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Luto e Memórias em Gwangju

Eun-ha enfrenta o luto pela morte de sua avó, refletindo sobre a fragilidade da vida e a importância das memórias. Durante o funeral, ela percebe que o amor verdadeiro se manifesta na presença silenciosa, enquanto seus pais consideram vender a floricultura da avó, o que a entristece profundamente. A narrativa explora a inevitabilidade da mudança e a continuidade da bondade que permanece mesmo após a morte.

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Luto e Memórias em Gwangju

Eun-ha enfrenta o luto pela morte de sua avó, refletindo sobre a fragilidade da vida e a importância das memórias. Durante o funeral, ela percebe que o amor verdadeiro se manifesta na presença silenciosa, enquanto seus pais consideram vender a floricultura da avó, o que a entristece profundamente. A narrativa explora a inevitabilidade da mudança e a continuidade da bondade que permanece mesmo após a morte.

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Se a semana anterior foi incrível, a semana que se inicia era terrível.

O trem para

Gwangju parecia mais lento do que de costume. Talvez fosse apenas impressão de Eun-

ha, porque dentro dela tudo se movia rápido demais: lembranças, ausências.

Min-jun a acompanhava em silêncio. Não tentou consolar com frases prontas;

apenas ficou ao lado, como quem entende que o luto não precisa de explicações, mas de

presença.

Quando chegaram, a cidade parecia igual, mas não era. As ruas, as casas, até o ar da

manhã carregavam uma falta irreparável.

A floricultura estava fechada. A mesma porta de madeira que sempre tilintava com

a campainha agora permanecia imóvel. Ao passar por ela, Eun-ha parou. Encostou os

dedos na maçaneta fria e, por um instante, imaginou a avó no balcão, cortando ramos,

ajeitando vasos como se fossem joias delicadas. Mas a imagem se desfez rápido. O lugar

estava mudo.

O funeral reuniu vizinhos antigos, conhecidos de longa data, senhoras que vinham

à loja há décadas. Todos falavam sobre a bondade dela, sobre sua calma, sobre como

cuidava das flores como quem cuidava de gente.

Eun-ha quase não falou. As lágrimas escorriam, mas eram discretas, silenciosas.

Sentia que qualquer palavra que tentasse dizer quebraria o pouco de equilíbrio que ainda

restava.

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Min-jun segurou sua mão durante a cerimônia. Não disse nada. E, naquele silêncio

compartilhado, Eun-ha compreendeu: às vezes o amor não está na fala, mas em

permanecer junto quando tudo parece se desfazer. E este amor é o mais raro.

À noite, depois que os convidados partiram, Eun-ha ouviu os pais conversando

com um tom prático demais para um momento de luto.

— Manter a floricultura não faz sentido — disse o pai, firme. — É trabalho demais,

e ninguém vai cuidar.

— Concordo — acrescentou a mãe. — Podemos vender. A casa antiga também.

Eun-ha precisa terminar a faculdade, ter futuro em Seul. Não pode se prender a isso.

As palavras caíram sobre ela como pedras.

Vender? Fechar as portas como se fossem apenas madeira e vidro?


Para os pais, talvez fosse apenas um negócio pequeno. Para ela, era memória, era

permanência, era a prova de que a vida simples da avó tinha florescido no coração de

tantas pessoas.

No quarto, sozinha, Eun-ha sentou-se diante da mesa onde ainda havia algumas

flores murchas em um vaso. O cheiro fraco lembrava-lhe a rotina de antes: abrir a loja

cedo, arrumar os buquês, ouvir a avó dizer que cada flor, mesmo imperfeita, tinha seu

valor.

O que mais espantava Eun-ha não era apenas a fragilidade repentina da avó, mas a

velocidade com que tudo acontecia. Era como se o tempo tivesse escolhido acelerar

justamente quando mais precisava ser lento.

Dias que antes pareciam longos agora escorriam entre os dedos.

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O inverno dera lugar à primavera sem que ela percebesse, e, no meio da pressa da

universidade, a vida se reorganizava em silêncio: uma floricultura que já não abria todos

os dias, uma cama que substituía o balcão, um coração que começava a se despedir antes

mesmo que alguém admitisse.

O tempo não pedira licença.

Não dera chance de preparar palavras.

Eun-ha percebia que, assim como nas estações, a vida mudava sem pedir opinião.

A infância que passara ao lado da avó parecia ter sido ontem; agora percebia que décadas

se resumiam a um punhado de lembranças.

A doença rápida demais, a melhora enganosa, a recaída inesperada — tudo parecia

um lembrete cruel de que a vida não segue nossos planos.

A morte da avó não foi apenas uma perda; foi também um espelho colocado diante

de Eun-ha.

Ela percebeu, com dor, que a vida não nos pertence do modo como costumamos

pensar. A cada batida de coração, caminhamos rumo a um fim certo. E esse fim não é o

vazio absoluto, mas o cumprimento de um ciclo. A avó, que cuidara das flores com

paciência, agora era chamada a descansar, como a terra que recebe de volta o que nutriu.

Havia uma ordem silenciosa nisso: assim como uma flor murcha devolve ao solo a

força que terá em outra primavera, também a vida humana cumpre um percurso que não
se encerra em si mesma. O corpo se desfaz, mas a bondade que semeou permanece, como

perfume que não desaparece com a flor.

O que mais doía em Eun-ha, porém, não era apenas o luto — era ouvir os pais

falando em vender a floricultura. As mesmas mãos que a avó transformara em espaço de

cuidado, de simplicidade, de acolhimento, agora eram vistas apenas como negócio.

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