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Extensão Universitária na UFPel: 50 Anos

O documento aborda a extensão universitária ao longo dos 50 anos da Universidade Federal de Pelotas, destacando sua importância e evolução. Organizado por Francisca Ferreira Michelon e Ana da Rosa Bandeira, o livro contém uma série de capítulos que discutem projetos e práticas de extensão em diversas áreas. O conteúdo é enriquecido por contribuições de professores, alunos e colaboradores que participaram ativamente das iniciativas extensionistas.

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Gabriel Correa
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Extensão Universitária na UFPel: 50 Anos

O documento aborda a extensão universitária ao longo dos 50 anos da Universidade Federal de Pelotas, destacando sua importância e evolução. Organizado por Francisca Ferreira Michelon e Ana da Rosa Bandeira, o livro contém uma série de capítulos que discutem projetos e práticas de extensão em diversas áreas. O conteúdo é enriquecido por contribuições de professores, alunos e colaboradores que participaram ativamente das iniciativas extensionistas.

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A E X T E N S Ã O

UN I V E R S I TÁR I A
5
NOS
D A U F
⁰ ANOS
P E L
Francisca Ferreira Michelon
Ana da Rosa Bandeira
Organizadoras
A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA NOS
50 ANOS DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DE PELOTAS

Francisca Ferreira Michelon


Ana da Rosa Bandeira
(Organizadoras)
Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional
Ubirajara Buddin Cruz – CRB 10/901
Biblioteca Setorial de Ciência & Tecnologia - UFPel

E96 A extensão universitária nos 50 anos da Universidade Federal de Pelotas


[recurso eletrônico] / org. Francisca Ferreira Michelon, Ana da Rosa Ban-
deira. – Pelotas : UFPel. PREC; Ed. da UFPel, 2020.
843 p. : il. color. - Bibliografias.

ISBN: 978-65-86440-05-8

[Link] Federal de Pelotas. [Link]ão universitária. [Link]


de extensão. [Link], Francisca Ferreira. II. Bandeira, Ana da Rosa.

CDD: 378.81657
Conselho Editorial Chefia
Presidente do Conselho Editorial: Ana da Rosa Bandeira
Ana da Rosa Bandeira Editora-Chefe
Representantes das Ciências Agrá-
rias: Victor Fernando Büttow Roll (TI- Seção de Pré-Produção
TULAR) e Sandra Mara da Encarnação Isabel Cochrane
Fiala Rechsteiner Administrativo
Representantesa da Área das Ciên-
cias Exatas e da Terra: Eder João Le- Seção de Produção
nardão (TITULAR) Suelen Aires Böettge
Representantes da Área das Ciên- Administrativo
cias Biológicas: Rosangela Ferreira Anelise Heidrich
Rodrigues (TITULAR) e Francieli Moro Revisão
Stefanello Franciane Medeiros (Bolsista)
Design Editorial
Representantes da Área das Enge-
nharias: Reginaldo da Nóbrega Tava- Seção de Pós-Produção
res (TITULAR)
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Representantes da Área das Ciências Assessoria
da Saúde: Fernanda Capella Rugno Madelon Schimmelpfennig Lopes
(TITULAR) e Anelise Levay Murari Administrativo
Representantes da Área das Ciências
Sociais Aplicadas: Daniel Lena Mar- Projeto Gráfico e Design
chiori Neto (TITULAR), Eduardo Grala
da Cunha e Maria da Graças Pinto de
Editorial
Britto Isabela Almeida Nogueira
Paula Garcia Lima
Representante da Área das Ciências
Capas: Bárbara Kurz
Humanas: Charles Pereira Pennaforte
(TITULAR), Lucia Maria Vaz Peres e
Pedro Gilberto da Silva Leite Junior
Representantes da Área das Lingua-
gens e Artes: Lúcia Bergamaschi Costa
Weymar (TITULAR), Chris de Azevedo
Ramil e João Fernando Igansi Nunes

Filiada à A.B.E.U.
Rua Benjamin Constant, 1071 - Porto
Pelotas, RS - Brasil
Fone +55 (53)3227 8411
[Link]@[Link]
Expediente UFPel Expediente Pró-Reitoria de
Gestão 2017-2020 Extensão e Cultura
Reitor Pró-Reitora
Pedro Rodrigues Curi Hallal Francisca Ferreirta Michelon
Vice-Reitor Secretária
Luis Isaías Centeno do Amaral Nádia Najara Kruger Alves
Direção de Gabinetes da Reitoria Coordenador de Arte e Inclusão
Paulo Roberto Ferreira Jr João Fernando Igansi Nunes
Pró-Reitora de Graduação Coordenadora de Patrimônio Cultural
Maria de Fátima Cóssio e Comunidade
Silvana de Fátima Bojanoski
Pró-Reitor de Pesquisa e
Pós-Graduação Coordenador de Extensão e
Flávio Fernando Demarco Desenvolvimento Social
Felipe Fehlberg Herrmann
Pró-Reitora de Extensão e Cultura
Francisca Ferreira Michelon Núcleo de Formação, Registro e
Acompanhamento
Pró-Reitor de Assuntos Estudantis Chefe Ana Carolina Oliveira Nogueira
Mário Renato de Azevedo Jr. Cátia Aparecida Leite da Silva
Pró-Reitor Administrativo Rogéria Aparecida Cruz Guttier
Ricardo Hartlebem Peter Núcleo de Ação e Difusão Cultural
Pró-Reitor de Infraestrutura Chefe Mateus Schmeckel Mota
Julio Carlos Balzano de Mattos Letícia Dutra Zimmermann

Pró-Reitor de Planejamento e Chefe da Seção de Mapeamento e


Desenvolvimento Inventário
Otávio Martins Peres Andrea Lacerda Bachettini

Pró-Reitor de Gestão de Pessoas Chefe da Seção de Integração


Sérgio Batista Christino Universidade e Sociedade
Norlai Alves Azevedo
Seção de Captação e Gestão de
Recursos
Chefe Paula Garcia Lima
Elias Lisboa dos Santos
Colaboradores
Profa. Desirée Nobre Salasar
Prof. Dr. Jerri Teixeira Zanusso
Prof. Dr. Valdecir Carlos Ferri
AGRADECIMENTOS

À Professora Ana da Rosa Bandeira e, em seu nome, à Editora da UFPel pela


parceria que fez possível esta obra.
Aos extensionistas - professores, técnicos administrativos, alunos e outros co-
laboradores - que responderam à chamada do Edital PREC-NELU 12/2019 e que
hoje assinam os capítulos da parte III do livro.
Ao bibliotecário da UFPel Ubirajara Budin Cruz que orientou e participou ativa-
mente da revisão de normas do livro.
Às colegas Paula Garcia Lima e Letícia Silva Dutra Zimmermann que, junto com
as estudantes Isabela Almeida Nogueira e Bárbara Kurz, conduziram o processo
de revisões e o projeto de design editorial do livro, bem como ao ex-colega Ma-
theus Blaas Bastos, que deu início ao processo.
Aos demais colegas da PREC que contribuíram de muitas formas em diferentes
etapas da produção do livro: Ana Carolina Oliveira Nogueira, Andrea Lacerda Ba-
chettini, Cátia Aparecida Leite da Silva, Elias Lisboa dos Santos, Felipe Fehlberg
Herrrmann, João Fernando Igansi Nunes, Mateus Schmeckel Mota, Nádia Najara
Kruger Alves, Norlai Alvez Azevedo, Rogéria Aparecida Cruz Guttier, Silvana de Fá-
tima Bojanoski e aos colaboradores Desirée Nobre Salasar, Jerri Teixeira Zanusso
e Valdecir Carlos Ferri.
Ao Professor Elomar Antonio Callegaro Tambara e, em seu nome, ao Centro
de Documentação (CEDOC) do Centro de Estudos e Investigações em História da
Educação UFPEL (CEIHE) pelo acesso a um conjunto de documentos (Relatórios,
Anuários e outros) que fundamentaram o capítulo 1 deste livro.
À Patrícia de Borba Pereira, coordenadora do Sistema de Bibliotecas da UFPel e
do Repositório Guaiaca, no qual este livro está disponível.
SUMÁRIO

1. APRESENTAÇÃO......................................................................................................................... 12
2. INTRODUÇÃO: O QUE FICOU DE 50 ANOS; O QUE FICARÁ PARA OS PRÓXIMOS....................... 13

PARTE I............................................................................... 16
1. A EXTENSÃO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS: RETROSPECTO................................ 17
Francisca Ferreira Michelon

2. A INTEGRALIZAÇÃO DA EXTENSÃO NA UFPEL: CAMINHOS PARA A FORMAÇÃO


EXTENSIONISTA............................................................................................................................. 57
Ana Carolina Oliveira Nogueira

3. PLANO DE CULTURA DA UFPEL: POLÍTICAS INTEGRADORAS, DIREITO DE TODOS.................. 67


João Fernando Igansi Nunes

PARTE II.............................................................................. 85
1. VOZES DA EXTENSÃO: 46 ANOS DE MÚSICA NO CORAL UFPEL................................................86
Leandro Ernesto Maia

2. TEATRO EM EXTENSÃO: NÚCLEO DE TEATRO DA UFPEL.......................................................... 95


Daniel Furtado Simões da Silva

3. O PROJETO DESAFIO COMO UMA PRÁTICA E UM ESPAÇO À ESPERANÇA!.............................. 106


Lúcia Maria Vaz Peres, Noris Mara Pacheco Martins Leal, Valquíria Machado

4. A FORMAÇÃO PERMANENTE DE IDOSOS ATRAVÉS DA UNIVERSIDADE ABERTA....................117


Adriana Schüler Cavalli, Ana Carolina Nogueira, Lorena Almeida Gill, Zayanna Christine Lopes Lindôso

PARTE III............................................................................ 127


COMUNICAÇÃO............................................................................................ 128
1. DESIGNERIA EMPRESA JÚNIOR: NOVE ANOS DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA....................... 129
Helena de Araujo Neves, Julia Lima da Silva, Joanna de Oliveira Borges Voloski

2. A PRÁTICA EXTENSIONISTA UNIVERSITÁRIA SOBRE UMA ÁREA DE INTERVENÇÃO DA


EDUCOMUNICAÇÃO ATRAVÉS DO PROJETO DE WEB RÁDIO E WEB TV: EXPERIÊNCIAS NA ESCOLA
LOUIS BRAILLE.............................................................................................................................. 147
Marislei da Silveira Ribeiro, Micael Machado da Silva, William Machado da Silva
CULTURA...................................................................................................... 162
1. REFLEXO DOS DEZ ANOS DE INSERÇÃO DO CURSO DE CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO
DE BENS CULTURAIS MÓVEIS DA UFPEL NO MUSEU MUNICIPAL PARQUE DA BARONESA EM
PELOTAS/RS.................................................................................................................................. 163
Daniele Baltz da Fonseca, Annelise Costa Montone, Ana Carolina Fernandes, André Alexandre Gasperi

2. TATÁ: NÚCLEO DE DANÇA-TEATRO...........................................................................................175


Maria Fonseca Falkembach

3. NÚCLEO DE MÚSICA POPULAR DA UFPEL: UMA PROPOSTA DE INTEGRAÇÃO ENTRE ENSINO,


PESQUISA E EXTENSÃO EM COOPERAÇÃO COM A COMUNIDADE DE PELOTAS.......................... 193
Rafael Henrique Soares Velloso, Leandro Ernesto Maia

4. O FRANCÊS VISTO ATRAVÉS DO CINEMA................................................................................. 208


Isabella Mozzillo

5. PATAFÍSICA: MEDIAÇÃO-ARTE-EDUCAÇÃO. NARRATIVAS DE EXTENSÃO, PESQUISA E


ENSINO..................................................................................................................................... 216
Carolina Corrêa Rochefort, Luana Reis Silvino, Raíssa Cardoso Leal, Luzilane Alves Bezerra, Amanda Martins de
Abreu, Carolina Mesquita Clasen

6. ZERO4 CINECLUBE: NOVE ANOS PROMOVENDO A EXPERIÊNCIA DA CINEFILIA.................... 231


Ivonete Pinto

7. A INTERGERACIONALIDADE NO MUSEU HISTÓRICO DE MORRO REDONDO - RS................... 243


Andréa Cunha Messias, Carliston Lima Ribeiro, Carlos Eduardo Ávila Bauer, Marcos Roberto Silva de Souza, Diego
Lemos Ribeiro

8. AÇÕES EDUCATIVAS EM ARQUEOLOGIA: A MULTIVOCALIDADE DAS HISTÓRIAS


INDÍGENAS.......................................................................................................................... 259
Tamara Oliveira, Rafael Guedes Milheira

9. AS AÇÕES EDUCATIVAS PARA O PATRIMÔNIO DESENVOLVIDAS NO MUSEU DO DOCE DA


UFPEL PELO LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO PARA O PATRIMÔNIO - LEP/UFPEL ENTRE 2013 E
2019.......................................................................................................................................... 271
Rafael Teixeira Chaves, Patricia Cristina Cruz Sá, Gizele Santos Amaro, Carla Rodrigues Gastaud

DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA..................................................................284


1. ATIVIDADES DE EXTENSÃO DIRECIONADAS ÀS MULHERES NA TERCEIRA IDADE: FLUXO DE
ACOLHIMENTO.............................................................................................................................. 285
Noéli Boscato, Fabíola Jardim Barbon, Thiago Azário de Holanda, Júlia Machado Saporiti, Melissa Feres Damian,
Fernanda Weingartner Machado Luz

2. O PROGRAMA DE TERAPIA OCUPACIONAL EM GERONTOLOGIA (PRO-GERONTO) COMO


ESPAÇO PARA O CUIDADO DO IDOSO NA COMUNIDADE............................................................. 297
Zayanna Christine Lopes Lindôso, Amanda da Silveira Ribeiro, Ariadne Fernandes, Halana Duarte, Maitê Peres de
Carvalho, Raillane de Oliveira Marques

3. PROGRAMA COMUNIDADE DE PRÁTICAS EMANCIPATÓRIAS: CONSTRUINDO REDES DE


COLABORAÇÃO INTERSETORIAL E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL PELA PRÁXIS............................ 310
Diego Eugênio Roquette Godoy Almeida, Luciana Cordeiro, Éllen Cristina Ricci, Maria Victória Motta da Costa,
Gabriel Benaventana Santos, Roberta Borges Soares

4. MEDICINA VETERINÁRIA NA PROMOÇÃO DA SAÚDE ANIMAL E HUMANA EM COMUNIDADES


EM VULNERABILIDADE SOCIAL.................................................................................................... 325
Marlete Brum Cleff, Helena Piúma Gonçalves, Tábata Pereira Dias, Stefanie Bressan Waller, Cristiano Silva da
Rosa, Soliane Carra Perera
5. VENCENDO DESAFIOS E ULTRAPASSANDO PRECONCEITOS.................................................. 340
Rosangela Ferreira Rodrigues, Laura Beatriz Oliveira de Oliveira, Maria Gabriela Rheingantz, Anderson Ferreira
Rodrigues, Etyeni Abreu da Silva, Mônica Mendes Garcia

6. A REMIÇÃO PELA LEITURA: PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS NO PRESÍDIO REGIONAL DE


PELOTAS................................................................................................................................... 349
Nathaly Guatura da Silva, Luciana Iost Vinhas

7. ATIVIDADES EXTENSIONISTAS DESENVOLVIDAS PELO NEPERS/UFPEL NAS COOPERATIVAS


DE RECICLAGEM DE PELOTAS/RS................................................................................................. 359
Juliana Carriconde Hernandes, Pamela Lais Cabral Silva, Mateus Torres Nazari, Carolina da Silva Gonçalves,
Luciara Bilhalva Corrêa, Érico Kunde Corrêa

8. CIDADE E CIDADANIA: PROGRAMA DE INCENTIVO E ORGANIZAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO


POPULAR EM PLANEJAMENTO URBANO......................................................................................374
Sidney Gonçalves Vieira, Giovana Mendes de Oliveira

EDUCAÇÃO...................................................................................................388
1. A QUÍMICA VAI À ESCOLA E À COMUNIDADE: UM PROJETO VOLTADO À DIVULGAÇÃO
CIENTÍFICA NA UFPEL................................................................................................................... 389
Bruno dos Santos Pastoriza, Bruna Gabriele Eichholz Vieira, Roger Bruno de Mendonça

2. BRINCANDO DE FAZ-DE-CONTA: A EXPLORAÇÃO DE DISTINTAS PEDAGOGIAS TEATRAIS


NO TRABALHO DESENVOLVIDO COM CRIANÇAS DO INSTITUTO NOSSA SENHORA DA
CONCEIÇÃO.................................................................................................................................. 400
Marina de Oliveira, Karolina da Rosa Mendes, Luciane dos Santos Avila, Maiara da Silveira de Oliveira, Rafael de
Camargo Bueno, Wesley Fróis Aragão

3. VIVÊNCIAS TEATRAIS NA EMEF GETÚLIO VARGAS: A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA CRIANDO


POSSIBILIDADES NA ESCOLA....................................................................................................... 415
Vanessa Caldeira Leite, Andrisa Kemel Zanella, Maria Fernanda Botelho, Carla Silva Araújo, Naylson Rodrigues
Costa

4. MUSICALIZAÇÃO E INFÂNCIA: REFLEXÕES SOBRE A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE


MÚSICA A PARTIR DE PROJETOS DE EXTENSÃO.......................................................................... 432
Regiana Blank Wille, Camila Castro Barboza, Desirée Salles da Costa Gonçalves, Diocelena Miranda, Mileny
Jouglard Gomes

5. LEITURA, PRODUÇÃO TEXTUAL E GRAMÁTICA NA EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA.................... 446


Paula Fernanda Eick Cardoso

6. PROCESSOS DE IMPLEMENTAÇÃO E EXECUÇÃO DE PROJETOS DE EXTENSÃO: UM RELATO


SOBRE INICIAÇÃO AO HANDEBOL NA UFPEL............................................................................... 460
Rose Méri Santos da Silva, Ana Valéria Lima Reis, Felipe Gustavo Griep Bonow, Lara Vinholes, Mauricio Machado

7. JOGANDO PARA APRENDER..................................................................................................... 474


Eraldo dos Santos Pinheiro, Patrícia da Rosa Louzada da Silva, Franciéle da Silva Ribeiro, Felipe Fernando
Guimarães da Silva, Vivian Hernandez Botelho

8. PRODUÇÃO DE VÍDEO ESTUDANTIL: A HORA E A VEZ DO ALUNO.......................................... 483


Josias Pereira, Eliane Candido, Vania Dal Pont, Viviane Lino

9. A MATEMÁTICA ITINERANTE: UM PROJETO EM COMEMORAÇÃO AO BIÊNIO DA


MATEMÁTICA................................................................................................................................ 499
Luana Leal Alves, Letícia Klein Parnoff, Lisandra de Oliveira Sauer

10. ESCRITA CRIATIVA: UMA INTERVENÇÃO ANCORADA NA AUTORREGULAÇÃO DA


APRENDIZAGEM........................................................................................................................... 510
Bruna Moura da Silva, Annelise Costa de Jesus, Lourdes Maria Bragagnolo Frison, Ana Margarida da Veiga Simão
11. ENCONTROS SOBRE O PODER ESCOLAR: REFLEXÕES SOBRE UM PROJETO DE EXTENSÃO E
DE FORMAÇÃO CONTINUADA DE EDUCADORES......................................................................... 521
Lígia Cardoso Carlos, Dirlei de Azambuja Pereira

MEIO AMBIENTE........................................................................................... 533


1. ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO NO RURAL: A EXPERIÊNCIA DO LABORATÓRIO DE ESTUDOS
AGRÁRIOS E AMBIENTAIS – LEAA................................................................................................. 534
Renata Menasche, Giancarla Salamoni

2. INSETOS E SEMENTES: QUAL A RELAÇÃO?.............................................................................. 548


Vera Lucia Bobrowski, Beatriz Helena Gomes Rocha, Paulo Romeu Gonçalves, Gustavo Medina Tavares, Aldo
Girardi Pozzebon

3. SANEAMENTO BÁSICO: A UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS COMO SUPORTE TÉCNICO


AOS MUNICÍPIOS DA ZONA SUL................................................................................................... 562
Ana Luiza Bertani Dall’Agnol, Larissa Loebens, Diuliana Leandro, Maurizio Silveira Quadro, Andréa Souza Castro

4. PROPOSTA DE USO DE ENERGIA ALTERNATIVA PARA O PERÍMETRO DE IRRIGAÇÃO DO


ARROIO DURO............................................................................................................................... 574
Isabel Tourinho Salamoni, Gilson Simões Porciúncula, Vinicius Marins Cleff, Julye Moura Ramalho de Freitas

SAÚDE.......................................................................................................... 587
1. ATENÇÃO ODONTOLÓGICA MATERNO-INFANTIL: 20 ANOS REALIZANDO PRÉ-NATAL
ODONTOLÓGICO E EFETIVANDO A ATENÇÃO NOS MIL DIAS DA CRIANÇA................................. 588
Ana Regina Romano, Marta Silveira da Mota Krüger, Andréia Drawanz Hartwig, Thays Torres do Vale Oliveira,
Fernanda Geraldo Pappen

2. PROGRAMA DE PRIMEIROS SOCORROS ARTICULANDO RELAÇÕES DA UNIVERSIDADE COM A


COMUNIDADE............................................................................................................................... 606
Norlai Alves Azevedo, Celmira Lange, Eda Schwartz, Maurílio da Luz Rodrigues Fernandes, Guilherme Silveira
Onofre, Cristiana Escobar Bast

3. AÇÕES DE EXTENSÃO DA LIGA ACADÊMICA INTERDISCIPLINAR DE TOXICOLOGIA (LAITOX)..... 617


Giana de Paula Cognato, Taís da Silva Teixeira Rech, Francine Rodrigues Pedra, Bruna Voigt Rodrigues, Marina
Vieira Fouchy, Daniela de Bittencourt Maia

4. O INTERNATO DOS ALUNOS DE MEDICINA NA MATERNIDADE DO HOSPITAL SANTA CASA DE


MISERICÓRDIA DE PELOTAS E O SEU PAPEL SOCIAL................................................................... 629
Thales Moura de Assis, Alice Voese Damé, Anderson Mendes dos Santos, Celene Maria Longo da Silva, Scilla
Lazzarotto Correia Lima

5. DIÁLOGOS SOBRE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO EM APROXIMAÇÃO COM A COMUNIDADE


ESCOLAR DA VIZINHANÇA............................................................................................................ 641
Sônia Teresinha De Negri

6. TRATAMENTO E ACOMPANHAMENTO DE TRAUMATISMOS ALVÉOLO DENTÁRIOS: PROJETO


“CETAT”, 15 ANOS ASSISTINDO À COMUNIDADE DE PELOTAS E REGIÃO.................................... 651
Cristina Braga Xavier, Letícia Kirst Post, Luciane Geanini Pena dos Santos, Eduardo Luiz Barbin, Fábio Garcia
Lima, Josué Martos

7. COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA DE DOENÇAS CRÔNICAS E MULTIMORBIDADE: REFLEXÕES E


DESAFIOS...................................................................................................................................... 663
Natália Martins Flores, Micael Machado, Mariana Oliveira, Bruno Pereira Nunes
8. PET TERAPIA: INTERVENÇÕES ASSISTIDAS POR ANIMAIS COMO UM MÉTODO
COMPLEMENTAR NA EDUCAÇÃO E NA SAÚDE............................................................................. 674
Márcia de Oliveira Nobre, Camila Moura de Lima, Carolina da Fonseca Sapin, Débora Matilde de Almeida, Sabrina
de Oliveira Capella, Viviane Ribeiro Pereira

9. PROJETO DE EXTENSÃO PREVENÇÃO E PROMOÇÃO DA SAÚDE EM GRUPO DE GESTANTES E


PUÉRPERAS.................................................................................................................................. 690
Juliane Portella Ribeiro, Marilu Correa Soares, Luiza Rocha Braga, Karen Barcelos Lopes, Melissa Hartmann

10. PROJETO ACOLHENDO SORRISOS ESPECIAIS: FORMANDO PROFISSIONAIS COM BASES NO


ACOLHIMENTO E NA HUMANIZAÇÃO DA ATENÇÃO À SAÚDE DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA....... 700
Lisandrea Rocha Schardosim, Marina Sousa Azevedo, José Ricardo Sousa Costa, Gabriela Ibing Sberse, Andreia
Drawanz Hartwig, Natália Marcumini Pola

11. PROJETO DE EXTENSÃO ENDO Z DA FACULDADE DE ODONTOLOGIA DA UNIVERSIDADE


FEDERAL DE PELOTAS...................................................................................................................711
Ezilmara Leonor Rolim de Sousa, Jeniffer Lambrecht, Larissa Moreira Pinto, Luiz Antônio Soares Falson

12. PROMOÇÃO DE SAÚDE NA INFÂNCIA COMO META ORIENTADORA DOS PROJETOS DE


EXTENSÃO DESENVOLVIDOS NA ÁREA DE ORTODONTIA NA UFPEL DE 2015 ATÉ 2018.............. 726
Douver Michelon, Catiara Terra da Costa, Marcos Antônio Pacce, Vanessa Polina Pereira da Costa

13. PROJETO DE EXTENSÃO IMPLANTODONTIA PARA ACADÊMICOS DE ODONTOLOGIA:


O ATENDIMENTO DA COMUNIDADE EM CONJUNTO COM A FORMAÇÃO DOS ALUNOS............. 742
Mateus Bertolini Fernandes dos Santos, César Dalmolin Bergoli, Mateus de Azevedo Kinalski, Cristina Pereira Isolan

TECNOLOGIA E PRODUÇÃO......................................................................... 755


1. PROJETO DE DESENVOLVIMENTO DA BOVINOCULTURA LEITEIRA DO RIO GRANDE DO SUL,
ENFOCANDO AÇÕES DE BOAS PRÁTICAS AGROPECUÁRIAS . ..................................................... 756
Helenice Gonzalez de Lima, Natacha Deboni Cereser, Fernanda de Rezende Pinto, Cláudio Dias Timm, Patrícia da
Silva Nascente, Flávia Fontana Fernandes

2. ATIVIDADES LÚDICAS NO ENSINO DE SOLOS E NO DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES....... 767


Luis Eduardo Akiyoshi Sanches Suzuki, Luciana da Silva Corrêa Lima, Gilberto Strieder, William Roger da Silva
Almeida, Rodrigo de Lima do Amaral, Mariana Fernandes Ramos

3. MEDIAÇÃO DE CONHECIMENTOS DE QUÍMICA ASSOCIADOS AO COTIDIANO ATRAVÉS DAS


AÇÕES DE EXTENSÃO DO PROJETO TRANSFERE......................................................................... 781
Aline Joana Rolina Wohlmuth Alves dos Santos, Fábio André Sangiogo, Charlene Barbosa de Paula, Leandro
Lampe, Letícia Leal Moreira, Vitória Schiavon da Silva

4. CURSO TEÓRICO-PRÁTICO DE PROCESSAMENTO DE SÊMEN E INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL EM


AVES – 10 ANOS DE HISTÓRIA....................................................................................................... 797
Denise Calisto Bongalhardo, Carolina Oreques de Oliveira, Tiago Araújo Rodrigues

5. EXPERIÊNCIAS DO PROJETO CAPACITAÇÃO TECNOLÓGICA DE PEQUENOS AGRICULTORES


PARA A AGROINDUSTRIALIZAÇÃO DE FRUTAS E HORTALIÇAS................................................... 810
Carla Rosane Barboza Mendonça, Caroline Dellinghausen Borges, Paulo Renato Buchweitz, Rui Carlos Zambiazi

6. LINSE | UFPEL – LABORATÓRIO DE INSPEÇÃO DE EFICIÊNCIA ENERGÉTICA EM EDIFICAÇÕES,


UMA DÉCADA PROMOVENDO EFICIÊNCIA ENERGÉTICA NO PAÍS............................................... 823
Juliana Al-Alam Pouey, Antonio César Silveira Baptista da Silva, Fábio Kellermann Schramm, Eduardo Grala da
Cunha, Liader da Silva Oliveira, Antônio Carlos de Freitas Cleff

7. MURAL G BIOTEC: 10 ANOS....................................................................................................... 835


Luciana Bicca Dode, Ana Lucia Soares Chaves
APRESENTAÇÃO

Muito me orgulha ter a oportunidade de redigir a apresentação de uma obra


tão importante para a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e para a Extensão
Universitária no Brasil. Muito antes de ser Reitor de uma Universidade Federal, sou
professor universitário, sou um acadêmico. Mesmo que, ao longo da minha traje-
tória acadêmica, eu tenha navegado mais frequentemente pelas águas da pesqui-
sa, tenho o privilégio de atuar na Escola Superior de Educação Física, uma unidade
acadêmica na qual a extensão sempre representou parte essencial da formação
dos estudantes, desde os meus tempos como aluno de graduação.

Dividida elegantemente em três partes, a publicação começa oferecendo ao


leitor a oportunidade de conhecer fragmentos de 50 anos de história da extensão
na UFPel, além de abordar o desafio da formação em extensão, uma pauta que ja-
mais foi tão relevante quanto atualmente, com a necessidade de curricularização
da extensão. Em seguida, de forma suave, a obra viaja para os projetos estratégi-
cos de extensão da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PREC) da UFPel, oportu-
nizando ao leitor compreender como uma Universidade pode estrategicamente
interagir, dialogicamente, com a comunidade. Para fechar, com chave de ouro, é
apresentada uma ampla, diversa e qualificada degustação dos projetos de exten-
são desenvolvidos por nossos servidores e estudantes.

Como bem dizem as autoras, a obra não pretende esgotar uma história de 50
anos da extensão na UFPel. Ao contrário, a publicação pretende estimular que
fragmentos dessa história sejam apresentados em outras obras, de forma que a
comunidade possa, cada vez mais, ter acesso à extensão universitária. Por fim,
ao desejar uma ótima leitura a todos, sugiro que, ao longo dessa jornada literária,
os leitores tentem, continuamente, imaginar como sobreviveria (ou SE sobrevive-
ria!!!) a Universidade pública e gratuita no Brasil, sem a extensão.

Pedro C Hallal
Reitor da Universidade Federal de Pelotas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL 12


INTRODUÇÃO:
O QUE FICOU DE 50 ANOS;
O QUE FICARÁ PARA OS PRÓXIMOS

Há quanto tempo somos o que dizemos ser? Desde quando fazemos igual ou
diferente aquilo que antes era feito? E em que momento nos tornamos agentes do
futuro, como foram os que nos antecederam?
Não temos qualquer esperança de que este livro venha a contar a história da Ex-
tensão na UFPel. O que há aqui não é tudo o que ficou deste meio século. No máxi-
mo, uma amostragem sem teste porque essa é uma história que se fosse contada,
seria exaustiva e sem um motivo muito estrito para ser feita seria, também, inútil.
O que queríamos para o futuro era um livro que tivesse sido escrito por muitos. É
assim que ele é. O que segue é como e porque ele foi escrito.

Este livro decorre da ação conjunta da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura


(PREC) com o Núcleo de Editora e Livraria da UFPel (NELU). Esses dois setores
estiveram por quase 30 anos vinculados e, ainda que há alguns anos separados,
continuam, como demonstra este livro - fruto de uma entre várias parcerias -, a
atuar em convergência. A Rádio, anterior à Editora, também surgiu na Extensão.
Administrativamente, distanciaram-se, estando cada um em uma parte distinta
do organograma da Universidade. No entanto, tanto a Rádio quanto a Editora
cumprem uma das funções extensionistas da administração: a de promover a di-
fusão do conhecimento, sob suas diferentes e possíveis formas. Assim, seu reen-
contro com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura é consequência natural da origem
de suas missões.
No que diz respeito a esta publicação, a celebração do cinquentenário da UFPel
oportunizou a mirada interrogativa para trás e a vontade de organizar os docu-
mentos que foram gerados pela própria Instituição e neles buscar os indícios de
uma trajetória na qual flutuam alguns fatos que sugerem explicações de como
houve momentos de crescimento e ampliação e outros nos quais a instituição
pareceu estar em estado de latência. E o quê, de cada momento vencido, restou
como herança para o futuro.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL 13


Ao mesmo tempo, o presente se impõe. Portanto, o livro tem três partes: a pri-
meira na qual há o capítulo que registra o levantamento de fatos sobre a extensão
nos documentos oficiais e que buscou cumprir com o propósito de apresentar uma
cronologia de fatos selecionados dos referidos documentos, que foram sendo vin-
culados a acontecimentos nacionais. A sequência linear destacou os movimentos
das atividades de extensão, que estavam organizadas em programas que antece-
deram, inclusive, o surgimento da UFPel. Como os documentos, mesmo quando
retrospectivos, discursam sobre o seu presente a partir de determinada leitura do
passado que os antecedeu, o que nos leva a entender como a instituição foi se
enunciando no cenário nacional, a partir desse próprio. Não é um capítulo históri-
co, efetivamente, embora as fontes o sejam.
Em seguida, há uma segunda parte que registra os projetos estratégicos mais
antigos da UFPel e os mais recentes com resultados efetivos, que são vinculados
à Pró-Reitoria de Extensão, bem como um texto sobre a formação em extensão e
processo de integralização dessa aos currículos de graduação.
Na terceira parte, estão os demais capítulos advindos de um Edital conjunto
da PREC com o NELU que lançou chamada para a submissão de textos relativos a
programas e projetos de extensão, concluídos ou em andamento que refletissem
sobre ou ilustrassem o impacto da extensão desta Universidade na sociedade. Fo-
ram submetidos 62 textos, apreciados por 55 pareceristas, alguns dos quais ava-
liaram mais de um texto em sistema blind review. Nessa etapa, o trabalho contou
com parte da equipe da PREC para a organização dos fluxos de envio. Com cola-
boradores, foi possível proceder às revisões e ao trabalho de produção gráfica do
livro digital. O aspecto mais valorizado pelos pareceristas foi o impacto social da
ação, determinante para a aprovação do texto. Os pareceres foram atendidos pe-
los autores e os textos seguiram o processo de editoração, compondo os demais
55 capítulos do livro. Ainda que o processo de verificação, avaliação e editoração
tenha, de algum modo, formatado os textos, a diversidade se impôs e se alguma
conclusão se deseja retirar do fato, que seja a de que a Extensão transcende suas
aparentes possibilidades. Os contornos que se apresentavam definidos, diluem-se
nas amplas, às vezes imprevisíveis possibilidades que esta dimensão permite, o
que não se configura como uma fragilidade, e sim, como valor desejável.
Na diversidade do conjunto dos 55 textos que, ao fim do processo já descrito,
formam a terceira parte do livro, alguns aspectos interessantes se sobressaíram: fo-
ram, ao todo, 204 autores, já que a maioria dos capítulos foram assinados em con-
junto. Entre eles há servidores técnicos, estudantes de graduação e pós-graduação
e pessoas externas à UFPel. A maioria são mulheres: 153 autoras. Também, a maio-
ria dos projetos estão ativos e estão articulados ao ensino e/ou à pesquisa. Muitas
leituras podem ser feitas com esses dados. Deixamos que os leitores as façam.
Ainda sobre a terceira parte, optamos por uma organização dos textos dentre
muitas que poderiam ter sido empregadas: foram agrupados a partir das oito áre-
as temáticas da Extensão. Ressaltamos que não correspondem, integralmente, às
áreas nas quais os projetos referidos pelo texto foram inscritos, no momento do
seu cadastro. A maioria dos projetos, pela sua condição interdisciplinar e, não raro,
interprofissional, acaba atuando com ações que dizem respeito a mais de uma
área. O que fizemos foi evidenciar uma das áreas que sugeria estar primeiramente
contemplada no texto. Primeiramente, não exclusivamente ou especialmente. No
entanto, sabemos que é uma organização superficial, que não dá conta da ampli-
tude de objetivos, metas e resultados que um projeto compatível com as diretrizes
da Extensão contemporânea, pode apresentar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL 14


O livro apresenta, portanto, o quadro geral dos extensionistas que atenderam o
Edital. Não é um registro total da Extensão na UFPel, nem a de hoje, tampouco so-
bre o que já foi feito. No entanto, como organizadoras do livro ficamos felizes com
o resultado. São, os que aqui constam, projetos fortes, animados e animadores.
Que sirvam de exemplo do quê, como comunidade acadêmica, somos capazes de
propor a partir das nossas áreas de conhecimentos, e de que forma nossas ações
reverberam na comunidade em que se insere nossa Universidade.
Que sirvam, sobretudo, de inspiração, porque dela precisamos para pensar o
futuro a partir do nosso presente, por vezes, intraduzível, indevido e inacreditável.

Francisca Ferreira Michelon


Pró-Reitora de Extensão e Cultura da UFPel

Ana da Rosa Bandeira


Chefe do Núcleo de Editora e Livraria da UFPel

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL 15


Parte I

P A R T E I
A EXTENSÃO NA UNIVERSIDADE
FEDERAL DE PELOTAS:
RETROSPECTO

Francisca Ferreira Michelon

Introdução
A palavra Retrospecto, usada para definir o objetivo deste capítulo, não condiz,
de fato, com o que se apresenta. Seu uso, aqui, é uma referência à publicação que
na sua forma técnica acabou inspirando uma direção para o levantamento de da-
dos e datas que constitui, em essência, o conteúdo das linhas que se seguem.
“Retrospecto (1969-1979)” é o subtítulo do impresso intitulado “O desenvolvi-
mento da UFPel”, publicado pela Assessoria de Planejamento em julho de 1980.
Há outro subtítulo: “Projeção (1980/1985)”. Confesso que dentre as fontes pesqui-
sadas esta foi a mais motivadora para dar início à observação de como os gesto-
res da época leram o que lhes era, então, já passado. E como, fundados por esta
leitura, expressaram um sentimento de vaidade por uma década de existência e,
a partir de suas expectativas, projetaram um futuro acadêmico que lhes pareceria
o mais certo. A experiência vivida já havia gerado um capital administrativo que
corroborava certa listagem de avanços lançados na história como sementes de
resultados possíveis.
No entanto, a universidade, seja ela qual for, é filha do seu tempo.
Os documentos confirmam a ideia de que não houve extensão universitária (su-
pomos que assim seja quanto ao restante) fora de um conceito, de uma prática e
de um conjunto de determinações orquestradas no horizonte das políticas nacio-
nais. Contudo, mesmo quando as determinações foram rígidas, o imprevisto teve
lugar.
Hoje, quando nos deparamos com os documentos do passado, acabamos por
considerá-los parte importante da trajetória que gostaríamos de ver esclarecida.
Também precisamos de um futuro, e se o projetarmos, com o entendimento ge-
rado na visão dessa trajetória, talvez o façamos mais conscientes de que os princí-
pios que fomentaram as iniciativas que nos antecederam já se transformaram ou
se extinguiram. Quem sabe, seremos mais analíticos, observadores e, consequen-
temente, mais cautelosos quanto ao que se deva buscar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 17


Quatro décadas se passaram do momento daquela publicação primeiramente
citada. O que era projeção foi implantado, modificado ou abandonado. Mudanças
ocorreram, parte delas, profundas. Algumas, antes inimagináveis, estão ocorren-
do. Às vezes, tais mudanças parecem os aros de uma espiral que nos levam de
volta ao que considerávamos superado. Pode ser que estejamos vivendo uma pa-
ramnésia histórica.
Assim, o retrospecto que se pretende neste capítulo não estabelece uma tese a
ser verificada. O texto se abstém da análise, das elações e críticas e oferece, como
resultado do esforço de busca nos documentos existentes, uma linha cronológica
de fatos, apenas relacionando-os. Talvez, antes da Extensão administrativa com-
pletar os seus cinquenta anos, se possa avançar no aprofundamento dos aspectos
que foram levantados.
É importante destacar que há um tempo a extensão universitária vem sendo
objeto de trabalhos acadêmicos, com temáticas e recortes temporais específicos.
São visões construídas a partir da área de conhecimento, na qual foram desen-
volvidas e apresentam revisão bibliográfica, metodologias específicas e contribui-
ções dirigidas à compreensão de aspectos ou períodos determinados da extensão.
Destacamos, na sequência, alguns ordenados pelo ano de defesa, cujo tema é a
extensão na UFPel.
A dissertação de Silva (2012), realizada no Programa de Ciências Políticas da
UCPel, desenvolveu estudo de caso sobre os projetos cadastrados na UFPel entre
2009 e 2011, que contemplaram Direitos Humanos e Cidadania. Para analisar o
seu objeto, contextualizou a extensão universitária em item específico, no qual
desenvolveu uma revisão detalhada do papel dos estudantes e, depois, da União
Nacional dos Estudantes na promoção de ações extensionistas e na construção do
conceito (p. 51-54).
Neste presente estudo, o tema do movimento estudantil como um vetor essen-
cial na promoção da extensão não será tratado, em face do recorte temporal feito.
No entanto, indica-se a leitura dessa dissertação, bem como dos referenciais teó-
ricos empregados pela autora. Será retomado, adiante, a trajetória do Programa
de Extensão (PROEXT/MEC) feita pela autora (p. 93-100). No trecho referido, Silva
organiza quantitativos que permitem observar a curta, mas, na ocasião, esperan-
çosa trajetória desse programa de apoio à Extensão Universitária.
A dissertação de Schellin (2013), desenvolvida no Programa de Pós-Graduação
em Educação Física da UFPEL, objetivou diagnosticar e analisar o quanto a ex-
tensão participa e contribui para a formação de professores de Educação Física. A
delimitação do objeto é bastante específica em relação à linha de pesquisa do Pro-
grama, no entanto, a autora também aborda o conceito de extensão e apresenta
elementos que contextualizam a sua trajetória no panorama nacional.
Wociechoski (2016) desenvolveu sua dissertação no Programa de Pós-Gradua-
ção em Desenvolvimento Territorial e Sistemas Agroindustriais da UFPel, intersec-
cionando os conceitos de extensão universitária e de desenvolvimento, vigentes
nessa Universidade, com base no estudo de uma amostragem tirada do total de
projetos cadastrados no Sistema de Extensão da Pró-Reitoria de Extensão e Cultu-
ra da UFPel, no ano de 2015, com temática sobre o meio rural. Com foco bastante
específico, o trabalho conta com uma revisão detalhada do conceito de extensão
universitária no Brasil.
A dissertação de Rocha (2018), realizada no Programa de Pós-Graduação em
História da UFPel, apresenta uma análise da extensão nessa Universidade do perí-
odo que se estende de 1969 a 1992, momento em que a Pró-Reitoria de Extensão

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 18


incorpora a Cultura. A autora foca o conteúdo na visão dos sucessivos administra-
dores, trazendo à luz do estudo o papel que essa dimensão exerceu na aproxima-
ção do ensino e da pesquisa e nos processos dialógicos que se estabeleceram com
a comunidade. Além das fontes orais, recorreu a documentos impressos e outros,
disponíveis na internet. Recomendamos a leitura, sobretudo, do levantamento re-
alizado sobre o CRUTAC e Cetreisul, que viremos a citar na sequência.
Não realizamos uma busca completa em resumos, resumos expandidos e tra-
balhos publicados em atas de eventos, nem mesmo em periódicos da área. Não foi
nossa pretensão realizar um levantamento exaustivo. Na verdade, consideramos
que seja um estudo geral. Para tanto, as fontes principais foram os documentos
gerados pela própria instituição, que registraram os fatos e dados oficialmente.
Desse modo, o levantamento é cronológico e de imediato se percebe que há
lacunas, advindas tanto dos documentos que foram perdidos como daqueles que
não foram gerados.
Entendemos que as lacunas fazem parte da trajetória: há gestões mais ou me-
nos preocupadas com os registros. Há momentos em que os registros são desejá-
veis, exigidos ou necessários. Em outros, não.
O cerne deste capítulo é, a partir dos documentos encontrados, relacionar o
que acontecia na UFPel com o que se desenhava no panorama nacional. E, assim,
contribuir para o entendimento do quanto foi particular ou geral, conforme a oca-
sião, o tratamento dado pelas administrações da UFPel à extensão universitária.
Fazemos votos de que tal entendimento possa contribuir para traçar a personali-
dade que esta dimensão adquiriu ao longo da sua trajetória, nesta Universidade.
O método utilizado foi, partindo do conteúdo dos documentos institucionais,
relacioná-los com os traços gerais da extensão no país, em publicações acadêmi-
cas ou oficiais e os intercalamos com as ocorrências administrativas da Universi-
dade. Faltam fontes para ambos os lados. Mas o retrospecto é assim mesmo, uma
narrativa nem sempre contínua, menos ainda, completa.
Este capítulo é dividido em duas partes: a primeira, que se estende do ano de
1977 até 1996 e cujos marcos são a implantação da Pró-Reitoria de Extensão e a
publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1996. Como a extensão
já era praticada na UFPel, antes do surgimento do setor administrativo e como o
fato anela-se a outros que formam a trajetória das reformas do ensino superior
no Brasil, optou-se por uma retrospectiva dos oito anos que antecedem à data
de implantação da PREC. Por outro lado, entende-se que os dezenove anos que
totalizam esse recorte temporal encerra-se com a promulgação da Lei 9394, em
dezembro de 1996, cujo texto estabelece as diretrizes e bases da educação nacio-
nal, intervindo diretamente em questões de extensão.
A segunda parte, que inicia em 1996, retoma o surgimento e a atuação do For-
proex, em meados dos anos de 1980 e com isso, ressalta os primórdios de uma
política nacional de extensão que se constrói em um cenário que passa pelo Pro-
grama de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Fede-
rais (Reuni), o qual durou de 2007 a 2012, observando as principais ocorrências que
fizeram consolidar o conceito de extensão universitária, como o fortalecimento da
cultura e a expectativa do financiamento das atividades de extensão para então,
rapidamente, chegar na ação que busca institucionalizar a extensão como dimen-
são obrigatória na formação de todos os alunos, por ora chamada de curriculariza-
ção da extensão nos cursos de graduação.
Não seria possível concluir este capítulo de outro modo. O presente se impõe.
O livro que se apresenta foi concluído em pleno momento da Pandemia da doença

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 19


denominada Covid-19. Não mencioná-la seria negar o princípio absurdamente ób-
vio e, ainda assim, facilmente esquecido, de que a função precípua da nossa uni-
versidade pública não é gerar conhecimento e fazer descobertas, mas gerá-los e
fazê-las de modo que possam servir para mudar o que está dado no amplo leque
de injustiças que marca a sociedade do nosso país. E se não for possível mudar, ao
menos abrandar a realidade.
E é assim que iniciamos.

1. O surgimento da Pró-Reitoria de Extensão na


UFPel e o contexto da primeira fase de sua atuação
(1977 a 1996)
Para o desenvolvimento deste item, os documentos gerados pela UFPel e em-
pregados no levantamento foram: o já citado relatório “O desenvolvimento da
UFPel”, publicado quando a Universidade completou onze anos, porque apresenta
dados, comparativos, ou não, com os anos anteriores e que indicavam o cresci-
mento físico e acadêmico da instituição em uma década. É deste documento que
foram retirados os dados arrolados no presente item até a implantação da Pró-
-Reitoria de Extensão. As outras fontes que serão usadas são: “Proposta de Nova
Estrutura Organizacional” (1986), “Anuário Estatístico” (1996, 1996 e 1999), “Pro-
grama de Modernização da Infra-Estrutura Acadêmica das IFES” (1977), “Relatório
da UFPel” (1977) e “Anuário Retrospectivo v.3” (1989-1996), além dos Relatórios
da Pró-Reitoria de Extensão que trazem dados do período, inclusive o “Regimento
dos Órgãos de Extensão” (1988) e o “Catálogo de Extensão” (1996).

1.1 O surgimento da Pró-Reitoria de Extensão na UFPel


Inserida nesse panorama, a extensão, tal como era entendida à época, já existia
na forma de cursos, assistência e prestação de serviços nas unidades que constitu-
íram a UFPel e foram incorporadas pela nova estrutura. No entanto, o Estatuto que
instituiu as Pró-Reitorias e, desse modo, institucionalizou administrativamente a
extensão, data de 22 de abril de 1977.
Não se tratou de uma ação isolada e, sim, decorrência da posta em marcha de-
terminada pela Lei 6.420 de 1977 que revogou vários artigos da Lei 5.540 de 1968. A
Lei de 1968 ditou a primeira Reforma Universitária, que estabeleceu como deveria
ser o ensino superior no Brasil. Devido a esta, surgiram mais instituições federais,
sendo que em 1977 já havia 48 universidades federais no Brasil (BRASIL, 1978).
É notório como o estudo que o consultor estado-unidense Rudolph Philippi At-
con publicou em 1966, pela Diretoria do Ensino Superior do MEC, aparece como
parte da base desta reforma. O estudo, realizado do mês de junho a setembro de
1965 e publicado no ano seguinte, contém a proposta de reformulação estrutu-
ral da universidade brasileira. Com larga experiência na avaliação e formulação de
propostas para universidades latino-americanas, no Brasil ele tornou-se referência
ao assessorar Anísio Teixeira na proposta de constituição da CAPES. Nos meses
em que esteve a serviço do MEC, visitou 12 universidades (três no Rio Grande do
Sul: UFRGS, PUCRS e UFSM). Propôs uma reforma administrativa fundada em um
organograma definido em seis níveis, dos quais o último indicava que haveria “7
unidades administrativas em número variável para cada universidade” (ATCON, p.
84). Já estava, deste modo, induzido o surgimento das Pró-Reitorias.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 20


No documento, Atcon estabelece qual deve ser a missão e os objetivos da uni-
versidade, definindo-a como “[...] a legítima formadora do pensamento da co-
munidade no espiritual, moral, intelectual, social e econômico. Deste modo, é a
modeladora do porvir da sociedade [...]”(idem, p.8). Entendida assim como uma
instituição absoluta, estabeleceu quatro macro-objetivos que ela deveria cumprir,
dos quais destacamos o segundo: “Promover contatos estreitos com a comunida-
de, para servir às instituições espirituais, sociais, artísticas, econômicas, científicas
e industriais” (idem, ibdem). E daí, estabeleceu aqueles que deveriam ser os sete
objetivos de todas as suas atividades (diga-se: toda e qualquer), dos quais repe-
timos o sexto: “Extensão universitária em todos os níveis e através de múltiplas
atividades, culturais e científicas” (idem, p. 10).
A análise que Atcon faz das universidades visitadas (admitiu, em documento,
que só visitou um terço do total de universidades no país) pauta-se sobre a obser-
vação dos princípios que estabeleceu e que fundamentam o diagnóstico realizado.
Para ele, estava claro que a universidade era um instrumento fundamental para
o necessário e urgente avanço econômico e social porque, conforme suas pala-
vras: “Uma região que apresenta um índice de graduação universitária da ordem
de menos de quatro por dez mil da sua população, não pode progredir” (idem, p.
10). Estava, igualmente, convencido de que é “[...] o produto humano e não o pro-
duto material o que finalmente decidirá entre o desenvolvimento e a estagnação”
(idem, p. 11) e, por isso, imputa à falta de planejamento consciente e apropriado,
o fracasso das universidades no cumprimento do seu dever para com a socieda-
de. Esse dever ele expressa no primeiro item da conclusão que intitula Serviço à
Comunidade:
Em todas as universidades visitadas, encontrei, sem exceção, a plena
consciência de que a Universidade Brasileira não pode mais ficar à mar-
gem dos acontecimentos sociais. Hoje já é um ponto pacífico com todas
as autoridades universitárias, de que a Universidade tem obrigação de
estar atenta às necessidades da Nação e ao serviço sócio-econômico de
sua comunidade. (ATCON, 1966, p.77)

O texto de Atcon (1966) também parece ter influenciado a reorganização admi-


nistrativa do MEC a partir do que ele dita como necessária “reorientação mental
dos Órgãos Centrais do Poder Executivo para que possam servir, com maior efi-
ciência, ao maior número de pessoas e problemas” (p. 97). Embora não esteja no
escopo deste capítulo abordar a análise crítica que o consultor faz da Seção de
Educação da SUDENE dirigida ao ensino superior (p. 98-109), incluindo nessa os
três grandes projetos que tiveram algum apoio da autarquia, faz-se importante
citá-la porque o momento que é analisado por Atcon é aquele no qual a SUDENE
já havia sido incorporada ao novo Ministério do Interior (em 1964) e, portanto, já
havia perdido sua autonomia e seus recursos. Celso Furtado não respondia mais
pelo órgão e rapidamente os objetivos iniciais se perderam. Citar a análise de At-
con sobre a SUDENE traz à luz que a Reforma é resultado de muitas ideias e for-
ças, nem todas convergentes. O texto da Lei de 1968 evidencia muitas influências,
inclusive o estudo feito pelo consultor no surgimento de setores, mas as análises
mais contundentes por ele desenvolvidas, foram minimizadas ou adaptadas pelo
GT instituído pelo MEC. Um estudo mais detalhado sobre o impacto das ideias de
Atcon na primeira política pública de extensão expressada no Plano de Trabalho
de Extensão Universitária produzido pelo MEC em 1975 encontra-se no trabalho
de Nogueira (2005).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 21


O Decreto presidencial no 62.937 de 2 de julho de 1968, institui o grupo de traba-
lho responsável pela Reforma Universitária. O Art. 1o definia que seriam 11 mem-
bros a compor o grupo e, o Art. 2o, que a presidência ficaria com o Ministro da
Educação. Ainda, de acordo com o texto do Decreto, o prazo era de 30 dias, con-
siderado suficiente, haja vista que o objetivo do trabalho era acelerar a reforma.
A trajetória desta Reforma já foi objeto de estudo de muitos autores (FREITAG,
1986; GERMANO, 1994; NORONHA, 1998; NOGUEIRA, 1999; MENDES, 2000; SA-
VIANI, 2001; entre tantos outros). Para muitos deles, o resultado foi uma lei que
refletia a proposta de Darcy Ribeiro para a Universidade de Brasília, mediada pelo
modelo americano das research universities e gerenciada sob os controles repressi-
vos do governo militar, ou seja, um corpo formado por paradoxos.
A UFPel, como outras, surge no centro desses conflitos profundos e sutis, res-
pondendo, na sua existência imediata, à pressão pelo aumento no número de
vagas e, nos anos subsequentes, pelo aumento na oferta de cursos. No entanto,
naquilo que tange à extensão, a Reforma foi decisiva, tal como está dito no Docu-
mento da UNESCO/IESALC (2002):
foi somente com a promulgação da Reforma do Ensino Superior (Lei nº
5.540), em 1968, que as atividades de ensino, pesquisa e extensão pas-
saram a ter caráter indissolúvel nas universidades brasileiras, as quais,
desde então, passaram a promover práticas extensionistas. (p. 307)

E é por isso que nos detemos neste período.


Desse período, um fato único foi a formação da Coordenação de Atividades de
Extensão (CODAE). Roberto Mauro Gurgel Rocha, autor do capítulo “A trajetória
da Extensão Universitária no Brasil” na publicação do MEC/SESU [1994], observou
que foi a Comissão Mista MEC e MINTER, criada em 1974, que propôs a CODAE e
a partir dela:
O MEC passa a assumir uma posição de articulação geral das experiên-
cias desenvolvidas no campo da extensão, definindo políticas e estabe-
lecendo em 1975, um Plano de Trabalho da Extensão Universitária. O re-
ferido Plano, tomando por base legal a Lei no 5540 — a Lei da Reforma
Universitária, de 1968, — procurou ampliar os espaços criados pela citada
Lei e estabeleceu limites mais claros em relação a extensão. (MEC/SESU,
1994, p. 6)

Foi este o evento que induziu as instituições a estruturar mecanismos coordena-


dores da extensão, Pró-Reitorias, Decanatos, Coordenações ou Departamentos. A
CODAE foi extinta em 1979, mas, mesmo tendo durado pouco, foi decisiva para
fazer da extensão uma função da universidade. A vitalidade dessa Coordenação
é indicada no Relatório Anual do MEC (1978), no capítulo dedicado a essa, e que
registra
Como resultado positivo da atuação da CODAE/DAU no período 75/78
junto aos estabelecimentos de ensino superior participantes do Progra-
ma de lntegração das Universidades nas Comunidades, pode-se apon-
tar a abertura operacional dos estabelecimentos para as comunidades,
a concretização de diferentes propostas com relação ao ensino teórico/
prático, ao ensino/pesquisa, à prestação de serviços e à participação dos
departamentos acadêmicos em projetos comunitários, envolvendo po-
pulações, empresas públicas e privadas, governo, instituições e órgãos
de desenvolvimento. (p. 132)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 22


E ainda, no mesmo ano, no Relatório Anual do Departamento de Assuntos Uni-
versitários do MEC (1978), no qual cada coordenação expunha os objetivos do seu
âmbito além da descrição das realizações, a CODAE registra entre as suas prin-
cipais atividades, o projeto prioritário “Integração das Universidades nas Comu-
nidades”, incluído no Plano Setorial de Educação e Cultura. (1978, p. 65). Com os
recursos deste projeto foram realizadas, nos dois primeiros anos, entre outras me-
tas, a implantação de novos CRUCACs, a realização de estágio de campo para trei-
namento interprofissional de estudantes, o intercâmbio de experiências entre os
CRUTACs e treinamento de docentes participantes, a integração das Universida-
des nas Comunidades Rurais, Urbanas e na Amazônia, a intensificação de cursos,
serviços e atividades artísticas e culturais (idem, p. 66). Essas duas últimas metas
foram suprimidas no ano de 1978 (idem, p. 67).
Assim como ocorreu no MEC, a reestruturação administrativa também acabou
acontecendo nas universidades. Em 1975, essa, foi anunciada na UFPel vindo a
ocorrer em 1976. Em 1977, são nomeados os pró-reitores1, com base na homolo-
gação pelo Ministro da Educação das alterações estatutárias e regimentais apro-
vadas pelo Conselho Federal de Educação que estabeleciam a meta de preenchi-
mento dos cargos de Direção e Assessoramentos Superiores. As atribuições do
Pró-Reitor estavam previstas no Artigo 67 do Regimento Geral da Universidade e a
Pró-Reitoria de Extensão (PRExt) já surgia com os seguintes órgãos subordinados
a ela: 1) Centro de Treinamento do Sul (Cetreisul); 2) Museu; 3) Coral da Universi-
dade; 4) Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária (CRUTAC),
5) Teatro Universitário e 6) Colônia de Férias. Ainda no mesmo ano, foi incluído
o Campus Avançado de Cáceres e o Centro de Difusão Educativa2, na relação de
órgãos subordinados à PRExt.
Então, no mês de dezembro houve a primeira troca nas pró-reitorias e José Pas-
sos de Magalhães assume no lugar de Laudo Nunes3.
Muitos dados do “O Desenvolvimento da UFPel” referem-se ao ano anterior à
sua escritura. Assim, em 1979, consta que 11% das atividades dos Departamentos
eram de Extensão, menor ainda que as de Administração (12%). Ensino ocupava
63% das atividades e Pesquisa, 14%.

1.2. O contexto da primeira fase de atuação (1977 a


1996)
1.2.1 A década de 1970
No ano em que é escrito o “Retrospecto”, 1980, a Universidade contava com
quatorze unidades acadêmicas (cinco institutos e nove faculdades e escolas), além
dos três órgãos de ensino médio (na época, chamados de segundo grau). Havia
dezoito órgãos suplementares, a maioria, hoje inexistentes e, dos existentes, al-
guns são aqueles que se mantiveram como modificações dos originais. Havia as
quatro Pró-Reitorias: Administrativa; Pós-Graduação e Pesquisa (nesta ordem);
1 Portaria do Gabinete do Reitor no 159, de 20 de abril de 1977, designando Laudo Azambuja Nunes,
Pró-Reitor de Extensão.
2 Portarias do Gabinete do Reitor no 176 e 177, de 25 de abril de 1977.
3 Portaria do Gabinete do Reitor no 693, de 29 de dezembro de 1977. Designa Laudo Azambuja Nunes
como Chefe de Gabinete da Reitoria e o exonera do Cargo de Pró-Reitor de Extensão. Portaria do Gabinete do
Reitor no 708 de 30 de dezembro de 1977. Designa José Passos de Magalhães Pró-Reitor de Extensão retroa-
tivo a 28 de dezembro.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 23


Graduação e Assistência e a de Extensão (a Cultura só seria anexada à Extensão
mais de uma década após). Somando todos os departamentos das unidades aca-
dêmicas, havia 574, mais um do Conservatório de Música, unidade que ainda se
mantinha como agregada à UFPel.
As matrículas nos cursos de Graduação (20 cursos), Pós-Graduação (17 entre
mestrado, especialização e residência médica) e segundo grau (3 cursos técnicos)
somavam em torno de cinco mil alunos, contra os dois mil alunos ingressados no
primeiro ano de funcionamento da Universidade, nos 10 cursos então oferecidos.
Essas vagas estavam ocupadas, na proporção de 66% do total, por alunos dos mu-
nicípios do sul do Rio Grande do Sul. Portanto, a UFPel era uma instituição nota-
damente de abrangência regional, mesmo considerando que havia estudantes de
outros países.
Dois indicadores de crescimento foram usados nesse Relatório, ambos refe-
rentes aos cursos de graduação: a oferta e a demanda de vagas (UFPEL, 1980,
p. 24). No primeiro vestibular, no ano de 1970, foram oferecidas 654 vagas, cuja
disputa registrou a média de 1,7 candidato por vaga. Em 1980, havia 1500 vagas,
com média de disputa de 4,6 candidatos. Assim, em dez anos o número de vagas
aumentou em torno de 130%, aproximadamente o mesmo no que tange à disputa.
Como instituição de ensino, a UFPel crescia, naquela altura, em igual ritmo que a
contígua Universidade do Rio Grande (FURG). Ambas foram fundadas no mês de
agosto de 1969, pelos Decreto-Lei no 750 (UFPel) e 774 (FURG). Destacamos que
consta nesse Relatório que até 1978 foram promovidas sete edições de concurso
vestibular único UFPel-FURG.
Em 1980, como Administração, a Extensão havia completado três anos. A ló-
gica seguia, ainda, o sentido de uma extensão como expansão do conhecimento
gerado dentro da universidade e intenso caráter assistencialista. Os dados forne-
cidos confirmam isso: o número de cursos de extensão oferecidos que de 17, em
1970, havia aumentado para 55, em 1979. Há um dado a ser observado no que se
refere à uma área do conhecimento hegemônica à época. Os participantes de fora
do Estado, nesses cursos, eram frequentadores daqueles oferecidos pela Facul-
dade de Agronomia. E, possível relação, o registro sobre a produção de pesquisa
era claro no que se refere à essa Faculdade: totaliza 66% da pesquisa registrada
(UFPEL, 1980, p. 24). O restante, 34%, dividia-se entre a Faculdade de Veterinária,
a de Odontologia e do Instituto de Biologia.
A existência do Projeto de Extensão Universitária e Ação Comunitária (PEUAC),
que prestava atendimento ao meio rural, confirma a predominância da Faculdade
de Agronomia em pesquisa e extensão, na época anterior a 1972, quando surge o
Centro Rural Universitário de Treinamento e Ação Comunitária (CRUTAC)5.
Observamos nos dados uma curiosidade: o item 2, Ensino, ocupa uma página
do relatório nesta seção, Desenvolvimento da UFPel; o item 3, Pesquisa, ocupa
um parágrafo e o item 4, Extensão, uma página e dois parágrafos (idem, p. 24-25).
Conclui-se que havia mais o que referir, na época, sobre essa dimensão. Sim, havia
a assistência odontológica, a assistência médica, a assistência médica-veterinária,
a assistência judiciária, a assistência às famílias vinculadas ao Sindicato dos Traba-
lhadores Rurais de Pelotas, a participação nas operações do Projeto Rondon (até
hoje, marcadamente assistencialista) e a prestação de serviços nos Laboratórios
de Análise dos Solos, Análise de Alimentos e Boletins Meteorológicos. No campo

4 Embora, com frequência, o documento mencione 54.


5 O histórico de ambos os órgãos, CRUTAC e Cetreisul, é desenvolvido no item 3, Extensão, Sociedade e
Cultura.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 24


da Cultura destacava-se a ação do Coral, os recitais e os Estudos em Arte. Nas es-
colas, além da assistência odontológica, ocorria o ensino de práticas agrícolas. To-
dos os eventos acadêmicos foram mencionados como extensão, corroborando os
vetores de assistência e de extensão do conhecimento produzido na universidade,
cumprindo a missão de “estender à comunidade, diretamente, os resultados do
ensino e da pesquisa, por meio da extensão” (idem, p. 25).
Era, quase que exclusivamente, por essa dimensão que a Universidade atuava
no desenvolvimento social da região.
Com que força de trabalho isso ocorria? Em 1980, havia 849 professores, dos
quais 594 estavam sob regime de trabalho de 40 horas (a Dedicação Exclusiva é
um advento mais tardio). Do total, apenas 170 possuíam título de mestre ou de
doutor. Os anos seguintes foram marcados pelo esforço institucional em titular os
docentes da Instituição, condição entendida como essencial para melhorar quali-
tativamente a UFPel6. Já o corpo técnico era constituído de 1.094 servidores.
Considerando esse panorama, o planejamento entendia que os esforços deve-
riam se concentrar na melhoria do ensino e para tanto foram estabelecidas metas
para os cinco próximos anos. No que coube à extensão universitária, assegura-
va-se a expansão das ações do CRUTAC, do CETREISUL, das Assistências (judici-
ária, odontológica, médica, médica-veterinária, laboratorial), criação da Editora
Universitária e da Revista da UFPel, o incremento das ações do Centro de Estudos
Brasileiros, a continuidade da participação no Rondon e no Campus Avançado de
Cáceres, a participação na Ação Cívico-Social do Exército (ACISO)7, a promoção
de Gincanas Beneficentes dos Diretórios Acadêmicos e Diretório Central dos Estu-
dantes da UFPel e a intensificação das ações culturais (p. 34-36).
Uma parte das metas estava em consonância com as políticas educacionais do
Ministério da Educação sob a gestão do governo militar, inclusive a construção do
Campus Universitário.
As estratégias de boa convivência com a administração federal incluíram, já
na implantação da UFPel, a concessão do título Doutor Honoris Causa, em 1970,
ao então Presidente da República, Emílio Garrastazu Médici (UFPEL, 1980, p. 45)
que o receberia pessoalmente no ano seguinte8. Conforme o planejamento feito,
a UFPel adere à participação na Ação Cívico-Social do Exército e é incluída na rede
de telex que interliga todas as universidades brasileiras com o MEC.
Eram os anos da década de 1970.
A visita de ministros a convite da Universidade para proferir palestras ou prota-
gonizar inaugurações eram frequentes. Em 1972, o Ministro da Agricultura proferiu
6 O esforço estava condizente com a política de qualificação das instituições de ensino superior levada a
termo pelo Departamento de Assuntos Universitários (DAU) do MEC. Confirma-se pela citação encontrada no
Relatório Anual de 1978, deste departamento: “A melhoria da qualidade do ensino vem, aos poucos, assumin-
do a liderança nas preocupações e esforços desenvolvidos pelo Departamento, principalmente na medida em
que os resultados das políticas e diretrizes já mencionadas começam a ser alcançados” (p. 19); seguida pela
referência aos anos de 1974 a 1977: “No mesmo período, a expansão do número de Docentes com Mestrado
e Doutorado atingiu percentual (133%), assim como o número de Docentes em tempo integral (95%)” (p.19).
7 Segundo Zatta e Vaninni (2019), as ACISOs eram uma das instâncias práticas do projeto “Brasil Potên-
cia”, estratégia levada a termo pelos militares durante o Regime Militar brasileiro, no âmbito da “Guerra
Total” ao comunismo internacional. Tais instâncias expressavam o pensamento aplicado da intelectualida-
de militar, desenvolvido na Escola Superior de Guerra (ESG). Eram definidas como ações temporárias de
caráter humanitário, voltadas à assistência e auxílio às populações em situações excepcionalmente difíceis,
como calamidades públicas. No entanto, como observam os autores, também poderiam ser “uma resposta
do Estado na situação do caos social, ou nas ocasiões de perturbação da paz social, vistas como necessárias
para garantir atos de autoridade de um governo instituído” (p. 92). Dentre as ações possíveis estavam auxílios
veterinários, vacinação e assistência médica à área rural.
8 Conferido, simultaneamente, pela UFPel e UCPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 25


a aula magistral de início de ano letivo e inaugurou o Hospital de Veterinária. No
mesmo ano, o Ministro Jarbas Passarinho foi à UFPel e, oportunamente, encerrou
o Ciclo de Estudos Brasileiros e, também, o Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid,
encerrou as comemorações do aniversário da Faculdade de Direito (palestrando
sobre Os Lusíadas). Os trânsitos entre a Academia e os governantes estendiam-se,
na época, a outras esferas administrativas. Nesse ano, o vice-governador Edmar
Fetter e o Coronel Oliveiros Lana da Paula, comandante da 8a Brigada de Infanta-
ria Motorizada, receberam Medalhas do Mérito Universitário e, no ano seguinte,
o Ministro da Educação recebeu o título Doutor Honoris Causa, concedido junto a
UCPel.
O Ministro do Interior esteve palestrando e assinando o Protocolo de Instalação
do Campus Avançado de Cáceres, do qual a UFPel participou com a FURG e UCPel.
Ainda nesse ano, criou-se a Imprensa Universitária e foi aprovado o Estatuto da
Universidade.
Em 1973, é realizada eleição para composição da lista sêxtupla para reitor e vi-
ce-reitor. Delfim Mendes Silveira e Alexandre Aluízio Varela da Cunha ocupam o
primeiro lugar e são nomeados e empossados em Brasília. Alguns meses depois,
o reitor empossado foi condecorado pelo Presidente da República com a Medalha
da Ordem Nacional do Mérito Educativo e os poderes Executivo e Legislativo do
Município o condecoraram com o título de Cidadão Pelotense.
Na época, as condecorações tinham mão dupla.
Em 1973 a UFPel estudou sua reestruturação, objetivando a substituição dos
institutos e faculdades por centros. Também nesse ano, foi instalada a Casa para
Estudantes da UFPel no Centro da cidade. A Universidade cumpria, progressiva-
mente, um modelo de instituição na qual o lugar de estudo e pesquisa não permi-
tia manter o estudante próximo por mais tempo do que o estritamente necessário.
E, assim, a UFPel encaminhou ao MEC o seu primeiro Plano Global de Desen-
volvimento (1974-77).
Em 1974, Delfim Mendes Silveira foi eleito Presidente do Conselho de Reito-
res das Universidades Brasileiras (CRUB). A dissertação de Rocha (2018) aborda no
item 2.5 (p. 38-39) a trajetória do CRUB, com base na revisão de quatro autores e
conclui que “mesmo que a criação do CRUB não tenha resultado de uma preocupa-
ção com a extensão, é importante reconhecer sua presença como um interlocutor
esporádico das ideias das IES e, diante disso, tentar identificar suas interferências
sobre a extensão universitária.” (p. 38).
De fato, o CRUB teve uma ação importante na institucionalização da Extensão.
O Conselho estava listado nos objetivos do já citado estudo de Atcon (1966).
No item sobre a Reformulação Institucional, Atcon observou que essa estaria im-
plicada na consolidação da autonomia universitária que, no entanto, para que esta
viesse a ser realista e eficaz, a instituição precisaria de mecanismos de controle
interno que “[...] lhe permitiriam exercer, com juízo e segurança, uma independên-
cia acadêmica e financeira que no momento não existe, por estar tudo controlado,
em última instância, pelo poder Executivo do Estado” (p. 13). Para que os meca-
nismos surgissem por dentro de uma compreensão estudada das universidades,
segundo Atcon, os reitores deveriam se organizar em um conselho, independente
do Poder Executivo, capaz de liderar a geração de conhecimento. Conforme suas
palavras: “Um conselho de Reitores das Universidades Brasileiras proporcionaria
um veículo apropriado para o estudo de um número de problemas genéricos que
comumente afligem a todas as universidades” (p. 13).
Uma leitura mais aprofundada do papel do CRUB nesse período é necessária
para melhor estabelecer relações entre a representatividade de Delfim Mendes

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 26


no cenário político do MEC e os caminhos que a UFPel tomou em sua gestão e na
subsequente. No entanto, essa presidência tinha um valor maior, no nacional e no
local, haja vista o fato de que Delfim, por conta disso, foi homenageado com um
banquete no Clube Comercial de Pelotas. Também participou, a convite, da recep-
ção ao novo presidente da República, General Ernesto Geisel, em Brasília. E a ele,
em reunião especial para tanto, apresentou o seu plano de ação como presidente
do CRUB.
Consequência disso, ou não, pouco depois a UFPel foi incluída entre as univer-
sidades que receberam recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) para aquisição de equipamentos.
A partir de 1973, as condecorações concedidas pela UFPel passam a homenage-
ar também professores. No entanto, em 1975, Jarbas Passarinho, agora Senador,
recebe novamente o título Doutor Honoris Causa. O reitor continua sendo conde-
corado, neste ano com o título de Grande Oficial da Ordem Nacional do Trabalho,
em Brasília. Por outro lado, a Medalha de Mérito Universitário foi concedida a sete
professores da Universidade, entre eles, duas mulheres.
Em 1977, ano de criação da Pró-Reitoria de Extensão, o Reitor passa a nomear
e empossar os diretores das unidades acadêmicas. É concedida pela primeira vez
a Medalha de Mérito Administrativo aos funcionários que se destacam pela com-
petência e dedicação.
Algo, parece, começava a mudar. Contudo, o título Doutor Honoris Causa foi
concedido para o Ministro da Educação Ney Braga. No mesmo ano, a UFPel ganha
um canal de Radiodifusão Modulada do Ministério das Comunicações. Talvez, ape-
nas algumas sementes se insurgiam em um contexto no qual a simultaneidade dos
acontecimentos não assegurava o determinismo das decisões do governo central.
A década de 1970 chegava ao fim e uma pesquisa feita pelo planejamento mos-
trou que 51% dos estudantes da UFPel eram de Pelotas. Se pela comunidade es-
tudantil, menos que regional, a UFPel mostrava-se local (ou micro-regional), na
extensão, a dimensão era outra.
A atividade assistencial do CRUTAC ultrapassou 67 mil atendimentos na área
rural dos 3 municípios atendidos, além de Santa Isabel em Jaguarão. O CETREI-
SUL ministrou 55 cursos atendendo 1426 alunos; a Assistência Judiciária atendeu
520 pessoas, consolidou-se a atuação da UFPel em Cáceres, foi criado o Grupo de
Câmara, a Famed aderiu ao Projeto Esperança, o Núcleo de Meteorologia aplicada
iniciou suas atividades, instalado o Laboratório Regional de Diagnóstico da FaVet,
o conjunto Agrotécnico plantou oito mil mudas, o ILA promoveu com a 5a DE o Dia
da Criatividade com a participação de 600 crianças e, a ESEF, a Tarde de Recreação
com 1000 crianças. Assim, todas as unidades da UFPEL produziam extensão, se-
gundo o documento (p. 85).
Um fato que se destaca nesse último ano é a criação da Editora da Universidade
(UFPEL, 1980, p. 87), que veio acompanhada da ampliação da Gráfica.
Nesse momento, é recorrente o registro sobre a necessidade de extensão da
área física e sobre as limitações orçamentárias (idem, p. 89). Ao longo desse meio
século de existência, a relação entre a demanda por espaço e a falta de recurso
para resolvê-la irá tornando-se um problema crônico.

1.2.2 A década de 1980


Na “década perdida”, como se chamam esses anos da economia brasileira, o
país caminhava em direção à democracia, enquanto a crise econômica se acir-
rava sob a maxidesvalorização, rumo à hiperinflação. As universidades federais

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 27


estavam com o seu crescimento estagnado e, na ocasião, apenas 30% das matrí-
culas no ensino superior estava com as universidades federais (UFPEL, 1980, p.
240). Outra fonte informa que em 1981, sete das 65 universidades contavam com
mais de 20.000 alunos, enquanto que entre as faculdades isoladas, todas privadas,
duzentos e cinquenta delas registravam menos de 300 alunos (IESALC/Unesco,
2002, p. 34).
Quanto à Extensão, o cenário também era desfavorável. Com a CODAE extinta
em 1979, não havia um setor no MEC relacionado diretamente ao assunto. Como
observou Rocha sobre o período, em capítulo escrito na publicação do MEC [1994]
“passou a existir um hiato, cuja quebra somente se dará a nível interno do MEC,
com a criação, em 1993, do Programa de Fomento à Extensão” (p. 6). Semelhante
a outros momentos, a Extensão, abandonada enquanto Ministério, foi assumida
pelas universidades, dando continuidade aos projetos que já estavam consolidados
em diferentes ministérios e foram, na medida das possibilidades, adaptando-se à
realidade dos locais onde estavam localizadas as IFES. Esse estado de coisas não
se alterou muito durante o período, mesmo quando em 1986, foi fundado o Fó-
rum Nacional de Pró-Reitores das Universidades Públicas Brasileiras. A partir daí,
o conceito de extensão universitária foi tomando contornos definidos pelo projeto
democrático e pelos debates que anteciparam o momento glorioso da abertura, a
homologação da Carta Magna do país, a Constituição de 1988. No entanto, os ven-
tos dessa mudança sopraram lentos e não foi essa década que viu os resultados. A
Constituição de 1988, em cujos artigos refletem-se vitória ou fracasso de grupos
oponentes, atesta o que o grupo que defendia o ensino laico e gratuito, em todos
os níveis, conseguiu assegurar. Além da gratuidade do ensino público, também no
nível superior, a autonomia das universidades e a indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão estão prescritas no texto da Lei.
Então, naquele momento, a educação superior tornou-se um direito de todos.
Antes disso, porém, a extensão continuava existindo, enfrentando as indefini-
ções próprias de um período de transição política, no qual uma nova universidade
pública ainda estava em desenho e, naturalmente, dava-se continuidade ao que já
existia. Não foi um período que deixou ao futuro uma documentação intensa gera-
da pela UFPel. Provavelmente, parte importante tenha se perdido. Mas um relato
dos anos entre 1982 e 1988 encontra-se na dissertação de Rocha (1918), sobretudo
com os depoimentos que a mestranda obteve com a Professora Élide Minioni e
com o Professor Renato Luiz Melo Varoto, que ocuparam o cargo de Pró-Reitores
de Extensão, sucessivamente (p. 107-127).
Parte dessas duas gestões ocorreu no período da Presidência do General João
Batista Figueiredo. Quem viveu aqueles anos, deve lembrar de momentos mar-
cantes que se sucederam desde o pronunciamento do Presidente de que faria do
Brasil uma democracia. No campo econômico, a crise iniciada pelos países expor-
tadores de petróleo, que se intensificou em 1979, tornou-se mundial. Foram os
anos da dívida do Brasil com o Fundo Monetário Internacional, o FMI, sigla que
sombreava com a funesta silhueta da inflação as etiquetas de preço de qualquer
mercadoria que um cidadão fosse comprar. Em uma situação política e economi-
camente tensas, não se poderia dizer que a tendência de continuísmo era forte
nas universidades, era só o que poderia ser. E foram nesses anos que Élide Minioni
atuou na Extensão, quando ainda estavam ativos os setores CRUTAC, CETREISUL
e o projeto Campus Avançado Cáceres.
Élide prestou concurso e foi aprovada para ingresso na UFPel em fevereiro de
19809. Egressa da Universidade Federal de Viçosa, já atuava com Extensão nos

9 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0064/1980.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 28


anos de docência lá10. E é importante que se diga que o ruralismo e o extensionis-
mo rural marcaram a origem daquela Universidade, para a qual o Projeto Rondon
e o Campus Avançado de Altamira foram experiências intensivas (CUNHA, 2014,
p. 103). Desde 1974, alunos da ESAV (Escola Superior de Agronomia de Viçosa),
que daria origem à UFV, atuavam no Campus Avançado através do Rondon (idem,
p. 104). Portanto, a confluência entre os dois programas na UFV apresentava se-
melhanças com o que ocorria na UFPel, o que era decorrência dos protocolos dos
próprios programas, os quais se impunham por serem nacionais e não locais. Na
UFPel, como indicam as portarias, a coordenação do Campus Avançado Cáceres
era desenvolvida como uma Função de Confiança11 e, assim, dava-se por indicação
do reitor.
Prestando atenção em alguns documentos, pode-se concluir que Élide, antes
de assumir o cargo, estava envolvida com outras atividades administrativas, como
a da Comissão dos Atos Comemorativos aos 10 anos de existência da UFPel12. No
entanto, quando assumiu, coube a ela a gestão do Projeto de Desenvolvimento de
Comunidades Rurais, que ocorria mediante o convênio entre a Fundação Legião
Brasileira de Assistência (LBA) e a UFPel13, embora o executor fosse o Coordenador
Geral do CRUTAC, também ele designado pelo reitor14. O forte caráter de assistên-
cia que definia a extensão nos anos de 1970 manteve-se na década seguinte como
uma expressão do compromisso que a instituição tinha com a sua comunidade.
Desde a participação da UFPel na Campanha “12 horas beneficentes”15 até o con-
vênio da UFPel com a Fundação de Bem Estar do Menor (FeBEM)16 o envolvimen-
to da universidade com outras instituições pautava-se por princípios definidos em
termos de atendimento filantrópico, aos macroprogramas implantados durante
o governo militar e a algumas orientações cujos princípios são opacos, mas tra-
duziam um vínculo ainda persistente com os valores arregimentados durante o
governo anterior, como o Programa de Bolsa de Estudo Especial17, destinado a ser-
vidores que fossem selecionados para cursar a Escola Superior de Guerra (ESG) no
Rio de Janeiro.
Mas sendo um período de transição, também era de mudanças. A cultura toma-
va corpo dentro da Extensão, incorporando a cultura tradicionalista, mas não só
ela. Então, se por um lado o Centro de Tradições Gaúchas “Os carreteiros” surgiu e
foi vinculado à PRE18, por outro, o Museu (que em breve se tornaria Museu de Ciên-
cias Naturais e já era vinculado à PRE) foi transferido para outro lugar maior den-
tro da própria Faculdade de Agronomia19, destacando e dando maior importância
ao acervo. Criou-se o Conjunto de Música Antiga20, vinculado à PRE, com coor-
denação determinada pelo Instituto de Letras e Artes. Foi instituído o primeiro

10 Segundo depoimento prestado a Rocha (2018, p. 107)


11 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 238/1979
12 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 298/1979.
13 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0575/1982.
14 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0574/1982.
15 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0766/1980.
16 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0613/1982.
17 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 029/1981.
18 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0720/1982.
19 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0329/1982.
20 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0609/1982.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 29


Conselho Editorial da Editora da UFPel21 e os centros de cultura foram transfor-
mados em casas de cultura22 (francesa, hispânica, alemã, italiana e portuguesa)23,
além da adesão ao Projeto Universitário - Funarte24. Cabe dizer que esse Projeto
era a forma de uma das ações da linha programática voltada para integrar educa-
ção superior e básica no cumprimento das Diretrizes para Operacionalização da
Política Cultural do MEC (MEC, 1981) e que pressupunha “a participação da univer-
sidade, através de seus vínculos naturais com a Educação Básica e com o ensino de
2o grau, no desenvolvimento de ações que se enquadrem na linha programática”
(idem, p. 15).
Tais mudanças anunciavam outras maiores — determinadas pela alteração
da estrutura das Pró-Reitorias25 e pela aprovação do novo Regimento Geral da
UFPel26. A ideia de Extensão Universitária como um vetor pelo qual o conhecimen-
to era levado à sociedade expressava-se bem na criação do Escritório de Extensão
Rural e Transferência de Tecnologia, que reunia o CRUTAC, o Campus Avançado de
Cáceres e os projetos vinculados aos convênios com outras instituições.
Vale observar que o perfil formativo da Extensão tinha, naquele período, uma
função hoje entendida no campo administrativo e pedagógico como inerente ao
Ensino. Na ocasião, o Setor de Estágios Curriculares encontrava-se na Extensão.
Em 1981, portanto, no ano anterior ao início da gestão de Élide, o CNPq lançou o
“Programa de Estágio Integrado de Alunos em Empresas e Institutos de Pesquisa e
Desenvolvimento”. O estágio curricular no CRUTAC já estava regulamentado des-
de 197727, em concordância com as recomendações da Coordenação Nacional de
Extensão Universitária (CODAE/MEC). Nesse mesmo ano, meses antes, o Campus
Avançado de Cáceres e o Centro de Teledifusão Educativa haviam sido vinculados
à PRExt28. A convergência desses fatos com a amplitude que se desenhava fez com
que fosse instituída uma comissão composta pelos Pró-Reitores de Graduação e
Assistência, de Pós-Graduação e Pesquisa e de Extensão para elaborar e super-
visionar os projetos de estágio, tanto de docentes como de discentes29. O Setor
de Estágios, por conta dos convênios estabelecidos com as instituições, já estava
lotado na PRE30.
Em meados dessa década, a estrutura das universidades começou a ser discu-
tida internamente. Na UFPel havia sido instituída, pelo então reitor Ruy Antunes,
uma comissão31 para elaborar a proposta. Assessorada pela Secretaria de Mo-
dernização Administrativa do MEC, em abril de 1986, a Comissão apresentou o

21 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0919/1983.


22 Algumas universidades mantiveram as casas de cultura (Universidade Federal do Ceará, Universidade
Federal de Alagoas, Universidade de Brasília, entre outras). A maioria das ainda existentes foram fundadas na
década de 1960 e consistiam em espaços para o ensino da língua e cultura dos países relacionados ao Brasil,
sobretudo, pelas levas migratórias. Em outras universidades, como a UFPel, o ensino da língua e cultura foi
absorvido pelas unidades de ensino, esvaziando a função dessas casas.
23 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0354/1983.
24 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 084/1983.
25 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0310/1982.
26 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0608/1982.
27 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0134/1977.
28 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 176/1977.
29 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0365/1981.
30 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0939/1983.
31 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 168 /1986.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 30


Relatório ao reitor (UFPEL, 1986). Em essência, faltava pouco para mudar o con-
ceito de Extensão. No entanto, com base nos documentos vigentes, a Comissão
reafirmava a Pró-Reitoria de Extensão como o órgão responsável por conduzir a
política de cursos de extensão e prestação de serviços à comunidade, nos campos
técnico, científico, cultural e artístico. Por um lado, ratificava-se o seu objetivo de
servir à comunidade, por outro, atribuía-lhe a missão de manter contato com as
entidades financiadoras desses serviços (UFPel, 1986, s/p). Ainda não era evidente
o seu papel educacional formativo. Tal concepção, que virá no bojo de uma pro-
posta geral de ensino superior, tem seu marco em 1989 e o documento concreto
na LDB de 1996. Portanto, a Estrutura Organizacional proposta na ocasião refletia,
no que tange à Extensão, uma distribuição mais horizontal dos setores que ainda
não constituía, propriamente, uma ideia de descentralização, mas parecia possibi-
litar a inter-relação. Esse organograma, se manteria durante a gestão do Professor
Renato Luiz Melo Varoto.
Foram mantidos os convênios (LBA, FeBEM, Fundação Rondo, Funarte, Cam-
pus Avançado); manteve-se o CRUTAC, Cetreisul, Editora, Rádio, bem como os
dois museus. Acrescentou-se a criação do Clube de Cinema e Vídeo32, consolida-se
o Conselho de Extensão33 e criou-se o Programa Provideo34, bem como seu conse-
lho35, cuja finalidade era a criação de vídeos para atividades de ensino e extensão.
Também estabeleceu-se o convênio com a Fundação Movimento Universitário de
Desenvolvimento Econômico e Social (MUDES)36. A Fundação MUDES, entidade
beneficente, criada em 1966, manteve o foco em estágios remunerados para es-
tudantes com baixa renda, além de buscar formas de integração do estudante em
estado de vulnerabilidade com o mercado de trabalho.
E, todo esse fluxo acontecendo em uma década na qual as universidades fede-
rais vinham, desde o ano de 1980, em uma trajetória de greves de servidores, com
demandas acumuladas pelo não atendimento ou descumprimento dos acordos
feitos entre o Ministério e os Sindicatos. Em 1989 houve a greve de maior duração
até aquele ano e que seria suplantada pela de 1991. Dentre as reivindicações, es-
tava o repasse do recursos estabelecidos no orçamento de 1990 e 1991, que não
foi atendido.
Assim, as universidades federais, em um período atribulado, de recursos es-
cassos e diante de uma democracia incipiente, manteve os programas que já es-
tavam consolidados, relacionando a eles outros locais. Um desses projetos era o
Rondon, vigente até 198937 e retomado em 2005, pelo Governo Lula. Os demais
foram absorvidos pelas universidades em outros programas de natureza local, em
convênios com outras instituições ou deixaram de existir, como o Campus Avança-
do. A cultura emergiu na sua forma direta de cultura artística, com forte ênfase na
música, mas também nas outras artes. Em um último esforço de gerar documen-
tos reguladores dos muitos setores e programas ligados à administração, a Pró-
-Reitoria publicou o Regimento dos Órgãos de Extensão (PRE, 1988), que deixou à

32 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 147/1985.


33 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 479/1986.
34 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 729/1987.
35 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 739/1987.
36 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 571/198.
37 A Lei no 7.732, extinguiu a Fundação Projeto Rondon que desde 1975 organizava as missões do Progra-
ma. A motivação foi a profunda crise econômica do final do Governo José Sarney. Para detalhamento deste
primeiro período de funcionamento do Rondon, ler De Lima na obra de Dorella (2014, p. 12-40).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 31


administração seguinte um registro detalhado da existência, do vínculo e da fina-
lidade de cada um deles.
A “década perdida” foi um desafio enfrentado pelas universidades públicas, que
acumularam perdas de orçamento e de pessoal docente e técnico administrativo.
Os macroprogramas se extinguiam e, com eles, os recursos alocados nas universi-
dades para essa dimensão específica. Enquanto isso, a cultura florescia como um
prenúncio de uma Extensão mais plural e criativa. A universidade estava mudando.

1.2.3 A década de 1990


Em 1989, assumiu a primeira gestão da UFPel resultado de consulta à comuni-
dade, tendo como reitor eleito o médico Amílcar Goyhenex Gigante. O Professor
e escritor Aldyr Garcia Schlee foi indicado para a pasta da Extensão. No ano final
desse período, a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (que havia assim se tornado
em 1991, já ao final do mandato) publica um catálogo, no qual constam todos os
documentos que passaram a reger e expressar a Extensão ao final desses quatro
anos. O capítulo inicial, intitulado Política de Extensão e Cultura (PREC, 1992, p. 7)
informa como foi feito o diagnóstico, no ano de 1989, com base em um levanta-
mento no modo de operação de funcionamento do setor em outras universidades.
Outras iniciativas foram tomadas na avaliação do problema, para decidir-se pela
reestruturação normativa, administrativa e operacional “contemplando descen-
tralização do processo decisório e redução dos mecanismos burocráticos” (p. 10)
como um dos pontos básicos da gestão. Entre estes pontos, no entanto, estabele-
cia-se o Plano de Atividades de Extensão Semestral por Departamento e de Pro-
gramas de Planejamento Integrado, priorizando atividades multiprofissionais. A
própria Resolução do Cocepe 04/92, de 25 de maio de 1992, que apresentava o
regulamento das atividades extensionistas e culturais da Universidade, dizia que
estas deveriam ser encaminhadas em formulário específico para “aprovação e re-
gistro na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura” (p. 13). E as atividades culturais foram
propostas diferentes e independentes de “sua vinculação ao ensino ou à pesquisa,
cabendo à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura estimular, promover e coordenar sua
execução” (p. 14). Cabe ressaltar que depoimentos da época, realizados por Rocha
(2018) e outros constante no Anuário Retrospectivo (UFPel, 2004, [Link]) esclarecem
o conceito de cultura que motivou a reformulação da Pró-Reitoria para incluí-la
e, portanto, embora não se faça aqui a análise do fato, o mesmo ocorreu em um
contexto no qual alguns princípios inovadores estavam sendo postos em prática,
de modo que vários caminhos foram experimentais. Assim, não houve divergência
entre fatos e discursos, se levarmos em conta o contexto nos quais ocorriam.
Na verdade, a grande mudança da extensão estava determinada por um pa-
norama nacional no qual se inscrevia, de modo direto na educação universitária,
o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Diziam isso,
as palavras da Lei. Já a realidade não tinha a mesma consideração que o texto ju-
rídico. O primeiro presidente eleito por voto direto em quase trinta anos frustrou
a expectativa de uma recuperação econômica do Brasil, diante dos fracassos das
medidas desenvolvidas nos planos Collor I e II. Somado a isso, a rejeição popular
e o agravamento da crise política levaram ao impeachment de Fernando Collor de
Mello em dezembro de 1992, em um longo cenário de três anos de gestão con-
turbada, atravessada por um escândalo de corrupção que envolvia o Presidente e
que era noticiado continuamente pelos meios de comunicação. Portanto, a ges-
tão que ingressou na UFPel em 1989 viveu tanto a recessão econômica como um

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 32


panorama político nacional tenso, marcado por uma campanha persecutória leva-
da a termo por um dos pilares da Gestão Collor, conhecido como a “caça aos ma-
rajás”. Dentre esses, os marajás, estavam os funcionários públicos, considerados
detentores de privilégios.
Portanto, a decisão em reorganizar equipes, espaço físico e organograma es-
teve relacionada a esse panorama, para o qual a racionalização dos recursos e
descentralização dos processos e setores apresentou-se como solução diante da
exiguidade das fontes, que estavam secando rapidamente. Além do Rondon, já
encerrado, o CRUTAC e Cetreisul foram fundidos, dando origem ao Departamento
de Extensão e Treinamento (UFPel, 2004, [Link], p. 90), a Editora e a Rádio passaram
a ser órgãos suplementares. A construção de uma Política de Extensão de modo
participativo também esteve diretamente relacionada com o contexto nacional,
assim como a inclusão de representantes das três categorias (docentes, técnicos
administrativos e alunos) (idem, p. 91) e representantes do município no Conselho
Editorial da Editora Universitária. Os Núcleos Temáticos surgiram em grande nú-
mero, criados sob os auspícios da Pró-Reitoria de Extensão, mas já nas Unidades
Acadêmicas38 e os Museus foram desvinculados da PREC39, indo para o Instituto de
Letras e Artes e Instituto de Biologia.
O grande diferencial deste período foi a mudança estrutural pela qual a Cultura
passa a ser uma vertente explícita da Extensão, ainda que dela separada. No Re-
gulamento Geral das Atividades Extensionistas e Culturais da UFPel os dois artigos
do Capítulo II são dedicados à Arte e Cultura. A essas é facultada “eventual vincu-
lação com o ensino ou a pesquisa e por isso, separadas da extensão universitária”
(PREC, 1992, p. 12) e devem ser consideradas “como oportunidades de estímulo
livre e aberto, sem as limitações do ensino e as exigências da pesquisa à iniciativa,
à criatividade, à espontaneidade e às manifestações de vanguarda” (idem, p. 13).
Portanto, às atividades culturais dava-se um lugar de absoluta autonomia. Trata-
-se, aqui, de um tema para análise mais detalhada, que não se fará neste livro.
Em 1993, inicia a gestão do Prof. Antônio César Borges, segunda reitoria eleita
pela comunidade universitária e estendendo-se até 1996, encerra a primeira parte
deste capítulo. Houve dois pró-reitores no período: de 12 de janeiro de 1993 a 26
de setembro de 1994 o cargo foi exercido pela Professora Angela Maria Sinotti
Rocha Gonzalez40 e a partir de 27 de setembro, pelo Professor Francisco Elifalete
Xavier41.
No panorama nacional, o ano de 1993 foi marcado pela criação do Programa
de Fomento à Extensão no âmbito do MEC, que foi operacionalizado por meio da
Comissão de Extensão “composta pelos dirigentes do Fórum Nacional de Pró-Rei-
tores das Universidades Públicas, pela Diretora do Departamento de Política do
Ensino Superior da SESu e pelo Chefe de Divisão de Extensão e Graduação, com o
objetivo de elaborar diretrizes políticas para o Programa de Fomento à Extensão
Universitária” (MEC, [1994], p. 67). A partir daí em 1995, o Programa foi lançado
com duas linhas de ação: 1) Articulação da Universidade com a Sociedade e 2) In-
tegração da Universidade com o Ensino Fundamental. Para a primeira, os recursos
eram advindos da SESu/MEC e, para a segunda, do FNDE/SESu. Antes, porém,
entre 1993 e 1994, em torno de 70 universidades apresentaram projetos que foram

38 Ver Portarias do Gabinete do Reitor UFPel no 736, 927, 928, 943, 996/1992.
39 Resolução do Conselho Universitário da UFPel no 004/1992 (MALG).
40 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0063/1993.
41 Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 935/1994.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 33


aprovados para financiamento neste programa (idem, p. V). No final do primeiro
ano de financiamento, o MEC encaminhou um questionário para as instituições
contempladas com o recurso, visando levantar dados. Recebeu 62 questionários
respondidos. A organização e análise dos dados resultou em 27 gráficos e igual
número de tabelas (idem, p.10-63), nos quais aspectos dos projetos financiados fo-
ram avaliados para reorientação dos próximos financiamentos. Portanto, o levan-
tamento feito apontou indicadores que ainda hoje poderiam ser empregados para
verificar os resultados obtidos em projetos que recebem financiamento ou apoio.
Destes gráficos, copia-se abaixo o que contém uma informação indicativa da apli-
cação do conceito de extensão expressado pelo Fórum de Pró-Reitores em 1987.

