E, enquanto ainda buscava coragem para dizer o que guardava, o telefone tocou.
Era sua mãe.
A voz do outro lado soava tensa, contida:
— Sua avó não anda bem.
Eun-ha fechou os olhos.
De repente, percebeu que o tempo não esperava. E que talvez o silêncio também
pudesse ser uma forma de perda.
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Capítulo 5 – O girassol que não desbotou
Na manhã seguinte, Eun-ha acordou antes do despertador. A cidade já estava
desperta: buzinas, passos, motores. O barulho parecia ainda mais agressivo do que de
costume, como se lembrasse a cada instante que Seul nunca esperava por ninguém.
No quarto, arrumou a mochila com poucas roupas, o caderno de anotações e o
livro que Min-jun lhe dera na véspera. Hesitou antes de guardá-lo. Passou os dedos sobre
a capa, como se buscasse ali um fragmento de coragem, e só então o colocou entre as
roupas.
No trem para Gwangju, escolheu um assento perto da janela. A paisagem passava
rápida demais: prédios ficando para trás, campos aparecendo, colinas que pareciam acenar
de longe. Encostou a testa no vidro, mas logo retirou o livro da mochila e o abriu.
As primeiras páginas estavam cheias de pequenas anotações de Min-jun,
comentários à margem, palavras circuladas. Era como se ele estivesse ao seu lado, guiando
o olhar dela.
Um trecho chamava atenção: “As palavras são sementes. Enquanto guardadas, são apenas
promessa. Mas quando ditas, florescem e tocam o mundo.”
Eun-ha fechou o livro por um instante, deixando os olhos vagarem pela paisagem.
Pensou em quantas sementes guardava dentro de si, presas ao solo do silêncio. O
quanto já poderia ter florescido se tivesse tido coragem de dar-lhes voz.
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Percebeu que guardar não era o mesmo que permanecer. Permanecer era permitir
que algo tomasse forma fora de si, mesmo que imperfeito.
Voltou ao livro e leu mais um trecho sublinhado por Min-jun: “O que não é
pronunciado, morre consigo; o que é dito, encontra caminho para além de quem o disse.”
Sentiu o coração apertar. Talvez fosse esse o motivo de Min-jun insistir tanto: não
porque precisasse ouvir para si, mas porque sabia que, se ela não falasse, perderia até o
que carregava dentro.
A cada página, a viagem parecia mais longa e mais curta ao mesmo tempo. Longa,
porque a urgência crescia dentro dela. Curta, porque as palavras a aproximavam daquilo
que sempre temeu enfrentar: a necessidade de falar antes que fosse tarde.
Quando o trem chegou, o ar de Gwangju pareceu diferente. Não havia a pressa
ensurdecedora de Seul. Era um silêncio mais próximo, mais humano, mas que naquela vez
não trouxe conforto: trouxe apreensão.
Caminhou até a casa da avó, e o simples ato de atravessar a rua já lhe trouxe uma
lembrança: a varanda onde tantas vezes sentara para ouvir histórias, o cheiro de chá recém-
feito, a presença serena que parecia nunca mudar. Mas agora, ao se aproximar, sentiu o
coração apertar.
As flores diante da porta estavam menos vivas. Algumas já com as pétalas murchas,
caídas ao chão, como se refletissem a ausência de mãos que costumavam regá-las. Eun-ha
ajoelhou-se por um instante e passou os dedos sobre uma delas, ainda úmida de orvalho.
Parecia um retrato delicado da própria avó: bonita mesmo no enfraquecimento, ainda
oferecendo algo, mesmo quando parecia esgotada.
24
Inspirou fundo antes de girar a maçaneta. O cheiro da casa a envolveu de imediato:
mistura de chá verde, madeira antiga e o perfume das flores que ainda resistiam. Um cheiro
de permanência, que agora parecia ameaçado.
Na cozinha, encontrou a mãe mexendo em panelas, mas sem a firmeza de outros
tempos. Os movimentos eram automáticos, quase um disfarce para a preocupação.
