O ENSINO DA ORALIDADE A PARTIR DOS GÊNEROS DISCURSIVOS
ORAIS-UMA PRÁTICA SOCIOINTERATIVA
Gracilene Barros de Oliveira (UFPB)
gracilenebarros@[Link]
Introdução
Conforme Bakhtin (2011[1979], p. 324), “a língua, a palavra é quase tudo na
vida humana”, pois é através dos enunciados, concretos e únicos, relativamente estáveis,
orais e escritos que nos comunicamos e interagimos socialmente, os quais o referido
autor os chama de gêneros discursivos. Segundo o mesmo autor, os gêneros discursivos,
tanto orais como escritos, proporcionam-nos um rico repertório, pois emanam das mais
variadas esferas da atividade humana. O autor salienta que antes de estudá-los já os
usamos, mesmo que muitas vezes não tenhamos a consciência disso, e salienta que
somente através de gêneros discursivos nós nos comunicamos e interagimos
socialmente. A partir desses pressupostos, compreendemos que é através dos gêneros
orais que iniciamos nosso processo de inserção e interação social, já que, segundo
Bakhtin (2011[1979]), conhecemos os gêneros discursivos ouvindo e repetindo os
enunciados das pessoas que nos rodeiam.
Nesse sentido, este trabalho apresenta, numa perspectiva sociointeracionista,
uma discussão sobre o ensino da oralidade a partir dos gêneros discursivos, tendo em
vista um ensino significativo para o aluno, de modo que possibilite a aprendizagem da
oralidade para que essa seja usada de acordo com as especificidades das atividades
humanas. Nesse sentido, trata-se de um ensino que ultrapassa a oralidade de forma
generalizada, conforme defendem Schneuwly e Dolz (2013).
Este trabalho é de natureza bibliográfica e faz parte de uma investigação, em
andamento, que está sendo desenvolvida a respeito do processo de ensino-aprendizagem
do gênero debate, no Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS), no Laboratório
de Estudos Linguísticos da Universidade Federal da Paraíba (Campus IV) sob a
orientação do Professor Dr. Erivaldo Pereira do Nascimento, filiada ao projeto “Ensino
de Leitura e de Produção de Gêneros do Discurso: perspectiva semântico-discursiva, a
partir de Sequências Didáticas (ELPGD)”.
A fundamentação teórica que baseia a presente reflexão encontra-se nos estudos
de Bakhtin (2011[1979]) sobre os gêneros discursivos, as contribuições de Marcuschi
(1997; 2008) sobre a prática educativa, além de uma referência aos PCN
(BRASIL,1998), e aos estudos de Dolz e Schneuwly (2013), no que se refere ao ensino
da oralidade a partir dos gêneros discursivos orais.
O referido trabalho está organizado em três capítulos. O primeiro, A oralidade e
sua relevância social, no qual é discutida a importância da oralidade para inserção e
interação social. No segundo, a oralidade na prática educativa, que aborda o ensino da
oralidade. No terceiro capítulo, refletimos de forma mais específica sobre o ensino da
oralidade a partir dos gêneros discursivos.
1. A oralidade e sua relevância social
Vivemos em sociedade, participamos de diferentes situações comunicativas, de
grupos sociais como as igrejas, as associações comunitárias, entre outras; exercemos
papéis sociais nos diversos campos de nossa vida, somos profissionais, somos pais,
somos amigos, somos cidadãos. Estamos a todo tempo comunicando-nos através de
vários enunciados, sejam orais ou escritos, fazendo uso da língua, quer para fazer um
simples comunicado ou comentário, quer para convencer ou persuadir alguém. Segundo
Bakhtin (2011[1979]), a interação verbal é a realidade fundamental da língua, ou seja, é
através da interação verbal que usamos ou efetuamos a língua de fato.
Nesse sentido, não é difícil perceber que a oralidade é tão importante quanto à
escrita para a interação social, e até mesmo, uma das principais formas de interação,
visto que é através de enunciados orais que ouvimos e repetimos é que iniciamos nossa
inserção interativa na sociedade, conforme Bakhtin (2011[1979]).
