Ele olhou para ela de canto, com um sorriso de quem entrega uma travessura.
— Mas a outra metade só queria ver se você ia me impedir.
Eun-ha suspirou, fingindo indignação.
— Então eu sou uma espécie de… teste?
— Não, nada disso. — ele balançou a cabeça, divertido. — Você é mais como…
uma prova final de Letras. Daquelas que a gente não sabe se passou ou não até o professor
entregar o resultado semanas depois.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Que comparação horrível.
— Horrível, mas verdadeira. — retrucou ele, com o mesmo sorriso.
Pararam no cruzamento, à espera do sinal abrir. As luzes vermelhas refletiam no
asfalto molhado. Nesse instante, Min-jun virou o rosto para ela, e a expressão leve deu
lugar a algo mais sério.
— Promete uma coisa?
— O quê?
— Não precisa virar alguém falante. Nem mudar quem você é. — disse com
firmeza. — Só não se esconda de mim de novo.
Eun-ha sentiu um nó se desfazer dentro dela. Sorriu, simples e desprendida.
— Prometo.
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O sinal abriu. Atravessaram a rua, e, pela primeira vez em muito tempo, Eun-ha
sentiu que não havia nada preso dentro dela. Tinha falado, tinha escutado, tinha rido. Era
como se uma porta tivesse se aberto — e não precisava ser escancarada. Bastava estar
entreaberta para deixar entrar e sair o ar.
Do lado de fora, a cidade continuava caótica, cheia de buzinas e vozes. Mas, ao lado
de Min-jun, tudo parecia encontrar lugar.
E assim terminaram a noite: caminhando juntos, sem pressa, compartilhando piadas
tolas e confidências sérias, misturando risos e silêncios.
Mas havia, finalmente, a sensação de que ambos, depois de tanto tempo, estavam
caminhando na mesma direção.
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Capítulo 8 – O adeus
Se a semana anterior foi incrível, a semana que se inicia era terrível. O trem para
Gwangju parecia mais lento do que de costume. Talvez fosse apenas impressão de Eun-
ha, porque dentro dela tudo se movia rápido demais: lembranças, ausências.
Min-jun a acompanhava em silêncio. Não tentou consolar com frases prontas;
apenas ficou ao lado, como quem entende que o luto não precisa de explicações, mas de
presença.
Quando chegaram, a cidade parecia igual, mas não era. As ruas, as casas, até o ar da
manhã carregavam uma falta irreparável.
A floricultura estava fechada. A mesma porta de madeira que sempre tilintava com
a campainha agora permanecia imóvel. Ao passar por ela, Eun-ha parou. Encostou os
dedos na maçaneta fria e, por um instante, imaginou a avó no balcão, cortando ramos,
ajeitando vasos como se fossem joias delicadas. Mas a imagem se desfez rápido. O lugar
estava mudo.
O funeral reuniu vizinhos antigos, conhecidos de longa data, senhoras que vinham
à loja há décadas. Todos falavam sobre a bondade dela, sobre sua calma, sobre como
cuidava das flores como quem cuidava de gente.
Eun-ha quase não falou. As lágrimas escorriam, mas eram discretas, silenciosas.
Sentia que qualquer palavra que tentasse dizer quebraria o pouco de equilíbrio que ainda
restava.
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Min-jun segurou sua mão durante a cerimônia. Não disse nada. E, naquele silêncio
compartilhado, Eun-ha compreendeu: às vezes o amor não está na fala, mas em
permanecer junto quando tudo parece se desfazer. E este amor é o mais raro.
À noite, depois que os convidados partiram, Eun-ha ouviu os pais conversando
com um tom prático demais para um momento de luto.
— Manter a floricultura não faz sentido — disse o pai, firme. — É trabalho demais,
e ninguém vai cuidar.
— Concordo — acrescentou a mãe. — Podemos vender. A casa antiga também.
Eun-ha precisa terminar a faculdade, ter futuro em Seul. Não pode se prender a isso.
As palavras caíram sobre ela como pedras.
Vender? Fechar as portas como se fossem apenas madeira e vidro?
Para os pais, talvez fosse apenas um negócio pequeno. Para ela, era memória, era
permanência, era a prova de que a vida simples da avó tinha florescido no coração de
tantas pessoas.
No quarto, sozinha, Eun-ha sentou-se diante da mesa onde ainda havia algumas
flores murchas em um vaso. O cheiro fraco lembrava-lhe a rotina de antes: abrir a loja
cedo, arrumar os buquês, ouvir a avó dizer que cada flor, mesmo imperfeita, tinha seu
valor.
O que mais espantava Eun-ha não era apenas a fragilidade repentina da avó, mas a
velocidade com que tudo acontecia. Era como se o tempo tivesse escolhido acelerar
justamente quando mais precisava ser lento.
Dias que antes pareciam longos agora escorriam entre os dedos.