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A Vida de Maria Adelaide e Seus Desafios

Maria Adelaide, uma jovem de dezesseis anos, vive uma relação complicada com sua família, que a desonra e a maltrata, apesar de ela ser a principal provedora. O narrador, que a ama, decide separá-la da família e aluga uma casa para que ela possa viver de forma independente, onde ela começa a florescer e a desenvolver sua individualidade. A história explora temas de amor, sofrimento e a busca por dignidade em meio a dificuldades sociais.

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A Vida de Maria Adelaide e Seus Desafios

Maria Adelaide, uma jovem de dezesseis anos, vive uma relação complicada com sua família, que a desonra e a maltrata, apesar de ela ser a principal provedora. O narrador, que a ama, decide separá-la da família e aluga uma casa para que ela possa viver de forma independente, onde ela começa a florescer e a desenvolver sua individualidade. A história explora temas de amor, sofrimento e a busca por dignidade em meio a dificuldades sociais.

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MARIA ADELAIDE

MANUEL TEIXEIRA GOMES


Paganisme immortel, est-tu mort? On le dit. Mais Pan

tout bas s'en moque et la sirène en rit.

JOSEPH DELORME

Um romance não deve ser bem escrito.

PAULO BOURGET
Aqui vai uma "história" algo extraordinária, tal qual (sem

tirar nem pôr) a escreveu o meu amigo Ramiro de Arge,

cavalheiro medianamente culto, mas exuberante de vida

física...
I

Maria Adelaide completara dezasseis anos quando lhe

colhi as primícias, e, à semelhança do que sucede com

frequência na terra onde habitávamos, os pais, que eram

pobres, consentiam em que mantivéssemos relações coram

populo, indo eu todas as noites dormir na sua companhia.

Podia tê-la tirado logo à família, montando-lhe casa à

parte, mas nem eu nem os pais sentíamos grande desejo de

efetuar a separação: eles porque tendo-a em sua companha

melhor lhe exploravam os proventos da mancebia; eu para

não dar mais solidez à ligação, esperando vagamente que

fosse passageira...
II

Reminiscências do começo:

A minha rapariga estava triste; a mãe tinha-lhe batido,

desonrando-a de tudo, chamando-lhe os nomes mais feios

que se podem chamar a uma mulher. E as suas

lamentações não tinham fim:

Ela é que sustentava a família, ela é que pagava as casas

e dava constantemente presentes a todos, em especial às

irmãs, que também lhe não tinham respeito nenhum, e a

mãe ainda em cima lhe batia. E isso é que mais a magoava.

— Estou consigo há tanto tempo (alguns meses apenas) e

eu bem vejo como me trata: — olha lá Santo Antoninho que

não sei onde te ponha — e a minha mãe bateu-me só

porque eu puxei as orelhas à Joaquina (a terceira irmã),

que é uma grandíssima atrevida e me arranca os cabelos

aos punhados. Se não fosse por atender ao meu pai, que

acode por mim, deixava-os a todos. Que se eu estivesse

séria, e não brincasse e não risse, já elas todas me tinham

respeito. Também hoje, só por teima, não quis deixar de


comer e fui cear muito séria. Mas amanhã já eu começo a

rir e a brincar com todos e logo me perdem o respeito. Ai!,

eu gosto tanto, tanto, da minha Glória (a irmã mais nova);

parece mesmo que é minha filha, tão linda, tão limpinha!

Eu quero ter um mocinho; faça-me um mocinho, não é

verdade? Ah!, se eu tivesse um mocinho, ontem, quando a

minha mãe me bateu, vestia-o, que havia de parecer um

menino rico, e punha-me na rua sozinha, com ele nos

braços. Os dias são tão grandes e eu ando tão aborrecida!

E faço gosto em comer, em rir. Agora a minha paixão são

chicharros alimados. Ontem havia chicharros alimados

para a ceia; também por isso é que eu fui comer. Mas estou

muito triste. Agora já não é tanto, que o meu amiguinho,

com as suas festas, quase que me pôs alegre... Mas uma

coisa que eu não quero é que a minha mãe me bata; e

então pancadas nos braços, murros nas costas. Parece uma

fera direito a mim. Mas espera que algum dia ponho-me

direito a ela que nem um leão. Custa muito fazer o que eu

tenho feito pela minha família e ainda em cima receber

maus tratos e insultos. E diz que a casa é dela, porque ela

a arrendou e ela é que vai levar os aluguéis à dona. Já viu


isto? E tudo pago com o meu dinheiro; meu, não; seu,

porque seu é tudo o que eu tenho. Eu sempre queria ver

com os ganhos de meu pai, que neste mês foram um

cruzado — ou pelo menos foi tudo quanto ele deu para casa

— se haviam de andar todos tão bem vestidos e comidos.

Mas eu não posso estar zangada muito' tempo e ela já sabe

isso. Ontem nem quis pegar na minha Glória à vista de

ninguém, mas quando a apanhei sozinha no berço ia-a

comendo com beijos. Ah!, não queria senão ter um

mocinho, meu...
III

Estas queixas e lamentações pueris repetiam-se

diariamente, mas eu nem lhes prestava atenção, e delas

zombava, todo embebido na posse do seu corpo, que era

admirável e dispensava, para ser adorado, quaisquer

enfeites espirituais.

A princípio a inevitável mistura com o resto da família

tão-pouco me impressionava; achava-lhe até certo

pitoresco, e, coisa curiosa, foi preciso muito estudo para

distinguir ao longe a voz de Maria Adelaide das vozes das

irmãs e da mãe, quando a não via e apenas a ouvia. Era

uma voz vibrante, com o tom cristalino, que se perdia, ao

baixar, em inflexões quentes, moduladas cromaticamente,

sem asperezas.
IV

Um dia, porém, Maria Adelaide desabafou, com uma

pena que lhe vinha do fundo da alma, para me dizer que a

"desonravam" mesmo na presença do pai, que era um

desgraçado, um pobrezinho, que ficava calado e não a

sabia defender. Gostava muito do pai, muito; desejava-

lhe fortuna, felicidade, tudo quanto fosse bom, mas a

miúdo também lhe desejava a morte, só para não haver pé

de dizerem diante dele aquelas coisas... E, sempre

indignada e desconfiada com todos, e chorando porque um

desconhecido, ao passar-lhe em frente da casa, vendo-a à

janela, exclamara para a companheira: — "Ah!, ela é

sardosa?, pois puta e gulosa...”

Mas eu sempre a rir, e como reparasse num quadro

novo, pendurado na parede, representando um monstro

crucificado, no género Senhor de Alvor, perguntei: — E

que bicho tão feio é aquele? — ela rindo com os olhos

marejados de lágrimas, mas sorrindo já, tapava os ouvidos,

corria para a velha cama e ia esconder a cabeça debaixo

das almofadas.
V

Eu habitava ainda então na casa paterna, onde tinha um

vasto aposento inteiramente independente, com saída para

a rua. Maria Adelaide apeteceu vir visitar-me, o que não

fazia havia já bastante tempo. Dera-se ali a nossa

entrevista definitiva e sempre que lá voltava era infalível a

sua exclamação, embora a rir: — "Foi aqui que eu me

desgracei!..."

Encontrou tudo mudado: os móveis noutra disposição e

alguns que ainda não conhecia; uma aparatosa estante

nova de colunas torcidas; a poltrona regence brilhando sob

uma réstia de sol em todo o esplendor do seu brocado

persa; e no meu quarto de cama a lindíssima papeleira

"Luís XVI", muito vistosa nos seus enfeites de porcelana

esmaltada e bronze doirado. Olhava para tudo com um ar

de gato que estuda o recinto onde pela primeira vez o

introduziram, mas disfarçando mal uma irrebatível

expressão de despeito.
Instintivamente comparava o arranjo e qualidade das

minhas coisas com aquelas que tinha em casa e reputava

formosíssimas: a cómoda de mogno coberta de croché, a

cama de ferro pintado, cadeiras de palhinha frouxa, e

sentia-se vexada com a evidente superioridade do meu

mobiliário em que só agora reparara miudamente.

Começou a mostrar mau humor, buscando, no decorrer da

conversa, pequenas contradições que dessem azo a

implicação e a queixas. Mas como eu me esquivasse a

contendas pouco a pouco se lhe foi dissipando a irritação,

pondo-se á vontade; já se sentava nas cadeiras de braços,

procurando as posições mais cómodas e ia, sem amargura,

gabando os móveis, os estofos, as madeiras.

— "Eu também quero uma cadeira assim, Ia para a minha

casa e hei de tê-la, não é verdade, amigo?, quando tiver

uma salinha melhor, porque realmente a minha é tão má...

E quando mandará o demónio da velha (a senhoria)

arranjar a casa? — E inspecionando as paredes: — Não é

verdade, amigo, que aquele quadro está torto? Pois vai-se

já pôr direito. Eu não posso ver, lá em casa, os meus


quadrinhos tortos, nas paredes. A sua criada não arranja

isto melhor agora.”

E dispunha os trastes com um sentimento de harmonia

surpreendente, colocando, ao mesmo tempo, por cima das

mesas e das estantes os bibelôs de forma a dar-lhes mais

valor, mais relevo.

Quis dormir comigo, no meu quarto, e durante a noite

acordou-me para repetir: — "A gente também há de ter um

dia uma casa muito bem arranjadinha; não é verdade,

amigo?, mas com coisas minhas, só minhas."

E quando se despediu, de manhã, foi novamente

inspecionar tudo, percebendo-se-lhe no olhar certa pena de

deixar aquele cenário luxuoso, cuja beleza começava a

apreciar, porém, boazinha, acrescentava: — "Que eu nunca

poderei ter coisas tão ricas, nem quero. Quero que o meu

amiguinho as tenha. Lá na nossa casa coisinhas simples e

assedenhas. Dê cá um beijo; outro, outro... Até logo. Vá

bem cedo, sim? Adeus...”

Tudo isto era dito sem o mais leve tom de pieguice, com

uma naturalidade, uma espontaneidade, que me


sensibilizou, e lembrando-me dos seus continuados e

justificados queixumes dos tratos que sofria à mãe, e

também do que havia de humilhante, vexatório, em

sujeitar-me àquela promiscuidade, resolvi separá-la da

família de modo que fizesse vida à parte, e logo nesse

mesmo dia aluguei uma casa alta, em boa rua, com um

grande quintal, destinando o primeiro andar a Maria

Adelaide e os baixos à família.


VI

O mês que durou a nova instalação foi encantador. Maria

Adelaide transformava-se e assumia uma individualidade

que a extremava do resto da família. Mas o arranjo do

quintal, onde ela dava largas à sua fantasia, delineando

planos de jardinagem e arborização que mal caberiam num

grande parque, esse, então foi um poema. Eu ouvia-a

embevecido, achando graça em tudo quanto dizia e

facilitando quanto podia a realização do seu sonho.

Tão contente andava que não recusou, como até ali

fizera, as lições de ler e escrever que eu pretendia dar-lhe.

Ela andara na escola mas nem as letras do alfabeto

conhecia.

Nessa fase é que lhe descobri o inexaurível fundo de

superstição em que a sua alma assentava, e até nisso lhe

achava chiste:

Sonhar com flores eram penas remediadas; excrementos,

dinheiro certo; as mãos dentro de água, lágrimas, etc.


Uma vez, antes de nos deitarmos, eu queria que se fosse

pentear e repartisse o cabelo em bandós, mas ela recusou

porque era de noite e não sabia se o pai andava no mar, o

que seria de mau agoiro. Uma vizinha dos Fumeiros,

andando o marido na lancha, fora da barra, pôs-se a

pentear uma noite, e apenas atirava à rua o molhinho de

cabelos caídos, vem uma refega de vento que por pouco

não mete a porta dentro. Nesse mesmo instante o marido

caía no mar e por pouco não se afoga...

Também se não devem despejar os cântaros da

cantareira quando há em casa algum doente em perigo de

vida. As almas, tão depressa largam os corpos, e antes de

seguir ao seu destino, precisam de água pronta para se

lavar, e preferem a água dos cântaros por serem fundos.

Outra mulher, também dos Fumeiros, estando o marido

agonizante, despejou, de propósito, a água que havia em

casa, deixando apenas uma gota na bacia do lavatório.

Morreu o marido e logo ouviu ruído no quarto do lavatório:

foi ver e achou tudo em volta salpicado de água, sem que lá

estivesse alguém...

Bairro dos pescadores.


VII

A respeito destas crendices Maria Adelaide não admitia

dúvidas, e se eu delas zombava, a sua testa curta, de cinco

pontas, enrugava-se, com uma expressão obstinada que a

tornava sombria, opaca, e os recortes perdiam toda a graça

como inestético desenho tosco.

Mas eu não teimava. Uma grande ternura me invadia o

coração à lembrança de que a pobrezinha sofrera frios e

fome e andara descalça e levara, sem dó, pancadas da mãe,

e mais da mestra naquela escola de torturas onde nada

aprendera e onde as lunetas da professora, sábia e solerte,

a espavoriam. Agora era ela que sustentava

generosamente os seus, matando-lhes fomes e frios, e a

ternura penetrava-me ainda mais fundo à lembrança dos

seus primeiros arranjos, no seu primeiro quarto: a cómoda

pobre mas vistosa; a cama fofa, larga e limpa, e o aroma

especial que ali pairava e que era natural do seu próprio

corpo, da sua própria carne...


E os pitorescos episódios da sua meninice. A miúdo

referia-se a uma rapariga que fora sua vizinha, era muito

má e gostava de morder nas companheiras. E contava: uma

vez estava ela à porta de casa, a armar uma loja em cima

de uma cadeira com muitas coisas já em ordem: conchas

de coquinhas, latas velhas de sardinhas, dois fundos de

copos, e um grande ramo de loiros, quando eu chego e

digo:

— "Francisca, deixa-me brincar contigo. — Se quiseres

vai buscar pão...” Corri a casa:

— "Mãe, dê-me um pedacinho de pão para ir brincar com

a filha da vizinha Antónia.

— Pão a estas horas, moça? O que tu precisas é uma boa

data de açoites.”

Volto à Francisca:

— "A mãe não me dá pão, mas tu deixas-me brincar,

deixas?"

Mas ela, muito má, responde:

— "Não, não e não; se quiseres traz pão."


E a mim deu-me logo uma grande raiva; emborco a

cadeira com toda a loja e atiro o ramo de loiros para a lama

da regueira. Então a moça atira-se a mim e prega-me uma

mordedela que me fez ver as estrelas e de que ainda aqui

tenho o sinal. Fujo para casa mas daí a nada já ela lá

estava com a sua mãe a queixar-se à minha de mim.

Tiveram as duas uma assanhada guerreia de língua, mas

quando tudo serenou apanhei uma sova de sapato de que

me hei de lembrar toda a minha vida...

O que estas historietas me entretinham!


VIII

Arranjou-se o quintal, ajardinando a parte mais

desafogada, e em recanto adequado armou-se o galinheiro

e a coelheira. E era curioso ouvi-la contar a alguma das

poucas amigas que tinha a transformação por que tudo ia

passando. Falava com os olhos iluminados, um pouco em

alvo, como quando recordava as delícias do último sonho...

Porém mais curioso ainda o efeito físico de qualquer

desgosto ou pena verdadeira que sentisse: a carne

amolecia-lhe logo e parecia desfazer-se; quase que lhe

apareciam os ossos esbrugados a rés da pele.

Não se descreve a sua alegria quando as podas das

roseiras começaram a deitar rebentos; a inquietação das

noites, sonhando com flores; os projetos de grandes festas,

com grinaldas sem conto; presentes de enormes

ramalhetes; e com isto a vigilância, a inspeção incessante

das folhas que abriam e que ela desejaria trazer contadas:

uma loucura, enfim...


E o orgulho com que recebia a gente da vizinhança que

pedia licença para visitar o jardim. O jardim! Até o Sr.

