EXCELENTÍSSIMO SENHOR DESEMBARGADOR
RELATOR DA 12ª CÂMARA CÍVEL DO TRIBUNAL
DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Processo n.º
Agravante: João Henrique da Silva
Agravado: Vida Plena S/A
JOÃO HENRIQUE DA SILVA, já devidamente
qualificado nos autos do Agravo de Instrumento em
epígrafe, que move em face de VIDA PLENA S/A,
vem, por intermédio de suas advogadas
infra-assinadas, com fulcro no art. 1.021 do Código
de Processo Civil, interpor o presente AGRAVO
INTERNO em face da decisão monocrática que
indeferiu o pedido de antecipação da tutela recursal,
requerendo sua imediata reconsideração ou, caso
Vossa Excelência assim não entenda, sua remessa
ao douto órgão colegiado.
I – Tempestividade:
A decisão agravada foi disponibilizada no Diário
de Justiça Eletrônico em 08/04/2024 (segunda-feira),
iniciando-se a contagem do prazo no primeiro dia
útil subsequente. O presente agravo é tempestivo,
sendo interposto dentro do prazo legal de 15 dias
úteis (art. 1.003, §5º, CPC).
II – Da Decisão Monocrática:
A r. decisão monocrática, ao indeferir a tutela
recursal, incorreu em claro erro de julgamento,
notadamente na análise da probabilidade do direito
e do perigo de dano.
O Relator fundamentou seu indeferimento na
ausência de probabilidade do direito, sob a premissa
de que o tratamento não integra o rol de
procedimentos obrigatórios da Agência Nacional de
Saúde Suplementar (ANS).
Contudo, a jurisprudência dominante do Superior
Tribunal de Justiça (STJ) pacificou o entendimento de
que o Rol da ANS é exemplificativo, e a operadora
de plano de saúde não pode se recusar a cobrir o
tratamento prescrito pelo médico assistente,
notadamente em casos de doenças graves, mesmo
que o medicamento não esteja listado, desde que a
indicação tenha respaldo em evidência científica e o
tratamento seja o único ou o mais adequado à
condição do paciente.
Neste sentido:
Direito civil. Recurso especial. Plano de
saúde. Rol de procedimentos da ANS.
Taxatividade mitigada. Recurso
parcialmente provido. I. Caso em exame 1.
Recurso especial interposto contra acórdão
do Tribunal de Justiça do Estado de Santa
Catarina que negou provimento à apelação
da operadora de saúde, mantendo a
sentença de procedência do pedido autoral
para custeio de prostatectomia radical
robótica. 2. A decisão recorrida
fundamentou-se no entendimento de que o
rol de procedimentos e eventos em saúde
da ANS é meramente exemplificativo,
obrigando a operadora a custear
tratamentos necessários, mesmo que não
previstos no referido rol. 3. A Segunda
Seção do Superior Tribunal de Justiça, em
julgamento dos EREsp 1.889.704/SP e
1.886.929/SP, uniformizou o entendimento
de que o rol da ANS é, em regra, taxativo,
admitindo flexibilização apenas em
hipóteses excepcionais, desde que
preenchidos requisitos específicos. II.
Questão em discussão 4. Há duas questões
em discussão: (i) saber se o rol de
procedimentos e eventos em saúde da ANS
é taxativo ou exemplificativo; e (ii) verificar
se a prostatectomia radical robótica e a
escolha de hospital não credenciado se
enquadram nas hipóteses excepcionais de
flexibilização da taxatividade do rol. III.
Razões de decidir 5. A Segunda Seção do
STJ consolidou o entendimento de que o rol
de procedimentos da ANS é, em regra,
taxativo, admitindo flexibilização apenas
em hipóteses excepcionais, como ausência
de substituto terapêutico eficaz,
comprovação de eficácia do tratamento à
luz da medicina baseada em evidências e
recomendações de órgãos técnicos de
renome. 6. A análise da aplicação da
"taxatividade mitigada" ao caso concreto,
incluindo a prostatectomia radical robótica
e a escolha de hospital não credenciado,
deve ser realizada pelo Tribunal de origem,
que possui competência para reexaminar o
conjunto fático-probatório e interpretar o
contrato à luz das teses firmadas pelo STJ.
7. A decisão recorrida não se aprofundou
na análise dos critérios excepcionais
exigidos para flexibilizar a natureza
taxativa do rol da ANS, sendo necessário o
reexame da controvérsia pelo Tribunal de
origem. IV. Dispositivo Recurso
parcialmente provido para determinar a
baixa dos autos ao Tribunal de origem, a
fim de que reexamine a controvérsia à luz
das teses da "taxatividade mitigada" do rol
de procedimentos da ANS. (REsp n.
2.026.560/SC, relator Ministro Humberto
Martins, Terceira Turma, julgado em
20/10/2025, DJEN de 23/10/2025.)
A decisão monocrática, ao apegar-se
exclusivamente à ausência do medicamento
(Nivolumabe) no rol da ANS, ignorou o
entendimento de que o plano de saúde pode
estabelecer as doenças que têm cobertura, mas não
o tipo de tratamento mais adequado para curá-las.
A negativa do plano de saúde, baseada em exclusão
de terapias não listadas pela ANS, representa uma
interpretação abusiva do contrato que coloca em
risco a própria finalidade do seguro saúde.
O Relator também destacou que “não há nos
autos comprovação de urgência imediata ou de
ineficácia das terapias alternativas”. Essa afirmação
desconsidera a gravidade da situação fática e a
urgência real da medida.
O Agravante é portador de neoplasia maligna
no fígado em estágio avançado. O seu médico
assistente indicou o tratamento com imunoterapia
(Nivolumabe) sob risco de agravamento rápido da
doença. Não é razoável exigir comprovação de
urgência imediata (como se fosse necessário o
agravamento do quadro) ou de ineficácia total de
outras terapias, quando o relatório médico atesta
que a terapia com o medicamento negado é a única
indicada ao seu caso. O perigo de dano é imanente
à própria gravidade da doença oncológica em
estágio avançado e à urgência de seu tratamento.
Portanto, a decisão monocrática deixou de
sopesar a gravidade da doença, o risco de vida e o
relatório médico detalhado, violando o direito
fundamental à saúde e à vida.
III – Do Pedido de Retratação:
Com base no exposto, e em observância ao
princípio da economia processual, requer-se que
Vossa Excelência RECONSIDERE a decisão
monocrática proferida, exercendo o Juízo de
Retratação previsto no art. 1.021, § 2º, do CPC, e,
por conseguinte, DEFERINDO a antecipação dos
efeitos da tutela recursal, a fim de determinar que o
Agravado autorize e custeie o tratamento com o
medicamento Nivolumabe.
IV – Do Pedido:
Caso Vossa Excelência não se retrate, requer o
Agravante que o presente Agravo Interno seja
submetido ao julgamento do Órgão Colegiado (12ª
Câmara Cível) para que seja CONHECIDO e
PROVIDO, reformando-se a decisão monocrática
agravada e deferindo-se, em definitivo, a tutela de
urgência pleiteada no Agravo de Instrumento.
Requer, outrossim, seja o Agravado intimado
para, querendo, apresentar contrarrazões.
Nestes termos,
Pede e espera deferimento.
Juiz de Fora, data.
ADVOGADAS/OAB