deve ser feita
com muito tato, cuidando para não usar palavras que possam ser mal interpretadas ou
possam ser sentidas como ofensivas;
Evite dar ao usuário a impressão de que o profissional crê não haver nada de errado
com ele. É comum que tais usuários se queixem de que os profissionais não sabem
diagnosticar seu problema e pensam que ele “não tem nada”;
Diminuir o tamanho do problema, dando a impressão, ao usuário, que o problema é sem
importância, fará com que ele retorne ao serviço, ou busque outro serviço, com as mesmas
queixas;
É adequado não discutir o diagnóstico com usuário no primeiro encontro. Com alguns
usuários jamais se precisa tocar no diagnóstico. O diagnóstico tende a se tornar um
rótulo inútil e até deletério se for muito comentado;
122
Tranquilizar o usuário de que os sintomas são reais, apesar da falta de um diagnóstico
definitivo orgânico. Mostrar a ele que seria inútil fazer exames que não possam acrescentar
nada à pesquisa do problema;
Evite ser seduzido pelo usuário para solicitar exames desnecessários, de forma
irracional. Muitos usuários desejam ser encaminhados, desnecessariamente, a
tomografias, ressonâncias, PET Scans, exames laboratoriais;
Cuidados também precisam ser tomados quando há uma demanda muito grande de exames
físicos e toques do corpo, especialmente se o usuário está sozinho com o profissional, no
consultório. Fantasias de sedução sexual são frequentes nestes tipos de quadros;
Diante da resistência do usuário em aceitar que haja fatores emocionais ligados ao seu
problema, fornecer exemplos comuns de emoções que produzem sintomas (por exemplo,
estômago enjoado quando se fala na frente de uma plateia, coração acelerado se está
enfrentando uma novidade, etc.);
Fornecer exemplos de como o comportamento influencia comportamentos inconscientes
(por exemplo, roer unhas se dar conta do que está fazendo);
Fornecer garantia de que nenhuma evidência de um transtorno neurológico subjacente está
presente com base no exame realizado e que o prognóstico para a recuperação é bom;
Fornecer reforço positivo sempre que os sintomas melhorem espontaneamente;
Se necessário, informar aos usuários de que o profissional sabe que os sintomas não
são voluntários e nem fingidos;
Podem ser fornecidas regularmente consultas breves, de acompanhamento, evitando que o
usuário venha em crise, após ter desaparecido do serviço de saúde por meses;
Uma abordagem multidisciplinar para o tratamento do transtorno de conversão é
benéfica;
O problema não é neurológico. Logo, a consulta com neurologista só é necessária na fase
de estabelecimento do diagnóstico, se houverem dúvidas a respeito da diferenciação com
possíveis doenças neurológicas a serem descartadas;
A consulta com cardiologista somente deve ser incentivada se o usuário tem alterações
episódicas de consciência devido à preocupação com a síncope cardiogênica, podendo-se
necessitar de descarte de hipóteses cardiológicas;
A consulta com fisioterapeuta pode ser indicada para aqueles com grande distúrbio motor
ou da marcha, por tempo longo. O contato do clínico geral, do psicólogo ou do psiquiatra
com o fisioterapeuta, esclarecendo sua opinião, é importante;
O encaminhamento a psicoterapia é favorável, especialmente nos casos mais graves,
sempre que haja disponibilidade de psicólogo ou de psiquiatra na rede local. O ideal
seria haver possibilidade de acompanhamento regular com psicólogo.
123
[Link] Tratamento Medicamentoso
O uso de psicofármacos é indicado apenas na presença de outros transtornos mentais
em comorbidade com o transtorno de somatização, conversão e dissociação. Mesmo nessa
situação, a parcimônia deve ser a regra, em função da sensibilidade aumentada a efeitos colaterais,
risco de abuso e dependência de benzodiazepínicos e a má resposta a antidepressivos.Não
há indicação formal de nenhum psicofármaco ou tratamento biológico em usuários com
histeria.
Deve-se ter cuidado com as solicitações de medicamentos, especialmente de
benzodiazepínicos, pois muitos usuários com sintomas neuróticos se tornam graves dependentes
de tranquilizantes e aumentam as doses por conta própria. Muitos deles têm vários médicos ao
mesmo tempo, em ambulatórios diferentes, garantindo receitas para poderem tomar doses muito
além das receitadas.
10.4 Insônia
124
comportamentos podem parecer razoáveis, eles podem reduzir o sono e levar a insônia crônica no
longo prazo.
[Link] Polissonografia
A polissonografia (PSG) é o registro de diversos parâmetros fisiológicos relativos ao sono
(como tempo total de sono, duração e proporção dos estágios do sono, latência para início do sono,
latência para início do sono REM e demais estágios, eficiência do sono, etc.) e também o registro
da respiração, frequência cardíaca, ritmo cardíaco e de movimentos periódicos durante o sono. Tal
registro é realizado durante uma noite inteira de sono.
As indicações para a solicitação de uma PSG incluem a suspeita de condições intrínsecas
ao sono (apneia do sono e transtorno de movimentos periódicos do sono), insônia de etiologia
127
indefinida, suspeita de parassonias e falha na resposta ao tratamento instituído. Também pode ser
útil no planejamento do tratamento, a partir da obtenção de informações fisiológicas adicionais.
128
[Link] Parassonias
As parassonias representam a ativação de sistemas fisiológicos em momentos impróprios,
durante o ciclo sono‐vigília. Em geral, há o acionamento do sistema nervoso autônomo, sistema
motor ou de processos cognitivos durante o sono ou na transição com a vigília.
Na polissonografia, pode‐se observar, no caso dos pesadelos, despertares abruptos do
sono REM que ocorrem, em geral, na segunda metade da noite. Uma leve excitação autonômica é
observada, além de um aumento no número de movimentos oculares.
O terror noturno começa durante o sono NREM profundo (sono delta) e, portanto, está mais
propenso a ocorrer na primeira terça parte da noite. O início dos episódios é prenunciado por um
aumento de tônus muscular e de duas a quatro vezes na frequência cardíaca. O EEG normalmente
mostra uma atividade teta ou alfa durante o episódio, indicando um despertar parcial.
O sonambulismo é caracterizado por comportamento motor complexo iniciado durante o
sono, principalmente na primeira terça parte da noite (sono de ondas lentas – estágios III e IV
NREM). O indivíduo apresenta uma redução do estado de alerta e da responsividade. No EEG,
podem ser observados elementos de alerta, como atividade alfa, durante a fase de sono profundo.
Os episódios de sonambulismo podem terminar em despertares espontâneos, seguidos de um
breve período de confusão.
10.4.4 Idoso
O processo de envelhecimento ocasiona modificações na quantidade e qualidade do sono,
as quais afetam mais da metade dos adultos acima dos 65 anos que vivem em casa e 70% dos
institucionalizados, com impacto negativo na qualidade de vida.
Sabe-se que o número de despertares noturnos é maior em idosos, assim como o hábito de
acordar mais cedo, quando comparados a adultos jovens. Por conseguinte, os idosos apresentam
maior sonolência diurna. O ciclo sono-vigília na terceira idade, portanto, geralmente é fragmentado,
com interrupções tanto do sono noturno quanto da vigília diurna.
Nessa população, também há uma tendência de deslocamento do ciclo de sono: em geral,
dormem mais cedo à noite e despertam mais precocemente pela manhã, o que, às vezes, pode
acarretar problemas. Em alguns idosos, a redução no tempo de sono ocasiona sonolência diurna e
cansaço excessivo, os quais podem se tornar objeto de tratamento, medicamentoso ou não.
Com o envelhecimento, recuperar-se de perturbações do ciclo sono-vigilia tende a se tornar mais
difícil. Características relativas ao gênero influem nas particularidades e alterações de sono em
131
idosos. Além disso, muitas medicações comumente prescritas para os idosos e muitas doenças
podem perturbar o sono.
10.4.6 Tratamento
134
O relaxamento muscular progressivo: É especialmente útil para aqueles que sentem tensão
muscular. Estes devem tensionar (de 5 a 6 segundos) e depois relaxar (20 a 30 segundos)
intencionalmente grupos musculares começando na cabeça e terminando nos pés.
Os usuários devem observar a diferença entre tensão e relaxamento. A imagem guiada os
faz visualizar uma cena prazerosa e relaxante, envolvendo todos os seus sentidos.
Os exercícios de respiração são praticados por pelo menos 20 minutos por dia por
duas semanas. Quando dominada, a técnica deve ser usada quando se estiver deitado, por 30
minutos. Se não funcionar, o usuário deve tentar de novo outra noite. É importante que a técnica
não fique associada com a incapacidade de dormir.
O usuário é instruído a realizar respiração abdominal como segue. Ele deve ficar confortável
com cada passo antes de passar para o próximo:
Primeiro, na posição supinada (deitado de barriga pra cima), o usuário deve respirar
normalmente pelo nariz ou pela boca, o que for mais confortável, e prestar atenção a seu padrão
de respiração.
Segundo, enquanto mantém esse ritmo, o usuário deve começar a respirar mais com seu
abdome e menos com seu peito.
Terceiro, o usuário deve pausar por meio segundo após cada ciclo respiratório (inspira e
expira) e avaliar a respiração. Qual é a sensação? Foi suave? Em algum momento, cada respiração
se torna uniforme e suave.
Quarto, o usuário deve encontrar um lugar em que possa sentir melhor o ar entrando e
saindo. Concentrar-se nesse momento e no ar entrando e saindo.
Quinto, o usuário deve visualizar pensamentos intrusivos como se estivessem flutuando para
longe; se tiver muitos pensamentos, parar de praticar e tentar novamente mais tarde.
Abordagens comportamentais da insônia das crianças baseiam-se no restabelecimento do
ritmo sono-vigília com o treinamento dos pais, que utilizam medidas comportamentais como
sincronizadores externos do sono da criança ou intervenções para a correção do ritmo diário de
sono.
Tais abordagens consistem no suporte aos pais para informá-los sobre a capacidade de o
bebê autoconfortar-se e na educação dos pais com respeito às características de desenvolvimento
de seus filhos.
Os hábitos para o sono devem basear-se nas medidas de higiene do sono:
Estabelecer horário, rotinas e rituais consistentes para o sono;
Evitar estimulação física, mental ou emocional perto da hora de dormir;
Evitar oferecer alimentação durante a noite;
Evitar dormir com alguma fonte luminosa durante toda a noite;
É desejável que a criança habitue-se a adormecer sozinha, sem a presença do cuidador.
135
[Link] Tratamento Medicamentoso
O tratamento farmacológico das insônias transitórias e das insônias crônicas, em caráter
temporário e/ou intermitente, associada a fatores estressantes pode ser feito com hipnóticos.
Em geral, medicamentos para dormir não devem ser prescritos por mais de duas
semanas, em razão da tolerância e da abstinência que podem resultar. No entanto, a insônia
normalmente retorna quando da descontinuação do medicamento.
Por muitos anos, os bendiazepínicos foram os medicamentos sedativo-hipnóticos mais
prescritos para tratar insônia. Os agonistas dos receptores benzodiazepínicos representam o
padrão atual dos medicamentos sedativo-hipnóticos usados para esse tratamento. Os
medicamentos para dormir de longa ação são melhores para insônia no meio da noite; os fármacos
de curta ação são úteis para pessoas que têm dificuldade para pegar no sono.
O uso de antidepressivo pode ser interessante no tratamento das insônias crônicas,
especialmente associadas a transtornos depressivos e ansiosos. Possuem propriedades sedativas
os antidepressivos tricíclicos (amitriptilina). Quando o objetivo é somente a sedação, a dose
prescrita pode ser inferior à dose antidepressiva habitual. Possuem baixo potencial de abuso e
dependência e são medicações com perfil mais adequado ao uso prolongado.
Diversos medicamentos sem prescrição médica usados para dormir também estão
disponíveis. Fórmulas sem prescrição incluem anti-histamínicos sedativos, precursores de
proteínas e outras substâncias.
O L-triptofano e a melatonina (que não se encontra na REMUME e são prescritos
conforme critério médico) são os suplementos alimentares auto administrados mais famosos por
aliviarem a insônia. O L-triptofano é um aminoácido precursor metabólico da serotonina e a
melatonina é um hormônio endógeno produzido pela glândula pineal ligado à regulação do sono. A
administração de L-triptofano e a melatonina exógena, contudo, mostrou resultados mistos na
pesquisa clínica.
Os antipsicóticos também podem ser prescritos como medicamentos sedativos. São
bastante úteis no tratamento da insônia associada a quadros psiquiátricos, mas ainda faltam
evidências claras sobre o seu papel no tratamento da insônia crônica. Alguns antipsicóticos com
efeitos sedativos são a clorpromazina, a olanzapina, a risperidona e a quetiapina.
Os anticonvulsivantes, como o ácido valproico e a carbamazepina, também possuem
propriedades sedativas e podem ser usados como coadjuvantes no tratamento de determinadas
causas de insônia crônica, principalmente em usuários com transtorno afetivo bipolar.
O tratamento da síndrome das pernas inquietas é feito com agentes dopaminérgicos
como a L‐dopa (formulação de liberação lenta) e anticonvulsivantes, como a gabapentina e o ácido
valproico. Também parecem ser efetivos os benzodiazepínicos e os opioides.
Já a apneia do sono pode ser tratada com oxigênio suplementar e pressão positiva contínua
nas vias aéreas por via nasal (CPAP). O CPAP é o tratamento utilizado para Síndrome da Apneia
Obstrutiva do Sono (SAOS), amplamente utilizado como recurso terapêutico, ele age aumentando
a pressão positiva nas vias aéreas a níveis capazes de manter esta região aberta durante o sono,
136
quando existe a tendência de seu colabamento, evitando desta forma as interrupções respiratórias.
A indicação do uso do CPAP baseia-se em dados clínicos e exame de polissonografia. É necessário
a polissonografia para verificar o grau de gravidade da SAOS. Segundo literatura constitui indicação
para uso de CPAP, usuários com SAOS de grau grave, com índice de apnéia e hipopnéia (AIH)
maior ou igual a 30 eventos por hora.
Com relação às hipersonias, o tratamento constitui‐se primeiramente numa boa higiene do
sono e em cochilos diurnos programados, duas a três vezes/dia. Estimulantes podem ser utilizados
para o controle da sonolência diurna.
No tratamento das parassonias, o manejo terapêutico deve incluir uma investigação
detalhada sobre as condições clínicas, afetivas e psiquiátricas do indivíduo, seu momento de vida
e sobre possíveis medicações de que esteja fazendo uso (p. ex., a levodopa ou os bloqueadores
beta‐adrenérgicos podem induzir pesadelos). Abordagens cognitivo‐comportamentais
(dessensibilização, revivência do episódio) também podem ser tentadas.
Tratamento Medicamentoso na Infância e Adolescência
A revisão da literatura sugere que a terapia farmacológica na infância é efetiva somente em
curto prazo. As intervenções comportamentais, conduzidas por terapeuta experiente, são mais
efetivas que o tratamento medicamentoso, a curto e longo prazo.
A terapêutica medicamentosa da insônia na infância é bastante restrita. Os fármacos
utilizados no manejo da insônia do adulto pertencem ao grupo dos hipnóticos benzodiazepínicos ou
não- benzodiazepínicos não estão indicados para uso em Pediatria, e não existem estudos
mostrando sua eficácia ou segurança em crianças.
O uso de terapia farmacológica alternativa, baseada em extrato de plantas naturais indutoras
de sono, tais como valeriana, passiflora e aminoácidos (5-hidroxi-triptofano), tem sido usados em
casos isolados. No entanto, até o momento não existem estudos controlados demonstrando sua
real eficácia e segurança.
A opção de utilizar fármacos no tratamento da insônia em crianças deve ocorrer em casos
muito bem selecionados, após o diagnóstico da causa da insônia e como coadjuvante de alguma
das outras técnicas comportamentais acima discutidas. As opções disponíveis nessa faixa etária
são limitadas a dois grupos de medicações: anti-histamínicos ou hidrato de cloral, lembrando que o
seu uso deve ocorrer de forma transitória, nas primeiras 3 semanas de utilização das técnicas
comportamentais.
Antidepressivos tricíclicos (imipramina) parecem ter bom resultado no tratamento de insônia
associada ao TDAH, assim como inibidores da recaptação de serotonina (fluoxetina) atuam na
insônia associada síndrome de Asperger ou ao transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).
Tratamento Medicamentoso na Gestação e Puerpério
Usuários que apresentem sintomas de insônia durante a gestação e puerpério, algumas
medidas podem ser tomadas para evitar que os sintomas se agravem, tais como atividade física;
melhora do padrão alimentar, com retirada de psicoestimulantes como a cafeína; higiene do sono;
137
técnicas de relaxamento; e, no início, algum tipo de psicoterapia. Essas estratégias podem atenuar
os sintomas e devem fazer parte do planejamento terapêutico da maioria das usuárias.
São princípios gerais da prescrição de psicotrópicos à mãe durante a gestação e a lactação:
Em cada caso, os benefícios da amamentação para a mãe e para a criança devem ser
discutidos e esclarecidos ante o risco de exposição da criança a medicações;
Prematuros ou crianças com algum distúrbio renal, hepático, cardíaco ou neurológico têm
riscos maiores quanto à exposição a medicações;
Crianças expostas a medicações devem ser monitoradas de perto quanto à presença de
quaisquer efeitos adversos das medicações, bem como seus padrões de alimentação,
crescimento e desenvolvimento neuropsicomotor;
O tratamento do transtorno psiquiátrico materno é sempre prioridade. É inapropriado
interromper um tratamento para permitir a amamentação quando o transtorno mental for
grave ou apresentar um alto risco de recaída;
Caso a usuário tenha feito uso de um psicotrópico durante a gestação até o momento do
parto, a continuação da medicação pode ser apropriada para que se minimizem os riscos de
síndrome de retirada da medicação na criança;
Mulheres recebendo quaisquer medicações com potencial sedativo devem ser orientadas a
não dormir com o bebê em sua cama;
Sempre que possível, tentar o uso da menor dose efetiva e evitar a poli‐farmácia.
Benzodiazepínicos de meia‐vida longa, devem ser evitados na gestação, especialmente no
terceiro trimestre, por estarem associados a dificuldades neonatais (síndrome “floppy baby”) Risco
de lábio leporino superior a dez vezes (de 0,06 para 0,7%) quando exposto no 1º trimestre. Durante
a lactação, por estarem presentes no leite materno em níveis que variam de indetectável a 14% do
nível sérico materno. Qualquer criança exposta a benzodiazepínicos no leite materno deve ser
monitorada quanto à presença de apneia e de depressão de sistema nervoso central.
Já a prometazina tem sido usada na hiperêmese gravídica e parece não ter efeito
teratogênico. Podem ser introduzidas, em casos mais severos, doses baixas de clorpromazina ou
amitriptilina.
Não há dados publicados quanto ao uso de prometazina durante a lactação, e os fabricantes
não fornecem aviso específico quanto ao seu uso nesse período.
Tratamento Medicamentoso para o Idoso
Em idosos, há que se ter muito cuidado na seleção do medicamento para tratamento da
insônia. Deve-se considerar sempre o risco/benefício e ter especial atenção com efeitos colaterais,
que são especialmente perigosos para essa faixa etária (p. ex., tontura, hipotensão postural e
sedação com risco de quedas e fraturas, sobretudo à noite; agravamento de sintomas
comportamentais; declínio cognitivo; interação com outros fármacos em uso).
A seguir, alguns princípios gerais que devem nortear o uso judicioso de medicamentos:
Usar a menor dose eficaz possível;
Usar doses intermitentes (2 a 4 vezes por semana);
138
Prescrever medicamentos em curto prazo de tempo (não mais que 3 e 4 semanas);
Descontinuar o medicamento gradualmente;
Ficar alerta sobre a insônia de rebote após descontinuidade.
139
11 EMERGÊNCIAS PSIQUIÁTRICAS
11.1 Suicídio
O suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja
intenção seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio
que ele acredita ser letal. Também fazem parte do que habitualmente chamamos de comportamento
suicida: os pensamentos, os planos e a tentativa de suicídio. Uma pequena proporção do
comportamento suicida chega ao nosso conhecimento.
141
11.1.1 Avaliação e Diagnóstico
O risco de suicídio não tem uma classificação própria, pois é fenômeno que pode ocorrer
em vários quadros clínicos diferentes e, mais raramente, na ausência de qualquer quadro clínico. A
maior parte das pessoas que planejam, tentam ou pensam insistentemente em suicídio sofre de
algum transtorno psíquico, devendo ser feito seu diagnóstico e sua classificação segundo o
transtorno.
Quando já ocorreu a tentativa, consumada ou frustra, utiliza-se os itens da CID-10 abaixo:
X60 a X84 Lesões autoprovocadas intencionalmente:
X60 Auto-intoxicação por e exposição, intencional, a analgésicos, antipiréticos e anti-
reumáticos, não-opiáceos;
X61 Auto-intoxicação por e exposição, intencional, a drogas anticonvulsivantes
[antiepilépticos] sedativos, hipnóticos, antiparkinsonianos e psicotrópicos não classificados
em outra parte;
X62 Auto-intoxicação por e exposição, intencional, a narcóticos e psicodislépticos
[alucinógenos] não classificados em outra parte;
X63 Auto-intoxicação por e exposição, intencional, a outras substâncias farmacológicas de
ação sobre o sistema nervoso autônomo;
X64 Auto-intoxicação por e exposição, intencional, a outras drogas, medicamentos e
substâncias biológicas e às não especificadas;
X65 Auto-intoxicação voluntária por álcool;
X66 Auto-intoxicação intencional por solventes orgânicos, hidrocarbonetos halogenados e
seus vapores;
X67 Auto-intoxicação intencional por outros gases e vapores;
X68 Auto-intoxicação por e exposição, intencional, a pesticidas;
X69 Auto-intoxicação por e exposição, intencional, a outros produtos químicos e substâncias
nocivas não especificadas;
X70 Lesão autoprovocada intencionalmente por enforcamento, estrangulamento e
sufocação;
X71 Lesão autoprovocada intencionalmente por afogamento e submersão;
X72 Lesão autoprovocada intencionalmente por disparo de arma de fogo de mão;
X73 Lesão autoprovocada intencionalmente por disparo de espingarda, carabina, ou arma
de fogo de maior calibre;
X74 Lesão autoprovocada intencionalmente por disparo de outra arma de fogo e de arma
de fogo não especificada;
X75 Lesão autoprovocada intencionalmente por dispositivos explosivos;
X76 Lesão autoprovocada intencionalmente pela fumaça, pelo fogo e por chamas;
X77 Lesão autoprovocada intencionalmente por vapor de água, gases ou objetos quentes;
X78 Lesão autoprovocada intencionalmente por objeto cortante ou penetrante;
X79 Lesão autoprovocada intencionalmente por objeto contundente;
142
X80 Lesão autoprovocada intencionalmente por precipitação de um lugar elevado;
X81 Lesão autoprovocada intencionalmente por precipitação ou permanência diante de um
objeto em movimento;
X82 Lesão autoprovocada intencionalmente por impacto de um veículo a motor;
X83 Lesão autoprovocada intencionalmente por outros meios especificados;
X84 Lesão autoprovocada intencionalmente por meios não especificados;
Importante ressaltar a Portaria GM/MS nº 1.271, de 6 de junho de 2014, que define a Lista
Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços
de saúde públicos e privados em todo o território nacional, INCLUI A TENTATIVA DE SUICÍDIO
como notificação compulsória imediata que deverá ser realizada em até 24 horas a partir do
conhecimento da ocorrência.
As ameaças de suicídio devem ser levadas a sério, desmistificando a ideia de que quem
ameaça não faz. O agente de saúde pode ser importante na identificação de um risco,
encaminhando à pessoa a consulta em unidade sanitária.
Diante de sinais de risco, a abordagem não precisa ser eufemizada: deve-se conversar
abertamente sobre o tema com o usuário, perguntando se ele tem tido a sensação de que não vale
mais a pena viver, se já pensou em terminar com sua vida, se fez algum plano para isto. O
profissional precisa ter paciência para ouvir e não falar apressadamente. O reasseguramento
prematuro ou inadequado pode ser entendido pelo usuário como falta de empatia, de interesse ou
impedimento para deixá-lo se manifestar.
O diagnóstico é feito pela entrevista clínica, que deve ser realizada de forma empática
e clara, com finalidade de avaliar o risco de comportamentos suicidas. O risco individual é avaliado
através dos fatores de risco e de proteção identificados.
144
História familiar e genética: O risco de suicídio aumenta entre aqueles com história familiar de
suicídio ou de tentativa de suicídio. Estudos de genética epidemiológica mostram que há
componentes genéticos, assim como ambientais envolvidos. O risco de suicídio aumenta entre
aqueles que foram casados com alguém que se suicidou.
Fatores protetores:
Laços sociais bem estabelecidos com família e amigos;
Religiosidade independente da afiliação religiosa e razão para viver;
Ausência de doença mental;
Estar empregado;
Ter crianças em casa;
Senso de responsabilidade com a família;
Gravidez desejada e planejada;
Capacidade de adaptação positiva;
Capacidade de resolução de problemas e relação terapêutica positiva;
Acesso a serviços e cuidados de saúde mental.
Características psicopatológicas comuns no estado mental dos suicidas:
O funcionamento mental gira em torno de três sentimentos:
Intolerável (não suportar);
Inescapável (sem saída);
Interminável (sem fim).
Ambivalência: O desejo de viver e de morrer se confundem no sujeito. Há urgência em sair da dor
e do sofrimento com a morte, entretanto há o desejo de sobreviver a esta tormenta. Muitos não
aspiravam realmente morrer, apenas queriam sair do sentimento momentâneo de infelicidade,
acabar com a dor, fugir dos problemas, encontrar descanso ou final mais rápido para seus
sofrimentos. Se for dado oportunamente o apoio emocional necessário para reforçar o desejo de
viver, logo a intenção e o risco de suicídio diminuirão.
Impulsividade: O suicídio, por mais planejado que seja, parte de um ato que é usualmente
motivado por eventos negativos. O impulso para cometer suicídio é transitório e tem duração
de alguns minutos ou horas. Pode ser desencadeado por eventos psicossociais negativos do dia
a dia e por situações como: rejeição; recriminação; fracasso; falência; morte de ente querido; entre
outros. Acolher a pessoa durante a crise com ajuda empática adequada pode interromper o impulso
suicida do usuário.
Rigidez: Quando uma pessoa decide terminar com a sua vida, os seus pensamentos, sentimentos
e ações apresentam-se muito restritivos, ou seja, ela pensa constantemente sobre o suicídio e é
incapaz de perceber outras maneiras de enfrentar ou de sair do problema. Estas pessoas pensam
rígida e dramaticamente pela distorção que o sofrimento emocional impõe. Todo o comportamento
está inflexível quanto à sua decisão: as ações estão direcionadas ao suicídio e a única saída
possível que se apresenta é a morte; por isso é tão difícil encontrar, sozinho, alguma alternativa.
145
Existe uma distorção da percepção de realidade com avaliação negativa de si mesmo, do
mundo e do futuro. Há um medo irracional e uma preocupação excessiva. O passado e o presente
reforçam seu sofrimento e o futuro é sombrio, sem perspectiva e com ausência de planos. Surge
a ideação e a tentativa de suicídio, que pode culminar com o ato suicida.
Muitas vezes os usuários com possível risco de suicídio chegam ao profissional de
saúde da atenção primária com queixas diferentes daquelas que chegariam ao psiquiatra. O
que os levam a buscar a consulta são, geralmente, queixas somáticas.
11.1.5 Idoso
Os idosos possuem o maior risco de morte por suicídio entre todos os grupos etários
no Brasil, como também na maior parte do mundo. Especialistas em suicídio predizem que, nas
próximas décadas, haverá um aumento dramático na taxa e no número total de suicídios. Deve
haver esforço, sobretudo por parte dos clínicos no âmbito dos serviços de emergência, para
identificar fatores de risco, pistas e sinais de ameaças iminentes de suicídio na idade avançada.
O fato de que a maioria dos idosos é consultada no mês anterior à sua morte, somado
ao achado de que a maioria das vítimas de suicídio em idade avançada teve episódios depressivos,
sugere que a detecção e o tratamento da depressão podem ser eficazes para prevenir o suicídio na
terceira idade.
Em adição ao exame cuidadoso das condições médicas, a avaliação deve incluir questões
sobre tentativas prévias de suicídio, episódios passados de depressão, psicose ou (hipo) mania,
abuso de substâncias, transtornos do controle de impulsos, suporte social e eventos estressores
recentes. Todos os usuários devem ser questionados sobre humor, grau de anedonia e
angústia, hábitos de sono, apetite, interesse e sentimentos de desesperança. Desejo de morte,
147
pensamentos de suicídio, intenção de se machucar e acesso a meios de fazê-lo devem ser
abordados em questionamentos diretos e indiretos. Em nossa experiência, idosos que exibem
maiores níveis de angústia ou depressão com características cotidianas apresentam maior risco de
suicídio, e, portanto, esses sinais devem ser entendidos como um alarme.
149
Peça autorização para entrar em contato com a família, os amigos e/ou colegas e
explique a situação sem alarmar, informando o necessário e preservando o sigilo de outras
informações sobre particularidades do indivíduo;
Oriente sobre medidas de prevenção, como: esconder armas; facas; cordas; deixar
medicamentos em local que a pessoa não tenha acesso etc.
Risco Alto
A pessoa tem um plano definido, tem os meios para fazê-lo e planeja fazê-lo prontamente;
Tentou suicídio recentemente e apresenta rigidez quanto a uma nova tentativa;
Tentou várias vezes em um curto espaço de tempo.
Manejar:
Estar junto da pessoa, NUNCA DEIXÁ-LA SOZINHA;
Total cuidado com possíveis meios de cometer suicídio que possam estar no próprio espaço
de atendimento;
Realização de contrato de não suicídio;
Informar a família com a ciência do usuário.
Encaminhar:
Encaminhar para o serviço de psiquiatria para avaliação, conduta e, se necessário,
internação;
Caso não seja possível, considere o caso como emergência e entre em contato com um
profissional da saúde mental ou do serviço de emergência mais próximo;
Providencie uma ambulância e encaminhe a pessoa ao pronto-socorro, de
preferência;
A transferência de usuários entre instituições deve ser feita de ambulância, e não
pelos familiares;
Os usuários com ALTO RISCO de suicídio e FRÁGIL SUPORTE SOCIALdevem ser
internados em instituição especializada.
Os critérios de hospitalização abrangem, além do quadro clínico da doença psiquiátrica
de base:
Constância de pensamentos autodestrutivos permanentes ou recorrentes;
Alto nível de intenção de morrer nas próximas horas ou nos próximos dias;
Agitação ou pânico;
Existência de plano destrutivo imediato, realista, envolvendo métodos eficazes;
Suporte social precário e dificuldades para montar vínculo adequado.
Em caso de dúvida pode-se solicitar Segunda Opinião Formativa (SOF) via
Teleconsultoria/Teleregulação ou Matriciamento.
150
Figura 07 – Fluxograma de atendimentos ao suicídio
151
pessoas morram por suicídio a cada ano, cerca de 48 milhões e 500 milhões de pessoas podem
ser expostas ao luto do suicídio em um ano.
A posvenção inclui as habilidades e estratégias para cuidar de si mesmo ou ajudar outra
pessoa a se curar após a experiência de pensamentos suicidas, tentativas ou morte. Deste modo,
o próprio usuário e a família devem ser acompanhados para evitar novas tentativas, bem como
ajudar no processo do luto em caso de suicídio ocorrido.
O seguimento mais próximo desses “sobreviventes do suicídio” com um processo adequado
de luto pode, no entanto, ser benéfico. Estratégias com foco no suporte aos familiares parecem ser
as mais promissoras, tanto por meio de recrutamento ativo dos familiares “sobreviventes do
suicídio”, como abordagens de grupo de apoio ao luto, conduzidas por facilitadores treinados.
Tais ações mostraram aumento do uso de serviços projetados para ajudar no processo de
luto e redução em curto prazo do sofrimento psíquico associado ao luto.
11.1.9 Prevenção
Entender que se deve abordar o transtorno de base, que gera o ímpeto suicida, pois não há
fármaco específico contra suicídio;
Evitar dar receitas médicas com grande quantidade de remédios, para evitar seu uso
como meio de morte;
Discutir os aspectos envolvendo a proteção possível, como nos casos de gravidez na
adolescência e de solidão nos idosos;
Promoção de qualidade de vida;
Incentivo a espaços de promoção de saúde na comunidade, como a realização de grupos
de autoajuda nas igrejas e escolas, associações e ONGs;
Controle/regulação do acesso aos métodos mais utilizados, como: carbamato (chumbinho);
pesticidas; raticidas e outros; e restrição às armas de fogo;
Construções inteligentes e planejamento da cidade com medidas de segurança,
comprometimento dos órgãos responsáveis e campanha SELO AMARELO para
construções que atendam a essas medidas de segurança;
Incremento do uso estratégico da mídia para campanhas preventivas e maior regulação da
veiculação em casos de tentativas, evitar as descrições pormenorizadas do método
empregado, bem como fatos e cenas chocantes;
Campanhas nas escolas que problematizem o assunto, de forma a desconstruir tabus e
facilitar a prevenção.
11.2 Delirium
A CID-10 utiliza o termo delirium como sinônimo de síndrome mental orgânica aguda. O
termo “estado confusional agudo” é muitas vezes utilizado como sinônimo de delirium, ainda que
152
seu uso seja criticado pelo fato de a palavra “confusão” referir-se apenas ao pensamento
desorganizado do usuário.
Delirium é um quadro clínico caracterizado por uma alteração aguda da consciência. Este é
uma complicação relativamente comum de doença física, ocorrendo em aproximadamente 5-15%
dos usuários internados em um hospital geral e 20-30% dos usuários em unidades de terapia
intensiva. O quadro clínico tende a se desenvolver rapidamente e raramente dura mais que 4-8 dias.
Trata‐se de condição clínica associada a alta taxa de mortalidade, podendo chegar a
50% dependendo da população estudada.
154
6) Distúrbio (prejuízo) da memória: O usuário apresentou problemas de memória durante a
entrevista, como incapacidade de se lembrar de eventos do hospital, ou dificuldade para se
lembrar de instruções?
7) Distúrbios de percepção: O usuário apresentou sinais de distúrbios de percepção, por
exemplo, alucinações, ilusões ou interpretações errôneas (pensando que algum objeto fixo
se movimentava)?
8) Agitação psicomotora:
Durante a entrevista, o usuário apresentou aumento anormal da atividade motora, como
agitação, beliscar de cobertas, tamborilar com os dedos ou mudança súbita e frequente
de posição?
Retardo psicomotor: Durante a entrevista, o usuário apresentou diminuição anormal da
atividade motora, como letargia, olhar fixo no vazio, permanência na mesma posição por
longo tempo ou lentidão exagerada de movimentos?
9) Alteração do ciclo sono‐vigília: O usuário apresentou sinais de alteração do ciclo sono‐vigília,
como sonolência diurna excessiva e insônia noturna?
Algumas características clínicas do delirium, como agitação e letargia, contribuem para
complicações frequentes como aspiração, embolia pulmonar, úlceras de pressão, entre outras.
Embora seja uma condição clínica caracterizada por reversibilidade, alguns usuários podem
evoluir com declínio cognitivo e funcional persistentes.
A associação ente delirium e demência merece destaque, não só por ser um fator de
risco para o desenvolvimento de delirium, mas também pela elevada frequência de sobreposição
entre as duas condições. A diferenciação entre as duas síndromes deve considerar principalmente
o tempo e a evolução dos sintomas, uma vez que o delirium costuma apresentar início agudo e
flutuação dos sintomas. Com frequência, o delirium pode representar o prenúncio de um quadro
demencial, evoluindo para déficit cognitivo persistente.
155
Doenças Vasculares: ataque isquêmico transitório, encefalolpatia hipertensiva, trombose,
embolismo, hemorragia subaracnoídea, arterite temporal, demência vascular;
Lesões que ocupam espaço: tumores, abcessos, hematoma subdural, anurisma, abcesso
cerebral;
Nutricional: deficiência de tiamina, vitamina B12, ácido nicotínico, folato;
Alergias/ Doenças autoimunes: lúpus eritematoso disseminado, vasculite reumática,
Behçet.
Algumas medicações são mais frequentemente associadas à ocorrência de delirium:
Medicações com atividade anticolinérgica: cimetidina, prednisolona, teofilina,
antidepressivos tricíclicos, digoxina, nifedipina, antipsicóticos, furosemida, ranitidina,
dinitrato de isossorbida, varfarina, dipiridamol, codeína, captopril;
Outras medicações associadas ao delirium: benzodiazepínicos, narcóticos, agentes
antiparkinsonianos, anti‐inflamatórios não hormonais, laxativos, antibióticos, haloperidol,
betabloqueadores, antidepressivos, clonidina;
Medicações de uso habitual, comumente associadas a automedicação: difenidramina,
triprolidina, clorfenamina, prometazina, agentes antidiarreicos (com beladona), hioscina,
escopolamina.
Psicose
Delirium Demência Depressão Esquizofrenia
reativa breve
Curso em 24 Variação
Flutuante Progressivo Estável Variável
horas diurna
Déficit de Déficit
Desatenção Pode ser
Atenção e memória sem atencional Memória
Déficit de seletivamente
memória déficit de atenção Memória preservada
memória prejudicada
evidente preservada
Sim, fase Sim, pode ser Não, com
Reversibilidade Não Sim
inicial recorrente exacerbações
Comum
(delírios Comum
Ocorre em
Psicose pouco Incomum nas Sim, ilusões e (sintomas
porcentagem
presente? estruturados fases iniciais alucinações psicóticos
pequena
e conteúdo complexos)
instável)
Lentificação Lentificação
Geralmente Geralmente Geralmente
EEG generalizada generalizada em
normal normal normal
em 80% 80%
156
Terapia com
Requer Precisa de Necessita de Necessita de
antidepressivos
Avaliação e atenção terapia crônica e avaliação e avaliação e
por pelo menos
tratamento médica como acompanhamento tratamento tratamento
9 meses e
uma urgência adequado psiquiátrico psiquiátrico
psicoterapia
11.2.3 Tratamento
O usuário com delirium deve ser abordado inicialmente conforme o protocolo de atendimento
de emergência, com medidas que estabilizem os parâmetros vitais. Hipoglicemia, hipoxia,
desidratação e intoxicações exógenas devem ser pesquisadas e tratadas prontamente. O
tratamento definitivo será feito após confirmação da etiologia do quadro e tratamento específico do
fator precipitante.
157
que ele responda de forma natural à situação, sob vigilância contínua, de modo a garantir
ao usuário a sensação de controle. Essa conduta pode, ainda, oferecer pistas à equipe sobre
o que incomoda o usuário no momento. Evidentemente, é preciso ponderar quais
comportamentos são tolerados e cada situação deve ser individualizada;
Antecipate: é possível antecipar o comportamento desses usuários diante de algumas
situações, e desse modo, a equipe pode evitar tais situações ou se preparar para elas;
Don’t agitate: há diversos eventos que podem funcionar como “agitadores” desses usuários,
sendo prudente evitá-los.
159
Figura 08 – Fluxograma de atendimento de Delirium
160
Existem diversas definições de agitação psicomotora e agressividade na literatura médica.
Há também um conjunto de termos correlatos que deve ser conceitualizado:
Agitação pode ser definida como a elevação da atividade motora e cognitiva com a presença de
comportamentos verbais e/ou motores exacerbados e em larga escala improdutivos, muitas vezes
decorrentes de tensões internas. A agitação psicomotora é caracterizada por inquietação, aumento
da excitabilidade psíquica, resposta exacerbada a estímulos, irritabilidade, atividade motora e/ou
verbal aumentada, inadequada e repetitiva. O quadro pode cursar com agressividade.
Agressividade, por sua vez, é um termo que se refere a um ato intencional que causa dano físico
ou mental em outra pessoa. Em algumas circunstâncias, ela pode se direcionar a um objeto. O
quadro pode se manifestar em forma de agressão verbal e/ou física.
Violência é definida como um ato agressivo que causa dano físico a outra pessoa. Ela pode estar
associada a agressividade verbal e/ou física. Refere-se ao uso de força física, abuso, forma de
constrangimento direcionado a uma pessoa no intuito de coagi-la a realizar ou deixar de realizar um
ato qualquer.
Comumente, o usuário apresenta juízo crítico comprometido acerca de seu estado mental.
A intervenção precoce é uma prioridade, pois pode prevenir a progressão de um quadro de agitação
para agressividade e/ou violência.
Transtornos
relacionados com o Intoxicação ou abstinência.
uso de substâncias
162
Doenças metabólicas ou endocrinológicas, por exemplo, hipoglicemia, hipertireoidismo;
Doenças reumatológicas;
Transtornos mentais:
Esquizofrenia;
Episódios maníacos/mistos;
Transtornos da personalidade;
Abuso de substâncias psicoativas;
Transtornos da conduta e desafiador de oposição;
Deficiência intelectual.
Medicamentos que podem causar agitação psicomotora:
Anticonvulsivantes: barbitúricos, carbamazepina, valproato, fenitoína;
Anti‐histaminérgicos Sedativos: benzodiazepínicos, álcool;
Hormônios: andrógenos, estrógenos, progesterona, hormônios tireoidianos, corticoides;
Anticolinérgicos;
Antiarrítmicos: digitálicos, lidocaína, procainamida;
Anti‐infecciosos: amantadina, tiabendazol, isoniazida, cloroquina, dapsona, penicilina,
anfotericina B, metronidazol;
Alucinógenos: cannabis, ácido lisérgico, mescalina, psiloscibina;
Antidepressivos Antipsicóticos;
Estimulantes: cocaína, anfetaminas, cafeína, efedrina, metilfenidato, pseudoefedrina,
teofilina;
Bloqueadores beta‐adrenérgicos: propranolol, atenolol;
Agentes quimioterápicos: cisplatina, vincristina;
Outros: bromocriptina, carbidopa, levodopa, dissulfiram, alfametildopa, metilsergida,
metoclopramida.
11.3.5 Idoso
A avaliação psiquiátrica de urgência de usuários idosos depende da correta interpretação
da complexa interdependência de sistemas funcionais envolvidos nas operações mentais. Não
apenas funções do próprio sistema nervoso central (SNC) apoiam tais sistemas operacionais, mas
também, e especialmente no caso do idoso, a homeostase sistêmica constitui pano de fundo
importante na perfeita orquestração dessas funções.
Os transtornos podem ser causados tanto por condições psiquiátricas de início tardio
ou descompensações de transtornos antigos quanto por outras doenças clínicas de
surgimento mais tardio, ou, ainda, por condições crônico-degenerativas que se tenham
deteriorado ou se tornado agudas. De qualquer forma, a maioria das condições que se
apresentam como emergências psiquiátricas no idoso deriva de uma causa física ou orgânica de
base, portanto é essencial que os médicos investiguem, com cuidado, condições clínicas
nessa vulnerável população de usuários.
Lembrar que a população idosa faz uso de polifarmacia que podem causar situações
de iatrogenia, não somente pelos efeitos colaterais de uma substância em particular, mas às
interações entre elas. Deve-se questionar todas as medicações em uso, mesmo que não
sejam psicotrópicas.
Medicações anticolinérgicas são especialmente indutoras de delirium, e sua lista abrange
praticamente todas as especialidades médicas.
Medicações hipoglicemiantes em excesso podem gerar confusão mental no idoso associada a
sudorese fria, experimentadas sobretudo à noite ou de madrugada, após a última dose de insulina.
Antiparkinsonianos, (em especial a levodopa) e corticoides podem gerar quadros psicóticos ou
de agitação grave em idosos.
Antidepressivos e inibidores de apetite podem ocasionar virada maníaca, ideação suicida,
ansiedade ou outros sintomas de ativação.
165
Reduzir o sofrimento do usuário: psicológico ou físico (p. ex., por autoagressão ou
acidentes);
Reduzir o risco de dano a terceiros (incluindo o médico e a equipe de saúde) por meio da
manutenção de um ambiente seguro;
Ajudar o usuário a manejar suas emoções e seu comportamento, bem como a readquirir
controle sobre seu comportamento;
Evitar danos ao usuário (prescrever medicamentos seguros e monitorar a saúde física).
O manejo de usuários agitados inclui estratégias terapêuticas coercivas e medidas não
coercivas. A administração involuntária de medicamentos e contenção/reclusão são exemplos de
medidas coercivas. Os usuários consideram tais medidas traumáticas, tanto do ponto de vista físico
como do psicológico.
Além disso, tais medidas podem comprometer a integridade da relação médico-usuário.
Dessa forma, o manejo ambiental e comportamental, bem como técnicas de desescalonamento
verbal devem ser priorizados no manejo da agitação aguda. Atualmente, medidas de contenção são
reservadas para casos em que estratégias não coercivas se mostrem ineficazes ou quando a
prevenção imediata da integridade do usuário ou de terceiros se faça necessária. A manutenção
de uma boa relação médico-usuário, fundamentada na empatia, é uma das prioridades no
manejo da agitação aguda.
Medidas não coercivas: O tratamento não coercivo da agitação aguda baseia-se em intervenções
precoces e orientadas que objetivam desescalonar o quadro comportamental. O profissional de
saúde deve estabelecer uma boa e empática relação médico-usuário. Sempre que possível, o
usuário deve ser informado e consentir com as diversas intervenções. O ambiente deve ser tranquilo
e seguro para todos os presentes.
Intervenções comportamentais e ambientais:
Implementação de protocolos e rotinas para o manejo de usuários agitados e/ou violentos;
Treinamento constante e reciclagem dos membros da equipe que presta cuidados;
Disponibilidade de uma equipe de segurança;
Remoção de objetos que possam ser utilizados como armas;
O usuário e o clínico devem estar em posição que permita a ambos alcançar a porta, que
deve estar aberta;
Remoção ao máximo de estímulos externos;
Redução do tempo de espera para consulta.
Desescalonamento verbal:
Respeito ao espaço pessoal do usuário;
Não ser provocativo;
Estabelecimento de contato verbal;
Concisão (capacidade de expressar a totalidade da mensagem que deseja transmitir usando
poucas palavras);
Identificação de desejos e sentimentos do usuário;
166
Escuta cuidadosa;
Concordar ou "concordar para discordar";
Estabelecimento de limites claros;
Oferta de escolhas e demonstração de otimismo;
Diálogo de modo coeso com o usuário e a equipe.
Medidas coercivas: As medidas de contenção consistem na utilização de meios físicos ou
farmacoterápicos para o controle comportamental do usuário agitado com reasseguramento da
segurança e da integridade do usuário e de terceiros.
Tais medidas devem ser utilizadas apenas quando técnicas não coercivas se mostrarem
ineficazes ou na eventualidade de risco imediato à integridade do usuário ou da equipe de saúde.
Contenção física: Se as técnicas de atenuação forem mal sucedidas, o coordenador deve assumir
a liderança do processo de contenção mecânica.
O coordenador deve:
Comunicar ao usuário o que se passa e manter as técnicas de atenuação;
Garantir a não obstrução das vias respiratórias do usuário;
Monitorizar os sinais vitais e o comportamento do usuário;
Considerar o uso de medicações a fim de evitar as contenções prolongadas.
Nível 3
Ocorreu perda de controle por parte do Imobilizar fisicamente o usuário;
usuário e houve necessidade de ação Realizar contenção mecânica e fazer uso de medicações.
física.
Nível 4
Restabelecer o vínculo terapêutico.
Ocorreu uma requisição de controle.
169
Figura 09 – Fluxograma de atendimento usuário com agitação ou agressividade
170
Tratamento da agitação/agressividade segundo o diagnóstico diferencial AP: antipsicótico;
BZD: benzodiazepínico. Modificado de Mavrogiorgou et al., 2011.
Recomendações de medicações injetáveis:
O midazolam IM, 7,5-15 mg, foi mais rapidamente sedativo que a combinação de haloperidol
5-10 mg e prometazina 50 mg;
A combinação de haloperidol 10 mg e prometazina 25-50 mg teve a mesma efetividade
aguda que olanzapina 10 mg, mas o efeito da combinação foi mais duradouro;
A combinação de haloperidol 5-10 mg e prometazina 50 mg foi mais efetiva e mais bem
tolerada que o uso isolado de haloperidol 5-10 mg;
O uso de clorpromazina IM está associado à hipotensão súbita, além de importantes efeitos
anticolinérgicos, o que pode ser especialmente problemático para usuários idosos e/ou com
delirium. Pelo risco de morte súbita não se recomenda seu uso atualmente;
O uso de benzodiazepínicos e antipsicóticos por via endovenosa (EV) não deve ser indicado,
exceto em circunstâncias excepcionais, em virtude do risco de depressão respiratória e do
sistema nervoso central;
O uso de diazepam IM e de antipsicóticos de depósito (ex: Haloperidol Decanoato) não é
recomendado em situações de urgência em razão do risco de absorção errática e de pouca
previsibilidade em relação à eficácia aguda.
Medicamentos Orais
Medicamentos IM
Medicamentos EV
§ Apresenta maior risco de efeitos extrapiramidais que os outros fármacos. Considerar uso
concomitante de prometazina 25 mg via oral ou prometazina 25-50 mg IM.
