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Livro

O protagonista, Echo, se sente solitário em sua vida comum até que um portal o leva a um mundo mágico, onde, apesar da novidade, ele ainda se sente deslocado. Ao encontrar Ária, uma elfa que o acompanha sem tentar consertá-lo, ele começa a experimentar um novo tipo de conexão humana. O romance se desenvolve lentamente, mostrando que a verdadeira descoberta não é uma fuga da solidão, mas a aceitação de ser visto e compreendido.

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marcelo1928amado
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O protagonista, Echo, se sente solitário em sua vida comum até que um portal o leva a um mundo mágico, onde, apesar da novidade, ele ainda se sente deslocado. Ao encontrar Ária, uma elfa que o acompanha sem tentar consertá-lo, ele começa a experimentar um novo tipo de conexão humana. O romance se desenvolve lentamente, mostrando que a verdadeira descoberta não é uma fuga da solidão, mas a aceitação de ser visto e compreendido.

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Sinopse:

Ele nunca soube exatamente quando começou a se sentir sozinho. A


solidão simplesmente se tornou parte da rotina, como acordar cedo,
estudar, voltar para casa e repetir tudo no dia seguinte. Um garoto nerd,
discreto, vivendo uma vida comum demais para ser notada e silenciosa
demais para ser compartilhada.
O portal surge sem aviso, como surgem as mudanças que ninguém
pede. Ao atravessá-lo, ele descobre um mundo quase igual ao seu —
as mesmas ruas, os mesmos prédios, mas atravessados por magia.
Ainda assim, a sensação é familiar: mesmo cercado pelo extraordinário,
ele continua se sentindo deslocado.
Até encontrar ela.
A garota não o entende de imediato, nem tenta consertá-lo. Apenas
caminha ao seu lado. Com o tempo, entre conversas simples,
momentos de medo e pequenas escolhas, algo começa a nascer. Não
um amor grandioso, mas um sentimento lento, feito de cuidado e
reconhecimento — como se, pela primeira vez, alguém o enxergasse de
verdade.
Enquanto aprende a sobreviver naquele mundo, ele também aprende a
existir. E percebe que o portal não o levou para longe de sua vida, mas
para mais perto dela. No fim, o romance não é uma fuga da solidão,
mas a prova de que até as pessoas mais invisíveis podem ser
encontradas.
Sobre o autor:
Cristofer tem 15 anos e é do Rio Grande do Sul. Desde cedo, encontrou
na escrita uma forma de dar voz a pensamentos que nem sempre
cabem em conversas comuns. Observador e imaginativo, gosta de
explorar temas como solidão, identidade, sentimentos silenciosos e a
busca por pertencimento.
Influenciado por histórias que misturam realidade e fantasia, Cristofer
escreve sobre personagens que se sentem deslocados no mundo, mas
que, aos poucos, descobrem sentido nas conexões humanas. Para ele,
a escrita não é apenas contar uma história, mas tentar compreender a si
mesmo e o mundo ao redor.
Este livro marca um passo importante em sua jornada como autor,
unindo romance, fantasia e reflexões sobre crescer, existir e ser visto.