Ramires, funcionário reformado e personagem importante,

que nunca lhe fizera boa cara e sofrera havia pouco um

insulto apoplético, até o Sr. Ramires se levantou da cama

expressamente para contemplar a maravilha. Adregou

encontrar-me no quintal quando ele chegou. Vinha, algo

trôpego mas ainda barrigudo, pelo braço da mulher,

devagarinho, metido, amortalhado no gabão, olhando o

mundo com ar de quem dele se despede, mas como quem

lamentasse o mundo pela perda que ia experimentar...

Pobre Ramires; que diferença de quando eu o via, numa

varanda de peitoril fronteira, andando com o passo

marinheiro e toda a soberba de quem se julgasse capitão

do mundo; e realmente como capitão do mundo passeava,

tal como se estivesse de quarto sobre a ponte da nau

terráquea...
IX

Chegou, porém, o Carnaval e subitamente Maria

Adelaide tudo esqueceu, para só pensar em brincadeiras e

partidas de Entrudo. Lamentava que a rua fosse tão larga

que não permitia repetir o divertimento favorito das ruas

estreitas dos Fumeiros, que consistia em atravessar, a

certa altura, de noite, uma linha de modo que assustasse

os transeuntes: a uns caía-lhes o chapéu; outros paravam,

com as mãos no ar, à busca de um possível inseto que lhes

poisasse na cara; e ela por dentro da janela a espreitar e a

rir.

Mas o mais curioso era que o relato das brincadeiras de

Entrudo vinha-lhe sempre à memória acompanhado da

lembrança dos jogos de véspera de S. João e S. Pedro, com

fogo de rabiar, e raro era quando lhe não acudia alguma

cena triste ou dramática, como o que sucedera com a avó

(velha pobre pedinte), morta e estendida no meio da casa

de entrada, em cima de uma enxerga, vestida com uma

saia de chita nova, comprada com esmolas.


Veio uma centelha pelo postigo da porta e foi-se meter na

saia da defunta que ficou toda queimada, sendo preciso

remendá-la para ir para a cova...

E à medida que se aproximava o Domingo Gordo a sua

excitação crescia de um modo que já parecia loucura: era o

dia inteiro a delinear, com as irmãs, embustes e enganifas

a pessoas conhecidas e desconhecidas, e logo que a noite

vinha ei-la que descia ao rés-do-chão, onde a mãe recebia

máscaras, e ali ficava dançando até tarde.

Isto começou a aborrecer-me, e com grande espanto meu

julguei até que me inspirava ciúmes; disse então comigo:

espera, que para teu castigo vou também meter-te um

susto; e assim fiz.

Comprei uma data de aranhas negras, compostas não sei

já do quê mas muito bem imitadas, de dimensões

monstruosas, e à noite, perto da hora em que Maria

Adelaide costumava vir deitar-se, pendurei umas tantas,

por impercetíveis fios de seda, à entrada da alcova;

espalhei outra porção por cima da colcha da cama e pelos

ferros da cabeceira, e coberta a cara de pós de talco

enfeitei-me com meia dúzia das mais gordas e


repugnantes. A essa hora sala e alcova só estavam

alumiadas pela luz frouxa e bruxuleante de uma lamparina,

de modo que as aranhas pareciam vivas e moviam-se.

Quando lhe senti os passos na escada compus as aranhas

na cara e imobilizei-me. Ela vinha alegre, a cantar, e

apenas abriu a porta da sala bradou:

— "Amiguinho, já estás dormindo?" — e correu para a

alcova, mas tão depressa encarou com o espetáculo da

minha face cadavérica, cercada e coberta de aranhões,

soltou um pungente grito espantoso e caiu, redondamente,

no chão desmaiada, com um baque pesado, estrondoso,

que ainda hoje me retumba nos ouvidos. Grito e baque

soaram no rés-do-chão com tal estampido que a mãe, e

duas ou três amigas que ainda lá estavam de visita,

acudiram, espavoridas, a investigar o que sucedera.

Após muito trabalho de socorros caseiros, e quando eu

decidira já chamar o médico, voltou a si, mas para entrar

em convulsões que duraram pela noite fora, quase

ininterruptamente, e durante muitos dias seguidos a

acometiam com curtos intervalos, apesar das drogas e

tratamento rigoroso a que o facultativo a sujeitou.


X

A comoção fora profundíssima e desarranjara-lhe os

nervos a ponto de inspirar receios de demência! E que

transformação no aspeto físico! Empalideceu até ao tom de

cera, a carne abateu-se-lhe mole e sumida, e os olhos

perderam o brilho. Pouco ou nada falava e todo o seu gosto

se resumia em ter uma das minhas mãos apertada nas

suas, ou posta sobre o coração, e se cortava o seu silêncio

era para repetir, sem cessar, olhando-me suplicante:

— "Não é verdade, amiguinho, que tu me não queres

deixar?..."

Era então amor verdadeiro o que me tinha? O que esta

ideia me envaideceu seria difícil encarecer. E os meus

cuidados, os meus carinhos recrudesceram, multiplicaram-

se, com o sentimento de que também a amava, não como

até ali por mera sensualidade mas espiritualmente pela

união das nossas almas.

Os médicos aconselhavam distrações e isso sugeriu-me a

lembrança de dar com ela um passeio pela província. Mas


que figura faria eu, apresentando-me com aquela

criaturinha ao lado, a que faltava tudo quanto vale na

sociedade: instrução, elegância no porte, trato mundano.

Decidi, porém, arcar com quaisquer apreensões de ridículo

e propus-lhe a excursão. Não se descreve a alegria; com

que recebeu a minha ideia: logo que começámos a detalhar

o projeto, transfigurou-se; parecia outra; aflorou-lhe o riso

aos lábios e o brilho aos olhos.


XI

Os preparativos para o passeio — viagem lhe chamava

ela — deram-nos duas semanas de perfeito regozijo.

Aproveitou-se a melhor costureira da terra para arranjar os

vestidos, encomendaram-se casacos, chapéus e sapatos de

Lisboa, e entre as minhas malas encontrei uma de mão, de

coiro inglês, na qual pus as suas iniciais, que ela recebeu

como complemento indispensável aos seus afanosos

aprestos.

Mas era de ver — e admirar — o jeito, a naturalidade,

com que ela entrava no período da elegância e do luxo que

este ensejo lhe franqueou: dir-se-ia que nunca trajara de

outro modo, e, embora nunca tivesse usado chapéu, a

primeira vez em que o pôs e saiu à rua, fê-lo sem nenhum

acanhamento nem jactância.

E o que a observação de tudo isto influía no progresso do

meu amor! Era então uma mulher apresentável, que nunca

me envergonharia diante dos meus amigos; e quando nos

pusemos a caminho já todas as minhas apreensões a este


respeito se haviam dissipado. Toda a minha pena era não

poder — não me atrever — a sair com ela, pelo braço, na

minha própria terra...

Não havia dúvida que Maria Adelaide renascera, e até

com outro espírito diferente, e uma curiosidade desperta

para certos modos de dizer, para certos aspetos da vida,

que dantes não tinha. O que ela celebrou uma comparação

com que o meu feitor descrevia a cheia: "O rio vem por aí

abaixo vermelho como um bezerro e vivo como um

sangue."

— "Desde que mudámos de casa, e ando mais bem

vestida — observava — os teus amigos cumprimentam-me

doutro modo e toda a gente me trata com mais

consideração. Será também porque me mostras mais

amor? Mas não; mesmo com menos amor o seu respeito

aumentava conforme os gastos que fazes comigo...”

E tornou-se mais incisiva na apreciação de quem lhe

mostrava pouca estima. Por exemplo:

— ” Aquela galinha (e apontava para uma que passeava

no quintal, fugida ao galinheiro) sempre é muito


presunçosa... Assim como há pessoas há animais! Isso...

Vai sempre assim, de galga no ar, olhando a um lado e a

outro a ver se a admiram, e em encontrando outra galinha

só dá-lhe logo uma bicada. Tal qual a nossa vizinha, a viúva

do Pele. Não existe mulher mais presunçosa. Aquilo só me

falou uma vez, para me pedir aquela flor rara que eu lhe

não quis dar; depois nunca mais... Ela, se vai à praça e

compra uma couve-flor, ei-la que aí vem rua abaixo com a

couve na mão encostada ao peito, como quem trouxesse

um rico ramalhete. Se compra um coelhinho, o mesmo:

com ele rua abaixo, dependurado, para toda a gente saber

que a cavalheira come coelhos. E a cada instante, à porta,

a dizer para a vizinhança ouvir: “ Hoje também vou para

casa da senhora viscondessa; grande transtorno me causa,

com tanta coisa que tenho que fazer, mas ela não pode

passar sem mim e mandou-me pedir tanto, tanto..." Para

ela, viúva Pele, só o peixe grado é que vale. Vesugo, safios,

e mais peixe do covo são cospes-cospes...”


XII

Nunca Maria Adelaide mostrara tanta caridade como

agora; não queria que pobre algum que lhe batesse à porta

se fosse embora sem esmola, conquanto alguns, observava,

não precisassem de pedir, pois eram sustentados pela

família. E citou o caso de um tio velho, já cego, que tiveram

em casa e que sabia uma oração tão linda, meu belo filho,

tão linda! A oração dos martírios do Senhor (dizia isto com

a expressão sentida de funda poesia com que eu, por

exemplo, então wagnerista fanático, me poderia referir à

mais patética passagem do Parsifal). Duma vez que ela

estava trabalhando em casa da costureira, mandaram-na à

porta a ver quem batia: era o velho tio “ pedindo alguma

coisinha para matar a fome, porque havia já três dias que

não comia nada". Ora não havia ainda duas horas que o

velho jantara, enchendo-se de” baile de roda"...

— ” Baile de roda?"

— ” Nos Fumeiros chamamos assim às papas de milho,

porque estão sempre a dançar quando fervem.”


XIII

Poucos dias antes de partir quase passou o dia inteiro na

praia, para se despedir do” nosso mar", e fomos logo de

manhã cedo para os lados do Nolasco. Desse dia conservo

a recordação tão viva como se fosse ontem. Mas haverá

expressões adequadas à descrição de dias tais? O mar, de

vaga larga, rebentava sobre os rochedos da costa,

enchendo de espuma todas aquelas ruínas de castelos

fantásticos, nesse dia mais monumentais do que nunca.

Mas foi caindo pouco a pouco e à tarde aparecia calmo,

claro e cristalino, todo semeado de leixões multicores. À

volta, já quase noite, parámos no convento; o rio, em frente

a Ferragudo, era de puro lilás que por toda a bacia se

dissipava em gradações de lilás azulado, sob um céu de

inalterável azul, esfumado de fogo. A serra parecia pegada

à vila e soltava as pinceladas de púrpura que engrossavam

a poente, e agitavam-se em rede que subia pelo céu.

Perante este espetáculo Maria Adelaide, que vinha

palrando alegremente, emudeceu; o seu rosto tomou a

expressão de êxtase, e de repente, apertando-me de


encontro ao seio, murmurava-me ao ouvido, como quem diz

um grande segredo:

— ” Que lindo que isto é..., quem pudesse andar vestida

com estas cores... tu até havias de gostar mais de mim...”

Surpreendeu-me deveras este despertar para as belezas

do mundo externo, e senti como que um novo laço a

prender-nos os corações...

Devíamos partir daí a dois dias, mas o dia seguinte

amanheceu de chuva miudinha, sem vento, e assim se

conservou até à noite.

— ” Tempo holandês — observei — pouco favorável a

viagens...”

— ” Então já não vamos?" — acudiu ela em tom

consternado.

— ” Vamos, sim, parvinha, ainda que chova a cântaros.”

Mas ela não descansava, fazendo promessas aos santos

da sua devoção para que o tempo melhorasse, espreitando

o céu por todos os lados, e já quase escuro de todo levou-

me à varanda para ver as nuvens” que lhe metiam medo".


Era num momento de acalmia; a cerca do Colégio estava

toda coberta de flutuante e espessa bruma; os ciprestes do

cemitério rompiam entre rolos de nevoeiro; e as abóbadas

e campanários do enorme edifício que é o Colégio,

alumiadas por escassíssima claridade, ondulavam com

moleza de panos no fundo algodoento do céu.

— ” Não vejo nada que infunda pavor e apostava tudo

como amanhã teremos um dia lindo.” Os beijos com que

coroou esta profecia!


XIV

O meu prognóstico saiu certo e ao dia seguinte pusemo-

nos a caminho de Faro com um sol resplandecente em céu

limpo de nuvens.

A excursão levou uma semana, por Faro, o Milreu, S.

Brás, Tavira e Vila Real de Santo António, onde

atravessámos o rio para pisar, durante algumas horas,

terras de Espanha: Ayamonte.

Maria Adelaide parecia outra: muito à vontade nos seus

vestidos elegantes; maneiras polidas, gestos medidos, falas

breves e a propósito, e um sorriso constante que mais lhe

iluminava a alegria do rosto sem nada de infantil.

Pelas ruas de Ayamonte choviam-lhe em cima as

andaluzas saudações:” Viva tu gracia",” Bendita sea tu

madre", etc.,” que muito a lisonjeavam... logo que lhes

soube o sentido que propositadamente demorei em

explicar-lhe.

Os amigos a quem a apresentei olhavam-me com inveja,

e por todos os lados homens e mulheres paravam para a


ver melhor, não disfarçando a admiração que lhes causava.

Em suma foi uma excursão triunfal e difícil seria descrever

o prazer que me deu, junto à vaidade de possuir joia tão

rara. Senti que começava a adorá-la...

E mais do que nunca ouvia enternecido as passagens

tristes dos seus tempos de miséria e fome, e as referências

de episódios dramáticos, que ela contava sem grande

consciência do que havia neles de patético, como se fossem

correntes e naturais, o que ainda lhes dava um tom mais

trágico.
XV

Mas por esse tempo renovou-se com força a sua primitiva

obsessão. Tínhamos na sala um fino cromo francês com

figuras de crianças nuas, uma das quais, despertando

dentro de um ninho, esfregava os olhos com os punhos,

muito graciosamente e com todo o carácter infantil. Noutro

quadro outras três crianças desciam do céu em noite

nevada de Natal, para trazer brinquedos, ou para meter

brinquedos num renque de botinhas e sapatinhos dispostos

postos e representados, com artístico naturalismo, no

primeiro plano da composição. Ela que sempre desejara ter

filhos e parecia possuir a ânsia da maternidade

exacerbada, começou a atentar nos quadros, levando horas

a contemplar as crianças, e fantasiando que tomava uma

delas, e tinha-a no regaço nuazinha, e ia-a lavar em água

morna, e punha-lhe uns cueirinhos perfumados de

alfazema, e depois um vestidinho liso, e envolvia-a numa

grande capa bordada, com a sua touquinha de rendas, e

dava-lhe beijinhos, muitos, muitos: comia-a com beijos...


E desatou a apoquentar-me deveras para que acabasse

com as precauções anti prolíficas e lhe fizesse um mocinho.

A princípio julguei-a interesseira, e aquele desejo, mais do

que tudo, obra, inspiração da família para me prender mais

estreitamente, ou para depois da minha morte alegar

direito a alguma coisa que eu possuísse, mas pouco a

pouco, pelas continuadas manifestações de maternidade

não satisfeita, pela espontaneidade com que ideava

carinhos e afagos a imaginárias crianças, que ela embalava

nos braços e conchegava ao peito, oferecendo-lhes, com

gestos que pareciam concertados em moldes pré-

rafaelistas, o seio branco de bico rosado, fui-me

convencendo de que era realmente e exclusivamente o

instinto maternal que a levava a ser importuna.

Ora tudo isto me assustava — horrorizava — prevendo o

momento de fraqueza em que, mais tarde ou mais cedo, eu

cederia às suas instâncias e imaginando, com a gravidez e

o parto, o medonho e irremediável descalabro daquele

corpinho efémero, porém ainda mais, talvez, posto que o

fosse de uma maneira vaga, imprecisa, o receio de ser

suplantado na sua adoração, tão lisonjeira ao meu egoísmo


e à minha sensualidade, por um desconhecido informe e

rabugento, uma trouxa de carne, que ainda em cima me

havia de estragar as noites com choros e berreiros.