Figura 1 - Gráfico 1 Praticamente, a totalidade das instituições entendia a Extensão como a dimen-
elaborado pelo MEC/ são social da Universidade que se construía no cumprimento de uma missão ins-
SESu sobre como é
titucional, razão pela qual os valores dos dois primeiros escores são muito próxi-
concebida a extensão
pelas instituições mos. Entende-se, igualmente, como o conceito de Extensão formulado na Carta
públicas no ensino de Brasília (1987) repercute nas instituições, ficando do texto, sobretudo, a ideia
superior (referente ao de relação transformadora entre universidade e sociedade.
ano de 1993). Assim, no conteúdo do Relatório Retrospectivo do ano de 1993 registra-se que
Fonte: Ministério as linhas de ação da PREC estiveram voltadas para a “retomada e fortalecimento
da Educação e do do processo de integração entre a Universidade e a Sociedade, através da reativa-
Desporto, Secretaria ção de inúmeros convênios” (UFPel, 2004, [Link], p. 211). Em essência, o diferencial re-
de Educação Superior
(MEC, [1994], p. 10).
gistrado no período é o surgimento do Departamento de Intercâmbio e Programas
Internacionais (DIPI), cuja finalidade era a promoção do intercâmbio e cooperação
com instituições universitárias e organismos internacionais. Entre 1993 e 1994 fo-
ram estabelecidos quatro convênios com instituições da América Latina e Espanha e
o ingresso da UFPel como membro efetivo do Comitê de Integração do Cone Sul am-
pliou as possibilidades de intercâmbio entre docentes e alunos de instituições dos
países envolvidos. Novos convênios ocorreriam nos dois anos seguintes.
No Anuário Estatístico de 1996 (UFPel, 1997/ V.4), as Atividades de Extensão e
as Atividades Artísticos-Culturais constam em dois capítulos diversos (idem, p. 147

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 34


e p. 152), sustentando o conteúdo da Política de Extensão aprovada em 1992,
que separava ou particularizava as duas dimensões. No entanto, o quantitativo
de ações na PREC aparece organizado em atividades de extensão, atividades ar-
tístico-culturais, educação e desenvolvimento social, intercâmbio e programas
internacionais e publicações (idem, p. 16). Não se fazia, portanto, muito clara a
particularização em duas dimensões. Poderia haver outras, por exemplo, a inter-
nacionalização, que sendo inerente ao DIPI constituía, em si mesma, uma dimen-
são. Inclusive, as apresentações, exposições, gravações e recitais, que desdobram
as atividades artístico-culturais, somam o número 52, enquanto (para usar o mes-
mo exemplo), o intercâmbio e programas internacionais somam 70 (idem, p. 146).
Ainda, o Anuário indica a prestação de serviços como a modalidade mais nume-
rosa das atividades de extensão, seguida dos cursos, situação que se equivalia a
todos os anos anteriores.
O fator de mudança se encontra na modalidade de Extensão “cursos”, por áre-
as de conhecimento, que na UFPel eram cinco. As duas áreas Ciências Humanas e
Letras e Artes somam mais, tanto em número de eventos como em carga horária
e concluintes do que as outras três, Ciências Agrárias, Biológicas, Exatas e Tecno-
logia. Por outro lado, a modalidade “Treinamentos” inverte esse quantitativo, des-
tacando-se, inclusive, que nem aparece nesta tabela a área de Ciências Humanas.
E, justamente, na modalidade “Prestação de Serviços”, Ciências Humanas e Letras
e Artes somam 7 eventos, contra 92 das outras três áreas. A leitura mais imediata
que se pode fazer do contexto, em meados dos anos de 1990, é que o texto da
Constituição, o conceito de Extensão apresentado pelo Forproex, a ação da ex-
tinta CODAE e as avaliações do Programa de Fomento à Extensão Universitária,
encerrado por essa época, indicavam mudanças, também na UFPel, mas ainda não
estavam absorvidos na prática, que se mantinha muito próxima dos anos de 1970,
ao menos pelos números registrados por essas modalidades.
Em dezembro de 1996, foi promulgada a segunda Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Brasileira. E o texto deste documento impactará nos anos subsequentes
ao do período que se encerra nesse ano. Desta vez, mudanças maiores estavam
por acontecer.

2.2 Os anos 2000


Em 2001, o relatório de gestão que encerra o segundo mandato de Inguelo-
re Scheunemann dedica-se à uma análise mais qualitativa do percurso, embora
os quantitativos constem significativamente no documento. Sobre a extensão, é
dito que houve exponencial aumento do registro de programas de extensão que
“passaram a ser integrados por cada vez maior número de estudantes, com clara e
inequívoca retroalimentação a partir da realidade vivida no seu campo de atuação,
ao ensino e à pesquisa” (UFPEL, 2001, p. 11). A valorização dada à participação
do estudante é o elemento novo nesse discurso. E, para confirmar tal observa-
ção, é oportuno lembrar que nos anos de 1970, quando o Campus Avançado, um
dos programas do Projeto Rondon, mobilizou grande número de estudantes que
foram levados “a conhecer a realidade brasileira e participar de seu processo de
desenvolvimento” (MEC, 1980, p. 14), o que os mantenedores desse programa in-
tencionavam, prioritariamente, era aplicar “uma estratégia de interiorização do
desenvolvimento pela universidade” (p. 17). Levar o estudante a esses locais não
era, necessariamente, formar nessa pessoa um sentido de solidariedade e respon-
sabilidade social, mas era, essencialmente, conseguir executar a estratégia.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 35


Havia um conceito de Extensão, embora não escrito, que operava nas univer-
sidades a partir de um planejamento governamental. Basta ler o documento do
qual foram tiradas as citações acima para entender a finalidade do Campus Avan-
çado, cujo vetor operacional era o estudante, mas cujo objetivo era colocar em
prática a estratégia de desenvolvimento e integração de áreas remotas, habitadas
por populações em estado de extrema vulnerabilidade. Na década de 1980, sob
os ares de uma democracia que se desenha como promessa, o perfil do Programa
iria mudar, no entanto, a sua natureza social se manteria voltada para os princípios
do assistencialismo. Consequentemente, não era o estudante o foco da Extensão
naqueles primeiros anos de UFPel, mas seria, progressivamente, nas décadas se-
guintes. E quando o século XXI chegou, falava-se correntemente em formar um ci-
dadão capaz de transformar a realidade, como se sempre tivesse sido esse o papel
da Extensão na formação do aluno.
Voltando ao texto do relatório de 2001, na introdução, afirma-se que a “uma
nova concepção de extensão consolidou-se no sentido de torná-la efetivamente
um processo educativo, cultural e científico” (UFPEL, 2001, p. 22). Os avanços de-
pendem dos estímulos que se empregam para avançar. Era assim antes, é assim
agora. O estímulo que foi implantado na gestão que se concluiu em 1992 continu-
ava em vigor. Tratava-se do Programa de Bolsas de Extensão.
O texto do relatório informa que a institucionalização dos projetos havia au-
mentado, que o número de professores envolvidos na equipe dos projetos tam-
bém havia crescido e, sobretudo, que ocorria o aumento no número de bolsas para
estudantes (p. 23). No entanto, a percepção que se tem no presente é que os dois
primeiros fatos são decorrência do terceiro. A concessão de bolsas para estudan-
tes atuarem em projetos é, efetivamente, um estímulo para que projetos sejam
propostos, formalizados e que mais proponentes apareçam.
O quadriênio ao qual se refere o relatório antecede ao Plano Nacional de
Educação (PNE) 2001-2010, estabelecido pela Lei no 10.172/2001. Esse, foi
consequência da LDB de 1996, que ditava nos artigos 9o e 87 a elaboração do Plano
com diretrizes e metas para dez anos. A apresentação da primeira versão e trami-
tação estendeu-se de 1998 à aprovação efetiva da Lei, em 2001.
Dado o conjunto de documentos nacionais e internacionais, representações
de diversos níveis que foram mobilizadas para subsidiar e contribuir com a pro-
posta, os anos que antecederam à sua efetiva aprovação foram aqueles nos quais
as ideias já estavam circulando e influenciando os discursos, dos educadores aos
gestores das instituições de ensino. Reforçava-se a assertiva de que “Nenhum país
pode aspirar a ser desenvolvido e independente sem um forte sistema de edu-
cação superior” (BRASIL, 2011, p. 33). As expressões “solução para os problemas
atuais”, “um futuro melhor” e “redução das desigualdades” apareceram, no texto
do PNE, bem como a atribuição de que estava nas mãos da IES a melhoria da edu-
cação básica e que, para exercer tal papel, as instituições deveriam cumprir “as
funções que lhes foram atribuídas pela Constituição: ensino, pesquisa e extensão”
(p. 33). Tal como na década de 1960, o diagnóstico desenvolvido para o PNE indi-
cou a necessidade de expansão das universidades públicas — mais precisamente,
do número de vagas — com vistas a conseguir absorver o grande volume de jovens
egressos do ensino médio. E, à semelhança do que ocorria naquela década, o setor
privado oferecia a maior parte das vagas no ensino superior (como ainda oferece).
O diagnóstico também registrou que 90% da pesquisa e da pós-graduação do Bra-
sil desenvolvia-se na universidade pública (p. 34). O documento deixava claro que

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 36


era imprescindível a renovação do ensino superior. Das 23 metas do PNE estabe-
lecidas para este nível de educação, a última42 é, especificamente, voltada para a
Extensão:
Implantar o Programa de Desenvolvimento da Extensão Universitária
em todas as Instituições Federais de Ensino Superior no quadriênio 2001-
2004 e assegurar que, no mínimo, 10% do total de créditos exigidos para
a graduação no Ensino Superior no país será reservado para a atuação
dos alunos em ações extensionistas. (BRASIL, 2011, p. 36)

No relatório intitulado “Anos de Expansão e Evolução”, constam os itens que


justificavam porque no período de oito anos da Gestão Inguelore Schneumann,
a UFPel teria se expandido e evoluído. Na Introdução do relatório, a síntese que
apresenta a Extensão informa que foi implantado um novo modelo que substituiu:
“o caráter assistencialista das ações extensionistas por um processo acadêmico,
educativo, cultural e científico, voltado para a articulação do ensino e da pesquisa”
(UFPEL, 2004, p. 14). As palavras repetem o conceito de extensão, que consta na
primeira Política Nacional de Extensão Universitária43.
No documento Extensão e Cultura, que nas palavras do pró-reitor era em par-
tes, um banco de dados, mas também um catálogo44, na Apresentação registra-se
que “foi possível constatar os inquestionáveis progressos nesta atividade acadê-
mica” (PREC, 2003, p. 5).
Nesse relatório, na parte destinada ao Departamento de Extensão e Treina-
mento (DEXT), destaca-se que houve a criação de uma Empresa Junior (EJ), bem
como a ação de outra. As EJ estiveram, portanto, vinculadas à PREC, em algum
momento. Como aconteceu a outros setores, em outro momento, separaram-se
da Extensão. Destaca-se, também, que a produção da Gráfica e a comercialização
de livros eram registradas em números, como prestação de serviço. Ressalta-se
que o trabalho da Gráfica e da Livraria geravam receita própria (p. 15). A publica-
ção de livros, nesse ano, somou cinco títulos; o setor participou de três Feiras do
Livro (Pelotas, Cassino e do Colégio São José) e lançou um livro. No Departamento
de Arte e Cultura (DART) registrou-se a criação do Núcleo de Dança, que se somou
aos outros três núcleos já existentes (Coral, Núcleo de Teatro e o CTG). A Coorde-
nadoria de Eventos (p. 27-33) listava atividades — seminários e outros eventos aca-
dêmicos, posses administrativas, inaugurações, lançamento de livros, abertura de
exposições e eventos de confraternização — promovidas pelas unidades de ensino
ou por setores administrativos.
Nos anos de 2002 e 2003, a UFPel já havia adotado a classificação da sua pro-
dução extensionista em áreas temáticas, ainda mantendo, entretanto, uma ca-
tegorização geral e própria de projetos por espécie. As áreas temáticas foram
apresentadas pelo FORPROEX em 1998 e fundaram-se na identificação de “te-
mas de interesse coletivo, tendo como meta facilitar o diálogo com a sociedade,
discussão e implementação das políticas públicas” (FORPROEX, 2007, p. 22). No

42 No documento “Institucionalização da extensão nas universidades públicas brasileiras: estudo compa-


rativo 1993/2004, produzido pelo FORPROEX em 2012, além desta meta, são citadas as 21 e 22. A 21 garante
a oferta de cursos de extensão para a educação continuada de adultos e a 22, a criação de conselhos com a
participação da comunidade (p. 53-54).
43 “A extensão universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa
de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre a universidade e a sociedade”, conforme o
Documento Final do I Encontro de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras, nov. 1987.
44 O catálogo cumpria a função de reunir e disponibilizar uma síntese de todos os projetos enviados à
PREC em formato físico, haja vista que não havia um sistema eletrônico de cadastro.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 37


ano do relatório da PREC, citado acima, o Fórum enviou questionário para todas
as universidades públicas (que na ocasião eram 72) a fim de levantar a adesão às
áreas temáticas, obtendo a resposta de que 72,8% havia adotado a classificação
e que 20,8% havia adotado parcialmente. Ou seja, apenas 6,4% não organizava a
sua produção pelas áreas temáticas ou não havia respondido o questionamento. A
UFPel estava no primeiro quantitativo, com a particularidade de uma organização
prévia que correspondia ao planejamento da política de extensão em voga. As-
sim, os projetos eram agrupados em quatro espécies: Atividade Artística Cultural
(AAC), Ação Comunitária (AC), Educação Não Formal e Informal (ENFI) e Presta-
ção de Serviço (PS). Tratava-se de uma remanescência da política de extensão de
1992, que estruturava suas ações em programas e subprogramas, cuja aplicabili-
dade estava se perdendo rapidamente diante das determinações que advinham
dos documentos gerados pelo FORPROEX.
Por isso é que no relatório de 2001, a Extensão, como cada uma das demais
dimensões, era tratada como um programa e, por sua vez, dentro desses, encon-
travam-se os subprogramas. A análise dos resultados dava-se pela avaliação das
ações de cada subprograma (UFPEL, 2001, p. 101-115). Assim, o Programa 5 (Ex-
tensão) possuía sete subprogramas que, se observados na sua sequência de apre-
sentação, indicam como nesse período de quatro anos o setor administrativo da
Extensão vai abandonando os traços de uma concepção anterior ao FORPROEX e
adotando os elementos definidores do conceito enunciado em 1987. Cabe ressal-
tar o último subprograma: Atualização da política de extensão da Universidade (p.
110-111). Havia uma ação correspondente: atualizar permanentemente a política
de extensão da Universidade para adequá-la às necessidades regionais e ao Plano
Nacional de Extensão. A avaliação informa que: “No início do período 1997/2001, a
Pró-Reitoria de Extensão e Cultura analisou os projetos das Unidades Acadêmicas
e Administrativas, tendo em vista o Plano Nacional de Extensão” (p. 111). Prova-
velmente, a referida análise tenha acontecido entre os anos de 1999 e 2000, por-
que o Plano Nacional de Extensão Universitária, na sua versão original, foi escrito
pela Coordenação Nacional do FORPROEX em 1998 e lançado em 199945. Ainda
consta na avaliação que: “O anteprojeto elaborado objetivou a adaptação da polí-
tica da Universidade à temática do Fórum Regional de Extensão e a implementa-
ção das linhas temáticas do Plano Nacional de Extensão.” (idem). Embora não se
tenha localizado o documento que esclarece sobre a temática do Fórum Regional,
a ação proposta se apresentava como um ato permanente, prevendo que a políti-
ca de extensão estaria sendo rediscutida, readequada e renovada, continuamente.
Era essa a percepção da época.
O fato é que a classificação dos projetos por espécie foi desabilitada e alguns
pontos deste relatório não retornariam no seguinte. No relatório de 2004, o capí-
tulo número 7, que se intitula “Extensão: novo modelo”, apresenta um subitem
(que não consta nos demais capítulos das outras Pró-Reitorias) intitulado “Fatos
muito relevantes” (p. 41). O primeiro dos quatro itens listados, observa que houve
reorganização da extensão sob atendimento ao Plano Nacional de Extensão Uni-
versitária e que os projetos passaram a ser classificados pelas oito áreas temáticas
da Extensão. O item seguinte, “Destaque Regional e Nacional” (p. 42), informa
que a UFPel havia aprovado dois projetos no Edital SESU/MEC/PROEX/2003. Essa
foi a primeira edição do financiamento nacional da extensão que daria origem
ao Programa de Extensão Universitária (ProExt), que teve o seu primeiro edital

45 Ver em: [Link]


extensao_universitaria_1_planonacional.pdf

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 38


aconteceu em 2007 e perdurou até o ano de 2016. Foi, sem dúvida, o melhor mo-
mento da Extensão no Brasil para as universidades públicas, sobretudo, as fede-
rais. Tão bom que ocupará o item seguinte deste capítulo. E, por último, o silen-
cioso fim deste Programa fez a extensão voltar ao estado de incerteza que mar-
cou grande parte da sua trajetória. A noite radiante da Cinderela terminou antes
das 12 badaladas. A essa ocorrência, deu-se interpretação específica, que fica no
aguardo, por ora. Estará, junto com outras conclusões, no item que encerra este
capítulo.
O relatório de 2005 reflete uma mudança de formato de administração ou de
registro das ações. Talvez, ambas as coisas. Trata-se do terceiro mandato da ges-
tão do Professor César Antônio Gonçalves Borges, que se estenderá, por reeleição
no Conselho Universitário, até 2012. Nesse período de oito anos, a Pró-Reitoria
de Extensão e Cultura foi dirigida por três pró-reitores46. Nesse relatório, a Exten-
são aparece no quadro do Programa “Universidade do Século XXI” que tinha como
objetivo: “Manter, ampliar, qualificar e avaliar o ensino superior” e como Projeto/
Atividade correlato: “Serviços à Comunidade por meio da Extensão Universitária”,
cujo indicador era o número de beneficiados (UFPEL, 2006, p. 18). Após, volta a ser
citada no item “Avaliação dos Resultados Alcançados”, no qual se lê:
Serviços à comunidade por meio da extensão universitária — a discre-
pância entre o previsto e o ocorrido deve-se ao fato da modificação da
proposta orçamentária, onde, inicialmente, a extensão possuía indica-
dores em quatro projetos/atividades: evento realizado, pessoa beneficia-
da, aluno matriculado e pessoa participante. A meta programada era tão
somente para a atividade pessoa beneficiada. A partir da unificação das
atividades, a meta física passou a ser calculada com base em todos os
projetos cadastrados na instituição. (p. 34)

Como a informação é sumária para todos os itens, entende-se que o preenchi-


mento do relatório seguiu determinado padrão47. Não se encontrou outro docu-
mento que permitisse ampliar os conteúdos referentes ao desempenho da Exten-
são neste ano. O modelo repete-se no ano seguinte, inclusive o quadro do pro-
grama, objetivo, projeto/atividade, apenas variando o número da meta executada
(UFPEL, 2007, p. 20). Quanto aos resultados alcançados, lê-se:
Serviços à comunidade por meio da extensão universitária — a exten-
são universitária, por ser uma atividade diferenciada e não com números
estáticos, entre as demais metas da Instituição, o número de pessoas
beneficiadas sofre oscilações devido ao aumento de participação nos
projetos. No ano de 2006 a meta física prevista (900.000) foi superada
alcançando-se o número de 1.018.952 pessoas em função de diversos
eventos, tais como: Fenadoce, Salão de Extensão e Cultura e II Simpósio
Sul Rio-Grandense de Professores de Ciências e Matemática. (p. 37)

E diante das exígua documentação localizada, encerra-se o período que antece-


de os dois momentos, até então, mais importantes para a Extensão Universitária.

46 Vitor Hugo Borba Manzke (2005-2009) Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0044/2005; Luiz Ernani
Gonçalves Ávila (2009-2012) Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0032/2009 e Gilberto de Lima Garcias
(2012-2013) Portaria do Gabinete do Reitor UFPel no 0270/2012.
47 O relatório de 2005 encontra-se dentro de um processo (23110.000477/2006-47), intitulado Prestação
de Contas 2005.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 39


2.3 Reuni e Proext (2007 a 2015)
É possível que 2007 tenha sido um ano para ser lembrado na história da
educação no Brasil. Até mesmo, na trajetória da Extensão Universitária. Em 24 de
abril, como uma das ações do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), foi
instituído o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Uni-
versidades Federais (Reuni) por meio do Decreto nº 6.096. Os objetivos eram de:
garantir às universidades as condições necessárias para a ampliação do
acesso e permanência na educação superior; assegurar a qualidade por
meio de inovações acadêmicas; promover a articulação entre os diferen-
tes níveis de ensino, integrando a graduação, a pós-graduação, a edu-
cação básica e a educação profissional e tecnológica; e otimizar o apro-
veitamento dos recursos humanos e da infraestrutura das instituições
federais de educação superior. (MEC, 2009, p. 3)

A UFPel estava entre as 21 universidades (das 54 então existentes) contempla-


das na primeira chamada para implantação do Programa no início de 2008, com
conclusão prevista até 2012. Os projetos apresentados pelas universidades deve-
riam atender as metas gerais, a saber: aumento de vagas em cursos de gradua-
ção, sobretudo noturnos; desenvolvimento de inovações pedagógicas; combate à
evasão; adoção de estratégias para permanência do aluno vulnerável. Em atenção
a essa última meta, foi instituído o Programa Nacional de Assistência Estudantil
(PNAEs) ainda em dezembro de 2007, com vistas a subsidiar alimentação, trans-
porte, moradia, saúde, cultura, esporte, inclusão digital e serviço de creche. O im-
pacto das ações para o alcance das metas previa a contratação de novos docentes
e técnicos, realização de obras e melhoria da infraestrutura física, expansão do
número de campi e bolsas de ensino. Concomitante ao Reuni, o Programa de Ex-
pansão da Rede Federal de Educação Superior, iniciado em 2003, que objetivava a
interiorização das universidades através da implantação dos campi em municípios
distantes da sede, propiciou o surgimento de universidades, tal como se observa
na Figura 2.

Figura 2: Gráfico
que registra o
aumento do número
de universidades
federais no período
entre 2001 e 2010.
Fonte: Página do
Reuni - [Link]
[Link]/expansao

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 40


Uma breve busca por textos publicados com estudos sobre os resultados do
Reuni, redigidos após 2012, revela críticas de diversas ordens que desmotivam
qualquer análise que se possa fazer do cenário resultante do investimento volu-
moso, sob todos os aspectos, feito48. Poucos, entre as leituras realizadas, discor-
dam ou minimizam a importância dos objetivos do Programa, sobretudo o propó-
sito de reduzir a evasão, aumentar vagas e propiciar ensino superior a uma parte
grande da população brasileira jovem, alijada desse nível de educação formal.
Contudo, frente à magnitude do Programa, coloca-se o largo espectro de proble-
mas que se evidenciaram nos projetos apresentados pelas universidades. Há de se
destacar que a capacidade de compreender o desafio, a competência para diag-
nosticar a sua realidade e a habilidade para propor um planejamento voltado, de
fato, à solução dos seus problemas e ao cumprimento das metas do programa, foi
o que determinou o melhor ou pior aproveitamento dos recursos e os resultados
mais ou menos exitosos. Os planejamentos sem um bom diagnóstico podem ter,
inclusive, gerado problemas posteriores, como por exemplo, a criação de cursos
sem detalhamento das reais possibilidades de funcionamento ou até de previsão
de público.
Pela enormidade do tema, evitou-se qualquer análise desse macroprograma,
embora se saiba do impacto que teve sobre muitos aspectos das universidades
federais. Portanto, optou-se por falar apenas dos reflexos mais evidentes que in-
cidiram sobre a extensão. O foco deste comentário recai apenas nos favoráveis.
Destaca-se que o aumento do corpo docente e técnico das instituições renovou e
reforçou a proposição de novos projetos, impactando no número de registros. Na
UFPel, o Sistema de Informação da Extensão (SIEX)49 foi implantado em 2007 e a
partir desse ano, a Divisão de Planejamento e Apoio Técnico da PREC não aceitou
mais o registro de projetos e de relatórios gerados fora do Sistema (PREC, 2007,
p. 9). Assim, o registro do aumento dos projetos e outros dados, foi evidenciado
pelos relatórios gerenciais que o Sistema oferecia.
O aumento na oferta de cursos e vagas também favoreceu a Extensão. No-
vos cursos ampliaram o espectro de atuação da universidade, em especial, com
o ingresso de um maior número de alunos em diferentes áreas do conhecimento.
Desse modo, aumentou a participação de estudantes nas ações extensionistas.
Também, o surgimento dos novos cursos acabou gerando mais espaços de traba-
lho: ateliers, laboratórios, núcleos e outros que favoreceram a proposição de mais
projetos de pesquisa e de extensão. Concomitante à infraestrutura física, oportu-
nizou-se a aquisição de equipamentos que, igualmente, contribuíram para a ocor-
rência de novas propostas.
Segundo a universidade, o conjunto de fatores descritos anteriormente foi me-
lhor e mais intensamente articulado. No entanto, sem um estudo aprofundado e
específico em cada instituição não é possível aferir os impactos sobre a extensão,

48 Embora não se tenha referido nenhum dos textos lidos, aqui se registra uma referência que quanti-
fica indicadores para analisar os índices de sucesso do atingimento das metas no período: MOURA, M. A. P.;
PASSOS, G. O.. Avaliação do alcance da meta global do Reuni pelas universidades federais medida pelos
indicadores de desempenho estabelecido pelo TCU. Disponível em: [Link]
pdf2015/19180_8591.pdf
49 O Sistema de Informação em Extensão Universitária (SIEX) foi desenvolvido pela parceria do Fórum
de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (FORPROEX) com a Universidade Federal
de Mato Grosso do Sul (UFMS). A finalidade do Sistema é permitir o registro e acompanhamento on-line de
ações de extensão. Do SIEX, originou-se o SIGProj, sob coordenação do MEC e foi utilizado para registro das
propostas nos Editais ProExt.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 41


embora o aumento no registro de projetos seja uma evidência. A empiria, no en-
tanto, informa que a convergência desses fatores foi um estímulo moderado, mas
concreto.
Porém, o grande fator de crescimento que marcou os anos de 2007 a 2015 na
trajetória da extensão universitária no Brasil e na UFPel foi o Programa de Exten-
são Universitária (ProExt), cujo principal objetivo, a partir de 2007, foi o de apoiar
programas e projetos voltados para o melhor cumprimento do conceito de exten-
são proposto pelo FORPROEX e que tivessem como finalidade a inclusão social.
Na publicação do FORPROEX, sobre a Política Nacional de Extensão Universi-
tária, há indicação de que os investimentos do Governo Federal, a partir do MEC,
na Extensão foram aferíveis em programas do quais dois se destacam: o já referido
ProExt e o Programa de Educação Tutorial - PET/Conexões de Saberes (FORPRO-
EX, 2012). Esse segundo foi apresentado pela Secretaria de Educação Continuada,
Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) em 2005, em parceria com a Se-
cretaria de Educação Superior (SESU). Em 2006, é instituído pela Portaria do MEC
no 1, de 17 de maio, na qual se lê que o seu objetivo é “apoiar projetos inovadores
das instituições federais de ensino superior (IFES) voltados a assegurar a perma-
nência dos estudantes oriundos de espaços populares”. Atualmente, a Portaria
que regulamenta o Programa de Educação Tutorial (no 343, de 24 de abril de 2013)
é bem específica quanto a vinculação do Programa à Pró-Reitoria de Graduação
ou órgão equivalente, haja vista os seus objetivos centrais, iniciando pelo fato de
que devem buscar “introduzir novas práticas pedagógicas na graduação” (p.24).
Portanto, não compete, apesar da citação feita no documento do FORPROEX,
abordar esse Programa no texto em curso.
Voltando ao ProExt, como já dito no início deste capítulo, a dissertação de Silva
(2012) aborda o programa até o ano de 2012, quando concluiu o seu trabalho. Reu-
nindo dados disponíveis na ocasião, em fontes oficiais, a autora informa sobre o
financiamento de cada edital, esclarecendo os temas de interesse para o MEC, as
mudanças de um edital para o outro e os critérios que elegiam as propostas inscri-
tas. Indica-se a leitura do texto.
A partir desse ano, ainda foram lançados mais quatro editais: 2013, 2014, 2015
e 2016. No edital de 2013, além do Ministério da Educação, estavam envolvidos
mais onze ministérios50, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(IPHAN) e três Secretarias51. Nesse edital poderiam participar Universidades Fe-
derais, Estaduais e Municipais, além dos Institutos Federais de Educação, Ciência
e Tecnologia. As IFEs concorriam ao financiamento de 50 mil reais por projeto e
150 mil por programa, com um limite de submissão de dois projetos e dois progra-
mas em cada linha temática, ou seja, até 64 propostas. As linhas temáticas, além
dos critérios compartilhados, poderiam solicitar o atendimento a determinadas
políticas que eram informadas nas condições de participação. As propostas eram
avaliadas em 12 quesitos, sendo que o não atendimento ao tema era eliminatório.
Dos demais, o que tinha maior peso era a natureza acadêmica, seguido da relação
com a sociedade. Nesse edital, o prazo para desenvolvimento das propostas era
de 12 meses.

50 Ministério da Cultura, Ministério da Integração Nacional, Ministério da Justiça, Ministério da Pesca


e Aquicultura, Ministério da Saúde, Ministério das Cidades, Ministério das Comunicações, Ministério do De-
senvolvimento Agrário, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério do Trabalho e
Emprego.
51 Secretaria de Direitos Humanos, Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Secretaria
de Políticas para as Mulheres.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 42


Em 2013, o MEC disponibilizou junto com o edital um manual que orientava
professores, avaliadores, parceiros e pró-reitores sobre os temas atinentes a cada
um. A partir deste edital os parceiros deveriam, obrigatoriamente, fornecer um
documento de anuência e concordância com o projeto submetido. Também, sobre
a pontuação, inseriu-se outro item eliminatório: adequação orçamentária. Os par-
ceiros repetiram-se, com o acréscimo da Secretaria Geral da Presidência. Também
aumentou o número de propostas possíveis de serem submetidas por cada IES
(41 projetos e 40 programas). Mantiveram-se os valores a serem concedidos por
projetos e programas. Igualmente, manteve-se o prazo de 12 meses de vigência.
Em 2014, a administração da PREC desenvolveu um estudo de avaliação do de-
sempenho da participação da UFPel no edital de 2015. Importante esclarecer que o
ano do edital era o de vigência e não o de concorrência, que era sempre o anterior.
O resultado foi publicado na Revista Expressa Extensão (2014). O objetivo do estu-
do foi o de verificar o êxito na aprovação de programas e projetos com a finalidade
de otimizar os aspectos que levaram ao bom resultado e identificar os problemas
que impediram que o resultado fosse ainda melhor. Para tanto, primeiramente foi
feita uma análise das condições apresentadas no Edital, destacando as mudanças
ocorridas em relação ao anterior. O texto destaca que embora o número de mi-
nistérios, secretarias e autarquias que aportavam recursos ao edital, como parcei-
ros, tenha se mantido, o número de linhas havia diminuído de 20 para 19, gerando
consequência quanto ao número de projetos e programas que cada instituição po-
deria submeter. Três outros itens foram alterados: 1) a inclusão das universidades
comunitárias, 2) o aumento dos valores a serem concedidos tanto para projetos
como programas e 3) a execução dos programas em 24 meses.
Os dois primeiros itens impactaram na concorrência porque resultaram em sig-
nificativo aumento no número de propostas apresentadas e diminuição do núme-
ro de aprovadas com recurso. Para demonstrar o resultado em dados percentuais,
foi elaborada uma tabela comparativa com os resultados desse edital com o do
ano anterior, na qual se vê que projetos e programas aprovaram, respectivamen-
te, 30% e 41% das submissões inscritas e que no de 2015 foram 23% e 18%. Outro
indicador do acirramento da concorrência foi a nota do último projeto e programa
aprovado em cada linha temática52. A tabela que apresenta esses dados também
aponta em quais linhas a disputa era mais acirrada. As duas últimas tabelas do
estudo apresentam o ranking das instituições que mais captaram recursos no Edi-
tal ProExt 2015, tanto no cenário nacional como região sul. No cenário nacional,
a UFPel ocupou o sétimo lugar e no cenário regional, o segundo. Importante di-
zer que, na tabela do regional, todas as instituições que captaram recurso foram
listadas. Dentre essas 20, havia cinco estaduais, dois institutos federais e quatro
comunitárias. Metade das contempladas, foram as federais. O que o estudo deixa
claro é que havia grande competência na UFPel para a formulação de propostas. O
estudo não se dirigiu às dificuldades de realização dos projetos e programas, que
acabavam se deparando com a dificuldade administrativa para lidar com a execu-
ção do recurso. Este fator, não resolvido de um ano para o outro, desanimou vários
coordenadores que, talvez, em editais subsequentes, não viessem a submeter no-
vas propostas. Se tal fato acontecesse, em alguns anos a UFPel deixaria o lugar tão
honrosamente conquistado no ranking de 2015, justamente porque a comunidade
extensionista não é numerosa.

52 Este é um assunto que, embora não tenha sido tratado no presente texto, merece atenção. Os editais
ProExt não inscreveram projetos em áreas e sim em linhas temáticas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 43


No entanto, antes que isso pudesse acontecer, os ventos da mudança sopraram
novamente sobre o ensino superior no Brasil. O edital de 2016 já anunciava, pela
insegurança no repasse dos recursos, que as fontes dos investimentos estavam
secando, que os interesses estavam mudando de lugar, que os conflitos na políti-
ca nacional, em grande parte expressados no processo de cassação do mandato
da então Presidente Dilma Rousseff, já dirigiam o seu poder destrutivo aos níveis
mais vulneráveis, como sempre. O edital seguinte, de 2017, já no Governo interino
assumido pelo vice-presidente Michel Temer, tornou-se uma promessa não cum-
prida. A minuta do edital, lançado sempre no ano anterior, estagnou no MEC e os
esforços do FORPROEX e das próprias universidades, em fazê-la andar foram em
vão. Não há morte sem corpo. Há sumiço. O edital ProExt, em analogia ao dito,
não morreu, simplesmente sumiu, sob discreta indiferença da nova gestão minis-
terial da educação brasileira. Para os que acreditam em sinais, tratava-se de um
prenúncio. O pior estava por vir.

2.4 A Extensão no PDI e no PDU (2016 a 2020)


Em 2015, a UFPel disponibilizou o documento chamado Plano de Desenvolvi-
mento Institucional53, elaborado para o período de 2015-202054. O período da vi-
gência de cinco anos é determinado na Resolução MEC/CNE/CES no 3 de 14 de
outubro de 2010. A função do documento é estabelecer o planejamento estratégi-
co da instituição a partir da sua missão, diretrizes pedagógicas e estrutura, estabe-
lecendo o que deve ser desenvolvido no prazo para cumprir as metas propostas. O
documento deve ser construído em observação a sete eixos temáticos, dos quais
o último é o conjunto dos Projetos Pedagógicos dos cursos para o primeiro ano
de funcionamento do PDI, que devem ser anexados, e o primeiro é o perfil institu-
cional, dentro do qual deve constar a Política de Ensino e Políticas de Extensão e
Pesquisa (são dois itens separados).
O PDI da UFPel apresenta os objetivos específicos de cada uma das três dimen-
sões, que expressam, de modo geral, as metas dos objetivos estratégicos da ins-
tituição. Assim, compete ao PDI estabelecer os princípios da política institucional
para que cada gestão possa propor o seu programa partindo desses. Entende-se,
portanto, que os objetivos específicos e ações em cada um dos cinco temas apre-
sentados no documento, constituem parte do núcleo da política institucional,
competindo a cada gestão elaborar os meios para atingir as metas. A grande van-
tagem do PDI é manter a convergência das ações objetivadas para o melhor alcan-
ce das metas, que definem a missão e personalidade de cada IES. Desse modo,
extingue-se a necessidade de uma política por setor que, via de regra, entende-se
mais como uma política de gestão e afirma-se o plano de desenvolvimento de
cada unidade, acadêmica ou administrativa, como o documento que especifica o
modo de atendimento ao PDI.
Antes da construção do PDI havia, ainda em vigência, a Política de Extensão
proposta e aprovada pelo COCEPE em 1992 e que já foi citada neste capítulo.

53 O PDI é um dos documentos que integra o processo avaliativo das IES para credenciamento ou re-
credenciamento das instituições junto ao MEC e, portanto, contempla o Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Superior (SINAES). Há um conjunto de leis, decretos, portarias, resoluções e pareceres que orien-
tam a elaboração do documento. Embora o MEC permita que cada instituição seja livre quanto à constru-
ção do documento, há orientação específica sobre eixos temáticos, anexos e formato, sobretudo das metas
institucionais.
54 Aprovado pela Resolução do Consun UFPel no 13, de 10 de novembro de 2015.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 44


Observa-se como a formulação do PDI 2015-2020 foi atenciosa em relação a ela,
assim como foi em relação aos documentos mais recentes do FORPROEX55.
Na dissertação de Silva (2012), há um subcapítulo que discorre sobre a Política
de Extensão na UFPel (p. 116-121) e que relata a formação de um grupo de traba-
lho, cujo tema foi política e que tinha por finalidade “debater sobre a proposta de
política de extensão da Instituição” (p. 120). No item seguinte, o resultado do tra-
balho deste GT é apresentado na forma de uma proposta (p. 121-127). Nos Anexos
(Anexo C), a autora inclui a proposta, datada de 10 de dezembro de 2010. A autora
informa que a proposta ainda não havia sido formalizada e como não foi após, o
conhecimento que se tem dessa é através da autora. Não se faz qualquer análise
da referida proposta, fato que só poderia ocorrer dentro de um estudo específico.
No entanto, observou-se que o documento indica uma nova denominação para o
setor administrativo que passaria a se designar como Pró-Reitoria de Integração e
Desenvolvimento Social.
Todas as discussões pertencem ao seu tempo e, provavelmente, essa que gerou
a proposta de uma nova política de extensão, também. No mesmo mês e ano, a
Câmara dos Deputados aprovava o novo Plano Nacional de Educação para o perío-
do 2011-2020, que tramitaria durante quatro anos no Congresso Nacional, vindo a
ser aprovado para o período de 2014-202456. Nele consta a Estratégia 12.7 da Meta
12, que se apresentou como a mudança radical no processo de institucionalização
da Extensão. Este será o assunto do próximo capítulo, portanto, cabe aqui apenas
sublinhá-lo.
Do PDI destaca-se entre os objetivos comuns ao Ensino, Pesquisa e Extensão, o
fortalecimento da indissociabilidade entre essas dimensões (p. 12). Como já dito
antes, é o maior desafio que as IES precisam enfrentar para atingir uma mudan-
ça essencial, qual seja, a de um novo modelo de produção de conhecimento. Na
UFPel, o esforço conjugado para obter um caminho em direção a essa meta foi
o estudo para implantação no Sistema Integrado de Gestão Acadêmica e Admi-
nistrativa (Cobalto) do módulo Projetos Unificados. Ainda em 2015, foi aprovada
no COCEPE a Resolução no 10, que instituiu o Regulamento Geral de Programas
e Projetos de Ensino, Pesquisa e Extensão na UFPel. O Artigo 2o do documento
explicita que tais atividades devem estar em consonância com os documentos ba-
silares da Instituição, e ser, preferencialmente, interdisciplinar, promovendo a in-
dissociabilidade. Para construir uma nova base de compreensão de vínculos entre
as dimensões, o documento alude que as atividades a serem propostas possuem
ênfase (e não natureza) em uma das dimensões. Assim, um projeto com ênfase em
extensão pode apresentar, nele próprio, ações com ênfase em pesquisa, extensão
e ensino, simultaneamente.
O módulo Projetos Unificados foi sendo desenvolvido pelo setor de Tecnologia
da Informação da UFPel com o intuito de atender a Resolução. Foi sendo modela-
do para acompanhar a melhor compreensão de um conceito que buscou colocar
em prática a ideia de indissociabilidade e que, para tanto, apresentou-se, primei-
ramente, no formato de registro das atividades de extensão.
Como pioneira para a construção e uso do módulo, a Extensão propôs-se a en-
cerrar o registro e acompanhamento no SIEX e migrar para o Cobalto, o que efe-
tivamente ocorreu a partir de janeiro de 2017, quando só foi possível o registro de

55 Avaliação da Extensão (2001); Indissociabilidade Ensino-pesquisa-extensão e a flexibilização curricular


(2006); Institucionalização da Extensão - estudo comparativo 1993-2004 (2007); Política Nacional de Extensão
Universitária (2012).
56 Lei no 13.005 de 26 de junho de 2014.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 45


programas, projetos e ações no novo Sistema. O ingresso de programas e projetos
com ênfase em ensino e pesquisa iniciou em 2019. O processo de unificar os re-
gistros, procedimentos e fluxo ainda se encontra em curso. Há, hoje, dois siste-
mas operando concomitantemente (Cobalto e SEI) e a tramitação da existência
dos projetos flui entre eles. Passaram-se quase três décadas entre o primeiro for-
mulário proposto (PREC, 1992, p. 25-26), que tramitava em formato físico, e o do
presente, cuja tramitação é exclusivamente em meio digital. Não se trata de um
fato local, havia em vigência o Plano Nacional de Informática, relacionado a Lei de
Informática no 7.232, de 29 de outubro de 1984 que determinou, entre outras coi-
sas, a lenta informatização dos serviços públicos. O início da mudança de cenário
só viria a ocorrer após 1992, com o fim do fechamento do Brasil a importados. Mas
esse é assunto para outro âmbito, tamanha as suas implicações.
No correr dos acontecimentos e convergências, a Extensão passou pela amplia-
ção do conceito de cultura e a conquista do reconhecimento do patrimônio cultu-
ral como forte expressão de sua competência. Na Política de Extensão da UFPel
aprovada em 1992, foram apresentados 14 programas para sua execução que da-
vam continuidade ao que já existia, com outro ordenamento e que apresentava
aspectos novos, oriundos do conceito de extensão do FORPROEXT (1987) e da
própria Carta Magna de 1988.
O Programa de Articulação e Promoção da Arte e Cultura possuía três dos seus
seis subprogramas voltados à preservação do patrimônio e da memória cultural.
Em Pelotas, essa era a época do II Plano Diretor (1980) que ao longo da década
havia provocado forte resistência e reação do mercado imobiliário e do setor de
construção na cidade. A UFPel, que havia participado da construção desse Plano
através de alguns dos seus professores, precisava, notoriamente, assumir a de-
fesa do patrimônio. E, de fato, em termos de produção acadêmica essa defesa
iria crescer e tomar forma no surgimento de cursos em nível de pós-graduação57,
núcleos de pesquisa e extensão e vários projetos de ensino, pesquisa e extensão
que atuaram sistematicamente, com os bens patrimoniais da cidade, da região e
do Estado58. Eram subprogramas, dentro de um programa vinculado a um Depar-
tamento (DART) da PREC, cuja principal importância foi dar início a uma trajetória
institucional de reconhecimento do compromisso que a universidade deveria as-
sumir com a causa. No que tange ao desempenho administrativo, durante os anos
2000, vários bens edificados, alguns de elevado valor patrimonial foram adquiri-
dos pela UFPel59, dentre eles, exemplares do patrimônio industrial da cidade60. Na
dimensão específica da Extensão, o grande investimento é a passagem do Núcleo
de Patrimônio Cultural, instituído na Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvi-
mento, em 2013, para a PREC, em 2014, como um setor dentro da Coordenadoria

57 Curso de Especialização em Patrimônio Cultural – Conservação de Artefatos (1996), Curso de Espe-


cialização em Memória, Identidade e Cultura Material (2003), Curso de Museologia (2006), Programa de Pós-
-Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural nível de Mestrado (2006) e Doutorado (2013), Curso de
Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (2009), além de linhas de pesquisa em outros programas
de Pós-Graduação e Graduação.
58 Indica-se a leitura de: Oliveira, A.L.C.; Montagna, A.S.. Entre tramas: as ações do Núcleo de Estudos
de Arquitetura Brasileira e a preservação do patrimônio arquitetônico da industrialização no sul do Rio Grande
do Sul. IN MICHELON, F.F. (org.). O patrimônio industrial da Universidade Federal de Pelotas. Pelotas: Ed.
UFPel, 2019.
59 Verificar a relação dos principais bens em: MICHELON, F.F. (org.). Patrimônio cultural edificado da
Universidade Federal de Pelotas: primeiro estudo. Pelotas: Ed. UFPel, 2013.
60 Verificar a relação atualizada em: MICHELON, F.F. (org.). O patrimônio industrial da Universidade
Federal de Pelotas. Pelotas: Ed. UFPel, 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 46


de Comunidade e Cidadania. Em 2017, com o novo organograma da Administra-
ção Central da UFPel, é instituída a Coordenação de Patrimônio Cultural e Comu-
nidade61 e nela, criou-se a Rede de Museus da UFPel, resultado de uma proposta
advinda da comunidade interna de servidores que atuam nos museus, nos espaços
museológicos e em projetos da área. Alinhado à proposta, o Regimento da Rede
de Museus foi homologado no Consun em setembro do mesmo ano, estabelecen-
do-o como um órgão suplementar da PREC. A partir dele foi constituído o Conse-
lho Consultivo62 que atua junto com a coordenação na consecução das atividades,
em especial, de convergência dos setores museológicos existentes.
O Fórum social da UFPel foi regulamentado em 201663 como um “órgão de na-
tureza consultiva para assessoramento da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da
UFPel” e que tem como objetivo aproximar a Universidade da comunidade civil
organizada. A expansão do Fórum está prevista no PDI da UFPel, mas o fórum,
como tal, também está indicado na Política Nacional de Extensão Universitária
(2012). Ele é um meio para a consecução da interação dialógica, um espaço que
faz possível essa diretriz que define a Extensão, concretizando a “ação de mão
dupla: da Universidade para a sociedade, da sociedade para a Universidade” (FOR-
PROEX, 2012, p. 30). No entanto, a natureza participativa do Fórum não garan-
te que o diálogo produzirá o fato concreto da ação extensionista. De imediato,
encontraram-se outras instâncias para que a presença do Fórum Social pudesse
ser reconhecida. O Conselho de Extensão, que voltou a ser instituído e operar em
201764 incluiu na sua composição, representação do Fórum Social, o mesmo ocor-
reu com o Conselho do CineUFPel65. E, para que a extensão opere, a efetividade da
ação precisa ocorrer. É necessário outra instância na qual o resultado do diálogo
encontre aplicação para que as ações extensionistas ocorram.
Em 2018, vinculado à Coordenação de Extensão e Desenvolvimento Social foi
implantado o Programa de Desenvolvimento Social dos Municípios da Zonasul
(PDSMZonasul). É provável que seja, com diferentes roupagens ao longo dos tem-
pos, o programa mais antigo de Extensão na UFPel, haja vista que desde a déca-
da de 1970 o atendimento às áreas de baixo desenvolvimento social já estava no
foco dos macroprogramas de interiorização da universidade. Ao longo dos anos
de 1980, o Projeto Rondon estende sua função para além das missões em áreas de
interesse governamental, focando nas regiões mais desassistidas nas quais havia
universidades e nos anos de 1990, a Política de Extensão proposta levará a cabo o
Programa de Integração Comunitária (PREC, 1992) que estabelecerá dois subpro-
gramas para atendimento aos movimentos sociais, comunidades rurais e assen-
tados. O cenário dos anos 2000 descreve, tal como já foi apontado pela proposta
de nova Política de Extensão, formulada em 2010, para ações que favorecessem a
integração e o desenvolvimento sustentável.
O desenvolvimento sustentável passa a ser o tema premente de uma visão
de sociedade mais justa, iniciada no Brasil com a Conferência Rio 92 e revigora-
da, com outras perspectivas mais atuais com a Rio+20. Renovou-se, no Brasil, o

61 Resolução do Consun UFPel no 6, de 23 de junho de 2017.


62 Portaria do Gabinete do Reitor no 186, de 06 de fevereiro de 2018.
63 Resolução do Consun UFPel no 07, de 21 de julho de 2016, aprova o Regimento do Fórum Social da
UFPel.
64 Resolução do COCEPE UFPel no 09, de 30 de março de 2017, aprova o Regimento Interno do Conext/
UFPel.
65 Resoluções do Consun UFPel no 10, de 05 de julho de 2017.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 47


compromisso com o desenvolvimento sustentável. Os anos de investimento no
conceito balizador de novas relações internacionais culminaria com a Agenda
2030, em 2015, e com o documento que levou o esperançoso título: “Transforman-
do Nosso Mundo”. À época, o Brasil tinha como prioridade erradicar a fome e a
pobreza e, mais em alguns lugares e setores, menos em outros, contar com a força
prática que habita nas universidades para elaborar os modos de consecução dos
princípios da Agenda. É bem verdade que quando o PDSMZonasul surgiu, o cená-
rio político havia mudado. No entanto, não raro o passado pode ser um cais onde
ancorar o barco em momentos de tempestade. Espera-se que o futuro desenhe
um horizonte melhor, pelo qual se fará alguma coisa.
No presente, o PDSMZonasul aposta na mediação. Formalizou parceria com a
Associação dos Municípios da Zona Sul, que já foi parceira da UFPel em outros mo-
mentos e, via Fórum Social, aproxima projetos em curso com as demandas sociais
dos municípios associados em uma agenda de atividades que ampliou os campos
de atuação da extensão.
Compete, igualmente, mencionar a Cultura na UFPel que se apresenta mais
adiante em um capítulo específico. Mediante o histórico de proposição e levanta-
mento da construção do Plano de Cultura, também constante no PDI, talvez fique
evidente tanto o conceito ampliado de cultura, que transcende a cultura artística,
assim entendida nas três últimas décadas do século XX, como a sua força para o
fortalecimento de uma visão de local mais contributiva ao fortalecimento da cida-
dania. Sim, merece um capítulo para si.

Mutatis mutandis: Conclusão


O caminho é longo porque é lenta a caminhada. E não há como ser diferente. A
institucionalização da extensão na forma da indissociabilidade e da integralização
nos currículos, pressupõe uma profunda mudança de valores, não apenas pedagó-
gicos, mas institucionais. E a jornada não termina. Ainda hoje, alguns expressam o
desconhecimento do que vem a ser essa dimensão. Não estamos convencidos de
que o desconhecimento possa existir. Talvez, esse seja um termo equivocado para
o que realmente ocorre. No entanto, não fosse necessário falar sobre o assunto,
não haveria esse capítulo e livro. Não haveria uma extensa bibliografia sobre o
tema, nem uma obra já clássica, escrita por um dos educadores mais emblemá-
ticos desta nação66. Fazendo referência a parte de um documento, bem utilizado
neste estudo: “A História da extensão universitária no Brasil, conforme se pode
observar, é bastante rica em formulações e práticas e o perfil apresentado pelo
extensionismo, no momento atual, é o reflexo de toda uma trajetória anterior.”
(MEC, [1994], p. 6). Uma trajetória que não se esgotou, que é, simultaneamente,
antes e agora e que, longe de ser uma linha do tempo, onde os acontecimentos
ocorrem um após o outro, parece-se mais com uma trama na qual os fios das ocor-
rências tecem um tecido substancial, mas imprevisível. Portanto, não há consecu-
tividade no conceito de extensão. As coisas que eram antes, de algum modo, ainda
perseveram. Nem sempre é fácil sequer percebê-las. Outras, mudam. E, ainda ou-
tras, mais deléveis, sugerem não ter existido.
Ao longo do levantamento e leitura dos documentos, locais e nacionais, muitos
aspectos e fatos foram deixados de lado. Outros tantos sequer foram procurados,
ainda que se tenha ciência sobre eles. Não se deu evidência a nomes, não se tratou

66 “Extensão ou Comunicação”, ensaio de Paulo Freire escrito em 1969.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 48


de investimentos permanentes que ainda se mantêm, como a Revista Expressa
Extensão67, a primeira revista de extensão do Brasil. Não se destacou avanços e
mudanças nas gestões que se seguiram. Não se buscou na trajetória os empre-
endedores, inovadores, atores e papéis diversos. O que se queria saber era mui-
to simples. Ainda assim, as conclusões que se foram dando são periféricas à res-
posta procurada. São muitas, seguramente. Precisas, só algumas. Melhor, talvez
algumas.
Desejava-se saber se a Extensão na UFPel tinha uma personalidade própria,
conquistada ao longo dos anos ou se era uma resposta esperada aos estímulos e
desestímulos do cenário de políticas educacionais da nação. Esperava-se encon-
trar todas as evidências de que, mais ou menos intensamente, foi a Extensão o
veículo das vozes que se cruzavam de dentro para fora, de fora para dentro desta
Universidade, com o seu local: a cidade e a região. Era intenção firme encontrar
nos documentos as setas que informavam os caminhos que deveriam ser segui-
dos, cada vez que a realidade se transformava no plano da educação superior no
Brasil. Ao longo do caminho, surgiram mais perguntas. Encontram-se engaveta-
das, fora deste texto. Já basta de respostas que geram mais questões.
Um fato observado é o processo de expansão e esvaziamento que caracteri-
zou o setor administrativo da Extensão, desde sua origem. Quando implantada,
à Pró-Reitoria de Extensão (PRE) foram incorporados vários setores que estavam
dispersos na Universidade, a saber: CETREISUL, CRUTAC, Programa Campus
Avançado Cáceres, Centro de Teledifusão Educativa - CTE, Teatro Universitário,
Museu, Colônia de Férias e Coral. Em 1982, foi fundado o Centro de Tradições Gaú-
chas e vinculado à Extensão. Por volta desse ano surgem outros grupos musicais,
que também se vinculam. O setor de Estágios, que já existia desde a década ante-
rior, fazia parte do organograma da PRE. Nos anos seguintes, a Editora e Gráfica
e Rádio Cosmos foram fundadas, bem como o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo,
todos no âmbito da Extensão. Com o encerramento do Projeto Rondon, também
o Programa Campus Avançado Cáceres deixaria de existir. Na gestão que inicia em
1989, da primeira estrutura permanecerá a Editora e Gráfica e a Rádio Cosmos.
Os Museus são desvinculados da já então Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, em
1992. No período, alguns grupos musicais já estavam extintos, bem como CRUTAC
e CETREISUL. O Setor de Estágios já havia migrado para a Pró-Reitoria de Gradua-
ção. Foi, esse, um período de notório encolhimento da PREC, apesar do avanço no
campo da cultura. O período seguinte, novamente, foi de expansão com a criação
do Departamento de Intercâmbio e Programas Internacionais (DIPI) e a Coorde-
naria de Eventos, que abriria espaços de exposições. Em 2013, a Editora e Gráfica
e Rádio Federal FM (já havia trocado de nome) saem da PREC e são vinculadas ao
Gabinete do Vice-Reitor e, a Coordenadoria de Eventos, passa a integrar a Coorde-
nação de Comunicação Social. O DIPI é substituído pela Coordenação de Relações
Internacionais no novo organograma da UFPEL68, em 2013. Pode-se dizer que a
Extensão foi uma generosa incubadora de novos setores da Universidade.

67 A Expressa Extensão (EE) foi lançada em 1996, impressa e assim permaneceu até 2015, quando in-
gressou no Portal de Periódicos da UFPel, exclusivamente editada na Plataforma SEER. Consta no relatório de
2004 que “por decisão do Fórum Regional de Extensão do Sul (ela) foi adotada como órgão oficial da Extensão
para publicação dos Anais do SEURS” (UFPEL, 2004, p. 41). À título de comparação, a Revista Brasileira de
Extensão Universitária, publicada pelo FORPROEX em parceria com a Universidade Federal da Fronteira Sul,
teve sua primeira edição em dezembro de 2003. Após a EE, foi lançada em 1997, a Revista ParticipAção, do
Decanato de Extensão da UnB e em 1998, a Revista Em Extensão, da UFU. As demais, já surgem no século XXI.
68 Resolução do Consun UFPel no 04 de 23 de maio de 2013.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 49


A razão para o movimento desses setores são diversas: extinção por conta de
encerramento das fontes de financiamento, mudança de atividades, orientação
administrativa de novos gestores, especificação de funções em face do seu cresci-
mento e outros motivos. Essas são interpretações possíveis. Poucos documentos,
como o já muito mencionado “Extensão e Cultura na UFPel”(1992) registraram os
motivos. Não se observou uma relação direta de tais mudanças com o que ocorria
no cenário nacional. Pode ter havido, mas as fontes não esclarecem. Entrevistas
com os gestores e membros da equipe, na época, poderiam esclarecer, mas esta
não é função que este estudo tenha que cumprir.
Um fato, no entanto, é observável e deve ser registrado. Em 1992, quando a
UFPel tinha uma comunidade de servidores bem menor, a secretaria da PREC con-
tava com quatro servidores. Ao todo, estão listados 26 servidores e o Pró-Reitor.
Em 1998, estão listados 34 e o Pró-Reitor (na lista há contratados que não foram
somados nesse total). Em 2003, constam como recursos humanos da PREC 23 ser-
vidores, com o Pró-Reitor. Neste ano de 2020, a equipe total, com a Pró-reitora,
soma 14 servidores. O motivo da diminuição do quadro, em grande parte, é a per-
da dos setores. No entanto, isso não significa, em si, um caso particular da Exten-
são. Muitos outros setores que hoje suportam parte das atividades desenvolvidas
na PREC surgiram nos últimos anos. O avanço na informatização de fluxos e pro-
cessos também contribuiu para a diminuição do quadro.
Outro fato que foi observado na consulta às fontes é o quantitativo dos regis-
tros informados nos relatórios. Há diferenças curiosas que demandam atenção.
Nas primeiras décadas da Pró-Reitoria de Extensão, o registro das ações não pos-
suía um padrão específico. Uma apresentação poderia ser quantificada como uma
ação, no mesmo nível e quantitativo de um projeto. Conforme as definições foram
se dando, o ajuste foi calibrando estas diferenças. Com o advento dos sistemas
SIEX e Cobalto e, especialmente, da Resolução do COCEPE no 10/2015, os números
tornam-se mais compreensíveis e correspondem melhor (ainda que não perfeita-
mente) à realidade.
Na UFPel, os relatórios continuam informando que ainda há predominância de
cursos e prestação de serviço sobre outras modalidades de extensão. Vale à pena
a citação abaixo; tão atual parece, solicitando-se, no entanto, que o leitor observe
a data em que foi publicada:
Ainda hoje, em muitas IES, a prática predominante é a de cursos, de
modo bastante similar ao que se fazia na Universidade de São Paulo.
Sobrevivem as práticas de seminários, difusão de resultados de estudos
e pesquisas, consagrados por Lavras e Viçosa. Diminuiu a participação
quantitativa do estudante em ações extensionistas, mas, ainda assim,
é expressiva a sua participação em programas e projetos de extensão.
Encontram-se ainda muitas experiências de ação comunitária, muitas
ações de extensão cultural — como se praticava através do CPC. Luta-se
ainda pela institucionalização da extensão, a partir dos Departamentos
Acadêmicos, como na época da CODAE. (MEC, [1994], p. 6)

Seja qual for a trajetória, não se deve perder de vista as possibilidades que mar-
cam a existência e o sentido da extensão universitária, sobretudo aquela realizada
pelas IES públicas. A sua natureza transformadora advém, justamente, da ampli-
tude do que vem a ser o diálogo com quem está fora da universidade. Com uma na-
tural disposição para ir ao encontro dos diversos, a extensão articula o seu discurso
sempre no entendimento de que compete à instituição de ensino pública atuar
contra a injustiça social. Alimenta-se o sonho de uma sociedade melhor, portanto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 50


No entanto, os documentos e a trajetória aqui visitados deixam bem claro que
a extensão sofre limitações que afligem aqueles que a fazem em medidas dife-
rentes, conforme a força de fatores, sobretudo, externos. Na aparência, tais limi-
tadores parecem independentes, mas não são. A ausência de um financiamento
regular vindo através de um programa nacional acaba sendo o vetor das demais
limitações. Observando duas eras distintas, rapidamente se pode encontrar os va-
lidadores deste fato. Durante a vigência dos macroprogramas governamentais,
como o campus Avançado e Rondon, o financiamento alimentava uma extensão
que inclusive formalizava o estágio curricular de alguns cursos. Em outro momen-
to, mais glorioso pela motivação que alimentava os projetos: a inclusão social, ob-
servou-se o vigor da extensão financiada pelo ProExt. Os editais internos das EIS,
para selecionar as propostas que concorreriam em nível nacional, promoviam en-
tre os extensionistas a atenção para todos os aspectos que distinguem um projeto
com essência legítima de outro, que se apresenta com atendimento modesto às
diretrizes da extensão.
Em consequência da não constância do financiamento, a extensão apresenta-
-se limitada na sua institucionalização. Nas épocas de pouco ou nenhum finan-
ciamento, ela submerge na eletividade, sendo facilmente trocada por projetos de
ensino e pesquisa que prescindem, em muitos casos, do esforço de lidar com a
realidade social, diretamente e em diálogo. Extensão não é coisa fácil.
A eletividade acaba insurgindo na comunidade interna (às vezes, da própria ad-
ministração) o crivo da baixa legitimidade acadêmica da Extensão. Instituições re-
gidas continuamente por regramentos e normas institucionalizadas acabam con-
ferindo maior valor ao que é obrigatório. E isso vem a ser transferido, não inten-
cionalmente, do servidor, docente ou técnico de ensino ao estudante. Forma-se
um consenso, que impede a experimentação. Não raro, e aí está sua possibilidade
encantadora, a extensão torna-se um lugar lúdico, de criação e autoexpressão.
Mas, para isso, demanda ser vivida. E, para tanto, precisa ser proposta. Se falta
estímulo à proposição, poucos saberão que ela vale muito mais do que o financia-
mento que pode render. Destaca-se, ainda neste item, que não há no MEC uma
secretaria, departamento, comissão ou algo assim destinado à Extensão. Trata-se,
ela, de uma órfã.
Por fim, o último limitador, aqui elencado, advém da própria força imanente da
extensão, como se fosse o outro lado da moeda. É difícil para quem não a pratica,
entendê-la como uma função. A ausência de metodologias específicas, a flexibi-
lidade, a característica essencial da prática traduz-se em discursos sociais, que a
muitos soam como uma filosofia. Para alguns, vã filosofia.
E para encerrar, segue a última citação:
Os pró-reitores e equivalentes das IESP [Instituições de Ensino Superior
Públicas] do Estado do Rio de Janeiro encaminham para notação ao ple-
nário do Encontro Nacional de Pró-Reitores de Extensão das IESP, mo-
ção de repúdio à recente campanha de difamação das Universidades
Públicas, veiculada pela grande imprensa, que reflete interesses espúrios
privativistas, colocando em risco o ensino público e gratuito. (FORPRO-
EX, 1987, p. 6)

Esta nota consta no documento final do I Encontro dos Pró-reitores de Exten-


são das Universidades Públicas do Brasil, ocorrido nos dias 4 e 5 de novembro de
1987 que fundou o Fórum Nacional dos Pró-Reitores de Extensão das IFEs.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 51


As coisas mudam, algumas apenas de ocasião. No entanto, se permitido fosse
mudar o que deve ser mudado para propor um novo conceito à extensão universi-
tária, diríamos que ela poderia ser apenas chamada como o modo essencialmente
humano e humanitário de dizer a todos que a universidade existe, para além de
suas paredes, que consegue estar em qualquer lugar e que pode, se a ela for per-
mitido, mutatis mutandis, mudar o que deve ser mudado.
E, enquanto este texto se conclui, a realidade desafia-nos. Pode o sol brilhar, o
céu rimar com ele em luz e radiância e a natureza brindar o nosso confinamento,
que a poupa da presença ostensiva e opressiva da nossa espécie. E, em tal esta-
do, alguns de nós, conscientes da fragilidade humana, esperam que tudo passe
logo. Esse tudo, que em outros momentos, de outros modos ou quase do mesmo
(como no episódio do surto mundial de Influenza, em 1918), a humanidade já vi-
veu. Alguém dirá que é uma pandemia sem precedentes. Sabemos que não é. Os
que estudam a matéria, previam que isso voltaria, mais cedo ou mais tarde. Como
aqueles que estudam o movimento dos corpos celestes podem saber, que um dia,
mais cedo ou mais tarde, um deles encontrará este planeta que habitamos. E es-
crevo isso apenas para registrar o momento no qual este capítulo terminou.

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SOBRE A AUTORA cito Brasileiro na fronteira Brasil/Argentina durante a
década de1970. In Semina - Revista dos Pós Graduandos
Francisca Ferreira Michelon - Li- em História da UPF. v. 18, n. 3, p. 86-101, Dez 2019.
cenciada em Artes Visuais pela UFPel
e Doutora em História pela PUCRS. Agradecimento
Pró-Reitora de Extensão e Cultura da Ao Centro de Documentação (CEDOC) do Centro de Estudos e Inves-
UFPel no período de 2017-2020. E-mail: tigações em História da Educação UFPEL (CEIHE) pelo acesso aos Re-
[Link]@[Link]
latórios, Anuários e outros documentos que foram essenciais para o
desenvolvimento deste capítulo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº1 56


A INTEGRALIZAÇÃO
DA EXTENSÃO NA UFPEL:
CAMINHOS PARA A FORMAÇÃO
EXTENSIONISTA

Ana Carolina Oliveira Nogueira

A integralização da Extensão nos currículos dos cursos de graduação das ins-


tituições de ensino superior não é um tema recente. Ela se estabelece no cenário
nacional brasileiro em 9 de janeiro de 2001, com a aprovação do Plano Nacional de
Educação através da Lei nº 10.172. A meta 23 do plano objetivava assegurar que
10% do total de créditos obrigatórios para obtenção dos títulos de graduação fos-
sem destinados ao desenvolvimento de atividades extensionistas pelos discentes.
O percentual estipulado refere-se ao mínimo exigido para todos os currículos do
ensino superior. O documento como um todo reforça o compromisso essencial das
Instituições de Ensino Superior - IES com as três dimensões acadêmicas: o Ensino,
a Pesquisa e a Extensão. Entretanto, a meta citada, além de promover o desenvol-
vimento da Extensão, materializa o reconhecimento do Poder Público no que se
refere à relevância da Extensão Universitária como dimensão atuante e formativa
na constituição dos nossos futuros profissionais.
Tal conquista tem origem nas articulações e nos documentos elaborados pelo
Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Supe-
rior Brasileiras. Criado no ano de 1987, o FORPROEX é composto pelos Pró-Reito-
res de Extensão e titulares de órgãos similares das IES públicas de todo o país, que
se reúnem anualmente desde então. Em seu regimento nacional, caracterizam-se
como: “uma entidade voltada para a articulação e definição de políticas acadêmicas
de extensão, comprometida com a transformação social para o pleno exercício da
cidadania e o fortalecimento da democracia” (FORPROEX, 2010, p. 1).
Entre os documentos elaborados pelo FORPROEX que contribuíram para a
institucionalização da Extensão Universitária está o Plano Nacional de Extensão,
aprovado em 1998, que trazia em seu escopo a visão desta dimensão como “parte
indispensável do pensar e fazer universitário... como prática acadêmica que objetiva
interligar a universidade, em suas atividades de ensino e pesquisa, com as demandas
da sociedade” (FORPROEX, 1998, p. 5), reafirmando o papel social da universidade.
O trabalho realizado pelo FORPROEX seguiu seu curso e desenvolvimento
e, em 2012, aprovou a Política Nacional de Extensão Universitária, que, além de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 57


aprimorar o conceito de Extensão, estabelece diretrizes para orientar o planeja-
mento e a execução das atividades extensionistas.
O impacto da qualificação do Plano para Política Nacional de Extensão reverbe-
ra na Lei nº 13.005/2014, que revoga a Lei nº 10.172/2001 e institui um novo Plano
Nacional de Educação (PNE), para o decênio de 2014-2024, mantendo o disposto
na meta 23 agora como estratégia para a efetivação da meta 12. A estratégia 12.7
é descrita de forma objetiva, destacando a importância das atividades a serem de-
senvolvidas por meio de programas e projetos de Extensão, e aponta a preferência
por temas de relevância social:
12.7) assegurar, no mínimo, 10% (dez por cento) do total de créditos cur-
riculares exigidos para a graduação em programas e projetos de exten-
são universitária, orientando sua ação, prioritariamente, para áreas de
grande pertinência social; (BRASIL, 2014)

Havia até o momento, em 2014, apenas duas universidades brasileiras com


resoluções aprovadas e em processo de implantação: a Universidade Federal da
Bahia (UFBA) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A UFPel, que sem-
pre esteve em consonância com as orientações e políticas nacionais no que diz
respeito à Extensão, inicia então as discussões sobre a curricularização, termo uti-
lizado para o que hoje denominamos de integralização da Extensão. Para tanto, a
Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PREC) mobilizou um grupo entre seus servido-
res que estudou as resoluções das universidades mencionadas e convidou os então
Pró-Reitores de Extensão na época, os professores Adriano de Oliveira Sampaio da
UFBA e Pablo Cesar Benetti da UFRJ, a participarem de uma mesa redonda na 1ª
Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (SIEPE), realizada em 2015. Na
oportunidade, os docentes apresentaram, para diversos coordenadores dos cur-
sos de graduação da UFPel, como construíram e como estavam implementando a
curricularização em suas respectivas instituições.
No decorrer do processo ficou evidente que não se tratava de uma construção
que poderia ser feita apenas pela PREC, mas sim pela união e proposição das pró-
-reitorias acadêmicas. Desta forma, constituiu-se uma comissão composta por
membros da PREC, PRPPG (Atualmente, PRPPGI – Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-
-Graduação e Inovação) e PRG (na época Pró-Reitoria de Graduação, atualmente
PRE – Pró-Reitoria de Ensino). Esta comissão fez avanços significativos no que se
refere aos debates sobre a operacionalização da curricularização na universidade
e ao estudo do seu impacto nos projetos pedagógicos dos cursos, além de se pro-
por a organizar o documento base para a resolução que iria dispor sobre o regula-
mento da curricularização das atividades de extensão nos cursos de graduação da
UFPel.
O texto foi elaborado coletivamente a partir das discussões promovidas nas
reuniões realizadas com os coordenadores dos cursos e das câmaras de Extensão
das unidades, no período compreendido entre os meses de setembro a novem-
bro, tendo como resultado a aprovação da Resolução do Conselho Coordenador
do Ensino, da Pesquisa e da Extensão (COCEPE) nº 06, em 03 de março de 2016,
a qual estipulava um prazo de vinte e quatro meses para os cursos procederem à
alteração/adequação dos seus PPCs.
Em paralelo a todo esse processo, as pró-reitorias, em conjunto com o setor de
tecnologia da informação, planejavam e trabalhavam no desenvolvimento de um
novo módulo para o cadastro de projetos dentro do sistema acadêmico Cobalto.
A proposta do módulo era unificar o registro de todos os projetos acadêmicos,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 58


padronizando processos e otimizando os trâmites de aprovação, além de viabi-
lizar um cadastro que evidenciasse a indissociabilidade entre Ensino, Pesquisa e
Extensão. O módulo foi nomeado como Projetos Unificados e apresenta uma es-
trutura diferenciada, pois o registro das atividades é feito por meio de programas,
projetos e ações.
Os programas e projetos possuem uma ênfase que pode ser em Ensino, Pesqui-
sa ou Extensão, e as ações possuem uma natureza que também é elencada dentre
as três dimensões. A viabilidade de o cadastro evidenciar a indissociabilidade da
tríade está na possibilidade de um programa com uma determinada ênfase articu-
lar projetos distintos com ênfases distintas. Da mesma forma, é possível que um
projeto tenha ações de naturezas diferentes, como por exemplo, um projeto com
ênfase em Extensão que tenha ações de Extensão, Ensino e Pesquisa.
No intuito de regulamentar a nova dinâmica de registro e aprovação dos pro-
gramas e projetos, o COCEPE aprovou, em 19 de fevereiro de 2015, a Resolução nº
10 que ainda está vigente na universidade. No ano seguinte, a Portaria nº 925, de 8
de julho de 2016 constitui a Comissão Interdisciplinar de Projetos (CIP), composta
por representantes das três pró-reitorias acadêmicas e da Pró-Reitoria de Plane-
jamento e Desenvolvimento (PROPLAN), com a finalidade de realizar a análise
técnica preliminar dos projetos cadastrados no novo módulo.
Entretanto, é apenas em 2017 que o Projeto Unificado começa a operar. Inicial-
mente, trabalhava apenas com o cadastro de projetos com ênfase em Extensão.
Com isso, a PREC tornou-se pioneira na utilização do novo sistema de registro e
desativou sua antiga plataforma denominada SIEX (Sistema de Informação da Ex-
tensão). Prevendo um aumento nos registros extensionistas da universidade em
virtude da curricularização, a necessidade de um sistema mais operacional, dinâ-
mico e que contemplasse outras possibilidades como, por exemplo, um período
maior para o cadastro dos projetos, foi se tornando cada vez mais urgente.
Em decorrência, foram ofertadas pela PREC as primeiras capacitações referen-
tes ao novo sistema de registros e sua devida utilização.
O debate sobre a curricularização da Extensão tornou-se um tema frequente
nas IES, sendo pauta principal do Encontro da Regional Sul do FORPROEX, realiza-
do em março de 2017 na Universidade da Integração Latino-Americana (UNILA).
No mesmo mês a PREC organizou uma reunião entre os pró-reitores de Extensão
das universidades da região sul do Estado, que contou com a participação da Uni-
versidade Católica de Pelotas (UCPel), da Universidade Federal do Pampa (UNI-
PAMPA) e da Universidade Federal de Rio Grande (FURG). O objetivo da reunião
era firmar parcerias e adotar uma agenda para a troca de experiências entre as ins-
tituições sobre o andamento dos seus respectivos processos de curricularização, e
foi alcançado com êxito.
Diante de um novo cenário gerado pelos debates entre instituições e pela di-
nâmica inerente às atividades extensionistas, a Portaria nº 1345 de 06 de julho de
2017 constituiu uma nova comissão que reavaliaria as formas de aplicação da Re-
solução do COCEPE nº 06/2016, composta por representantes da PREC e da PRE.
No cenário nacional configurava-se o estudo de uma proposta de resolução a
ser estabelecida pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) visando normatizar as
diretrizes extensionistas e regimentar o disposto na estratégia 12.7 do PNE. O 42º
Encontro do FORPROEX abordou o assunto e elegeu um grupo de trabalho sobre
a curricularização da Extensão, do qual a PREC fez parte.
Em março de 2018, encerrado o prazo estipulado na Resolução nº 06/2016
para alteração/adequação dos PPCs, o COCEPE designa à PREC a incumbência de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 59


propor um novo prazo para que os cursos regularizem seus PPCs de modo a aten-
der o disposto na Lei nº 13.005/2014. A comissão encarregada de reavaliar a reso-
lução foi novamente atualizada mantendo o trabalho em conjunto com as duas
pró-reitorias.
No decorrer do ano, a PREC intensificou seus esforços em mais duas frentes
diretamente ligadas à curricularização da Extensão. A primeira foi a atuação da
CIP junto à Coordenação de Sistemas de Informação para o desenvolvimento dos
Projetos Unificados, pois o pleno funcionamento do sistema configura-se com um
fator imprescindível para o registro institucional e a regularização das atividades
extensionistas que subsidiarão a curricularização na universidade. A segunda foi a
Formação em Extensão que contou com oito encontros, quatro deles com temas
gerais referentes à pró-reitoria e os outros quatro com a temática específica sobre
a curricularização da Extensão na UFPel, estes realizados diretamente com cursos
Enfermagem e Odontologia, com o Centro de Engenharias e com os coordenado-
res dos cursos de bacharelado.
Os encontros referentes à pró-reitoria ocorreram a partir de demandas solici-
tadas por docentes e pela PRE para participar dos eventos de formação dos pro-
fessores ingressantes (Fig. 1 e 2). Nas quatro ocasiões, buscou-se dialogar com os
participantes sobre a Extensão e o seu papel na dimensão formativa na universida-
de, a concepção de Extensão na UFPel, as diretrizes extensionistas, as atribuições
da pró-reitoria, bem como formas de captação de recursos e encaminhamento de
propostas aos editais de bolsas de Iniciação à Extensão da PREC.

Figura 1 -
Apresentação
PREC em Evento
de Formação
dos Professores
Ingressantes,
24/04/2018.
Fonte: Acervo da
PREC.

Figura 2 -
Apresentação PREC,
29/06/2018.
Fonte: Acervo da
PREC.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 60


Os encontros referentes à curricularização da Extensão nos cursos de gradua-
ção da UFPel tinham como intuito esclarecer sobre o processo na universidade, ex-
por as formas de curricularização, sanar dúvidas e debater sobre as possibilidades
de evidenciar as atividades extensionistas nos PPCs dos cursos. A reunião com os
coordenadores dos cursos de bacharelado (Fig. 3) foi extremamente significativa,
pois contou com a presença de representantes da PRE que fizeram parte das co-
missões anteriores para a curricularização das atividades de extensão e também
com os representantes da comissão na época. Momentos de troca de ideias e de
surgimento de novas propostas para qualificar o processo marcaram o encontro.

Figura 3 -
Reunião com os
coordenadores
dos cursos de
bacharelado,
08/11/2018.
Fonte: Acervo da
PREC.

Concomitantemente ao trabalho desenvolvido pela PREC, a PRE encaminha-


va a proposta de Regulamento para o Ensino de Graduação na UFPel, aprovada
pelo COCEPE nos termos da Resolução nº 29, de 13 de setembro de 2018, configu-
rando-se como um dos documentos base para a curricularização da Extensão. No
mesmo período, a comissão de curricularização apresentou às entidades repre-
sentativas da comunidade acadêmica um quadro comparativo entre a Resolução
nº 06/2016 (que estava sendo revisada) e as modificações sugeridas pela comissão,
para facilitar as discussões e qualificar o texto da proposta de uma nova resolução.
No fechamento de um ano intenso de trabalho ocorre a aprovação de duas re-
soluções importantíssimas no mesmo dia. A Resolução do COCEPE nº 42, de 18 de
dezembro de 2018, revoga a Resolução nº 06/2016 e dispõe sobre o regulamento
da curricularrização da Extensão na UFPel, estipulando um novo prazo de mais 20
meses para alteração/adequação dos PPCs, com o texto revisado pela comissão
e qualificado pelo debate promovido com a comunidade universitária através de
seus representantes. A Resolução do CNE/CES nº 7, de 18 de dezembro de 2018,
dispõe sobre o conceito, as diretrizes, os princípios e os parâmetros para o plane-
jamento, registro e avaliação da Extensão.
A aprovação da última estabelece um marco no panorama nacional e na histó-
ria da Extensão Universitária. Após 30 anos de trabalho do FORPROEX, no esforço
de institucionalizar a Extensão, esta passa a ser uma política de Estado.
No ano seguinte, a concentração de esforços se fez presente entre as equipes
da PRE e da PREC. O intenso ritmo de trabalho continuou em 2019, resultando em
diversas ações que promoveram tanto a curricularização quanto a Formação em
Extensão desenvolvida na universidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 61


Figura 4 - Capa No mês de março, a PRE disponibilizou um documento orientador para a apre-
do Guia de sentação dos PPCs. As Diretrizes para Elaboração de Projeto Pedagógico de Curso
Integralização da
Extensão.
(PPC) da UFPel aumentou a lista dos documentos base da curricularização, e a co-
missão se reunia frequentemente para construir um guia que auxiliasse os Núcleos
Fonte: Acervo da
PREC.
Docentes Estruturantes (NDEs) e os coordenadores dos cursos em seus processos
de implementação da curricularização.
Nos primeiros dias de maio, a comissão disponibilizou o
referido guia agora com o termo curricularização atualizado
para integralização. O Guia de Integralização da Extensão
(Fig. 4) apresenta orientações sobre como formalizar a car-
ga horária em extensão no PPC, que posteriormente será
registrada no histórico dos alunos, esclarece as duas formas
previstas para a integralização na UFPel, detalhando os pro-
cedimentos, vantagens e desvantagens de cada uma das for-
mas, além de abordar temas pertinentes à compreensão do
processo de integralização como a sua fundamentação legal,
o seu histórico na UFPel, o conceito de Extensão Universitária
e os procedimentos para o registro das atividades extensio-
nistas no Cobalto.
O lançamento do guia ocorreu em um seminário promovi-
do pela PREC/PRE, nos dias 6, 7, 8 e 9 de maio, e contou com
a participação dos coordenadores de curso, membros dos
NDEs e demais interessados. O evento propiciou momentos
de diálogo e interação entre as pró-reitorias e os docentes.
Novas percepções e ideias foram estabelecidas, ratificando o
que foi anunciado na abertura do seminário sobre estarmos
em processo de construção da integralização da Extensão
nos currículos de graduação da UFPel. A publicação do guia
não implica na finalização do processo, pelo contrário, ape-
nas indica os procedimentos iniciais que poderão ser atuali-
zados ao longo do percurso. E assim ocorreu: após realizar
a avaliação do evento e compilar as dúvidas mais recorren-
tes apresentadas, a comissão de curricularização atualizou
o guia e elaborou um documento sobre dúvidas frequentes,
com perguntas e respostas, que foi disponibilizado no site da
PREC.
Por entender o estudante como um dos principais sujei-
tos do processo de integralização, em outubro do mesmo
ano, a PREC disponibiliza o Guia do Estudante Extensionista
(Fig. 5). No documento constam informações pertinentes à
Extensão Universitária, o seu desenvolvimento na nossa uni-
versidade e, como diferencial, o depoimento dos discentes
que fazem a Extensão acontecer na UFPel. Respondendo a
seguinte pergunta: “por que foi importante ter participado em
um projeto de extensão?”, os depoimentos cumpriram o pa-
Figura 5 - Capa do
Guia do Estudante pel de evidenciar a potencial transformador da vivência extensionista na formação
Extensionista da dos nossos alunos.
UFPel. Também deu ensejo a um foco para a formação em Extensão. Os estudantes
Fonte: Acervo da dos cursos de graduação e pós-graduação. Ao longo do ano, foram realizados um
PREC. total de 20 palestras/encontros de formação em Extensão e capacitações sobre o

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 62


módulo dos Projetos Unificados no Cobalto. O público presente em cada encontro
compreendeu os servidores de vários cursos e unidades da UFPel e os discentes
extensionistas.
No somatório desses encontros está, novamente, a participação no evento de
Formação para Professores Ingressantes e Formação Continuada de Professores
da UFPel, promovido pela PRE.

Figura 6 - Encontro
com os servidores
do Centro de Artes,
08/03/2019.
Fonte: Acervo da
PREC.

Figura 7 - Seminário
de Integralização
da Extensão,
06/05/2019.
Fonte: Acervo da
PREC.

As fotos das Figuras 6 e 7 registram alguns dos encontros promovidos. As ações


de formação em Extensão foram ampliadas em 2019, chegando a ter em sua agen-
da de dois a três encontros em determinados meses, distribuídos entre março e
novembro, conforme cronograma abaixo (Quadro 1) pautado por dia de realiza-
ção, tendo em vista que em casos como o seminário de integralização os partici-
pantes foram divididos em grupos menores para facilitar o diálogo, mas o conteú-
do desenvolvido foi o mesmo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 63


Quadro 1 - Cronograma 2019 para a Formação em Extensão.

Data Encontro/Capacitação
08/03/2019 Encontro com os servidores do Centro de Artes
14/03/2019 Capacitação sobre o sistema e procedimentos da Extensão no Centro de Artes
15/03/2019 Capacitação sobre o sistema e procedimentos da Extensão no Centro de Artes
26/03/2019 Encontro com os servidores do Centro de Engenharias
05/04/2019 Encontro com os servidores do Centro de Letras e Comunicação
12/04/2019 Encontro com os docentes do Curso de Conservação e Restauro
06/05/2019 Seminário de Integralização da Extensão nos Cursos de Graduação da UFPel  
07/05/2019 Seminário de Integralização da Extensão nos Cursos de Graduação da UFPel  
08/05/2019 Seminário de Integralização da Extensão nos Cursos de Graduação da UFPel  
09/05/2019 Seminário de Integralização da Extensão nos Cursos de Graduação da UFPel  
16/05/2019 Participação no Evento de Formação para Professores Ingressantes e Formação
Continuada de Professores da UFPel, promovido pela PRE
22/05/2019 Encontro com os discentes dos cursos de Design Gráfico e Design Digital
29/05/2019 Encontro com os docentes do Núcleo de Bacharelados
03/06/2019 Encontro com o Núcleo Docente Estruturante do curso de Terapia Ocupacional
27/08/2019 Encontro com os servidores do Centro de Ciências Químicas, Farmacêuticas e de
Alimentos
12/09/2019 Participação no Evento de Capacitação para os Diretores das Unidades Acadêmi-
cas, promovido pela CDP
17/10/2019 Participação no Evento de Formação para Professores Ingressantes e Formação
Continuada de Professores da UFPel, promovido pela PRE
18/10/2019 Capacitação para o CONEXT
25/10/2019 Encontro com os discentes extensionistas
18/11/2019 Capacitação para os servidores do Centro de Engenharias
Fonte: Acervo da PREC

Todo o processo envolvendo a curricularização e a capacitação para a utilização


do novo sistema de registro da Extensão demonstrou a importância da formação.
A referência aqui tomada é a formação em Extensão, que se difere da formação
extensionista por não se tratar apenas da vivência formativa em si, mas também
da reflexão sobre esta dimensão formativa e os caminhos percorridos para que sua
concepção e diretrizes fossem regulamentadas com uma política de Estado.
A dinâmica inerente às atividades extensionistas e suas especificidades favore-
cem o movimento constante pela busca do aperfeiçoamento e da compreensão
do seu conceito e diretrizes, aplicados às mais diversas situações presentes na nos-
sa realidade. A essência da Extensão está justamente no seu potencial transforma-
dor, da sociedade, da universidade, dos indivíduos que se propõem a vivenciá-la.
E esse potencial pode gerar uma retroalimentação em todo o processo, por isso a
importância da formação em Extensão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 64


Propiciar espaços de diálogo reflexivo sobre o pensar e o fazer Extensão sig-
nifica qualificar as atividades extensionistas desenvolvidas, e isso pode ser feito
através da formação em Extensão.
O relato apresentado não encerra com o desfecho da integralização da Exten-
são nos currículos de graduação da UFPel, tão pouco com o desfecho da formação
em Extensão. Ambas seguirão ativas em 2020 e o indício de que isso irá ocorrer re-
side nos seguintes fatos: os primeiros PPCs regularizados já foram encaminhados,
ainda no final de 2019, o módulo dos Projetos Unificados também, em dezembro
de 2019, cumpriu com a sua proposta inicial, liberando o cadastro de projetos de
Ensino e Pesquisa que aos poucos estão migrando para o novo sistema e as ca-
pacitações estão sendo cada vez mais solicitadas pelas unidades e por diferentes
setores da universidade.
Assim, o comprometimento da PREC com a formação em Extensão e a integra-
lização segue junto ao processo. Novas ações estão sendo planejadas e uma nova
agenda está sendo montada. Então, seguimos!
Temos muito chão e transformação pela frente.

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files/2019/05/Guia-de-integraliza%C3%A7%C3%[Link]. Acesso em: 02 mar. 2020.

MICHELON, F. F. et al. Guia do Estudante Extensionista. Pelotas: Pró-Reitoria de


Extensão e Cultura da UFPel, 2019. Disponível em: [Link]
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Conselho Coordenador do Ensino da


Pesquisa e da Extensão. Resolução nº 10/2015, de 19 de fevereiro de 2015. Dis-
põe sobre o Regulamento Geral dos Programas e Projetos de Ensino, Pesquisa
e Extensão da Universidade Federal de Pelotas - UFPEL. Pelotas: Conselho Co-
ordenador do Ensino da Pesquisa e da Extensão, 2018. Disponível em: https://
[Link]/scs/files/2015/03/Resolu%C3%A7%C3%[Link]. Acesso
em: 03 mar. 2020.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Conselho Coordenador do Ensino da


Pesquisa e da Extensão. Resolução nº 06/2016, de 03 de março de 2016. Dispõe
sobre o Regulamento da curricularização das atividades de extensão nos cursos
de Graduação da Universidade Federal de Pelotas - UFPEL. Pelotas: Conselho
Coordenador do Ensino da Pesquisa e da Extensão, 2016. Disponível em: https://
[Link]/scs/files/2016/03/Resolu%C3%A7%C3%A3o-COCEPE-062016.
pdf. Acesso em: 03 mar. 2020.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Gabinete do Reitor. Portaria nº 925/2016,


de 08 de julho de 2016. Pelotas: Gabinete do Reitor, 2016. Disponível em: [Link]
[Link]/portarias/arquivos/0925_2016.pdf. Acesso em: 03 mar. 2020.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Gabinete do Reitor. Portaria nº 1345/2017,


de 06 de julho de 2017. Pelotas: Gabinete do Reitor, 2017. Disponível em: [Link]
[Link]/portarias/arquivos/1345_2017.pdf. Acesso em: 03 mar. 2020.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Conselho Coor-


denador do Ensino da Pesquisa e da Extensão. Resolução
SOBRE A AUTORA nº 29/2018, de 13 de setembro de 2018. Dispõe sobre o
Ana Carolina Oliveira Nogueira – Regulamento do Ensino de Graduação na UFPel. Pelotas:
Licenciada em Matemática pela UFPel. Conselho Coordenador do Ensino da Pesquisa e da Ex-
Mestra em Educação pela UFPel. Téc- tensão, 2018. Disponível em: [Link]
nica Administrativa Chefe do Núcleo files/2018/09/SEI_Resolu%C3%A7%C3%A3o-29.2018-Re-
de Formação, Registro e Acompanha- gulamento-Ensino-de-Gradua%C3%A7%C3%[Link].
mento da PREC. Membro da Comissão Acesso em: 03 mar. 2020.
Interdisciplinar de Projetos e da Comis-
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Conselho Coor-
são de Curricularização da Extensão
denador do Ensino da Pesquisa e da Extensão. Resolução
da UFPel. Coordenadora do projeto de
nº 42/2018, de 18 de dezembro de 2018. Dispõe sobre o
Extensão UNAPI Ativa: Ações voltadas
Regulamento da curricularização das atividades de ex-
à qualidade de vida após os 60 anos,
tensão nos cursos de Graduação da Universidade Federal
vinculado ao Programa Universidade
de Pelotas - UFPEL. Pelotas: Conselho Coordenador do
Aberta Para Idosos (UNAPI). E-mail:
Ensino da Pesquisa e da Extensão, 2018. Disponível em:
anaconogueira@[Link]
[Link]
[Link]. Acesso em: 03 mar. 2020.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº2 66


PLANO DE CULTURA DA UFPEL:
POLÍTICAS INTEGRADORAS,
DIREITO DE TODOS

João Fernando Igansi Nunes

Introdução
A Pró-Reitoria de Extensão e Cultura1, desde 2019, através da sua Coordena-
doria de Arte e Inclusão, direciona seus esforços para a construção do Plano de
Cultura da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL)2 e, para tanto, num recorte
de aproximadamente três décadas, investiga o tratamento dado à dimensão da
cultura no âmbito universitário.
Construir um documento da natureza que um planejamento à cultura requer,
o qual envolve gestão pública dentro das políticas de administração horizontal
e democrática defendida e operada pela Gestão 2017-2020 na UFPEL, demanda
operar-se no diálogo equânime entre sociedade e universidade, com atenção ao
histórico, mesmo que parcial, de suas práticas interativas.
De maneira colaborativa, contemplando a participação efetiva da comunidade
tanto interna quanto externa à universidade, tal planejamento deve levar em con-
ta estratégias capazes de aproximar as realidades acadêmicas com seu entorno,
observando as seguintes instruções: Plano Nacional de Cultura (PNC)3 do Minis-
tério da Cidadania, Objetivos Específicos e Ações do Plano de Desenvolvimento
Institucional (PDI)4 e as perspectivas extensionistas da Pró-Reitoria de Extensão e
Cultura (PREC).
Consonante com o Fórum de Pró-Reitores de Extensão (Forproext), confor-
me registrado em seu site5, a Extensão na UFPel objetiva promover a interação
dialógica e a integração transformadora entre a Universidade e outros setores da
sociedade, a difusão do conhecimento produzido e a capacitação dos cidadãos e
1 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.
2 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019..
3 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.
4 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.
5 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 67


profissionais comprometidos com a realidade social, sendo norteada pelas quatro
diretrizes abalizadas pela Política Nacional de Extensão universitária: 1) a intera-
ção dialógica da comunidade acadêmica com a sociedade por meio da troca de
conhecimentos, da participação e do contato com as questões complexas con-
temporâneas presentes no contexto social; 2) a formação cidadã dos estudantes,
marcada e constituída pela vivência dos seus conhecimentos que, de modo inter-
profissional e interdisciplinar, seja valorizada e integrada à matriz curricular; 3) a
produção de mudanças na própria instituição superior e nos demais setores da
sociedade, a partir da construção e aplicação de conhecimentos, bem como por
outras atividades acadêmicas e sociais e, por fim, 4) a articulação entre ensino/
extensão/pesquisa, ancorada em processo pedagógico único, interdisciplinar, po-
lítico educacional, cultural, científico e tecnológico.
Após um conjunto de seminários intitulados “Cultura para Todos” e de uma sé-
rie de outras atividades voltadas a refletir sobre a cultura no Brasil, o Plano Na-
cional de Cultura (PNC) foi aprovado em ementa constitucional Nº 48, de 10 de
agosto de 2005, inserido no § 3º do Art. 215, conforme rege:
§ 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura, de duração plurianual,
visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do
poder público que conduzem à:

I - defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro;

II - produção, promoção e difusão de bens culturais;

III - formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas


múltiplas dimensões;

IV - democratização do acesso aos bens de cultura;

V - valorização da diversidade étnica e regional.”(NR)

Art. 2º Esta Emenda Constitucional entra em vigor na data de sua publi-


cação. Brasília, em 10 de agosto de 2005.