1° edição
Capítulo 1 – A mudança de
vida
Quando a tempestade começou, ninguém pareceu notar Echo.
A cidade seguia funcionando como sempre. Os ônibus atrasavam, as
pessoas reclamavam em silêncio, os prédios permaneciam imóveis,
indiferentes à chuva que caía com força suficiente para deformar o
reflexo das luzes no asfalto. Porto Alegre parecia cumprir sua obrigação
de existir, e isso era tudo.
Echo observava a chuva pela janela do quarto. Não porque gostasse,
mas porque não havia mais nada para fazer. O vidro estava sujo, e as
gotas escorriam formando caminhos irregulares, como se disputassem
entre si quem chegaria primeiro ao fim. Ele acompanhava esse
movimento sem pensar muito, do mesmo modo que acompanhava a
própria vida: sem expectativa.
Trabalhava das oito da manhã às oito da noite. Quinze minutos de
intervalo. Seis dias por semana. Ninguém nunca explicou por que
precisava ser assim, e ele nunca perguntou. Questionar exigia uma
energia que ele não tinha. Echo apenas cumpria horários, atravessava
ruas, recebia ordens e voltava para casa com a sensação constante de
que havia esquecido algo importante — embora nunca soubesse o quê.
Quando o raio caiu ao lado da casa, o impacto fez o prédio estremecer.
A luz invadiu o quarto por um instante excessivamente longo. Echo
fechou os olhos, esperando algum tipo de consequência. Nada
aconteceu.
Ele continuou parado. Depois sentou-se na cama. Pensou em verificar o
estrago, mas desistiu. Se algo tivesse quebrado, descobriria no dia
seguinte. Sempre descobria as coisas tarde demais.
Naquela noite, dormiu.
Ao acordar, sentiu um incômodo difícil de localizar. Não era dor, nem
medo. Era como se o ambiente estivesse ligeiramente fora de lugar,
como um móvel deslocado alguns centímetros, pequeno demais para
justificar uma reação, grande demais para ser ignorado.
Enquanto se preparava para sair, percebeu que o ar à sua frente
parecia dobrar sobre si mesmo. Não houve som, nem vento. Apenas
uma distorção silenciosa, como se o espaço tivesse cometido um erro.
Um portal surgiu ali, ocupando um lugar que, até então, pertencia ao
nada.
Echo ficou olhando por um tempo indefinido. Não pensou em gritar. Não
pensou em chamar alguém. A ideia de que aquilo pudesse ser perigoso
lhe pareceu óbvia demais para ser útil.
Ele pensou apenas que sua vida já não funcionava corretamente.
— Não tenho mais nada a perder — disse, sem convicção suficiente
para chamar de coragem.
E entrou.
Quando acordou novamente, estava deitado sobre um solo úmido. O
cheiro era estranho, mas não desagradável. Ao se levantar, percebeu
que estava em uma floresta — embora “floresta” não fosse exatamente
a palavra certa. As árvores tinham cores que pareciam indecisas,
presas entre o verde e o azul, como se não tivessem terminado de
escolher o que eram.
Echo permaneceu parado por alguns minutos. Esperava que alguém
aparecesse para explicar o que havia acontecido. Ninguém apareceu.
— Eu não devia ter feito isso — disse, mais por hábito do que por
arrependimento.
Sem saber por quê, começou a juntar madeira. Depois folhas. Depois
água. Não havia um plano, apenas movimentos sucessivos que davam
a impressão de utilidade. Construiu uma espécie de abrigo. Não ficou
bom, mas ficou de pé, o que lhe pareceu suficiente.
Com o tempo, percebeu algo estranho: sempre que olhava para o sul,
havia uma luz amarela ao longe. Não piscava, não se movia. Apenas
existia. Quando tentou alcançá-la, caminhou por horas — ou minutos —
até perceber que estava novamente diante do próprio abrigo, como se
nunca tivesse saído.
Tentou outras vezes. Sempre o mesmo resultado.
A floresta não o impedia. Apenas o devolvia.
Echo não chegou a se desesperar. A sensação era mais próxima da que
sentia no trabalho: a certeza de estar preso em algo que ninguém se
deu ao trabalho de explicar. A diferença era que, ali, ao menos, não
havia relógios.
No dia em que a chuva voltou, o som foi diferente. Mais pesado. Como
se caísse de um lugar mais alto do que o céu. Echo observava da porta
de sua cabana quando percebeu uma mudança na luz distante.
Dentro do amarelo, algo começou a se formar.
Não era mais apenas brilho.
Era contorno.
Linha.
Estrutura.
Uma cidade.
Echo não sentiu alívio. Nem esperança. Apenas a estranha certeza de
que, onde quer que estivesse, o mundo insistia em continuar sendo
incompreensível.
E, ainda assim, ele sabia que teria de ir até lá…

Capítulo 2 – Cidade Esquisita

Echo decidiu ir.