— Ela está no quarto — disse em voz baixa, como quem teme que a própria fala
pudesse quebrar o fio frágil que mantinha a avó desperta.
Eun-ha apenas assentiu.
Atravessou o corredor com passos lentos, sentindo o ranger do piso de madeira
sob seus pés. Cada passo parecia aumentar o nó que carregava no peito: o medo de não
ter dito o suficiente, o medo de chegar tarde demais, o medo de que todo o amor que
sempre guardara no silêncio fosse agora tarde para ser pronunciado.
A porta estava apenas encostada. Empurrou-a devagar.
O quarto estava em meia-luz. As cortinas filtravam o sol da tarde, deixando entrar
apenas um brilho suave. A avó estava deitada, coberta até o peito, os olhos semicerrados.
O rosto parecia menor, como se o tempo tivesse se apressado sobre ela nos últimos dias.
Mas, ao perceber a presença da neta, abriu os olhos e sorriu.
Um sorriso frágil, cansado, mas ainda inteiro.
Eun-ha sentiu as pernas vacilarem. Aproximou-se, segurou a mão da avó, e foi nesse
gesto simples que entendeu: havia coisas que não podiam esperar mais para serem ditas.
Porque mesmo o mais belo dos sorrisos, um dia, também se cala.
25
Eun-ha se sentou devagar na beira da cama, segurando a mão da avó. A pele parecia
fina como papel, mas o calor ainda estava lá, firme, como uma raiz que resiste mesmo em
solo fraco.
— Você veio… — disse a avó, com voz fraca mas alegre. — Já vale o dia.
Eun-ha sorriu, tentando esconder o nó na garganta.
— Senti tanta saudade, vó.
A avó respirou fundo, fechando os olhos por um instante, como se cada palavra
exigisse cuidado. Depois falou, quase em tom de confidência:
— Sabe o que mais aprendi cuidando das flores? Que nenhuma delas foi feita para
durar em silêncio eterno. Elas desabrocham quando chega a hora, sem pedir licença. Se
tentam ficar fechadas demais, apodrecem antes de mostrar a cor.
Eun-ha não respondeu, mas apertou sua mão com força.
— É preciso coragem até para as coisas mais simples — continuou a avó. — Uma
flor se abre mesmo sabendo que a chuva pode machucá-la. E ainda assim, abre. Porque
permanecer fechada seria perder a chance de ser o que é.
Os olhos de Eun-ha se encheram de lágrimas.
— Tenho medo, vó.
A avó abriu os olhos devagar e sorriu, cansada mas serena.
— O medo nunca vai embora. Mas a vida não espera até ele sumir. A gente segue
mesmo com ele.
26
Um silêncio suave se espalhou pelo quarto. Dessa vez, não era distância: era
repouso, era presença. Eun-ha inclinou-se até encostar a cabeça no ombro da avó. E
entendeu que aquelas frases simples, ditas sem pressa, eram uma herança que não se
guardava em cadernos, mas no coração.
Respirou fundo, quase sem coragem.
— Vó… acho que eu sou assim. — A voz saiu baixa, mas verdadeira. — Me fecho
demais.
A avó virou lentamente o rosto para olhá-la. Não havia julgamento em seus olhos,
apenas uma ternura paciente.
— Tenho tantas coisas aqui dentro… — Eun-ha levou a mão ao peito. — Mas
quase nunca consigo dizer. Nem para as pessoas que mais gosto.
As lágrimas começaram a se acumular, e ela não as conteve.
— Tem um garoto, vó… o Min-jun. Somos só amigos… — sorriu de leve, como
quem se denuncia sem querer — … mas ele me deixou um livro. E eu… eu não sei
explicar. Quando leio, parece que ele está comigo. Ele fala tão fácil, sabe? Como se a
palavra fosse natural. E eu… eu nunca consigo acompanhar.
Eun-ha chorou em silêncio. A avó apertou sua mão com a pouca força que tinha.
— Esse garoto… se ele gosta de você, vai esperar. Mas até o coração mais paciente precisa
sentir um gesto, uma palavra, algo que diga: “estou aqui também”. Não esconda o que foi