Precisamos usar a oralidade para interagir de forma eficaz, compreender o outro
e fazer-nos compreensíveis, e numa perspectiva bakhtiniana, produzirmos e
reproduzirmos enunciados orais, concretos e únicos provindos das mais diversas
situações concretas da atividade humana. Nessa perspectiva, compreendemos que é
necessário preparar-nos para melhor desenvolver nossa capacidade linguística oral e,
consequentemente, melhor a usarmos de acordo com as especificidades das diversas
situações sociais nas quais nos inserimos. Alguns autores abordam esse assunto de
forma muito clara e sugestiva, ou seja, falam sobre a oralidade e sugerem como ela deve
ser trabalhada no contexto escolar, entre os quais Dolz et al (2013) e Marcuschi (1997).
Segundo Dolz et al. (2013, p.127), “o termo ‘oral’, do latim os, oris (boca),
refere-se a tudo que concerne à boca ou a tudo que se transmite pela boca. Em oposição
ao escrito, o oral reporta-se a linguagem falada, realizada pelo aparelho fonador
humano”. Os referidos autores ainda salientam que a oralidade pode ter um estilo
espontâneo provindo das interações imediatas, não formais, adequadas ao contexto
interacional, como também um estilo padronizado, provindo de situações comunicativas
formais e também relacionado ao contexto de interação social. Ainda conforme esses
autores, a comunicação oral além de se desenvolver no plano verbal (fala) e vocal (sons-
entonação, a acentuação, o ritmo, o timbre, entre outros-), também se desenvolve no
plano gestual:
Portanto, a comunicação oral não se esgota somente na utilização de
meios linguísticos ou prosódicos; vai utilizar também signos de
sistemas semióticos não linguísticos, desde que codificados, isto é,
convencionalmente reconhecidos como significantes ou sinais de uma
atitude. É assim que mimícas faciais, posturas olhares, a gestualidade
do corpo ao longo da interação discursiva vêm confirmar ou invalidar
a codificação linguística e/ ou prosódica e mesmo às vezes, substituí-
la. (DOLZ ET AL., 2013, p.134).
De acordo com Dolz et al. (2013), a aquisição da oralidade começa de forma
incidental através das interações verbais que são realizadas ainda na infância, porém ela
não se restringe a apenas situações imediatas informais ou improvisadas. A oralidade é
também usada em contextos que não são familiares ao usuário da língua. Os autores
explicam que em diversas profissões como a do jornalista, do advogado, do homem de
negócios e do professor, é necessário o domínio de recursos linguísticos específicos ao
campo dessas profissões, para que ocorra a interação de forma eficaz nas esferas as
quais correspondem. Sendo assim, é necessário trabalhar a oralidade de forma mais
formal, no contexto de sala de aula, visando uma interação eficaz em campos
específicos da atividade humana na sociedade.
Partindo desses pressupostos, compreendemos que a oralidade é necessária para
a inserção e interação social, visto que seu uso vai além do ato comunicativo, ou seja,
torna-se um instrumento linguístico de interação, que se realiza através dos gêneros
discursivos orais nos seus respectivos campos da atividade humana.
2. A oralidade na prática educativa
Segundo Marcuschi (1997, p.39), “a fala é uma atividade muito mais central do
que a escrita no dia a dia da maioria das pessoas. Contudo, as instituições escolares dão
à fala atenção quase inversa à sua centralidade na relação com a escrita”. Para o referido
autor, uma das razões para essa postura em sala de aula é a crença de que a escola é um
lugar para se ensinar a escrita, e não a fala. O referido autor salienta a importância do
ensino da escrita, porém ressalta que a oralidade também deve ser objeto de ensino,
visto que o homem é um ser que tipicamente fala e não um ser que tipicamente escreve,
sendo assim, não se deve desprezar o ensino da oralidade no contexto escolar.
Conforme Marcuschi (1997), nos mais diversos livros didáticos de língua
portuguesa não são considerados no ensino da escrita a diversidade de contextos para o
uso da língua, pois se limitam à utilização da norma padrão para a produção escrita,
ignorando a variação da língua em seus diversos usos contextuais. E no que se refere ao
ensino da oralidade, a maioria dos autores dos livros didáticos não sabem se quer onde
nem como situar o estudo da fala. Para o referido autor, a “visão monolítica da língua
leva a postular um dialeto de fala padrão calcado na escrita, sem maior atenção para as
relações de influências mútuas entre fala e escrita” (MARCUSCHI, 1997, p.41).