# Ter disponível flumazenil EV para a reversão de possível depressão respiratória induzida por
benzodiazepínico.
172
Quadro 22 – Principais medicações utilizadas em emergências psiquiátricas em crianças e adolescentes
DOSE E VIA DE NÍVEL DE EVIDÊNCIA POR APROVAÇÃO PELA
MEDICAÇÃO CONSIDERAÇÕES
ADMINISTRAÇÃO DIAGNÓSTICO FDA
VO: iniciar com 0,5 mg/dia Transtorno de Tourette – Grau I A eficácia não é bem estabelecida para faixa etária pediátrica; não utilizar
com dose-alvo de 0,05-0,15 em menores de 3 anos.
mg/kg/dia, para transtornos Sintomas psicóticos – Grau II
psicóticos, e de 0,05-0,075 Hiperatividade, alterações de O uso de substâncias anticolinérgicas pode causar ativação do
Haloperidol comportamento, hiper excitabilidade – A partir de 3 anos comportamento.
mg/kg/dia, para quadros não
psicóticos Grau II A condição para o uso é ter fácil acesso a substâncias anticolinérgicas
VO para administração IM em caso de SEP.
IM
2,5-10 mg Esquizofrenia – Grau II Apesar de não ser oficialmente recomendada, estudos recentes sugerem
A partir de 13 anos
que a olanzapina VO é eficaz e segura para distúrbios do comportamento
Olanzapina VO Transtorno do humor bipolar – Grau II nessa faixa etária.
A formulação IM não é recomendada para menores de 18 anos.
A partir de 10 anos
IM Maior risco de efeitos colaterais.
Não aprovado para agressividade e Maior risco de ativação do comportamento.
0,1-0,15 mg/kg Aprovado para
agitação psicomotora Menor tempo de ação em relação ao haloperidol.
VO sedação pré-cirúrgica
Midazolam Pode causar sedação profunda e depressão respiratória.
IM em crianças e
O flumazenil (antagonista) deve estar disponível.
EV adolescentes
0,5-2,0 mg/dia Esquizofrenia – Grau II A partir de 13 anos Antipsicótico mais utilizado nessa população.
A partir de 10 anos
Risperidona VO Transtorno do humor bipolar – Grau I Irritabilidade em
Agressividade – Grau I usuários autistas
Transtorno de Tourette – Grau I de 5 a 16 anos
10-20mg Esquizofrenia – Grau II Dados recentes sugerem que pode ser segura e efetiva no tratamento de
A partir de 13 anos distúrbios do comportamento.
Ziprasidona
VO Transtorno do humor bipolar – Grau II A partir de 10 anos Monitoração de ECG recomendável )(risco de aumento do intervalo QT).
IM
0,04 mg/kg/dose (dose Sintomas extrapiramidais induzidos A postura distônica induzida por medicação pode ser rapidamente revertida
repetida a cada ½ hora, se por medicações pela administração EV lente de 1-2 mg de biperideno.
necessário, até um máximo de
4 doses/dia)
Biperideno Monitorar possível reação adversa anticolinérgica, que, apesar de ser mais
IM
frequente em superdosagens, também pode acontecer com doses
EV terapêuticas. Evitar administração concomitante com outras substâncias que
apresentem efeitos
FDA, Food and Drug Administration; VO, via oral; IM, intramuscular; EV, endovenosa; SEP, Sintomas extrapiramidais; ECG, eletrocardiograma.
Nível de evidência: Grau I – pelo menos uma revisão sistemática de vários ensaios clínicos randomizados controlados; Grau II – evidência de pelo menos um ensaio clínico randomizado controlado.
173
Tratamento Medicamentoso na Gestação e Puerpério
O tratamento vai variar dependendo do tipo de transtorno, da gravidade dos sintomas, e da
história prévia de tratamento e resposta.
Qualquer decisão de continuar ou iniciar o tratamento durante a gestação deve refletir a
avaliação dos seguintes fatores:
Risco do feto à exposição ao medicamento;
Risco da doença não tratada para a mãe e para o feto;
Risco de recaída associada à retirada de um tratamento de manutenção.
Com raras exceções, toda droga ou substância química pode passar pela placenta e chegar
ao feto em várias concentrações, dependendo de sua solubilidade lipídica e de sua estrutura
química. As consequências da exposição pré-natal aos psicotrópicos para o feto não são bem
estabelecidas.
Quatro tipos de riscos são citados:
Risco de abortamento;
Risco de malformação dos órgãos ou teratogênese;
Risco de toxicidade neonatal e síndrome de abstinência durante o período neonatal;
Risco de sequelas neurocomportamentais no longo prazo.
174
Classificação de risco do uso de medicações durante a gestação
A. Estudos controlados não mostram risco. Estudos adequados e bem controlados em
mulheres grávidas não demonstraram risco no feto;
B. Não há evidência de risco em humanos. Os estudos em animais ou não mostram riscos, ou
mostram, mas não em humanos;
C. Risco não pode ser descartado. Não existem estudos em humanos, e os estudos em animais
ou mostram riscos no feto ou não existem. Entretanto os benefícios podem superar os riscos;
D. Evidência positiva de risco. Dados de investigação ou pós-comercialização mostram risco
para o feto. Entretanto os benefícios podem superar os riscos.
Contra-indicada na gravidez: Estudos em animais ou humanos, ou dados de investigação ou pós-
comercialização, mostram risco fetal que claramente supera qualquer benefício ao usuário.
Antipsicóticos: Os antipsicóticos de gerações mais recentes têm, em geral, a preferência no
tratamento, em especial por sua eficácia em sintomas negativos. Destes, a risperidona usufrui de
mais tempo no mercado, e riscos não lhe têm sido atribuídos, embora ainda apresente risco C.
Quetiapina e olanzapina: Também têm alguma segurança associada (risco C), pois não se fez
ainda nenhuma associação de teratogenicidade. A quetiapina é a menos estudada até o momento,
mas pode ser interessante por sua falta de ação sobre a prolactina, assim como a clozapina (risco
B), particularmente segura, mas com a limitação da farmaco vigilância relacionada à agranulocitose,
além de efeitos hipotensores e grande sedação.
O haloperidol e as fenotiazinas (levomepromazina, clorpromazina): Apresentam segurança
relativamente bem estabelecida, pelo tempo de mercado que possuem (risco B). O haloperidol
chegou a ser usado, em doses baixas, como alternativa para hiperemese gravídica. Possíveis
limitações podem residir nos efeitos colaterais.
Benzodiazepínicos:Têm tido alguma teratogenicidade associada, embora os dados sejam
controversos pela sua frequente associação com álcool e drogas ilícitas.
Diazepam e benzodiazepínicos de meia-vida longa são associados de forma costumeira,
quando usados no último trimestre, a recém-nascidos hipotônicos ou com lentificação de respostas,
incluindo o reflexo para mamar; por isso, seriam classificados como risco D.
Uso de Psicofármacos Durante a Lactação: Atualmente, muitos antidepressivos estão sendo
estudados em relação à lactação, e os ISRS foram os menos presentes no leite materno. Também
foram consideradas seguras (de baixo risco) as seguintes drogas: a maioria dos tricíclicos,
benzodiazepínicos em dose baixa e única, carbamazepina, valproato em doses baixas e fenitoína.
Drogas como haloperidol, fenotiazinas em baixas doses, IMAOS, ISRS, benzodiazepínicos
e betabloqueadores foram consideradasde risco moderado. A clozapina é contra-indicada pelo risco
de agranulocitose, e estudos realizados em animais detectaram-na no leite. Antipsicóticos de última
geração ainda têm poucos estudos, devendo-se então não utilizá-los.
“Deve-se evitar também o uso do carbonato de lítio pelo risco de toxicidade no bebê. Ainda
há poucos estudos relacionados aos novos antidepressivos para que possam ser utilizados com
segurança” (Botega et al., 2006, apud Camacho et al, 2006).
175
Eletroconvulsoterapia (ECT): Gestantes severamente deprimidas, com ideias suicidas, quadros
de mania, catatonia ou psicose podem necessitar de internação e, com frequência, o tratamento de
escolha nesses casos é a ECT.
Duas revisões recentes constataram que seu uso é seguro e eficaz durante agestação. Em
uma revisão com 300 casos tratados com ECT durante a gestação, publicados nos últimos 50 anos,
houve relato de quatro trabalhos de parto prematuros apenas. Não houve nenhum caso de ruptura
prematura de placenta (NONACS e COHEN, 2002).
Pesquisas recentes sugerem que o risco é mínimo durante a gravidez, tanto em relação à
própria ECT quanto aos medicamentos utilizados durante o procedimento, fazendo da ECT um
recurso útil no tratamento de transtornos psiquiátricos em gestantes. Maletzky (2004) realizou um
estudo de revisão de 27 casos, descrevendo que, em quatro destes, a condição de gestante foi a
principal indicação para a escolha de ECT como medida terapêutica, escolha esta realizada em
função da segurança do método em relação aos riscos que podem haver quando ocorrem
transtornos depressivos nessa fase.
A ECT seria um procedimento adequado também como alternativa à farmacoterapia
convencional às mulheres que não poderiam ser expostas a determinados tipos de
medicações durante a gravidez, ou àquelas que não responderam ao tratamento
farmacológico.
É importante discutirmos o uso desta valiosa ferramenta de tratamento no âmbito do SUS,
visto que ainda existem muitos tabus referentes à mesma, e a ampliação de acesso sendo que
existe plena documentação e estudos baseados em evidência que comprovam não somente sua
segurança como a sua eficácia.
Tratamento Medicamentoso Idoso: É importante saber a etiologia da agitação, para se proceder
a uma escolha mais racional do tipo de agente farmacológico. A agitação no caso de uma catatonia
hipercinética, por exemplo, responderá bem à administração de benzodiazepínico EV, mas poderá
responder mal ao uso de antipsicóticos. Na agitação em contexto de delirium, ao contrário, o
antipsicótico pode auxiliar, e o benzodiazepínico, agravar o quadro.
Também é importante, no momento da escolha do medicamento, lembrar que o
metabolismo do idoso é mais lento assim como a absorção e eliminação do mesmo podendo
acarretar em efeitos secundários.
176
Quadro 24 – Medicamentos prescristos para idosos, benefícios e riscos
Depressão respiratória.
Sem SEP/distonias. Metabólito ativo resultado em longo
5-10 mgVO ou Também usado para período de ação, por isso,
Diazepam
EV abstinência de álcool ou problemático se hádisfunção
benzodiazepínicos. hepática. Na apresentação IM, a
absorção é errática.
Previne/trata SEP/distonias
25-50 mg VO, Delirium anicolinérgico com doses
Prometazina quando associada a
IM ou EV altas em idosos.
antipsicóticos.
Sedativo.
Início de ação rápido. Raros SEP na forma EV.
5-50 mg
Haloperidol Baixo custo. Muito seguro do ponto de vista
EV
O mais indicado para a cardiovascular.
agitação no delirium.
SEP: Sintomas extrapiramidais; VO: via oral; IM: intramuscular; EV: endovenosa.
177
A partir da vivência direta ou indireta de uma situação violenta, uma pessoa pode
desenvolver uma série de transtornos mentais, como transtorno de estresse agudo , transtorno de
estresse pós-traumático (TEPT) agudo e crônico, transtorno de ajustamento e quadros psicóticos
reativos breves.
Nos casos atendidos no pronto-socorro, a emergência cirúrgica ou clínica acaba se
sobrepondo de maneira a deixar encoberto ao socorrista um estado emocional patológico da vítima
após ter sofrido uma tentativa de assassinato, estupro, acidente automobilístico grave, desastre
natural ou mesmo terrorismo.
De forma acertada, a prioridade é estabilizar rapidamente a emergência que causa risco
imediato à vida. No entanto, uma avaliação resumida e objetiva do usuário, com enfoque em
identificação de sintomas preditivos, posterior à retirada do risco de vida, é fundamental para o
tratamento precoce de condições graves, como o transtorno de estresse agudo, que poderão levar
a uma das doenças psiquiátricas mais frequentes e incapacitantes no Brasil, o transtorno do
estresse pós-traumático e suas comorbidades
178
Para a maioria das pessoas a melhor chance de detecção é durante atendimentos de saúde
rotineiros oportunos, como após um assalto ou acidente ou quando uma pessoa revela história de
violência doméstica.
As pessoas com TEPT podem se apresentar aos serviços de saúde com problemas
relacionados, como depressão ou abuso de substâncias; ou ainda com atendimentos repetidos,
queixando-se de sintomas físicos sem explicação anatômica e fisiológica.
MITO VERDADE
Mostrar para o usuário que “existem O usuário, confrontado com vivências extremamente dolorosas
situações bem piores que a sua” ou e complexas, fica confuso com tais afirmações. Nesse caso,
que “poderia ser bem pior” e uma boa também pode perceber a intervenção da equipe de saúde como
alternativa para que ele se sinta uma incapacidade de tolerar o sofrimento, não conseguindo
aliviado. realizar uma intervenção adequada, com falta de empatia
179
Conforme a CID-10:
F43.1 Estado de “stress” pós-traumático
Caracterizado como uma reação patológica de indivíduos que passavam por uma situação
considerada traumática, apresentam sintomas de:
Dissociação: Estreitamento do campo de consciência, redução da atenção, desorientação,
incapacidade de compreensão de estímulos, anestesiamento emocional, desrealização e
despersonalização, amnésia dissociativa e estupor dissociativo.
180
11.4.2 Diagnóstico Diferencial
Outros transtornos psiquiátricos: Pânico, TOC, fobias, depressão, transtorno de humor
fase maníaca, inicio de surto psicótico, transtornos de personalidade;
Doenças cardiovasculares: Anemia, angina, insuficiência cardíaca congestiva, estados
adrenérgicos hiperativos, hipertensão, prolapso da válvula mitral, infarto do miocárdio,
taquicardia atrial paradoxal;
Doenças pulmonares: Asma, hiperventilação, embolia pulmonar;
Doenças neurológicas: Doença cerebrovascular, epilepsia, doença de Huntington, Doença
de Ménière, enxaqueca, esclerose múltipla, acidente vascular isquêmico, transitório, tumor,
doença de Wilson;
Doenças endócrinas: Doença de Addison, síndrome carcinoide, síndrome de Cushing,
diabetes, hipertireoidismo, hipoglicemia, hipoparatireoidismo, distúrbios da menopausa,
feocromocitoma, síndrome pré-menstrual;
Intoxicações por drogas: Anfetamina, nitrito de amilo, anticolinérgicos, cocaína,
alucinógenos, maconha, nicotina, teofilina, antidepressivos (ISRS);
Abstinência de drogas: Álcool, anti-hipertensivos, opiáceos e opioides, sedativo-hipnóticos
Outras condições: Dor crônica, anafilaxia, deficiência de vitamina b12, desequilíbrios
eletrolíticos, intoxicação por metais pesados, infecções sistêmicas, lúpus eritematoso
sistêmico, arterite temporal, uremia
181
11.4.4 Gestação e Puerpério
O TEPT no período pós-parto tem sido investigado com maior frequência apenas nos últimos
dez anos, quando diagnosticado neste período. O transtorno pode ser decorrente de duas
condições distintas:
Algumas mulheres desenvolvem o quadro a partir da vivência de situações traumáticas
relacionadas ao parto e/ou à saúde da criança em seus primeiros dias de vida, e
complicações maternas ou neonatais seriam os principais fatores de risco neste contexto;
Um segundo grupo de situações reúne mulheres que vivenciaram algum trauma antes ou
durante a gestação, não necessariamente relacionado ao ciclo gestacional. Essas
mulheres desenvolvem TEPT no puerpério a partir da revivescência de traumas anteriores
ou por continuação do TEPT adquirido durante a gestação. Para esses casos, os principais
fatores de risco são o acúmulo de situações traumáticas ao longo da vida.
11.4.5 Idoso
Os transtornos de ansiedade e TEPT frequentemente são comórbidos com o prejuízo
cognitivo e as demências nos idosos. O declínio cognitivo deve ser considerado na presença de
sintomas ansiosos; por sua vez, a ansiedade e TEPT pode dificultar a apresentação dos sintomas
e a habilidade de se comunicar nos indivíduos com demência. Tal como nos adultos jovens, a
ansiedade e TEPT em idosos com frequência ocorre associada à depressão.
As consequências da ansiedade na terceira idade são potencialmente graves. Em um estudo
prospectivo, observou-se que a ansiedade em geral não há melhora de modo espontâneo após 2 a
3 anos de duração. A hipertensão arterial, hipoglicemia, e doença coronariana podem ser agravadas
por estresse e ansiedade crônica.
182
Medicar desnecessariamente: sintomas leves não devem ser medicados; evitar
benzodiazepínicos;
Não valorizar o impacto destruidor do trauma, não patologizar, não se referir a
sintomas reacionais como doença mental;
Uma vez feito o diagnóstico de TEPT agudo (sintomas persistem após 30 dias do trauma),
encaminhar/tratar corretamente.
Orientações gerais para a equipe:
Dêem condições para que os usuários desabafem e relatem sua história de eventos
traumáticos, sempre que hajam sintomas de ordem psíquica;
Familiarizem-se com os sinais e sintomas do transtorno de estresse pós-traumático;
Perguntem sobre a presença de sintomas depressivos coexistentes;
Após um trauma maior, de grande impacto, discutam o potencial de prevenção do
aparecimento de sintomas pós-traumáticos, através de seguimento combinado com
especialista;
Não aplicar sessões com característica de "interrogatório";
Expliquem ao usuário que podem ser necessários períodos de tratamento de até 12
semanas para reavaliar a eficácia do procedimento utilizado;
Expliquem que o tratamento com remédios geralmente dura pelo menos um ano;
Monitorem a eficácia e a aceitabilidade do tratamento ao longo do período;
Reforçar condição atual de estabilidade clínica e segurança do usuário, afastando-o do
ambiente da cena traumática, valorizando o “aqui e agora estou seguro” (ambiente
hospitalar/consultório médico, presença da equipe de saúde, equipe de segurança,
familiares, etc.).
Pesquisar dados e detalhes sobre o trauma com terceiros ou familiares, quando possível;
Demonstrar otimismo, reforçar aspectos saudáveis do usuário, focar na melhora e no
retorno ao funcionamento normal;
Pesquisar história de traumas e transtornos mentais atuais e anteriores;
Dar atenção aos critérios de transtorno de estresse agudo; atenção se todos os critérios
presentes e/ou sintomas graves e incapacitantes;
Evitar benzodiazepínicos. Considerar betabloqueadores há poucas horas do trauma;
trazodona se insônia; baixas dosagens de antipsicóticos atípicos para sintomatologia
moderada/grave;
Usuários e familiares devem ter noção básica a respeito do que é o TEPT, do quanto esperar,
de quando e onde procurar ajuda.
Para pessoas com sintomas há menos de 3 meses, leves a moderados, pode ser
oferecida um sistema de vigilância ativa, com retorno agendado para um mês. Deve-se
sempre levar em conta as preferências e expectativas dos usuários, além de garantir a continuidade
do cuidado traves de estratégias de gestão de casos como a busca ativa.
183
Algumas formas de psicoterapia focadas no trauma, com componentes de exposição ou de
restruturação cognitiva, são altamente eficazes e devem ser oferecidas como tratamento de primeira
linha quando disponíveis, para todos os usuários com sintomas moderados a graves ou que não
melhoram após um mês de observação.
Para gestantes, estes também devem ser os tratamentos de primeira linha em todos os
casos, dado o perfil de segurança duvidoso dos fármacos utilizados no TEPT nesta população.
Para pessoas com depressão ou hipervigilância importantes, deve-se considerar
farmacoterapia como tratamento adjuvante ao tratamento psicológico.
Quanto às psicoterapias, deve-se salientar ao usuário que:
A resposta a um tratamento psicológico não é imediata;
Um transitório agravamento dos sintomas, por vezes, pode ocorrer;
As terapias prolongadas são muitas vezes necessárias;
A dependência do terapeuta pode ocorrer, causando problemas quando o tratamento é
interrompido de forma brusca;
Os resultados encorajadores de curto prazo não são garantia de bons resultados no longo
prazo.
184
Existem alguns relatos de caso mostrando que os sintomas dissociativos, bem como os
flashbacks, podem melhorar com o uso de antipsicóticos atípicos, como a risperidona.
No trauma agudo, benzodiazepínicos devem ser evitados, pois podem piorar o quadro.
Seu uso deve ser de curtíssimo prazo (poucos dias) e restrito a casos que apresentem algum
risco. Em alguns estudos, usuários que utilizaram benzodiazepínicos, principalmente de
maneira prolongada (semanas a meses), desenvolveram mais diagnóstico de TEPT do que
aqueles que não haviam usado essas medicações.
Em casos de insônia, deve-se considerar o uso de indutores do sono não benzodiazepínicos.
Os antidepressivos tetracíclicos, por suas propriedades ansiolíticas e hipnóticas, tem sido
utilizada com frequência. O uso de antipsicóticos atípicos, como risperidona, olanzapina e
quetiapina, pode e deve ser considerado como opção de tratamento, seja no caso de sintomas
dissociativos, de revivescência, seja no caso de hiperestimulação/ hiperreação.
De maneira geral, as intervenções medicamentosas têm o objetivo de diminuir a intensidade
dos sintomas do transtorno de estresse agudo, mas ainda não há dados consistentes que
evidenciem que a farmacoterapia em fase precoce diminua o risco de TEPT, embora se saiba que
não tratar, mesmo na fase aguda, está relacionado a maior cronificação dos sintomas.
Tratamento Medicamentoso na Infância e Adolescencia: A farmacoterapia isoladamente não é
indicada neste transtorno, a menos que haja uma condição comórbida (i.e., ansiedade ou
depressão) que contribua para o transtorno ou resulte dele.
Os agentes antidepressivos para ansiedade e TEPT infantil oferece evidências de que
ISRSs, são eficazes no tratamento de ansiedade infantil. Com base nessas evidências, os ISRSs
são a primeira escolha de medicação no tratamento de transtornos de ansiedade e TEPT em
crianças e adolescentes.
A dosagem da fluoxetina de 20 mg/dia, é segura e efetiva para crianças com esses
transtornos, sendo os efeitos colaterais menores, incluindo distúrbio gastrintestinal, dores de cabeça
e sonolência.
A Imipramina foi considerada eficaz em doses de até 200 mg, ou 3 mg/kg, o que for
menor, e pode ser uma opção para crianças e adolescentes que não toleram outros ISRSs
devido à insônia, supressão significativa do apetite ou ativação. Ainda assim, a imipramina não
é recomendada como tratamento de primeira linha devido a seus maiores riscos potenciais do que
outros agentes ISRSs, incluindo risco cardiovascular de hipotensão e arritmia e risco de convulsões.
Fármacos tricíclicos não são mais recomendadas em razão de seus efeitos cardíacos
adversos potencialmente graves.
185
Atualmente, muitos antidepressivos estão sendo estudados em relação à lactação, e os
ISRS foram os menos presentes no leite materno.
Tratamento Medicamentoso para o Idoso: Deve-se ter atenção para os efeitos adversos dos
medicamentos prescritos e para o risco de interação medicamentosa. Devido à presença de
várias enfermidades que comumente acometem os idosos, eles tendem a fazer uso de vários
medicamentos, com risco elevado de interação medicamentosa com potencialização de efeitos
adversos.
Especialmente, devem-se evitar drogas que produzam ou potencializem efeitos
anticolinérgicos, hipotensão postural, distúrbios do sistema de condução cardíaca e delirium.
186
12 ABUSO OU DEPENDÊNCIA QUIMICA
12.1 Introdução
O problema do abuso de drogas lícitas e ilícitas tem várias facetas. É importante haver ação
intersetorial, envolvendo as áreas de educação, segurança, justiça e cidadania, assistência social
e saúde. As complicações clínicas e sociais causadas pelo consumo de álcool, tabaco e outras
drogas são bem conhecidas e, cada vez mais, abordadas no rol dos problemas de saúde pública.
São também abordadas na medicina legal e na psiquiatria forense, pois há um número significativo
de crimes e infrações ligados ao abuso de drogas.
No Brasil, cerca de 18.000 adolescentes e 1 milhão de adultos experimentaram cocaína
fumada (crack ou oxi), pelo menos uma vez, ao longo do ano de 2012. No mesmo ano, mais de 2,5
milhões de pessoas experimentaram, pelo menos uma vez, a cocaína em pó, aspirada. O uso
regular de álcool, pelo menos uma vez por semana, ocorre em 63% dos homens e em 53% das
mulheres, o que demonstra haver uma população em risco, para o etilismo, muito grande. Os
tabagistas são 21,4% da população masculina brasileira e 12,8% da feminina.
Apesar dessa realidade, o uso nocivo e a dependência de substâncias psicoativas ainda são
pouco compreendidos. Boa parte dos dependentes químicos entra em contato com o sistema de
saúde, devido a complicações decorrentes do seu consumo, sem pensarem em parar o consumo
da substância psicoativa. Nas unidades básicas são atendidos por profissionais de saúde
generalistas. É comum que equipes itinerantes, de consultório na rua, entrem em contato com
dependentes químicos que demandem da equipe, inicialmente, apenas soluções para problemas
de saúde física como pneumonia, dor nos dentes, feridas nas pernas, doenças venéreas e diarreia,
recusando falar sobre a dependência.
As substâncias psicoativas são divididas em três grupos:
Drogas psicoanalépticas ou estimulantes do SNC (cocaína, anfetamina, nicotina,
cafeína, etc.).
Drogas psicolépticas ou depressoras do SNC (álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos,
opioides, solventes, etc.).
Drogas psicodislépticas ou alucinógenas (cannabis, LSD, fungos alucinógenos,
anticolinérgicos, etc.).
Nesta linha de cuidado vamos abordar de forma geral o manejo das dependências
químicas e as substâncias mais comuns. A intenção no momento é dar conceitos básicos
para o acompanhamento e tratamento dessas patologias.
Conforme CID 10:
A dependência de substâncias psicoativas é uma síndrome cujo elemento central é um
desejo intenso de consumir a substância. Dois pontos devem ser observados:
1. Os critérios diagnósticos não divergem de acordo com a substância usada;
187
2. É vista como um fenômeno global, cuja prioridade é o aspecto qualitativo e não quantitativo
do consumo (não há divisão entre dependência física e psicológica).
188
atividades e obrigações, a um aumento da tolerância pela droga e por vezes, a um estado de
abstinência física.
A síndrome de dependência pode dizer respeito a uma substância psicoativa específica (por
exemplo, o fumo, o álcool ou o diazepam), a uma categoria de substâncias psicoativas (por
exemplo, substâncias opiáceas) ou a um conjunto mais vasto de substâncias farmacologicamente
diferentes. É denominada alcoolismo crônico, etilismo crônico, dipsomania.
189
falhas de memória). As outras funções cognitivas estão em geral relativamente bem preservadas e
os déficits amnésicos são desproporcionais a outros distúrbios.
Inclui os casos de psicose de Korsakov, a síndrome de Wernike, a doença de Marchiafava-
Bignami e outros transtornos amnésicos induzido pelo álcool.
12.1.9 Avaliação
A avaliação inicial é uma importante ferramenta, pois além estabelecer um diagnóstico
adequado, pode ser decisiva para o engajamento do usuário, desencadeando o processo de
mudança. A avaliação tem como principais objetivos:
Coletar dados do indivíduo para o planejamento de seu cuidado;
Investigar queixas ou alterações do estado de saúde do indivíduo;
Investigar sua condição social e econômica.
A entrevista deve ser diretiva, acolhedora, empática, clara, simples, breve e flexível. O foco
deve estar centrado no indivíduo e no uso de substâncias. Intervenções desse tipo auxiliam a
motivação do usuário e melhoram o planejamento do tratamento. É importante que os técnicos
amenizem as possibilidades de confrontos e estimulem mudanças compatíveis com o estado
motivacional do usuário, utilizando o bom senso.
190
[Link] Questões Essenciais para a Investigação do Consumo de Drogas Psicoativas
O último episódio de consumo (tempo de abstinência);
A quantidade de substância consumida;
A via de administração escolhida;
O ambiente do consumo (se ocorre em festas, na rua, no trabalho, com amigos, com
desconhecidos, sozinho, no lar);
A frequência do consumo nos últimos meses.
191
Comorbidades Psiquiátricas – A melhora do transtorno psiquiátrico associado pode ser
benéfica para a evolução do quadro de dependência estabelecido, além de estimularem
uma maior busca por tratamento médico.
Suporte Social – Melhora do prognóstico dos dependentes de substâncias psicoativas.
Uma investigação completa deve abordar a situação do indivíduo no emprego e na família,
a estabilidade do núcleo familiar e a disponibilidade desta para cooperar no tratamento do
usuário. Caso não haja tal apoio, uma rede de suporte social deverá ser organizada.
Para cada indivíduo, cabem orientações específicas e atitudes compatíveis com o grau de
problema. Em resumo, a avaliação inicial deve incluir:
Uma triagem breve e efetiva;
Uma descrição detalhada do problema;
A avaliação da motivação;
O diagnóstico precoce com uma investigação de comorbidade;
O plano de tratamento;
Avaliação de processo e resultados.
192
educacional (para os filhos), orientação vocacional e outros serviços sociais e/ou legais. É
fundamental que o tratamento esteja apropriado a idade, sexo, grupo étnico e cultural do
usuário.
É importante que o usuário permaneça durante um período adequado de tempo no
tratamento. A duração apropriada do tratamento para uma pessoa depende de seus
problemas e necessidades. As investigações indicam que na maioria das vezes,
começa-se a se verificar uma melhora significativa depois de três meses de
tratamento. Quando se chega a este ponto, os tratamentos adicionais podem
culminar em uma recuperação acelerada. Considerando que muitas pessoas
abandonam cedo este processo, os programas devem incluir estratégias que
comprometam e mantenham os usuários no tratamento.
O aconselhamento (individual e/ou em grupo), psicoterapias são componentes
indispensáveis do tratamento efetivo para a dependência. Durante a terapia, os
usuários tratam de seus problemas de motivação, desenvolvem habilidades para recusar
o uso da droga. Substituem atividades em que se utilizavam das substâncias por outras
úteis e construtivas em que não há o uso de drogas, e melhoram suas estratégias para a
resolução de problemas. A psicoterapia comportamental também melhora as relações
interpessoais e facilita a reinserção do indivíduo em sua família e na própria comunidade.
Para muitos usuários, os medicamentos formam um elemento importante do
tratamento, especialmente quando se combinam com os diferentes tipos de terapia.
No caso de indivíduos com problemas de dependência ou abuso de drogas que ao
mesmo tempo apresentam outros transtornos mentais, deve-se tratar os dois
problemas de uma maneira integrada. Frequentemente se vêem transtornos de
dependência e outros transtornos mentais num mesmo indivíduo. Os usuários que
apresentam as duas condições devem ser avaliados e tratados conforme ambos os
transtornos.
A desintoxicação médica é apenas a primeira etapa do tratamento para a
dependência e, por si só, pouco faz para modificar o uso de drogas em longo prazo. A
desintoxicação médica trata cuidadosamente de sintomas físicos agudos da síndrome de
abstinência, que ocorrem quando se deixa de usar alguma droga. Ainda que a
desintoxicação por si só raramente seja suficiente para ajudar as pessoas dependentes a
conseguir abstinência em longo prazo, para alguns indivíduos serve como um precursor
fortemente indicado para o tratamento efetivo da dependência de drogas.
O tratamento pode ser efetivo, mesmo não sendo voluntário. O tratamento pode ser
facilitado pela forte motivação do usuário. Entretanto, medidas compulsórias ou
recompensas dentro da família, do ambiente de trabalho ou do próprio sistema judiciário
podem incrementar significativamente a porcentagem de indivíduos que entram e que se
mantém no processo, bem como o sucesso do tratamento da dependência de drogas.
193
O uso de drogas durante o tratamento deve ser supervisionado constantemente.
Durante o período de tratamento, há risco de recaídas ao uso de substâncias psicoativas.
A supervisão objetiva do uso de drogas e álcool durante o tratamento, incluindo análise de
urina ou outros exames, pode ajudar o usuário a resistir a seus impulsos de usar estas
substâncias. Este tipo de supervisão também pode proporcionar uma evidência precoce
do uso de drogas, para que o plano de tratamento do usuário possa ser reajustado.
Informar os resultados aos usuários, cujo resultado tenha sido positivo para o uso recente
de substâncias, pode ser um elemento importante no processo de tratamento.
Os programas de tratamento devem incluir exames para HIV/AIDS, hepatite B e C,
tuberculose e outras enfermidades infecciosas, conjuntamente com a terapia
necessária para ajudar aos usuários a modificar ou substituir aqueles comportamentos que
os colocam a si e aos outros em risco de serem infectados. A terapia pode ajudar aos
usuários a evitar comportamentos de alto risco. Também pode ajudar as pessoas que já
estão infectadas a manejar sua doença.
A recuperação da dependência de drogas pode ser um processo em longo prazo e
freqüentemente requer várias tentativas de tratamentos. Tal como em outras doenças
crônicas, a recaída pode ocorrer durante ou depois de tentativas exitosas de tratamento.
Os usuários podem necessitar de tratamentos prolongados e várias tentativas de
tratamento para poder conseguir a abstinência em longo prazo e um funcionamento
completamente reestabelecido. Participação em programas de auto-ajuda durante e depois
do tratamento serve de apoio para a manutenção da abstinência.
194
Quando uma pessoa está com problemas envolvendo consumo de drogas, é possível que
tenha uma série de outros problemas decorrentes desse uso ou pode ocorrer simplesmente que ela
não esteja atenta à sua condição de saúde. Portanto, para utilizarmos a estratégia da RD, é
importante perguntar para o usuário que solicita ajuda, quais malefícios o consumo de
drogas está lhe causando e como poderíamos diminuir ou eliminar alguns desses malefícios.
Uma pessoa que está em uma relação dependente de uso de drogas muitas vezes não quer,
não pode, ou não consegue parar de usar drogas. Mesmo assim, é preciso que estejamos dispostos
a ajudá-la a cuidar de sua saúde, da melhor maneira possível.
É muito comum que pessoas que usam drogas tenham dificuldade de procurar ajuda nos
serviços de saúde, pois temem que sejam internadas, presas ou que receberão alguma repreensão
do profissional de saúde. Antes de tudo, é preciso produzir vínculos.
A RD é uma estratégia muito eficaz para produzir vínculos. Quando pensamos por essa
lógica, não julgamos unilateralmente o que é melhor para o usuário.
Construímos junto com ele o que ele pode fazer para melhorar a sua vida sem que
isso envolva, necessariamente, parar completamente de usar drogas.
Existem inúmeras maneiras de fazer RD. Essa prática não se reduz à troca de seringas, de
cachimbos, de drogas mais nocivas por drogas menos prejudiciais, de hidratação para diminuir os
riscos de usar drogas sintéticas ou ao uso de camisinha. Antes de tudo isso, diz respeito ao modo
de olhar e atuar na atenção em saúde.
Em geral, os usuários compulsivos de drogas não se adaptam aos procedimentos
tradicionais de saúde: não procuram os serviços de saúde, não cumprem agendamentos, não
demandam atendimento.
Por isso, a Estratégia da Redução de Danos e a ESF se articulam observando o que segue:
Os profissionais de saúde começam seu trabalho indo aos locais onde as pessoas
fazem uso da droga, na tentativa de criar vínculos com as mesmas. Os profissionais
da ESF iniciam seu trabalho cadastrando os usuários no domicílio ou na sua área de
abrangência. As duas ações se baseiam no vínculo continuado. Na ESF o usuário, que em
serviços tradicionais era apenas um número de prontuário, transforma-se em pessoa com
história de vida, sentimentos, alegrias, angústias e dor. Os usuários conhecem seu agente
comunitário de saúde, enfermeiros e médicos pelo nome e vice-versa. Na RD e na ESF, o
êxito depende do vínculo de confiança que se cria entre os profissionais e os
usuários.
A potência do cuidado e da empatia abre o caminho interrompido pela separação dos
usuários compulsivos de drogas com o resto da sociedade. Daí a importância de não
chegar dando conselhos, tampouco sermões. O objetivo primeiro é aproximar-se; o
segundo é cuidar e o terceiro é conseguir estimular no usuário uma vontade de
mudança. Equipes de Consultórios na Rua com maior experiência conseguem que os
usuários peçam ajuda para mudar de vida e diminuir o sofrimento que provoca o uso nocivo
195
de drogas. Desse modo, equaliza-se os prazeres pessoais provocados pelo uso da droga
com o sofrimento e perdas sociais também decorrentes do seu uso.
Outra diretriz fundamental é a continuidade da relação estabelecida com usuários do
serviço de saúde e o território. Muitas medidas, como internações forçadas em
instituições fechadas se mostraram mais uma vez ineficazes, porque a grande maioria
desses usuários voltou às zonas de uso. Na maioria das vezes, muito mais arredios ao
contato com os profissionais de saúde do que antes de serem internados
involuntariamente. Durante o período de internação conseguiram ficar em abstinência, mas
não mudaram, nem foram preparados para dar continuidade ao processo de mudança de
vida. Sabemos também que, sem um tratamento continuado, que atue sobre a qualidade
de vida do sujeito, ou seja, sobre as causas dos problemas, muitas dessas pessoas se
tornam dependentes de clínicas hospitais, comunidades terapêuticas, sendo
constantemente internadas ou abrigadas.
Para que a continuidade da atenção em saúde aconteça, é fundamental não
desanimar, mesmo quando um usuário volta a usar drogas ou quando seus familiares
continuam com a mesma atitude segregadora.
É fundamental observar, quando uma pessoa volta a usar drogas e se esse uso é feito da
mesma maneira ou se continua seu programa de vida, como, por exemplo, trabalhar,
namorar, estudar, etc. As mudanças importantes podem ser pouco perceptíveis.
A premissa fundamental para uma ação bem-sucedida é a parceria. Mesmo quando a
equipe conta com a participação de especialistas, como técnicos dos CAPS Álcool e
Drogas, os usuários que habitam o território de abrangência da ESF continuam
estando sob os cuidados dos ACS, técnicos de enfermagem, enfermeiros e médicos.
Na experiência de ESF, usuários internados são e devem ser acompanhados por
esses profissionais.
196
A curiosidade natural do adolescente é um dos fatores de risco mais importantes, posto ser
o que o move a experimentar a substância, estando assim sob risco de desenvolver
dependência;
O fácil acesso às drogas e as oportunidades de uso;
Ser do sexo masculino (meninos experimentam mais que as meninas);
Influência de modismos;
Condições familiares, tanto pelo aspecto genético (filhos de pais dependentes apresentam
quatro vezes mais chance de o serem também) quanto pelos aspectos ambientais,
fortemente correlacionados com o início do uso;
Uso de drogas por pais e/ou amigos;
Relacionamento ruim com os pais;
Fatores internos do adolescente, como insatisfação e não realização em suas atividades,
insegurança, baixa autoestima e sintomas depressivos;
Baixo desempenho escolar.
O uso de drogas afeta diretamente o desenvolvimento da criança e do adolescente,
principalmente no que diz respeito às funções cognitivas, à capacidade de julgamento, ao humor e
aos relacionamentos interpessoais. Quanto mais precoce o início do uso, maiores as
deficiências nessas áreas.
Apresentam maior prevalência de abuso de múltiplas substâncias e, com muito menor
frequência, apresentam sintomas físicos de abstinência.
O tratamento dos transtornos do uso de substâncias em adolescentes visa prevenir os
comportamentos de uso, fornecer educação ao usuário e à família e abordar os fatores cognitivos,
emocionais e psiquiátricos que influenciam o uso de substâncias.
A maioria dos adolescentes que consomem álcool e drogas não se torna inexoravelmente
farmacodependente, mas de acordo com certas características de personalidade e com o ambiente,
pode-se predizer que há um aumento do risco de seguir este caminho. A cronologia da adição pode
ser sintetizada através das cinco etapas de Mc Donald:
Etapa 0: o adolescente vulnerável ao uso de substâncias sente curiosidade a respeito do
uso de drogas;
Etapa 1: o adolescente está apreendendo o uso de drogas;
Etapa 2: o adolescente busca os efeitos da droga e controla a administração;
Etapa 3: o adolescente está ensimesmado, concentrado nas mudanças dos seus estados
anímicos e tornou-se farmacodependente (o uso de drogas é necessário para manter o bem
estar);
Etapa 4: o adolescente está no último estado de farmacodependência (crônico). Sofre
usualmente de uma síndrome cerebral orgânica.
Quanto antes se intervém no ciclo, maiores as chances de recuperação.
O tratamento ocorre em vários regimes diferentes, como instituições residenciais, terapia de
grupo e sessões psicossociais individuais e CAPSij.
197
O Child and Adolescente Levels of Care Utilization System (CALOCUS) – sem tradução
para o português – (anexo C) é um instrumento validado para guiar a equipe de saúde no tratamento
do abuso de substâncias por crianças e adolescentes. Ele designa seis níveis de atenção
apropriados aos sintomas:
Nível 0: Serviços básicos (prevenção);
Nível 1: Manutenção da recuperação (prevenção de recaídas);
Nível 2: Ambulatorial (uma vez por semana);
Nível 3: Ambulatorial intensivo (duas ou mais sessões por semana);
Nível 4: Serviços integrados intensivos (tratamento-dia, hospitalização parcial, serviços
globais)
Nível 5: Serviço monitorado por médico 24 horas, não seguro (lar comunitário, comunidade
terapêutica);
Nível 6: Manejo médico 24 horas, seguro (internação psiquiátrica ou instituição residencial
altamente programada).
198
O conceito de resiliência é familiar para a equipe de saúde que tratam crianças ou
adolescentes que têm os transtornos mais graves e / ou sobrevivem à vida em circunstâncias mais
traumáticas, porém, que mantenham alto funcionamento e progresso do desenvolvimento, ou usam
tratamento para um retorno rápido a esse estado. Esta dimensão também mede até que ponto a
criança ou adolescente e sua família responderam favoravelmente ao tratamento passado.
Aceitação e engajamento: Esta dimensão é dividida em duas sub-escalas para permitir medição
da aceitação e do envolvimento da criança ou do adolescente e da família.
Claramente, o tratamento da criança ou do adolescente se beneficia quando a família é
proativa e positiva envolvido e inversamente, o tratamento sofre quando a família é desinteressada,
perturbadora ou abertamente hostil ao processo.
Somente o escore de sub-escala mais alta (a sub-escala que indica mais desafio significativo
ao tratamento) é usado no cálculo do escore composto.
As intervenções podem incluir psicoterapia e intervenção farmacológica. Esta abordagem
em geral é adequada para adolescentes com diagnósticos psiquiátricos comórbidos.
Abordagens cognitivo-comportamentais de adolescentes que abusam de substância
requerem que os mesmos estejam motivados a participar do tratamento e abstenham-se do
consumo. A terapia focaliza-se na prevenção de recaída e na manutenção da abstinência.
199
Aborto espontâneo;
Morte antes do parto ou logo em seguida;
Prematuridade;
Baixo peso;
Distúrbios do sistema nervoso central;
Presença de tremores;
Exacerbação das respostas aos reflexos motores;
Menor capacidade de habituação a estímulos visuais;
Distúrbios no padrão de sono;
Complicações à criança durante a sua vida escolar; como: falta de atenção, dificuldade de
aprendizagem, hiperatividade, dificuldade de convívio social, entre outras.
Apresentar alguma alteração no exame clinico que possa por em risco o usuário
(intoxicações, hiper ou hipoglicemia, alterações na PA, alterações na FC, etc.).
Ter feito tentativa de suicídio nos últimos sete dias e ainda tem planos de tentar novamente.
Alterações na avaliação do estado mental como confusão mental, desorientação, delírio,
alucinações ou não ter critica de sua doença (não aceita o tratamento).
Agitação psicomotora, agressividade e, ou risco para outros.
Isolamento social e ou suporte familiar fragilizado (vive sozinho, sem familiares por perto ou
amigos).
200
Figura 11 – Gravidade e duração dos sinais e sintomas da SAA
201
Quadro 26 – Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol, Revised (CIWA-Ar)
Nome: Data:
Pulso ou FC: PA: Hora:
1. Você sente um mal estar no estômago (enjôo)? Você tem vomitado?
0 Não
1 Náusea leve e sem vômito
4 Náusea recorrente com ânsia de vômito
7 Náusea constante, ânsia de vômito e vômito
2. Tremor com os braços estendidos e os dedos separados:
0 Não
1 Não visível, mas sente
4 Moderado, com os braços estendidos
7 Grave, mesmo com os braços estendidos
3. Sudorese:
0 Não
4 Facial
7 Profusa
4. Tem sentido coceiras, sensação de insetos andando no corpo, formigamentos, pinicações?
Código da questão 8
5. Você tem ouvido sons a sua volta? Algo perturbador, sem detectar nada por perto?
Código da questão 8
6. As luzes têm parecido muito brilhantes? De cores diferentes? Incomodam os olhos? Você
Tem visto algo que tem lhe perturbado? Você tem visto coisas que não estão presentes?
0 Não 4 Alucinações moderadas
1 Muito leve 5 Alucinações graves
2 Leve 6 Extremamente graves
3 Moderado 7 Contínua
7. Você se sente nervoso (a)? (observação)
0 Não
1 Muito leve
4 Leve
7 Ansiedade grave, um estado de pânico, semelhante a um episódio psicótico agudo?
8. Você sente algo na cabeça? Tontura, dor, apagamento?
0 Não 4 Moderado / grave
1 Muito leve 5 Grave
2 Leve 6 Muito grave
3 Moderado 7 Extremamente grave
9. Agitação: (observação)
0 Normal
1 Um pouco mais que a atividade normal
4 Moderadamente
7 Constante
202
10. Que dia é hoje? Onde você está? Quem sou eu? (observação)
0 Orientado
1 Incerto sobre a data, não responde seguramente
2 Desorientado com a data, mas não mais do que 2 dias
3 Desorientado com a data, com mais de 2 dias
4 Desorientado com o lugar e pessoa Escore_______________
SAA Moderada: 10-
Critérios diagnósticos SAA Leve: 0-9 SAA Grave: >18
18
Fonte: LARANJEIRA, 2000
203
A dieta é livre, com atenção especial à hidratação. Especial atenção também deve ser
direcionada à reposição vitamínica com o objetivo principal de evitar a síndrome de Wernicke
(tríade clássica de sintomas de ataxia, confusão mental e anormalidades de movimentação
ocular extrínseca). Além disso, a reposição vitamínica posterga os prejuízos da síndrome de
Wernick e Korsakoff (fase crônica), resultando em melhora relativa dos quadros de demência.
Recomenda-se a tiamina intramuscular (IM) (1 ampola IM ao dia) nos primeiros 7 a 15 dias
e, após esse período, a prescrição passa a ser via oral (VO), em dose de 300 mg/dia de tiamina. A
tiamina não está incluída na REMUME de Joinville e é prescrita conforme critério médico.
Quanto aos benzodiazepínicos (BZDs), a prescrição deve se basear nos sintomas.
Diazepam: 20 mg VO ao dia, com retirada gradual ao longo de uma semana.
204
O ambiente de tratamento deve ser calmo, com relativo isolamento, de modo a reduzir
estímulos audiovisuais.
Quanto à dieta, optar por alimentação leve, se aceita pelo usuário. É importante que os
usuários em estado de confusão mental permaneçam em jejum, devido ao risco de aspiração e
consequentes complicações respiratórias, podendo até mesmo resultar em óbito do usuário.
Nesses casos, proceder à hidratação endovenosa (EV) com 1.000 mL de solução glicosada
5%, acrescida de 20 mL de NaCl 20% e 10 mL de KCl 19,1%, a cada 8 horas. Sempre que a glicose
for administrada, fazê-la após o uso da tiamina.
A reposição vitamínica é a mesma recomendada para o nível leve/moderado. A prescrição
de BZDs deve se basear em sintomas, avaliados preferencialmente a cada hora: diazepam 10-20
mg VO a cada hora (máximo de 60 mg/dia).
A administração de BZDs por via intravenosa requer técnica específica e retaguarda para
manejo de uma eventual parada respiratória. Deve-se administrar no máximo 10 mg de diazepam
durante 4 minutos, sem diluição.
Há dois modelos de tratamento: doses fixas de BZDs ou doses variáveis de acordo com
os sintomas de abstinência. Nesse caso, a presença e a intensidade dos sintomas avaliados
clinicamente ou por meio da escala Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol,
Revised (CIWA-Ar) orientam o uso de BZDs. A gravidade dos sintomas é medida por hora. A
dose é ajustada (5 a 10 mg de diazepam) de acordo com a gravidade dos sintomas e pode ser
repetida a cada hora até a pontuação de CIWA-Ar diminuir para abaixo de 8.
Nos casos de delirium tremens, investigações clínicas e neurológicas associadas aos
exames de sangue devem ser feitas em todos os usuários para descartar outras causas comuns de
delirium, como hipoglicemia, desequilíbrio hidreletrolítico, trauma craniano levando à hemorragia
subdural, septicemia e falências renal e hepática.
Nos casos de DT, pode-se fazer uso de haloperidol 5 mg IM após tentativa com
diazepam. Os BZDs são considerados medicamentos seguros, com apresentação oral e parenteral,
têm ação anticonvulsivante e auxiliam na profilaxia de DT. Entretanto, a absorção muscular é
errática, e apresentam metabolismo hepático com potencial de desenvolver dependência.