O referido projeto de Lei, entretanto, só iniciou a tramitar em 2006 com a cria-


ção do Conselho Nacional de Política Cultural6 instituído pelo Decreto nº 9.891 de
27 de junho de 2019. Entre os anos de 2005 e 2014 os esforços das equipes envol-
vidas, múltiplos agentes, garantiram organizar debates públicos para estabelecer
as diretrizes gerais às políticas culturais, a exemplo da 1ª Conferência Nacional
de Cultura, realizada em 2005 e da 2ª Conferência Nacional de Cultura, realiza-
da no mesmo ano da aprovação da Lei n° 12.343 do PNC, em 2010. Como estra-
tégia para atingir uma redação robusta capaz de contemplar a diversidade social
na sua totalidade, o diálogo foi sistematicamente organizado, no mínimo, como
proposta inicial, através de conferências municipais e intermunicipais, conferên-
cias estaduais e do distrito federal, pré-conferências setoriais, conferência virtual
e conferências livres. Configurados por atividades amplas, esses encontros visa-
vam o compartilhamento de ideias e consequentes encaminhamentos, na busca
do estímulo à criação e ao fortalecimento de “redes de agentes” culturais, físicos
e institucionais do país, constituindo-se em instrumento contínuo para os debates
e, portanto, para os indicativos/estratégias para sua abrangência e atuação. Nes-
se sentido, considerando as especificidades das instituições de ensino superior,
a cultura universitária deveu-se e necessitou ser tratada no âmbito do coletivo,
6 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 68


tarefa nada fácil se formos considerar as características diversas que cada insti-
tuição possui, sejam aquelas circundadas pelos aspectos de infraestrutura e/ou de
geolocalização.
Instituição multi-campi, a Universidade Federal de Pelotas está organizada de
maneira descentralizada, geograficamente instalada na zona urbana de Pelotas,
Palma (zona rural) e no município do Capão do Leão (antiga Pelotas), subdivida em
três pró-reitorias acadêmicas (de Ensino, de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação
e de Extensão e Cultura) e cinco administrativas (de Planejamento e Desenvolvi-
mento, de Gestão de Pessoas, de Gestão da Informação e da Comunicação, de As-
suntos Estudantis e a Administrativa).
Na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, como o próprio nome já informa, a cul-
tura foi vinculada e nela se desenvolve no diálogo entre a comunidade interna e
externa, dimensão própria do que se compreende por extensão universitária: a
Extensão Universitária, sob o princípio constitucional da indissociabilidade entre
ensino, pesquisa e extensão, é um processo interdisciplinar, educativo, cultural,
científico e político que promove a interação transformadora entre Universidade e
outros setores da sociedade.
Na UFPEL, com 50 anos de institucionalização enquanto universidade, 135 anos
em atividade, apenas em meados de 1990 a cultura conquistou essa relevância
acadêmica ocupando, na condição de complemento, estatuto de relevância na
instituição ao lado da dimensão extensionista.
Resultado de uma trajetória particular, desde 1989 já se registrava aausência
de uma política de extensão, somado a sua deficiência ‘quantitativa’ de recursos
humanos, nem sempre disponíveis à prática cultural extensionista, bem como a
constante ausência de recursos financeiros destinados às suas ações. Mesmo dian-
te de um contexto de fragilidades orçamentárias e de escassez de agentes cul-
turais, atividades registravam-se em quantidades crescentes: em 1989, executa-
ram-se 91 ações culturais. Houve um aumento significativo nos anos posteriores.
O número de ações culturais duplicaram do ano 1990 para 1991, passaram de 112
para 238. Conforme os documentos visitados (UFPEL, 1992), nesse período, exe-
cutaram-se 1.491 atividades de extensão e cultura.
Cenário propício para se pensar a gestão da cultura na instituição, a política
extensionista universitária na UFPEL definida desde 1990 foi, posteriormente,
institucionalizada e passou a inserir a cultura como dimensão específica e a Pró-
-Reitoria de Extensão passou a se intitular de Pró-Reitoria de Extensão e Cultura,
conforme explicitado no relatório Extensão e Cultura na UFPel (1988-1992):
Em 1991 - Mediante aprovação do Conselho Universitário, formalizou-se
a mudança estrutural da Pró-Reitoria, que passou a ser de Extensão e
Cultura, com dois Departamentos - de Arte e Cultura - DART, e de Exten-
são e Treinamento - DEXT; com dois órgãos suplementares - a Editora e
Gráfica Universitária e a Rádio Cosmos FM Educativa, além de uma Di-
visão de Planejamento e Apoio Técnico - DIPLAN. (UFPEL, 1992, p. 90)

A cultura, ganhando estatuto institucional, em crescimento constante, neces-


sitou se reorganizar e estabelecer diretrizes para o seu pleno funcionamento. O
documento EXTENSÃO E CULTURA NA UFPEL, Gestão 1988/1992, aprovado pelo
COCEPE como pode-se observar na Resolução 04, de 25 de maio de 1992, traz o
que foi registrado como regulamentação geral das atividades de extensão e cultu-
ra na UFPEL, compreendendo nela os indicativos já iniciados para a construção de
uma política cultural institucional.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 69


A definição “extensão e cultura” impôs normatizar o que deveria ser compreen-
dido como “atividades culturais” na instituição, estimulando e promovendo a arte
e a cultura. Assim, estrategicamente, as atividades extensionistas foram caracte-
rizadas em dois planos:
Foram separadas, finalmente, as atividades extensionistas propriamen-
te ditas das atividades culturais, cada uma com uma coordenação ad-
ministrativa específica, de modo que à Universidade passou a responder
simultânea e permanentemente aos seus compromissos sociais no plano
educacional (através da extensão universitária que é inseparável do ensi-
no e da pesquisa) e no plano cultural (através do estímulo e da promoção
da arte e da cultura, não necessariamente vinculados à pesquisa e ao en-
sino). (UFPEL, 1992, p. 91)

Nesse contexto, alguns de seus equipamentos culturais, como os Museus e o


Coral, em nome da descentralização administrativa, foram passados para as Uni-
dades Acadêmicas, desvinculando-se da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura.
Em 1992 a UFPEL passou a ter, formalmente, uma Política de Extensão e Cul-
tura, traduzida em Programa de Execução, subsidiada por resoluções acerca das
ações extensionistas e culturais, com seu significativo apoio e incentivo aos ser-
vidores envolvidos em atividades de extensão e cultura. Com o Plano Semestral
de Extensão, implantado através das atividades extensionistas e culturais devida-
mente tipificadas, iniciou-se nesse mesmo ano a concessão de Bolsas de Arte e
Cultura. De alguma maneira, nessa curta trajetória, a compreensão da dimensão
cultural no âmbito universitário tornou-a independente das ações extensionistas,
comprometendo o entendimento do seu carácter de formação e inovação que
lhe são inerentes, conforme o Capítulo II, Art. 3 do Anuário Restrospectivo, 1969-
1996, Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento. Volune III (1989-1996).
A Arte e a Cultura são respeitadas, resguardadas e incentivadas na Uni-
versidade Federal de Pelotas, independente de sua eventual vinculação
com o ensino ou a pesquisa e, por isso, separadas da extensão universi-
tária. (UFPEL, 2004, p. 12)

Ressalta-se, todavia,contraditório que o mesmo documento acima citado re-


gistre considerar a arte e a cultura, desvinculando-as do ensino e da pesquisa,
como parte da herança social e da produção estética e intelectual, afirmadas na
diversidade de valores, artefatos e de patrimônios, de suporte à cidadania, criati-
va, espontânea e de vanguarda.
Embora consideradas como atividades “livres”, foram especificadas modali-
dades distintas para se operar e estimular a produção cultural, caracterizadas em
atividades de criação artística, de difusão cultural, de formação de público e de
preservação de bens eruditos e populares (bens folclóricos e artesanais).
Os Departamentos Acadêmicos, nessa instância, estavam imbuídos de realizar
seus Planos Semestrais de Extensão, conforme o Art. 9, § 1º (UFPEL, 2004, p. 14),
bem como seus Relatórios anuais exigidos, § 2º, submetidos e aprovados pelo CO-
CEPE, ou seja, atendendo ou estando os mesmos compatíveis com os programas
de execução da política de extensão da universidade. Salienta-se que o documen-
to registra a obrigatoriedade das atividades estarem previstas no Plano Semestral
de Extensão ecomprovarem vinculação com a dimensão do Ensino e/ou a Pesquisa
para que possam ser aprovadas pela PREC.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 70


Estruturadas em Programas e Sub-Programa, as atividades culturais se desen-
volviam na inter-locução direta com o Departamento de Extensão (DEXT), através
do Departamento de Arte e Cultura (DART) no qual se vinculavam. Como progra-
ma, definiu-se o atendimento às demandas sociais de Pelotas e entorno, Zona Sul
(em apoio ao DEXT) e a articulação e promoção da Arte e da Cultura, interna e
externa, a partir do DART, contando com o Coral, grupos folclóricos, literários e
teatrais, conjuntos musicais e orquestras, núcleo de artesanato, clube de cinema
e vídeo, bem como o projeto de uma “Casa de Cultura” destinado a ser um Centro
de Arte e Cultura da UFPEL.
Com um programa dos Órgãos Suplementares, a PREC já contava com o que
intitulou de Programa de Difusão Educativa, abrangendo o Programa de Difusão
Educativa (programação radiofônica executada pela Rádio Cosmos, FM Educati-
va, vinculada à PREC, atual Rádio Federal FM) e o Programa de Produção Gráfica e
Editorial (também vinculada à PREC).
Como Sub-programas, estabeleceu-se diretrizes mais específicas. A ação pro-
priamente dita ficou evidenciada em: 1) comunidades rurais e assentamentos de
colonos, em apoio aos pequenos produtores, com previsões de treinamentos a
partir de suas demandas; 2) setor empresarial, vinculado aos setores produtivos
prevendo, além de assessorias e consultorias, a realização de estágios; 3) criação
artística destinada à produção, interpretação e representação de obras de arte
com recitais, concertos e espetáculos, bem como atividades de formação: ofici-
nas de criação; 4) de estímulo à apreciação artística e ‘desfrute’ de obras de arte,
visando a formação de público; 5) de difusão cultural, potencializado pelo regis-
tro e pela divulgação da produção realizada através dos meios jornalísticos, ra-
diofônicos e televisivos, explorando como estratégia o uso de materiais gráficos e
produção de textos, contemplando a preservação do acervo cultural universitário
e da comunidade; 6) respeito, preservação e enriquecimento do patrimônio cul-
tural que previa, entre outras ações, a formação acerca desse patrimônio e sua
respectiva preservação, recuperação, reciclagem e/ou restauração que, conse-
quentemente, salvaguarda a identidade cultural institucional; 7) o sub-programa
de preservação da memória artístico-cultural e técnico-científica exercida através
de seus Museus, órgãos suplementares das unidades acadêmicas, a citar: Museu
de Ciências Naturais Carlos Ritter (desde 1926, Museu mais antigo da UFPEL)7 e o
Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (desde 1986)8, somando, desde 2011, o Museu
do Doce que “tem como missão salvaguardar os suportes de memória da tradi-
ção doceira de Pelotas e da região e como compromisso, produzir conhecimento
sobre esse patrimônio”9. Sub-programa esse que, atualmente, está representado
pela Rede de Museus10, com a missão de construir políticas para os Museus da
UFPEL, capitaneada pela Coordenadoria de Patrimônio e Sociedade da PREC; 9)
resgate e divulgação das manifestações da cultura popular, sub-programa desen-
volvido em colaboração com a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, bem
como as unidades do Instituto de Letras e Artes (ILA, atual Centro de Artes) e o
Instituto de Ciências Humanas (ICH), em interação direta com os municípios da
região de Pelotas.
7 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.
8 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.
9 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.
10 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 71


Mas qual é a identidade cultural da UFPEL?
Hoje, pode-se defender a identidade cultural da UFPEL como sendo extensio-
nista, heterogênea e singular: um resultado do processo das relações entre univer-
sidade e sociedade.
Atualmente a UFPEL, além de seus qualificados auditórios (Auditórios do Cam-
pus Anglo, Auditórios do Campus Capão do Leão, Auditório do Direito, Auditório
do Centro de Artes, Auditórios do Instituto de Ciências Humanas, Auditório da Fa-
culdade de Odontologia, Auditório do Conservatório de Música entre outros), pos-
sui relevantes equipamentos culturais de dimensões físicas/estruturais, tais como o
Cine UFPEL, a Galeria Brahma e seus Museus: Museu de Ciências Naturais Carlos
Ritter (o qual passa pelo processo de troca de locação de imóvel mediado e coor-
denado pela PREC, a fim de ocupar a Casa n. 1 da Praça Cel. Pedro Osório, Centro
Histórico de Pelotas), Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo e Museu do Doce e seus
equipamentos culturais de dimensões humanas, a citar o Coral da UFPEL (mais de
80% de integrantes da comunidade externa), seu Núcleo de Teatro e todos seus
projetos e programas institucionalizados, aqueles que estão devidamente cadas-
trados no sistema de registros da PREC sob suas respectivas categorias, conforme
a Resolução nº 10 de 09 de novembro de 2006 da UFPEL, seguindo as recomenda-
ções do Fórum de Pró-Reitores de Extensão (Forproext), operados por oito linhas
temáticas: Comunicação; Cultura, Direitos Humanos e Justiça; Educação; Meio
ambiente; Saúde; Tecnologia e Produção; Trabalho.
A interlocução com a sociedade, missão da dimensão extensionista em dialogar
e interagir com a realidade social, sistematicamente, institucionaliza-se através de
Termos de Cooperação Técnica, Artísticas e Culturais por meio da Coordenação de
Convênios e Contratos da Agência de Desenvolvimento Interinstitucional - Gabi-
nete do Reitor. Tal protocolo assegura o comprometimento das partes na execu-
ção das ações, sejam a partir da elaboração, desenvolvimento e/ou avaliação das
atividades conveniadas.
Nesse sentido, pela diversidade dos seus agentes e plateias (destinatários/au-
diências), na esteira dos resultados atingidos, a universidade se confunde com a
sociedade e, com ela, formata propostas e processos construindo e dando perma-
nência; isto é, uma identidade pautada pela pluralidade e, recorrentemente, pela
renovação de atores e respectivas ações com impacto direto na qualificação cida-
dã, econômica e criativa da região. Algumas dessas parcerias, com repercussão
recente e direta, sumariamente, são aqui evidenciadas.

Cultura UFPEL heterogênea e singular no âmbito


Regional
1. Arte Sul Coexistir — parceria interinstitucional promovida pela UFPEL, o
Sesc-RS e as universidades Fundação Universidade de Rio Grande (FURG), Uni-
versidade do Pampa (UNIPAMPA) e Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
A Mostra Universitária de Artes, o Arte Sul Coexistiré projeto de extensão da Pró-
-Reitoria de Extensão e Cultura (PREC). O evento, ocorrido em 2018, dedicou-se à
promoção, divulgação e reflexão crítica de trabalhos artísticos destinados à socie-
dade como estratégia de formação de público à arte e à cultura. O tema, emergen-
cial estado da coexistência, formatou um significativo instrumento, método, para
se pensar a arte acadêmica na sociedade contemporânea, contexto de um mundo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 72


complexo e repleto de contradições. A proposta impulsionou o acesso à diversida-
de da produção artística e cultural produzida pelas Universidades Federais (Fig. 1)
sediadas no interior do estado do Rio Grande do Sul, em seus âmbitos acadêmicos
de ensino, pesquisa, extensão e inovação, visa à promoção, circulação e forma-
ção de público para as manifestações artísticas e culturais e, consequentemente,
para a integração entre artistas e sociedade.A partir da seleção de artistas, de cada
instituição envolvida, praticada com autonomia, as escolhas respeitaram critérios
específicos pautados pelas especificidades das obras e infra-estrutura dos espaços
disponíveis. O evento contou com duas modalidades formativas: conferências so-
bre o tema “A Formação do Artista no Âmbito Acadêmico” e visitação guiada que
pôde ser pré-agendada.

Figura 1 – Imagens
das obras expostas,
Folder/Catálogo Arte
Sul COEXISTIR 2018,
impresso.
Fonte: Acervo PREC |
UFPEL.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 73


2. Câmara do Livro de Pelotas — A Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, desde
2017, estabelece parceria interinstitucional com a Câmera do Livro de Pelotas e
reintegra-se na Feira do Livro de Pelotas, cujo objetivo é promover a cultura à
leitura e economia do mercado editorial. Decorrência de um trabalho de coope-
ração entre a UFPel e a organização da Feira do Livro de Pelotas, mediado pela
PREC, é franqueada à Universidade um espaço privilegiado no evento, ocupado
prioritariamente pela Editora e Livraria da UFPEL em consequência da prestação
de serviços exercida pela PREC: projeto de identidade visual, design editorial e
projeto de família de produtos (folheteria, banners e souvenirs). Com essa parce-
ria e através de exposições e mostra de trabalhos, proporciona-se a divulgação de
Figura 2 – Ação projetos desenvolvidos na Instituição, tais como a ação UFPEL NA RUA (Fig. 2),
UFPEL NA RUA, Feira exposição de projeto na alameda da UFPel durante a 47ª Feira do Livro de Pelotas,
do Livro 2019. 2019. Diversos expositores estiveram presentes, mostrando um pouco das ações
Fonte: Acervo PREC | que acontecem dentro da nossa Universidade. A visitação foi intensa e os projetos
UFPEL. receberam os interessados das 14 às 18h.

3. Arte na Rural/Associação Rural de Pelotas (ARP) — A exposição Arte Na Ru-


ral ESCULTURAS & OBJETOS, edição de 2019, caracterizada pelo tema Lugares,
Memórias e Sonhos, ofereceu ao público da 93ª Expofeira um conjunto de obras
produzidas por artistas, designers e artesãos locais, egressos e atuais acadêmicos
da Universidade Federal de Pelotas. Integrada às comemorações dos 50 anos da
UFPel, a Arte Na Rural ESCULTURAS & OBJETOS foi uma estratégia de extrover-
são da cultura, evidenciando a arte perpassada pelo ensino aplicado. De materia-
lidades, formas, técnicas e dimensões variadas, as obras da exposição denotam a
potência criativa da produção artística, promovendo uma fruição estética capaz
de despertar no observador sentimentos de pertencimento, plasmados pelos ves-
tígios de um tempo passado que evoca um devir repleto de esperança.

Cultura UFPEL heterogênea e singular no âmbito


Nacional
1. Câmera de Dirigentes Lojistas (CDL) — Proponentes, organizadores e rea-
lizadores da Fenadoce de Pelotas, o CDL conta com a parceria da UFPEL na pro-
posição e desenvolvimento de atividades científicas, técnicas e culturais. A UFPEL

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 74


fez-se e presente na Fenadoce 201911 com um estande (sem ônus para a institui-
ção, divulgando os seus 50 anos de existência institucional. O espaço recebeu 54
exposições de alunos, abrangendo as três dimensões acadêmicas: ações de ensi-
no, pesquisa e extensão. Como uma verdadeira vitrine dinâmica para apresentar
ao público algumas ações que exemplificam a amplitude e a intensidade da pre-
sença da UFPel na sociedade, publicamente, a Fenadoce 2019 sediou o ato de assi-
natura do Acordo de Cooperação Técnica e Científica FPE:695/2019 entre a UFPEL
e o Estado do Rio Grande do Sul, por intermédio da Secretaria da Cultura,visando a
restauração de duas obras de arte de grandes dimensões, pertencentes ao acervo
Figura 3 – Assinatura do Museu Histórico Farroupilha do município de Piratini, RS. A ação desenvolve-se
do Acordo de através do Projeto de Extensão Laboratório Aberto de Conservação e Restauração
Cooperação Técnica de Bens Culturais da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura e do Instituto de Ciências
e Científica FPE:
Humanas da UFPEL (Fig. 3). Além disso, a UFPel também esteve envolvida com o
695/2019 entre a
UFPEL e o Estado do Centro de Atendimento ao Turista do Evento, exercendo o controle de qualidade
Rio Grande do Sul, de alimentos da Fenadoce e da Feira de Gastronomia. A Rede de Museus também
Fenadoce 2019. fez parte da programação externa. Como equipamento cultural, a Rádio Federal
Fonte: Fotografia de FM da UFPel, 107,9, participou in loco transmitindo uma programação especial du-
Andrea Bachettini. rante o evento.

2. Consulado da Argentina — Festival de Filmes Gaúchos foi um Ciclo de Cine-


ma Gauchesco, em parceria com o Consulado Geral da República Argentina, Insti-
tuto Estadual de Cinema do RS (Iecine RS) e Secretaria de Estado da Cultura, Turis-
mo, Esporte e Lazer do RS juntamente com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura
da UFPel, apresentado no Cine UFPel. Na ocasião, foram exibidas as obras cinema-
tográficas MARTÍN FIERRO, direção de Liliana Romero e Norman Luiz (2007),
NETTO E O DOMADOR DE CAVALOS, direção de Tabajara Ruas (2008 e ABALLAY,
O O HOMEM SEM MEDO, direção de Fernando Spiner (2010). Ações especiais, a
exemplo das sessões destinadas ao público da terceira idade, ilustram a missão do
Cine UFPEL: equipamento cultural à diversidade e acessível.

11 [Link] . Acesso em: 25


out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 75


3. MOTORHOME [PPPP] — Programa Público de Performance Península #jun-
tospelacultura_2 #artesvisuais., em parceria com a PREC, instalou-se na Galeria
Brahma em 2018 com uma programação extensa no seu espaço ateliê itinerante
(Fig. 4). Com atividades gratuitas e públicas, no intuito de tratar performances a
partir dos processos criativos locais, o ateliê, MotorHome {PPPP} foi instalado no
Figura 4 – Ateliê
espaço externo da Galeria Brahma (R. Benjamin Constant, 1071 – Centro/Pelotas)
MotorHome {PPPP}
no espaço da Galeria e contou com intervenção sonora de Bruna Kury, bem como entrevistas com a
Brahma | UFPEL artista acadêmica Jéssica Porciúncula na radiocom, programa Lua Sangrenta, e
2019. conversa com a artista residente Bianca Bernardo. Atividades formativas, oficinas
Fonte: Acervo PREC | com a artista Bianca Bernardo também puderam ser apreciadas pela comunidade
UFPEL. além da experiência de vivenciar o espaço.

Cultura UFPEL heterogênea e singular no âmbito


Internacional
1. Sesc-RS — Parceria interinstitucional visando ações compartilhadas na ela-
boração, desenvolvimento e execução do Festival Internacional Sesc de Música,
realização do Sistema Fecomércio-RS/Sesc. Já na sua 10ª edição (janeiro de 2020),
atuou de maneira eficaz na vocação didática, compreendendo 53 professores de
14 países e atendendo cerca de 400 alunos em suas oficinas. Oportunizando a cria-
ção de uma rede de relacionamento e intercâmbios. Ressalta-se que, através des-
sa parceria, a UFPEL encontra suporte às ações com o Programa Azonasul, à área
cinematográfica e, recentemente, às artes visuais e cênicas.
2. Fundación Pablo Atchugarry, Maldonado, Uruguai12 — parque escultórico
com salas expositivas, em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, rece-
beu em 2017 a mostra expositiva Arte Sul COEXISTIR (Fig. 5), composta por uma
coletiva de artistas visuais acadêmicos (professores e alunos) lotados e/ou egres-
sos do Centro de Artes. Conforme o sítio da Fundação, “La muestra Arte Sulcoexis-
tir da inicio a las acciones de colaboración del arte y de la cultura establecida entre la
Pro-Rectoría de Extensión y Cultura de la UFPEL con la Fundación Pablo Atchugarry.
Compuesta por artistas profesores y alumnos del Centro de Artes, Arte Sulcoexistir
presenta obras que exploran las condiciones del arte en la contemporaneidad, llevan-
do al espectador la experiencia de la fruición estética”13.

12 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.


13 [Link]
viembre--18-hs . Acesso em: 25 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 76


Figura 5 – Convite
da Exposição Arte
Sul COEXISTIR,
Fundação Pablo
Atchugarry 2017.
Fonte: Acervo PREC |
UFPEL.

3. Orquestra de Instrumentos Autóctones e Novas Tecnologias - OIANT /


UNTREF — “Ou inventamos ou erramos”. Com a frase do educador oitocentista
venezuelano Simón Rodrigues, Alejandro Iglesias, diretor da Orquesta de Instru-
mentos Autóctonos y Nuevas Tecnologías – OIANT, sediada na Universidad Nacional
de Tres de Febrero, explicou, no palco do Theatro Guarany (Fig 6), na noite do dia
25 de outubro, a gênesis do projeto da Orquestra. Convidada para uma turnê em
três universidades federais do Rio Grande do Sul, UFRGS, UFPel e FURG, a OIANT
trouxe um espetáculo que revela o resultado de uma estrutura de formação aca-
dêmica no qual o ensino de jovens músicos é pautado pela investigação, pela cria-
ção fundada no conhecimento gerado através da pesquisa e pelo aprendizado do
fazer de cada elemento que vai para o palco. Para além de um espetáculo cênico
e musical, o que a Orquestra apresentou foi uma mostra que evidencia o sistema
cuja originalidade está expressa na criação que se faz por meio da redescoberta de
sons ancestrais e da profusa diversidade que as culturas autóctones das Américas
tiveram. O espetáculo, pautado por comentários explicativos de Alejandro, deixou
claro a erudição com que cada conteúdo é tratado: seja a composição das músi-
cas, a construção dos instrumentos, a criação da cenografia e das máscaras ou a
ocupação cênica do palco. O espetáculo encheu os 1200 lugares do Salão de Atos
da UFRGS, teve similar plateia no Theatro Guarany e, também, na FURG, foram
ocupados os 1000 assentos do CIDEC. A força da Orquestra reside nas palavras
com as quais Alejandro apresentou o seu objetivo: “Tivemos como desejo profun-
do que a geração que se seguia enfrentasse os desafios de seu tempo com estru-
turas conceituais dignas dos sonhos dos nossos libertadores que acreditavam que
a América era capaz de ser original, que como já dito antes por Simon Rodríguez:
‘de uma só vez, deixemos de ser só os donos de nossas terras para nos tornarmos
donos de nós próprios’. Talvez, neste momento, ser americano deixe de ser ape-
nas o pertencimento a um lugar geográfico e passe a ser uma dignidade que cada
um de nós conquistou pessoalmente.” O presente que a OIANT deixa à UFPel, nos
seus cinquenta anos, é a certeza do quanto saber sobre o nosso passado importa.
Somos depositários do que nos antecedeu. Portanto, é importante conhecer, re-
conhecer e assumir que essas culturas fazem parte do que somos, assim, como no

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 77


futuro, faremos dos que virão. A Universidade Federal de Pelotas – UFPel, dentro
das ações de comemoração aos seus 50 anos, e em parceria com o SESC – RS,
UFRGS e FURG, traz a Pelotas a Orquestra de Instrumentos Autóctones e Novas
da Tecnologias – OIANT da Universidade Nacional Tres Febrero, UNTREF – Argen-
tina. O espetáculo da OIANT ocorreu como encerramento da V Semana Integrada
de Inovação, Ensino Pesquisa e Extensão da Universidade Federal de Pelotas, no
Theatro Guarany, Pelotas – RS, às 20h, sexta-feira, dia 25 de outubro de 2019. O
espetáculo, gratuito, liberada a entrada a partir da troca do ingresso por um qui-
lo de alimento não perecível, arrecadou mais de uma tonelada de insumos que,
através do Projeto Mesa Sesc Brasil, foi devidamente distribuído a entidades em
condição de vulnerabilidade social.

Figura 6 –
Apresentação OIANT,
Theatro Guarany,
Pelotas 2019.
Fonte: Fotografia de
Alvaro Pouey.

4. Meeting of styles - Pelotas (MOS/Brasil) — O evento internacional ocorre


desde 2002 e iniciou na cidade de Wiesbaden, Alemanha, criado pelo artista Ma-
nuel Gerullis, um dos nomes mais importantes do Grafite no mundo. O calendário
do evento propôs sua ocorrência em 24 cidades de diferentes países. No Brasil, o
evento ocorreu anteriormente nas cidades de São Bernardo do Campo e Rio de
Janeiro. Em 2014, o grafiteiro e produtor cultural, Lucas Stuczynski, e Paula Silva,
da A.M.E Produções, trouxeram o evento para o Rio Grande do Sul, completando,
com a atual, seis edições no Estado, das quais, duas em Pelotas. Nesta segunda
edição, houve a inauguração na UFPel e uma segunda etapa, em Rio Grande. Dos
artistas que participam do Festival, há nomes muito fortes no grafite internacional,
como os mexicanos Trepo Parker (Enrique Zapata) e Farid Rueda (Marcos Angel
Rueda), a uruguaia Min8 (Veronica Gazzarata), o colombiano Crhistian Saint, o chi-
leno Bufon (Rinaldo Villegas), entre outros. O evento conta com vários apoiadores
e a UFPel, através da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, coordenou a ocupação
do espaço em uma parceria que já está consolidada. A ideia de fazer nos muros do
Campus Anglo consolida a proposta de que a UFPel é uma universidade de portas
abertas, que dialoga com as formas de cultura contemporânea e que reconhece
na Arte de Rua (Street Art) uma expressão que une artistas urbanos de todos os
lugares e transpõe os limites tradicionais do “onde” e “como” fazer arte (Fig. 7).
Assim, a UFPel ganhou dois presentes nos seus 50 anos: as obras que agora estão
nos seus 140 metros de muros e a visita de uma ampla comunidade que pode as-
sistir uma das vertentes mais fortes da Street Art, o grafite.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 78


Figura 7 – cena da
execução de grafite
Plano de Cultura da UFPEL
no muro interno Nesse contexto, trajetória parcial e ilustrativa, a Pró-Reitoria de Extensão e Cul-
do Campus Anglo, tura, imbuída da construção de seu Plano de Cultura, através do seu Conselho de
Meeting Of Styles Extensão (CONEXT), instaurou a Comissão de Desenvolvimento Plano de Cultura
2019.
da UFPEL. Constituída pela Portaria N°. 548, de 12 de março de 2019, a comis-
Fonte: Fotografia de são estabeleceu como prioritário o diálogo com as comunidades para desenvolver
Alvaro Pouey.
suas atividades, sustentadas entre dois fóruns: os fóruns presenciais — a partir de
seminários temáticos — e o fórum eletrônico14, através de um sítio na internet
promotor da interação entre os sujeitos e repositório (biblioteca) da produção re-
flexiva, de referência e documental.
Intitulado de Seminário Plano de Cultura UFPEL, fórum de reflexão presencial,
desenvolveu-se os eventos destinados a estabelecer o diálogo com as comuni-
dades, sub-divididos em três edições, com específicas temáticas, a saber: 1) Se-
minário Plano de Cultura UFPEL — Unidades Acadêmicas, 2) Seminário Plano de
Cultura UFPEL — Sociedade organizada e 3) Seminário Plano de Cultura UFPEL
— políticas e diretrizes à cultura.
Os respectivos eventos, descentralizados, constituirão as ferramentas funda-
mentais ao método: identificação do estado geral da cultura na ufpel, intersecções
com os setores acadêmicos/administrativos da instituição e suas articulações com
a sociedade.

14 [Link] Acesso em: 25 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 79


Seminário Plano de Cultura UFPEL - Unidades
Acadêmicas
Ocorrido em 28 de maio, no Auditório do Museu do Doce, reuniu representan-
tes das unidades acadêmicas. A partir das reflexões acerca do histórico, do atual
estado e das perspectivas futuras, foram abordadas questões fundamentais so-
bre os recursos humanos e orçamentários, bem como em relação à infra-estrutura
adequada para atender as demandas que não se restrinjam às manifestações ar-
tísticas, mas também às manifestações culturais da saúde, da terra, da sustenta-
bilidade e do bem viver acadêmico, incluindo a cultura do perfil multifacetado dos
servidores e dos ingressos discentes, com carga de valor oriundo dos seus contex-
tos do local de origem. Aspectos da diversidade racial e de acessibilidade foram
tratados, bem como as comunidades quilombolas e indígenas.

Seminário Plano de Cultura UFPEL - Sociedade


Organizada
Em 27 de setembro, na sua segunda edição, o Seminário Plano de Cultura UFPEL
— sociedade organizada contou com a participação da UFPEL, através das suas
Pró-Reitorias de Apoio ao Estudante (PRAE), Gestão da Informação (PROGIC),
Planejamento (PROPLAN), Pesquisa e Inovação (PRPPGI) e Ensino juntamente
com setores da sociedade organizada, tais como: Secretaria de Educação e Des-
porto, Secretaria de Cultura e Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e Inovação.
Um olhar sobre a tríade preconceito/oportunidades/diversidade foi apresenta-
do pelo Prof. Alexandre Carriconde Marques (PRAE | UFPEL), relatando os resulta-
dos positivos do processo inclusivo para portadores de deficiência e da inclusão de
vulneráveis (LGBT e Afro-descendentes) desenvolvido pela Coordenação de Inclu-
são e Diversidade | UFPel (CID), incentivando a pensar: Nada sobre nós sem nós.
A comunicação foi evidenciada como ferramenta fundamental à cultura. Trata-
da pelo T. A. Jornalista Ricardo Zimmermann Fiegenbaum (CCS/PROGIC | UFPEL)
que apresentou o agenciamento dado as ações culturais da UFPEL através de um
dos principais equipamentos culturais que a UFPEL possui: a rádio Federal FM.
Através da PRE | UFPEL, na representação da Profa. Carine Dahl Corcini, as
questões didáticas pedagógicas foram consideradas como transversais da prática
cultural. Amparada legalmente pela Lei 11645/2008, a História e Cultura Afro-Bra-
sileira, o direito e respeito à Diversidade, Etnicidade, Tradição já são devidamente
obrigatórios nos Projetos Pedagógicos dos Cursos.
A relação direta da Cultura universitária com a sociedade foi abordada pelo
Prof. Otavio Peres, PROPLAN, apresentando impactos diretos no Agronegócio e
evidenciando o desenvolvimento territorial. Também, em paralelo, relacionou os
potenciais do meio ambiente atribuindo ao “espaço cultural” que o Pontal da Bar-
ra representa, bem como as relações urbanas que a UFPEL opera com a cidade, a
exemplo do Plano de Mobilidade Urbana e do projeto Escola Parceira, resultando
na melhor das hipóteses em uma universidade em rede: rede de saberes, rede de
saúde, rede de cultura.
A participação da Secretaria Municipal de Educação e Desporto (SMED) reite-
rou a importância de dar foco às minorias, relatando o trabalho realizado na as-
sistência aos vulneráveis e deficientes, atuação direta com atividade de formação

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 80


na semana indígena. Abordando as questões relacionadas aos afrodescendentes,
apresentou-se a proposta de realização compartilhada de um evento multicultu-
ral, intitulado de Feira das culturas.
Alessandra Ferreira, representante da Secretaria de Cultura de Pelotas (Secult)
relatou suas interrelações com a UFPEL, através de diversas parcerias estabeleci-
das no campo da cultura e do patrimônio. Com uma adesão significativa, o Pro-
-Cultura, edital de fomento destinado a financiar projetos locais, foi apresentado.
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Turismo e Inovação (SDETI), a par-
tir do seu Secretário Gilmar Bazanella, enriqueceu o diálogo trazendo luz ao que
ele considerou como uma “maquina de cultura”: os alunos da UFPEL. Grande par-
te, não habitantes de Pelotas, fomentam o comércio e transformam os comporta-
mentos, enriquecendo a cidade de referências de todo o Brasil. Bazanella, encerra
sua fala sentenciando que “a UFPEL é patrimônio cultural de Pelotas”.

Cultura: Princípios e diretrizes para o


desenvolvimento social
Como Política à Cultura universitária na UFPEL, defende-se a condição das ati-
vidades permanecerem públicas, gratuitas e descentralizadas (de poder, geogra-
fia, etnia e raça). A garantia da distribuição e acesso livre é direito conquistado e
deve ser protegido: cultura é direito de todos.
Como princípios e diretrizes ao Plano de Cultura da UFPEL, seguindo a LEI Nº
12.343, DE 2 DE DEZEMBRO DE 201015, que fundamenta e institui o Plano Nacional
de Cultura (PNC), cria o Sistema Nacional de Informações e Indicadores Culturais
(SNIIC) e dá outras providências, bem como a LEI No 14.778 DE 04 DE DEZEMBRO
DE 2015 do Governo do Estado do Rio Grande do Sul que institui o Plano Estadual
de Cultura do Estado, a Pró-Reitoria de Extensão e cultura enumera suas, interde-
pendentes e complementares, instruções à prática cultural universitária:

Princípios:
1. liberdade de expressão, criação e fruição;
2. diversidade cultural;
3. respeito aos direitos humanos;
4. direito de todos à arte e à cultura;
5. direito à informação, à comunicação e à crítica cultural;
6. direito à memória e às tradições;
7. responsabilidade socioambiental;
8. valorização da cultura como vetor do desenvolvimento sustentável;
9. democratização das instâncias de formulação das políticas culturais;
10. responsabilidade dos agentes públicos pela implementação das políticas
culturais;
11. colaboração entre agentes públicos e privados para o desenvolvimento da
economia da cultura;
12. participação e controle social na formulação e acompanhamento das polí-
ticas culturais.

15 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 81


Diretrizes:
1. Compreender a cultura como aspecto fundamental da formação humana
dos seus estudantes, servidores e comunidade externa;
2. Promover a articulação da cultura universitária entre ensino, pesquisa e ex-
tensão em todos seus aspectos;
3. Reconhecer a autonomia e a diversidade cultural de cada unidade e em seus
campi, garantindo-lhes autoria e liberdade de expressão;
4. Incentivar e fomentar as ações culturais desenvolvidas pelos campi.
5. Promover conexões entre as atividades culturais e as ações socioambientais;
6. Reconhecer e incluir questões de gênero e etnia nas políticas culturais;
7. Potencializar estudantes, servidores e comunidade externa como agentes
ativos às ações culturais;
8. Valorizar e atuar de maneira colaborativa com as diversidades culturais do
entorno;
9. Buscar estratégias à acessibilidade física e social, visando a integração in-
clusiva, atendendo prioritariamente os grupos em situação de vulnerabilidade
social;
10. Buscar estratégias de gestão compartilhada;
11. Estabelecer metas de curto, médio e longo prazo para a realização de ações
culturais de pequeno, médio e grande porte;
12. Desenvolver mecanismos normativos, administrativos, técnicos e políticos
para manter, ampliar e preservar as ações e o patrimônio culturais, visando à
educação e democratização do acesso aos bens culturais;
13. Criar mecanismos de mapeamento, identificação, documentação, registro
e extroversão permanente do patrimônio cultural material e imaterial;
14. Criar mecanismos permanentes de reflexão para avaliação e revisão do
Plano de Cultura da UFPEL, promovendo a participação e o comprometimento
com a sociedade;
15. Buscar, interna e externamente à instituição, recursos financeiros para o
pleno desenvolvimento das ações culturais;
16. Reconhecer e valorizar as culturas populares, de povos originários e de co-
munidades tradicionais;
17. Manter e ampliar o intercâmbio local, regional, estadual e internacional
através de parcerias físicas e institucionais;
18. Estimular a criação e inserção de um calendário próprio de atividades cultu-
rais e a articulação deste calendário com o calendário acadêmico;
19. Qualificar e ampliar os equipamentos culturais na instituição;
20. Promover a formação continuada e capacitação para agentes da cultura na
UFPEL,
21. Considerar a UFPEL como Patrimônio Cultural consolidando sua missão
institucional de formação à cidadania.

Cultura: Políticas integradoras, direito de todos


No que tange ao Plano de Desenvolvimento Institucional | PDI | 2015-2020,
aprovado pela RESOLUÇÃO nº 13, DE 10 DE NOVEMBRO DE 2015, que prevê a
Ação “i) Propor e implantar o Plano de Cultura da UFPel, Objetivo Específico n.
30. — Integrar as políticas de extensão com as políticas públicas, fortalecendo
e qualificando as políticas de gestão institucional em termos de financiamento,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 82


cobertura, eficiência e efetividade.”16a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, gestão
2017-2020, através do trabalho para apresentar a proposta de Plano de Cultura
UFPEL reitera que a cultura, do âmbito da UFPEL, deve manter-se:

1. pública e gratuita (política e princípio);


2. livre e diversa (étnica, ética, de estilo [erudito ou popular] e de direito);
3. sustentável (de desenvolvimento e inovadora);
4. sem fronteiras (descentralizada: social, econômica, geográfica);
5. colaborativa (democrática e co-autoral).

Cultura pública e gratuita (política e princípio)


Cultura e sociedade são “entidades” indissociáveis, compartilham e interagem
recursos de conhecimento e de capital na construção dos mundos possíveis pela
extrema ação da experiência coletiva. Eleger ferramentas estratégicas para a prá-
tica cultural desenvolvida entre o ensino aplicado e a realidade social, através do
sistemático diálogo com as comunidades, faz-se fundamental nas experiências
do diálogo entre a instituição e o setor público, ambos engajados para planejar a
cultura, impulsionando sua potência criativa e de economia de maneira pública e
gratuita.

Cultura livre e diversa (étnica, ética, de estilo


[erudito ou popular] e de direito)
A prática registrada da cultura no âmbito da Universidade Federal de Pelotas,
através de sua Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, indica claramente a sua dimen-
são social heterogênea e singular e, por ela, razão de ter sido incorporada como
complemento da extensão comprometida com a pluralidade das realidades.

Cultura sustentável (de desenvolvimento e


inovadora);
Deve ser sustentável enquanto autogestão, com desenvolvimento técnico,
produtivo, compromissado com o meio ambiente e com a acessibilidade e com a
memória.
Tanto quanto o comprometimento com as suas condições de exequibilidade,
condicionadas aos aparelhos culturais que lhe dão forma, pode-se observar as es-
tratégias e os resultados dessa energia conhecendo a extroversão do conhecimen-
to praticado pelas atividades executadas.
Quanto ao setor econômico, a produção de bens e de serviços no setor agro-in-
dustrial tem, cada vez mais, dado atenção à economia criativa e circular. Feiras de
artesanato, gastronomia e design tem se mostrado estratégias para, não só refe-
renciarmo-nos e impulsionarmo-nos a algumas possibilidades, indubitavelmente
significativas à cidadania e ao desenvolvimento econômico, como também impe-
lindo o sentimento de pertencimento e constituição de memórias.

16 [Link] . Acesso em: 25 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 83


Cultura sem fronteiras
Pensar a cultura como substrato de informação e, desta maneira um instru-
mento de formação, reitera as potencialidades que a cultura imputa. A produ-
ção de conhecimento — missão institucional — se amplia quando permeada pelo
tratamento cultural, considerando que as articulações com o ensino e a pesquisa
tenham sido sistematicamente operadas. Com autonomia, a cultura deve ser ob-
jeto, método e resultado de formação e investigação, sem geocentrismo e sem
hegemonia.

Cultura colaborativa
Sua evocação tangencia a subjetividade promovida pelas práticas artísticas, do
patrimôniomaterial/imaterial e de sustentabilidade, que devem, a priori, alimentar o
espírito humano e elevá-lo a um estado civilizatório de ética e de democracia, resul-
tando, como meta, em um mundo melhor para todos, no espectro e égide de um Es-
tado Democrático e construído no estado conceitual contemporâneo da coautoria.

Referências
CANCLINI, Néstor García (ed.). Políticas culturales en América Latina. México:
EditorialGrijalbo, 1987. 175-203p.

COSTA, António Firmino da. Políticas Culturais: conceitos e perspectivas. OBS –


revista do Observatório das Actividades Culturais. Lisboa, n. 02, p. 01-06, out., 1997.

BRUNNER, José Joaquín. La cultura como objeto de políticas. Santiago, Chile:


FLACSO,1985.

HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor. A indústria cultural: o Iluminismo como-


mistificação de massas. In: ADORNO, Theodor et ali. Teoria da cultura de massa.
São Paulo: Paz e Terra, 2000.

MARTINELL, Alfons. Los agentes culturales ante los


nuevos retos de la gestióncultural. Revista Ibero-ameri-
cana de Educación. n. 20, p. 201-215, May/ago., 1999.
SOBRE O AUTOR
THOMPSON, John B. Ideologia e cultura moderna: te-
João Fernando Igansi Nunes, li- oria social crítica na era dos meios de comunicação de
cenciado em Artes Visuais pela UFPel. massa. 6a Ed. São Paulo: Editora Vozes, 1995.
Doutor em Comunicação e Semiótica
pela PUC/SP. Professor nos cursos de UFPEL, Universidde Federal de Pelotas. Pró-Reitoria de
Graduação em Design - CA e no Pro- Extensão e Cultura. Extensão e Cultura na UFPel (1988-
grama de Pós-Graduação em Memória 1992). Pelotas, 1992.
Social e Patrimônio Cultural da UFPel.
Coordenador de Arte e Inclusão na Pró- UFPEL, Universidade Federal de Pelotas. Pró-Reitoria de
-Reitoria de Extensão e Cultura - UFPel. Planejamento e Desenvolvimento. Anuário Restrospec-
Presidente do Conselho de Cultura tivo 1969-1996. Volune III (1989-1996). Pelotas: Departa-
de Pelotas. E-mail: fernandoigansi@ mento de Desenvolvimento Institucional 2004. 3v.
[Link]
YÚDICE, George. A conveniência da cultura: usos da
cultura na era global. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte I - nº3 84


Parte II

P A R T E I I
VOZES DA EXTENSÃO:
46 ANOS DE MÚSICA NO CORAL UFPEL

Leandro Ernesto Maia

Uma história junto à cidade


Antes mesmo de completar dez anos de existência, a Universidade Federal de
Pelotas já vislumbrava a importância de uma ação que representasse a instituição
e servisse de elo com a comunidade. Em 1973, surge o Coral UFPel, fundado pelo
maestro Romeu Tagnin, que estabelece a música vocal coletiva como ferramenta
de extensão universitária e instrumento de integração social. Cabe salientar que
Tagnin já havia feito história antes de assumir a regência do coro, ao compor a
música do Hino de Pelotas, escrita sobre letra de Hipólito Lucena. A título de curio-
sidade, vale ressaltar que a estreia do hino ocorreu em 7 de julho de 1935, sob
regência maestro Milton de Lemos, então diretor do Conservatório de Música. O
Hino de Pelotas seria oficializado somente em 1962, conforme Fernanda Oliveira
da Silva in LONER, GILL e MAGALHÃES (2017, p. 155). Nesse período de institu-
cionalização, reorganização e consolidação de órgãos e entidades educacionais e
culturais, a então Universidade Rural do Sul (URS), assim denominada até 1960,
deu origem à Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em 1969. Eis que o Con-
servatório de Música, atuante desde 1918, constituiu-se num dos pilares da nova
universidade.
Sendo o projeto de extensão mais longevo em atividade, o Coral UFPel atua
há 46 anos como representante oficial da universidade em solenidades e eventos
artísticos e culturais. Ao longo de sua história, diversas gerações de cantores e re-
gentes passaram pelo grupo, que se consolidou como uma referência na cidade,
promovendo e participando de concertos, festivais, ensaios abertos e audições
comentadas. Hoje, o Coral é constituído de cantores e cantoras da comunidade,
alunos e alunas de graduação, técnicos-administrativos e docentes.

Vozes no estúdio
Em 1977 o Coral UFPel realizou suas primeiras gravações, a pedido do Magní-
fico Reitor Delfim Mendes da Silveira. Intitulado “Coral da Universidade Federal

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 86


de Pelotas”, o disco vinil compacto apresentava quatro fonogramas sob regência
da maestra e professora Lucy Ferreira Luff. No lado A, o disco continha o “Hino
da UFPel” (Enilda Faistauer/Heloiza Nascimento) e o “Hino Universitário Mundial/
Gaudeamus Igitur” (Anônimo Séc. XII). No lado B, foram incluídas as peças “Vá...
Pensiero”, da ópera Nabucodonosor (Giuseppe Verdi), e “Negrinho do Pastoreio”
(Barbosa Lessa/Mauro Ginnett), regional gaúcha. Desde sua primeira gravação,
até hoje, o Coral UFPel mantém características que marcam sua atuação artística:
repertório de diferentes épocas e estilos musicais, dos gêneros popular e erudito,
com ênfase no repertório a capella caracterizado por ecletismo musical.1

Figura 1 - Compacto
em Vinil do Coral
UFPel, 1977. Capa,
contracapa, encarte e
rótulos.
Fonte: Acervo do
Projeto.

A segunda e última gravação do grupo ocorreu na virada do milênio, já na era da


gravação digital. O CD “Coral UFPel”, foi lançado com direção artística da regente
e preparadora vocal Anni Gerda Albert de Moraes, na gestão da Magnífica Reito-
ra Inguelore Schneumann de Souza. O CD conta com doze faixas gravadas pelo
Estúdio Luvi, supervisionadas pelo técnico de som Victor Hugo Burck Duarte. No
repertório encontram-se obras cantadas em diversas línguas como latim, italia-
no, inglês, espanhol e português, alternando estilos musicais desde a Renascença
Inglesa até a Música Popular Brasileira do Século XX, interpretando composito-
res como William Byrd (1540-1623), Adriano Banchieri (1568-1634), John Bennett
(1575-1614), Camargo Guarnieri (1907-1993), Ernest Mahle (1929-), Antonio Vaz
(1935-2005), Edu Lobo (1943 -), entre outros.
1 O referido LP pode ser escutado na Discoteca L.C. Vinholes do Centro de Artes da UFPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 87


Figura 2 - CD Coral
UFPel, 2000. Capa,
Contracapa.
Fonte: Acervo do
Projeto.

Figura 3 - CD Coral
UFPEL, 2000.
Encarte.
Fonte: Acervo do
Projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 88


Vozes nas ruas, nas praças e nos palcos
Entre 1980 e 2010, o Coral UFPel atuou ativamente junto à Federação de Coros
do Rio Grande do Sul (FECORS), participando de eventos, festivais competitivos e
encontros de coros, sendo o único coro da cidade de Pelotas filiado à instituição.
Ao longo dos anos, o Coral foi conduzido por profissionais destacados na música
vocal da cidade, tais como a professora Dra. Sônia André Cava de Oliveira, a pro-
fessora Elaci Elza Schneider e a professora Magali Richter, também preparadora
vocal. Entre 2005 e 2017, a condução e regência ficou sob o encargo do professor
Carlos Alberto Oliveira da Silva, assessorado pelo preparador vocal, professor M.e.
Jonas Klug, desde 2009. Entre 2017 e 2019, a regência foi realizada pela professora
Salatiele da Rosa Gomes, com o auxílio dos bolsistas Fernanda Miki e Felipe Cesar
Zocal, que conduziu o grupo durante todo o segundo semestre de 2019. Nesse pe-
ríodo, o grupo contou com o apoio e orientação da nova preparadora vocal, profes-
sora Dra. Cristine Bello Guse, que assumiu a coordenação adjunta. Ainda em 2019,
Figura 4- Registros
da celebração dos
o trabalho passou a receber orientação cênica da professora Dra. Giselle Molon
40 Anos: divulgação, Cecchini e a regência do professor Dr. Leandro Ernesto Maia, novo coordenador.
ficha técnica e O Coral UFPel também tem sido enriquecido com a presença de cantores advin-
fotografia do evento. dos de outros agrupamentos ao longo de sua história. Cantores do antigo Coral do
Fonte: Acervo do ILA, do Coral FAE/UFPel, do Coral do Conservatório de Música, do Coral da Univer-
Projeto. sidade Católica de Pelotas, entre outros, integraram-se ao grupo. Além disso, di-
versas sociedades de canto e iniciativas
informais, tais como o “Grupo Vocal do
Corredor”, interagiram com o projeto.
Dentre os concertos realizados, des-
taca-se a celebração dos 40 Anos do
Coral UFPel, comemorados em 4 de
dezembro de 2013 com um concerto no
antigo Lyceu UFPel, hoje sede do MALG
– Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo. A
iniciativa integrou a programação do
projeto “Quartas no Lyceu”, idealizado
e produzido pelo professor Dr. Paulo
Gaiger, então coordenador de Arte e
Cultura da Pró-Reitora de Extensão e
Cultura (PREC). A ficha técnica do con-
certo pode ser visualizada na (Fig. 4).
O ecletismo musical, do sacro ao
profano, do popular ao erudito, acom-
panha a trajetória do Coral, que vem
se apresentando em diversos espaços
culturais, incluindo igrejas, salões, es-
paços camerísticos, salas de concerto
e teatros. Suas apresentações ocorrem
em festivais e encontros de coros, bem
como em eventos temáticos, a exem-
plo do festival “Releituras do Rock -
Festival de Música Vocal da PUCRS”,
realizado no Salão de Atos da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (PUCRS), em 21 de outubro de 2017.
O Coral UFPel, sob coordenação de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 89


Figura 5 - Integração
com outros grupos
corais no I Festival
de Corais SEST
SENAT, Pelotas/RS
23/11/2013.
Fonte: Acervo do
Projeto.

Figura 6 - Divulgação Carlos Oliveira da Silva, protagonizou eventos relevantes, tais como o VII Festival
do Festival Vox Vox Humana, realizado em 2017 com recursos do Edital Secult de Apoio a Eventos
Humana. Culturais. Sob o lema Todas las voces, o festival foi realizado com entrada franca
Fonte: Acervo do no Grande Hotel e contou com a participação de grupos do Brasil e do Uruguai. O
Projeto. festival contou com oficinas formativas, concertos comunitários e disponibilização
gratuita do áudio do concerto em rede
social, gravado ao vivo com qualidade
profissional.2

A presença do Coral
UFPel em trabalhos
acadêmicos
O Coral UFPel é mencionado em
pesquisas e trabalhos acadêmicos. O
regente, pesquisador e professor Ber-
nardo Grings aborda o grupo em sua
dissertação sobre “O Ensino da Re-
gência na formação do professor de
música” (GRINGS, 2011). No referido
trabalho, o autor identifica e analisa a
presença do canto coral no currículo do
Curso de Música - Licenciatura da UFPel
e sua intensa relação com as disciplinas
de Laboratório Coral, Regência Coral
e atividades de extensão como o Co-
ral UFPel, destacando sua importância
como espaço de integração entre teo-
ria e prática musical na formação dos
futuros professores de música.

2 O concerto ao vivo pode ser escutado em ht-


tps://[Link]/felipe-zocal/vii-festival-vox-
-humana-festival-de-coros-ao-vivo-no-grande-ho-
tel_01-07-17.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 90


O projeto especial da PREC3 é abordado não somente no âmbito da música,
mas também em áreas afins. No Pós-Graduação em Artes Visuais do Centro de
Artes da UFPel, Joelma Santos Castilhos defendeu dissertação de mestrado intitu-
lada “Sentidos e Histórias que Narram Corpos que Criam: explorações “radicantes”
e experiências ético-estéticas e artísticas na Licenciatura em Pedagogia da FaE/
UFPel” (CASTILHOS, 2016). Os depoimentos e reflexões mencionam sua experiên-
cia no Coral UFPel e o Grupo Vocal Da Boca Pra Fora, de Porto Alegre, como essen-
ciais em sua formação pessoal, fazendo parte da construção de sua subjetividade
como pedagoga e arte-educadora. Joelma integrou o Coral da UFPel entre 2009 e
2013.
Na área de Educação, o regente e professor da UFPel Carlos Alberto Oliveira
da Silva focou no Coral UFPel como objeto de pesquisa, apresentando o trabalho
“Memória e a Reescrita da História: a experiência de concepção do concerto Vox
Chorum do Coral UFPel”, em coautoria com a prof. Dra. Denise Busoletti (SILVA e
BUSSOLETTI, 2019). O trabalho dialoga com a dissertação de mestrado intitulada
“Donde Musica Hubiere, Cosa Mala No Existiere: uma collage do concerto Vox Cho-
rum do Coral UFPel” (SILVA, 2019), integrando pesquisa artística e investigação na
área de Educação.
No tocante à pesquisa em música, integrantes do Coral UFPel somaram-se à or-
questra da récita da peça Fantástica em Três quadros “Cuspo do Diabo”, apresen-
tada durante o 29º Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Gradu-
ação em Música (ANPPOM). O evento ocorreu em Pelotas/RS, em 2019, e reuniu
pesquisadores de todo o Brasil, além de convidados da Itália, Portugal e Argentina.
O concerto constituiu-se em um marco histórico, tendo em vista a remontagem
da obra composta em 1927 pelo compositor e historiador rio-grandino Antenor de
Oliveira Monteiro (1872-1948). Sob coordenação e pesquisa do prof. Dr. Luís Gui-
lherme Goldberg, também organizador do evento, a regência da obra coube ao
maestro, violinista e professor Tiago Ribas, da Orquestra UFPel, incluindo sopros e
percussão, numa formação expandida da orquestra de câmara.

Registros recentes, redes sociais e novas


perspectivas
Em tempos de redes sociais e novas tecnologias, o Coral UFPel vem se utilizan-
do de novas ferramentas de interação e organização. A fanpage, no Facebook, está
em processo de consolidação e conta com mais de quinhentos seguidores pelo
endereço [Link]/coralufpel. Nesta página, é possível ter acesso a fotos e
registros, como é o caso da exposição virtual da galeria de troféus e certificados de
participação em eventos culturais, encontros e mostras corais. Um breve levanta-
mento da galeria virtual inclui:

1991: IX Encontro de Coros de Rio Grande ENCORG, Rio Grande/RS


1993: XVII Audição de Corais Pelotenses ACOPEL, Pelotas/RS
1994: XVIII Audição de Corais Pelotenses ACOPEL, Pelotas/RS
1996: II Encontro de Corais em Homenagem ao Colégio Centenário, Colégio
Gonzaga, Pelotas/RS
1997: XXII Audição de Corais Pelotenses ACOPEL, Pelotas/RS
3 Os projetos especiais da PREC (Pró-reitoria de Extensão e Cultura) consistem em ações e projetos de
interesse institucional da universidade, vinculados diretamente à administração central.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 91


1998: III Encontro de Corais Sociedade Recreativa 15 de Julho, Pelotas/RS
1998: VII Concerto Ondas de Natal, Praia do Cassino, Rio Grande/RS
1998: XVIII Audição de Corais Pelotenses ACOPEL, Pelotas/RS
1998: XXIX Encontro de Corais Universitários Gaúchos (ECUG), Pelotas/RS, or-
ganização do evento
1999: XXX Encontro de Corais Universitários Gaúchos (ECUG), FURG, Rio
Grande/RS
1999: VII Festival Santa Cecília de Corais de Empresas, organizado pelo Coral
Ipiranga, em Rio Grande/RS
1999: VIII Concerto Ondas de Natal, Praia do Cassino, Rio Grande/RS
1999: 5º Encontro de Corais de Pelotas, Sociedade XV de julho, Pelotas/RS
1999: V Encontro de Corais Integração, Colégio Gonzaga, Pelotas/RS
1998: XXIV Audição de Corais Pelotenses ACOPEL, Pelotas/RS
2000: VI Encontro de Corais Integração Canto Coral, Vozes que amam Universi-
dade Federal de Pelotas/Colégio Gonzaga, Pelotas/RS
2000: V Encontro de Corais/III Terceiro Canta Rio Grande, Rio Grande/RS
2001: VI Encontro de Corais/IV Canta Rio Grande, Rio Grande/RS
2001: VII Encontro de Corais Integração Canto Coral, Vozes que amam Universi-
dade Federal de Pelotas/Colégio Gonzaga, Pelotas/RS
2001: XII Encontro de Corais de Vera Cruz, Vera Cruz/RS
2001: XXVI Audição de Corais Pelotenses ACOPEL, Pelotas/RS
2001: XXIV Encontro Coral de Canoas, Canoas/RS
2002: VII Encontro de Corais/V Canta Rio Grande, Rio Grande/RS
2002: XXVII Audição de Corais Pelotenses ACOPEL, Pelotas/RS
2002: XXXVII Festival de Coros do Rio Grande do Sul, Guaíba/RS
2003: 3º Festival Sons, Tons e Dons/Paróquia Divino Semeador, Pelotas/RS
2003: XIX Encontro de Corais de Rio Grande ENCORG, Rio Grande/RS

Ainda, na fanpage, é possível localizar gravações realizadas pelos próprios can-


tores e público presente em concertos. Dessa forma, registram-se em audiovisual
os repertórios, as formações, a participação de cantores, os locais de apresenta-
ção, a presença da audiência e a receptividade do repertório, tais como aplausos
e outras reações do público. Trechos de ensaios também integram o conjunto de
vídeos, possibilitando o acompanhamento de processos de construção de reper-
tório, ao estilo ensaio aberto. Destacam-se os vídeos da participação na II Mostra
de Corais de Florianópolis, em Santa Catarina, realizada em 2016. A página tam-
bém proporciona a organização e divulgação de eventos, tais como a série de Con-
certos Vox Chorum, Vox Humana e Vox Nocte, realizadas em Pelotas entre 2017 e
2018, na Bienal de Arte e Cidadania da UFPel e Porto das Artes. Nessa plataforma
também são informadas participações em eventos, tais como o Festival de Música
Coral Renascentista Gil de Roca Salles, ocorrido em julho de 2019 na Igreja das
Dores, em Porto Alegre.
Além da fanpage no Facebook, o coral utiliza-se desta rede social através de
um grupo fechado destinado à comunicação interna. Neste canal, são enviados
recados, informações e partituras, servindo como mecanismo de discussão e difu-
são de repertório através do compartilhamento de vídeos e registros musicais. O
WhatsApp é outra ferramenta utilizada atualmente pelo grupo para troca de men-
sagens instantâneas, organização de ensaios, bate-papo e comunicações durante
viagens e eventos. Recados como “estamos fazendo o aquecimento vocal na sala
do fundo da Santa Casa de Jaguarão, ao lado da Capela”, garantem a agilidade e

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 92


eficácia, evitando desencontros num grande grupo. Outra ferramenta utilizada é
uma pasta no Google Drive para a hospedagem de partituras e áudios, acessível
a todos os integrantes do grupo, servindo como biblioteca digital. Desta forma,
tradição e contemporaneidade se mesclam ao compartilhar-se, por exemplo, uma
partitura renascentista do Século XVI numa nuvem do ciberespaço.

Figura 7 - Coral
UFPEL 2017-2019.
Fonte: Acervo do
Projeto.

Música ancestral sempre em renovação


Desde 2019, a proposta de trabalho tem sido intensificar a integração entre
a extensão e a pesquisa no Coral UFPel. Isso visa transcender as fronteiras entre
erudito e popular, entre antiguidade e novidade, entre sacro e secular. Dentre as
ações previstas a curto prazo, prevê-se a implementação de atividades criativas,
com a elaboração e publicação de composições e arranjos exclusivos, incluindo
a gravações originais que enfatizem a música brasileira no desenvolvimento de
pesquisa integrada à extensão. A integração entre saberes acadêmicos e episte-
mologias da cultura popular é potencializada pelos entrecruzamentos entre mú-
sica coral e canção popular. A pesquisa artística será explorada com mais ênfase
no futuro, associada ao grupo de pesquisa “Núcleo de Música Popular/NUMP” e à
pesquisa “Poética da Canção”, cadastrados no CNPQ, buscando-se a interlocução
com diferentes cursos, disciplinas e áreas do conhecimento. Cabe ressaltar que o
termo “canção popular”, na presente abordagem, transcende as formas midiáticas
dos séculos XX e XXI, englobando toda a tradição vocal ocidental, desde o canto
gregoriano, passando por nossas matrizes e ancestralidades indígenas e africanas.
Esse repertório é objeto de estudo, pesquisa, gravação e experimentação sonora
do grupo. A integração interdisciplinar com áreas como Artes Cênicas, Artes Visu-
ais, Letras, Linguística, Antropologia, Filosofia, Educação e Ciências Sociais, entre
outras, oferece novas perspectivas de atuação do Coral UFPel, sempre honrando
sua história e o legado de centenas de cantores que passaram por diversas forma-
ções, repertórios e regentes.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 93


Referências
CASTILHOS, Joelma Santos. Sentidos e histórias que narram corpos que criam:
explorações “radicantes” e experiências ético-estéticas e artísticas na Licenciatu-
ra em Pedagogia da FaE/ UFPel. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Pro-
grama de Pós-Graduação em Artes Visuais. Centro de Artes. Universidade Federal
de Pelotas, 2015.

GRINGS, Bernardo. O ensino de regência na formação do professor de música:


um estudo com três cursos de licenciatura em música da região sul do Brasil. Dis-
sertação (Mestrado em Música) – Universidade Estadual de Santa Catarina, 2011.

LONER, Beatriz Ana; GILL, Lorena Almeida; MAGALHÃES, Mario Osório. Dicio-
nário de história de Pelotas. 3. ed. Pelotas: Editora UFPel, 2017. Disponível em:
[Link] Acesso em: 20 set. 2019.

SILVA, Carlos Alberto Oliveira da. Donde Musica Hubiere, Cosa Mala No Existie-
re: uma collage do concerto Vox Chorum do Coral UFPel. Dissertação (Mestrado
em Educação) – Universidade Federal de Pelotas, 2019.

SILVA, Carlos Alberto Oliveira da; BUSSOLETTI, Denise. Memória e a reescrita


da história: a experiência de concepção do Concerto Vox Chorum do Coral UFPel.
In: V ENCONTRO HUMANÍSTICO MULTIDISCIPLINAR/IV CONGRESSO LA-
TINO-AMERICANO DE ESTUDOS HUMANÍSTICOS MULTIDISCIPLINARES,
2019, Jaguarão. Resumos [...]. Jaguarão, 26, 27 e 28 de novembro de 2019, p.
108.

SOBRE O AUTOR
Leandro Ernesto Maia, licenciado
em Música pela Universidade Fede-
ral do Rio Grande do Sul. Doutor em
Música (Songwriting) pela Bath Spa
University/Reino Unido. Professor do
Centro de Artes da UFPel junto ao Cur-
so de Bacharelado em Música. E-mail:
[Link]@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº1 94


TEATRO EM EXTENSÃO
NÚCLEO DE TEATRO DA UFPEL

Daniel Furtado Simões da Silva

Em meados de 1995, a professora Fabiane Tejada Silveira, à época professora


substituta de Expressão Cênica na UFPel, ainda no antigo ILA (Instituto de Letras e
Artes), propôs à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, dirigida então pelo professor
Francisco Elifalete Xavier, e ao Departamento de Arte e Cultura, coordenado pela
professora Isabel Bonat Hirsch, a criação de um projeto de extensão em Teatro
dentro da UFPel. Na década de 90, Pelotas ainda vivia os últimos tempos da fe-
bre de festivais e mostras – como o Festival Gaúcho de Teatro Amador – e havia
vários grupos teatrais que funcionavam dentro das várias unidades acadêmicas da
universidade, como a Odontologia, a Medicina e o CAVG (Colégio Agrícola Viscon-
de da Graça). Se a UFPel, através da PREC, buscava apoiar a produção desses gru-
pos e de outros ligados à comunidade pelotense cedendo transporte ou firmando
parcerias, não havia nenhum projeto extensionista que fosse institucionalmente
vinculado à universidade.
Já havia dentro da estrutura da UFPel o Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo
(MALG), o coral e a orquestra. O Núcleo de Teatro da UFPel, criado como Teatro
Universitário, surgiu suprindo esta lacuna, oferecendo cursos, oficinas, criando
grupos de estudo, realizando produções teatrais de cenas e esquetes, participan-
do de festivais, incluindo atores e diretores de dentro e de fora da universidade,
estabelecendo contatos e parcerias com os diversos grupos atuantes em Pelotas.
Ao longo desses quase vinte e cinco anos, o Núcleo vem atuando de forma
ininterrupta, promovendo oficinas, trabalhando em parceria com outros projetos
dentro da UFPel, fazendo apresentações em escolas, eventos e outras atividades.
Tendo servido como um fomentador para a criação do curso de Licenciatura em
Teatro da UFPel, que iniciou suas atividades em 2008, o Núcleo buscou nos últi-
mos anos atuar como um verdadeiro projeto integrado, unindo Ensino, Pesquisa
e Extensão.
Como um projeto vinculado à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura, o Núcleo é,
dentro da estrutura da Universidade, um projeto estratégico, que não está ligado à
figura de um professor coordenador específico. Assim, ele foi criado e coordenado

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 95


inicialmente pela professora Fabiane Tejada da Silveira, sucedida pelo professor
Adriano Moraes de Oliveira e comandado atualmente pelo professor Daniel Fur-
tado Simões da Silva. Dessa forma, o projeto Núcleo de Teatro da UFPel espera
continuar por muitos anos sendo um lugar de experimentações, de parcerias e de
encontros com a comunidade, reforçando seu caráter pedagógico e de difusão de
conhecimento.

Os primeiros anos
Os anos que antecederam a criação do curso de Licenciatura em Teatro, de 1995
a 2008, foram de um tipo de trabalho que se voltava ao mesmo tempo para a co-
munidade externa e para os acadêmicos da UFPel, mesclando oficinas a criação de
cenas e esquetes para apresentações públicas e participações em festivais.
Como dizem Fabiane Tejada e Úrsula
Rosa da Silva, no livro Memória – Teatro
da UFPel/RS: dez anos de Núcleo de Tea-
tro Universitário, os objetivos principais
do Núcleo eram
integrar os acadêmicos e docentes despertos
ao assunto nas oficinas de trabalho e grupos de
estudo; inserir a comunidade geral interessa-
da em teatro nas oficinas e grupos de estudos;
aprimorar, estimular e desenvolver a capacida-
de expressiva dos indivíduos envolvidos, na prá-
tica com jogos teatrais nas oficinas de trabalho;
resgatar a cultura e cidadania na região pelo
processo de produção de espetáculos, perfor-
mances e improvisações, visando sempre à in-
serção na comunidade e à busca do resgate da
identidade cultural; integrar-se a projetos com
as demais áreas artísticas no meio universitário
e fora dele (SILVEIRA; ROSA, 2006, p. 11).

O Núcleo surge como uma oficina de


teatro aberta à comunidade dentro de
uma sala na Escola de Belas Artes. Era
um período em que havia vários gru-
pos teatrais atuantes dentro da cida-
de de Pelotas, e em vários deles havia
pessoas ligadas à Universidade. Entre
outros, havia o Teatro Escola de Pelo-
tas (TEP), dirigido por Valter Sobreiro, o
grupo Grupo Oficina, dirigido por Flávio
Figura 1 - Casamento Dornelles, que depois foi aluno do curso de Teatro, a Cia Lágrimas & Máscaras,
do Pequeno Burguês dirigida por Gilberto Fonseca, o Teatro Frio, no qual trabalhavam Giorgio Ronna
– 1998
(atual Secretário de Cultura de Pelotas) e a professora Carmen Biasoli, professora
Fonte: Acervo do de Artes Visuais e uma das articuladoras e incentivadoras da criação do curso de
autor. Teatro-Licenciatura.
Dentro da ideia inicial de acolher quem gostava e queria fazer teatro tanto na
universidade como na comunidade em geral, foram criadas oficinas para crianças

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 96


de 9 a 12 anos e oficinas para adultos (ou de 12 anos em diante). Alunos de Artes
Visuais, que faziam a disciplina de Expressão Cênica, eram alguns dos mais fre-
quentes nestas oficinas. A dinâmica do trabalho de improvisação, de corpo, voz,
interpretação, levaram à criação dos primeiros trabalhos, como o esquete “Anjo
Negro”, livremente adaptado da peça de Nelson Rodrigues, apresentado no I Fes-
tival de Expressões Cênicas do Circulo Operário Pelotense em 1997 e “O Casamen-
Figura 2 - Auto da to do Pequeno Burguês”, de Bertolt Brecht, dirigida por Eduardo Matarredona,
Barca do Inferno –
ano 2000. que estreou em setembro de 1998, no 9º Festival Gaúcho de Teatro Amador, no
COP. Este trabalho classificou-se para participar da fase regional do Festival, em
Fonte: Acervo do Viamão, onde recebeu o prêmio de melhor espetáculo e foi selecionado para par-
autor. ticipar da fase final do Festival, em Erechim.
Outro trabalho criado pelo Núcleo
nesse tempo foi o “Auto da Barca do In-
ferno”, inspirado na obra de Gil Vicente
e dirigido por Fabiane Tejada e Carmen
Biasoli. O espetáculo foi idealizado para
as comemorações da virada do milênio
e os 500 anos do Brasil e estreou em se-
tembro de 2000, no pátio do prédio
onde ficava a sede do Núcleo na época,
na Faculdade de Agronomia Eliseu Ma-
ciel, atual Museu de Arte Leopoldo Go-
tuzzo, em frente ao Mercado Público.
Antes da criação do curso de Tea-
tro, o Núcleo era o único projeto teatral
institucionalmente ligado à Universida-
de; dessa forma, além dos espetácu-
los e apresentações teatrais, eram inúmeros os convites para oficinas e eventos.
Como diz a Fabiane Tejada, “A gente trabalhava muito, era Fecriança, Fenadoce,
quando chamavam a gente dava muita oficina também, fazia um pouco do papel
que a gente faz nos projetos de extensão hoje no curso”. (SILVEIRA, 2017, p. 18).
Figura 3 - Auto da Trabalhando entre oficinas, cursos, eventos e apresentações teatrais, os primeiros
Barca do Inferno – anos do projeto serviram para consolidá-lo como parte integrante da estrutura da
ano 2000. UFPel, dentro da sua ligação estreita com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura
Fonte: Acervo do
autor.
A pesquisa de
metodologias teatrais
e os experimentos
poéticos
Quando o professor Adriano Mo-
raes de Oliveira assume a coordenação
do Núcleo, em 2007, a sua orientação
muda. Profundamente interessado nas
práticas do ator, Adriano vai buscar
um aprofundamento das linguagens
poéticas, tendo no trabalho do ator
sobre si mesmo a sua principal carac-
terística. Caracteriza-se aí o estudo e a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 97


leitura de poéticas de teóricos que se voltaram sobre a pesquisa do trabalho do
ator, em especial Constantin Stanislavski e Jerzy Grotowski.
O foco do trabalho passa a ser o treinamento do ator, a implementação de roti-
nas de trabalho, o estudo de grupos de teatro de pesquisa como o Teatro da Verti-
gem, o Ói Nóis Aqui Traveiz, o LUME e o Teatro de Los Andes. A partir daí são cria-
dos vários “exercícios públicos teatrais”, que “tinham como característica principal
a valorização do processo” (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2017, p. 23), colocando-se as-
sim para o público não como trabalhos acabados, mas estudos que ainda estavam
em processo, como um work in progress.
A dinâmica de trabalho em torno do treinamento do ator envolvia, assim, leitu-
ra e discussão de textos teóricos (no primeiro momento, os textos de Stanislavski),
exercícios físicos e experimentações. Daí surge “Stanislavskiana nº1”, inspirada no
texto A mais forte, de Strindberg, e que ficou em cartaz no auditório do Centro de
Artes (na época Instituto de Artes e Design) por quatro semanas, com apresenta-
ções às sextas e sábados, e atuação de
Renata Neves, Paula Luersen, Viviane
Moreira e Marta Bottini.
Após a criação do curso de Licen-
ciatura em Teatro, em 2008, o públi-
co frequentador do Núcleo alterou-se
profundamente, sendo composto em
sua maioria por alunos graduandos do
curso. Isso possibilitou que o projeto
se revestisse de um caráter de ensino,
ao mesmo tempo que aprofundava as
possibilidades de pesquisa em torno
da linguagem teatral. No seu período à
frente do Núcleo, o professor Adriano
Moraes criou inúmeros “experimentos
poéticos” (assim ele passou a denominar
os exercícios públicos a partir de 2010),
que mantinham o caráter de obras em
Figura 4 - processo, e serviam como experimentação da pesquisa tanto no que tange as
“Stanislavskiana nº possibilidades da cena, como as técnicas estudadas e treinadas. A sua utilização
1” – exercício público se dava através de cenas e esquetes que se ligavam a uma estética pós-moderna,
teatral.
onde a fragmentação e a não-linearidade começaram a se fazer presentes.
Fonte: Acervo de Assim, em 2008 foi criado o exercício público “Variações sobre um mesmo
Adriano M. Oliveira. Hamlet”, com atuação de Leonardo Dias, e em 2009, “As Crias”, a partir do tex-
to As Criadas, de Jean Genet, que serviu para que os alunos Elias Pintanel, Inácio
Shardosin e Maurício Rodrigues exercitassem a prática do “método das ações físi-
cas”, criado por Stanislavski no final de sua vida:
O texto de Genet foi exaustivamente analisado em termos de objetivos.
Além disso, o projeto de experimentação foi construído para que os ato-
res interpretassem todos os personagens. Com essa opção, o experimen-
to teve como característica uma forte recorrência de mudanças em todos
os aspectos: utilização do espaço, figurinos, cenários, personagens, etc.
A rotina se manteve a mesma durante todo o ano: estudos, treinamen-
tos, ensaios e em alguns dias: apresentação após os ensaios. (OLIVEIRA;
RODRIGUES, 2017, p. 28)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 98


Quando o Núcleo passou ao ocupar
o endereço no qual funcional durante
oito anos, uma casa alugada na rua
Andrade Neves, surgiu a possibilida-
de de utilização daquele espaço para
apresentações públicas. Constituída
de pequenas salas que possibilitavam
o trabalho individual, a casa tornou-se
um local propício a experimentações
individuais e a um contato próximo,
íntimo, do ator com o espectador. As
várias cenas e apresentações realiza-
das naquele local tinham em média um
público máximo de quinze pessoas, que
usufruíam da experiência dessa relação
de extrema proximidade entre palco e
Figura 5 - “CRIAS”, plateia (melhor seria dizer entre o espaço de atuação e o dos espectadores, já que
experimento poético. não havia um palco que os separasse). Assim, foram apresentados, por exemplo,
os trabalhos-solo “Pós-Fausto”, interpretação de Elias Pintanel; “Alívio Imediato”,
Fonte: Acervo de
Adriano M. Oliveira. interpretação de Carlos Eduardo Perola; “O mentiroso”, interpretação de Rodolfo
Furtado; “Sylvia”, interpretação de Giovanna Hernandes; e “De profundis”, inter-
pretação de Mauricio Rodrigues.
Ao mesmo tempo, sentindo a necessidade de contato cm plateias maiores e de
atingir um público além dos muros da universidade, foi criado o espetáculo infantil
“... e o gato não comeu!!!”, com texto e direção de Adriano Moraes. Este espe-
táculo, concebido como um espetáculo-jogo, foi apresentado em várias escolas
da cidade de Pelotas, além de inúmeras outras sessões que foram realizadas no
Teatro do COP, que à época estava sendo utilizado pelos cursos de Teatro e Dança
para atividades didáticas.

Figura 6 - “...e o
gato não comeu!”,
experimento poético.

Fonte: acervo de
Adriano M. Oliveira.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 99


Também no COP é criado o experimento poético “Projeto Alpinistas: CRA-
CKOLÂNDIA”, a partir dos textos Os Alpinistas de O. Dragún e de trechos do texto
Apenas o fim do mundo de J. L. Lagarce, unidos a uma pesquisa sobre os sintomas
dos usuários do crack. A partir das estruturas individuais concebidas separada-
mente por cada ator, a encenação foi realizada, apresentando-se como um “es-
petáculo-alerta”. Em 2012, também nesta tentativa de atingir outros espaços, o
Núcleo criou o projeto “Margem Periférica”, uma espécie de aula-espetáculo que
tinha por objetivo ensinar ou ao menos estimular a compreensão do funcionamen-
to da linguagem teatral por parte do público (cada quadro foi criado de acordo
com uma linguagem ou poética teatral específica, buscando sempre estabelecer
uma relação e um diálogo entre o palco e o público). Este espetáculo circulou por
treze espaços da UFPel: Centro de Ciências Químicas, Farmacêuticas e de Alimen-
tos, Centro de Artes, Faculdade de Administração e Turismo, Faculdade de Agro-
nomia Eliseu Maciel, Faculdade de Direito, Faculdade de Enfermagem e Obstetrí-
cia, Centro de Letras e Comunicação, Faculdade de Meteorologia, Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Instituto de Biologia, Instituto de Ciências Humanas e
Faculdade de Veterinária.
Esta fase, concomitante à criação do curso de Licenciatura em Teatro e de des-
coberta de seus caminhos entrelaçando a extensão, o ensino e a pesquisa, adquire
um novo aspecto quando se formam as primeiras turmas do curso.

Os novos caminhos
O curso de teatro é criado em 2008, e os primeiros anos de seu funcionamen-
to correspondem à sua estruturação, com a chegada de inúmeros professores, a
consolidação de seu currículo e à formação das primeiras turmas, o que permite
uma avaliação do próprio funcionamento do curso. Os professores ingressantes
vão também, aos poucos, criando seus projetos de Extensão e de Pesquisa, num
processo de troca e alimentação mútua, criando parcerias e redefinindo atribui-
ções, interesses e afazeres.
Neste ponto, o próprio Núcleo precisou redefinir-se, não cabia mais ao projeto
oferecer oficinas de Introdução ao Teatro, papel que deveria ser cumprido agora
pelos egressos do curso que buscavam inserir-se profissionalmente na cidade, seja
como professores nas escolas públicas ou particulares, seja trabalhando junto a
grupos e outras instituições, públicas ou privadas.
Apesar de tratar-se de um projeto de extensão, o Núcleo continuou a trabalhar
como um projeto integrado, fundindo em seus procedimentos o ensino, a pesquisa
e a extensão. Mantendo a opção por um trabalho continuado, o projeto buscou
possibilitar a aqueles que o integravam uma vivência, no que toca a questões de
interpretação, direção teatral e dramaturgia da cena, que fosse ao mesmo tempo
profunda e intensa:
Tomemos como exemplo os experimentos cênicos realizados em 2013 e
2015. As cenas foram criadas e desenvolvidas pelos alunos integrantes
do projeto a partir de textos literários. Na forma de monólogos ou em
duplas, essas cenas propiciavam o estudo e a pesquisa em três campos
teatrais diferentes: o da atuação, da direção teatral (relativa à montagem
da cena e da adaptação do texto para a cena) e a questão da recepção
teatral e da relação com público (pensando-se no momento da apresen-
tação) (SILVA, 2017, p. 38).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 100


Figura 7- Projeto
Visitando Caio. Em
sentido horário,
Patrícia Bicoski,
Marcos Kuszner,
Raíssa Bandeira e
Evelin Suchard.

Fonte: Fotos de
Thalles Echeverry

Assim, em 2013 foram criadas as cenas “Confidências”, a partir de poemas de


Carlos Drummond de Andrade, com Lucas Lage, “Demônio”, baseada no conto
“Raquel”, de Martha Medeiros, com Tayla Rosa, “Borboletas”, baseada no conto
“Uma história de borboletas”, com Carlos Prado, “Creme”, baseada no conto “Cre-
me de Alface”, com Marcela Bueno, “Uma história”, baseada no conto “Linda, uma
história horrível”, com Carlos Prado e Tayla Rosa e “Joãozinho e Mariazinha”, ba-
seada no conto “Joãozinho e Mariazinha”, com Lucas Lage e Marcela Bueno, todos
eles de Caio Fernando Abreu. Em 2015 foi realizado o projeto Visitando Caio, onde
também foram montados textos de Caio Fernando Abreu, na forma de monólo-
gos: “Até oito minha polpa macia”, “Os dragões não conhecem o paraíso”, “Sapa-
tinhos vermelhos” e “Anotações sobre um amor urbano”, com atuação de Patrícia
Bicoski, Raíssa Bandeira, Evelin Suchard e Marcos Kuszner, respectivamente, tra-
balho apresentado em Pelotas, na sede do Núcleo e na FURG, em Rio Grande.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 101


O desenvolvimento do material dramatúrgico tornou-se assim uma das ca-
racterísticas principais dessa etapa de trabalho do Núcleo, que cumpria ainda o
papel de formação de um artista/criador/pesquisador. O trabalho com objetos
e de exploração de sua fisicalidade, apoiado pelos estudos em torno do Teatro
Antropológico de Eugênio Barba, permitia aos alunos/atores a descoberta de uma
nova maneira de utilizar o próprio corpo, distante daquela exigida pelo teatro
naturalista.

Figura 8
– Borboletas.

Fonte: Foto de
Daniel Furtado.
Ao mesmo tempo que o Núcleo continuava seu trabalho de criação, não havia
como deixar de lado o contato feito com a comunidade através dos cursos e
oficinas destinados a ela. Enquanto o Núcleo funcionou como um programa, foi
criado o Projeto Núcleo 2 que tinha como objetivo principal proporcionar, através
da experimentação, o conhecimento da linguagem teatral, seja para estudantes
da UFPel, seja para a comunidade pelotense em geral. Assim, diversos foram os
alunos que, tendo passado pelo Núcleo 2, depois vieram a tornar-se alunos de cur-
so de Teatro. Entre 2014 e 2015 o Núcleo 2 ofereceu para a comunidade universitá-
ria e para a população em geral os seguintes cursos/oficinas: Teatro de Rua (1º se-
mestre de 2014), Teatro Popular Mirandês (2º semestre de 2014), Jogatina – Modo
de compor (1º semestre de 2015) e Ao ar livre – Intervenções urbanas (2º semestre
de 2015). Com isto, o Núcleo buscou oferecer oficinas mais direcionadas e especí-
ficas, procurando não ocupar um lugar que poderia ser dos alunos egressos e ao
mesmo tempo criar caminhos rumo a um teatro popular, sintonizando-nos com os
caminhos da cidade de Pelotas (neste momento privada do usufruto de seu Teatro
Municipal, o Sete de Abril, e tendo poucos espaços para apresentações cênicas).
Dentro do projeto de Intervenções Urbanas, que sucedeu a oficina de Teatro de
Rua, buscou-se discutir o processo de ocupação da cidade, o uso dos espaços e a
forma como os transeuntes e os trabalhadores do centro urbano vivenciam este os
vários espaços. A relação entre o público e o privado, a espetacularização da vida
cotidiana, o processo de “higienização” que vários centros urbanos adotam, os di-
versos processos de subjetivação, tudo isso era discutido e levado em conta para a
realização das intervenções, que apontavam para outras maneiras de se criar em
teatro, numa ligação mais estreita e direta com a Arte da Performance.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 102


Figura 9 - Ao Ar
Livre.

Fonte: Foto de
Daniel Furtado.

Depois da maioridade
Após seus vinte anos, e continuando rumo aos vinte e cinco anos de ativida-
de ininterrupta, o Núcleo buscou fortalecer o seu contato com os vários projetos
existentes dentro da Universidade. Assim, atuou em parceria com o projeto de
extensão “Socioeducação (En)Cena”, coordenado pelo professor do curso de psi-
cologia Édio Ranieri, com os projetos de pesquisa “Leituras do drama contempo-
râneo”, coordenado pela professora Fernanda Fernandes, do curso de Teatro, e “O
ator e o teatro contemporâneo: atuação e dramaturgias”, coordenado por Daniel
Furtado Simões da Silva (que realizaram vários ensaios, apresentações e leituras
públicas no espaço do Núcleo), com o projeto de extensão “Tatá - Núcleo de Dan-
ça-Teatro”, coordenado pela professora do curso de Dança Maria Falkembach,
além de outros eventos e parcerias, como o experimento de dramaturgia sonora
“Lado B”, parte prática do Trabalho de Conclusão de Curso da ex-bolsista do Nú-
cleo Monique Carvalho, apresentado no Núcleo em 2015.
Em 2017 foram criados os trabalhos O Apanhador de Assobios, baseado na obra
de Manoel de Barros, com atuação de Denilson Cosseres e João Vitor, trabalho que
estreou na Feira do Livro e foi apresentado em várias escolas de Pelotas durante
o ano de 2018, assim como na cidade de Piratini, e a cena Território Universal –
Espere o Calorão passar, baseada em texto do dramaturgo romeno Matéi Visniec,
com atuação de Denilson Cosseres, João Vitor, Thales Echeverry, Evelin Suchard e
Daniel Furtado, obra que discutia os direitos humanos a partir da ideia trazida pelo
texto sobre um território onde os direitos de cada um fossem universalmente res-
peitados. Em 2018, despedindo-se da sede da rua Andrade Neves, foram criados
os Solos Humanos, composto pelos solos Mulher, por Evelin Suchard, a partir do
texto de Ro de La Torre, “100 comentários machistas”, e Homem Negro, de Denil-
son Cosseres, a partir das músicas “Crime Bárbaro” de Daniel Sapiência e “Cota
não é esmola”, de Bia Ferreira (este trabalho foi apresentado em escolas e diversos
locais da UFPel em 2019).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 103


Figura 10 - O
Apanhador de
Assobios.

Fonte: Foto de Paulo


Gaiger.

No livro que editamos sobre os 20 anos do Núcleo de Teatro da UFPel (dispo-


nível em [Link] observávamos e refle-
tíamos sobre os agentes e instituições com os quais o Núcleo mantinha parceria
(Escolas, Prefeituras, Entidades, os vários cursos e segmentos da própria UFPel),
as apresentações realizadas, os cursos e as oficinas. Percebíamos que, mesmo
“com a constante troca de seus integrantes, assim como com a alternância dos
professores que coordenam os trabalhos”, era possível perceber “uma coerência
no tipo de trabalho apresentado, no sentido da opção por espaços alternativos e
do não aprisionamento a dramaturgias clássicas” (SILVA, 2017, p. 42). Além disso,
era possível constatar que a integração entre Ensino, Pesquisa e Extensão, não
obrigatoriamente nesta ordem, era o que norteava nosso trabalho, assim como a
busca de uma postura ética enquanto pessoa e cidadão. A preocupação com a for-
mação integral das pessoas, eivada no próprio caráter extensionista que o Teatro
possui1, leva ao desejo de manter-se em contínuo processo de mudança: compro-
metidos com a realidade social, sabendo de nosso papel não apenas de formação,
mas de transformação desta realidade, estamos também em constante processo
de aprendizagem e transformação, para podermos caminhar em direção aos pró-
ximos 50 anos de uma forma íntegra, honesta e engajada.

1 “O teatro é, por si, uma atividade que se concretiza no encontro com a comunidade, possuindo um
viés extensionista por natureza: atua-se para um público, representa-se diante de uma audiência, comparti-
lha-se com os espectadores um momento do nosso tempo, divide-se com eles um espaço, apresentando-lhes
o corpo e a voz dos atores e atrizes, suas ideias e emoções, sua maneira de enxergar e de interpretar palavras
e ações que frequentemente foram escritas por outras pessoas, de tempos e lugares distantes.” (SILVA, 2017,
p. 43)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 104


Referências
OLIVEIRA, Adriano Moraes; RODRIGUES, Maurício. Núcleo de Teatro da UFPel:
locus de interação teatral. In: SILVA, Daniel Furtado Simões da (org.). Núcleo de
Teatro da UFPel: 20 anos em cena [Recurso eletrônico]. Pelotas: Ed. da UFPel;
FAU, 2017. p. 22-36.

SILVA, Daniel Furtado Simões. Núcleo de Teatro: desafios e perspectivas para o


terceiro milênio. In: SILVA, Daniel Furtado Simões da (org.). Núcleo de Teatro da
UFPel: 20 anos em cena [Recurso eletrônico]. Pelotas: Ed. da UFPel; FAU, 2017. p.
37-45.

SILVEIRA, Fabiane Tejada da. Entrevista: a criação e os primeiros anos do Núcleo


de Teatro da UFPel. In: SILVA, Daniel Furtado Simões da (org.). Núcleo de Tea-
tro da UFPel: 20 anos em cena [Recurso eletrônico]. Pelotas: Ed. da UFPel; FAU,
2017. p. 13-21.

SILVEIRA, Fabiane Tejada da; SILVA, Úrsula Rosa da. Memória - Teatro da UFPel/
RS: dez anos de Núcleo de Teatro Universitário. Pelotas: Ed. da UFPel, 2006.

SOBRE O AUTOR
Daniel Furtado Simões da Silva,
bacharel em Direção Teatral pela Uni-
versidade de São Paulo. Doutor em Ar-
tes pela universidade Federal e Minas
Gerais. É professor do curso de Licen-
ciatura em Teatro do Centro de Artes da
UFPel. Coordenador no Núcleo de Tea-
tro da UFPel desde 2013, atua na área
da Interpretação Teatral e da Encena-
ção, desenvolvendo pesquisas na área
da atuação e da dramaturgia contem-
porânea. E-mail – danielfurtado62@
[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº2 105


O PROJETO DESAFIO COMO
UMA PRÁTICA E UM ESPAÇO À
ESPERANÇA!
Lúcia Maria Vaz Peres
Noris Mara Pacheco Martins Leal
Valquíria Machado

Um projeto que se forma a partir da esperança


Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se liber-
tam em comunhão. (Pedagogia do Oprimido, 1968)

Quando penso em minha Terra, penso sobretudo no sonho possí-


vel – mas nada fácil – da invenção democrática de nossa sociedade.
(À Sombra desta Mangueira, 1995)

Um projeto que nasce de um sonho nos idos de 1990... Um grupo de jovens


sonharam juntos e realizaram. Foi quando em 1993 nasce o sonho coletivo com o
nome de “Desafio Pré-vestibular”, com a vontade de ajudar estudantes que não
podiam pagar cursinhos para ingressar na universidade.
Hoje, em 2019, no ano em que completa 26 anos, numa universidade que com-
pletou 50 anos - Universidade Federal de Pelotas (UFPel) -, são atendidas de 04 a
06 turmas por ano, divididas entre extensivo e intensivo. O número de integrantes
do projeto pode chegar a 3001 estudantes por ano, com mais de 60 educadores2,
alunos de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado da UFPel.
1 Anualmente são abertas quatro turmas de extensivo no inicio do ano, duas no período vespertino e
duas no noturno, ao longo do primeiro semestre é observado a evasão de alunos, dependendo deste número
poderá ser aberta mais uma ou duas turmas de intensivo, uma em cada turno. No ano de 2018 foram abertas
cinco turmas, sendo selecionados 250 educandos, em 2019 foram abertas 6 turmas, totalizando trezentas
pessoas.
2 Neste texto usaremos o termo educador para todos os colaboradores, graduandos ou graduados em
cursos de licenciatura, que possuem atividades de ensino junto aos educandos do Projeto Desafio Pré-U-
niversitário. Isto posto para mantermos a coerência com o pensamento de Paulo Freire que embasa a atu-
ação do projeto. Com isso, estamos proporcionando mais uma modalidade de formação pra estas e estes
estudantes-professoras(es).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 106


Figura 1 – Aulão Este fato vem transformando o projeto num grande e importante espaço de
inaugural do experimentação e, porque não dizer, de formação de professores, cujas experiên-
extensivo - Auditório
cias, como aprendizes na docência, ultrapassa o número de horas realizadas nos
do Colégio Municipal
Pelotense, 2019. estágios obrigatórios das licenciaturas (a exemplo da foto acima – Fig. 1). Além
disso, apresenta um caráter diferenciado, visto que as discussões e reflexões são
Fonte: Acervo
partilhadas entre os estudantes ministrantes de disciplinas, tanto na área, como
do Desafio Pré-
Universitário, 2019. no grande grupo. Com isso, pretende-se garantir o trabalho de autogestão e de in-
terdisciplinaridade político-pedagógico nas ações do projeto. A autogestão acon-
tece através do trabalho integrado entre os estudantes, em grupos, no momento
em que planejam, decidem e executam os rumos do trabalho a ser desenvolvido,
sem uma interferência pontual da coordenadora. Poder-se-ia dizer que é uma au-
togestão compartilhada, visto que a UFPel possibilita o projeto, subsidiando ma-
teriais necessários à sua realização. A tônica conceitual da interdisciplinaridade diz
respeito ao trabalho comum entre as disciplinas. Ou seja, diz respeito ao processo
de ligação entre as disciplinas.

1993 a caminhada começa...


