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Ação de Repetição de Indébito contra Banco BMG

O processo judicial envolve Floracy Aguiar Dias contra o Banco BMG S.A., onde a autora busca a repetição de indébito devido a cobranças indevidas relacionadas a um contrato de cartão de crédito consignado. A sentença do juiz Eduardo Navarro Machado determina a transmutação do contrato para um empréstimo consignado, a devolução em dobro dos valores pagos a maior, e a suspensão dos descontos em folha de pagamento. O processo é julgado no 7º Juizado Especial Cível da Unifap de Macapá, com a decisão sendo parcialmente favorável à autora.

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Ação de Repetição de Indébito contra Banco BMG

O processo judicial envolve Floracy Aguiar Dias contra o Banco BMG S.A., onde a autora busca a repetição de indébito devido a cobranças indevidas relacionadas a um contrato de cartão de crédito consignado. A sentença do juiz Eduardo Navarro Machado determina a transmutação do contrato para um empréstimo consignado, a devolução em dobro dos valores pagos a maior, e a suspensão dos descontos em folha de pagamento. O processo é julgado no 7º Juizado Especial Cível da Unifap de Macapá, com a decisão sendo parcialmente favorável à autora.

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Tribunal de Justiça do Estado do Amapá

PJe - Processo Judicial Eletrônico

08/01/2026

Número: 6036308-95.2025.8.03.0001
Classe: PROCEDIMENTO DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL
Órgão julgador: 7º Juizado Especial Cível da Unifap de Macapá
Última distribuição : 12/06/2025
Valor da causa: R$ 23.896,55
Assuntos: Repetição do Indébito
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
FLORACY AGUIAR DIAS (AUTOR) ROMULO ROBERTO DE SOUZA (ADVOGADO)
BANCO BMG S.A (REU) FERNANDA RAFAELLA OLIVEIRA DE CARVALHO
(ADVOGADO)
Documentos
Id. Data Documento Tipo
23552779 24/09/2025 Sentença Sentença
07:53
Poder Judiciário

Tribunal de Justiça do Amapá

7º Juizado Especial Cível da Unifap de Macapá

Rodovia Juscelino Kubitschek, - de 1670/1671 ao fim, Universidade, Macapá - AP - CEP:


68903-419

Balcão Virtual: [Link]

Processo Nº.: 6036308-95.2025.8.03.0001 (PJe)

Ação: PROCEDIMENTO DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL (436)

Incidência: [Repetição do Indébito]

AUTOR: FLORACY AGUIAR DIAS

REU: BANCO BMG S.A

SENTENÇA

I – RELATÓRIO

Dispensado, nos termos do art. 38 da Lei n.º 9.099/95.

II – FUNDAMENTAÇÃO

1. Das preliminares

Assinado eletronicamente por: EDUARDO NAVARRO MACHADO - 24/09/2025 07:53:08 Num. 23552779 - Pág. 1
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Número do documento: 25092407530849300000022842029
Da incompetência do Juizado Especial Cível

A preliminar não merece prosperar. A controvérsia dos autos não se restringe à autenticidade de
assinatura, mas envolve essencialmente a análise da natureza jurídica do contrato firmado e da
eventual abusividade de suas cláusulas, questões de direito que prescindem de perícia complexa.

Ainda que se cogite de eventual necessidade de prova técnica, o art. 35 da Lei nº 9.099/95
admite a realização de prova pericial de forma simplificada, não afastando a competência do
Juizado. O próprio Enunciado 54 do FONAJE esclarece que a aferição da complexidade da causa
deve considerar o objeto da prova e não a matéria de direito discutida.

Assim, não há fundamento para afastar a competência deste Juízo, que deve apreciar a
demanda em conformidade com os princípios da celeridade e simplicidade que regem os
Juizados Especiais.

Da necessidade de atualização da procuração

Ainda que a procuração constante nos autos esteja datada de período anterior à propositura da
presente demanda, não há qualquer nulidade a ser reconhecida. Isso porque o ordenamento
jurídico não estabelece prazo de validade para o instrumento de mandato, salvo se
expressamente estipulado pelas partes, o que não se verifica no presente caso.

Ademais, a própria parte autora compareceu pessoalmente à audiência designada nos autos,
demonstrando ciência e anuência quanto à atuação de seu patrono, o que afasta qualquer vício
de representação ou prejuízo às partes, em atenção ao princípio da primazia do julgamento de
mérito.