Resisti...
XVI

Nesta altura sobreveio na minha vida um acontecimento

que me obrigava a ir a Lisboa e ali ficar talvez durante

meses. Ora a separação, por um dia que fosse, era sempre

trágica. Despedida calada e dolorosa; as faces húmidas de

lágrimas em fio, um angustiado desatar de braços que me

desfazia o coração...

Essas lágrimas! Quando chorava, quando a pena lhe

marejava os olhos de lágrimas, a polpa das faces, que

desmaiavam, parecia abrandecer e cavar-se à pressão dos

beijos; os beijos eram então mais prolongados, mais

gostosos, mais íntimos, deixando-lhe na cara marcas de

esmaecido carmim por onde, depois, passada a crise, a

vida e a alegria voltavam pouco a pouco ao rosto.

Ao ver-lhe a fisionomia assim transtornada em poucos

momentos, mudada a ponto de ser quase impossível

reconhecer-lhe nas feições o encanto habitual,

compreendia que ela era como certos cantos de paisagem

incaracterísticos mas aos quais a luz do Sol dá variedade,


tornando-os deliciosos. A tristeza perturbava-lhe a

harmonia das feições para as quais a alegria era a luz do

Sol. Isto me enchia de piedade...

Se ocorria de manhã algum pequeno amuo enquanto me

vestia, ela fitava-me atentamente. O seu rosto desmaiava

na alvura dos lençóis, e os seus grandes olhos brilhavam na

face esmaecida, estrelando-a a mais e mais de luz

estranha. Quando, vestido já, eu fazia jeito de me ir

embora sem lhe dizer adeus, ela erguia-se subitamente,

toda de branco na túnica que era a sua camisa de dormir, e

vinha, lentamente, direito a mim; se eu parava, ela parava

também, e se levava a mão à porta de saída as lágrimas

brotavam-lhe dos olhos. Eu, muitas vezes, não lhe via as

lágrimas; porém sentia-as queimar-me o coração. Voltava-

me, abraçava-a, beijava-a, beijava-a sofregamente. A polpa

das faces punha-se-lhe extraordinariamente branda e fina;

as lágrimas caíam-me nos lábios e ela só dizia:” Estou

triste, estou muito triste...”

Evidentemente o sentimento que ela me inspirava, e que

a princípio nascia da mistura da curiosidade e da

sensualidade, ia-se transformando em profundo interesse,


em amor, em paixão. Tudo nela me inquietava e comovia:

uma dor de cabeça, um leve incómodo de estômago, e

então, quando chegava a crise mensal, que era agora

acompanhada de agudo sofrimento, eu andava sobre

brasas. Ela fazia tudo para me tranquilizar, e de manhã,

quando eu saía, jurava que a dor já passara e decerto não

voltava. Mas, ao regressar a casa para almoçar,

encontrava-a num molhinho, em cima da cama, sem forma

de gente, metida num acervo de saias e xales, de onde

emergia o rosto lindíssimo, com três madeixas de oiro

soltas do lenço de seda a afagar-lhe a tez, onde a febre

punha levíssimos tons de um róseo nacarado, e os olhos

desmedidamente abertos, a íris toda comida pela dilatação

da pupila, cheios de uma expressão animal, e ainda

implorando não sei que perdões, com uma reserva infinita

de carícias...

E a ideia de que a ia deixar sozinha, entregue às mágoas

e saudades durante meses, apoleava-me. Mas porque é que

eu a não levava comigo? As provas dadas pela excursão na

província eram concludentes e em Lisboa eu podia

arranjar-me de modo que algumas senhoras que eu lá


conhecia não dessem por ela; e, quanto aos amigos, era

com verdadeiro orgulho que a apresentaria, seguro de que

só provocaria admiração e inveja. Acrescia que os médicos,

achando-a fraca, aconselhavam distrações e mudança de

ares. Decidi-me, pois, a levá-la a Lisboa, e logo que ela

soube desta resolução, e se convenceu de que era formal,

entrou-lhe no corpo uma alma nova, e dia e noite não

cessava de cantar.
XVII

Foi uma nova e radical transformação. Reanimou-se-lhe a

veia cómica, que era um dos seus mais característicos

predicados naturais, e dali em diante, sempre que eu

chegava a casa, não faltavam historietas e relatos jocosos,

cujos elementos principais entravam pela porta do quintal

que dava para uma rua de gente pobre, onde dia e noite se

ouviam despiques e lamentações.

E que tipos lá havia! Um dos principais e mais populares

era o Chico Viana, com as suas flores de papel e a sua

habilidade de cozinheiro, o seu boleado de quadris, a

excessiva abundância de nádegas, parando a todas as

portas a trocar segredinhos com as vendedeiras e as

criadas de servir. Em casa, porém, sisudo e maternal,

tomando conta dos mocinhos, compondo o oratório,

armando presépios, e deixando a mulher engordar por

absoluta inatividade. E as suas constantes disputas com

uma vizinha, a” menina sem gosto", que terminavam

invariavelmente por uma gritaria infernal, cada um dos

contendedores, deitando a cabeça pelo postigo, a clamar:


— ” Ouviu, ouviu, ouviu?...”

— ” Ouvi, ouvi, ouvi, ouvi...”

A graça que a Maria Adelaide achava neste final e o jeito

com que lhes imitava os modos!

Por essa ocasião quis ela ir em pessoa (para meter o pé

na alta-roda) levar o seu óbolo a D. Estefânia Cortês, que

presidia uma comissão de senhoras, recentemente

formada, com intuitos de beneficência, e eu ri deveras com

o relato da visita.

Levaram-na sem demora à sala onde toda a comissão

estava reunida, e, recebido o óbolo, sem lhe prestar

atenção alguma, continuaram comentando os sucessos do

dia, dos quais o principal era o casamento da menina

Cartaxo.

D. Maria Vitória (ceceosa) —” Ia muito bonita, a noiva;

tenho visto muitas — quantas? — que passam por formosas

e que o não parecem nem metade do que ela ia... ; o

vestido elegantíssimo...”

D. Dores —” Violeta?"
D. Maria Vitória —” Claro; mais branco do que violeta...”

D. Dores —” Mas com o véu pela cara, o que já não se

usa...”

D. Maria Vitória —” Não, minha senhora, não. Com o véu

por aqui — (traça com os dedos uma curva no alto da

moleira) — levantado, muito bem posto, por pessoa de

muito gosto que sabe o que faz; pela própria irmã. Meninas

de muita habilidade...”

D. Dores —” Sim? ...”

D. Maria Vitória —” Sim, minha senhora, de muita

habilidade, como não conheço outras. As duas irmãs é que

fizeram o enxoval todo, com bordados como ainda aqui se

não viram, e a irmã solteira é que preparou os bolos

todos...”

D. Dores —” E a mãe levantava-se antes de nascer o Sol

para acender o forno...”

Este diálogo insosso era reproduzido por Maria Adelaide

sem gestos mas com tais intonações de voz que lhe davam

sainete incomparável.
Também lá ouvira a razão por que o” africano" recusara

a mão de uma das filhas da Mônica, com a qual a Carroça

pretendia casá-lo: foram dizer ao homem que elas eram

muito beatas, pequenas e redondas, que pareciam umas

couvinhas, e isso bastou.

Outro episódio da rua dos pobres: a Faísca, a Torres e

outras damas do mesmo jaez, reuniram-se à espera de que

passasse uma” serenata" de que fazia parte o marido da

primeira. Nisto, quando deram quatro horas, viram entrar

um homem para a casa da Coxa — a da perna de pau —

cujo marido estava de serviço na” bicha" da alfândega, à”

ponta da areia". Fingindo que nada viram, puseram-se de

espreita, deixando frestas abertas nas portas e janelas.

Cerca de uma da madrugada ouviram abrir a porta da Coxa

e esta sair à rua para despejar uma bacia de água, tudo

com cautela e de mansinho. Não tardou que o visitante

saísse e depressa se fosse pela rua acima. Mas elas, todas

em coro, romperam clamando —” Pum, pum, pum, lá saiu o

rato. Pum, pum, pum...” — com uma assuada tremenda.

Porém a Coxa, muito senhora de si, quando a assuada

parou, voltou-se para elas e em tom de profundo desprezo


—”Já uma pessoa não é livre de receber em casa o seu

próprio irmão sem que estas porcas tenham alguma coisa

que dizer...”
XVIII

Todos estes contos, porém, começavam já a enfastiar-me

e, pior ainda, as irmãs iam-se-me tornando insuportáveis.

Elas eram muitas, como disse, de tipos diferentes mas de

assinalada parecença (além do ar de família) e embora

bonitas desagradavam-me como se trouxessem a

desfiguração abusiva das feições da minha rapariga,

influindo no amor que lhe tinha, pois vulgarizavam-lhe a

fisionomia e até certo ponto descaracterizavam-na. Poucas

vezes as via, mas ouvia-lhes as vozes no quintal, os risos,

as cantigas. Tudo isto apressou a minha partida para

Lisboa, de onde eu resolvera dar ordem ao meu feitor para

que lhes procurasse casa à parte, sob pretexto de que

precisava utilizar-me do rés-do-chão.

Mas eu sentia que o meu amor aumentava, e considerava

com certa apreensão as provas por que a minha vaidade ia

passar, se a minha amante não colhesse em Lisboa os

aplausos e os tributos que eu julgava devidos à sua

formosura.
Os aprestos da partida foram mais longos do que eu

previa, graças à inexperiência de Maria Adelaide, e

ocasionaram várias disputas, mas quando isso sucedia e

nos amuávamos, e eu ficava algumas horas aborrecido ou

irritado por sua causa, as reconciliações faziam-se com a

efusão de quem tivesse passado longos meses de ausência

e morresse de saudades.

A demora na partida também lhe atormentava os nervos,

e eu observava que à menor contrariedade, com a mãe ou

as irmãs, os seus olhos, no calor da ira, acendiam-se e

reluziam, como duas brasas de carvão ao sopro do fole...


XIX

Entrementes o fotógrafo trouxe-lhe dois retratos (os

primeiros que tirara) mas um deles tão mau que a deixou

indignada, sem, no entanto, se atrever, como eu lhe

aconselhava, a destruir aquilo” que custava tanto

dinheiro", e talvez também — de vez em quando enchia-me

de carícias e beijos para impedir a sua destruição, se eu

falava em o rasgar — com dó de desfazer, o que trazia ou o

que melhor ou pior lhe reproduzia o rosto, mas por fim

roubei-lhe os dois retratos e no escritório rasguei-os.

Os bocados da face, as feições mutiladas, que apareciam

durante a operação, apertavam-me o coração como se

estivesse praticando um acto criminoso...

Para mais assinalar esse dia lembro-me que ao terminar

a operação um vizinho meu, grande proprietário, que me

procurara para me encarregar de uma comissão na capital,

teve uma curiosa comparação. A chuva era já indispensável

para as sementeiras que estavam lindas mas iam-se

definhando. Porém o tempo mudara; havia dois dias que


soprava vento do mar e a capitania içara o sino de

tempestade. No entanto, e mau grado a tanto prognóstico,

a chuva tardava e dizia-me o lavrador isto trazia-o febril”

como quem tomou uma purga enérgica e vê passar o prazo

razoável de produzir efeito..."

Chegou a hora da partida... O dia decorreu com

intermitências de sol e nuvens; a tarde sem acentuado

carácter mas calma, e ao passar a ponte os olhos não se me

despegavam dos lados da barra onde as rochas

reverberavam sangue do pôr do Sol.


XX

O meu correspondente em Lisboa arranjara-me aposento

em casa de uma viúva, que recebia hóspedes e morava a S.

Pedro de Alcântara no último andar do palácio Ludovice.

Bela instalação e, das janelas, belíssima vista que abrangia

toda a tumultuosa parte oriental da cidade, a bacia do Tejo

e a Outra Banda.

Maria Adelaide estava como louca de alegria, não

cabendo em si de contente, e tão expansiva que parecia

uma criança, querendo” saber tudo" (dizia ela) quanto

respeita à cidade, para depois contar às irmãs. E o melhor

foi que a nossa hospedeira deu-lhe para simpatizar com

aquele feitio, e vinha a miúdo ao nosso quarto para lhe

explicar que sítios eram aqueles que a vista das janelas

abarcava. Depois ofereceu-se para a guiar nalgumas

compras, de que ainda precisava para” afinar" o vestuário.

Maria Adelaide tinha em Lisboa algumas parentas que

nem de vista conhecia, e entre elas uma tia-avó, que estava

empregada na fábrica de Xabregas e morava a Santa


Apolónia, a qual, depois de mirar muito bem mirada,

abraçou a sobrinha com exuberância excessiva e prometeu

levá-la a casa das filhas e de outras pessoas afins.

Com estas visitas, a escolha de modas, etc., levou Maria

Adelaide os primeiros dias muito entretida, deixando-me

inteiramente livre para me encontrar com alguns amigos

mais ou menos chegados à literatura e que me puseram ao

corrente do aparecimento dos novos” génios",

comparecendo, depois, com frequência ao nosso jantar no

Tavares onde tomávamos as refeições. Era nesse tempo o

Tavares talvez o melhor restaurante de Lisboa: cozinha

excelente e vinhos e licores como nenhum outro os dava

mais finos e escolhidos, e que os meus amigos festejavam

jubilosamente, demorando-se pela noite fora a dissertar

sobre letras e artes. Maria Adelaide, naturalmente, não

entrava na conversa, mas sempre calada arranjou um

sorriso que parecia acompanhar com interesse e

inteligência os conceitos fantasistas, e a miúdo absurdos,

que os meus amigos emitiam; e isto sem dar o mais leve

indício de fastio ou cansaço.


Todos lhe admiravam abertamente a formosura e a

elegância, e no meio acanhado que é a nossa capital em

breve correu fama de que eu possuía uma autêntica

maravilha.
XXI

No entanto, como a situação de amancebado me colocava

mal para a frequentação das famílias regularmente

constituídas, a nenhuma daquelas das minhas relações dei

sinal da estada em Lisboa. Um dia, porém, cruzei-me na

Rua do Alecrim com a minha amiga de infância, D. Laura

da Nazaré Girão (a célebre pianista amadora) a quem tirei

o chapéu mas que, sem quase corresponder ao

cumprimento, hesitou e parou como que a examinar a

minha companheira. E ao dia seguinte enviou-me um

bilhete, felicitando-me” pelo tesouro que encontrara, mas

cuja guarda não era razão bastante para votar ao desprezo

as mais antigas e fiéis amizades".

Fui sem demora agradecer os cumprimentos mas à hora

em que tinha quase a certeza de não a encontrar em casa.

Assim sucedeu, com efeito. Deixei cartões e julgava-me

desembaraçado daquele empecilho quando oito dias depois

recebi convite para assistir a um concerto dado em sua

casa com a assistência e colaboração do afamado”


virtuoso" húngaro Zakany, que eu nunca ouvira e tinha

realmente grande desejo de apreciar.

Aceitei, dando conta do caso a Maria Adelaide que,

mostrando-se muito surpreendida, observou:

— ” Mas então terei de passar todo o serão sozinha... E a

que horas acabará o concerto?"

Para a tranquilizar assegurei-lhe que, fosse qual fosse a

sua duração, às onze horas eu estaria já de volta. Ela nada

mais disse, mas notei-lhe no rosto não sei que expressão de

desconfiança que me aborreceu, acudindo-me ao espírito,

pela primeira vez, a reflexão de que não era livre para

dispor de mim algumas horas sem licença da minha

amante.
XXII

Assistindo ao concerto havia bem meia dúzia de senhoras

que me conheciam pessoalmente, e cada uma delas,

parecendo obedecer a um mot d'ordre nas saudações que

me dirigiam, fez claras e irónicas alusões ao meu” terceiro

estado", e aos raros dotes físicos e espirituais da minha

companheira.

