Fast Fashion: entre o brilho da vitrine e as sombras do sistema
Caros leitores do blog, quem se interessa por moda e cultura certamente se
identificará com o tema que quero compartilhar aqui hoje. Recentemente li o texto
da cientista social Claire Monteiro, publicado na Revista Brasileira de Estudos
Sociais e Culturais, que aborda um tema de extrema relevância para a sociedade
contemporânea: os impactos do fast fashion. Nesse sentido, seu texto serve para
debatermos os padrões de consumo e os impactos da moda no cenário atual. Logo, para
analisarmos esse panorama, destaco, como pontos centrais da minha argumentação, o
entendimento de que formamos uma cultura pouco reflexiva sobre os processos de
fabricação dos itens consumidos, bem como a percepção do aumento exponencial na
velocidade das tendências relacionadas à moda.
Historicamente, o Brasil construiu uma cultura marcada pela carência de reflexão na
qual os consumidores pouco questionam a origem dos produtos que adquirem. Desde o
Período Colonial, tecidos e roupas vindos da Europa eram símbolos de status social,
enquanto grande parte da população trabalhava em condições de exploração para que
essas mercadorias chegassem às mãos da elite brasileira. Essa lógica de desprezo se
perpetua até os dias de hoje: o consumidor muitas vezes se encanta com a estética
de uma peça, mas raramente pensa na cadeia produtiva que a sustenta — os
trabalhadores, os impactos ambientais ou os processos de produção que a tornaram
possível . Claire Monteiro, ao comparar as severas consequências humanas a
cicatrizes abertas, traz à tona episódios como o de trabalhadores em Bangladesh,
que costuram em oficinas semelhantes a cavernas, pelas quais o suor do trabalho
escorre por cima de cada peça. Desse modo, concordo integralmente com a autora,
visto que o fast fashion democratiza temporariamente o acesso às tendências, mas
essa aparente liberdade mascara relações de exploração, tanto em relação aos
indivíduos quanto ao meio ambiente. Por isso, torna-se inevitável o debate e a
reflexão de todo o corpo social sobre o assunto, uma vez que o valor simbólico da
peça ofusca o sofrimento que ela carrega.
Além disso, outro ponto discutido pela cientista social é que, desde a Revolução
Industrial o relógio da moda passou a correr em ritmo acelerado. A partir desse
pensamento, questiono: o que Gilles Lipovetsky pensaria se estivesse vivo?
Certamente estaria incrédulo, haja vista que destaca a sociedade de consumo como
marcada pelo efêmero, pela obsessão por novidades e pela superficialidade, tendo a
moda como símbolo do consumismo rápido e descartável. Diante desse cenário, é
perceptível que o consumidor vive constantemente pressionado a acompanhar as
inovações, enquanto as peças desaparecem do guarda-roupa antes mesmo de
estabelecerem algum vínculo ou significado efetivo, dessa maneira, essa rapidez
transforma o consumo em um ciclo contínuo de aquisição e descarte, no qual a
atenção do consumidor se renova constantemente e a sensação de urgência se torna
parte do cotidiano. Ao ler a passagem do texto de Claire Monteiro que afirma que a
dinâmica fluida de consumo representa uma liberdade de escolha - “ O consumidor
acredita dançar conforme sua própria música, mas, na verdade, é guiado pelos fios
invisíveis de uma mercadoria mercadológica” - compreendi que aquilo que aparenta
ser autonomia é, na verdade, uma ilusão cuidadosamente construída pelo mercado,
evidenciando a pressa das tendências aliada a padrões impostos externamente. Assim,
é urgente que a sociedade desenvolva uma postura mais consciente, com o intuito de
desacelerar o ritmo frenético da moda na contemporaneidade.
Portanto, diante da necessidade urgente de convocarmos mudanças ativas na
comunidade, torna-se evidente que consumir moda de forma equilibrada é um ato de
responsabilidade. Sob esse viés, é fundamental que o consumidor reflita não apenas
sobre os processos de fabricação das peças que adquire, mas também sobre o ritmo
acelerado das tendências que orienta suas escolhas. Como bem mostra o texto de
Claire, a moda precisa ser apreciada com consciência ética e reflexiva.