Inépcia da petição inicial por ausência de prova mínima

A inicial preenche os requisitos do art. 319 do CPC, descrevendo fatos, fundamentos e pedidos
de forma clara. Foram apresentados extratos e cálculos que demonstram pagamentos em valor
muito superior ao contratado, constituindo prova mínima apta a ensejar a inversão do ônus da
prova (art. 6º, VIII, CDC). Exigir prova plena na inicial significaria inviabilizar o acesso à justiça,
em afronta ao art. 5º, XXXV, da Constituição.

Da ausência de pretensão resistida e necessidade de prévia via administrativa

A preliminar deve ser rejeitada, pois inexiste obrigatoriedade de exaurimento da via administrativa
como condição de ação. O interesse processual decorre da manutenção de descontos indevidos
no benefício previdenciário da autora, configurando resistência do réu. O STF e o STJ possuem
jurisprudência pacífica no sentido de que não há necessidade de prévio requerimento
administrativo, salvo hipóteses excepcionais.

Da gratuidade da justiça.

Em sede de Juizado Especial, não há, em primeira instância, o pagamento de custas processuais
iniciais (art. 55 da Lei nº 9.099/95). Por essa razão, o benefício da justiça gratuita decorre da
própria lei.

Afasto, portanto, a preliminar aventada pela reclamada.

Prescrição trienal (art. 206, §3º, V, do CC)

A Ré aponta a ocorrência de prescrição, embasada no art. 206, §3º, V, do Código Civil, aduzindo
que a parte reclamante possuía o prazo de até 3 (três) anos para deduzir sua pretensão em juízo.

Assinado eletronicamente por: EDUARDO NAVARRO MACHADO - 24/09/2025 07:53:08 Num. 23552779 - Pág. 2
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Número do documento: 25092407530849300000022842029
Entretanto, conforme entendimento jurisprudencial do Superior Tribunal de Justiça (REsp
1261469/RJ e REsp 995995/DF), o prazo prescricional para as ações onde se discute
abusividade cláusula contratual é de dez (10) anos, com afinco no art. 205, do CC, ante a
omissão do Código de Defesa do Consumidor.

Portanto, rejeito a prejudicial e passo à análise do mérito propriamente dito.

Decadência do direito de anular o contrato (art. 178, II, do CC)

Não há que se falar em decadência, tendo em vista que os descontos estavam ocorrendo todos
os meses.

Portanto, rejeito a prejudicial e passo à análise do mérito propriamente dito.

2. Do mérito

Segundo consta na inicial, a autora narra que, em junho de 2016, contratou junto ao banco réu
operação que acreditava tratar-se de empréstimo consignado, no valor de R$ 6.970,00, a ser
quitado em parcelas fixas. Entretanto, ao longo dos anos, percebeu que os descontos
permaneciam em seu benefício previdenciário, mesmo após ter pago o montante de R$
33.105,07, valor muito superior ao originalmente contratado, sem que houvesse a quitação da
dívida. Sustenta que foi induzida a erro, pois, em vez de empréstimo consignado, teria firmado
contrato de cartão de crédito consignado, modalidade que desconhecia, sendo surpreendida com
a cobrança de encargos excessivos e infindáveis.

Em razão desses fatos, requereu a declaração de nulidade do contrato de cartão consignado,


com a consequente adequação para a modalidade de empréstimo consignado com parcelas
fixas, a exclusão dos encargos de cartão de crédito, a redução dos juros para 2,10% ao mês ou,
sucessivamente, à taxa média de mercado, a restituição do indébito no valor de R$ 23.896,55,
além do reconhecimento da quitação da dívida.

Por sua vez, a ré defende que a contratação se deu de forma regular, mediante assinatura do
termo de adesão ao produto “BMG Card”, com ciência inequívoca da autora acerca da natureza
do contrato. Afirma que houve desbloqueio e utilização do cartão para saques, totalizando R$
9.353,57, além de pagamentos voluntários realizados por meio de faturas. Aduz que o produto
cartão consignado possui previsão legal e regulamentação específica, inexistindo abusividade.

Pois bem.

Consoante o novo entendimento firmado pelo Tribunal de Justiça do Amapá, por maioria, no
julgamento da Reclamação nº 0000749-56.2023.8.03.0000, de relatoria do Desembargador
Agostino Silvério, restou estabelecido o seguinte:

“Se no caso concreto resta comprovado que o consumidor utilizou o cartão de


crédito apenas para saques dos valores do empréstimo, não efetuando compras,
deve ser feita a transmutação do contrato de empréstimo com a utilização de cartão
de crédito para empréstimo consignado em folha de pagamento, aplicando-se a taxa
média de mercado para empréstimos dessa natureza.”