Na década de 1990, o Brasil foi assolado pelas políticas neoliberais, acarretando
uma grave crise econômica e política. Momento em que houve uma busca pela
implementação de medidas descentralizadoras, desburocratizantes e desregula-
mentadoras. Foram implantados programas de privatizações das empresas esta-
tais, como meio de redução do déficit público, e transferência de atribuições, no
campo social, aos estados e municípios.
Em Pelotas, no sul do Brasil, a crise refletiu-se no fechamento de grande parte
das indústrias, principalmente as de beneficiamento de frutas, principal produto
da cidade e no fechamento de centenas de postos de trabalho, o que aumentava o
número de pessoas em vulnerabilidade social.
As dificuldades políticas e econômicas refletiam-se na educação, e o acesso ao
ensino superior era muito baixo em relação ao número total da população. Thum
(2000) nos coloca que, em 1997, Pelotas possuía 55.509 estudantes matriculados
no 10 grau, 17.821 no 2o grau e no ensino superior 12.876, sendo que destes apenas
6.318 na Universidade Federal de Pelotas, os outros, na Universidade Católica. Es-
ses números nos mostram que grande parte dos estudantes não chegavam nem
ao ensino médio. Resultado de políticas que não priorizavam o acesso à educação
para todos. Situação que se desenvolveu ao longo do tempo no país e que foi acir-
rada a partir do pensamento neoliberal que priorizava o ensino fundamental, em

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 107


detrimento dos demais níveis de ensino, e defendia a relativização do dever do
Estado com a educação.
Nesse cenário um grupo de alunos da UFPel, cientes da necessidade de ha-
ver mudanças na situação existente, uniram-se, a fim de buscar soluções para o
momento. Como salienta Thum (2000), muito influenciados pelo pensamento
do sociólogo Herbert de Souza, que capitaneava a campanha “Pela vida, contra
a fome”, a qual tinha como objetivo a mobilização de todos os segmentos da so-
ciedade brasileira na busca de soluções para a erradicação da fome e da miséria.
Esta campanha estimulava a participação cidadã em busca da defesa de políticas
públicas para o benefício social. Nesta perspectiva, a comunidade de estudantes
de graduação e pós-graduação da UFPel encontrou uma solução, organizar um
pré-vestibular popular no seu interior, cujas aulas seriam ministradas por estudan-
tes mais adiantados na sua formação acadêmica ou mesmo pós-graduandos.
Após diversas reuniões (inicialmente apenas com os estudantes do Direi-
to), achamos que a possibilidade concreta era a criação de um cursinho
pré-vestibular. Nesse espaço, pensávamos, seria possível “transmitir”
(termo que usávamos muito na época), um pouco do que sabíamos, pois
muitos de nós estávamos cursando além do Direito, outro curso, no meu
caso, estudava também História (ARRIADA, 2019, p.174).

Acreditavam que era dever moral deles, como estudantes de universidade pú-
blica, sustentada pela sociedade, dar uma contrapartida a esta, sua iniciativa jus-
tificava-se pela “exclusão que afasta milhões de jovens de sonhos para um ama-
nhecer mais doce e mais rico. Buscar resgatar a esperança destes jovens faz parte
de nossos anseios”3.
Em uma área no Círculo Operário Pelotense4 contendo uma sala de aula e um
espaço para a coordenação, iniciaram-se as atividades do Pré-Vestibular, com
apoio de sindicatos, que forneciam, principalmente, material de expediente. Para
participar das aulas o futuro estudante necessitava apresentar o certificado de
conclusão do segundo grau e comprovar a baixa renda familiar.
Os educadores naquele momento tinham como perspectiva que mais do que
preparar para o vestibular pretendiam transformar a sala de aula num espaço de
cultura, debate e construção de uma nova visão das relações sociais, lutando em
defesa da educação pública, de qualidade e para todos, opondo-se à política neo-
liberal vigente no país. Segundo Thum (2000), o grupo que formou o Desafio mili-
tava em partidos e projetos de esquerda, e as suas práticas refletiam uma escolha
pedagógica referenciada neste campo.
Entendiam que era necessário a busca de uma sociedade igualitária e, para tan-
to, pretendiam que o educando se apropriasse dos conhecimentos necessários
para entender as regras estabelecidas pela sociedade capitalista e pelas relações
sociais. Os organizadores do Desafio acreditavam que se os educandos entendes-
sem os meandros da sociedade em que estavam inseridos poderiam instrumenta-
lizar-se para a busca de direitos, bem como para a sua participação na organização
da sociedade.
3 Texto extraído da p 02 do projeto de extensão apresentado à Pró-reitoria de Extensão e Cultura da
UFPel em 24/10/1994 por Eduardo Arriada, e aprovado pelo COCEPE em 25/01/1995
4 Entidade operária de inspiração católica, organizada a partir de 1932, a qual caracterizava-se, nos seus
fundamentos, em uma organização que tinha por objetivo promover a formação de líderes operários segun-
do a doutrina social da Igreja.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 108


Figura 2 – Desenho
realizado por Karen
Lima- secretária do
Projeto, 2014.
Fonte: Acervo
Desafio Pré-
Universitário, 2014.

Nesta ilustração pode-se perceber o quanto o Projeto Desafio se constitui como


uma ponte entre a escola pública e o ingresso na universidade. Conforme Thum
(2000), os organizadores acreditavam que a universidade tinha de ampliar o aces-
so da classe trabalhadora ao ensino superior.
Em 1994, Eduardo Arriada, um dos fundadores, que, nesse ano, passou a ser
professor substituto na Faculdade de Educação, inscreveu o Desafio Pré-vestibu-
lar como projeto de extensão, o qual foi aprovado pelo Conselho Coordenador do
Ensino, Pesquisa e Extensão (COCEPE). A escolha de transformar o pré-vestibular
em um projeto de extensão foi uma decisão conjunta do grupo envolvido, pois a
maioria entendia que o projeto só poderia ter continuidade com a institucionaliza-
ção. No entanto, não abriam mão, conforme Thum (2000), de transformar o espa-
ço acadêmico em um espaço de construção e interação com a classe trabalhadora
que não tinha condições de pagar um curso pré-vestibular.
Em 1998, eu tinha concluído o ensino médio e estava trabalhando como
servente de pedreiro, e minha mãe viu a divulgação do Desafio na TV. Fo-
ram dois coordenadores do Desafio na TV Pampa e fizeram a divulgação.
Quando eu cheguei em casa de noite, depois do trabalho ela me disse, por-
que não tínhamos condições de pagar um curso privado: “olha eu vi um cur-
so gratuito, pré-vestibular, e tu poderia te inscrever”. Mas eu estava come-
çando a trabalhar e disse: “olha, se eu não puder trabalhar amanhã, caso
chova, porque em construção quando chove não tem serviço, daí eu vou lá
fazer minha inscrição”, mas sem muita esperança. E no outro dia amanhe-
ceu chovendo, aí eu fiz minha inscrição e entrei naquele ano, 1998. Naquela
época a gente escolhia o curso antes, não é como agora, e eu já gostava
de matemática então escolhi matemática para fazer o vestibular em 98.
Ingressei na UFPel em 1999 (NATCHIGAL, 2018).

A institucionalização do projeto levou ao uso de espaços fornecidos pela uni-


versidade, foram diversas áreas ocupadas ao longo dos anos, a princípio, dividindo
salas com unidades acadêmicas como Faculdade de Odontologia ou de Educação
Física. Depois, ocupando salas de uso exclusivo, no prédio da antiga Escola Eliseu
Maciel, hoje ocupado pelo Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, depois, em prédios

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 109


Figura 3 – Porta de alugados, até chegar na atual sede, Campus Salis Goulart, prédio dividido com
acesso às instalações outras unidades acadêmicas, possibilitando o aumento do número de pessoas
do Desafio no prédio
da Antiga Escola
atendidas. O aumento de espaço físico possibilitou o atendimento de um número
Eliseu Maciel – 2003. maior de educandos anualmente, podendo chegar a trezentos, divididos em tur-
mas de intensivo e extensivo nos períodos da tarde e noite.
Fonte: Acervo
do Desafio Pré- Em ambas as fotos podemos perceber que a instituição sempre deu guarida ao
Universitário, 2003. Projeto Desafio, protagonizado pelo estudante sob a tutela de um professor, nem
sempre tão presente, como eram os
protagonistas e veiculadores das clas-
ses de ensino, no referido projeto. Des-
de sua criação, até o momento, muitas
mudanças e percalços foram mediados
pela instituição.
Em 2017, o Desafio passa a ser consi-
derado um projeto estratégico da nova
gestão da UFPel, tendo como reitor e
vice-reitor, respectivamente, Pedro Ro-
drigues Curi Hallal e Luís Isaías Centeno
do Amaral, que colocaram o projeto
como um dos pontos prioritários de sua
gestão. Um projeto estratégico, em ex-
tensão é definido como:
Os conjuntos de atividades destinadas
prioritariamente à comunidade exter-
na e em consonância com o conceito
de extensão do Plano Nacional de Ex-
tensão Universitária. Caracterizam-se
por já estarem vinculados à PREC há al-
gum tempo, por cumprirem com os te-
mas e objetivos estratégicos do Plano
de Desenvolvimento Institucional, com
as missão e diretrizes da PREC e com as
políticas de extensão da Universidade.5

Portanto, transformando-o em pro-


jeto estratégico a referida gestão con-
fere-lhe um novo status, priorizando-o,
dentre outros projetos de extensão, e
Figura 4 – Equipe de reconhecendo a sua importância como ação extensionista de longo prazo. Mo-
educadores – 2003. mento em que são redirecionados os princípios pedagógicos voltados à Educação
Fonte: Acervo Popular, preconizados por Paulo Freire, sobretudo no que se refere a um deles:
Desafio Pré- “Ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam
Universitário, 2003. entre si, mediatizados pelo mundo”.
Dizendo de outro modo, este projeto ao longo da sua história de 26 anos, foi te-
cido por uma trama de pessoas implicadas pela causa. O que contribuiu para a efe-
tivação de relações pedagógicas tecidas e tramadas, prioritariamente, entre estu-
dantes-professores, em formação nas áreas de licenciatura na UFPel, e estudantes

5 Definição adotada pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura. In [Link]


programas-estrategicos/

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 110


da comunidade que desejavam ingressar na instituição. Ambos os grupos teceram
a trama social mediatizados pelas demandas do mundo e significados cognitivos,
afetivos, éticos, políticos e sociais. O que significa dizer que não basta o conheci-
mento do conteúdo a ser ensinado, é preciso saber como ensinar e a que e a quem
serve o conhecimento ensinado. Além disso, não há uma aula, mas estilos de estu-
dantes-professores e, consequentemente, muitos tipos de aulas. Cada pessoa não
ensina só o que sabe, mas também ensina aquilo que é, pois não existe neutralida-
de no ato de ensinar e aprender, como nos ensinou, há muito, Paulo Freire.

As reinvenções deste projeto nos tempos atuais


Alusivo a este subtítulo, vale lembrar a máxima de Che Guevara: Hay que en-
durecerse, pero sin perder la ternura jamás. Nestes tempos movediços e sombrios,
percebe-se que, em geral, uma das principais dificuldades em gerir projetos relati-
vos a cursos pré-universitários populares, se refere ao seu foco político-pedagógi-
co. Por exemplo, citamos o ideal da educação libertadora e dialógica. No caso do
Desafio, este foi o pilar do projeto desde sua fundação, cuja filosofia sempre foi
dar acesso ao educando a conteúdos, com quantidade e profundidade, requeridos
pelas provas de seleção das instituições de ensino Superior. De modo geral, cursi-
nhos pré-universitários organizam seus tempos escolares em função do critério da
eficiência, estabelecendo uma proporção entre tempo e conteúdo programático,
que privilegia a maior quantidade num período mais breve possível. Isso filia-se à
tradição de uma educação bancária que, tal como caracterizada por Freire, “é puro
treino, é pura transferência de conteúdo, é quase adestramento, é puro exercício
de adaptação ao mundo”(FREIRE, 2000, p. 101).
Não é o nosso caso! No Desafio, trabalhamos em oposição a isso, visto que lida-
mos com educandos oriundos, em grande parte, de supletivos ou que realizaram
testes atestando Ensino Médio. Levando em conta a história escolar desses es-
tudantes, percebemos as diversas lacunas de formação que demandam atenção
especial dos educadores. A proposta é viabilizar um atendimento que resgate as
aprendizagens necessárias para o andamento das aulas. É evidente que cada tur-
ma tem uma composição heterogênea e cada estudante tem uma história escolar
distinta e modos diferentes de aprender. Para nós, significa respeitar a biografia
socioeducativa dos educandos do projeto.
Essa é uma situação (das diferentes experiências escolares e biográficas) que os
educadores enfrentam, visto que é natural que reproduzam a lógica da educação
formal, na qual predomina a reprodução de um currículo em que o professor é o
principal veículo de ensino e aprendizagem, predominando um ensino expositivo
que entende o aluno como tábula rasa. Vale lembrar que a maioria dos colabora-
dores do projeto, atualmente, vem dos cursos de graduação em Licenciatura e,
por isso pode-se inferir que suas práticas de ensino estejam assentadas nas suas
memórias escolares, em especial, o que aprendem e como aprendem nos cursos
de origem.
Por isso, consideramos o projeto um importante espaço de experimentação
para todos que nele estão inseridos, além de considerarmos ser esta uma prática
que exercita a esperança ou, parafraseando Mario Sergio Cortella, o esperançar! O
que significa dizer, inspiradas no pensador, que esperançar é se levantar, esperan-
çar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar
adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo. Sobretudo,
no que se refere à formação de professores, cuja experiência, como aprendizes

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 111


na docência, ultrapassa o número de horas realizadas nos estágios obrigatórios
das licenciaturas. Além de ter um caráter diferenciado pelas discussões e reflexões
partilhadas entre os estudantes, ministrantes de disciplinas, tanto na área6, como
no grande grupo. Com isso, é garantido o processo pedagógico que une autoges-
tão na interdisciplinaridade.
A busca constante pelo ensino crítico levou à introdução, no currículo do curso,
de um período semanal da disciplina denominada de “atualidades, a qual funciona
de forma diferenciada das outras disciplinas. Semanalmente, tem um convidado,
que pode ser membro do projeto ou não, abordando um tema de interesse dos
alunos e que seja relevante para sua formação cidadã. Como exemplo de alguns
temas abordados neste ano temos: conjuntura política brasileira, reforma da pre-
vidência, legalização do aborto, relação entre ciência e informação, terraplanis-
mo, fake news e feminicídio. Somando-se à disciplina de Atualidades, o currículo
do curso possui dois períodos semanais de Sociologia e dois de Filosofia, carga ho-
rária superior ao que costuma ser praticado nos cursos privados. Assim, é possível
compatibilizar aspectos aparentemente dicotômicos, mantendo a perspectiva da
educação emancipatória sem deixar de oportunizar aos educandos as condições
de aprendizagem adequadas para que concorram às vagas e, futuramente, ocu-
pem os espaços da universidade pública.
Desde a mudança do projeto, para atual sede no Campus Salis Goulart, em mar-
ço de 2018, houve uma série de melhorias, tais como: novo processo seletivo dos
educandos, profissionalização das funções dos bolsistas e coordenadores, estudos
sobre evasão e padronização de procedimentos e arquivamento de documentos
da Secretaria. Em julho de 2019 entrou em vigor o novo Regimento do Desafio
Pré-Universitário Popular. Estas mudanças foram importantes para lidar com ou-
tras situações e dificuldades que relatamos a seguir.
Uma das dificuldades, mas também um ganho, recorrente em projetos com
Figura 5 – Ciclo
membros voluntários, é a alta rotatividade, especialmente de educadores. É co-
de formação de
educadores – junho mum, os colaboradores desvincularem-se do projeto ao longo do ano letivo. As-
de 2019. sim, durante o ano de 2019 estão sendo elaborados e atualizados os planos de en-
Fonte: Acervo sino das disciplinas. Tal ação gerou um impacto muito positivo, com a participação
do Desafio Pré- de um aluno do curso de Pedagogia, na Coordenação Pedagógica. Esta mudança
Universitário, 2019. possibilitou maior apoio aos educadores, orientando-os nas etapas de planeja-
mento, prática e reflexão sobre a práti-
ca de ensino realizada internamente no
projeto.
Concomitante, foi desenvolvido um
ciclo de formação para educadores que
em encontros mensais, com a presença
de especialistas na área de educação,
cujo o objetivo fora também contribuir
para divulgar pesquisas recentes e re-
latos de experiências na área da Edu-
cação, contribuir para a busca de alter-
nativas nos modos de trabalhar com os
educadores e desenvolver uma visão
6 O projeto se caracteriza por planejamento por
áreas do conhecimento e definições politico-peda-
gógicas no grande grupo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 112


crítica e objetiva dos problemas que comprometem a qualidade do ensino no pro-
jeto, bem como, vislumbrar soluções alternativas, de modo a contribuir para sua
superação. Tudo isso, amplia e fortalece o espaço em busca da esperança de um
lugar de qualidade.
Sobre a autogestão, o projeto conta com outros setores especializados cujos
membros são selecionados a partir de sua área de formação, como a Coordena-
ção de Divulgação, composta atualmente por bolsistas da área de Jornalismo e
Design. Assim, a comunicação com a comunidade interna e externa foi otimizada.
No ano de 2018, a coordenação geral do projeto realizou estudo sobre a evasão
de educandos no Desafio7. O trabalho foi apresentado no Congresso de Iniciação
Científica daquele ano, com o título “Estudo Quantitativo sobre a Evasão de Edu-
candos do Desafio Pré-universitário Popular”. O estudo contou com amostragem
de 62 alunos evadidos e seguiu a metodologia de entrevista espontânea, por meio
de ligação telefônica. De 72 alunos evadidos, a pesquisa conseguiu contato com
62 que serviram de base para os resultados. Na entrevista, foram perguntados os
motivos da evasão e as respostas foram classificadas de acordo com os seguintes
critérios:
Fatores pessoais (FP): problemas particulares; viagens longas; mudan-
ça; saúde pessoal ou da família; falta de tempo; maternidade. Fatores
educacionais (FE): aprovação na Universidade; escolha por cursos técni-
cos/profissionalizantes; dificuldade de conciliação com estudos. Fatores
socioeconômicos (FS): dificuldade de conciliar trabalho e estudos; falta
de recurso financeiro para custeio do deslocamento; serviço militar obri-
gatório, insegurança. Fatores internos (FI): dificuldade de adaptação à
turma; insatisfação; perda do prazo de inscrição no ENEM; dificuldade de
encontrar a sede do curso (BRAZ et al, 2018, pg. 05).

Excluindo os 10 casos sem resposta, que compõem 13,9% dos evadidos, temos
a seguinte divisão: 47,2% evadem por fatores socioeconômicos, 20,8% evadem
por fatores classificados como pessoais, 12,5% por fatores educacionais e somente
5,6% devido a fatores internos, ou seja, causas em que o projeto pode influenciar
diretamente. Na entrevista, quando estimulados a contar os motivos da evasão,
um terço daqueles que se enquadram na classe de fatores pessoais (classe que in-
clui questões familiares) relatam a maternidade como causa preponderante. Isso
demonstra a já conhecida dificuldade de conciliar maternidade com estudos e vida
acadêmica, fato que merece reflexão. Vale observar que já estão sendo realizados
estudos, pelos bolsistas atuais, sobre o fenômeno. Esses estudos devem aparecer
no relatório final das atividades de 2019.
A partir dos dados citados, destacam-se dois fatos que interferem na assidui-
dade e permanência dos educandos do projeto, qual sejam: falta de recursos para
transporte e deslocamento até a sede do projeto e falta de tempo, em virtude do
mundo do trabalho. Há medidas em curso para sanar estes problemas, entre elas
a ação o “Desafio na Escola”, que funciona levando aulas, uma vez por semana,
à escolas de Ensino Médio da rede pública, parceiras do Desafio. Este semestre,
funcionou, como uma atividade piloto, no Colégio Municipal Pelotense e na Es-
cola Estadual de Ensino Médio Dr. Antônio Leivas Leite, para, em 2020, tornar-
-se uma ação permanente do projeto, em um dos bairros de periferia, da cidade,

7 Trabalho desenvolvido por parte da coordenação geral do projeto, com o intuito de fazer o planejamen-
to para o ano de 2019 e foi apresentado no Congresso de Iniciação Cientifica da UFPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 113


atendendo assim uma das necessidades da comunidade. Ou-
tra medida é a realização do “aulão” final de dicas, que ocor-
re às vésperas da prova do ENEM, em parceria com escolas
de Ensino Médio do município de Pelotas, em 2018 ocorreu
no auditório do Colégio Estadual Cassiano do Nascimento e
em 2019 no Colégio Municipal Pelotense, atendendo assim
os educando do projeto e os da rede de ensino público da
cidade.
Lembramos, novamente, que durante os 26 anos de exis-
tência o Projeto Desafio está alinhado à filosofia de Paulo
Freire, cujo fundamento é proporcionar a pessoas da periferia
da cidade um curso preparatório para as provas de ingresso
no ensino superior, buscando a superação das desigualdades
socioeconômicas na sociedade brasileira. Além disso, busca
instigar a reflexão acerca das questões sociais nas quais os
educandos do projeto estão inseridos. A educação popular,
como práxis da educação e de conhecimento, se constituiu
em exercício permanente de crítica ao sistema de sociedade
atual e ao padrão de sociabilidade difundido.
Cada vez mais, a esperança em um mundo com equidade
se fortalece na equipe, principalmente na conjuntura atual
brasileira, em que o pensamento neoliberal domina a admi-
nistração do país, e o ataque à universidade pública tornou-
Figura 6 – “Aulão” -se a tônica do momento. Mais de duas décadas desde sua fundação, a luta por
Final realizado no uma universidade de qualidade e cem por cento gratuita, volta a ser o tema de
auditório do Colégio
destaque dos educadores e educandos que formam o projeto. Através da exten-
Municipal Pelotense
– 2019. são e da educação popular oportuniza-se a entrada na universidade de pessoas
que estão à margem do sistema.
Fonte: Acervo
Desafio Pré-
Universitário, 2019.

Figura 7 – Equipe
do Desafio Pré-
Universitário nas
manifestações em
defesa da Educação
Pública – 2019.
Fonte: Acervo
Desafio Pré-
Universitário, 2019.

Por fim, com outros começos, se pode concluir que a verdade sobre este projeto
é que ele representa a esperança diante das turbulências políticas deste tempo,
no qual a educação tem sido desrespeitada e maculada na sua essência. Qual seja:
a de ajudar mulheres e homens a ascender socialmente, através do domínio do

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 114


saber e do conhecimento como um direito constitutivo do ser social. Por isso, a
gestão da UFPel, aliada à equipe coordenadora tornou este projeto estratégico,
por considerar a importância de defender o direito de ingresso a todos e todas ao
ensino superior. Com isso, estamos fazendo jus à missão da universidade pública
no quesito inclusão: facilitar a entrada nas portas da universidade, garantindo a
qualidade, para que isso aconteça em maior escala. E assim, voltamos ao grande
enunciado deste texto - o projeto desafio como uma prática e um espaço à es-
perança, que nada mais é do que seguir os ensinamentos do grande pensador da
educação, Paulo Freire, quando bradava que era preciso ter esperança para chegar
ao inédito viável e ao sonho. Esperançar é ir atrás, é não desistir. Daí a ideia de Cor-
tella de Esperançar como capacidade de buscar o que é viável para fazer o inédito.
Ou seja, mesmo em meio ao descaso à educação, não nos conformaremos. Este
projeto criou um prática e um espaço que já chegou (e continuará), no exercício do
inédito viável. Essa conclusão está assentada nos dados que temos, sobre os apro-
vados no ano de 2018, em que foram aprovados, em instituições públicas, mais de
50 alunos8, em diferentes áreas do conhecimento, como Engenharia da Computa-
ção, Direito, Museologia, Conservação e Restauração, Biologia entre outros.
Continuaremos preparando a terra com carinho, semeando com cuidado, com-
petência e leveza, mesmo que a colheita nem sempre seja nossa. Importa mesmo,
é a ação de plantar coletivamente, para que a colheita social seja abundante.

Referências
ARRIADA, Eduardo; LEAL, Noris Mara P. M; PERES, Lúcia Maria Vaz. Preâmbulo
para um Início de Conversa: Projeto Desafio em Pauta. Expressa Extensão, v. 24,
n. 1, PREC/UFPel, 2019.

BRAZ, Victor et al. Estudo quantitativo sobre a evasão de educandos no Desafio


Pré-Universitário. In: Congresso de Iniciação Científica - PRPPGI/UFPel, 2018, Pe-
lotas. Anais [...]. Pelotas: UFPel, 2018.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos.


São Paulo: Editora UNESP, 2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1968.

FREIRE, Paulo. À Sombra da Mangueira. São Paulo: Olho d’Agua, 1995.

NATCHIGAL, Cicero. Entrevista [04 nov. 2018]. Entrevistadora: Nóris Mara Pa-
checo Martins Leal. Pelotas, 2018.

THUM, Carmo. Pré-vestibular público e gratuito: o acesso de trabalhadores à


universidade pública. 2000. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Ci-
ências da Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2000.

8 O número de alunos é aproximado, pois só foi acompanhado até a quarta chamada de aprovados da
UFPel

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 115


SOBRE AS AUTORAS
Lúcia Maria Vaz Peres, graduada Professora Adjunta da UFPel. Coorde-
em Pedagogia pela UCPel. Doutora em nadora do Projeto Desafio Pré-Univer-
Educação pela UFRGS. Pós-doutorado sitário. E-mail: norismara@[Link]
pela Universidade do Minho em Portu-
gal, na área de estudos em Psicologia Valquiria Machado, graduada em
e Imaginário. Atualmente é professora Filosofia pela UFRGS. Graduanda em
Titular da UFPel. Coordenadora Adjun- Física na UFPel. Doutoranda em Filo-
ta do Projeto Desafio Pré-Universitário. sofia pela UFRGS. Bolsista de Extensão
E-mail: lp2709@[Link] do Projeto Desafio Pré-Universitário.
E-mail: valquiriamachado@[Link]
Noris Mara Pacheco Martins Leal,
graduada em História pela UFRGS.
Doutora em Memória Social e Patrimô-
nio Cultural pela UFPel. Atualmente é

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº3 116


A FORMAÇÃO PERMANENTE DE
IDOSOS ATRAVÉS DA
UNIVERSIDADE ABERTA
Adriana Schüler Cavalli
Ana Carolina Nogueira
Lorena Almeida Gill
Zayanna Christine Lopes Lindôso

Abrindo as portas da universidade para a comuni-


dade idosa
A UFPel viveu um momento de grande expansão ao aderir ao Programa de
Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – Pro-
grama REUNI, quando entre 2005 e 2012 houve um aumento significativo no in-
gresso de docentes e discentes de graduação e pós-graduação na instituição. De
acordo com dados da gestão em exercício, somente para exemplificação, o núme-
ro de cursos ofertados pela UFPel ampliou de 47 em 2006 para 103 em 2012 com
nítida expansão dos cursos noturnos, além dos ofertados sob a modalidade de
Educação a Distância. No que tange à pós-graduação foi observado um aumento
de 65% de crescimento nos cursos de diferentes áreas se comparado a 2005 (RE-
LATÓRIO GESTÃO E EXERCÍCIO, 2005). Entretanto, a Instituição neste momento
de expansão ainda não estabelecia a universidade aberta para as pessoas idosas.
De acordo com a professora Mariângela Afonso, já tinha sido enaltecido o inte-
resse da instituição em criar uma universidade aberta, entretanto, a proposta não
havia sido concretizada, pois não sendo uma meta institucional estaria vulnerável
e sujeita às mudanças de gestão (CAVALLI; CAVALLI, M.O, 2015).
Em 2016, o Gabinete da Reitoria da gestão do então Reitor Dr. Mauro Del Pino,
através da professora Dra. Lorena Almeida Gill, convocou uma reunião com todos
os professores da UFPel que possuíam algum vínculo com a pessoa idosa, quer
seja, através do ensino, da pesquisa ou da extensão. Várias reuniões foram rea-
lizadas e o grupo de docentes era inicialmente bastante volátil, ficando ao final
de aproximadamente seis meses, oito (08) representantes das diversas áreas do
conhecimento, os quais constituíram o grupo da Universidade Aberta à Terceira
Idade – UNATI/UFPel. A então Comissão Especial de Implementação da UNATI/
UFPel foi composta pelas professoras: Dra. Adriana Schüler Cavalli (ESEF), Dra.
Andyara Lima Barbosa (FAT), Ms. Flávia Braga de Azambuja (FAT), Dra. Giovana
Duzzo Gamaro (CCQFA), Dra. Kelin Valeirão (IFISP), Dra. Lorena Almeida Gill (GR),

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 117


Dra. Vanessa Doumid Damasceno (CLC) e Dra. Zayanna Christine Lopes Lindôso
(FAMED). Este grupo se organizou e através de muitos encontros para debates
e acordos, foi “colocado no papel” o projeto pedagógico da UNATI/UFPel, o qual
posteriormente foi apresentado ao reitor e seus assessores. Com o projeto aprova-
do, no ano de 2016 a UNATI operou como um programa piloto.
Em 2017 a UFPel, em consonância com os direitos sociais estabelecidos aos ido-
sos através das leis brasileiras, aprovou no Conselho Coordenador do Ensino, da
Pesquisa e da Extensão – COCEPE a criação da UNATI como um Programa Estra-
tégico para idosos da comunidade com 60 anos ou mais. O programa ficou sob
a responsabilidade da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura – PREC, Dra. Francisca
Ferreira Michelon, do então Reitor Dr. Pedro Curi Hallal.
No que concerne à educação e em especial aos idosos, em 1994 já tinha sido
previsto na Lei nº 8.842, Política Nacional do Idoso, em seu Capítulo IV onde dis-
põem das Ações Governamentais e em particular em seu artigo 10º, inciso III, na
área da educação, que seria necessário desenvolver programas educativos, com
o objetivo de oportunizar o acesso à população acerca do processo de envelheci-
mento, assim como, aos programas educacionais destinados ao idoso adequan-
do currículos, metodologias e material didático. E enfatiza o apoio “à criação de
universidade aberta para a terceira idade, como meio de universalizar o acesso às
diferentes formas do saber” (BRASIL, 1994).
Corroborando com a Política Nacional do Idoso, a Lei nº 13.632, de 6 de março
de 2018, altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, mais precisa-
mente no artigo 3º, inciso XIII, no artigo 37 e no artigo 58, parágrafo 3º, para incluir
nos devidos termos que a educação e aprendizagem se estendem ao longo da vida.
Contudo, embora tais ações estejam amparadas pelas leis mencionadas aci-
ma, não houve nenhum tipo de disponibilização de recursos específicos, sejam
eles humanos ou financeiros, para implantação das universidades abertas. A sua
organização ficou a cargo das próprias universidades e da colaboração dos seus
servidores.
Em setembro de 2018, por solicitação e orientação do então Presidente do
Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa – CNDI, Sr. Rogério Luiz Barbo-
sa Ulson, através do Oficio n° 116/2018/SEI/CNDI/SNDPI/MDH, houve a alteração
de seu nome de Universidade Aberta à Terceira Idade – UNATI para Universidade
Aberta Para Idosos – UNAPI. De acordo com o ofício, a solicitação vem atender a
premissa de que “o termo ‘terceira idade’ surgido na França é um eufemismo que
leva à invisibilidade da pessoa idosa enquanto sujeito, e leva à negação da velhice
pelas próprias pessoas idosas e pela sociedade em geral e, principalmente pela
mídia. Como consequência dessa negação, surgem o preconceito, os mitos e os
estereótipos acerca da pessoa idosa, da velhice e do envelhecimento. A Academia
Figura 1 – Identidade ao utilizar esse eufemismo, reforça esse comportamento”.
visual da UNAPI. Em 2019, a UFPel instituiu o logo oficial da UNAPI. A criação da identidade vi-
Fonte: Acervo de sual ficou sob a responsabilidade da bolsista da PREC, Bárbara Kurz, que iniciou o
imagens do projeto. trabalho adotando como referência a árvore da vida, através do seu conceito de
conexões e interligações tanto das suas
raízes, quanto dos seus galhos, simbo-
lizando as relações que estabelecemos
ao longo da vida. Após as apresentações
de propostas de cores variadas, foi es-
colhido o seguinte logo, o qual passou a
ser utilizado nos documentos oficiais da
UNAPI e nos materiais de divulgação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 118


Um pouco do contexto histórico das Universida-
des Abertas aos idosos
Dentro de um contexto histórico foi na França, país com tradição em educação
de adultos, no final da década de 1960 que surge o termo Terceira Idade, a partir de
um movimento em uma de suas Universidades, já remetendo ao envelhecimento
ativo. É criado então um programa pioneiro para os aposentados, conhecido como
“Universidade do Tempo Livre” preocupada em oportunizar maior ocupação dos
aposentados integrando-os mais socialmente.
Conforme Arruda (2007 apud SILVA, 2017), esta nova proposta estaria mais di-
recionada à promoção de atividades ocupacionais e lúdicas e não teria o propósito
de uma ação mais educativa, permanente e continuada. Sendo assim, somente no
início da década seguinte, em 1973, na Universidade de Toulouse, França, através
da idealização do professor Pierre Vellas, foi fundada a primeira Universidade da
Terceira Idade (UnTI) com o intuito de ofertar aos idosos atividades que satisfizes-
sem as necessidades e aspirações nesta fase da vida (SILVA; DA SILVA; DA RO-
CHA, 2017).
Enquanto na Europa se propaga este tipo de instituições — principalmente na
Alemanha, Suíça, Polônia e Espanha — na América Latina somente dez anos de-
pois, em 1983, foi fundada a primeira Universidade Aberta do Uruguai, vinculada
ao Instituto de Estudos Superiores de Montevidéu e associada à Associação Inter-
nacional das Universidades da Terceira Idade – AIUTA, França. Nos moldes fran-
ceses, propaga-se o ensino não formal, intergeracional e com base na educação
permanente (AIUTA, 2017 apud SILVA; DA SILVA; DA ROCHA, 2017).
Após a implantação da Universidade Aberta do Uruguai, o modelo de Universi-
dade se propagou a outros países como o Paraguai, a Argentina, o Chile, o Pana-
má, a Venezuela, o México e, por fim, ao Brasil (AREOSA; ROHDE, 2015).
Para Oliveira, Scortegagna e Silva (2017) a educação existe em diferentes con-
textos, podendo ser classificada em: educação informal, educação não-formal
e educação formal. Exemplificando, segundo os autores, a família é o cerne e o
agente centralizador da educação informal, onde a pessoa aprende em suas vi-
vências no dia-a-dia, contando com a interação social com outras pessoas, mesmo
sem uma sistematização ou intencionalidade. Na educação não-formal existe a in-
tencionalidade e o respeito às diferenças, sendo que o tempo e o ritmo de aprendi-
zagem são relevados nos diferentes espaços educativos, por exemplo, programas
e projetos voltados aos idosos. E na educação formal, é compreendida uma educa-
ção sistematizada, através de uma legislação específica e com objetivos definidos.
Por meio da educação não-formal os sujeitos buscam novos saberes, novos
aprendizados em espaços onde tenham a liberdade de escolher, a liberdade para
decidir quais as ações que são de seu interesse. Os processos educativos são em-
basados na experiência de vida de cada um buscando a valorização de si, o olhar
para a vida, seus percursos e obstáculos. Para um aprendizado significativo esses
processos devem acontecer de forma coletiva, com os sujeitos da ação, em que
novas experiências humanizadas são construídas, a partir das trocas estabelecidas
na coletividade (GOHN, 2009).

A UNAPI na Universidade Federal de Pelotas


A UNAPI surgiu com o objetivo de oportunizar aos idosos um espaço não somen-
te educacional, mas também social e cultural, permitindo a troca de experiências e

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 119


de saberes entre todos os envolvidos nas ações, quer sejam, docentes, discentes,
técnicos administrativos e idosos.
De acordo com Mazo et al. (2013, p. 104), as universidades são consideradas
espaços promissores para as ações sociais junto à população idosa, desenvolvendo
atividades educacionais, físicas, terapêuticas, culturais ou sociais. E ainda, “Suge-
re-se que as Instituições de Ensino Superior devam oferecer esses programas vol-
tados para a saúde do idoso para tentar contemplar o maior número de idosos no
Brasil e aumentar a qualidade de vida desses indivíduos”.
O espaço acadêmico, uma vez aberto a receber idosos, previu desde a sua cria-
ção o uso de uma metodologia específica, contribuindo para a conscientização do
processo de envelhecimento por parte do idoso, a humanização de si e compreen-
são acerca de suas potencialidades e limitações. Assim objetivou permitir ao idoso
a condução de novos hábitos e rotinas e desempenho de novos papeis ocupacio-
nais — vida social, saúde, produtividade, educação e lazer, dentro de uma perspec-
tiva interdisciplinar (PROJETO PEDAGÓGICO UNATI/UFPEL, 2016).
De acordo com Cachioni et al. (2015, p. 100): “As metodologias utilizadas de-
terminam o sucesso ou fracasso de uma atividade, bem como no desempenho
intelectual do idoso”. Em estudo desenvolvido pelos autores, com o objetivo de
caracterizar as estratégias pedagógicas utilizadas nas atividades educativas para a
educação permanente de pessoas idosas da Universidade Aberta da Universidade
de São Paulo, foi diagnosticado que:
Devido à heterogeneidade de necessidades, motivações e interesses
existentes nos grupos de idosos, gerada pela particularidade das histó-
rias e trajetórias de vida, devem ocorrer investimentos na criação e no
aprimoramento de uma metodologia para o trabalho educacional, que
valorize as experiências acumuladas e que torne o aluno idoso um agente
de seu próprio aprendizado. Os professores serão profissionais de diver-
sas áreas do conhecimento e profissões que deverão desenvolver com-
petências específicas, disposições afetivas e características pessoais que
favoreçam a sua atuação, no sentido de beneficiar os idosos e a socieda-
de formada de pessoas de todas as idades. (CACHIONI et al., 2015, p. 85)

A UFPel como parte integrante dos “atores” desta ação — na composição da


rede de assistência ao idoso — ao abrir suas portas à comunidade idosa possibilita-
-lhes novas formas de inserção no mundo, na vida, na formação de novos valores
ou manutenção destes, contribuindo na tomada de decisões e permitindo ao idoso
manter-se ativo e independente (PROJETO PEDAGÓGICO UNATI/UFPEL, 2016).
De acordo Oliveira, Scortegagna e Silva (2017, p. 21) “a educação assume re-
levância na medida em que oferece oportunidade de atualização e reflexões que
possibilitam o empoderamento do idoso, contribuindo para um processo de enve-
lhecimento mais saudável”.
De acordo com Cachioni (2012, p. 6), a presença de pessoas mais velhas no am-
biente universitário mostra que ao:
Voltar aos bancos escolares na velhice... nossas universidades não são
mais habitadas somente pela juventude. De alguma maneira, universa-
lizamos o direito de aprender para todas as idades. Legitimamos que o
processo de desenvolvimento não cessa na idade adulta, mas está pre-
sente em toda a existência humana.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 120


Enquanto instituição social, a UFPel está sendo beneficiada, pois ao exercer
seu protagonismo neste cenário, proporciona um locus da indissociabilidade en-
tre ensino, pesquisa e extensão. A indissociabilidade é um princípio orientador da
qualidade da produção universitária porque, através desta tridimensionalidade do
fazer universitário, o legitima como autônomo, competente e ético (MOITA; AN-
DRADE, 2009).

A dinâmica das aulas na UNAPI-UFPel


Em 2016 a Universidade Aberta foi inicialmente organizada por disciplinas ofer-
tadas em três dias da semana, a saber: nas segundas, terças e quartas-feiras, sen-
do duas ofertas/dia, e os demais dias da semana eram reservados para atividades
didático-culturais na forma de oficinas e palestras. Cada inscrito tinha a oportu-
nidade de escolher um dia da semana para as disciplinas, e as oficinas e pales-
tras ofertadas em edital separado ao das disciplinas — dando chance de escolha
por atividades de seu interesse pessoal e com menor carga horária. As disciplinas
compreenderam 45 horas semestrais em encontros presenciais, com no máximo
25 participantes/dia. No que concerne às atividades didático-culturais estas foram
oriundas de projetos de extensão e de pesquisa em andamento na Universidade,
e através de parcerias com os Programas de Educação Tutorias – PETs, com carga
horária de 2 horas e totalizando no máximo 16 horas; o número de participantes
foi indicado pelo organizador da atividade e o material a ser utilizado ficou sob
responsabilidade do organizador.
A partir de 2018-2 as disciplinas foram ofertadas em diferentes dias da semana,
conforme à disponibilidade dos docentes colaboradores, saindo do formato ori-
ginal, sendo permitido a cada sujeito se inscrever em até duas disciplinas de seu
interesse.
As participações dos idosos nas atividades se deram através de inscrição por
telefone e/ou formulário eletrônico disponibilizado em “Edital” e divulgada atra-
vés da mídia local, jornal e rádio, assim como pelo site da própria Universidade. Os
critérios de inclusão exigidos para inscrição foram mínimos visto que foi solicita-
do que a pessoa ao se inscrever tivesse 60 anos ou mais, sem nenhuma exigência
quanto à escolaridade ou situação econômica. As atividades sempre foram todas
gratuitas e nas dependências da Universidade.
De acordo com o cadastro das inscrições, o programa atendeu pessoas com
idade entre 60 e 92 anos. Em 2016-1 houve 296 inscrições, sendo 64% compreen-
dida pela faixa etária de 60-69 anos, com relação à escolaridade registrou-se que
31,4% possuíam Ensino Médio Completo e 24% possuíam Graduação. Em 2017-1
houve 192 inscrições, e em semelhança ao ano anterior, à faixa etária de 60-69
anos compreendeu 67% dos inscritos, sendo que 33,3% tinham Graduação e 28%
possuíam Ensino Médio Completo (CAVALLI et al., 2017). Em 2018-1, foram aceitas
119 inscrições, sendo 62% preenchidas por idosos de 60 a 69 anos; 27% de 70 a 79
anos; 10% de 80 a 89 anos e somente uma idosa com 92 anos, seguindo o padrão
dos anos anteriores. Quanto à escolaridade 28% dos idosos tinham Ensino Médio
completo e 34% obtinham Graduação. Cabe informar que as inscrições nos anos
de 2017 e 2018 foram cessadas ao atingir o número de vagas disponíveis, acresci-
dos de alguns nomes para suplência, para cada dia da semana, e já sendo informa-
do aos demais idosos na busca de uma vaga do encerramento das inscrições para
o devido semestre.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 121


Com o intuito de averiguar a percepção subjetiva dos idosos quanto aos fato-
res que os impulsionam a participarem das ações deste Programa Estratégico da
UFPel, foi realizado um estudo em 2018, com os idosos matriculados regularmen-
te nas disciplinas da UNAPI e que estavam presentes nos dias da coleta dos dados
(CAVALLI et al., 2018).
Participaram voluntariamente do estudo 45 idosos, dentre eles 39 mulheres e 6
homens. Já em relação à idade, a grande maioria estava na faixa etária de 60 a 70
anos (n=30, 67%); 9 idosos entre 71 a 80 anos e 6 indivíduos com mais de 80 anos.
Tais questões podem ser explicadas pela expectativa de vida de cada um dos
gêneros. Segundo dados constantes em um documento do IBGE:
Com relação às mulheres idosas, sua expectativa de vida aos 60 anos
(CMIG 41) era maior do que a dos homens e aumentou entre 2011 e 2016.
Em 2011, a expectativa de vida de uma mulher de 60 anos no Brasil era de
23,1 anos e passou para 23,9 em 2016. Já a dos homens subiu de 19,6 para
20,3 anos. Nesse contexto, ao passo que diminuiu a taxa de fecundidade,
cresceu a proporção de idosos na população brasileira, o que demanda
maior atenção a temas como seguridade social, proteção no mercado de
trabalho, acessibilidade, cuidados, entre outros. (IBGE. 2018, p. 8)

No que concerne ao ano de ingresso na UNAPI, 13 idosos participaram desde


2016, 13 deles iniciaram em 2017 e 19 no ano de 2018. Quando questionados como
souberam do Programa UNAPI, quase um terço da amostra relatou ter tido co-
nhecimento através dos filhos (n=14), onze através da internet, nove idosos res-
ponderam que souberam através dos amigos, oito deles através do jornal local,
oito pelos funcionários da própria instituição, sendo alguns por mais de uma fonte.
Sempre foi de interesse da coordenação e da instituição, dar espaço aos ido-
sos para o planejamento das atividades do programa. Para tanto, foi questionado
quantos dias na semana os idosos gostariam de ter atividades na UNAPI, visto que
no modelo inicial os ingressantes participavam em um dia na semana apenas. Os
dados demonstraram que metade da amostra estava satisfeita com um dia na se-
mana (n=22, 49%), 14 deles (31%) optariam por dois dias na semana, 7 indivíduos
(16%) gostariam de ter aulas três vezes na semana e dois (4%) deles todos os dias.
Desde 2016, o número de pessoas a procura de uma vaga nas disciplinas é su-
perior ao número de vagas ofertadas. Dessa maneira, tentando minimizar esta
demanda da sociedade, as atividades didático-culturais gratuitas foram oferta-
das com maior frequência nas dependências da UFPel. Com o intuito de dar voz
aos idosos, foi solicitado que eles próprios sugerissem temas a serem abordados
nas palestras e oficinas. De acordo com os idosos, o tema “meditação” foi citado
por 7 pessoas; “memória” por 5 pessoas; “envelhecimento, memória e literatura”
foram sugeridos por 4 pessoas; “moda” por 3 pessoas; “Informática; História de
Pelotas; História; Direito; Saúde” por 2 pessoas; e as demais exaltaram o interesse
em: “Como fazer projetos para trabalhar com a melhor idade; Tudo o que se refere
à idade e memória; Tecnologias; Esportes; Filosofia; Psicologia; Biologia; Nutrição
ênfase dieta vegetariana; Ansiedade e Depressão; Incontinência Urinária; Espiri-
tualidade; Relações Humanas; Terapias Holísticas; Conhecimentos gerais; Poesia;
Artesanato”.
Baseado no modelo da Rede RUTIS – Associação da Rede de Universidades da
Terceira Idade, de Almeirim/Portugal (2017), na gestão de Universidades Senio-
res, a UNAPI procurou pessoas qualificadas para ministrarem as palestras e ofi-
cinas, oportunizando a participação de professores aposentados, discentes da

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 122


Figura 2 – Cartaz graduação e pós-graduação da UFPel, sob a supervisão e a orientação de seus
de divulgação professores. Sendo assim, em 2018, foram ofertadas ao todo 13 atividades entre
para a Palestra de
Meditação oferecida
palestras e oficinas. O primeiro dia de atividade didático-cultural contou com duas
à comunidade palestras sobre o relato de experiências com universidades de terceira idade, em
pelotense em 2018. Portugal com a Prof.ª Zayanna Lindôso e em Bagé com as Prof.ªs Silvana Caetano e
Fonte: Acervo de Geslaine Dutra. O segundo dia foi referente ao tema mais votado, a oficina Desco-
imagens do projeto. brindo o melhor da vida através da meditação que teve o público mais expressivo de
todas as ações realizadas contando com 63 participantes. As
demais palestras e oficinas abordaram os seguintes temas:
Alimentação saudável, Incontinência urinária, Língua Alemã,
Desafios matemáticos, Plantas medicinais, Varal de poesias,
Fotografia, Utilização de serviços de emergência por idosos,
Sexualidade na terceira idade, Turismo para idosos e Visita-
ção aos prédios históricos na oficina Pelotas a Pé.

Importância da universidade aberta


para os idosos
De acordo com o estudo de Cavalli et al. (2018), foi solici-
tado aos idosos que enumerassem três fatores, por ordem
de importância, para ingresso e permanência no programa.
Os dados apontaram que o primeiro fator de adesão e per-
manência ao programa foi predominantemente a busca por
conhecimento. Na escrita de alguns foi possível observar as
seguintes respostas: “Adquirir conhecimentos novos”, “Am-
pliar meu conhecimento”, “Gosto de me atualizar”, “Neces-
sidade de Aprender”, “Ter mais informação para minha vida”
e “Conhecer assuntos novos”.
Na sequência, o segundo fator mais citado foi a convivên-
cia com outras pessoas e chamou a atenção quando muitos
colocaram a importância de estar entre pessoas da sua fai-
xa etária. Na escrita dos idosos foi observado: “Convivência
com pessoas da mesma idade”; “Entrosamento com pesso-
as da mesma idade”; “Estar participando e cultivando novas
amizades”; “Encontrar pessoas da minha idade”, “Não ficar
só em casa”, “Mais amigos” e “Socialização”.
No terceiro fator foram revelados motivos diversos, agre-
gando aos fatores já mencionados acima, mas não deixando
de ser interessantes, como pode ser verificado nas respostas:
“Tudo que tiver para aprender”; “Ter mais conhecimento que
já possuo”; “Preenchimento do tempo com aproveitamento
intelectual”; “Nunca é tarde para aprender”; “Abrir novos ho-
rizontes”; “Aprendizado com outras pessoas da mesma ida-
Figura 3 – Cartaz de”; “Aprender coisas novas“; “Administração melhor do meu tempo”; “Conviver
de divulgação para com grupo”, “Possibilidades” e “Entretenimento”.
a Oficina Varal de
Poesias oferecida
à comunidade
Pelotense em 2018. Tentando concluir
Fonte: Acervo de Em estudo desenvolvido por Silva, Da Silva e Rocha (2017, p. 13) com progra-
imagens do projeto. mas de educação permanente em universidades públicas federais brasileiras, foi

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 123


relatado que mesmo havendo um compromisso institucional para o funcionamen-
to dos programas,
Na visão de autoridades universitárias, de acordo com as entrevistas re-
alizadas com os 9 Pró-Reitores de Extensão e 1 Diretor de Unidade de
universidades federais com Programas Universidade para a Terceira Ida-
de, os dez programas vinculados à extensão, não foi sinalizado conheci-
mento ou pretensão de apoio palpável do MEC em relação aos progra-
mas.[...] Os programas desenvolvidos ao longo das décadas, às vezes,
atendendo a centenas de idosos por semestre, é realizado por meio do
intenso trabalho de pessoas que acreditam na causa.
Neste sentido, Oliveira, Scortegagna e Silva (2017, p. 32) relevam a importân-
cia de maior visibilidade das ações educativas desenvolvidas nas universidades da
terceira idade, e a necessidade de maior apoio dos governantes para sustentá-las.
Esta ausência de apoio e de reconhecimento da necessidade destas
ações educativas para o idoso reflete na impossibilidade de atendimen-
to de toda a demanda, pois a quantidade de vagas é insuficiente diante
do número de idosos. Outro aspecto relevante, que embora prescrita no
Estatuto do Idoso o apoio para a criação das UNATI ainda um longo cami-
nho deve ser percorrido para que seja efetivo em todas as universidades
brasileiras.
O acesso aos bancos acadêmicos à população idosa pela implementação das
novas propostas educacionais, sociais e culturais têm permitido aos idosos maior
conhecimento, através da informação em diversas áreas, permitindo o desenvol-
vimento de um pensamento mais crítico e um olhar diferenciado diante da velhice,
empoderando o ser idoso na busca de um envelhecimento ativo. Os benefícios das
propostas educacionais através das universidades abertas não se limitam aos ido-
sos, mas aos discentes, aos profissionais, aos docentes e, também, as instituições
de ensino que exercem seus papéis sociais em consonância com as atuais políticas
públicas direcionadas à população idosa.
Na sociedade brasileira, ainda carente no discernimento da dimensão do enve-
lhecimento da população, urge colocar na agenda política e social a necessidade
da aplicação de mais recursos humanos e econômicos para a efetividade plena das
ações educacionais, previdenciárias e de saúde, incrementando o debate acerca
dos serviços e benefícios ofertados à população idosa.
Nesse sentido, a intenção da UNAPI/UFPel é continuar avançando no caminho
da promoção de uma melhor qualidade de vida aos idosos, a qual pode ser cons-
truída pelo conhecimento, mas principalmente pela socialização, ao conectar os
idosos com aquilo que é o mais importante em suas trajetórias, ou seja, a consti-
tuição de uma rede de afetos que permita a eles estar e se sentir no mundo.

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Agradecimentos

Aos idosos da UNAPI/UFPel, pois eles são a essência deste programa; aos professores, aos dis-
centes e técnicos administrativos que tanto têm contribuído para o bom desenvolvimento das ati-
vidades; à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura – PREC e à Reitoria pelo apoio institucional.

SOBRE AS AUTORAS
Adriana Schüler Cavalli - graduada Aberta Para Idosos (UNAPI). E-mail:
em Educação Física ESEF/UFRGS. Dou- anaconogueira@[Link].
tora em Ciências da Saúde e Esporte
pela Chukyo University, Japão. Profes- Lorena Almeida Gill - graduada em
sora Associada na ESEF/UFPel/RS. Co- História pela UFPel. Doutora em Histó-
ordenadora do Programa Universidade ria pela PUCRS, com pós-doutoramen-
Aberta Para Idosos (UNAPI), Núcleo de to na Università degli Studi di Siena,
Atividades para a Terceira Idade (NATI) Itália. Professora Associada no ICH e
e do Grupo de Pesquisa e Estudos So- professora dos Programas de Pós-Gra-
ciológicos em Educação Física e Espor- duação em História e Sociologia da
te (GPES/UFPel). Email: adriscavalli@ UFPel. Colaboradora da UNAPI. E-mail:
[Link]. lorenaalmeidagill@[Link].

Ana Carolina Oliveira Nogueira - gra- Zayanna Christine Lopes Lindôso -


duada em Licenciatura em Matemática graduada em Terapia Ocupacional pela
pela UFPel. Mestra em Educação pela Faculdade Santa Terezinha – CEST.
UFPel. Técnica Administrativa Chefe do Doutora em Gerontologia Biomédica
Núcleo de Formação, Registro e Acom- pela PUCRS. Professora adjunta e co-
panhamento da PREC. Coordenadora ordenadora do curso de Terapia Ocupa-
do projeto UNAPI Ativa: Ações voltadas cional da UFPel. Coordenadora adjunta
à qualidade de vida após os 60 anos, da UNAPI/UFPel. E-mail: zayanna@
vinculado ao Programa Universidade [Link].

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte II - nº4 126


P A R T E I I I

Parte III
Comunicação

C OMU N I C A Ç Ã O
DESIGNERIA EMPRESA JÚNIOR:
NOVE ANOS DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA

Helena de Araujo Neves


Julia Lima da Silva
Joanna de Oliveira Borges Voloski

Introdução
Fundada em 5 de novembro de 2010 como um Projeto de Extensão denomi-
nado Designeria – Empresa Júnior de Design, nasceu da iniciativa mútua de alunos
e professores dos cursos de Design da Universidade Federal de Pelotas quando
perceberam a necessidade de estimular os discentes para ações extensionistas,
além de propiciarem aos acadêmicos o exercício da profissão. Ao longo dos anos,
o projeto se desenvolveu por meio do atendimento a clientes reais — internos e
externos à UFPel. No momento da criação da Empresa e do Projeto de Extensão,
o coordenador foi o professor João Fernando Igansi e a equipe era formada pelos
acadêmicos Rafael Nobre Pires (Presidente Diretor); Rafaela Pereira de Azevedo
(Diretora de Marketing); Rafael Peduzzi Gomes (Diretor Financeiro); Renan Ma-
chado Colares (Conselheiro) e Bruna Ferreira Gugliano (Conselheira).
Neste artigo expõe-se, no entanto, um relato de experiência dos últimos cinco
anos de atuação desse Projeto de Extensão, que mais recentemente se tornou um
Projeto Unificado — apresentando a estrutura organizacional da Designeria, bem
como indicando a presença de ações que envolvem o tripé ensino, pesquisa e ex-
tensão. Para isso, será realizada análise documental, observação e utilização de
exemplos de trabalhos desenvolvidos pelas diferentes equipes. Cabe destacar, por
fim, que, ao organizar este texto, participantes e ex-integrantes da Empresa foram
estimulados a enviarem relatos1 sobre a sua vivência junto ao Projeto de Extensão.
COMUNICAÇÃO Nº1

Por tanto, a escrita deste artigo se dá com base nos depoimentos e imagens dos
integrantes que efetivamente não só fizeram parte como construíram essa histó-
ria.
1 Foi enviado (por meio de correio eletrônico), um questionário para ex-integrantes que atuaram junto
ao Projeto de Extensão Designeria – Empresa Júnior. O instrumento contava com uma questão aberta, qual
seja: “Destaque o significado de ter atuado como acadêmica (o) no Projeto de Extensão Designeria – Empresa
Júnior” (DADOS DA PESQUISA, 2019).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 129


Algumas ações desempenhadas nos seus anos de
História
O projeto Designeria – Empresa Júnior de Design está concentrado na área temá-
tica da comunicação, uma vez que tem por objetivo prestar à comunidade interna
e externa à UFPel serviços de Design Gráfico e Digital — contemplando os mé-
dios e pequenos empresários e a comunidade interna da UFPel. O projeto, como
mencionado, nasceu junto aos cursos de Design vinculados ao Centro de Artes da
UFPel. Seu objetivo é prestar à comunidade serviços de Design com preços aces-
síveis — uma vez que esses acadêmicos estão em formação. Isso também se dá
como forma de beneficiar a sociedade, retornando o investimento realizado na
formação desses alunos, os quais desempenham serviços de Design com baixo
custo e, ainda assim, mantêm um alto padrão de qualidade.
O bom da Designeria era que todos os estudantes estavam no mesmo ní-
vel, ninguém era acima de ninguém, e isso dava uma segurança para poder
errar e aprender. Também era muito gratificante poder ajudar quem busca-
va por Design, mas não tinha muitas condições de pagar, lucro nunca foi o
objetivo da Designeria e isso dava uma maior importância ao aprendizado.
(Lídia Santos — Bacharel em Design Gráfico e ex-integrante da Designe-
ria, questionário, 2019).

É importante destacar que os valores arrecadados pela empresa são reinvesti-


dos na mesma — seja pela aquisição de patrimônio e/ou na contratação de capaci-
tações para seus integrantes. Contudo, a empresa não atende apenas clientes pa-
gantes, pois realiza voluntariado quando faz parcerias com organizações sem fins
lucrativos, por exemplo, ou mesmo quando não cobra por um projeto que acredita,
valoriza e apoia. Essa conduta se dá pelo fato de a equipe entender que trabalhos
dessa natureza conscientizam o futuro profissional, estimulando-o e engajando-o
a contribuir com a sociedade. Tais projetos sociais tanto chegam à empresa quan-
to são prospectados pelos seus integrantes — que ficam atentos às possibilidades
de voluntariado por meio do Design. Dois exemplos desses casos ocorreram em
Figura 1: Trabalhos
anos distintos; um deles por meio de uma parceria com o curso de Veterinária da
sociais desenvolvidos
pela Designeria. UFPel — ao produzir ilustrações e material promocional para uma campanha de
guarda responsável de animais. Outra peça desenvolvida foi um folheto contendo
Fonte: Acervo
Designeria – Empresa informações sobre a utilização de bumerangues — distribuído junto às escolas mu-
Júnior. nicipais da cidade de Pelotas, como podem ser visualizados a seguir:

A Designeria é administrada por acadêmicos


dos cursos de Design e sempre coordenada por
um professor vinculado ao colegiado, sendo
que nos últimos cinco anos tem sido coordena-
da por uma mesma professora adjunta. Trata-se
por excelência de um Projeto de Extensão (mas
que sempre contemplou ações de ensino e de
pesquisa). Hoje, contudo, configura-se como
um Projeto Unificado devidamente cadastrado
no COBALTO (Sistema Integrado de Gestão da
UFPel).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 130
Como já mencionado, a empresa visa a oferecer serviços de qualidade, com cus-
to reduzido, que abranjam, dentre outras áreas, as de Identidade Visual; Editorial;
Ilustração; Webdesign; Redes Sociais; Sinalização; Embalagem etc. Busca atender
uma parcela do mercado (interno e externo à UFPel) que carece de trabalhos na
área do Design e que não tem condições financeiras para contratar um escritório
profissional. Portanto, tem como missão proporcionar uma experiência de gestão
e de empreendedorismo aos estudantes, oferecendo aos clientes projetos de de-
sign de qualidade com preços acessíveis.
A Designeria é uma oportunidade que os alunos têm de lidar com clientes re-
ais, e atuar em diversas áreas, tomando conta do Atendimento, Direção de
Arte, Redação e Produção, sob a supervisão de um professor que coordena
o projeto. Essa liberdade possibilita ao aluno conhecer melhor cada prática
para, assim, entender o processo como um todo. Tudo isso contribui para
que o aluno já saia da Universidade com um conhecimento global acerca
da prática, suavizando o processo e até proporcionando oportunidades no
mercado por conta desse conhecimento. No meu caso em específico, cumpri
função de Diretor de Marketing e, depois, de Presidente na empresa. Foi
muito enriquecedor porque pude colocar em prática os conhecimentos que
aprendi — e ainda estava aprendendo — na sala de aula: nas disciplinas de
Marketing e de Gestão do Design, por exemplo. (Lucas Kurz — Bacharel em
Design Digital e ex-presidente da Designeria, questionário, 2019).

O caráter extensionista se dá, em grande parte, pelo contato estabelecido com


o público externo (e também interno) ao lhes oferecer tudo aquilo que o estudan-
te recebe na instituição. Outro aspecto necessário que deve ser destacado consta
que a Designeria é procurada de forma constante por diferentes cursos, unidades
e pró-reitorias da UFPel — ávidos por contatar serviços da área do Design, os quais
serão desempenhados pelos acadêmicos envolvidos no projeto que se empenham
por entregar um trabalho profissional (Fig. 9). Constrói-se uma relação muito sau-
dável de ensino-aprendizagem, momento no qual os acadêmicos exercitam a sua
profissão na prática tendo clientes reais e aprendendo a executar, com responsabi-
lidade, a sua profissão. Todos esses aspectos estão previstos nos PPCs (Projeto Pe-
dagógico de Curso) das duas habilitações em Design — em especial, a capacidade
de o aluno ter autonomia e vivenciar junto à universidade projetos que contribuam
com o bem-estar social e com o seu desenvolvimento profissional e humano. So-
bre as experiências adquiridas na empresa, uma das ex-presidentes fez o seguinte
relato:
Minha experiência na Designeria foi essencial para o meu amadurecimento
tanto pessoal quanto profissional. Quando entrei na Empresa Júnior nem
imaginava que viria a me tornar presidente da mesma! Aprendi a ser mais
confiante e decidida, além de ter conhecido pessoas maravilhosas que acre-
ditaram e confiaram em mim. Desenvolvi habilidades com planilhas, con-
tratos, reuniões, gerenciamento de equipe e de projetos que me são muito
úteis na minha vida profissional. Ademais, ter a experiência de ter participa-
do de uma Empresa Júnior foi um grande diferencial no meu currículo – que
proporcionou o meu primeiro emprego. Tenho muito carinho pelos momen-
tos que passei na Designeria! A experiência de participar de uma Empresa
Júnior é algo que eu recomendo para todos os alunos de graduação, pois os
aprendizados são valiosos. (Mariana Couto e Silva — Bacharel em Design
Gráfico e ex-presidente da Designeria, questionário, 2019).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 131
O exercício da extensão também se dá quando a equipe participa de atividades
que promovam a aproximação com o público externo, propostas pela comunidade
acadêmica, como a Mostra dos Cursos ou mesmo nos eventos intitulados “UFPel
na rua”— ocorridos neste último ano na praça central da cidade, cujo objetivo foi
o de mostrar o trabalho desenvolvido na universidade, em resposta aos recentes
ataques às instituições públicas de ensino.
É um espaço extensionista, mas também de ensino-aprendizagem, uma vez
que os trabalhos solicitados pelos clientes são orientandos, ao menos, por uma
professora integrante do quadro de professores dos cursos de Design. Além disso,
no desenvolvimento de projetos complexos, a equipe pode lançar mão da orien-
tação do corpo docente dos cursos de Design, isto é, de acordo com os demais
professores dos cursos e tal auxílio ocorrerá dependendo do conhecimento téc-
nico de determinado docente. Atualmente, contudo, a empresa conta com duas
professoras orientadoras, uma delas também desempenha a função de coordena-
dora do projeto e, a outra, integra a equipe como colaboradora. Ambas participam
das reuniões semanais e orientam os discentes ao longo do desenvolvimento dos
projetos e com relação aos temas administrativos. Tudo isso com o intuito de pos-
sibilitar ao aluno a aproximação da teoria à prática, além de entregar ao mercado
um trabalho profissional.
Comecei a participar da Designeria em 2015, no início do meu segundo se-
mestre. Além da necessidade de realizações de participações em projetos
de extensão que é solicitada em nosso currículo, também buscava aprender
mais sobre futura profissão e viver o dia a dia de uma empresa, mesmo que
em pequena escala. Dizem que quando participamos de alguma coisa não
devemos criar muitas expectativas, mas ter participado da Designeria foi
uma grande surpresa para mim. Tive a chance de colocar em prática o que
eu gostaria, mas também a aprender a lidar com clientes, fazer briefings,
trabalhar em equipe, gestão e gerir meu tempo para realizar a melhor entre-
ga possível, pois sabia que tínhamos um cliente ansioso pelos melhores re-
sultados. Falando em clientes, aprendi também a lidar com a frustração, e
entender que nem sempre isso é um problema e que é um sentimento recor-
rente na profissão Designer. Nem sempre o que desenvolvíamos sentíamos
que era o ideal para o cliente (mas modéstia à parte, era sim), e aprender
lidar com esse tipo de situação foi muito importante para a vida profissio-
nal e também na academia. Felizmente tínhamos reuniões semanais, onde
conversávamos, chorávamos as pitangas, éramos pautados, e ficávamos
por dentro dos projetos e do que acontecia na empresa. Por vezes tínha-
mos nossas festinhas de confraternização, que eram regadas pelos delicio-
sos pratos da Profa. Helena. Sou muito grato pela minha participação na
Designeria. Foram dois anos de muito aprendizado e trocas, em que pude
começar como colaborador e com o passar do tempo me tornar presidente.
E, por fim, aprendi que com grandes cargos vêm grandes responsabilidades
e que se você participa de uma equipe unida tudo fica mais fácil. (Lucas
Cruz — Bacharel em Design Gráfico e ex-presidente da Designeria, ques-
tionário, 2019).

Cabe salientar também o que um dos atuais integrantes da empresa demar-


cou sobre outro aspecto dessa relação que se estabelece no convívio dos discentes
com as docentes. Além disso, chama-se a atenção para a alegria que esse demons-
tra ao perceber que um ex-aluno (que integrou a equipe que fundou a Empresa
Júnior de Design) retornou à UFPel como seu professor:

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 132
[...] As professoras coordenadoras nos orientam e ajudam com tudo, mes-
mo estando lotadas de coisas. Até salgadinho e os melhores bolos elas le-
vam para as confraternizações. Outra experiência legal foi o contato com
membros da Designeria de gestões passadas — no meu caso, com o Rafael
Peduzzi. Ele “voltou” para a UFPel como professor substituto e ficou feliz
que a empresa ainda funcionava, nos perguntava como as coisas estavam
indo e tinha um contato mais próximo com a gente. (Gabriel Cabral — Aca-
dêmico do curso de Design Digital e atual membro da Designeria, ques-
tionário, 2019).

Segundo outra integrante da empresa, o professor responsável pela coordena-


ção e orientação do projeto tem:
importância inestimável para uma EJ, pois é ele quem orienta os membros
da mesma, desde o atendimento ao cliente até as tomadas de decisões
burocráticas — e esse é o grande diferencial de uma Empresa Júnior, pois
por mais que a equipe seja formada por graduandos, torna-se necessário
ter como amparo uma base profissional capacitada e qualificada. Essa base
se faz presente por meio da figura do professor coordenador. Identifico que
essa segurança de conter na equipe uma figura mais experiente e com ba-
gagem profissional faz com que os próprios integrantes procurem fazer tra-
balhos com excelência. (Julia Lima – Graduanda em Design Gráfico e atual
integrante da Designeria, questionário, 2019).

É relevante considerar que esse espaço também é muito importante para o cor-
po docente — uma vez que tem a oportunidade de voltar a se aproximar do merca-
do — em especial por ter afastado-se anteriormente em função da dedicação ex-
clusiva à universidade. Considerando que o campo do Design sofre aceleradas mu-
danças, estar perto dessa realidade, atualizando-se e vivenciando as dificuldades
do mercado, sem dúvidas, qualifica a experiência dos docentes que as levam para
sala de aula. Portanto, os professores não estão no projeto apenas conduzindo os
acadêmicos e compartilhando o que já aprenderam, mas também aprendendo
com essas experiências e com seus alunos. Além disso, em um Projeto de Exten-
são existe um contato mais aproximado com os discentes e tal movimento propi-
cia exercitar a docência em um espaço não-formal. Este, por sua vez, oportuniza
uma aprendizagem significativa e duradoura, a qual extrapola os conhecimentos
técnicos e de gestão, mas que envolve o crescimento integral de um cidadão. Re-
conhecer esse aspecto talvez seja um dos motivos pelos quais a última coordena-
dora segue na gestão do projeto, mesmo após ter passado cinco anos desde que
o assumiu e, neste último ano, ter acumulado essa função com a coordenação dos
cursos de Design. A aproximação entre discente e docente também foi percebida
e relatada por um ex-integrante. Segundo ele:
quem participa da Designeria consegue usufruir de um momento muito rico.
Dentro desse projeto conseguimos experienciar na prática como conviver
com o real mercado de trabalho, onde prazos curtos, negativa do cliente, fa-
tor econômico e inexperiência com meios de comunicação diferenciados são
fatores que se apresentam. Algo que até então não havíamos vivenciado.
A grande diferença deste projeto para uma experiência real dentro de uma
agência é o ACOLHIMENTO e TRABALHO EM EQUIPE, onde ninguém tenta
ser mais brilhante do que o outro, todos se ajudam em prol de um resultado

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 133
final satisfatório. Durante o período que eu estive na Designeria, pude par-
ticipar diretamente de questões burocráticas que fazem parte da realidade
de uma empresa e que hoje carrego essa experiência adquirida para a em-
presa da qual sou proprietário. No meu período como integrante também
fui privilegiado por poder ter um contato mais aproximado com a professora
orientadora e é algo que carrego comigo com extremo carinho. Acredito que
pelo fato de estarmos em uma sala com uma equipe bem mais reduzida do
que em uma sala de aula se consiga ter algo mais pessoal, e as experiências
compartilhadas pela orientadora são de extrema importância e a vontade
que fica após não ser mais integrante da Designeria é de querer repetir algo
parecido. Concluo que esse projeto é uma forma muito ‘’humanitária’’ da
troca da mente acostumada com a vida acadêmica para a mente que agora
fará parte do competitivo mercado de trabalho. [Grifos do Autor] (Rodrigo
Caldeira — Acadêmico do curso de Design Digital e ex-integrante da De-
signeria, questionário, 2019).

Ainda sobre a estrutura de funcionamento do projeto, destaca-se que no coti-


diano da Designeria simulam-se as experiências de uma empresa de Design con-
tendo seus variados cargos. O intuito é propiciar ao aluno essa vivência, a qual, por
vezes, só ocorrerá quando realizar um estágio profissional.
A Designeria foi essencial para dar o primeiro passo na minha carreira no
Design, foi minha primeira experiência fazendo trabalhos para fora, minha
primeira experiência com cliente e foi maravilhoso. O bom da Designeria
era que todos os estudantes estavam no mesmo nível, ninguém era acima
de ninguém, e isso dava uma segurança para poder errar e aprender. (Lí-
dia Santos — Bacharel em Design Gráfico e ex-integrante da Designeria,
questionário, 2019).

Com o atendimento direcionado para o público da região sul do Brasil, a Desig-


neria, nesses quase nove anos de existência, atendeu não só o público interno da
comunidade acadêmica, mas principalmente o externo. Eram pequenos e médios
empresários que estavam abrindo o primeiro negócio ou que já possuíam um e
tinham a intenção de ampliá-lo. Ao longo desses anos, foi possível perceber que
o profissional que está começando seu empreendimento normalmente não utili-
zaria o serviço de uma empresa de Design, seja pela carência de recursos ou pela
falta de conhecimento sobre as melhorias que este tipo de consultoria poderia
trazer ao seu empreendimento. Como os valores cobrados pela Empresa Júnior
são mais acessíveis dos que os praticados pelas empresas estabelecidas no mer-
cado — não só em função de que os estudantes estão em formação, mas também
porque faz parte da cultura de uma empresa que nasce junto a uma instituição de
ensino — facilita-se o acesso para que o profissional liberal descubra as vantagens
que o Design proporciona. Isso não só qualifica as atividades desse profissional,
como educa o empresariado local ao perceber e entender essas vantagens estra-
tégicas — além de valorizar e dar oportunidade ao futuro profissional que sairá
da universidade com uma experiência ímpar. Levando-se em consideração que o
público nem sempre compreende o campo de atuação do Design, ao longo dos
anos a equipe percebeu que os clientes desconheciam o passo a passo do traba-
lho desempenhado pela empresa. Para evitar excesso de expectativa, em especial
com relação aos prazos, a equipe desenvolveu um infográfico2 para explicar como
2 Para visualizá-lo acesse: [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 134
se dá o trâmite a partir da solicitação do cliente. Tal peça fica disponível na página
da empresa na rede social Facebook; outras vezes é enviada por e-mail3 para os
clientes que contatam a empresa por esse canal. Após a reunião presencial com
o cliente é enviado um e-mail contendo um link para um formulário que irá servir
como brienfing durante o projeto. No formulário, constam perguntas relacionadas
à (1) descrição do projeto; (2) prazo de entrega; (3) materiais solicitados, (4) e área
que se encaixa no campo do Design. Além das perguntas, existe um campo para
adicionar arquivos ou links com referências visuais compatíveis com as expectati-
vas do cliente, tudo isso para facilitar a compreensão da equipe. Depois de reunir
esses dados, eles são expostos nas reuniões com toda a equipe da Designeria, as
quais ocorrem uma vez por semana contendo as discussões das pautas, ou seja:
debates sobre os projetos em andamento; novas solicitações e demandas inter-
nas; exposição de algumas peças desenvolvidas e, por vezes, dificuldades enfren-
tadas com os projetos e/ou clientes.
Durante essas reuniões, novas demandas serão apresentadas aos membros,
que discutirão sobre a viabilidade de sua execução, bem como definirão quais
alunos irão integrar o grupo de desenvolvimento do trabalho. Normalmente cada
grupo contém três integrantes, podendo variar de acordo com a complexidade do
projeto. Depois de acertado todos os detalhes de equipe, um orçamento é elabo-
rado nessa reunião e posteriormente enviado via e-mail para o contratante. Assim
que aprovado o serviço, formaliza-se por meio de um contrato os tipos de traba-
lhos a serem desenvolvidos, os prazos, a quantidade de alterações estipuladas e as
formas de pagamento (CALDEIRA; NEVES; MARQUES, 2018).
Com o contrato assinado, a equipe responsável pelo projeto começa a confec-
ção do trabalho, mantendo contato com o cliente e seguindo os prazos definidos.
Cada etapa do desenvolvimento é apresentada ao cliente para que ele se sinta par-
te do processo e possa integrar as tomadas de decisão, além se evitar refação por
parte da equipe. O encerramento do projeto só ocorre após todas as alterações
solicitadas serem atendidas e mediante a aprovação do cliente. Todos os arquivos
das peças produzidas e suas devidas aplicações são encaminhados para o cliente
via e-mail, desta forma fechando o ciclo do projeto por parte da Designeria.
Como mencionado, a Designeria é administrada por acadêmicos sob a supervi-
são de uma docente e possui cargos rotativos de Presidente, Diretor Financeiro,
Diretor de Marketing, Secretário e Designers. A formação da equipe acontece me-
diante processo seletivo, realizado anualmente ou sempre que se faz necessário.
A quantidade de vagas, por sua vez, está relacionada ao total de membros em
processo de desligamento da empresa e/ou do aumento do volume de trabalhos
da EJ. Realidade exposta por Caldeira, Neves e Marques (2018, p. 19):
A periodicidade do processo seletivo está sujeita às demandas internas e
é organizada pelos próprios acadêmicos com a supervisão da professora
coordenadora, sempre considerando oportunizar que outras discentes
participem da empresa, dando continuidade ao projeto de extensão a
cada novo semestre.

Nos últimos cinco anos, participaram da empresa uma média de 65 estudan-


tes. Essa substituição de membros oportuniza, portanto, a rotatividade necessá-
ria para que o projeto alcance um maior número de discentes possível. A seguir
expõe-se um registro contendo equipes que já integraram o Projeto de Extensão:

3 Entre em contato com a Designeria Empresa Júnior por meio deste e-mail: [Link]@gmail.
com.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 135
Os acadêmicos que compõem a equipe podem cursar di-
ferentes semestres e estarem em distintos níveis de desen-
volvimento, pois nas seleções a empresa procura por um
perfil técnico e humano, sem esquecer de que todos estão
em formação. Sobre o amadurecimento que a vivência junto
à empresa proporciona aos acadêmicos, uma ex-integrante
fez o seguinte relato:
Ah... como eu queria ter tido a maturidade que tenho hoje nos
dias de Designeria. Mas pensando bem, se não fosse a Desig-
neria não teria a maturidade que tenho hoje, pois todos os ins-
tantes que estive naquela pequena empresa foram de extre-
mo aprendizado para uma pseudo-designer. A Designeria me
pegou no braço e me alinhou com minhas primeiras práticas
profissionais, me apresentando à experiência da realidade de
trabalho — da qual eu não tinha bagagem alguma naquela
época. Me ensinou a ser organizada, a trabalhar em equipe
para entregar o projeto em dia para o cliente, me ensinou a
ter maturidade em reuniões com os clientes e o valor que um
contrato tem nessas transações. (Luana Madeco — Bacharel
em Design Gráfico e ex-integrante da Designeria, questioná-
rio, 2019).

Figura 2: Equipes da O edital de processo seletivo é divulgado na página da empresa na rede social
Designeria – Empresa Facebook, conjuntamente com um formulário de inscrição localizado no mesmo
Júnior. post — onde os alunos interessados dispõem das informações solicitadas e de um
Fonte: Acervo campo para enviarem seu portfólio. O edital também é enviado para a PREC (Pró-
Designeria – Empresa -Reitoria de Extensão e Cultura) que o publica em seu site e também é exposto no
Júnior.
mural dos cursos de Design. Após transcorrido o prazo de inscrição, os membros
da Designeria se organizam para iniciar as entrevistas com os candidatos. Durante
as entrevistas, os integrantes escalados para tal função seguem um protocolo de
perguntas e também recebem os portfólios dos candidatos a fim de buscar os perfis
para os cargos em aberto na empresa. Além de perguntas sobre a vida profissio-
nal e acadêmica do entrevistado, alguns questionamentos chave são feitos para o
preenchimento de um relatório contendo o perfil do entrevistado, são eles: a) Tens
interesse em permanecer e ocupar cargos na empresa com o passar do tempo?; b)
Qual área do Design você tem mais interesse ou acredita que possui mais habilida-
de?; c) Quais programas tens mais domínio e afinidade?, d) Possui conhecimento
em WordPress?.
Essas perguntas são fundamentais, pois após o período de entrevistas acontece
uma reunião com todos os integrantes da empresa e com a professora coorde-
nadora — momento no qual ocorre uma triagem e análise às cegas dos portfó-
lios para, posteriormente, revelar a identidade do(a) autor(a). A partir dessa fase,
ocorre uma avaliação dos relatórios das entrevistas que foram organizados pelos
entrevistadores. A escolha dos candidatos se dá por meio das necessidades inter-
nas da empresa, como dito anteriormente; dessa forma, procura-se analisar o per-
fil de Designer em falta na EJ, por exemplo: ilustrador, web designer etc. Neste
momento são considerados o portfólio e as respostas concedidas na entrevista
e, na sequência, ocorre uma votação e com a aprovação do(a) presidente(a) da
Designeria e do(a) professor(a) coordenador(a) são escolhidos os novos membros.
O resultado é divulgado pelo Facebook, além de ser enviado individualmente para

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 136
cada inscrito uma mensagem de agradecimento pela participação. Sobre a sua
experiência ocorrida no momento da seleção para novos membros, um atual inte-
grante da empresa relatou:
Nunca achei que seria capaz de entrar na Designeria, mas quando vi o pro-
cesso de seleção aberto, pela primeira vez, desde que entrei na universida-
de, decidi tentar. Não tinha nada a fazer fora da universidade e seria muito
legal se entrasse. Todo o processo foi muito legal, totalmente realizado pe-
los estudantes, o edital, as inscrições, até na entrevista os entrevistadores
eram os alunos. Lembro que fiquei meio nervoso por ter sido entrevistado
por duas das melhores alunas do Design (Camila e Natália) e também por
não gostar de desenhar. Não sei, achava que todo mundo ali sabia dese-
nhar bem e por isso não tinha chance, mas decidi tentar. Aconteceu que, por
sorte do destino, acabei mencionando do nada que sabia usar o WordPress.
No final fui escolhido por causa disso, segundo as entrevistadoras eles es-
tavam precisando de alguém que soubesse e deu certo. (Gabriel Cabral —
Acadêmico do curso de Design Digital e atual membro da Designeria,
questionário, 2019).

Atualmente, a Designeria conta com uma equipe de 14 discentes (Fig. 3). Todos
são alunos dos cursos de Design Gráfico ou Design Digital e atuam como voluntá-
rios — com a exceção da bolsista de extensão, modalidade conquistada no ano de
2014 e mantida até os dias de hoje.

Ao longo desses anos, existiu uma


rotatividade dos discentes contem-
plados com a bolsa da extensão. Esse,
por sua vez, fica responsável por ser o
secretário da empresa, além de demais
tarefas definidas em seu plano de tra-
balho apresentado à PREC (Pró-reitora
de Extensão da UFPel), pela professora
coordenadora do Projeto de Extensão.
Já os acadêmicos voluntários não
recebem nenhum tipo de auxílio finan-
Figura 3: Atual
ceiro, o que pode fazer com que, em al-
Equipe da Designeria guns casos, parte da equipe desista de trabalhar junto ao projeto e busque outras
– Empresa Júnior. atividades que os remunerem. Isso pode acabar por fragilizar a empresa, espe-
Fonte: Acervo cialmente, quando se trata de alunos que tenham um conhecimento específico e
professora Helena único e que, ao sair do projeto, deixam a área de atuação descoberta. Em conse-
Neves. quência do desejo educacional de mantermos o projeto ativo e de sua importância
para o desenvolvimento e aprimoramento das capacidades dos alunos e demais
envolvidos, todos os anos muito batalha-se para manter ao menos uma bolsa de
extensão, a fim de garantir que, pelo menos, um aluno se dedique 20h ao proje-
to. A importância da carga horária vem da necessidade de manter uma equipe no
controle dos canais de comunicação, a saber que a empresa recebe pedidos de tra-
balho diariamente. Da mesma forma que ter uma presença constante no espaço
físico da Designeria para atender aos clientes (que nos procuram pessoalmente) se
faz necessário — algo que, hoje em dia, só ocorre mediante agendamento prévio.
Além disso, por vezes a demanda de projetos se concentra em finais de semes-
tre, justamente quando os alunos estão mais sobrecarregados. Portanto, garantir

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 137
que ao menos um acadêmico esteja recebendo uma bolsa para desempenhar suas
atividades junto ao projeto dá um suporte necessário ao grupo em momentos de
maior volume de tarefas.
A seleção do bolsista de extensão é realizada pela professora coordenadora do
projeto, conjuntamente com a presidente da empresa, de um integrante respon-
sável pela gestão de projetos e, sempre que possível, por outro professor integran-
te do colegiado do Design. A conquista dos bolsistas, sem dúvida alguma, fez o
projeto avançar.
[...] Durante minha passagem pela Designeria tiveram muitos altos e bai-
xos, trocando constantemente de sala, buscando por registro como micro-
empresa, alvará dos bombeiros, até mesmo a perda do nosso caixa, mas
nada disso desmotivou esse projeto maravilhoso de continuar em pé, e te-
nho muito orgulho de ter feito parte dessa história. A Designeria é a prova
de que o incentivo acadêmico é essencial para a inclusão do profissional no
mercado. (Lídia Santos – Bacharel em Design Gráfico e ex-integrante da
Designeria, questionário, 2019).
Apesar dos contratempos em que todo e qualquer projeto de extensão acaba
esbarrando vez e outra, pelos mais variados fatores, vê-se o quão é fundamental o
envolvimento de toda equipe participante, a credibilidade recebida pela instituição
e o engajamento e promoção educacional e profissional que esta empresa propor-
ciona aos seus alunos. Tanto que podemos ver colhendo os frutos, como no final
de 2015, quando o projeto recebeu uma premiação muito importante: ficou em 1º
Lugar no “III Workshop de Empreendedorismo e I Concurso de Pitchs de Empresas
Juniores da UFPel”. Foi uma ótima oportunidade de visibilidade para a Designeria,
além de motivação para todo o grupo. Ademais, por entender que se tem respon-
sabilidade social, no ano de 2016 a Designeria organizou um evento intitulado “De
mala e cuia”, cujo propósito era propiciar, aos acadêmicos que participaram do
“Programa Ciência sem Fronteira”, um espaço para relatarem suas experiências
– compartilhando com a UFPel suas percepções sobre o ensino na instituição e o
que foi vivenciado fora dela. Além dos acadêmicos que integraram esse progra-
ma, a Designeria também convidou representantes da CRinter (Coordenação de
Relações Internacionais) para que expusessem oportunidades de intercâmbio aos
estudantes da UFPel, como é possível verificar nos registros que seguem (Fig. 4).
Figura 4: Evento “De É por todos os motivos já relatados até aqui que esse projeto merece continuar
mala e cuia”. recebendo o investimento da Universidade Federal de Pelotas, seja por continuar
Fonte: Acervo
oportunizando o espaço físico para a localização da empresa, pelas horas de de-
professora Helena dicação docente à extensão ou pelas bolsas de extensão — uma vez que atua há 9
Neves. anos junto à UFPel demonstrando o seu valor.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 138
Ainda no que se refere à seleção e composição da equipe, após a sua realiza-
ção, os membros definem quem serão os ocupantes dos cargos administrativos,
os quais atuarão nessas funções por alguns meses, gerando rotatividade. Todos os
participantes envolvem-se diretamente com a criação dos projetos e com aspec-
tos administrativos. Sobre essa vivência, um integrante destacou que:
[...] foi a primeira vez que eu tive contato com a maneira que uma empresa
de Design funciona. Prazos curtos, atendimento a clientes que não enten-
dem sobre Design, casos de falta de comunicação entre a equipe, confusão
nos e-mails. Também foi a primeira vez que trabalhei em grupo fora da sala
de aula, conhecendo como funciona a relação de trabalho entre designers.
Também conheci gente e fiz amigos que dificilmente faria se não estivesse
na empresa, por sermos de turmas e cursos diferentes. O mais legal para
mim é fazer brainstorming em reunião com toda a equipe. (Gabriel Cabral
— Acadêmico do curso de Design Digital e atual membro da Designeria,
questionário, 2019).

A fim de manter a comunicação do grupo em constante sintonia, a equipe reú-


ne-se semanalmente e, neste momento, são tomadas decisões referentes à ges-
tão e à execução de projetos em andamento — além de se estabelecer estratégias
para captação de novos clientes. Os alunos também são estimulados a participar de
eventos relacionados aos assuntos pertinentes ao projeto, tais como cursos, ofici-
nas e palestras. Nas reuniões seguintes são convidados a compartilharem o apren-
dizado adquirido nessas oportunidades, o que é seguramente importante, pois a
formação e vivência de cada aluno serve como aprendizado para os demais. Sobre
as experiências vividas junto ao projeto, uma ex-integrante fez o seguinte relato:
A Designeria me ajudou a crescer como profissional. Nela aprendi como é
fazer parte de uma empresa, ser parte de uma equipe. Onde vi que para
que um projeto saia do papel é preciso o esforço de todo o time. Em cada
trabalho aprendi um pouco mais de como ser uma profissional melhor. Às
vezes era preciso ter uma atitude de liderança para conseguir que as coisas
fossem feitas, às vezes era preciso saber escutar para conseguir entender
melhor o que o cliente quer, às vezes era preciso saber administrar para que
tudo desse certo no tempo certo etc. A cada nova oportunidade de trabalho,
novas experiências a Designeria oferecia. Só tenho a agradecer pela chance
de ter participado da Designeria e por ter sido um membro desse projeto.
(Mallu Poggetti dos Santos – Bacharel em Design Digital e ex-presidente
da Designeria, questionário, 2019).

As ações de ensino também se dão por meio de workshops ministrados pelos


acadêmicos que participam do projeto. Esses eventos atendem tanto a comunidade

Figura 5: Equipe
Designeria
ministrando oficina
SIIEPE – 2017.
Fonte: Acervo
Designeria – Empresa
Júnior.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 139
interna quanto externa à UFPel. Como é possível verificar, as imagens a seguir re-
gistram uma das três oficinas que foram ministradas pela equipe da Designeria na
SIIEPE – 2017 da UFPel.
Nos últimos anos, a Designeria desenvolveu parcerias com as demais empresas
juniores integrantes da UFPel, oferecendo às mesmas cursos e capacitações na
área do Design. A imagem a seguir (Fig. 6) registra uma oficina de Photoshop e de
Indesign que foi ofertada aos integrantes da Empresa Emad Júnior durante uma
greve docente, — ocorrida em novembro de 2016 — e expõe um curso com o foco
em MotionDesign, ministrado durante o evento que celebrou os 20 anos dos cursos
de Design — o Suldesign – 2019.

Figura 6: Oficinas O ensino também se dá quando os integrantes veteranos da empresa assumem


ministradas pela
a postura de tutores dos mais novos, ensinando-os procedimentos relacionados
Equipe Designeria.
aos projetos, ao atendimento aos clientes, etc. Nos atendimentos aos clientes, por
Fonte: Acervo exemplo, um novo integrante sempre será acompanhado por um mais experien-
professora Helena
Neves.
te que vai conduzir a reunião e ensinar ao mais novo como organizar o briefing e
orientá-lo sobre as etapas futuras. Sobre os diferentes papéis que um integrante
da empresa assume ao longo da sua atuação, um ex-presidente da empresa fez a
seguinte reflexão:
Me sinto afortunado por ter tido essa oportunidade, e fico feliz de saber que
muitos outros alunos puderam e ainda podem ter essa enriquecedora ex-
periência. Me alegra também saber que pude contribuir para o crescimento
dessa Empresa, pela qual tenho tanto carinho, e que fiz parte de uma ini-
ciativa que considero notável. (Lucas Kurz — Bacharel em Design Digital e
ex-presidente da Designeria, questionário, 2019).

Importante também destacar que a Designeria propicia espaço de estágio pro-


fissional para os acadêmicos dos cursos de Design. Além de contribuir com a for-
mação desse estudante, o projeto ganha com a dedicação de 20h de um integran-
te que estará passando por esse processo de ensino. Sobre o estágio oportunizado
na Designeria, uma ex-integrante fez este relato:
Hoje posso falar com propriedade que a escolha de ter estagiado na Em-
presa Júnior dos cursos de Design foi um processo fundamental para o meu
desenvolvimento intelectual e profissional. Questões referentes ao contato
com o cliente, efetivação do trabalho, importância de trabalhar em equipe

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 140
e tomada de decisões, foram aspectos que ajudaram que eu me tornasse
uma profissional mais decidida, proativa, dedicada e pronta para o merca-
do de trabalho após a graduação. Acredito que uma das maiores dificulda-
des encontradas foi a relação direta com o cliente, que no início parecia ser
muito assustadora, mas ao longo dos projetos e com o auxílio dos demais
membros da empresa consegui aprender como estabelecer relações e me
direcionar para os clientes. Por fim, já era capaz de realizar atividades como
responder e-mails e também participar de reuniões para elaboração de
briefings e assinatura de contratos. Tive o prazer de atuar durante um ano
na Designeria (2017-2018), período em que ofereci o meu melhor e aprendi
muito com os colegas de trabalho, tenho só a agradecer pela troca de expe-
riências e conhecimentos que compartilhamos em equipe. (Carolina Peres
— Bacharel em Design Digital e ex-estagiária da Designeria, questioná-
rio, 2019).

Já no que se refere às ações de pesquisa, tais clientes oportunizam ao aluno a


investigação teórica sobre as temáticas atinentes ao trabalho que deverá ser exe-
cutado. De mesmo modo, metodologias de projetos necessárias para a execução
dessas tarefas são investigadas e, por vezes, mescladas, trazendo ao acadêmico a
autonomia necessária para a resolução de problemas. Nos casos de sucesso essas
práticas são e/ou foram compartilhadas com o meio acadêmico por meio de arti-
gos científicos publicados nos respectivos anos e eventos: 2016 (1 artigo CEC –
UFPel), 2017 (2 artigos CEC – UFPel), 2018 (1 artigo CEC – UFPel e 1 artigo CIC –
UFPel). Neste ano de 2019, será apresentado um artigo no CEC e um artigo no CIC.
A seguir é possível visualizar alguns registros dessas oportunidades de socializa-
ção da pesquisa:

Figura 7: Integrantes Ainda sobre as ações de pesquisa cabe destacar, por fim, que no ano de 2019
da Designeria nas uma das integrantes da empresa está realizando seu Trabalho de Conclusão de
SIIEPEs de 2016,
Curso, tendo a Designeria como objeto de estudo. O objetivo com a investigação
2017, 2018.
será desenvolver uma plataforma de gerenciamento dos projetos da Empresa Jú-
Fonte: Acervo nior.
professora Helena
Neves. Os impactos que este projeto gera nos alunos e na comunidade como um
todo são variados e pode-se perceber que estão relacionados ao: (1) desenvolvi-
mento de autonomia do aluno não só por solucionar problemas reais de merca-
do, mas também por defender seus projetos junto aos clientes; (2) crescimento
pessoal e profissional ao aprender a trabalhar em equipe e, além disso, como um
acadêmico se tornar competente para coordenar uma organização empresarial;
(3) consciência social e profissional ao observar o quanto seus clientes crescem
a partir de projetos desenvolvidos por acadêmicos da UFPel e, sob outro prisma,
responsabilidade por lidar com a verba e a imagem de um cliente que fica sob os

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 141
seus cuidados; (4) aprendizagem de conteúdos e aplicação prática — levando isso
para a sala de aula e compartilhando com demais colegas, além de qualificar seus
próprios trabalhos solicitados por seus professores; (5) capacidade e criatividade
para que, normalmente com pouquíssima verba, auxiliar um cliente ao resolver
um problema real de mercado, lançando mão de conhecimentos que são compar-
tilhados dentro de seu curso de graduação; (6) organização de eventos, levando
conhecimentos variados do campo do Design para os demais colegas e, por fim,
(7) auxiliar, sobremaneira, pequenos empresários, assim como setores da própria
universidade, com trabalhos competentes no que diz respeito à área do Design.
Uma ex-bolsista de extensão que atuou na empresa fez a seguinte análise sobre
o projeto:
Dentro do percurso do nosso curso, a Designeria propõe algo um pouco dife-
rente, principalmente para aqueles alunos que ainda não tiveram nenhuma
atuação fora do ambiente acadêmico. As disciplinas num geral abarcam
séries de teorias e práticas que instigam nossa criatividade, temos a liber-
dade de encaminhar o projeto da maneira como preferirmos dentro de um
contexto proposto. Porém, lidar com problemas reais de um cliente adicio-
nam outras questões que precisam ser ponderadas. Temos que aprender e
entender sobre o seu negócio e encontrar soluções ao mesmo tempo que
alcançamos suas expectativas. Fazer com que tudo isso chegue a um equi-
líbrio é algo desafiador e que dificilmente teríamos contato nas disciplinas
convencionais. Na Designeria pude desenvolver e melhorar minhas técni-
cas ao mesmo tempo que aprendia mais sobre a comunidade externa. Isso
trouxe mais segurança ao realizar meus trabalhos. O contato com a equipe
também enriqueceu muito a minha experiência na medida em que todos
compartilham e contribuem para criação de um projeto. Com este ambiente
pude refletir sobre minha atuação como Designer e este amadurecimento
me ajudou no meu primeiro estágio. (Camila Caldeira — acadêmica do cur-
so de Design Gráfico e ex-integrante da Designeria, questionário, 2019).