Também lá encontrei dois antigos condiscípulos,

irremediáveis boémios de temperamento, com os quais,

acabado o concerto, saí a dar uma volta pela cidade, e

volta foi ela que era já quase manhã quando cheguei a

casa.

Maria Adelaide esperava-me sentada na cama, lacrimosa

e trémula, vendo-se claramente que nem tentara dormir.

Poupou-me a recriminações mas os seus beijos foram frios

e fugitivos.

Sucedeu logo pouco depois receber carta de uma antiga

amiga, que vivia também no” terceiro estado", e soubera

por um dos boémios o meu endereço, manifestando o


máximo desejo de me” abraçar, para o que me esperaria

daí a dois dias perto da estação de Alcântara às dez horas

da noite". Ajuntava que era essa uma” ocasião única", pois

o amante, ciumento como Otelo, não a perdia um instante

de vista e regressaria sem demora da viagem que por

motivos de negócio fora obrigado a fazer à província.

Eu conservava desse antigo amor recordações

vivíssimas, que me atearam no corpo e na alma o desejo

ardente de a tornar a ver, e não houve raciocínio nem

consideração de espécie alguma que me demovessem de ir

à entrevista. Lembra-me que até para rebater a ideia de

que era um passo inútil e perigoso, a que eu nenhuma

necessidade tinha de me arriscar, farto e satisfeito como

andava com os encantos de Maria Adelaide, me acudiu à

mente ou evoquei o prolóquio popular:” nem sempre

galinha nem sempre rainha".

Mas que desculpa, dar à minha amante? Depois de muito

matutar resolvi com um dos boémios que ele viesse

procurar-me em nome doutro amigo moribundo e que

ansiosamente desejava despedir-se de mim. E assim se fez.

Quando jantávamos ele veio ao Tavares com o recado, e


depois de acompanhar a Maria Adelaide a casa parti,

alegre como um colegial em-férias, para Alcântara onde a

minha fada me esperava já.

Não fizera mudança alguma durante os anos em que nos

não víramos, e embora fosse mulher de mais de trinta

conservava a frescura que é o apanágio da adolescência

feminina. Com isto uma profunda experiência amorosa,

servida por um temperamento férvido...

Mas não tínhamos refúgio a que nos acolhêssemos e

chuviscava. Era-lhe absolutamente vedado levar-me à sua

residência, e eu não sabia de casa alguma hospitaleira ("de

passe") no bairro de Alcântara que nos conviesse.

Resolvemos pois arrostar com as intempéries e buscando a

solidão metemo-nos pela doca, seguindo o dique que a

fecha do lado do mar.

A certa altura topámos com um guarda da Alfândega, a

quem disfarçadamente pedi informações topográficas, que

ele deu com abundância e precisão, observando que

devíamos ter cuidado com a parte iluminada do dique,

onde nos podíamos encandear e escorregar para o rio, o

que já não era a primeira vez que acontecia. Com efeito, no


dique e a curtas distâncias havia uns potentíssimos focos

giratórios de luz elétrica que cegavam, e logo à entrada, se

não levasse a minha companheira bem segura pelo braço

que lhe passara em volta da cinta, ela teria rebolado para o

rio...

Porém todos estes riscos, e a impertinência da chuva que

aumentava, não nos impediram de passar duas horas de

delícias, e quando saímos da doca já não encontrei carro

para Lisboa, sendo portanto obrigado a regressar a pé.

Imagine-se como eu chegaria a casa, extenuado e, coberto

de lama...
XXIII

Maria Adelaide esperava-me em cima da cama, toda feita

num molhinho, mais chorosa e trémula do que na primeira

vez em que eu tardara, mas agora lamentando-se e

recriminando-me. De repente, reparando na lama que me

cobria os sapatos e salpicara o fato, exclamou —” Por onde

é que tu andaste que vens nesse lindo estado?...” — E entre

choros contou que debalde tentara dormir, pois logo que

fechava os olhos via umas luzes fortíssimas, que tudo

incendiavam, e eu a querer soltar-me, sem poder, das suas

chamas.

O que ela me disse deixou-me estupefacto e... indignado.

Abriu-se-me no espírito uma perspetiva tremenda de

sujeição àquela vigilância de histérico-telepatia (assim a

classifiquei com os meus botões) a que seria impossível

escapar, e aí ficava eu impedido de dar um passo de que

Maria Adelaide não tivesse algum conhecimento e

apreciasse a intenção e o sentido.


Evidentemente exagerava mas por mais diligências que

fizesse para me soltar de semelhante rede, invocando os

recursos do raciocínio, sentia-me enleado, cerceado no

melhor da minha liberdade, do meu livre arbítrio.

Como sair de tão apertado e ridículo impasse? Pela

violência? Pela diplomacia? Entretanto decidi que na

seguinte noite não voltaria a casa antes de amanhecer, e

assim o fiz, vagueando, sozinho porque não tive a sorte de

achar companheiro idóneo, embora me sentisse morto de

fadiga.

Tomei o primeiro almoço num café da Praça da Figueira

e depois de várias voltas pelo mercado, entretido a reparar

nas artimanhas dos vendedores de ambos os sexos, pus-me

vagarosamente a caminho de casa, onde encontrei Maria

Adelaide de médico à cabeceira, clamando pela morte.

Contou-me então a hospedeira que pela volta da meia-noite

Maria Adelaide começara com faniquitos, e ataques

nervosos de tal modo intensos, que a tinham assustado

deveras, obrigando-a — e dizia isto com um sorriso que me

pareceu escarninho — a recorrer ao auxílio da ciência...


— ” Pois a ciência que lhe sirva...” — exclamei furioso,

dispondo-me a voltar para a rua; e pegando no chapéu,

sem proferir mais palavra, enfiei pelo corredor que leva

para a escada cuja porta ainda cheguei a abrir. Mas D.

Filomena — assim se chamava a minha hospedeira — que

me seguira precipitadamente, interpôs-se, e pegando-me

num braço com doce violência me arrastou para a sala

dizendo:

— ” Ora venha cá e não seja criança... Desculpe que lhe

fale assim, com esta familiaridade, mas o caso não é para

menos, pois da forma como terminará este lance talvez

dependa a felicidade do casal e eu sinto grande interesse

pelos dois, cuja desavença me causa muita pena.”

D. Filomena, graças ao seu ar respeitável, e curiosas

sentenças que emitia quando se falava de” amor" (de que

devia possuir experiências sem conto) figurava-se-me,

desde que a vira pela primeira vez, uma personagem do

Camilo, e isso dava à atmosfera espiritual que a cercava

um sabor romântico que não era desagradável.

Entrados à sala, e depois de me instalar no sofá

arranjando as almofadas de modo a acomodar-me bem, e


com expressões de verdadeiro carinho, começou a sua

prédica.

Tais considerações me fez sobre as qualidades físicas e

morais de Maria Adelaide, apontando ao mesmo tempo a

sua inexperiência e incapacidade de fingir, além do

verdadeiro e entranhado amor que me dedicava, que eu fui

abrandando manso e manso. Teve uma observação que,

por judiciosa, nunca mais me esqueceu, para provar a

sinceridade ingénua com que Maria Adelaide procedia.

— ” Outra fosse ela — dizia — e em vez de lágrimas e

lamentações só mostrasse frieza e desdéns." — E

acrescentou: ”A intenção de certas mulheres de nos

dominarem inspirando-nos piedade, é contraproducente, e

só revela inexperiência; piedade significa superioridade

enquanto que amor significa sujeição, obediência. Em vez

de inspirar piedade a mulher hábil e experiente tenta

atiçar de modo eficaz o amor que esmorece ou vacila."

Enfim, quando terminou a sua prédica já eu estava

decidido à plena conciliação, e se alguma coisa anuviava o

horizonte era o vago receio de que Maria Adelaide a não

aceitasse tão cabal como eu a desejaria. Isso, porém, não


sucedeu assim. Quando voltei ao quarto ela esperava-me

de braços abertos, como se o êxito da pregação de D.

Filomena se lhe tivesse afigurado infalível.

O médico que a examinara achou-lhe o coração fraco e

declarou-a neurasténica, recomendando muito sossego de

espírito e que evitasse comoções e cansaços de qualquer

ordem, em vista do que, e de concerto com D. Filomena,

resolvemos que ela ficasse uma semana em casa, a tomar

as drogas receitadas pelo esculápio e em rigoroso regime

alimentício.
XXIV

No restaurante os meus amigos mostravam o máximo

interesse por notícias da sua saúde, fazendo votos para que

ela pudesse comparecer depressa às refeições, pois na sua

ausência tudo parecia triste e sombrio. E era verdade.

Embora ela nunca saísse da sua impenetrável mudez,

bastava a presença do seu rosto lindo e sorridente para

animar o quadro e a mim, especialmente, a vaidade de

possuir tal prenda, que toda a gente admirava e sem

dúvida invejava, exacerbava-se com a sua exposição ao

público.

Maria Adelaide, por seu turno, todos os dias pedia

informações do que ali se passava, designando cada um

dos meus amigos pelo seu nome, e referindo-se aos seus

defeitos físicos e intelectuais com uma intuição do cómico

para surpreender em cérebro tão pouco culto.

Dois ou três dias depois da crise, aludindo ao que se

passara no restaurante durante a última refeição noturna,

falei-lhe de um jornalista que lá aparecera, famoso em todo


o Norte do país onde o tinham na conta de arguto filósofo.

Era um personagem grotesco: a cabeça enorme; olhos

piscos e ramelosos; rosto de pele encarquilhada e glabro; e

cofiando sem cessar um imaginário bigode com as unhas

de luto, franjadas de espigões...

Este retrato interessou-a deveras, despertando-lhe

intenso desejo de ver o original, e como eu não soubesse se

ele demoraria muito em Lisboa, Maria Adelaide decidiu

abreviar o seu encerro, e no dia seguinte já me

acompanhou ao restaurante, onde foi muito festejada, o

que visivelmente a sensibilizou.

Apresentei-lhe o filósofo que, sem mais preparo, lhe

desfechou esta pergunta:

— ” Não é verdade que adora os romances do Júlio

Dinis?"

Como de costume, Maria Adelaide, antes de responder,

lançou-me um olhar interrogativo e eu atalhei para dizer:

— ” O que ela prefere é a Princesa Mangalona e o Carlos

Magno...”
Risada geral, que a escandalizou, levando-a a protestar

com força, afirmando que era mentira o que eu dizia. O

filósofo, porém, aproveitou a deixa para nos pespegar uma

longa e pesadíssima dissertação sobre literatura popular e

lendária, gorando-nos assim o prazer que o reaparecimento

de Maria Adelaide causava.


XXV

A crise passara sem deixar vestígios aparentes, mas no

convívio habitual, íntimo, eu sentia em Maria Adelaide não

sei que misteriosa reserva, como se no fundo da alma lhe

tivesse ficado uma indelével sombra negra. Já não falava

com a mesma espontaneidade e franqueza, nem tinha os

assomos de ingénua alegria que tanto a assemelhavam a

uma criança, caindo a miúdo em meditações que pareciam,

pela melancolia que se lhe refletia no olhar, jogar com

lembranças patéticas. Tornou-se especialmente notável a

desconfiança com que encarava todas as mulheres novas e

bonitas, sendo já certo que se alguma ou algumas havia no

restaurante, à hora das nossas refeições, ela quase que não

tocava nos pratos que lhe serviam, apesar das minhas

carinhosas instâncias.

Mas o bonito foi quando D. Laura Girão lá apareceu e eu

me levantei para a ir cumprimentar. Deu-lhe um ataque de

nervos tão forte e ruidoso que tiveram de a levar para um

gabinete interior, onde eu logo acudi no intuito baldado de

a apaziguar.
Poucos dias depois a minha amiga dos lados de Alcântara

também veio almoçar ao Tavares, e embora na companhia

do amante começou a dar-me sinais com os olhos,

indicando que me queria falar, e levantou-se para ir” lá

dentro", onde eu tive a imprudência de a seguir. Maria

Adelaide, porém, foi-nos sem demora no encalço,

apanhando-nos em flagrante de conversa, quando a outra,

justamente e em tom entusiástico, louvava a sua

formosura, felicitando-me por ser possuidor e senhor de

tão rara prenda. Novo ataque de nervos que exigiu a

intervenção de um médico.

Dali por diante as refeições em público tornaram-se

intoleráveis.

Mas a verdade é que muitas senhoras lá iam para

conhecer Maria Adelaide, e entre elas não foram poucas

aquelas que eu encontrara no concerto de D. Laura e que

se punham a estudar a minha amante como se fosse um

objeto de arte.

Por fim eu próprio propus que mudássemos de

restaurante, mas Maria Adelaide atalhou para declarar

perentoriamente que não valia a pena, pois o que nós


precisávamos era de voltar quanto antes para a nossa casa,

e que se eu não quisesse ir ela iria sozinha. Tal declaração

deixou-me estupefacto; porém, o amor que eu lhe tinha

estava ainda muito vivo para aceitar a separação e

concordei em que partiríamos daí a uma semana.


XXVI

Partimos com efeito, mas esses últimos dias de Lisboa

passei-os sem nítida consciência do que fazia, atordoado e

ouvindo sem cessar uma voz que do fundo da alma me

segredava:” já não tens então vontade própria?, quem

manda agora é essa mulher; perdeste completamente a

liberdade... E essa voz acompanhou-me pelo caminho,

exacerbando-se em tons de raiva quanto mais nos

aproximávamos de casa, e explodindo logo que lá

chegámos nesta frase proferida com notas de clarim:

— ” Agora vê lá o que fazes; se não acabas com os teus

caprichos sou eu que lhes ponho ponto deixando-te para

sempre... para sempre; ouviste?"

E enquanto falava, de tal modo lhe ia apertando os

braços que lhe rebentaram as lágrimas, e após alguns

soluços perdeu os sentidos. Isso, porém, não me comoveu;

estendi-a em cima da cama, chamei pela mãe a cujos

cuidados a abandonei, e pus-me na rua, leve como um

pássaro, para só voltar muitas horas depois.


Mas essas horas de liberdade foram envenenadas pelas

perguntas, que toda a gente me fazia, sobre a saúde da”

menina", da” senhora", da sua” rapariga" (cada qual

empregando a designação mais em harmonia com o

respeito que ela lhe merecia) —” que, ao que parece,

passou muito mal em Lisboa e vem tão mudada que

ninguém dirá que é a mesma". E com ar confrangido

alguns acrescentavam: —” É pena, pois na vila não havia

cara mais linda" — e muito confidencialmente o boticário

comunicou-me que a família de Maria Adelaide espalhava

por toda a parte que em Lisboa eu lhe dava maus tratos,

abandonando-a dias inteiros, no cacifo onde a metera, em

companhia de uma velha alcoviteira, enquanto que eu

corria pelos teatros e restaurantes caros com mulheres de

má vida, minhas antigas relações do tempo de estudante.

Pode calcular-se em que disposição de espírito eu

voltaria a casa! Ela lá estava, feita num molhinho, ao canto

da cama, e se para ela olhei foi somente para verificar que

estava realmente tão abatida e transfigurada que não

parecia a mesma. Ela pertencia a esse género de criaturas

impressionáveis, a quem as feições se transtornam ao mais


pequeno desgosto e só uma grande alegria consegue

restituir os encantos primitivos.

Mas pela noite fora um fundo sentimento de piedade me

invadiu o coração, e mesmo às escuras a puxei para o meu

lado, beijando-a e amimando-a, sem dizer palavra, até que

ela adormeceu.

No entanto a impressão que prevalecia era de que eu

estava à mercê das suas fantasias, tolhida, por completo a

vontade própria, e incapaz de reagir, sendo baldados

quaisquer esforços para desfazer esse abalo, essa mossa,

que de ali em diante a mais e mais se acentuou.