Naquela oportunidade, o acórdão destacou que:

“O princípio pacta sunt servanda não tem caráter absoluto, admitindo-se a revisão e
a eventual declaração de nulidade de cláusulas abusivas e com onerosidade
excessiva em contratos bancários, especialmente quando há extrema desvantagem
do consumidor diante da ausência de termo final para término da dívida, pelo que o

Assinado eletronicamente por: EDUARDO NAVARRO MACHADO - 24/09/2025 07:53:08 Num. 23552779 - Pág. 3
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saldo devedor nunca é quitado, persistindo por tempo indefinido. [...] Havendo
pagamento indevido de valores a título de financiamento via contrato bancário, deve
haver a restituição, mantendo-se a devolução em dobro, prevista no parágrafo único
do art. 42 do CDC, quando demonstrada a ausência de engano justificável e a
presença de má-fé da instituição financeira credora.”

No presente caso, conforme se observa dos documentos de id. 19970746, a parte autora utilizou
o suposto cartão exclusivamente para saque de valores, não sendo apresentada prova de
utilização como instrumento de crédito rotativo (para compras).

Verifica-se, ainda, que os descontos mensais realizados a título de pagamento mínimo da fatura
não amortizam o saldo devedor, configurando situação de onerosidade excessiva e vantagem
desproporcional em favor do fornecedor, em afronta aos arts. 39, V e 51, IV e § 1º, III do CDC.

Assim, diante do entendimento consolidado, deve ser feita a transmutação do contrato para
mútuo consignado, com aplicação da taxa média de mercado vigente à época da contratação,
conforme divulgado pelo Banco Central do Brasil.

Além disso, reconhecida a cobrança de valores superiores ao que seria devido sob as condições
adequadas da contratação de empréstimo consignado, é devida a devolução dos valores, em
dobro, nos termos do art. 42, parágrafo único, do CDC, por se tratar de cobrança indevida sem
justificativa plausível e com conduta violadora da boa-fé objetiva por parte do réu.

III - DISPOSITIVO

Ante o exposto, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE o pedido para:

1. Declarar a transmutação do contrato de cartão de crédito consignado em contrato de mútuo na


modalidade consignada relativamente às operações que totalizam a quantia de R$ 9.353,57
(nove mil, trezentos e cinquenta e três reais e cinquenta e sete centavos), correspondentes às
parcelas de R$ 7.257,00 em 06/07/2016, R$ 237,00 em 10/03/2017, R$ 562,00 em 08/11/2017,
R$ 116,00 em 07/05/2018, R$ 134,00 em 20/09/2018, R$ 175,00 em 10/07/2019, R$ 342,57 em
17/12/2019 e R$ 530,00 em 09/08/2021), com base na taxa média de mercado vigente à época
da contratação (2,04% a.m.), fixando em 44 o número total de parcelas para o cumprimento da
obrigação.

2. Condenar o réu, nos termos do art. 42, parágrafo único, do CDC, à devolução em dobro do
valor pago a maior pela parte autora, acrescidos de juros de mora de 1% ao mês, a partir da
citação, e atualização monetária pelo índice INPC, desde a data em que os descontos tornaram-
se indevidos.

3. Determinar a suspensão imediata dos descontos realizados em folha de pagamento vinculados


ao contrato objeto da lide, sob pena de multa de R$ 500,00 por evento de descumprimento,
limitada a R$ 5.000,00.

4. Sem prejuízo, transitada em julgada esta sentença, oficie-se desde já o órgão pagador da
parte autora para suspensão dos descontos vinculados aos contratos objeto da lide.

Sem custas e honorários, nos termos dos arts. 54 e 55 da Lei 9.099/95.

Em caso de interposição de recurso, nos termos do art. 42, § 2º, da Lei nº 9.099/95, apresente a
parte recorrida as contrarrazões no prazo de 10 (dez) dias. Após, com ou sem as contrarrazões,
remetam-se os autos à Turma Recursal dos Juizados Especiais, para juízo de admissibilidade,
conforme preceitua o art. 6º, § 1º, da Resolução nº 1328/2019 – TJAP, que dispõe sobre o
Regimento Interno da Turma Recursal dos Juizados Especiais do Amapá.

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Publique-se. Registre-se. Intime-se.

Oportunamente, arquive-se.

Datado com a certificação digital

EDUARDO NAVARRO MACHADO

Juiz(a) de Direito do 7º Juizado Especial Cível da Unifap de Macapá

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