A contenção física deverá ser utilizada somente nos casos de agitação intensa, com
riscos para o próprio usuário e para terceiros, ou quando não é possível administrar as
medicações. Especial cuidado deve ser tomado nessa técnica para evitar lesão de plexo
braquial.
As convulsões acometem 10 a 15% dos usuários, sendo que metade deles apresenta exame
de imagem cerebral alterado, e podem ocorrer no período de 1 a 2 dias. Múltiplas convulsões não
são comuns, mas quando ocorrem configuram um quadro de estado de mal epiléptico.
A crise convulsiva costuma ser um evento bastante estressante. Algumas medidas
protetoras devem ser tomadas no momento da crise, como:
Deitar o usuário evitando quedas e traumas;
Remover objetos que possam levar a traumas;
205
Aliviar roupas apertadas;
Proteger a cabeça do usuário com a mão, roupa ou travesseiro;
Lateralizar a cabeça do usuário, evitando aspiração;
Limpar as secreções salivares, facilitando a respiração;
Garantir vias aéreas livres;
Reduzir estimulação sensorial.
Utiliza-se diazepam 10 a 30 mg VO ou 10 mg EV na crise (verificar suporte ventilatório).
Em caso de convulsões múltiplas, recomenda-se a fenitoína 100 mg 3 vezes ao dia.
O sulfato de magnésio (1g IM de 6 em 6 horas) também deve ser administrado, uma vez
que sua deficiência (comum em SAA) aumenta os riscos de convulsão. Para administração
venosa, a concentração de sulfato de magnésio deve ser diluída a 20% (20 g/100 mL) ou menos,
mas a solução a 50%, não diluída, pode ser administrada por via muscular nos adultos.
Levando-se em consideração a existência de um limiar renal para o magnésio, com até 50%
de dose venosa eliminada na urina, o sulfato de magnésio deve ser administrado a uma taxa
máxima de 1 g/h (8 mEq de magnésio por hora).
É importante o monitoramento dos níveis de magnésio, pois esse íon é um cofator para o
metabolismo da tiamina, e sua deficiência pode ocasionar neuropatia e confusão mental. A
reposição de magnésio deve ser indicada nesses casos. Nos casos graves (<1 mg/dL) e
sintomáticos com manifestações neuromusculares e neurológicas ou arritmias, a reposição deve
ser de 2 g de sulfato de magnésio diluídos em 100 mL de solução, por via venosa, em 5 a 10
minutos, seguidos por infusão contínua de 4 a 6 g/dia durante 3 a 5 dias se a função renal for
próxima ao normal.
Recomenda-se administrar 50% ou menos da dose de magnésio empírica em usuários com
insuficiência renal para diminuir o risco de hipermagnesemia.
No delirium tremens é uma das formas mais graves e complicadas de abstinência do
álcool, que se desenvolve geralmente entre 1 e 4 dias após a instalação da SAA, podendo
levar o usuário ao óbito. Considerado uma psicose orgânica, pode ser reversível em 2 a 10 dias.
O diagnóstico diferencial deve ser feito a fim de excluir TCE e doenças epileptiformes.
É Sempre bom lembrar o que não se deve fazer na SAA:
Não administrar glicose indiscriminadamente, pelo risco de induzir síndrome de Wernicke.
Sempre que a glicose for administrada, fazê-la após o uso da tiamina;
Não administrar clorpromazina ou fenilhidantoína, pois há riscos de diminuição do limiar
convulsivante;
Não aplicar diazepam EV sem recursos para reverter uma possível parada respiratória;
Realizar contenção física inadequada e indiscriminada, com riscos de provocar lesões
sobretudo de plexo braquial e ferir o profissional de saúde.
É importante ressaltar que o tratamento da síndrome de abstinência ao álcool tem se tornado
um procedimento primariamente ambulatorial, com menor custo, seguro e com efetividade variando
até 75% na maioria dos programas de desintoxicação já revisados.
206
Encorajar os clínicos gerais a manejar essa condição médica é tarefa necessária, visando,
sobretudo, diminuir complicações psiquiátricas e clínicas, assim como os elevados custos em
saúde, e implementar o tratamento precoce do alcoolismo.
12.2.3 Encaminhamento
Em caso de dúvida pode-se solicitar segunda opinião formativa via
Teleconsultoria/Teleregulação ou Matriciamento, quando:
Pouca melhora dos sintomas de abstinência, mesmo já em acompanhamento com equipe
multidisciplinar e uso das medicações e manejo recomendados por pelo menos 30 dias e
ter pedido matriciamento.
Agravamento da avaliação do estado mental (porém o usuário ainda encontra-se orientado
no tempo e no espaço; o contato e o juízo crítico da realidade estão preservados,
ocorre ansiedade leve sem episódios de auto e/ou heteroagressividade).
Apresentar comorbidade de transtorno mental.
Deve-se encaminhar o usuário a um tratamento no CAPS, CAPS AD e no CAPS
Infantojuvenil (crianças e adolescentes até 17anos) quando houver algum desses fatores:
Apresenta intenso sofrimento psíquico, que impossibilita de viver e realizar seus projetos de
vida;
Antecedente de comorbidade psiquiátrica;
Risco de suicídio ou plano suicida;
Desesperança significativa e impulsividade;
Continuar o abuso e ou dependência química (nicotina, álcool, etc);
207
Psicose; o juízo critico e o contato com a realidade podem estar comprometidos, porém não
apresenta episódios de auto e/ou heteroagressividade grave, aceita o manejo e o
tratamento;
Não adesão ou impossibilidade de seguir tratamento ambulatorial;
Apoio social precário (mora sozinho, familiares distantes, etc.).
12.3 Álcool
208
Endócrinas: aumento da liberação de ACTH, de glicocorticoides ou de catecolaminas,
inibição da síntese de testosterona (hipogonadismo masculino), inibição da liberação de
ADH, osteopenia;
Sistema imunológico: aumento da predisposição a infecções (multifatorial);
Sistema hematopoiético: anemia, macrocitose, leucopenia, plaquetopenia.
209
O CAGE possui boa sensibilidade e especificidade para duas respostas positivas.
Acrescentando se perguntas simples como:
Você já teve problemas relacionados ao uso de álcool?
Você bebeu nas últimas 24 horas?
Há um aumento da sensibilidade deste questionário para 92%.
Alguma vez o (a) Sr. (a) sentiu que deveria diminuir a quantidade de bebida
0 1
ou parar de beber?
O (A) Sr. (a) se sente culpado (a) (chateado consigo mesmo) pela maneira
0 1
como costuma beber?
O (A) Sr. (a) costuma beber pela manhã para diminuir o nervosismo ou a
0 1
ressaca?
Fonte: FUNDAÇÃO, 2013
A partir desta avaliação inicial, critérios da Classificação Internacional das Doenças (CID-
10) podem ser aplicados para o diagnóstico diferencial entre abuso (F10.1) e dependência de álcool
(F10.2).
A dosagem das enzimas hepáticas GGT, TGO e TGP, o volume corpuscular médio (VCM)
e a transferrina (CDT) foram propostos como possíveis marcadores biológicos da dependência de
álcool. Todas estas etapas da avaliação fazem parte da fase mais importante do tratamento: o
diagnóstico multidimensional. Dele dependerá o planejamento do tratamento e a intervenção
subseqüente.
Intoxicação Aguda (CID-10 – F10.0)
Intoxicação é o uso nocivo de substâncias em quantidades acima do tolerável para o
organismo. Os sinais e sintomas da intoxicação alcoólica caracterizam-se por níveis crescentes de
depressão do sistema nervoso central. Inicialmente há sintomas de euforia leve, evoluindo para
tontura, ataxia e incoordenação motora, passando para confusão e desorientação, e atingindo graus
variáveis de anestesia, entre eles o estupor e o coma.
A intensidade da sintomatologia da intoxicação tem relação direta com a alcoolemia. O
desenvolvimento de tolerância, a velocidade da ingestão, o consumo de alimentos e alguns fatores
ambientais também são capazes de interferir nessa relação.
A partir de 150 mg% de alcoolemia deve-se intervir. A maioria dos casos não requer
tratamento farmacológico. De acordo com os sintomas e sinais, devem-se conduzir medidas gerais
de suporte à vida.
210
Quadro 29 – Níveis plasmáticos de álcool (mg%), sintomatologia relacionada e condutas
Alcoolemia
QUADRO CLÍNICO CONDUTA
mg%
211
[Link] Dependência de Álcool
A abstinência total deve ser a meta do tratamento, que é realizado por meio de
estratégias de intervenção psicoterapêuticas, psicossociais e farmacológicas.
Cada usuário deve ser avaliado individualmente para o diagnóstico e o tratamento mais
adequado ao seu caso. Os principais tipos de tratamento disponíveis para a dependência do álcool
são médico, psicológico e grupos de autoajuda (p. ex., Alcóolicos Anônimos – AA).
O tratamento farmacológico das dependências químicas como um todo não deve ser a
estratégia terapêutica principal, visto que inúmeros outros fatores, além dos biológicos, perfazem
estas doenças, mas deve ser pensada como uma importante ferramenta médica na melhor
abordagem dos usuários.
Tais estratégias terapêuticas são reservadas para os usuários que pouco respondem às
demais intervenções psicossociais (além do manejo farmacológico da SAA). Portanto, são usuários
de maior gravidade, devendo ser encaminhados para o CAPSAD onde serão avaliadas as
possibilidades terapêuticas disponíveis.
Para que seja eficaz, um fármaco deve ser tomado com regularidade. A não adesão
medicamentosa é um problema muito comum na prática médica, não ficando restrita a usuários
com dependência de substâncias psicoativas.
As razões para a não adesão ao tratamento incluem negação da doença, efeitos colaterais
desagradáveis e falsas crenças sobre a medicação (em geral, relacionadas a impotência sexual,
dependência, ficar “chapado”, “babando” ou engordar).
Assim sendo, parte da intervenção farmacológica necessita abranger uma intervenção pró-
ativa que ajude o usuário a aderir ao regime medicamentoso diário, pois, embora pareça algo
intuitivo, ele precisa ser constantemente lembrado de que o medicamento só ajuda se for usado
conforme a prescrição.
Quando um medicamento “não funciona”, é comum os clínicos não perguntarem a seus
usuários se estão tomando as pílulas conforme a orientação recebida. A melhora da adesão
medicamentosa pode ser obtida por meio das seguintes recomendações:
Explicar a medicação ao usuário (como ela funciona, possíveis efeitos colaterais, objetivos
específicos a serem alcançados por meio dela, etc.);
Manter uma vigilância repetitiva da tomada da medicação mediante incentivo e contagem
de cápsulas em cada visita médica;
Fornecer ao usuário estratégias simples e esquemas que o auxiliem a não esquecer de
tomar o remédio;
Averiguar possíveis causas da não adesão medicamentosa.
212
peptídeos endógenos (encefalinas e beta-endorfinas) na fenda sináptica. Esses efeitos seriam
inibidos pela naltrexona.
As principais contra-indicações ao uso da naltrexona são doenças hepáticas agudas
e crônicas. O principal efeito adverso desse medicamento é a náusea.
A posologia recomendada da naltrexona no tratamento do alcoolismo é de 50 mg por dia.
Alguns estudos já utilizam a dose de 100 mg por dia com maiores benefícios. Os ensaios clínicos
com naltrexona postulam o período de 12 semanas para o tratamento.
A naltrexona deve ser suspensa se houver elevação das transaminases de maneira
persistente.
[Link] Topiramato
O topiramato pode ser útil não somente no tratamento da dependência alcoólica, mas
particularmente da SAA. Acredita-se que tais efeitos sejam decorrentes de sua ação sobre o sistema
mesolímbico-mesocortical dopaminérgico, facilitando a via do GABA e atuando como antagonista
glutamatérgico.
Em geral, o topiramato é bem tolerado, sendo os efeitos colaterais mais comuns: parestesia,
alterações do paladar, anorexia, dificuldade de concentração e alterações cognitivas.
As doses preconizadas variam de 100 a 400 mg, devendo-se fazer um aumento gradativo
para minimizar os efeitos colaterais.
12.3.4 Encaminhamento
Em caso de dúvida pode-se solicitar segunda opinião formativa via
Teleconsultoria/Telereguçaõ ou Matriciamento, quando:
Pouca melhora dos sintomas de dependência, mesmo já em acompanhamento com equipe
multidisciplinar, uso das medicações e manejo recomendados por, no mínimo, 60 dias e
ter pedido apoio matricial;
Agravamento da avaliação do estado mental;
Apresentar comorbidade de transtorno mental.
Deve-se encaminhar o usuário a um tratamento no CAPS AD e no CAPS Infantojuvenil
(crianças e adolescentes até 17anos, 11 meses e 19 dias) quando houver algum desses fatores:
Apresenta intenso sofrimento psíquico, que impossibilita de viver e realizar seus projetos de
vida;
213
Antecedente de comorbidade psiquiátrica;
Risco de suicídio ou plano suicida;
Desesperança significativa e impulsividade;
Continuar o abuso e ou dependência química;
Psicose; o juízo crítico e o contato com a realidade podem estar comprometidos, porém não
apresenta episódios de auto e/ou heteroagressividade, aceita o manejo e o
tratamento;
Não adesão ou impossibilidade de seguir tratamento ambulatorial;
Apoio social precário (mora sozinho, familiares distantes, etc.).
12.4 Nicotina
214
Esta dependência é mediada por vários fatores, entre eles o fator genético, responsável por
até 60% do risco de início e até 70% do risco de manter a dependência, além da ação direta da
nicotina no sistema nervoso central, liberando uma enorme quantidade de neurotransmissores,
desencadeando a sensação de prazer, a melhora cognitiva e da memória, a diminuição do apetite,
maior estabilidade emocional, dentre outros.
Durante o contato com a equipe de saúde, qualquer usuário deve ser questionado sobre
tabagismo. Em caso de resposta positiva outras características devem ser coletadas, tais como: a
“carga tabágica”(Número médio de cigarros fumados por dia multiplicado pelo tempo em anos),
idade de início do tabagismo, presença de comorbidades (principalmente doenças respiratórias e
cardiovasculares), se pensa em parar de fumar algum dia, se tem conhecimento dos malefícios e
do risco da manutenção do hábito de fumar, se alguma vez já tentou ficar mais de 24 horas sem
fumar (em caso positivo é importante questionar sobre o motivo do retorno ao hábito) e, por fim, se
pretende parar de fumar nos próximos seis meses.
215
Conforme o DSM-5:
A. Um padrão problemático de uso de tabaco, levando a comprometimento ou sofrimento
clinicamente significativo, manifestado por pelo menos dois dos seguintes critérios, ocorrendo
durante um período de 12 meses:
Tabaco é frequentemente consumido em maiores quantidades ou por um período mais longo
do que o pretendido;
Existe um desejo persistente ou esforços malsucedidos no sentido de reduzir ou controlar o
uso de tabaco;
Muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção ou uso de tabaco.
Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar tabaco;
Uso recorrente de tabaco resultando em fracasso em cumprir obrigações importantes no
trabalho, na escola ou em casa (p. ex., interferência no trabalho);
Uso continuado de tabaco apesar de problemas sociais ou interpessoais persistentes ou
recorrentes causados ou exacerbados pelos seus efeitos (p. ex., discussões com os outros
sobre o uso de tabaco);
Importantes atividades sociais, profissional ou recreacionais são abandonadas ou reduzidas
em virtude do uso de tabaco;
Uso recorrente de tabaco em situações nas quais isso representa perigo para a integridade
física (p. ex., fumar na cama);
O uso de tabaco é mantido apesar da consciência de ter um problema físico ou psicológico
persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado por ele;
Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:
Necessidade de quantidades progressivamente maiores de tabaco para atingir o efeito
desejado;
Efeito acentuadamente menor com o uso continuado da mesma quantidade de tabaco.
Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
Síndrome de abstinência característica de tabaco (consultar os Critérios A e B do
conjunto de critérios para abstinência de tabaco);
Tabaco (ou uma substância estreitamente relacionada, como nicotina) é consumido
para aliviar ou evitar os sintomas de abstinência.
Especificar se:
Em remissão inicial: Após todos os critérios para transtorno por uso de tabaco terem sido
preenchidos anteriormente, nenhum dos critérios para transtorno por uso de tabaco foi preenchido
durante um período mínimo de três meses, porém inferior a 12 meses (com exceção de que o
Critério A4, “Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar tabaco”, ainda pode ocorrer).
Em remissão sustentada: Após todos os critérios para transtorno por uso de tabaco terem sido
preenchidos anteriormente, nenhum dos critérios para transtorno por uso de tabaco foi preenchido
216
em nenhum momento durante um período igual ou superior a 12 meses (com exceção de que o
Critério A4, “Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar tabaco”, ainda pode ocorrer).
Em terapia de manutenção: O indivíduo vem em uso de medicamentos de manutenção de longo
prazo, como medicamentos de reposição de nicotina, e nenhum dos critérios para transtorno por
uso de tabaco foi satisfeito para essa classe de medicamento (exceto tolerância ou abstinência do
medicamento de reposição de nicotina).
Em ambiente protegido: Este especificador adicional é usado se o indivíduo encontra-se em um
ambiente no qual o acesso ao tabaco é restrito.
Na prática diária podemos utilizar uma escala de avaliação do grau de dependência à
nicotina, chamado Teste de Fagerström. Cabe notar que das seis perguntas, metade está
relacionada com o primeiro cigarro da manhã, além disso, a maior pontuação individual é para o
fumante que inicia seu primeiro cigarro do dia nos primeiros cinco minutos após acordar. O peso do
primeiro cigarro da manhã está relacionado com a nicotinemiamatinal do fumante, que passou
seu período de sono sem fumar, e o aparecimento dos primeiros sintomas da abstinência.
6. Você fuma mesmo doente, quando precisa ficar de cama na maior parte do tempo?
8–10:
Grau de
0–2: Muito baixo 3 – 4: Baixo 5: Médio 6–7: Elevado Muito
dependência
elevado
Fonte: BRASIL, 2001
Uma soma acima de seis pontos geralmente indica que o usuário sentirá desconforto ao
iniciar seu processo de cessação do tabagismo.
217
Ao acordar pela manhã, o nível de nicotina plasmática está abaixo do nível de neutralidade,
significando que este indivíduo acordará com sintomas de abstinência e procurará fumar mais
precocemente pela manhã. Isso explica também porque alguns tabagistas de alto grau de
dependência nicotínica acordam durante a noite para fumar. O desconforto neurobiológico da baixa
concentração de nicotina desencadeia reações mesmo com o usuário dormindo. Em outras
palavras: o cérebro sentindo a abstinência “acorda” o usuário para fumar um cigarro.
12.4.3 Tratamento
Em Joinville, o Programa Municipal de Controle do Tabagismo, seguindo as orientações do
Ministério da Saúde, prevê a abordagem do fumante tendo como eixo central intervenções
cognitivas e treinamento de habilidades comportamentais, visando à cessação e a prevenção de
recaída. Em casos específicos pode ser utilizado um apoio medicamentoso. O tratamento é
oferecido nas Unidades Básicas de Saúde da Família. Para maiores informações e orientações,
utilizar o Manual Instrutivo do Programa Municipal de Controle do Tabagismo.
12.5 Cocaína
218
O crack é a cocaína naforma de base e pode ser consumido via pulmonar, produzindo rápida
absorção e efeito maisintenso quando comparada às vias nasal e endovenosa.
O segundo Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil
realizado nas 108 maiores cidades do país, em 2005, encontrou taxa de 2,9% de uso na vida para
cocaína e 0,7 % de uso na vida para o crack. O uso está concentrado na população do sexo
masculino na faixa etária dos 25 aos 34 anos.
O uso, a curto e longo prazo, predispõe a doenças infecciosas (AIDS, hepatite e tuberculose,
especialmente). O meio social em que a droga é comercializada geralmente se vincula à
criminalidade e à violência. Grávidas usuárias expõem o feto à droga. O crack está ligado a
inúmeros problemas sociais contemporâneos.
219
Cessação (ou redução) do uso pesado e prolongado de cocaína;
Humor disfórico e duas (ou mais) das seguintes alterações fisiológicas, desenvolvendo-se
de algumas horas a alguns dias após o Critério A:
Fadiga;
Sonhos vívidos e desagradáveis;
Insônia ou hipersonia;
Aumento do apetite;
Retardo ou agitação psicomotora. Anedonia e premência pela droga também podem
estar presentes.
Os sintomas no Critério B causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no
funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento;
Os sintomas não se devem a uma condição médica geral nem são melhor explicados por
outro transtorno mental.
Os sintomas agudos de abstinência freqüentemente são vistos após períodos de uso
repetitivo de altas doses e se caracterizam por sensações intensas e desagradáveis de lassidão e
depressão, geralmente exigindo vários dias de repouso e recuperação. Sintomas depressivos com
ideação ou comportamento suicida podem ocorrer.
Uma parcela considerável dos indivíduos com dependência leve de cocaína apresenta
poucos ou nenhum sintoma de abstinência evidente ao cessar o uso da substância.
Os usuários crônicos, usando doses maiores, na falta da substância fazem síndromes de
privação típicas, compostas por três fases progressivas:
1. Crash: Drástica redução no humor e na energia. Instala-se cerca de 15 a 30 minutos após
cessado o uso da droga, persistindo por cerca de 8 horas e podendo estender-se por até 4
dias. O usuário pode sentir depressão, ansiedade, paranoia e um intenso desejo de voltar a
usar a droga, o craving ou fissura. Instala-se a hipersonia, aversão ao uso de mais cocaína,
e o indivíduo desperta, em algumas ocasiões, para ingerir alimentos em grande quantidade.
Essa última parte pode durar de 8 horas até quatro dias.
2. Síndrome disfórica tardia: Que se inicia de 12 a 96 horas depois de cessado o uso e pode
durar de duas a 12 semanas. Nos primeiros quatro dias há presença de sonolência e de
desejo pelo consumo da droga, anedonia, irritabilidade, problemas de memória e ideação
suicida. Ocorrem recaídas frequentes, como forma de tentar aliviar os sintomas disfóricos.
3. Fase de extinção: Os sintomas disfóricos diminuem ou cessam por completo e a fissura
(craving) torna-se intermitente.
Os efeitos da cocaína aparecem imediatamente após uma única dose e desaparecem em
poucos minutos ou em até 1 hora. As vias endovenosas e pulmonares produzem efeito imediato
com duração de 5 a 10 minutos, e a via nasal apresenta efeito mais lento com duração de 15 a 30
minutos.
220
Pequenas doses propiciam sensação de euforia, energia, fluência verbal, maior
sensibilidade para visão, tato e audição e podem diminuir temporariamente a necessidade de comer
e dormir.
Os efeitos fisiológicos incluem vasoconstricção, dilatação pupilar, aumento da temperatura
corporal, aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. As complicações médicas mais
frequentes incluem as cardiovasculares, como arritmias e infarto agudo do miocárdio, e as
neurológicas, como cefaleia, convulsões, acidentes vasculares cerebrais e coma.
Diferentemente dos transtornos de personalidade, que são vitalícios e anteriores ao uso da
cocaína, as alterações da personalidade por abuso representam uma mudança no padrão prévio e
característico do indivíduo.
São alterações reversíveis após um período sem usar a droga. Os dependentes vão
gradativamente se encaixando em um padrão de personalidade após longo tempo de dependência
(6 a 12 meses).
Dentro da singularidade de cada pessoa, os dependentes coletam e guardam alguns traços
comuns, relacionados à substância.
Mentiras seguidamente
Desmazelo (pessoal e em seu ambiente)
Irritabilidade e agressividade
Impulsividade
Relaxamento da ética (furtos, etc.)
Arrogância e prepotência
Não cumprimento de compromissos
Apatia amotivacional
Desinteresse por tudo que não diz respeito à droga
Instabilidade afetiva
Alteração do padrão do sono
Alteração do padrão alimentar
Fonte: SES/SC, 2015.
221
passa por uma fase de abstinência com fadiga, baixa energia física e mental e pouco interesse pelo
ambiente. Durante a abstinência tardia, podem ocorrer breves períodos de intensa fissura e pessoas
e objetos podem ser estímulos desencadeantes (gatilhos) para recaídas.
12.5.2 Tratamento
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas
National Institute on Drug Abuse (NIDA), dos Estados Unidos, elenca os seguintes princípios,
sobre a abordagem da cocaína e do crack:
Nenhum tratamento é efetivo para todos os usuários;
O tratamento necessita ser facilmente disponível;
O tratamento deve atender às várias necessidades e não somente ao uso de drogas;
O tratamento necessita ser constantemente avaliado e modificado de acordo com as
necessidades do usuário;
Permanecer em tratamento por período adequado é fundamental para a efetividade;
Aconselhamento e outras técnicas comportamentais são fundamentais para o tratamento;
Medicamentos são importantes, principalmente quando combinados com terapia;
A comorbidade deveria ser tratada de forma integrada;
Desintoxicação é só o começo do tratamento;
O tratamento não necessita ser voluntário para ser efetivo;
A possibilidade de uso de drogas deve ser monitorada;
Avaliação sobre HIV, hepatites B e C e aconselhamento para minimização de riscos;
Recuperação é um processo longo e, muitas vezes, são necessários vários períodos de
tratamento.
É interessante que o tratamento compreenda uma combinação de atividades psicossociais
grupais, psicoterapias e abordagens farmacológicas. Os objetivos do tratamento do dependente de
cocaína ou de seus subprodutos são:
Orientar o suporte sintomático na intoxicação;
Estabelecer um fluxo específico de tratamento;
Promover a reabilitação;
Possibilitar a abstinência;
222
Promover a redução de danos;
Contribuir na constituição da rede de cuidados ao usuário de substâncias psicoativas.
O projeto terapêutico singular consiste num plano de tratamento desenvolvido pela
equipe de saúde (idealmente sob coordenação de um técnico de referência para o usuário), com
o usuário adaptado às necessidades pessoais contemporâneas do usuário. O projeto deve ter
metas e prever intervenções planejadas.
Como regra, o tratamento da dependência da cocaína em pó, aspirada, não requer
internação hospitalar, podendo ser realizado em nível comunitário, como o de CAPS, ambulatórios
e unidades de atenção primária.
Nas fases iniciais do tratamento, em que há fissura (craving), é importante a alta frequência
do usuário ao serviço, muitas vezes com comparecimento diário.
Vários estudos, nas últimas duas décadas, trazem evidências não só de que é possível tratar
em regime intensivo ou semi-intensivo de serviços, como os CAPS e os hospitais-dia, mas de que
o tratamento hospitalar não apresenta maiores resultados, na sequência da vida do usuário, em
relação ao ambulatorial.
Intervenções psicossociais baseadas em terapias comportamentais podem ajudar a diminuir
o uso da droga e a reduzir o abandono do tratamento. Intervenções múltiplas (multimodais)
mostram-se mais efetivas do que atendimentos não intensivos (como a simples consulta eventual).
Revisões relatam a existência de algumas mudanças comportamentais significativas e
redução das taxas de consumo de cocaína na sequência da intervenção. Porém, pelas evidências
atualmente disponíveis, não há uma abordagem padrão, ou um tratamento único, capaz de
abranger os aspectos multidimensionais da dependência química e capaz de produzir
resultados altamente significativos.
As estratégias de redução de danos são parte constituinte do sistema de saúde. Adquirem
maior importância diante do uso injetável de cocaína.
223
Os tranquilizantesmaiores típicos: Demonstram capacidade para bloquear parcialmente
os receptores, tornando necessárias doses maiores de cocaína para a obtenção dos
mesmos efeitos. O bloqueio limita os efeitos motores próprios da cocaína, todavia não atua
sobre o sistema de reforço e gratificação;
Tranquilizantes menores: Como o diazepam, só teriam indicação, de forma temporária e
breve, em situações de grande ansiedade. Não se deve recomendar benzodiazepínicos a
pessoas que tenham vínculos frágeis com o serviço de saúde, pois corre-se o risco de criar
dependência química do tranquilizante, sem que a dependência da cocaína seja superada;
Os neurolépticos: Têm em alguma eficácia, mas não são sentidos pelo usuário como
agradáveis, pois são sedativos, o que facilita o abandono do tratamento. Neurolépticos de
uso histórico, como o haloperidol e a clorpromazina, já estão testados e são bem conhecidos.
[Link] Desintoxicação
A desintoxicação, do ponto de vista médico, é o tratamento sintomático de suporte para as
situações de intoxicação aguda. É uma abordagem pontual, que dura poucos dias.
É interessante que a sequência da atenção clínica aborde os sintomas de fissura (craving)
por duas a quatro semanas, para aumentar a adesão ao conjunto da terapia e à tentativa de
mudança de hábitos.
224
Risco de quadro grave de abstinência em portadores de quadros clínicos concomitantes,
bem documentados, ou histórico concomitante de uso pesado de álcool que possa agravar
a evolução clínica;
História bem documentada pelos médicos assistentes de não adesão, de não se haver
benefício de tratamento em regime extra-hospitalar, ou da ausência absoluta de serviços
comunitários;
Comorbidade psiquiátrica importante que por si só exigiria atendimento hospitalar ou cujos
transtornos impossibilitem adesão a tratamento extra-hospitalar;
Casos em que o uso das substâncias ou comportamentos constituem grave perigo
para si ou para terceiros, mediante relatório do CAPS explicitando que já foram
esgotados todos os meios de tratamento comunitário e o porquê de tais tratamentos
terem falhado;
Usuários cuja fissura é vivida com grande angústia e agitação psicomotora, pouco
empenhados em abster-se do uso da substância, em vulnerabilidade social e fácil acesso
ao uso da droga.
Dependendo do caso, a internação deve ser realizada em enfermaria clínica de hospital geral
(como em casos do item 3, acima), ou em serviço de saúde mental de hospitais gerais ou em
hospital especializado.
A internação, algumas vezes, deve ser imediata, para garantir a segurança do usuário e a
estabilização do quadro clínico. O ideal é que, após a estabilização, o usuário seja encaminhado
para tratamento de longa duração em CAPS AD ou outro serviço de saúde. Os CAPS podem
oferecer atendimento intensivo ou semi-intensivo.
Alguns casos se beneficiam do acolhimento em comunidades terapêuticas, estruturas que
trabalham, por vários meses, através de vivências grupais, a mudança de hábitos de vida, pela
coexistência entre pessoas com problemas parecidos. As comunidades terapêuticas têm
demonstrado bons resultados para alguns dependentes de crack, mas os resultados para o conjunto
dos atendidos é apenas parcial.
Tratamento Medicamentoso Adolescentes: As intervenções psicofarmacológicas para
adolescentes usuários de álcool e drogas ainda estão em seus estágios iniciais e devem ser
avaliadas pela equipe de saúde conforme as indicações e necessidades de cada caso.
Tratamento Medicamentoso Gestação e Puerperio: O consumo de cocaína durante a gravidez
está associado a complicações tais como: baixo peso ao nascer, abortos espontâneos e déficits
cognitivos ao recém-nascido.
Não há evidência de uma síndrome teratogênica. Apesar de não haver números confiáveis
sobre o uso de cocaína entre grávidas, há evidências que elas têm tendência à não relatarem seu
consumo de drogas, em especial álcool, tabaco e cocaína. Isso torna ainda mais importante uma
investigação sobre o assunto, de modo empático, direto e detalhado.
Como regra, a gravidez em dependentes de crack pode ser considerada gestação de alto
risco e obedece aos preceitos da Portaria MS/GM nº 1.020, de 29 de maio de 2013, do Ministério
225
da Saúde, que institui as diretrizes para a organização da Atenção à Saúde na Gestação de Alto
Risco e define os critérios para a implantação e habilitação dos serviços de referência.
O encaminhamento ao pré-natal de alto risco será realizado, prioritariamente, pela atenção
primária à saúde, que deverá assegurar o cuidado da gestante até sua vinculação ao serviço
referenciado para alto risco. A equipe da APS deverá realizar o monitoramento da efetiva realização
do pré-natal de alto risco no estabelecimento referenciado, que em Joinville é a Maternidade Darcy
Vargas.
O caso requer comunicação entre as Redes de Atenção Psicossocial e Cegonha. Para a
população em situação de rua, eventualmente o primeiro contato poderá ser feito por uma equipe
de Consultório na Rua.
Eventualmente a usuário é atendida em Unidades de Pronto Atendimento (UPA), Prontos-
Socorros hospitalares (PS), Serviços de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), hospitais, por
intoxicações agudas ou por outros quadros complicados.
O Centro de Atenção Psicossocial especializado em problemas relacionados a álcool e
outras drogas (CAPS AD) é o serviço de saúde mais indicado para o seguimento da usuária na fase
do tratamento da dependência. Após a estabilização, a sequência do tratamento pode ser feita em
Unidades Básicas de Saúde (UBS) ou Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), conforme
indicação de admissão em cada serviço.
Tratamento Medicamentoso Idosos: O uso de substâncias ilícitas também deve ser investigado
em casos de transtornos psiquiátricos em idosos, assim como é feito na população adulta jovem. A
história de uso prévio também pode ser indicativa ou apontar para um diagnóstico psiquiátrico atual,
visto que o consumo de substâncias ilícitas parece mais prevalente nos transtornos do humor, de
ansiedade e da personalidade, psicose e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, em
comparação a amostras saudáveis.
Vale lembrar que o próprio uso de álcool e/ou outras substâncias psicoativas pode mimetizar
diversas alterações psiquiátricas, e a abstinência acarreta melhora progressiva do quadro.
Além disso, a presença de sintomas de depressão ou ansiedade parece ser um aspecto
importante no aumento das taxas de suicídio.
O manejo e a avaliação diagnóstica de idosos incluem alguns cuidados especiais, a saber:
A história clínica, na maioria das vezes, deve ser realizada com usuário e informante;
Algumas vezes, uma visita domiciliar pode ser necessária; iii) o uso de substâncias deve ser
rastreado mesmo em idosos em instituições de longa permanência;
Os familiares podem ser complacentes com a dependência química;
Os usuários podem esconder ou negar o uso de substâncias, principalmente as ilícitas; e
As comorbidades físicas e o uso de diversos medicamentos devem ser considerados na
avaliação do uso de álcool como de risco ou não.
226
12.6 Maconha
227
12.6.1 Uso Medicinal
Uma planta que apresenta grande potencial terapêutico, apesar de suas propriedades
psicotrópicas. Esta planta vem sendo utilizada, há séculos, pela humanidade para diversos fins, tais
como, alimentação, rituais religiosos e práticas medicinais.
A aplicação terapêutica dos canabinóides é um tema muito controverso, pois, apesar das
propriedades terapêuticas, estescompostos apresentam também efeitos psicotrópicos,
considerados os principais vilões no uso medicinal desta classe de compostos. Dois exemplos de
fármacos desenvolvidos com base em compostos canabinóides são o Marinol® (Dronabinol, (-)-
Delta 9-THC), desenvolvido pelo laboratório Roxane (Columbus – EUA) e o Cesamet® (Nabilone),
desenvolvido pelo laboratório Eli Lilly (Indianápolis – EUA) e agora liberado para uso terapêutico no
Reino Unido.
Estes medicamentos são comercializados para controle de náuseas produzidas durante
tratamentos de quimioterapia e como estimulantes do apetite, durante processos de anorexia
desenvolvidos em usuários com síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS).
Embora os canabinóides exerçam efeitos diretos sobre um determinado número de órgãos,
incluindo os sistemas imunológico e reprodutivo, os principais efeitos farmacológicos observados
estão relacionados ao sistema nervoso central. Alguns exemplos das aplicações terapêuticas dos
canabinóides são efeito analgésico, controle de espasmos em usuários portadores de esclerose
múltipla, tratamento de glaucoma, efeito broncodilatador, efeito anticonvulsivo, etc. Alguns efeitos
colaterais podem acompanhar os efeitos terapêuticos citados acima, tais como, alterações na
cognição e memória, euforia, depressão, efeito sedativo e outros
228
Importantes atividades sociais, profissionais ou recreacionais são abandonadas ou
reduzidas em virtude do uso de Cannabis;
Uso recorrente de Cannabis em situações nas quais isso representa perigo para a
integridade física;
O uso de Cannabis é mantido apesar da consciência de ter um problema físico ou
psicológico persistente ou recorrente que tende a ser causado ou exacerbado pela
substância;
Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:
Necessidade de quantidades progressivamente maiores de Cannabis para atingir a
intoxicação ou o efeito desejado;
Efeito acentuadamente menor com o uso continuado da mesma quantidade de
Cannabis.
Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
Síndrome de abstinência característica de Cannabis (consultar os Critérios A e B do
conjunto de critérios para abstinência de Cannabis);
Cannabis (ou uma substância estreitamente relacionada) é consumida para aliviar ou
evitar os sintomas de abstinência.
Especificar se:
Em remissão inicial: Após todos os critérios para transtorno por uso de Cannabis terem sido
preenchidos anteriormente, nenhum dos critérios para transtorno por uso de Cannabis foi
preenchido durante um período mínimo de três meses, porém inferior a 12 meses (com exceção de
que o Critério A4, “Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar Cannabis”, ainda pode
ocorrer).
Em remissão sustentada: Após todos os critérios para transtorno por uso de Cannabis terem sido
preenchidos anteriormente, nenhum dos critérios para transtorno por uso de Cannabis foi
preenchido em nenhum momento durante um período igual ou superior a 12 meses (com exceção
de que o Critério A4, “Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar Cannabis ”, ainda pode
ocorrer).
Especificar se:
Em ambiente protegido: Este especificador adicional é usado se o indivíduo encontra-se em um
ambiente no qual o acesso a Cannabis é restrito.
Um cigarro de maconha ou baseado típico contém cerca de 0,3 a 1g de maconha. A
concentração de Delta-9-THC nas diferentes apresentações da Cannabis (maconha, haxixe, skunk)
varia de 1% a 15%, ou seja, de 2,5mg a 150mg de THC. Estima-se que a concentração mínima
preconizada para a produção dos efeitos euforizantes seja de 1% ou um cigarro de 2 a 5 mg. Os
efeitos da intoxicação aparecem após alguns minutos do uso.
229
Quadro 33 – Sinais e sintomas decorrentes do consumo da maconha
EFEITOS EUFORIZANTES
EFEITOS FÍSICOS
EFEITOS PSÍQUICOS
Depressão Letargia
Déficits motores (por exemplo, prejuízo da capacidade para dirigir automóvel) e cognitivos
(por exemplo, perda de memória de curto prazo, com dificuldade para lembrar de eventos, que
ocorreram imediatamente após o uso de canabis) costumam acompanhar a intoxicação.
230
Quadro 34 – Déficits motores e cognitivos observados durante a intoxicação aguda de maconha
231
dependentes ou desejam parar o consumo. A maioria dos usuários não se torna dependente e uma
minoria desenvolve uma síndrome de uso compulsivo semelhante à dependência de outras drogas.
Para complementar a formalização da dependência da maconha, a síndrome de abstinência
desta droga, apesar de reconhecida como fato pelo CID-10, só havia sido descrita em laboratório.
Não é possível ainda determinar a natureza dos sintomas da abstinência.
12.6.3 Tratamento
Apesar da existência de muitos efeitos nocivos da maconha permanecer inconclusiva, a
recomendação é que os profissionais de saúde informem seus usuários de maconha sobre os já
comprovados efeitos nocivos (risco de acidente, danos respiratórios para usuários crônicos, risco
de desenvolver dependência para usuários diários e déficit cognitivo para os usuários crônicos). Os
efeitos nocivos inconclusivos também devem ser transmitidos. Intervenções mínimas, de natureza
motivacional ou cognitiva, têm se mostrado de grande valia para esses indivíduos. Casos de
dependência estabelecida devem ser encaminhados para atenção profissional especializada e
tratados conforme cada caso ou na existência de comorbidades clinicas e psiquiátricas.
232
Diante da interrupção do consumo de cannabis antes, durante ou após a gestação, é
importante que o profissional prepare a mulher para o possível surgimento de sintomas da síndrome
de abstinência: fraqueza, hipersonia, retardo psicomotor, ansiedade, inquietação, depressão,
insônia. Em geral, os sintomas aparecem 24 horas após a cessação e atingem maior intensidade
entre 2 e 3 dias.
Destaca-se que o uso agudo da cannabis durante a gravidez pode levar a descarga
simpática, com taquicardia, congestão conjuntiva e ansiedade; além disso, pode potencializar a
ação de anestésicos no sistema cardiovascular e agir como depressora do sistema nervoso central.
A restrição do crescimento fetal é considerada a maior complicação nesse cenário. Por ser
altamente lipossolúvel, o tetraidrocanabinol atravessa a barreira da placenta e prejudica o
crescimento do feto, causando retardo no desenvolvimento do sistema nervoso, distúrbios
neurocomportamentais, más-formações congênitas, prejuízos no sistema cardiovascular e no
sistema gastrointestinal.
O prejuízo no desenvolvimento neurológico do feto gera alterações comportamentais no
recém-nascido, sendo que os seguintes sintomas podem ser observados: maior inquietude,
desatenção, estresse, menor sensibilidade a estímulos externos, mais choro, maior dificuldade para
ser acalmado em crises de choro, sono conturbado, com dificuldade para acordar, mais tremores e
movimentos bruscos.
De forma geral, o tratamento pode ser pensado em duas etapas: a primeira, de suporte para
início de tratamento não medicamentoso da síndrome de abstinência de cannabis; e a segunda, de
prevenção da recaída, com estímulo para tratamento da dependência e formação de rede de apoio.
Intervenções breves devem abordar indicação de aconselhamento motivacional com o
objetivo de determinar metas, manejo de gatilhos e psicoeducação dos potenciais riscos do
consumo.
É importante ressaltar que ainda não há um tratamento farmacológico estabelecido para
dependência de cannabis. Durante intoxicações agudas, deve ser oferecida orientação sobre a
realidade por amigos, familiares ou profissionais da saúde. Também deve ser avaliada a
necessidade de tratamento farmacológico para as comorbidades psiquiátricas associadas.
Quanto ao aleitamento materno, deve-se considerar o custo-benefício em cada caso, pois a
cannabis pode estar presente no leite materno, e a mãe deve ser informada sobre os potenciais
efeitos da substância no bebê e em seu desenvolvimento e ser aconselhada a interromper o
consumo ou diminuí-lo.
Idoso: O uso de substâncias ilícitas também deve ser investigado em casos de transtornos
psiquiátricos em idosos, assim como é feito na população adulta jovem. A história de uso prévio
também pode ser indicativa ou apontar para um diagnóstico psiquiátrico atual, visto que o consumo
de substâncias ilícitas parece mais prevalente nos transtornos do humor, de ansiedade e da
personalidade, psicose e transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, em comparação a
amostras saudáveis.
233
Vale lembrar que o próprio uso de álcool e/ou outras substâncias psicoativas pode mimetizar
diversas alterações psiquiátricas, e a abstinência acarreta melhora progressiva do quadro. Além
disso, a presença de sintomas de depressão ou ansiedade parece ser um aspecto importante no
aumento das taxas de suicídio.
O manejo e a avaliação diagnóstica de idosos incluem alguns cuidados especiais, a saber:
A história clínica, na maioria das vezes, deve ser realizada com usuário e informante;
Algumas vezes, uma visita domiciliar pode ser necessária; iii) o uso de substâncias deve ser
rastreado mesmo em idosos em instituições de longa permanência;
Os familiares podem ser complacentes com a dependência química;
Os usuários podem esconder ou negar o uso de substâncias, principalmente as ilícitas; e
As comorbidades físicas e o uso de diversos medicamentos devem ser considerados na
avaliação do uso de álcool como de risco ou não.
234
12.7.1 Avaliação e Diagnóstico
F13. – Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de sedativos e hipnóticos.
F13.0 – Intoxicação aguda
F13.1 – Uso nocivo para a saúde
F13.2 – Síndrome de dependência
F13.3 – Síndrome de abstinência
F13.8 – Outros transtornos mentais ou comportamentais
F13.9 – Transtorno mental ou comportamental não especificado
Os critérios diagnósticos para a síndrome de abstinência de sedativos e hipnóticos (F13.3)
são:
A. Cessação (ou redução) do uso pesado e prolongado de sedativos, hipnóticos ou
ansiolíticos.
B. Dois (ou mais) dos seguintes sintomas desenvolvendo-se dentro de algumas horas a
alguns dias após o Critério A:
(1) hiperatividade autonômica (por ex., sudorese ou frequência cardíaca acima de 100
bpm)
(2) tremor aumentado das mãos
(3) insônia
(4) náusea ou vômitos
(5) alucinações ou ilusões visuais, táteis ou auditivas transitórias
(6) agitação psicomotora
(7) ansiedade
(8) convulsões de tipo grande mal
C. Os sintomas no Critério B causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no
funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes.
D. Os sintomas não se devem a uma condição médica geral nem são melhor explicados por
outro transtorno mental.
Em alguns usuários ocorre a síndrome de abstinência protraída, ou pós-abstinência. Nestes
casos, os sintomas são similares aos da retirada dos benzodiazepínicos, porém em menor número
e intensidade, e podem se prolongar por alguns meses.
Os sintomas da síndrome de abstinência podem incluir, raramente, convulsões, alucinações
e delirium. Mais comumente incluem insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração,
inquietação, agitação, pesadelos, disforia. Dependendo da dose usada evoluem com tremores,
sudorese, palpitações, letargia, náuseas, vômitos, anorexia, prejuízo da memória,
despersonalização e desrealização.
Conforme DSM-5: A. Um padrão problemático de uso de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos,
levando a comprometimento ou sofrimento clinicamente significativo, manifestado por pelo menos
dois dos seguintes critérios, ocorrendo durante um período de 12 meses:
235
Sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos são frequentemente consumidos em maiores
quantidades ou por um período mais longo do que o pretendido;
Existe um desejo persistente ou esforços malsucedidos no sentido de reduzir ou controlar o
uso de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos;
Muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obtenção do sedativo, hipnótico ou
ansiolítico, na utilização dessas substâncias ou na recuperação de seus efeitos;
Fissura ou um forte desejo ou necessidade de usar o sedativo, hipnótico ou ansiolítico;
Uso recorrente de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos resultando em fracasso em cumprir
obrigações importantes no trabalho, na escola ou em casa (p. ex., ausências constantes ao
trabalho ou baixo rendimento do trabalho relacionado ao uso de sedativos, hipnóticos ou
ansiolíticos; ausências, suspensões ou expulsões da escola relacionadas a sedativos,
hipnóticos ou ansiolíticos; negligência dos filhos ou dos afazeres domésticos);
Uso continuado de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos apesar de problemas sociais ou
interpessoais persistentes ou recorrentes causados ou exacerbados pelos efeitos dessas
substâncias (p. ex., discussões com o cônjuge sobre as consequências da intoxicação;
agressões físicas);
Importantes atividades sociais, profissionais ou recreacionais são abandonadas ou
reduzidas em virtude do uso de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos;
Uso recorrente de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos em situações nas quais isso
representa perigo para a integridade física (p. ex., conduzir veículos ou operar máquinas
durante comprometimento decorrente do uso de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos);
O uso de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos é mantido apesar da consciência de ter um
problema físico ou psicológico persistente ou recorrente provavelmente causado ou
exacerbado por essas substâncias;
Tolerância, definida por qualquer um dos seguintes aspectos:
a. Necessidade de quantidades progressivamente maiores do sedativo, hipnótico ou
ansiolítico para atingir a intoxicação ou o efeito desejado.
b. Efeito acentuadamente menor com o uso continuado da mesma quantidade do
sedativo, hipnótico ou ansiolítico.
Nota: Este critério é desconsiderado em indivíduos cujo uso de sedativo, hipnótico ou ansiolítico se
dá sob supervisão médica.
Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes aspectos:
a. Síndrome de abstinência característica de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos
(consultar os Critérios A e B do conjunto de critérios para abstinência de sedativos,
hipnóticos ou ansiolíticos).
b. Sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos (ou uma substância estreitamente relacionada,
como álcool) são consumidos para aliviar ou evitar os sintomas de abstinência.
Em remissão inicial: Após todos os critérios para transtorno por uso de sedativos, hipnóticos ou
ansiolíticos terem sido preenchidos anteriormente, nenhum dos critérios para transtorno por uso de
236
sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos foi preenchido durante um período mínimo de três meses,
porém inferior a 12 meses (com exceção de que o Critério A4, “Fissura ou um forte desejo ou
necessidade de usar o sedativo, hipnótico ou ansiolítico”, ainda pode ocorrer).
Em remissão sustentada: Após todos os critérios para transtorno por uso de sedativos, hipnóticos
ou ansiolíticos terem sido preenchidos anteriormente, nenhum dos critérios para transtorno por uso
de sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos foi preenchido em nenhum momento durante um período
igual ou superior a 12 meses (com exceção de que o Critério A4, “Fissura ou um fortedesejo ou
necessidade de usar o sedativo, hipnótico ou ansiolítico”, ainda pode ocorrer).
Especificar se:
Em ambiente protegido: Este especificador adicional é usado se o indivíduo encontra-se em um
ambiente no qual o acesso a sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos é restrito.
237
Quadro 35 – Classificação dos benzodiazepínicos (não disponíveis na REMUME de Joinville e
prescritos conforme critério médico; incluídos neste documento para informação
educacional).
