0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações3 páginas

O Valor da Memória e da Responsabilidade

Eun-ha reflete sobre a importância da floricultura, que representa a herança e memória de sua avó, contrastando com a visão de seus pais que a veem apenas como um negócio. Ela decide lutar para preservar o legado da avó, reconhecendo que a verdadeira responsabilidade vai além do lucro material. A história destaca a luta entre valor emocional e a prática fria do comércio, enfatizando a necessidade de defender o que é realmente significativo.

Enviado por

rosa.conxita
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
2 visualizações3 páginas

O Valor da Memória e da Responsabilidade

Eun-ha reflete sobre a importância da floricultura, que representa a herança e memória de sua avó, contrastando com a visão de seus pais que a veem apenas como um negócio. Ela decide lutar para preservar o legado da avó, reconhecendo que a verdadeira responsabilidade vai além do lucro material. A história destaca a luta entre valor emocional e a prática fria do comércio, enfatizando a necessidade de defender o que é realmente significativo.

Enviado por

rosa.conxita
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Para eles, era uma casa velha, um trabalho cansativo, algo que poderia ser trocado

por dinheiro. Para Eun-ha, era raiz. Era símbolo. Era memória.

Foi então que compreendeu algo: a morte revela o que cada um traz no coração.

Enquanto uns veem oportunidade de lucro, outros reconhecem a herança invisível

que permanece. O problema não era querer resolver a vida prática — isso fazia parte da

condição humana. O problema era reduzir o que tinha valor eterno a algo que cabia em

um preço de venda.

A ganância não nasce apenas do desejo de ter mais, mas de esquecer a finalidade

verdadeira das coisas. A floricultura não era apenas um espaço de compra e venda; era

lugar onde uma vida inteira havia se ofertado no cuidado das flores e das pessoas.

Vender poderia até trazer conforto material, mas seria também apagar o sentido

mais alto que aquela vida havia deixado.

Eun-ha percebeu: a morte da avó a chamava não apenas ao luto, mas à

responsabilidade.

Se tudo no mundo tem uma ordem, então cabia a ela manter viva a parte que não

podia ser negociada. Porque alguns bens se gastam no uso; outros, se perdem quando não

são defendidos.

40

Capítulo 9 – Como quem já sabe

Na noite após o funeral, Eun-ha e Min-jun caminharam juntos pelas ruas de

Gwangju.

Não havia pressa, nem destino certo. A cidade parecia menor do que lembrava, e,

ao mesmo tempo, mais cheia de memórias. Passaram pela esquina onde costumava

comprar doces com a avó, pelo mercado em que sempre paravam para escolher flores

simples, pelo portão de ferro da escola antiga.

Eun-ha caminhava em silêncio, como fazia desde sempre. Mas, dessa vez, Min-jun

não disse nada para preenchê-lo. Apenas a acompanhou.

Foi ela quem, depois de alguns minutos, parou diante de uma árvore alta, respirou

fundo e disse:

— Eu não falei tudo para ela.

A voz saiu baixa, mas clara.


— Sempre achei que teria tempo. Que o silêncio guardava. Mas agora vejo que o

tempo corre mais rápido do que eu. E ele não volta.

Min-jun a olhou com ternura, mas não interrompeu.

— E meus pais… — continuou —, já estão falando em vender a floricultura. Como

se fosse só uma loja, como se a vida dela pudesse ser reduzida a tijolos e um contrato. Eu

não consigo aceitar isso.

Fez uma pausa.

41

— Quando me matricularam na faculdade, eu não lutei. Achei que seria para o meu

bem, e obedeci. Mas agora… agora é diferente. Não é sobre mim apenas. É sobre ela.

Sobre tudo o que ela construiu.

Min-jun se aproximou, segurou suas mãos e disse:

— Então fale, Eun-ha. Não se esconda. Se as palavras doem para sair, é porque

estão vivas. E coisas vivas não podem ficar presas para sempre.

Ela respirou fundo, e pela primeira vez não desviou o olhar.

— Vou falar. Nem que a voz trema.

Na manhã seguinte, o clima na casa era de tensão contida.

Os pais conversavam na sala com papéis espalhados pela mesa: contatos de

corretores, estimativas de venda, números. Falavam com a praticidade fria de quem lida

com negócios.

Eun-ha entrou devagar, mas não hesitou.

— Vocês não vão vender a floricultura.

Os dois a olharam, surpresos.

— Eun-ha… — começou o pai, num tom de advertência. — Não fale assim. É

melhor para todos. O lugar não se sustenta sozinho. Você precisa terminar os estudos,

pensar no futuro.

— Foi por isso que aceitou estudar Biologia — disse a mãe, firme. — Porque

entendemos que era o melhor para você.

Eun-ha respirou fundo. Sentia o coração acelerado, mas não recuou.

— Eu aceitei, sim. Quando me matricularam, eu não discuti. Achei que fosse o

certo, que era para o meu bem. E talvez fosse mesmo. Mas agora não se trata só de mim.
42

Deu um passo à frente.

— A floricultura não é só uma loja. É a vida da vovó. É o lugar onde ela cuidou das

pessoas com flores, onde me ensinou que cada coisa tem valor, mesmo imperfeita. Vocês

não podem reduzir tudo isso a um preço. Não podem arrancar raízes como se fossem

ervas daninhas.

Os pais tentaram interromper, mas ela ergueu a voz — e foi a primeira vez que

falou mais alto do que eles.

— Eu posso assumir a responsabilidade. Posso cuidar, mesmo que dê trabalho.

Não vou deixar que a memória dela seja vendida como se fosse qualquer coisa.

Houve silêncio. Um silêncio pesado, não de quem ignora, mas de quem foi atingido.

O pai passou a mão pelo rosto, como se não reconhecesse a filha diante dele.

A mãe suspirou, sem palavras.

Eun-ha se manteve firme.

Pela primeira vez, não se escondeu atrás do silêncio.

Pela primeira vez, usou sua voz como quem assume o lugar que lhe cabe.

E, naquele instante, percebeu que a avó tinha razão:

o silêncio guarda, mas é a palavra que aproxima.

Por um instante, ela acreditou que havia conseguido: que a firmeza de sua voz teria

quebrado a decisão dos pais, que a lembrança da avó seria mais forte do que qualquer

cálculo de venda.

Mas o pai suspirou fundo e disse, num tom cansado, quase definitivo:

Você também pode gostar