Não porque tivesse certeza de que deveria, mas porque permanecer
parado lhe parecia igualmente inútil. Correu em direção à luz amarela
sem pensar no caminho. Afundou os pés em poças de lama,
escorregou, bateu o ombro contra galhos baixos e caiu mais vezes do
que conseguiu contar. A floresta não facilitava sua passagem, mas, pela
primeira vez desde que chegara àquele mundo, não o impedia.
Ele esperava, a qualquer momento, sentir aquela força invisível que o
empurrava de volta para o mesmo lugar. Ela não veio.
Isso o deixou mais desconfortável do que aliviado.
Quando finalmente alcançou a origem da luz, percebeu que havia se
enganado. A silhueta da cidade não passava de um conjunto de árvores
gigantes, moldadas de forma tão precisa que lembravam prédios, torres
e ruas suspensas. Nada ali parecia construído. Ainda assim, tudo
parecia planejado.
Echo ficou parado, com a respiração pesada, observando aquilo que
não era exatamente uma cidade — mas também não era apenas uma
floresta. Sentiu a familiar sensação de ter chegado a algum lugar
importante tarde demais.
Foi então que a luz voltou a brilhar.
Dessa vez, não vinha das árvores.
Uma figura surgiu entre os troncos altos, caminhando com calma
excessiva para alguém que acabara de aparecer do nada. Tinha orelhas
longas e olhos atentos, mas seu rosto não demonstrava surpresa.
Apenas curiosidade, como quem encontra um objeto fora do lugar.
— Você é de que raça? — perguntou ela. — Nunca vi um ser assim.
Echo demorou alguns segundos para responder. Não porque não
soubesse, mas porque a pergunta parecia exigir mais do que uma
palavra.
— Sou humano — disse, por fim. — Você é uma elfa, não é? No mundo
de onde eu venho, vocês são… conhecidas. Aparecem em jogos,
filmes, séries. Em muitas coisas.
A elfa inclinou levemente a cabeça, como se aquela informação não
tivesse utilidade imediata.
— Entendo — disse, sem demonstrar que entendia. — Meu nome é
Ária. E o seu, caro humano?
— Echo. — Ele fez uma breve pausa. — Fico grato em lhe conhecer.
Você poderia me levar até sua cidade… ou casa? A chuva está ficando
mais forte.
Ária olhou para o céu por um instante, avaliando algo que Echo não
conseguia ver.
— Vamos, Echo.
A caminhada foi longa. Longa demais para o espaço que parecia existir
entre a floresta e a cidade. As árvores se tornavam cada vez mais
organizadas, os troncos se conectavam por pontes naturais, e a luz
parecia vir de todos os lados sem ter uma fonte definida.
Quando finalmente chegaram, Echo percebeu que estava em Cygnus.
Não havia muros. Nem portas. A cidade simplesmente começava. As
construções eram feitas de madeira viva, curvas demais para serem
práticas, mas funcionais o suficiente para não desmoronar. Elfas
caminhavam em silêncio, algumas parando para observá-lo, outras
passando como se ele fosse apenas mais um detalhe inconveniente do
dia.
Echo procurou rostos parecidos com o seu. Não encontrou nenhum.
— Ária — disse, em voz baixa —… por que só existem elfas aqui?
Ela pareceu confusa com a pergunta, como se nunca tivesse
considerado a alternativa.
— E como vocês se reproduzem no seu mundo? — perguntou. — Não é
por magia?
— Não.
Ária parou por um instante, pensativa, e então continuou andando,
como se aquela resposta tivesse criado mais perguntas do que
mereciam atenção naquele momento.
Enquanto caminhavam, Echo percebia o olhar dela pousando sobre ele
repetidas vezes. Não era interesse comum. Era análise. Ele se sentia
como um problema mal formulado, algo que precisava ser
compreendido antes de ser aceito — ou descartado.
Ária, por sua vez, tentava imaginar como funcionavam os humanos.
Como surgiam novos seres como Echo. Como um mundo inteiro podia
existir sem magia evidente. E, sobretudo, por que naquele mundo não
havia nenhum outro como ele.
Cygnus continuava viva ao redor deles.
E Echo teve a estranha sensação de que, ao entrar naquela cidade,
havia trocado uma forma de solidão por outra — mais educada, mais
silenciosa, e talvez mais perigosa.