DOSE DOSE
BZD LIGAÇÃO
MEIA-VIDA TERAPÊUTICA EQUIVALÊNCIA
(MEIA-VIDA) PROTEICA (%)
(MG) (DIAZEPAM 10MG)
MUITO CURTA
CURTA
INTERMEDIÁRIA
12.7.3 Tratamento
[Link] Estratégias não Medicamentosas
O tratamento da dependência dos benzodiazepínicos envolve uma série de medidas não
farmacológicas e de princípios de atendimento que podem aumentar a capacidade de lidar com a
SAB e manter-se sem os benzodiazepínicos.
O melhor local para tratamento é o ambulatorial, pois leva à maior engajamento do
usuário e possibilita que tanto mudanças farmacológicas, quanto psicológicas possam
ocorrer ao mesmo tempo.
Suporte emocional pode ser mantido durante todo processo de retirada das medicações,
com informações e reasseguramento da capacidade de lidar com o estresse sem os
benzodiazepínicos.
É importante auxiliar o usuário a distinguir os sintomas de ansiedade e abstinência. Medidas
não farmacológicas e treinamento de habilidades para lidar com a ansiedade podem ser
promovidos. Geralmente os usuários que conseguem ficar livres de sedativos por pelo menos cinco
semanas apresentam redução nas medidas de ansiedade e têm melhora na qualidade de vida.
Suporte psicológico deve ser oferecido e mantido tanto durante quanto após a redução da
238
dose, incluindo informações sobre os benzodiazepínicos, reasseguramento, promoção de medidas
não farmacológicas para lidar com a ansiedade.
O princípio fundamental subjacente à retirada segura é a redução gradual da dose de
benzodiazepínico. A dose é reduzida em aproximadamente 10 a 25%, e o usuário é observado para
quaisquer sinais e sintomas de abstinência.
As reduções posteriores dependerão de como o usuário responde às mudanças iniciais e
exigem a individualização baseada na observação cuidadosa da condição do usuário após cada
mudança de dose.
A seleção cuidadosa dos usuários a serem medicados com sedativos ou hipnóticos é
também importante. As prescrições de longo prazo são, ocasionalmente, incontornáveis, para
certos usuários refratários ao abandono do remédio.
A lógica é a da redução de danos, na impossibilidade de o usuário parar com a droga. Efeitos
indesejados podem ser evitados em grande parte, mantendo as dosagens mínimas e mantendo o
período de uso o mais curto possível.
O tratamento da dependência é ambulatorial, com apoio de natureza psicológica, feito por
membro da equipe de saúde (muitas vezes pelo próprio médico, quando a equipe é pequena ou
faltante). Os estudos alvos de revisão sistemática mostram que a retirada gradual tem preferência
à interrupção abrupta.
Nos casos mais leves é possível a suspensão abrupta da medicação, entretanto, a retirada
gradual costuma ser mais bem aceita. Os 50% iniciais da retirada são mais fáceis e podem ser
concluídos nas primeiras duas semanas, ao passo que o restante da medicação pode requerer um
tempo maior para a retirada satisfatória.
O prazo de retirada da medicação pode ser negociado com o usuário, girando em
torno de 4 a 8 semanas, inclusive para hipnóticos, podendo durar até mais de 16 semanas. É
de grande valia oferecer esquemas de redução das doses por escrito, com desenhos dos
comprimidos e datas subsequentes de redução.
A retirada gradual e um acompanhamento psicológico mais freqüente e prolongado
colaboram no alívio destes sintomas. Usuários que não conseguem concluir o plano de redução
gradual podem se beneficiar da troca para um agente de meia-vida mais longa, como o
diazepam, a fim de retirá-lo, gradualmente, depois.
239
O método clássico de retirada da droga, para algumas pessoas que costumavam usar doses
altas e relutam em parar, implica um programa de 1 a 4 meses, fazendo-se reduções gradativas.
A redução de um quarto da dose é feita paulatinamente, neste tempo, segundo as reações
e a aceitação do usuário.
Há hipóteses, ainda não confirmadas com clareza, de que a carbamazepina possa ser uma
intervenção eficaz na descontinuação de benzodiazepínico, quando o usuário é muito resistente.
A amitriptilina pode ser usada, como substituto de um sedativo noturno, temporariamente,
para insônias produtoras de ansiedade.
O dependente de sedativos e hipnóticos se automedica, aumentando as doses por conta
própria. Em termos preventivos, o combate à automedicação é a atitude fundamental,
portanto evitar prescrições para longos períodos e consultas mais próximas.
Tratamento Medicamentoso na Infância e Adolescência: Os benzodiazepínicos são de uso
raro entre os adolescentes, sendo substâncias preferidas por adultos de mais idade
(freqüentemente combinados com o álcool). A sintomatologia é muito semelhante à dos
hipnóticos, mas sem miose.
O tratamento em caso de abuso segue o mesmo procedimento em outras dependências
químicas já descritas anteriormente.
Tratamento Medicamentoso na Gestação e Puerpério: Benzodiazepínicos podem ser
prescritos apenas em casos de agitação ou ansiedade intensa e por curtos períodos,
pelos riscos de fenda palatina e síndrome do bebê flácido (floppy infant). Mulheres
que engravidam quando em uso de benzodiazepínicos devem retirá-los gradativamente,
substituindo-os por outras estratégias de manejo de ansiedade.
O tratamento em caso de abuso segue o mesmo procedimento em outras dependências
químicas já descritas anteriormente.
Tratamento Medicamentoso para Idoso: Atenção especial também deve ser dada no caso de uso
de agentes sedativos, como os benzodiazepínicos, uma vez que também aumentam o risco de
queda e, consequentemente, morbidade e mortalidade em idosos
Os usuários mais velhos que tomam benzodiazepínicos também são mais propensos a
desenvolver deficiência na mobilidade e nas atividades de vida diária (AVDs).
Os medicamentos mais implicados na causa de delirium em demência foram os
benzodiazepínicos. Esses fármacos podem prejudicar a memória e outras funções cognitivas, bem
como causar tolerância e interações com outros medicamentos, além de síndrome de abstinência
e toxicidade. Causam alterações cognitivas que estão relacionados à atrofia cortical hipocampal.
Tanto na demência induzida por substâncias quanto na intoxicação medicamentosa, a
conduta é a descontinuidade do fármaco, com grandes chances de reversibilidade do quadro.
Ao utilizar benzodiazepínicos ao utilizá-los, deve-se dar preferência àqueles com menor
meia-vida e sem metabólitos ativos.
240
Cuidado especial deve-se ter ao prescrever diazepam, que se acumula nos tecidos
lipofílicos e pode ter uma meia vida de 4 a 5 dias em idosos, gerando aumento progressivo de efeito
e risco de ataxia, sonolência, confusão, quedas e déficit cognitivo.
241
13 SÍNDROMES PSIQUIÁTRICAS
O transtorno de humor bipolar (TB) é uma doença crônica e grave caracterizada por
alternância de episódios depressivos, com ou sem sintomas psicóticos, e episódios de hipomania
ou mania, com ou sem sintomas psicóticos, sendo classificado em dois subtipos.
O TB tipo I apresenta prevalência ao longo da vida de cerca de 1 % e o TB tipo II de,
aproximadamente, 1,1 % em amostras populacionais norte-americana e brasileira.
O TB inicia-se, em geral, no final da adolescência e início da vida adulta, e é um transtorno
recorrente, que cursa com elevadas taxas de morbidade e mortalidade e traz prejuízos e custos
significativos para seu portador e para a sociedade.
Caracterizam-se por episódios maníacos, episódios depressivos, ou episódios mistos
(maníacos e depressivos) que podem durar várias semanas, entremeados por intervalos
assintomáticos (fases de remissão).
Denomina-se tipo I a forma clássica do transtorno afetivo bipolar, em que o usuário
apresenta os episódios maníacos alternados com os depressivos.
Neste tipo, fases maníacas não precisam necessariamente ser seguidas por fases
depressivas, nem as depressivas por maníacas. Na prática há uma tendência de ocorrerem várias
crises de um tipo e poucas do outro.
Muitos deprimidos só tiveram uma fase maníaca enquanto as depressivas foram
numerosas.
O tipo II caracteriza-se por não apresentar episódios de mania, e sim de hipomania
seguida de depressão.
Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS, 1997) mencionam que em países
desenvolvidos, apenas 35% dos casos de TAB são tratados, diminuindo para 15% na América
Latina e Caribe e 5% na África.
A taxa de suicídio em usuários com transtorno bipolar é de 10 a 15% (APA, 1995).
Apesar de se tratar de um transtorno grave e recorrente, sua causa ainda é desconhecida.
Supõe-se que a etiologia do TB seja complexa, envolvendo influências genéticas e ambientais
múltiplas, que podem variar amplamente entre os indivíduos afetados.
242
F31.1 Transtorno afetivo bipolar, episódio atual maníaco sem sintomas psicóticos: Episódio
atual maníaco correspondente à descrição de um episódio maníaco sem sintomas psicóticos
(F30.1), tendo ocorrido, no passado, ao menos um outro episódio afetivo (hipomaníaco, maníaco,
depressivo ou misto).
F31.2 Transtorno afetivo bipolar, episódio atual maníaco com sintomas psicóticos: Episódio
atual correspondente à descrição de um episódio maníaco com sintomas psicóticos (F30.2), tendo
ocorrido, no passado, ao menos um outro episódio afetivo (hipomaníaco, maníaco, depressivo ou
misto).
F31.3 Transtorno afetivo bipolar, episódio atual depressivo leve ou moderado: Episódio atual
correspondente à descrição de um episódio depressivo leve ou moderado (F32.0 ou F32.1), tendo
ocorrido, no passado, ao menos um episódio afetivo hipomaníaco, maníaco ou misto bem
comprovado.
F31.4 Transtorno afetivo bipolar, episódio atual depressivo grave sem sintomas psicóticos:
Episódio atual correspondentes à descrição de um episódio depressivo grave sem sintomas
psicóticos (F32.2), tendo ocorrido, no passado, ao menos um episódio afetivo hipomaníaco,
maníaco ou misto bem documentado.
F31.5 Transtorno afetivo bipolar, episódio atual depressivo grave com sintomas psicóticos:
Episódio atual correspondente à descrição de um episódio depressivo grave com sintomas
psicóticos (F32.3), tendo ocorrido, no passado, ao menos um episódio afetivo hipomaníaco,
maníaco ou misto bem comprovado.
F31.6 Transtorno afetivo bipolar, episódio atual misto: Ocorrência, no passado, de ao menos
um episódio afetivo maníaco, hipomaníaco ou misto bem documentado, e episódio atual
caracterizado pela presença simultânea de sintomas maníacos e depressivos ou por uma
alternância rápida de sintomas maníacos e depressivos.
Exclui: episódio afetivo misto isolado (F38.0)
F31.7 Transtorno afetivo bipolar, atualmente em remissão: Ocorrência, no passado, de ao
menos um episódio afetivo maníaco, hipomaníaco ou misto muito bem comprovado, e de ao menos
um outro episódio afetivo (hipomaníaco, maníaco, depressivo ou misto) mas sem nenhuma
perturbação significativa do humor, nem atualmente nem no curso dos últimos meses. As remissões
sob tratamento profilático devem ser classificadas aqui.
F31.8 Outros transtornos afetivos bipolares: Episódios maníacos recidivantes SOE
Transtorno bipolar II (marcado pela alternância de episódios depressivos com pelo menos
um episódio hipomaníaco, sem ter tido crise maníacas clássicas).
F31.9 Transtorno afetivo bipolar não especificado:
Critérios diagnósticos do DSM-5 para transtorno bipolar I
Para diagnosticar transtorno bipolar tipo I, é necessário o preenchimento dos critérios a
seguir para um episódio maníaco. O episódio maníaco pode ter sido antecedido ou seguido por
episódios hipomaníacos ou depressivos maiores.
Episódio Maníaco:
243
A. Um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável
e aumento anormal e persistente da atividade dirigi da a objetivos ou da energia, com
duração mínima de uma semana e presente na maior parte do dia, quase todos os
dias (ou qualquer duração, se a hospitalização se fizer necessária).
B. Durante o período de perturbação do humor e aumento da energia ou atividade, três (ou
mais) dos seguintes sintomas (quatro se o humor é apenas irritável) estão presentes em
grau significativo e representam uma mudança notável do comportamento habitual:
Autoestima inflada ou grandiosidade.
Redução da necessidade de sono (p. ex., sente-se descansado com apenas três
horas de sono).
Mais loquaz que o habitual ou pressão para continuar falando.
Fuga de idéias ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão acelerados.
Distratibilidade (i.e., a atenção é desviada muito facilmente por estímulos externos
insignificantes ou irrelevantes), conforme relatado ou observado.
Aumento da atividade dirigida a objetivos (seja socialmente, no trabalho ou
escola, seja sexualmente) ou agitação psicomotora (i.e., atividade sem propósito não
dirigida a objetivos).
Envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para
consequências dolorosas (p. ex., envolvimento em surtos desenfreados de
compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros insensatos).
C. A perturbação do humor é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado
no funcionamento social ou profissional ou para necessitar de hospitalização a fim de
prevenir dano a si mesmo ou a outras pessoas, ou existem características psicóticas.
D. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga
de abuso, medicamento, outro tratamento) ou a outra condição médica.
Nota: 1 Um episódio maníaco completo que surge durante tratamento antidepressivo (p. ex.,
medicamento, eletroconvulsoterapia), mas que persiste em um nível de sinais e sintomas além do
efeito fisiológico desse tratamento, é evidência suficiente para um episódio maníaco e, portanto,
para um diagnóstico de transtorno bipolar tipo I.
2 Os Critérios A-D representam um episódio maníaco. Pelo menos um episódio maníaco
na vida é necessário para o diagnóstico de transtorno bipolar tipo I.
Episódio Hipomaníaco:
A. Um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável e
aumento anormal e persistente da atividade dirigi da a objetivos ou da energia, com duração
mínima de uma semana e presente na maior parte do dia, quase todos os dias (ou
qualquer duração, se a hospitalização se fizer necessária);
B. Durante o período de perturbação do humor e aumento da energia ou atividade, três (ou
mais) dos seguintes sintomas (quatro se o humor é apenas irritável) estão presentes em
grau significativo e representam uma mudança notável do comportamento habitual:
244
Autoestima inflada ou grandiosidade;
Redução da necessidade de sono (p. ex., sente-se descansado com apenas três
horas de sono);
Mais loquaz que o habitual ou pressão para continuar falando;
Fuga de idéias ou experiência subjetiva de que os pensamentos estão acelerados;
Distratibilidade (i.e., a atenção é desviada muito facilmente por estímulos externos
insignificantes ou irrelevantes), conforme relatado ou observado;
Aumento da atividade dirigida a objetivos (seja socialmente, no trabalho ou
escola, seja sexualmente) ou agitação psicomotora (i.e., atividade sem propósito não
dirigida a objetivos);
Envolvimento excessivo em atividades com elevado potencial para
consequências dolorosas (p. ex., envolvimento em surtos desenfreados de
compras, indiscrições sexuais ou investimentos financeiros insensatos);
C. O episódio está associado a uma mudança clara no funcionamento que não é característica
do indivíduo quando assintomático;
D. A perturbação do humor e a mudança no funcionamento são observáveis por outras
pessoas;
E. O episódio não é suficientemente grave a ponto de causar prejuízo acentuado no
funcionamento social ou profissional ou para necessitar de hospitalização;
Existindo características psicóticas, por definição, o episódio é maníaco.
F. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex., droga de
abuso, medicamento, outro tratamento).
Nota: Um episódio hipomaníaco completo que surge durante tratamento antidepressivo (p. ex.,
medicamento, eletroconvulsoterapia), mas que persiste em um nível de sinais e sintomas além do
efeito fisiológico desse tratamento, é evidência suficiente para um diagnóstico de episódio
hipomaníaco.
Recomenda-se, porém, cautela para que 1 ou 2 sintomas (principalmente aumento da
irritabilidade, nervosismo ou agitação após uso de antidepressivo) não sejam considerados
suficientes para o diagnóstico de episódio hipomaníaco nem necessariamente indicativos de uma
diátese bipolar.
Nota: Os Critérios A-F representam um episódio hipomaníaco. Esses episódios são comuns no
transtorno bipolar tipo I, embora não necessários para o diagnóstico desse transtorno.
245
1. Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato
subjetivo (p. ex., sente-se triste, vazio ou sem esperança) ou por observação feita por
outra pessoa (p. ex., parece choroso). (Nota: Em crianças e adolescentes, pode ser
humor irritável);
2. Acentuada diminuição de interesse ou prazer em todas, ou quase todas, as
atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (conforme indicado por relato
subjetivo ou observação feita por outra pessoa);
3. Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (p. ex., mudança de mais
de 5% do peso corporal em um mês) ou redução ou aumento no apetite quase todos os
dias. (Nota: Em crianças, considerar o insucesso em obter o ganho de peso esperado);
4. Insônia ou hipersonia quase diária;
5. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observável por outras pessoas; não
meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento);
6. Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;
7. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser
delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por
estar doente);
8. Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão quase todos os dias
(por relato subjetivo ou observação feita por outra pessoa);
9. Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida
recorrente sem um plano específico, tentativa de suicídio ou plano específico para
cometer suicídio;
B. Os sintomas causam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento
social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo;
C. O episódio não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou a outra condição
médica.
Nota: Os Critérios A-C representam um episódio depressivo maior. Esse tipo de episódio é comum
no transtorno bipolar tipo I, embora não seja necessário para o diagnóstico desse transtorno.
Nota: Respostas a uma perda significativa (p. ex., luto, ruína financeira, perdas por desastre
natural, doença médica grave ou incapacidade) podem incluir sentimentos de tristeza intensos,
ruminação acerca da perda, insônia, falta de apetite e perda de peso observados no Critério A, que
podem se assemelhar a um episódio depressivo. Embora tais sintomas possam ser entendidos ou
considerados apropriados à perda, a presença de um episódio depressivo maior, além da resposta
normal a uma perda significativa, deve ser também cuidadosamente considerada.
Essa decisão exige inevitavelmente exercício do juízo clínico, baseado na história do
indivíduo e nas normas culturais para a expressão de sofrimento no contexto de uma perda.
Ao diferenciar luto de um episódio depressivo maior (EDM), é útil considerar que, no
luto, o afeto predominante inclui sentimentos de vazio e perda, enquanto no EDM há humor
deprimido persistente e incapacidade de antecipar felicidade ou prazer.
246
A disforia no luto pode diminuir de intensidade ao longo de dias a semanas, ocorrendo
em ondas, conhecidas como “dores do luto”. Essas ondas tendem a estar associadas a
pensamentos ou lembranças do falecido. O humor deprimido de um EDM é mais persistente e não
está ligado a pensamentos ou preocupações específicos. A dor do luto pode vir acompanhada de
emoções e humor positivos que não são característicos da infelicidade e angústia generalizadas de
um EDM.
O conteúdo do pensamento associado ao luto geralmente apresenta preocupação
com pensamentos e lembranças do falecido, em vez das ruminações autocríticas ou
pessimistas encontradas no EDM.
No luto, a autoestima costuma estar preservada, ao passo que no EDM sentimentos
de desvalia e aversão a si mesmo são comuns. Se presente no luto, a ideação autodepreciativa
tipicamente envolve a percepção de falhas em relação ao falecido (p. ex., não ter feito visitas com
frequência suficiente, não dizer ao falecido o quanto o amava).
Se um indivíduo enlutado pensa em morte e em morrer, tais pensamentos costumam ter o
foco no falecido e possivelmente em “se unir” a ele, enquanto no EDM esses pensamentos têm o
foco em acabar com a própria vida em razão dos sentimentos de desvalia, de não merecer estar
vivo ou da incapacidade de enfrentar a dor da depressão.
Transtorno Bipolar Tipo I:
A. Foram atendidos os critérios para pelo menos um episódio maníaco (Critérios A-D em “Episódio
Maníaco” descritos anteriormente);
B. A ocorrência do(s) episódio(s) maníaco(s) e depressivo(s) maior(es) não é mais bem explicada
por transtorno esquizoafetivos, esquizofrenia, transtorno esquizofreniforme, transtorno delirante
ou transtorno do espectro da esquizofrenia e outro transtorno psicótico com outras
especificações ou não especificado.
247
Essas crianças também apresentam alterações cognitivas que independem do episódio da
doença ou da medicação. Problemas de atenção, nas funções executivas, na memória de trabalho
e na aprendizagem verbal são algumas das alterações encontradas mesmo na eutimia.
Crianças com TB e comorbidades como TDAH apresentam um desempenho ainda pior
nas tarefas que avaliam atenção e função executiva.
Há ainda bastante controvérsia a respeito de se usar os mesmos critérios diagnósticos de
adultos em crianças e adolescentes para o diagnóstico de TB.
A presença de episódios claros de elevação de humor, grandiosidade inapropriada e
disfuncional e ciclos de humor devem ser usados para diferenciar TAB de TDAH e Transtorno
de Conduta. A presença de ciclos de humor deve distinguir TAB de Esquizofrenia.
Antes de fechar um diagnóstico de TAB em uma criança ou adolescente, considerar outras
explicações para o comportamento e sintomas, incluindo:
Abuso físico, emocional ou sexual, se o usuário mostra desinibição, hipervigilância ou
hipersexualidade;
Possibilidade de abuso de álcool e/ou drogas, como uma causa de sintomas tipo maníacos,
considerar TAB somente após sete dias de abstinência;
Dificuldades de aprendizagem prévias, não diagnosticadas;
Causas orgânicas em crianças com epilepsia, e acatisia derivada de medicação
neuroléptica.
248
Portanto, a manutenção ou mesmo o início de tratamento farmacológico de prevenção
à recorrência de TAB durante o período perinatal é uma conduta pertinente a ser
considerada.
Independentemente da terapia medicamentosa, o TAB na gestação está associado a
maiores riscos de:
Uso de álcool, tabaco e outras drogas;
Malformações congênitas ([Link].: microcefalia);
Prematuridade;
Placenta prévia;
Hemorragias;
Prejuízos no desenvolvimento infantil (cognitivos, sociais, afetivos).
13.1.4 Idoso
Os idosos com TB são classificados em duas categorias. A primeira, denominada de TB de
início tardio (TBI tardio), é caracterizada pela presença do primeiro episódio somente após os 50
anos.
Já a outra categoria, TB de início precoce (TBI precoce), é definida pela presença do primeiro
episódio antes dos 50 anos.
Essa distinção tem importância clínica, pois os dois quadros apresentam várias diferenças.
Enquanto o TBI precoce apresenta uma alta taxa de prevalência entre os membros de uma
família, o TBI tardio não demonstra essa característica. Todavia, este mostra uma alta taxa de
comorbidade com quadros clínicos e neurológicos, principalmente com demências e
doenças cardiovasculares, o que não ocorre com o TBI precoce.
Com relação à sintomatologia, as manifestações maníacas são menos frequentes e de
menor intensidade naqueles com TBI tardio do que nos usuários com TBI precoce, e com
predomínio da irritabilidade à euforia. Além disso, aqueles com TB tardio apresentaram uma
remissão mais rápida e em maior número do que indivíduos com TBI precoce.
Um primeiro episódio tardio de mania pode ser decorrente de um TB idiopático ou de uma
"mania secundária", resultante de alguma condição médica. A mania secundária pode ocorrer
em qualquer idade, mas é mais comum em idosos.
Portanto, a possibilidade de mania secundária deve ser considerada em todos os
usuários que apresentam sintomas maníacos, especialmente se associados com alguma
condição farmacológica ou médica que possa estar relacionada.
A mania secundária está associada com uma ampla variedade de condições:
Neurológicas (p. ex., acidente vascular encefálico, trauma, epilepsia e demências);
Sistêmicas (p. ex., alterações do cortisol, hipertireoidismo, lúpus eritematoso sistêmico,
infecções sistêmicas e uremia);
Medicamentosas (p. ex., corticosteroides, levotiroxina, agonistas dopaminérgicos);
249
Além de abuso e abstinência de substâncias psicoativas (p. ex., álcool, cocaína,
metanfetamina e opioides).
Assim, os usuários com episódio de mania de início tardio devem ser submetidos a uma
avaliação física cuidadosa, bem como a exames laboratoriais apropriados e de neuroimagem
(quando indicados).
Entre as comorbidades clínicas, vários estudos apontam para prevalência aumentada
de quadros cerebrovasculares e demências nos idosos com TB.
Neurológica
Isquemia, AVC, neoplasia, convulsões parciais complexas, estado pós
Cérebro-
ictal, hidrocefalia de pressão normal, doença de Parkinson
vascular
Fonte: Baseado em Stern et al., 2004.
250
Em caso de indícios de transtorno bipolar ainda sem comprovação clínica, o profissional
deverá deixar claro que apenas suspeita, sem atribuir o rótulo ao caso. Poderá colocar no
documento de encaminhamento somente o código F3 ou usar o código F31.9.
Usuários bipolares possuem uma morbidade e mortalidade clínicas maiores que a
população geral, mas geralmente recebem um cuidado clínico inadequado.
Algumas condutas são recomendadas para todos como avaliação clínica inicial:
Avaliar tabagismo e padrão de uso de álcool;
Avaliar função tireoidiana, hepática e renal, pressão arterial (PA), hemograma, Glicemia e
colesterol;
Medir peso e altura (IMC);
Considerar eletroencefalograma (EEG), tomografia computadorizada de Crânio (TCC) ou
ressonância magnética (RM) se há suspeita de etiologia orgânica ou comorbidade;
Considerar Raio-X e eletrocardiograma (ECG) se indicado pela história ou quadro clínico.
13.1.6 Tratamento
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas
Combinar mais de um componente na intervenção:
Orientação e autoajuda;
Monitoramento sistemático dos sintomas e aderência;
Apoio nas tomadas de decisão relativas à medicação e supervisão de especialistas.
Oferecer cuidados de intensidade progressiva: Os tratamentos se iniciam com cuidados de
baixa intensidade (atividade física em grupo, panfletos de autoajuda, grupos de apoio), passando
por psicoterapia em grupo ou individual (cognitivo-comportamental, interpessoal) e evoluindo para
o uso de antidepressivos, com supervisão especializada, caso necessária.
Oferecer alternativas para os usuários que rejeitam tratamentos usuais, por exemplo:
Grupos psicoeducacionais ou grupos de apoio que explorem questões como autoestima ou
resiliência;
É importante que esses grupos não sejam direcionados nem divulgados apenas para
portadores de um diagnóstico.
Trabalhar em equipe: Todos os integrantes das equipes de saúde da família podem assumir papéis
no monitoramento de sintomas e da aderência, além de oferecer e facilitar intervenções
psicoterápicas de baixa complexidade.
251
Manejo Psicossocial:
Informações essenciais para usuários e familiares
Existem tratamentos efetivos;
O tratamento em longo prazo pode prevenir futuros episódios;
Se não tratados, os episódios maníacos podem tornar-se disruptivos e perigosos;
Os episódios maníacos, freqüentemente levam a perda de emprego, problemas legais,
problemas financeiros ou comportamento sexual de alto risco.
Recomendações aos usuários e familiares
Durante um episódio depressivo, indagar sobre o risco de suicídio;
Durante episódios maníacos:
Evitar confrontação, a menos que necessário para prevenir atos prejudiciais ou perigosos;
Aconselhar cautela sobre comportamento impulsivo ou perigoso;
Observação rigorosa por membros de família é, freqüentemente, necessária;
Na promoção de um estilo de vida mais saudável para prevenção de recaída, os usuários
devem ser aconselhados (incluindo informação escrita) sobre:
A importância da higiene do sono e estilo de vida regular;
Os riscos de trabalho em turnos alternados (noturno) e trabalho excessivo (rotina de horas
extras);
Maneiras de monitorar sua saúde física e mental;
Aconselhamento adicional deve ser fornecido em caso de eventos negativos, como perda
de emprego, além de maior monitoramento do humor e bem-estar geral;
Deve-se encorajar o usuário a discutir suas dificuldades com a família e amigos.
Em caso de dúvida pode-se solicitar segunda opinião formativa via Teleconsultoria ou
Matriciamento.
252
O tratamento de primeira linha para um episódio maníaco severo ou episódio misto é iniciar
lítio mais um antipsicótico ou ácido valpróico mais um antipsicótico;
Tratamento adjunto de curto prazo com benzodiazepínico também pode ser benéfico;
Para episódios mistos é preferível a utilização de ácido valpróico;
Antidepressivos devem ser retirados gradualmente, se possível;
Estratégias psicossociais devem ser combinadas à farmacoterapia;
Episódios maníacos ou mistos com sintomas psicóticos usualmente requerem uma
medicação antipsicótica, além do agente antimaníaco.
Carbonato de lítio é o padrão ouro para o tratamento e a profilaxia do transtorno
afetivo bipolar. Sua dose usual é de 900 a 1.800 mg / dia, sob monitoramento da litemia
([Link]-5 - DOSAGEM DE LITIO) que deve ficar entre 0,6 e 1,2 mEq/l, há níveis tóxicos a
partir de 1,5 mEq/l. O tempo para que o lítio alcance níveis estáveis é de 5 a 7 dias. Logo, na
segunda semana de tratamento se pode solicitar a dosagem de lítio no sangue.
O lítio deve ser administrado com alimentos para diminuir os efeitos gastrointestinais. Não
partir ou quebrar os comprimidos porque são de liberação prolongada.
Antes de iniciar o tratamento com lítio é indicado realizar os seguintes exames:
CÓDGO EXAME
[Link]-0 HEMOGRAMA COMPLETO
[Link]-4 DOSAGEM DE UREIA
[Link]-7 DOSAGEM DE CREATININA
[Link]-5 DOSAGEM DE SODIO
[Link]-0 DOSAGEM DE POTASSIO
[Link]-0 DOSAGEM DE HORMONIO TIREOESTIMULANTE (TSH)
[Link]-1 DOSAGEM DE TIROXINA LIVRE (T4 LIVRE)
[Link]-6 ELETROCARDIOGRAMA
253
Valproato de sódio (ácido valpróico)
Segunda
(Se necessário: adicionar neuroléptico: risperidona, haloperidol ou clorpromazina)
254
antipsicótico) também pode ser eficaz, desde que o estabilizador de humor esteja em dose e nível
sérico adequado e na ausência de sintomas mistos.
Monoterapia com antidepressivo não é recomendada pelo risco de “virada” para um episódio
maníaco. Recomenda-se ainda rever e otimizar a dose do estabilizador de humor em uso e
reavaliar função tireoidiana.
A medicação antidepressiva se inicia em dose baixa, com aumento gradual. Se um usuário
tem um episódio depressivo quando em uso de medicação antimaníaca, avaliar o uso correto da
medicação e ajustar a dose.
Episódios depressivos com sintomas psicóticos usualmente requerem tratamento
combinado com antipsicótico.
Para usuários com sintomas depressivos leves, considerar uma conduta de
observação (watchful waiting): fornecer orientações para manejo imediato dos sintomas e
agendar retorno em duas semanas.
Se o usuário já teve episódios depressivos severos anteriormente ou apresenta risco
significativo de ter um episódio depressivo severo, deve ser manejado como episódio depressivo
moderado ou grave.
Para usuários com sintomas depressivos moderados ou graves que necessitem de um
antidepressivo, prescrever fluoxetina, porque os ISRS são menos associados com virada
maníaca do que os tricíclicos.
Um tratamento psicológico estruturado focado nos sintomas depressivos ou técnicas de
resolução de problemas podem ser considerados como alternativa ou tratamento adjuvante.
Antidepressivos devem ser evitados nas seguintes situações:
Transtorno bipolar de ciclagem rápida;
Episódio hipomaníaco recente;
Flutuações de humor com prejuízo funcional.
Nestes casos, aumentar a dose do agente antimaníaco ou acrescentar um segundo agente
antimaníaco: Ao iniciar um antidepressivo, orientar o usuário sobre:
A possibilidade da virada maníaca ou hipomaníaca;
O início de ação lento e a natureza gradual e flutuante da resposta;
A necessidade de tomar a medicação como prescrita e o risco dos sintomas de
descontinuarão e de abstinência;
A necessidade de monitorar sinais de acatisia, ideação suicida e aumento da ansiedade e
agitação (especialmente nos estágios iniciais);
Como procurar ajuda ao aparecerem os sintomas acima.
Se um usuário não responde ao uso de antidepressivo avaliar:
Uso de SPA, fatores estressores psicossociais, doenças físicas, comorbidade com
ansiedade e má aderência terapêutica;
Aumentar a dose do antidepressivo;
Trocar o antidepressivo;
255
Adicionar lítio, se não estiver sendo usado.
Usuários com sintomas depressivos devem ser aconselhados sobre programas de
exercícios estruturados, programação de atividades diárias, engajamento em atividades prazerosas
com objetivos pré-definidos, dieta e sono adequado, rede social de suporte apropriada.
Depois do tratamento bem sucedido de um episódio depressivo, não considerar
rotineiramente tratamento com antidepressivo em longo prazo, porque não há evidência de
que isso reduz as recaídas e pode estar associado a um aumento do risco de virada maníaca.
LINHA FÁRMACO
Valproato de sódio (ácido valpróico) (250 mg no 1º. dia, incremento de 250 mg a cada 2
dias até chegar a 750 mg) + fluoxetina (20 mg/dia) ou
Segunda Valproato de sódio (ácido valpróico) + tricíclico (amitriptilina ou imipramina 75 mg/dia).
Nos casos de sintomas psicóticos:
Valproato de sódio (ácido valpróico) + Quetiapina 300 a 600 mg/dia (iniciar com 25 mg/dia
e aumentar).
NÍVEL FÁRMACO
1 Carbonato de lítio
2 Quetiapina
3 Lamotrigina
Olanzapina associada a fluoxetina; ou carbonato de lítio associado a fluoxetina; ou
4
ácido valproico associado a fluoxetina
Fonte: SES/SC, 2015.
256
Ao longo dos anos tem se observado que a adesão ao tratamento é baixa e somente cerca
de 33% dos usuários, usando lítio, permanecem livres de sintomas por mais de 5 anos.
É comum que o usuário, após não ter mais sintomas, creia não haver motivos para continuar
usando a medicação. A adesão pode ser melhorada por intervenções da enfermagem, dos
agentes de saúde, do envolvimento de familiares, da psicoeducação, das psicoterapias, dos
grupos de usuários de lítio, e outras estratégias psicossociais.
Tratamento Medicamentoso na Infância e Adolescencia
Ao planejar o tratamento em crianças e adolescentes com transtorno afetivo bipolar,
considerar:
Fatores estressores e vulnerabilidade no ambiente social, educacional e familiar, incluindo a
qualidade das relações interpessoais;
O impacto de qualquer comorbidade, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade
(TDAH) e transtornos ansiosos;
O impacto do transtorno em sua inclusão social e educacional.
O tratamento farmacológico segue as mesmas recomendações dos adultos, exceto que
deve ser iniciado em doses mais baixas.
As únicas medicações aprovadas pelo FDA dos Estados Unidos (United States Food and
Drug Administration) para TB na infância e adolescência são para mania aguda: risperidona para
crianças a partir de 10 anos; e lítio para crianças a partir de 12 anos.
No episódio depressivo, se não há resposta à psicoterapia combinada com medicação
profilática após quatro semanas, considerar o acréscimo de fluoxetina, iniciando com 10mg/dia e
aumentando para 20mg/dia se necessário.
Os estabilizadores do humor, como o lítio são geralmente a primeira escolha para o
tratamento de transtorno bipolar. Lítio é aprovado para o tratamento e prevenção de
sintomas maníacos em crianças maiores de 12 anos.
257
Prescrever ácido fólico 5mg/dia da pré-concepção até o final do primeiro trimestre de
gravidez para todas as mulheres usando anticonvulsivantes como estabilizadores do humor:
A literatura, até o momento, não associa o haloperidol a formas de teratogenia.
O lítio é bastante teratogênico. Neurolépticos atípicos ainda são pouco conhecidos, mas
sabidamente associam-se a diabetes gestacional. A clorpromazina pode provocar síndrome
respiratória infantil.
Há bom número de estudos sobre os riscos no uso de valproato, (o valproato e o
divalproato de sódio podem causar defeitos nos tubos neurais como síndrome valproática
fetal) carbamazepina, lamotrigina e lítio.
Ácido valpróico e carbamazepina são considerados substâncias teratógenas: Ambos estão
associados a importante risco de anomalias congênitas, notadamente os defeitos do tubo neural. O
uso do ácido valpróico na gravidez somente deve ser considerado em mulheres com TAB
francamente grave cuja única resposta terapêutica satisfatória ocorreu apenas com esse fármaco.
A carbamazepina deve ser evitada no primeiro trimestre, sempre que possível: Os riscos
associados ao uso de drogas psicotrópicas precisam ser entendidos no contexto de taxas
significativas de recaída e morbidade associada à interrupção do tratamento bipolar durante a
gravidez.
Devem ser realizadas discussões cuidadosas com a usuário e seus familiares a respeito dos
potenciais riscos e benefícios do uso do medicamento no contexto médico singular da gestante.
A manutenção do lítio no primeiro trimestre é particularmente indicada em gestante
que apresenta TAB com manifestações atuais ou passadas graves e com impactos
funcionais intensos.
Mulheres com Transtorno Afetivo Bipolar grave em tratamento de manutenção com lítio
podem continuar usando lítio na gestação se clinicamente indicado.
São condutas pertinentes à utilização de lítio na gravidez:
Prescrever ácido fólico 5mg/dia via oral (VO) para reduzir risco de anomalia de Ebstein;
Fracionamento da dosagem diária em três doses, com a intenção de evitar picos séricos;
Monitorar a litemia quinzenalmente ou mensalmente até a trigésima sexta semana de
gestação e posteriormente a cada sete ou menos dias;
Solicitar e avaliar ultrassonografia e ecocardiografia fetais em torno da décima oitava
semana de gestação para detecção precoce de possíveis malformações;
Considerar o aumento da dosagem durante o segundo e o terceiro trimestres para a
manutenção de litemia terapéutica;
Reduzir gradualmente a dose diária para a metade ou um terço alguns dias antes do parto;
Após o parto, reavaliar sistematicamente as manifestações clínicas da usuária, sua
litemia e sinais sugestivos de intoxicação no neonato.
Durante a lactação, a utilização do lítio é desestimulada, devido à possibilidade de
intoxicação e outros eventos adversos.
258
Se houver imperiosa necessidade médica e desejo esclarecido da usuária, realiza-se
seguimento clínico e laboratorial do lactente de modo minucioso e intenso, incluindo-se
monitoramento de litemia, sinais vitais e alterações comportamentais.
Para a lactação, ácido valpróico e carbamazepina apresentam recomendações de
segurança favoráveis em razão de seus baixos níveis lácteos e poucos eventos adversos.
São considerados fármacos compatíveis com a amamentação.
Durante a gravidez, antipsicóticos podem ser considerados opções estratégicas para
o TAB em função de suas propriedades estabilizadoras do humor e de risco teratogênico
aparentemente inferior aos do lítio, do ácido valpróico e da carbamazepina.
Em comparação com os atípicos, antipsicóticos típicos, como haloperidol, são
considerados mais seguros, porém, menos eficazes no TAB.
Estudos sobre a segurança reprodutiva da olanzapina e da quetiapina não têm identificado
associação significativa com malformações congênitas maiores.
Na lactação, antipsicóticos típicos, como o haloperidol, não foram vinculados a efeitos
adversos frequentes ou graves nos lactentes. Dentre os atípicos, destaca-se a olanzapina, em
função de recentes estudos que demonstram efeitos adversos geralmente ausentes ou discretos,
bem como pequena quantidade no leite materno.
Benzodiazepinico devem ser evitados no primeiro trimestre de gravidez, assim como
seu uso em longo prazo.
Em mulheres grávidas com sintomas depressivos leves, considerar:
Abordagens de auto-ajuda;
Intervenções psicoterapêuticas;
Grupos de convivência;
Uso de antidepressivo.
Em mulheres grávidas com sintomas depressivos moderados e graves, considerar:
Tratamentos psicológicos estruturados para depressão moderada;
Tratamento combinado com medicação e intervenção psicológica estruturada para
depressão grave;
Pode ser usado ISRS em combinação com a medicação profilática, já que são menos
associados à virada maníaca que os tricíclicos e não aumentam o risco de malformações
fetais;
Monitorar cuidadosamente os sinais de virada e interromper o uso de se surgirem sintomas
de mania ou hipomania.
Mulheres grávidas utilizando antidepressivos devem ser informadas sobre a possibilidade
de efeitos colaterais transitórios no bebê durante o período neonatal.
Amamentação: Mulheres em uso de medicação psicotrópica que desejam amamentar devem:
Ser aconselhadas quanto aos riscos e benefícios da amamentação;
Não amamentar se estiver usando lítio ou benzodiazepínico, e ser oferecido outro agente
profilático como um antipsicótico;
259
Se necessário prescrever um antidepressivo, utilizar um ISRS.
Sempre avaliar com a Equipe de Saúde Mental na Atenção primária a melhor estratégia.
Psicose Puerperal: As psicoses puerperais costumam representar episódios psicóticos do TAB
desencadeadas pelo pós-parto; ocorrem geralmente em primíparas e são graves pelo risco de
suicídio e infanticídio.
Tratamento Medicamentoso para o Idoso: As dosagens utilizadas em idosos diferem
substancialmente daquelas empregadas em adultos mais jovens.
Além disso, também se deve diferenciar as dosagens utilizadas nos indivíduos “frágeis”
(aqueles com importantes comorbidades médicas e neurológicas) daquelas destinadas aos “não
frágeis” (aqueles sem comorbidades médicas e neurológicas significativas).
Em idosos frágeis, sugere-se uma dose inicial muito baixa (entre 25 e 50% da dose
normalmente usada em adulto jovem) devido aos grandes riscos de eventos adversos. Já durante
a fase de depressão ou de manutenção, utiliza-se metade das doses empregadas na fase de mania.
O uso do lítio permanece como a primeira opção de tratamento mesmo em idosos.
Nessa população, seu uso apresenta um benefício adicional para a redução do
comprometimento cognitivo.
Apesar disso, ele é pouco prescrito por preocupações relacionadas à tolerabilidade e às
diversas comorbidades médicas da população idosa.
Como a excreção do lítio é exclusivamente renal, deve-se ter cuidado com alterações
no clearence de creatinina. Alguns fármacos podem estar relacionados com aumento do nível
sérico do lítio, sobretudo aqueles de prescrição mais comuns em idosos, tais como diuréticos,
inibidores da ECA e anti-inflamatórios não esteroides.
Alterações farmacodinâmicas na terceira idade podem determinar uma maior
vulnerabilidade aos eventos adversos com o lítio, por isso alguns autores sugerem que a dosagem
plasmática desse medicamento em idosos seja inferior à do adulto, variando de 0,3 a 0,6
mEq/L.
A carbamazepina e todos os antipsicóticos de segunda geração, exceto a clozapina, são
aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) para uso nos casos de mania.
O lítio, a lamotrigina, a quetiapina e a combinação de olanzapina mais fluoxetina
demonstraram eficácia no tratamento de depressão bipolar em estudos realizados com usuários de
todas as idades.
Todavia, o papel dos antidepressivos no tratamento dessa condição permanece controverso.
Na população geriátrica, há evidências de que o uso de antidepressivo representa um risco
relativamente pequeno. Outro estudo concluiu que o tratamento com estabilizadores do humor
associados aos antidepressivos diminui o risco de suicídio em usuários bipolares idosos.
260
[Link] Tratamento Profilático / de Manutenção
Após a remissão de um episódio agudo, os usuários podem permanecer com alto risco de recaída
por um período de mais de seis meses. Logo, tratamentos de manutenção são recomendados após
um episódio maníaco.
O lítio e o ácido valpróico são os mais indicados para esta fase, devendo ser
continuados por pelo menos seis meses.
Benzodiazepínico ou antipsicótico devem ser descontinuados assim que haja a remissão do
episódio e apenas o agente antimaníaco deve ser mantido.
Carbamazepina pode ser usada como uma alternativa para o lítio, principalmente nos
usuários com TAB tipo II, ou quando o lítio não é bem tolerado ou é ineficaz.
Se uma destas medicações foi utilizada com sucesso para o tratamento do episódio maníaco
ou depressivo mais recente, esta deve ser geralmente continuada.
Para co-morbidade com uso de Substâncias Psicoativas (SPA), Transtorno de
Estresse Pós-Traumático (TEPT) ou Transtorno do Pânico, está indicado o uso de ácido
valpróico.
Se o usuário tem recaídas freqüentes ou sintomatologia que provoque prejuízo funcional,
alterar a monoterapia ou adicionar um segundo agente antimaníaco profilático (lítio, ácido valpróico).
Quadro clínico, efeitos colaterais e, quando necessário, exames laboratoriais devem ser
monitorados com cuidado. Medicação de depósito (haloperidol decanoato) é indicada para
usuários com má aderência.
Durante o tratamento de manutenção, o usuário pode se beneficiar de uma intervenção
psicossocial concomitante que auxilie no manejo do transtorno (aderência, estilo de vida, detecção
precoce de sintomas prodrômicos) e dificuldades interpessoais. Grupoterapia também pode auxiliar
na aderência ao plano terapêutico, adaptação a uma doença crônica, auto-estima e manejo de
questões psicossociais e familiares.
Grupos de suporte podem ainda prover informação sobre o transtorno e seu tratamento
trazendo benefícios significativos ao indivíduo.
Após um episódio agudo, deve sempre ser oferecido aconselhamento, inclusive informação escrita,
em:
Psicoeducação sobre a doença, importância de uma rotina diária (estilo de Vida regular),
higiene do sono e aderência ao tratamento medicamentoso;
Riscos do trabalho em turnos alternados (noturno) e trabalho excessivo (rotina de horas
extras);
Monitoração do humor, detecção de sinais de alerta e estratégias de prevenção de crises e
de enfrentamento geral de problemas;
Tratamentos de auto-ajuda e/ou intervenções voltados para aumentar o reconhecimento e o
auto-manejo de pródromos maníacos e depressivos são efetivos em diminuir a recorrência
de ambos.
262
13.2.1 Avaliação e Diagnóstico
Classificação na CID-10:
F23 Transtornos psicóticos agudos e transitórios
Grupo heterogêneo de transtornos caracterizados pela ocorrência aguda de sintomas
psicóticos tais como idéias delirantes, alucinações, perturbações das percepções e por uma
desorganização maciça do comportamento normal.
O termo “agudo” é aqui utilizado para caracterizar o desenvolvimento crescente de um
quadro clínico manifestamente patológico em duas semanas no máximo.
Para estes transtornos não há evidência de uma etiologia orgânica. Acompanham-se
frequentemente de uma perplexidade e de uma confusão, mas as perturbações de orientação no
tempo e no espaço e quanto à pessoa não são suficientemente constantes ou graves para
responder aos critérios de um delirium de origem orgânica (F05.).
Em geral estes transtornos se curam completamente em menos de poucos meses,
freqüentemente em algumas semanas ou mesmo dias. Quando o transtorno persiste o
diagnóstico deve ser modificado.
O transtorno pode estar associado a um “stress” agudo (os acontecimentos geralmente
geradores de “stress” precedem de uma a duas semanas o aparecimento do transtorno).
Episódios psicóticos agudos podem ocorrer em diversas situações, por causas diferentes.
Podem representar, por exemplo, um primeiro surto de esquizofrenia, um primeiro episódio maníaco
ou depressivo grave, um estado transitório causado por substâncias psicoativas ou um estado de
delirium.
Deve-se, pois, fazer um primeiro diagnóstico diferencial entre as psicoses ditas
funcionais e as ditas orgânicas ou sintomáticas. Entre as primeiras incluem-se, além dos
transtornos psicóticos agudos e transitórios, os surtos esquizofrênicos, reagudizações e
recrudescimento de transtornos delirantes paranoides, e episódios de transtornos de humor
(maníacos ou depressivos graves) com sintomas psicóticos. Nestes quadros, como regra, não
ocorrem alterações da consciência.
As manifestações psicóticas orgânicas aparecem como manifestação sintomática de alguma
lesão, doença ou intoxicação. Em geral decorrem de infecções, intoxicações por substâncias
exógenas ou desordens metabólicas e têm como sintoma central a alteração da consciência. O
diagnóstico diferencial, portanto, implica em distinguir dos quadros classificáveis como F2
e F3, distinguir das intoxicações e distinguir do delirium.
Quadros psicóticos agudos bastante graves podem ser vistos em episódios maníacos nos
quais haja abuso simultâneo de substâncias psicoativas. Nestes casos, a identificação do tipo de
droga utilizada é importante.
Descartadas as possibilidades de o quadro ser um delirium, ser um novo surto de
processo esquizofrênico, ou ser um episódio afetivo, pode-se pensar em transtorno
psicótico agudo e transitório.
