E, nesses cafés, o contraste se tornava evidente.
Min-jun falava com entusiasmo: contava histórias sobre os alunos, refletia sobre
livros, perguntava o que ela achava. Eun-ha respondia, mas em frases curtas, como se
tivesse medo de que uma palavra a mais a entregasse inteira.
— Como está a universidade? — ele perguntou certa vez, mexendo distraído no
café com leite.
— Corrida… — respondeu.
— Corrida como? O que vocês estão estudando agora?
Ela pensou na resposta longa que poderia dar: sobre as aulas de ecologia, os
relatórios de laboratório, o professor que sempre exigia apresentações orais. Mas o que
disse foi apenas:
— Biologia é cansativa.
Ele sorriu, não por achar graça, mas por reconhecer aquele hábito dela de reduzir
as coisas. E, como sempre, não insistiu. Mudou de assunto, falou sobre um novo poema
que escrevera.
Mas havia momentos em que Min-jun deixava escapar o que guardava.
— Às vezes, sinto que converso sozinho — disse uma noite, depois de acompanhá-
la até o seu apartamento. — Eu falo, você escuta… mas queria ouvir você também.
Eun-ha não respondeu. Sorriu de leve, como se o sorriso fosse suficiente. Mas sabia
que não era.
Houve uma tarde, perto do início da primavera, em que Min-jun a convidou para ir
a um recital no centro cultural da cidade. Ela hesitou, mas foi. A sala estava cheia, e quando
chamaram seu nome, Min-jun subiu ao palco. Pegou o papel no bolso, respirou fundo e
leu.
Não havia nada de extraordinário em sua postura — nenhum gesto teatral,
nenhuma ênfase exagerada. O extraordinário estava na simplicidade de ter coragem de
dizer em voz alta o que havia escrito sozinho, à noite, na solidão do quarto.
Eun-ha, sentada entre desconhecidos, sentiu o coração apertado.
Não era inveja, mas uma espécie de dor: perceber que alguém que um dia dividira
silêncios com ela agora tinha voz para o mundo inteiro.
Depois do recital, enquanto caminhavam lado a lado pela rua iluminada, Min-jun
quebrou o silêncio entre eles:
— Você escreve bonito, Eun-ha. Sei disso. Mas queria ouvir você dizendo.
Ela abaixou os olhos.
— Eu não sei falar como você.
Ele sorriu, mas o sorriso tinha uma sombra.
— Não precisa ser como eu. Só precisa ser você. Eu só queria ouvir.
Andaram juntos até a estação. Ele não insistiu. E ela não disse nada.
Mas, ao chegar no quarto, sentou-se diante do espelho e repetiu em voz baixa, como
se fosse um ensaio:
— “Só precisa ser você.”
10
Capítulo 2 – Vozes que faltam
Naquela manhã de segunda-feira, o corredor do prédio de Ciências estava mais
barulhento do que de costume. Os alunos entravam e saíam das salas carregando cartazes,
pen drives, folhas impressas. Era dia de seminário.
Eun-ha sabia disso havia semanas. Tinha preparado o trabalho com cuidado,
preenchendo páginas e mais páginas de anotações. O tema — ciclos de vida em
ecossistemas marinhos — não era difícil para ela. Na verdade, suas explicações escritas
eram claras, organizadas, até elogiadas por colegas que pediam para copiar.
Mas, diante do quadro branco, não bastaria escrever.
Ali, precisaria falar.
Sentou-se na segunda fileira, tentando não chamar atenção. Observava os colegas
apresentando, cada um com seu estilo: alguns confiantes, outros nervosos, mas todos
conseguindo se levantar, abrir a boca, pronunciar palavras. Um deles até gaguejou no
início, mas se recompôs, arrancando aplausos solidários.
Eun-ha olhava, com o coração apertado, pensando que talvez não tivesse essa força
de se recompor. Para ela, a falha não seria apenas um tropeço; seria o desmoronar inteiro.
Quando o professor anunciou seu nome, as pernas pareceram pesar. Levantou-se
devagar, segurando o papel impresso como se fosse uma tábua de salvação. Caminhou até
a frente. O silêncio da sala não era acolhedor — era expectativa. E expectativa pesava.
11
Olhou para as palavras no papel. Eram as mesmas que escrevera com cuidado dias
antes, mas, de repente, pareciam distantes, como se não fossem suas. Abriu a boca.
Nenhum som saiu.
Engoliu em seco. Tentou outra vez. A voz veio fraca, quase um sussurro.
— Os ecossistemas… — começou, mas parou.
As frases seguintes se embaralharam na mente.
O papel tremia em suas mãos. Sentia os olhares dos colegas, alguns impacientes,
outros compreensivos. O professor a observava com calma, como quem dava tempo, mas
cada segundo parecia um peso a mais.
Finalmente, conseguiu dizer algumas linhas, rápidas, sem olhar para ninguém. Não
explicou o suficiente. Não havia voz, apenas palavras soltas, ditas como quem pede
desculpas por existir.
Terminou antes do tempo. Entregou o papel ao professor e voltou ao lugar. O
coração batia como se tivesse corrido uma maratona, mas a sensação não era de vitória.
Era de vazio.
Na saída, alguns colegas se aproximaram.
— Você fala bem — disse uma das meninas, sorrindo. — Pena que não conseguiu
dizer tudo.
Eun-ha sorriu de volta, sem resposta. Não havia resposta.
Naquela tarde, não quis almoçar com ninguém. Caminhou sozinha até o café
escondido que costumava frequentar. Sentou-se no canto, diante da janela, e abriu o
caderno. Não para estudar — para escrever o que não dissera.