É importante levar em consideração que muitos desses clientes não consegui-


riam apresentar ao mercado trabalhos com a qualidade que é ofertada pela Desig-
neria — uma vez que preços cobrados por empresas de Design, que contam com
profissionais formados, praticam valores inviáveis para esse porte de cliente. As-
sim, esse projeto se torna essencial para atender uma demanda de mercado exis-
tente, devolvendo, assim, à sociedade todo o investimento feito na formação dos
acadêmicos que atuam junto a Designeria.
Com relação ao impacto proporcionado ao público e com relação à formação
continuada dos acadêmicos, um ex-integrante da Designeria refletiu sobre o fato
de ter seu portfólio e currículo qualificados a partir dessa experiência:
Minha experiência na Designeria começou já no segundo semestre da gra-
duação em Design Gráfico, no ano de 2015. Mesmo ainda nos primeiros
passos no curso, entrar na Empresa Júnior me encantou pela possiblida-
de de solucionar problemas reais de impacto na comunidade pelotense.
Atender os clientes, compreender quais eram seus problemas e ver seus
anseios acerca da possível solução, foram experiências que me fizeram
crescer enquanto designer. Além disso, o contato com os outros membros
da Designeria foi de extrema importância pela possibilidade de diálogo nas
reuniões presenciais. O feedback dos colegas com relação ao que estava

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 142
sendo desenvolvido com críticas construtivas se tornou de grande auxílio,
especialmente pelo contato com pessoas em semestres a frente do meu.
Também não posso deixar de comentar como essa é a primeira experiência
de trabalho de muitos no começo do bacharelado e enriquece tanto nosso
currículo lattes como também nosso portfólio com projetos reais. (Pedro
Matheus — Bacharel em Design Gráfico e ex-integrante da Designeria,
questionário, 2019).
Outro impacto importante, além da futura inserção no mercado de trabalho, re-
fere-se às oportunidades de estudo advindas da vivência de um projeto de extensão.
No ano 2018, a empresa fez uma publicação de despedida do seu presidente. Este
estava indo vivenciar uma oportunidade de intercâmbio em Portugal. Na postagem
publicada na página da Empresa na rede social Facebook4 existia o seguinte texto:
“Lucas, que Portugal seja pequeno perto da tua capacidade de fazer acontecer! Obri-
gada por teres conduzido a nossa empresa com tanta dedicação!”.
Ao se deparar com tal homenagem, o acadê-
mico se expressou da seguinte maneira na pági-
na da empresa:
Nada disso teria acontecido se eu não tivesse
feito parte da Designeria! Sou uma pessoa muito
mais preparada que há de dois anos atrás, gra-
ças a todos os desafios proporcionados pela Em-
presa Júnior. Obrigado por tudo! E sucesso para
essa gestão super capacitada que vai atuar este
ano. (Lucas Cruz — Bacharel em Design Gráfico
e ex-presidente da Designeria, página de inter-
net, 2018)!
É importante salientar que existe hoje uma
quantidade considerável de ex-integrantes que
deram continuidade aos estudos, indo fazer
mestrado e doutorado. Assim como há ex-par-
ticipantes que abriram suas próprias empresas.
Quando se analisam esses fatos, é necessário
considerar que a experiência de pesquisa junto a
Figura 8: Publicação Empresa Júnior (em especial na ação do Grupo de Estudos da Designeria) tem sido
despedida do um caminho para estimular os acadêmicos integrantes pelo apreço à pesquisa e
presidente. interesse em uma futura pós-graduação. Sob outro prisma, a Designeria torna-se
Fonte: Página um espaço imprescindível para que o graduando compreenda os processos neces-
Designeria no sários para desenvolver sua própria empresa ou método de trabalho. Com uma
Facebook. metodologia que destaca a participação do aluno no núcleo da gestão, estimula a
sua autonomia e capacidade criadora, fazendo com que se sinta apto para enfren-
tar o mercado de trabalho — abrindo o próprio empreendimento, por exemplo.
Com relação a esse aspecto, uma atual integrante da Designeria fez a seguinte
reflexão:
A Designeria foi o local onde pude compreender melhor o Design e como
ele se aplica, saindo da teoria e, literalmente, colocando em prática.
Creio que a empresa é uma forma de retribuir para a sociedade todo o in-
vestimento que recebemos para sairmos como profissionais. Ao virarmos
membros da Designeria ganhamos responsabilidades, experiências e

4 A página pode ser acessada no seguinte endereço: [Link] .

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 143
um grande incentivo ao empreendedorismo, pois ganhamos a real noção
de como funciona o mecanismo de uma empresa e começamos a apren-
der questões burocráticas, as quais não teríamos como experimentar sem
executar fora da academia. (Julia Lima — Acadêmica em Design Digital e
atual integrante da Designeria, questionário, 2019).
Por fim, para destacar os impactos que esse projeto gera na comunidade in-
terna e externa à UFPel considerar-se-á o resultado prático das peças criadas para
os clientes. Esse resultado não é fácil de ser medido. Contudo, existem algumas
pistas que podem ajudar nesse dimensionamento e que merecem ser percebidas,
como o fato de muitos ex-clientes indicarem a empresa para futuros clientes ou
Figura 9: Painel mesmo relatarem o impacto que a qualidade do trabalho trouxe para seu empre-
Visual de trabalhos
desenvolvidos pela
endimento, seu evento, seu curso etc. Existem também os clientes que voltam a
Designeria nos contratar os serviços da empresa. Esses aspectos, por si só, valorizam e incenti-
últimos cinco anos. vam a equipe a qualificar ainda mais seu trabalho.
Fonte: Acervo A seguir expõe-se um painel contendo trabalhos desenvolvidos nos últimos cin-
Designeria – Empresa co anos de atuação da empresa. Torna-se importante demarcar que nos contratos
Júnior. que a Designeria firma com seus clientes estabelece-se, previamente, o direito de
uso dessas imagens — uma vez que a
equipe as utiliza com fins pedagógicos
(problematizando-as em artigos cien-
tíficos ou expondo esses resultados
em seu portfólio, como forma de con-
quistar novos clientes). Além disso, o
trabalho do Designer pressupõe direito
autoral das suas criações. Nesse painel
consta uma parte muito pequena do
trabalho desenvolvido nesses últimos
cinco anos, mas que representa o resul-
tado do empenho existente ao longo
desse tempo.
Afirmar que essas peças expostas no
painel são o resultado real e concreto
desse Projeto de Extensão é injusto.
Isso porque, executar tais peças,
trata-se de um pilar em torno do qual
todas as outras frentes apresentadas
neste artigo vão constituindo-se,
organizando-se e fortalecendo-se,
como bem descreveu uma das atuais
participantes da Designeria:
Ao entrar na universidade pública pela
primeira vez aos 36 anos eu sempre pro-
curei, a cada oportunidade, uma forma
de retornar à sociedade os investimentos
feitos na minha formação. Esse foi um
dos motivos para ter entrado na Desig-
neria, além da oportunidade de viven-
ciar projetos reais. Formamos uma fa-
mília, a cada discussão, a cada trabalho

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 144
finalizado ou até a cada lanche feito, nossos laços se estreitam e eu me
orgulho de cada profissional que nasce ali, louco para conhecer o mundo lá
fora, mas não mais cru. Agora experiente e pronto para olhar ao seu redor
e saber que o mundo não é feito apenas de clientes ideais, aprendemos a
dar importância a cada cliente real que nos chega, a valorizar cada oportu-
nidade e a olhar o mundo ao nosso redor. Sou muito feliz e grata por cada
experiência vivida dentro da Designeria e pelo tanto que ela me ajudou a
me tornar confiante nessa nova profissão que carrego. (Joanna Voloski —
Graduanda em Design Digital e integrante da Designeria, questionário,
2019).

Diante do todo exposto, consideram-se os aspectos apresentados sobre este


projeto tão necessários de serem socializados neste artigo, principalmente quan-
do a Universidade Federal de Pelotas completa seus 50 anos. Divulgar um trabalho
comprometido como o que ocorre no Projeto de Extensão aqui apresentado tor-
na-se, nesse momento histórico de ataque às universidades públicas, uma ação de
resistência e de profundo agradecimento a todas as pessoas que construíram com
a sua história e, consequentemente, com a construção dessa universidade.
O que se deseja, por fim, é que o Projeto Designeria – Empresa Júnior tenha vida
longa para continuar tocando e sendo tocado por todas as pessoas que o consti-
tuírem.

Referências
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CALDEIRA, Camila Soares; MARQUES, Natália Marroni; NEVES, Helena de Arau-


jo. Criação de Identidades Visuais para eventos: projetos Designeria Empresa
Júnior. In: CONGRESSO DE EXTENSÃO E CULTURA DA UFPEL, 5., 2018, Pelotas.
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 145
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In: CONGRESSO DE EXTENSÃO E CULTURA DA UFPEL, 3., 2016, Pelotas. Anais
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VOLOSKI, Joanna de Oliveira Borges; SILVA, Julia Lima da Silva; NEVES, Helena
de Araujo. Design Estratégico na Prática: Designeria Empresa Júnior. In: CON-
GRESSO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA DA UFPEL, 2018, Pelotas. Anais [...]. Pelo-
tas: UFPel, Pró-Reitoria de Pesquisa, p.1-4, 2018.

SOBRE AS AUTORAS
Helena de Araujo Neves, graduada Julia Lima da Silva, graduanda do
em Comunicação Social, habilitação curso Design Digital da Universidade
Publicidade e Propaganda, pela Uni- Federal de Pelotas Designer. Voluntária
versidade Católica de Pelotas (UCPel). na Designeria Empresa Júnior e bolsista
Doutora em Educação pelo Programa PROBIT – FAPERGS.
de Pós-Graduação em Educação da E-mail: julialee03@[Link]
UFPel. Professora adjunta e coordena-
Joanna de Oliveira Borges Voloski,
dora dos cursos de Design da Universi-
graduanda do curso de Design Digital
dade Federal de Pelotas. Há cinco anos da Universidade Federal de Pelotas. Vo-
coordena o Projeto Unificado intitulado luntária e atual responsável pelo depar-
Designeria – Empresa Júnior de Design. tamento financeiro da Designeria – Em-
E-mail: [Link]@gmail. presa Júnior de Design.
com E-mail: jovoloski@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº1 146
A PRÁTICA EXTENSIONISTA
UNIVERSITÁRIA SOBRE UMA ÁREA DE
INTERVENÇÃO DA EDUCOMUNICAÇÃO
ATRAVÉS DO PROJETO DE
WEB RÁDIO E WEB TV:
EXPERIÊNCIAS NA ESCOLA LOUIS BRAILLE

Marislei da Silveira Ribeiro


Micael Machado da Silva
William Machado da Silva

Apresentação
A Internet está mudando a esfera social, todavia, o uso de certas tecnologias
geram novos paradigmas que vão além da apropriação do uso de técnicas ou com-
putadores conectados à Internet, englobando uma reflexão de como esses novos
ambientes de multiplataformas influenciam o comportamento das pessoas.
Sendo assim, o presente trabalho buscou utilizar os espaços educativos para
concretizar práticas educomunicativas, que possibilitassem a todos os envolvi-
dos realizar aprendizagens diferenciadas mediante programas radiofônicos e de
TV via web, abertos, criativos e dialógicos, trabalhando os mais diferentes temas,
que poderiam agregar valor aos conteúdos desenvolvidos nos bancos acadêmicos.
Também se pretende intensificar a consciência cidadã para atividades de respon-
sabilidade social, oportunizando aos alunos uma compreensão da inclusão digital
e da interatividade midiática.
Vale ressaltar que, com as experiências educomunicativas desenvolvidas, é pos-
COMUNICAÇÃO Nº2

sível perceber mudanças no aprendizado dos alunos. A amplitude da participação


nas atividades, a apropriação das mensagens e o uso dos mais variados meios di-
gitais e seus conteúdos, estimulam a integração e a socialização dos grupos, tanto
alunos e professores integrantes do projeto, quanto a comunidade das instituições
parceiras. Logo, o ensino através dos meios comunicativos e a utilização da mídia
como linguagem promovem novas formas na educação formal, principalmente,
quando os indivíduos pensam na coletividade e se tornam mais críticos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 151


De modo geral, neste capítulo, o objetivo principal é apresentar o desenvolvi-
mento da pesquisa e as definições da área de intervenção da Educomunicação que
foram realizadas no referido Projeto de Extensão, contemplado, primeiramente,
por meio do Programa de Extensão do Ministério da Educação e Cultura/PROEXT
MEC/SESu, nos anos de 2014, 2015 e 2016, sendo mantido atualmente pelo Pro-
grama de Bolsas de Iniciação à Extensão e Cultura da UFPel. Contudo, o caminho
perseguido é uma discussão ampla sobre a mídia-educação, como uma forma de
ensino-aprendizagem, avaliação e, também, uma possibilidade de integrar várias
tecnologias e plataformas midiáticas no ambiente escolar.

A Educomunicação nos Processos de Ensino e


Aprendizagem
No que se refere aos procedimentos de transformação nos processos midiáti-
cos, pode-se dizer que as formas de interação comunicacional também mudaram,
à medida que, há a necessidade de que os educadores se adaptem à construção do
processo de ensino e aprendizagem.
Pensar Educomunicação é ir além da reflexão do método, é tentar buscar a re-
produção dos sentidos e aplicabilidade no contexto social do educando. Assim,
deve-se levar em conta as diferentes formas de se comunicar, principalmente com
o avanço das novas tecnologias. Nesse sentido, os professores precisam ser cada
vez mais céleres e atentos nas transformações midiáticas, para que possam sus-
tentar a educação e a comunicação (SOARES, 2000). Considerando a mídia como
tema de reflexão, verifica-se que além de estarem presentes em nosso cotidiano,
elas constituem pautas de discussões de interesses coletivos.
(...) tanto a educação quanto a comunicação, ao serem instituídas pela
racionalidade moderna, tiveram seus campos de atuação demarca-
dos, no contexto do imaginário social, como espaços independentes,
aparentemente neutros, cumprindo funções específicas (...) (SOARES,
2000, p. 12).

Dessa maneira, a educação e a comunicação assumem papéis distintos, porém,


conexos, cada um em seu seguimento, se unindo, ao final para significar essa inter-
-relação que as duas possuem nos processos educativos. Segundo Lopes e Miani
(2015), a inter-relação entre mídia-educação é constituída como a norteadora do
processo de recepção, cuja esfera e discussão são permanentes, visto que se refere
à formação cidadã dos sujeitos envolvidos. Primeiramente, as autoras relatam que
o termo surgiu nos encontros da UNESCO em 1973, referindo-se à capacidade de
ensinar o uso dos meios de comunicação na esfera escolar. Após essas discussões,
outras dimensões foram tratadas, enquanto um campo interdisciplinar e como
prática social. Contudo, a ideia consiste em propor a formação de sujeitos críticos
e ativos diante dos meios de comunicação.
Tal busca pressupõe o entendimento do receptor enquanto ser histórica
e culturalmente inserido em um grupo social, que participa de diversos
processos comunicativos e é dotado de uma visão de mundo. Sua posi-
ção é ativa na sua relação com mensagens midiáticas, podendo inclusive
reelaborá-las e confrontá-las (LOPES; MIANI, 2015, p. 561).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 152
Assim, as práticas midiáticas configuram-se como um ato de troca e de nego-
ciação das informações, pois atuam como agentes do diálogo e da mediação com
seus públicos. Na esfera da educação, agem como prática pedagógica dos pro-
fessores, com o intuito de transmitir, propagar conhecimentos, competências e
habilidades dos alunos. Dessa forma, no campo da comunicação digital, “as novas
tecnologias não só estão presentes em todas as atividades práticas do mundo do
trabalho, como também se tornam vetores de experiências do cotidiano” (SET-
TON, 2011, p. 91).
Nesse sentido, por meio do campo da mídia-educação, é possível pensar em
outras alternativas de comunicação, ou seja, desenvolver um aprendizado per-
manente entre o mediador e os educandos nos processos de educomunicação.
Ressalta-se ainda, que a interação in loco do ator social/mediador, que aplica os
processos comunicacionais, faz com que esses personagens se apropriem das fer-
ramentas de mídias, códigos, linguagens e técnicas inerentes à comunicação e
educação.

O Aprendizado através das Mídias Digitais como


forma de Inclusão e Educação
A inclusão escolar de indivíduos com qualquer tipo de deficiência, seja física ou
mental, apresenta diversos desafios e complexidades. Inclusão, como comenta
Carvalho (2009), é a possibilidade de acesso, de ingresso e de permanência de um
aluno com aprendizagem real, resultando, portanto, em atribuições de conheci-
mento e desenvolvimento de habilidades, não representando apenas o aumento
do número de matrículas, traduzidas estatisticamente, em vagas para alunos com
deficiência nas turmas de ensino regular.
Ainda, de acordo com Carvalho (2009), são três os pontos que devem ser anali-
sados quando nos referimos à educação inclusiva: primeiro devem ser analisadas as
políticas educacionais nas quais estão inclusos o método integrador e a qualidade
da oferta educativa, além de questões organizacionais, como a administração do
sistema adotado e a administração do atendimento educacional; depois devem ser
analisadas as recomendações internacionais; em terceiro lugar, deve ser investigada
a opinião da pessoa com deficiência em questão e de suas respectivas famílias.
As políticas educacionais de cada país variam de acordo com o seu desenvolvi-
mento social e cultural. Elas representam a regulamentação de práticas educacio-
nais conforme a ideologia vigente. Segundo a autora, as instituições de educação
privadas, que seguem o modelo neoliberal de organização social, têm uma estru-
tura de melhor qualidade para o atendimento nessa área, enquanto determinados
municípios do Brasil não têm sequer espaços destinados a pessoas com deficiência
em suas escolas. Quando um município dispõe dos recursos para o atendimento
da pessoa com deficiência, não há oferta equitativa para todas as variações de de-
ficiência, podendo, por exemplo, estar apto a receber um aluno com deficiência
física, mas não um aluno com deficiência intelectual.
Considerando-se que as ofertas de serviços, governamentais ou não, estão
longe de suprir nossa demanda, podemos reunir os desafios citados num
único e complexo obstáculo que exige urgentes soluções: dispor, em todas
as localidades, de ofertas educativas para todas as modalidades de mani-
festação de deficiência, seja sob a responsabilidade direta do poder públi-
co governamental seja da iniciativa particular (CARVALHO, 2009, p. 106).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 153
Nessa perspectiva, a questão quantitativa da oferta não corresponde à deman-
da, além da questão qualitativa também ser considerada um desafio. O processo
de ensino-aprendizagem não tem a garantia de qualidade, que varia desde a falta
de uma estrutura adequada até a especialização de profissionais. O ambiente es-
colar representa, para muitos alunos, a única oportunidade de acesso ao conhe-
cimento e à apropriação da norma culta. A escola deveria, consequentemente,
proporcionar o desenvolvimento intelectual do indivíduo e contribuir para a sua
criticidade. Esses são alguns dos valores que a educação inclusiva propõe.
Outro ponto analisado por Carvalho (2009) são as etapas do fluxo de escola-
rização, ainda muito discutidas no âmbito da educação especial. Nesse aspecto,
avalia-se a barreira existente, desde a educação infantil até a universidade, a qual,
de acordo com a autora, não deveria existir, visto que tais barreiras atrasam o pro-
cesso educativo. Os conceitos integração e inclusão também geram controvérsias
entre os educadores. Integração representa o envolvimento de pessoas com defi-
ciência na comunidade de pessoas que não possuem deficiência. “A integração é
um processo dinâmico de participação das pessoas num contexto relacional, legi-
timando sua interação nos grupos sociais. A integração implica em reciprocidade”
(CARVALHO, 2009, p. 111).
Já a inclusão, diferentemente, é o espaço designado para receber os indivíduos
com algum tipo de deficiência, num mesmo ambiente que as pessoas sem defici-
ência. “Um mundo inclusivo é um mundo no qual todos têm acesso às oportuni-
dades de ser e de estar na sociedade de forma participativa” (CARVALHO, 2009,
p. 113). Assim, a proposta inclusiva é um benefício de todos, pessoas com ou sem
deficiência, colaborando para que os indivíduos desenvolvam sentimentos de res-
peito à diferença, de solidariedade e cooperação mútua. Além disso, a inclusão
expressa um movimento político de respeito às minorias.
Em vista disso, no Brasil, as práticas inclusivas pedagógicas ainda enfrentam
inúmeros desafios, pois muitos dos educadores não se sentem aptos para atender
aos diferentes grupos de pessoas com deficiência. Ainda alegam que as condições
em que trabalham são muito incompatíveis. De todo o modo, trata-se de um outro
desafio para qual a política educacional brasileira necessita examinar.

O uso das plataformas digitais como forma de


inclusão
A comunicação é uma das áreas de maior influência na organização social, ela
permite a construção das sociedades como as conhecemos hoje e possibilita que
essas sociedades sejam preservadas, através da comunicação. Na atualidade, o
uso do ciberespaço como mais um meio comunicacional aumenta a abrangência
das trocas de informação.
(...) com o surgimento de tecnologias que possibilitaram a comunicação à
distância, desde a escrita até mais recentemente a internet, surgem novas
formas de sociabilidade onde não mais é preciso estar face a face para inte-
ragir com outras pessoas. Como consequência, pode-se dizer que a repre-
sentação do corpo e suas significações também se alteram, quando se tra-
ta deste novo espaço. Nesse cenário, onde novas formas de comunicação
estão surgindo e possibilitando também novas maneiras de sociabilidade,
a internet surge como importante meio de intensificação deste processo,
pois as interações que emergem no ambiente virtual, tornam-se cada vez
mais presentes no cotidiano da sociedade (BALDANZA, 2014).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 154
Assim, o surgimento desse novo espaço de plataformas digitais, com novos re-
cursos tecnológicos, tornou possível o processo de inclusão. Isso, porque, as diver-
sas mídias digitais estão inseridas no cotidiano das pessoas, especialmente, no dia
a dia escolar. Ao trabalhar com as mídias, os professores possibilitam a aprendiza-
gem e contribuem para a formação cidadã dos alunos.
Cabe salientar que a crescente digitalização das informações fez com que a in-
formática criasse novas adaptações para seu uso e, por consequência, aumentasse
o número de indivíduos que podem se apropriar dessas ferramentas. Um dos fa-
tores que impulsionam o crescimento da utilização de aparelhos digitais, para o
fim de comunicação, é o estímulo de concorrência do mercado, gerando produtos
com custos diversificados, desde baixos até altos valores, e com adaptações que
suprem as necessidades particulares de cada indivíduo.
As ferramentas de comunicação e interconexão abrem um leque de opor-
tunidades, principalmente, para os sujeitos cujos padrões de aprendiza-
gem não seguem os quadros típicos de desenvolvimento. Os estudos mos-
tram que pessoas limitadas por deficiências não são menos desenvolvidas,
mas sim se desenvolvem de forma diferenciada. Desse modo, há possibili-
dades dos ambientes virtuais poderem ser assumidos como recursos para
o desenvolvimento, a interação e a inclusão digital/social de pessoas com
necessidades educativas especiais – PNEEs (COSTI, 2002).

Partindo dessa premissa, a utilização da WebTV, enquanto ferramenta de inte-


ração, amplia o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos que fazem uso dessa ex-
periência na sua prática comunicacional. A dimensão dialógica desses dois meios
é representada pela sociabilidade desterritorializada do espaço virtual, ou seja, o
espaço físico que se associa ao corpo não é essencial nesse processo e isso faz com
que as limitações físicas e de sentido não sejam obstáculos na comunicação.

Cenário de Pesquisa: Breve Contextualização da


Escola Parceira e Apontamentos Metodológicos
No desenvolvimento do projeto, executam-se atividades pedagógicas na área
de Educomunicação, por meio de ferramentas radiofônicas e audiovisuais, em
uma escola que atende pessoas com deficiência visual. Isso permite a produção
do conhecimento, especialmente, nas áreas da linguagem, códigos e suas tecno-
logias. Nesse contexto, busca-se confrontar os novos desafios – adaptando-se às
exigências na educação inclusiva, ou seja, na formação do sujeito autônomo e crí-
tico – no ambiente educacional.

Breve Histórico da Escola Louis Braille


Com o intuito de incluir pessoas com deficiência visual no ambiente escolar, em
1946 foi idealizada a Escola Louis Braille, contudo, efetivada apenas em 1952. Com
o apoio da comunidade pelotense, recebe, ainda na sede da Biblioteca Pública, os
primeiros alunos com esse tipo de deficiência. Hoje, a escola continua contando
com o suporte das entidades de classe, de universidades, de cooperativas e de pro-
fissionais dispostos a ajudar, tais como: médicos, assistentes sociais, psicólogos,
entre outros (CARVALHO et al 2009, p. 59).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 155
Atualmente, em seu prédio próprio, a escola em foco funciona em dois turnos,
de modo que possa abranger os alunos que procuram a instituição, de diferentes
faixais etárias, bem como estudantes da rede pública municipal e estadual. Além
de atender pessoas com deficiência visual, a escola também recebe pessoas com
outros tipos de limitações, como o Transtorno do Espectro do Autismo (CARVA-
LHO et al 2009, p. 59).
Assim, a proposta pedagógica da escola, além de integrar as pessoas com defi-
ciência visual à comunidade, busca o apoio das universidades e demais instituições
de ensino, como forma de fortalecimento das habilidades cognitivas e de consoli-
dação da aprendizagem dos indivíduos.

Metodologia
A metodologia escolhida para ser aplicada neste estudo é a proposta por Gil
(2002), Pesquisa Participante, caracterizada pela interação entre pesquisadores
e membros das situações investigadas. Lakatos e Marconi (2003) rotulam como
“uma pesquisa exploratória” porque é um processo de investigação de uma pes-
quisa empírica, cujo objetivo se encontra justamente, na compreensão de um
problema, e em questões que encontram respostas com o próprio desenvolver
de hipóteses, o aumento, bem como a familiaridade do pesquisador com um am-
biente, fenômeno ou fato e a realização de uma pesquisa futura mais precisa, para
modificar e clarificar conceitos. Entretanto, o pesquisador ao se incorporar ao gru-
po, pode se confundir com ele e, por isso, enfrenta dificuldades para manter a ob-
jetividade, pelo fato de exercer influência no grupo e ser influenciado (LAKATOS;
MARCONI, 2010).
Os principais passos a serem seguidos numa investigação desse tipo, de acordo
com Gajardo (1984) e Boterf (1984) é: a) a montagem institucional e metodológi-
ca; b) o estudo preliminar e também provisório da região e da população pesquisa-
das; c) análise crítica dos problemas e d) programa-ação e aplicação de um plano
de ação. Ao passo que, na primeira fase, os membros do projeto de extensão Web
Rádio, Web TV e Inclusão Social, com os representantes da Associação Escola Lou-
is Braille, realizaram o estudo preliminar e provisório, organizando e elaborando
um cronograma de atividades a serem realizadas; no estudo preliminar, segundo
Boterf (1984) foi feita a identificação da estrutura social da população, em como a
descoberta do universo vivido por ela e o recenseamento dos dados socioeconô-
micos e tecnológicos. Isso é importante, pois a Pesquisa Participante deseja co-
locar-se a serviço dos oprimidos, necessitando identificar com clareza quem são
eles, no âmbito de uma determinada comunidade.
Os dados obtidos nas duas fases anteriores ajudam na terceira fase, análise
crítica dos problemas, visto que esses dados conduzem à formulação de proble-
mas que passam a ser discutidos por todos os participantes da pesquisa. Já na fase
denominada elaboração do plano de ação, a última, é elencado por intermédio
de hipóteses, um plano de ações que possibilitam tanto a análise mais adequada
do problema estudado, quanto a melhoria instantânea da situação em nível local,
além de ações que possibilitam melhorias a médio e/ou longo prazo, em nível local
ou mais amplo.

A experiência pioneira da Rádio Braille


Utilizando os espaços educativos para concretizar práticas pedagógicas
inovadoras, que possibilitaram aos envolvidos aprender mediante a programas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 156
radiofônicos e televisivos via web, o projeto é responsável por trazer a cada
semana temas diversificados, que agregam valor aos conteúdos trabalhados nos
bancos acadêmicos, sempre com o objetivo de intensificar a consciência cidadã
para atividades de responsabilidade social, oportunizado aos alunos também uma
compreensão da Internet como mídia eminente interativa.
Os encontros são realizados todas as sextas, no período da manhã, para a gra-
vação de um programa de Web Rádio, batizado pelos alunos da Associação Es-
cola Louis Braille com o nome de “Rádio Braille”, considerando as sugestões de
temas trazidos pelas professoras e funcionários da associação. No que se refere
ao programa de Web TV, agora chamado de “Tá na Net”, é gravado ao final do
semestre, usando as pautas realizadas pelos alunos participantes do projeto e as
imagens captadas por eles. Além da Web Rádio e a Web TV, é importante mencio-
nar a integralização com outros grupos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
na aplicação de oficinas, como o de fotografia para cegos, proposta pelo grupo
Pet Artes Visuais. Os participantes do projeto de extensão pontuam as evoluções
visualizadas ao longo do ano de 2019. Como forma de preservar as identidades dos
sujeitos, os respectivos nomes foram alterados, pois cabe demarcar que o propó-
sito deste estudo é compartilhar a importância do projeto para os entrevistados:
“O que eu mais gosto de fazer na Web Rádio e Web TV é falar no micro-
fone, gravar, cantar e pedir música” (Aluno João).

“Eu gosto muito da Web Rádio, mas, a minha atividade preferida é gra-
var a escalada para a Web TV” (Aluna Maria).

“Eu gosto quando o Micael faz a gente treinar bastante para os progra-
mas. O projeto faz a gente se animar, se divertir” (Aluno Vitor).

“A gente percebeu uma autonomia deles em relação a fala, eles se em-


poderaram mais, articularam mais e começaram a criar ideias. A partir
dessas ideias começaram a criar outra possibilidade para que o Micael
pudesse trazer coisas novas. Então, a gente viu o crescimento dos alu-
nos em relação a isso. A socialização deles foi bem importante porque
um ajudou o outro, essa colaboração ajudou no crescimento deles” (Pro-
fessora Joana).

“A Web Rádio trouxe aos nossos alunos uma socialização entre eles nes-
sa atividade em grupo. A gente nota um grande avanço na fala e pensan-
do principalmente na coerência do que falar visto que antes fazíamos
perguntas sem esperar respostas e hoje, vemos que nossos alunos pen-
sam um pouco mais antes de responder” (Professora Sandra).

Desse modo, entende-se a relevância da interação entre todos os participantes


do projeto, para estimular o convívio, assim como a comunicação entre todos na
sociedade, oportunizando a utilização de novas plataformas de comunicação e mí-
dias. Para isso, apresentamos a seguir, alguns registros fotográficos das atividades
realizadas na escola.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 157
Figura 1: Gravação
do primeiro
programa de Web
Rádio do semestre
2019/1.

Fonte: Acervo do
Projeto de Web
Rádio, Web TV e
Inclusão Social.

Figura 2: Oficina
ministrada pelos
membros do Pet
Artes Visuais da
Universidade
Federal de Pelotas
em parceria com o
Projeto Web Rádio,
Web TV e Inclusão
Social.

Fonte: Acervo do
Projeto de Web
Rádio, Web TV e
Inclusão Social.
Fotografia de Micael
Machado.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 158
Figura 3 – Evento
Brailleimpíadas
e Comemoração
dos 67 anos da
Associação Escola
Louis Braille. Aluno
e participante do
Projeto Web Rádio,
Web TV e Inclusão
Social falando ao
microfone.

Fonte: Acervo do
Projeto de Web
Rádio, Web TV e
Inclusão Social.
Fotografia de Micael
Machado.

Figura 4 – Evento
Brailleimpíadas
e Comemoração
dos 67 anos da
Associação Escola
Louis Braille. Aluno
e participante do
Projeto Web Rádio,
Web TV e Inclusão
Social falando ao
microfone.

Fonte: Acervo do
Projeto de Web
Rádio, Web TV e
Inclusão Social.
Fotografia de Micael
Machado.

Considerações
Após a realização de diferentes atividades que buscam aprimorar uma educa-
ção inclusiva, pretende-se com este artigo divulgar as múltiplas possibilidades de
aplicação das novas tecnologias, a partir do projeto de extensão em foco. Por ou-
tro lado, deve-se considerar que a proposta apresentou inovações, por meio da
parceria com outros cursos da Universidade. Espera-se que o trabalho desenvolvi-
do tenha sido relevante, tanto para a universidade, quanto para a comunidade na
qual está inserida, já que propiciou a aplicação de práticas educomunicativas, com
o uso de plataformas multimidiáticas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 159
Segundo Lévy (1999), a multimídia interativa ajusta-se muito bem aos usos
educativos, favorecendo o envolvimento pessoal do aprendiz no processo de en-
sino-aprendizagem. À proporção que uma pessoa participa da construção de um
conhecimento, ela integra e retém o que aprende. Além disso, esse tipo de mul-
timídia contribui para a formação de uma atitude de exploração e ludicidade, de-
vido à facilidade de assimilação de conteúdos. Consequentemente, os produtos
audiovisuais constituem ferramentas muito úteis a uma pedagogia ativa e uma
abordagem comunicacional.
Nesse contexto, a utilização dos recursos e das técnicas propiciou a interdisci-
plinaridade e a integração de várias áreas, mediante a orientação e colaboração
dos professores. Assim, acredita-se que a aplicação da educomunicação reafirma
a proposta de protagonismo e envolvimento dos educandos, professores e inte-
grantes do projeto. Além disso, a proposta é conscientizar de que os meios de co-
municação são construções coletivas, promovendo a necessidade da participação
de todos. Também, com a introdução da Rádio Braille enquanto veículo libertador
da palavra dos alunos, incentivou-se a facilidade do diálogo e integração com cole-
gas e professores, transformando o rádio em um projeto pedagógico.
Finalmente, com o resultado dessa experimentação, pretende-se ampliar e
aprofundar as perspectivas de atuação dos alunos e docentes com uma visão mais
abrangente, por meio da interface entre mídia e educação. Partindo dessas infor-
mações, a ideia é de que o recurso tecnológico é pedagógico, de forma que o in-
divíduo passa a ter autoria e autonomia na produção das mensagens e conteúdos
dos meios de comunicação. Sendo assim, os diversos tipos de programas poten-
cializam o debate e a reflexão sobre a cultura e o fenômeno das mídias, sobretudo
as digitais. A intenção é convidar os atores envolvidos a fazer uma imersão na área
de intervenção abordada neste texto.

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[Link]/comueduc/article/view/36934/39656. Acesso em: 15 out. 2019.

SOBRE OS AUTORES
Marislei da Silveira Ribeiro, gradu- clusão Digital e Promoção dos Direitos
ada em Comunicação Social - Habilita- Sociais - Utilização da Web Rádio e Web
ção em Jornalismo e Relações Públicas TV”. E-mail: ummicael@[Link]
pela UCPel. Doutora em Comunicação
pelo Programa de Pós-Graduação em William Machado da Silva, gradu-
Comunicação-FAMECOS/PUC-RS. ado em Jornalismo pela UFPel. Mes-
Professora do Curso de Jornalismo da trando no Programa Profissional em
UFPel/Centro de Letras e Comunica- Ciências e Tecnologias na Educação
ção. Coordenadora do Projeto de Ex- (Instituto Federal de Educação, Ciência
tensão – “Inclusão Digital e Promoção e Tecnologia Sul-rio-grandense/IFSul),
dos Direitos Sociais – Utilização da Web Programa de Pós Graduação em Ciên-
Rádio e Web TV. E-mail: [Link]- cias e Tecnologias na Educação (PPG-
ro@[Link] CITED). Participou como bolsista do
Projeto de extensão – “Inclusão Digital
Micael Machado da Silva, gradu- e Promoção dos Direitos Sociais – Utili-
ando do sexto semestre de Jornalismo zação da Web Rádio e Web TV. (2014-
pela Universidade Federal de Pelotas. 2017). E-mail: williammachad@gmail.
Bolsista do projeto de extensão - “In- com

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Comunicação nº2 161
Cultura

C U L T U R A

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 162
REFLEXO DOS DEZ ANOS DE INSERÇÃO DO
CURSO DE CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO
DE BENS CULTURAIS MÓVEIS DA UFPEL
NO MUSEU MUNICIPAL PARQUE DA
BARONESA EM PELOTAS/RS

Daniele Baltz da Fonseca


Annelise Costa Montone
Ana Carolina Fernandes
André Alexandre Gasperi

Apresentação
Este trabalho teve por objetivo avaliar o reflexo dos dez primeiros anos da ins-
talação do curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis (CCR-
BCM), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), na preservação de parte do
Patrimônio Cultural da cidade sob a salvaguarda do Museu Municipal Parque da
Baronesa (MMPB).
A abertura do curso CCRBCM na UFPel se deu no ano de 2008, período em que
se percebeu a convergência de uma série de fatores que levaram professores do
Departamento de História e Antropologia do Instituto de Ciências Humanas (ICH)
da UFPel a proporem a criação de um curso Superior em Tecnologia em Conserva-
ção e Restauro.
Dentre os fatores, apontam-se: o contexto histórico cultural e artístico da ci-
dade de Pelotas em relação à manutenção de suas tradições e salvaguarda do seu
patrimônio cultural; a existência de cursos de graduação e pós graduação na UFPel
que relacionam conhecimentos sobre a salvaguarda do patrimônio como o curso
de Museologia (ICH), a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAURB), a espe-
cialização em Patrimônio Cultural: Conservação de Artefatos (Instituto de Artes
e Design - IAD), e o Mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural (ICH); e
CULTURA Nº1

por fim, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação das Universidades Fede-


rais (REUNI), lançado pelo Governo Federal em 2007, que teve como meta dobrar
o número de vagas em cursos superiores no Brasil entre os anos de 2008 e 2018
(UFPEL, 2008).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 163


A partir deste cenário profícuo, foi aberto, em agosto de 2008, o curso Superior
de Tecnologia em Conservação e Restauração da UFPel, como sendo uma das ins-
tâncias de um projeto maior:
[...] o de tornar a cidade e a Universidade Federal de Pelotas, centros de
referência e formação de profissionais capacitados para atuar nas áreas
de gestão de memória e salvaguarda do Patrimônio Cultural, revitaliza-
ção de centros históricos, restauração de bens Patrimoniais e educação
para o patrimônio (UFPEL, 2008).
Em março de 2009, atento ao Projeto de Lei 4042, apenso ao 3053 de 2008, que
buscava a regulamentação da profissão de conservador-restaurador de bens cultu-
rais no Brasil, o colegiado do curso iniciou o processo de reestruturação do projeto
pedagógico e da grade curricular do curso Superior de Tecnologia em Conservação
e Restauro para transformá-lo em Bacharelado em Conservação e Restauro.
Ao longo dos dez primeiros anos de atividades o curso sofreu ainda adaptações
no currículo e no nome. Em 2010 o curso passou a chamar-se “Bacharelado em
Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis” padronizando o nome em
relação aos cursos que já eram oferecidos pela Universidade Federal de Minas Ge-
rais (UFMG) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Concomitante ao processo de implementação, pedagogicamente, o CCRBCM
iniciou suas atividades acadêmicas relacionando ensino, pesquisa e extensão. A
participação nessas atividades tornou-se requisito indispensável para a formação
dos alunos, integralizando horas curriculares aos seus históricos sob o título de
“formação complementar”. Em seguida à implantação do curso, vários projetos
de ensino, pesquisa e extensão foram abertos, visando articular o conhecimento
acadêmico com as necessidades da sociedade.
Enquanto “processo educativo, cultural e científico que articula o ensino e a
pesquisa de forma indissociável, a extensão universitária viabiliza uma relação
transformadora entre Universidade e Sociedade (FOR-PROEX, 1987 apud UFPel,
2019). Tendo em vista esta relação transformadora “de mão-dupla” e a caracte-
rística extensionista do CCRBCM – evidenciada no levantamento de projetos de
ensino, pesquisa e extensão desenvolvidos nos dez primeiros anos do curso, pela
Profa. Raquel Augustin (AUGUSTIN; FERNANDES; TEIXEIRA, 2019) – propõe-se
aqui, verificar uma possível transformação ocorrida num museu público de Pelo-
tas, o MMPB, em razão das ações de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas
pelo CCRBCM em parceria com este museu.

Delineamento e Metodologia
No dia dez de abril de 2019, em aula inaugural do primeiro semestre de 2019,
do curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis, a Professora
Annelise Costa Montone apresentou um panorama sobre várias atividades desen-
volvidas durante os dez anos de implantação do curso, em conjunto com o MMPB.
Frente às evidências apresentadas, questionou-se: como o estabelecimento da
parceria, através de ações de ensino, pesquisa e extensão, entre o CCRBCM da
UFPel, e o MMPB tem repercutido positivamente no estado de conservação dos
acervos do museu? Esta parceria contribui como interlocutora entre a universida-
de, os espaços de guarda de bens culturais e a comunidade em que se inserem?
O objetivo principal, portanto, é identificar de quais formas a implantação do
curso de Conservação e Restauração da UFPel repercutiu em melhorias nas condi-
ções de conservação do acervo do Museu Municipal Parque da Baronesa.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 164
Foi realizado levantamento e análise de informações, uma pesquisa de propó-
sito explicativo que consiste num estudo de caso para analisar o impacto da im-
plantação do Bacharelado em Conservação e Restauração sobre as condições de
conservação do acervo de um museu na mesma cidade.
Uma parte da análise de dados teve caráter quantitativo, na medida em que
buscou contabilizar o número de atividades desenvolvidas pelo CCRBCM em con-
junto com o MMPB. Estes dados foram levantados a partir de pesquisa documen-
tal em fontes como a base de cadastro de projetos de ensino, pesquisa e extensão
da UFPel e a base de currículos Lattes dos professores do curso.
A outra parte da análise de dados teve caráter qualitativo e visou à identificação
das impressões acerca do resultado das atividades desenvolvidas pelo CCRBCM
que se utilizaram de partes dos acervos do MMPB. Esta fase do trabalho utilizou
pesquisa bibliográfica sobre materiais acadêmicos produzidos a partir das ações
desenvolvidas pelo curso no museu e trabalhos de conclusão de curso. Também
foram realizadas entrevistas semiestruturadas com a diretora, o restaurador e ex-
-diretoras do Museu da Baronesa a fim de coletar impressões acerca das atividades
desenvolvidas

Resultados e Discussão
São apresentados aqui os dados quantitativos levantados sobre os projetos de
ensino, pesquisa e extensão desenvolvidos por professores do CCRBCM, cujos ob-
jetivos e metas atingidas colaboraram com a divulgação ou conservação do acervo
do MMPB. Uma avaliação qualitativa é apresentada no final, com o resultado das
entrevistas realizadas com a diretora, restaurador e ex-diretoras do museu.

Projetos que envolveram o acervo do Museu da


Baronesa
Raquel Augustin (2019) realizou levantamento de todos os projetos de ensino,
pesquisa e extensão desenvolvidos pelo CCRBCM da UFPel, desde sua implanta-
ção. Desta listagem foram identificados três projetos de extensão e um projeto de
pesquisa cadastrados cujos títulos apresentavam o nome do museu (Baronesa).
Dois destes projetos foram cadastrados em 2009, no ano seguinte à abertura do
curso (2008/2). Ao se verificar o tempo de atividades desses projetos, percebe-se
que desde o primeiro cadastro, o curso sempre manteve alguma atividade junto
ao MMPB, até 2018.
A partir de 2019, alguns professores do curso alteram a forma de cadastrar os
projetos de ensino, pesquisa e extensão, registrando um projeto unificado de ca-
ráter aberto ao qual cadastram diferentes ações relacionadas às diferentes ativida-
des que vão sendo incorporadas ao longo ao ano. Dentro desta forma de cadastro,
percebe-se um projeto aberto em 2019 que não tem o nome do museu no título,
mas que possui uma ação de extensão relacionada diretamente à restauração do
acervo do museu.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 165
Quadro 1 - Levantamento de Projetos/ações realizadas pelo curso de Conservação e Restauração
no Museu da Baronesa
Projeto/ação Início Fim Tipo Ação
1 Projeto de Restauração de Peças Perten- 2009 2010 Extensão Restauração 63 obras
centes ao Museu da Baronesa, Pelotas, Rio
Grande do Sul
2 Projeto de Restauração do Museu Parque 2009 2014 Extensão Restauração 15 obras
Municipal da Baronesa: Mobiliário doura-
do e pinturas
3 Exposição Pinturas Restauradas: Museu 2011 2012 Extensão Exposição
da Baronesa
4 Estudo das esculturas em faiança por- 2013 2018 Pesquisa Higienização e conso-
tuguesa do Museu Municipal Parque da lidação 9 obras
Baronesa
5 Restauração de Obras de arte religiosa do 2019 2019 Extensão Restauração 2 obras
acervo do Museu da Baronesa (Ação do
projeto Laboratório Aberto de Conserva-
ção e Restauração de Bens em Madeira)
Fonte: Autores.

O quadro 1 apresenta o resumo dos projetos levantados. Três projetos de ex-


tensão, um projeto de pesquisa e uma ação de extensão cadastrada em projeto
unificado. Estas atividades desenvolveram-se ininterruptamente por dez anos, a
contar de 2009 até 2019 e resultaram em atividades que beneficiaram quase 100
objetos que constituem o acervo do MMPB.
Segue-se agora à análise de atividades desenvolvidas em sala de aula, que im-
pactaram de forma positiva sobre o Museu da Baronesa e que não foram cadastra-
das como projetos ou ações de ensino, pesquisa ou extensão por estarem direta-
mente relacionadas com as atividades letivas.

Disciplinas que usaram acervo do MMPB como


objetos de estudos
Em 2011, a disciplina “Restauro de Pintura II” foi ofertada pela primeira vez. Na-
quela ocasião a professora Andréa Bachettini desenvolveu com os alunos, ativida-
des práticas de restauração de pinturas em cavalete sobre sete obras pertencentes
ao acervo do MMPB, sendo seis pinturas sobre tela, do final do século XIX, e outra
que consistia na releitura de uma fotografia, executada na década de 90 do século
XX. As atividades de restauração foram organizadas de forma que os alunos traba-
lharam em duplas. No final das atividades, em novembro de 2011, foi organizada
uma exposição com os trabalhos realizados, atividade esta que foi cadastrada no
projeto de extensão “Exposição Pinturas Restauradas: Museu da Baronesa” (Fig.
1). Hoje, as pinturas restauradas fazem parte da exposição de longa duração do
museu.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 166
Figura 1 – Imagem Em 2015, a disciplina de Conservação e Restauração de Bens Culturais em Ma-
de um dos materiais deira II, sob regência da Profa. Verônica C. Bilhalba Santos que orientou suas ati-
gráficos da exposição
“Restauro de
vidades práticas de restauração de bens culturais em madeira sobre os seguintes
Pinturas no Museu objetos: oito galerias de arremate de cortinas, em madeira, do século XIX, que
da Baronesa” e compõem parte do mobiliário do quarto de dormir e do quarto de vestir de Amélia
fotografia da obra Annibal Antunes Maciel, filha da Baronesa de Três Serros. Hoje estes objetos fa-
“Retrato de Francisco zem parte da exposição de longa duração; seis molduras douradas do século XX,
Alves Ribas, do
MMPB.
doadas ao museu, hoje em exposição; cabeça de escultura em roca, de madeira
policromada, pertencente à coleção doada ao município por Adail Bento Costa, a
Fonte: CCRBCM/ peça está em exposição no ambiente do Altar de Santa Luzia; cadeira leque, doada
UFPEL ao museu por Ana Lúcia Maciel Ribas Rodrigues (Fig. 2), atualmente em exposição;
retrato policromado representando São Francisco de Assis, pertencente à coleção
doada ao município por Adail Bento Costa, em exposição na ala dos dormitórios;
querubim policromado, adorno em ma-
deira da carruagem fúnebre preta, da
segunda metade do século XIX; atual-
mente em reserva técnica.
Em 2017, sob orientação da profes-
sora Andréa Bachettini, os alunos da
disciplina de Introdução à Conservação
e Restauração de Pintura Mural execu-
taram higienização e consolidação da
pintura mural existente na entrada do
Museu da Baronesa (Fig. 3).

Figura 2 – Cadeira leque, do acervo do MMPB,


restaurada na disciplina
Conservação e Restauração de Bens Culturais
em Madeira II.

Fonte: Juliana Rodrighiero. CCRBCM/UFPEL.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 167
Figura 3 – Disciplina
de Introdução à
Conservação e
Restauração de
Pintura Mural.

Fonte: Andréa
Bachettini. CCRBCM/
UFPEL.

Em 2019, sob orientação da Profa. Daniele Fonseca, os alunos da disciplina de


Conservação e Restauração de Bens em Madeira II realizaram, em duplas, a res-
tauração de oito obras de imaginária religiosa em madeira, pertencentes à Cole-
ção Adail Bento Costa do MMPB.
Quadro 2 - Quadro de resumo das disciplinas, anos que foram ministradas e objetos do museu
tratados durante estas disciplinas.

Ano Disciplina Ação


2011 Restauro de Pintura II Restauração de sete pinturas
em tela
2015 Conservação e Restauração de Bens Culturais em Madeira II Restauração de 18 objetos em
madeira
2017 Introdução à Conservação e Restauração de Pintura Mural Higienização e consolidação de
uma pintura mural

2019 Conservação e Restauração de Bens Culturais em Madeira II Restauração de 8 obras de ima-


ginária religiosa
Fonte: Autores.

O quadro 2 apresenta o resumo das disciplinas que conduziram atividades de


restauração de objetos dos acervos do MMPB. Verifica-se que mais trinta e quatro
obras se beneficiaram das ações de conservação e restauração desenvolvidas por
professores e alunos do CCRBCM.

Estágio obrigatório desenvolvido no MMPB


Como parte fundamental para a formação de um conservador-restaurador, o
estágio obrigatório curricular oportuniza aos alunos que desenvolvam atividades

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 168
relacionadas ao trabalho deste profissional diretamente dentro das instituições de
guarda de acervos.
Desde o ano de 2011, quando os alunos da primeira turma do CCRBCM come-
çaram a fazer seus estágios obrigatórios, o MMPB tem recebido estes alunos para
o desenvolvimento de atividades relacionadas à conservação e restauração do seu
acervo.
Entre os anos de 2011 e 2015, treze alunos do curso realizaram estágio no
MMPB.

Trabalhos de Conclusão de Curso cujos objetivos se


relacionam com a preservação do acervo do MMPB
Ao longo dos dez anos de implantação do curso, cinco alunos optaram por de-
senvolver atividades de pesquisa relacionada com a preservação do acervo do Mu-
seu da Baronesa nos seus Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC).
A aluna Isabel Halfen da Costa Torino, em 2011, desenvolveu o TCC apresentan-
do detalhes sobre a restauração de um Leque Mandarim chinês do século XIX. O
trabalho de restauração desenvolvido por Isabel levou em consideração a restau-
ração de dois leques semelhantes, uma delas desenvolvida em Portugal e a outra
em Porto Alegre/RS.
No ano de 2013, a aluna Fabiane Rodrigues Moraes desenvolveu em seu TCC
“Um estudo sobre a Conservação do Altar de Santa Luzia”, através do qual pro-
blematizou a conservação de um objeto que se encontra acondicionado de for-
ma fragmentada, de modo que o visitante do museu não consegue observá-lo no
todo.
No ano de 2014, dois alunos desenvolveram trabalhos de conclusão de curso
relacionados à preservação dos acervos do Museu da Baronesa. Fábio Barreto da
Silva estudou “A Conservação Preventiva e a Prevenção de Incêndios no Museu
Municipal Parque da Baronesa”. O trabalho buscou identificar pontos fortes e pon-
tos fracos da edificação em relação à prevenção de incêndios. No mesmo ano,
Marcelo Hansen Madail também estudou o prédio do museu, no entanto, com ob-
jetivo de identificar agentes de deterioração que ocorrem no museu em razão da
sua vulnerabilidade à água.
O último aluno que desenvolveu um trabalho de conclusão de curso sobre o
Museu da Baronesa foi Marta Rejane Possap Tavares, que estudou a melhor forma
de acondicionar uma indumentária têxtil que pertence ao acervo do museu. Este
trabalho foi desenvolvido em 2015.

Exposições relacionadas aos projetos


desenvolvidos pelo CCRBCM
No período estudado, foram realizadas três exposições de curta duração
no MMPB, diretamente relacionadas às ações desenvolvidas nos projetos ou
disciplinas:
1. A exposição “Restauração dos leques da Coleção Adail Bento Costa” que
ocorreu de 17 de maio a 20 de junho de 2010. Seu objetivo principal foi a di-
vulgação do processo de restauração dos 63 leques à comunidade pelotense,
estudantes e pesquisadores, tanto na palestra de abertura quanto na própria

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 169
exposição, uma ação inédita no município de Pelotas. A parceria também pro-
moveu a pesquisa dos simbolismos e representações das peças que, até então,
permaneciam em reserva técnica, sem condições de serem expostas;
2. A exposição “Restauração do Mobiliário Dourado e Pinturas do Museu
da Baronesa”que teve início em 28 de abril de 2011 e se estendeu até o final do
mesmo ano. Após este período, as peças foram reincorporadas à exposição de
longa duração da instituição. O projeto ampliou a pesquisa relativa ao mobiliá-
rio e aos quadros restaurados e divulgou este conhecimento com a produção de
material gráfico que compôs a mostra;
3. Na disciplina de Restauro de Pintura II, os alunos trabalharam em sete
pinturas do MMPB e, no final do semestre, de 03 de novembro a 30 de dezem-
bro de 2011, foi organizada a exposição “Restauro de Pinturas: Museu da Baro-
nesa”, destacando os procedimentos adotados para restauração das obras e os
métodos de ensino adotados.
Os museus comunicam suas coleções por meio de exposições de longa e curta
duração, de publicações e de ações educativas. Para existir comunicação, no âm-
bito destas instituições culturais, é preciso preservação e pesquisa (DESVALLÉES;
MAIRESSE, 2014).
Nesse sentido, os projetos de extensão e ensino, em parceria com o MMPB,
produziram pesquisa e conservação dos acervos, promovendo acesso ao conhe-
cimento gerado, por intermédio da elaboração de exposições de curta duração.
O processo possibilitou a exploração de temáticas afins à narrativa do museu, a
produção de material impresso diverso e a divulgação dos procedimentos de res-
tauração aplicados e do CCRBCM, de forma direta, nos ambientes musealizados,
ou pela imprensa e redes sociais.
Ainda quanto às exposições, foi possível quantificar sua abrangência relativa-
mente à comunidade pelotense e aos visitantes da cidade, de maneira geral.
O impacto, referente à exposição de longa duração, foi observado durante o
período em que se desenvolveram os projetos e além deles. Segundo os números
de visitação, fornecidos pela administração do Museu da Baronesa, os três primei-
ros meses subsequentes à abertura das mostras revelaram o seguinte:
Quadro 3 - Quadro apresentando o número de visitantes recebidos pelo MMPB nas exposições
relacionadas com o CCRBCM.

Exposições Ano/Meses Visitantes


Restauração dos leques da Coleção Adail Bento Costa 2010 – maio, junho, julho 4684
Restauração do Mobiliário Dourado e Pinturas do Museu 2011 - maio, junho, julho 4300
da Baronesa
Restauro de Pinturas: Museu da Baronesa 2011– novembro, dezembro 4204
e janeiro de 2012
Fonte: Autores.

É importante ressaltar que as ações promovidas em 2010 e 2011 foram incluídas


na programação da Semana de Museus, em nível nacional, e na FENADOCE, em
nível regional. Os dois eventos ocorrem nos meses de maio e junho, anualmente.
A visibilidade dos projetos também pode ser mensurada pela visitação anual
contabilizada pelo livro de visitantes do MMPB. Esse registro demonstrou um de-
sempenho relevante, a partir de 2011:

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 170
Tabela 1 - Relação de visitantes totais e pelotenses no MMPB de 2011 a 2015.

Ano Total de visitantes Visitantes pelotenses % de visitantes pelotenses


2011 12940 4248 32,82%
2012 15079 5666 33,38%
2013 17342 7790 44,91%
2014 14598 5887 43%
2015 16029 7603 48%
Fonte: Autores.

A presença da comunidade local é fundamental para o reconhecimento e pre-


servação dos bens culturais e para o diálogo necessário entre a universidade e a
sociedade. Por isso, a importância de demonstrar quantitativamente o interesse e
participação do público, principalmente o pelotense.
As exposições se afirmaram como espaços em que se percebe a concretização
de concepções que estruturam as práticas extensionistas na educação superior, en-
tre elas “[...] a interação dialógica da comunidade acadêmica com a sociedade por
meio da troca de conhecimentos, da participação e do contato com as questões
complexas contemporâneas presentes no contexto social[...] (UFPEL, 2019, p. 08).

Análise qualitativa do impacto dos projetos do


CCRBMC da UFPEL no MMPB
Entre os dias 08 e 09 de outubro de 2019, foram realizadas entrevistas com Car-
la Rodrigues Gastaud, diretora do MMPB entre os anos de 2001 e 2004, Annelise
Costa Montone, diretora do MMPB entre 2004 e 2018, Fabiane Rodrigues Moraes,
atual diretora do MMPB e Marcelo Madail, restaurador do MMPB. No dia 08 de
outubro, a entrevista ocorreu individualmente com Annelise Montone e no dia 09
de outubro foi realizada coletivamente, como roda de conversa na qual os pesqui-
sadores e todos os entrevistados interagiram simultaneamente.
Estas entrevistas foram realizadas com objetivo de identificar aspectos quali-
tativos a respeito das atividades desenvolvidas pelo CCRBCM da UFPel no MMPB,
investigando a relação entre as duas instituições e o impacto das contribuições.
Esta relação inicia-se em 2008, com o surgimento do curso. Antes desse perí-
odo a instituição recebia estagiários do curso de História, como rememora Carla
Rodrigues Gastaud, “Nem tinha o curso na época em que eu fui diretora, foi 2001
a 2004. Na minha época só tinha estagiário de História.” Com o passar do tempo,
com a criação dos cursos de Museologia, em 2006, e Conservação e Restauração,
a dinâmica da preservação começa a ser desenvolvida no MMPB.
Durante o período da gestão de Carla, sem a inserção dos cursos de Museo-
logia e do CCRBCM, atividades relacionadas com a preservação do acervo ocor-
riam de forma aleatória, quando o Sistema Estadual de Museus (SEM) oferecia
algum curso de formação. Carla diz que “[...] esses cursos, para minimizar a falta,
ensinavam o básico, noções básicas de higienização, básico de conservação [...]”.
As atividades de formação não davam conta da demanda, poderiam até auxiliar
no desenvolvimento, mas, a falta de profissionais especializados e as dificuldades
permaneciam na instituição.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 171
A falta de conhecimento de conservação e restauração, bem como museológi-
co na equipe, dificultava o trabalho, desde a gestão do acervo à limpeza. Segundo
Carla, quando o assumiu o MMPB não havia reserva, todo o acervo era permanen-
temente exposto, “a gente arrumou e fez uma reserva para tirar alguma coisa da
exposição, pois os armários estavam cheios de roupa, estava tudo nos armários,
não havia reserva e os mobiliários todos, todos, todos em exposição.” Carla geriu o
MMPB de 2001 a 2004, no entanto, continuou acompanhando a realidade do mu-
seu também como Professora do curso de Museologia da UFPel. Segundo ela, o
olhar preservacionista em relação ao acervo vai ser transformando com a atuação
dos cursos (Museologia e CCRBCM) no MMPB e a presença de mão de obra espe-
cializada foi fundamental: “Todo o manejo, o cuidado, o modo de expor, o guar-
dar, tudo isso é modificado pela entrada dessas pessoas com formação.” Nas suas
palavras, Carla classifica o período em que foi diretora como o “período de falta”,
ou seja, um período em que o MMPB não dispunha de um olhar preservacionista
sobre o acervo.
Annelise Costa Montone, que geriu o MMPB entre os anos de 2005 e 2018,
acompanhou o surgimento dos cursos de Museologia e CCRBCM, bem como suas
inserções no museu e os resultados de suas relações na instituição. Conforme
Annelise:
a existência [...] dos dois cursos [Museologia e Conservação e Restaura-
ção] fez uma grande movimentação. [...] Tudo era assim básico, o que
tinha uma degradação maior, nem podia ser exposto, simplesmente fi-
cava de lado, sem ter uma noção, sem uma perspectiva. Com o curso de
Museologia começou a ter um olhar mais técnico, mas, com o curso de
Conservação, para nós enquanto trabalhadores do museu, se criou essa
perspectiva em relação ao acervo, um futuro.

O CCRBCM começou a estreitar os laços institucionais entre o Museu da Baro-


nesa e a universidade, ao trabalhar com bens culturais móveis em suas disciplinas e
nos projetos de extensão. Segundo Annelise, houve transformações na reserva que
possibilitaram acondicionar as obras conservadas e restauradas nos laboratórios.
A presença de alunos em formação com seus olhares preservacionistas, atra-
vés de estágios e projetos de extensão possibilitou rearranjos no MMPB, movi-
mentando e trazendo dinâmica para instituição. Alguns dos alunos buscavam e
identificavam demandas para restauração, como por exemplo, as bonequinhas de
viagem que estão no acervo da instituição desde 80. Segundo Annelise, o principal
ganho desta parceria, por parte do MMPB tem relação com o fato de colocar o
acervo em condições de ser usado pela equipe do museu, para pensar e organizar
as exposições:
...depois [da restauração] a gente pode expor as bonequinhas de outra
forma. Os quadros, depois da disciplina, foram expostos, na forma de ex-
posição de curta duração e depois voltaram para exposição permanente.
Então, assim, a trajetória dos acervos dentro do museu são possibilida-
des de uso para exposições, como próprio objeto de pesquisa e inicial-
mente campo de trabalho para os alunos.

A restauração dos objetos que outrora não eram expostos e sem expecta-
tivas futuras, motivavam novas montagens de exposições, além de incentivar as
pessoas a visitarem o museu. Annelise salienta que, “Cada ação vai impactando
em algum lugar. Uma exposição para apresentar os objetos recém restaurados é

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 172
lógico que chama os visitantes [...] O número de visitação anual aumentou bastan-
te.” Fica evidente, na fala da ex-diretora, que o diálogo entre o MMPB e a UFPel
colabora com o aumento do número de visitantes no museu.
Além do impacto sobre o acervo em si, também é possível perceber na fala de
Annelise, que a equipe poderia estar se sentindo mais motivada: “Tudo isso come-
çou a acontecer mais, a intensificar mais, foi a partir de 2009 e 2010, com a criação
do curso. [...] é mais profundo que uma higienização, que um acondicionamento.
[essa parceria trouxe] sentimento de oxigenação do espaço”.
A atual diretora do MMPB, Fabiane Rodrigues Moraes, conta com uma equi-
pe formada por duas museólogas e um conservador-restaurador, Marcelo Hansen
Madail. Fabiane e Marcelo formaram-se no CCRBCM, da UFPel, e durante sua gra-
duação participaram de projetos de extensão, estágios e desenvolveram TCC so-
bre o acervo do museu.
Fabiane relata que entraram na instituição no “[...] projeto do mobiliário dou-
rado e pintura cavalete, que são as molduras e pinturas dos pais do barão, dos
quadros do quarto, do quarto de vestir e todo acervo dourado [...]”, isso quando
eram discentes extensionistas. Depois, Fabiane retornou como estagiária e mais a
frente já formada assume a direção. Já Marcelo, é funcionário público municipal da
Secretaria de Educação (Professor de Artes) e foi transferido para o museu. Mar-
celo conta que, “Uma das justificativas é que cuidaria da parte didática do museu
por ser professor formado e já estava em formação na conservação e restauro.”
A mudança teve como intuito contribuir na conservação e restauração dos bens
culturais móveis que compõem o acervo da instituição, além de ações educativas
e didáticas, essenciais às práticas museológicas.
Os dois levaram ao MMPB contribuições sob o olhar da conservação e restaura-
ção. Segundo Fabiane, “[...] a gente traz uma base de conservação que por muito
tempo não tinha né, não tinha dentro da instituição, em relação à luz, em relação
ao que pode limpar, quando pode expor, quando pode abrir janela, quem pode
[...]”. Fabiane salienta que, “A gente trouxe um impacto realmente.”
Conforme Marcelo, as atividades do CCRBCM no MMPB repercutem não só no
acervo, mas também em aspectos identitários da própria instituição: “Inclusive
como se enxergar como instituição museológica, a diferença é enorme, a cami-
nhada é visível dessa evolução.”
De modo geral, é possível inferir pelas falas das ex-diretoras e diretora, que as
ações do CCRBCM no MMPB colaboraram com o desenvolvimento da instituição.
De acordo com Carla, “A gestão do museu se profissionalizou nesse período, no
modo de gerir acervos e a documentação, mudou tudo para melhor, não tenho
dúvida.”

Referências
AUGUSTIN, Raquel F.; FERNANDES, Ana Carolina; TEIXEIRA, Clara R. do Vale.
Perfil da formação complementar do curso conservação e restauração(UFPel).
MUSEION, Canoas, n. 33, ago. 2019.

DESVALLÉES, André; MAIRESSE, François. Conceitos-chave de museologia.


Florianópolis: FCC, 2014.

ROSA, Maria Virgínia F. P. do C.; ARNOLD, Marlene A. G. C. A entrevista na pes-


quisa qualitativa: mecanismo para validação dos resultados. 2. ed.. Belo Hori-
zonte: Autêntica, 2014.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 173
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Guia de integralização da extensão.
Pelotas: Pró-Reitoria de Extensão e Cultura/UFPel, 2019.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Projeto pedagógico: Curso Superior de


Tecnologia em Conservação e Restauro. Processo 23110.003057/2008-84. Pelotas:
Instituto de Ciências Humanas/UFPel, 2008.

SOBRE OS AUTORES
Daniele Baltz da Fonseca, gradua- Ana Carolina Fernandes, graduan-
ção em Arquitetura e Urbanismo pela da em Conservação e Restauração de
UFPel. Doutora em Memória Social e Bens Culturais Móveis pela UFPEL. Bol-
Patrimônio pela UFPel. Atua no Curso sista no Programa de Educação Tutorial
de Conservação e Restauração de Bens de Conservação e Restauro (PET-CR).
Culturais Móveis/Instituto de Ciências E-mail: [Link]@gmail.
Humanas. Professora Adjunta do Curso com.
de Conservação e Restauração de Bens
Culturais Móveis. André Alexandre Gasperi, licencia-
E-mail: daniele_bf@[Link]. do em História pela Universidade do
Vale do Itajaí (UNIVALI). Graduando
Annelise Costa Montone, gradua- em Conservação e Restauração de Bens
ção em Arquitetura e Urbanismo, pela Culturais Móveis pela UFPEL. Bolsista
UFPel, e Administração de Empresas, no Programa de Educação Tutorial de
pela UFRGS. Doutora em Memória So- Conservação e Restauro (PET-CR).
cial e Patrimônio Cultural, pela UFPel; E-mail: andre_gasperi@hotmail.
Professora Adjunta do Curso de Con- com.
servação e Restauração de Bens Cul-
turais Móveis, do Instituto de Ciências
Humanas, da UFPEL.
E-mail: annelisemontone@gmail.
com.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº1 174
TATÁ
NÚCLEO DE DANÇA-TEATRO

Maria Fonseca Falkembach

Apresentação
O Projeto de Extensão Tatá – Núcleo de Dança-Teatro, fundado em 2009, de-
senvolve as ações do Tatá, grupo de criação artística, ligado ao Curso de Dança –
Licenciatura da UFPel. O Núcleo é composto por ações na interface entre a criação
artística e a educação e se propõe a ser uma ponte entre pesquisas desenvolvidas
no Curso de Dança e a comunidade de Pelotas e região. Tem como foco a criação
de obras cênicas para apresentação em escolas e espaços da comunidade de Pe-
lotas e região, principalmente escolas públicas. Ao longo de 10 anos, sua principal
ação foi a criação e circulação de três montagens: “Tatá Dança Simões”, “Terra de
Muitos Chegares” e “Quando Você me Toca”. Cada um desses trabalhos foi apre-
sentado em cerca de 40 espaços diferentes cada um.
O Projeto visa difundir o campo de conhecimento da dança e contribuir para
a democratização do acesso à arte e à educação estética. O trabalho objetiva o
fomento da criação em dança contemporânea e a formação de público em arte
contemporânea, em específico a dança-teatro e a performance.
O Núcleo explora a indissociabilidade entre arte e educação e parte do pressu-
posto de que uma educação de qualidade implica ações artísticas de qualidade.
Assim, prima pela valorização da arte e pelo trânsito entre universidade-escola
promovido pelas proposições artísticas e educativas de artistas presentes na uni-
versidade. O impacto pedagógico promovido pelo projeto está relacionado com a
busca pela excelência artística nas suas produções. É a experiência estética, expe-
riência de intensidade, de cada um dos espectadores na relação com a obra, que
dispara novas sensações, percepções e novos modos de conhecer (GUMBRECHT,
2010).
As ações do Núcleo são pautadas pelas obras cênicas do grupo Tatá. Ao longo
CULTURA Nº2

dos anos, cada obra trouxe temáticas e questões de investigação artística que guia-
ram as proposições pedagógicas do projeto. Assim, detalhar as ações do projeto
ao longo dos dez anos, implica em descrever minimamente seu trabalho cênico.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 175


Figura 1: Cena da Uma das justificativas para a criação do curso de Dança na UFPel, que trata da
obra Tatá Dança importância da legitimação do campo de conhecimento da dança, diz respeito à
Simões distância que existe hoje, entre as obras artísticas de dança e o que se faz em espa-
ços de ensino e aprendizagem de dança. Um reflexo desta distância é a ausência
Fonte: Acervo do
Projeto de Extensão
(ou quase) de público em espetáculos de dança contemporânea ou de dança-tea-
Tatá – Núcleo de tro, ou ainda de vídeo-dança, vídeo-arte ou performance, em todo o Brasil, embo-
Dança-Teatro ra exista um número significativo de escolas e cursos de dança repletos de alunos.
Isto contribui para que, muitas vezes, a ideia que as pessoas têm do que é uma
obra de dança está vinculada às referências televisivas ou a práticas de reprodu-
ção de movimentos padronizados estereotipados, de abordagem mecanicista e
tecnicista.
O campo da dança percebe e conhece o ser humano em movimento, em
ação, em relação. É um modo de conhecimento complexo que também
se expressa pela via do movimento. É um conhecimento sobre [e do]
corpo, sobre o sujeito que o corpo humano revela. Conhecimento que
se constrói na prática de treinar o corpo para construir um corpo cênico.
Passa, portanto, pelo autoconhecimento, construído na relação do seu
corpo em movimento com outros corpos e com a obra coreográfica que
cria e que apresenta.

Campo inserido na área da arte, portanto, que busca conhecer e expres-


sar aquilo que a linguagem discursiva não dá conta: o mistério, os misté-
rios: a vida (FALKEMBACH, 2012, p. 67-68).

Assim, as ações do Núcleo buscam apresentar e difundir para a comunida-


de a potência desse campo de conhecimento na construção de propostas de
ensino-aprendizagem.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 176
O Núcleo de criação artística torna-se um meio de reconstruir nos corpos vivos,
as pesquisas realizadas por professores e alunos dos cursos de Licenciatura em
Dança e Licenciatura em Teatro da UFPEL, referentes a: conceito de corpo; corpo
cênico; sujeito, processos de criação; espaço cênico; formação de público; media-
ção em arte; arte-educação; performance; educação somática; epistemologias
decoloniais, entre outros. Coloca em prática e difunde o conhecimento construído
através do movimento dançado, em conformidade com o Projeto Pedagógico do
Curso de Dança – Licenciatura:
O artista da dança pode ser compreendido como aquele que se relaciona
com o mundo e com a humanidade a partir do movimento, que percebe e
reflete a complexidade das relações entre os sujeitos e da configuração da
cultura a partir da percepção do movimento do corpo humano. Na interfa-
ce entre o corpo espetacular e o corpo cotidiano[...], busca provocar pen-
samentos e problematizações acerca da contemporaneidade e da própria
trajetória histórica da dança. [...] [E]ntendendo a educação como a apren-
dizagem da cultura – na busca e apropriação do sentido para a vida, para
a existência humana, compartilhado e tecido em conjunto pelos seres
humanos – a dança contribui para o desenvolvimento de um corpo mais
consciente e atuante da práxis e, assim, se apresenta como possibilidade
de criação e reinvenção dessa mesma cultura (UFPEL, 2018, p. 12).

É essa perspectiva que o Tatá – Núcleo de Dança-Teatro difunde, ao propiciar o


contato da comunidade com suas obras.
Embora Pelotas seja reconhecida por uma tradição em dança e tenha várias es-
colas (academias) de dança, a grande maioria da população, por motivos econô-
micos, sociais e culturais, não tem acesso, nem à fruição desta arte, nem ao fazer
artístico. O Tatá – Núcleo de Dança-Teatro se apresenta como modo de contribuir
com a democratização do acesso à fruição, levando as obras em escolas públicas e
espaço da comunidade, como construindo estratégias de trazer a comunidade até
os espaços cênicos consagrados da cidade.

Como funciona
Por mais que nesses dez anos o projeto tenha sofrido modificações, existem dez
ações fundamentais, que se inter-relacionam na composição do Tatá:
1. Ensaios, treinamento e investigação de linguagem artística: Encontros
semanais preparação corporal do grupo, processo de criação e ensaios. Além
da coordenadora, dos alunos dos cursos de Dança – Licenciatura e de Teatro
– Licenciatura, essa ação também conta com a participação de professores co-
laboradores que se integram na investigação da linguagem artística do grupo.
2. Processo de criação da obra cênica: Essa ação se relaciona com a an-
terior, porém destaca a elaboração da articulação de todos os elementos que
compõe a dramaturgia da obra e que implicam na participação de outros ar-
tistas e colaboradores do projeto, na criação de: trilha sonora, figurino, vídeo,
iluminação, elementos cênicos e fotografia.
3. Articulação com os espaços de apresentação: Contatos com as escolas
e espaços da comunidade (teatros, associações, CTGs, etc.), apresentação do
projeto e definição da agenda de apresentações do grupo. Essa ação se apro-
pria das redes já estabelecidas por outros projetos da instituição e, ao mesmo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 177
tempo, contribui para consolidar esses caminhos tecidos entre a UFPel e a co-
munidade. São exemplos desses caminhos: contatos articulados com as ações
do PIBID UFPEL; contatos por via da comissão de integração do Fórum de In-
tegração entre Ensino Superior e Educação Básica; contatos a partir de Progra-
mas de Extensão de Desenvolvimento Social da Região Sul.
4. Produção executiva da circulação: Atividades relacionadas ao gerencia-
mento das apresentações das obras, tais como: conhecer o espaço de apresen-
tação; definir com a escola melhor horário e turmas de alunos; preparação do
local de apresentação a partir das necessidades da obra (som e luz, cenário,
espaço mínimo); agendamento de transporte para o grupo.
5. Divulgação: divulgações das atividades do Núcleo nos meios de
comunicação.
6. Circulação: Apresentação da obra artística em escolas em Pelotas, es-
colas de cidades da região de Pelotas, espaços cênicos de Pelotas e região,
eventos de arte, pesquisa e extensão promovidos pela UFPEL e por outras
universidades.
7. Organização e documentação das atividades: Registro através de foto-
grafia, filmagem e diário de campo das atividades realizadas. Esse material sub-
sidia a produção dos relatórios e a pesquisa sobre as experiências propiciadas
no Projeto.
8. Elaboração de artigos, comunicações e posters: A partir da pesquisa e
documentação dos processos de criação, os membros da equipe são estimula-
dos a desenvolver artigos, comunicações e posters para apresentação das expe-
riências e pesquisas em seminários, congressos e encontros acadêmicos.
9. Reuniões de Planejamento: Ação de organização e elaboração de
cronograma.
10. Avaliação e Pesquisa: Ação de reflexão sobre o conjunto de ações do
Núcleo e de articulação da experiência de extensão com a pesquisa. A avaliação
quantitativa identifica o alcance do projeto, o número de público atingido, o
êxito do projeto com relação à democratização do acesso à arte e a viabilida-
de do projeto. A avaliação qualitativa analisa os efeitos artístico-pedagógicos
do Projeto. Essa avaliação implica um trabalho complexo e é visibilizada nas
pesquisas realizadas pelos integrantes do Tatá. Diferentes análises, a partir de
diferentes metodologias de pesquisa, e diferentes modos de sistematização,
produziram um número considerável de trabalhos acadêmicos que apresentam
diferentes aspectos do Projeto.

O projeto ao longo dos anos


As transformações do projeto, ao longo dos anos, foram o resultado combina-
do de demandas da comunidade e possibilidades de aporte financeiro. As solicita-
ções por apresentações e as necessidades de adaptação das ações para atender
essas demandas foram fatores que produzira e impulsionaram o projeto em seu
desenvolvimento e transformações.
Em sua totalidade, o Núcleo de Dança-Teatro, contabiliza mais de 130 apresen-
tações em inúmeros espaços da cidade de Pelotas e região, como também em ou-
tros municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, para um público de cerca
de 15.000 espectadores. Também foi responsável pela realização de mais de 30
oficinas de dança para formação de professores, atingindo 400 pessoas. Além dis-
so, o Projeto produziu 27 trabalhos acadêmicos – artigo publicado em periódico

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 178
(A), conferência (C), trabalho de conclusão de curso (TCC), capítulo de livro (CL),
apresentação de trabalhos em eventos (AT), publicação em anais de eventos (PA)
e material didático (MD) –, listados na tabela abaixo.

Tabela 1: Trabalhos acadêmicos produzidos no Tatá - Núcleo de Dança-Teatro entre os anos de


2011 e 2019

1 AT KÖNZGEN, Gessi de Almeida ; VARGAS, Vagner ; FALKEMBACH, Maria Fonseca . Tatá


Núcleo de Dança-Teatro: espaço de criação e docência, fruição e aprendizagem. IV SA-
LÃO DE EXTENSÃO – UFPEL 2011.
2 AT VARGAS, Vagner; FALKEMBACH, Maria Fonseca; KÖNZGEN, Gessi de Almeida. Novas
percepções sobre movimento e corpo, na experiência do Tatá - Núcleo de Dança-Teatro.
IV SALÃO DE EXTENSÃO – UFPEL 2011.
3 AT FALKEMBACH, Maria Fonseca. Diálogos de Paulo Freire e Rudolf Laban na experiência
do Tatá - Núcleo de Dança-Teatro. XIII Fórum de Estudos: Leituras de Paulo Freire. UNI-
JUÍ, Santa Rosa, 2011.
4 AT FURTADO, Daniel; FALKEMBACH, Maria; CARVALHO, Catia. Categorias de análise em
espetáculos de dança: hipóteses a partir da experiência do Tatá - Núcleo de Dança-Tea-
tro. III Seminário e Mostra Nacional de Dança-Teatro – Universidade Federal de Viçosa,
2011.
5 PA FALKEMBACH, Maria Fonseca. Tatá Dança Simões nas escolas: uma experiência na in-
terface entre a criação artística e educação. In: Anais do 2º Encontro Nacional de Pesqui-
sadoresem Dança, Porto Alegre, 2011.
6 C Falkembach, Maria. Espaço interno e externo na composição coreográfica. Mudanzas7,
Compañia Nacional de Dança, do Ministério da Cultura e Juventude, Costa Rica, 2012.
7 TCC PRESTES, Taís Chaves. Tatá dança Simões: a memória como ferramenta de composi-
ção coreográfica na transcriação do conto “M’boitatá”. Curso de Dança – Licenciatura,
UFPel, 2012.
8 MD WOLF, Sílvia; FALKEMBACH, Maria (Coord.). Caderno Dança – Tatá. UFPel, 2012.
9 AT MALASPINA JR, Arthur; FALKEMBACH, Maria. Tatá: (re)construindo conceitos. II Semi-
nário Nacional da Licenciatura em Teatro - Universidade Federal de Santa Maria, 2012.
10 AT MALASPINA JR, Arthur; FALKEMBACH, Maria. Tatá Dança Simões nas escolas. 30° Se-
minário de Extensão Universitária da Região Sul, FURG, Rio Grande, 2012.
11 AT FALKEMBACH, Maria. Compor com o que tem: composição coreográfica em interfaces.
VIII Congresso da Associação Brasileira de Pesquisa em Artes Cênicas, UFMG, 2012.
12 AT LUPINACCI, Letícia. O processo criativo do Tatá: interface entre vida e dança. Comunica-
ção no III Encontro Estadual de Graduações em Dança do RS, UFPel, Pelotas, 2012.
13 AT KONGEN, Gessi Almeida; PRESTES, Tais Chaves. Tatá Núcleo de Dança-Teatro da UFPel.
Congresso Extensión y Sociedade, Montevidéu, 2013.
14 PA D’AVILA JR, Francisco de Paulo; FALKEMBACH, Maria Fonseca. Dança-Teatro, Estranha-
mento e Resistência. Seminário de História da Arte-Centro de Artes, UFPel, n. 3, 2013.
15 PA JUNIOR, Arthur Malaspina; DA SILVA, Daniel Furtado Simões. Recepção da dança-teatro
pelos espectadores através das atividades do tatá núcleo de dança-teatro. Seminário de
História da Arte-Centro de Artes-UFPel, n. 3, 2013.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 179
16 A FALKEMBACH, Maria Fonseca; DE ALMEIDA KÖNZGEN, Gessi. Princípios pedagógicos
inerentes aos procedimentos dos viewpoints: Possíveis contribuições para desenvolvi-
mento de práticas artístico-pedagógicas. Rascunhos–Caminhos da Pesquisa em Artes
Cênicas, v. 1, n. 2, 2014.
17 TCC LIMA, Flávio Gilberto dos Santos. Notas sobre o entendimento do Tanztheater. TCC. Te-
atro – Licenciatura. UFPEL, 2014
18 PA FALKEMBACH, Maria. Terra de Muitos Chegares: performance como testemunho. X
ANPED SUL Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul, Florianópolis, UDESC,
2014.
19 PA ZAMPERINI, Allan Moscon. O jogo espetacularizado e o espetáculo jogado: pedagogias
permeáveis. IV Encontro Científico da Associação Nacional de Pesquisadores em Dança
– ANDA, 2015.
20 PA FERREIRA, Gabriela; VILELA, Lizandra; SILVA, Daniel. Tatá: vivências e aprendizados na
democratização da arte. Anais do Congresso de Extensão e Cultura: memória e muitos
tempos. Pelotas: Ed. Da UFPel, 2015.
21 CL FERREIRA Gabriela Gonçalves da Rosa; FALKEMBACH, Maria Fonseca (orient). Planeja-
mento: aspectos percebidos em um teatro de grupo. In: OLIVEIRA, Adriano Moraes de.
Teatro de Grupo: sobre poéticas, estéticas e políticas. 2016.
22 CL D’AVILA JÚNIOR, Francisco de Paulo; PRESTES, Tais Chaves; FALKEMBACH, Maria
(orient). Dança-teatro: aspectos do processo colaborativo na concepção de uma drama-
turgia articulada ao contexto social. In: OLIVEIRA, Adriano Moraes de. Teatro de Grupo:
sobre poéticas, estéticas e políticas. 2016.
23 AT FALKEMBACH, Maria; LOPES, Sarah L. ; ARAÚJO, C. S. Quando você me toca: constru-
ção de um corpo-sujeito em performance. III Seminário Internacional Michel Foucault:
por uma vida não fascista. UFSul, Pelotas, 2018.
24 AT SARAH, Leão Lopes. O espetáculo Quando Você me Toca nas escolas: currículo e propos-
tas pedagógicas. XXVIII Congresso de Iniciação Científica, UFPel, Pelotas, 2019.
25 AT OLIVEIRA, Jessica Nadyne Aguiar. A presença da dança-luta na construção do espetácu-
lo Quando Você me Toca. VI Congresso de Extensão e Cultura. UFPel, Pelotas, 2019.
26 AT CRUZ, João Lucas. Axêro – Memória e resistência em Pelotas. VI Congresso de Extensão
e Cultura. UFPel, Pelotas, 2019.
27 TCC SILVA, Carolina Pinto da. Investigação de si: memórias formativas de uma professora
artista. TCC. Dança – Licenciatura. UFPEL, 2019

Fonte: Acervo do Projeto de Extensão Tatá – Núcleo de Dança-Teatro

Esse número substantivo de trabalhos acadêmicos mostra como a experi-


ência da extensão é relevante na vida acadêmica dos discentes, os quais sentem-
-se impelidos a refletir e escrever sobre ela. Além disso, revela a indissociabilidade
entre extensão e pesquisa e ressalta a importância da pesquisa estar relacionada
com os saberes e experiências da relação da universidade com a vida, com o mun-
do para além de suas portas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 180
2009 – o grupo de experimentação cênica
O Tatá, foi fundado em 2009, como o primeiro projeto de extensão do Curso
de Dança – Licenciatura. Sua primeira ação foi reunir bailarinos e atores da cidade
com alunos dos recém-criados cursos de Dança e de Teatro da instituição para a
criação de um experimento coreográfico a partir da versão da lenda M’Boitatá, es-
crita por Simões Lopes Neto. Desse trabalho surgiu o nome do grupo: Tatá (fogo,
em Tupi Guarany). A escolha por trabalhar com a obra do pelotense Simões Lopes
Neto partiu da necessidade do grupo encontrar sua identidade em congruência
com a cultura da cidade e da região. A literatura de Simões Lopes Neto, embora si-
tuada no pampa gaúcho, como toda grande obra, traz reflexões sobre as questões
universais, como a humanidade, a vida e a morte. A partir do trabalho corporal,
ao reencontrar raízes, desconstruí-las, reconstruí-las, o grupo provocou reflexões
sobre identidade e historicidade na vida contemporânea.
O Trabalho de Conclusão de Curso de Taís Prestes (2012) descreve e analisa
o processo de criação desse experimento coreográfico1, que segundo a autora,
“deu-se em forma de descobertas mútuas, inquietações conjuntas, dúvidas cor-
rentes e construções coletivas” (p. 33). Seu texto apresenta um momento definiti-
vo do Projeto, que instaurou uma metodologia de trabalho e criação coreográfica
diferente daquela que é parte do senso comum, isto é, que não trabalha com ho-
mogeneização de corpos, virtuosismo técnico e cópia e repetição de movimentos
padronizados, mas que se preocupa em “transcriar sensações, instigar, provocar
e desacomodar com o seu jeito peculiar de fazer dança” (PRESTES, 2012, p. 33).
Considera que há uma escolha política nesse processo de criação, “que permitiu
a cada um do grupo ter uma visão ampliada de mundo, mas principalmente uma
visão ampliada de si mesmo” (PRESTES, 2012, p. 50).

2010 – a criação do primeiro espetáculo: Tatá


Dança Simões
Em 2010, o grupo seguiu com o processo de criação a partir da obra simoniana,
quando, então, estreou o espetáculo Tatá Dança Simões. Nesse ano, o Projeto re-
orientou seu objetivo para o trabalho no contexto escolar, a partir da constatação
da falta de contato das professoras com diferentes possibilidades de movimentar-
-se, a impossibilidade delas de imaginar uma atividade com o corpo (FALKEMBA-
CH, 2011). Assim, o grupo realizou nove apresentações em escolas, seguidas de
uma mostra do processo de criação do espetáculo e conversa com o público.
Tatá Dança Simões2 é um espetáculo de dança-teatro, que busca reconstruir e
reinventar, nos corpos dos intérpretes criadores, as emoções e percepções sobre
a existência que o escritor pelotense João Simões Lopes Neto expressou em sua
1 Direção e coreografia: Maria Falkembach; Trilha Sonora: Leandro Maia; Vídeo: Chico Machado; In-
térpretes-Criadores: Gessi Könzgen, Horácio Martins, Jaciara Jorge, Luciano Costa, Maicom Barboza, Paulo
Borges, Roberta Pires Rangel, Taís Chaves Prestes, Tatiana Duarte, Thalita Ferreira e Vivian Alt.
2 Direção e Coreografia: Maria Falkembach; Trilha sonora: Leandro Maia; Iluminação: Daniel Furtado;
Cenografia: Chico Machado; Figurino: Marcelo Silva; Costureira: Larissa Tavares Martins; Documentação:
Cátia Carvalho; Intérpretes-criadores (nome de todas as pessoas que fizeram parte do elenco, que sofreu
substituições ao longo de quatro anos, entre 2010 e 2013): Alexandra Latuada, Allan Luis Correia Leite, Allan
Moscon Zamperini, Andressa da Silva Bitencourt, Ana Teresa Souza, Arthur Malaspina Jr., Carlos Eduardo
Motta Machado, Clevy Reis, Denise dos Anjos, Denilson Cáceres, Fernanda Thiel, Flávio de Lima, Frances-
co D’Avila, Gessi Könzgen, Higor Alencaragão, Hirina Renner Costa, Mônica Borba, Monique Alves Carvalho,
Jaínne Ladeira, Letícia Lupinacci, Tais Chaves Prestes, Tauana Oxley Pereira, Thuani Ceroni Silveira e Vagner
Vargas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 181
obra. O espetáculo propõe resgatar raízes, desconstruí-las, reconstruí-las, e apon-
tar para algo que possa substituir o vazio e o descartável tão próprios de nosso
mundo atual.

Figura 2: Tatá O processo de criação de Tatá Dança Simões iniciou o que se tornou marca do
Dança Simões no grupo: a criação de material coreográfico a partir das possibilidades de cada in-
Instituto Estadual de
Educação Assis Brasil,
tegrante, a configuração de cenas como resultado de improvisações e trabalho
em Pelotas. coletivo, e a evidência da diversidade dos corpos na produção da obra.
A partir do retorno dos espectadores após as apresentações realizadas nas es-
Fonte: Acervo do colas, fomos incentivados a dar prosseguimento ao Projeto e trabalhar para am-
Projeto de Extensão pliá-lo. Seus relatos mostravam que a concepção que grande parte tinha sobre
Tatá – Núcleo de
Dança-Teatro
dança, difere muito da proposta apresentada pelo grupo, pois eles esperavam
movimentos padronizados e figurinos uniformes, criados a partir de uma música
comercial do momento. Ao contrário, o trabalho do Tatá explora a criação de mo-
vimentos nos diferentes corpos dos intérpretes, exigindo um público ativo, que
percebe enquanto cria modos de perceber.
Constatamos que, para a maioria do público que assistiu ao espetáculo Tatá
Dança Simões, significou o seu primeiro contato com a dança, com o teatro e, em
alguns casos, seu primeiro contato com a arte. O depoimento escrito por Sofia, de
10 anos, após apresentação em uma das escolas, reflete o alcance do impacto do
Projeto:
Sabe, fiquei muito tempo pensando no que falar, eu não queria fazer uma
coisa assim: ‘’foi bonito, gostei, achei legal’’ e quero que saibam que foi tudo
isso, mas essas palavras não bastam. Fiz uma lista de coisas que eu percebi
e gostei muito. As cordas: nossa! Quem teve essa ideia??? Foi genial! Gaita:
o movimento foi muuito legal! pareciam bonecos de corda! Liberdade de
expressão: vi que os alunos podiam interagir, acrescentando sua história ou
coisas que acham interessantes na coreografia, demais! Decida do palco:
amei essa parte, foi muuito interativo com o público. Andando a cavalo:
genial bater no peito e andar com os braços abertos pra representar uma
cavalgada! Correndo apressadamente (não sabia como escrever esse mo-
vimento): vocês corriam e faziam sinal como se estivessem atrasados com
a mão, pra mim deu a impressão de que ia chegar alguém poderoso e mal-
vado. Mão nos olhos: foi por que o boitatá só comia os olhos, né? Pergun-
ta: Porque utilizar as lendas do João Simões Lopes Neto? E porque o nome
Tatá? Eu me senti lendo as duas obras, vendo vocês dançando e represen-
tando, foi realmente muito legal, estou sem palavras!

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 182
Identificamos, a partir dos relatos e atitudes após o espetáculo que, ao mesmo
tempo em que o trabalho apresentava estranhamento no público (estranho era
uma palavra recorrente na fala dos alunos), criava o desejo de dançar e de conhe-
cer mais aquele tipo de arte.

2011 – Solidificação do trabalho


Em 2011, depois da experiência encantadora do ano anterior, o Núcleo de Dan-
ça-Teatro enfatiza suas ações nas apresentações em escolas e comunidade. Nesse
ano, além das 22 apresentações do espetáculo Tatá Dança Simões, os integrantes
do Projeto concluíram seis relatos de experiência e artigos resultantes de pesqui-
sa, que foram apresentados em eventos acadêmicos e publicados. A intensidade
da experiência, somada à continuidade das ações, foi produzindo consistência.
O trabalho contínuo e intenso e a convivência e o compromisso do coletivo,
produziu uma ética de grupo constituidora do Tatá: todos os integrantes são res-
ponsáveis pelo trabalho, todos dependem de todos e cada um é suporte do outro.
Essa atitude começa na cena e se estende para todas as ações do grupo.

Figura 3: Tatá Dança


Simões na Igreja
Nossa Senhora
do Carmo, na Vila
Castilhos, em
Pelotas.

Fonte: Acervo do
Projeto de Extensão
Tatá – Núcleo de
Dança-Teatro

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 183
2012 – Ampliação das ações e da abrangência
geográfica
Em 2012 o Núcleo de Dança-Teatro foi contemplado com o edital PROEXT3. A
verba recebida garantiu 11 bolsistas e permitiu que o Projeto se estruturasse e se
expandisse na realização de suas diferentes ações.
A verba do PROEXT também proporcionou a ampliação das ações para outras
cidades da região: Piratiní, Pedras Altas, Santana do Livramento, Bagé, Candio-
ta e Pinheiro Machado. Em cada um desses municípios, foram realizadas oficinas
para professores e apresentações do espetáculo Tatá Dança Simões. Nesse ano, o
grupo Tatá, por duas vezes, apresentou-se em Porto Alegre, em espaços cênicos
importantes da capital gaúcha: Teatro Renascença (no Festival Dançapontocom) e
no Theatro São Pedro (com apresentação gratuita, com plateia lotada por escolas
e projetos sociais).
A partir da identificação de que a grande maioria das escolas e dos professo-
res não tem o menor contato com obras artísticas, em 2012 o Projeto incluiu a
oficina de formação de professores e a criação de material pedagógico (Caderno
Dança – Tatá)4 para prepará-los para a mediação da fruição dos alunos. Iniciou-se,
desse modo, a qualificação do contato dos professores e alunos com a obra artís-
tica, contribuindo com a diminuição do abismo entre a escola e as artes cênicas
contemporâneas. Essa atividade revelou a completa ausência de experiências de
fruição por parte dos professores e uma imensa falha nas suas formações no que
se refere à educação estética.
Assim, a oficina foi criada para proporcionar aos professores uma experiência
teórico-prática para que possam ampliar suas possibilidades de analisar e com-
preender princípios do movimento e da linguagem da dança, bem como auxiliar
nos caminhos para buscar informações e aprofundar sua formação nesta área de
conhecimento.
Foi importante colaboradora, nesse ano, a professora Silvia Wolf, tanto na pre-
paração corporal dos integrantes do grupo, quanto no desenvolvimento do Cader-
no Dança – Tatá.

3 O Programa de Extensão Universitária (PROEXT) desenvolve editais de financiamento para progra-


mas e projetos de extensão universitária, com ênfase na formação dos alunos e na inclusão social, criado pelo
Ministério da Educação, em parceria com outros ministérios, com o objetivo de potencializar, ampliar e quali-
ficar as ações de extensão universitária.
4 É possível acessar o Caderno Dança - Tatá no seguinte endereço eletrônico: [Link]/
MoniqueCarvalho/tat-caderno-de-dana

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 184
Figura 4: Tatá Dança Paralelamente às apresentações do espetáculo Tatá Dança Simões, o grupo ini-
Simões no Theatro ciou o trabalho de criação do espetáculo Terra de Muitos Chegares, como efeito da
São Pedro, em Porto necessidade de investir na compreensão das identidades que formam o coletivo
Alegre.
Tatá, ou da identidade complexa do grupo, reflexo da identidade do curso (forma-
Fonte: Acervo do do por alunos e professores vindos de diversas regiões do Brasil) e da cidade de
Projeto de Extensão Pelotas.
Tatá – Núcleo de Assim, a criação deste novo espetáculo buscou uma linguagem cênica para ex-
Dança-Teatro pressar os sentimentos, experiências e reflexões do grupo, referentes à: identi-
dade, multiculturalidade, intertransculturalidade, complexidade, diferença, o es-
trangeiro, o outro, acolhimentos, nascimentos, entre outros temas que surgiram
nos ensaios. Temas importantes para contribuir com reflexões que a escola tem
buscado trabalhar na contemporaneidade – tolerância, diferença, preconceito e
bullying.
A questão da identidade, ou identidades, já estava presente na criação de Tatá
Dança Simões. Nessa obra, na transcriação da lenda “Negrinho do Pastoreio”,
nos deparamos com a importância evidenciar e valorizar o patrimônio imaterial
afrobrasileiro, fundamental na construção de Pelotas, invisibilizado e silenciado. A
partir da busca por compreender a chegada dos negros nesta “terra”, arrancados
de seus lugares e usurpados em todas as suas referências – família, comunidade,
bens simbólicos, história, etc. – começamos a pensar também nos outros chega-
res, daqueles não acorrentados.
A necessidade pela expressão do mundo contemporâneo gerou no grupo a ne-
cessidade de diálogo com outros artistas e coletivos, profissionais sem vínculos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 185
acadêmicos. Em 2012 o Tatá iniciou parceria com três coletivos: Cia. Terpsí- Teatro
de Dança (Porto Alegre – dirigida por Carlota Albuquerque); Cia. de Dança Caleidos
(Dirigida por Isabel Marques); e Thaís Petzhold (Porto Alegre).