De acordo com Marcuschi (1997; 2008), não há uma oposição entre fala e
escrita e sim uma relação entre ambas, pois são duas modalidades de uso da língua com
funções igualmente importantes na sociedade, as quais são responsáveis pela formação
cultural de um povo. Porém o referido autor ressalta que não deve haver mal-entendido
entre a concepção escrita e a concepção oral, pois a oralização da escrita não é
suficiente para se trabalhar a especificidade da oralidade em seus diversos usos.
Marcuschi (2008) afirma que, nos manuais de ensino de língua portuguesa, há
uma relativa variedade de gêneros textuais, entretanto, os que são analisados de maneira
aprofundada são sempre os mesmos gêneros, e os demais que aparecem nas obras
servem como entretenimento ou enfeite; e poucos são os casos que tratam os gêneros
escritos de maneira sistemática. E com relação aos gêneros orais em geral, o referido
autor salienta que não são tratados de modo sistemático, e afirma que as novas
perspectivas e abordagens referentes à oralidade ainda caminham lentamente, apesar
dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) abordarem o ensino da oralidade no
contexto escolar.
Apesar de Marcuschi (2008) ressaltar a posição dos PCN (BRASIL, 1998) em
relação ao ensino dos gêneros escritos e orais, faz uma crítica à falta de precisão ao
tratarem sobre a oralidade e escrita: “o que mais salta à vista, no entanto, é a confusão
entre oralidade e escrita. Pois não há clareza quanto aos critérios que teriam sido usados
para estabelecer essas distinções” (MARCUSCHI, 2008, p.209)1. Nesse sentido, o
professor não tem uma orientação mais especifica para trabalhar a escrita e a oralidade
através dos gêneros textuais.
De acordo com os PCN (BRASIL,1998) a escola deve ser responsável pelo
ensino da oralidade formal, de modo que possibilite ao aluno usá-la além dos muros da
instituição de ensino, ou seja, nas várias situações de linguagem fora do ambiente
escolar na busca de serviços, nas tarefas profissionais, nos encontros institucionalizados,
na defesa de seus direitos e opiniões. Situações nas quais, segundo o referido
documento, os alunos serão avaliados, aceitos ou discriminados. Nesse sentido, espera-
se que a instituição de ensino prepare os alunos para usar a oralidade em diversas
situações concretas formais públicas de forma competente:
cabe à escola ensinar o aluno a utilizar a linguagem oral no
planejamento e realização de apresentações públicas: realização de
entrevistas, debates, seminários, apresentações teatrais etc. Trata-se de
propor situações didáticas nas quais essas atividades façam sentido de
fato, pois é descabido treinar um nível mais formal da fala, tomado
como mais apropriado para todas as situações. A aprendizagem de
procedimentos apropriados de fala e de escuta, em contextos públicos,
dificilmente ocorrerá se a escola não tomar para si a tarefa de
promovê-la. (BRASIL,1998, p.25)
De acordo com os PCN (BRASIL,1998), é dever da instituição de ensino
preparar o aluno para usar a linguagem oral no planejamento e na realização de
apresentações públicas de forma significativa, nesses termos a escola torna-se o
ambiente responsável pela aprendizagem da oralidade formal dos alunos, visando às
1
Neste trabalho, não aprofundaremos esses aspectos dos quais fala Marcuschi (2008), já que nosso foco é
o que diz os PCN sobre a oralidade, de maneira geral.
práticas sociais de linguagem; mas o que pode realmente ser explorado através do
ensino da oralidade? Apenas a utilização oral nas apresentações públicas, ou o ensino da
oralidade pode alcançar múltiplos aprendizados?
Ainda segundo os PCN (BRASIL,1998) a escola deve organizar uma gama de
atividades que possibilite ao aluno usar a linguagem para escutar e produzir os textos
orais de acordo com as demandas sociais, além de estruturar a experiência e explicar a
realidade, entre outros objetivos. Como diz Bakhtin (2011[1979], p. 324), “a língua é
quase tudo na vida”, precisamos usar a linguagem de acordo com as especificidades de
cada campo, e consequentemente, obter êxito nas diferentes situações de interação.
