O HOMEM QUE COLECIONAVA NOMES
Augusto colecionava nomes. Não pessoas, apenas nomes. Escrevia em pequenos papéis,
guardava em caixas organizadas por letras. Não sabia exatamente por quê, mas sentia
que cada nome carregava uma história, mesmo quando ele nunca conheceu quem o usou.
Trabalhava em um cartório antigo, onde nomes passavam o dia inteiro diante de seus
olhos. Alguns comuns, outros raros, alguns esquecidos pelo tempo. Certo dia,
encontrou um nome escrito em um registro antigo que não constava em lugar nenhum:
“Eliar”.
Sentiu um arrepio ao ler. Guardou o nome em um papel azul, diferente dos outros.
Naquela noite, sonhou com alguém chamando por ele, repetindo “Eliar” como um
sussurro urgente. Nos dias seguintes, o nome começou a aparecer em lugares
improváveis: em um muro rabiscado, em uma música no rádio, em um livro antigo.
Augusto percebeu que toda vez que escrevia o nome, algo mudava ao seu redor.
Pessoas esqueciam pequenas coisas, ruas pareciam ligeiramente diferentes, como se a
realidade estivesse sendo editada. Assustado, tentou se livrar do papel azul, mas
ele sempre reaparecia na caixa.
Um dia, encontrou um último papel escrito à mão, com caligrafia que reconheceu como
sua. Nele, estava escrito apenas um nome: Augusto. E então entendeu — ele não
colecionava nomes. Ele os mantinha vivos.