Capítulo 3 – Regras que


Ninguém Explica

Echo percebeu rapidamente que andar por Cygnus exigia atenção,


embora ninguém jamais lhe dissesse a quê. As ruas — se podiam ser
chamadas assim — mudavam levemente de forma conforme ele
caminhava. Não era algo visível o suficiente para causar pânico, mas
constante o bastante para gerar insegurança. Às vezes, um caminho
parecia mais curto na volta. Outras vezes, simplesmente não levava ao
mesmo lugar. Echo tentou memorizar trajetos, mas desistiu quando
percebeu que a cidade não colaborava com esse esforço.
As elfas o observavam.
Não apontavam. Não cochichavam. Apenas olhavam por tempo demais.
O olhar delas não carregava ódio nem curiosidade comum. Era como se
Echo fosse um erro estatístico que ninguém esperava encontrar, mas
que agora precisava ser aceito temporariamente até que alguém
decidisse o que fazer com ele.
Ária caminhava alguns passos à frente. Não parecia se preocupar com
isso.
— Existe alguma regra que eu deva saber? — Echo perguntou, depois
de quase trombar com uma elfa que parou subitamente no meio do
caminho.
Ária pensou por alguns segundos.
— Sim — respondeu.
Echo esperou o resto da frase.
Ela continuou andando.
— E quais são? — insistiu.
— Depende — disse Ária. — Algumas você só descobre quando
quebra.
Aquilo não soou como uma ameaça. Soou como um fato administrativo.
Eles chegaram a uma construção mais alta que as outras. O interior era
amplo, mas estranhamente vazio. Não havia móveis visíveis, apenas
estruturas que lembravam assentos, mas não convidavam ninguém a se
sentar. Echo ficou de pé, sem saber onde colocar o corpo.
— Você vai ficar aqui por enquanto — disse Ária.
— Por quanto tempo?
— Enquanto for necessário.
Echo assentiu. Aquela resposta lhe era familiar. No trabalho, sempre era
assim.
Com o passar do tempo — que não parecia seguir um ritmo confiável —
Echo começou a notar padrões. Algumas elfas jamais falavam com ele.
Outras faziam perguntas desconfortavelmente diretas.
— Você envelhece sozinho?
— Seu corpo para de funcionar sem magia?
— Vocês escolhem quando criar outro humano?
Echo respondia como podia. Às vezes dizia a verdade. Às vezes
simplificava. Em certos momentos, percebia que nenhuma resposta era
realmente absorvida. As perguntas não buscavam compreensão.
Apenas preenchiam um protocolo invisível.
Ária voltava com frequência. Sempre trazia comida. Nunca explicava do
que era feita. Echo comia assim mesmo. Não por confiança, mas
porque recusar exigiria uma justificativa.
— Você se sente incompleto? — ela perguntou certa vez, observando-o
mastigar.
— Eu sempre me senti assim — respondeu Echo.
Ela pareceu satisfeita com a resposta, embora não estivesse claro com
o quê.
Com o tempo, Echo percebeu que não podia sair sozinho. Não era
proibido, exatamente. Simplesmente não funcionava. Sempre que
tentava atravessar certos limites da cidade, surgia alguém para
acompanhá-lo — como se sua solidão fosse inconveniente demais para
ser permitida.
— Vocês não têm humanos aqui — disse Echo, numa dessas
caminhadas. — Nunca tiveram?
— Tivemos — respondeu Ária, depois de uma pausa longa demais para
ser confortável.
— E o que aconteceu?
— Eles não ficaram.
Echo não perguntou o motivo. Algo na forma como ela disse aquilo
indicava que a explicação não seria útil.
À noite — se aquilo podia ser chamado de noite — Echo tinha
dificuldade para dormir. A cidade emitia sons baixos, quase orgânicos,
como se estivesse respirando. Em certos momentos, ele tinha a
impressão de que Cygnus se reorganizava enquanto ele estava de
olhos fechados, como se aproveitasse sua distração para mudar
pequenas coisas.
Ária passou a ficar mais tempo com ele.
Não falavam muito. Às vezes caminhavam lado a lado em silêncio.
Outras vezes, ela o observava como se estivesse tentando decidir se
ele era permanente ou apenas um evento temporário.
— Você pretende voltar? — ela perguntou.
Echo pensou no portal. Pensou no trabalho. Pensou na vida que
funcionava mal, mas funcionava.
— Não sei se existe um “voltar” — respondeu. — Acho que só continuo
andando até que algo me impeça.
Ária pareceu considerar isso por mais tempo do que o normal.
— Cygnus não gosta de coisas indefinidas — disse ela. — Em algum
momento, a cidade vai decidir o que você é.
— E se eu não quiser?
Ela o olhou pela primeira vez como alguém olha para uma criança
fazendo uma pergunta inadequada.
— Isso não costuma ser relevante.
Echo sentiu um peso familiar no peito. A sensação de estar dentro de
um sistema que não o odiava, mas também não precisava dele. Cygnus
não era cruel. Apenas eficiente à sua própria maneira.
Naquela noite, Echo percebeu algo novo: a luz amarela que antes ficava
fora da cidade agora parecia vir de dentro.
E, pela primeira vez desde que atravessara o portal, ele teve medo não
de desaparecer —
mas de permanecer.