Os autores Schneuwly e Dolz (2013) afirmam que muitos professores entendem
que trabalhar a oralidade em sala de aula é uma tarefa secundária, inserida nas
atividades cotidianas escolares, o que acarreta uma perda para o aluno, pois o ensino da
oralidade pode trazer aprendizados múltiplos no ensino de linguagem.
De acordo com Dolz et al. (2013), o ensino da oralidade deve ser tratado como
um fenômeno de linguagem heterogêneo que depende de contextos variáveis e deve ser
trabalhado em constante interação com a escrita, não se restringido à escrita oralizada,
que os autores chamam de vocalização, mas à escrita como utilização de recursos
linguísticos específicos para configuração das atividades de linguagens específicas as
quais correspondem.
Para os referidos autores, as formas de interação entre a oralidade e a escrita são
múltiplas, vão desde a pré-escola, em que as crianças aprendem a recitar e interpretar
oralmente textos escritos, à aprendizagem de marcas linguísticas de conexão, de coesão
e de modalização próprias de certos textos argumentativos escritos. Segundo os autores,
o essencial para se trabalhar o desenvolvimento oral é não caracterizar a oralidade em
geral, trabalhando exclusivamente aspectos específicos da fala, mas conhecer diversas
práticas orais de linguagem e as relações muito variáveis que mantêm com a escrita.
A constituição do oral como objeto legítimo de ensino exige, portanto,
antes de tudo, um esclarecimento das práticas orais da linguagem que
serão exploradas na escola e uma caracterização das especificidades
linguísticas e dos saberes práticos nelas implicados. (DOLZ ET AL.,
2013, p.140)
Conforme os mesmos autores, a oralidade envolve muitas atividades de
linguagem, já que a produção oral se dá de forma interacionista e social. Sendo assim,
defendem o ensino da oralidade em uma abordagem sociointeracionista em que o aluno
aprende instrumentos semióticos que lhe permite construir e reconstruir suas próprias
funções psíquicas para uso nas diversas situações sociais de linguagem. Nessa
perspectiva, os gêneros orais são tidos como as unidades concretas nas quais deve dar-se
o ensino da oralidade.
3. O ensino da oralidade a partir dos gêneros discursivos
Bakhtin (2011[1979]) enxerga a língua como concreta e viva, como fenômeno
que se dá através de um constante processo de interação, mediado pelo diálogo no plano
discursivo. Nesse sentido, a língua existe em função do uso dos locutores e
interlocutores, em diversas situações comunicativas e se realiza através dos gêneros
discursivos, de acordo com as especificidades da atividade humana. O autor define os
gêneros discursivos como formas de enunciados (orais e escritos) relativamente
estáveis, concretos e únicos, que emanam das mais variadas esferas da atividade
humana, os quais são usados para interagirmos socialmente.
Conforme Bakhtin (2011[1979]), os gêneros discursivos nos são dados quase da
mesma forma que nos é dada a língua materna, ou seja, através de enunciações
concretas que nós mesmos ouvimos e reproduzimos na comunicação com as pessoas
que nos rodeiam. O autor salienta que “aprender a falar significa aprender a construir
enunciados” (p.283).
De acordo com Bakhtin (2011[1979], p.282), “falamos apenas através de
determinados gêneros discursivos”. Isso significa que a interlocução humana só se dá
através dos gêneros discursivos orais e escritos no campo social em que é realizada a
comunicação. Partindo desse pressuposto, é possível inferir que, na situação
comunicativa oral, contamos com os gêneros orais como mediadores da interação
discursiva. Nesse sentido, podemos afirmar que os gêneros orais tornam o ensino da
oralidade significativa para o aluno, oferecendo-o instrumentos linguísticos que podem
ser usados de forma relevante em vários contextos sociais de linguagem.
Schneuwly (2013, p.117) apresenta uma concepção rica e complexa sobre a
oralidade, ou melhor, sobre os gêneros orais: “O oral não existe; existem os orais,
atividades de linguagem realizadas oralmente, gêneros que se praticam essencialmente
na oralidade, ou então, atividades de linguagem que combinam oral e escrita.” Para o
autor, os gêneros orais são multiformes práticas de linguagem que se dão
prioritariamente pelo uso da palavra falada, que pode se aproximar da escrita ou se
distanciar, sendo portanto, muito importantes para o ato comunicativo. Assim como os
gêneros escritos, os gêneros orais são produtos sócio-históricos e instrumentos
semióticos para o desenvolvimento da linguagem.