2013 – Transformação do Projeto em Programa de


Extensão
No processo de criação do espetáculo Terra de Muitos Chegares, outros pro-
fissionais, técnicos e docentes da universidade se agregaram ao Projeto e, nesta
relação, identificou-se a geração de novas ações que poderiam se tornar projetos
de extensão vinculados ao Núcleo de Dança-Teatro.
A ampliação das ações em 2012 e o aporte de verba provocaram a transforma-
ção do Projeto em Programa de Extensão, que possibilitou o fomento de novos
projetos na área de figurino, música e performance e a articulação com outros pro-
jetos de extensão do Centro de Artes da UFPel. Assim, no ano de 2013, o Núcleo
também foi contemplado pelo edital PROEXT, enquadrado como Programa, que
incluía ações articuladas com dos seguintes projetos: Boca de Cena; Produção de
Trilha Sonora; Sala de Figurino; Casa da Alice. Esses projetos foram coordenados,
respectivamente, por Alexandra Dias (Curso de Dança – Licenciatura), Leandro
Maia (Curso de Música Popular), Larissa Martins (Curso de Dança – Licenciatura) e
Chico Machado (Curso de Artes Visuais). Além desses, ainda se somaram à equipe
do Programa, Juliana Angeli (Curso de Artes Visuais), Daniel Furtado (Curso de Te-
atro - Licenciatura) e Manuela Gastal (professora do curso de Vestuário do IFSul).
Este texto se detém apenas às ações do grupo Tatá, portanto não trata dos outros
projetos de extensão.
No ano de 2013, ainda ocorreram algumas apresentações do espetáculo Tatá
Dança Simões (em Erechim e Chapecó), mas, esse ano foi marcado pela estreia
do espetáculo Terra de Muitos Chegares5. Diante de um país de dimensões con-
tinentais como o Brasil e com tantas manifestações culturais diversas, a proble-
matização dos cruzamentos culturais foi elemento propulsor na criação do gru-
po, constituído de pessoas de lugares longínquos. A partir do Sistema de Seleção
Unificada (SISU) para a entrada na universidade, os cursos de graduação da UFPel
constatam a chegada de novos sotaques, culturas, experiências, referências. O
processo de criação de Terra de Muitos Chegares exaltou essas diferenças e fez
delas materialidade de composição.
Nas ações criativas de construção cênica, há o intercambio das experiências de
cada um dos envolvidos, suas técnicas, suas práticas, as quais estão recheadas dos
valores, do imaginário e de toda a dimensão simbólica que constitui sua cultura.
Acontece, mesmo que de modo subliminar, um diálogo entre os elementos sócio-
-culturais, na constatação de identificação e diferenciação nas estruturas de rela-
ção social ou de interpretação que caracterizam culturas diferentes. Diferenças
decorrentes de gênero, raça, geração, geografia, etc.
5 Dramaturgia, Direção e Concepção coreográfica: Maria Falkembach; Direção Musical: Leandro
Maia; Intérpretes-Criadores: Alexandra Latuada, Caroline Vilanova de Souza, Cibele Fernandes, Clevy Reis,
Denilson Cosseres, Flávio de Lima, Gessi Könzgen, Higor Alencaragão, Jão Cruz, Melissa Vieira, Mario Ma-
deira, Paula Zanini, Raissa Bandeira da Luz e Rui Carlo; Trilha Sonora: Leandro Maia e Dilermando Freitas;
Preparação Vocal: Leandro Maia, Ana Paula de Lima e Matheus Sacramento; Iluminação: Daniel Furtado;
Figurinos: Manuela Gastal; Estagiário de Figurinos: Julia Moura e Mauricio Guidotti; Costureira: Larissa Mar-
tins; Assessoria de comunicação: Lizandra Vilela; Produção Executiva: Gabriela Ferreyra.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 186
Terra de Muitos Chegares tem dra-
maturgia de Maria Falkembach, criada
no processo de montagem do espetá-
culo, com a colaboração dos integran-
tes do grupo. Esse processo instigou o
diálogo horizontal e plural no espaço e
tempo da prática cênica, o qual facilita
o encontro das pessoas e suas culturas
e propicia a integração dessas experi-
ências diversas. Nesse trabalho, cada
mínima escolha do processo criativo
envolveu a busca por se fazer entender
pelo outro e por entender a outra visão
de mundo.
Cada um dos integrantes do Tatá é
fruto de cruzamento de chegares, de
culturas em movimento. Podemos di-
zer que cada um é o ponto de chegada
de vários caminhos e histórias, percor-
ridos e inscritos por seus antepassados;
que cada um é uma “terra de muitos
chegares”. A partir disto, o espetáculo
tece histórias de vida dos seus intérpre-
tes-criadores com a história de nosso
país, nossa terra. A obra expressa os
sentimentos, experiências e reflexões
do grupo, referentes à: identidade,
multiculturalidade, intertransculturali-
dade, complexidade, diferença, nasci-
mento, o estrangeiro, o outro, o eu. O
Figura 5: Cenas da espetáculo faz o movimento de resgatar raízes a partir da sensibilização do espec-
obra Terra de Muitos tador e da sua identificação (ou diferença) com essa terra de muitos chegares que
Chegares cada um é. Na relação com os espectadores, ampliou-se a metáfora deste “porto”
Fonte: Acervo do para outros espaços da comunidade, constituídos destas “terras-indivíduos”: a es-
Projeto de Extensão cola, por exemplo.
Tatá – Núcleo de No ano anterior, o Projeto havia realizado atividades em seis cidades, anterior-
Dança-Teatro mente citadas, e identificou a desarticulação de espaços e agentes culturais, ob-
servada devido à dificuldade encontrada para divulgação das ações, embora em
comunidades pequenas. O esforço do trabalho de produção e divulgação dos in-
tegrantes do Programa consolidou parcerias em cada cidade: Secretarias de Edu-
cação, Gabinetes de Prefeitos, Câmara de Vereadores, Escolas, professores, CTGs,
rádios e grupos amadores. A partir desses contatos estabelecidos, foi mais fácil
retornar às cidades com o novo espetáculo em 2013.
Em 2012, cinco cidades da região (Pinheiro Machado, Pedras Altas, Candiota,
Hulha Negra e Piatini) firmaram parceria com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura
da UFPel, a fim de construir projetos para o desenvolvimento regional, relaciona-
do à Gestão Urbana, Educação, Gestão Pública e Saúde. Assim, em 2013 o Núcleo
de Dança-Teatro integrou esse projeto interdisciplinar da UFPel visando construir
entrelaçamentos de saberes e trazer o conhecimento artístico para contribuir com
as propostas de desenvolvimento, de cidade e de educação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 187
Além das apresentações, oficinas e produção de trabalhos acadêmicos, nesse
ano, o Projeto realizou três residências com artistas que ministraram oficinas para
o grupo Tatá e apresentaram trabalhos artísticos: Vicky Cortés (bailarina de He-
redia - Costa Rica); Carlota Albuquerque (coreógrafa de Porto Alegre); e Ramiro
Silveira (diretor teatral de Porto Alegre/Londres - Inglaterra).

2014 – Continuidade das apresentações para


escolas, turnê em Santa Catarina e premiação do
espetáculo.
Em 2014 houve a transição da coordenação do Projeto da professora Maria
Falkembach para o professor Daniel Furtado, que atuou no projeto até 2015.
Nesse ano, mais uma vez com verba do PROEXT, o espetáculo Terra de Muitos
Chegares seguiu sendo apresentado: além de 11 apresentações para escolas de
Pelotas e três para a comunidade em geral da cidade, foram realizadas uma apre-
sentação na cidade de Bom Retiro e três no estado de Santa Catarina (Florianópo-
lis, Joinville e São Francisco do Sul).
O grupo Tatá participou do Festival
Bajeense de Teatro, no qual o espetácu-
lo Terra de Muitos Chegares foi premia-
do: Melhor Espetáculo, Melhor Direção
e Melhor Iluminação.

2015 – Prestação de
contas do Proext
As ações realizadas nesse ano limita-
ram-se à prestação de contas do PRO-
EXT e à produção de trabalhos acadê-
micos. Em 2015 iniciou um período de
pausa do Projeto por dois anos.

Figura 6: Terra de
Muitos Chegares na 2017 – Retomada
Escola Estadual de Em 2017, após o retorno da professora Maria Falkembach de seu afastamen-
Ensino Médio Dr.
Antônio Leivas Leite.
to para estudos de doutoramento, o grupo de criação artística Tatá foi retomado
como uma ação do Projeto de Extensão COREOLAB.
Fonte: Acervo do Em apenas poucos meses de trabalho o grupo se constituiu como um coletivo
Projeto de Extensão maduro e responsável, sendo que foi possível desenvolver um processo de criação
Tatá – Núcleo de intenso e consistente. Houve flutuação na participação das pessoas, permitida e
Dança-Teatro esperada, devido à especificidade do momento de retomada. Ao mesmo tempo,
um grupo de dez pessoas se fez coeso e possibilitou a realização de três atividades
performáticas.
Assim, em 2017, o grupo iniciou a criação de seu terceiro trabalho cênico: Quan-
do Você me Toca, a partir de questões sobre o toque e o contato entre alunos,
que emergiram na pesquisa de doutorado da professora Maria Falkembach so-
bre a dança como componente curricular no Ensino Básico. Os dados produzidos
naquele momento desencadearam o desenvolvimento de pesquisa artística na
montagem de uma obra. Desse modo, o grupo intensificou a articulação entre as

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 188
ações de extensão e pesquisa. Além do Núcleo estar relacionado com o projeto
de pesquisa “Produção do corpo-sujeito em práticas de dança”, coordenado por
Falkembach, parte do processo de criação do grupo é objeto de pesquisa da Rede
de Pesquisa Internacional dos Estudos da Presença, coordenada por Gilberto Icle.

2018 – Estreia de Quando Você me Toca


Depois do grupo reestruturado, em 2018, foi reativado como Projeto de Exten-
são Tatá – Núcleo de Dança-Teatro. Ao longo do ano, o Projeto se concentrou na
criação do novo trabalho, que estreou ainda naquele ano e realizou algumas apre-
sentações, participando de importantes eventos acadêmicos: Cerimônia do prê-
mio de Doutor Honoris Causa ao professor português Boaventura de Souza San-
tos, concedido pela UFPEL e UCPEL; XI Olimpíada de Filosofia, promovido por
UFPEL, UCPEL, PUCRS e UFRGS.
Quando Você me Toca6 apresenta
questões urgentes sobre corpo, gê-
nero, afeto, violência e censura. Esses
temas são trabalhados numa lingua-
gem que transita entre a dança-teatro
e a performance, tendo como fim a co-
municação com o público escolar. Em-
bora busque afirmar a importância do
contato afetivo, do carinho, da ternura
e do toque como fonte de vida, o tra-
balho apresenta essas ideias de modo
complexo e aberto. Mostra, portanto,
a ambiguidade das relações. A obra se
apresenta, então, como um disparador
de sensações e reflexões sobre temas
que, embora muitas vezes não façam
parte do currículo oficial, circulam nas
práticas escolares. Evidencia questões
imprescindíveis na constituição do su-
jeito contemporâneo.

Figura 7: Cena da obra Quando Você me Toca

Fonte: Acervo do Projeto de Extensão Tatá –


Núcleo de Dança-Teatro

6 Direção e dramaturgia: Maria Falkembach; Coreografias: o grupo; Elenco: Carolina Pinto, Carla
Araújo, Cora Caroline, Evelin Suchard, Inda Rulio Bajar, Nadyne Uakti, João Cruz e Sarasvatii Leão; Imagens
de Vídeo: Guilherme Carvalho da Rosa; Montagem de Vídeo: João Cruz; Canção original: Leandro Maia/Ma-
ria Falkembach; Figurino: Taís Prestes; Costureira: Larissa Martins; Iluminação: João Cruz; Preparação cor-
poral: Nadyne Uakti; Operação de luz: Marcos Kuszner.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 189
2019 – Apresentações de Quando Você me Toca e
articulação com a pesquisa
Em 2019, suas ações foram novamente na criação e circulação de obras cênicas.
Esse ano finalizaram com um total de 20 apresentações, entre escolas, espaços da
comunidade e eventos acadêmicos (entre eles, IV Congresso de Cuidados Paliati-
vos do Mercolsul e II Colóquio Internacional sobre imaginário, educação e (Auto)
biografias).

Figura 8: Quando
Você me Toca na
Escola Municipal de
Ensino Fundamental
Núcleo Habitacional
Dunas

Fonte: Acervo do
Projeto de Extensão
Tatá – Núcleo de
Dança-Teatro

Os temas que o espetáculo Quando Você me Toca carregam são importantes


e contundentes no ambiente escolar. Mais do que nunca, o diálogo após apresen-
tação mostra a potência da obra artística na qualificação do currículo escolar. Isso
fica evidente na fala da diretora de uma das escolas em que apresentamos a obra,
a qual finalizou a conversa após o espetáculo, na qual professores e alunos discuti-
ram sobre as nuances nas várias formas de tocar alguém, sobre limites na relação
com o outro, sobre violências cotidianas no espaço escolar, significados culturais
da pele e da roupa, sobre gênero e sobre modos de atuação cênica. Na sua fala, a
diretora agradece o grupo Tatá e se dirige aos seus alunos:
Queria agradecer imensamente a presença de vocês. Dizer que a escola
está para acolher esse tipo de projeto. Sempre que possível a gente vai em
busca de abordagens que tragam assuntos pra discussão. Que essas dis-
cussões não fiquem aqui, que os professores possam levar pra sala de aula
e possam conversar sobre isso com vocês. E que vocês alguns momentos já
solicitaram e então a gente percebeu que dessa maneira a gente vai trazen-
do assuntos pra poder discutir com vocês. […] É um assunto que a gente...
que tem sido, uma constante luta pra que não venha mais pra escola. En-
quanto a gente tá aqui, a gente vai defender que tem que ter. É necessário!

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 190
Figura 9: Cenas do
espetáculo Quando
Você me Toca.

Fonte: Acervo
Projeto de Extensão
Tatá – Núcleo de
Dança-Teatro

Espaço de prática ética


O Núcleo se configura como um projeto de extensão, pois está voltado para a
democratização da arte e do saber acadêmico, mas não deixa de ser um espaço de
ensino e construção de conhecimento para alunos e professores da universidade.
A experiência que o projeto tem proporcionado aos alunos do curso, tem se
mostrado importante nas suas formações. Esses alunos, além de desenvolver suas
possibilidades de criação, têm ampliado suas reflexões sobre abordagens peda-
gógicas, ampliado suas possibilidades como professores e sua responsabilidade
com relação à educação. O Núcleo, portanto, tem se mostrado um espaço impor-
tante para refletir e problematizar as competências e habilidades necessárias ao

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 191
professor-artista-pesquisador, perfil que se espera do graduado de Curso de Dan-
ça-Licenciatura, conforme o projeto pedagógico. Tal formação se diferencia por
ocorrer num projeto extensionista, justamente porque o foco é a relação com a
comunidade e a democratização dos saberes.
O fato da dança-teatro necessitar de diversos pontos de vista e diferentes olha-
res como sua fonte de criação, está implícito no processo criativo – e na obra – uma
percepção sobre a vida e a realidade que desmistifica preconceitos e aponta para
a importância da diferença (os corpos em cena evidenciam isto). O Tatá se estru-
tura no modo de trabalhar como grupo, com divisão de tarefas e responsabilida-
des, co-responsabilidades, e, principalmente uma constante reflexão sobre ética.
Em diferentes momentos de avaliação do Projeto, realizada pelos integrantes do
grupo, surgiram como questões fundamentais aquelas relacionadas com a vida
em grupo e a ética construída nessa relação. Essa conduta ética do grupo, que se
reflete em suas ações (limpar o chão da escola, preparar o espaço cênico em gru-
po, realizar o aquecimento e a concentração para a apresentação e se empenhar
na construção de um diálogo com o público, construir um ambiente propício para
que todos se escutem), produz impacto na escola. Ao se apresentar nas escolas, o
grupo realiza um conjunto de rituais e práticas que demarcam as identidades do
grupo e revelam, como um espectador relatou, “a união dos integrantes do grupo
e o amor destes pela profissão que escolheram”.
Assim, é inerente ao projeto, o desenvolvimento de ações – processos de cria-
ção, mostras, debates, grupos de estudo – que contribuam com práticas éticas.
Práticas que ampliam a escuta, o reconhecimento do outro e o diálogo. Esse outro
pode ser o colega, o professor, o aluno, qualquer pessoa. Acreditamos que a práti-
ca ética nas micro-relações podem se estender para as macro. Então, ao entender
a escola e a comunidade como um outro da instituição acadêmica, confiamos que
o Projeto Tatá contribui com a horizontalidade na produção e no trânsito de sa-
beres entre a universidade e a comunidade. Entendemos que é compromisso da
extensão a promoção da atitude ética nas práticas universitárias.

Referências
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença. Rio
de Janeiro: Contraponto, 2010.

SOBRE A AUTORA FALKEMBACH, Maria Fonseca. Tatá Dança Simões nas


escolas: uma experiência na interface entre a criação
Maria Fonseca Falkembach, gradu- artística e educação. In: 2º Encontro Nacional de Pesqui-
ada em Artes Cênicas pela Universida- sadores em Dança, 2011, Porto Alegre. Anais [...]. Porto
de Federal do Rio Grande do Sul. Dou- Alegre: UFRGS, 2011.
tora em Educação pela UFRGS. Profes-
sora do Curso de Dança – Licenciatura, FALKEMBACH, Maria Fonseca; FERREIRA, Taís. Teatro e
da UFPel. Coordenadora do Projeto dança nos anos iniciais. Porto Alegre: Mediação, 2012.
Tatá Núcleo de Dança-Teatro. Artis-
ta do corpo, trabalha com processos PRESTES, Taís Chaves. Tatá dança Simões: a memória
de criação de obras cênicas em diver- como ferramenta de composição coreográfica na trans-
criação do conto “M’boitatá”. Trabalho de conclusão de
sos âmbitos e pesquisa a produção do
curso (Licenciatura em Dança) – Universidade Federal de
corpo-sujeito nessas práticas. E-mail:
Pelotas, Pelotas, 2012.
mariafonsecafalkembachufpel@gmail.
com UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Projeto Político
Pedagógico do Curso de Dança – Licenciatura, 2018.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº2 192
NÚCLEO DE MÚSICA
POPULAR DA UFPEL:
UMA PROPOSTA DE INTEGRAÇÃO ENTRE
ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO EM
COOPERAÇÃO COM A COMUNIDADE DE
PELOTAS

Rafael Henrique Soares Velloso


Leandro Ernesto Maia

Apresentação
O presente texto busca trazer um relato de experiência sobre a implementa-
ção, consolidação e ampliação do projeto unificado do Núcleo de Música Popular
da UFPEL. A elaboração do projeto teve início em 2016, e foi inicialmente imple-
mentado pelo Prof. Dr. Rafael Velloso como três projetos correlacionados e iden-
tificados com a proposta de integração entre as atividades de pesquisa ensino e
extensão; o projeto de ensino Laboratório de Improvisação e Arranjo, o projeto de
extensão Encontros de Música Popular e o projeto de pesquisa Intercâmbios Sinco-
pantes: Abordagens históricas, culturais e políticas sobre processos criativos em mú-
sica popular. Dois anos depois, após a criação do cadastro de projetos unificados
na plataforma COBALTO da Universidade, estes projetos foram cadastrados em
uma mesma rubrica sob o nome de Núcleo de Música Popular e desmembrados
em diferentes ações identificadas ora como pesquisa, ora como ensino e ora como
extensão.
Atualmente o projeto do NuMP (código 1502), que conta atualmente com
a coordenação do Prof. Dr. Leandro Maia, encontra-se em sua segunda fase e
tem duração prevista até dezembro de 2020. Em vias de consolidar-se como um
Programa, o projeto promove três ações que se relacionam com o ensino e oito
CULTURA Nº3

identificadas com a extensão, dentre elas as ações de orientação pedagógica da


Orquestra Força Jovem, que inclui bolsas-auxílio concedidas a discentes do curso
que ministram aulas de instrumentos de sopro a comunidade em parceria com a
empresa Embaixador e o SEST SENAT.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 193


O projeto do NuMP abrange ainda um programa de residências artísticas que
inclui desde apresentações musicais e oficinas, até a produção e gravação de no-
vos repertórios utilizando-se do espaço físico e o material humano do projeto,
além de outros formatos e ações tal como podemos observar no Quadro 1 abaixo:
Quadro 1: Ações do Núcleo de Música Popular UFPel

4115 OSUFPEL - Orquestra de Sopros da UFPEL Extensão Propriamente Dita


de Extensão
4127 Clube do Choro de Pelotas Extensão Propriamente Dita
de Extensão
4128 Mostra de Música Popular Extensão Evento
4139 Núcleo da Canção - Extensão – UFPEL Extensão Propriamente Dita
de Extensão
4146 Redemoinho de Sonhos - Composições e Arranjos de Ensino Grupo de Estudos
Guilherme Tavares
4147 MIDIA: Núcleo de Produção Musical: Música, Informação, Ensino Grupo de Estudos
Discoteca e Audiovisual
4216 Coordenação musico-pedagógica da Orquestra Força Extensão Propriamente Dita
Jovem - Expresso Embaixador e SEST/SENAT Pelotas de Extensão
4222 Residência Artística com Chico Saraiva - Workshops e Extensão Evento
Concertos “Violão-Canção”
4223 Série de Residências Artísticas NuMP Extensão Propriamente Dita
de Extensão
4224 Série Concertos NuMP Extensão Propriamente Dita
de Extensão
4311 Escambo Musical Ensino Grupo de Estudos
Fonte: Cadastro do projeto na plataforma Cobalto

Antecedentes: Do Mídia ao NuMP


O NuMP é um projeto de pesquisa, ensino e extensão cujos antecedentes datam
do início do Curso de Bacharelado em Música Popular da UFPEL, em 2012. Naque-
la fase preliminar até o ano de 2014, a extensão em música popular era realizada
em parceria com a Rádio Federal FM e com a Discoteca L.C. Vinholes, através do
PROEXT 2013, intitulado “Núcleo de Produção Musical Discoteca/Rádio Federal
FM”, contando com a participação de seis bolsistas dos cursos de Música Popular,
Ciências Musicais, Cinema e Jornalismo da UFPEL.1
1 O financiamento PROEXT possibilitou o pontapé inicial e a realização de ações balizadoras para a
estruturação de ações de apoio pesquisa, produção artística e de extensão, envolvendo audições comentadas
do acervo da discoteca, programação musical da rádio, reinstalação da Discoteca e inauguração da nova sala,
incluindo design de logomarca e identidade visual. Ainda neste primeiro momento, em parceria com o Curso
de cinema da UFPEL, realizou-se o minidocumentário “Dona Conceição e Seus Sambas”, sobre a produção da
compositora pelotense Conceição Rosa Teixeira, com a coordenação dos professores Cíntia Langie e Leandro
Maia, além da apresentação de artigo homônimo do I MUSIPOP UNI – Encontro de Música Popular na Univer-

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 194
Planejado desde a criação do bacharelado em 2012, os projetos de extensão do
curso de música popular foram germinados de propostas interdisciplinares, hoje
reunidas no projeto unificado do NuMP. Tendo como campo teórico de referên-
cia a etnomusicologia, a proposta atual do NuMP é de conjugar os métodos de
pesquisa de campo usualmente empregados nas ciências sociais com a pesquisa
artística, tendo como foco a construção colaborativa da memória (HALBWACHS,
1990). O foco inicial da reestruturação dos projetos de extensão foi o de investigar
o processo de aprendizado musical sobre determinadas práticas musicais na cida-
de de Pelotas/RS. Assim, procurou-se combinar o método etnográfico e a pesquisa
participativa de Braga et al (2008) e Tygel e Nogueira (2006) com a investigação
artística e a observação participante. Através dos encontros semanais de estudo e
apresentações musicais foi possível desenvolver uma ação extensionista cujo prin-
cipal aspecto vem sendo a atividade colaborativa.
Neste sentido o projeto de extensão Encontros de Música Popular teve como
proposta inicial a promoção de encontros semanais com o Clube do Choro de Pelo-
tas para a prática e o estudo do choro, envolvendo os discentes dos bacharelados
em Música da UFPEL, músicos de choro locais, além de um público ainda inician-
te na prática. Ao longo deste primeiro ano, foi possível planejar algumas ações
de pesquisa sobre processos criativos em música popular, junto a comunidade do
Choro de Pelotas, o que auxiliou a comunidade local nas ações de recuperação e
manutenção de uma identidade regional no extremo sul do país ligada ao choro e
a música brasileira. Neste mesmo sentido, buscou-se relacionar a pesquisa artís-
tica com o ensino, através do projeto de ensino Laboratório de Improvisação e
Arranjo, que permitiu a aplicação e o estudo de ferramentas criativas para a expe-
rimentação nas práticas musicais ocorridas nos encontros promovidos pelo grupo
de choro, nas disciplinas do curso e nas iniciativas e nos projetos musicais desen-
volvidos pelos discentes e docentes do curso.
Em relação às ações de pesquisa, foi possível atingir os seguintes objetivos pro-
postos: a) o levantamento dos possíveis colaboradores; b) gravações ao vivo das
performances e a transcrição das composições de dois integrantes do clube do
choro com a elaboração coletiva dos arranjos entre os músicos mais atuantes do
clube. A partir da observação participante, foi possível perceber, durante os en-
contros, as distintas estratégias utilizadas pelos músicos para compor e pensar o
seu fazer musical. Como fruto desta interação, foi também possível observar o va-
riado leque de influências musicais destes músicos, tanto de chorões pelotenses,
tais como Avendano Junior, Toinha, Milton, Nogueira e Possidônio Tavares, como
de nomes conhecidos do universo musical do choro tais como Pixinguinha, Waldir
Azevedo, Jacob do Bandolim, Abel Ferreira, entre outros.
Com base no registro da memória oral dos músicos, foi possível observar que o
aprendizado desta prática ocorreu em dois contextos distintos; o primeiro através
da observação e da prática musical realizada durante 35 anos pelo grupo Avenda-
no Junior no Bar Liberdade, e a segunda através da escuta sistemática de discos de
acetato comprados de gravadores brasileiras Odeon e Victor contendo gravações
de músicos de choro elencados como referência em seus instrumentos e da escuta
atenta as transmissões das rádios cariocas como a rádio nacional.
Tendo como base a pesquisa realizada nos acervos mantidos pelas famílias
dos músicos, foi planejada uma ação compartilhada que teve como objetivo a
sidade, realizado na UFRGS, em 2015 (MAIA, 2015). O resultado foi a consolidação do projeto MIDIA: Música,
Informação, Discoteca e Audiovisual e o fechamento desta fase preliminar de realizações na área de Música
Popular em interação interdisciplinar com outras áreas do conhecimento desde o início.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 195
transcrição das composições e práticas musicais para a edição de um caderno
de composições e arranjos. O principal objetivo desta ação, reivindicada pelos
membros do Clube do Choro de Pelotas, foi o de disponibilizar este material para
a comunidade pelotense, seja para estimular o aprendizado de novos músicos
ou como fonte de registro histórico e cultural da cidade Pelotas. As transcrições
foram complementadas e contextualizadas pelas gravações de vídeo que
documentaram a história dos músicos e sua relação com esta identidade musical,
que foi particularmente identificada e resinificada pelo grupo.
Além destas indicações, foi possível, com base nos relatos dos músicos partici-
pantes, inferir que os meios de comunicação como a radiodifusão e a indústria fo-
nográfica, que tiveram uma importância fundamental na difusão do choro desde a
década de 1930, e posteriormente na década de 1970, foram fundamentais para a
retomada desta tradição musical e sua resiliência na cidade de Pelotas. Notou-se
também, neste contexto, que os grupos de choro locais desenvolveram distintas
maneiras de adaptação, assimilação e transformação desta prática musical pelas
estratégias utilizadas pelos músicos para o seus fazeres composicionais.

Implementação do Projeto Unificado do NuMP


Com base nos resultados iniciais do projeto foi possível reconhecer, nas três
esferas das atividades acadêmicas (pesquisa, ensino e extensão), o potencial de
produção de conteúdo musical e acadêmico ligado a identidade local. A ampliação
e adaptação do formato e a diversificação dos gêneros musicais atendidos ocorreu
a partir da integração da base de registro de projetos unificados da plataforma
Cobalto da instituição. Assim, em 2017, nasceu o projeto unificado do NuMP, cujo
objetivo inicial era promover e difundir as atividades desenvolvidas por professo-
res e alunos do curso de Bacharelado em Música Popular da UFPEL. O projeto, por
meio da expansão, qualificação e divulgação de suas práticas musicais de diversos
gêneros e naturezas junto a comunidade pelotense, contribuiu para a organização
e difusão do conhecimento artístico musical resultante destas interações.
O projeto manteve a proposta de inserção dos discentes do curso em atividades
extras de ensino, pesquisa e extensão. Assim, expandiu-se a formação acadêmi-
co-profissional dos alunos por meio de experiências orientadas que visavam pro-
mover a melhoria na qualidade do processo de ensino-aprendizagem, auxiliando
no combate à reprovação, à retenção, à evasão, e proporcionando à comunidade
local uma experiência cultural significativa.
Já as atividades organizadas pelo NuMP, no segundo ano de implementação,
tiveram como objetivo a produção e difusão do conhecimento artístico musical
em diferentes formatos, tais como; encontros, cursos de curta duração, eventos,
apresentações artísticas, palestras, oficinas e grupos de estudo, todas cadastradas
como ações de um mesmo projeto. Estas ações foram direcionadas à comunidade
externa promovendo a interação e diálogo com a comunidade acadêmica através
de espetáculos e atividades abertas que ampliaram o acesso aos materiais produ-
zidos pelos acadêmicos. Os alunos participantes das ações do núcleo usufruíram
desta troca e complementaram sua formação desenvolvendo habilidades que o
curso em si não proporcionaria.
Foi com base na experiência de implementação do projeto e de suas dez ações
inicias, que foram reformuladas atividades que hoje se desdobraram e/ou foram
substituídas por outras ações relacionadas ao objetivos iniciais do projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 196
Os encontros do Clube do Choro de Pelotas estão desde
o princípio direcionados à comunidade externa ao NuMP,
visto que o Clube do Choro já está em atividade desde 2014
e a universidade passou a acompanhá-los posteriormente.
Com o intuito de valorizar os músicos pelotenses tal como
a produção de conhecimento sobre o choro, os encontros
expandiram seu formato e abrangência, e seguiram propor-
cionando uma interação singular entre os acadêmicos dos
cursos e os músicos locais, gerando uma troca de vivências
e experiências que beneficia ambos os lados.
A Jam Session do Centro de Artes foi uma ação que pas-
sou a integrar as atividades NuMP visando ampliar o conhe-
cimento e a experiência sobre a improvisação, estimulada
pela interação mais frequente entre os alunos, professores
e músicos locais. Inicialmente parte do projeto de ensino
Laboratório de Improvisação e Arranjo, a Jam foi uma das
primeiras ações vinculadas as ações de ensino cadastra-
das no NuMP, no inicio do projeto em maio de 2017. Assim
como ocorreu no Clube do Choro, devido a demandas surgi-
das pelos participantes da Jam foi implementado um espa-
Figura 1: Clube do ço de consulta uma hora antes, com o monitor e bolsista do projeto, a fim de pro-
Choro de Pelotas ver dicas para o estudo da improvisação tais como escalas de acorde e a análise
Fonte: Acervo Núcleo
harmônica funcional.
de Música Popular da A Mostra de Música Popular é uma ação de extensão – evento – coordenada
UFPel pelos professores do núcleo, que estimula os alunos do bacharelado em música
popular a apresentarem os resultados das disciplinas práticas do curso, proporcio-
nando um espetáculo aberto a comunidade acadêmica e ao público externo. Tal
ação promove o engajamento e a performance dos alunos, estimula a capacidades
Figura 2: Clube do necessárias para a atuação profissional e o desenvolvimento artístico, técnico e
Choro de Pelotas científico, além de gerar mais uma opção de apreciação musical para a comunida-
de de Pelotas e região. A ação leva ao público externo um pouco das atividades de-
Fonte: Adriana
senvolvidas em cada semestre pelos discentes do curso de Musica Popular através
Yamamoto - Acervo
Núcleo de Música de apresentações públicas e gratuitas no auditório do Centro de Artes, envolvendo
Popular da UFPel as turmas de Prática de Conjunto.
A Noite Popular foi uma ação exten-
sionista idealizada por uma ex-aluna e
ex-professora do curso, Daniela Morei-
ra, que proporcionou aos discentes do
bacharelado em música a oportunida-
de de apresentarem repertórios de livre
escolha, entrando em contato com um
público distinto ao que normalmente
frequentaria a universidade. O pro-
jeto ocorreu em diversas localidades
da cidade, incluindo o Conservatório
de Música e a Biblioteca Pública Pelo-
tense. Nesta ação, criou-se um espaço
onde os discentes puderam desenvol-
ver de forma prática a performance e a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 197
presença de palco, proporcionando à comunidade pelotense
uma experiência cultural de forma gratuita. Apesar da ação
ter sido interrompida com a saída da professora que atuou
como substituta do curso de canto, tais atividades foram
atendidas, adaptadas e ampliadas a duas ações distintas, o
Núcleo da Canção, os Concertos NuMP e a série Residências
Artísticas.
A OSUFPel (Orquestra de Sopros da UFPEL) é uma ação
de extensionista idealizada pelos discentes do cursos de Mú-
sica da UFPel com a colaboração dos professores dos bacha-
relados em Instrumentos. A partir do segundo semestre a
orquestra passou a receber também músicos profissionais e
amadores da cidade. A base do projeto é o estudo e execução
de peças do repertório popular e busca criar um espaço onde
os instrumentistas de sopro possam exercitar suas compe-
tências musicais.
O Escambo Musical é um grupo de estudos, que passou
a integrar as ações do núcleo. Idealizado pela discente Ligia
Poliana do curso de Música Popular da UFPel, a ação propor-
ciona uma rede de ação solidária de estudos entre os alunos
Figura 3: Mostra de dos cursos de música. Esta rede oferece apoio pedagógico ao estudante que sinta
Música Popular a necessidade, visando proporcionar uma trajetória acadêmica mais satisfatória e
evitar reprovações. Os alunos dos cursos de Música da UFPel se voluntariam para
Fonte: Acervo
Núcleo de Música auxiliar no estudo do conteúdo de algumas disciplinas que já cursaram, estas infor-
Popular da UFPel mações são arquivadas num banco de dados e partilhados, para que os discentes
que solicitem ajuda em uma determinada disciplina sejam
encaminhados aos colaboradores correspondentes.
Todas as atividades contempladas ou promovidas nesta
segunda etapa do projeto, atingiram os objetivos espera-
dos. Em algumas das ações o público contemplado superou
a média estipulada, como por exemplo no projeto Noite Po-
pular com espetáculos que excedem a capacidade do salão
de eventos. Como colaboradores diretos de todas as ações
participam e/ou participaram 65 pessoas entre discentes, do-
centes e técnicos administrativos, alcançando em média 300
pessoas no total.

Publicações e outras produções mais


recentes
O significativo envolvimento da comunidade pelotense
com o projeto, culminou no lançamento do primeiro Cader-
no do Clube do Choro de Pelotas pela editora da UFPel. O
caderno foi concebido durante o projeto Encontros de Mú-
sica Popular realizado em 2016, e produzido através da par-
Figura 4: Evento ceria entre o Núcleo de Música Popular e o Laboratório de
Noite Popular
Etnomusicologia da UFPel. O objetivo deste caderno foi o de registrar na pauta
Fonte: Acervo musical as composições dos chorões pelotenses e compartilhar com um públi-
Núcleo de Música co amplo as histórias, narrativas musicais e extramusicais dos músicos de Cho-
Popular da UFPel ro de Pelotas. Além das transcrições, o caderno apresentou um material gráfico

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 198
diversificado e identificado com a cul-
tura local formado por fotos, registros
sonoros e manuscritos recuperados dos
acervos particulares que foram doados
pelos familiares e amigos do Clube do
Choro de Pelotas. A história oral dos
músicos participantes também foi re-
gistrada em áudio e vídeo, apresentada
em forma de mini documentário e nar-
rada pelos próprios compositores, que
descreveram suas práticas musicais e
providenciaram registros de apresenta-
ções musicais promovidas pelo Clube.2
Desta forma, inferimos que as ati-
vidades artístico-musicais implemen-
tadas pelas ações do núcleo propor-
cionaram aos discentes, docentes e ao
público em geral o contato com proje-
tos de qualidade que primam pela valo-
rização dos saberes locais, promoção e
comprometimento com a valorização
da identidade cultural regional. O cres-
cimento destas ações, contudo, estão
vinculadas a ampliação das demandas
do curso e de sua estrutura. Assim so-
mente com a mudança para o estúdio
de música do Campus II da Universida-
de Federal de Pelotas é que foi possível
Figura 5: Cadernos a ampliação do conteúdo e do formato das atividades propostas.
do Choro de Pelotas Tal aprimoramento no formato foi possível devido à contribuição dos diversos
trabalhos e projetos de pesquisa que foram desenvolvidos pelos discentes que
Fonte: Acervo Núcleo
de Música Popular da participaram das ações, que são frequentemente utilizadas como objeto de obser-
UFPEL vação e estudo. Neste sentido a ação Jam Session foi objeto de pesquisa do tra-
balho de conclusão de curso: “A Improvisação Musical na Bossa Nova: Estratégias
de preparação para a performance na Jam Session do Centro de Artes da UFPEL”,
escrita pelo bacharel em violão Rafael Antunez Martins. Com a criação de outros
espaços de experimentação e produção musical, a Jam Session do Centro de Ar-
tes foi desativada em 2019, sendo incorporada a outras ações. Outro trabalho de
conclusão de curso que envolveu o NuMP/OSUFPEL, foi o trabalho do discente
em licenciatura Eduardo dos Santos Costa, intitulado “Arranjo Direcionado: Uma
análise sobre o processo de reconhecimento e adaptação dos recursos musicais na
construção de um modelo de arranjo socialmente proposto”.
Por conta do crescimento da procura de discentes do curso por temas de pes-
quisa relacionados ao projeto, o NuMP foi registrado no CNPQ em 2019 como gru-
po de Pesquisa, desde então tal produção vem contribuindo, produzindo reflexões
e apresentações de trabalhos em eventos acadêmicos. No encontro da Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM 2019), foi realizado o
Simpósio “Processos Criativos em Música Popular”, incluindo a apresentação dos
2 O Primeiro Caderno do Clube do Choro de Pelotas pode ser acessado em [Link]
chpopmus/files/2017/12/[Link] .Disponível em 27/10/2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 199
trabalhos “Abordagens metodológicas e aspectos interdisciplinares dos processos
criativos em música popular” (VELLOSO e MAIA, 2019), além do trabalho “Nú-
cleo da canção NuMP: “cancionando a academia” (SPERB, 2019).
No âmbito da produção dos estudantes de graduação, foram recentemente
apresentados na Quinta Semana Integrada de Inovação, Ensino, Pesquisa e Exten-
são (SIEEPE) da UFPEL os trabalhos de iniciação científica da aluna Helena Spias-
si: “Entendendo Kpop: Padrões musicais a partir do modelo Bennett” (SPIASSI,
2019); e as comunicações de extensão dos alunos Pedro de Oliveira Kowalski e Mu-
rilo Ávila: “Núcleo da Canção: Todos na Mesma Roda” (KOWALSKI, ÁVILA, 2019);
além dos trabalhos de extensão e cultura do acadêmico João Marcos Nolte Mar-
tins, intitulado “O desafio da escolha do repertório como fator determinante para
o interesse e permanência do aluno no projeto de ensino coletivo Orquestra Força
Jovem” (MARTINS, 2019); e do discente Igor Reichow Amaral (AMARAL, 2019) “As
Várias Instrumentações da Flauta-Doce: A importância do instrumento na orques-
Figura 6: Songbook tra força jovem”.
Dona Conceição dos Nas edições anteriores da mesma semana integrada da UFPEL, os discentes
Mil Sambas
João Pinheiro Neto, primeiro bolsista do projeto, apresentou a comunicação “En-
Fonte: Acervo Núcleo tre Choros e Chorões: Projeto de Registro das Práticas Musicais e da Memória Oral
de Música Popular da dos Chorões Pelotenses” (PINHEIRO NETO, 2016), seguido dos discentes Lígia
UFPEL Poliana Oliveira com “Um relato sobre a implementação do projeto unificado do
Núcleo de Música Popular” (OLIVEIRA,
2017), e Gustavo Fleury Fina Mustafé,
“Relato Sobre o Segundo Ano do Proje-
to do NuMP e Suas Atividades de Pes-
quisa Ensino e Extensão” (MUSTAFÉ,
2018). No âmbito dos projetos de ensi-
no, foram apresentados pelo discente
Thiago Berrutti, o trabalho “Outside:
Metodologias Alternativas Para o Estu-
do de Arranjo e Improvisação” (AMA-
RAL, 2016) e Vinicius Carreiro, com seu
trabalho “A Proposta de Integração
Entre Ensino e Extensão do Projeto La-
boratório de Improvisação e Arranjo”
(CARREIRO, 2018). A partir das ativida-
des desenvolvidas pelo Clube do Choro
também foi produzido o trabalho de
conclusão de curso do discente João Pi-
nheiro Neto com base na metodologia
proposta pelo projeto sobre o tema “O
Violão de Sete Cordas de Aloyn Soares:
Um estudo de trajetória (PINHEIRO
NETO, 2018)”.
Como decorrência das ações prelimi-
nares ligadas ao antigo projeto Núcleo
de Produção Musical, que possibilitou a
pesquisa de doutorado feita pelo Prof.
Dr. Leandro Maia, foi lançado o Son-
gbook Dona Conceição dos Mil Sambas
(Maia, 2018), em parceria com a Bath

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 200
Spa University/Reino Unido, o NuMP, Discoteca L.C. Vinholes, Cursos de Cinema
dentre outros apoiadores. O trabalho constitui-se numa edição bilíngue incluindo
partituras, informações biográficas e links para CD e DVD virtual do concerto re-
alizado no Teatro São Pedro, em Porto Alegre, e na Biblioteca Pública Pelotense.

Mudanças de local e ampliação do projeto


Em maio de 2018, o LAMP (Laboratório de Música Popular) foi transferido para
o estúdio de gravação profissional inicialmente criado para o curso de Produção
Fonográfica da Universidade Católica de Pelotas. O estúdio passou a ser alocado
pela UFPEL juntamente com todo o campus. Com essa mudança, praticamente
todas as atividades/ações de extensão e disciplinas do bacharelado de Música Po-
pular passaram a ser ministradas neste novo espaço, com isso foi possível realizar
a ampliação das atividades com as novas possibilidades de ensaio, agora com qua-
lidade sonora profissional. Justamente por conta desta mudança de local, as ações
do projeto foram adaptadas e ampliadas para atender a nova realidade.
Os encontros do Clube do Choro de Pelotas, que se iniciaram na Secretaria
Municipal de Cultura de Pelotas e posteriormente no Conservatório de Música,
passaram a ser realizados no estúdio de música popular que se localiza dentro do
campus II da Universidade Federal. Pensando nas demandas dos alunos da uni-
versidade e de músicos da cidade, foi criado um curso de introdução ao Choro às
segundas-feiras e quartas-feiras, de forma complementar aos ensaios do Clube do
Choro, em que novos integrantes são levados a conhecerem o Choro e aprende-
rem com os participantes do projeto.
Outra ação extensionista que foi mantida pelo NuMP e ampliada neste segundo
ano foi a OSUFPEL (Orquestra de Sopros da NuMP). Em 2018 a orquestra passou
a contar com aproximadamente 15 músicos, dentre discentes, docentes, técnicos,
músicos amadores e profissionais, tornando-se um espaço de criação coletiva e
aprendizado prático. As atividades do projeto também auxiliam na aplicação de
conteúdos das disciplinas de Arranjo, Teoria, Percepção Musical e Solfejo, e Instru-
mento Complementar. A orquestra além de ter se configurado como um espaço
didático complementar importante para o curso, se apresenta periodicamente em
eventos promovidos pelo NuMP ou em parceria com o projeto, atuando também
na formação de público e na promoção da cultura e da prática musical da cidade
de Pelotas.
Com o auxilio dos discentes do curso, foi em 2019 criado pelo professor Lean-
dro Maia o projeto “Coordenação músico-pedagógica da Orquestra Força Jo-
vem - Expresso Embaixador e SEST/SENAT Pelotas”. A ação tem como objetivo
articular ações transversais entre o NuMP, a Orquestra de Sopros da UFPEL, a Or-
questra UFPEL e outros agrupamentos da universidade incluindo coros, bandas e
conjuntos musicais, e servir como uma forma de capacitação profissional além de
contribuir para o desenvolvimento de uma pedagogia do ensino coletivo de instru-
mentos musicais. A Orquestra Força Jovem atinge cerca de 50 crianças advindas
das mais diversas localidades de Pelotas transportadas pela Expresso Embaixador
até o SEST SENAT e vem realizando apresentações em Escolas e espaços públicos
da cidade de Pelotas, contribuindo para a formação de público e reforçando o vín-
culo das famílias e instituições com a Universidade Federal de Pelotas. Ação con-
tou com oito bolsistas em 2019, através de convênio com a Expresso Embaixador,
dentre eles: Igor Amaral, Bernard Rehermann, Bernardo Colares, Gustavo Baldi,
Daniel Carnales, João Marcos Martins, Laura Silva e Ricardo Ferreira.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 201
Outras atividades de pesquisa artísti-
ca foram introduzidas no projeto a partir
de 2018, sendo duas coordenadas por
docentes do curso; Redemoinho de So-
nhos - Composições e Arranjos de Gui-
lherme Tavares; e o projeto autoral Via-
gens, de Guilherme Sperb. Tais projetos
têm como produção gravações e con-
certos em diversos formatos realizados
pelos discentes e docentes do curso.
Já O Núcleo da Canção, criado em
2019 pelos professores Guilherme
Sperb e Leandro Maia, é uma ação que
possibilita a interação entre professo-
Figura 7: Orquestra res, servidores e estudantes da Universidade Federal de Pelotas com a comuni-
Força Jovem dade a partir do estudo sistemático de repertórios e de práticas artísticas ligadas
à canção popular, envolvendo processos criativos em letra e música, vocalidades,
Fonte: Acervo Núcleo
de Música Popular da
performance musical e produção crítica em música. A ação concilia um espaço de
UFPEL reflexão, de comunicação e de escuta, desvelando saberes intuitos e não-intuiti-
vos presentes nesta forma artística que concilia áreas como artes, comunicação,
letras, linguística, indústria criativa, entre outras.
O Núcleo divide sua metodologia em quatro ações básicas: a) Retrato do Com-
positor, em que figuras centrais da canção brasileira são abordadas; b) Residências
artísticas com criadores; c) Círculo de Canções (Roda de Violões), com a apresenta-
ção de trabalhos inéditos e recentes dos participantes do grupo; d) Mão na Massa,
que trata da criação musical coletiva. Dentre os convidados, o Núcleo da Canção
já promoveu encontros com Vitor Ramil, Conceição Teixeira, Chico Saraiva, Bianca
Obino, Felipe Azevedo, Mihay e Coletivo Horta, Mateus Porto e Vanessa Longoni.
Outra ação implementada neste terceiro ano foi a Residências Artísticas que
promove encontros com artistas renomados no âmbito da Música Popular e áreas
afins, ampliando o diálogo e o intercâmbio de saberes entre profissionais, pesqui-
sadores e artistas com a comunidade de Pelotas. Tal ação tem como principal con-
tribuição a recriação de um circuito artístico universitário, integrando agentes da

Figura 8: Núcleo da
Canção - “Canções
para Re(e)xistir”
em parceria com o
DAMB

Fonte: Acervo Núcleo


de Música Popular da
UFPEL

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 202
cadeia produtiva da cultura, com ênfase em música popular.
Após apresentarmos as atualizações relacionadas ao espaço
e as ações do Núcleo, seguimos para o último item deste re-
lato que trata de uma breve discussão sobre os resultados e
transformações que o projeto trouxe para o Curso de Música
Popular da UFPEL.

Discussão sobre os resultados


atingidos
Ao apresentar as ações do NuMP desde sua implemen-
tação até sua atual consolidação e ampliação, foi possível
apontar alguns possíveis direcionamentos para o ensino de
música música popular no Brasil. Refletindo sobre os resul-
tados iniciais do projeto do NuMP, foi possível perceber que
o mesmo visa desenvolver suas ações, em sua maioria, vol-
tadas à comunidade externa promovendo a interação e diá-
logo com a comunidade acadêmica através de espetáculos
e atividades abertas, ampliando o acesso aos materiais pro-
duzidos pelos acadêmicos. Neste modelo proposto, não só
a comunidade pôde ser contemplada com a aproximação
das atividades acadêmicas, como os alunos participantes
das ações do núcleo passara a usufruir desta troca, comple-
mentando sua formação e desenvolvendo habilidades que
o curso em si não proporcionaria. Por estas razões acredi-
tamos que a principal constribuição para a implementação
destas metodologias participativas é que, a Música Popular,
área interdisciplinar por excelência, necessita da intensa
troca de saberes e epistemologias com tradições, memó-
rias e práticas vivas.
As atividades de pesquisa, ensino e extensão do NuMP da
UFPEL buscam aproximar as ações de pesquisa às práticas
de grupos musicais locais que passaram a colaborar direta-
mente com os projetos de extensão do curso de bacharela-
do em música. A integração com a comunidade resultou no
aprofundamento de experiências e o contato com práticas
musicais que transcendem as fronteiras da academia, pro-
porcionando interações culturais de importância social mais
ampla. A pesquisa associada à extensão discutiu o espaço

Figura 9: Núcleo da
Canção - Cartazes de
Eventos Realizados

Fonte: Acervo Núcleo


de Música Popular da
UFPEL

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 203
que hoje é permitido à comunidade externa na academia, em especial os locais
tradicionais de ensino de música que ainda não estão preparados para receber mú-
sicos com formações baseadas na atividade profissional ou advindas de matrizes
orais que não se encaixam no perfil de música tradicionalmente praticada na aca-
demia. Nesse sentido, as ações do projeto do NuMP, possibilitaram a criação de
novos espaços de experiência musical dentro da universidade, a partir da abertura
do campo acadêmico aos saberes não acadêmicos, propiciando novas sínteses e
epistemologias.
O ensino da música popular na universidade trouxe inúmeros desafios ao pro-
cesso ensino-aprendizagem, já apontados em trabalhos acadêmicos por Swanwi-
ck (2003) e Green (2012), assim como a difícil relação entre o universo acadêmico
e o profissional em música tal como aponta Moulin (2006). Por isso, acreditamos
que a inserção dos discentes do curso nas ações que estão sendo implementadas
pelo NuMP, junto a comunidade pelotense, contribui de forma significativa para a
formação acadêmico-profissional destes alunos por meio de experiências orien-
tadas que promoveram a melhoria na qualidade do processo de ensino-aprendi-
zagem, auxiliaram no combate à reprovação, à retenção e à evasão do Curso de
Bacharelado em Música da UFPEL.
Para tanto, a metodologia utilizada nas ações do projeto vem sendo da pesqui-
sa- ação buscando intensificar a experiência musical através do trabalho colabora-
tivo, tais como nos projetos de Tygel e Nogueira (2006), Braga et al (2008) e Grossi
(2009). Assim como ocorre nestes projetos, as ações do núcleo visam integrar as
atividades artístico musicais dos Cursos de Música da UFPEL, proporcionando ao
público em geral o contato com práticas musicais que primam pela valorização,
promoção e comprometimento com a identidade cultural regional.
As ações do NuMP estão voltadas para a continuidade e a integração entre as
atividades de pesquisa, ensino e extensão. Todas as atividades desenvolvidas du-
rante estes quatro anos tiveram seus objetivos alcançados, compartilhando e tro-
cando conhecimento e cultura entre o meio acadêmico e a população pelotense,
com apresentações periódicas e consequente valorização da identidade cultural
regional. O crescimento das ações, além do interesse do público geral, se deu tam-
bém pela transferência do LAMP para o estúdio de produção fonográfica, espaço
onde as ações tiveram um campo muito mais qualificado para crescer e se desen-
volver. O trabalho tem a pespectiva de seguir com a promoção e revitalização das
práticas e locais de socialização, aprendizagem e apreciação musical, estimulan-
do o surgimento de novos músicos formados pelos Cursos de Música Popular da
UFPEL, conectados com tradições e epistemologias que multiplicam e ampliam a
relação entre a Universidade e as práticas de grupos musicais locais.

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SOBRE OS AUTORES
Rafael Henrique Soares Velloso, ba- Leandro Ernesto Maia, licenciado
charelado em saxofone pela Universi- em Música pela Universidade Fede-
dade Estácio de Sá, licenciado em mú- ral do Rio Grande do Sul. Doutor em
sica pela Universidade Federal do Rio Música (Songwriting) pela Bath Spa
de Janeiro. Doutor em música pela Uni- University/Reino Unido. Professor do
versidade Federal do Rio Grande do Sul. Centro de Artes da UFPEL junto ao Cur-
Professor do Centro de Artes da UFPEL so de Bacharelado em Música. E-mail:
junto ao Curso de Bacharelado em Mú- [Link]@[Link]
sica. E-mail: rafavelloso@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº3 207
O FRANCÊS VISTO
ATRAVÉS DO CINEMA

Isabella Mozzillo

Apresentação
Como professora de Língua Francesa atuando na UFPel desde 1991, sempre
usei o espaço dentro e fora da minha sala de aula para apresentar aos alunos filmes
nessa língua. Durante muitos anos, usei nos aparelhos de videocassete e nos pou-
cos televisores que tinha à disposição fitas VHS alugadas ou compradas.
Com a mudança do então Departamento de Letras para o prédio chamado de
ILA – Avenida em 2002 e com a subsequente chegada do LAAC, Laboratório áu-
dio-ativo–comparativo, cujo propósito era o aprimoramento da aprendizagem de
línguas, vi a oportunidade perfeita diante de mim.
Assim, em um primeiro movimento, criei o Projeto de Ensino O Francês visto
através do cinema destinado aos alunos da Licenciatura em Letras - Português e
Francês, que começou a funcionar nos períodos de recesso de inverno e verão.
Durante as férias de inverno e verão de 2002 e 2003 e nas de inverno do ano 2004
apresentei filmes em Língua Francesa tanto em VHS como em DVD - que alugava
ou que eram de minha propriedade - na moderna aparelhagem.
O LAAC tinha bancadas com 20 televisores e 40 lugares. Cada aparelho era uti-
lizado por dois alunos, sentados lado a lado, e contava com fones de ouvidos in-
dividuais. Dessa maneira, o filme que eu rodava era visto de perto pelas duplas e
escutado com extrema nitidez por cada aluno.
Ofertei, então, 5 vezes o Curso O Francês visto através do cinema I, II, III , IV e V
até que, pelo sucesso de público, resolvi transformá-lo em Projeto de Extensão e
destiná-lo à comunidade geral.
Desde 2005 passei a ter alunos dos outros cursos de Letras, de outros cursos
da Universidade e, também, de fora da UFPel, abrangendo interessados em geral
pela Língua Francesa e pelo cinema.
CULTURA Nº4

As discussões que, durante o Projeto de Ensino, eram realizadas em francês,


passaram a ocorrer em português devido ao fato de que o público, mais abran-
gente, não necessariamente entendia a língua. Os filmes eram projetados com o

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 208


som original e com legenda em português e as discussões posteriores ocorriam na
língua comum a todos.
Coordenei, a partir daí, diversos Projetos de Extensão ligados ao cinema em
Língua Francesa, já não mais nos períodos de recesso, mas ocorrendo as sessões
durante as manhãs do segundo semestre letivo. Mantive o mesmo nome por acre-
ditar que era interessante o duplo sentido existente nas palavras “O Francês”: a
língua francesa e a pessoa culturalmente ligada à língua.
O Francês visto através do cinema I ocorreu em 2005, sendo seguido por O Fran-
cês visto através do cinema II, em 2006, O Francês visto através do cinema III, em
2007, O Francês visto através do cinema IV, em 2008, O Francês visto através do
cinema V, em 2009, O Francês visto através do cinema VI, em 2010 e O Francês visto
através do cinema VII em 2011.
Em cada edição havia, aproximadamente, 40 participantes, sendo que muitos
alunos fizeram mais de um curso cada um. É interessante salientar que o público
era formado também por ex-alunos já formados, que seguiam cativados pelo Pro-
jeto e, que, interessantemente, traziam seus próprios alunos para assistirem aos
filmes.
Mesmo depois que o Centro de Artes e Comunicação se mudou para o Campus
Porto, em 2010, o LAAC seguia funcionando no antigo ILA - Avenida, o que possi-
bilitou as edições de 2010 e 2011.
A partir de 2012, com o prédio usado para outros fins e depois não mais pela
UFPel, não houve continuidade na projeção de filmes nesse Laboratório.
Em 2013 coordenei o Projeto O Francês visto através do cinema VIII - As várias
faces da mulher no cinema francófono, que foi ministrado por dois acadêmicos,
Giulian da Silva Pinto e Renata Ferreira Silveira e Silva, e que mudou ligeiramente
o título para dar lugar a um recorte mais específico. Essa edição ocorreu já nas
dependências do Campus Porto. Havia mais lugares porque se usava o Auditório
Acadêmico, mas se perdia o detalhamento sonoro pelo fato de não estarem mais
disponíveis os fones de ouvido individuais. A imagem também não era tão nítida
porque projetada em tela branca a partir de data show e não mais nos televisores.
Em 2016 o Projeto de Extensão O Francês pelo cinema teve lugar no prédio do
Idiomas sem fronteiras, tendo sido coordenado por mim e ministrado pela leitora
de Língua Francesa, Profa. Camille George.

Organização geral do Projeto


O Projeto consistia na projeção de filmes falados em francês e produzidos em
países francófonos como, por exemplo, a França, o Canadá, a Bélgica, a Suíça, com
discussão posterior.
O que me moveu a criá-lo foi a necessidade de aprofundamento de conheci-
mentos ligados à cultura de expressão francesa em diversas partes do mundo.
Sabe-se que o ensino da língua estrangeira pode ser muito mais produtivo se
estiver acompanhado da análise dos comportamentos culturais dos falantes nati-
vos ou dos falantes que estão imersos nos ambiente de emprego da língua. Desse
modo, o cinema em francês, além de ser fonte riquíssima de informação linguísti-
ca e cultural, possibilita conhecer a estética própria dos povos francófonos.
Além disso, há uma visível falta de oportunidade por parte dos alunos - e da
população pelotense em geral - de verem filmes de expressão francesa na cidade,
pois nossos cinemas costumam apresentar filmes em Língua Inglesa na maior par-
te das vezes.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº4 209
De uns poucos anos para cá, o Cinema do Shopping Pelotas tem trazido o Fes-
tival Varilux de Cinema Francês, evento que não existia na época em que criei o
Projeto e que, mesmo hoje em dia, é visto por poucas pessoas em razão dos valo-
res do ingresso, entre outros motivos. Sendo assim, é importante que o Curso de
Letras possa promover e incentivar a apresentação de filmes, sempre que possível,
de forma a aprofundar ao máximo diversos tipos de conhecimentos ligados à ex-
pressão francesa.
Para os estudantes de francês como língua estrangeira, ter acesso a situações
reais de comunicação na língua que estudam e à expressão cultural de povos que a
falam é imprescindível durante o processo de aprendizagem.
Por outro lado, o Projeto tinha o objetivo de acrescentar informações linguís-
ticas e culturais a amantes do cinema francófono, não necessariamente falantes
ou estudantes da língua. Na medida em que os filmes foram sendo exibidos, um
número cada vez mais expressivo de pessoas foi tendo acesso a novas formas de
ver o mundo e começaram a assimilar distintas maneiras de organizar os afetos, as
emoções, as experiências estéticas.
Após cada sessão, a discussão era dirigida de modo a que todos os espectado-
res expressassem suas opiniões, fizessem perguntas sobre o filme, sobre a língua,
sobre a maneira de filmar propriamente dita, sobre a organização social dos povos
que falam francês.
Assim, os participantes podiam se posicionar acerca do filme, mostrando livre-
mente suas impressões e seus questionamentos e consolidando a compreensão
sobre a produção cinematográfica em geral.

As motivações do Projeto
O que em primeiro lugar me motivou a usar o cinema na aula - e depois fora da
aula de Língua Francesa - foi o fato de que o filme é um precioso documento au-
têntico, necessário e útil para se aprender línguas.
O cinema é um instrumento perfeito para poder sensibilizar o aluno aos ele-
mentos de cultura que permeiam as relações entre pessoas de outros lugares e que
têm modos de vida distintos. Por isso,
a atmosfera do filme, os personagens e suas emoções estimulam a in-
tuição no sentido de descobrir o significado das palavras, – seu sentido
literal ou uso figurado – através do envolvimento afetivo, do estranha-
mento, do caráter lúdico e do prazer despertados pela narrativa cine-
matográfica. Assim, como documento autêntico, o filme permite que o
espectador mergulhe na cultura de um país – personagens, tipos huma-
nos, linguagens diversas, ritmos urbanos, fórmulas rituais, paisagens, in-
teriores, moda, hábitos cotidianos, modos de relações, – e por isso vem
sendo usado por muitos professores de língua estrangeira. (MACHADO
e MOZZILLO, 2007)

A língua falada pode ser analisada através de diferentes situações de comuni-


cação e sabemos que o cinema veicula elementos culturais intimamente ligados
à expressão linguística. O espectador pode ser levado a descobrir o sentido de
construções linguísticas e de comportamentos pragmáticos ao desenvolver uma
competência intercultural através do envolvimento afetivo, do estranhamento, do
caráter lúdico e do prazer despertados pela narrativa cinematográfica.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº4 210
A leitura fílmica em sala de aula de línguas ou fora dela, no âmbito do Projeto,
era levada a cabo quando do estímulo à intuição dos espectadores, que aprende-
ram a observar o comportamento, a linguagem corporal, a visão de mundo, o hu-
mor, os cenários, os figurinos e a própria concepção do filme.
Desenvolver uma competência intercultural é fundamental para que o aluno de
línguas “seja capaz de identificar, reconhecer e interpretar atitudes e comporta-
mentos expressos no discurso, mas igualmente através de gestos, comportamen-
tos, referências históricas e literárias” (MACHADO e MOZZILLO, 2007).
A escolha do filme e a seleção do conteúdo não necessariamente estavam li-
gadas ao nível linguístico em francês dos espectadores, já que o Projeto estava
aberto à comunidade e era sempre legendado em português.
Por esse motivo, o Projeto ultrapassava o nível linguístico propriamente dito
para abordar elementos mais profundos como o sistema de valores e a crença ou
visão de mundo do outro.
A formação para o intercultural não objetiva apenas permitir que a pessoa do-
mine uma língua nas dimensões linguística e cultural, mas permite, eliminar este-
reótipos sociais, lutar contra a xenofobia e o racismo, aprender a respeitar o outro,
abrir-se à alteridade -, o que leva à compreensão entre os povos e ao enriqueci-
mento mútuo (MACHADO e MOZZILLO, 2006).
Frequentemente, antes da projeção propriamente dita, a partir do cartaz, era
discutida a imagem escolhida pela produção para representar o filme. O que era
posto em evidência? O título, aos nomes dos atores protagonistas, os temas, os
lugares? As expectativas geradas seriam cumpridas ou não?
Antes de passar o filme perguntava a que gênero poderia pertencer, quando
e onde se passaria a narrativa fílmica. As informações do cartaz faziam lembrar
algum texto literário ou outro filme já conhecidos? Tais atividades estimulavam
a curiosidade sobre o que se assistiria em seguida e estimulavam a compreensão
mediante a posterior verificação da validade das hipóteses.
Quando o trailer estava disponível no DVD, costumava também passá-lo antes
do filme para ver o que seria imaginado. Assim “em função da banda sonora, do
nome do diretor, dos atores, da fotografia, da iluminação, do tipo de ação e de am-
bientação é possível que o espectador situe o filme no âmbito de um gênero, uma
época, um espaço, uma atmosfera” (MACHADO e MOZZILLO, 2007).
Com o passar do tempo, a cultura cinematográfica dos espectadores do Projeto
foi ficando mais sofisticada e passaram a poder inferir muitos elementos do filme
a partir dos cartazes e dos trailers disponibilizados. Também depois de conhecer o
título, o diretor, os atores, os produtores, os técnicos e as tecnologias, tudo o que
é relativo à feitura do filme conseguiam imaginar com bastante acerto o que viria
a seguir.
Tais atividades exigiram um papel ativo do espectador e levaram à descoberta
de novos elementos culturais e linguísticos através da observação cuidadosa, de
um esforço sistemático – e prazeroso – de interpretação das imagens, da reflexão
sobre a cultura do outro e de sua própria cultura.
Estabelecer laços entre a sua cultura e a do outro permite verificar que,
mais além das diferenças facilmente observáveis, há muitas semelhan-
ças e valores fundamentais compartilhados. Isso pode fazer com que
haja uma relativização, uma não-generalização, uma tomada de consci-
ência da pluralidade e da relatividade dos pontos de vista.
(MACHADO e MOZZILLO, 2006)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº4 211
Entre 2002 e 2016 foram exibidos 108 filmes, alguns tendo sido apresentados
diversas vezes. Abaixo, apresento a listagem por ordem alfabética, com os títulos
no original, o nome dos diretores e o ano de realização.

36, QUAI DES ORFÈVRES de Olivier Marchal 2004


37 °2 LE MATIN – BETTY BLUE de Jean-Jacques Beineix 1986
ANGEL-A de Luc Besson 2005
ASTÉRIX ET OBÉLIX MISSION CLÉOPATRE de Alain Chabat 2002
AU REVOIR LES ENFANTS de Louis Malle 1987
BELLE DE JOUR de Luis Buñuel 1967
BIENVENUE CHEZ LES CH’TIS de Dany Boon, Alexandre Charlot e Franck Magnier
2008
C’EST LA TANGENTE QUE JE PRÉFÈRE de Charlotte Silvera 1998
CACHÉ de Michael Haneke 2005
CAMILLE CLAUDEL de Bruno Nuytten 1988
CHACUN CHERCHE SON CHAT de Cédric Klapish 1996
COCO AVANT CHANEL de Anne Fontaine 2009
CONTE DE PRINTEMPS de Eric Rohmer 1990
COPIE CONFORME de Abbas Kiarostami 2010
CRIME D’AMOUR de Alain Corneau 2010
CYRANO de Jean-Paul Rappeneau 1990
DANS L’OEIL DU CHAT de Rudy Barichello 2004
DANTON de Andrzej Wajda 1983
DE BATTRE MON COEUR S’EST ARRÊTÉ de Jacques Audiard 2005
DÉCALAGE HORAIRE de Danièle Thompson 2002
ENTRE LES MURS de Laurent Cantet 2008
ÊTRE ET AVOIR de Nicolas Philibert 2002
FARINELLI de Gérard Corbiau 1994
FAUTEUILS D’ORCHESTRE de Danièle Thompson 2006
GERMINAL de Claude Berri 1993
HARRY, UM AMI QUI VOUS VEUT DU BIEN de Dominik Moll 2000
HUIT FEMMES de François Ozon 2002
INDOCHINE de Régis Wargnier 1992
JE RÈGLE MON PAS SUR LE PAS DE MON PÈRE de Rémi Waterhouse 1999
JE SUIS LE SEIGNEUR DU CHÂTEAU de Régis Wargnier 1989
JE VAIS BIEN, NE T’EN FAIS PAS de Philippe Lioret 2006
JEANNE D’ARC de Luc Besson 1999
JEUX INTERDITS de René Clément 1952
JULES ET JIM de François Truffaut 1962
L’ADVERSAIRE de Nicole Garcia 2002
L’APPÂT de Bertrand Tavernier 1995
L’AUBERGE ESPAGNOLE de Cédric Klapisch 2002
L’ENFER de Claude Chabrol 1994
LA BELLE PERSONNE de Christophe Honoré 2008
LA CICATRICE INTÉRIEURE de Philippe Garrel 1972
LA DAME AUX CAMÉLIAS de Mauro Bolognini 1981
LA DOUBLE VIE DE VÉRONIQUE de Krzysztof Kieslowski 1991
LA FAUTE A FIDEL de Julie Gavras 2006
LA FILLE DU PONT de Patrice Leconte 1999
LA GLOIRE DE MON PÈRE de Yves Robert 1990

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº4 212
LA HAINE de Mathieu Kassovitz e Saïd Taghmaoui 1995
LA MÔME/LA VIE EN ROSE de Olivier Dahan 2007
LA NUIT AMÉRICAINE de François Truffaut 1973
LA NUIT DE VARENNES de Ettore Scola 1982
LA PIANISTE de Michael Haneke 2001
LA REINE MARGOT de Patrice Chéreau 1994
LA VEUVE DE SAINT-PIERRE de Patrice Leconte 2000
L’ÂGE DE RAISON de Yann Samuell 2010
LE CHÂTEAU DE MA MÈRE de Yves Robert 1990
LE DÉCLIN DE L’EMPIRE AMÉRICAIN de Denys Arcand 1986
LE DÎNER DE CONS de Francis Veber 1998
LE FABULEUX DESTIN D’AMÉLIE POULAIN de Jean-Pierre Jeunet 2001
LE GOÛT DES AUTRES de Agnès Jaoni 2000
LE GRAND CHEMIN de Jean-Loup Hubert 1997
LE HUITIÈME JOUR de Jaco van Dormael 1996
LE MARI DE LA COIFFEUSE de Patrice Leconte 1990
LE PETIT NICOLAS de Laurent Tirard 2009
LE PLACARD de Francis Veber 2001
LE PROFESSIONNEL de Luc Besson 1994
LE TEMPS QUI RESTE de François Ozon 2005
LES CHORISTES de Cristophe Barratier 2004
LES DIABOLIQUES de Henri-Georges Clouzot 1955
LES FANTÔMES DE LOUBA de Martine Dugowson 2001
LES FEMMES DE L’OMBRE de Jean-Paul Salomé 2008
LES INVASIONS BARBARES de Denys Arcand 2003
LES QUATRE CENTS COUPS de François Truffaut 1959
MA SAISON PRÉFÉRÉE de André Téchiné 1993
MA VIE EN ROSE de Alain Berliner 1997
MAIGRET ET L’HOMME DU BANC de Étienne Périer 1953
MARQUISE de Véra Belmont 1997
MERCI POUR LE CHOCOLAT de Claude Chabrol 2000
MONSIEUR BATIGNOLE de Gérard Jugnot 2002
MONSIEUR HIRE de Patrice Leconte 1989
MORTEL TRANSFERT de Jean-Jacques Beineix 2001
NATHALIE... de Anne Fontaine 2003
NELLY ET MONSIEUR ARNAUD de Claude Sautet 1995
NETTOYAGE À SEC de Anne Fontaine 1997
NON MA FILLE, TU N’IRAS PAS DANSER de Christophe Honoré 2009
OUI, MAIS de Yves Lavandier 2001
PARIS JE T’AIME de Olivier Assayas et alii 2006
PARTIR de Catherine Corsini 2009
PÈRE ET FILS de Michel Boujenah 2003
PERSÉPOLIS de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud 2007
PLACE VENDÔME de Nicole Garcia 1998
POTICHE de François Ozon 2010
RIEN NE VA PLUS de Claude Chabrol 1997
ROMAN DE GARE de Claude Lelouch 2007
ROSELYNE ET LES LIONS de Jean-Jacques Beineix 1989
SOUS LE SABLE de François Ozon 2000
STELLA de Sylvie Verheyde 2008

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº4 213
SWIMMING POOL de François Ozon 2003
TATIE DANIELLE de Étienne Chatiliez 1990
THÉRÈSE DESQUEYROUX de Claude Miller 2012
TOUS LES MATINS DU MONDE de Alain Corneau 1991
TROIS COULEURS : BLANC de Krzysztof Kieslowski 1994
TROIS COULEURS : BLEU de Krzysztof Kieslowski 1994
TROIS COULEURS : ROUGE de Krzysztof Kieslowski 1994
UN LONG DIMANCHE DE FIANÇAILLES de Jean-Pierre Jeunet 2004
UNE AFFAIRE DE GOÛT de Bernard Rapp 2000
UNE FEMME FRANÇAISE de Régis Wargnier 1995
UNE LIAISON PORNOGRAPHIQUE de Frédéric Fonteyne 2000
WESTERN de Manuel Poirier 1997
Figura 1: Cartazes ZAÏNA, CAVALIÈRE DE L’ATLAS de Bourlem Guerdjou 2005
de alguns filmes Os critérios de escolha foram variados: época da filmagem, época retratada,
utilizados no projeto diretor, estilo cinematográfico, temática, tipo de personagens, atores, recursos de
Fonte: http://
filmagem.
[Link]-et- A seguir, alguns cartazes já de domínio público, que ilustram uma parte do tra-
[Link]/films-- balho que foi desenvolvido quando da análise e discussão das formas em que o
[Link] filme é apresentado ao futuro espectador.

Algumas últimas considerações


Como toda comunicação humana está baseada num conheci-
mento de mundo compartilhado, poder saber sobre a vida quoti-
diana (organização do dia, refeições, transporte, informação), tanto
pública como pessoal em outras culturas é fundamental para que se
possam conhecer os valores, as crenças religiosas, os tabus, a histó-
ria de certos grupos sociais em outras regiões ou países.
Dessa maneira, estimular a abertura e o interesse por novas ex-
periências, pelos outros, por outras ideias, outros povos, outras ci-
vilizações é necessário para relativizar o próprio ponto de vista e o
próprio sistema de valores culturais, para poder tomar distância em
relação às atitudes convencionais relativas às diferenças e conseguir
uma comunicação intercultural.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº4 214
O que almejei com tantos anos de Projeto foi poder trabalhar com estereótipos
para fazer entender por que existem tantas representações preconcebidas sobre
os outros. Analisar os preconceitos, ver essas representações, as categorizações
e a atribuição de valores aos demais e a nós mesmos, serve para não reforçá-los,
mas erradicá-los dentro do possível. E fiz isso tentando oferecer, ao mesmo tem-
po, o prazer da experiência cinematográfica.

Referências
AUMONT, J.; MICHEL, M. L’analyse des films. Paris: Nathan, « Fac. Cinéma »,
1988.

COMPTE, Carmen. La vidéo en classe de langue. Paris: Hachette, 1993.

EDUCAT. Site du Ministère de l’Éducation et de la Communication de la Fran-


ce. [Link] Textes relatifs à l’éducation artistique et
culturelle. Consulté le: 15 oct. 2019.

[Link]://[Link]/[Link]?./D0061/[Link]%-
23MISEADM. Textes et documents officiels, programmes, ressources. Consulté
le: 15 oct. 2019.

GARDIES, André. Le récit cinématographique. Paris: Nathan, « Fac. Cinéma »,


1993.

Internet Movie Database.  [Link] Features plot summaries, re-


views, cast lists, and theatre schedules. Consulté le: 15 oct. 2019.

Le Quai des images. [Link] Site dédié


à l’enseignement du cinéma et de l’audiovisuel. Consulté le: 15 oct. 2019.

MACHADO, Maristela; MOZZILLO, Isabella. O ensino da língua estrangeira e a


competência intercultural. In: IV Seminário Nacional sobre Linguagem e Ensino –
SENALE, 2006, Pelotas. Anais[…]. Pelotas: UCPel, 2006.

MACHADO, Maristela.; MOZZILLO, Isabella. Os alunos de língua estrangeira vão


ao cinema. In: IV Fórum Internacional de Ensino de Línguas Estrangeiras – FILE,
2007, Pelotas. Anais[…]. Pelotas: UFPel, 2007.

VANOYE, Francis. Récit écrit. Récit filmique. Paris: Na-


SOBRE A AUTORA than, « Fac. Cinéma », 1989.
Isabella Mozzillo, licenciada em
Letras - Português-Francês pela UFPel
e bacharel em Direito pela UFPel.
Doutora em Letras pela PUCRS.
Realizou estágio pós-doutoral em
Letras na UFRGS. Professora Titular
do Centro de Letras e Comunicação
da Universidade Federal de Pelotas.
E-mail: isabellamozzillo@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº4 215
PATAFÍSICA:
MEDIAÇÃO-ARTE-EDUCAÇÃO
NARRATIVAS DE EXTENSÃO, PESQUISA E
ENSINO

Carolina Corrêa Rochefort


Luana Reis Silvino
Raíssa Cardoso Leal
Luzilane Alves Bezerra
Amanda Martins de Abreu
Carolina Mesquita Clasen

Apresentação
O texto busca apresentar o Projeto Patafísica: mediação-arte-educação1, sua
trajetória, contexto, atuação e impacto acadêmico-social durante os 7 anos de
desenvolvimento das ações extencionistas, de ensino e de pesquisa do grupo de
mediadores. Para tanto, a escrita irá pontuar sobre quem somos e como estamos,
apontar a metodologia desenvolvida nas ações de mediação, lembrar e inventar
narrativas a partir das memórias e dos registros de mediações e, por fim, discorrer
sobre efeitos-reverberações-resultados dessas ações, lançando uma flecha para
as próximas atuações do grupo.

1 Ao longo do texto o uso do hífen é recorrente. Por essa repetição e escolha ortográfica referenciamos
o que Agambem (2000, p.171 e 172) chamou de filosofia da pontuação: “é menos frequente salientar que os
CULTURA Nº5

sinais de pontuação, por exemplo, o hífen, pode assumir uma função técnica: o hífen é, deste ponto de vista,
o mais dialético dos sinais de pontuação na medida em que une apenas porque distingue, e vice-versa. [...] a
dialética da unidade e da separação, ou seja, a junção dos sentidos em reciprocidade e coabitação” Assim, o
hífen aponta para o conceito de “devir”, vital na filosofia deleuze-guattariana, junção que propõe a criação,
um encadeamento vocabular.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 216


Patafísica:
Mediação-arte-educação
Iniciado no ano de 2011, pela neces-
sidade de receber as turmas de alunos
das escolas do entorno do Centro de
Artes/CA/UFPel, realizando mediações
no espaço expositivo A Sala, galeria de
arte do Centro, o grupo Patafísica tor-
na-se projeto vinculado ao Sistema de
Projetos da Pró-reitoria de Extensão/
PREC da Universidade Federal de Pelo-
tas/UFPel em 2013. Nesse ano recebeu
seu primeiro nome, Patafísica: media-
dores do imaginário, e número de regis-
tro, 470.
Enunciado pela horizontalidade e
pelo comum interesse na ação de me-
diar estabelecendo diálogo entre os in-
divíduos e suas particularidades sociais
e individuais (Figura1), o grupo inventa
uma mediação que tem como método
o encontro, partindo das experiências
Figura 1 - Registro
da reunião do de cada integrante enquanto mediadores e mediados.
Grupo Patafísica: Incomodados com experiências de mediação explicativas e informativas os
mediadores do patafísicos são motivados a propor, realizar, discutir, estudar e pesquisar uma
Imaginário, no mediação no campo das Artes que acolhe a multiplicidade de olhares da experiên-
quintal da casa que
cia artística. Percebendo a potência dessa experiência, desenvolvem mediações
funcionava a Galeria
Casa Paralela, na propositivas realizadas por uma fazeção. Assim, convidam o visitante a experimen-
cidade de Pelotas, tar proposições de mediação a partir das afetações que a exposição incita no grupo
em 2012. Nesse (formado por visitante e mediadores) e em cada sujeito, no encontro na galeria.
período, o grupo O grupo continua até hoje, no entanto, com integrantes novos, acadêmicos
atuava também na
que entram a cada ano nos cursos do Centro de Artes e com “velhos patafísicos”
galeria em questão
onde realizava-se as — denominados co-fundadores — , o quais continuam atuando nas reuniões, me-
reuniões. diações e produções acadêmicas de maneira presencial ou a distância e também
colaborando como professores-artistas-pesquisadores em Pelotas e em diferentes
Fonte: Acervo do lugares do Brasil.
Grupo Patafísica.
Atualmente, o Patafísica ampliou os lugares de atuação, transbordando a ga-
Foto de Gustavo
Reginato. leria e as exposições de arte, desenvolvendo mediações artísticas em escolas, no
espaço da cidade e em eventos acadêmicos e culturais, bem como contribuindo
para a formação de novos mediadores. Dessa maneira, o grupo trabalha e provoca
o pensamento e a prática da mediação, dando continuidade ao estudo dessa prá-
tica por sua potência criadora.
Buscando reiterar e identificar a amplitude e abrangência das ações desenvol-
vidas, em 2019 o Patafísica: mediadores do imaginário é atualizado e recadastrado
no sistema de projetos da Pró-reitoria de Extensão da UFPel sob o nome de Pa-
tafísica: mediação-arte-educação, número 1483. O novo nome indica os desbor-
damentos entre os diferentes campos que envolvem a perspectiva da mediação
“Patafísica” e mantém a referência ao dramaturgo francês Alfred Jarry, criador da
Patafísica, já que nossa maneira de mediar aproxima-se da “ciência das soluções

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 217
imaginárias e das leis que regulam as exceções.” (JARRY, 1972, p. 668). Enquanto
ciência, a Patafísica busca ir além da Física e da Metafísica para explorar o estudo
das exceções, das particularidades, tendo em vista que ambas entidades buscam
soluções generalizadas para tentar explicar um universo que o saber dominante
não ensina a ver.

Uma mediação artística: surfando por uma


metodologia do encontro
Como dito anteriormente, o incômodo com experiências de mediação guiadas
ou orientadas incitou no grupo o desejo de realizar uma mediação diferente. Bus-
cava-se também estabelecer uma relação horizontal com o público, desconstruin-
do a existência do mediador como alguém que detém a verdade da obra ou da
exposição de arte.
Assim, é reafirmada a ideia de que a mediação poderia ser menos informativa e
mais participativa, construída na conversa a partir dos saberes, partilhando pensa-
mentos, pontos de vista e afetações. O grupo não usa material ou algum elemento
de identificação como estratégia para colocar-se com o público — sem uniformes,
por exemplo — misturam-se entre eles, entre nós, entre informações, desejos,
perguntas, proposições. Isto é, levando em consideração ao que supunham os pa-
tafísicos, Patafísica é que estar entre, mediar é de antemão o cruzamento total
do tempo com o espaço . Já que a proposição de guiar outrem por um percurso
de criação exposto é deixada de lado, trocada pelo acontecimento, tratando os
encontros em suas projeções desejantes (Fig. 2).

Figura 2 - Patafísica:
mediadores do
imaginário, Mediação
da exposição/defesa
de mestrado de
Carolina Morais
Marchese, “Uma
intenção (além do
visível): desenho” e
Galeria Casa Paralela.

Fonte: Acervo do
Grupo Patafísica,
2014.

Nesta condição de trabalho, em intensidades diferentes, produz-se o inespe-


rado, momento em que besouros, mesmo contrariando fórmulas da física e da
aerodinâmica, lançam voos. Pela metodologia do encontro “as ‘questões’, o ‘pro-
blema’, o ‘objeto’, o ‘sujeito’ não estão aí, nunca são dados, devem ser inventados
de novo, ainda estão por vir [...]” (TADEU; CORAZZA; ZORDAN, 2004, p. 36). Isso
quer dizer mais de Aion que de Cronos. Deleuze para construir o conceito aconte-
cimento o caracteriza como “sempre qualquer coisa que acabou de passar ou que
vai se passar, simultaneamente, jamais qualquer coisa que se passa” (DELEUZE,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 218
1974, p. 79). Essa suspensão, característica da temporalidade de Aion e explorada
pela mediação artística-patafísica, lança-se na incerteza do voo do besouro para
uma ética spinozista, daquilo que pode produzir os encontros, de aumentar e/ou
diminuir nossa potência de agir. A Ética de Spinoza (2010) desarticula o sistema
de julgamento e os valores transcendentais, desta forma a exposição está como
experiência artística, propondo a apropriação, movimentando questões do campo
da arte, do social e do político.
Por uma espécie de ativação do gesto — a pensar em uma gestologia do espec-
tador anunciada na caminhada pela galeria e disparada na proposi~ção, ou seja, na
fazeção da mediação — é que o movimento do corpo e do pensamento deslocam
imagens, processos, cheiros, traços, lembranças.
O devir do encontro instaurado nas práticas artísticas da Arte Contemporânea,
em especial no Brasil, desde as décadas de 1960 e 1970, é referência para as propo-
sições patafísicas: ações de caminhar e cortar do papel, do balançar do corpo, do
suspender o tecido branco. A produção de artistas como Lygia Clark, Helio Oiticica,
Lygia Pape, já em 1966, apresentam uma arte participativa e/ou colaborativa, nas
quais o público é agente produtor da obra ou do sentido artístico.
As mediações artísticas residem na possibilidade da instauração de uma peque-
na existência (LAPOUJADE, 2019), apostam nas relações, nos encontros em que a
arte e o próprio campo rompem e criam (Fig. 3). Assim, para que a arte possa acon-
tecer na experiência, o mediador, o “[...] artista é como um espectador dedicado a
esperar que o acidente aconteça” (CANCLINI, 2012, p. 36).

Figura 3 - Patafísica:
mediadores do
imaginário, Mediação
da exposição
Coração Gordo:
a multiplicidade
experimental de
Fabiano Gummo —
Galeria A Sala/CA/
UFPel.

Fonte: Acervo do
Grupo Patafísica,
2012.

Para as mediações Patafísicas, a metodologia do encontro tende a experimen-


tar, estudar, movimentar a exposição, a arte, a escola, a cidade, o corpo, o pensa-
mento, as certezas etc. Esses movimentos acontecem em pré-mediação quando
o grupo busca alinhavar a proposição de mediação, a fazeção, bem como durante
e após as mediações quando o grupo experimenta a fazeção com o público. Os

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 219
movimentos sucedem nas reuniões do grupo, em conversas com os curadores, em
conversações com os artistas, professores, gestores, mediados, mediadores etc.
Esses movimentos pouco lineares são constitutivos de uma abordagem coletiva
como proposição artística a partir de tais encontros e atravessamentos.
Então, uma mediação, enquanto proposição alinhavada, sutilmente estruturada,
tende a mover-se pelos pontos de inflexão dos movimentos, no contato dos
encontros. Isto porque os procedimentos do encontro independem da proposição
de mediação em específico, já que “as coisas nunca passam lá onde se acredita,
nem pelos caminhos que se acredita” (DELEUZE, 1998, p. 10, 12). Os encontros
enquanto “devires são orientações, direções, entradas e saídas” (DELEUZE, 1998,
p. 10, 12).
Desde que o grupo começou a encontrar-se semanalmente, já em 2011, cons-
trói, de maneira orgânica, um método de mediação que chamamos de “artística”,
uma mediação que acontece no encontro e por uma fazeção; um fazer que ques-
tiona, articula, pulsa e impulsiona a possibilidade da experiência artística, uma ex-
periência estética e criadora. Então, para os patafísicos, “a pergunta não é o que é
arte, mas o que ela pode fazer?” (POPELARD, 2002. Apud CANCLINI, 2012, p. 209).

Memórias-narrativas-registros: 3 fazeções,
múltiplas mediações
Narrativa 1 - Na escola
Carol pediu que realizássemos escritas sobre as mediações que aconteceram nos
últimos dias, semanas, meses. Nos últimos tempos.
Para mim, a escrita, assim como a mediação, tem como impulso o contato, o en-
contro. Por isso não consigo mais iniciar escritas de outra maneira que não assim,
como se estivesse conversando com quem está lendo.
Tenho pensado muito sobre o que ela é, pois ela é quem tem “tomado” meu tempo
ultimamente. Na verdade, ela faz parte de mim desde sempre, mas percebi isso mais
forte agora. É como quando descobri a minha própria sombra.
Minha avó contou certa vez que tive medo quando percebi o desenho que meu cor-
po fazia na parede quando a luz incidia nele. A mediação foi como a sombra, sempre
esteve comigo, mas quando a percebi, me assustei, tive medo. Acho que é normal ter
medo de algo que a gente nunca notou, por mais que estivesse sempre ali.
Como em qualquer mediação que participo, naquela primeira quarta-feira na Es-
cola Técnica Estadual Professora Sylvia Mello2, estava com medo, medo de que o en-
contro não acontecesse. Logo que chegamos, naquela escola que fez parte da minha
vida escolar, também me assustei, ela era tão diferente das minhas lembranças de
criança. A escola estava em silêncio, um silêncio presente em igrejas.
Nossa proposta de fazeção de mediação daquele dia era de “Turistar na escola”
(Fig. 4), descobrir, pelo olhar e relação de uma parte dos habitantes da escola, aquele
espaço de educação. Nossa referência para aquele espaço escolar foi a turma 1002, do
primeiro ano do ensino médio. A fazeção estava estruturada para acontecer da seguin-
te maneira: primeiro por uma conversa com a turma, depois por um passeio no qual os
alunos mostrariam as curiosidades e particularidades de quem habita um espaço coti-
dianamente e por fim, ao retornarmos para a sala de aula, nós Patafísicas, guiaríamos
os alunos pela escola propondo um passeio sem a visão, vendando seus olhos.
2 Escola Técnica Estadual Professora Sylvia Mello está localizada no bairro Fragata na cidade de Pelotas/RS.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 220
O silêncio foi meu primeiro contato com a turma 1002. Logo que adentramos à
sala, demorei para conseguir sair desse silêncio. Então fiquei apenas observando
como a turma se comportava dentro daquele espaço, entre si. Carol e Lua, as Pata-
físicas que me acompanhavam, ultrapassaram a imposição silenciosa que eu sentia
e começaram a conversa sobre a relação que a turma tinha com o lugar: “Qual era
o olhar de cada um para aquele lugar?”; “Como relacionavam-se com o espaço da
escola e com as pessoas que lá também habitam?”, “Quais as dificuldades e alegrias
desse convívio?”
Num primeiro momento, nessa conversa, percebi que a relação com a escola era
muito parecida com a que observava dentro da sala, era tudo muito distante. A dis-
tância estava ali, literalmente; a sala tinha um grande espaço entre eles e todos es-
tavam sentados aos cantos. Percebi que essa distância existia com relação ao espaço
da escola também. Ainda na conversa nos disseram que não se sentiam pertencen-
tes, acolhidos naquele lugar, que não existia vontade de estar lá e que grande parte
dessa falta vinha da estrutura de funcionamento escolar.
Na tentativa de encontrar aproximação entre os alunos e a escola, sugerimos que
eles começassem o passeio turístico pela escola nos apresentando os lugares que lhes
eram acolhedores. Quando estavam escolhendo esses lugares, percebi que talvez a
turma não fosse tão distante assim, já que gostavam de estar nos mesmos lugares
pelos mesmos motivos; fosse pelo cheiro bom da comida do refeitório e a acolhida
cuidadosa e amorosa das “tias” da merenda ou pelo espaço amplo da quadra que per-
mite deitar e sentir o chão quente quando faz sol, todos eles estavam juntos nesses
locais mesmo que afastados em pequenos grupos. Na ida até esses lugares, paramos
o movimento de caminhar, sentamo-nos e conversamos sobre as memórias e os afe-
tos que esses espaços traziam, abordando questionamentos sobre o uso e condições
físicas e estruturais de agora e de outrora.
Retornamos à sala de aula após essa caminhada e propusemos um novo cami-
nhar pelo espaço da escola, agora com os olhos vendados. Com poucos lenços para

Figura 4 - Patafísica:
mediação-arte-
educação - Mediação
“Turistando na
Escola”— Escola
Técnica Estadual
Professora Sylvia
Mello — Pelotas/RS,
2019.

Fonte: Acervo
Patafísica.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 221
usarmos como venda, contamos com alguns olhos fechados de quem quis experen-
ciar o novo jeito de caminhar. A confiança aqui foi essencial, já que dispomos em fila
os alunos que estavam sem ver. Assim como eu, com meu medo da sombra, alguns
sentiram-se apreensivos de confiar em quem estava a sua frente, mesmo que já co-
nhecessem a escolar, lugar onde caminhariam.
Guiamos a turma que foi redescobrindo o espaço escolar cotidiano, habitado por
alguns há muitos anos. Perceber a escola pelo vento, pelo tocar nos diferentes pisos
e superfícies edificadas, pelos cheiros e obstáculos que até então não existiam. Pen-
so que para estarmos tomados pela experiência da mediação, se posso dizer assim,
precisamos estar atentos aos nossos cinco sentidos; nessa fazeção, provemos quatro
deles: sentimos, escutamos, tocamos e enxergamos de outra forma. O saborear do
quinto e último sentido foi experenciado com a turma em outra fazeção, e deixo para
contar em uma outra possível conversa.
Assim, com a mediação, podemos desvelar o cotidiano dos hábitos e espaços diá-
rios, provocando a percepção de outras existências, algumas mínimas, que até então
não existiam. Essa experiência provocou a atenção ao que passa, sem nos atravessar,
nos movimentos, gestos, ações e escolhas que acomodam os modos de pensar e es-
tar, principalmente nos atravessamentos do cotidiano escolar. A atenção ao que mui-
tas vezes não percebemos da repetição de hábitos e modos de subjetivação diários
pode provocar a dúvida e criar outras maneiras de existência, de relações cotidianas.
E depois de uma conversa final sobre essa experiência de “Turistar na escola” com a
turma 1002, parece que a mediação torna a começar quando termina, mas de outra
maneira.