XXVII

Eu nunca tive queda para a literatura, e se em tempos de

estudante publiquei um livro de poesias foi por mero

espírito de imitação: todos os meus companheiros de”

república" faziam versos. De resto a minha obra teve o

êxito que merecia a sua evidente mediocridade, não

levantando na imprensa eco de espécie alguma: nem

louvor nem censura. Abstive-me de reincidir, resistindo até

à tentação de procurar na prosa a glória que o verso me

negara. Grande foi pois a minha surpresa quando, na crise

de inquietação e estonteamento provocada pelo

procedimento de Maria Adelaide, me assaltou o desejo de

fixar em notas as sensações mais vivas que experimentava,

fossem ou não ligadas às fases da crise. Desse modo,

pensava eu, talvez até consiga penetrar e explicar o

estranho estado de espírito em que me encontrava, e assim

fiz, mas sem ambição alguma de produzir aquilo a que se

chama um diário, e omitindo até, na maioria dos casos, as

datas dessas notas.


Do grosso caderno onde sepultei as minhas reflexões vou

eu extrair agora aquelas que julgo mais pitorescas, e bem

assim as referências aos factos mais intimamente ligados

com o desdobrar da minha vida de então.

Como introdução: —” Amiguinho — dizia-me ela uma vez

—, não é verdade que para os pobres todas as alegrias são

roubadas?"

Segue o respigo:

Tem-me entretido imaginar, no espantoso temporal que

tudo açoita há já quatro dias, uma espécie de luta travada

entre o vento e a chuva. Seco, destemperado, o vento uiva,

ronca horrivelmente; abate um pouco se a chuva o abafa.

Tal um gigante que intenta libertar-se do grande peso que

lhe cai nos ombros, e resiste, e levanta-se, mas por fim

sucumbe, confunde-se com a terra, fica esmagado e

desaparece sob a chuva torrencial. Há nisto certa

semelhança com a batalha que travo há já uma semana,

para acabar com a minha escravidão, e que desfechou

resignando-me...
Uma pobre mulher, à porta da rua, para uma dama toda

séria, que ao passar olha muito para o interior da casa: —”

Há certa gente que se não leva as casas nos olhos é porque

não pode...”

Não destrinço a psicologia do caso mas eu muitas vezes

nem na lembrança quero levar a imagem das casas onde

mais gozei: secam-se-me subitamente as afeições sem que

nada fizesse prever esse desfecho; despegam-se-me como

um cafelo da parede...

À Maria Adelaide, na sua vida enevoada abriram-se-lhe

agora uns dias iluminados: foram os dias da feira. Não que

lhe agradasse a exposição em que andava, nem os gabos

de que era alvo, mas passando pelo canto dos ourives,

onde geralmente a Augusta (a sua rival mais detestada)

estacionava num círculo de amigas, sentia-lhe no olhar o

despeito de a encontrar bonita e elegante, o que lhe

amimava a vaidade. Isso, junto à alegria da feira, naqueles

dias de sol acariciador, quase lhe restituíram a sua antiga

disposição de espírito. Para coroar a festa a Sra. D.

Bernarda Mendonça (dama considerada, casada e rica)

com quem não tinha relações pessoais, mandou-lhe”


oferecer a casa", que pouco distava da nossa, para onde se

mudara. D. Bernarda era de uma avareza proverbial;

exemplo: tinha duas filhas mas nunca lhes comprava mais

do que um único chapéu, e, quando faziam alguma visita

que exigia aquele ornamento, ia primeiro uma com a

criada, que voltava a casa com o chapéu para levar a

outra...

Depois da feira o médico encontrou melhoras sensíveis

no estado de Maria Adelaide. Com efeito o aspeto é outro e

até parece mais linda, agora, como está; emagreceu,

afinaram-se-lhe as feições, amaciou-se-lhe o olhar... para os

outros, que para mim conserva a expressão de

desconfiança.

E havia um sujeito que lhe rondava a porta,

evidentemente no intuito de a namorar. De tarde, quando

ela costumava pôr-se à janela, ele era infalível a passear na

rua, provocando o riso em quem nele atentava, pois tinha

um físico grotesco: despropositadamente gordo, via-se de

longe aquela ambulante mole adiantar-se aos saltos curtos,

com a elasticidade de um tonel sobre dois pés de borracha.

Às minhas observações de mofa, Maria Adelaide retorquia


invariavelmente com esta frase: —” É para que saiba que

eu ainda não estou tão desprezível que não haja quem me

queira."

Não tornou mais a manifestar claramente o desejo de ter

um filho, mas eu sentia-lho vivo como dantes. Uma vez que

estávamos ambos à janela, sucedeu que um mocinho

pequeno, filho da vendedeira vizinha, saiu para a rua,

descalço, com o passo hesitante, a querer apanhar uma

apara de cortiça que remoinhava ao rés da terra, mas

estacou, embaraçado com o vento que era rijo, e ficou

parado, bamboleando-se, a cabeça muito grande coberta

da seda loira dos cabelos que o vento agitava, e cujas

pontas desiguais refulgiam ao sol, aureolando-a. Maria

Adelaide ficou muito tempo enlevada nele, e, em vez de

responder ao adeus que a criança lhe fazia, voltou-se para

dentro, abaixando a cabeça de modo que eu lhe não visse

as lágrimas e foi-se embora a soluçar. Esta pena, este

desejo, esta ambição — porque isso mais do que tudo me

parecia — de me prender ainda mais com um filho irritava-

me; e ofendia-me a suspeita de que atribuindo-me a causa


da sua esterilidade o fizesse com algum sentimento de

desprezo.

Ontem deu-me um fundíssimo acesso de melancolia com

estrias de fel; vieram-me às ondas as lembranças — as

saudades? — das passagens perversas da minha vida, onde

mais tristeza houve e mais risco: divagações noturnas,

encontros sinistros, avenidas desertas das grandes

cidades, cais profundos em volta das docas onde a água

morre silenciosamente. Hoje a melancolia, embora de

natureza diversa, aumentou de intensidade: uma lástima,

uma compaixão, ao escutar os gemidos dolorosos da minha

rapariga quando se queixa e chora; os” ai meu Deus!"

soluçados numa revessa de insondável dor, e a indiferença

que me limpa o espírito (como cai e deposita a areia

revolta no fundo da água que parecia turva) e me deixa

pena de não poder” sentir", e um grandíssimo desejo de

amar sem poder ou sem saber a quem...

Um nosso vizinho da porta do quintal, o Bernardo João,

marítimo, alcoólico, e já três vezes operado do cancro no

beiço, quando se convenceu de que não tinha remédio,

começou a privar-se de tudo (de comer e até de beber) só


para untar o que podia, arrecadando as esmolas da família

e de estranhos, no intuito de deixar com que lhe fizesse um

enterro decente. Quando ele morreu a Maria Adelaide

sonhou com o seu próprio enterro, chorando por ver que

era tão pobrezinho, e de manhã, num acesso de ternura,

suplicou-me que se morresse antes de mim, lhe fizesse um”

bonito enterro e com música...” Levou a” caquear" nisto

vários dias. Para se consolar evocava a lembrança do único

trecho risonho da sua vida (o começo da nossa união) cujo

final era tão amargo, dizia, e a propósito acudiu-lhe uma

bonita comparação: sentia-se tal qual uma prisioneira, que

se iça com perigo de vida à estreita claraboia por onde

entra o ar, para rever a acanhada nesga da paisagem que

de ali se enxerga... Isto quase que nos trouxe meio

reconciliados durante algumas semanas...

Mas um dia de vento levante que a tornou mais nervosa e

implicativa do que o costume, precipitou a explosão da

crueldade que eu sopeava a custo e ficámos novamente

como cão e gato. A influência do levante na vida das

famílias algarvias!
A doce natureza algarvia! Quantos tipos não conheci, de

sentimentos ferozes, que se deitavam anarquistas, niilistas

implacáveis, após o dia de duro trabalho e mal esfriando

nos trapos suados da caminhada pela noite, nos atalhos

pedregosos, direito ao” monte", onde a ceia que os

esperava era pura burla! Deitavam-se assassinos, mas

abrindo os olhos ao despertar, no encanto do azul da

manhã, da frescura das vinhas, da copada magnificência

das figueiras, enternecidos, inconscientemente gratos ao

gozo de viver, voltavam pacificamente ao trabalho, sem

mais imprecações nem desesperos.

E com isto, altamente pitorescos nos conceitos. Lembra-

me agora que falando, há dias, com o meu afilhado José

Rosa, marítimo de alma e coração (e que também vive mal

com a mulher), caímos na crítica que nos merecia em geral

o sexo chamado frágil, e no decorrer da conversação,

referindo-se a uma dama que no ano passado aqui viera

tomar banhos do mar, e entrava na água pouco menos de

nua, ele observava: —” Não, não; isso não devia ser

permitido. Toda a vida ouvi dizer que o homem nu é Deus e

a mulher nua o diabo...” — E no entanto, pensava eu,


dentro de água ainda ela parecia mais nua e adorável:

banhava-se e movia-se dentro da água transparente com os

membros impermeáveis, lisos e roliços de um mármore

flutuante...

Imaginações a que o meu atual estado de espírito se

presta, e que passam nos meus sonhos com a precipitação

vã das sombras de um rebanho de nuvens impelidas pela

ventania sobre o deserto. Vou pensando sem descontinuar

em toda a casta de monstruosidades; de repente um

estremeção, um calafrio que tudo baralha; é a lembrança

de Maria Adelaide...
XXVIII

A noite está húmida e serena, extraordinariamente

silenciosa, com um céu cristalino e profundamente

estrelado; dum infinito sossego na atmosfera, e o ruído do

mar apaga-se por completo. Visto de cima da ponte, o rio

parece refletir até às máximas alturas as profundezas

estreladas do céu, mas exagerando ainda o brilho de certos

astros. É um céu invertido, mas ainda mais silencioso do

que o verdadeiro...

Ao voltar da ponte encontro o meu pátio cheio de

máscaras que em casa se recusam a receber; são os

mascarados de sempre: pantalonas turcas, feitas de saiotes

amarelos; dominós de lençóis de pano cru; mãos

inverosímeis de latagões, cujos troncos envolve a puída

camisola de malha de algodão, metidas em luvas

rebentadas, estendem-se para mim familiares, com o —”

Como está? Passa bem?" — em falsete, numa imitação de

tom alfacinha, e à mistura com o cheiro da transpiração

dos sovacos um relento de patchuli sai daqueles grupos...


Dentro de casa há rumor de vozes diversas: Maria

Adelaide tem visitas e isso não me incita a entrar. Volto

para a rua e vou direito à ponte, que encontro já toda

alumiada pela Lua que nasceu. E pus-me a passear na

ponte, parando a cada passo, debruçado sobre o rio, a

admirar os diversos efeitos da tremulina da lua na água

negra. Era agora como que uma ramagem de prata agitada

brandamente; logo a impressão de uma esteira feita a

círculos concêntricos; logo uma serpente de oiro afogada

em boião de tinta; depois o movimento febril de saltões de

prata; desenhos japoneses sobre porcelana; e, por fim, num

recanto estagnado, a imagem perfeita e pesada da Lua

oscilando brevemente, prestes a afundar-se...

Mais tarde a vila envolve-se em denso nevoeiro, tão

cerrado como ainda aqui não vira igual.

Impregnado da poesia do luar, voltei para casa tranquilo,

como já há muito tempo me não sentia, e até me acudiram

à lembrança certas passagens da lua-de-mel, e delas uma

época em que eu andava como que despeitado por ver

Maria Adelaide tão simples e corajosa, desejando conhecer


as minhas mágoas como se ela se julgasse capaz de poder

também com o peso da minha alma...


XXIX

Maria Adelaide esperava-me já deitada, mas lendo um

romance dos folhetins do Século, e recebeu-me com

mostras de tanto carinho que eu julguei que íamos

definitivamente para uma era de paz. Enquanto eu me

despia contava-me o que a leitura lhe trouxera à memória

de quando fora com a tia de Xabregas visitar a feira de

Alcântara. Era a transfiguração de Galateia, cara que um

ramo de flores substitui e logo se transforma em gaiola de

pássaros, e assim por diante até voltar à fase primitiva, que

ainda se decompõe em caveira e se prende ao esqueleto

dançante, e contava-me tudo isto com um colorido tal, um

entusiasmo tão vibrante, impossíveis de serem excedidos

por grandes inteligências no descritivo de cenas trágicas

ou burlescas. Depois falou no cómico par que aparecia em

cena, Dona Matilde e Dom Pepino, as caras jocosas que

mostravam no primeiro ano da sua apresentação, e no ano

seguinte como vinham já, cada um com seu menino nos

braços, tristes e amargurados...


Eu, que estava com sono e queria dormir, atalhei a

narrativa para lhe dizer que tudo isso era nada em

comparação daquilo que se via na China, e citei as

histórias que me contava em pequeno um marujo da

armada, que andara pelo Extremo Oriente, e de tudo o que

mais o maravilhara, e disso falava sempre com assombro,

fora um bruxo japonês que ele vira enfiar uma caganita de

coelho pelo buraco de uma agulha de coser cambraia,

tirando uma linha de dois metros, que não se quebrava e

ondulava ao vento como fio de retrós...

Pois bastou esta brincadeira para que Maria Adelaide

encavacasse, clamando que era impossível falar comigo a

sério, e, apagada a luz, voltou-me as costas. Ao dia

seguinte ainda parecia mais furiosa, e levou uma semana

sem quase me dirigir a palavra...


XXX

Mas porque é que eu me sujeito a semelhante

tratamento? Porque é que me não vou embora? Porque é

que a não largo? Porque é que não fujo?

É o imperioso domínio da carne: a ideia de perder a

posse do seu corpo desespera-me; não a tolero...

Um dos encantos da mocidade consiste na confiança

ilimitada, mas confortativa, de um possível e compensador”

apelo à opinião pública" nos actos graves da nossa vida. Os

lances violentos, as afrontas, etc., expomo-los então ao”

tribunal" dos nossos amigos, que naturalmente nos dão

sempre razão. Aos quarenta anos, quando já não se apela

para ninguém, essas crises resolvem-se com extrema

dificuldade; embora haja o máximo desprezo pela opinião

pública, tememos dar-lhes publicidade, e da concentração

em nós mesmos ficam feridas que nunca saram.

Eu andava positivamente atordoado com a situação a que

chegara, de me sujeitar ao mando de uma criatura de


inteligência inferior, sem poder soltar-me das cadeias com

que a sensualidade me prendia à sua carne.


XXXI

Nisto sucedeu que fui obrigado a ir a Lisboa e, logo de

chofre, a ideia dessa diversão alegrou-me; porém foi sol de

pouca dura; de aí a poucas horas já eu quase que chorava

com a perspetiva da separação...

Maria Adelaide recebeu a notícia com aparente

indiferença; estávamos almoçando quando eu lha dei,

anunciando a partida para o dia seguinte; mas ao acabar o

almoço, quando eu lhe disse como é que me havia de

arranjar a mala, atirou-se a mim com ar desvairado,

cobrindo-me de beijos e, entre soluços, clamando: —”

Então isso é a sério!?... Vais deixar-me sozinha... Agora sim

que nunca mais cá voltas..."

Tentei tranquilizá-la, jurando que o mais que me

demoraria era uma semana, mas ela não se acomodava e

teve um dos seus mais violentos ataques nervosos.

Quando voltei a casa, à tarde, já me tinha preparado a

mala; parecia sossegada e estava toda empoada: fora

brincadeira das irmãs. E eu disse-lhe então: —” Está bem;


assim é que eu gosto; brinca à vontade; joga o Entrudo

para te distraíres...”

Ela, porém, lançou-me um olhar que me meteu medo,

mas, em voz calma, observou: —” Sim, amiguinho, deixa-

me brincar; amanhã é que eu hei de estar triste."

Na manhã seguinte acordou queixando-se de dores no

coração, mas sem mostrar grande pena.