Dolz et al. (2013), a partir de uma visão bakhtiniana, afirmam que os gêneros
discursivos funcionam como formas intermediárias entre o enunciador e o destinatário,
e que numa dada cultura suas representações ligadas aos textos são fundamentalmente
genéricas pois:
cada um de nós, um dia ou outro, conta uma fábula a uma criança,
assiste à exposição de um professor, à uma conferência pública,
apresenta regras de um jogo a um grupo de amigos, estabelece um
diálogo para pedir informações num guichê, apresenta-se para uma
entrevista profissional para obter um emprego, escuta conversas,
entrevistas ou debates no rádio ou televisão. Cada um de nós
reconhece imediatamente esses gêneros como tais e a eles se ajusta
em suas próprias produções. (DOLZ ET AL., 2013, p. 142).
Para os referidos autores, o que possibilita as ações de interação nessas situações
genéricas de linguagem, numa dada cultura, são as formas padronizadas dos gêneros
discursivos. Nesse sentido, os autores lembram que os critérios para a definição e
distinção dos gêneros apresentados por Bakhtin (2011[1979]) - o conteúdo, o estilo
linguístico e a estrutura composicional - assim como estão presentes nos textos escritos,
também estão presentes nos textos orais. Por fim, Dolz et al. (2013, p. 141),
referenciando Bonckart (1997), definem texto como “toda unidade de produção verbal
que veicula uma mensagem organizada linguisticamente e que tende a produzir um
efeito de coerência sobre seu destinatário”.
Segundo Marcuschi (2008), os gêneros discursivos orais não surgem
naturalmente, mas se constroem na interação comunicativa e são fenômenos sócio-
comunicativos, estão presentes em várias atividades da comunicação humana, desde os
gêneros discursivos simples, como o diálogo familiar, a gêneros mais complexos como
o debate. O referido autor salienta que o funcionamento da língua no dia a dia é mais do
que tudo, um processo de integração social.
Nesse sentido, vale salientar que, conforme Schneuwly (2013), o ensino dos
gêneros discursivos orais prepara o aluno para interagir nas diversas situações sociais
concretas da atividade humana, sejam elas formais ou informais, visto que emergem das
situações concretas sociais e possuem uma estrutura linguística específica do campo da
atividade humana na qual está inserido. Sendo assim, é conveniente e oportuno que os
gêneros orais sejam usados como instrumentos para desenvolver habilidades linguísticas
e cognitivas a serem usadas no processo da interação social.
Dolz et al. (2013, p.147) afirmam que “o papel da escola é levar os alunos a
ultrapassar as formas de produção oral cotidianas para os confrontar com outras mais
institucionais, mediadas, parcialmente reguladas por restrições exteriores”. Em
consonância com essa concepção, encontramos nos PCN (BRASIL,1998) que o ensino
da oralidade, a partir dos gêneros orais mais formais desenvolve capacidades que o
sujeito precisa para poder interagir na sociedade em geral, preparando-o para participar
da vida cidadã de forma ativa.
Ensinar língua oral deve significar para a escola possibilitar acesso aos
usos da linguagem mais formalizados e convencionais, que exigem
controle mais consciente e voluntário da enunciação, tendo em vista a
importância que o domínio da palavra pública tem no exercício da
cidadania. Ensinar oral não significa trabalhar a capacidade de falar
em geral. Significa desenvolver o domínio dos gêneros que apoiam a
aprendizagem escolar de Língua Portuguesa e de outras áreas e,
também os gêneros da vida pública no sentido mais amplo do termo.
(BRASIL, 1998, p.67)
O que vemos de forma clara nos PCN ( BRASIL,1998) reforça a discussão que
apresentamos até agora, o ensino da oralidade não deve se limitar ao sentido geral da
fala, mas deve ser trabalhado para uso das práticas sociais de linguagem onde o sujeito
se insere. Isto significa, nas perspectivas de Dolz et al.(2013), preparar os alunos para
o domínio dos gêneros orais de acordo com suas especificidades, para que esses sejam
usados nos mais diversos campos sociais possíveis, conforme seja necessário.
