ORDEM PARANORMAL
Astolfo Severino
Santa Vitória do Palmar – RS
Nascimento: 09 de janeiro de 1959
Astolfo Severino nasceu em Santa Vitória do Palmar, no extremo sul do Rio Grande do
Sul, e passou praticamente toda a vida ali. Filho único de Rosa, uma mulher simples
da região, morreu no parto. Não há qualquer registro confiável sobre o pai. Após a
morte da mãe, Astolfo foi criado pelos avós maternos, Manoel e Maria, em uma casa
humilde, onde também viviam sua tia Tereza e o primo Bartolomeu, apenas um ano mais
velho. A família vivia em condição socioeconômica pobre, mas o ambiente era
saudável. Não há relatos de abusos ou conflitos graves, apenas broncas comuns,
discussões pequenas, o tipo de caos normal de uma casa cheia. Astolfo não teve
irmãos, e Bartolomeu ocupou naturalmente esse espaço. Os dois cresceram juntos,
brincavam juntos, aprendiam juntos. Eram inseparáveis.
O pai de Bartolomeu havia fugido quando ele ainda era criança, o que aproximou
ainda mais os dois primos. Desde cedo, Bartolomeu demonstrava comportamentos
estranhos. Dizia ouvir coisas, via o que ninguém mais via, tinha sonhos que se
confirmavam. A família tratava isso como imaginação ou sensibilidade excessiva, mas
Astolfo nunca riu. Ele escutava. Com o tempo, a curiosidade virou interesse. Ainda
adolescentes, os dois começaram a se aventurar no Paranormal de forma gradual e
desorganizada. Pequenos rituais, explorações em lugares afastados, tentativas de
compreender aquilo que Bartolomeu sentia de forma intuitiva. Astolfo acumulou
conhecimento teórico aprendido de maneira fragmentada, sem orientação adequada. Era
suficiente para alimentar a confiança, não para garantir sobrevivência.
O encontro aconteceu no fim da adolescência. Durante uma dessas peregrinações, eles
entraram em contato com uma entidade posteriormente identificada como uma Mulher
Afogada. Não há registro completo do confronto. O que se sabe é pouco, quebrado,
contraditório. Astolfo sobreviveu, mas perdeu a mão direita. Bartolomeu não voltou.
Para a cidade e para a família, Bartolomeu foi dado como desaparecido. Astolfo
nunca apresentou um relato completo do que ocorreu. Nunca assumiu culpa, nunca
tentou se explicar. O silêncio foi absoluto. A perda do primo foi um choque
profundo, tanto para ele quanto para os avós e a tia Tereza. Nada naquela casa
voltou a ser exatamente igual.
Depois desse confronto, algo em Astolfo mudou de um jeito difícil de definir. Ele
começou a ouvir vozes. Não de forma constante e nem sempre claras, mas presentes o
bastante para não serem ignoradas. Às vezes eram sussurros sem palavras, às vezes
pensamentos que não pareciam totalmente seus. Astolfo nunca soube dizer o que
aquilo era ou de onde vinha. Em alguns momentos, tinha a sensação de que aquilo que
assombrava Bartolomeu acabou encontrando nele um lugar para existir. Em outros,
acreditava que era só o trauma, a culpa, a mente tentando lidar com o que
aconteceu. Nada nunca foi confirmado. Nem por ele, nem por ninguém. Seja o que for,
isso vive dentro dele desde então, quase sempre em silêncio, mas nunca ausente de
verdade.
Astolfo era destro. A perda da mão direita o obrigou a reaprender gestos simples,
escrita, trabalho. Tornou-se canhoto por necessidade. Com o tempo, isso virou um
traço marcante. Ele passou a cumprimentar todos com a mão esquerda, sempre. A
ausência da direita quase nunca é percebida à primeira vista. Ele a esconde com
naturalidade, como se nunca tivesse existido. Para quem repara, fica a sensação
estranha de algo fora do lugar, como se Astolfo estivesse sempre guardando uma
parte de si.
Após o incidente, ele mergulhou ainda mais fundo no Paranormal. Entre o fim da
adolescência e os 24 anos de idade, acumulou experiência real e prática, e acabou
se envolvendo com a Ordem Paranormal. Atuou como ocultista e demonstrou grande
competência. Tinha conhecimento, controle e uma postura cautelosa incomum. Nunca
foi impulsivo. Nunca pareceu buscar poder. Era como se estivesse tentando entender
o que aconteceu, ou pelo menos garantir que aquilo não voltasse a acontecer com
mais ninguém.
No início da década de 1980, Astolfo conheceu Lídia, natural de Pelotas. O encontro
marcou o início de uma mudança lenta, mas definitiva. Com a formação de uma família
e, mais tarde, a abertura de um bar em Santa Vitória do Palmar, ele começou a se
afastar do Paranormal. A culpa pela morte de Bartolomeu nunca desapareceu, mas foi
sendo soterrada por rotina, trabalho e responsabilidade. O afastamento da Ordem
ocorreu ainda nos anos 80. Não houve conflito, apenas silêncio e distância.
Hoje, Astolfo Severino é dono de um bar pacato na cidade. Trabalha ao lado da
esposa, Lídia, atualmente com 72 anos, e de dois dos filhos, Sara, de 40 anos, e
Leonardo, de 36. A filha mais nova, Júlia, tem 28 anos e vive em São Paulo, onde
decidiu seguir carreira no ramo da tecnologia. Astolfo é visto como um homem comum,
simpático e respeitado. É calmo, não se irrita facilmente e resolve conflitos pela
conversa. Conhece muita gente na cidade, e praticamente todos confiam nele. O bar
funciona como ponto de encontro, troca de histórias e convivência. Sua presença é
forte, mas nunca opressiva. Ele sabe lidar com gente de má-fé sem elevar a voz e é
genuinamente afetuoso com quem considera digno disso.
Para a maioria, Astolfo é apenas um bom homem, dono de bar, pai de família. Para
poucos, ele é alguém que sobreviveu ao que não deveria. Para a Ordem, ele é um
passado que nunca se fechou por completo. Astolfo não procura mais o Paranormal.
Mas se ele bater à porta outra vez, é improvável que Astolfo Severino não atenda,
porque algumas coisas entram na gente e não saem mais, não importa quanto tempo
passe.