— Ainda não penso nisso, amiguinho; mas à noite,

quando me encontrar aqui sozinha!...

A despedida foi patética.


XXXII

Passei uma semana em Lisboa, sempre atormentado com

a ausência do seu corpo que beijei todo, ao primeiro

encontro, na manhã do meu regresso, como que

surpreendido de o achar intacto. Beijos silenciosos, sem

conta. Mas ela mal correspondia às minhas carícias e por

mais de uma vez observou: —” Eu dava tudo para saber o

que tu fizeste em Lisboa, tanto tempo sozinho, à rédea-

solta...”, e este” à rédea-solta" ficou a ecoar-me no

pensamento, humilhante e doloroso como uma chicotada. E

eu que vinha resolvido a esquecer tudo e encetar vida

nova, toda de paz e concórdia!

Soube sem demora que um caixeiro-viajante dissera a D.

Angélica Soares, e esta o fora logo repetir à mãe de Maria

Adelaide, que me vira em Lisboa, no Tavares, jantando (e

bebendo champanhe) na companhia de uma dama

elegante, nova e bonita. Tudo mentira!

Essa D. Angélica Soares era a mais velha de uma

quadrilha de solteironas (ali não conheci nunca machos)


que vivia de trabalhos de costura, mas tinha mais bazófia

da sua estirpe do que a família' real. O que me tornava

essas Soares se não simpáticas pelo menos suportáveis,

era o modo como elas vestiam as mocinhas de recados:

punham-lhes nos ombros uns xalezinhos de xadrez puídos

mas limpos e nos chapéus de empreita uma fita desbotada

de seda verde, que as assemelhavam a certas inglesinhas

que se encontram nas grandes cidades.

Quem me contou a alcovitice de D. Angélica foi o vizinho

do lado fronteiro da rua, que levou horas a espreitar se me

via sair de casa, e suspirando e dando ais correu para mim

a desfechar a notícia, dando-me os parabéns pela conquista

feita na capital. Correu para mim, não; arrastou-se com a

pressa que pôde sobre as pernas trôpegas. Era uma

criatura doente, mas ainda mais cismática do que enferma,

que andava sempre extremamente abatida, tanto no moral

como no físico, e passava os dias buscando nos jornais os

anúncios dos depurativos e pílulas maravilhosas que o

haviam de curar ou dar-lhe alívio pronto.

Mas a intriga, em si, de D. Angélica pouco ou nada me

preocupava. Era de tal forma absurdo que eu tivesse uma


amante em Lisboa e nunca a fosse ver! Naquele momento o

que mais me doía era a receção de Maria Adelaide. Eu

quase não dormira pelo caminho a fantasiar as delícias do

nosso próximo encontro, seguro de que ela, ainda deitada,

me esperaria com certa ansiedade física, e o acolhimento

ultrapassara em frieza tudo quanto se possa imaginar de

dois corpos inimigos. Os seus beijos foram poucos e sem

apego, e quando eu me propunha a tomá-la nos braços

recusou-se terminantemente, dando como desculpa não sei

que imaginários incómodos, os quais, mesmo pelo tom com

que os enunciava, se percebia que eram inventados.

A conversa do vizinho, repito, pouco ou nada influiu no

grau da minha irritação; tudo se concentrava nesta

sentença: perdi a posse do seu corpo. E meio desvairado,

sem consciência daquilo que fazia, saí do povoado e

encontrei-me a cogitar sobre o caso, sentado no terraço de

uma quinta, chamada de S. José, que tinha perto da vila,

debaixo de um caramanchão coberto por um tupido

jasmineiro cujas flores rescendiam a” carne dela". Nos

ramos soltos do jasmineiro, todo florido de branco, os


casais de andorinhas poisavam como laços de veludo

negro.

Ali, durante horas evoquei o tesouro inesgotável da sua

carne, a começar pelas faces que tinham a macieza e o

aroma de alperces maduros, e os lábios perfumados,

brandos, que se me derretiam na boca melhor do que os

gomos das laranjas de sangue, até aos pés de deusa, de

mármore polido e nevado.

Não restava dúvida: esta minha sujeição revestia o

carácter de uma fatalidade diabólica. Seria talvez mais

prudente resignar-me...
XXXIII

Quando voltei a casa encontrei o médico que de lá saía;

fora chamado à pressa para acudir a uma violenta crise

que atacara Maria Adelaide logo que eu a deixara, sendo

aquela a segunda visita que fazia nessa manhã” à minha

fascinadora companheira", como ele a chamava. Achou-lhe

o coração muito abalado e os nervos em grande

desequilíbrio, suspeitando até, pelo volume algo anormal

que o pescoço tomara, que seria o começo de um ataque de

bócio. Recomendou sobretudo sossego de espírito e

abstenção completa, durante algum tempo, do” delicado

capítulo dos jogos sexuais".

E aí está como até o próprio médico reforçava a situação

de onde provinham principalmente os meus males!

Mas o facto é que me senti tomado de um profundo

sentimento de piedade, e varrida toda a ideia de luxúria fui

amimá-la com as carícias que se dispensam às crianças, e

beijos castos, fraternais. Isto, porém, não parecia produzir

alívio algum, e a expressão dos seus olhos denunciava


ainda maior desconfiança; toda a sua ansiedade era para

saber onde é que eu passara a manhã, e por mais que lhe

jurasse que estivera todo esse tempo em S. José era fácil

de perceber que o não acreditava.

Nas festas que lhe fazia os meus beijos demoravam-se no

gracioso” colar de Vénus", que ela tinha muito acentuado,

e que eu, talvez por sugestão do que ouvira ao médico,

achava realmente avolumado, apalpando-o várias vezes.

Ela reparou nessa insistência e com certo enfado

perguntou:

— ” Mas o que tenho eu no pescoço? Já o médico o

apalpou e agora tu; por mais que o examine ao espelho

nada encontro de novo."

Assegurei-lhe que tão-pouco lhe achava diferença, salvo

para mais lindo ainda, e fi-lo em tom tão sincero que ela

pareceu convencida e não tornou a falar em tal.


XXXIV

Seguiram-se umas semanas de relativa paz e sossego.

Quem eu não vi mais na nossa rua, depois da minha ida a

Lisboa, foi o” tonel ambulante", mas encontrei-o um dia no

mercado, com outro janota não menos volumoso, linfático,

bochechudo, doutrinal, com frases atrevidas, o indicador

sempre no ar e muito musgo na dentuça. Porém, vieram

para mim com jeito humilde e submisso, de chapéu na mão,

e reparei que ambos eram calvos e o segundo parecia ter

os raríssimos cabelos que lhe restavam distribuídos com

método e pegados por etiquetas...

Falei no encontro a Maria Adelaide, admirando-me de

que o” seu namorado" nunca mais aparecesse na nossa

rua, e ela, depois de rir muito, observou:

— E não torna a aparecer, podes ter a certeza. A Maria

Bárbara (a cozinheira) quando tu estavas em Lisboa atraiu-

o à porta do quintal, como se fosse receber um bilhetinho

que ele lhe mostrara da rua, e do alto da varanda despejou-

lhe na cabeça um vaso cheio de água suja. E ainda em


cima, a vizinhança, ao ver o miserável estado em que ele

ficou, deu-lhe vaias e apupos. Mas foi remédio santo:

ninguém mais o viu rondar por aqui...

E levou-me ao quintal, para me explicar como se dera o

facto. Quando a vizinhança nos viu juntos na varanda, tudo

correu para a rua a acenar-nos com gestos de saudação e

alegria, e o mais velhinho dos filhos do remador da

alfândega agarrou na irmã e trouxe-a nos braços, como se

fosse uma trouxinha de carne. Gordinha, rosada, bem

criada, leva, todos os dias, horas infinitas deitada, com a

cara no chão, a chorar e a ver se pode meter a cabeça pela

soleira da porta, que tem uma gateira por onde a chuva

entra e faz poça. A Maria Adelaide chamou por ela, deu-lhe

bolachas e por pouco a não come com beijos.

Acudiram-me então à lembrança as nossas respetivas

disposições de espírito a respeito de filhos, as quais tinham

mudado por completo. Dantes era eu que fiscalizava com

rigor as manobras impeditivas da procriação, que ela

praticava sempre com relutância; agora era ela que as

executava à risca. Naquele momento, sem pensar bem no


que dizia, perguntei-lhe se já não desejava ter filhos, como

aqueles tão lindos do remador.

— Filhos? — replicou ela, com a voz trémula. — Já me

bastam os cuidados que me consomem... — E reparei que

lhe corriam as lágrimas.


XXXV

Começou por essa ocasião a frequentar-nos

assiduamente a casa uma sua amiga de infância de quem

ela nunca dizia bem e que sofria do peito. Era uma cara

esquisita, mas que não inspirava repugnância. Os olhos

abriam-se-lhe e repuxavam-se-lhe para a testa, à chinesa,

em êxtase, sempre que fitava um homem, tal era a

impressão de ternura que lhe inspirava qualquer macho

que topasse no caminho.

Esta assiduidade não me era extremamente sim pática;

mas bastou que o dissesse a Maria Adelaide para que a

intensificasse. Tomei então o caminho oposto, mostrando-

me quase enamorado, e o pior foi que ambas tomaram o

caso a sério, donde resultou uma cena quase trágica entre

as duas, terminando a Maria Adelaide por lhe declarar que

não a queria ver mais na sua casa, e para comigo retomou

os seus grosseiros modos de patroa e mestra...

A amiga de infância foi logo substituída pela Sra. D.

Silvéria dos Reis, que, essa então, me era profundamente


antipática, e dali em diante não faltava uma única tarde.

Bela dama! Durante as visitas não fazia coisa alguma.

Levava horas em pose de retrato, descansando nas coxas

(fornidas como ancas de porco) os molhos de cenouras que

as suas mãos representavam. Para a não ver, para não lhe

ouvir o gargarejado da voz de papo, deixei de vir a casa ao

sol-posto, como era meu costume infalível, mas Maria

Adelaide fingia não dar por isso...

Uma tarde, porém, precisei de lá ir, e encontrei-as

embebidas na cavaqueira habitual, dando o rosto de Maria

Adelaide mostras evidentes de choro recente. Feitos os

inevitáveis cumprimentos, perguntei em tom algo áspero:

— ” O que é que tu tens? Há mais alguma novidade?...”

Atalhou D. Silvéria para dizer:

— ” Há já muitos dias que a menina só tem ideias negras

e pensa constantemente na morte...”

— ” Penso na morte, sim, mas não é na minha morte, é

na tua. Eu tenho cá uma coisa que me diz que tu hás de

morrer primeiro do que eu, e quando estiveres aqui, no

meio da sala, dentro do caixão, eu chego-me ao pé de ti


para te dar um beijo na cara, sinto uma grande dor; salta-

me o coração e fico-me com ele nas mãos, como a Nossa

Senhora, feita de pedra e em pedra tu também ficas, e o

caixão, e tudo..."

Eu desatei a rir, observando:

— ” E para ouvir semelhantes asneiras queres que eu

venha mais vezes a casa! Realmente é pena que isso não

suceda, para os meus herdeiros terem bonecos de pedra

dignos de ornar o portão da quinta de S. José. Tu então,

com a minha cabeça ao lado e o coração entre as mãos,

ficavas ali a matar...”

Pois não foi preciso mais nada para que ela tivesse um

faniquito. Abandonei-a aos cuidados de D. Silvéria, e já

passava da meia-noite quando me fui deitar, encontrando-a

sentada na cama, a chorar e sem consentir que a beijasse.

Bonita vida a minha, não há dúvida, refleti, eu sem força

para me libertar; e, de olhos fechados, acudiu-me a sua

imagem, tal como eu a vira enquanto falava a D. Silvéria:

pareceu-me mais linda do que nunca, os olhos mais

luminosos e o colar de Vénus mais acentuado.


Silenciosamente, procurei juntar os nossos corpos, mas ela

recusou-se terminantemente ao amplexo, e como eu

insistisse, acendeu a luz, levantou-se e foi estender-se num

sofá da sala próxima...

— Bonita vida a minha — repetia eu, enraivecido de

despeito e... de desejo...

E levei o resto da noite a sonhar que a abraçava, que a

beijava, que as minhas mãos ávidas lhe percorriam todos

os escaninhos do corpo... Não restava dúvida: enfeitiçava-

me e debalde procurava fugir à sujeição que me impunha.


XXXVI

Foi nessa altura que eu comecei a olhar a paisagem

como quem contempla quadros num museu. Agora, que ao

amadurecer das searas, na flavescência dos campos, as

figueiras brilham, em rodas de manjericões, com um verniz

mais fresco, levava grande parte dos dias passeando pelos

arredores da vila, onde há pontos de vista realmente

encantadores.

Amiúde ficava horas sem fim em S. José, dentro do

caramanchão, donde se podia ver também quem passava

na estrada, e notei que raro era o dia em que a mais nova

das Benildes não aparecesse por lá e não rondasse como

que a espreitar o que eu fazia. Essa Benildes, que figura!

Merece especial menção. Pequenina e rechonchuda, passo

curto, miudinho, como que tolhido por alguma prisão nas

pernas, o olhar curioso, admirado, a cada instante

encurtando ainda mais o passo, mas sem nunca parar de

todo, como os soldados nos exercícios de recruta,

sobretudo quando a curiosidade lhe pedia melhor exame de

quem passa; o vento (mesmo em dias de calmaria) a agitar-


lhe as saias, armando pregas de estatueta antiga; a

expressão do rosto resignada; feições infantis sob a rede

espessa de finíssimas rugas; a voz doce, sumida; um

conjunto de nulidade, de inutilidade, de zero, mas

chamando a atenção pelo insólito do tipo que era... Como

soube mais tarde, ela vinha, com efeito, espiar-me a

mandado de Maria Adelaide.

Foi também por essa ocasião que notei o valor

ornamental que inesperadamente tomam, na perspetiva

dos campos, alguns troços vulgares de construções por

acabar: um pano de parede marcando no azul do céu a

série de retângulos das suas janelas escancaradas, e assim

compreendi o altíssimo valor decorativo das ruínas

históricas nas campinas desertas...


XXXVII

Mas depressa caí na submissão absoluta e restabeleceu-

se a paz aparente que me permitia fruir a meu bel-prazer

dos encantos do seu corpo. Ela, porém, cada vez mais

nervosa, a ponto de que as minhas passadas na sala

próxima da alcova, cujo sobrado tinha grande ressonância,

repercutiam-se-lhe no peito, dizia ela, em aflitivos baques.

Desta vez a minha sujeição foi em parte motivada pelo

dó, pois o médico, meu amigo e clínico de toda a confiança,

declarou-me que os nervos de Maria Adelaide estavam

positivamente doentes, e o coração falhava de um modo

assustador, sendo indispensável evitar-lhe contrariedades,

desgostos, cansaços, e chamando a minha atenção para o

capítulo da sensualidade, no qual era preciso ser

moderadíssimo, aliás a breve trecho seria forçado a fechá-

lo de todo.

Nesta fase sucedeu também que uma das irmãs, a Júlia,

começou a deitar sangue pela boca e o mesmo médico

declarou-a perdida. Isto causou a Maria Adelaide grande


pena, levando os dias e noites a lamentar-se como se fosse

ela a vítima. E o mais curioso é que atribuía a desgraça à”

sorte de S. João", chamada” mesa dos ofícios". A sorte

consiste em pôr em cima de uma mesa: a faca: marujo de

armação; o sapato: sapateiro; a pedra de cal: pedreiro; a

tábua: carpinteiro; o trapo: paneiro ou lojista; o sal:

marinheiro; a ferradura: ferrador; o livro: escrivão; o lápis:

empregado; o carvão: carvoeiro, etc., e tirar ao acaso para

ver qual será o oficio do futuro marido. O carvão

(carvoeiro) é que causava mais ferro às moças a quem

tocava. Pois Júlia, que andava perdida de todo por um

marceneiro, em três sortes seguidas coube-lhe o carvão. Ao

dia seguinte principiou a despachar sangue do peito...