Narrativa 2 - Na rua
Acho que uma das características mais marcantes do Patafísica é o tanto que ele
muda, como tudo que é feito de gente. O grupo conta com um organismo vivo, en-
corpa “corpo vibrátil” (ROLNIK, 2016). Cada integrante que chega, fica, se distancia,
retorna, traz consigo sua mudança, muda a gente junto, ensina, aprende, erra, chora,
ri, cresce junto. Daí a multiplicidade de olhares, partilhas de interesse, práticas de
atenção que um encontro patafísico suscita. Falamos de um lugar de contágio, cada
mediador divide um tanto de si à medida em que descobre seu modo de integrar o gru-
po, de mediar, registrar, escrever, apenas estar, por vezes. Esse movimento interno é
o que nos direciona para a escola, para a galeria, para a rua, nosso rumo é traçado em
conformidade com a vibração desse corpo coletivo. Daqui, parto para a rua.
Esse ano de 2019 o Patafísica integrou a Semana do Caminhar3, evento organiza-
do pela SampaPé que promove uma programação nacional de caminhanças em rede,
a partir de grupos que se dedicam à cidade. Em parceria com o grupo Cidade + Con-
temporaneidade (Faurb/UFPel), convidamos a comunidade local ao encontro, com a
proposta de percorrer um trecho central da cidade de Pelotas (do chafariz localizado
no calçadão ao chafariz da praça Coronel Pedro Osório) na condição do que chama-
mos “Correia Humana” (Fig. 5).
Nessa fazeção, compomos a correia com nossos corpos enfileirados, envoltos por
uma espécie de cinta que passa continuamente por baixo de os nossos pés e acima

3 A Semana do Caminhar é um evento nacional que reúne diversas organizações para celebrar o cami-
nhar, a forma de deslocamento mais utilizada nas cidades brasileiras. Articulada pelo SampaPé (uma orga-
nização sem fins lucrativos que tem como objetivo melhorar a experiência do caminhar na cidade — www.
[Link]), é uma oportunidade de chamar a atenção da sociedade para a forma mais sustentável, sau-
dável e social de se deslocar, que precisa ser valorizada. A Semana de 2019 foi apoiada pelo Insituto Vedacit e
aconteceu de 4 a 10 de agosto, com várias atividades abertas, em Pelotas, Brasília, São Paulo, Florianópolis,
Belém e Recife.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 222
de as cabeças, com o auxílio das mãos que, ao alto, conduzem a correia movida pela
força e tensão da caminhada. Sugerimos naquela tarde a experimentação de três (03)
diferentes materialidades para produzir a correia: papel kraft, plástico bolha e um fio
de malha a fim de explorar diferentes corporalidades ao longo do caminhar.
Caminhamos primeiro envoltos pelo papel. A cor parda e opaca do material con-
tribuem para a criação de um ambiente imersivo, um veículo imersivo, que obstrui a
visão do que é exterior à membrana de papel, principalmente dos que se encontram
no início da fila, e são responsáveis por direcionar o grupo. O som do vento em conta-
to com o papel ressoava fortemente no interior daquele corpo coletivo, próximo aos
ouvidos dos caminhantes, reforçando a cisão entre o dentro e o fora. A precariedade
do material era visível a cada passo dado, quando o papel retornava marcado, amas-
sado, rasgado, molhado até que não mais retornasse, decretando seu limite a partir
do rasgo.
Então caminhamos mediante o plástico bolha. A transparência do plástico muda
toda a relação com o entorno, tornando possível ver através, ainda que uma visão tur-
va cheia de bolhas de ar. Suscetível ao vento, o material leve escapava mais facilmen-
te às mãos, ondulando, também se aglomerava rapidamente sob os pés. Sentimos
algumas bolhas estourarem rente às solas dos sapatos e nas pontas dos dedos das
mãos. Percebemos os olhares das pessoas paradas nos bancos, nas filas de lotérica;
passantes apressadas da área central cheia de gente, como é costumeiro no início de
cada mês. A resistência do plástico parecia maior que a de nossos braços e optamos
pela troca do material, já próximos ao local determinado para finalizar a andança.

Figura 5: Patafísica:
mediação-arte-
educação e Cidade +
Contemporaneidade.
Mediação da “Correia
Humana” na semana
do caminhar. Pelotas,
2019.

Fonte: Fotos de
Liége Eslabão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 223
Caminhar coletivamente sob um único fio. Esse parece ser o material que exige dos
caminhantes a maior desigualdade de esforço: o primeiro da fila precisa conciliar a
passagem do fio pelos sentidos horizontal — amparado pelas mãos acima da cabeça
—, vertical — rente ao comprimento do corpo — e novamente horizontal — equili-
brando-o sob os pés —, ao passo que o último da fila precisa se preocupar em manter
a linha tensionada para que essa passagem aconteça mais facilmente; os demais in-
tegrantes caminham mais facilmente, ocupando-se apenas com o equilíbrio forjado
sobre a linha, e garantindo sua passagem por entre as mãos.
Seguimos até o centro da praça, onde nos acomodamos no chão para nos reco-
nhecer e conversar sobre as reverberações emergentes da andança, partilhando per-
cepções do interior da Coorreia Humana, das múltiplas materialidades com as quais
nos relacionamos, mas também do exterior, dos olhares e falas de estranhamento
que captamos na passagem, ao fraturar o fluxo cotidiano de uma tarde no centro da
cidade de Pelotas.

Narrativa 3 - Na galeria
Dos diversos grupos que recebemos para mediar, volta e meia cruzam nossos ca-
minhos educadores de diferentes lugares de atuação e em distintas situações da pro-
fissão: acompanhando as turmas, mediando a turma conosco e sendo mediado jun-
to, em cursos de mediação, como parceiros de pesquisa, na formação de mediadores.
Essa terceira narrativa apresenta uma mediação que foi criada em função do gru-
po de visitantes que recebemos na exposição Desfronteiras4, um grupo de professo-
res-pesquisadores, acadêmicos do Programa de Pós-graduação em Educação da Fa-
culdade de Educação da UFPel. Querendo provocar o lugar e a postura do professor,
realizamos uma fazeção que performava de maneira caricatural as maneiras de ope-
rar, os gestos, as falas, enfim, corporeidades de um professor “embrutecedor” (RAN-
CIÈRE, 2011). Problematizando uma pedagogia tradicional, “fundamentalmente
preocupada com a maneira mais eficiente de transmitir esses saberes a um conjunto
de aprendizes” (TADEU, 2002, p. 55).
Denominamos essa fazeção de “Mediação da Mentira” (Fig. 6 e 7), já que as infor-
mações e explicações das obras eram mentiras inventadas pelos mediadores patafí-
sicos. Somente o discurso de uma obra exposta abordava o olhar intencionado pelo
artista ou do ponto de vista do artista.
Conduzimos o grupo pela galeria como professoras que despejavam o conheci-
mento das obras sobre os alunos, não havendo espaço para reverberações do que
estava sendo atirado contra eles. Assim, a cada obra visitada, mirada, uma história
inusitada repleta de mentiras mirabolantes e os olhares do grupo que, de tão enges-
sados, nem coragem tinham para rebater as inquietações que lhes sobrara.

4 Exposição coletiva dos formandos dos cursos de Artes Visuais — Bacharelado e Licenciatura/CA/UFPel
na galeria A Sala, ano de 2015.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 224
Figura 6 - Registro
fotográfico
da “Mediação
da Mentira”
da exposição
Desfronteira:
formandos Artes
Visuais 2015 realizada
em 2016.

Fonte: Acervo
Patafísica.

Figura 7 - Registro
fotográfico
da mediação
da exposição
Desfronteira:
formandos Artes
Visuais 2015 realizada
em 2016.

Fonte: Acervo
Patafísica.

O estranhamento da arte gera distâncias abissais entre o sentir e o entender.


Atuando várias vezes como professora-mediadora-embrutecedora nessa mediação,
observava muitos corpos inquietos e indignados, mas ao mesmo tempo rígidos e ca-
lados. Conforme andávamos em grupo pela galeria ia aproximando-se o fim da ex-
periência que incomodava a todos até o momento em que a mentira era revelada.
Nesse dia, chegando ao final do percurso, um dos professores-pesquisadores-visitan-
tes, atravessou a linha que retesava os corpos. Então, quando estávamos falando da
mentira de um trabalho com balões na água, que dizia que os balões eram próteses
de silicone, foi demais para o grupo: “Alguém com três (03) seios?!” – exclamou um
professor. O grupo caiu na risada e o clima tenso se esvaiu. Numa conversa que surge
depois, trazemos à tona essa educação tradicional (TADEU, 2003) que detém saberes

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 225
em um mestre, traçando paralelos com os contextos em que vivenciamos a educação
no nosso país, os processos que passamos e quão distante de compartilhar o conheci-
mento está essa ideia de professor-profeta.

Reverberações acadêmicas-sociais
O projeto, que começa com o propósito extensionista promovendo a media-
ção na galeria do Centro de Artes, A Sala, articula de forma inseparável atividades
de ensino e pesquisa. Um projeto unificado. Os patafísicos reúnem-se semanal-
mente para estudo, escritas e pesquisas individuais e coletivas que são publicadas
nos meios acadêmicos —anais de congressos, seminários, revistas, livros. Mais do
que a democratização do pensamento produzido através de os nossos encontros,
acreditamos na reiteração da discussão da experiência em arte e, sobretudo, com
arte. Processos de escrita, exercícios e práticas artísticas são indissociáveis porque
colocam em análise os incontáveis desdobramentos das relações sociais e políti-
cas já apontadas e inerentes ao campo acadêmico. Já que as mediações, reuni-
ões e estudos, além das ações em pesquisa, promovem a construção de textos e
questionamentos que influenciam ou determinam as pesquisas dos Trabalhos de
Conclusão de Curso dos alunos mediadores no Centro de Artes.
Entre as ações de pesquisa, o grupo já participou como objeto de investiga-
ções de Programas de Pós-graduação, nível mestrado e doutorado de diferentes
pesquisadoras do Brasil e de outros países. Um dos resultados desses contatos
científicos é a criação da parceria com a professora Haydee Beatriz Escudero, da
Universidad Nacional da Patagonia, San Juan Bosco. A parceria interinstitucional e
internacional que articula dois “grupos Patafísicos” é chamada “Patafísica Patagô-
nia: grupo de estudos e pesquisa entre territórios mediados das artes”. Inaugurada
com a vivência da professora Beatriz no grupo Patafísica da UFPel, em setembro
de 2017 (quando residiu em Pelotas) essa parceria busca intercambiar ações de
mediação dos territórios da arte, da educação e da comunidade para reafirmar o
potencial intercessor artístico, político e filosófico da mediação. Realizando, para
tal, uma produção articulada pela diferença através de investigação prática e te-
órica da arte contemporânea e seus agenciamentos com a educação e o urbano,
estimulando a troca e o trânsito entre as experiências e pesquisas.
Como outra reverberação e também fato desses questionamentos está a cria-
ção da disciplina optativa “Mediação artística: experimentações poéticoeducati-
vas”. E, atualmente, a alteração da estrutura curricular do curso de Licenciatura
em Artes Visuais, tornando obrigatória a referida disciplina de Mediação Artística.
Atentos a essa importante mudança curricular, que já mostrava seus movimen-
tos antes mesmo da criação da disciplina, o grupo criou, geriu e desenvolveu o pro-
jeto de ensino “Zigoto: seminário de experimentações poeticoeducativas”5. Essa
ação de ensino na forma de um seminário buscou ampliar e alcançar um maior nú-
mero de alunos da UFPel, principalmente do Centro de Artes, levando e amplian-
do as discussões, práticas/experiências de mediação; apontando a ação de mediar
como ponto de atravessamento das formações do bacharel e do licenciando em
Artes Visuais. Assim, durante o primeiro semestre de 2018 o Seminário foi organi-
zado e estruturado em quatro encontros mensais.

5 Organizado pelo Grupo Patafísica: mediadores do imaginário — o Zigoto trata-se de um Seminário de


Experimentações Poéticoeducativas dividido em quatro encontros com propostas ou proposições a partir de
abordagem poética e educativa.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 226
Trazendo a referência dos Domingos de Criação6, proposto por Frederico Mo-
rais em 1971, o Patafísica, pontou para cada um dos quatro encontros um título
que enunciava uma temática — Praticar o cotidiano, Curadoria de si, Anotações do
ar, Atravessar a linha para destecer fronteiras — e cada enunciado foi impulsiona-
do por perguntas tangentes ao campo da arte e da educação. Todos os encontros
devolveram tais temáticas e perguntas a partir de ações poéticas às instituições
formadoras do artista-educador. Promovendo e convidando ao acirramento dos
limites entre práticas artísticas e educativas aos atuantes do campo das Licencia-
turas e do Bacharelados.
Outra ação de formação realizada pelo grupo foi a participação da Formação de
mediadores da 9ª Bienal do Mercosul — Porto Alegre, em 2013. A parceria ao Pro-
grama Redes de Formação, uma iniciativa para professores, mediadores e público
curioso e interessado em arte, foi a principal ação do Projeto Pedagógico da 9ª
Bienal do Mercosul. Tendo como objetivo constituir-se como uma ampla e dinâmi-
ca rede de formação e intercâmbio de práticas poéticas e educativas, o programa
contou com o grupo Patafísica na condição de formador e tutor na formação dos
mediadores inscritos e oriundos de Pelotas/RS, compartilhando com a 9ª Bienal as
estratégias de formação desse educador.
Ainda no sentido da promoção da mediação artística em espaços de arte e
nos educacionais, em 2014 e 2015, o material educativo do Museu de Arte Leo-
poldo Gotuzzo/CA/UFPel foi criado, desenvolvido e executado pelo grupo, poste-
riormente distribuído para as escolas da cidade de Pelotas em 2016. A parceria
com o MALG, que ocorreu em comemoração aos 30 anos do Museu, resultou num
material didático-pedagógico que anseia produzir encontros com as imagens de
obras das sete coleções do Museu. O material contempla um baralho de vinte e
oito cartas (catorze pares de imagens) com imagens das obras, sete lâminas com
reproduções das obras em tamanho A4 contendo em seu verso informações téc-
nicas, históricas e biográficas, e um livreto com cinco propostas de atividades que
podem ser desenvolvidas e desdobradas nas escolas e/ou nas visitas ao MALG.
Após essa descrição de algumas ações importantes e marcantes para o grupo
nas diferentes áreas de atuação — extensão, ensino e pesquisa — pensamos que
talvez fosse necessário apresentar, nesse tópico de resultados, alguns números
na tentativa de quantificar as experiências, delineando sutilmente esse lugar da
pesquisa em mediação ainda pouco nítido nos campos tangentes. Assim, buscan-
do em nossos relatórios anuais, podemos contabilizar que durante os sete anos
de existência do grupo mais de cento e cinquenta e cinco (155) mediações foram
realizadas, além de trinta e cinco (35) acadêmicos envolvidos como mediadores-
-participantes do projeto e cento e sei (106) pessoas envolvidas em outras ações
do projeto. Neste trajeto em torno de mil e quinhentas (1500) pessoas atingidas
diretamente por nossas ações, por volta de vinte e sete (27) escolas e instituições
de educação e de arte, mais de cento e cinquenta e cinco (155) artistas, mais de
trinta (30) publicações etc.
Parece importante, na atual conjuntura Federal de desqualificação tanto da ex-
periência como da pesquisa e suas produções acadêmicas, priorizar o rumo final

6 Os Domingos de Criação eram realizados na área externa do MAM/RJ, e viam a cidade como extensão
do Museu, e não o contrário. Definido por Morais como “manifestações de livre criatividade” (2013, p. 345) os
Domingos foram tão potentes que aconteceram durante seis domingos entre os meses de janeiro e agosto do
ano de 1971. Cada domingo abordou uma materialidade com uma espécie de orientação partilhada e aberta
ao público por artistas propositores das vanguardas dessa década. Os Domingos trabalharam a experiência
criativa na seguinte ordem: Um Domingo do papel, O Tecido do Domingo, O Domingo por um fio, Domingo
Terra a Terra, o Som do Domingo e o Corpo a Corpo do Domingo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 227
da escrita dos resultados, buscando a reverberação do projeto na formação dos
estudantes dos cursos de Artes Visuais. As mediações artísticas em ambientes de
arte, escolares e urbanos acontecem enquanto extensão, ensino e pesquisa, per-
guntando o papel do mediador enquanto artista-educador. Neste sentido, vê-se
a escola como ambiente de potencial criador e a exposição de arte ou a rua com
potencial educador. Enquanto artista-educador está distante de um transmissor
de conhecimentos e informações, mas próximo de um mediador, o qual media a
riqueza-potência de conteúdos, histórias, pontos de vista etc., envolvidos nesses
ambientes. O hífen entre um artista e um educador verbaliza através dos discur-
sos da mediação o encontro como ambientação de potentes ações perguntado-
ras, erráticas, inventivas que são capazes de catalisar fundamentais atividades da
pesquisa em Educação.
Enxergando o ato de educar enquanto arte, isto é como processo de criação,
Figura 8. Registro e por isso atento ao processo de construção dos saberes, como obra-experiência
fotográfico de criada, a mediação Patafísica pode modificar a percepção do acadêmico em artes
proposta de fazeção
visuais com relação às intituições de educação, escola e universidade, bem como
da “Trama” para
escolas durante uma os espaços de arte e urbanos vendo-os como dispositivos criadores.
reunião do grupo Educar enquanto arte, como processo de criação. A mediação desborda as
Patafísica. Foto ações limítrofes da educação como formação cultural hegemônica, pois se faz na
Carolina Rochefort. atenção aos processos singulares de construção dos saberes. Trazendo como pos-
Fonte: acervo
sibilidade uma obra-experiência criada, a mediação Patafísica propõe a percep-
Patafísica. ção aprofundada do acadêmico em artes visuais com relação às instituições de
educação, escola e universidade, bem como os
espaços de arte e urbanos vendo-os como dispo-
sitivos criadores.
O espaço entre, constituído por trocas, pro-
põe a instauração do porvir: uma perspectiva do
vir a ser arte-educação; conduzindo os acadê-
micos do campo como agentes produtores de
questionamentos: “O que e como somos, gos-
tamos e queremos?”; “Em que lugar gostaría-
mos de estar e de chegar?”. Pensar a mediação
Patafísica enquanto metodologia educativa e ar-
tística proporciona acreditar em uma nova con-
figuração para a educação institucional e para
o ato de educar, propiciando ambientações que
dão ênfase à produção de saberes coletiva (Fig.
8). Uma mediação Patafísica, que acontece no
encontro dos corpos, pondo, assim, a instituição
também como um corpo a ser (re)experienciado
(CLASEN; ROCHEFORT, 2016, p. 214).

Até depois...
Dizemos que a mediação Patafísica começa
quando acaba. Como um nadador que mergulha
na corrente-movimento do mar, corpo a corpo,
e compõe pontos singulares de seu próprio cor-
po e intensidades com os de outro corpo, outro
elemento que desmembra, que leva e empurra a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 228
penetrar num mundo, e outro mundo, e outro mundo... Encontro consigo, enten-
dendo também sua esfera coletiva na subjetividade de cada presença. O mergu-
lhar, o voar…
É pela metodologia dos encontros que intentamos o voo de outros besouros.
Concebendo as mediações como espaços de potência de vida, enxergamos para
além da presença do corpo, mas com o que cada corporalidade é capaz e traz con-
sigo (Fig. 9). Na medida que a mediação provém do encontro exterior com outros
modos existentes, ela se explica pela natureza do corpo. Formadora e deforman-
te, coletiva e singular, que provoca e afeta corporalidades na aposta de uma ética
para a vida.
O Patafísica enquanto corpo coleti-
vo — entrelaçado por nó humano — é
formado por membros e articulações
que prezam por esse lugar inventivo
entre a arte e a educação — eixo ao qual
nos acomodamos como uma espécie
de coluna vertebral. Nas possibilida-
des mediantes o grupo cria, expande,
articula, propõe e experiencia práticas
artisticoeducativas.

Referências
CANCLINI, Nestor G. A Sociedade sem
relato: antropologia e estética da imi-
nência. São Paulo: Edusp, 2012.
Figura 9 - Registro
CLASEN, Carolina; ROCHEFORT, Carolina. A mediação artística compõe khôra:
de reunião Patafísica
feito em desenho espaços estriados da arte e da urbanidade. Anais do XXV Encontro da Associa-
pela mediadora ção Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas; Compartilhamentos na arte:
Isabella Whitaker — redes e conexões / Nara Cristina Santos; Ana Maria Albani de Carvalho; Paula Ra-
realizado em 2015. mos; Andréia Machado Oliveira (Orgs.). Porto Alegre: ANPAP, Universidade Fede-
ral do Rio Grande do Sul, 2016.
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RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação inte-


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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 229
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TADEU, Tomaz. A arte do encontro e da composição: Spinoza + Currículo + De-


leuze. Revista Educação e Realidade, v. 27, n. 2, p. 47-57, 2002.

SOBRE AS AUTORAS
Carolina Corrêa Rochefort, bacharel Amanda Martins de Abreu, gra-
em Artes Visuais pela UFPel. Especialis- duanda em Artes Visuais — Licenciatu-
ta em Poéticas Visuais pela Universida- ra pela UFPel. Desde 2015 atua junto ao
de FEEVALE. Mestre em Poéticas Vi- grupo Patafísica como mediadora. Foi
suais pelo PPGAV - IA - UFRGS. Profes- bolsista de extensão pelo projeto em
sora Adjunta do Centro de Artes-UFPel. 2016.
Coordenadora do Projeto extensão Pa- E-mail: martinsdeabreuamanda@
tafísica: mediação-arte-educação. [Link]
E-mail: carol80cr@[Link]/
[Link]@[Link] Luzilane Alves Bezerra, graduanda
em Artes Visuais — Licenciatura pela
Luana Reis Silvino, graduanda em UFPEL. Participa do grupo Patafísica
Artes Visuais - Licenciatura pela UFPel. desde 2017.
Desde 2016 atua como mediadora jun- E-mail: lanealvesgl@[Link]
to ao grupo Patafísica. Foi bolsista de
extensão pelo projeto em 2017. Carolina Mesquita Clasen, gradua-
E-mail: luarsilvino@[Link] da em Artes Visuais - Licenciatura pela
UFPel. Mestre em Arquitetura e Urba-
Raíssa Cardoso Leal, graduada nismo pela UFPel. Atua junto ao grupo
em Artes Visuais — Licenciatura pela desde 2012, tendo atuado como bolsis-
UFPel. Atua junto ao grupo Patafísica ta durante os anos de 2013 e 2014.
E-mail: [Link]@[Link]
como mediadora desde 2018.
E-mail: raissaleal1997@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº5 230
ZERO4 CINECLUBE
NOVE ANOS PROMOVENDO A
EXPERIÊNCIA DA CINEFILIA

Ivonete Pinto

O valor do cinema como construtor do imaginário e da identidade de um povo


é inegável. A dialógica desta máxima faz com que os países invistam em suas ci-
nematografias. Para responder à necessidade de formação dos que irão para este
mercado produzir os filmes, criam-se cursos de cinema.
A juventude cinéfila – embora nem todos os jovens, nem mesmo os estudantes
de cinema seja por si só cinéfilos – abasteceu a construção dos cineclubes mundo
afora. O mais notável fenômeno, historicamente comprovado, é o francês, como
veremos mais adiante.
O Zero4 Cineclube foi criado pela manifesta vontade dos estudantes de Cinema
da UFPel. Havia o anseio pela oportunidade de verem filmes alijados no circuito
comercial da cidade de Pelotas. Este poderia ser o primeiro dos itens que com-
põem a lista de objetivos do cineclube, projeto de extensão que existe de 2010 e
nasceu com o nome de Zero3 Cineclube. Entretanto, para que corresponda a uma
verdade mais ampla, é preciso falar de todos os outros objetivos e metas que fa-
zem a iniciativa ser longeva e agregar sempre tantos voluntários, bem como atrair
público crescente.
De fato, a origem do cineclube partiu de um estudante, Renato Cabral, aluno
da primeira turma do curso de Cinema e Animação da UFPel. De lá para cá, o curso
foi desmembrado e coexistem duas graduações hoje em cinema: Cinema e Audio-
visual e Cinema de Animação. À época, a necessidade de um cineclube era mais
premente, pois a própria cidade possuía apenas três salas de cinema, em uma pre-
cária galeria da cidade. Os lançamentos resumiam-se a filmes conhecidos como
blockbusters, produzidos pelos grandes estúdios norte-americanos. O cinema na-
cional, por sua vez, com as políticas públicas de fomento, crescia em termos de
quantidade e qualidade, mas não conseguiu espaço. Depois de alguns anos, com a
CULTURA Nº7

abertura de um shopping center com oito salas de cinema, a situação se atenuou ,


porém o cinema nacional continua com poucas chances de visibilidade, fenômeno
que ocorre na maioria dos países e que não cabe aqui adentrarmos em considera-
ções da lógica da indústria cultural. Basta observarmos uma única semana para

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 231


ilustrar: de 03 a 10 de outubro, dos nove títulos em cartaz na rede Cineflix do re-
ferido shopping, apenas dois eram brasileiros. Todos os outros, entre eles Coringa
(Todd Phillips, 2019), eram norte-americanos, com suas cópias legendas e dubla-
das, que ocupavam 80% das salas, pois os filmes brasileiros ocupavam tão somen-
te um horário por dia.
A despeito de quem possa alegar que atualmente é possível ver filmes sem sair
de casa, pois há um colossal acervo disponível a um clique de mouse, é preciso,
primeiro, afirmar que produções à margem do mercado não estão disponíveis tão
facilmente em sites para download; segundo, que praticar o download é uma ati-
tude controversa, pois pode implicar em pirataria, terceiro, que é preciso defen-
der a experiência do dispositivo. Quanto a este último aspecto, vale lembrar que
o dispositivo é um estado psíquico que se encontra o espectador na sala escura
durante a projeção de um filme. Conforme Metz (1977), o espectador da sala escu-
ra está propenso à impressão da realidade, “provocada” pela diegese (o universo
ficcional proposto) e “pelo representado próprio a cada arte, e por outro lado, a rea-
lidade dos materiais usados em cada arte para a representação.” (METZ, 1977, p.
26). No dispositivo, no sentido que inclui o espaço como um todo (projetor, equi-
pamento de som, etc.), tem-se desta forma, a impressão de realidade e a percep-
ção da realidade.
Para Baudry (apud AUMONT; MARIE, 2003), há uma força do “feitiço da imagem
fílmica”, que remete ao mito da caverna de Platão para comparar os espectadores
aos prisioneiros, cuja imobilização refere-se a uma inibição motora, uma das ca-
racterísticas do dispositivo espectatorial. “Essa imobilidade na sala escura provoca
um retorno a um estado antigo do psiquismo, uma regressão, a da pessoa que dor-
me, que repete o estado pós-natal, e até mesmo a vida intrauterina”. (AUMONT;
MARIE, p. 84)
Este cenário é desenhado aqui, pois ilumina uma das razões de ser de um ci-
neclube: exibir filmes que não encontram oportunidade de exibição no circuito
comercial.

O papel dos cineclubes


A etimologia do termo “cinefilia” remete a “amor pelo cinema”, mas o cinéfilo
não é “exatamente um amador erudito como o é, na maior parte do tempo, o ama-
dor de outras artes (teatro, pintura, música, etc.)” (AUMONT; MARIE, 2003, p. 47).
Para os autores do “Dicionário Teórico e Crítico do Cinema”, a cinefilia, por um
lado pode advir de uma “neurose do colecionador e do fetichista”, sendo sua pai-
xão “acumulativa, exclusive, terrorista”, pois propiciaria o surgimento de grupos
elitistas fechados. Por outro lado, os autores defendem uma interpretação para a
cinefilia que passa pela necessidade de compreensão das obras, através da estéti-
ca, que se relaciona então com o apregoado “amor da arte” (idem, ibidem).
Numa palavra, tanto um sentido negativo quanto o positivo engendram uma
fascinação pelo cinema, sem a qual toda a operação de ver e rever um número
imenso de obras não existiria. É o que move o cinéfilo. Toda biografia do crítico e
teórico André Bazin e seu discípulo mais ardoroso, François Truffaut, não existiria
sem a fascinação inesgotável pelas imagens em movimento, o sentido que elas
geram, a emoção que elas provocam.
Tanto o conceito de cinefilia com o de cineclube guarda uma relação umbilical.
Conforme defende Antoine de Baecque (2010), a cinefilia é uma prática cultural,
que como tal se fortaleceu após o fim da Segunda Guerra Mundial e modificou os

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 232
rumos do cinema. Em seu livro “Cinefilia: invenção de um olhar, história de uma
cultura, 1944-1968”, Baecque percorre o período dos movimentos de criação de
cineclubes na França do pós-guerra até a primavera de 1968. Para ele, a forma de
ver e compreender o mundo através do cinema nunca mais foi a mesma, influen-
ciando práticas em outros países também. A experiência de ver filmes em grupo
– muitas vezes de amigos – transformava-se em ritual coletivo, onde o importante
era discutir, inserir o filme em um contexto.
A cinefilia alicerçada nos cineclubes é, portanto, uma experiência coletiva que
leva a uma construção histórica. E um dos primeiros e mais expressivos cineclubes
foi o “Club des amis du septieme art” , fundado pelo teórico Ricciotto Canudo, na
França. Se estas iniciativas promoveram também a formação de novos cineastas
(caso de François Truffaut, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette e outros), ao mesmo
tempo que incentiva e propicia o conhecimento e reflexão junto aos espectadores
nestas exibições, percebe-se que não estamos no campo do mero entretenimen-
to, este que é a mola propulsora dos circuitos de distribuição comerciais. Portanto,
no ambiente universitário, o papel de um cineclube tem ainda maior impacto.
Seguindo no esforço de contextualizar o surgimento do cineclubismo, temos no
Brasil um cenário já nos anos 1920, no Rio de Janeiro, com o Chaplin Club, que além
de exibir filmes internacionais de grande projeção artística, publicava a revista de
análise cinematográfica O Fã. Nesta época, o movimento dos cineclubes alcançou
tamanha expressão que em alguns anos, como relatado por Fatimarlei Lunardelli
em “Quando Éramos Jovens - a história do Clube de Cinema de Porto Alegre”, ha-
via mais candidatos a críticos do que espaço nos jornais.
A história deste cineclube gaúcho é relevante por diversas razões. Sua funda-
ção, em 1948, se dá em um momento de avanço cultural da cidade de Porto Alegre
em relação aos grandes centros metropolitanos do País, visto que, segundo Lunar-
delli (2000), a crítica de cinema já era levada a sério no jornalismo gaúcho. O fun-
dador deste cineclube é o pelotense Paulo Fontoura Gastal (1922-1996). PF Gastal,
como era conhecido e cujo nome batiza uma sala de cinema da Prefeitura de Porto
Alegre, hoje em reforma, chega à capital na primeira metade dos anos 1940 e fun-
da o cineclube. Antes, ainda em Pelotas, além de escrever no jornal Diário Popular,
fazia a programação de uma sala de cinema.
Em Porto Alegre, PF Gastal vem a ser a principal figura aglutinadora da crítica ci-
nematográfica, ao comandar de sua mesa de editor de cultura do jornal Correio do
Povo, todos os críticos que convidava a colaborar para o jornal. Seu amor pelo ci-
nema era celebrado fora do estado também, tanto que Paulo Emilio Salles Gomes,
o criador da Cinemateca Brasileira e considerado o principal crítico do País, dizia
que Gastal era o “Bazin dos Pampas”1. Apaixonado pelos filmes de Charles Cha-
plin, Gastal assinava uma coluna no Diário Popular chamada “Calvero”. Cerca de 70
anos depois, o agora aluno formado pelo curso de cinema, Renato Cabral, conduz
um blog com o nome de Calvero para homenagear o crítico pelotense ilustre.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 233
Nascimento
O curioso é que a cidade de Pelotas,
mesmo com sua histórica atmosfera
cultural, que se orgulhava do número
de salas de cinema e teatros, viu esmo-
recer pouco a pouco a outrora pujança
de oferta. Quando o curso de Cinema
é criado na UFPel, em 2007, havia ape-
nas as já referidas três salas comer-
ciais, impondo uma programação que
priorizavam filmes exclusivamente de
mercado, majoritariamente produções
norte-americanas, apenas visando o
entretenimento massivo. Desta forma,
o anseio dos estudantes veio ao encon-
tro da necessidade de Pelotas voltar a
ter alternativas de programação e en-
tão foi criado o Zero3 Cineclube, que
funcionou primeiramente no Museu
Leopoldo Gotuzzo, mais tarde no audi-
tório do Centro de Artes da rua Alberto
Figura 1 – Cartaz do Rosa aos sábados e, com a criação do Cine UFPel, resultado de esforços de um
filme Doméstica. grupo de professores do curso, o cineclube ganhou uma sede com, finalmente,
condições técnicas mais adequadas. Reformada para uso exclusivo de exibição de
Fonte: Arte: Equipe filmes, a sala situada no prédio denominado Lagoa Mirim, pertencente à universi-
Cineclube.
dade, oferece aos espectadores a verdadeira experiência espectatorial.
Zero3, o nome original, foi batizado assim em uma referência que dialoga com
o perfil de programação que os estudantes almejam. Em 2003 o Festival de Can-
nes apresentou uma mostra competitiva considerada pela crítica e pelos cinéfilos
como de grande potência estética. Reunia as cinematografias periféricas tanto
da Europa como da Ásia, com o melhor do cinema independente americano. Os
títulos eram: Dogville, de Lars Von Trier (Dinamarca), Elefante, de Gus Van Sant
(Estados Unidos), Ouro Carmim, de Jafar Panahi (Irã) Anti Herói Americano, de Sha-
ri Springer Berman e Robert Pulcini (Estados Unidos), Às Cinco da Tarde (Samira
Makhmalbaf (Irã/França). Por terem se passado sete anos e não havendo maior
interesse comercial, obteve-se autorização das distribuidoras e os filmes foram
exibidos no cineclube.
Em 2014, com a formatura do seu idealizador, Renato Cabral, um novo grupo
de alunos foi selecionado, o cineclube mudou para Zero4 e desde então mantém
este nome (por vezes adotando o Quatro por extenso na divulgação). O perfil da
programação, por sua vez, manteve-se fiel em priorizar a diversidade temática, es-
tética e de origem dos filmes, mas outras pautas foram sendo organicamente tra-
balhadas. Quando o cineclube, por exemplo, foi conduzido por alunas mulheres,
foi natural que a programação buscasse abarcar filmes dirigidos por mulheres. A
visibilidade de diretoras é uma reivindicação que sintoniza com a própria cobrança
em sala de aula para os que professores trabalharem mais esta cinematografia. As
alunas Raquel Romeiro e Natália Fenelon2, propuseram títulos que circularam em
festivais de cinema internacionais e não tiveram chance de exibição nas salas de
Pelotas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 234
Foram exibidas as mostras Um Cinema de Mulheres no Mundo Árabe e Elas
no Cinema Brasileiro. A primeira contou com os títulos: Quando Vi Você (Anne-
marie Jacir. Palestina, 2012), O Casamento de May (Cherien Dabis, Jordânia, 2013),
As I Open My Eyes (Leyla Bouzid, Tunísia, 2015), E agora, Aonde Vamos? (Nadine
Labaki, Líbano, 2011).

Figura 2 – Cartaz
para o filme Quando
vi você.

Fonte: Arte: Equipe


Cineclube.

A mostra Elas no Cinema Brasileiro contou com os títulos: Que bom te ver viva
(Lúcia Murat, 1989), A Entrevista (Helena Solberg, 1966) / Trabalhadoras Metalúrgi-
cas (Olga Futemma e Renato Tapajós, 1978), Amor Maldito (Adélia Sampaio, 1984),
Eternamente Pagu (Norma Bengell, 1987), A Hora da Estrela (Suzana Amaral, 1985)
e Divinas Divas (Dir.: Leandra Leal. Brasil, Doc).
A propósito desta programação, no artigo produzido para no CEC - V Congres-
so de Extensão e Cultura da UFPel, assinado pela aluna bolsista Raquel Romeiro
e pela coordenadora do projeto, destacamos que os filmes exibidos causaram,
segundo relatos do público, uma nova ideia sobre o mundo árabe, o meio social,

Figura 3 – Cartaz
para a mostra Elas no
cinema brasileiro.

Fonte: Arte: Equipe


Cineclube.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 235
o ambiente de guerra, e a um espectador específico, causou uma descoberta so-
bre quão tecnológico e desenvolvidos são os países árabes. Alguns espectadores
demonstraram também interesse sobre aspectos técnicos dos filmes, tais como
as escolhas de elenco, os enquadramentos e, ainda na fotografia, detalhes mais
específicos como os tons de cores usados. Na mostra Elas no Cinema Brasileiro,
os diálogos aconteceram dentro do campo político, já que os filmes se passavam
entre um curto período antes ou depois da ditadura militar, o que também direcio-
nou a questões políticas atuais; já no filme Amor Maldito (1984) o debate foi dire-
cionado à intolerância e preconceitos em relação a casais do mesmo sexo, tendo
sido levantada também a erotização acentuada quando se trata de um casal de
mulheres. Amor Maldito, dirigido por Adélia Sampaio, foi o primeiro filme no Brasil
a ser dirigido por uma mulher negra e traz a história de um casal de lésbicas.
Em 2019, o cinema brasileiro ganhou força extra no sentido de uma necessi-
dade. Necessidade de dar maior visibilidade às produções nacionais e de discutir
o sistema de produção em vigor. Por conta de ameaças que rondam o fomento à
produção, que abalam a médio e longo prazo a própria existência e razão de ser
dos cursos de graduação em cinema (ver crise na Ancine3), a mobilização em torno
do tema levou o atual grupo de bolsistas e voluntários a trabalhar em uma progra-
mação voltada aos títulos mais emblemáticos do cinema brasileiro, como exposto
nos depoimentos ao final deste artigo.

Processos de construção e avaliativos


As atividades do Zero4 Cineclube estão estruturadas em consistentes pesqui-
sas, programação, divulgação, debate e documentação das sessões. Para os es-
pectadores, são trazidos o contexto social, estético e político de cada filme. In-
formações sobre o país da produção, perfil do diretor, elenco e questões afeitas à
narrativa inserem o público no universo de cada obra.
Parte da programação de 2015 é ilustrativa de como algumas mostras são cons-
truídas e defendidas. As sessões que inauguraram o novo espaço, o Cine UFPel,
à rua Lobo da Costa, 447, contaram com quatro títulos, cuja curadoria levou em
conta os seguintes aspectos que foram usados na divulgação:
• Mommy : Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2014;
Grande procura do público devido ao caráter mainstream adquirido pelo diretor.
• Avanti Popolo : Presença do diretor na sessão e no debate posterior (sessão
proporcionada pela parceria com a distribuidora Vitrine Filmes); Grande presença
em festivais internacionais como o de Rotterdam 2013 e Roma 2012.
• Festa de Família : Celebração de 20 anos do manifesto Dogma 95.
• A Marca da Maldade : Celebração do centenário de Orson Welles; exibição
da versão restaurada em 1998 de acordo com documento escrito pelo diretor ao
estúdio.
Cada sessão é discutida com o corpo discente e docente, e examina-se resul-
tados qualitativos (os debates) e quantitativos (número de espectadores). Nesta
mostra em específico, avaliou-se que apesar de haver a demanda por um cinema
de arte, a tendência do público é procurar por títulos de grande expressão na mí-
dia e de realização recente, associando a ida ao cineclube com a oportunidade de
experienciar uma obra cinematográfica recém lançada em uma sala de cinema.
No processo de avaliação do cineclube, busca-se também medir a recepção
dos filmes pela imprensa local. A partir do interesse dos jornalistas contatados e

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 236
o espaço obtido nos jornais impressos, veículos online e mídias sociais, é possível
projetar a recepção tanto dos alunos espectadores quanto da comunidade pelo-
tense em geral.
Ao entender o espaço do cineclube como essencialmente democrático, pro-
cura-se um equilíbrio entre a curadoria e a expectativa do público potencial. Ex-
plorando a parceria existente com a Vitrine Filmes, uma das distribuidoras mais
importantes de filmes independentes brasileiros atualmente (distribuidora de
Bacurau, por exemplo), há um esforço para exibir títulos nacionais recentemente
estreados, porém sem inclusão no circuito comercial de Pelotas.
Os números a seguir corroboram a ideia de que um filme brasileiro (Avanti Po-
polo), recém lançado nas capitais e que trouxe o diretor para debatê-lo, tem uma
repercussão positiva, afetando o número de espectadores, como registrado abai-
xo (Tab. 1).
Tabela 1 – Relação de expectadores por filme.
Filme/direção Ano Espectadores
Mommy, Xavier Dolan 2014 45
Avanti Popolo, Michael Wahrmann4 2012 48
Festa de Família, Thomas Vinterberg 1995 18
A Marca da Maldade, Orson Welles 1958 16
Fonte: Equipe Cineclube.

Maurício Vassali desenvolveu seu TCC tendo como tema a sala Cine UFPel. Em
sua investigação, denominada A experiência de cinefilia no cine UFPel: o filme brasi-
leiro na curadoria de uma sala universitária, lembra que acessibilidade advinda do
digital permitiu uma facilitação das exibições domésticas.
As mídias físicas, como o Bluray e o DVD, além das opções online como
o streaming e o próprio download de arquivos - de legalidade discutí-
vel -, são tendências que os novos cinéfilos têm recorrido com cada vez
mais frequência. A facilidade de acesso, o reflexo do próprio capitalismo,
e também a programação restritiva dos cinemas, em especial aqueles
fora das grandes capitais, são fatores que fomentam tal movimento.
Além das alternativas de exibição, a expansão do exercício da crítica se
Figura 4 - Cine UFPel.
dá através de sites, blogs e canais em plataformas de vídeo. Mais que
Fonte: Foto da isso, os fóruns online e as redes sociais permitem o compartilhamento
equipe Zero4. de material e opiniões sobre obras e cineastas (VASSALI, 2018, p. 10-11).

O conceito que defendemos neste


artigo, o de uma cinefilia clássica, co-
nectada às salas de cinema, reverbera
de forma clara no exemplo acima quan-
to ao número de espectadores. Qual
seja o de que a experiência do disposi-
tivo – a sala de cinema e sua conjuntura
física e psicológica – pode implicar em
um interesse por parte dos espectado-
res de uma cidade que não dispõe da
oferta dos grandes centros.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 237
Diversidade
Uma programação que valoriza a diversidade de expressão artística tem sido
uma das principais metas da programação do Zero4 Cineclube. De acordo com
Stanley:
Os perigos da política fascista vêm da maneira específica como ela de-
sumaniza segmentos da população. Ao excluir esses grupos, limita a
capacidade de empatia entre outros cidadãos, levando à justificação do
tratamento desumano, da repressão da liberdade, da prisão em massa e
da expulsão, até, em casos extremos, o extermínio generalizado. (2019,
p. 57)

O risco da desumanização de grupos minoritários acontece por meio de per-


seguições homofóbicas e racistas, que são divulgadas diariamente5. A conscienti-
zação das populações, através de filmes que levem o público a refletir sobre o as-
sunto é também papel do cineclube. Por isto, destacamos aqui uma programação
que discutiu filmes com personagens LGBT, como os já citados brasileiros Amor
Maldito e Divinas Divas, como também o chileno Uma Mulher Fantástica, de Se-
bastián Lelio Chile/Alemanha, 2017). Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estran-
geiro foi a primeira produção estrelada por uma mulher transexual a ganhar esse
prêmio. Exibido em 2018, a sala do Cine UFPel lotou naquela noite, demonstrando
o interesse pela abordagem do tema. Também, destacamos a exibição do clássico
senegalês A Negra de... (Ousmane Sembène, 1966). O filme traz uma denúncia do
colonialismo francês e do racismo estrutural, perpetuado até os dias atuais.

Experiência transformadora
Através dos depoimentos a seguir, objetivamos demonstrar o impacto que par-
ticipar do Zero4 Cineclube ocasiona para os estudantes. O primeiro, Renato Ca-
bral, o egresso que hoje estuda curadoria em Portugal, faz uma abordagem me-
morialística, e os quatro seguintes refletem sobre a programação que desenvolve-
ram durante este ano de 2019, em que houve o peso de um pensamento voltado à
reflexão histórica. Com uma mostra que recuperou filmes rodados durante a dita-
dura militar, percebemos que estes filmes exercem um papel fundamental para a
memória. Chancelando esta urgência temática, a Socine (Encontro da Sociedade
Brasileira de Estudos de Cinema) de 2019 dedicou esta edição ao tema da memó-
ria. Os trabalhos apresentados empenharam-se em chamar a atenção para o valor
de nos voltarmos ao passado para compreendermos o presente e, por extensão,
não repetirmos experiências que se mostraram danosas para a sociedade.

Berço profissional
Ao iniciar o curso de Cinema na UFPel, participava de alguns projetos de cineclu-
bismo na cidade como espectador e notava a importância que esse tipo de espaço ti-
nha para a cinefilia, reflexão e criação de repertório. Um curso de cinema precisa sem-
pre ter um cuidado com a distribuição, exibição e reflexão do audiovisual. Com uma
autonomia proporcionada pela coordenadora do projeto e o apoio dos professores,
foi possível criar uma vertente cineclubista dentro do curso e que expande horizontes
ao mesclar cinefilia, cineclubismo, crítica e curadoria. Quatro grandes paixões que
eu tinha muita vontade de vivenciar profissionalmente. Mais que vivenciar, era dar

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 238
continuidade ao ato de exercitar de maneira total o contato com distribuidoras (foi o
Zero3 que iniciou a parceria com a Vitrine Filmes, que hoje se estende ao Cine UFPel),
cineastas e circuito exibidor. Tornar acessível o cinema brasileiro, europeu, latino-a-
mericano, norte-americano, cinematografias periféricas e até filmes experimentais.
O Zero3 exibiu de tudo um pouco, como numa tentativa de atrair olhares diversos e
de aproximar cada vez mais a comunidade local da universidade e do cinema. E foi,
de certa forma, o meu berço profissional. (Renato Cabral, estudante idealizador do
cineclube).

Os debates
As atividades do Zero4 no ano de 2019 iniciaram-se com sessões especiais, que
trouxeram filmes luso-brasileiros lançados entre 2017 e 2018. A escolha de obras bra-
sileiras, e de coprodução brasileira, tiveram como propósito demarcar, para o ano,
uma abordagem de curadoria que fosse dedicada ao cinema nacional. As primeiras
sessões obtiveram um público mais tímido que parecia estar se acostumando à sala e
também à abordagem dos filmes. Devido à mudança de público percebeu-se também
uma alteração no direcionamento dos debates que discutiram os modos de se fazer
cinema de determinado cineasta, sem deixar de adentrar culturalmente os filmes.
As sessões também foram capazes de proporcionar um contato com um cinema que
muitas vezes não se é possível ter acesso. Acredito que este seja o propósito do Zero4:
aproximar e proporcionar um espaço de conhecimento e discussão sobre todos os vie-
ses de uma obra cinematográfica (Raquel Romeiro, bolsista).

Pensamento crítico
Em 2019, o Zero4 Cineclube realizou, além das mostras mensais, algumas sessões
especiais. Nelas, geralmente são exibidos filmes cedidos pelos próprios realizadores,
que fazem parte de um cinema nacional de arte e/ou que não chegam aos cinemas
comerciais de Pelotas, sendo o projeto, então, uma janela de exibição em meio a um
mercado restrito. No Coração do Mundo (Gabriel Martins, Maurílio Martins, 2019) e
Leste Oeste (Rodrigo Grota, 2016) foram exibidos nessas sessões e proporcionaram
a reflexão e o diálogo sobre diversos temas, entre eles a representação social e o pro-
tagonismo feminino no primeiro filme, e questões técnicas e estéticas no segundo. Os
debates promovidos são a essência do projeto, pois é a partir deles que os participan-
tes desenvolvem o pensamento crítico sobre o fazer cinema. Estes filmes, vale lem-
brar, procuraram ser lançados comercialmente na cidade, mas não obtiveram êxito.
Ao acolher suas exibições, o cineclube cumpre um papel também de promover a visi-
bilidade do cinema nacional que, mesmo em se tratando de filmes premiados, correm
à margem das lógicas do mercado exibidor (Lauren Mattiazzi Dilli, voluntária).

Questões políticas
Dando continuidade à mostra Cinema Político Brasileiro, que trouxe clássicos
da cinematográfica nacional, a mostra Câmera, Balbúrida & Neon se propôs exibir
filmes que discutissem questões políticas, porém que apresentassem novas abor-
dagens para temas recorrentes do nosso cinema. Partindo de produções atuais do
cinema luso-brasileiro, que apresentam um novo modo de realização que se utiliza
da paródia para exercer critica, a mostra foi composta por: Divino Amor (Gabriel
Mascaro, 2019), Sol Alegria (Tavinho Teixeira, Mariah Teixeira, 2018) e Diamantino

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 239
(Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt, 2018). Incitados pelas abordagens provocativas,
os debates transcorreram não somente sobre as questões politicas envolvidas, mas
também sobre as escolhas formais adotadas pelos diretores para lidar com elas. (An-
dré Berzagui, voluntário)

Teoria e prática
Jean-Claude Bernardet, em seu texto O Corpo da Obra, apontava um algoz nos
cineastas brasileiros que faziam filmes para o povo: não bastavam os temas popu-
lares, seus meios de circulação também exigiam um acesso democrático, cabível,
alcançável.
Como voluntário do Projeto de Extensão Zero4 Cineclube, durante o ano de 2019,
foi possível levar a cabo algumas das reivindicações de Bernardet - especialmente
no que tange ao diálogo da obra com o outro, os efeitos e implicações do acesso aos
filmes. Através da Mostra de Cinema Social e Político Brasileiro, tornamos possível a
construção de um diálogo que refletisse o estado social atual do país através de uma
reunião de filmes vastos em relação à idade, território e temática. Unir óticas distintas
dos dramas sertanejos com Os Fuzis (1964) e O Dragão da Maldade Contra o Santo
Guerreiro (1969) possibilitou o debate da desestrutura regional, assim como as fa-
lências urbanas e sociais refletiram-se em filmes como Cabra Marcado Para Morrer
(1984) e Branco Sai Preto Fica (2015) (Rubens Fabricio Anzolin, voluntário).

Conclusões
Como procuramos um diálogo entre ensino, pesquisa e extensão, nesta traje-
tória de nove anos, em que cerca de 270 filmes foram exibidos e discutidos, po-
demos identificar alguns resultados concretos. Eles estão na produção acadêmica
através dos artigos dos alunos para a Orson (revista online produzida no curso de
Cinema), estão em alguns TCCs que escolheram como tema filmes exibidos no ci-
neclube (“Apontamentos sobre um cinema que pensa: Brasil S/A e o filme-ensaio”,
de Adriana Yamamoto), títulos que foram incorporados nos Planos de Ensino de
disciplinas (Cinematografias Periféricas e Cinema Brasileiro, por exemplo) e até
mesmo a curadoria, como um corpus a ser explorado por alunos em pós-gradua-
ção, como informado a seguir.
Em todas as manifestações, é possível observar o quanto questões transversais
ao cinema são revistas e ressignificadas. Não nos ocupamos aqui do impacto desta
experiência com os espectadores da comunidade, pois esta reflexão demandaria
mais tempo e espaço. Mas cabe assinalar que faz parte dos procedimentos dos
alunos voluntários colher listas de presença e depoimentos dos espectadores da
comunidade, até mesmo para verificar suas expectativas e obter retorno sobre a
programação. Optamos por delimitar nosso estudo num esforço memorialístico
concentrado no perfil dos filmes exibidos para, através dele, pensarmos sobre a
repercussão deste projeto na trajetória do corpo discente que se envolveu 100%
na curadoria e na produção das exibições.
Como exemplo, trouxemos o caso de Renato Cabral, aluno que teve a ideia
de iniciar o cineclube e nos procurou em 2010 para abrir um projeto de extensão.
Além do blog Calvero de crítica de cinema, Renato atualmente cursa mestrado
na Universidade do Porto, em Portugal, em Estudos de Arte, com especialização
em curadoria de cinema. Ex-aluno bolsista do Zero4, Matheus Strelow hoje cursa
mestrado Universidade Federal Fluminense com um tema correlato à programa-
ção que desenvolvia no cineclube: “Créditos falados e locuções metalinguísticas:

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 240
práticas e ressonâncias no cinema brasileiro moderno”. Maurício Vassali, que
escreveu seu trabalho de conclusão de curso sobre a curadoria do Cine UFPel, hoje
cursa doutorado na Universidade Católica de Porto Alegre. Ele investiga o papel do
operário no cinema brasileiro, em uma pesquisa originada no trabalho voluntário
no Cineclube.
O Zero4 Cineclube une os significados que relacionam o cinema ao mercado e
também ao amor pelos filmes. São duas instâncias interdependentes, que por sua
vez abarcam uma multiplicidade de desdobramentos. A cada sessão do cineclube,
reafirma-se que a cinefilia não se deixa morrer pelo surgimento do streaming, pois
ver filmes que passaram por uma curadoria, são exibidos em uma sala escura e são
discutidos em grupo, é uma experiência que não pode ser substituída.

Referências
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pinas: Papirus, 2003.

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DIAWARA, Mathias. O espectador negro: – questões acerca da identificação e


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LUNARDELLI, Fatimarlei. Quando éramos jovens. Porto Alegre: Ed. da Universi-


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METZ, Christian. A significação no cinema. São Paulo: Perspectiva, 1977.

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Acesso em: 4 out. 2019.

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Zero Quatro Cineclube. Anais do CONGRESSO DE EXTENSÃO E CULTURA, 4.
2017, Pelotas. Anais [...]. p. 272-277, 2017. Disponível em: [Link]
Acesso em: 10 out. 2019.

SILVA, Veruska Anacirema Santos. Cinema e cineclubismo como processos de


significação social. Revista Domínios da Imagem, Londrina, v. 2, n. 4, p. 137-148,
2009. Disponível em: [Link] Acesso em: 4 out. 2019.

STANLEY, Jason. Como funciona o fascismo. Porto Alegre: L&PM, 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 241
VASSALI, Maurício. A experiência de cinefilia no cine UFPel: o filme brasileiro na
curadoria de uma sala universitária. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Cine-
ma e Animação) – Centro de Artes. Universidade Federal de Peltas, Pelotas, 2018.

XAVIER, Ismail. Sétima arte: um culto moderno. São Paulo: Perspectiva, 1978.

1 Para uma biografia completa de PF Gastal ver [Link]


2 Raquel Romeiro trabalhou no Cineclube em 2018 como voluntária e em 2019 como bolsista. Neste
ano, ela conta com três voluntários (ver depoimentos neste artigo) para dividirem-se nas tarefas que envol-
vem curadoria, autorização de exibição, material de divulgação, condução de debates, etc.
3 Minuano, Carlos. “Crise na Ancine paralisa filmes e séries e compromete lançamentos para 2020” .
Uol Entretenimento, 21, ago, 2019. In: [Link]
4 A sessão contou com a presença do diretor, em uma parceria com a Vitrine Filmes, que custeou sua
vinda.
5 Ver dados das Nações Unidas em [Link]

SOBRE A AUTORA
Ivonete Pinto, graduada em Comu-
nicação Social Jornalismo pela Univer-
sidade do Vale do Rio dos Sinos. Dou-
tora em Comunicação e Artes pela Uni-
versidade de São Paulo; Professora do
Centro de Artes da UFPel no curso de
Cinema e Audiovisual. Coordenadora
do projeto de extensão Zero4 Cineclu-
be. Editora da revista Teorema Crítica
de Cinema; presidente da Associação
Brasileira de Críticos de Cinema. E-mail:
ivonetepinto02@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº6 242
A INTERGERACIONALIDADE
NO MUSEU HISTÓRICO DE
MORRO REDONDO - RS

Andréa Cunha Messias


Carliston Lima Ribeiro
Carlos Eduardo Ávila Bauer
Marcos Roberto Silva de Souza
Diego Lemos Ribeiro

Apresentação
Desde o ano de 2014, o grupo de extensionistas do projeto “Museu Morrorre-
dondense: espaço de memórias e identidades”, juntamente com alunos do curso do
bacharelado de Museologia da UFPEL, desenvolvem atividades relacionadas ao
museu da cidade de Morro Redondo, tendo como fio condutor do projeto a in-
tergeracionalidade. O termo intergeracionalidade, segundo descreve Bosi (1994),
fundamenta-se na ideia de solidariedade e empatia na relação entre idosos e jo-
vens. Para os fins deste trabalho, analisaremos como as gerações interagem du-
rante as ações que serão apresentadas, em uma cidade onde a população está
envelhecendo em razão do êxodo de jovens nos espaços urbano e rural, uma vez
que, o reflexo pode ser observado na perda da capacidade de salvaguardar e trans-
mitir as memórias do local.
Essas atividades intergeracionais prestam-se a três objetivos: fortalecer as me-
mórias individuais dos idosos a partir do momento que são narradas e confronta-
das coletivamente, demonstrar aos jovens as inúmeras camadas de significados
da cidade, que foram “soterradas embaixo da atual” (BOSI, 1994, p. 413) – confor-
me a metáfora utilizada por Bosi, para explicar a importância dessa ação para a
CULTURA Nº7

memória grupal; reforçar as memórias grupais relativas ao fazer do doce colonial,


momento de reunião do núcleo familiar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 243


Tais atividades são resultantes de uma parceria entre o Projeto de Extensão
“Museu Morrorredondense: espaço de memórias e identidades”, vinculado ao cur-
so de Bacharelado em Museologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), e
o Museu Histórico de Morro Redondo, situado na Serra dos Tapes, em município
homônimo. Partindo da premissa1 que “um museu não se restringe ao seu espaço
físico, sendo, portanto, um fenômeno criativo capaz de ocorrer em qualquer lugar
a qualquer tempo” (SCHEINER, 2008). O trabalho tem como objetivo específico
demonstrar que a performance museal2 deve ser considerada elemento funda-
mental para a preservação do patrimônio. Essa performance, aqui compreendida
como a negociação memorial entre jovens e idosos, necessariamente imersa em
subjetividades, é a força motriz que reforça os vínculos geracionais e potencializa
a continuidade das tradições e das culturas locais.
Segundo Brulon (2012), a denominada performance museal amplia o espectro
emocional dos museus, que ultrapassa a visão enfadonha nutrida pelo senso co-
mum, baseada no binômio objetos e vitrines, tornando o museu palco, onde os
atores-sociais percebem e projetam o patrimônio como um lugar de negociação,
reinvindicação memorial e estímulo as capacidades criativas. “Ao colocar os obje-
tos em situação, o museu escapa do seu sentido cartorial e invade o que podemos
denominar de emoção patrimonial” (FABRE, 2013).
Ao encenarem o uso dos acervos museológicos e demonstrarem as diversas ca-
madas de significados que cenários da cidade tiveram no decorrer do tempo, os
idosos estão colocando esses acervos em dinâmica, além de elucidarem os efeitos
que os mesmos tem sobre eles, potencializando assim, o compartilhamento de
“memórias e de identidades sociais” (HALBWACHS, 1990). Nesta mirada, ao tra-
zer movimento ao que parece estático (os objetos e o cenário), o Museu Histórico
de Morro Redondo ganha pulsação e vitalidade, o que traduz a ideia de “espírito
do lugar”3 (QUEBÉC, 2008).
Desta forma, serão analisadas três ações extensionistas assim denominadas: o
Café com Memórias, a Caminhada da Percepção e A Salvaguarda das Tradições Do-
ceiras Coloniais em Morro Redondo. Vale ressaltar que, todas elas, reforçam o pro-
tagonismo das comunidades e permitem perceber “os museus enquanto palco de
performances” (BRULON, 2012), que potencializam a transformação das comu-
nidades em “atores sociais” (VARINE, 2008-2013). A análise começará a partir do
processo de formação do Museu Histórico de Morro Redondo (MHMR), seu acervo
e sua missão, bem como se deu a entrada do Projeto de Extensão nesse universo,
em seguida caracterizaremos sinteticamente as ações mencionadas.
1 Relação analisada no Trabalho de Conclusão de Curso, “Memórias potencializando diálogos entre o
efêmero e o histórico: o caso do “Café Com Memórias no Museu Histórico de Morro Redondo” (MESSIAS,
2018). Orientação do Prof. Dr. Diego Lemos Ribeiro.
2 O conceito de performance museal foi cunhado por Richard Schechner (1985) e amplamente discutido
por Brulon (2012). Segundo os autores, [...] a performance não é a mera seleção de dados arrumados e inter-
pretados; ela é o próprio comportamento e carrega nela mesma, conteúdos originais, fazendo deles o objeto
para interpretações mais profundas, a fonte do estudo mais fundo (SCHECHNER apud BRULON, 2012, p. 360).
Dessa forma, através da performance dos atores-sociais que os públicos são convencidos da legitimidade das
memórias negociadas, promovendo uma releitura do passado no presente.
3 Segundo a Declaração de Quebéc (2008) o “espírito do lugar” ou “spiritu loci” refere-se ao conjunto
de elementos tangíveis e intangíveis presentes em um determinado sítio. Por definição, esses elementos são
inseparáveis e compõem a vida do local, cuja preservação contribui para o fortalecimento das memórias e das
identidades sociais.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 244
O Museu Histórico de Morro Redondo e o projeto
de extensão
A historiadora morrorredondense, Lisiane Sias Manke, explicou a partir de seu
olhar como agente do processo, em artigo publicado no ano de 2004, a origem do
Museu Histórico de Morro Redondo (MHMR). Segundo a pesquisadora, a intenção
era criar um museu comunitário no município, para que indicadores materiais e
imateriais de significação da história local pudessem ser preservados. Ao criticar a
concepção europeizada de museu, Manke (2004), elucida o posicionamento ado-
tado para a formação do atual acervo do MHMR e ressalta que:
O museu é o espaço coletivo onde se reúne o que é de todos para o bene-
fício e fruição de todos. É a comunidade quem decide o que se deve e o
que lhe interessa conservar, o que é importante que perdure para conhe-
cimento das novas gerações (MANKE, 2004, p. 239).

Manke ainda afirma que o museu torna-se um instrumento provocador de mu-


danças com vistas ao desenvolvimento. Ao descrever os objetivos da criação de
um museu em Morro Redondo, a historiadora informa que a preservação da me-
mória histórica se daria através de processos educativos coletivos que resultassem
na exposição, no inventário e na documentação de objetos de uso cotidiano, ca-
pazes de representar elementos culturais e identitários do município. Além disso,
ela menciona a importância na contribuição para o exercício da cidadania. Assim,
é possível compreender que o museu guarda em sua raiz uma perspectiva essen-
cialmente comunitária e associativa.
Pesquisas realizadas na ata de formação da Associação Amigos da Cultura, per-
mitiram conhecer que essa instituição foi criada em 2008, por iniciativa do Sr. An-
tônio Reinhardt e de uma comissão de moradores interessados, sendo eleito como
presidente, o senhor Reinhardt. A partir dessa data ficou decidido também, que
a Associação Amigos da Cultura passaria a responder juridicamente pelo museu.
Desempenhando a finalidade de obter apoio técnico e científico para as ações mu-
seográficas, no ano de 2009, a associação buscou o apoio da Universidade Federal
de Pelotas, através do Bacharelado em Museologia, onde foi firmado um acordo, e
a partir desse momento, surge o projeto de extensão, intitulado, “Museu Morrorre-
dondense: espaço de memória e identidades”, sob a coordenação da docente Nóris
Mara Pacheco Leal.
Em 2010, em decorrência de negociação feita com o poder público municipal, o
museu foi municipalizado. A partir de então, ficou determinado que:
(...) salvaguardar elementos da fauna e da flora do município, indumen-
tárias dos povoadores e colonizadores pioneiros, elementos e peças dos
minerais extraídos do solo, peças de arte de qualquer origem, e a cole-
cionar e selecionar matérias e informações relativas ao estado e ao país,
formando acervo destinado ao incentivo da cultural em geral (Lei Muni-
cipal nº 1.150/2010).

Em acordo feito como poder público municipal, a gestão do museu seria com-
partilhada com a Associação Amigos da Cultura, mas com o fim do convênio entre
a Universidade Federal de Pelotas, o Museu passou um tempo inativo. Após rea-
tivação da parceria, em dezembro de 2013, o projeto de extensão anteriormen-
te mencionado, já sob a coordenação do docente Diego Lemos Ribeiro, passou a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 245
atuar intensamente na comunicação do acervo, na revitalização das exposições e
na reaproximação dos públicos com a instituição.
Em 2016, o regimento interno do MHMR foi aprovado. O processo de elabo-
ração da minuta contou com a participação popular incentivada pela Associação
Amigos da Cultura, na presidência do Sr. Lauro Rodrigues, e pelo Projeto de Exten-
são. No artigo, segundo do regimento interno, votou-se como missão do MHMR:
Promover a reflexão, observação e interação das diversas parcelas da
sociedade com o patrimônio cultural do município, com ênfase na sua
história e memória, através da seleção, preservação e comunicação dos
bens culturais de interesse público confiados à guarda, enfatizando o va-
lor educativo, turístico e social da instituição, ancorada na perspectiva
da diversidade e da multiculturalidade (Regimento Interno do MHMR,
2016).

Os fatos descritos demonstram que desde o início da sua formação, o protago-


nismo das comunidades sempre esteve presente no MHRM, assim como o prota-
gonismo dos idosos. Durante as análises das ações extensionistas subsequentes,
será fácil perceber também que a performance museal do MHMR contribui para
o fortalecimento das memórias e das identidades sociais. Além disso, proporcio-
na a transformação do museu em um ente vivo e dinâmico, por considerar que
“a natureza e a cultura são vivas, enquanto pertencem a uma população da qual
constituem o patrimônio. Elas morrem muito depressa quando são apropriadas e
codificadas por especialistas externos à população” (VARINE, 2013, p. 19).
Os idealizadores do projeto, os senhores, Osmar Franchini e Ervino Büttow de-
ram início ao processo de formação do museu, no ano de 2006. Ambos tiveram
participação ativa no trabalho de criação do museu. O senhor Osmar Franchini re-
latou ao grupo de extensionistas, ser um dos grandes responsáveis, pelo grande
número de acervos reunidos. Conforme o depoimento abaixo:
Eu fui um dos idealizadores do museu. Convidei o Ervino e o Sr. Antônio,
meu tio. Assim como eu, eles gostavam muito de guardar suas coisas.
A ideia surgiu quando estive no Espírito Santo e visitei um museu muito
importante. Ao voltar para Morro Redondo, contei sobre a visita feita no
museu.

E na Rádio, no programa “Alô, alô, Morro Redondo”, apresentado por


mim, comecei a falar sobre o museu que visitei e a perguntar: - Por que
Morro Redondo não pode ter um museu também? Comecei a pedir ob-
jetos e aí, começou a “chover” objetos antigos. Mesmo assim, muita coi-
sa se perdeu, muita coisa ainda foi vendida para ferro velho, mas muita
coisa foi reunida. A gente criou o museu em 2006 (informação verbal4).

Segundo depoimento do Sr. Ervino Büttow, as coleções do MHMR, também


fazem parte do acervo de materiais e utensílios disponibilizados por ele, uma vez
que, o seu Ervino sempre gostou de colecionar objetos antigos. Ele relata ter apre-
ço por antiguidades, conforme descreve a seguir:
Desde criança, eu sempre gostei de juntar coisas. Quando o Osmar me
chamou, gostei da ideia e trouxe muita coisa pra cá. Sempre saí com-
prando coisas antigas, pedindo aos amigos e guardando tudo o que eu
achava jogado por aí.

4 Informação obtida e citada por Messias, 2018.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 246
As pessoas sabem que eu gosto de coisas antigas e costumam deixar ob-
jetos na porta da minha casa ou aqui na porta do museu também. Muitas
vezes, eu nem sei quem deixou. Na minha casa, tenho muito mais ob-
jetos do que tem aqui no museu. Mas o espaço é pequeno, não dá para
colocar tanta coisa linda que podia estar aqui (informação verbal5).

As narrativas anteriores podem ser analisadas também a partir de uma analogia


ao estudo de Gonçalves (2013), onde ele fala sobre o papel do colecionismo para a
formação de patrimônios. Ao defender o seu posicionamento, o autor afirma que
de um prisma da modernidade ocidental, os patrimônios “podem ser interpreta-
dos como coleções de objetos móveis e imóveis, apropriados e expostos por de-
terminados grupos sociais” (GONÇALVES, 2013, p. 22). A intenção de transformar
“coisas” em documentos, rememora a história de um povo, onde estão inseridos
valores que através de memórias passam ser a ser conhecidas por várias gerações,
substrato da ideia de coleção, é uma forma de criar patrimônios. Nesse sentido o
museu figura como um dispositivo memorial, que potencializa o sentido das co-
leções, de modo a gerar ressonâncias sociais, quanto maior a reverberação das
coleções, maior é a sua potência patrimonial. Assim, torna-se indispensável o po-
sicionamento adotado por Gonçalves (2013), para fundamentar a premissa de que
os idosos são “ativadores” do olhar patrimonial em relação às coleções do Museu
Histórico.
As coleções disponíveis nos museus representam a maneira de viver, e os cos-
tumes locais, principalmente aqueles atrelados à ruralidade, temática principal da
instituição. São, portanto, extensões dos sujeitos, a partir das quais são construídas
imagens de si. Além das atividades museográficas, O MHMR realiza ações exter-
nas no sentido de “aproximar moradores dos lugares de suas memórias” (NORA,
1993), chamados pelos idosos de patrimônios, onde revivem o seu passado.
Conforme o autor, para ser lugar de memória, é preciso que haja um ritual, de
sorte, a prover aura simbólica a lugares aparentemente materiais e funcionais.
Este é o papel do museu: o rito de musealização que opera sobre a percepção
das pessoas sobre as coisas. Durante as ações externas, os diálogos entre idosos
e jovens acontecem com muita frequência, mediatizados pelo rito de musealiza-
ção. Neste compasso, o espaço se transforma em museu, e o museu transforma
as pessoas de forma íntima e indizível. Após as ações propostas, jovens e idosos
percebem o lugar aparentemente cotidiano e banal a partir de um prisma, que ul-
trapassa a epiderme (materialidade e funcionalidade) das “coisas”, e adentra nas
paisagens subjetivas.
As narrativas anteriormente transcritas nos permitem verificar também, o sig-
nificado simbólico que as coleções possuem para os fundadores do museu. “Mais
que materialidades salvaguardadas em um espaço físico, esses objetos são socio-
transmissores” (CANDAU, 2009). Elas agem como evocadores de memórias, con-
tribuindo para o sentimento de pertencimento, e reforçando as identidades sociais
locais.
Como já mencionado, essas materialidades agem nos sujeitos como se fossem
extensões de si. Por mediarem potentes cargas afetivas, podem ser configura-
dos também como objetos biográficos, sobretudo porque servem como moldura
social, para as pessoas narrarem suas próprias histórias de vida ao confrontá-los
intersubjetivamente.
5 Informação obtida e citada por Messias, 2018.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 247
As ações intergeracionais ampliam o sentido sociotransmissor do museu, na
mesma medida em que alargam o raio de ação das ressonâncias, nomeadamente
para os jovens, que tem acesso somente aos estratos mais recentes da cidade. O
objetivo do museu é rememorar as histórias e a cultura da cidade que foi “soterra-
da” abaixo da atual, conforme alerta Bosi (1994).
Podemos sugerir igualmente que o objeto atua no sujeito, no mesmo compas-
so e intensidade que o sujeito age sobre o objeto. Gonçalves nos ajuda a compre-
ender a importância dessa relação a partir da seguinte concepção:
Ao lado dessa dimensão material, é preciso assinalar a dimensão fisio-
lógica, sempre implicam usos determinados do corpo. Afinal, pergunta
Marcel Mauss: Ao lado dessa dimensão material, é preciso assinalar a
dimensão fisiológica, sempre implicam usos determinados do corpo. Afi-
nal, pergunta Marcel Mauss: o que é um objeto se ele não é manuseado?
(GONÇALVES, 2007, p. 219).

Ao encenar o uso do objeto, demonstrando que as gestualidades também com-


põem a materialidade e a envolve de sentido, este serve de gatilho para que as
pessoas trabalhem as memórias de modo que, provavelmente não seriam atuali-
zadas no presente. Isto posto, a materialidade e a imaterialidade, são entendidas
como aspectos indissociáveis dos patrimônios - que formam os sujeitos, ao mesmo
tempo em que são formados por eles. Se este argumento permanecer válido, po-
deríamos dizer que objetos e sujeitos fundem-se em uma mesma trama memorial.
Doravante, faremos uma síntese das principais ações extensionistas desenvol-
vidas no escopo do projeto, enfatizando as distintas formas de aproximação com
a comunidade local e os principais efeitos gerados pelas ações. A primeira ação a
ser analisada será a Caminhada da Percepção – momento no qual idosos e grupos
de alunos da rede pública de ensino caminham por ruas e espaços da cidade, visto
pelas primeiras gerações, como “lugares de memórias” (NORA, 1993).

A “Caminhada da Percepção”
A primeira Caminhada da Percepção aconteceu por ocasião da 14ª Semana Na-
cional de Museus, no ano de 2016, onde o tema norteador foi, “Museus e Paisagens
Culturais”. Na ocasião, ultrapassamos as fronteiras do museu, nos apropriando do
entorno da instituição. A paisagem cultural e biografia de importantes referenciais
de memória da localidade foram transformados em palco de diálogos envolvendo
crianças e idosos, habitantes do município.
As atividades foram planejadas, juntamente com a equipe do projeto de exten-
são e representantes da Associação de Amigos da Cultura. Também contamos com
o apoio e parceria, do Colégio Estadual Nosso Senhor do Bonfim, e seis moradores
idosos já participantes das ações museológicas, que de modo cooperativo, busca-
ram incentivar diálogos com as gerações envolvidas e a interação entre o museu
e a comunidade. Nesta ocasião, a rua se tornou palco da performance museal, em
que o espaço citadino funciona como lócus de negociação de imagens sobre a rua,
o bairro, o espaço de convivência, configurando uma paisagem imaginada sobre o
local em que essas pessoas habitam, circulam e interagem.
Tendo como parâmetro os marcos arquitetônicos da cidade, podemos observar
que eles são como companheiros emocionais dos moradores da cidade, principal-
mente para os idosos. “As cidades que habitamos, os prédios que ocupamos, os

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espaços pelos quais transitamos, os objetos que utilizamos e as imagens que con-
templamos cumprem o papel de mediadores das nossas experiências nesse nosso
ambiente” (DOHMANN, 2013, p. 36).
A ação em questão foi realizada com a turma do quinto ano do ensino funda-
mental, do Colégio Estadual Nosso Senhor do Bonfim. Na ocasião, três momentos
foram planejados para o desenvolvimento das ações: a reflexão sobre o conceito
de patrimônio, baseado na relação afetiva entre as crianças e seus objetos pes-
soais significativos. Ainda no ambiente escolar; o despertar do olhar das crianças
para o patrimônio existente no entorno da Instituição, através da Caminhada da
Percepção. Por fim, uma roda de conversa no museu, com o intuito de discutir as
ações e apresentar uma exposição-teste elaborada pela comunidade, tendo como
principal objetivo, a representação dos bailes da época
Esse momento serviu para demonstrar a importância da musicalidade, para o
fortalecimento da memória coletiva, pois durante a Caminhada da Percepção, os
alunos visitaram os locais, onde existiram dois salões de bailes. Durante a visita os
estudantes ouviram relatos de idosos, que eram músicos locais da época dos gran-
des bailes. Na ocasião da roda de conversa, os integrantes do projeto de extensão
redigiram cadernos, registrando fotograficamente o processo, e usaram esses da-
dos para avaliar a ação comunicativa.
De acordo com o que relata o autor Mensch, também acreditamos que, “os
marcos urbanos podem ser relevantes mediadores da memória coletiva” (MENS-
CH, 2009). Nesse todo temos no horizonte a ideia de que a potencialidade memo-
rial fixada nessas referências urbanas pode ser evocada, por intermédio do estí-
mulo do olhar patrimonial, na referida ação, optamos pelo diálogo intergeracional
como forma de calibrar o olhar.
No decorrer do processo, ao ouvirmos os jovens, foi possível notar que após a
caminhada, eles deram início ao processo de narração sobre os marcos arquitetu-
rais, como se eles mesmos tivessem vivenciado tudo o que era narrado por eles.
A apropriação dos fatos confundia-se as memórias de relatos dados pelos idosos
da região, através do cambio de imagens, memórias e histórias, entre jovens e
idosos, configurou-se o que Pollak, “compreende como acontecimentos vividos
por tabela” (1992).
Os idosos citaram reiteradamente a importância das Caminhadas da Percepção,
na roda de conversa. Por intermédio dessa atividade, eles tiveram a oportunidade
de contar para os jovens e outros visitantes, histórias como as do tanque na Pra-
ça da Emancipação, as sociedades de bailes, a fábrica de fumo, a Escola Brasil, a
primeira sala de aula da cidade, a construção da Igreja Luterana, além da história
acerca da utilização da Praça Doze de Maio pelos tropeiros. A partir das narrati-
vas memoriais dos idosos, durante as caminhadas pela cidade, um novo cenário
passa a surgir no imaginário das crianças. Ao compreenderem as transformações
ocorridas com o tempo, elas participaram ativamente das ações, questionando os
idosos sobre os costumes e o modo de vida da época das narrativas.
Segundo relato da professora Rutilde Feldens, “essas ações geram muita
consonância”, o que vai ao encontro do que afirma Gonçalves (2013). Atividades
como essas, que unem gerações, são de extrema importância para a cultura de
um povo, mantêm viva a memória. Através desse exercício de rememoração, a
professora incentivou que a turma escrevesse cartinhas aos idosos participantes,
para que as dúvidas dos alunos em relação à biografia da cidade fossem explica-
das. Ficou acordado entre a professora Rutilde e seus alunos, que eles depois de
escreverem as cartas, iriam juntos ao correio, postá-las.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 249
Até o ano de 2019, essa ação foi repetida por quatro vezes, acontecendo tam-
bém na Praça na Emancipação e não apenas no entorno do museu. As Caminhadas
da Percepção serviram como objeto de estudo de uma dissertação6 defendida pela
pesquisadora Milena Behling Oliveira, do Programa de Pós-graduação em Memó-
ria Social e Patrimônio Cultural da UFPEL. O objetivo do trabalho foi identificar o
patrimônio afetivo da comunidade, conforme trecho a seguir:
(…) Patrimônios Afetivos da cidade de Morro Redondo - RS, na visão dos
idosos. As narrativas dos indivíduos indicam lugares de memória que os
mesmos consideram patrimônios, porém, não visto pelo âmbito do pa-
trimônio consagrado que conhecemos, mas pela afetividade que esses
lugares despertam nos sujeitos. (OLIVEIRA, 2019, p. 8).

Ao verificar que a maioria dos patrimônios elencados pelos idosos não existiam
materialmente, a autora reforça a ideia de que “os referenciais materiais dos luga-
res, são importantes para as ancoragens de memórias”. Além disso, “detectamos
que todos os lugares identificados, partiram de um referencial físico na paisagem,”
(Ibidem, p. 125). Oliveira percebeu também, que apesar dos lugares pesquisados
não possuírem o mesmo uso apresentado no passado, “eles ainda pulsam no espí-
rito dos lugares e permanecem vivos nas memórias dos idosos” (Ibidem, p. 8).

O Café com Memórias


O Café com Memórias, segunda ação extensionista a ser analisada neste texto,
configura-se como uma experiência museológica, na qual entrelaçam-se objetos
que compõem o acervo do MHMR e os cenários da cidade. Os artefatos funcio-
nam como mediadores culturais e potencializadores da memória de idosos. Por
meio de encontros mensais de socialização entre os quinze idosos participantes,
crianças e visitantes, esses atores sociais da terceira idade narram suas histórias de
vida e potencializam a construção de uma rede memorial sobre o tema trabalhado
nos encontros.
Durante o Café com Memórias, objetos são retirados do museu e colocados so-
bre uma mesa, onde os idosos começam a contar histórias das quais os objetos
fizeram parte. A partir dessas contações, as memórias passam a fixarem-se nas
ruas, em meio aos habitantes de várias gerações. Então, percebemos a importân-
cia dos mais velhos, a experiência rica em conhecimento, assim torna-se evidente
que a experiência está na história.
Essas ações surgiram da necessidade de tornar os museus acessíveis atitudinal
e cognitivamente, indo de encontro à ideia, que ainda paira no senso comum, de
que o museu é lugar de morte e congelamento do passado. Os idosos, geralmente
alijados das ações oferecidas pelos museus por sua vez, em razão de sua vitalidade
e vontade de narrar suas memórias, trazem vida e dinamismo a esses espaços.
As primeiras reflexões que originaram o Café com Memórias tiveram inspiração
um artigo confeccionado na disciplina Conservação e Preservação II, do curso de
Bacharelado em Museologia. Nesta, os graduandos foram convidados a pensar a
conservação de bens culturais. Diante das propostas que já estavam sendo desdo-
bradas no Museu Histórico de Morro Redondo, a seguinte questão pôde ser lança-
da: - O que conservamos nos Museus, objetos ou memórias? Em outros termos, a
6 OLIVEIRA, Milena Behling. Lugares e memórias: patrimônios afetivos em Morro Redondo- RS. Orien-
tação do Prof. Dr. Diego Lemos Ribeiro.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 250
que serviria a conservação, senão para as pessoas a quem o museu serve, ou de-
veria servir? Por esse enfoque, percebe-se que, em realidade, os Museus deveriam
estar interessados em preservar vidas, neste caso, designadamente dos idosos da
cidade.
As reflexões mencionadas, que partiram do ensino, ganharam uma dimensão
ainda maior, no projeto em questão, agora do ponto de vista extensionista. De-
pois de um diálogo, com membros da Associação Amigos da Cultura, do Conse-
lho Municipal de Idosos, os educadores das duas redes de ensino, representantes
da Prefeitura Municipal e membros das comunidades, foi sugerido por uma das
educadoras presente que fosse realizado um evento mensal envolvendo senis e
idosos através de um café - momento muito apreciado por todos por oportunizar
interação. Após votação, foi escolhido o nome da atividade: o Café com Memórias.
Buscando potencializar os efeitos positivos para os participantes do Café com
Memórias, foi formada uma parceria entre o Curso de Museologia, o Curso de Tera-
pia Ocupacional e, posteriormente, o de Psicologia – todos vinculados a Universi-
dade Federal de Pelotas –, visando contribuir para o enfrentamento da senilidade.
O trabalho interdisciplinar serviu de base para lidarmos com a complexidade da
ação, visto que nem sempre as memórias evocadas são agradáveis. A memória,
nesse contexto, foi encarada na ação desde o ponto de vista fisiológico e social.
A relação intersubjetiva estabelecida nessas ações serve de nexo entre as pesso-
as e as memórias, substrato para o forjamento das identidades sociais. Mediadas
pelos objetos, muitas memórias são evocadas, entrelaçando histórias individuais
e compondo uma rede de memórias partilhadas entre os membros do grupo, que
são manifestadas em forma de relatos orais, danças, músicas, brincadeiras e de
festejos acontecidos no município. Nesses eventos são cingidos no mesmo teci-
do, memórias individuais e coletivas. Partindo dessa premissa, Figurelli, Ribeiro e
Messias, afirmam que:
O conceito de memória pode ser deslocado, na mesma medida, para
o contexto da memória coletiva. Desta mirada, (HALBWACHS, 1990)
compreende a memória como fenômeno social, mesmo porque o sujeito
nunca está sozinho. Essa afirmativa nos faz pensar que a construção do
indivíduo só pode ser compreendida em contexto, de um prisma relacio-
nal, indissociável, portanto, das expressões culturais. Permite-nos pen-
sar, também, que a construção, reconstrução e evocação das memórias e
a própria arquitetura das narrativas, ganham sentido quando realizadas
em comunhão com outras pessoas, em sinergia com suas extensões ma-
teriais e simbólicas (cultura material), inseridas em um cenário propício
para este fim. O exercício da memória, assim, ganha potência ao ser tra-
balhada de forma solidária (2016, p. 135).

Nesse sentido o Café com Memórias presta-se a esse objetivo: conectar vidas
através da biografia dos objetos museológicos, e partindo das lembranças evoca-
das em conjunto, fortalecer memórias, embasadas em estratégias que favorecem
a reminiscência – processo utilizado pela Psicologia para “recuperar experiências
pessoais que são utilizadas para fins terapêuticos”, segundo os autores Lopes,
Afonso e Ribeiro (2014).
A Terapia Ocupacional denomina estratégias de reminiscência como “revisão
de vidas” Perez e Almeida (2010), por acreditar que os trabalhos desenvolvidos em
grupo potencializam as memórias e auxiliam no processo de melhoria do estado
de vida do paciente. Ao lançar mão de vários estímulos, dentre eles, as atividades

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 251
expressivas, a reminiscência torna-se um recurso eficaz para acessar a história de
vida desses sujeitos e, no mesmo compasso, favorece a difusão das suas vivências.
Em ações como estas os objetos não servem apenas para representar determi-
nada realidade ou para eleger patrimônios; eles podem oferecer bem-estar, tra-
zer tranquilidade, situando-os no mundo. Esse aspecto terapêutico tem especial
relevância em virtude do isolamento social que geralmente recaem sobre os ido-
sos, sobretudo aqueles acometidos por enfermidades neurofisiológicas, como a
demência, conforme relato de uma participante: “Eu e o A. nos sentimos muito
bem durante as ações. Lá podemos conversar sobre como é a nossa vida aqui em
Morro Redondo e sobre tudo o que já fizemos. Saímos sempre muito felizes de lá”
(Entrevista concedida no dia 01 de junho de 2018).
Os efeitos dessas ações podem ser observados também nos resultados das en-
trevistas semiestruturadas, realizadas pelo projeto de extensão. A modo de exem-
plo, trazemos o relato do Sr. Evaldo Thiel, ao ser questionado sobre o sentimento
dele, após os encontros promovidos pelo Café com Memórias:
Saímos sempre com a sensação boa. A gente na vida, agora, não se dá ao
tempo de recordar. É por isso que o “Café” é importante. Através dele,
nós recordamos e fortalecemos nossa cabeça, nossas memórias. Fica-
mos mais esquecidos depois de velhos (Evaldo Thiel, entrevista concedi-
da no dia 01 de junho de 2018).

Do ponto de vista cientifico, é possível compreender o papel da emoção, na


consolidação da memória individual a partir dos estudos realizados por neurocien-
tistas. Sobre esse tema, o neurocientista Izquierdo (1992), afirma que: “As memó-
rias adquiridas em estado de alerta e com certa carga emocional ou afetiva são
melhor lembradas que as memórias de fatos inexpressivos ou adquiridas em esta-
dos de sonolência” (1989, p. 97, grifo nosso).
Ainda recorrendo à literatura científica, Pollak (1992), reitera que “a memória
individual e a memória social, são modeladas através de uma relação de dupla tro-
ca”. Ainda segundo o autor, o processo de construção de memória coletiva/social
só acontece quando há um forte sentimento identitário com o grupo no qual o in-
divíduo pertence. Para Bosi (1994), a memória dos idosos, ancorada na psicologia
social, conseguiu demonstrar que uma memória pessoal também pode ser uma
memória social, familiar e grupal, em decorrência do entrecruzamento dos modos
de ser das pessoas com a sua própria cultura.
Esses encontros, vistos aqui como rituais de musealização, oferecem a partir da
linguagem museológica, a oportunidade dos jovens vivenciarem fatos históricos
de sua cidade, através de objetos históricos disponíveis no Museu. Esses encontros
proporcionam aos jovens conhecer a cultura, e o que foi vivenciado pelos seus an-
tepassados. De acordo com o que destaca Pomian,
É a linguagem que engendra o invisível. Fá-lo porque permite aos indi-
víduos comunicarem reciprocamente os seus fantasmas, e transformar
assim num facto social a íntima convicção de ter tido um contacto com
algo que jamais se encontra no campo do visível. Sobretudo, a lingua-
gem permite falar dos mortos como se estivessem vivos, dos aconteci-
mentos passados como se fossem presentes, do longínquo como se fos-
se próximo, e do escondido como se fosse manifesto. A necessidade de
assegurar a comunicação linguística entre as gerações seguintes acaba
por transmitir aos jovens o saber dos velhos, isto é, todo um conjunto
de enunciados que falam daquilo que os jovens nunca viram e que talvez
jamais verão” (1984, p. 68, grifo nosso).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 252
Com o decorrer das atividades, observou-se que as ações extensionistas, pode-
riam ser transformadas em pesquisa, abrangendo diferentes espaços. A atividade
com maior destaque, para nós extensionistas, foi o desenvolvimento de estraté-
gias que explorassem documentos históricos, buscando superar os ultrapassados
rituais burocráticos, como confecção de fichas e descrição de objetos.
Em nosso entendimento, não são raros, os processos de documentação, em
analogia com uma casca de cebola, não ultrapassam as camadas mais superficiais,
como: de que material é feito, qual construção técnica, morfologia, cor, dimensão,
etc. A proposta que trazemos alicerça-se nas camadas mais profundas do artefato,
quais sejam: valor emocional, simbólico e metafísico, estes, nunca fixos no objeto.
Em outros termos, importa perceber não apenas o que as coisas são, mas o que
elas podem vir a ser.
Assim compreendermos que as memórias são fluidas, condicionadas pelo tem-
po em que ocorrem e culturalmente orientadas, imaginou-se que a documentação
museológica deveria abrir caminhos para registrar não apenas a camada epidér-
mica dos bens, mas sobretudo, apropriar-se das narrativas evocadas na atividade.
Através do projeto Café com Memórias, podemos evocar narrativas que estavam
adormecidas e foram compartilhadas com outros habitantes da cidade.
Esse processo menos burocrático, permitiu que várias histórias fossem conheci-
das. Por este prisma, significa pensar uma estratégia de documentação que acom-
panhe a dinâmica do museu, em permanente devir7. Do mesmo modo, a equipe
sentiu-se desafiada a desenvolver formas de aprimorar o diálogo intergeracional,
envolvendo idosos e crianças, com o intuito de compartilhar a troca de saberes, e
a construção de conhecimentos.
Refletindo sobre as questões de preservação no referido contexto, busca-se,
através do prosseguimento das atividades, encontrar soluções ou caminhos para
as dúvidas que tem inquietado os membros do projeto, principalmente, no que diz
respeito à adoção de procedimentos museológicos e museográficos adequados ao
Museu. A partir de Ribeiro (2018), é possível verificar que:
O fenômeno de formação de coleções nos aponta para questões cen-
trais para compreender o campo dos museus: 1. Os museus adquirem,
salvaguardam e comunicam “coisas” e informações correlatas; 2. Essas
“coisas” no contexto museal assumem função de suportes de memórias
individuais e coletivas, e servem para afirmar ou refutar identidades; 3. O
que é preservado nos museus não é apenas a materialidade das coisas,
mas, sobretudo, as memórias que são fixadas nestas; 4. A museologia,
no campo teórico, dedica-se a estudar a justaposição relacional entre as
pessoas e as coisas em determinado contexto; 5. A partir da compreen-
são desta relação, em seu caráter aplicado, desenvolve processos téc-
nico-científicos que transformam “coisas” em patrimônio (2018, p. 32).

O Museu Histórico de Morro Redondo, juntamente com um coletivo de atores-


-sociais, atuam em perspectiva colaborativa, tendo como objetivo a preservação
da memória de um povo. As ações direcionam-se, portanto, em esforços para le-
var adiante as referências culturais do local, e não apenas à conservação dos obje-
tos, por perceber que preservar memórias é preservar a vida – e o museu é um local
propício para este fim.
7 Em cada Café, os mesmos objetos podem ser atualizados mnemonicamente, assim, nunca estão ter-
minados. Essas novas informações são registradas e são inseridas na biografia dos objetos. Como diz Chagas:
“Compreendendo o documento como suporte de informação, fica bastante claro que a necessidade de pre-
servação do suporte é uma mera contingência O desfio mesmo é preservar a possibilidade de informação”

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 253
Dessa forma, a equipe do projeto de extensão incentiva todas as ações realiza-
das com base nessa premissa. A última ação extensionista a ser analisada neste
texto, diz respeito às tradições doceiras coloniais, que foram registradas no Livro
de Saberes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em
2018.

A salvaguarda das tradições tradições doceiras


coloniais em Morro Redondo
No dia 15 de maio de 2018, As tradições doceiras na região de Pelotas e na Antiga
Pelotas8, foram registradas no Livro de Saberes do Instituto do Patrimônio Histó-
rico e Artístico Nacional (lPHAN), após o parecer favorável emitido pelo Conselho
Consultivo. O processo teve como base, visitas realizadas nos municípios envolvi-
dos e nos resultados do Inventário Nacional de Referências Cultural (INRC), a partir
de um Dossiê9 elaborado pelo IPHAN, em parceria com pesquisadores da Univer-
sidade Federal de Pelotas.
Vale ressaltar que o acompanhamento do processo de salvaguarda das tradi-
ções doceiras em Morro Redondo, além de fazer parte do projeto de extensão,
compõe o objeto de estudo de uma pesquisa de mestrado10 que está sendo re-
alizado no Programa de Pós-graduação em Memória Social e Patrimônio Cultu-
ral no biênio 2019-2020. Utilizando como aporte teórico-metodológico a Teoria
Ator-Rede (TAR) latouriana, a pesquisa visa demonstrar como os atores humanos
e não-humanos interagem e contribuem para a (re)configuração das memórias e
identidades sociais, no contexto analisado – que por sua vez potencializam as re-
lações de pertencimento, e estranhamento, com as tradições doceiras da cidade.
Através desse método, que observa os atores sociais desde um prisma das as-
sociações, alianças e conexões provisórias, percebemos como a reinvenção da tra-
dição doceira colonial, busca colaborar para o desenvolvimento socioeconômico
do município de Morro Redondo, no qual a relação intergeracional é ressaltada por
conta da dinâmica do fazer do doce no tacho.
Ao perceber a importância das tradições doceiras coloniais, possuem para os
moradores de Morro Redondo e o significado que o pêssego, o tacho de cobre e o
mexedor tem para a construção de memórias sociais, o Museu Histórico de Morro
Redondo, apoiado pela equipe do projeto de extensão, passou a realizar, desde
2014, ações externas no sentindo de potencializar a transmissão memorial do sa-
ber doceiro tradicional.
Com a colaboração dos idosos que fazem parte do Museu, assim como a equi-
pe do Projeto, realizou-se exposições, viabilizando a visita de diversas turmas de

(1994, p. 38-39). Baseados nesse aporte teórico, compreendemos que, no caso em estudo, o conceito de in-
formação pode ser considerado análogo à própria ideia de memória.
Para aprofundar o tema em questão, consultar o texto “Em busca do documento perdido: a problemática
da construção teórica na área de documentação” (CHAGAS, 1994).
8 A Antiga Pelotas caracteriza-se pelo conjunto dos quatro municípios anteriormente pertencentes à
Pelotas: Capão do Leão (emancipado em 03/05/1982), Turuçu (emancipado em 22/10/1985), Morro Redondo
(emancipado em 12/05/1988) e Arroio do Padre (emancipado em 17/04/1996).
9 Dossiê de Registro da Região Doceira de Pelotas e Antiga Pelotas (Arroio do Padre, Capão do Leão,
Morro Redondo e Turuçu)/RS. Brasília, 2018. Disponível em: [Link]
quivos/Dossie_%20tradicoes_doceiras_de_pelotas_antiga_pelotas.pdf. Acesso em: 10 abr. 2016.
10 MESSIAS, Andréa Cunha. A salvaguarda do saber-fazer do doce colonial em Morro Redondo/RS: a
análise do “patrimônio em ação”. Pesquisa em andamento, sob orientação do Prof. Dr. Diego Lemos Ribeiro.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 254
escolas da região, aos pomares de pessegueiros e indústrias de conservas. Foram
organizadas mesas-redondas, com produtores e especialistas, para mostrarem a
importância do cultivo do pêssego e as dificuldades encontradas pelos agriculto-
res para a manutenção da atividade no município. Durante todas as ações de pa-
trimonialização e de salvaguarda das tradições doceiras, o MHMR tem agido como
elemento não-humano nessa rede de atores sociais, problematizando ausências e
tentando demonstrar a importância de discursos plurais em relação ao tema.
No caso específico do tacho de cobre e do mexedor de madeira, outros elemen-
tos não-humanos nessa teia de atores, são considerados “objetos cujas ressonân-
cias evocam uma dinâmica cultural complexa, mediando o passado e o presente,
bem como formando subjetividades individuais e coletivas” (GONÇALVES, 2007).
Podem ser configurados também como objetos biográficos, não apenas porque
estes objetos tem suas próprias trajetórias de vida, as quais podemos reconstruir;
mas sobretudo porque servem como moldura social para as pessoas narrarem suas
próprias histórias de vida ao confrontá-los intersubjetivamente. Tanto o tacho de
cobre como o mexedor de madeira, nesse compasso, “perpetuam um modo de
fazer tradicional associados a um saber transmitido ao longo das gerações fami-
liares” (RIETH; SILVA; KOSBY, 2015).
Isto posto, acreditamos que o projeto de extensão e o museu tem contribu-
ído para a configuração da memória social da cidade, tendo como fio condutor
uma aproximação intergeracional, pautada em uma ação sempre colaborativa. Do
mesmo modo, tem colaborado ativamente no processo de salvaguarda, do recém
reconhecido patrimônio cultural imaterial da nação, o doce colonial.