Capítulo 4 – Outro Humano?


Parte I – A luz que não pede permissão

Echo acordou com a sensação de que havia dormido menos do que o


necessário, embora tivesse passado tempo suficiente de olhos fechados
para justificar o contrário.
Havia algo diferente nele. Não no corpo — esse continuava funcionando
dentro de limites aceitáveis —, mas em um ponto mais difícil de
localizar. Uma espécie de claridade interna, discreta, quase
constrangedora. Não iluminava pensamentos. Apenas tornava
impossível ignorá-los.
Ele pensou em Ária.
O pensamento surgiu sem convite e permaneceu tempo demais. Echo
não gostou disso. Gostar de alguém nunca fora produtivo. Sempre
exigia decisões, expectativas ou explicações. Ele preferia estruturas
simples: acordar, cumprir tarefas, voltar, dormir. Emoções não cabiam
bem nesse sistema.
Ainda assim, havia aquela sensação.
Echo sentou-se devagar. Observou o espaço ao redor, tentando
reconhecer algo estável. Cygnus parecia igual ao dia anterior — e isso,
ali, não significava muita coisa.
Enquanto caminhava, a memória voltou sem aviso.
Não como um filme. Como um erro recorrente.
Ele se lembrava da garota. Não do rosto com precisão, mas da
repetição. Da insistência cuidadosa. Quinze tentativas. Quinze recusas.
Algumas educadas. Outras constrangedoras. Nenhuma cruel o
suficiente para permitir ódio.
Depois da última, Echo entendeu que continuar seria apenas um gesto
automático, sem dignidade ou esperança. Decidiu, então, não tentar
mais. Amar, para ele, passou a ser algo que acontecia em silêncio — e
morria ali mesmo.
Desde então, sempre que surgia alguém interessante, ele se mantinha
distante. Preferia imaginar uma pessoa ideal: inteligente, parecida com
ele, que o escolhesse sem que ele precisasse se expor. Era uma ideia
confortável porque nunca se tornava real.
Pensar em Ária ameaçava esse acordo silencioso.
Echo seguiu para a sala de experimentos.

Parte II – O corpo como documento

A sala não mudou desde a última vez.


