Se a semana anterior foi incrível, a semana que se inicia era terrível.
O trem para
Gwangju parecia mais lento do que de costume. Talvez fosse apenas impressão de Eun-
ha, porque dentro dela tudo se movia rápido demais: lembranças, ausências.
Min-jun a acompanhava em silêncio. Não tentou consolar com frases prontas;
apenas ficou ao lado, como quem entende que o luto não precisa de explicações, mas de
presença.
Quando chegaram, a cidade parecia igual, mas não era. As ruas, as casas, até o ar da
manhã carregavam uma falta irreparável.
A floricultura estava fechada. A mesma porta de madeira que sempre tilintava com
a campainha agora permanecia imóvel. Ao passar por ela, Eun-ha parou. Encostou os
dedos na maçaneta fria e, por um instante, imaginou a avó no balcão, cortando ramos,
ajeitando vasos como se fossem joias delicadas. Mas a imagem se desfez rápido. O lugar
estava mudo.
O funeral reuniu vizinhos antigos, conhecidos de longa data, senhoras que vinham
à loja há décadas. Todos falavam sobre a bondade dela, sobre sua calma, sobre como
cuidava das flores como quem cuidava de gente.
Eun-ha quase não falou. As lágrimas escorriam, mas eram discretas, silenciosas.
Sentia que qualquer palavra que tentasse dizer quebraria o pouco de equilíbrio que ainda
restava.
37
Min-jun segurou sua mão durante a cerimônia. Não disse nada. E, naquele silêncio
compartilhado, Eun-ha compreendeu: às vezes o amor não está na fala, mas em
permanecer junto quando tudo parece se desfazer. E este amor é o mais raro.
À noite, depois que os convidados partiram, Eun-ha ouviu os pais conversando
com um tom prático demais para um momento de luto.
— Manter a floricultura não faz sentido — disse o pai, firme. — É trabalho demais,
e ninguém vai cuidar.
— Concordo — acrescentou a mãe. — Podemos vender. A casa antiga também.
Eun-ha precisa terminar a faculdade, ter futuro em Seul. Não pode se prender a isso.
As palavras caíram sobre ela como pedras.
Vender? Fechar as portas como se fossem apenas madeira e vidro?
Para os pais, talvez fosse apenas um negócio pequeno. Para ela, era memória, era
permanência, era a prova de que a vida simples da avó tinha florescido no coração de
tantas pessoas.
No quarto, sozinha, Eun-ha sentou-se diante da mesa onde ainda havia algumas
flores murchas em um vaso. O cheiro fraco lembrava-lhe a rotina de antes: abrir a loja
cedo, arrumar os buquês, ouvir a avó dizer que cada flor, mesmo imperfeita, tinha seu
valor.
O que mais espantava Eun-ha não era apenas a fragilidade repentina da avó, mas a
velocidade com que tudo acontecia. Era como se o tempo tivesse escolhido acelerar
justamente quando mais precisava ser lento.
Dias que antes pareciam longos agora escorriam entre os dedos.
38
O inverno dera lugar à primavera sem que ela percebesse, e, no meio da pressa da
universidade, a vida se reorganizava em silêncio: uma floricultura que já não abria todos
os dias, uma cama que substituía o balcão, um coração que começava a se despedir antes
mesmo que alguém admitisse.
O tempo não pedira licença.
Não dera chance de preparar palavras.
Eun-ha percebia que, assim como nas estações, a vida mudava sem pedir opinião.
A infância que passara ao lado da avó parecia ter sido ontem; agora percebia que décadas
se resumiam a um punhado de lembranças.
A doença rápida demais, a melhora enganosa, a recaída inesperada — tudo parecia
um lembrete cruel de que a vida não segue nossos planos.
A morte da avó não foi apenas uma perda; foi também um espelho colocado diante
de Eun-ha.
Ela percebeu, com dor, que a vida não nos pertence do modo como costumamos
pensar. A cada batida de coração, caminhamos rumo a um fim certo. E esse fim não é o
vazio absoluto, mas o cumprimento de um ciclo. A avó, que cuidara das flores com
paciência, agora era chamada a descansar, como a terra que recebe de volta o que nutriu.
Havia uma ordem silenciosa nisso: assim como uma flor murcha devolve ao solo a
força que terá em outra primavera, também a vida humana cumpre um percurso que não
se encerra em si mesma. O corpo se desfaz, mas a bondade que semeou permanece, como
perfume que não desaparece com a flor.
O que mais doía em Eun-ha, porém, não era apenas o luto — era ouvir os pais
falando em vender a floricultura. As mesmas mãos que a avó transformara em espaço de
cuidado, de simplicidade, de acolhimento, agora eram vistas apenas como negócio.