Os transtornos psicóticos agudos e transitórios têm como características básicas:
263
1. Início agudo, em menos de 2 semanas, com a transição de um estado sem sintomas
psicóticos para um estado francamente psicótico;
2. Presença de síndromes características, incluindo-se: (a) estados polimórficos (sintomas
variáveis que se modificam rapidamente) característicos de psicoses agudas descritas em
diversos países e (b) sintomas característicos da esquizofrenia;
3. Presença ou ausência de estresse agudo durante as 2 semanas que antecedem o início dos
sintomas psicóticos;
4. Recuperação completa após 1 a 3 meses de evolução;
5. O diagnóstico não prescinde da coleta de uma história pregressa e atual completas
(incluindo os dados sobre drogas utilizadas), o exame do estado mental, o exame físico (se
houver condições de segurança para tal).
264
Alucinações persistentes, de qualquer modalidade, quando ocorrerem todos os dias, por
pelo menos 1 mês, quando acompanhadas por delírios (os quais podem ser superficiais ou
parciais), sem conteúdo afetivo claro ou quando acompanhadas por ideias superestimadas
persistentes;
Neologismos, interceptações ou interpolações no curso do pensamento, resultando em
discurso incoerente ou irrelevante;
Comportamento catatônico, tal como excitação, postura inadequada, flexibilidade cérea,
negativismo, mutismo e estupor;
Sintomas "negativos", tais como apatia marcante, pobreza de discurso, embotamento ou
incongruência de respostas emocionais (deve ficar claro que tais sintomas não são
decorrentes de depressão ou medicamento neuroléptico);
Alteração da qualidade global de aspectos do comportamento pessoal (perda de interesse,
falta de objetivos, inatividade, atitude ensimesmada e retraimento social).
O curso da esquizofrenia pode seguir vários padrões, embora esta seja tipicamente vista
como um transtorno crônico que começa no fim da adolescência e tem evolução negativa em longo
prazo.
Na maioria dos casos, o início dos sintomas psicóticos é precedido por um período
prodrômico. A fase aguda se refere à presença de sintomas psicóticos.
Num certo número de casos, após a atenuação dos sintomas positivos, sintomas negativos
similares aos manifestos no período prodrômico permanecem. O período de estabilização dura
cerca de 6 meses.
Apesar dos investimentos em novas técnicas terapêuticas, a esquizofrenia ainda representa
uma enorme sobrecarga para o indivíduo e sua família. Na maioria dos casos, há prejuízo das
funções ocupacionais ou sociais, caracterizado por afastamento social, perda de interesse ou
capacidade de agir na escola ou no trabalho, mudança nos hábitos de higiene pessoal ou
comportamento incomum.
De 4% a 15% das pessoas que sofrem de esquizofrenia cometem suicídio, e o aumento
da mortalidade entre os esquizofrênicos está aproximadamente 50% acima daquela da
população geral.
As manifestações psicopatológicas da esquizofrenia podem ser agrupadas em três grandes
dimensões, também chamadas fatores ou agrupamentos (clusters) :
Psicótica (sintomas: delírios e alucinações);
De desorganização do pensamento e da conduta (sintomas: desorganização do
pensamento, afeto inapropriado, distúrbios de atenção);
E aquela em que há diminuição de certas funções normais da vida psíquica, também
chamada deficitária ou negativa (sintomas principais: embotamento afetivo, déficit volitivo).
Além dessas três dimensões, usuários com diagnóstico de esquizofrenia também
apresentam sintomas de depressão e de ansiedade e declínio de certas funções cognitivas, como
perda na capacidade de insight e de abstração conceituai.
265
Como abordar quando a pessoa chega para o tratamento:
Abordá-la com empatia e postura acolhedora;
Trabalhar buscando vincular a pessoa e a família ao tratamento;
Usar uma linguagem clara, simples, objetiva;
Oferecer-lhe uma abordagem multidisciplinar, que contemple suas necessidades clínicas,
emocionais e sociais;
Ouvir seu relato em relação ao seu sofrimento;
Estar atento para a necessidade de dar continência ao sofrimento da família prestando
esclarecimentos e informações, principalmente ao se tratar de um primeiro surto.
Informação da história relevante para o diagnóstico: Indagar os seguintes aspectos:
Mudanças no comportamento em geral, como isolamento, retraimento social, prejuízo das
atividades da vida diária, ocorrem gradualmente;
Se é o primeiro episódio ou se já houve outros anteriores;
Se já ocorreram internações ou tratamentos psiquiátricos e/ou tratamentos
psicoterapêuticos antes;
Medicações em uso e as já utilizadas;
Histórico de doença psiquiátrica na família;
Dinâmica familiar: relações entre os membros da família, conflitos, vínculos mais estreitos;
Antecedentes pessoais: outras doenças clínicas, tabagismo, uso de drogas e álcool.
266
Fase estável:
Na fase estável, as manifestações clínicas de apatia, isolamento social e embotamento
afetivo, bem como a dificuldade de estabelecer projeto de vida, podem estar presentes e são
relativamente consistentes em gravidade e magnitude;
As exacerbações agudas podem interromper a fase estável e requerer tratamento adicional
ou intervenções.
Fatores primitivos de pior diagnóstico:
Início precoce;
Gênero feminino;
Solteiro;
Ajustamento pré-mórbido deficiente;
Quociente Intelectual (QI) limítrofe ou inferior;
Ausência de sintomas afetivos;
Desorganização;
Sintomas negativos quando do início do quadro;
História familiar de esquizofrenia;
Alto nível de emoções expressas na família.
267
Somente se TR reagente:
[Link]-0 - TESTE NÃO TREPONEMICO P/ DETECÇÃO DE SIFILIS (VDRL)
[Link]-8 - TESTE TREPONEMICO P/ DETECÇÃO DE SIFILIS
Para diagnóstico:
[Link]-8 - TESTE RÁPIDO PARA DETECÇÃO DE INFECÇÃO PELO HIV
Somente se TR indefinido:
[Link]-0 - PESQUISA DE ANTICORPOS ANTI-HIV-1 + HIV-2 (ELISA)
Alguns medicamentos podem produzir sintomas psiquiátricos, geralmente depressivos, e,
ocasionalmente, sintomas psicóticos, como é o caso de antivirais, antibióticos, antiparkinsonianos
(especialmente dopa e seus derivados), ansiolíticos, antidepressivos, anticonvulsivantes,
corticosteroides, digitálicos e psicoestimulantes (principalmente anfetaminas).
Os sintomas psicóticos podem ter diversas origens:
Quadro psicótico agudo induzido por álcool e outras drogas;
Transtorno esquizoafetivo;
Transtorno de humor com sintomas psicóticos;
Transtorno de ansiedade (pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de
personalidade, transtorno fictício e simulação);
Distúrbios orgânicos: transtornos endócrino-metabólicos, infecções, doença auto-imune,
epilepsia do lobo temporal, tumor cerebral, acidente vascular cerebral, intoxicações e quadro
medicamentoso;
Agentes farmacológicos que apresentam o potencial de causar psicose aguda: digitais,
corticóides, isoniazida, antabuse, antidepressivos tricíclicos, anticonvulsivos, cimetidina,
benzodiazepinico, anfetaminas e drogas relacionadas, antiarrítmicos, narcóticos,
barbitúrícos, metildopa, agentes antiinflamatórios não esferóides, antineoplásicos.
As seguintes características sugerem fortemente uma origem clínica não psiquiátrica:
Mudança abrupta de humor em pessoas sem história de doença psiquiátrica prévia
acompanhada ou não de sinais clínicos: sudorese, alterações de pressão arterial, pulso.
Mudança abrupta do estado mental;
Mudança abrupta da personalidade;
Perturbações da consciência;
Alucinações visuais isoladas;
Sinais neurológicos focais.
Infância e Adolescência: Quando comparadas aos adultos, crianças com esquizofrenia de início
precoce apresentam maior comprometimento do ajustamento pré-mórbido. As alucinações estão
presentes em cerca de 80% dos casos.
As experiências alucinatórias refletem o período de desenvolvimento da criança, e seu
conteúdo está ligado a brinquedos, animais e monstros. Delírios estão também presentes,
mas são menos frequentes, especialmente antes dos 10 anos.
268
Não existem sinais e sintomas exclusivos da esquizofrenia antes do primeiro surto. A
criança e o adolescente apresentam como manifestação apenas o retraimento social.
O que caracteriza a esquizofrenia é o rompimento com a realidade, e isso se dá quando
o usuário passa a falar coisas sem sentido, apresenta alteração do comportamento com
gesticulações, anda de um lado para outro, não dorme e fala sozinho, pela presença de delírios e
alucinações.
De modo semelhante ao quadro em adultos, o início pode ser insidioso ou agudo e a
cada surto o usuário se distancia do seu padrão normal de funcionamento, o que pode ser
percebido pela maioria dos pais das crianças afetadas com Esquizofrenia de Início Precoce (EIP).
Os transtornos psiquiátricos mais importantes que, geralmente, são mais confundidos com
a EIP são o transtorno afetivo bipolar (TAB) e o transtorno invasivo do desenvolvimento (TID):
TAB: muitas vezes, o usuário portador de TAB recebe o diagnóstico de esquizofrenia em virtude da
presença de delírio persecutório e alucinações, mas durante a evolução do quadro, observa-se
que a criança com TAB apresenta ressonância afetiva, busca contato com outras pessoas e
mantém o afeto preservado, porém apresenta mais oscilações de humor e, geralmente, volta ao
padrão anterior de funcionamento acadêmico e social.
TID: as crianças com TID manifestam sintomas clássicos antes dos 30 meses: evitam contato
visual, apresentam problemas de linguagem e comunicação, têm uma tendência ao isolamento e
muitas vezes apresentam movimentos estereotipados como balanceio do tronco, flapping e andar
nas pontas dos pés.
A abordagem para o tratamento de esquizofrenia em adolescentes mais velhos deve
ser semelhante à de usuários adultos. Os mais jovens devem ter o tratamento iniciado com
dose menores, determinada de forma singular, pois existem poucos dados.
Gestação e Puerpério: O aparecimento de esquizofrenia na gravidez é raro, no entanto este
tipo de transtorno exige o uso contínuo de medicamentos anti-psicóticos para controlar a
sintomatologia e disfuncionalidade.
Embora o curso da esquizofrenia durante a gravidez não esteja bem definido, estes
casos devem ser considerados de alto risco.
Estas mulheres tendem a receber menos cuidados pré-natais, têm pior nutrição, consomem
mais tabaco, álcool e drogas ilícitas em comparação com as mulheres sem esquizofrenia.
Estudos recentes comparam mulheres grávidas com esquizofrenia e mulheres grávidas sem
qualquer patologia psicótica. Assim, em comparação com as mulheres sem patologia psicótica, as
esquizofrénicas apresentam maiores níveis de ansiedade, pânico, e falta de confiança sobre
a capacidade de ser mãe.
Entre as mulheres com patologia, as de idade mais jovem relataram um estado de
saúde pior durante a gestação. Sintomas negativos e positivos durante a gravidez podem levar a
um atraso no reconhecimento da mesma, a uma má interpretação dos sinais de parto.
As mulheres com esquizofrenia em geral têm um risco maior de complicações
obstétricas incluindo anormalidades placentárias e hemorragias antes do parto.
269
Estudos anteriores mostravam que havia uma relação entre o uso de anti psicóticos na
esquizofrenia e complicações neonatais, como baixo peso ao nascer, parto prematuro. Um estudo
recente comprova que pode a esquizofrenia só por si ter um risco de complicações neonatais
independente do uso de anti-psicóticos.
Psicose puerperal é uma condição menos comum que afeta de 1 a 2 em cada 1000
mulheres. A psicose puerperal é em grande parte de natureza afetiva, embora diversos estudos
apontem para características atípicas como estados misto, confusão e alteração de comportamento.
Em geral o início ocorre no primeiro mês de pós-parto.
Fatores de risco:
Histórico de psicose puerperal (risco de futuro episódio em torno de 25 a 57%);
(Nível 2+);
História prévia de doença psicótica;
História familiar de psicose afetiva.
Manejo e Tratamento: Deve-se realizar sempre investigação de história de depressão no pré-natal
detodas as mulheres. Fatores de risco psicossociais e biológicos de depressão e psicose puerperal
devem ser sistematicamente colhidos e anotados durante o pré-natal.
Psicose puerperal deve ser tratada da mesma forma que os transtornos psicóticos,
mas levando em consideração o uso do tratamento medicamentoso durante a amamentação.
O tratamento antipsicótico de mulheres esquizofrênicas grávidas ou que estejam
amamentando deve ponderar de um lado, os riscos dos vários medicamentos antipsicótico para o
feto, o recém-nascido e o lactente e, de outro, os riscos de que os sintomas psicóticos não tratados
acarretam cuidados inadequados peri e pré-natal.
Dois períodos de alto risco são identificáveis: o primeiro trimestre gestacional, com
maior potencial teratogênico, e o momento do nascimento, com maior risco obstétrico.
Idoso: A abordagem para o tratamento de pessoas idosas com esquizofrenia é semelhante àquela
indicada para usuários mais jovens e envolve a combinação entre farmacoterapia e intervenções
psicossociais. No entanto, usuários idosos tendem a ser mais sensíveis aos efeitos terapêuticos e
tóxicos dos medicamentos antipsicóticos. Assim, as doses iniciais recomendadas são de 25% a
50% da dose habitual de início para um adulto jovem.
Os efeitos colaterais dos medicamentos antipsicóticos que ocorrem mais freqüentemente
em usuários idosos são: sedação, hipotensão ortostática, reações anticolinérgicos, sintomas extra
piramidal e discenesia tardia.
Especialmente em pessoas idosas, a polifarmacoterapia desnecessária deve ser
evitada.
13.2.3 Tratamento
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas
Combinar mais de um componente na intervenção:
Orientação e autoajuda;
Monitoramento sistemático dos sintomas e adesão;
270
Apoio nas tomadas de decisão relativas à medicação e supervisão de especialistas.
Oferecer cuidados de intensidade progressiva
Os tratamentos se iniciam com cuidados de baixa intensidade (atividade física em grupo,
panfletos de autoajuda, grupos de apoio), passando por psicoterapia em grupo ou individual
(cognitivo-comportamental, interpessoal) e evoluindo para o uso de antidepressivos, com
supervisão especializada, caso necessária.
Oferecer alternativas para os usuários que rejeitam tratamentos usuais, por exemplo:
Grupos psicoeducacionais ou grupos de apoio que explorem questões como autoestima ou
resiliência.
É importante que esses grupos não sejam direcionados nem divulgados apenas para
portadores de um diagnóstico.
Trabalhar em equipe: Todos os integrantes das equipes de saúde da família podem assumir papéis
no monitoramento de sintomas e da aderência, além de oferecer e facilitar intervenções
psicoterápicas de baixa complexidade.
Adequar a intervenção ao contexto do território: Diferenças culturais influenciam a apresentação
psicopatológica dos sintomas e a aceitação e resposta aos tratamentos propostos. As intervenções
propostas também precisam ser aceitáveis para os profissionais da atenção primária que irão
implantá-las.
Fase Prodrômica: As metas de abordagem são:
Realizar avaliações e monitoramento regulares do estado mental e da segurança em
ambiente domiciliar ou em consultório para reduzir o estigma;
Acordo com o usuário e sua família;
Controlar síndromes simultâneas (como depressão e abuso de substâncias) e
problemas como estresse interpessoal, profissional e familiar;
Informar sobre o nível de risco, imprimindo otimismo terapêutico;
Enfatizar que os problemas atuais podem ser aliviados, mas a progressão para a psicose
não é inevitável;
Através de avaliações freqüentes, reduzir qualquer atraso subseqüente na avaliação do
tratamento para o primeiro episódio de psicose.
Fase Aguda: As metas do tratamento específico são:
É essencial engajar o usuário e a família, desde o início, numa relação detrabalho
colaborativo, de confiança e de cuidado;
Prevenir danos;
Controlar distúrbios de comportamento;
Suprimir sintomas;
Determinar e dar atenção aos fatores que levaram à ocorrência do episódio agudo;
Realizar um retorno rápido ao melhor nível de funcionamento prévio;
Atenção especial deve ser dada à presença de ideação, intenção ou planejamento suicida e
à presença de alucinações imperativas;
271
Informar o usuário, considerando a capacidade deste de assimilar a informação, sobre a
natureza e o manejo terapêutico da doença, inclusive sobre os benefícios e efeitos colaterais
dos medicamentos.
Fase de estabilização: As metas do tratamento específico são:
Consolidar o relacionamento terapêutico;
Reduzir o estresse sobre o usuário e dar suporte para minimizar a probabilidade de recidiva;
Aumentar a adaptação do usuário à vida na comunidade;
Buscar a redução progressiva dos sintomas consolidando a remissão;
Promover o processo de reabilitação;
Manutenção de esquema medicamentoso que resultou em melhora do quadro por pelo
menos seis meses;
Avaliar a persistência de efeitos colaterais e ajustar a farmacoterapia de forma adequada
para minimizá-lo.
Fase de manutenção: As metas do tratamento específico são:
Garantir que a remissão ou o controle dos sintomas seja sustentado;
Manter ou melhorar nível de funcionamento e qualidade de vida do usuário;
Tratar efetivamente as exacerbações de sintomas ou as recidivas;
Monitorizar os efeitos adversos continuamente.
Manejo Psicossocial: As intervenções psicossociais são medidas que visam diminuir a
vulnerabilidade do usuário a situações estressantes e reforçar sua adaptação e funcionamento
social.
Essas intervenções podem, portanto, trazer benefícios adicionais em áreas como prevenção
de recaídas, aquisição de habilidades sociais e melhor funcionamento social e ocupacional.
A tendência atual das psicoterapias de grupo utilizadas no tratamento dos usuários com
esquizofrenia caminha em direção a enfoques integradores e ecléticos, com formatos grupais
diversos, adaptados a características dos usuários, com objetivos terapêuticos concretos.
Os grupos psicoterápicos ambulatoriais não parecem mostrar um efeito consistente na
redução da psicopatologia ou na freqüência e no número de internações.
Entretanto, parecem ter um efeito positivo em usuários pobremente socializados,
possivelmente como conseqüência do efeito de pertencimento ao grupo. Como vantagem
adicional, as sessões regulares, freqüentes e não limitadas no tempo permitem também o
monitoramento dos sintomas.
Usuários crônicos e com pior ajustamento podem sentir-se superestimulados na
confrontação interpessoal. Esta população pode beneficiar-se mais de um enfoque cognitivo e de
modificação de conduta, mais estruturado, de apoio.
Através de técnicas simples como reforços sociais e generalização de situações da vida real,
os usuários podem apren der formas de comunicação, de resolução de problemas e de relações
interpessoais.
272
Um princípio amplamente aceito é que os cuidadores podem se beneficiar de informação,
de apoio e de ajuda, assim como de um treinamento específico para o manejo de situações
concretas.
Intervenções sócio-comunitárias são destinadas à vinculação do indivíduo com a
comunidade, a identificar recursos comunitários no âmbito de interesse do usuário, fazer da
comunidade parte do processo de recuperação e manter ou evitar a perda de habilidades sociais,
acadêmicas e profissionais.
Essas intervenções podem se desenvolver na área vocacional-laboral, atividades de uso do
tempo livre e atividades de interação social.
Prevenção de recaída: O vínculo com os serviços e profissionais da saúde para garantir maior
aderência ao tratamento o que, juntamente com o apoio familiar, são os fatores preditivos de menor
taxa de recaída.
O haloperidol têm efeitos terapêuticos equivalentes aos dos medicamentos mais novos e
mais caros (não é nem superior nem inferior a eles). Têm alguns efeitos colaterais pronunciados,
aos quais o médico pode prestar atenção e prevenir ou tratar. Entre estes ressalta-se as síndromes
de liberação extrapiramidal (acatisia, discinesia e distonia), por haloperidol, capaz de resolução e
de prevenção pelo biperideno.
273
A clorpromazina ainda é tida como um tratamento efetivo, não ameaçado pelos estudos
dos novos neurolépticos. Apesar dos efeitos adversos, ela se mantém como o tratamento padrão e
como a droga-controle no estudo da esquizofrenia. Ressaltam-se a hipotonia, as alterações da
prolactina (com ou sem galactorréia), a sedação e as eventuais reações cutâneas.
A levomepromazina, apesar de causar sonolência, também é eficaz, em alguns casos
excepcionais. É bastante sedativa e tem boa utilidade em usuários insones, quando administrada à
noite, para esquizofrênicos que estão em um período excessivamente ativo durante horários em
que os familiares dormem.
Os neurolépticos atípicos (risperidona, olanzapina, quetiapina e ziprasidona) têm
efeitos colaterais que exigem observação da equipe de saúde. A olanzapina, apesar da grande
eficácia nos sintomas psicopatológicos, pode ter efeitos importantes no desencadeamento de
diabetes e de obesidade, por alterar o metabolismo.
No caso de a intolerância a risperidona dever-se ao aumento de prolactina (nível sérico
acima de 25 ng/ml nas mulheres e acima de 20 ng/ml nos homens) acompanhado ou não de
galactorreia e irregularidades menstruais, indica-se outro antipsicótico.
Contudo, todos os antipsicóticos da lista deste protocolo, com exceção de clozapina,
podem ser utilizados no tratamento, sem ordem de preferência.
Os tratamentos devem ser feitos com um medicamento de cada vez (monoterapia), de
acordo com o perfil de segurança e a tolerabilidade do usuário.
Caso haja intolerância por efeitos extrapiramidais, estarão indicados, após ajuste de
dose, biperideno via oral. Na sua falta, ou em usuário com tendência a abusar ou criar
dependência psicológica do biperideno (especialmente nos que experimentaram-no pela via
endovenosa), pode-se usar propranolol.
No caso de persistência dos efeitos mesmo depois dessa alternativa, estará indicada a
substituição por outro antipsicótico com menor perfil de efeitos extrapiramidais, como
olanzapina, quetiapina ou ziprasidona.
Recomenda-se a avaliação dos sintomas extrapiramidais pelas escalas Simpson. Os
sintomas extrapiramidais motores devem descrever a ocorrência de pelo menos um dos seguintes
grupos:
Distonia;
Discinesia;
Acatisia e parkinsonismo (tremor, rigidez e bradicinesia);
Devem também ter ocorrido nos três primeiros meses de tratamento, normalmente nas
primeiras semanas.
Considera-se que o medicamento não teve o resultado esperado ou que houve falha
terapêutica do fármaco, quando o uso de qualquer desses fármacos, por pelo menos 6 semanas,
nas doses adequadas, não causou melhora de pelo menos 30% na escala da versão brasileira da
Avaliação Psiquiátrica Breve (British Psychiatric Rating Scale – BPRS). Em caso de falha
terapêutica, uma segunda tentativa, com algum outro antipsicótico deverá ser feita.
274
Decanoato de haloperidol: Cada ampola de 1 ml de solução injetável contém o equivalente a 50
mg de haloperidol. Esta apresentação é reservada para casos em que haja dificuldade de
administração de medicamento via oral. Deve-se indicar uma dose de 150 a 200 mg/mês para a
maioria dos casos, aplicada a cada 4 semanas.
Sua meia-vida é de cerca de 3 semanas, levando entre 3 a 6 meses para a estabilização da
concentração plasmática. Por tal motivo, quando a sintomatologia é intensa, pode-se iniciar em
doses superiores (até 400 mg/mês) divididas em tomadas de maior frequência (até semanalmente)
nos primeiros meses. Também se pode iniciar com doses usuais e suplementar com haloperidol
oral até a dose máxima de 15 mg/dia.
Para o tratamento dos efeitos extrapiramidais, o biperideno poderá ser utilizado na
dose de 1 a 16 mg, divididos em 1 a 4 administrações ao dia, dependendo da intensidade dos
sintomas.
O biperideno é um anticolinérgico cujos efeitos adversos são especialmente manifestos nos
usuários mais idosos, podendo causar confusão mental transitória. Em pronto-socorro é bastante
utilizado por via intramuscular e oferece rápido alivio dos sintomas extrapiramidais em todos os
usuários. Apresenta-se em comprimidos de 2 mg (cloridrato de biperideno) e em solução injetável
de 5 mg/ml (lactato de biperideno).
As contraindicações ao biperideno são:
Glaucoma de ângulo fechado;
Retenção urinária;
Hipertrofia prostática;
Miastenia grave;
Obstrução gastrintestinal, megacolon.
O biperideno não tem utilidade na discinesia tardia, problema no qual ocorre piora com o uso
de anticolinérgicos. Na falta de biperideno, o propranolol também poderá ser utilizado diante
de liberação extrapiramidal, na dose de 40 a 160mg, divididos em 2 a 3 administrações ao
dia.
São situações especiais, ao longo do tratamento:
Discinesia tardia e tentativa de suicídio: substituir o medicamento em uso por clozapina;
Má adesão ao tratamento: substituir o medicamento em uso por decanoato de haloperidol;
Comorbidades clínicas iniciadas após o uso: hipertensão arterial sistêmica (HAS),
obesidade, diabetes melitus, desenvolvimento de síndrome metabólica (se em uso de
olanzapina e quetiapina, considerar a substituição do medicamento em uso por ziprasidona.
Antes do início do tratamento com qualquer um dos medicamentos, é importante a avaliação
dos seguintes aspectos:
Idade;
Medidas antropométricas (peso, altura, circunferência abdominal e do quadril);
Três medidas de pressão arterial em datas diferentes;
Dosagens de colesterol total e frações;
275
Triglicerídios;
Glicemia de jejum.
Deve-se registrar também a história familiar ou prévia de síndrome neuroléptica maligna,
distonia e discinesia, tentativa ou risco de suicídio, obesidade, hipertensão arterial sistêmica,
diabete melitus e outras comorbidades clínicas.
Para monitorização dos efeitos adversos, aconselha-se repetir as medidas antropométricas
e de pressão arterial em 3, 6 e 12 meses.
Os exames laboratoriais (perfil lipídico e glicemia de jejum) devem ser refeitos em 3 e em 12
meses após o início do tratamento. Na sequência, a monitorização deve ser repetida anualmente.
Em caso de alteração, uma avaliação com clínico deverá ser feita e o risco-benefício discutido em
conjunto com a família e o usuário.
A dosagem do nível sérico de prolactina deverá ser solicitada quando houver relato de
sintomas compatíveis com alterações hormonais, como diminuição da libido, alterações menstruais,
impotência e galactorreia.
276
14 TRANSTORNOS DO NEURODESENVOLVIMENTO
277
Deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual) é um transtorno com início
no período do desenvolvimento que inclui déficits funcionais, tanto intelectuais quanto adaptativos,
nos domínios conceitual, social e prático. Os três critérios a seguir devem ser preenchidos:
Déficits em funções intelectuais como raciocínio, solução de problemas, planejamento,
pensamento abstrato, juízo, aprendizagem acadêmica e aprendizagem pela experiência
confirmados tanto pela avaliação clínica quanto por testes de inteligência padronizados e
individualizados.
Déficits em funções adaptativas que resultam em fracasso para atingir padrões de
desenvolvimento e socioculturais em relação a independência pessoal e responsabilidade
social. Sem apoio continuado, os déficits de adaptação limitam o funcionamento em uma ou
mais atividades diárias, como comunicação, participação social e vida independente, e em
múltiplos ambientes, como em casa, na escola, no local de trabalho e na comunidade.
Início dos déficits intelectuais e adaptativos durante o período do desenvolvimento.
Nota: O termo diagnóstico deficiência intelectual equivale ao diagnóstico da CID-11 de transtornos
do desenvolvimento intelectual. Embora o termo deficiência intelectual seja utilizado em toda esta
linha de cuidado, ambos os termos são empregados no título para esclarecer as relações com
outros sistemas de classificação. Além disso, uma Lei Federal dos Estados Unidos (Public Law 111-
256, Rosa’s Law) substitui o termo retardo mental por deficiência mental, e periódicos de pesquisa
usam deficiência intelectual. Assim, deficiência intelectual é o termo de uso comum por médicos,
educadores e outros, além de pelo público leigo e grupos de defesa dos direitos.
278
Segue instruções envolvendo dois
Tem um vocabulário de cerca de 150
conceitos verbais (os quais são
24 meses palavras.
substantivos). Ex.: “coloque o copo na
Usa combinação de duas ou três.
caixa”
Entende primeiros verbos. Entende
Usa habitualmente linguagem telegráfica
instruções envolvendo até três conceitos. 30 meses
(“bebê”, “papá pão”, “mamã vai papá”).
Ex.: “coloque a boneca grande na cadeira”
Conhece diversas cores. Reconhece
Inicia o uso de artigos, plurais, preposições
plurais, pronomes que diferenciam os 36 meses
e verbos auxiliares.
sexos, adjetivos.
279
Quadro 45 – Causas dos transtornos da linguagem
DISTÚRBIOS DESCRIÇÃO
280
Figura 13 – Transtorno de aprendizado e/ou Transtorno de conduta
281
14.1.2 Diagnóstico Diferencial
O diagnóstico de deficiência intelectual deve ser feito sempre que atendidos os critérios A,
B e C. O diagnóstico de deficiência intelectual jamais deve ser pressuposto em razão de
determinada condição genética ou médica. Uma síndrome genética associada à deficiência
intelectual deve ser registrada como um diagnóstico concorrente com a deficiência intelectual.
Transtornos neurocognitivos maiores e leves: A deficiência intelectual é definida como um
transtorno do neurodesenvolvimento e é diferente dos transtornos neurocognitivos, que se
caracterizam por perda do funcionamento cognitivo. Um transtorno neurocognitivo maior pode
ocorrer concomitantemente com deficiência intelectual (p. ex., pessoa com síndrome de Down que
desenvolve doença de Alzheimer ou pessoa com deficiência intelectual que perde um pouco mais
a capacidade cognitiva após um traumatismo encefálico). Em casos assim, podem ser feitos
diagnósticos de deficiência intelectual e transtorno neurocognitivo.
Transtornos da comunicação e transtorno específico da aprendizagem: Esses transtornos do
neurodesenvolvimento são específicos do domínio da comunicação e da aprendizagem, não
exibindo déficits no comportamento intelectual e adaptativo. Podem ser comórbidos com deficiência
intelectual. Ambos os diagnósticos são feitos se a totalidade dos critérios para deficiência intelectual
e para transtorno da comunicação ou específico da aprendizagem for preenchida.
Transtorno do espectro autista: A deficiência intelectual é comum entre pessoas com transtorno
do espectro autista. Sua investigação pode ser complicada por déficits sociocomunicacionais e
comportamentais, inerentes ao transtorno do espectro autista, que podem interferir na compreensão
e no engajamento nos procedimentos dos testes. Uma investigação adequada da função intelectual
no transtorno do espectro autista é fundamental, com reavaliação ao longo do período do
desenvolvimento, uma vez que escores do QI no transtorno do espectro autista podem ser instáveis,
particularmente na primeira infância.
Comorbidades: Levantamentos epidemiológicos indicam que até dois terços de crianças e adultos
com deficiência intelectual têm transtornos mentais comórbidos; essa taxa é bem mais alta do que
aquela referida em amostras da comunidade sem deficiência intelectual.
A prevalência de psicopatologia parece estar correlacionada à gravidade do deficiência
intelectual: quanto mais grave, mais alto o risco para outros transtornos mentais. Um estudo
epidemiológico mais recente revelou que 40,7% das crianças com comprometimento intelectual
entre 4 e 18 anos de idade satisfaziam os critérios para pelo menos um transtorno psiquiátrico.
Os transtornos mentais que ocorrem entre pessoas com essa condição parecem ser os
mesmos vistos entre aquelas sem deficiência intelectual, incluindo transtornos do humor,
esquizofrenia, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) e transtorno da conduta.
Pessoas com deficiência intelectual grave apresentam, em especial, altas taxas de transtorno do
espectro autista e de transtornos globais do desenvolvimento. Cerca de 2 a 3% das pessoas com
deficiência intelectual satisfazem os critérios para esquizofrenia; essa porcentagem é muito mais
alta do que a taxa para a população geral.
282
Transtornos neurológicos: A incidência de transtornos psiquiátricos comórbidos é maior em
indivíduos com deficiência intelectual que também apresentam condições neurológicas conhecidas,
como transtornos convulsivos. As taxas de psicopatologia aumentam com a gravidade do retardo;
o prejuízo neurológico aumenta de forma proporcional ao prejuízo intelectual.
Em uma recente revisão de transtornos psiquiátricos em crianças e adolescentes com
deficiência intelectual e epilepsia, cerca de um terço também tinha transtorno do espectro autista
ou uma condição do tipo autista. A combinação de deficiência intelectual, epilepsia ativa e autismo
(ou do espectro autista) ocorre a uma taxa de 0,07% na população geral.
Etiologia: Os fatores etiológicos no deficiência intelectual podem ser genéticos, evolutivos,
adquiridos, ou a combinação destes. As causas genéticas incluem condições cromossômicas e
hereditárias; os fatores evolutivos incluem exposição pré-natal a infecções e toxinas; e as síndromes
adquiridas incluem trauma perinatal (como prematuridade) e fatores socioculturais. A gravidade do
deficiência intelectual resultante está relacionada ao momento e à duração do trauma, bem como
ao grau de exposição a que o sistema nervoso central (SNC) foi submetido.
Quanto mais grave o deficiência intelectual, maior a probabilidade de que a causa seja
evidente. Em cerca de três quartos das pessoas com deficiência intelectual grave, a causa é
conhecida, mas só está aparente em metade daquelas com retardo leve.
Não há causa conhecida para três quartos das pessoas com funcionamento intelectual
limítrofe. No total, em até dois terços de todas as pessoas mentalmente retardadas, a causa
provável pode ser identificada. Entre transtornos cromossômicos e metabólicos, a síndrome de
Down, a síndrome do X frágil e a fenilcetonúria (PKU) são os transtornos mais comuns que
geralmente produzem deficiência intelectual pelo menos moderado. Pessoas com deficiência
intelectual leve às vezes têm um padrão familiar aparente nos pais e nos irmãos. A privação de
alimentos, carinho e estimulação social pode contribuir para o desenvolvimento dessa condição. O
conhecimento atual sugere que fatores genéticos, ambientais, biológicos e psicossociais atuam de
maneira cumulativa no deficiência intelectual.
Período pré-natal: Pré-requisitos importantes para o desenvolvimento global do feto incluem a
saúde física, psicológica e nutricional da mãe durante a gravidez. Doenças e condições crônicas
maternas que afetam o desenvolvimento normal do sistema nervoso central do feto incluem diabete
não controlado, anemia, enfisema pulmonar, hipertensão arterial e uso continuado de álcool e
substâncias psicoativas.
É sabido que infecções maternas durante a gravidez, em especial infecções virais, causam
dano e deficiência intelectual fetal. A extensão do dano depende de variáveis como o tipo de
infecção viral, a idade gestacional do feto e a gravidade da doença. Embora tenha sido relatado que
inúmeras doenças infecciosas afetam o sistema nervoso central do feto, os distúrbios médicos
relatados a seguir foram definitivamente identificados como condições de alto risco para deficiência
intelectual. Em caso de dúvida acessar o protocolo de pré-natal.
283
Complicações na gestação: Toxemia gravídica e diabete materno não controlado apresentam
riscos para o feto e podem resultar em deficiência intelectual. A desnutrição materna durante a
gestação com frequência resulta em prematuridade e outras complicações obstétricas. Hemorragia
vaginal, placenta prévia, descolamento placentário e prolapso do cordão podem causar prejuízo ao
cérebro do feto por anoxia. O efeito teratogênico potencial de agentes farmacológicos administrados
durante a gravidez foi amplamente divulgado após a tragédia da talidomida.
Período perinatal: Algumas evidências indicam que bebês prematuros e bebês com baixo peso ao
nascer apresentam alto risco de desenvolver prejuízos neurológicos e intelectuais, identificados nos
anos escolares. Bebês que sofrem hemorragias intracranianas ou apresentam evidência de
isquemia cerebral são especialmente vulneráveis a anormalidades cognitivas. O grau de prejuízo
no desenvolvimento neurológico em geral correlaciona-se à gravidade da hemorragia intracraniana.
Estudos mais recentes documentaram que, entre crianças com baixo peso ao nascer (menos de
1.000 g), 20% tinham deficiências significativas, incluindo paralisia cerebral, deficiência intelectual,
autismo e inteligência baixa, com graves problemas de aprendizagem. Foi verificado que crianças
muito prematuras e aquelas que sofreram retardo no crescimento intrauterino têm alto risco para
desenvolver tanto problemas sociais como dificuldades acadêmicas.
A privação socioeconômica também afeta a função adaptativa desses bebês vulneráveis. A
intervenção precoce pode melhorar suas capacidades cognitivas, de linguagem e perceptivas.
Transtornos da infância adquiridos: Às vezes, o curso de desenvolvimento da criança é alterado
drasticamente como resultado de uma doença ou de um trauma físico específico.
Infecção: As infecções mais graves que afetam a integridade cerebral são a encefalite e a
meningite.
Traumatismo craniano: As causas mais conhecidas de traumatismo craniano que produzem
déficits no desenvolvimento de crianças, incluindo convulsões, são os acidentes automobilísticos,
mas a maioria dos traumatismos cranianos são causados por acidentes domésticos, como quedas
de mesas, de janelas abertas e em escadas. O abuso infantil é uma causa comum de traumatismo
craniano.
Fatores ambientais e socioculturais: Retardo leve pode resultar de privação significativa de
alimento e carinho. Crianças que sofreram essas condições estão sujeitas a danos permanentes ao
seu desenvolvimento físico e emocional. Cuidados médicos deficientes e nutrição materna pobre,
no período pré-natal, contribuem para o desenvolvimento de deficiência intelectual leve.
Gestações na adolescência são fatores de risco e estão associadas a complicações
obstétricas, prematuridade e baixo peso ao nascimento.
Cuidados médicos pós-natais insatisfatórios, subnutrição, exposição a substâncias tóxicas,
como chumbo, e trauma físico são fatores de risco para deficiência intelectual leve.
Instabilidade familiar, mudanças frequentes e cuidadores múltiplos, mas inadequados,
podem privar um bebê de relacionamentos emocionais necessários, levando ao atraso no
desenvolvimento e colocando em risco o cérebro em formação.
284
Um transtorno mental incapacitante em um dos pais pode interferir no cuidado e na
estimulação adequados da criança e causar risco ao desenvolvimento. Sabe-se que filhos de pais
com transtorno do humor e esquizofrenia apresentam maior risco de desenvolver estes e outros
transtornos mentais relacionados.
Alguns estudos indicam prevalência mais alta do que o esperado de transtorno de
habilidades motoras e transtornos do desenvolvimento, mas não necessariamente deficiência
intelectual, entre os filhos de pais com transtornos mentais crônicos.
14.1.3 Tratamento
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas
O tratamento de indivíduos com Deficiência Intelectual se baseia na avaliação de suas
necessidades sociais, educacionais, psiquiátricas e ambientais. O retardo está associado a uma
variedade de transtornos psiquiátricos comórbidos que muitas vezes demandam tratamento
específico além do apoio psicossocial.
Quando estão disponíveis medidas preventivas, o tratamento ideal das condições que levam
ao deficiência intelectual inclui a prevenção primária, secundária e terciária.
A APS tem papel importante na prevenção e na detecção dos transtornos do
desenvolvimento intelectual. Os retardos mentais são vistos, pela primeira vez no SUS, como regra,
em Unidades Básicas de Saúde. À APS cabe aplicar:
Medidas pré-natais (planejamento familiar, aconselhamento genético, pré-natal, diagnóstico
pré-natal);
Medidas peri-natais (atendimento ao parto e ao recém-nato, "screening" neonatal,
diagnóstico precoce);
Medidas pós-natais (serviços de puericultura, diagnóstico precoce, estimulação sensório-
motora).
Educação para a criança: Ambientes educacionais que recebem crianças com Deficiência
Intelectual devem incluir um programa abrangente que contemple o treinamento de habilidades
adaptativas, sociais e vocacionais. Particular atenção deve ser dada à comunicação e às tentativas
de melhorar a qualidade de vida. A terapia de grupo tem sido um formato bem-sucedido, no qual
crianças afetadas podem aprender e praticar situações da vida real de forma hipotética e receber
feedback empático.
Educação da família: Uma das áreas mais importantes a serem tratadas é a educação dos
familiares de um usuário com Deficiência Intelectual sobre as formas de aumentar a competência e
a autoestima enquanto mantêm expectativas realísticas acerca do usuário.
A família muitas vezes considera difícil equilibrar a promoção da independência e o
fornecimento de um ambiente de afeto e apoio para uma criança com tal condição, a qual
provavelmente sentirá alguma rejeição e fracasso fora do contexto familiar. Os pais podem ser
beneficiados por aconselhamento ou terapia familiarn ou drupos de apoio contínuos e devem ter a
285
oportunidade de expressar seus sentimentos de culpa, desespero, angústia, negação recorrente e
raiva em relação ao transtorno e ao futuro de seu filho.
As crianças com dificuldade específicas de aprendizagem não devem ser chamadas de
deficientes. Cabe à equipe de saúde e de educação explicitar isto às famílias, sempre que se faça
necessário.
As famílias devem vê-las como crianças normais que aprendem de uma forma diferente, em
ritmo próprio. A redução de léxico, a sintaxe desestruturada, as dificuldades para processar sons
nas palavras, as dificuldades para lembrar sentenças ou histórias, ocorrem em dificuldades normais
de aprendizagem, como ocorrem em decorrência de transtornos neuropsiquiátricos.
Não é adequado inserir todas as crianças com um tipo de transtorno no mesmo grupo. É
bom que elas convivam em meio à diversidade da população infantil.
Sobre a inclusão social de crianças com deficiência intelectual:
É importante que as equipes de saúde tenham uma noção do trabalho dos técnicos de outros
pontos de atenção com seus usuários, trocando informações e se ajudando mutuamente;
O professor deve obter junto aos pais do aluno com deficiência intelectual informações
fundamentais para a elaboração e implantação de um Plano de Desenvolvimento Individual.
Estas informações, devem incluir interesses, preferências, habilidades e limitações em casa
e na vida social, porque podem ser decisivas para o sucesso das intervenções de inclusão
escolar;
Educar alunos com deficiência intelectual requer esforço consciente do professor na
comunicação, dada a limitação do vocabulário e as dificuldades de linguagem expressiva e
receptiva que podem apresentar. Um vocabulário acessível e explicações objetivas
previnem interpretações equivocadas e facilitam a compreensão geral e específica da
criança;
Educar alunos com deficiência intelectual requer paciência para enfrentar os desafios
educacionais. A repetição de explicações e correção de comportamentos inadequados é
quase sempre necessária;
A instrução passo a passo é muito importante para o aluno com deficiência intelectual,
dividindo-se cada nova tarefa em pequenos passos, ajudando-o a identificá-los e corrigindo-
se através de demonstração. A seguir, deixa-se-o tentar, por sua conta, cada passo e todos
os passos na sequência, estruture e corrija até que alcance autonomia;
O uso de relógio, calendário e quadros referenciais com rotinas, alfabeto e números, por
exemplo, podem auxiliar a organização (temporal e espacial) e memória (retenção e
evocação);
Os trabalhos em sala de aula em duplas ou grupos são muito bem-vindos, como também
atividades como ateliês, oficinas, música e teatro (dramatização);
O educador deve estimular o uso de diferentes recursos para a leitura e escrita como
computador, letras móveis, lápis adaptados, jogos, etc;
Ensinar ao aluno com deficiência intelectual como corrigir ele próprio suas atividades;
286
O professor deve dar devolutiva (feedback) imediata permitindo que o aluno interprete
rapidamente a adequação de suas respostas, perguntas ou comportamentos às informações
transmitidas;
Na transmissão do conhecimento, o professor do aluno com deficiência intelectual deve ser
o mais concreto possível, evitando abstrações;
Alunos com DI aprendem melhor quando a instrução é objetiva e concreta;
O uso de recursos audiovisuais e experiências práticas complementares, bem como a
criação de elos entre os novos conhecimentos e os previamente adquiridos, são de grande
utilidade nesse contexto;
O professor deve sempre priorizar estratégias que permitam ao aluno com deficiência
intelectual desenvolver habilidades adaptativas fundamentais para sua autonomia e vida
diária como: cuidados com a saúde, segurança e higiene pessoal, conceitos básicos de
cálculo, leitura, uso do dinheiro e habilidades sociais e profissionais;
Alunos com deficiência intelectual muitas vezes apresentam habilidades sociais limitadas, o
que pode tornar difícil sua integração e interação adequada com seus pares e se envolver
nas atividades sociais em curso na escola;
Com frequência podem ser alvos de bullying, o que de forma alguma pode ser tolerado.
287
Movimentos Motores Estereotipados: Medicamentos antipsicóticos, como haloperidol e
clorpromazina, diminuem comportamentos repetitivos de autoestimulação em usuários com
deficiência intelectual, mas não melhoram o comportamento adaptativo. Algumas crianças e adultos
com deficiência intelectual (até um terço) enfrentam alto risco de discinesia tardia com o uso
contínuo de antipsicóticos.
Sintomas obsessivo-compulsivos com frequência se sobrepõem aos comportamentos
estereotipados repetitivos vistos em crianças e adolescentes com deficiência intelectual, e naqueles
com retardo e transtorno global do desenvolvimento. Inibidores da recaptação de serotonina,
demonstraram eficácia no tratamento de sintomas obsessivo-compulsivos em crianças e
adolescentes e, portanto, podem apresentar alguma eficácia no caso de movimentos motores
estereotipados.
Comportamento Explosivo: Há relatos de que antagonistas do receptor beta-adrenérgico
(betabloqueadores), como o propranolol, resultam em menos acessos de raiva explosiva em
usuários com deficiência intelectual e transtorno do espectro autista. Antipsicóticos também podem
ser utilizados nestas situações.
14.1.4 Encaminhamento
NAIPE DI/TEA – Núcleo de Atenção Integral à Pessoa com Deficiência Intelectual e do
Transtorno do Espectro do Autismo
O processo de encaminhamento para o NAIPE DI/TEA ocorre pelo Sistema Integrado de
Gestão (SIG), SaudeTech, da Secretaria de Saúde com acesso regulado. O profissional de saúde
(Enfermeiro, Fisioterapeuta, Fonoaudiólogo, Médico, Psicólogo e Terapeuta Ocupacional) da APS,
Serviços Especializados e Maternidade Darcy Vargas, diante suspeita de público alvo elegível para
avaliação, que inclui: Deficiência Intelectual (DI); Síndrome Genéticas que cursem com DI e/ou TEA
como comorbidade; TEA e Atraso Global do Neurodesenvolvimento; preenche o encaminhamento
online, (baseando-se no Instrumento de Vigilância do Desenvolvimento da Criança,
componente da Caderneta de Saúde da Criança do Ministério da Saúde e/ou nos critérios do
Programa Conte Comigo* e/ou do Programa Bebê Precioso*), solicitando à Central de Regulação,
que agendará conforme critérios de prioridade faixa etária, estabelecidos no Protocolo de Acesso
do NAIPE DI/TEA, a consulta para escuta qualificada/especializada no Naipe. A lista de escuta
qualificada é publicizada e organizada conforme prioridade de acesso. Após passar pela escuta
especializada, o usuário é colocada na lista de Avaliação Interdisciplinar das clínicas de referência
DI ou TEA, conforme sua demanda e CID de base.
288
14.2 Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)
289
1. Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de abordagem social
anormal e dificuldade para estabelecer uma conversa normal a compartilhamento reduzido
de interesses, emoções ou afeto, a dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais.
2. Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais usados para interação social,
variando, por exemplo, de comunicação verbal e não verbal pouco integrada a anormalidade
no contato visual e linguagem corporal ou déficits na compreensão e uso de gestos, a
ausência total de expressões faciais e comunicação não verbal.
3. Déficits para desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando, por exemplo,
de dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais diversos a
dificuldade em compartilhar brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos, a ausência de
interesse por pares.
290
capacidades limitadas ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na
vida);
Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional
ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente;
Essas perturbações não são mais bem explicadas por deficiência intelectual (transtorno do
desenvolvimento intelectual) ou por atraso global do desenvolvimento. Deficiência intelectual
ou transtorno do espectro autista costumam ser comórbidos; para fazer o diagnóstico da
comorbidade de transtorno do espectro autista e deficiência intelectual, a comunicação
social deve estar abaixo do esperado para o nível geral do desenvolvimento.
Nota: Indivíduos com um diagnóstico do DSM-IV bem estabelecido de transtorno do espectro
autista, transtorno de Asperger ou transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação
devem receber o diagnóstico de transtorno do espectro autista. Indivíduos com déficits acentuados
na comunicação social, cujos sintomas, porém, não atendam, de outra forma, critérios de transtorno
do espectro autista, devem ser avaliados em relação a transtorno da comunicação social
(pragmática).
Também se deve levar em conta a Classificação Internacional de Funcionalidade,
Incapacidade e Saúde (CIF) que, na área clínica, auxilia o modelo de atendimento multidisciplinar.
Ela foca as deficiências, incapacidades e desvantagens não apenas como consequência das
condições de saúde e doença. Foca-as como fatos determinados também pelo contexto do meio
ambiente físico e social, por percepções culturais e atitudes, pela disponibilidade de serviços e pela
legislação. É um instrumento para medir o estado funcional dos indivíduos, permitindo avaliar
condições de vida e fornecer subsídios para políticas de inclusão social.