Isso incomodou Echo mais do que deveria.
Ele não sabia exatamente o que esperava — talvez uma reorganização
mínima, um detalhe fora do lugar, qualquer sinal de que o tempo tivesse
passado. Mas tudo permanecia idêntico. As superfícies orgânicas
mantinham a mesma curvatura. A luz incidia nos mesmos pontos. Até o
silêncio parecia reutilizado.
As elfas o aguardavam.
Não demonstravam ansiedade. Tampouco curiosidade visível. Apenas
estavam ali, prontas, como se Echo fosse um evento previsto na agenda
da cidade. Ele teve a impressão incômoda de que, se não tivesse
aparecido, alguém apenas anotaria a ausência.
— Você dormiu bem? — perguntou uma delas.
A pergunta soou protocolar demais para carregar real interesse. Echo
assentiu, embora não tivesse certeza do que “bem” significava naquele
lugar. Dormir, em Cygnus, era apenas fechar os olhos enquanto a
cidade continuava funcionando.
Os testes começaram sem aviso formal.
Uma das elfas segurou o braço de Echo com cuidado excessivo, quase
cerimonial. A retirada de sangue foi rápida, precisa, indolor demais para
permitir qualquer reação. Echo observou o líquido escuro desaparecer
em um recipiente translúcido, sentindo uma estranha perda de
propriedade sobre o próprio corpo.
Em seguida, a magia.
Não houve clarão nem impacto. Apenas a sensação de algo
atravessando sua pele sem permissão. Seus ossos surgiram no ar,
projetados em linhas pálidas, suspensos à frente dele como um
esquema técnico.
— Há variações — comentou uma elfa, inclinando levemente a cabeça.
— Ossos adicionais.
Echo observou a projeção com atenção forçada. Aquilo parecia mais
real do que o próprio corpo.
— Sempre achei que estivesse em excesso — disse, depois de um
momento.
Ela anotou.
Não reagiu à tentativa de humor. Echo percebeu que, ali, ironia não era
uma linguagem reconhecida.
O exame continuou.
Outras estruturas surgiram, destacadas em cores ligeiramente
diferentes. Órgãos que Echo nunca havia visto daquela forma. O foco,
em determinado momento, tornou-se específico demais para ignorar.
O órgão reprodutor.
As elfas se aproximaram, não com constrangimento, mas com interesse
técnico. Era observado, comparado, classificado. Não como algo íntimo
— mas como uma peça fora do padrão.
— Funcional — disse uma delas.
Houve uma breve pausa.
— Mas incompatível — completou outra.
Echo não perguntou com o quê.
Percebeu que a resposta existia, mas não era destinada a ele. Havia
coisas que, em Cygnus, não precisavam ser compreendidas pelo objeto
de estudo.
Quando tudo terminou, ninguém anunciou o fim. As elfas apenas se
afastaram. Echo entendeu que podia sair.
Ao deixar a sala, sentiu-se esvaziado de um jeito específico. Não
fisicamente. Era como se tivesse sido traduzido para um idioma que não
conhecia — e agora existisse, em algum lugar, uma versão dele mais
compreensível do que ele próprio.
Nada parecia grave o suficiente para causar alarme.
Nada parecia adequado o bastante para gerar aceitação.
Ele estava, mais uma vez, em uma categoria intermediária.
Então o som ecoou.
“Ser estranho se aproximando.”
A frase repetia-se sem pressa, mas com uma insistência mecânica que
não admitia ignorância. Não era um aviso. Era uma constatação sendo
reforçada.
Echo sentiu o corpo reagir antes da mente. Não houve medo. O que
surgiu foi algo mais incômodo: expectativa. A sensação de que algo
finalmente sairia da estagnação.
Ária apareceu ao seu lado sem anunciar presença.
— Vamos ver — disse ela.
No caminho, ninguém corria. Ninguém se escondia. Algumas elfas
paravam para observar. Outras continuavam andando, como quem
acompanha um evento já calculado, apenas aguardando a confirmação.
A cidade parecia preparada.
Quando chegaram, Echo parou.
Não porque fosse necessário.
Mas porque reconheceu imediatamente.
Outro humano.
Não havia margem para erro. Não era aparência. Era postura. A
maneira como o corpo ocupava o espaço, como se ainda esperasse
resistência do mundo.
Echo sentiu algo raro atravessá-lo.
Não alívio.
Não alegria.
Reconhecimento.
E isso, percebeu, poderia ser mais perigoso do que qualquer ameaça
visível.

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