Isto concorreu também para que eu reabrisse tréguas,

mas apesar da minha boa vontade elas foram, ainda desta

vez, sol de pouca dura.

Resolvi, no entanto, e embora me sentisse cada vez mais

obcecado pela atração do seu corpo, resolvi abster-me

quanto possível dos contactos carnais, o que ela logo notou

e, longe de se mostrar satisfeita, era ela que por todos os

modos e maneiras me tentava, e vendo a inutilidade dos


seus avances exclamou um dia, em tom colérico —” Eu já

te não entendo; ou tu estás mudado de todo ou já não

gostas de mim...”

Tive de lhe participar o que o médico aconselhara,

ajuntando que era tenção minha, se ela concordasse,

dormirmos durante alguns meses em cama separada. O

que fui eu dizer! Choro, gritos, faniquitos, à mistura com

imprecações e insultos:

— ” Bem me disseram — ajuntava entre lágrimas — que

andavas atrás doutra mulher, mas tem a certeza que se

descubro quem é mato-a...”

Curioso carácter, estranho temperamento, o de Maria

Adelaide! Boa e compassiva, no fundo. Não lhe era lícito,

como à outra gente, apiedar-se com frequência dos males

alheios: a piedade, nela, trazia-lhe sofrimentos reais.

Substituía-se aos atormentados para partilhar das suas

penas, e isto levava-a a pensar que, em geral, a piedade

não passava de uma fórmula social destinada a atrair

simpatias e considerações a quem com palavras a

manifesta. Para evitar sofrimentos próprios evitava a


compaixão, e não acreditava que os outros a

experimentassem sinceramente...
XXXVIII

Nas terras pequenas sobra o tempo, talvez porque se

poupa muito nas distâncias, e ninguém pensa em combinar

encontros por frações de horas. Diz-se: lá vou das dez às

onze, ou apareça de tarde, ou lá estarei à boca da noite,

etc., e nunca: às dez e um quarto, ao meio-dia e meia hora,

etc. Sem embargo mesmo nas máximas capitais ninguém

leva o escrúpulo até à minúcia de reparar nos segundos,

como em terras de província o cavalheiro ocioso que passa

os dias e as noites na botica (por exemplo) e a quem

consultam a respeito da hora. Ele diz, tirando o relógio:” —

São nove e vinte e cinco mas advirto-o de que o meu

relógio anda dois minutos atrasados da hora do telégrafo.”

Pois Maria Adelaide um belo dia começou a regular a sua

vida, os arranjos de casa, tudo, até os meus próprios

movimentos, cronometricamente, sentando-se à mesa

sozinha se por acaso eu não chegava à hora exata das

refeições. E implicava com todos, criados, família e

caseiros, por pequena que fosse a demora no cumprimento


de qualquer diligência que ela lhes confiava marcando

sempre o prazo de execução.

Tal aspeto de loucura tomou o seu procedimento neste

capítulo que o fui expressamente comunicar ao médico, o

qual a viera ver havia poucos dias mas com quem eu ainda

não falara.

— ” Que quer, meu amigo, — observou-me ele — aquele”

grande simpático" está cada vez mais desequilibrado!

Temo que o desfecho será um formidável caso de” bócio

exoftálmico". Repare-lhe bem no pescoço e verificará que a

tiroide já tomou proporções anormais, e quanto aos olhos a

sua saliência. é evidente...”

— ” O bócio exoftálmico — atalhei aflito —, mas isso

significa a desfiguração completa do seu lindo rosto e a

ruína do seu corpo divino..."

— ” Não se assuste..., talvez eu me engane e o mal não

progrida. Tenha paciência. De resto ainda não se descobriu

enfermidade que aformoseasse o doente."


XXXIX

Quando cheguei a casa para almoçar já ela ia a meio da

refeição, e recebeu-me carrancuda, sem proferir palavra.

Para mais frisar o contraste estava lá a irmanita mais nova,

que era de uma alegria cristalina e rubra como um rubi.

Comecei sem demora o minucioso exame das suas

feições, e ao ver a atenção com que eu mirava mais se lhe

anuviou o rosto e exclamou:

— ” O que será isso que tu trazes agora na cachimónia?

Parece que é a primeira vez que olhas para mim...”

Mas eu não me cansava realmente de a mirar e remirar,

sem descobrir alteração no pescoço e achando que os olhos

brilhavam ainda com mais fulgor; em resposta à sua

observação, num impulso irresistível levantei-me e,

tomando-lhe a cabeça entre as mãos, comecei, apesar da

sua resistência, a roubar-lhe beijos: beijos esmagados de

encontro aos dentes brancos, como se os lábios fossem

frutos perfumados e maduros. Por fim fitou-me


enternecida, e apaixonadamente retribuiu os meus beijos.

A nossa pequena comensal batia as palmas.

Terminada a refeição fomo-nos deitar juntos para dormir

a sesta (o que havia tempos infinitos não sucedia) e sem

adormecer de todo, num interminável amplexo, assim

levámos a tarde que estava sufocante de calor, ao som de

um landum, cantado em surdina e desmesuradamente

arrastado, por uns marujos, na taberna vizinha...

E desta vez as pazes pareciam ficar solidamente

assentes.
XL

A impressão desta hora de tréguas foi tão funda que,

lembrando-me do quadro da minha morte que ela

descrevera a D. Silvéria, comecei a entrever a

possibilidade de desaparecer antes da minha amante,

deixando-a pobríssima e sem recursos de espécie alguma.

Não conseguia livrar-me dessa preocupação assustadora.

Qualquer passeio pelo campo em que topasse com um

trecho de caminho ruim me sugeria o risco de uma

catástrofe; um pouco de febre que sentisse, ou uma

simples dor de cabeça, e aí ficava eu estarrecido com a

ideia da morte, na certeza de que a minha família nenhum

esforço pouparia para esbulhar Maria Adelaide de tudo

quanto eu lhe legasse. Davam-me rebates monstruosos;

esperanças de me ver livre de todos os meus para lhe

poder deixar tudo o que possuía. E enternecia-me,

exacerbando o receio da morte, o quadro do que seria a

sua dor, as contorções dos braços, os soluços, os olhos

afogueados, as lágrimas ardentes...


E nisto andei ensimesmado durante várias semanas,

porém a amabilidade franca de Maria Adelaide ia-se

obscurecendo e, agora, sem mesmo buscar motivo

aparente, voltou ao antigo estado de desconfiança e

impertinência. Tudo lhe despertava ciúmes; até o gato; até

a cozinheira que era uma pobre velha vesga e balofa.


XLI

Nesta altura morreu subitamente a irmã Júlia, que ela

estremecia mais do que nenhuma outra. O golpe foi

tremendo e com tão funda repercussão nervosa que o bócio

se lhe manifestou de um modo inconfundível:

esbugalharam-se-lhe os olhos e a tiroide avolumou como se

fosse postiça. Depois do enterro apareceu-me já

desfigurada; mas coisa triste, quase inconfessável, sem me

suscitar o mínimo sentimento de piedade, antes o que

sobrepujava era repugnância física à mistura com o

despeito de ver que se desfaziam definitivamente os

encantos da sua carne... E cobriu-se de luto (até os lenços

de assoar levavam tarja negra) ela que sempre desdenhara

de tais manifestações de desgosto, as quais considerava

fingimento e hipocrisia. Quanto ao procedimento para

comigo, pior do que nunca: exigências de toda a ordem e

modos de mestra-escola; tratava-me como se eu fosse

exclusivamente coisa sua...

Consequentemente todos os meus projetos de lhe

assegurar o passadio depois da minha morte se


desvaneceram, e mais de uma vez me surpreendi repetindo

a despiedada e grosseira imprecação popular:” e não vir

um raio que a parta!"

Mas porque lhe não fugia eu? era a pergunta que me

acudia incessantemente ao espírito. Por acaso seria

verdadeiro o conceito de um amigo meu, infeliz no

matrimónio e na mancebia, que pretendia ser mil vezes

mais fácil a separação ou divórcio entre cônjuges do que

nos casais amancebados? E com efeito nos meus mais bem

arquitetados planos de abandono e fuga eu tinha a

consciência clara de que os fazia para entreter a

imaginação, e que jamais teria a coragem de os executar.

Indescritível a tristeza que se me apossou da alma, e me

transparecia no rosto a ponto de toda a gente me

perguntar o que tinha e se estava doente.

E com esta pergunta era infalível a que se referia a

Maria Adelaide (que realmente emagrecia a olhos vistos) e

sempre acrescentada daquilo que mais parecia estribilho:

—” Que mudada que está; não parece a mesma; ela que era

a cara mais linda da vila...” Mas atribuíam-lhe o descalabro

ao desgosto causado pela morte da irmã, se bem não


faltasse quem afirmava que era provocado pela vida de”

cão e gato" que levávamos.


XLII

Sucedeu também por esta altura que uma velhíssima tia-

avó, vendedeira de frutas, mas pobríssima, caiu de cama,

tendo o médico declarado que não escapava. Logo a Maria

Adelaide, que nunca fizera da tia o menor caso, lhe correu

para a cabeceira; tratava dela, dando-lhe os remédios, na

espelunca onde dormia, lavando, caiando, esfregando, e lá

passava horas e horas, às vezes tardes inteiras, voltando a

casa pela noite fora, chorosa e mais insuportável do que

nunca, e, se me encontrava dormindo, acordava-me para

me contar o que a velha dizia nos seus acessos de delírio.

Uma noite, quase manhã, chegou a casa soluçando e

gemendo, não descansando enquanto me não teve bem

acordado a ouvir como tinham sido os últimos momentos

da tia, a qual morrera poucas horas antes. E a forma como

se dera o inevitável desenlace ainda hoje me impressiona,

quando me lembro.

Tinha a velha uma sobrinhita, de uns dez anos de idade,

que era os seus encantos e que a família mandava, de


quando em quando, fazer-lhe companhia. Nessa noite,

quando a pequena lhe entrou no quarto, ela mal pareceu

dar pela sua presença, e quase não correspondeu aos seus

afagos e festas. Mas a certa altura, vendo-se bem que se

sentia muito aflita (começava a agonia), chamou-a para o

seu lado, e, já com os olhos muito encovados, procurou

fixá-la, enquanto que as mãos trémulas lhe percorriam as

feições, e de repente, afastando-a com rudeza, exclamou:

— ” Basta, basta!... Vai-te embora, não te quero ver mais

aqui...”

A pequena respondeu-lhe abraçando-a e beijando-a, mas

ela cada vez a repelia com mais força, repetindo:

— ” Vai-te já embora; não te quero ver aqui...”

E como a criança lhe não obedecesse, desatou a clamar:

— ” Porque é que a não tiram daqui? Não veem que eu

não posso morrer enquanto ela aqui estiver?... Não tenho

alma para me separar dela...”

Por fim os gritos foram tantos, que levaram a criança

para fora do quarto, e a velha, embora com os olhos

fechados, murmurava:
— ” Está bem; agora que ela já aqui não está, posso

morrer..."

E exalou o último suspiro.

E a contar o que se passara depois — a lavagem do corpo

e o trabalho de o vestir — levou ainda uma hora ou mais, e

por fim, com ar cerimonioso, sem me tutear, fechou deste

modo a sinistra narrativa:

"Eu hei de morrer ao pé de si. Quando eu morrer o

senhor há de vir fechar-me a boca, depois os olhos; mas eu,

que estou sempre a olhar para si, não deixo e hei de ir para

a cova de olhos abertos. E quero ir de esquife... Quer

ouvir? A minha avó estava no esquife, no meio da casa,

com um olho fechado e outro aberto, e eu fui, de mansinho,

a ver se lho fechava, mas tinha-lhe pegado na mão e,

quando estava o olho fechado, solta-se a mão e abre-se o

olho; eu dei um grande berro:” Ai! que a avó está viva!...” A

casa era de chão desigual e o esquife estava mal posto, de

forma que se mexeu e isso é que foi tudo...”


XLIII

Eu estava aborrecidíssimo com tanta morte, tanto

esquife, tanto olho aberto e fechado, mas não me atrevia a

dizer-lhe que se calasse, à uma porque isso era inútil e

depois tínhamos os faniquitos do costume. Ouvi, pois,

calado, até que ela apagou a luz. Então deu-se um

fenómeno deveras curioso. Ao voltar-me na cama a mão

toca-lhe — como que encalhou — no seio e de repente

esqueci todos os desgostos que a doença produzira, como

se o seu corpo fosse ainda perfeito, divino e, num arranco

de selvagem brutalidade, cerrei-a nos braços e consumei

com gozo ardente o grande acto de amor que havia já

algumas semanas não praticava... Sadismo genuíno?... Ela

recebeu as minhas carícias friamente, mas sem repulsa, e

os meus beijos sorviam-lhe as lágrimas que

silenciosamente continuavam a escorrer-lhe pelas faces...

Ainda sob esta impressão o meu primeiro cuidado, ao dia

seguinte, foi examiná-la miudamente. Não havia dúvida;

estava disforme! A magreza, a que tão rapidamente

chegara, mais relevo dava à intumescência do bócio e à


saliência dos olhos; a pele enrugara-se-lhe nas fontes, e as

sardas, alastradas e juntas, tingiam-lhe as faces de um

amarelo desbotado. No meio daquela ruína só ficavam os

dentes, justamente comparáveis às mais lindas pérolas, e o

manto fartíssimo do ondeado cabelo de um loiro quente...

Mas, paciência! Com tudo isto arraigava-se-me mais e

mais a convicção de que não teria força para a abandonar.


XLIV

Poucos dias depois da morte da velha tia, quanto

estávamos almoçando, veio a criada dizer-me que estavam

ali duas comadres minhas que desejavam falar-me com

urgência. Mandei-as entrar. Eram, com efeito, a minha

comadre Gertrudes Gaspar e a minha afilhada Raquel de

Matos, que recorriam às minhas luzes para saber como

haviam de liquidar uns cheques, enviados da América pelo

filho daquela e pelo marido desta, ao pagamento dos quais

o sacado punha dúvidas, exigindo certas garantias que eu

poderia dar-lhe.

A minha comadre Gertrudes estava” temente" (de meter

medo): negra, engelhada, com lascas de carvão de pedra

no lugar dos dentes e uma carapinha onde ela mergulhava

a miúdo os cinco dedos (quando não eram os dez) para

rascar o coiro, certamente piolhoso. A minha afilhada

Raquel parecia feita de massa crua de biscoito;

magríssima, macilenta, os olhinhos a luzirem-lhe de

estupidez maliciosa, a testa a indicar obstinação e teimosia

selvagens; o corpinho armado em roca, já na” orgadura",


sem o menor vestígio de polpa agarrada aos ossos. Falam

largamente da sua gente. A Gertrudes gaba muito o filho,

que já tem mandado dinheiro por três vezes, desde que um

influente político o livrou do sorteio (o moço é um Hércules

pardo), e a Raquel conta que o marido insta com ela para ir

à América. O marido é o Sr. Matos, de orelhas desmedidas,

cozinheiro de bordo e que, contratado para a pesca, na

Terra Nova, em barco português, desertou. O filho da

Gertrudes também fugiu de bordo de outro navio.

Enquanto elas falam eu penso com admiração nesses

homens que encontrando-se, em terras civilizadas, entre

mulheres apetitosas, não esquecem o buraco onde

nasceram, nem as feras com que foram criados ou nas

quais prolificaram...

O filho mais novo da comadre Gertrudes também já anda

embarcado; na aldeia onde vivem, diz ela, com voz fanhosa,

não há mais” governo" para os homens, além do mar e são

as mulheres que os induzem a embarcar para... ficarem à

solta e comer o que eles mandam. (Esta última parte

ajuntava-lhe eu in mente.)
Maria Adelaide escutava tudo isto com evidente e

vivíssimo interesse, interrompendo somente para averiguar

se a Raquel se resolveria a fazer a viagem, e mais de uma

vez a ouvi repetir: —” Eu cá, no seu lugar, não hesitava

nem uma hora; punha-me logo a caminho...”