O diagnóstico de transtorno do espectro autista é uma descrição e não uma explicação. Esta
descrição é dimensional também, pois sempre é importante que o processo diagnóstico seja
realizado por uma equipe multiprofissional com experiência clínica e que não se limite à aplicação
de testes e exames. A pluralidade de hipóteses etiológicas sem consensos conclusivos e a
variedade de formas clínicas e/ou comorbidades que podem acometer a pessoa com TEA exigem
o encontro de uma diversidade de disciplinas. Portanto, é preciso avaliar a necessidade de exames
neurológicos, metabólicos e genéticos que podem complementar o processo diagnóstico.
A detecção precoce para o risco de TEA é um dever do Estado, pois, em consonância com
os princípios da Atenção Primária à Saúde, contempla a prevenção de agravos, a promoção e a
proteção à saúde, propiciando a atenção integral, o que causa impacto na qualidade de vida das
pessoas e de suas famílias. As diretrizes do SUS preconizam a essencialidade de políticas de
prevenção e intervenções para crianças em situações de risco e vulnerabilidade, o que é o caso
das crianças com alterações na interação e na comunicação, porque isso pode representar, além
de outras dificuldades para o desenvolvimento integral da criança, o risco para TEA.
291
Quadro 46 – Sinais de alerta para o TEA
Não se interessam pelo prazer que Não demonstram atenção Ausência da fala ou fala sem
podem provocar no outro. compartilhada. intenção comunicativa.
Não se interessam em
Não estranham quem não é da
chamar a atenção das
família mais próxima, como se não Pode aumentar seu isolamento.
pessoas conhecidas e nem
notassem a diferença.
em lhes provocar gracinhas.
Fonte: Assumpção Jr., 2009.
Observação: é importante que sejam situações que aconteçam de modo frequente, para que os pais
respondam o que é mais comum em relação ao comportamento da criança.
Entre parênteses, após as perguntas, vêm as respostas tipicamente obtidas dos pais e/ou
cuidadores de crianças em risco para o TEA:
Seu filho tem iniciativa de olhar para seus olhos? Tenta olhar? (Não)
Seu filho tenta chamar sua atenção? (Não)
É muito difícil captar a atenção do seu filho? (Sim)
292
Seu filho tenta provocá-lo para ter uma interação com você e lhe divertir? Ele se interessa e
tem prazer numa brincadeira com você? (Não)
Quando seu bebê se interessa por um objeto e você o guarda, ele olha para você? (Não)
Enquanto joga com um brinquedo favorito, ele olha para um brinquedo novo se você o
mostra? (Não)
Seu filho responde pelo seu nome quando você o chama sem que ele lhe veja? (Não)
O seu filho mostra um objeto olhando para seus olhos? (Não)
O seu filho se interessa por outras crianças? (Não)
O seu filho brinca de faz-de-conta, por exemplo, finge falar ao telefone ou cuida de uma
boneca? (Não)
O seu filho usa algumas vezes seu dedo indicador para apontar, para pedir alguma coisa ou
mostrar interesse por algo? (É diferente de pegar na mão, como se estivesse usando a mão).
(Não)
Seu filho, quando brinca, demonstra a função usual dos objetos? Ou, em vez disso, coloca-
os na boca ou joga-os fora? (Não)
O seu filho sempre traz objetos até você para mostrar-lhe alguma coisa? (Não)
O seu filho parece sempre hipersensível ao ruído? (Por exemplo, tampa as orelhas). (Sim)
Responde com sorriso ao seu rosto ou ao seu sorriso ou mesmo provoca seu sorriso? (Não)
O seu filho imita você? (Por exemplo, você faz uma careta e seu filho o imita?) (Não)
Seu filho olha para as coisas que você está olhando? (Não)
Alguma vez você já se perguntou se seu filho é surdo? (Sim)
Será que o seu filho entende o que as pessoas dizem? (Não)
A sua criança olha o seu rosto para verificar a sua reação quando confrontado com algo
estranho? (Não)
Algumas características, apesar de não específicas para identificação de risco para TEA,
também devem ser consideradas e investigadas, seja pela frequência com que ocorrem, seja pela
dificuldade de manejo que geram. Por exemplo:
Perda de competências previamente adquiridas;
Alterações do sono;
Ataques de raiva;
Alterações da função alimentar (seletividade, recusa, regurgitação).
As questões e queixas das famílias relativas ao desenvolvimento de seus filhos devem ser
sempre escutadas cuidadosamente e valorizadas.
O M-CHAT é uma versão estendida do CHAT, ele foi construído como instrumento de
triagem de nível 1 para ser aplicado por profissionais pediatras aos pais de crianças com 18 a 24
meses de idade.
293
Quadro 47 – Instrumento de triagem para o TEA
ITENS ESCALA
Seu filho gosta de se balançar, de pular no seu joelho, etc? Sim Não
Seu filho tem interesse por outras crianças? Sim Não
Seu filho gosta de subir em coisas, como escadas ou móveis? Sim Não
Seu filho gosta de brincar de esconder e mostrar o rosto ou de esconde-
Sim Não
esconde?
Seu filho já brincou de faz-de-conta, como, por exemplo, fazer de conta que está
falando no telefone ou que está cuidando da boneca, ou qualquer outra Sim Não
brincadeira de faz-de-conta?
Seu filho já usou o dedo indicador dele para apontar, para pedir alguma coisa? Sim Não
Seu filho já usou o dedo indicador dele para apontar, para indicar interesse em
Sim Não
algo?
Seu filho consegue brincar de forma correta com brinquedos pequenos (ex.:
carros ou blocos), sem apenas colocar na boca, remexer no briquedo ou deixar Sim Não
o brinquedo cair?
O seu filho alguma vez trouxe objetos para você (pais) para lhe mostrar este
Sim Não
objeto?
O seu filho olha para você no olho por mais de um segundo ou dois? Sim Não
O seu filho já pareceu muito sensível ao barulho (ex.: tapando os ouvidos)? Sim Não
O seu filho sorri em resposta ao seu rosto ou ao seu sorisso? Sim Não
O seu filho imita você? (ex.: você faz expressões / caretas e seu filho imita?) Sim Não
O seu filho responde quando você chama ele pelo nome? Sim Não
Se você aponta um brinquedo do outro lado do cômodo, o seu filho olha para
Sim Não
ele?
Seu filho já sabe andar? Sim Não
O seu filho olha para coisas que você está olhando? Sim Não
O seu filho faz movimentos estranhos com os dedos perto do rosto dele? Sim Não
O seu filho tenta atrair a sua atenção para a atividade dele? Sim Não
Você alguma vez já se perguntou se seu filho é surdo? Sim Não
O seu filho entende o que as pessoas dizem? Sim Não
O seu filho às vezes fica aéreo, “olhando para o nada” ou caminhando sem
Sim Não
direção definida?
O seu filho olha para o seu rosto para conferir a sua reação quando vê algo
Sim Não
estranho?
Fonte: BRASIL, 2013.
Algoritmo de pontuação:
Para todos os itens, exceto os itens 2, 5 e 12, a resposta “NÃO” indica risco de TEA; para os itens
2, 5 e 12, a resposta “SIM” indica risco de TEA. O seguinte algoritmo maximiza as propriedades
psicométricas do M-CHAT-R:
Baixo risco: Pontuação total é de 0-2; se a criança tiver menos de 24 meses, repetir o M-CHAT-
R aos 24 meses. Não é necessário qualquer outra medida, a não ser que a vigilância indique risco
de TEA.
294
Risco moderado: Pontuação total é de 3-7; administrar a Entrevista de Seguimento (segunda
etapa do M-CHAT-R/F) para obter informação adicional sobre as respostas de risco. Se a pontuação
do M-CHAT-R/F continuar a ser igual ou superior a 2, a criança pontua positivo na triagem. Medidas
necessárias: encaminhar a criança para avaliação diagnóstica e para avaliação da necessidade de
intervenção. Se a pontuação da Entrevista de Seguimento for 0-1, a criança pontua negativo.
Nenhuma outra medida é necessária, a não ser que a vigilância indique risco de TEA. A criança
deverá fazer a triagem novamente em futuras consultas de rotina.
Alto risco: Pontuação total é de 8-20; pode-se prescindir da Entrevista de Seguimento e
encaminhar a criança para avaliação diagnóstica e também para avaliação da necessidade de
intervenção.
Os especificadores de gravidade podem ser usados para descrever, de maneira sucinta, a
sintomatologia atual (que pode situar-se aquém do nível 1), com o reconhecimento de que a
gravidade pode variar de acordo com o contexto ou oscilar com o tempo. A gravidade de dificuldades
de comunicação social e de comportamentos restritos e repetitivos deve ser classificada em
separado.
295
Comunicação social: Déficits graves nas habilidades de comunicação social verbal e não
verbal causam prejuízos graves de funcionamento, grande limitação em dar início a
interações sociais e resposta mínima a aberturas sociais que partem de outros. Por exemplo,
uma pessoa com fala inteligível de poucas palavras que raramente inicia as interações e,
quando o faz, tem abordagens incomuns apenas para satisfazer a necessidades e reage
somente a abordagens sociais muito diretas.
Comportamentos restritos e repetitivos: Inflexibilidade de comportamento, extrema
dificuldade em lidar com a mudança ou outros comportamentos restritos/repetitivos
interferem acentuadamente no funcionamento em todas as esferas. Grande
sofrimento/dificuldade para mudar o foco ou as ações.
Um diagnóstico definitivo de transtorno do espectro do autismo só pode ser firmado após os
três anos de idade. Porém, os indícios e a identificação de tendência para os TEA aparecem cedo.
Há dados importantes sobre o diagnóstico na publicação sobre a linha de cuidado em autismo, do
Ministério da Saúde.
Comorbidades:
Epilepsia e outros quadros neurológicos: As crises convulsivas são mais comuns na população
com TEA do que na população geral e podem se manifestar já nos primeiros anos de vida ou
aparecer durante a adolescência. Além disso, pessoas com transtorno do espectro autistapodem
apresentar outras afecções neurológicas, desde a presença de sinais neurológicos inespecíficos
até a presença de quadros clínicos precisos, muitos deles de origem genética conhecida (tais como
síndrome do X frágil, de Angelman e Williams, neurofibromatose, esclerose tuberosa, entre outros).
Deficiência Intelectual: Hoje se considera que até três quartos das pessoas com transtorno do
espectro do autismo também têm associado algum grau de deficiência intelectual.
Depressão e ansiedade: Quadros depressivos e ansiosos representam as comorbidades mais
comuns em adolescentes e adultos com síndrome de Asperger, podendo estar presentes, em menor
frequência, nas demais pessoas com TEA.
De um modo geral, as dificuldades em lidar com as sutilezas da interação social, a sensação
de falhar repetidamente em atingir as expectativas próprias ou alheias e as experiências de
intimidação (bullying) na escola são fatores que propiciam maior vulnerabilidade dessas pessoas a
essas formas de sofrimento.
Comorbidades clínicas: Crianças pequenas com transtorno do espectro autista têm incidência
mais alta do que o esperado de infecções do trato respiratório superior e de outras infecções
menores. Sintomas gastrintestinais comumente encontrados entre crianças com transtorno do
espectro autista incluem eructação excessiva, constipação e aumento do trânsito intestinal. Há
também aumento da incidência de convulsões febris.
Algumas não apresentam elevações de temperatura com doenças infecciosas menores e
podem não manifestar o mal-estar típico de crianças doentes. Em alguns casos, os problemas de
296
comportamento e os relacionamentos parecem melhorar de forma acentuada durante uma doença
menor, o que pode ser um sinal de doença física.
297
atentos, que geram na criança uma aparente “falta de necessidade dese comunicar”. Nesses casos,
a observação longitudinal em ambiente estimulador pode favorecer o diagnóstico.
Por outro lado, as crianças com TEA não surdas facilmente mostram que escutam, sendo
atraídas ou se incomodando com uma série de barulhos, embora ignorando outros, especialmente
a interpelação direta feita a elas.
Pode ocorrer a associação entre TEA e surdez. Neste caso, é necessário estabelecer os
dois diagnósticos e considerar cuidados específicos para cada patologia.
14.2.3 Tratamento
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas
A APS ocupa o lugar de ordenadora das diferentes Redes de Atenção à Saúde, sendo uma
das portas principais de entrada no SUS. É no âmbito da APS que ocorre o acompanhamento ao
longo da vida das pessoas e, no caso da organização da atenção às pessoas com TEA, destaca-
se o acompanhamento do pré-natal e do processo de desenvolvimento infantil. Considera-se,
portanto, fundamental a importância da construção de cumplicidade na relação entre os
profissionais e as famílias, garantindo escuta qualificada às diversas necessidades de saúde e às
diferentes formas de expressão de sofrimento.
Conforme a Portaria MS/SAS nº 854, de 22 de agosto de 2012, os CAPS podem oferecer
um amplo conjunto de ações voltadas à construção de autonomia e inserção social de pessoas em
intenso sofrimento decorrente de transtornos mentais, uso de álcool e outras drogas e/ou da
ambiência. As diferentes abordagens, bem como a intensidade do cuidado ofertado pelo CAPS,
deverão ser plásticas às singularidades das demandas das pessoas com TEA e de suas famílias e
deverão incluir outros pontos de Atenção da Saúde e de outros setores que disponham de recursos
necessários à qualidade da atenção, como as Unidades Básicas de Saúde, os Centros
Especializados de Reabilitação (CER) e as instituições de ensino, os Serviços de Assistência Social,
trabalho, esporte, cultura e lazer.
Em Joinville existe o NAIPE DI/TEA que atende os usuários com TEA, ver critérios de acesso
descritos anteriormente neste documento.
O Projeto Terapêutico Singular (PTS) é o direcionamento das ofertas de cuidado construído
a partir da identificação das necessidades dos sujeitos e de suas famílias, em seus contextos reais
de vida, englobando diferentes dimensões. O PTS deve ser composto por ações dentro e fora do
serviço e deve ser conduzido, acompanhado e avaliado por profissionais ou equipes de referência
junto às famílias e às pessoas com TEA. Ele deve ser revisto sistematicamente, levando-se em
conta os projetos de vida, o processode reabilitação psicossocial (com vistas à produção de
autonomia) e a garantia dos direitos.
O tratamento da pessoa com TEA deve oferecer recursos e alternativas para que se ampliem
seus laços sociais, suas possibilidades de circulação e seus modos de estar na vida. Deve ampliar
suas formas de se expressar e se comunicar, favorecendo sua inserção em contextos diversos.
298
Como citado anteriormente, deve-se apostar no sujeito e tentar com cuidado se aproximar da
maneira como ele se expressa para seguir em direção a outras atividades.
Para alémdo investimento em situações que envolvem a necessidade de certo treinamento
(como, por exemplo, para compartilhamento de regras sociais, cuidados de higiene, alimentação,
vestuário), toda aprendizagem precisa ser realizada buscando-se a aposta num sentido específico
para aquela família e aquela pessoa, respeitando sua cultura e suas possibilidades.
299
“Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade”, passam a constar em documento
denominado “Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva”,
redimensionando o conceito e a organização da educação especial em todo o território nacional.
300
extrema. Algumas estereotipias motoras ou comportamentos repetitivos também podem ser
atenuados com o uso de medicação psiquiátrica. Alguns usuários utilizam fármacos por longo prazo.
Nestes, os efeitos adversos devem ser analisados cuidadosamente durante a escolha do
medicamento e na sequência das tomadas.
Os neurolépticos têm efeitos importantes para abrandar sintomas psicóticos. Entre eles, a
levomepromazina (para problemas graves de insônia e comportamento agitado noturno), a
clorpromazina, o haloperidol e a risperidona. Em especial o haloperidol e a risperidona têm
evidenciado resultados positivos, incluindoredução de agressividade, da irritabilidade e do
isolamento. Seus efeitos colaterais mais comuns são a sonolência, tontura, a salivação excessiva
e o ganho de peso.
301
F90.9 Transtorno hipercinético não especificado
Reação hipercinética da infância ou da adolescência sem outra especificação;
Síndrome hipercinética sem outra especificação.
F98.8 Outros transtornos comportamentais e emocionais especificados com início
habitualmente na infância ou adolescência
Déficit de atenção sem hiperatividade.
Os principais sinais de hiperatividade e impulsividade baseiam-se na história pré-natal
detalhada dos padrões de desenvolvimento precoce de uma criança e na observação direta da
mesma, em especial em situações que requerem atenção. A hiperatividade pode ser mais grave
em algumas situações (p. ex., escola) e menos acentuada em outras (p. ex., entrevistas individuais),
e ser menos óbvia em atividades prazerosas estruturadas (esportes).
O diagnóstico de TDAH requer sintomas persistentes e prejudiciais de hiperatividade/
impulsividade ou desatenção que causem prejuízo em pelo menos duas situações diferentes. Por
exemplo, muitas crianças afetadas têm dificuldades na escola e em casa.
O diagnóstico é clínico, feito pela anamnese e pelo exame das funções psíquicas. Não há
exames laboratoriais, de imagens cerebrais ou testes psicológicos que possam definir se uma
pessoa se enquadra ou não nos critérios da CID-10 ou do DSM-5 para os transtornos hipercinéticos
e de atenção. O ideal, neste tipo de quadro, é trabalhar com as duas classificações,
simultaneamente.
De modo simplificado, o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade do DSM-5 é
composto por três características básicas: a dificuldade de atenção, a hiperatividade e a
impulsividade. O transtorno inclui, pois, três subtipos:
Um subtipo combinado em que todos os três sinais indispensáveis ao diagnóstico estão
presentes (hiperatividade, desatenção e impulsividade);
Um subtipo com predominância de desatenção, com pouca hiperatividade ou impulsividade;
Um subtipo predominantemente hiperativo-impulsivo no qual a hiperatividade e a
impulsividade existem, mas não a desatenção.
Ao contato com uma criança ou um adolescente suspeito de ter sintomas do transtorno, a
primeira questão a ser examinada pelo especialista é a da frequência dos sintomas.
Outra questão é a da duração dos sintomas de desatenção ou de hiperatividade e de
impulsividade. Normalmente, as crianças com TDAH apresentam uma história de vida desde a
idade pré-escolar com a presença de sintomas ou, pelo menos, um período de vários meses de
sintomatologia.
A presença de sintomas de desatenção com hiperatividade e impulsividade por curtos
períodos (dois a três meses), iniciados claramente após um desencadeante psicossocial (por
exemplo, a separação dos pais) deve alertar o clínico para a possibilidade de que a
desatenção, a hiperatividade ou a impulsividade sejam sintomas de outro quadro, e não de
TDAH.
302
É importante que a persistência dos sintomas, em vários locais e ao longo do tempo, seja
avaliada. Os sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade precisam ocorrer em vários
ambientes da vida da criança (por exemplo, escola e casa):
Na CID-10 convenciona-se que sejam necessários seis sintomas de desatenção, três de
hiperatividade e um de impulsividade.
No DSM-5 foi definido um número mínimo de sintomas como necessários para o diagnóstico:
seis sintomas de desatenção com duração mínima de 6 meses e 6 sintomas de hiperatividade ou
de impulsividade com duração mínima de 6 meses. Os sintomas são os seguintes:
A. Desatenção:
Dificuldade de prestar atenção a detalhes ou errar por descuido em atividades escolares e
de trabalho;
Dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
Parecer não escutar quando lhe dirigem a palavra;
Não seguir instruções;
Não terminar tarefas escolares, domésticas ou deveres profissionais;
Dificuldade em organizar tarefas e atividades;
Evitar, ou relutar, em envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante;
Perder coisas necessárias para tarefas ou atividades;
Distraído por estímulos alheios à tarefa e apresentar esquecimentos em atividades diárias.
B. Hiperatividade:
Agitar as mãos ou os pés ou se remexer na cadeira;
Abandonar sua cadeira em sala de aula ou outras situações nas quais se espera que
permaneça sentado;
Correr ou escalar em demasia, em situações nas quais isto é inapropriado;
Dificuldade em brincar ou envolver-se silenciosamente em atividades de lazer;
Estar freqüentemente “a mil” ou muitas vezes agir como se estivesse “a todo o vapor”;
Falar em demasia.
C. Impulsividade:
Frequentemente dar respostas precipitadas antes das perguntas terem sido concluídas;
Com frequência ter dificuldade em esperar a sua vez;
Freqüentemente interromper ou se meter em assuntos de outros.
A estes sintomas somam-se outros critérios, que devem também estar presentes:
Alguns sintomas de hiperatividade e impulsividade ou desatenção que causam prejuízo
devem estar presentes antes dos 12 anos de idade.
Algum prejuízo causado pelos sintomas está presente em dois ou mais contextos (escola,
trabalho e em casa, por exemplo).
Deve haver claras evidências de prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social,
acadêmico ou ocupacional.
303
Os sintomas não ocorrem exclusivamente durante o curso de um transtorno invasivo do
desenvolvimento, esquizofrenia ou outro transtorno psicótico e não são melhores explicados
por outro transtorno mental.
O construto do transtorno não é categorial: não há sinais ou sintomas próprios ou
específicos do quadro, que não existam na população normal. O construto é dimensional: os sinais
e sintomas, em dimensões pequenas, podem existir em qualquer pessoa, em toda a população. Só
constituem transtorno quando em dimensões grandes, mostrando-se exageradas em relação
ao normal estatístico, e com graves prejuízos:
Leve: Poucos sintomas, se algum, estão presentes além daqueles necessários para fazer o
diagnóstico, e os sintomas resultam em não mais do que pequenos prejuízos no funcionamento
social ou profissional.
Moderada: Sintomas ou prejuízo funcional entre “leve” e “grave” estão presentes.
Grave: Muitos sintomas além daqueles necessários para fazer o diagnóstico estão presentes, ou
vários sintomas particularmente graves estão presentes, ou os sintomas podem resultar em prejuízo
acentuado no funcionamento social ou profissional.
Questionários e escalas a serem preenchidas pelos pais ou pelos professores são
polêmicos e duvidosos. Não há evidências científicas de que este tipo de questionário possa,
efetivamente, auxiliar na montagem de um diagnóstico. Os profissionais de saúde devem, pois,
desencorajar que as escolas se utilizem de tais questionários ou de outros métodos de screening
para buscarem definir crianças desatentas ou hiperativas.
Contuto, a escala de problemas de atenção da lista de comportamentos infantis CBCL (Child
Behavior Checklist), pode ser uma informação adjuvante ao médico que fará o diagnóstico clínico,
especialmente para os transtornos do tipo combinado, mas são contingentes e não devem ser
interpretadas como métodos para garantir ou validar diagnósticos, pois dão falsos positivos muito
frequentes em ambientes culturais sul brasileiros.
Os questionários experimentais denominados SNAP-IV e Adult Self-Report Scale não
estão validados para uso no Brasil e são de uso altamente polêmico. Não devem, portanto,
ser utilizados, exceto em ambientes acadêmicos de investigação, seguindo-se as regras de
pesquisa em seres humanos voluntários. Sofrem críticas severas ao serem empregados no
cotidiano da clínica.
Etiologia
Temperamentais: O TDAH está associado a níveis menores de inibição comportamental, de
controle à base de esforço ou de contenção, a afetividade negativa e/ou maior busca por novidades.
Esses traços predispõem algumas crianças ao TDAH, embora não sejam específicos do transtorno.
Ambientais: Muito baixo peso ao nascer (menos de 1.500 gramas) confere um risco 2 a 3 vezes
maior para TDAH, embora a maioria das crianças com baixo peso ao nascer não desenvolva
transtorno. Embora o TDAH esteja correlacionado com tabagismo na gestação, parte dessa
associação reflete um risco genético comum. Uma minoria de casos pode estar relacionada a
304
reações a aspectos da dieta. Pode haver história de abuso infantil, negligência, múltiplos lares
adotivos, exposição a neurotoxina (p. ex., chumbo), infecções (p. ex., encefalite) ou exposição ao
álcool no útero. Exposição a toxinas ambientais foi correlacionada com TDAH subsequente, embora
não se saiba se tais associações são causais.
Genéticos e Fisiológicos: O TDAH é frequente em parentes biológicos de primeiro grau com o
transtorno. A herdabilidade do TDAH é substancial. Enquanto genes específicos foram
correlacionados com o transtorno, eles não constituem fatores causais necessários ou suficientes.
Deficiências visuais e auditivas, anormalidades metabólicas, transtornos do sono,
deficiências nutricionais e epilepsia devem ser considerados influências possíveis sobre sintomas
de TDAH.
O TDAH não está associado a características físicas específicas, ainda que taxas de
anomalias físicas menores (p. ex., hipertelorismo, palato bastante arqueado, baixa implantação de
orelhas) possam ser relativamente aumentadas. Atrasos motores sutis e outros sinais neurológicos
leves podem ocorrer. (Notar que falta de jeito e atrasos motores comórbidos devem ser codificados
em separado [p. ex., transtorno do desenvolvimento da coordenação]).
Modificadores do Curso: Padrões de interação familiar no começo da infância provavelmente não
causam TDAH, embora possam influenciar seu curso ou contribuir para o desenvolvimento
secundário de problemas de conduta.
305
e não caracterizadas por movimentos estereotipados repetitivos. No transtorno de Tourette, tiques
múltiplos e frequentes podem ser confundidos com a inquietude generalizada do TDAH. Pode haver
necessidade de observação prolongada para que seja feita a distinção entre inquietude e ataques
de múltiplos tiques.
14.3.3 Tratamento
[Link] Intervenções e Estratégias não Medicamentosas
A diretriz da Academia Americana de Pediatria prega que o tratamento do TDAH vai
depender da idade do usuário:
Para pré-escolares (4-5 anos) o tratamento de primeira escolha deve ter como base as
terapias de comportamento administradas por pais ou professores (ou ambos);
Para crianças de 6 a 11 anos, deve-se prescrever fármacos aprovados para o tratamento do
TDAH ou terapias de comportamento administradas por pais ou professores, ou,
preferencialmente, por ambos;
Para adolescentes (12-18 anos) deve-se prescrever fármacos aprovados para o tratamento
do TDAH e pode-se recomendar terapias de comportamento administradas por pais ou
professores, preferentemente por ambos.
Além dos limites do serviço de saúde, englobando intervenções psicoterápicas e
farmacológicas, a abordagem precisa ser múltipla e intersetorial, com a participação de agentes
sociais como pais, outros familiares, educadores, profissionais de saúde, além da própria criança.
O serviço de saúde pode orientar os profissionais da educação, no sentido de melhorar sua
visão de que o problema é apenas um transtorno na saúde mental do aluno, levando as escolas a
assumir diferenças individuais e melhorar suas habilidades no manejo de pessoas com
necessidades escolares especiais.
O treinamento parental vem sendo bastante aplicado, aparentemente com melhoras no
comportamento da criança e na ansiedade dos pais.
Uma psicoterapia oou grupos terapêuticos, envolvendo os pais e os professores, engloba o
treinamento com um profissional habilitado, objetivando a discussão familiar sobre o transtorno, os
problemas de comportamento das crianças e as dificuldades nas relações familiares.
Alguns programas intersetoriais poderão ser montados para ajudar os pais a lidar melhor
com essa condição. Tais programas visariam treinar a criança para o desenvolvimento de
habilidades sociais, por meio de técnicas sobre como ajustar seu comportamento em circunstâncias
variadas, de interação em ambientes sociais. Há evidências de que este treino das crianças, por si,
se não for integrado a um contexto mais amplo, tem pouca utilidade.
Abordagem psicossocial: Algumas abordagens comprovadamente eficazes para o manejo do
TDAH, além da farmacoterapia, incluem:
Treinamento de pais em manejo de contingências (trabalhando o reforçamento
comportamental);
Aplicação do manejo de contingências em sala de aula;
306
A combinação de ambas as estratégias.
Nenhum destes tratamentos promove a cura do TDAH, mas causam uma redução
temporária dos sintomas e das dificuldades associadas ao problema.
Síntese do Programa para Treino de pais em relação ao manejo do comportamento da
criança ou adolescente com TDAH.
Passos do programa:
Fornecer informações sobre o TDAH: características, evolução, prognóstico e etiologia do
TDAH, associadas a material de leitura e vídeos. Auxilia a modificar crenças incorretas sobre
o problema;
Discutir causas do comportamento opositivo: fatores que contribuem para a presença de
comportamentos opositivos em crianças com TDAH, incluindo:
Características da criança: saúde, idade, temperamento e dificuldades;
Características dos pais: saúde, idade, temperamento e dificuldades;
Conseqüências do comportamento opositivo e coercitivo;
Estressores familiares.
Desenvolver um repertório reforçador e de atenção nos pais: orientar em relação ao papel
do reforço sobre o comportamento da criança; treinar os pais para reforçar comportamentos
adequados e ignorar os inadequados; enfatizar a necessidade de aumentar
substancialmente a frequência de reforços e de atenção aos comportamentos socialmente
adequados e de adesão da criança;
Orientar os pais a prestarem atenção nas brincadeiras e comportamentos adequados,
fornecer comandos diretos e aumentar a freqüência de reforço para comportamentos
adequados; treinar na utilização de comandos diretos: Ex: substituir questões como “Por que
você não guarda seus brinquedos?” por comandos diretos como “Guarde seus brinquedos
na caixa”; Treinar para o fornecimento de atenção positiva freqüente e sistemática quando
a criança engajar-se em atividades adequadas enquanto os pais realizam outras atividades;
Estabelecer um sistema de fichas: Crianças com TDAH requerem consequências mais
frequentes e imediatas para manter comportamentos adequados, que podem ser fornecidas
por meio de um sistema de fichas;
Treinar na utilização de time-out para desobediência: treinar na utilização de custo de
resposta (time-out do reforço) frente a comportamentos de desobediência, a ser utilizado
logo após o início de dois tipos de comportamentos inadequados por parte da criança,
escolhidos anteriormente em acordo entre pais e criança;
Treinar os pais para utilizar time-out ampliado para comportamentos adicionais de
desobediência;
Treinar os pais para manejar problemas de comportamentos exibidos em locais públicos;
Auxiliar os pais a melhorar o comportamento do filho na escola: relatório escolar diário;
Ensinar os pais a manejar problemas comportamentais futuros.
307
Sugere-se alguns temas a serem trabalhados em conjunto com a família e os professores:
Orientação da família que concorda em procurar ajuda;
Manter encontros frequentes de profissional de saúde mental com a família;
Manter contato com outros especialistas da escola ou que estejam em contato com o aluno;
Ter uma dose extra de paciência;
Incentivar os professores a elogiar seu aluno quando conseguir se comportar ou realizar
algo;
Deixar que o aluno se sente próximo ao professor e a colegas afetivos e positivos;
Evitar que janelas, portas ou coisas possam distraí-los;
Deixar regras claras, explícitas e visíveis;
Estabelecer contato com a criança pelo olhar;
Falar baixo e de forma clara, de forma gentil e afetuosa;
Dar orientações curtas e claras;
Dividir as tarefas complexas em várias partes, com orientações simples;
Esperar pela resposta do aluno, cada um tem seu tempo;
Repetir ordens sempre que for necessário;
Ensinar o aluno a usar a agenda;
Estabeleça metas individuais;
Alternar métodos de ensino, evitando aulas repetitivas e monótonas;
Deixar o aluno ser ajudante do professor;
Deixar o aluno sair por alguns instantes da sala, se estiver muito agitado;
Possibilitar o uso de equipamentos eletrônicos, multimídia.
Sugestões práticas que viabilizam facilitar o manejo comportamental da criança ou
adolescente em sala de aula.
308
[Link] Tratamento Medicamentoso
Em caso do médico assistente considerar o uso de medicamento para uma criança
hiperativa, deverá fazer não só um completo exame das funções psíquicas, como também um
exame geral. O eletrocardiograma é interessante, logo ao início do tratamento. O médico deve
incluir a avaliação de outras afecções que podem coexistir com o TDAH.
Os medicamentos de primeira escolha são os estimulantes do sistema nervoso central.
Paradoxalmente eles estimulam áreas depressoras.
309
parentes com tiques e história familiar ou diagnóstico de síndrome de Gilles de la Tourette. Também
é contraindicado nos casos de hipersensibilidade ao metilfenidato.
Em alguns casos mais chamativos, a indicação de medicamento pode encontrar resistência
por parte dos pais. Uma discussão clara em relação aos benefícios da medicação e a proposta de
uma experiência, por um período curto de tempo, como um ou dois meses, com interrupção caso
os efeitos não forem satisfatórios, pode auxiliar a reduzir a relutância dos pais.
Interações farmacológicas:
As principais interações são:
Anestésicos gerais: Risco aumentado de hipertensão quando metilfenidato é dado com
anestésicos gerais líquidos voláteis;
Antidepressivos: Metilfenidato possivelmente inibe o metabolismo de inibidores seletivos
de recaptação de serotonina e de tricíclicos; risco de crise hipertensiva quando metilfenidato
é empregado junto de inibidores da monoaminoxidase (MAO);
Anticoagulantes: Metilfenidato possivelmente reforça o efeito anticoagulante de
cumarínicos;
Antiepilépticos: Metilfenidato aumenta a concentração plasmática de fenitoína;
metilfenidato possivelmente aumenta a concentração plasmática de primidona;
Antipsicópticos: Metilfenidato possivelmente aumenta os eventos adversos da risperidona;
Barbitúricos: metilfenidato possivelmente aumenta a concentração plasmática de
fenobarbital;
Clonidina: Sérios eventos adversos foram notificados com o uso concomitante de
metilfenidato e clonidina (causalidade não estabelecida);
Álcool: Efeitos de metilfenidato possivelmente são reforçados pelo álcool.
Contraindicações: Depressão grave, ideação suicida; anorexia nervosa; dependência por álcool
ou drogas; psicose, transtorno bipolar sem controle; hipertireoidismo; doença cardiovascular
(incluindo insuficiência cardíaca, cardiomiopatia, hipertensão grave e arritmias), anormalidades
cardíacas de estrutura; feocromocitoma.
Durante o tratamento observar as seguintes recomendações:
Avaliação com Equipe de Saúde Mental na Atenção primária;
Avaliação de comorbidades e quadros clínicos: a coleta detalhada da história e o exame do
estado mental podem ajudar a identificar transtornos comórbidos, inclusive o abuso de
substâncias;
Avaliação periódica para determinar se é indicada redução progressiva do fármaco. Pode-
se iniciar tentativa de descontinuação farmacológica caso o usuário se mantenha sem
sintomas durante pelo menos 1 ano. As tentativas devem ocorrer em período de férias para
evitar complicações nas atividades escolares.
311
15.1 Anorexia Nervosa
A anorexia nervosa (AN) é um transtorno alimentar (TA) que se caracteriza por perda de
peso autoinfligida, acompanhada por distorção da imagem corporal e alterações hormonais
secundárias à desnutrição (amenorreia ou ciclos menstruais irregulares, hipogonadismo
hipotalâmico, retardo no desenvolvimento da puberdade e redução do interesse sexual).
O termo anorexia não é o mais adequado para definir essa síndrome, já que não
necessariamente cursa com perda do apetite. O termo alemão Magersucht (busca por magreza) é,
do ponto de vista psicopatológico, mais adequado para caracterizar a AN, uma vez que a busca
obsessiva pelo controle do peso é o sintoma cardinal da doença.
O curso da AN é potencialmente crônico, com graves manifestações psíquicas e clínicas.
Por conseguinte, a AN responde pela maior taxa de morbidade e mortalidade entre todos os
transtornos psiquiátricos.
Mulheres entre 15 e 25 anos são o grupo mais atingido pela AN. Apenas 4 a 6% dos usuários
pertencem ao sexo masculino.
A anorexia nervosa tem três características essenciais: restrição persistente da ingesta
calórica, medo intenso de ganhar peso ou de engordar ou comportamento persistente que interfere
no ganho de peso e perturbação na percepção do próprio peso ou da própria forma.
312
F50.02 Tipo compulsão alimentar purgativa: Nos últimos três meses, o indivíduo se envolveu em
episódios recorrentes de compulsão alimentar purgativa (i.e., vômitos autoinduzidos ou uso indevido
de laxantes, diuréticos ou enemas).
F50.1 Anorexia nervosa atípica: Transtornos que apresentam algumas das características da
anorexia nervosa mas cujo quadro clínico global não justifica tal diagnóstico. Por exemplo, um dos
sintomas-chave, tal como um temor acentuado de ser gordo ou a amenorréia, pode estar ausente
na presença de uma acentuada perda de peso e de um comportamento para emagrecer. Este
diagnóstico não deve ser feito na presença de transtornos físicos conhecidos associados à perda
de peso.
Conforme o DSM-5:
Restrição da ingesta calórica em relação às necessidades, levando a um peso corporal
significativamente baixo no contexto de idade, gênero, trajetória do desenvolvimento e
saúde física.
Peso significativamente baixo é definido como um peso inferior ao peso mínimo normal ou,
no caso de crianças e adolescentes, menor do que o minimamente esperado.
Medo intenso de ganhar peso ou de engordar, ou comportamento persistente que interfere
no ganho de peso, mesmo estando com peso significativamente baixo.
Perturbação no modo como o próprio peso ou a forma corporal são vivenciados, influência
indevida do peso ou da forma corporal na autoavaliação ou ausência persistente de
reconhecimento da gravidade do baixo peso corporal atual.
Especificar se:
Em remissão parcial: Depois de terem sido preenchidos previamente todos os critérios para
anorexia nervosa, o Critério A (baixo peso corporal) não foi mais satisfeito por um período
sustentado, porém ou o Critério B (medo intenso de ganhar peso ou de engordar ou comportamento
que interfere no ganho de peso), ou o Critério C (perturbações na autopercepção do peso e da
forma) ainda está presente.
Em remissão completa: Depois de terem sido satisfeitos previamente todos os critérios para
anorexia nervosa, nenhum dos critérios foi mais satisfeito por um período sustentado.
Especificar a gravidade atual: O nível mínimo de gravidade baseia-se, em adultos, no índice de
massa corporal (IMC) atual (ver a seguir) ou, para crianças e adolescentes, no percentil do IMC.
Os intervalos abaixo são derivados das categorias da Organização Mundial da Saúde para
baixo peso em adultos; para crianças e adolescentes, os percentis do IMC correspondentes devem
ser usados. O nível de gravidade pode ser aumentado de maneira a refletir sintomas clínicos, o grau
de incapacidade funcional e a necessidade de supervisão.
Leve: IMC ≥ 17 kg/m2
Moderada: IMC 16-16,99 kg/m2
Grave: IMC 15-15,99 kg/m2
Extrema: IMC < 15 kg/m2
313
A anorexia nervosa começa geralmente durante a adolescência (entre os 11-16 anos) ou na
idade adulta jovem. Raramente se inicia antes da puberdade ou depois dos 40 anos, porém casos
de início precoce e tardio já foram descritos. O início desse transtorno costuma estar associado a
um evento de vida estressante, como deixar a casa dos pais para ingressar na universidade.
A prevalência de 12 meses de anorexia nervosa entre jovens sexo feminino é de
aproximadamente 0,4%. Pouco se sabe a respeito da prevalência entre indivíduos do sexo
masculino, mas o transtorno é bem menos comum no sexo masculino do que no feminino, com
populações clínicas em geral refletindo uma proporção feminino-masculino de aproximadamente
10:1.
O quadro inicia-se quase sempre após uma dieta. Inicialmente, são evitados alimentos ricos
em carboidratos e aqueles considerados "engordativos". Com o agravamento do TA, o usuário
passa a restringir progressivamente sua alimentação, chegando a abolir a ingesta de grupos
alimentares e a minimizar o número de refeições.
Em geral, o quadro clínico é crônico e associado a sérias complicações clínicas decorrentes
da desnutrição e dos métodos compensatórios inadequados (indução de vômitos, uso de laxantes
e diuréticos, fórmulas para emagrecer, realização de exercício físico excessivo, uso inadequado de
insulina e hormônios da tireoide, amamentação com a intenção de perder peso, sangrias
autoinfligidas, etc.).
Apesar de ocorrida a perda de peso, o usuário mostra-se constantemente insatisfeito com
resultado obtido, referindo manter-se gordo ou que algumas partes de seu corpo ainda precisam
ser reduzidas. A distorção de imagem corporal é um dos mais inquietantes fenômenos da
psicopatologia.
Há diversas alterações clínicas no decorrer da doença, porém, com a recuperação completa
e a manutenção da melhora nutricional, os parâmetros geralmente se normalizam.
314
Diminuição da acuidade visual.
Endócrinas
Síndrome do eutiroidiano doente;
Pseudocushing;
Amenorréia, oligomenorréia;
Diminuição da libido;
Infertilidade;
Atraso ou retardo do desenvolvimento puberal;
Osteopenia ou osteoporose.
Gastrointestinais
Esofagite, hematêmese (Síndrome de Mallory-Weiss);
Retardo do esvaziamento gástrico, redução da motilidade intestinal;
Constipação;
Prolapso retal;
Dilatação gástrica;
Alteração da função hepática;
Hiperamilasemia;
Hipertrofia das glândulas parótidas e submandibulares.
Renais
Cálculo renal;
Azotemia pré-renal;
Insuficiência renal.
Bucomaxilares e fâneros
Cáries dentárias;
Queilose;
Ressecamento cutâneo, pele fria e pálida;
Hipercarotenemia;
Calosidade nos dedos ou no dorso das mãos (Sinal de Russel);
Acrocianose.
Pulmonares
Taquipnéia, bradipnéia;
Edema pulmonar;
Pneumomediastino.
Hematológicas
Anemia, leucopenia, trombocitopenia, neutropenia.
Sinais e Sintomas Físicos: Muitos dos sinais e sintomas físicos da anorexia nervosa são
atribuíveis à inanição. A presença de amenorréia é comum e parece ser um indicador de disfunção
315
fisiológica. Se presente, a amenorréia costuma ser consequência da perda de peso, porém, em uma
minoria dos indivíduos, ela pode, na verdade, preceder a perda de peso.
Em meninas pré-púberes, a menarca pode ser retardada. Além de amenorréia, pode haver
queixas de constipação, dor abdominal, intolerância ao frio, letargia e energia excessiva.
O achado mais marcante no exame físico é a emaciação. É comum haver também
hipotensão significativa, hipotermia e bradicardia. Alguns indivíduos desenvolvem lanugo, um pelo
corporal muito fino e macio. Alguns desenvolvem edema periférico, especialmente durante a
recuperação de peso ou na suspensão do uso indevido de laxantes e diuréticos.
Raramente, petéquias ou equimoses, normalmente nas extremidades, podem indicar
diátese hemorrágica. Alguns indivíduos evidenciam tonalidade amarelada na pele, associada à
hipercarotenemia.
Assim como é visto em indivíduos com bulimia nervosa, aqueles com anorexia nervosa que
autoinduzem vômitos podem apresentar hipertrofia das glândulassalivares, sobretudo das glândulas
parótidas, bem como erosão do esmalte dentário. Algumas pessoas podem apresentar cicatrizes
ou calos na superfície dorsal da mão pelo contato repetido com os dentes ao induzir vômitos.
316
[Link]-5 - DOSAGEM DE GAMA-GLUTAMIL-TRANSFERASE (GAMA GT)
Arritmias e outras alterações cardiológicas: [Link]-6 – ELETROCARDIOGRAMA
Osteopenia e osteoporose: [Link]-8
Exames de neuroimagem (RM ou TC): quando houver suspeita de quadro neurológico
associado.
317
autoinduzidos) e preocupam-se excessivamente com a forma e o peso corporais. Entretanto,
diferentementede indivíduos com anorexia nervosa do tipo compulsão alimentar purgativa, aqueles
combulimia nervosa mantêm um peso corporal igual ou acima da faixa mínima normal.
Comorbidade: Transtornos bipolares, depressivos e de ansiedade em geral ocorrem
concomitantemente com anorexia nervosa. Muitos indivíduos com anorexia nervosa relatam a
presença de um transtorno de ansiedade ou de sintomas previamente ao aparecimento de seu
transtorno alimentar.
O TOC é descrito em alguns indivíduos com anorexia nervosa, especialmente naqueles com
o tipo restritivo.
O transtorno por uso de álcool e outras substâncias pode também ser comórbido à anorexia
nervosa, sobretudo entre aqueles com o tipo compulsão alimentar purgativa.
O risco de suicídio é elevado na anorexia nervosa, com taxas de 12 por 100.000 por ano.
A avaliação abrangente de indivíduos com anorexia nervosa deve incluir a determinação de ideação
e comportamentos suicidas, bem como de outros fatores de risco para suicídio, incluindo história
de tentativa(s) de suicídio.
Infância e Adolecência: Em crianças e adolescentes, os TAs têm sido associados com baixa
autoestima, solidão e ineficácia social, e esses sentimentos podem estar relacionados à disfunção
familiar quando as necessidades emocionais da criança não estão sendo distinguidas em razão de
problemas familiares (CASPER, 1995; IRWIN et al., 1997 apud NUNES et al., 2006).
As características clínicas da anorexia nervosa de início na adolescência são semelhantes
às identificadas nos usuários adultos; entretanto há algumas peculiaridades. Os adolescentes (pré-
púberes) tendem a atingir graus de edema mais elevados, devido à diferença na distribuição de
tecido adiposo, quando comparados a indivíduos mais velhos com grau semelhante de desnutrição.
Os adolescentes jovens parecem deteriorar mais rapidamente em relação à perda de peso;
portanto, tendem a atingir os estágios mais graves da anorexia nervosa mais precocemente: por
exemplo, sintomas depressivos, que nos usuários adultos tendem a manifestar-se mais
tardiamente, podem ser observados já no início do quadro nas adolescentes jovens.
Também os episódios de comer compulsivo e o abuso de laxantes manifestam-se
diferentemente nas adolescentes jovens, aparecendo com menor freqüência do que nos usuários
adultos.
318
conhecer que durante agestaçãomuitas mulheres tentam controlar seu ganho de peso por meio de
métodos inadequados, como abuso de cigarros e vômitos autoinduzidos.
É de suma importância diagnosticar um TA durante a gestação, pois essas doenças estão
associadas a mudanças metabólicas, endócrinas, psicológicas e nutricionais que geram efeitos
negativos tanto para a mulher quanto para o feto, incluindo alta prevalência de abortos, baixo peso
ao nascer, complicações obstétricas e depressão pós-parto.
A prevalência de TA na gravidez é desconhecida, mas sugere-se que é menos comum do
que na população em geral. Segundo Erick (2002), espera-se encontrar aproximadamente 1/100
gestantes com TA. Tanto a BN como a AN são ainda mal diagnosticadas durante a gestação, talvez
porque exista uma relutância da usuária em abrir os detalhes de seu comportamento quando não é
questionada especificamente sobre hábitos alimentares e atitudes para com o ganho de peso.
Não existem indicadores laboratoriais confiáveis para o diagnóstico de um TA. A detecção
depende exclusivamente de uma investigação detalhada pelos profissionais. Os sinais de um
possível TA na gestação incluem ausência de ganho de peso em duas visitas consecutivas no
segundo trimestre da gestação, hiperêmese gravídica e uma história pregressa de transtorno
alimentar.
Fahy e O ́Donoghue (1991), apontam que existe uma necessidade de se distinguir a BN e
AN dos transtornos menores da gestação e da hiperêmese gravídica.
Puffer e Serrano (1988), relataram que os dois fatores mais importantes relacionados ao
baixo peso ao nascer são o peso pré-gestacional e o ganho de peso materno; ambos podem estar
alterados nas gestantes com TA.
Ainda, o adequado crescimento fetal requer uma gestante em bom estado nutricional e
nutrientes vitais devem estar disponíveis, condição incompatível com os quadros de TA.
O IMC baixo e um inadequado aporte de nutrientes materno são preditores para uma
gravidez de risco, com aumento da incidência de nascimentos pré-termo e crescimento fetal restrito,
como também risco de morbimortalidade materna.
Existem evidências de uma relação entre certas doenças psiquiátricas nas mães e distúrbios
em seus filhos. A alimentação de crianças de mães com TA é descrita como sendo também afetada.
A intensa preocupação com o alimento e a forma corporal da anoréxica podem prejudicar a
forma como alimenta e cuida do seu filho; nas bulímicas, restrição alimentar ou superalimentação
das crianças também podem ocorrer.
Idosos: A população idosa é particularmente propensa a problemas nutricionais que abrangem uma
complexa rede de fatores, tais como os econômicos, isolamento social, doenças crônicas, as
incapacidades e as alterações fisiológicas e corporais decorrentes da idade (CAMPOS;
MONTEIRO; ORNELAS, 2000).
Nos fatores psicológicos, como perda do cônjuge, morar sozinho ou em Instituição de Longa
Permanência para Idoso (ILPI), sensação de abandono, perda de autonomia e autocuidado, perda
do papel social decorrente da aposentadoria e quadros de depressão são responsáveis pelo
isolamento social e pelo desinteresse das atividades diárias (MARUCCI; ALVES; GOMES, 2007).
319
Os transtornos alimentares no idoso sempre devem descartar uma causa orgânica
(infecções, alterações metabólicas, oncológicas, demências, etc) ou psiquiátricas (depressão,
ansiedade, etc), portanto é necessária uma avaliação clínica completa (física, AVDs, exames, etc)
e o tratamento da causa de base.
