— Entendo o que você sente. Mas já tomamos essa decisão.
Quando sua avó
adoeceu, deixamos a floricultura de lado. As flores secaram, os clientes foram embora.
Agora não tem mais como voltar atrás.
Olhou para os papéis diante dele e acrescentou:
— Ainda não temos comprador, mas é só questão de tempo.
A mãe, em vez de suavizar, completou:
— Não é fácil para nós também, filha. Mas precisamos olhar para frente. Vender é
o único caminho.
Eun-ha ficou parada, sem conseguir respirar direito.
Sentiu como se a voz recém-nascida dentro dela tivesse se quebrado contra uma
parede.
Falara tudo o que nunca ousara dizer, expusera seus sentimentos. E, ainda assim,
nada mudara.
Era como se a vida estivesse lhe ensinando uma lição cruel: encontrar a própria voz
não significava que o mundo se dobraria a ela.
Voltou para o quarto sozinha, arrasada.
Sentou-se na beira da cama e pensou na avó, na floricultura, nas flores imperfeitas
que ela tanto amava. Agora tudo corria o risco de ser apagado, vendido, esquecido.
Eun-ha apertou o rosto contra as mãos, deixando que as lágrimas caíssem.
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Capítulo 10 – O florescer da palavra
Três meses haviam se passado desde o funeral.
O luto já não era dor aguda, mas uma ausência silenciosa que acompanhava Eun-
ha em cada manhã. Em Seul, retomara as aulas, retomara a rotina, mas não conseguia se
desligar do que havia ficado para trás. A floricultura da avó continuava em sua memória
como se ainda pudesse abrir a porta e ouvir o tilintar da campainha.
Nesses meses, Min-jun esteve ao lado dela. Agora namoravam oficialmente, embora
do jeito discreto que combinava com os dois: cafés pequenos, caminhadas longas.
Foi então que os pais anunciaram que a venda da floricultura estava prestes a se
concretizar.
— Já encontramos um comprador — disse o pai, como quem fala de um negócio
qualquer. — Não tem mais volta.
As palavras caíram como um golpe.
Naquela noite, Eun-ha não conseguiu dormir.
A notícia da venda ecoava dentro dela como uma sentença que não aceitava recurso.
Deitada na cama do quarto em Seul, olhava para o teto e lembrava-se da avó caminhando
entre as flores, do barulho suave da tesoura cortando caules, do cheiro de terra úmida nas
manhãs.
“Já encontraram um comprador. Não tem mais volta.”
As palavras do pai voltavam em sua mente, frias, definitivas.
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Virou-se de lado, apertou o travesseiro contra o peito. Tinha a sensação de que, se
ficasse em silêncio outra vez, a memória da avó se perderia junto com a floricultura.
Foi então que percebeu: falar não era mais uma escolha. Era necessidade.
Lembrou-se do passado: de como aceitara, sem protestar, quando os pais a
matricularam em Biologia. Naquele tempo, acreditou que era para o seu bem. Mas agora
era diferente. Não se tratava apenas de carreira ou de futuro profissional; tratava-se daquilo
que permanecia. Daquilo que dava sentido ao que ela era.
Levantou-se, andou pelo quarto escuro. Abriu a janela e deixou o vento da noite
entrar. A cidade, lá fora, não parava. Ônibus ainda passavam, vozes se misturavam ao
longe. E ela se sentia imóvel, presa entre a obediência de antes e a coragem que precisava
nascer..
Eun-ha respirou fundo.
Decidiu.
Não importava se o comprador fosse alguém estranho, indiferente ou irredutível.
Precisava ir até ele, olhar em seus olhos e dizer o que a avó significava, o que a floricultura
representava. Mesmo que fosse tarde, mesmo que nada mudasse, precisava tentar.
Deitou-se de novo, mas já não era a mesma. O sono não veio — mas a decisão,
sim.
Quando a manhã chegasse, pegaria o primeiro trem para Gwangju.
Eun-ha não contou a ninguém.
Nem aos pais, nem aos colegas, nem a Min-jun. Pegou o trem de manhã cedo,
levando apenas uma mochila pequena, como quem foge em segredo. No fundo, não queria
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explicações nem olhares de reprovação; precisava fazer aquilo sozinha, precisava se
colocar diante do lugar que a definira sem intermediários.
A viagem pareceu mais longa do que todas as outras. As janelas mostravam
paisagens que corriam depressa, mas dentro dela o tempo se arrastava. O coração batia
com a expectativa de rever a floricultura — e com o medo de encontrá-la irreconhecível.
Quando desceu em Gwangju, caminhou devagar pelas ruas conhecidas. Cada
esquina trazia um eco: a avó carregando sacolas, as manhãs em que passavam juntas, o
cheiro de pão quente vindo da padaria próxima. Mas nada doía tanto quanto quando parou
diante da porta da floricultura.
O letreiro ainda estava lá, gasto pelo tempo. As janelas estavam empoeiradas, e
algumas flores secas, esquecidas em vasos, pareciam se curvar em despedida. Eun-ha
passou a mão pelo vidro: a poeira riscou seus dedos, deixando uma marca que a fez pensar
em como a vida pode se desfazer em silêncio, grão por grão, sem que percebamos.
Empurrou a porta devagar. O tilintar da pequena campainha ecoou como uma
memória viva — era o mesmo som de anos antes, quando entrava para encontrar a avó
no balcão. Só que, agora, o que a recebeu foi o cheiro de pó e flores mortas.
Deu alguns passos. As prateleiras estavam cobertas por uma fina camada de poeira.
Um vaso quebrado repousava no canto, e o balcão, que antes guardava tesouras e fitas
coloridas, parecia um altar abandonado. Eun-ha fechou os olhos por um instante e pensou:
é assim que tudo acaba? Um lugar cheio de vida se reduzindo a pó e silêncio?
E foi então que ouviu.