Deixei-a para ir escrever o bilhete de garantia e quando

voltei ainda estavam de conversa pegada; Maria Adelaide,

amabilíssima como nunca a vira, oferecera-lhes de almoçar

e seguia num interrogatório rigoroso acerca dos

transportes para as Américas, ganhos prováveis, modos de

vida, etc.
XLV

À noite, quando voltei a casa, a primeira coisa que me

disse foi:

— ” Levei o dia todo a pensar em viagens. Ah! se eu fosse

livre partia para a América e fazia-me criada de servir, o

que ali vale mais do que a vida de senhora em Portugal...”

Entre risonho e zombeteiro, respondi-lhe:

— ” Pois minha filha: se te decidires, não sou eu que me

oponho...”

— ” Era o que tu querias — atalhou ela, num tom irado —

para te veres livre de mim...”

Porém, durante a noite acordou-me, para falar nas

Américas, e ao dia seguinte declarou-me, perentoriamente,

que estava resolvida a empreender a viagem.

— ” O que tu estás é doida" — retorqui eu. E levantei-me,

vesti-me e saí, sem lhe dar mais palavra.

Dali em diante a viagem à América tornou-se-lhe em

obsessão, azedando-lhe ainda mais o espírito, a ponto de


ninguém já a poder suportar, e eu realmente comecei a

convencer-me de que endoidecera, o que participei ao

médico; ele, porém, riu dos meus receios e, para me

tranquilizar, explicou:

— ” Simples caso de histerismo; aquele” grande

simpático" não se quer acomodar; mas ela é nova e rija e

há de sair vitoriosa da crise...”

Simples caso de histerismo ou não, o facto é que não

estávamos juntos uma hora sem nos envolvermos em

grosseiras e por vezes dolorosas disputas, que eu

terminava pondo-me na rua, depois de a ameaçar de lhe

torcer o pescoço. Vida intolerável e na qual o pior era a

atração mórbida, irresistível, que me chamava para o seu

lado e me obrigava a voltar pouco depois de a deixar.


XLVI

Por esta ocasião sobreveio um caso que quase me deu

esperança de cura.

Os meus caseiros de S. José tinham duas filhas, das quais

a mais nova, chamada Rosalina, de catorze anos, mas já

mulher feita, era deveras simpática, e, sobre simpática,

bonita a valer, de uma beleza algo campesina, porém

atrativa. Bem feita, com a aparência de quem vende saúde,

tostada pelo sol, o que lhe doirava a pele, e ao mesmo

tempo risonha e travessa como uma criança. Andara na

escola, sem conseguir aprender as primeiras letras, o que

muito penalizava os pais. Com as desaforadas

impertinências de Maria Adelaide eu vinha a casa o menos

possível, passando grande parte do dia em S. José, e assim

me fui familiarizando com os caseiros, cuja vida, por fim,

conhecia nos menores detalhes; e uma vez, escutando as

lamentações da mãe, sobre o que ela chamava a estupidez

da filha, ofereci-me para lhe ensinar a ler.


Consultada a rapariga, foi com espanto, e muito ao

contrário do que a mãe presumia, que a vimos bater as

palmas de contente, e logo ao dia seguinte começámos as

lições, pelo método de João de Deus, de que eu já me

servira para desbravar outras crianças igualmente

relutantes ao ensino oficial.

Era geralmente à tarde, debaixo do caramanchão do

jasmineiro, que lhe dava as lições, das quais as primeiras

foram de pura brincadeira, levadas a contar histórias para

rir, que ela ouvia com profunda atenção, festejando com

gargalhadas as passagens cómicas, de que lhe não

escapava o carácter jocoso. Depois entrou de se ocupar

com assiduidade do estudo do método, e pouco tardou que

não mostrasse evidentes progressos, garantindo que o

êxito seria completo, se persistisse.

Com as brincadeiras, as contas, o ensino, e tudo o mais

que derivava da convivência quase infalível de algumas

horas diárias, a confiança que eu lhe merecia aumentou, a

ponto de assumir proporções filiais, e uma vez, quando

principiava a lição, ela agarrou-me subitamente as mãos e

pôs-se a beijá-las, e como eu lhe dissesse que não queria


isso, beijou-me repetidas vezes a cara, o que de aí em

diante se habituou a fazer no começo e no fim das lições.

Por meu lado retorqui-lhe, primeiro, com um ósculo

paternal na testa, mas depressa lho passei para as faces,

olhos e boca, de modo que boa parte do tempo que

levávamos juntos era beijando-nos.

E não tardou muito que me não convencesse de que se

reacendia a fogueira das velhas paixões, e foi isso que me

animou: com um novo amor libertava-me, até certo ponto,

do despotismo de Maria Adelaide. Mas teria eu força de

vontade bastante para resistir à tentação, cada vez mais

ardente, de consumar o acto final? E depois, se não

resistisse? Porém eu, já maquinalmente, perante a

possibilidade de assim suceder, expondo-me a cenas

dolorosas, se o caso fosse conhecido, fazia projetos

insensatos que permitissem explicar os nossos encontros

por anos seguidos, como seria, por exemplo, ensinar-lhe

francês e inglês, logo que ela atingisse a perfeição na

leitura e escrita do português, o que não demoraria muito.

Com efeito os seus progressos eram rápidos e seguros.

Dois meses depois da primeira lição já lia corretamente e


começava com a escrita e as quatro operações. A mãe, a

Sra. Quitéria, estava estupefacta e, naturalmente, não

atribuía o êxito à habilidade e assiduidade do professor,

mas sim à promessa que fizera de uma vela de cera de

arrátel, à Senhora das Candeias, padroeira da capela do

Compromisso Marítimo e muito da sua devoção. Como

quase toda a gente daqueles sítios a Sra. Quitéria tinha

costela de navegante na ascendência, e era à Virgem do

Compromisso que recorria nas suas aflições. E sempre lhe

tinha valido, mas jamais como desta vez, em que o milagre

era manifesto.
XLVII

Por seu turno as notícias desses progressos já causavam

despeito e arrelia no espírito de Maria Adelaide. Poucas

vezes me falava nisso, mas quando encontrava a Sra.

Quitéria não se cansava de lhe fazer perguntas, chegando

uma vez a pedir-lhe que lhe mandasse a Rosalina a casa

para verificar se havia exagero, o que ela fez.

Mas, segundo a rapariga me contou, o interesse pela

leitura foi pouco ou nenhum, tendo-a, em compensação,

sujeitado a um interrogatório em forma, para saber onde e

como lhe dava as lições, e se de quando em quando não”

brincava" com ela, beijando-a e apalpando-a. A rapariga

fez-se desentendida e mostrou grande espanto de que tal

fosse possível; porém, depois da entrevista começaram de

novo as espias a aparecer na estrada à hora da lição,

percebendo-se bem que procuravam descortinar o que se

passava no caramanchão.

Mas o jasmineiro era tão tupido e disposto de modo que

seria impossível perceber da estrada o que dentro dele se


passava, e de qualquer outra parte tão-pouco seria

possível, julgava eu, desvendar-lhe os mistérios. Levantado

em um dos cantos do terraço, tinha duas pequenas

aberturas que permitiam ver, de dentro, quem se

aproximasse, e a entrada, larga, mas meia oculta pela

folhagem, dava para o mar, e, graças à elevação do

terraço, de sítio algum lhe podiam devassar o interior.

Desta aparente segurança nos aproveitávamos — e

abusávamos — Rosalina e eu para tornar cada vez mais

íntimas e variadas as diversões à monotonia do ensino. E

era sobretudo a rapariga quem as procurava; sentia-se-lhe

bem o desejo ardente de ser iniciada nos segredos do

amor, e se eu a não satisfazia era mais para prolongar

aquela passagem” platónica", à qual achava encantos

inéditos e me fortalecia contra as investidas de Maria

Adelaide com a ideia de que eu era capaz de manter

infinitamente uma afeição de carácter puro.

Em suma: dentro do caramanchão afigurava-se-me estar

tão livre de importunos e indiscretos como na mais

reservada alcova, oferecendo a vantagem de ser ao ar

livre, acessível por todos os lados e portanto pouco


suscetível de inspirar suspeitas de que dava abrigo a

amores carnais. Acrescia que nem a Sra. Quitéria nem a

filha mais velha lá apareciam; dir-se-ia um propósito, pois

desde que começara a lecionação nem uma só vez isso

sucedera.
XLVIII

Tudo isto era realmente bonito e seguro, mas eu não

contava com as surpresas do acaso e a obstinação sagaz de

uma criatura ferozmente ciumenta como era Maria

Adelaide.

Na varanda da minha casa havia um ponto, mesmo por

detrás da chaminé, donde se avistava uma nesga do

terraço. Pouco era, mas compreendia parte do

caramanchão e a sua entrada, e, visto com um óculo-de-

alcance, muito do que lá ia dentro era percetível, embora

eu tivesse posto a mesa das lições no canto mais abrigado

de possíveis investigações. Não suspeitava eu que tal ponto

de observação existisse, mas Maria Adelaide descobriu-o e,

mesmo com um simples binóculo de teatro (a distância era

de uns quinhentos metros), iniciou uma vigilância que na

maior parte dos dias abrangia todo o tempo que eu passava

em S. José. Ora a suposta ausência de risco e certeza da

impunidade dava-nos (sobretudo a Rosalina) audácias de

grande imprudência, como era levar o mestre lições

inteiras com a discípula sentada nos joelhos,


interrompendo-as constantemente para nos beijarmos com

fervor.

Não dariam a fraqueza do binóculo e a disposição do

terreno lugar a que toda aquela mímica se divisasse

claramente da varanda, mas vários movimentos eram

percetíveis e logo completados em imaginação pela zelosa

espia, e poucos dias depois de começar a espionagem

rebentou a tempestade.
XLIX

Não haveria um quarto de hora que tínhamos começado

a lição, com Rosalina no meu colo e um braço à roda do

seu pescoço, quando nos chegou o som de vozes altercando

lá para os lados da casa do quinteiro que era junto ao

portão. E logo passos que distintamente se encaminhavam

para o terraço. Mas tínhamos retomado a clássica posição

de mestre e discípula, a um canto da mesa, quando nos

aparecem, gesticulando e vociferando como possessa, a

boa Maria Adelaide e ao lado, não menos excitada, a Sra.

Quitéria. Pararam à entrada do caramanchão e a Sra.

Quitéria, aos gritos, agarrando no braço da outra e

apontando para a mesa de estudo, repetia:

— ” Veja... veja lá se há algum mal nisto..."

Ali se pegaram de razões, com jeitos de chegarem a vias

de facto, supondo eu a cada instante que a isso iriam com

desvantagem para Maria Adelaide (o que entregostava com

um secreto e vivo prazer). No calor da pugna, entre outras,

a Sra. Quitéria desfechou-lhe esta frecha envenenada:


— ” Repare bem com quem fala; lembre-se de que eu sou

uma mulher de respeito, uma mulher casada, e vossemecê

não passa de uma mulher amigada...”

Mas Maria Adelaide, de repente, caiu e começou a

estrebuchar no chão com convulsões que tinham todo o

carácter de ataque epilético.

Acudiram à algazarra os cavadores que trabalhavam na

fazenda, segurando-a com dificuldade, sem no entanto

evitar que ela ficasse com o vestido rasgado por todos os

lados, até que desmaiou e num carro, que foram buscar à

vila, a levaram, sempre sem sentidos, para casa.

Eu fiquei tranquilamente no caramanchão com a minha

discípula, que não dava mostras de susto e quis continuar a

lição multiplicando beijos e abraços.


L

Quando voltei a casa ainda lá encontrei o médico; o

estado da doente parecia-lhe agora muito melindroso

porque lhe encontrava o coração fraquíssimo. Devia

conservar-se de cama até recuperar algumas forças, e

evitar preocupações, cansaços, cuidados e desgostos de

qualquer ordem. E chamou particularmente a minha

atenção para o capítulo sexual que era forçoso suspender.

Resolvi logo fazer a separação temporária, vindo a casa

somente às horas das refeições, e confiei a doente aos

carinhos exclusivos da família. Tudo isto participei a Maria

Adelaide que o ouviu sem nada objetar, silenciosa, de olhos

fechados e ar indiferente.

E continuei a lecionar a Rosalina, como se nada houvesse

acontecido, mas sempre sob a vigilância das mesmas

criaturas, que passavam ou estacionavam na estrada

enquanto eu dava a lição.


LI

Entretanto Maria Adelaide deperecia a olhos vistos, sem

me inspirar sombras de piedade; transfigurou-se

completamente e estava horrível. E alguma vez que eu

tentava animá-la recebia as minhas festas de muito mau

talante, calada e voltando-me as costas. Ela mais de uma

vez me” ameaçara" com o suicídio (perspetiva que não me

sorria por causa do escândalo) e dir-se-ia que até certo

ponto aproveitava o estado a que chegara para

voluntariamente deixar este mundo.

Não me causou pois surpresa alguma a declaração que,

após duas semanas, o médico me fez de que a julgava

perdida, e tão convencido eu estava de que ela não

resistiria que comecei a fazer projetos para quando

recuperasse a liberdade...

E as lições seguiam cada vez mais longas e cheias de

beijos.
LII

Uma noite de maravilhoso luar fui passear até à praia

(sempre com a Rosalina no sentido) e deixei-me adormecer

deitado na areia, sonhando que a tinha” possuído". Ao

acordar, ainda deliciado com os pormenores do sonho, ouvi

uma voz que me segredava:” Isso é fatal e há de ser

amanhã mesmo...” E decidido a que fosse no dia seguinte

sem falta voltei ao povoado alegre e descuidado, gozando o

panorama envolvido no luar de prata, e sem que a

lembrança de Maria Adelaide me acudisse ao pensamento.

Embora fosse já tarde passei, como de costume, pela

botica, onde já não havia ninguém, mas o praticante,

apenas ouviu passos, saiu estremunhado do laboratório e

reconhecendo-me exclamou:

— ” Ora ainda bem que é o senhor, toda a noite que o

procuram...”

— ” E para quê? Sucedeu alguma novidade?" —” Morreu

a menina Maria Adelaide...”


Corri para casa onde o meu feitor, que me esperava à

entrada, confirmou o acontecimento; de resto os gritos e

choros que lá iam dentro, e que se ouviam na rua, mais

ainda o certificavam.

Dadas as instruções ao feitor, para que se ocupasse do

enterro da forma que mais satisfizesse a família da

defunta, abri a porta e subi precipitadamente a escada, ao

alto da qual me esperava a mãe que me participou que

Maria Adelaide, já agonizante, manifestara várias vezes o

desejo de que fosse eu que lhe fechasse os olhos e

esperava que eu nisso consentisse.

Com efeito, Maria Adelaide lá estava estendida na cama,

de mãos cruzadas sobre o peito, mas os olhos abertos, que

eu fechei com certa dificuldade pois as pálpebras tinham

enrijecido... Feito isso contemplei-a durante alguns

minutos e, caso estupendo, de repente o seu rosto tomou

as feições da Rosalina, que beijei repetidas vezes, e saí...

Na rua sentia-me tonto, sem poder discriminar o tumulto

de ideias que me ia no cérebro, mas instintivamente fugi

do povoado e pus-me a andar sem destino certo pelo

campo fora, quando me soou, no subconsciente, a mesma


voz de há pouco, murmurando:” — Estás livre; estás livre

sem espalhafato nem escândalo. Não foi preciso suicídio;

estás livre."

— ” Estou livre — repetia eu em voz alta — e nada se

opõe já a que tome posse da Rosalina...”

E com certa vergonha o digo: quase me pus a dançar de

contente. Via-lhe a cara como se estivesse ao meu lado, e

sentia-lhe, acariciada pelas minhas mãos sôfregas, a carne

macia mas elástica do corpo rescendente de mocidade...

Bougie. Maio e junho de 1937.

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