15.1.3 Tratamento
[Link] Estratégias não Medicamentosas
A abordagem na AN deve compreender o tratamento de complicações clínicas e
comorbidades clínicas e psiquiátricas; promover recuperação cognitiva, volitiva e afetiva, do medo
mórbido de engordar e da insatisfação relativa à imagem corporal; envolver a família dos usuários
nas diversas modalidades de tratamentos oferecidos; prevenir recaída e recorrência do quadro
alimentar disfuncional; promover recuperação funcional ede autoestima; e desenvolver
autorresponsabilização sobre o tratamento.
O tratamento objetiva a completa reabilitação do usuário nos aspectos clínicos, nutricionais
e psicológicos, e o trabalho em equipe multidisciplinar com estrutura básica formada por médicos
psiquiatra e clínico geral, nutricionista e psicólogo é reconhecido como a forma mais adequada de
acompanhamento.
Para o melhor atendimento integrado e completo depende da existência da referida equipe
multiprofissional, além do emprego conjunto de diversas estratégias. Porém, nenhuma modalidade
de tratamento pode ser indicada como única ou isoladamente melhor. Essa equipe funciona como
uma rede de sustentação para o usuário que descobre, nos vários profissionais, a possibilidade de
diversas transferências, tornando-se mais amplas as possibilidades de adesão ao tratamento.
Os serviços especializados para o tratamento podem ser encontrados em unidades de
saúde, pediátrica e psiquiátrica, e as modalidades de seguimento dependerão da avaliação das
condições clínicas, psiquiátricas e de apoio familiar para o seguimento do usuário e variam entre
atendimento ambulatorial, hospital-dia, CAPS e/ou internação. Se o tratamento não se inicia de
forma precoce, o curso é prolongado, com prejuízos físicos e psicológicos, além de elevada taxa de
mortalidade, principalmente em usuários com NA.
Por isso, é importante a integração da rede de saúde nos seus diferentes níveis para o
atendimento dos usuários com transtornos alimentares. Os objetivos do tratamento podem ser
resumidos:
Psico-educação (usuários e familiares): apresentação e discussão de conceitos como a
diversidade dos fatores etiológicos, o quadro clínico e o tratamento;
Reeducação alimentar: aulas teóricas, abordagens práticas e acompanhamento dos
usuários em suas refeições;
Uso de medicação: baseada na presença de quadros psiquiátricos associados
(comorbidades), como por exemplo a depressão;
Psicoterapia: associada a outras abordagens (geralmente não deve ser utilizada
isoladamente);
320
Orientação e/ou terapia familiar: abordagem de aspectos da dinâmica familiar (importante
no tratamento de anorexia nervosa de início na adolescência).
A maioria das pessoas com AN deveria ser manejada em nível ambulatorial com tratamento
psicológico e monitorização física. Intervenções psicológicas podem ser utilizadas na AN, além de
intervenções familiares focadas explicitamente nos transtornos alimentares.
Existem diversos níveis de atendimento que visam a recuperação da saúde mental e física
das usuárias com transtornos alimentares. A escolha de cada uma das estratégias, todavia, muitas
vezes é baseada em parâmetros que evoluem no decorrer do tratamento.
Diversos autores tentaram sistematizar critérios para indicar a participação de usuários
psiquiátricos em serviços de internação parcial. Boardman & Hodgson (2000), mais recentemente,
definiram como critérios de admissão de usuários em hospital-dia (HD) ou CAPS:
Usuários que já foram tratados em regime de internação total pelo serviço e que necessitam
de uma nova internação;
Presença de um baixo risco de auto ou hetero-agressão;
Impossibilidade ou incapacidade de auto-cuidado; e
Ausência de doenças clínicas agudas.
Em resumo na tabela abaixo estão as indicações para manejo dos usuários conforme a
evolução da NA.
Nível 4
Nível 1 Nível 2 Nível 3 Nível 5
Características Tratamento
Ambulatório Intensivo Hospital-Dia Hospitalização
Residencial
Bradicardia,
hipoglicemia,
hipopotassemia,
Complicações
Estável Estável Estável Estável hipotermia,
médicas
hipotensão,
comprometimento
orgânico
% peso
>85% >80% >75% <85% <75%
esperado
Motivação e Muito
Regular/boa Regular Parcial Pequena
cooperação pequena/nenhuma
Condiciona a
Comorbidade Possível Possível Possível Possível
internação
Condição para
Requer Requer Requer Requer
ganho Auto-suficiente
estrutura supervisão supervisão supervisão
ponderal
321
Estrutura para
Controla Não consegue Não consegue
Autocontrole prevenir Não consegue ter
exercício ter auto- ter auto-
exercícios exercício auto-controle
excessivo controle controle
excessivo
Precisa de
Precisa de Precisa de
Consegue Consegue supervisão para
Purgação habilidades habilidades
reduzir reduzir refeições e idas
para controle para controle
ao toalete
322
O atendimento familiar ocorre em grupos psicoeducacionais, por meio de orientação,
informação e troca de experiências, com a participação dos familiares e dos usuários em tratamento.
A periodicidade é quinzenal, compondo-se pelos familiares dos usuários.
A inclusão e a participação efetiva da família é uma peça fundamental na eficácia
terapêutica, já que a psicodinâmica familiar, isto é, a maneira como a família funciona, é um
elemento central na determinação, manutenção e desenvolvimento dos TA.
A psicoterapia objetiva-se a mudança do comportamento alimentar e do uso de estratégias
compensatórias (vômitos, abuso de laxantes, diuréticos e enemas).
Pode ser dividido conceitualmente em três áreas:
Normalização da alimentação e do peso;
Reestruturação relacionada aos sintomas visados na conduta alimentar;
Reestruturaçãode temas psicopatológicos que, direta ou indiretamente, estão relacionados
ao desenvolvimento ou à manutenção do transtorno alimentar.
A terapia nutricional deve ser rapidamente iniciada para se ajustar e adaptar o plano
alimentar às necessidades clínicas e nutricionais.
A realimentação com ingesta oral de alimentos é a primeira escolha para a recuperação do
peso e é mais bem-sucedida na recuperação a longo prazo.
Em raras circunstâncias, a nutrição parenteral e enteral é necessária. Os riscos associados
a uma terapia nutricional agressiva são hipofosfatemia, edema, insuficiência cardíaca, convulsões,
aspiração da dieta enteral e morte.
O ritmo recomendado de ganho de peso é de 0,5 a 1,0 kg por semana em usuários
ambulatoriais e de 1,0 a 1,5 kg em usuários internados. Na prática clínica e no atendimento
ambulatorial, tem sido observada a existência de uma variação no ganho de peso inerente a cada
usuário.
Torna-se necessário avaliar a colaboração dos familiares, além das dificuldades individuais
de cada usuário.
323
A fluoxetina pode melhorar o prognóstico de usuários com AN após terem atingido peso
adequado, prevenindo recaídas.
Deve-se evitar o uso de antidepressivos tricíclicos e inibidores da monoamino-oxidase em
razão do potencial de toxicidade, da interação medicamentosa e da incompatibilidade com certos
alimentos.
A bupropiona também não deve ser usada, já que aumenta o risco de convulsões.
Entre os antipsicóticos, podem ser usados olanzapina e clorpromazina.
A olanzapina tem diminuído a ansiedade e melhorado aspectos psicopatológicos da AN,
além de contribuir para o ganho de peso em estudos abertos, no entanto, não há estudos
controlados para comprovar tais evidências.
Benzodiazepínicos podem ser utilizados por seu efeito ansiolítico, em especial quando
administrados antes das refeições.
A recuperação da AN é longa e, mesmo sem medicamento, o suporte psicológico é essencial
para se sustentar a mudança. A restauração clínica e nutricional feita primeiramente torna a terapia
psicológica mais efetiva. A restauração do peso não significa a cura da doença, e o ganho ponderal
forçado sem suporte psicológico é contraindicado.
A bulimia nervosa (BN) caracteriza-se pela compulsão alimentar, ou seja, ingestão de grande
quantidade de alimentos em um curto período com a sensação de perda de controle e
compensações inadequadas para o controle de peso, como vômitos autoinduzidos, dietas
compensatórias, uso de medicamentos (laxantes, diuréticos, inibidores de apetite) e exercícios
físicos exagerados.
Observa-se excessiva preocupação com o peso e a forma corporal, que invariavelmente
afeta sentimentos e atitudes do usuário.
Gerald Russell (1979) utilizou o termo bulimia nervosa com base nos termos gregos boul
(boi) ou bou (grande quantidade) e lemos (fome), que significa ria uma fome tão intensa que seria
suficiente para devorar um boi. Descreveu a BN em usuários com peso normal, que haviam
apresentado AN no passado e referiam episódios bulímicos e vômitos autoinduzidos. Inicialmente,
ele julgou que essa apresentação era uma migração da AN, mas depois considerou que os dois
transtornos eram quadros distintos e independentes.
A prevalência de bulimia nervosa entre jovens do sexo feminino é de 1 a 1,5%. A prevalência-
ponto é maior entre adultos, já que o transtorno atinge seu pico no fim da adolescência e início da
idade adulta. Pouco se sabe a respeito da prevalência-ponto de bulimia nervosa no sexo masculino,
porém o transtorno é bem menos comum nestes, com uma proporção feminino masculino de
aproximadamente 10:1.
Algumas profissões apresentam mais risco para desenvolvimento do transtorno, como
modelos e outros profissionais da moda, jóqueis e atletas.
324
A perturbação do comportamento alimentar persiste por no mínimo muitos anos em uma
porcentagem elevada de amostras clínicas. O curso pode ser crônico ou intermitente, com períodos
de remissão alternando com recorrências de compulsão alimentar. Entretanto, durante o
seguimento, os sintomas de muitos indivíduos parecem diminuir com ou sem tratamento, embora o
tratamento nitidamente tenha impacto na evolução. Períodos de remissão acima de um ano estão
associados a uma evolução de longo prazo mais favorável.
Um risco significativamente maior de mortalidade (por todas as causas e por suicídio) foi
relatado para indivíduos com bulimia nervosa.
A mudança diagnóstica de bulimia nervosa inicial para anorexia nervosa ocorre em uma
minoria dos casos (10 a 15%). Indivíduos que evoluem para anorexia nervosa comumente
reverterão para bulimia nervosa ou terão múltiplas ocorrências de alternâncias entre esses dois
transtornos.
Um subgrupo de indivíduos com bulimia nervosa continua a manifestar compulsão alimentar,
porém não se engaja mais em comportamentos compensatórios indevidos, e, portanto, seus
sintomas satisfazem os critérios de transtorno de compulsão alimentar ou outro transtorno alimentar
especificado. O diagnóstico deverá se basear na apresentação clínica atual (i.e., últimos três
meses).
325
F50.5 Vômitos associados a outros distúrbios psicológicos: Vômitos repetidos que podem
ocorrer nos transtornos dissociativos (F44.) e hipocondríacos (F45.2) e que não são exclusivamente
imputáveis a uma das afecções classificadas fora do Capítulo V. Pode-se também empregar este
código em suplemento a O21. (hiperemese na gravidez) quando fatores emocionais predominam
entre as causas das náuseas e vômitos recorrentes no curso da gravidez.
Vômitos psicogênicos.
Exclui: Náusea (R11); Vômitos SOE (R11).
Conforme o DSM-5:
Episódios recorrentes de compulsão alimentar. Um episódio de compulsão alimentar é
caracterizado pelos seguintes aspectos:
Ingestão, em um período de tempo determinado (p. ex., dentro de cada período de duas
horas), de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria dos
indivíduos consumiria no mesmo período sob circunstâncias semelhantes;
Sensação de falta de controle sobre a ingestão durante o episódio (p. ex., sentimento de
não conseguir parar de comer ou controlar o que e o quanto se está ingerindo);
Comportamentos compensatórios inapropriados recorrentes a fim de impedir o ganho de peso,
como vômitos autoinduzidos; uso indevido de laxantes, diuréticos ou outros medicamentos;
jejum; ou exercício em excesso;
A compulsão alimentar e os comportamentos compensatórios inapropriados ocorrem, em
média, no mínimo uma vez por semana durante três meses;
A autoavaliação é indevidamente influenciada pela forma e pelo peso corporal;
A perturbação não ocorre exclusivamente durante episódios de anorexia nervosa.
Especificar se:
Em remissão parcial: Depois de todos os critérios para bulimia nervosa terem sido previamente
preenchidos, alguns, mas não todos os critérios, foram preenchidos por um período de tempo
sustentado.
Em remissão completa: Depois de todos os critérios para bulimia nervosa terem sido previamente
preenchidos, nenhum dos critérios foi preenchido por um período de tempo sustentado.
Especificar a gravidade atual: O nível mínimo de gravidade baseia-se na frequência dos
comportamentos compensatórios inapropriados (ver a seguir). O nível de gravidade pode ser
elevado de maneira a refletir outros sintomas e o grau de incapacidade funcional.
• Leve: Média de 1 a 3 episódios de comportamentos compensatórios inapropriados por
semana.
• Moderada: Média de 4 a 7 episódios de comportamentos compensatórios inapropriados por
semana.
• Grave: Média de 8 a 13 episódios de comportamentos compensatórios inapropriados por
semana.
• Extrema: Média de 14 ou mais comportamentos compensatórios inapropriados por semana.
326
Existem três aspectos essenciais na bulimia nervosa: episódios recorrentes de compulsão
alimentar (Critério A), comportamentos compensatórios inapropriados recorrentes para impedir o
ganho de peso (Critério B) e autoavaliação indevidamente influenciada pela forma e pelo peso
corporal (Critério D).
Para se qualificar ao diagnóstico, a compulsão alimentar e os comportamentos
compensatórios inapropriados devem ocorrer, em média, no mínimo uma vez por semana por três
meses (Critério C).
Sinais e Sintomas Físicos: Assim como é visto em indivíduos com anorexia nervosa, aqueles com
bulimia nervosa que autoinduzem vômitos podem apresentar hipertrofia das glândulas salivares,
sobretudo das glândulas parótidas, bem como erosão do esmalte dentário. Algumas pessoas
podem apresentar cicatrizes ou calos na superfície dorsal da mão pelo contato repetido com os
dentes ao induzir vômitos.
Exames na avaliação inicial e alterações mais comuns:
Anemias e alterações hematológicas decorrentes de carências nutricionais específicas e
alterações no número de células brancas: [Link]-0 - HEMOGRAMA COMPLETO ;
Desequilíbrios iônicos:
[Link]-0 - DOSAGEM DE POTASSIO
[Link]-8 - DOSAGEM DE CALCIO IONIZAVEL
[Link]-2 - DOSAGEM DE MAGNESIO
[Link]-5 - DOSAGEM DE SODIO
[Link]-0 - DOSAGEM DE FOSFORO
Hipoglicemia e diabetes: [Link]-3 - DOSAGEM DE GLICOSE;
Sinais mais graves de desnutrição e desequilíbrio proteico: [Link]-7 - DOSAGEM DE
PROTEINAS TOTAIS E FRACOES;
Função renal:
[Link]-4 - DOSAGEM DE UREIA
[Link]-7 - DOSAGEM DE CREATININA
Alterações da tireoide:
[Link]-0 - DOSAGEM DE HORMONIO TIREOESTIMULANTE (TSH)
[Link]-1 - DOSAGEM DE TIROXINA LIVRE (T4 LIVRE)
Comprometimento pancreático: [Link]-2 - DOSAGEM DE FOSFATASE ALCALINA;
Função hepática:
[Link]-3 - DOSAGEM DE TRANSAMINASE GLUTAMICO-OXALACETICA (TGO)
[Link]-1 - DOSAGEM DE TRANSAMINASE GLUTAMICO-PIRUVICA (TGP)
[Link]-5 - DOSAGEM DE GAMA-GLUTAMIL-TRANSFERASE (GAMA GT)
Arritmias e outras alterações cardiológicas: [Link]-6 – ELETROCARDIOGRAMA;
Densitometria óssea: osteopenia e osteoporose;
Exames de neuroimagem (RM ou TC): quando houver suspeita de quadro neurológico
associado.
327
Indivíduos com bulimia nervosa estão geralmente dentro da faixa normal de peso ou com
sobrepeso (IMC > 18,5 kg/m2 e < 30 em adultos). O transtorno ocorre, mas é incomum, entre
indivíduos obesos.
Entre os episódios de compulsão alimentar, indivíduos com bulimia nervosa costumam
restringir seu consumo calórico total e optam, de preferência, por alimentos hipocalóricos
(“dietéticos”), ao mesmo tempo que evitam alimentos que percebem como engordantes ou com
potencial para desencadear compulsão alimentar.
Irregularidade menstrual ou amenorréia ocorrem com frequência em mulheres com bulimia
nervosa; não está claro se tais perturbações estão relacionadas a oscilações no peso, a deficiências
nutricionais ou a sofrimento emocional.
Os distúrbios hidreletrolíticos decorrentes do comportamento purgativo são por vezes graves
o suficiente para constituírem problemas clinicamente sérios.
Complicações raras, porém fatais, incluem lacerações esofágicas, ruptura gástrica e
arritmias cardíacas. Miopatias esqueléticas e cardíacas graves foram relatadas em indivíduos
depois do uso repetido de xarope de ipeca para induzir o vômito.
Indivíduos que abusam cronicamente de laxantes podem tornar-se dependentes do seu uso
para estimular movimentos intestinais. Sintomas gastrintestinais costumam estar associados a
bulimia nervosa, e prolapso retal já foi relatado entre indivíduos com esse transtorno.
A perda de ácido gástrico pelo vômito pode produzir alcalose metabólica (nível sérico de
bicarbonato elevado), e a indução frequente de diarréia ou desidratação devido a abuso de laxantes
e diuréticos pode causar acidose metabólica.
Alguns indivíduos com bulimia nervosa exibem níveis ligeiramente elevados de amilase
sérica, provavelmente refletindo aumento na isoenzima salivar.
O exame físico geralmente não revela achados físicos. Entretanto, a inspeção da boca pode
revelar perda significativa e permanente do esmalte dentário, em especial das superfícies linguais
dos dentes da frente devido aos vômitos recorrentes. Esses dentes podem lascar ou parecer
desgastados, corroídos e esburacados. A frequência de cáries dentárias também pode ser maior.
Há diversas alterações clínicas no decorrer da doença, porém, com a recuperação completa
e a manutenção da melhora nutricional, os parâmetros geralmente se normalizam.
328
Atrofia cerebral (reversível).
Oftalmológicas:
Catarata;
Atrofia do nervo óptico;
Degeneração da retina;
Diminuição da acuidade visual.
Endócrinas:
Síndrome do eutiroidiano doente;
Pseudocushing;
Amenorréia, oligomenorréia;
Diminuição da libido;
Infertilidade;
Atraso ou retardo do desenvolvimento puberal;
Osteopenia ou osteoporose.
Gastrointestinais:
Esofagite, hematêmese (Síndrome de Mallory-Weiss);
Retardo do esvaziamento gástrico, redução da motilidade intestinal;
Constipação;
Prolapso retal;
Dilatação gástrica;
Alteração da função hepática;
Hiperamilasemia;
Hipertrofia das glândulas parótidas e submandibulares.
Renais:
Cálculo renal;
Azotemia pré-renal;
Insuficiência renal.
Bucomaxilares e fâneros:
Cáries dentárias;
Queilose;
Ressecamento cutâneo, pele fria e pálida;
Hipercarotenemia;
Calosidade nos dedos ou no dorso das mãos (Sinal de Russel);
Acrocianose.
Pulmonares:
Taquipnéia, bradipnéia;
Edema pulmonar;
Pneumomediastino.
Hematológicas:
329
Anemia, leucopenia, trombocitopenia, neutropenia.
O curso da bulimia é bastante variável, mas, assim como na anorexia, pode ser crônico e
com recaídas. Ainda residem dúvidas quanto ao conceito de remissão, pois alguns autores a
consideram mesmo quando o usuário mantém alguns vômitos ocasionais. Uma recuperação
favorável ocorre em cerca de 50 a 70% dos casos.
Alguns dos fatores preditivos de mau prognóstico da BN são grande frequência de vômitos
no início do tratamento, demora para iniciar tratamento, tempo de doença, comorbidades
associadas, tratamentos anteriores com pouca resposta, maior gravidade sintomatológica, início
tardio da doença e relacionamentos interpessoais conturbados.
330
A comorbidade não se limita a algum subgrupo especial, mas passa por uma ampla gama
de transtornos mentais. Existe uma frequência maior de sintomas depressivos (p. ex., sentimentos
de desvalia) e transtornos bipolares e depressivos (sobretudo transtornos depressivos).
Pode haver também frequência maior de sintomas de ansiedade (p. ex., medo de situações
sociais) ou transtornos de ansiedade. Essas perturbações do humor e ansiedade com frequência
cedem depois do tratamento efetivo para bulimia nervosa. A prevalência ao longo da vida de uso
de substâncias, particularmente álcool ou estimulantes, é de pelo menos 30% entre indivíduos com
bulimia nervosa.
O uso de estimulantes começa com frequência como uma tentativa de controlar o apetite e
o peso. Uma porcentagem substancial de indivíduos com bulimia nervosa também apresenta
aspectos da personalidade que satisfazem os critérios de um ou mais transtornos da personalidade,
com mais frequência transtorno da personalidade borderline.
15.2.3 Tratamento
[Link] Estratégias não Medicamentosas
Assim como na NA a abordagem na BN deve compreender o tratamento de complicações
clínicas e comorbidades clínicas e psiquiátricas; promover recuperação cognitiva, volitiva e afetiva,
do medo mórbido de engordar e da insatisfação relativa à imagem corporal; envolver a família dos
usuários nas diversas modalidades de tratamentos oferecidos; prevenir recaída e recorrência do
quadro alimentar disfuncional; promover recuperação funcional e de autoestima; e desenvolver
auto-responsabilização sobre o tratamento.
O tratamento objetiva a completa reabilitação do usuário nos aspectos clínicos, nutricionais
e psicológicos, e o trabalho em equipe multidisciplinar com estrutura básica formada por médicos
psiquiatra e clínico geral ou nutrólogo, nutricionista e psicólogo é reconhecido como a forma mais
adequada de acompanhamento.
O sucesso de um programa de atendimento integrado e completo depende da existência
desse time, além do emprego conjunto de diversas estratégias, porém nenhuma modalidade de
tratamento pode ser indicada como única ou isoladamente melhor. Essa equipe funciona como uma
rede de sustentação para o usuário que descobre, nos vários profissionais, a possibilidade de
diversas transferências, tornando-se mais amplas as possibilidades de adesão ao tratamento.
Os serviços especializados para o tratamento podem ser encontrados em unidades de
clínica médica, pediátrica e psiquiátrica, e as modalidades de seguimento dependerão da avaliação
das condições clínicas, psiquiátricas e de apoio familiar para o seguimento do usuário e variam
entre atendimento ambulatorial, hospital-dia, CAPS e internação integral. Se o tratamento não se
inicia de forma precoce, o curso é prolongado, com prejuízos físicos e psicológicos, além de elevada
taxa de mortalidade.
Por isso é importante a integração da rede de saúde nos seus diferentes níveis para o
atendimento dos usuários com transtornos alimentares. Os objetivos do tratamento podem ser
resumidos:
331
Psico-educação (usuários e familiares): apresentação e discussão de conceitos como a
diversidade dos fatores etiológicos, o quadro clínico e o tratamento;
Reeducação alimentar: aulas teóricas, abordagens práticas e acompanhamento dos
usuários em suas refeições;
Uso de medicação: baseada na presença de quadros psiquiátricos associados
(comorbidades), como por exemplo a depressão;
Psicoterapia: associada a outras abordagens (geralmente não deve ser utilizada
isoladamente);
Orientação e/ou terapia familiar: abordagem de aspectos da dinâmica familiar (importante
no tratamento de anorexia nervosa de início na adolescência).
A maioria das pessoas com BN deveria ser manejada em nível ambulatorial com tratamento
psicológico e monitorização física. Intervenções psicológicas podem ser utilizadas, além de
intervenções familiares focadas explicitamente nos transtornos alimentares.
Existem diversos níveis de atendimento que visam à recuperação da saúde mental e física
dos usuários com transtornos alimentares. A escolha de cada uma das estratégias, todavia, muitas
vezes é baseada em parâmetros que evoluem no decorrer do tratamento.
Diversos autores tentaram sistematizar critérios para indicar a participação de usuários
psiquiátricos em serviços de internação parcial. Boardman & Hodgson (2000), mais recentemente,
definiram como critérios de admissão de usuários em hospital-dia (HD) ou CAPS:
Usuários que já foram tratados em regime de internação total pelo serviço e que necessitam
de uma nova internação;
Presença de um baixo risco de auto ou hetero-agressão;
Impossibilidade ou incapacidade de auto-cuidado e;
Ausência de doenças clínicas agudas.
Em resumo na tabela abaixo, estão as indicações para manejo dos usuários conforme a
evolução BN.
NÍVEL 3 NÍVEL 4
NÍVEL 1 NÍVEL 2 NÍVEL 5
CARACTERÍSTICAS HOSPITAL- TRATAMENTO
AMBULATÓRIO INTENSIVO HOSPITALIZAÇÃO
DIA RESIDENCIAL
Bradicardia,
hipoglicemia,
hipopotassemia,
Complicações
Estável Estável Estável Estável hipotermia,
médicas
hipotensão,
comprometimento
orgânico
Plano sem
Risco de suicídio Nenhum Nenhum Nenhum Intenção e plano
intenção
332
% peso esperado >85% >80% >75% <85% <75%
Motivação e Muito
Regular/boa Regular Parcial Pequena
cooperação pequena/nenhuma
Condiciona a
Comorbidade Possível Possível Possível Possível
internação
Estrutura
Não
Controla para Não consegue
Autocontrole consegue Não consegue ter
exercício prevenir ter auto-
exercícios ter auto- auto-controle
excessivo exercício controle
controle
excessivo
Precisa de Precisa de
Precisa de
Consegue Consegue habilidades supervisão para
Purgação habilidades
reduzir reduzir para refeições e idas ao
para controle
controle toalete
333
Segundo a American Dietetic Association, o tratamento nutricional utilizado na bulimia
nervosa pode ser dividido em duas fases.
Na primeira fase a meta é fornecer informações que possibilitem modificação no
comportamento relacionado aos alimentos e peso. Esta fase tem os seguintes objetivos:
Coletar informações sobre as peculiaridades do padrão alimentar daquele usuário;
Estabelecer uma relação colaborativa entre usuário e nutricionista, onde o usuário participa
ativamente;
Discutir os conceitos sobre grupos de alimentos, alimentação equilibrada, nutrição e
regularização de peso;
Apresentar exemplos de ingestão alimentar adequada, para auxiliar o usuário a entender as
modificações que deverá ter no decorrer do tratamento.
Na segunda fase podemos destacar os seguintes objetivos:
Modificar o comportamento alimentar de forma progressiva, até sua normalização;
Aumentar o peso gradualmente.
O atendimento familiar ocorre em grupos psicoeducacionais, por meio de orientação,
informação e troca de experiências, com a participação dos familiares e dos usuários em tratamento.
A periodicidade é quinzenal, compondo-se pelos familiares dos usuários.
A inclusão e a participação efetiva da família são uma peça fundamental na eficácia
terapêutica, já que a psicodinâmica familiar, isto é, a maneira como a família funciona, é um
elemento central na determinação, manutenção e desenvolvimento dos TA.
A psicoterapia objetiva-se a mudança do comportamento alimentar e do uso de estratégias
compensatórias (vômitos, abuso de laxantes, diuréticos e enemas).
Pode ser dividido conceitualmente em três áreas:
Normalização da alimentação e do peso;
Reestruturação relacionada aos sintomas visados na conduta alimentar;
Reestruturação de temas psicopatológicos que, direta ou indiretamente, estão relacionados
ao desenvolvimento ou à manutenção do transtorno alimentar.
A terapia nutricional deve ser rapidamente iniciada para se ajustar e adaptar o plano
alimentar às necessidades clínicas e nutricionais.
Torna-se necessário avaliar a colaboração dos familiares, além das dificuldades individuais
de cada usuário.
334
O ISRS mais utilizado é a fluoxetina no tratamento da BN. A dose de 60 mg/dia de fluoxetina
traz melhores benefícios do que a de 20 mg/dia.
Tricíclicos como a imipramina, apresentam respostas satisfatórias no tratamento da BN, mas
a possibilidade do efeito colateral de voracidade por doces faz com que seu uso não seja indicado
nesse caso.
335
Ingestão, em um período determinado (p. ex., dentro de cada período de duas horas), de
uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas
consumiria no mesmo período sob circunstâncias semelhantes;
Sensação de falta de controle sobre a ingestão durante o episódio (p. ex., sentimento de
não conseguir parar de comer ou controlar o que e o quanto se está ingerindo).
B. Os episódios de compulsão alimentar estão associados a três (ou mais) dos seguintes
aspectos:
Comer mais rapidamente do que o normal;
Comer até se sentir desconfortavelmente cheio;
Comer grandes quantidades de alimento na ausência da sensação física de fome;
Comer sozinho por vergonha do quanto se está comendo;
Sentir-se desgostoso de si mesmo, deprimido ou muito culpado em seguida.
C. Sofrimento marcante em virtude da compulsão alimentar;
D. Os episódios de compulsão alimentar ocorrem, em média, ao menos uma vez por semana
durante três meses;
E. A compulsão alimentar não está associada ao uso recorrente de comportamento compensatório
inapropriado como na bulimia nervosa e não ocorre exclusivamente durante o curso de bulimia
nervosa ou anorexia nervosa.
Especificar se:
Em remissão parcial: Depois de terem sido previamente satisfeitos os critérios plenos do
transtorno de compulsão alimentar, a hiperfagia ocorre a uma frequência média inferior a um
episódio por semana por um período de tempo sustentado.
Em remissão completa: Depois de terem sido previamente satisfeitos os critérios plenos do
transtorno de compulsão alimentar, nenhum dos critérios é mais satisfeito por um período de tempo
sustentado.
336
Um “episódio de compulsão alimentar” é definido como a ingestão, em um período
determinado, de uma quantidade de alimento definitivamente maior do que a maioria das pessoas
consumiria em um mesmo período sob circunstâncias semelhantes (Critério A1).
O tipo de alimento consumido durante episódios de compulsão alimentar varia tanto entre
diferentes pessoas quanto em um mesmo indivíduo. A compulsão alimentar parece ser
caracterizada mais por uma anormalidade na quantidade de alimento consumida do que pela fissura
por um nutriente específico.
É preciso que a compulsão alimentar seja caracterizada por sofrimento marcante (Critério
C) e pelo menos três dos seguintes aspectos:
Comer muito mais rapidamente do que o normal;
Comer até se sentir desconfortavelmente cheio;
Ingerir grandes quantidades de alimento sem estar com sensação física de fome;
Comer sozinho por vergonha do quanto se come; e
Sentir-se desgostoso de si mesmo, deprimido ou muito culpado em seguida (Critério B).
Tanto a compulsão alimentar quanto a perda de controle da ingestão sem consumo
objetivamente excessivo ocorrem em crianças e estão associadas a maior gordura corporal, ganho
de peso e mais sintomas psicológicos. A compulsão alimentar é comum em amostras de
adolescentes e de universitários.
A ingestão fora de controle ou a compulsão alimentar episódica podem representar uma fase
prodrômica dos transtornos alimentares para alguns indivíduos.
A prática de fazer dieta segue o desenvolvimento de compulsão alimentar em muitos
indivíduos com o transtorno. (Em contraste com a bulimia nervosa, na qual o hábito disfuncional de
fazer dieta geralmente precede o início da compulsão alimentar).
O transtorno começa, em geral, na adolescência ou na idade adulta jovem, mas pode ter
início posteriormente, na idade adulta. Indivíduos com transtorno de compulsão alimentar que
buscam tratamento costumam ser mais velhos do que aqueles com bulimia nervosa ou anorexia
nervosa que buscam tratamento.
As taxas de remissão tanto em estudos do curso natural quanto nos de tratamento do
transtorno são maiores para o transtorno de compulsão alimentar do que para bulimia ou anorexia
nervosas.
O transtorno de compulsão alimentar parece ser relativamente persistente, e seu curso é
comparável ao da bulimia nervosa em termos de gravidade e duração. A mudança diagnóstica de
transtorno de compulsão alimentar para outros transtornos alimentares é incomum.
337
transtorno de compulsão alimentar. Diferentemente de indivíduos com bulimia nervosa, aqueles
com transtorno de compulsão alimentar não costumam exibir restrição dietética marcante ou
mantida voltada para influenciar o peso e a forma corporais entre os episódios de comer compulsivo.
Eles podem, no entanto, relatar tentativas frequentes de fazer dieta. O transtorno de
compulsão alimentar também difere da bulimia nervosa em termos de resposta ao tratamento. As
taxas de melhora são consistentemente maiores entre indivíduos com transtorno de compulsão
alimentar do que entre aqueles com bulimia nervosa.
Obesidade: O transtorno de compulsão alimentar está associado a sobrepeso e obesidade, mas
apresenta diversos aspectos-chave distintos da obesidade.
Primeiro, os níveis de valorização excessiva do peso e da forma corporais são maiores em
indivíduos obesos com o transtorno do que entre aqueles sem o transtorno.
Em segundo lugar, as taxas de comorbidade psiquiátrica são significativamente maiores
entre indivíduos obesos com o transtorno comparados aos que não o têm.
Em terceiro lugar, o sucesso prolongado de tratamentos psicológicos baseados em
evidências para o transtorno de compulsão alimentar podem ser contrastados com a ausência de
tratamentos eficazes a longo prazo para obesidade.
Transtornos bipolar e depressivo: Aumentos no apetite e ganho de peso estão inclusos nos
critérios para episódio depressivo maior e nos especificadores de aspectos atípicos para transtornos
depressivo e bipolar.
O aumento da ingesta no contexto de um episódio depressivo maior pode ou não estar
associado a perda de controle. Se todos os critérios para ambos os transtornos forem satisfeitos,
ambos os diagnósticos podem ser dados.
Compulsão alimentar e outros sintomas da ingestão desordenada são vistos em associação
com transtorno bipolar. Se todos os critérios para ambos os transtornos forem preenchidos, ambos
os diagnósticos deverão ser dados.
Transtorno da personalidade borderline: A compulsão alimentar está inclusa no critério de
comportamento impulsivo que faz parte da definição do transtorno da personalidade borderline. Se
todos os critérios de ambos os transtornos forem preenchidos, então os dois diagnósticos devem
ser dados.
Comorbidade: O transtorno de compulsão alimentar está associado a comorbidade psiquiátrica
significativa comparável à da bulimia nervosa e da anorexia nervosa. Os transtornos comórbidos
mais comuns são transtornos bipolares, transtornos depressivos, transtornos de ansiedade e, em
um grau menor, transtornos por uso de substância. A comorbidade psiquiátrica está ligada à
gravidade da compulsão alimentar, não ao grau de obesidade.
15.3.3 Tratamento
[Link] Estratégias não Medicamentosas
A abordagem do TCAP deve se basear na presença ou não das frequentes comorbidades
psiquiátricas ou clínicas. A associação com quadros depressivos e/ou ansiosos pode exigir a
338
prescrição medicamentosa específica; assim como a comorbidade com obesidade, diabete melito
ou hipertensão pode ser determinante na escolha do manejo terapêutico.
Segundo ensaios clínicos, tratando-se de diagnóstico de TCAP na ausência da associação
com outros transtornos psiquiátricos, o tratamento de escolha é o tratamento psicoterapêutico. A
combinação com orientações alimentares, como no programa de tratamento comportamental para
perda de peso em indivíduos obesos com TCAP, tem se mostrado eficaz.
Por isso é importante a integração da rede de saúde nos seus diferentes níveis para o
atendimento dos usuários com transtornos alimentares. Os objetivos do tratamento podem ser
resumidos:
Psicoeducação (usuários e familiares): apresentação e discussão de conceitos como a
diversidade dos fatores etiológicos, o quadro clínico e o tratamento;
Reeducação alimentar: aulas teóricas, abordagens práticas e acompanhamento dos
usuários em suas refeições;
Uso de medicação: baseada na presença de quadros psiquiátricos associados
(comorbidades), como por exemplo a depressão;
Psicoterapia: associada a outras abordagens (geralmente não deve ser utilizada
isoladamente);
Orientação e/ou terapia familiar: abordagem de aspectos da dinâmica familiar (importante
no tratamento de anorexia nervosa de início na adolescência).
O atendimento familiar ocorre em grupos psicoeducacionais, por meio de orientação,
informação e troca de experiências, com a participação dos familiares e dos usuários em tratamento.
A periodicidade é quinzenal, compondo-se pelos familiares dos usuários.
A inclusão e a participação efetiva da família é uma peça fundamental na eficácia
terapêutica, já que a psicodinâmica familiar, isto é, a maneira como a família funciona, é um
elemento central na determinação, manutenção e desenvolvimento dos TA.
A psicoterapia objetiva-se a mudança do comportamento alimentar compulsivo:
Pode ser dividido conceitualmente em três áreas:
Normalização da alimentação e do peso;
Reestruturação relacionada aos sintomas visados na conduta alimentar;
Reestruturação de temas psicopatológicos que, direta ou indiretamente, estão relacionados
ao desenvolvimento ou à manutenção do transtorno alimentar.
A terapia nutricional deve ser rapidamente iniciada para se ajustar e adaptar o plano
alimentar às necessidades clínicas e nutricionais.
Torna-se necessário avaliar a colaboração dos familiares, além das dificuldades individuais
de cada usuário.
339
[Link] Tratamento Medicamentoso
O tratamento fármaco lógico do TCAP visa ao controle da impulsividade alimentar e inclui
basicamente três classes de psicofármacos: os antidepressivos, os estabilizadores do humor e os
promotores de saciedade.
Os inibidores seletivos da recaptura de serotonina, cujo representante mais conhecido é a
fluoxetina, são a classe mais bem estudada e parecem ser o tratamento de primeira escolha.
Da mesma forma, o topiramato, agente estabilizador de humor e anticonvulsivante, revela-
se uma opção, favorecendo não somente o controle dos ECA, mas também auxiliando na perda de
peso.
A APS tem um papel importante que compreende a identificação dos casos de Transtorno
Alimentar. Em alguns casos, a equipe de saúde pode diagnosticar e encaminhar os casos para
tratamento especializado. Há de se considerar a importância que a equipe da APS, em conjunto
com o Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF), assumam no encaminhamento a centros de
atendimento especializados, que dispõem de equipe multiprofissional treinada e habilitada para o
manejo destes transtornos.
A atuação do NASF neste contexto pode ainda remeter ao uso do recurso Projeto
Terapêutico Singular (PTS), entendido como uma variação da discussão de "casos clínicos", e que
pressupõe o envolvimento de diversos saberes, pela equipe, para traçar estratégias com o portador
de TA segundo os recursos da equipe, da família, do território e do próprio sujeito (BRASIL, 2010).
Assim, ressaltamos a importância que a APS assume no rastreamento dos TAs nas
comunidades. A compreensão de seus conceitos, bem como sinais clínicos e o reconhecimento da
necessidade da referência a centros especializados como os hospitais e os Centros de Atenção
Psicossocial (CAPS), contribuindo para o melhor encaminhamento nesses casos.
Ações educativas voltadas ao esclarecimento dos indivíduos e comunidades acerca das TAs
também podem ser estimuladas. Essas iniciativas têm como objetivo reduzir a incidência da doença,
enfocando nos fatores de risco, especialmente para populações mais vulneráveis como
adolescentes e adultos jovens.
340
16 ABUSO E VIOLÊNCIA
A palavra “violência” tem uma conotação negativa porque é associada a um ato moralmente
reprovável, de tal forma que quem comete intencionalmente esse tipo de ato é obrigado a justificá-
lo. Essa noção de violência expressa uma posição normativa que não implica necessariamente que
todo ato violento seja moralmente reprovável. É o caso da violência por legítima defesa.
Para caracterizar um ato como “violento”, devem ser preenchidas ao menos as seguintes
condições: causar dano, usar a força (física ou psíquica), ser intencional ou ir contra a livre e
espontânea vontade de quem é objeto do dano.
Considera-se que a violência é um fenômeno complexo, que envolve fatores sociais,
ambientais, culturais, econômicos e políticos. Logo, para compreender e enfrentar essa
problemática devemos analisar um conjunto de fatores, como condições de vida, questões
ambientais, trabalho, habitação, educação, lazer e cultura.
É importante destacar que a violência acontece no mundo todo e atinge pessoas de todas
as idades, independe de sexo, raça, religião, nacionalidade, escolaridade, orientação sexual ou
condição social. No entanto, a violência apresenta-se nas classes menos favorecidas com mais
facilidade devido às condições precárias de sobrevivência. Ela está presente na vida de todas as
pessoas, sejam como vítimas sejam como agressores.
Reproduz-se nas estruturas e subjetividades em diferentes espaços, como na família,
escola, comunidade, trabalho e instituições. Ou seja, é um fenômeno socialmente construído, que
necessita ser desconstruído, a partir de uma ação intersetorial e multidimensional.
A mortalidade e a morbidade por violência têm aumentado em todo país. Situa-se como a
segunda causa de morte em nossa população. Em média, as causas externas provocam 120.000
mortes por ano no Brasil. Diante disso, a violência caracteriza-se como sério problema de saúde
pública, pois causa forte impacto na saúde da população brasileira.
Segundo estudiosos, essa mudança de perfil denomina-se transição epidemiológica
(SOUZA, 2007 apud BARRETO; CARMO, 1995; OMRAM, 1971). Em consequência, exige do setor
de saúde a ampliação dos serviços para assistência em todos os níveis de complexidade, o que
afeta os serviços, os custos, a organização e os profissionais da área da saúde, além de exigir
intervenção interdisciplinar, multiprofissional e intersetorial, visando a promoção da saúde e
prevenção da violência.
Embora todas as pessoas possam agredir ou ser agredidas, as maiores vítimas da violência
– física, sexual, psicológica ou por negligência – são as crianças, adolescentes, mulheres, pessoas
idosas, homossexuais, portadores de alguma deficiência e de transtorno mental.
Muitas pessoas que recorrem aos serviços de saúde com queixa de enxaquecas, gastrites,
dores difusas e outros problemas vivem situações de violência dentro de suas próprias casas.
Sabemos que a ligação entre a violência e a saúde tem se tornado cada vez mais evidente,
embora a maioria das vítimas não relate que viveu ou vive em situação de violência.
341
Nesse contexto, os profissionais encontram-se diante do desafio de evitar “as formas
traumáticas de intervenção”, além de estarem sensibilizados e capacitados para identificar e tratar
os usuários que apresentem sintomas que possam estar relacionados ao abuso e à agressão,
possibilitando, dessa forma, um atendimento integral e de qualidade.
Nota: O Protocolo de atendimento a Pessoa em Situação de Violência Sexual está em processo de
revisão e atualização, consultar a versão atualizada disponível no Sistema de Informação vigente
da Secretaria da Saúde de Joinville.
IMPORTANTE:
Para maiores informações, sobre procedimentos, encaminhamentos, atendimento de pessoas
em situação de violência sexual, consultar o Protocolo de Atendimento às Pessoas em
Situação de Violência Sexual do Município de Joinville/SC (2019).
Acesso em: Intranet/[Link]/Documentos/NARAS/Protocolo de Violência Sexual
16.1 Conceitos
Conforme a CID-10:
X85-Y09 Agressões
Inclui: Homicídio; lesões infligidas por outra pessoa, empregando qualquer meio, com a intenção
de lesar (ferir) ou de matar.
Exclui: Lesões devidas a:
intervenção legal (Y35);
operações de guerra (Y36).
342
Y06. Negligência e abandono
Y06.0 Negligência e abandono pelo esposo ou companheiro
Y06.1 Negligência e abandono pelos pais
Y06.2 Negligência e abandono por conhecido ou amigo
Y06.8 Negligência e abandono por outra pessoa especificada
Y06.9 Negligência e abandono por pessoa não especificada
Y07. Outras síndromes de maus tratos
Inclui: Abuso sexual; crueldade mental; sevícias físicas; tortura
Exclui: Agressão sexual por meio de força corporal (Y05)
Além do CID, que aborda a especificação técnica, é importante que os profissionais da saúde
conheçam os conceitos e nomenclaturas que caracterizam os tipos de violência, inclusive, as
definições usadas pelas organizações que atuam na área:
Maus-tratos Físicos: Uso da força física de forma intencional, não acidental, praticada por pais,
responsáveis, familiares ou pessoas próximas da vítima, com o objetivo de ferir, danificar ou destruir
a criança ou adolescente, deixando ou não marcas evidentes.
Síndrome “do Bebê Sacudido”: É uma forma especial de maus-tratos e consiste em lesões
cerebrais provocadas quando a criança, em geral, menor de 06(seis) meses de idade, é sacudida
por um adulto.
Síndrome da Criança Espancada: “Refere-se, usualmente, a crianças de baixa idade, que
sofreram ferimentos inusitados, fraturas ósseas, queimaduras, etc., ocorridos em épocas diversas,
bem como em diferentes etapas e sempre inadequada ou inconsistentemente explicadas pelos pais”
(Azevedo &Guerra, 1989). O diagnóstico é baseado em evidências clínicas e radiológicas das
lesões. É reconhecida como aquela em que a criança é vítima de deliberado trauma físico não
acidental provocado por uma ou mais pessoas responsáveis por seu cuidado.
343
Síndrome de Munchausen por Procuração: É definida como a situação na qual a criança é levada
para cuidados médicos devido a sintomas e/ou sinais inventados ou provocados pelos
responsáveis, que podem ser caracterizados como violências físicas (exames complementares
desnecessários, uso de medicamentos, ingestão forçada de líquidos etc.) E psicológicas (inúmeras
consultas e internações, por exemplo).
Maus-tratos Psicológicos: Correspondem a toda forma de rejeição, depreciação, discriminação,
desrespeito, cobrança ou punição exagerados e utilização da vítima para atender às necessidades
psíquicas do agressor. Todas estas formas de maus-tratos psicológicos podem causar danos ao
desenvolvimento biopsicossocial e trauma psíquico da vítima. Pela sutileza do ato e pela falta de
evidências imediatas de maus-tratos, este tipo de violência é um dos mais difíceis de ser
identificado, apesar de estar, muitas vezes, associado aos demais tipos de violência.
Negligência: É o ato de omissão do responsável pela vítima em prover as necessidades básicas
para o seu desenvolvimento e cuidado. O abandono é considerado uma forma extrema de
negligência, caracterizando-se pela omissão em termos de cuidados básicos como: a privação de
medicamentos, cuidados necessários à saúde, à higiene, ausência de proteção contra as
inclemências do meio (frio, calor); falta de estímulo e condições para a frequência à escola. A
identificação da negligência é complexa devido às dificuldades sócio-econômicas da população, o
que leva ao questionamento acerca da intencionalidade da mesma. No entanto, independente da
culpabilidade do responsável pelos cuidados com a vítima, é necessária uma atitude de proteção
daquele em relação a esta.
Violência sexual: É todo ato ou jogo sexual (lembrando que o jogo sexual entre crianças da mesma
idade, não caracteriza vilência sexual), relação heterossexual ou homossexual cujo agressor(a) está
em estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a vítima, tendo a intenção de
estimulá-la sexualmente ou utilizá-la para obter satisfação sexual. Estas práticas eróticas e sexuais
são impostas à vítima pela violência física, por ameaças ou pela indução de sua vontade. Pode
variar desde atos em que não exista contato sexual até os diferentes tipos de atos com contato
sexual, havendo ou não penetração.
SEM Contato Físico:
Assédio Sexual: caracteriza-se por propostas de relações sexuais. Baseia-se, na maioria
das vezes, na posição de poder do agente sobre a vítima, que é chantageada e ameaçada
pelo autor(a) da agressão.
Abuso Sexual Verbal: pode ser definido por conversas abertas sobre atividades sexuais
destinadas a despertar o interesse da vítima ou a chocá-los. Os telefonemas obscenos são
também uma modalidade de abuso sexual verbal.
Exibicionismo: é o ato de mostrar os órgãos genitais ou de se masturbar diante da vítima,
ou no campo de visão deles.
Voyeurismo: é o ato de observar fixamente órgãos sexuais de outras pessoas, quando
estas não desejam ser vistas, buscando obter satisfação com essa prática.
344
COM Contato Físico: São atos físicos que incluem carícias nos órgãos genitais, tentativas de
relações sexuais, masturbação, sexo oral, penetração vaginal e anal.
Estupro: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a
praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso. (Lei n° 12.015, de 07 de agosto de
2009, modificou o texto dos artigos 213 e 214 do Código Penal).
Violência Sexual: é qualquer conduta que a constranja a presenciar, manter ou a participar de
relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; comercializar
ou utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade; a impeça de usar qualquer método contraceptivo
ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem,
suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos.
Violência Física: consiste no uso da força física, arma ou objeto, de forma intencional, causando
ou não dano, lesões internas ou externas no corpo. Inclui todas as manifestações de agressão que
resultam em lesões corporais ou morte da vítima agredida.
Violência Patrimonial: é entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração,
destruição parcial ou total dos objetos da mulher, como instrumentos de trabalho, documentos
pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas
necessidades.
Violência Moral: é entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria.
Violência Social: todas as formas de relações, de ações ou omissões realizadas por indivíduos,
grupos, classes, nações que ocasionam danos físicos, emocionais, morais e espirituais a si próprio
ou aos outros. Ela se manifesta nas discriminações e preconceitos em relação a determinados
grupos que se distinguem por sua faixa etária, raça, etnia, gênero, deficiência, condição de pobreza
e de portadores de doenças.