Para Schneuwly (2013), trabalhar os gêneros orais pode dar acesso ao aluno a
uma enorme variedade de atividades de linguagem de diferentes campos sociais,
possibilitando o desenvolvimento das capacidades linguísticas através de diferentes
caminhos, segundo as personalidades e necessidades dos alunos, preparando-os para as
mais diversas práticas da oralidade na sociedade. Sendo assim, os gêneros orais são
apresentados pelos autores como instrumentos que não só possibilitam a interação
verbal, como também a aprendizagem, por serem instrumentos semióticos organizados
de maneira regular.
De acordo com Dolz et al. (2013), mesmo que reconheçamos os gêneros
imediatamente e moldemo-nos a eles em nossas próprias produções enunciativas, ainda
podemos ter dificuldades para distinguir os gêneros vizinhos, em um conjunto de textos
empíricos (referentes a uma comunidade cultural), como a conversa e a entrevista, a
discussão e o debate, daí a importância dos elementos necessários para essa distinção:
os conteúdos, a estrutura comunicativa, e as configurações estilísticas. Sendo assim, os
autores veem os gêneros como instrumentos que possibilitam a comunicação e que
podem ser aprendidos: “Aprender a falar é apropriar-se dos instrumentos para falar em
situações de linguagem diversas, isto é, apropriar-se dos gêneros” (DOLZ ET AL.,
2013, p. 143).
Partindo da concepção de que os gêneros discursivos são instrumentos que
possibilitam a comunicação e que podem ser aprendidos, os referidos autores falam da
importância de se aprender os gêneros orais formais realizados em públicos, visto que
os alunos dominam bem os gêneros do cotidiano, porém não dominam os gêneros
formais públicos porque possuem formas mais institucionais, mediadas, parcialmente
reguladas por restrições exteriores. Nesse sentido, para serem usuários competentes
desses gêneros, os alunos devem se dedicar a aprender a usá-los, como sugerem os
autores.
A partir da concepção de Dolz et al.(2013), podemos afirmar que o objetivo
principal de trabalhar os gêneros orais na escola é preparar o aluno para usá-los nas
práticas sociais de linguagem. Para que esse procedimento ocorra de forma eficaz, o
ensino dos gêneros orais deve partir de situações concretas da realidade, já que os
gêneros orais estão ancorados em situações concretas, conforme Marcuschi (2008).
Ainda segundo Dolz et al.(2013), o trabalho com os gêneros orais deve explorar
a gama de recursos linguísticos que os compõem, tantos os recursos verbais, quanto os
não verbais, de modo que sejam percebidas as relações de sentido que há, como o olhar,
a entonação da voz, as marcas linguísticas, sendo todo esse trabalho a partir de uma
situação concreta, já que os gêneros orais dependem de contextos variáveis.
Para os referidos autores, o ensino dos gêneros orais envolve os alunos em
diversas atividades de linguagem, dotando-os de meios de análise das condições sociais
efetivas de produção e de recepção dos textos, além de fornecer um quadro de análise
dos conteúdos, da organização do conjunto do texto e das sequências que o compõem,
assim como das unidades linguísticas e das características específicas da textualidade
oral. Nesse sentido, trabalhar a oralidade a partir dos gêneros discursivos orais é
preparar os alunos para interagirem de forma mais competente, em diversas situações
sociais, fornecendo-lhes elementos linguísticos para que essa interação aconteça de
forma eficaz.
Considerações Finais
Nas perspectivas apresentadas nesse texto, o ensino da oralidade deve ser
oferecido pela escola de modo a proporcionar ao aluno um rico repertório de gêneros
orais, tendo em vista a aprendizagem da linguagem oral formal, de modo que possibilite
ao aluno usá-la nos diversos contextos sociais nos quais poderá interagir e exercer a sua
cidadania.
Nesse sentido, o ensino da oralidade a partir dos gêneros orais não só prepara o
aluno para as práticas sociais de linguagem, como também trabalha a criticidade do
aluno e a compreensão linguística dos referidos gêneros.
Referências Bibliográficas
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