Bullying: é um conceito utilizado para definir maus-tratos entre iguais ou violência interpessoal
entre iguais. Ainda sem tradução para o português, o termo bullying é um fenômeno definido por
três características: a intencionalidade, o prolongamento e o tempo, gerando desequilíbrio de poder
físico, psicológico e social entre os implicados. (KRUG et al., 2002, apud Senra et al., 2001).
345
Diante disso, é importante observar a dinâmica familiar, que trata a violência ou a negligência
de forma natural, ou mesmo como uma forma de resolução de conflitos.
COMPORTAMENTO
CARACTERÍSTICAS
INDICADORES DA CRIANÇA E DO
DA FAMÍLIA
ADOLESCENTE
VIOLÊNCIA SEXUAL
VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA
346
Problemas de saúde; Comportamentos extremos de Tem expectativas irreais sobre
Como obesidade; timidez ou agressividade; a criança;
Afecção da pele; Destrutividade e Rejeita;
Distúrbios do sono e autodestrutividade; Aterroriza;
dificuldades na fala; Problemas do sono; Ignora;
Comportamentos infantis; Isolamento; Desqualifica;
Enurese noturna. Baixo conceito de si próprio; Exige em demasia;
Abatimento profundo; Corrompe;
Tristeza; Isola;
Ideia e tentativa de suicídio; Descreve a criança como má;
Insegurança. Diferente das demais.
NEGLIGÊNCIA
Avaliação Física: As lesões por maus-tratos físicos são mais comumente identificadas na pele e
nas mucosas, em seguida no esqueleto, no sistema nervoso central e nas estruturas torácicas e
abdominais.
Pele e Mucosas: As lesões cutâneo-mucosas provocadas por maus-tratos podem decorrer de
golpes, lançamento contra objetos duros, queimaduras, “arrancamentos” (dentes, cabelos),
mordidas, ferimentos por arma branca ou arma de fogo etc.
As lesões incluem desde hiperemia, escoriações, equimoses e hematomas, até
queimaduras de terceiro grau. Hematomas são as lesões de pele, frequentemente, encontradas nos
maus-tratos físicos, seguidos por lacerações e por arranhões.
Algumas partes do corpo são mais suscetíveis a lesões acidentais (proeminências ósseas,
por exemplo), enquanto outras não o são (coxas, genitais, dorso). Assim, a localização das lesões
pode ser um importante indício da ocorrência de violência física (por exemplo, lesões circulares ou
marcas de dedos em torno do pescoço, bem como petéquias na face e hemorragias subconjuntivais
são sugestivas de enforcamento ou estrangulamento).
Lesões em diferentes estágios de evolução (coloração e aspecto) ou presentes
concomitantemente em diversas partes do corpo, bem como queimaduras “em meia”, “luva” ou em
nádegas e/ou genitália, são sugestivas de lesões provocadas.
347
É importante fazer uma avaliação para se saber a idade das lesões a fim de correlacioná-
las à suspeita. As equimoses podem ser avaliadas e estadiadas por meio de suas evoluções
cromáticas:
Azulada 04 a 06 dias
Esverdeada 07 a 12 dias
Amarelada 13 a 21 dias
Quando algum instrumento é utilizado para a agressão, pode-se identificar sua forma
“impressa” na pele (cintos, fios, garfos, cigarros, dentes, etc). O achado de escoriações, manchas
ou sangramento em exame físico, não relatados durante a anamnese também sugerem maus-
tratos. É importante que a avaliação das lesões encontradas seja feita com detalhe, considerando
tamanho, bordas, localização e cor das mesmas.
Esqueleto: Fraturas múltiplas inexplicadas, em diferentes estágios de consolidação, são típicas de
maus-tratos. No entanto, são pouco frequentes. As localizações maiscomuns das fraturas são as
extremidades. Em crianças menores, os ossos longos costumam ser afetados na zona metafisária.
O traço da fratura também pode sugerir o mecanismo que a provocou: fraturas espiralares
e fraturas transversas em ossos longos de lactentes sugerem maus-tratos (as primeiras provocadas
por torção; as últimas, por impactos violentos).
Fraturas de costelas (geralmente, na região posterior, próximo à articulação costo-vertebral)
podem ocorrer por compressão ou impacto.
Sistema Nervoso Central: O traumatismo crânio-encefálico (TCE) provocado pode levar a dois
tipos de lesão:
• Externa: fraturas dos ossos do crânio lineares, deprimidas ou cominutivas;
• Interna: produzida por “sacudida” ou impacto, levando a hematomas subdural ou
subaracnóideo e a hemorragias retinianas; hemorragias retinianas, em menores de 03 (três)
anos, na ausência de lesões externas de TCE, são quase específicas de maus-tratos
(decorrem de forças de aceleração e desaceleração aplicadas na cabeça, como na
“síndrome do bebê sacudido”).
Conforme acontece em danos neurológicos de outras etiologias, as alterações de
consciência e as convulsões são os sinais clínicos mais frequentes, podendo ocorrer imediatamente
após o trauma ou após um período livre de sintomas.
348
Lesões Torácicas e Abdominais: Os traumatismos torácicos produzidos por maus-tratos são
pouco frequentes, podendo decorrer de compressão antero-posterior (“síndrome do bebê
sacudido”) ou de tração violenta do braço. As lesões secundárias a esse tipo de trauma podem ser
hematomas, contusão pulmonar, fraturas de costelas, esterno e clavícula, pneumotórax e
hemotórax. As lesões viscerais abdominais ocorrem em pequeno percentual nas crianças
maltratadas, sendo mais frequentes em crianças acima de 2 anos.
Pode-se perceber sinais sugestivos de lesão intra-abdominal, como hematomas intramural
(duodeno e jejuno) e retroperitoneal, bem como lesões de vísceras sólidas (fígado, pâncreas e
baço). É importante avaliar a possibilidade da existência de hemoperitônio, pneumoperitônio ou
obstrução intestinal (hematoma intramural).
Exames Complementares
• Coagulograma completo: Importante para o diagnóstico diferencial com coagulopatias nas
crianças que apresentam hematomas, equimoses e/ou petéquias.
[Link]-2 - DETERMINACAO DE TEMPO E ATIVIDADE DA PROTROMBINA (TAP);
[Link]-4 - DETERMINACAO DE TEMPO DE TROMBOPLASTINA PARCIAL
ATIVADA (TTP ATIVADA);
[Link]-0 - HEMOGRAMA COMPLETO.
• Devem ser realizados inicialmente os seguintes exames:
[Link]-6 - TESTE RÁPIDO DE GRAVIDEZ;
[Link]-4 - TESTE RÁPIDO PARA SÍFILIS;
[Link]-8 - TESTE RÁPIDO PARA DETECÇÃO DE INFECÇÃO PELO HIV;
[Link]-0 - TESTE RÁPIDO PARA DETECÇÃO DE HEPATITE C;
[Link]-4 - TESTE RÁPIDO PARA DETECÇÃO DE INFECÇÃO PELO HBV (HbsAg).
• Radiografias: Raio x completo do esqueleto deve ser feito nas suspeitas de maus-tratos
físicos em todas as crianças menores de 2 anos de idade e, em alguns casos, até os 6 anos
de idade. Acima desta idade, geralmente, bastam radiografias localizadas, de acordo com o
caso. A radiografia pode ser normal na fase aguda do trauma. Diante da suspeita de maus-
tratos, pode-se, portanto, repetir o estudo radiológico após duas semanas;
• Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética: Indicadas na exploração das
lesões intracranianas.
Maus-tratos Psicológicos: É o tipo de violência mais difícil de se detectar em sua forma isolada.
Por outro lado, costuma estar presente, concomitantemente, aos demais tipos de abuso.
Os sintomas e transtornos que aparecem nas crianças que sofrem maus-tratos psicológicos
não são específicos dessa forma de violência, podendo aparecer também em decorrência de
patologias de outras etiologias.
Podemos encontrar:
• Distúrbios do crescimento e do desenvolvimento psicomotor, intelectual, emocional e social;
349
• Labilidade emocional e distúrbios de comportamento, tais como: agressividade, passividade
e hiperatividade;
• Problemas psicológicos que vão desde a baixa autoestima, problemas no desenvolvimento
moral e dificuldades em lidar com a agressividade e a sexualidade;
• Distúrbios do controle de esfíncteres (enurese, escape fecal);
• Psicose, depressão, tendências suicidas. Sempre que existir indicação clínica e houver
possibilidade, deve-se pensar num acompanhamento psicológico, evitando problemas
futuros de adequação social da criança e do adolescente.
Abuso Sexual: Na maioria dos casos de abuso sexual, não se constatam lesões físicas evidentes.
Deve-se proceder a um exame físico completo, com atenção especial para áreas usualmente
envolvidas em atividades sexuais: boca, mamas, genitais, região perineal, nádegas e ânus.
Os sinais físicos a serem pesquisados são:
Hiperemia;
Edema;
Hematomas;
Escoriações;
Fissuras;
Rupturas;
Sangramentos;
Evidências de IST;
Gravidez.
Exames Complementares: Sempre que possível, realizar coleta de material que ajude a
comprovar o abuso, como pesquisa de sêmen, sangue e células epiteliais a qual pode ser feita
quando o abuso ocorreu há menos de 72 horas.
Ao indicar a obtenção de material para culturas e pesquisa sorológica de IST, considerar a
possibilidade de contato oral, genital ou retal, a incidência local de IST e a sintomatologia da criança.
16.2.2 Tratamento
Acolhimento:
Tratar a criança/adolescente e a família com respeito e atenção;
Conversar primeiro sobre assuntos diversos, podendo contar com apoio de jogos, desenhos,
livros e outros recursos;
Tratar como gostaria de ser tratado;
A criança/adolescente deve ser ouvida sozinha, com respeito e privacidade;
Utilizar as mesmas palavras que a criança para identificar as diferentes partes do corpo;
Não fazer promessas que você não possa cumprir, nem prometer guardar segredo antes de
saber o que será revelado;
Respeitar a singularidade de cada usuário;
Propiciar um ambiente adequado para expressão dos sentimentos e fatos ocorridos;
350
Escutar;
Dar atendimento humanizado;
Demonstrar sempre muita atenção e compreensão;
Lembrar sempre que a culpa não é da criança/adolescente;
Manter sigilo das informações;
Evitar a revitimização;
Não emitir juízo de valor;
Conduzir para o atendimento médico;
Ter conduta profissional frente à demanda do usuário, correspondendo às suas expectativas
e necessidades;
Deve ser realizado por toda a equipe.
Atendimento à Criança e ao Adolescente: Proteger a identidade da criança e do adolescente
abusados deve ser um compromisso ético profissional.
Portanto, essa situação deverá ser relatada somente às pessoas que irão tratar da
criança/adolescente. Ou seja, o nome verdadeiro deve ser divulgado para o menor número de
pessoas possível.
A consulta com a criança/adolescente deve ser um momento de privacidade, a fim de
favorecer a expressão de sentimentos; da situação de violência; sua relação com a família, amigos,
escola e outros.
Ressalta-se que o adolescente tem direito ao sigilo e à confidencialidade das informações.
No entanto, isso deve ser rompido nas situações previstas por lei, como nos casos de violência ou
de risco à vida, sendo, portanto, necessária a notificação ao Conselho Tutelar.
É relevante que o profissional deixe claro para o usuário a sua disponibilidade para escutá-
lo, sem fazer julgamentos, favorecendo o vínculo de confiança.
A família deve ser envolvida no atendimento, para que possa contribuir com o tratamento do
usuário, além de possibilitar uma melhor relação entre seus membros.
Em situações de violência é importante:
• Contatar imediatamente a família;
• Observar o relato e a atitude dos pais durante a consulta – que podem ser de aparente
preocupação e de extensiva colaboração com a equipe médica, mas percebe-se uma
ausência de angústia quanto à gravidade das lesões, o que não ocorre habitualmente com
os pais de crianças acidentadas;
• Informar, em linguagem apropriada, as graves consequências de maus-tratos e abuso
sexual para o desenvolvimento da criança/adolescente;
• Explicar claramente que a família poderá beneficiar-se de ajuda mútua;
• Acompanhar os desdobramentos da notificação;
• Se o agressor é alguém da família, não é conveniente informá-lo imediatamente. A criança
poderá sofrer riscos ainda maiores. Nesse caso, deve-se entrar em contato, de modo
estratégico, com membros não agressores, de preferência com indicação da criança;
351
• Orientar sobre a importância do tratamento para o agressor, se ele for da família;
• Refletir estratégias protetoras, pois a família tende a se situar, face ao sofrimento, também
como vítima;
• Orientar a família para evitar comentários sobre o ocorrido com vizinhos e/ou amigos, pois
a exposição gera nova violência à vítima.
Devemos evitar a revitimização: Revitimização é a repetição de atos de violência pelo agressor
ou a repetição da lembrança de atos de violência sofridos quando o relato do trauma necessita ser
repetido para vários profissionais; é uma forma comum de violência. Isso pode acarretar prejuízo
também para a justiça, pois a vítima, por cansaço, pode omitir fatos ou, por considerar que está
chamando a atenção, pode aumentar os acontecimentos.
Outras formas de revitimização é a peregrinação pelos serviços de saúde para receber
atendimento ou, quando esse atendimento é sem privacidade, expor a dor e sofrimento diante de
terceiros. Essa falta de sigilo pode estigmatizar a criança ou o adolescente como “abusada”,
agravando o trauma.
O acompanhamento da vítima por profissional de saúde favorece a interlocução
interinstitucional com consolidação da Rede, minimiza a revitimização, favorece o vínculo, contribui
para a adesão ao tratamento, entre outros benefícios.
Para a não revitimização, é importante evitar:
• Desconsiderar o sentimento da criança/adolescente;
• Falar frases como: “isso não foi nada”, “vai passar”, “não precisa chorar”;
• Excesso de zelo;
• Hostilidade;
• Culpar a criança/adolescente;
• Demonstrar surpresa, choro, horror (sinais de censura ou desaprovação);
• Frases de humor negro.
Perguntas que devem ser evitadas:
• As que implicam censura e participação ativa da criança/adolescente;
• Perguntas diretas (inquisitórias): por quê?
• Perguntas que obriguem à precisão de tempo para crianças pequenas: quando? É
importante associar sempre a festas comemorativas, como natal, páscoa, aniversários.
É necessário a Notificação Compulsória (SINAN) da suspeita de abuso sexual
conforme a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA).
O Ministério da Saúde instituiu a Portaria GM/MS n° 1.968, de 25 de outubro de 2001,
estabelecendo que os responsáveis técnicos de todas as entidades de saúde, integrantes ou
participantes do SUS, notifiquem aos Conselhos Tutelares da localidade os casos de suspeita ou
confirmação de maus-tratos contra crianças e adolescentes atendidos nessas entidades.
As Unidades de Saúde, o Programa Saúde da Família e o Programa de Agente Comunitário
de Saúde, dentro das suas especificidades na atenção primária, também devem estar preparados
para notificar, atender e monitorar os casos encaminhados pelos demais serviços de saúde.
352
A obrigatoriedade da Notificação está assegurada também pelo Conselho Federal de Medicina e
por alguns Conselhos Regionais.
Prevenção da violência na família e na comunidade: Prevenir a violência contra a criança e ao
adolescente é possível e quanto mais cedo se inicia a prevenção, maiores são as chances de
proteger os membros da família deste problema. Desde o pré-natal, e possível uma atuação
preventiva, trabalhando a aceitação de gravidez não planejada ou em decorrência de violência e as
expectativas em relação ao bebe com a mãe, o pai e os familiares. Promover vínculos afetivos e de
cuidado e a melhor via de prevenção nessa fase.
Tão logo seja possível, e importante proporcionar que as famílias saibam reconhecer as
fases de desenvolvimento e as demandas do bebê, ajudando assim a diminuir frustrações ou a
dimensionar de forma mais realista as expectativas sobre a capacidade de entendimento da criança
e a traduzir melhor seus comportamentos. O mesmo vale para as fases posteriores de seu
desenvolvimento.
Essas informações são especialmente importantes para os pais de crianças e adolescentes
com deficiência, que muitas vezes não atendem as expectativas dos mesmos, demandam mais
trabalho e atenção e, por isso, se tornam mais vulneráveis as várias formas de expressão da
violência.
Outra forma de prevenir a violência é identificar as situações familiares que podem gerar
maior vulnerabilidade as práticas violentas, pelas dificuldades e desgaste que ocasionam. Situações
como perda de emprego, uso abusivo de álcool e outras drogas, separação conjugal, morte de um
de seus membros requerem atenção redobrada a família no sentido de ajudá-la a lidar com tais
adversidades e a minimizar a busca da violência como forma de enfrentá-las.
Há ainda a possibilidade de fazer prevenção interrompendo o ciclo de violência, ou seja,
evitando que as violências que já ocorreram voltem a acontecer. Inicia-se pela adoção de medidas
preventivas a ação violenta, demonstrando com a necessária firmeza que crianças e adolescentes
são sujeitos de direitos e, portanto, a sociedade não tolera que sejam alvos de violações.
Nessa perspectiva, a ação dos profissionais ganha um papel crucial e para isso e
indispensável que a Secretaria de Saúde proporcione a educação permanente dos técnicos que
atuam nos serviços.
A prevenção da violência também pode ser feita ao se buscar reduzir os efeitosdeletérios e
suas consequências. Espera-se do profissional habilidades para analisar cada caso e construir junto
a família e a equipe de sua unidade um projeto terapêutico para a criança ou adolescente e para o
autor da agressão.
Finalmente, estratégias lançadas no espaço do território também se mostram eficientes.
Destacam-se as voltadas para a organização de redes e de mobilização da comunidade (centros
comunitários) e pessoas (vizinhos, amigos outros familiares), tendo como principal meta seu
fortalecimento; a utilização de mentores (orientadores) para as crianças e adolescentes em situação
de risco; e a promoção de atividades de recreação.
353
Algumas atitudes preventivas dos profissionais de saúde frente às situações de violência
familiar:
• Orientar as famílias sobre a ressignificação das relações familiares em prol da tolerância e
na formação de vínculos protetores;
• Acompanhar e apoiar as famílias no processo de construção de novos modos de agir e de
educar as crianças e adolescentes; buscar apoio de outros profissionais, quando julgar
pertinente; e
• Articular as ações desenvolvidas no serviço com a rede de cuidados e proteção social no
território.
A violência contra a mulher refere-se a qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que
cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública
como na esfera privada.
Em 70% dos casos, o agressor é uma pessoa com quem ela mantém ou manteve algum
vínculo afetivo. As agressões são similares e recorrentes, acontece nas famílias, independente de
raça, classe social, idade ou de orientação sexual de seus componentes.
354
profissional diante das evidências deve agir de maneira cuidadosa, tentando estabelecer um diálogo
e possibilitando assim um canal de ajuda.
A visita domiciliar permite a observação mais adequada para identificar, com mais
segurança, a situação de violência.
A equipe deve estar preparada para a identificação de qualquer tipo de lesão em cabeça ou
pescoço, considerando que a violência praticada contra a mulher possa estar restrita muitas vezes
à face ou à boca. As manifestações clínicas da violência podem ser agudas ou crônicas, físicas,
mentais ou sociais.
Indicadores de Violência contra Mulher:
Transtornos crônicos, vagos e repetitivos;
Entrada tardia no pré-natal;
Companheiro muito controlador; reage quando separado da mulher;
Infecção urinária de repetição (sem causa secundária);
Dor pélvica crônica;
Síndrome do intestino irritável;
Transtornos na sexualidade;
Complicações em gestações anteriores, abortos de repetição;
Depressão;
Ansiedade;
Dor crônica em qualquer parte do corpo ou mesmo sem localização precisa;
Dor que não tem nome ou lugar;
História de tentativa de suicídio;
Lesões físicas que não se explicam de forma adequada;
Fibromialgia.
Avaliação Física
Lesões físicas agudas: inflamações, queimaduras, contusões, hematomas e fraturas, incluindo
face, boca e dentes, qualquer tipo de lesão em cabeça ou pescoço provocadas por uso de armas,
socos, pontapés, tentativas de estrangulamento e sacudidas.
Agressões sexuais: lesões das mucosas oral, anal e vaginal, manifestando-se com inflamação,
irritação, arranhões, edema, perfuração ou ruptura. Infecções sexualmente transmissíveis
(IST/AIDS), infecções urinárias e/ou vaginais e gravidez.
Manifestações tardias: dor no baixo ventre ou infecções, transtornos digestivos, como falta de
apetite, náuseas, vômitos, cólicas e dores de estômago, perda de peso, dores de cabeça e dores
musculares generalizadas, lesões ou manifestações por IST em região de boca.
Stress pós-traumático: insônia, pesadelos, falta de concentração e irritabilidade.
Alterações psicológicas: choque, crise de pânico, ansiedade, medo, confusão, fobias, auto-
reprovação, sentimento de inferioridade, de fracasso e insegurança, sentimento de culpa, baixa
355
auto-estima, comportamento auto-destrutivo, uso de álcool e drogas, depressão, desordens
alimentares/obesidade, tentativas de suicídio e disfunções sexuais (vaginismo).
Alterações sociais: Isolamento, mudanças frequentes de emprego ou moradia.
16.3.2 Tratamento
Acolhimento:
• O atendimento deve ser realizado preferencialmente por uma mulher;
• Oferecer atendimento humanizado;
• Tratar a usuário como gostaria de ser tratado;
• Tratar a usuária com respeito e atenção;
• Disponibilizar tempo para uma conversa tranquila;
• Manter sigilo das informações;
• Proporcionar privacidade;
• Notificar o caso;
• Colocar-se no lugar da usuária;
• Evitar a revitimização;
• Não fazer perguntas indiscretas;
• Não emitir juízo de valor;
• Afastar culpas;
• Validar o sofrimento;
• Ter conduta profissional frente à demanda do usuário, correspondendo às suas expectativas
e necessidades.
Devemos evitar a revitimização: Revitimização é a repetição de atos de violência pelo agressor
ou a repetição da lembrança de atos de violência sofridos quando o relato do trauma necessita ser
repetido para vários profissionais; é uma forma comum de violência. Isso pode acarretar prejuízo
também para a justiça, pois a vítima, por cansaço, pode omitir fatos ou, por considerar que está
chamando a atenção, pode aumentar os acontecimentos.
Outras formas de revitimização é a peregrinação pelos serviços de saúde para receber
atendimento ou, quando esse atendimento é sem privacidade, expor a dor e sofrimento diante de
terceiros. Essa falta de sigilo pode estigmatizar a vítima como “abusada”, agravando o trauma.
O acompanhamento da vítima por profissional de saúde favorece a interlocução
interinstitucional com consolidação da Rede, minimiza a revitimização, favorece o vínculo, contribui
para a adesão ao tratamento, entre outros benefícios.
Para a não revitimização, é importante evitar:
• Desconsiderar o sentimento da vítima;
• Falar frases como: “isso não foi nada”, “vai passar”, “não precisa chorar”;
• Excesso de zelo;
• Hostilidade;
• Culpar a vítima;
356
• Demonstrar surpresa, choro, horror (sinais de censura ou desaprovação);
• Frases de humor negro.
No Brasil, atualmente, são 19 milhões de idosos e até 2020 essa faixa etária será a maioria
da população brasileira.
Com o Estatuto do Idoso, no ano de 2003, começa o processo de visibilidade de sua
problemática, a partir da exigência de seus direitos. No entanto, a Lei ainda não foi absorvida pela
população.
É na terceira idade que as doenças são mais frequentes, o que demanda mais cuidados por
parte dos familiares e, por falta de manejo, sobrecarrega seus cuidadores, que por intolerância,
estresse ou falta de vínculo afetivo maltratam esses idosos. É importante buscar alternativas no
cuidado, bem como na divisão de tarefas entre várias pessoas para não sobrecarregar o cuidador
ou cuidadora.
Estudos mostram que milhões de idosos no mundo são vítimas diárias de violência
decorrentede golpes com objetos, pequenos empurrões, que podem resultar em fraturas,
queimaduras e ferimentos.
Grande parte dessa violência física é cometida por familiares, mas o idoso não denuncia por
vergonha, culpa pelo fracasso das relações familiares, além do medo de aumentar as hostilidades
ou de perder o “amor” da família. Ocorre também a omissão do acontecimento pela vítima por
aceitação da violência como parte natural das relações familiares.
Outras formas de violência são a negligência com a saúde, com a alimentação e higiene; a
violência psicológica; a violência sexual e o abuso financeiro, pois a vítima é presa fácil pela
sua fragilidadetanto física como emocional.
O idoso que aparentemente sofre mais violência é, na sua maioria, do sexo feminino,
solteira/ viúva, tem 75 anos ou mais, baixa escolaridade e apresenta alguma doença neurológica,
reumática ou psiquiátrica.
A violência parece revelar ao idoso o sentimento de incapacidade em lidar com os filhos, os
netos, o(a) companheiro(a) e em enfrentar o mundo que o cerca. Isso o leva a solidão e ao
isolamento crescente. Portanto, as marcas da agressão contra o idoso não são apenas físicas, mas,
sobretudo, psicológicas.
357
A pobreza: pode levar a falta de cuidados básicos com a alimentação e/ou higiene, pois o
idoso pode ficar sozinho em casa porque sua família precisa trabalhar para comprar seus
remédios;
Quando possui auxílio de apenas uma pessoa. Isso acontece porque os familiares não
podem ou não querem participar do cuidado;
A procura de cuidados médicos constantes;
Quando há repetidas ausências às consultas agendadas;
Explicações improváveis sua ou de seus familiares para determinadas lesões e traumas;
03 (três) ou mais quedas por ano podem ser indicador de existência de violência.
16.4.2 Tratamento
Acolhimento:
Oferecer atendimento humanizado;
Deve ser realizado por toda a equipe;
Tratar o usuário como gostaria de ser tratado;
Tratar o usuário com respeito e atenção;
Disponibilizar tempo para uma conversa tranqüila;
Manter sigilo das informações;
Proporcionar privacidade;
Notificar o caso;
Colocar-se no lugar do usuário;
Evitar a revitimização;
Não fazer perguntas indiscretas;
Não emitir juízo de valor;
Afastar culpas;
Validar o sofrimento;
Ter conduta profissional frente à demanda do usuário, correspondendo às suas expectativas
e necessidades.
Procedimento sem Caso de Negligência:
• Fazer exame clínico;
• Realizar anamnese (com quem reside, se é dependente de cuidados, se tem vínculo afetivo
com a família etc);
• Preencher e dar andamento à Ficha Única de Notificação;
• Encaminhar uma via da Notificação e o usuário idoso à Delegacia de Polícia (caso
necessário);
• Encaminhar uma via ao Serviço Social ou a sua Unidade de Saúde para intervenção;
• Notificar ao CREAS.
358
Procedimentos em Caso de Violência Patrimonial:
• Realizar anamnese (com quem reside, se é dependente de cuidados, se tem vínculo afetivo
com a família, quem controla suas finanças etc);
• Observar se a aposentadoria ou fonte de renda do idoso está sendo utilizada indevidamente
por familiares ou cuidadores (ex.: a falta de uso da medicação, de alimentação ou vestuário
pela falta de recursos financeiros);
• Preencher e dar andamento a Ficha Única de Notificação;
• Encaminhar uma via da Notificação e o usuário idoso à Delegacia de Polícia (caso
necessário);
• Encaminhar uma via ao Serviço Social ou ao Programa de Prevenção e Atendimento às
Vítimas de Violência – PAV de sua Unidade de Saúde para intervenção;
• Notificar ao CREAS;
• Notificar ao Ministério Público.
359
17 SEXUALIDADE, DISFORIA DE GÊNERO E SAÚDE MENTAL DA POPULAÇÃO DE
LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS (LGBT)
360
17.1 Conceitos
361
se identifiquem como homossexuais (ou lésbicas ou gays), isso não é constante. Por exemplo:
homens que fazem sexo com homens (HSHs) diz respeito àqueles que têm atividade sexual com
outros homens, independentemente, da forma como se identificam; muitos optam por não se
identificarem como homossexuais. O mesmo se aplica a mulheres que fazem sexo com mulheres
(MSMs).
Identidade sexual: é a percepção de uma pessoa como pertencente a determinado grupo que
abrange comportamentos sexuais afins. A identidade sexual é uma característica pessoal
independente de expressão ou de identidade de gênero.
Heterossexual: identificação com o grupo de pessoal que têm desejo por pessoas de outro gênero.
Homossexual/gay/lésbica: identificação com o grupo de pessoas que têm desejo por pessoas do
mesmo gênero.
Bissexual: identificação com o grupo de pessoas que têm desejo por pessoas de ambos os
gêneros.
362
Meninas masculinas e meninos femininos, em muitos ambientes, são recebidos com
rechaço, com recriminação, com temor e com isolamento, os quais ocasionam os sintomas
referidos.
Sendo assim, o atendimento em saúde mental a essa população na infância e na
adolescência deve oferecer apoio e educação a familiares e à escola para o desenvolvimento
de um ambiente seguro, visando à prevenção e à promoção de saúde mental.
363
Sabe-se que a discriminação aumenta o sofrimento da população LGBT, tornando
homossexuais, bissexuais e transexuais mais vulneráveis a desenvolver transtornos mentais e
ideação e tentativas de suicídio.
Essas pessoas também estão expostas a uma série de outras doenças, agravadas pela
dificuldade que encontram em explicitar suas queixas aos profissionais de saúde.
Pontos de vista preconceituosos ainda são comuns no Brasil. Soma-se a eles o
despreparo de profissionais de saúde para dialogar sobre gênero e sobre sexualidade com
seus usuários, resultando no constante pressuposto de que todos são cissexuais e
heterossexuais.
Não são raras atitudes inadequadas por profissionais de saúde, como o não reconhecimento
do nome social de pessoas trans, a suposição de que o nome ou o sexo informado no documento
seria um engano e o uso público do nome atribuído ao nascimento e da flexão de gênero
correspondente, a despeito da vontade dos usuários. Isso fere o Decreto nº 8.727, de 28 de abril de
2016 em seu artigo 2º “Os órgãos e as entidades da administração pública federal direta, autárquica
e fundacional, em seus atos e procedimentos, deverão adotar o nome social da pessoa travesti ou
transexual, de acordo com seu requerimento e com o disposto neste Decreto”. Ou seja, se o usuário
preferir ser identificado pelo nome social, isso deverá ser respeitado.
Tais atitudes ocasionam avaliações clínicas errôneas e potencialmente nocivas. Além disso,
a idéia de que se trataria de uma fase ou de que todos os indivíduos desejam pessoas do mesmo
sexo desvaloriza o indivíduo LGBT, ratificando estereótipos e o desencorajando a se expressar
abertamente com o profissional de saúde.
A homofobia e a transfobia, em suas diversas formas, influenciam o autocuidado e a saúde
dessas populações. Homossexuais e pessoas trans, especialmente aqueles e aquelas que se
sentem menos confortáveis com a sua orientação sexual e com a sua identidade de gênero,
tendem a protelar a busca por atendimento à saúde.
Possíveis soluções incluem a capacitação permanente dos profissionais de saúde, bem
como o estudo de materiais que proporcionem empatia com as pessoas LGBT.
364
A desconformidade do sexo atribuído ao nascimento à identidade de gênero não é uma
doença. No entanto, o sofrimento causado pela contradição entre a identidade de gênero e a
aparência corporal – disforia de gênero– tem forte impacto negativo na saúde e no bem-estar
das pessoas trans.
Da mesma forma, comportamento ruminativo pode ser um modo de expressão do
sofrimento de pessoas transexuais e de outras que não vivenciam livremente sua sexualidade, em
função da homofobia e de formas semelhantes de preconceito. A ruminação tem como um de
seus sintomas o humor negativo persistente.
Estresse ou eventos adversos ativam crenças negativas sobre si, que podem aparecer por
meio da ruminação, levando a humor deprimido e síndrome depressiva.
A ruminação está, sobretudo, relacionada a estilos cognitivos mal adaptativos, incluindo
estilos de inferência e atribuição negativa, atitudes disfuncionais, desesperança, pessimismo,
autocrítica, baixo controle, dependência, sociotropia, carência e neuroticismo, mesmo após controle
para sintomas depressivos.
Pode aumentar e prolongar a angústia por meio de retroalimentação, particularmente na
depressão, a exemplo de aumento do pensamento negativo, da falha no processo metacognitivo e
do enfraquecimento do suporte social.
Pesquisas demonstram que mulheres ruminam mais que homens. Além disso, altos níveis
de ruminação estão associados com baixa autoestima. Mesmo não havendo estudos específicos
com a população LGBT, a ruminação pode representar um mecanismo pelo qual se dá a relação
entre exposição ao estresse e o início do transtorno de internalização, visto que tanto ruminação
quanto eventos traumáticos predizem início de depressão e de ansiedade e que a região
cerebral ativada diante de uma rejeição social é a mesma ativada durante a autorreflexão.
Depressão, carência de suporte social e situações de abuso físico e emocional de cunho
homofóbico e transfóbico são vivenciadas desde a infância por pessoas LGBT.
Tais experiências são relevantes na avaliação da saúde mental e no entendimento dos
aspectos negativos internalizantes da população LGBT, pois:
Interferem negativamente na autoestima;
Causam sentimentos de abandono;
Ocasionam estigma social;
Culminam, por vezes, em transtornos mentais, como depressão.
Estudos apontam que homossexuais apresentam índices mais elevados de
sofrimento psicológico e relatam maior sentimento de angústia do que heterossexuais.
Para a população LGBT, estresse social, opressão e deficiência da rede de apoio são os
fatores mais importantes para o risco de transtorno depressivo, que, por sua vez, prediz
comportamento suicida, ansiedade, uso de substâncias e somatização.
365
17.4.1 Ansiedade
Transtornos de ansiedade são mais comuns em pessoas LGBT do que em
heterossexuais e em cissexuais. Entre mulheres, bissexuais apresentam maior prevalência,
sendo que lésbicas e mulheres com incerteza acerca de sua orientação sexual também apresentam
mais ansiedade que as heterossexuais.
Homens apresentam risco semelhante: há mais transtornos de ansiedade em bissexuais do
que em homossexuais e em homens em dúvida quanto à sua orientação sexual. Transexuais, por
sua vez, apresentam mais transtornos de ansiedade que não transexuais. A literatura sugere que a
maior incidência de ansiedade entre bissexuais se deva a estereótipos invasivos e a atitudes
negativas sobre bissexualidade, não apenas entre heterossexuais, mas também entre lésbicas e
gays, resultando em duplo estigma sobre bissexuais.
No suicídio, como declarações de óbito não incluem orientação sexual e identidade de
gênero diferente do sexo atribuído ao nascer, não há estatística oficial ou modo confiável de calcular
taxas de suicídio na população LGBT.
Metanálises indicam risco duas vezes e meia maior de tentativa de suicídio em
pessoas LGBT. O risco é maior para homens (quatro vezes) que para mulheres (duas vezes).
Em relação ao suicídio, homens cissexuais apresentam mais tentativas e mulheres, mais
ideação, ao contrário do que ocorre com heterossexuais.
Há pouca informação sobre pessoas transexuais, mas até um terço relata tentativa de
suicídio, especialmente na adolescência ou pouco depois.
Adolescentes LGBT relatam duas vezes mais ideação e tentativas de suicídio. Ao que
parece, jovens que se identificam como homossexuais tentam mais suicídio do que os que relatam
atração ou atividade com parceiros do mesmo sexo, mas se identificam como heterossexuais.
Jovens tentam mais suicídio que adultos mais velhos, provavelmente em função da idade
com que reconhecem e tornam pública sua orientação sexual.
O risco de suicídio é maior para pessoas LGBT com transtornos mentais, mas outros
estressores são importantes. Especialmente significativa é a violência na escola quando a pessoa
não se enquadra nos estereótipos de gênero ou orientação não heterossexual em idade precoce.
Assumir publicamente uma orientação sexual LGBT está associado, inicialmente, a risco
maior de tentativa de suicídio, mas, posteriormente, a maior apoio social e a menos ideação suicida.
Os pais podem servir como fonte de apoio ou de estresse. Reações negativas por
parte dos familiares à orientação sexual de jovens aumentam o risco de uso de substâncias,
de ideação e de comportamento suicida.
Profissionais de saúde devem oferecer um ambiente seguro para avaliação de risco de
suicídio da população LGBT, além de incentivar o apoio de familiares e de amigos e a prevenção
de violência.
366
17.5 Disforia de Gênero
367
9. Desejo intenso por características sexuais primárias e/ou secundárias compatíveis com o
gênero experimentado.
B. A condição está associada a sofrimento clinicamente significativo ou a prejuízo no funcionamento
social, acadêmico ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo.
Especificar se:
Com um transtorno do desenvolvimento sexual (p. ex., distúrbio adrenogenital congênito, como
255.2 [E25.0] hiperplasia adrenal congênita ou 259.50 [E34.50] síndrome de insensibilidade
androgênica).
Nota para codificação: Codificar tanto o transtorno do desenvolvimento sexual como a disforia de
gênero.
368
confirmando o gênero desejado (p. ex., penectomia, vaginoplastia em um gênero masculino ao
nascimento; mastectomia ou faloplastia em um gênero feminino ao nascimento).
Indivíduos com disforia de gênero apresentam incongruências acentuadas entre o
gênero que lhes foi designado (em geral ao nascimento, conhecido como gênero de
nascimento) e o gênero experimentado/expresso. Essa discrepância é o componente central
do diagnóstico.
Deve haver também evidências de sofrimento causado por essa incongruência. O gênero
experimentado pode incluir identidades de gêneros alternativas além dos estereótipos binários. Em
consequência, o sofrimento não se limita ao desejo de simplesmente pertencer ao outro gênero,
podendo incluir também o desejo de ser de um gênero alternativo, desde que diferente do
designado.
17.6 Tratamento
A terapêutica recomendada para essa população tem sido o fomento para que usuários
explorem seu gênero e encontrem uma identidade confortável para si.
Para as pessoas trans, o fundamental é encontrar recursos – tais como
aconselhamento, terapia hormonal e outros procedimentos médicos e apoio social,
necessários para que expressem livremente sua identidade de gênero, reduzam a
discriminação e sejam socialmente reconhecidas. Esse processo pode ou não envolver
modificações corporais e de expressão de gênero.
O tratamento médico pode incluir modificações do corpo por meio do uso de hormônios ou
de cirurgias, e tais procedimentos são eficazes no alívio do sofrimento que as pessoas trans
vivenciam. Igualmente relevante é o aconselhamento para modificação de documentos civis.
No Brasil, pessoas diagnosticadas com transexualismo a partir dos critérios
estabelecidos na CID-10 podem acessar procedimentos de redesignação sexual pelo
Sistema Único de Saúde (SUS).
O processo é reconhecido pelo CFM pela Resolução nº 1.955, de 2010, e, atualmente, é
regulado pela Portaria MS/GM nº 2.803, de 19 de novembro de 2013, que redefine e amplia o
Processo Transexualizador no Sistema Único de Saúde (SUS).
Necessidade de habilitação específica do estabelecimento de saúde para oferecer esse
atendimento;
Acompanhamento por equipe multiprofissional, incluindo médico psiquiatra,
endocrinologista, enfermeiro, psicólogo e assistente social;
Diagnóstico conforme a CID-10;
Idade mínima de 18 anos para acompanhamento clínico ou pré-operatório, a ser realizado
por, no mínimo, dois anos;
18 anos para terapia hormonal;
369
21 anos para cirurgias.
Cabe ressaltar que a Portaria MS/GM nº 2.803, de 19 de novembro de 2013, ampliou o
acesso a esses procedimentos a pessoas trans que não necessariamente buscam cirurgias de
redesignação genital, mas optam apenas por uso de hormônios ou por colocação de próteses, por
exemplo.
Consoante o Parecer nº 08/2013 do CFM, alguns centros têm oferecido atendimento a
crianças e a adolescentes em caráter de pesquisa. Tem-se observado que o acesso aos
procedimentos cirúrgicos está condicionado ao diagnóstico de doença mental, o qual tem efeito
estigmatizante sobre as pessoas trans.
Muitos desses indivíduos não experimentam seu gênero de maneira angustiante ou
incapacitante, afirmando que seu sofrimento vem do não reconhecimento de sua identidade.
Portanto, é fundamental o reconhecimento da identidade de gênero das pessoas trans
como legítima como parte da diminuição desse sofrimento.
Além disso, a comunidade científica internacional tem buscado equacionar a redução do
estigma com a necessidade de acesso a saúde pela população trans.
Alguns autores, alternativamente, preferem referir-se à disforia de gênero como uma
condição transitória, que nasce do mal-estar causado pela falta de acordo entre a identidade
de gênero e as características sexuais primárias e secundárias. Esse é o caso do DSM-5. O
termo disforia de gênero tem a vantagem de se referir a uma forma de sofrimento que pode ser
remediada.
Contrariamente ao transtorno da identidade de gênero, pode oferecer um mecanismo para
atuação dos serviços de saúde sem impor um estigma permanente às pessoas.
Além disso, estão em discussão outras classificações a serem incorporadas na CID-11 que
pretendem deixar de classificar essa condição como um transtorno mental.
370
18 SÍNDROME DE BURNOUT / ESGOTAMENTO
A denominação vem do inglês “to burn out” (queimar por completo), como aquilo que deixou
de funcionar por absoluta falta de energia.
Freudenberger (1974) criou a expressão staff burnout para descrever uma síndrome
composta por exaustão, desilusão e isolamento primeiramente em trabalhadores da saúde
mental (médicos, psicólogos, técnicos de enfermagem e enfermeiros).
O burnout foi reconhecido como um risco ocupacional para profissões que envolvem
cuidados com saúde, educação e serviços humanos.
No Brasil, o Decreto nº 3.048, de 6 de maio de 1999, aprovou o Regulamento da Previdência
Social e, em seu Anexo II, trata dos Agentes Patogênicos causadores de Doenças Profissionais.
O grupo V da Classificação Internacional das Doenças – CID-10 – cita a “Sensação de Estar
Acabado” (“Síndrome de Burnout”, “Síndrome do Esgotamento Profissional”) como sinônimos do
Burnout, que, na CID-10, recebe o código Z73.0.
Em estudo de equipe pertencente à OMS, considerou o burnout como uma das principais
doenças dos europeus e americanos, ao lado do diabetes e das doenças cardiovasculares.
Em relação à população geral, pouco se sabe sobre a prevalência do burnout. Atinge em
maior número membros da segurança pública, da saúde pública e da educação.
371
Falta de confiança, respeito e consideração entre os membros de uma equipe;
Comunicação ineficiente;
Impossibilidade de ascender na carreira, de melhorar sua remuneração, de reconhecimento
de seu trabalho, etc;
O ambiente físico e seus riscos, incluindo calor, frio e ruídos excessivos ou iluminação
insuficiente, pouca higiene, alto risco tóxico e até de vida;
Acúmulo de tarefas por um mesmo indivíduo;
Convívio com colegas afetados pela síndrome.
Fatores de Riscos Individuais:
Padrão de personalidade: indivíduos competitivos, esforçados, com excessiva
necessidade de controle das situações, dificuldade em tolerar frustração;
Lócus de controle externo: consideram que suas possibilidades e acontecimentos de vida
são consequentes à capacidade de outros, à sorte ou ao destino;
Superenvolvimento: sujeitos empáticos, sensíveis, humanos, com dedicação; profissional,
altruístas, obsessivos, entusiastas, suscetíveis a se identificarem com os demais;
Indivíduos pessimistas: costumam destacar os aspectos negativos, prevêem insucesso,
sofrendo por antecipação;
Indivíduos perfeccionistas: são bastante exigentes consigo mesmos e com os outros, não
tolerando erros e dificilmente se satisfazendo com os resultados das tarefas realizadas;
Indivíduos com grande expectativa e idealismo em relação à profissão: podem deixar
de ser realistas, tendo grandes chances de se decepcionarem. Se associado ao otimismo,
pode levar a baixos índices de burnout;
Indivíduos controladores: são inseguros, preocupam-se excessivamente, têm dificuldade
em delegar tarefas e em trabalhar em grupo;
Indivíduos passivos: mantêm-se na defensiva e tendem à evitação diante das dificuldades;
Gênero: as mulheres apresentam maior pontuação em exaustão emocional; e os homens,
em despersonalização;
Nível educacional: indivíduos com nível mais elevado;
Estado civil: maior risco em solteiros, viúvos ou divorciados.
Fatores de Riscos Laborais:
Sobrecarga;
Baixo nível de controle das atividades ou acontecimentos no próprio trabalho;
Baixa participação nas decisões sobre mudanças organizacionais;
Expectativas profissionais;
Sentimentos de injustiça e de iniquidade nas relações laborais;
Trabalho por turnos ou noturno;
Precário suporte organizacional e relacionamento conflituoso entre colegas;
Relação muito próxima e intensa do trabalhador com as pessoas a que deve atender;
responsabilidade sobre a vida de outrem;
372
Conflitos de papel:
Conjunto de funções, expectativas e condutas que uma pessoa deve desempenhar
em seu trabalho.
Ambiguidade de papel:
Normas, direitos, métodos e objetivos pouco delimitados ou claros por parte da
organização.
Fatores de Riscos Sociais:
Falta de suportes social e familiar: impede o indivíduo de contar com colegas, amigos de
confiança e familiares;
Manutenção do prestígio social em oposição à baixa salarial que envolve determinada
profissão: o indivíduo busca vários empregos, surgindo sobrecarga de trabalho e,
consequentemente, pouco tempo para descanso e lazer, para atualização profissional,
levando-o à insatisfação e à insegurança nas atividades desempenhadas;
Valores e normas culturais.
Sintomas Físicos:
Fadiga constante e progressiva;
Dores musculares ou osteomusculares (na nuca e ombros; na região das colunas cervical e
lombar);
Distúrbios do sono;
Cefaleias, enxaquecas;
Perturbações gastrointestinais (gastrites até úlceras);
Imunodeficiência com resfriados ou gripes constantes, com afecções na pele (pruridos,
alergias, queda de cabelo, aumento de cabelos brancos);
Transtornos cardiovasculares (hipertensão arterial, infartos, entre outros);
Distúrbios do sistema respiratório (suspiros profundos, bronquite, asma);
Disfunções sexuais (diminuição do desejo sexual, dispareunia/anorgasmia em mulheres,
ejaculação precoce ou impotência nos homens);
Alterações menstruais nas mulheres.
Sintomas Psíquicos:
Falta de concentração;
Alterações de memória (evocativa e de fixação);
Lentificação do pensamento;
Sentimento de solidão;
Impaciência;
Sentimento de impotência;
Labilidade emocional;
Baixa autoestima;
Desânimo;
Agressividade;
373
Dificuldade para relaxar e aceitar mudanças;
Perda de iniciativa;
Consumo de substâncias (álcool, café, fumo, tranquilizantes, substâncias ilícitas);
Comportamento de alto risco;
Depressão; Ansiedade/Pânico; Ideação suicida.
Consequências do Burnout:
A instituição tem um aumento em seus gastos (tempo, dinheiro) com a consequente
rotatividade de funcionários acometidos pelo burnout, assim como com o absenteísmo
destes;
Ocorre diminuição na qualidade do trabalho por mau atendimento, procedimentos
equivocados, negligência e imprudência;
A predisposição a acidentes aumenta devido a faltas de atenção e concentração;
O abandono psicológico e físico do trabalho pelo indivíduo acometido por burnout leva a
prejuízos de tempo e dinheiro para o próprio indivíduo e para a instituição que tem sua
produção comprometida;
O indivíduo acometido por burnout pode provocar distanciamento dos familiares, até filhos e
cônjuge.
374
18.3 Questionário Preliminar de Identificação da Síndrome de Burnout
12 Não sinto mais tanto amor pelo meu trabalho como antes
RESULTADOS
375
Possibilidade de desenvolver Burnout, procure trabalhar as recomendações de
De 21 a 40 pontos
prevenção da Síndrome.
Fase inicial da Burnout, procure ajuda profissional para debelar os sintomas e
De 41 a 60 pontos garantir, assim, a qualidade no seu desempenho profissional e a sua qualidade de
vida.
A Burnout começa a se instalar. Procure ajuda profissional para prevenir o
De 61 a 80 pontos
agravamento dos sintomas.
Você pode estar em uma fase considerável da Burnout, mas esse quadro é
De 81 a 100
perfeitamente reversível. Procure o profissional competente de sua confiança e
pontos
inicie o quanto antes o tratamento.
Atenção: Este instrumento é de uso informativo apenas e não deve substituir o diagnóstico realizado por
médico ou psicoterapeuta de sua preferência e confiança.
Fonte: Benevides-Pereira, 2001.
376
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52. BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria nº 1.020, de 29 de maio de 2013.
Institui as diretrizes para a organização da Atenção à Saúde na Gestação de Alto Risco e define
os critérios para a implantação e habilitação dos serviços de referência à Atenção à Saúde na
Gestação de Gestação de Alto Risco, incluída a Casa de Gestante, Bebê e Puérpera (CGBP),
em conformidade com a Rede Cegonha. Brasília – DF: 2013.
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Gestação de Alto Risco
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ANEXO C – CALOCUS Instrument
402
403