Considerações finais
Conclui-se que as atividades extensionistas tiveram grande impacto na popu-
lação da cidade de Morro Redondo, visto que, o envolvimento dos habitantes foi
satisfatório para o resgate da história do município. Durante as ações houve muita
interação entre jovens e idosos da cidade, todos estavam em busca de conheci-
mento sobre a cultura local. A partir das rodas de conversação, todos puderam co-
nhecer um pouco mais sobre o lugar em que vivem, através de relatos de pessoas
que moram há anos naquela região. O museu de Morro Redondo tornou-se palco
de grandes histórias, que continuam vivas na memória daqueles que as contam.
Os projetos desenvolvidos, pelo grupo de extensionistas, proporcionaram aos
moradores da cidade, diálogos entre gerações muitas vezes distantes. Acredita-se
que para manter viva a história povo, devemos cultivar as memórias, através do
simples fato de conversar com os mais velhos. Assim sendo, os resultados apon-
tam para a necessidade de seguir desenvolvendo projetos na cidade de Morro Re-
dondo. Em contato dos extensionistas, com a Associação de Amigos da Cultura,
professores e estudantes da localidade, eles demonstraram interesse na continui-
dade dos projetos.

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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 257
SOBRE OS AUTORES
Andréa Cunha Messias, gradua- Marcos Roberto Silva de Souza,
da em Biologia pela Universidade Es- graduando em Psicologia na UFPel.
tadual de Santa Cruz. Graduanda em Atua como voluntário no Projeto de Ex-
Museologia pela UFPel. Mestranda no tensão desde 2016.
Programa de Pós-graduação em Me- E-mail: marcosroberto02012@
mória Social e Patrimônio Cultural da [Link]
UFPel. Atua como voluntária no Pro-
jeto de Extensão desde 2014. E-mail: Diego Lemos Ribeiro, bacharel em
andreacmessias@[Link] Museologia pela Universidade Federal
do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).
Doutor em Arqueologia pela Universi-
Carliston Lima Ribeiro, graduando
dade de São Paulo – USP. Professor Ad-
em Museologia na UFPel. Bolsista por
junto do Programa de Pós-Graduação
dois anos no Projeto de Extensão, no
em Memória Social e Patrimônio Cul-
qual atua desde 2016.
tural e do Bacharelado em Museologia
E-mail: estrellavideofilmagens@ da UFPel. Coordenador do Projeto de
[Link] Extensão; “Museu Morrorredondense
Espaço de Memórias e Identidades”.
Carlos Eduardo Ávila Bauer, gra- E-mail: dlrmuseologo@[Link].
duando em Museologia (UFPel). Atua br
como voluntário no Projeto de Ex-
tensão desde o primeiro semestre do
Bacharelado.
E-mail: edubauereyeshua@yahoo.
[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº7 258
AÇÕES EDUCATIVAS
EM ARQUEOLOGIA:
A MULTIVOCALIDADE DAS
HISTÓRIAS INDÍGENAS

Tamara Oliveira
Rafael Guedes Milheira

Apresentação
O projeto Arqueologia, Educação Patrimonial e História Indígena em Pelotas,
atividade de extensão ligada ao Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropo-
logia e Arqueologia da Universidade Federal de Pelotas (LEPAARQ/UFPel), tem
como objetivo a socialização das pesquisas arqueológicas e a construção coletiva
de narrativas sobre as materialidades de origem indígena, buscando manter sem-
pre ativo nosso compromisso com a publicização do conhecimento científico. O
projeto busca incitar à discussão sobre passado e presente das diversas popula-
ções indígenas sul-americanas, cuja historiografia tradicional insiste em invisibi-
lizar. Pretendemos promover diálogos, através da materialidade, entre as coisas
produzidas, as pessoas e os seus significados no panorama social contemporâneo.
Nesse sentido, se por um lado, a intenção das ações educativas é construir co-
nhecimento, por outro lado, também é objetivo desconstruir conhecimentos ca-
nônicos e ideologicamente solidificados e reproduzidos no sistema educacional
nacional.
Trata-se, portanto, de um projeto desenvolvido no sentido de ampliar o conhe-
cimento da sociedade (latu sensu) sobre as populações indígenas que ocuparam as
terras sul-americanas há, pelo menos, 13.000 anos. Explorando as hipóteses teóri-
cas e dados produzidos em diversos níveis acadêmicos, indo do contexto regional
ao continental, nossa atuação visa conectar o conhecimento arqueológico sobre
CULTURA Nº8

os povos ancestrais às populações indígenas atuais, trazendo à luz do debate a


pluralidade de Histórias Indígenas de Longa Duração, seus diversos componentes
materiais distribuídos em ampla escala geográfica, buscando fomentar entre os
diversos públicos, o reconhecimento social da diversidade cultural indígena.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 259


As Histórias Indígenas: A construção de passados
no presente – um panorama crítico
Quando nos debruçamos sobre a historiografia tradicional, vemos o quão es-
cassas são as fontes históricas que apresentem dados sistematizados sobre a pre-
sença das populações indígenas, tradicionalmente ligadas às terras sul-america-
nas há milhares de anos antes da invasão colonizadora europeia. A partir deste
vácuo historiográfico, e do silêncio imposto à memória e cultura de centenas de
povos, fica demonstrada a invisibilização sistemática que foi infligida às popula-
ções indígenas nos livros de História, desde os regionais até os que tratam sobre os
primeiros processos de povoamento do continente, promovendo assim, um vasto
silenciamento histórico de diversos coletivos ameríndios. Atualmente, a violência
física e epistêmica a qual essas pessoas e grupos foram submetidos se revela em
nossa sociedade contemporânea a partir da falta de conhecimento generalizada
entre as diversas camadas sociais em relação à pluralidade cultural que a compõe,
da negação sistemática a um passado que se conecte a herança genética e cultural
dos povos ameríndios, e do amplo desconhecimento sobre os processos históricos
de exclusão social e violência étnica aos quais estes grupos indígenas foram sub-
metidos, levando-os à situação de extrema vulnerabilidade social que se encon-
tram atualmente (MILHEIRA, 2014a, 2014b).
Considerando ainda o que nos diz Lima (2007), é necessário também analisar-
mos de que forma a origem da nossa formação social vem sendo contada nos livros
didáticos de História do Brasil aos futuros cidadãos brasileiros, pois: “A questão
das origens permeia toda a construção de identidade, seja ela pessoal ou coletiva.
Mobiliza sentimentos profundos, porque determina o lugar que os indivíduos ocu-
pam no mundo e na rede de relações sociais” (LIMA, 2007, p.16).
Desta forma, seguindo ainda a linha argumentativa desta autora, devemos
compreender a educação formal, e com isso os materiais didáticos e paradidáticos
utilizados em todos os níveis dos sistemas de ensino públicos e privados, como
instrumentos poderosos de controle social, de dominação cultural e ideológica.
Sabemos que a escola, enquanto transmissora de conteúdos disciplinares, repre-
senta um papel preponderante na disseminação do conhecimento reconhecido
enquanto científico, de modo que, pode tanto atuar como agente de reprodução
e difusão das ideologias dominantes, quanto pode se transformar em um instru-
mento de transformação e libertação.
Em países colonizados, não raro o passado remoto é distorcido ou ocul-
tado para impedir que as raízes históricas sejam encontradas, explanan-
do-se apenas as origens das instituições coloniais. Com isso o sistema de
ensino acaba se constituindo como um dos principais ingredientes do
neocolonialismo (LIMA, 2007, p.17).

Contudo, estudos recentes vinculados ao conceito de História Indígena de Lon-


ga Duração (NEVES, 2006), no âmbito de linhas de pesquisas voltadas à emergên-
cia da complexificação social e territorialidades indígenas, vêm demonstrando o
papel que a ação humana desempenha na formação das paisagens, a partir do
manejo agroflorestal e da elaboração arquitetônica, expressa sobretudo pelas no-
táveis obras de engenharia de terra, realizadas por diversas etnias, e encontradas
em suas mais variadas formas por todo o território sul-americano (NEVES, 2006;
DE SOUZA, 2018). Trata-se então de realizar estudos sobre as paisagens culturais,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 260
de forma que, a partir do entendimento de que tais arquiteturas em terra são cul-
tura material, possamos perceber as dinâmicas espaciais relacionadas à territoria-
lidade, economia e cosmologia desses povos, compreendendo que os elementos
visíveis na paisagem são frutos desta complexidade social numa escala de longa
duração que se traduz em amplas paisagens transformadas pela ação humana
(BALÉE, 2006; ERICKSON, 2009; BONOMO, POLITIS, GIANOTTI, 2011).
Neste mesmo ritmo, hoje em dia buscamos também compreender a agência
dos povos e dos objetos e os diferentes modos como as pessoas e as materiali-
dades se relacionam entre si (INGOLD, 2008; LIMA, 2011; SILVA, 2017), incluindo
neste rol de pesquisas os estudos sobre a multivocalidade dos povos e a importân-
cia de compreendermos a história de ocupação indígena no território brasileiro
– e em todos os outros – como História Indígena de Longa Duração. Aquela que
vem sendo feita por atores diversos e plurais, e que mantêm seu alinhamento por
partilharem de uma visão cosmológica e social a qual – diferente da nossa cultura
ocidentalizada – não polariza os conceitos de Natureza e Cultura, e devido a isto
vivem de forma simbiótica, interagindo com o meio de forma vantajosa para a
maior parte dos seres que ali habitam. Neste sentido, é necessário pontuar que
não se trata de defender a ideia de povos indígenas idílicos, como se estes vives-
sem em um estado de harmonia constante, já que essa imagem é também uma
ideia viciada a qual devemos desconstruir em prol de entendermos tais pessoas
como seres de agência, que fizeram e fazem suas próprias escolhas quantos às for-
mas de interação com o meio, as quais nem sempre são as “mais ecológicas”, mas
que dentro de um sistema de coexistência e respeito com o meio em que vivem,
são escolhas que se mostram como soluções equilibradas e capazes de serem sus-
tentáveis a longo prazo.
Ao estabelecermos conexões entre lugares, pessoas e tempos variados, tendo
como um dos focos a percepção das relações de resiliência humana, podemos en-
tão perceber que as interações étnicas produziam sociedades pulsantes, compos-
tas de lugares em articulação sistêmica. Onde a noção êmica de aldeia podia se
referir a um complexo de lugares com proximidade visual, formando um sistema
de relações, marcadores paisagísticos, lugares sagrados e de contemplação. Com
pessoas circulando todo o tempo para caça, pesca, coleta e plantios e promoven-
do grandes festividades nas épocas de cerimônias coletivas, celebração das co-
lheitas, rituais de passagem, de união e de guerra. Estes lugares fazem parte das
memórias coletivas, mesmo que tenham sido ocupados há muitos anos. Existem
ainda os lugares persistentes, aqueles que trazem as pessoas até eles, “lugares que
a gente dá nome”, como diz um interlocutor Laklãnõ para a pesquisadora Macha-
do (2016). Trata-se de “referências ou marcos paisagísticos, cuja localização, des-
crição e relação com eventos e pessoas do passado são passados de geração em
geração e que não necessariamente as pessoas os visitam, mas, de maneira geral
sabem onde ficam.” (MACHADO, 2016, p.184).
Refletindo esse olhar sobre o contexto amazônico, bioma composto pela Flo-
resta Tropical e que compreende cerca de 40% do território brasileiro1, Neves
(2006) nos demonstra ser necessário pensarmos a Amazônia como um espaço na-
tural e também cultural, que ao longo de sua longa história passou por diversas
transformações, muitas delas antrópicas, o que nos leva e compreender tal espaço
de forma intrínseca a história dos povos amazônicos, onde os povos nativos de
milhares de anos atrás são ancestrais dos indígenas atuais, o que deve nos levar
1 Instituto Brasileiro de Florestas - [Link] Acesso em: 23 out.
2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 261
pelo caminho de contestarmos o status que a sociedade nacional atual delega aos
povos indígenas, aos quais nega acesso ao seu próprio território, fontes de subsis-
tência e de reprodução cultural, agindo de forma etnocida.
Dessa forma, sabendo que essas centenas de grupos indígenas estão cons-
tantemente construindo suas teias de significados, criando e recriando o mun-
do, enquanto constroem a paisagem ao seu redor, cabe a nós, pesquisadoras e
pesquisadores atuarmos em vistas de atualizarmos nossas ações de extroversão
do conhecimento produzido na academia, nos empenhando em um papel cada
vez mais ativo na luta contra os discursos hegemônicos, que por motivos políti-
cos e econômicos, insistem em espalhar entre as sociedades ocidentais a perversa
ideia anti-indigenista de um “progresso” econômico a custo das vidas dos povos
tradicionais.

Arqueologia na Universidade Pública:


Estimulando dinâmicas de memórias coletivas
Tendo este cenário de alta complexidade cultural e de História indígena pro-
funda como plano de fundo e com foco na superação dos discursos hegemônicos,
nosso projeto de extensão busca promover atividades que propiciem a aproxima-
ção da comunidade com o patrimônio cultural-histórico indígena da região do mu-
nicípio de Pelotas, relacionando-o sempre ao amplo contexto ameríndio brasileiro.
Partindo da compreensão conceituada por Abreu e Silva (2016) de que patrimônio
significa algo de propriedade pública, um direito de todos e dever do Estado, pres-
supomos que todas e todos tenham direitos iguais de conhecer os aspectos mais
mínimos e sutis dos bens patrimoniais. Dessa forma, torna-se função de professo-
ras e professores, pesquisadoras e pesquisadores em geral, mediar a construção
dos meios necessários para os encontros entre o que é considerado patrimônio
com as diversas comunidades que o constituem, levando sempre em consideração
que este conceito carrega consigo a expressão direta dos conflitos e lutas entre os
diversos grupos sociais, e nunca homogeneidades e apaziguamentos (ABREU e
SILVA, 2016).
É neste sentido que, ao adotarmos como principal meio de nossas práticas
educativas a aproximação entre pessoas e objetos, buscamos promover a partir
da experiência e do contato direto com as evidências materiais e manifestações
simbólicas das diversas culturas existentes na região – em seus diversos aspectos,
sentidos e significados – um processo ativo de conhecimento, apropriação e valori-
zação desta herança cultural que nos é comum (HORTA, GRUNBERG, MONTEIRO,
1999).
Como nos aponta Lima (2011), os objetos representam a “dimensão concreta
das relações sociais”, e possuem um papel ativo na sociedade à medida que sua pos-
se define diferenças sociais e estabelece identidades de grupos, de forma que sua
socialização apresenta o potencial de promover mudanças sociais significativas.
A cultura material é produzida para desempenhar um papel ativo, é usa-
da tanto para afirmar identidades quanto para dissimulá-las, para pro-
mover mudança social, marcar diferenças sociais, reforçar a dominação
e reafirmar resistências, negociar posições, demarcar fronteiras sociais e
assim por diante. Não há como reverter essa condição, que torna a cul-
tura material, de fato, a dimensão concreta das relações sociais (LIMA,
2011, p. 21).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 262
Pensando que o material arqueológico precisa servir para promover a amplia-
ção do conhecimento coletivo sobre o patrimônio arqueológico, adotamos como
principal meio de nossas práticas educativas a aproximação entre pessoas e obje-
tos – a sociedade e os artefatos arqueológicos.
Nesse processo de construção de práticas que comuniquem a arqueologia, per-
cebemos o grande potencial de engajamento das diversas pessoas que participam
dessas ações educativas ao explorarmos os objetos a partir de uma prática senso-
rial – possibilitando o encontro entre pessoas e cores, odores, pesos, texturas, for-
matos e a multiplicidade de possibilidades simbólicas dos materiais. Desse modo,
nos orientamos na busca por promover a percepção do mundo como um engaja-
mento ativo e exploratório da pessoa inteira, no sentido de não desconectarmos
as percepções físicas – neste caso: o tato, olfato, audição e visão – do processo de
aprendizagem, compreendendo a indivisibilidade entre corpo e mente, trabalhan-
do com os sentidos como um catalisador de afetos, e estimulando nossa maneira
sensória de perceber o mundo (INGOLD, 2008).
Em busca de construirmos narrativas que deem conta de demonstrar a imen-
sa complexidade dos universos ameríndios desde o passado mais distante até o
presente, e a partir do desejo de que estes discursos sejam cada vez mais abran-
gentes, potentes e sensíveis, é que entendemos que uma das contribuições mais
importantes do nosso projeto, reside no potencial de compartilhamento destes
afetos. Na construção de novos conhecimentos, advindos dos múltiplos olhares
sobre a materialidade, das diversas interpretações sobre as motivações de pro-
dução e modos de uso dos objetos, sugeridas pelas pessoas – crianças, adultos e
idosos – a partir de seu conhecimento de vida, de suas experiências prévias e do
universo simbólico o qual estão inseridos, que muitas vezes é extremamente dife-
rente ao das pesquisadoras e pesquisadores, que possuem o poder de determinar,
muitas vezes de forma arbitrária e apenas segundo nossa cosmologia ocidental
cientificista, os discursos a serem plasmados enquanto “verdade” sobre passados
que só podem ter existido, e principalmente reconhecidos socialmente no presen-
te enquanto existentes, se construídos coletivamente.
Desse modo, procuramos promover, a partir da universidade, espaços de ações
educativas em arqueologia para aumentar o rol de discursos sobre a materialidade
e suprir a necessidade de se produzir uma arqueologia que seja engajada social-
mente e que assim dê conta da multivocalidade da sociedade a qual a financia.
Entendemos que nós pesquisadoras e pesquisadores, enquanto atores sociais em
posição de privilégio e destaque – em contraposição à marginalização e preconcei-
tos sofridos pelas pessoas indígenas – temos o compromisso moral e ético de, em
contrapartida, retribuirmos com trabalhos que fomentem a transformação social.

Experiências em ações educativas: Academia para


além dos muros
As ações educativas realizadas em nosso projeto, consistem em promover si-
tuações de aprendizado e divulgação sobre a diversidade das manifestações cul-
turais, através de atividades organizadas em instituições públicas e privadas, em
ambientes escolares ou de livre circulação, que despertem em alunas e alunos,
professoras, professores e público em geral, a possibilidade de que, enquanto in-
divíduos e coletivamente, façam a leitura crítica do mundo que os rodeia, fomen-
tando à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórico-temporal
em que estão inseridos (HORTA, GRUNBERG, MONTEIRO, 1999).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 263
Para isto, temos como orientação metodológica os quatro momentos de atu-
ação em ações educativas, propostos por Horta, Grunberg e Monteiro (1999), os
quais adaptamos a cada nova atividade.
1. Observação – Inicia-se com o contato visual entre pessoas, mediadores e
público, em busca por criar um ambiente empático, o que já sabemos propiciar
a criação de vínculos, aumentando com isso a possibilidade de troca de conhe-
cimentos. Na sequência, dá-se a busca por compreender tanto o perfil, quanto
as demandas do grupo com o qual estamos interagindo, quais são os temas de
interesse e como fazer a mediação entre a proposta que levamos com a realida-
de que nos deparamos. Em seguida a observação dos materiais arqueológicos
e sua manipulação, promovendo a curiosidade e a busca pela a identificação
dos objetos, questionamentos sobre suas funções e significados, os estímulos
sensoriais e imaginativos e a experimentação do mundo através dos corpos e a
partir dos materiais.
2. Registro – Nesse momento propomos a elaboração de desenhos, esti-
mulamos a descrição verbal ou escrita dos objetos e da experiência na ação
educativa, em busca da fixação do conhecimento compartilhado, desenvolvi-
mento da memória, da análise crítica e da observação minuciosa.
3. Exploração – Buscamos levantar outras hipóteses interpretativas sobre
os materiais e seus significados, propondo a troca de opiniões entre as pessoas
do grupo e a sugestão de pesquisas em outras fontes, a fim consolidar a impor-
tância da análise crítica das informações compartilhadas.
4. Apropriação – Geralmente se dá concomitante aos momentos anterio-
res, através da criação de um envolvimento afetivo com este momento de tro-
ca de saberes e com a valorização da participação criativa entre as pessoas, o
afeto da experiência da ação educativa, o que propicia a valorização do próprio
bem cultural.

Breve relato das ações educativas realizadas em


2019
A partir do engajamento de muitos profissionais da educação e cultura – pro-
fessoras e professores do Ensino Fundamental e Médio, museólogas, museólogos
e estudantes universitários que realizam tanto seus estágios quanto outros proje-
tos nas redes de ensino de Pelotas e região, recebemos solicitações de atividades
através das nossas páginas nas mídias sociais, por telefone ou mesmo a partir da
visita destas pessoas ao Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Ar-
queologia – LEPAARQ, no prédio do Instituto de Ciências Humanas ICH/ UFPel,
buscando por ações educativas relacionadas à Arqueologia e a História Indígena
Regional. Desse modo, através de nosso projeto de extensão Arqueologia, Edu-
cação Patrimonial e História Indígena em Pelotas, buscamos promover parcerias
com diversos coletivos e instituições, entre elas o Curso Popular UP- LECA/FURG,
a Bibliotheca Pública Pelotense e a Gestão Ambiental da BR-116/392 juntamen-
te com a Secretaria de Desenvolvimento, Turismo e Inovação (SDETI) de Pelotas,
além de escolas da rede pública e privada. Este tipo de atividade vem sendo re-
alizada desde 2011 no âmbito deste projeto em específico e um relato de anos
passados pode ser acessado em Cerqueira e Viana (2012) e Milheira e Pires (2018).
Neste ano desenvolvemos múltiplas atividades, das quais elegemos quatro para
relatar neste trabalho.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 264
Em parceria com o Curso Popular UP - LECA/FURG, no dia 13 de Julho/2019,
organizamos e mediamos uma saída de campo para os sítios arqueológicos do
Pontal da Barra, para uma turma de aproximadamente 10 alunas e alunos. Na oca-
sião, foi possível abordar o tema dos sítios do tipo Cerritos localizados no banhado
do Pontal da Barra, município de Pelotas, cuja profundidade temporal alcança até
2500 anos. Nesta localidade há um projeto de loteamento que, se aprovado, irá
destruir ou impactar gravemente os sítios arqueológicos, portanto, a divulgação
sobre esses bens patrimoniais é essencial à sua preservação.2

Figura 1 – Ida a
campo, nos cerritos
do Pontal da Barra
em Pelotas-RS, com
alunos do Curso
Popular UP LECA/
FURG. Visita mediada
pelos autores do
presente trabalho.

Fonte: Acervo dos


autores. Fotografia
de Ruan Isnardi,
2019²

Em parceria com a Bibliotheca Pública Pelotense – integrando as atividades do


Dia do Patrimônio 20193, que aconteceu entre os dias 16, 17 e 18 de Agosto/2019,
organizamos, no espaço do museu da biblioteca, três dias de atividades educati-
vas, que contaram com exposição e mediação dos materiais arqueológicos e ati-
vidade de escavação simulada voltada às crianças, atingindo um público de apro-
ximadamente 2.500 pessoas, segundo o registro feito pela equipe da própria Bi-
bliotheca. Nessa oportunidade, além das narrativas sobre os materiais e contextos
arqueológicos, as crianças puderam manipular as peças e criar suas próprias ideias
sobre as mesmas, o que foi incentivado.
Com o Colégio Gonzaga, no dia 04 de Setembro de 2019, promovemos a ati-
vidade “Descobrindo a Arqueologia”, elaborada para cinco turmas do 3º ano do
Ensino Fundamental, contando com aproximadamente 140 crianças com idade
entre 8/9 anos, realizada em dois turnos. Neste dia, desenvolvemos um circuito
de atividades envolvendo desde a apresentação de imagens sobre a diversidade

2 Imagem veiculada em mídia social oficial do Curso Popular UP, para divulgação da ação educativa
em conjunto com o projeto de extensão em tela. Disponível em: [Link]
photos/a.324826430956016/2031462333625742/?type=3&theater. Acesso em: 23 out. 2019.
3 Evento veiculado pela página oficial da Prefeitura Municipal de Pelotas. Disponível em: [Link]
[Link]/noticia/escavacoes-simuladas-entusiasmam-criancas-no-dia-do-patrimonio. Acesso em: 23
out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 265
Figura 2 – Atividade
de escavação
simulada realizada
em ação educativa no
museu da Bibliotheca
Pública Pelotense
entre os dias 16, 17
e 18 de Agosto de
2019. Da esquerda
para a direita,
Tamara Oliveira,
Juliane Krüger e
Júlia Braga, alunas
do Bacharelado em
Antropologia com
linha de formação em
Arqueologia/ UFPel,
mediam a atividade
para quatro crianças.

Fonte: Acervo dos


autores. Fotografia
de Gabriel Oliveira,
2019.
indígena no Brasil e no contexto regional de Pelotas, promo-
vendo a experimentação sensorial dos artefatos arqueoló-
gicos, escavações simuladas, desenhos coletivos, até a con-
tação de histórias a partir de objetos pessoais levados pelos
alunos e alunas, a fim de trabalhar com as crianças a noção
de construção de narrativas através da identificação e afeto
com as materialidades.
Entre os dias 23 ao 27 de setembro de 2019, participamos
da atividade IV Saber Ambiental no Mercado, uma progra-
mação da Semana do Turismo em Pelotas/RS. Em cada um
dos cinco dias de atividade, recebemos de uma a três turmas
de crianças no Ensino Fundamental da rede pública peloten-
se, estimando um público de aproximadamente 300 crianças,
além do público espontâneo – pessoas que, ao transitarem
pelo Mercado Público, paravam para participar da atividade.
A equipe da ação educativa foi composta pelo grupo de alu-
nas e alunos voluntários deste projeto, organizados em esca-
las, a fim de termos de dois a três mediadores em cada um
dos cinco dias de atividades. Essa ação é desenvolvida anual-
Figura 3 – Ação educativa no auditório do mente pela Prefeitura Municipal de Pelotas e a unidade local
Colégio Gonzaga com turmas do 3º ano do do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes
Ensino Fundamental. Neste dia as atividades
foram mediadas por Tamara Oliveira,
(DNIT), as atrações são organizadas pela Gestão Ambiental
Ana Sprenger, João Ursine e Fernando da BR-116/3924 e pela Secretaria de Desenvolvimento, Turis-
Leitzke, alunas e alunos do Bacharelado em mo e Inovação (SDETI) de Pelotas.
Antropologia.
4 Evento divulgado pela página oficial da Gestão Ambiental da BR-116/392.
Fonte: Acervo dos autores. Fotografia de Disponível em: [Link]
Natália dos Santos, 2019. php?id=625. Acesso em: Acesso em: 23 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 266
Figura 4 – Crianças
participando
das atividades
realizadas no IV
Saber Ambiental
no Mercado, uma
programação da
Semana do Turismo
em Pelotas/RS.
Em pé, o educador
ambiental Cauê
Canabarro conduz
a primeira parte da
atividade, para em
seguida o grupo de
crianças participar
da mediação
com os materiais
arqueológicos em
frente.
Conclusões
Fonte: Acervo dos
autores. Fotografia Neste caminho para a construção coletiva do conhecimento, um dos fatores
de Gabrielle Reis, mais importantes para atingirmos o objetivo das ações educativas é o estímulo ao
2019. interesse por parte do público em relação ao conteúdo, o que é gerado a partir do
estabelecimento de vínculos e do reconhecimento de si no que lhe é apresentado.
Nossas ações educativas são, desde sua concepção, frutos de trabalho coletivo
de alunas e alunos do Bacharelado em Antropologia em suas duas linhas de for-
mação, Arqueologia e Antropologia Social, que formam um grupo de estudantes
composto por uma bolsista e aproximadamente dez pessoas voluntárias, que se
disponibilizam a participar da criação e execução das atividades organizadas no
âmbito deste projeto de extensão, sob orientação do docente coordenador, Prof.
Dr. Rafael Milheira. Deste modo, partindo desta vontade de compartilhar conhe-
cimentos com a comunidade, nossa atuação carrega em si o potencial de afeto
necessário pra o estabelecimento desses vínculos.
Ao organizarmos as atividades, durante e após cada sessão de mediação dos
materiais arqueológicos, ao recebermos dos diferentes públicos o retorno, através
de comentários críticos e construtivos, questionamentos e outras contribuições,
estamos trabalhando também no aprimoramento de nossa formação acadêmica
e profissional.
Cabe a nós, pesquisadoras e pesquisadores, educadoras e educadores em geral,
ao entendermos nossas ações educativas como práticas para a cidadania, promo-
vermos ambientes educativos que, segundo Freire (1994) em sua proposta de uma
educação libertadora, se orientem no sentido da humanização do/a educador/a
– educando/a, com uma ação que se baseie na crença na humanidade e no seu
poder criador, já que a partir de um pensar autêntico, a educação forma indivíduos
críticos, criativos e autônomos, capazes de agir no seu meio e transformá-lo.

Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo


pronunciado, por sua vez se volta problematizado, para os sujeitos pro-
nunciantes, a exigir deles novo pronunciar. Não é no silêncio que os ho-
mens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão (FREIRE,
1994, p.78).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 267
Deste modo, entendemos nossas ações educativas como o lugar propício para
construirmos de forma coletiva, novas formas de pronunciarmos o mundo, am-
pliando os entendimentos sobre as diversas materialidades, sobre nossos passa-
dos, e principalmente desenvolvendo conjuntamente ao nosso público um olhar
crítico e antropologicamente orientado. Consideramos que, passo a passo, atra-
vés de cada uma das atividades que realizamos, estamos construindo caminhos
que se orientam na busca por uma comunicação dialógica entre a universidade e a
comunidade, num processo que deve ser contínuo, sendo capaz de atrair cada vez
mais público e estudantes em sua realização. Quanto a isso, obtivemos um resul-
tado satisfatório neste ano, ao conseguirmos aumentar o número de graduandas
e graduandos envolvidos no projeto, assim como atender a todos os pedidos de
atividades, mantendo uma média de duas ações educativas realizadas por mês,
contando que entre elas haviam atividades de mais de dois dias de duração.
Atualmente, recebemos o retorno e avaliamos o cumprimento de nossos obje-
tivos através de comentários espontâneos das educadoras e educadores e do pú-
blico envolvido, considerando também como indicação positiva os pedidos de no-
vas atividades a serem realizadas nas mesmas instituições. Enquanto profissionais
em formação, estamos sempre buscando desenvolver novas formas de qualificar
nossa atuação, sendo que, um dos pontos que percebemos maior necessidade
de aprimoramento durante este ano de atividades é a adoção de um novo méto-
do para estimarmos o impacto posterior às atividades. Assim, para as próximas
ações, buscaremos implementar formas de documentar essas avaliações.
Neste sentido, exploramos os artefatos arqueológicos promovendo diferentes
formas de apresentá-los à sociedade atual, tendo como princípio a compreensão
de que diversos tempos, olhares e sentimentos estão subjacentes à materialidade.
Ao adaptarmos nossa mediação para cada público, reorganizamos nossas linhas
discursivas em reuniões realizadas previamente a cada atividade, buscando desde
uma abordagem dinâmica com o uso de referenciais regionais para a contextua-
lização, até a utilização de uma linguagem adequada para cada idade. Como nos
diz Silva (2017, p. 181):
As coisas possuem a característica particular de materializar o tempo, de
mostrar as transformações, a continuidade e de evocar histórias relacio-
nadas a elas. A materialidade consolida o tempo, tornando-o possível de
ser tocado, sentido, cheirado e visto.

Assim, ao promovermos ações que estimulem nosso público a compreender


quão amplo é o leque de possibilidades das diferentes formas de existir no mundo
– sempre pautando as diferenças culturais de maneira relacional, ou seja, com-
preendendo as sociedades e os indivíduos como a relação que eles possuem entre
si – possamos então demonstrar em nossas ações cotidianas, que a pluralidade
cultural é um dos componentes principais desta nossa contínua dinâmica de nos
fazermos humanos.
Olhares que, por um lado, estejam sensibilizados para observar e interagir com
toda essa gama de possibilidades de modos de vida e, portanto, compreendam a
diversidade cultural ameríndia em toda sua dimensão de riqueza, e que em contra-
partida, se posicionem contrários ao modo genocida como o Estado e os grupos
dominantes vêm tratando nossos povos tradicionais e seus territórios, negando-
-lhes, a partir de um posicionamento epistemicida, seus direitos de reprodução
cultural e existência. Desse modo, mantemos sempre em nosso horizonte, como
forma de resistência e inspiração diárias, a busca por descolonizarmos cada dia um

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 268
pouco mais nossas formas de pensar e agir, de produzir ciência e de extrovertê-la,
evitando a grande armadilha de reproduzirmos, a já tão disseminada, visão etno-
cêntrica de mundo.

Referências
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 269
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SOBRE OS AUTORES
Tamara Oliveira, graduanda do
Bacharelado de Antropologia com li-
nha de formação em Arqueologia da
UFPel. Bolsista do Projeto de Extensão:
Arqueologia, Educação Patrimonial e
História Indígena em Pelotas. E-mail:
muitasoliveiras@[Link]

Rafael Guedes Milheira, graduado


em Licenciatura plena em História pela
UFPel. Doutor em Arqueologia pelo
Museu de Arqueologia e Etnologia da
Universidade de São Paulo. Professor
do Departamento de Antropologia e
Arqueologia e Programa de Pós-gradu-
ação em Antropologia da Universidade
Federal de Pelotas. Coordenador do La-
boratório de Ensino e Pesquisa em An-
tropologia e Arqueologia (LEPAARQ/
UFPel). E-mail: milheirarafael@gmail.
com

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº8 270
AS AÇÕES EDUCATIVAS PARA O
PATRIMÔNIO DESENVOLVIDAS NO
MUSEU DO DOCE DA UFPEL PELO
LABORATÓRIO DE EDUCAÇÃO PARA
O PATRIMÔNIO - LEP/UFPEL
ENTRE 2013 E 2019
Rafael Teixeira Chaves
Patricia Cristina Cruz Sá
Gizele Santos Amaro
Carla Rodrigues Gastaud

Introdução
O Laboratório de Educação para o Patrimônio (LEP), vinculado ao curso de Mu-
seologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), tem como propósito refletir
sobre os museus como agentes educativos e colaborar com essas instituições
no desenvolvimento de ações educativas a serem realizadas com o patrimônio
cultural material e imaterial. Para propiciar uma relação lúdica e divertida com o
patrimônio e despertar o olhar de crianças e adultos para o patrimônio cultural,
uma das ações do LEP é o desenvolvimento de jogos e materiais educativos.
Constituído como um laboratório didático, o LEP tem um papel importante na
formação dos estudantes do curso. Pois, como aponta Hodson (1994), através da
experimentação, os alunos têm a oportunidade de refletir, indagar, testar hipóte-
ses e fazer uso de sua criatividade e, principalmente, de errar e acertar na sua pre-
paração para o exercício da profissão. As ações planejadas pelo LEP possibilitam
a utilização de diversas metodologias e dinâmicas interativas para a realização de
oficinas, atividades, pesquisas, criação de jogos, entre outras, que envolvem os
discentes em cada temática elegida.
A equipe do LEP é formada por professores e alunos, bolsistas e voluntários, de
CULTURA Nº9

vários cursos de graduação e pós-graduação da UFPel. O Laboratório didático é


utilizado nas aulas das disciplinas de Ação Cultural e Educação em Museus I e II do
curso de Museologia, o que possibilita experimentar, criar, testar e avaliar diferen-
tes atividades educativas em museus.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 271


Tendo, então, como premissa a importância da educação em museus e a capa-
citação dos profissionais para desenvolverem atividades educativas, o LEP criou
uma Mediateca, realizou pesquisas e oficinas, e a promoveu a concepção e a cria-
ção de jogos. O acervo do Laboratório, e as condições e interesses regionais, são
elementos que contribuem para a elaboração de jogos.
As atividades que o LEP oferece às instituições locais, proporcionam aos alunos
do Bacharelado em Museologia da UFPel a oportunidade de experimentar e reali-
zar diferentes tipos de ações educativas, vivenciando essas atividades de extensão
como forma de divulgação do patrimônio da Cidade. Atuar nos museus da Uni-
versidade e em ações realizadas nos espaços públicos da cidade, tal como acon-
tece no Dia do Patrimônio1, são atividades duplamente compensadoras: ganham
os visitantes dos museus que se aproximam do patrimônio local de forma lúcica
e ganham os futuros museólogos que ampliam seu referencial e praticam o que
aprendem no Curso.
Entre 2013 e 2019, período contemplado neste artigo, o LEP desenvolveu um
conjunto de materiais centrados no Museu do Doce. Esses materiais têm por ob-
jetivo despertar no visitante o interesse pelo museu, por sua arquitetura e pela
história que ele conta, afinando os olhares e possibilitando uma aproximação do
visitante com esse patrimônio.
Os museus são espaços que têm um papel social considerando que um

...museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da


sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire,
conserva, estuda, expõe e transmite o patrimônio material e imaterial
da humanidade e do seu meio, com fins de estudo, educação e deleite.
(DESVALLÉES; MAIRESSE, 2013, p. 64)

Assim pensados, os museus inserem-se na sociedade como agentes de pre-


servação do patrimônio e, também, como comunicadores dos bens culturais das
comunidades. As ações educativas possibilitam a aproximação dos públicos aos
museus, de modo a integrarem-se no cotidiano dos grupos sociais.
No caso do Museu do Doce da UFPel2, que tem por missão salvaguardar os
saberes e fazeres da tradição doceira de Pelotas e região, seu propósito se justifica
pelo papel social, cultural e econômico que o doce assume em Pelotas (GASTAUD
et al, 2014, p. 92). Em 2018, a Tradição Doceira de Pelotas e Antiga Pelotas (RS)
foi reconhecida como Patrimônio Imaterial do Brasil3, juntamente com o conjunto
histórico de Pelotas, quatro praças, um parque, a Chácara da Baronesa e a Char-
queada São João que integram o Conjunto Histórico de Pelotas e têm significativo
valor histórico, artístico e paisagístico, o que reforça a importância de a comunida-
de apropriar-se da história e da memória deste patrimonio e dessa história para o
que as ações educativas podem muito contribuir.
1 [Link]
2 O Museu do Doce da UFPel fica na Casa 8 da Praça Coronel Pedro Osório
3 [Link]
monio-cultural-do-brasil

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 272
Uma forma lúdica de conhecer o patrimônio
As atividades educativas para o patrimônio têm um papel identitário, como es-
creve Fonseca:
Ensinar e aprender a história local e do cotidiano é parte do processo de
(re)construção das identidades individuais e coletivas, [...] fundamental
para que os sujeitos possam se situar, compreender e intervir no espaço
local em que vivem como cidadãos críticos (FONSECA, 2009, p 123).

O contato com o bem patrimonial e um maior conhecimento sobre documen-


tos e objetos salvaguardados pelas instituições de memória — sejam elas museus,
arquivos, bibliotecas ou centros de documentação — permitem desenvolver uma
nova visão sobre o que está sendo guardado e sobre a importância de preservar
esses acervos.
Os primeiros trabalhos produzidos no LEP foram jogos. A opção por criar jogos
foi tomada levando em consideração que alguns processos de aquisição do co-
nhecimento são facilitados quando tomam essa forma (KISHIMOTO 1994, p. 59),
assim, a equipe do LEP desenvolveu jogos que buscaram facilitar uma relação mais
próxima das pessoas com alguns bens culturais. Ao reafirmar identidades e trazer
referências de um passado por vezes desconhecido, os jogos podem ser uma for-
ma eficaz de apropriação do patrimônio cultural na medida em que
[...] são vivências, portanto, viabilização do ciclo de aprendizado: ação,
reflexão,teorização e planejamento (ou prática). Um jogo [...] bem estru-
turado e corretamente aplicado proporciona resultados muito ricos, em
termos de assimilação ou reformulação de conceitos (MILITÃO, 2000,
p.26).

O brincar não é exclusivo da infância - embora seja predominante nela - os jo-


gos, em diversas modalidades, trazem a brincadeira para a vida adulta e, vale res-
saltar, “o tocar e o abraçar, olhar nos olhos e rir juntos pode ser importante em um
processo de pluralidade cultural, desaceleração de estereótipos sexuais e maior
compreensão das necessidades especiais” (WAJSKOP,1995, 65).
Assim, associando o desejo de uma aproximação ao bem patrimonial ao fato de
que o jogo é um facilitador da aprendizagem, que estimula as capacidades cogni-
tivas e motoras e promove a criatividade, o raciocínio e o desenvolvimento afeti-
vo-social, desenvolveu-se uma série de jogos para crianças e adultos voltados ao
patrimônio da cidade de Pelotas (CASTRO, CRUZ e GASTAUD, 2015, p. 90).

Os jogos do Museu do Doce


Ao longo do período contemplado neste artigo, 2013-2019, o LEP desenvolveu
jogos e materiais educativos para serem usados no Museu do Doce da UFPel, des-
critos a seguir.
O Museu do Doce tem sido o local habitual de realização das atividades do LEP.
Com bastante regularidade, a equipe do Laboratório atua de forma combinada
com a equipe do Museu na recepção a escolas e em datas especiais. Nessas ocasi-
ões, as turmas são divididas em dois ou três grupos e, enquanto um faz o percurso
mediado pelo Museu, os outros participam de atividades educativas coordenadas
pelo LEP. Os estudantes do laboratório colocam em uso os jogos desenvolvidos,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 273
Figura 1 - Quebra- despertando nos estudantes das escolas interesse e curiosidade pelos temas de
cabeça desenvolvido que o Museu se ocupa e pelas narrativas que a própria edificação, e seu entorno,
em 2014.
permitem fazer sobre outros tempos e outros modos de vida
Fonte: Acervo LEP/ Os jogos e atividades desenvolvidos para serem utilizados no Museu do Doce
UFPel 2014.
da Ufpel são:

Quebra-cabeça
Em 2014 alguns jogos foram cons-
truídos e aplicados. O primeiro foi um
quebra-cabeça, sobre a Praça Coronel
Pedro Osório, voltado para crianças que
ainda não dominam a leitura. Em tama-
nho A4, o quebra-cabeça é composto
por fotografias das casas de números 2,
6 e 8, da Prefeitura Municipal, da Biblio-
teca Pública, do Grande Hotel e do an-
tigo Banco do Brasil, todos localizados
no entorno da praça, e tem como obje-
tivo mostrar alguns dos bens culturais
do município.

Figura 2 - Jogo Pife


Doce. Pife Doce
Fonte: Acervo LEP/
UFPel, 2014. O segundo foi um Jogo de Cartas
sobre os doces finos, tradicionais de
Pelotas, denominado Pife Doce. O jogo
é composto por dois conjuntos de car-
tas, sendo um de receitas e o outro dos
ingredientes necessários à elaboração
dos seguintes doces: quindim, bem ca-
sado, camafeu, fatia de Braga, aman-
teigado, ninho, pastel de Santa Clara, e
olho de sogra.
Neste jogo, cada participante retira uma carta de receita que lista os ingredien-
tes necessários para o doce que deverá montar em sua “mão”. A cada rodada os
jogadores compram e descartam cartas com o objetivo de juntar os ingredientes
necessários, vence quem completar seu doce primeiro.
Esse material foi elaborado com base no Inventário Nacional de Referências
Culturais (INRC) Produção de Doces Tradicionais Pelotenses4 que fundamentou o
processo de patrimonialização cujo registro foi efetivado em 2018.

4 Para saber mais sobre o INRC – Produção de doces tradicionais pelotenses ver RIETH, Flávia et al. In-
ventário nacional de referências culturais: produção de doces tradicionais pelotenses (relatório final). Pelotas:
Ed. Universitária/UFPel, v. 1, 2008.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 274
Que casa é?
O terceiro é um jogo de trilha, que recebeu o nome “Que casa é?”. Neste jogo os
Figura 3 - Jogo de
participantes devem identificar e localizar as imagens dos casarões do Centro His-
Trilha que casa é?. tórico de Pelotas. Nesse exercício sorteia-se uma carta que contém dicas históri-
Fonte: Acervo LEP/ cas sobre um dos bens culturais e a partir dessas informações os jogadores devem
UFPel, 2014. escolher o monumento correto e fixar no lugar correspondente.
A aplicação dos protótipos dos jogos
na 2ª edição do “Dia do Patrimônio”
permitiu avaliar os jogos e ofereceu aos
visitantes do Museu, que há pouco ha-
via sido aberto ao público e ainda não
contava com exposição própria, uma
oportunidade lúdica de interação com
o patrimônio.
A continuidade do processo de ava-
liação é o princípio que garante que os
processos se tornarão sistemáticos e
permitirão a comparabilidade dos re-
sultados no decorrer do tempo (CURY,
2005, p.129), para isso, pedimos aos
usuários que opinassem sobre os jogos.
Nos dois dias em que os jogos estiveram
disponíveis para o público, 158 pessoas participaram das atividades, das quais 38
registraram suas expectativas, impressões e opiniões, que foram tabuladas e con-
sideradas no processo de finalização desses jogos e de construção dos próximos5.

Livro de Colorir
Figura 4 - Livro de O livro, intitulado “Colorir para conhecer: detalhes do Museu do Doce da UFPel”,
Colorir. foi desenvolvido em 2015. Nesta ação o objetivo era que os participantes, ao pin-
Fonte: Acervo LEP/ tar os estuques6 decorados dos forros do Museu do Doce, pudessem observar mais
UFPel, 2015. de perto os detalhes da edificação e aprender no processo.
O ato de colorir provoca diversas sensações e ao mesmo
tempo estimula a expressão e a curiosidade dentro do próprio
Museu. As imagens dos estuques têm sido sistematicamente
utilizadas com grupos de escolares e em datas específicas nas
quais o Museu oferece atividades para público espontâneo, o
que representa uma oportunidade para os alunos do LEP fa-
zerem a conexão entre os desenhos e os estuques – janelas

5 Os resultados da avaliação do público foram publicados no artigo “Do sal


ao açúcar: as ações educativas do Museu do Doce da UFPel (Universidade Federal
de Pelotas), na Revista Expressa da UFPel em 2014. Disponivel em: [Link]
[Link]/ojs2/[Link]/expressaextensao/article/viewFile/4954/3812
6 Os estuques são altos e baixos relevos, ornatos, cornijas, florões, etc… “fei-
tos a mão livre ou com auxílio de moldes ou formas. Na obtenção dos estuques
são empregados vários materiais, principalmente o pó de mármore, a areia, a cal,
o cimento, o gesso, a greda, etc., além da água necessária e, algumas vezes, da
cola”. Depois de seco o material adquire resistência. CORONA & LEMOS, 1972.
pp. 208-209 apud SANTOS, ROSISKY E GALLI, 2012, p 2.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 275
para outros tempos e outros modos de vida - chamando a atenção para a riqueza
dos detalhes dos forros do Museu do Doce e para a variedade das temáticas que
eles retratam, relacionadas ao uso de cada sala. Percebeu-se que, depois de ver
um detalhe no papel, os visitantes passam a enxergar muitos detalhes nos forros.
O “Livro de Colorir”, que está disponível para download na página do LEP7, além
da fruição do pintar, tem a finalidade de despertar o interesse dos visitantes a ex-
plorar o Museu como um todo e temos relatos de professores que utilizam as ima-
gens do livro em sala de aula para preparar a visita ao Museu.

Jogo de Memória do Museu do Doce da UFPel


Figura 5 - Jogo da Em 2016, iniciou-se o trabalho com jogos de memória8. Na construção do pri-
Memória. meiro deles, o “Jogo de Memória do Museu do Doce”, considerou-se que “ver” (re-
Fonte: LEP/UFPel, conhecer e valorizar) detalhes da edificação que abriga o Museu do Doce, tornaria
2016. a visita ainda mais interessante.
O jogo, composto por 40 cartas, organizadas em duplas
que se complementam — um memodíptico — traz imagens
de diversas partes da casa selecionadas com o objetivo de
atrair o olhar para os detalhes arquitetônicos do Museu do
Doce.
Este jogo é muito apreciado pelos visitantes e continua
em uso até o momento. O interesse gerado pelas imagens do
jogo levou à produção de uma planta baixa, com a localiza-
ção, na casa, dos detalhes fotografados, para que os jogado-
res possam buscá-los no Museu.

Jogo de Memória Tátil


O Jogo de Memória Tátil foi desenvolvido em 2016 para
apresentar o patrimônio pelo tato a pessoas com deficiência
visual, de qualquer faixa etária, e que muitas vezes visitam
museus sem ter acesso ao seu acervo. Esse jogo educativo
é composto por cartas com imagens dos detalhes dos estu-
ques dos forros do Museu do Doce apresentadas em diferen-
tes texturas.

7 Link para o downloa [Link]


lep/jogos/download-livro-colorir-para-conhecer/.
8 Depois deste primeiro jogo, foram desenvol-
vidos: o “Jogo de Memória do Mercado das Pulgas”,
o “Jogo de Memória Tátil” e o “Jogo de Memória dos
Docinhos”.

Figura 6 - Jogo Tátil.


Fonte: Acervo LEP/
UFPel, 2016.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 276
Ao jogar, os deficientes visuais são convidados a sentir os detalhes das cartas e
a identificar o que está nelas representado. O público vidente também é convida-
do a jogar, utilizando vendas para vivenciar a experiência de ver com os dedos, o
que proporciona uma compreensão diferente da deficiência visual.
Para complementar a experiência dos jogadores com deficiência visual, répli-
cas em gesso dos estuques são disponibilizadas ao toque, o que permite que os
jogadores sintam, nas peças em tamanho real, a dimensão, a textura, a tempera-
tura, as ranhuras que os detalhes imprimem no gesso, formando flores, arabescos
e máscaras.

Livro de Atividades
Em 2017, foi criado o “Livro de Atividades do Museu do Doce”. Dirigido às crian-
ças, o livro propõe ao visitante do Museu do Doce conhecer os doces tradicionais
de Pelotas inventariados pelo INRC.
O livro inicia com a história “Quindim e seus amigos no Museu do Doce” na
qual, acompanhados pela Profª. Cana de Açúcar, os docinhos-personagens visitam
o Museu do Doce da UFPel para conhecerem os saberes e fazeres dos doces de
Pelotas.

Figura 7 - Capa e
página do Livro de
Atividades Quindim e
seus amigos.
Fonte: Acervo LEP/
UFPel, 2017.

Além da historinha, o livro contém uma série de atividades para crianças e adul-
tos, tais como: caça palavras, jogo dos sete erros, ligue os ingredientes e labirinto,
todos relacionados aos doces inventariados. Também integra o livro uma planta
baixa, derivada do Jogo de Memória dos Detalhes do Museu do Doce, para ser
preenchida pelo visitante que “caça” os detalhes arquitetônicos representados nas
figuras e os localiza na planta.
Estas atividades são empregadas no museu e também servem como prepara-
ção da visita pelas escolas que as utilizam em sala de aula9.

9 O livro de atividades está disponível para download em [Link]


download-livro-colorir-para-conhecer/

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 277
Jogo de Memória do Mercado das Pulgas
Este jogo, composto por fotografias do Mercado das Pulgas10, foi pensado para
integrar o Museu ao seu entorno e mostrou um forte aspecto evocador e identi-
tário, apresentando uma característica de nostalgia: muitos jogadores de terceira
idade reconhecem objetos nas fotografias o que provoca reminiscências e intera-
ções narrativas, diferentes a cada utilização.

Figura 8 - Jogo da
Memória Mercado
das Pulgas
Fonte: Acervo LEP/
UFPel, 2017.

Jogo da Velha e Jogo de Memória com os Docinhos


Em 2017, os personagens-docinhos criados para o Livro de Atividades, por se-
rem figuras de menor complexidade, passaram a protagonizar também o jogo da
velha e o jogo de memória dos docinhos, para suprir a necessidade de jogos para
crianças de pouca idade.
Os docinhos antropomorfizados têm forte apelo infantil e são uma forma de
apresentar os doces inventariados

10 Feira de antiguidades que acontece aos sábados no largo do Mercado Público de Pelotas.

Figura 9 - Crianças
brincando com o
Jogo da Velha.
Fonte: Acervo LEP/
UFPel, 2017.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 278
Teatro de Fantoches e produção de
Dedoches
Esta apresentação foi inspirada na história do Livro de Ati-
vidades para encenar, de forma lúdica, uma história na qual
os doces são os protagonistas e o enredo é a visita ao Museu
do Doce, contemplando o reconhecimento da tradição do-
ceira de Pelotas.
A peça foi apresentada inúmeras vezes para escolas e
Figura 10 - Teatro de público espontâneo e sempre encanta e diverte as crianças
Fantoches. que, desta forma, conhecem alguns doces - seus ingredien-
Fonte: Acervo LEP/ tes e características - e como essas tradições do passado
UFPel, 2017.
chegaram até hoje. A maior parte dos doces-personagens
são doces tradicionais, aos quais foram acrescentados o bri-
gadeiro e o branquinho, por conta de sua popularidade entre
as crianças.
Em algumas ocasiões, depois de assistir a peça, as crian-
ças escolhem seus doces preferidos e montam seus Dedo-
ches (pintando seu doce-personagem) e, ao final, apresen-
tam sua própria peça, com auxílio da equipe do LEP, tanto na
execução dos personagens como na elaboração do roteiro.

Projetos atuais
Além de continuar a trabalhar na utilização e qualificação
dos materiais já existentes - estão em desenvolvimento dois
novos jogos, ainda em fase de testes e ajustes. No primeiro,
intitulado De Cara com o Patrimônio de Pelotas, nos moldes
do jogo infantil Cara a Cara, busca-se, através de pergun-
tas e raciocínio lógico, descobrir a edificação escolhida pelo
Figura 11 - Produção oponente. O segundo, um Jogo de Memória (provisoriamente intitulado Jogo do
infantil do dedoche.
Patrimônio de Pelotas), retrata prédios inventariados, desta vez evidenciando edi-
Fonte: Acervo LEP/
ficações de uso residencial, patrimônio cotidiano pouco reconhecido, buscando
UFPel, 2018.
direcionar o olhar do público para seus elementos construtivos e seus usos, e assim
como para os níveis de proteção conferidos a estes bens.
O Jogo de Memória foi aplicado no Museu do Doce, no Dia do Patrimônio - edi-
ção 2019 - como parte da programação do evento. Os visitantes que jogaram, tive-
ram a percepção visual de alguns imóveis protegidos pelo Inventário. São edifica-
ções que, por não serem monumentais, muitas vezes não são reconhecidas como
patrimônio ou, até mesmo, não são vistas pelos transeuntes. O jogo despertou a
curiosidade de saber onde estas casas estão localizadas na cidade, bem como de
conhecer suas histórias.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 279
Figura 12 - Protótipo
do Jogo de Cara com
o Patrimônio de
Pelotas.
Fonte: Acervo LEP/
UFPel, 2019.

Figura 13 - Protótipo
do jogo da memória
patrimônio de
Pelotas.
Fonte: Acervo LEP/
UFPel, 2019.

Resultados
Para exemplificar os efeitos das atividades educativas na visita ao Museu e so-
bre a qualidade da apropriação patrimonial que ocorre, apresentamos aqui os re-
sultados11 das aplicações do Jogo de Memória do Museu do Doce, realizadas em
2017, com alunos do 4º ano do ensino fundamental, alunos de pré-escola, um gru-
po da terceira idade e público espontâneo.
A utilização de um instrumento de pesquisa, a observação do jogar e a realiza-
ção de entrevista com o Museólogo do Museu do Doce, Matheus Cruz12, possibili-
taram estabelecer que tipo de reação o Jogo de Memória provocava em relação ao
Museu, e permitem afirmar que relacionar-se com as imagens dos detalhes através
do jogo, muda a percepção do espaço do Museu. A entrevista com o museólogo –
que mediou diversas visitas dos jogadores – inclusive aponta que “as crianças que
visitaram a exposição após a atividade educativa, interagiram com maior facilida-
de durante a mediação, procurando os detalhes vistos nas cartas” do jogo. (CRUZ
apud AMARO, 2017, P 45).
Por outro lado, jogar depois de visitar o Museu, também é interessante, pelo
reconhecimento possível dos elementos retratados, muitas crianças identificaram
as imagens e sua localização e, ao jogar, contam, por exemplo: “esse é o olho!”
referindo a imagem da clarabóia, ou “essa eu sei onde fica, é na cozinha” referindo
a carta com as imagens de azulejos. (AMARO, 2017, P 38).
Perguntados se voltariam à exposição para procurar os detalhes das cartas que
não haviam visto durante a visita anterior, 75% das pessoas responderam que sim,
que iriam buscá-los no Museu. Nesta situação, algumas pessoas pediram para le-
var emprestadas as cartas em busca do elemento não identificado anteriormen-
te, o que levou à elaboração de uma planta baixa com a localização das imagens,
numa espécie de mapa do jogo.
Além disso, percebeu-se o surgimento de uma curiosidade mais abrangente,
que vai além da localização do detalhe e que leva a indagações sobre técnicas
construtivas, usos da casa e modos de viver, entre outras:
11 Estes dados integram o Trabalho de Conclusão de Curso de Gizele Amaro, apresentada ao Curso de
Bacharelado em Museologia em 2017.
12 Entrevista realizada em 27/07/2017 por Gizele Amaro.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 280
“Foi uma maneira divertida e interessante de conhecer a casa”, “me fez perce-
ber locais e objetos que não tinha prestado atenção antes”(sic), “conheci algumas
figuras no qual não reparei na visita”(sic) (AMARO, 2017, P 47), foram alguns dos
comentários feitos pelos visitantes-jogadores que estimulam a manutenção e am-
pliação das ações deste tipo nas instituições de memória.

Considerações finais
As instituições de memória, agentes sociais que são, devem promover ações
educativas voltadas para o patrimônio. Essas ações colaboram para que as comu-
nidades reconheçam e valorizem esses espaços culturais. As atividades educati-
vas, desenvolvidas pelo Laboratório de Educação para o Patrimônio no Museu do
Doce da UFPel, se propõem a ser uma maneira de trazer diferentes públicos para o
museu e de qualificar a experiência de que desfrutam na instituição.
As ações educativas produzidas pelo LEP aproximam os públicos dos bens pa-
trimoniais por meio do ato de brincar, integrando educação, preservação e patri-
mônio e, para os alunos do Curso de Bacharelado em Museologia da UFPel, elas
constituem uma experiência fora da sala de aula e proporcionam contato com o
público dos museus, fazendo com que os alunos se integrem na Extensão, um dos
pilares do fazer universitário e, ao mesmo tempo, adquiram um repertório que
será utilizado em sua vida profissional, nas ações educativas, embora não exclu-
sivamente nelas.
Os muitos jogos e materiais desenvolvidos no Laboratório, nesta já longa par-
ceria com o Museu do Doce, se justificam na medida em que se compreende o
Museu também como lugar de brincar e de aprender com outros olhares, usando
outros sentidos. Nesta direção, o Jogo de Memória Tátil, coloca a educação para o
patrimônio no caminho da acessibilidade e da inclusão.
Na concepção e construção de atividades e materiais educativos é essencial
que se leve em conta a sua capacidade de estimular o sujeito a desenvolver seu ra-
ciocínio e suas habilidades. Por intermédio dos jogos, o visitante tende a se tornar
mais atuante em relação aos bens culturais, razão pela qual os museus têm bus-
cado dinâmicas diferentes, muitas vezes com marcantes elementos de ludicidade,
para atrair e despertar o interesse do público pelo patrimônio e aumentar o seu
potencial educacional.
As ações educativas aliam-se à tarefa de dar a ver que museus e patrimônio não
estão no passado, mas no presente e mirando o futuro. Para isso, acervos e ações
museais e patrimoniais devem buscar conexão com seu entorno. As instituições
devem ser propositivas e provocativas, para que visitantes e participantes das ati-
vidades sejam estimulados a pensar criticamente sobre a sociedade em que vivem.

Referências
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 281
CHAVES, Rafael Teixeira; AMARO, Gizele Santos; GASTAUD, Carla Rodrigues;
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WAJSKOP, G. O brincar na educação infantil. In: Cadernos de Pesquisa, n° 92, p.


62- 69. 1995

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 282
SOBRE OS AUTORES
Rafael Teixeira Chaves, bacharel Atuou como voluntária no LEP, duran-
em Museologia pela UFPel. Mestran- te a graduação em Museologia. E-mail:
do do Programa de Pós-Graduação gizeleamaroo@[Link]
em Museologia e Patrimônio da Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Carla Rodrigues Gastaud, gradua-
Sul. Atuou como voluntário e Bolsis- da em História e em Direito pela UFPel.
ta do LEP de 2016 até 2018. E-mail: Doutora em Educação pela UFRGS. É
rafateixeirachaves@[Link] professora associada no Curso de Mu-
seologia e no Programa de Pós Gradu-
Patricia Cristina Cruz Sá, bacha- ação em Memória Social e Patrimônio
rel em Museologia pela UFPel. Douto- Cultural, ambos da UFPel. Coordena
randa no Programa de Pós-Graduação o Laboratório de Educação para o Pa-
em Educação da FEUSP. Foi bolsista trimônio do Curso de Museologia da
de extensão no LEP entre 2013 e 2015. UFPel. E-mail: crgastaud@[Link]
E-mail: patricia_cruz@[Link]

Gizele Santos Amaro, bacharel


em Museologia pela UFPel. Cursan-
do Especialização em Artes na UFPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Cultura nº9 283
Direitos Humanos e Justiça

D I R E I T O S
H U MAN O S E
J U S T I Ç A

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 284
ATIVIDADES DE EXTENSÃO
DIRECIONADAS ÀS MULHERES NA
TERCEIRA IDADE:
FLUXO DE ACOLHIMENTO

Noéli Boscato
Fabíola Jardim Barbon
Thiago Azário de Holanda
Júlia Machado Saporiti
Melissa Feres Damian
Fernanda Weingartner Machado Luz

Envelhecimento populacional e acesso aos


serviços
O Brasil apresenta-se em uma transição demográfica populacional oriunda das
altas taxas de natalidade registradas em décadas passadas e as atuais baixas taxas
de mortalidade, o que resulta em transformação da estrutura etária justamente
em decorrência desse aumento da proporção de idosos no conjunto populacional
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº1

global (CAMARANO; KANSO 2010). Porém, apesar do aumento do número de in-


divíduos idosos, as melhorias nos serviços de saúde, voltados para esta faixa etária
da população, não foram implementadas de maneira diretamente proporcional as
suas necessidades, principalmente em países com perfil socioeconômico deficitá-
rio (MIRANDA; MENDES; SILVA, 2016).
No Brasil, estima-se que 18 milhões de indivíduos — 9% da população — terão
65 anos ou mais no ano de 2020 (BRASIL, 2012). Esta faixa etária da população
tem na saúde bucal um fator primordial para o seu bem-estar e qualidade de vida.
O cirurgião-dentista, assim como todos os profissionais da área da saúde, deve es-
tar ciente das alterações bucais e sistêmicas resultantes do envelhecimento, bem
como sobre o adequado manejo dessas necessidades (WHO, 2014; DA SILVA et al.,
2016; SANTOS; SOUZA, 2018).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 285


Apesar das significantes melhorias estabelecidas nos serviços odontológicos
preventivos e curativos, públicos e privados, destinados aos idosos, algumas la-
cunas ainda existem e são percebidas devido aos elevados índices de edentulismo
que ainda existem no Brasil (CARDOSO et al., 2016). O projeto SB 2010 apontou
que 92,6% da população idosa brasileira (65 a 74 anos) necessita de algum tipo de
prótese dentária, sendo que 33,3% destes necessitam de próteses totais (BRASIL,
2012). O edentulismo parcial ou total pode resultar em significante deterioração
do sistema estomatognático incluindo alterações estruturais patológicas, sinto-
máticas ou assintomáticas, na articulação temporomandibular (BOSCATO et al.,
2016). De fato, a perda total ou parcial dos dentes, limita as funções diretamente
relacionadas à manutenção de atividades funcionais básicas para a sobrevivência
do ser humano, e consequentemente, afeta diretamente a qualidade de vida da-
queles acometidos pelo edentulismo total ou parcial, uma vez que resulta na dimi-
nuição da capacidade mastigatória e fonética bem como em prejuízos de ordem
nutricional, estética e psicológica, com redução da autoestima e da integração so-
cial (MOREIRA, NICO, TOMITA, 2011).

Fundamentação do Projeto
O Projeto de extensão “Promoção de Saúde e Qualidade de Vida para Mulheres
na Terceira Idade”, carinhosamente também chamado de “Reabilitare”, insere-se
na linha temática “Mulheres e Relação de Gênero”. As ações na área de saúde
direcionadas às mulheres, durante muitos anos, estavam restritas ao viés mater-
no-infantil. Em 1984, especialmente com relação à saúde da mulher, o Ministério
da Saúde elaborou o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM)
marcando, sobretudo, uma ruptura conceitual com os princípios norteadores da
política de saúde das mulheres e os critérios para eleição de prioridades. Este novo
programa incluía ações educativas, preventivas, de diagnóstico, tratamento e re-
cuperação, englobando assistência à mulher em clínica ginecológica, no pré-na-
tal, parto e puerpério, no climatério, em planejamento familiar, DST, câncer de
colo de útero e de mama, além de outras necessidades identificadas a partir do
perfil populacional das mulheres. Adicionalmente, buscou-se garantir os direitos
da mulher conforme consta na Lei 11.340 do ano de 2006, art. 2o “Toda mulher,
independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível
educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa
humana, sendo-lhes asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem
violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, inte-
lectual e social”. Inúmeras outras leis e vantagens foram estabelecidas a fim de fa-
vorecer a saúde das mulheres, as quais têm alcançado uma expectativa de vida de
79,9 anos em 2018, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,
2019).
Em 1994, o Brasil instituiu a Lei 8.842, a qual estabelece a Política Nacional do
Idoso (PNI) e o Conselho Nacional do Idoso. Esta lei, além de considerar como ido-
so qualquer pessoa acima de sessenta anos de idade, tem como objetivo assegurar
os direitos sociais desta faixa etária da população estabelecendo condições para
promover sua autonomia, integração e participação ativa na sociedade (BRASIL,
1994). Adicionalmente, em 1999, foi estabelecida a Política Nacional de Saúde do
Idoso (PNSI), cujas diretrizes essenciais norteiam a definição ou a redefinição dos
programas, planos, projetos e atividades do setor na atenção integral às pessoas
em processo de envelhecimento e à população idosa (BRASIL, 1999). Em 2003 foi

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 286
sancionado o Estatuto do Idoso pela Lei nº 10.741, o qual expõe entre os direi-
tos fundamentais do idoso àqueles relacionados à Saúde, tais como (1) o atendi-
mento integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS); (2) atendimento geriátrico em
ambulatórios; (3) atendimento domiciliar; reabilitação; (4) fornecimento de me-
dicamentos, próteses e órteses; (5) direito de opção pelo tipo de tratamento; (6)
direito a acompanhante; (7) proibição de discriminação em plano de saúde e (8)
treinamento dos profissionais de saúde, dos cuidadores familiares e dos grupos
de auto-ajuda (BRASIL, 2003).
No entanto, embora a legislação brasileira seja bastante progressiva e elabora-
da, a prática de fato ainda é insatisfatória. Assim, como o processo de envelheci-
mento é marcado por doenças e agravos que impõem sérias limitações ao bem-es-
tar dos idosos, é fundamental que a população e autoridades estejam preparadas
para este processo de envelhecimento, principalmente no que se refere à saúde
daqueles.
Segundo a Constituição da Organização Mundial da Saúde (OMS), a “Saúde é o
completo bem-estar físico, mental e social e não simplesmente a ausência de do-
ença ou enfermidade” (WHO, 2014; PETERSEN, 2003). Com base neste conceito
e o novo perfil da população, torna-se fundamental propiciar maior ênfase às
políticas de promoção de saúde e à manutenção da autonomia para o idoso, uma
vez que a qualidade de vida está diretamente relacionada às boas condições de
saúde geral e está associada à fatores emocionais e às perspectivas do paciente,
assim, como possui diferentes definições devido aos aspectos culturais, étnicos,
religiosos e até mesmo pessoais e estes influenciam na forma como é percebida
(GOLINOWSKA; GROOT; PAVLOVA, 2016). A partir do entendimento de que há
interrelação entre doenças bucais e doenças crônicas, entende-se que a saúde bu-
cal é integrante da saúde geral. Desse modo, estudos com idosos têm sido realiza-
dos com o intuito de avaliar sua auto-percepção quanto à saúde bucal e o impacto
deste aspecto na sua qualidade de vida (MENEGHIM; AMBROSANO, 201; MELO,
2016).
Além disso, têm sido avaliados aspectos funcionais, sociais e psicológicos que
são consideravelmente afetados por uma condição bucal insatisfatória. Com tal
propósito, inúmeros questionários foram elaborados e validados para a realiza-
ção destas avaliações e atualmente têm sido amplamente utilizados para realiza-
ção de pesquisas relacionadas a estes propósitos (ABUD et al., 2009; IKEBE et al.,
2012). No contexto de fatores psicológicos, pode-se inserir também a Teoria Sa-
lutogênica que trata do estudo de como e por que as pessoas permanecem bem
mesmo sob situações desfavoráveis e estressantes (ANTONOVSKI, 1979). Na área
da saúde, essa teoria tem sido considerada como uma nova abordagem para a
avaliação de indivíduos em condições crônicas de saúde ou pertencentes a grupos
específicos, como idosos, adolescentes, gestantes e crianças (MARÇAL, 2018). Em
relação aos idosos, poucos estudos avaliaram o senso de coerência neste grupo
específico (VIRUÉS-ORTEGA et al., 2007; MACHADO et al., 2017; POSSEBON et
al., 2017; LUZ et al., 2019).
A realização de projetos de inserção social envolvendo acadêmicos e a comu-
nidade é de suma importância, uma vez que torna possível gerar conhecimento a
respeito dos aspectos odontogeriátricos associados à terceira idade e estimular
o adequado tratamento e a interação dos alunos e profissionais da odontologia
com esta faixa etária da população e gênero para propiciar melhor abordagem e
tratamento, bem como sua inserção social. Assim, é preciso conhecer os proble-
mas relacionados à saúde de mulheres idosas para atuar de forma adequada na

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 287
prevenção e no tratamento, tanto na esfera pública quanto na privada. O conhe-
cimento dos aspectos envolvidos na percepção da saúde pode revelar os grupos
mais vulneráveis e subsidiar informações básicas que devem nortear os serviços
de saúde quanto às iniciativas de promoção de melhor qualidade de vida. Com
vistas a toda essa problemática, no que se refere às mulheres na terceira idade,
é essencial que projetos de extensão sejam idealizados e postos em prática visto
que a saúde bucal ainda tem sido relegada ao esquecimento no Brasil. Além dis-
so, estudos epidemiológicos de base populacional contribuem para identificação
de problemas e norteiam a busca por melhores condições de vida para esta faixa
etária da população.
Adicionalmente, além das avaliações realizadas para diagnosticar possíveis do-
enças bucais e emocionais relacionadas às idosas, este Projeto de Extensão permi-
te também o contato dos acadêmicos e de toda a equipe com este grupo da popu-
lação, possibilitando o aprendizado para o adequado atendimento da população
idosa. O Projeto busca corroborar com a Política Nacional de Atenção Integral à
Saúde da Mulher (PNAISM) (BRASIL, 2004), na qual consta em seus objetivos es-
pecíficos e estratégias: “Promover a atenção à saúde da mulher na terceira idade”.
Neste contexto, busca-se observar às especificidades da atenção à saúde da mu-
lher e o incentivo à incorporação do enfoque de gênero na Política de Atenção à
Saúde do Idoso no SUS (BRASIL, 1999). A importância de se investigar aspectos
relacionados à saúde geral, bucal e emocional, que podem influenciar na qualida-
de de vida de idosas, se deve à busca de um atendimento que não ignore os as-
pectos sociais e emocionais da saúde destas mulheres. Neste sentido, é de grande
importância a busca pelo entendimento sobre como estes fatores são percebidos
por elas e como afetam sua qualidade de vida.
Este projeto tem relação direta com o projeto político pedagógico do curso de
Odontologia, uma vez que as atividades de extensão estão contempladas na polí-
tica pedagógica do curso. Seu desenvolvimento tem grande impacto na formação
dos estudantes no contexto de produção de conhecimentos e inserção social, per-
mitindo aos alunos maior contato com esta faixa etária da população, visto que
na matriz curricular da graduação não está disponibilizada a disciplina de Odon-
togeriatria, apesar de sua implementação estar sendo fortemente cogitada para
compor a nova matriz curricular da Faculdade de Odontologia/UFPel.

Envolvimento do projeto com o Plano Nacional de


Extensão Universitária
A Coordenadora do Projeto de Extensão, Profa. Dra. Noéli Boscato, subme-
teu uma proposta e foi contemplada com um financiamento disponibilizado pela
agência pública —Ministério da Educação e Cultura — edital Proext 2015-MEC
ProEXT. Após aprovação da proposta o projeto de extensão “Promoção de Saú-
de e Qualidade de Vida para Mulheres na Terceira Idade” foi implementado como
Projeto de Extensão e de Ensino. O objetivo principal deste projeto é promover a
saúde de mulheres que se encontram na faixa etária da terceira idade e minimizar
as desigualdades entre os gêneros e entre as faixas etárias do mesmo gênero. A
atuação no projeto proporciona aos alunos que nele atuam um aperfeiçoamen-
to das habilidades e competências com relação ao atendimento odontológico
desta faixa etária da população, como também permite atuar na transformação
de desenvolvimento social visando aprimorar políticas públicas relacionadas ao

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 288
tratamento das idosas e produzindo conhecimentos que contribuam para a me-
lhoria na atenção básica à saúde desta população.
Dessa maneira, o projeto desenvolve atividades que possibilitam ao aluno/pro-
fissional vínculo no processo de formação que viabilize não só aperfeiçoamento
técnico odontológico, mas, também, a articulação universidade/sociedade. No
fluxo de atendimento do projeto é disponibilizado a execução de exames clínicos,
radiográficos, atividades educativas para a comunidade acadêmica e não acadê-
mica e, finalmente, atendimento clínico, preventivo e curativo através da prática
de diferentes especialidades da odontologia como prótese, endodontia, periodon-
tia, cirurgia e dentística.
Este projeto busca seguir as diretrizes do Plano Nacional de Extensão Universi-
tária visando uma relação dialógica, na intenção de produzir um conhecimento
novo resultante da interação dos acadêmicos com a sociedade e para que possa
contribuir na melhoria da atenção às idosas. Também busca a indissociabilidade
Ensino-Pesquisa-Extensão e, dessa forma, entrelaçando estes três eixos, abrem-
-se múltiplas possibilidades de articulação entre a Universidade e a sociedade.

Dinâmica de fluxo do projeto


No Projeto de Extensão “Promoção de Saúde e Qualidade de Vida para Mulhe-
res na Terceira Idade” são atendidos, principalmente, mulheres com idade supe-
rior a 65 anos em vulnerabilidade social. Os pacientes que procuram atendimento
são inicialmente avaliados clinicamente e depois submetidos a exames radiográ-
ficos para auxiliar no diagnóstico da condição de saúde bucal e outros indicadores
de saúde. Depois de estabelecido o diagnóstico e plano de tratamento, o paciente
é informado sobre as suas necessidades e plano de tratamento proposto. Se con-
cordar com o mesmo, é assinado um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A partir da sua inclusão na dinâmica de atendimento, inicia-se a aplicação de
questionários para avaliação de fatores psicológicos e sociodemográficos e, pos-
teriormente, é conduzido o tratamento odontológico em todos os níveis. São utili-
zados questionários como WHOQOL-OLD (FLECK; CHACHAMOVICH; TRENTINI,
2006) para avaliação da qualidade de vida e idosos, o qual considera seis dimen-
sões de conhecimento, tais como o funcionamento dos sentidos, autonomia, ativi-
dades passadas, presentes e futuras, participação social, morte e medo de morrer
e intimidade. Cada questão, a partir das possibilidades de resposta indicam a quali-
dade de vida dos idosos. Neste contexto, também utiliza-se no projeto a avaliação
emocional baseada na Teoria Salutogênica, cujo conceito central, chamado senso
de coerência, significa um estado de harmonia e bem-estar com o meio social,
familiar e consigo mesmo. O senso de coerência é composto teoricamente por
três componentes: compreensão, manejo e significado (ANTONOVSKY, 1979). Os
três componentes foram formulados a fim de identificar a resposta para a ques-
tão salutogência e atuam conjuntamente — permitindo ao indivíduo enfrentar os
estressores presentes na vida cotidiana — e têm sido utilizados pelos pesquisado-
res que trabalham com qualidade de vida para definir quais as áreas são críticas
para que o indivíduo se sinta bem e saudável (MIRANDA; MENDES; SILVA, 2016).
Os tratamentos clínicos curativos disponibilizam tratamentos protéticos, como
próteses fixas, parciais removíveis, próteses totais e placas oclusais. No entanto,
previamente à confecção das próteses são realizados exames radiográficos, ade-
quação do meio bucal, o qual inclui tratamento periodontal, endodôntico, restau-
rador, cirúrgico e o que mais se fizer necessário a fim de adequar o ambiente bucal

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 289
para receber a prótese dentária. Abaixo seguem alguns exemplos de tratamentos
odontológicos e atividades realizadas pelos discentes e participantes do projeto,
sob orientação do docente responsável. Todas as imagens foram obtidas do acer-
vo do referido Projeto de Extensão.

Figura 1 – Caso Clínico 1: Reabilitação bucal iniciada pela adequação do meio bucal, seguida de
tratamento endodôntico e periodontal e confecção de prótese parcial removível.
Fonte: Acervo Profa. Dra. Noéli Boscato.

Figura 2 – Caso Clínico 2: Prótese fixa e facetas.


Fonte: Acervo Profa. Dra. Noéli Boscato.

Figura 3 – Caso Clínico 3: Prótese total superior e inferior.


Fonte: Acervo Profa. Dra. Noéli Boscato.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 290
Figura 4 – Caso Clínico 4: Prótese fixa superior.
Fonte: Acervo Profa. Dra. Noéli Boscato.

Figura 5 – Caso Clínico 5: Prótese fixa superior


Fonte: Acervo Profa. Dra. Noéli Boscato.

Atualmente, participam docentes e discentes da graduação e pós-graduação


que atuam tanto no acolhimento do paciente como nas atividades educativas,
nos procedimentos clínicos e, também, na logística do fluxo do projeto que inclui
o agendamento dos pacientes, o adequado preenchimento das fichas clínicas e
aplicação de questionários avaliando qualidade de vida e aspectos psicológicos e
Figura 6 – Imagem clínicos dos pacientes em atendimento. Desde o inicio do projeto, em 2015, foram
de panfleto
educativo organizado
atendidas 240 pacientes, as quais responderam aos questionários e receberam
pelos discentes e tratamento endodôntico, periodontal, restaurador e protético, bem como infor-
docentes do projeto mações sobre os cuidados de saúde bucal primários e as doenças que acometem
e distribuídos para a a cavidade bucal, com o auxílio de panfletos, palestras e explicações individuais.
comunidade. Além disso, foram realizados exames radiográficos que incluem 58 panorâmi-
Fonte: Acervo Profa. cas, 47 teleradiografias laterais e 268 periapicais. Tais atividades desenvolvidas
Dra. Noéli Boscato. resultam no atendimento privilegiado e personalizado da população que, ainda

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 291
hoje, apesar de toda a evolução nos sistemas públicos e privados de saúde, é ca-
rente de cuidados especializados. Ainda, busca-se continuamente providenciar
ampla divulgação no que concerne à informação e aprendizado obtido à respeito
do tema para a comunidade em atendimento, profissionais e discentes envolvidos
através de palestras, entrevistas e publicação de artigos.

Figura 7 – Palestras Aos discentes, o projeto proporciona o aprimoramento do conhecimento so-


ministradas pela bre os procedimentos odontológicos direcionados a esta faixa etária da população
coordenadora do
projeto, Profa. Dra. e sobre os cuidados especiais que devem ser atribuídos a estes indivíduos que,
Noéli Boscato. preponderantemente, encontram-se em situação de vulnerabilidade emocional e
Fonte: Acervo Profa. econômica. Ainda, a participação nas atividades proporciona ao discente o conhe-
Dra. Noéli Boscato. cimento sobre organização administrativa, exames radiográficos e aspectos que
englobam a logística do atendimento clínico de idosos. Dessa forma, os discentes
participantes do projeto desenvolvem diferentes habilidades e competências que
incluem o planejamento e organização necessários em uma clínica odontológica,
e a experiência objetiva sobre a importância do trabalho interdisciplinar e em equi-
pe (operador, auxiliar e administrativo) para o bom funcionamento das atividades
e procedimentos clínicos.
Além disso, o projeto contou com a colaboração do Centro de Extensão em
Atenção à Terceira Idade (CETRES), o qual desenvolve ativamente ações educa-
tivas, socioculturais e de apoio à saúde mental para a promoção e melhoria da
qualidade de vida da Terceira Idade. O CETRES permite o contato com um gru-
po de idosos que busca atividades de lazer e convivência, o que contribui tanto
para a manutenção do equilíbrio biopsicossocial como a diminuição de possíveis
conflitos pessoais. Assim, os frequentadores do Centro de Convivência, envolvidos
neste projeto de extensão são avaliados clinicamente e recebem procedimentos
clínicos na Faculdade de Odontologia como também participam de palestras, ofi-
cinas e entrevistas.

Considerações Finais
Uma condição bucal insatisfatória afeta diretamente os aspectos funcionais,
sociais e psicológicos dos indivíduos idosos. Sendo assim, facilitar o acesso ao tra-
tamento odontológico e aos serviços de saúde para esta faixa etária da população
tem extrema importância, visto que estudos têm mostrado o impacto das condi-
ções bucais na qualidade de vida e bem-estar do indivíduo idoso (MACHADO et
al., 2017; LUZ et al., 2019). As avaliações e ações realizadas no referido projeto

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 292
desafiam os serviços a ampliar a sua qualidade e resolutividade com relação às do-
enças crônicas que acompanham o envelhecimento, incluindo o edentulismo, to-
tal ou parcial, e a oferta de tratamentos protéticos especializados e acesso facilita-
do e personalizado. Ainda é preciso enfatizar que a promoção de saúde através de
ações amplas e contínuas também é essencial na busca da redução do edentulis-
mo das futuras gerações, contribuindo, assim, para um envelhecimento saudável
(CARDOSO et al., 2016). No entanto, é preciso notar que, com o envelhecimento
populacional, a modificação da estrutura da pirâmide etária no Brasil e no mundo
já é uma realidade e o aumento da prevalência de doenças crônicas é um desafio
às práticas clínicas que envolvem idosos em situação de vulnerabilidade social e
relegados ao esquecimento pelos seus familiares.
Além disso, a promoção de saúde para mulheres na terceira idade é ainda mais
importante porque é histórica a discriminação social e econômica que ocorre com
as mulheres que pertencem a faixa etária da terceira idade, no que concerne à per-
da da juventude e entrada no período de climatério, e também no que diz respeito
à remuneração atribuída as atividades desenvolvidas por elas. Em função deste
lento e gradual progresso no que diz respeito ao atendimento da população idosa
do gênero feminino, a integral promoção de saúde ainda é um desafio. Dessa for-
ma, o projeto de extensão, aqui relatado, busca agregar o bem-estar e tratamento
a esta faixa etária da população e preza pela a indissociabilidade entre pesquisa,
ensino e extensão. Ainda, procura promover o desenvolvimento de habilidades e
competências dos discentes da graduação e pós-graduação participantes, bem
como para os docentes. Além das atividades clínicas já descritas, foco e objetivo
principal desta atividade de extensão, o projeto possibilitou, a partir dos dados co-
letados, a publicação de artigos científicos em periódicos de alto fator de impacto,
a publicação de resumos em periódicos de congressos nacionais e internacionais,
e a apresentação de seminários pelos discentes e docentes envolvidos, reportando
aspectos relacionados à dor orofacial, saúde bucal, condições emocionais e a qua-
lidade de vida dos idosos que buscaram atendimento. No 5° SIIEPE/CEC, o projeto
e um aluno bolsista receberam destaque na sala no eixo temático Saúde. Tais pro-
dutos podem ser vistos no Currículo Lattes da Coordenadora do projeto e demais
participantes.
Dentre os principais resultados publicados referentes aos dados obtidos no
projeto aqui relatado, podemos reportar que idosos com alto senso de coerên-
cia apresentaram melhor qualidade de vida relacionada à saúde bucal, indepen-
dente de condições sociodemográficas e clínicas (MACHADO et al., 2017). Outros
achados ainda revelaram que o senso de coerência mediou a associação entre de-
sordens temporomandibulares e qualidade de vida relacionada à saúde bucal, e a
qualidade de vida em geral (LUZ et al., 2019), e que idosos participantes de centros
de convivência apresentaram melhores percepções de qualidade de vida relacio-
nada à saúde bucal, independente de aspectos sociodemográficos, psicossociais e
clínicos (LUZ et al., 2019).
Finalmente, acreditamos que os projetos e atividades de extensão disponibili-
zados nas Universidades têm papel importante no que concerne às contribuições
que podem aproximar a comunidade em geral e promover o encontro da ciência
produzida nas Universidades com a sociedade não acadêmica.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 293
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 295
SOBRE OS AUTORES
Noéli Boscato, graduada em Odon- Júlia Machado Saporiti, graduada
tologia pela UPF, doutora em Clínica em Odontologia pela UFPel, mestran-
Odontológica na UNICAMP. Professora da em Clínica Odontológica pela UFPel.
Associada da Faculdade de Odontolo- Vinculada ao Projeto de Extensão des-
gia da UFPel. Coordenadora do Proje- de 2018. E-mail: [Link]@hot-
to de Extensão vinculada desde 2014. [Link]
E-mail: noeliboscato@[Link]
Melissa Feres Damian, graduada em
Fabíola Jardim Barbon, graduada Odontologia pela UPF, doutora em Ra-
em Odontologia pela IMED, mestre em diologia Odontológica pela UNICAMP.
Clínica Odontológica pela UFPel. Vin- Professora Associada da Faculdade de
culada ao Projeto de Extensão desde Odontologia da UFPel. Coordenadora
2015. E-mail: fabi_barbon@hotmail. Adjunta do Projeto de Extensão entre
com 2014 e 2018. E-mail: melissaferesda-
mian@[Link]
Thiago Azario de Holanda, gradua-
do em Odontologia pela UFPel, mestre Fernanda Weingartner Machado
em Clínica Odontológica pela UFPel. Luz, graduada em Odontologia pela
Vinculado ao Projeto de Extensão des- UFPel, doutora em Clínica Odontológi-
de 2015. E-mail: thiagoaholanda92@ ca pela UFPel. Vinculada ao Projeto de
[Link] Extensão desde 2014 a 2015. E-mail:
fernandawmachado@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº1 296
O PROGRAMA DE TERAPIA
OCUPACIONAL EM GERONTOLOGIA
(PRO-GERONTO) COMO ESPAÇO
PARA O CUIDADO DO IDOSO NA
COMUNIDADE

Zayanna Christine Lopes Lindôso


Amanda da Silveira Ribeiro
Ariadne Fernandes
Halana Duarte
Maitê Peres de Carvalho
Raillane de Oliveira Marques

Introdução
O envelhecimento populacional brasileiro já não é mais visto como algo novo.
Projeções apontam que, já a partir de 2020, o Brasil ocupará a sexta posição no
mundo em número de idosos superando 30 milhões de pessoas e podendo alcan-
çar a quinta posição até o ano de 2050 no que se refere ao número total de pes-
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº2

soas (235 milhões). É o que se observa em alguns estudos (MENDES et al., 2018;
CARVALHO; GARCIA, 2003, BRITO, 2008). As demandas e consequências deste
fenômeno implicam o aumento e a busca pela melhoria da atenção integral de-
dicada à população idosa. Todos os atores que compõem as redes de atenção (de
saúde, educação e social) devem munir-se de ações em concordância com as po-
líticas públicas direcionadas ao idoso; nesse sentido, a universidade constitui um
importante papel. A Universidade Federal de Pelotas – UFPel – tem três pilares que
determinam seu papel na formação profissional e destacam sua importância para
a comunidade: ensino, pesquisa e extensão. Destacando os projetos de extensão,
percebemos o quanto a universidade estreita laços, assiste a população e promove
o bem-estar populacional por meio destes projetos.
O Programa de Terapia Ocupacional em Gerontologia (PRO-GERONTO) é
um projeto que proporciona ao idoso que reside na comunidade a promoção e
o bem-estar por meio da prevenção do declínio cognitivo e na perspectiva do

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 297


envelhecimento ativo e em consonância com as políticas públicas direcionadas ao
idoso. Encontra-se inserido numa unidade básica de saúde (UBS) desenvolvendo
ações importantes para esta população como o grupo de memória, por exemplo.
Além da prevenção do declínio cognitivo, o PRO-GERONTO também atua com as
demandas que foram surgindo ao longo de sua existência, tais como atendimen-
tos individuais e domiciliares em que o foco se encontra nas necessidades mais
particulares de cada idoso; nesse caso, precisam ser atendidas individualmente,
além de ações de capacitação para pessoas que atendem idosos (estas mais re-
centes – 2019/2).
Outro aspecto importante que o projeto visa é a manutenção da capacidade
funcional do idoso para manter o desempenho ocupacional. O desempenho ocu-
pacional se refere no desempenho do indivíduo em suas atividades cotidianas.
Diante disso, ao longo deste capítulo, será possível conhecer um pouco da trajetó-
ria PRO-GERONTO nesses anos de atividades e como elas vêm se desenvolvendo
e ganhando importância para a população atendida e ainda sua importância na
formação profissional do terapeuta ocupacional.

Gerontologia e Terapia Ocupacional


O envelhecimento populacional brasileiro decorre de um processo de transição
demográfica que contribuiu – efetivamente – para a transição epidemiológica. A
multifatorialidade inerente ao processo de envelhecimento torna tal fenômeno
complexo, exigindo que os profissionais da saúde estabeleçam ações de maneira
integrada entre si e com familiares, cuidadores e os próprios idosos (PERES et al,
2018).
A senescência, de modo geral, não implica grandes demandas para a socieda-
de; entretanto, a senilidade envolve um declínio funcional importante que requer
atenção especial e abarca custos para o sistema de saúde. O aumento das mor-
bidades crônicas – principalmente – estabelece influência direta na autonomia e
na capacidade funcional do idoso para a realização de suas atividades cotidianas,
comprometendo a qualidade de vida. Estudos prévios evidenciaram que há uma
forte relação entre o comprometimento das atividades de vida diária (AVD) com
fatores como idade, sexo, escolaridade e renda, por exemplo (BARBOSA et al.,
2014; ALVES et al., 2010; DEL DUCA et al., 2009).
O sistema de saúde no Brasil ainda não despertou um olhar para a importância
da prevenção e da promoção da saúde mesmo após inúmeros estudos demons-
trarem o impacto e a relevância desse enfoque (SILVA et al., 2019). Dessa forma, é
crescente a prevalência de idosos com declínio nas habilidades para desempenhar
as atividades instrumentais de vida diária (AIVD) como gerenciar finanças, fazer
compras ou administrar seus medicamentos. Tais tarefas requerem uma boa ca-
pacidade cognitiva e – uma vez comprometidas – há forte tendência que as AVD
também sejam afetadas com o decorrer do tempo, mesmo em se tratando de ati-
vidades relativamente simples como vestir-se, alimentar-se, cuidar de sua higiene
pessoal e/ou manter controle de esfíncter. Dois estudos realizados com idosos da
zona urbana do município de Pelotas (RS) demonstraram que, em 2014 (FARÍAS-
-ANTÚNEZ et al., 2018), a prevalência de incapacidade funcional para AVD foi de
36,1% e para AIVD foi de 34,0%, sendo que 18,1% apresentaram incapacidade para
ambas atividades; para o mesmo desfecho pesquisado no biênio 2007-2008 (DEL
DUCA et al., 2009), as prevalências foram inferiores: 26,8%, 28,8% e 16,0%, res-
pectivamente.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 298
Diante desse contexto, compete à terapia ocupacional identificar as habilida-
des do idoso que podem ser restauradas ou mesmo adaptadas – podendo dispor
de alguns recursos adjuvantes – a fim de maximizar a independência do indivíduo
levando em consideração as particularidades do quadro clínico em questão. Dian-
te de um olhar holístico e com foco nas necessidades do cliente, o plano de trata-
mento a ser traçado deve considerar as limitações presentes e construir um novo
paradigma de promoção e manutenção da saúde, conscientizando o sujeito a inte-
grar ativamente e se corresponsabilizar por esse processo (MELLO, 2011).
O terapeuta ocupacional precisa desenvolver uma visão biopsicossocial e ser
um profissional com sensibilidade para captar o significado das atividades para
cada idoso diante das peculiaridades do caso. O desempenho ocupacional é o cer-
ne do atendimento, proporcionando um resgate/manutenção do engajamento
social do idoso e tencionando a maior autonomia possível. Sendo assim, articular
a interlocução idoso-família-cuidador, ponderar soluções para possíveis barreiras
arquitetônicas, reabilitar, recuperar a autonomia, otimizar as funções cognitivas,
orientar e incentivar o cliente, são alguns dos principais papeis do profissional de
terapia ocupacional no campo da gerontologia (MELLO, 2011; SIQUEIRA et al.,
2009; EXNER et al., 2018).

História do PRO-GERONTO
O Curso de Terapia Ocupacional (TO) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
tem como uma das estratégias na formação acadêmica proporcionar a prática ex-
tensionista a fim de possibilitar uma interação entre a universidade e comunidade
e ainda favorecer o aprendizado e o amadurecimento profissional do aluno. Den-
tre os projetos de Extensão do Curso de Terapia Ocupacional da UFPel, existe o
Programa de Terapia Ocupacional em Gerontologia (PRO-GERONTO).
O PRO-GERONTO foi oficialmente cadastrado no dia 13 de maio de 2013 (SIEX,
2019). Sua criação se deu pensando na necessidade de beneficiar idosos residentes
na comunidade por meio de ações e intervenções terapêutico ocupacionais que
contribuíssem na prevenção do declínio cognitivo, demências e demais processos
patológicos (ou situacionais) que – possivelmente – podem acometê-los, além de
promover a esta população um envelhecimento mais ativo tendo como nortea-
dores as políticas públicas específicas e as bases teóricas da Terapia Ocupacional.
Após a tramitação necessária o PRO-GERONTO iniciou suas atividades divulgan-
do o projeto entre os alunos e abrindo seu primeiro período de inscrições que foi de
30/05/13 a 09/05/13 (SIEX, 2019).
O Projeto iniciou com nove alunos do curso de Terapia ocupacional (TO) com
atendimento inicial de seis idosos no grupo de memória, realizado na Unidade Bá-
sica de Saúde (UBS) do bairro Navegantes, e dois atendimentos domiciliares no
mesmo bairro da cidade de Pelotas – RS. Nesse mesmo período, também se ini-
ciaram os atendimentos no Asilo de Mendigos (instituição de longa permanência)
da cidade com cinco idosos atendidos individualmente. Esses foram os primeiros
locais de desenvolvimento das atividades do projeto e permaneceram por um cur-
to período de tempo, cerca de dois meses.
Após esse período, o projeto ganhou um novo local para sediar suas atividades:
a UBS FRAGET; situada no Bairro Fragata, local em que se encontra até os dias atu-
ais. A ida para a UBS FRAGET foi indicada pela Secretaria Municipal de Saúde de
Pelotas, após uma reunião entre a coordenação do projeto e a superintendência.
No mês de julho de 2013, foi então oficializada a mudança do local das atividades

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 299
do projeto cujo motivo está relacionado a questões de segurança dos alunos que
vinha comprometendo as atividades do PRO-GERONTO naquele período.
A recepção por parte da equipe da UBS FRAGET foi extremamente positiva;
foram acolhedores e se dispuseram a contribuir com o que fosse necessário para o
sucesso do projeto naquele local. Os alunos e a professora coordenadora iniciaram
o processo de divulgação do projeto afixando cartazes na recepção e falando com
os usuários sobre o início das atividades através do grupo de memória. Como o
espaço da UBS é – em sua maioria – compartilhado foi preciso organizar junto à
equipe os horários, dias e espaço físico a serem utilizados pelo projeto. A superin-
tendente da Secretaria de Saúde do município esteve no FRAGET para saber como
estavam indo o planejamento e implementação das atividades do PRO-GERONTO
e também manifestou apoio ao projeto. Em momento posterior, quando o projeto
já estava efetivamente em andamento na UBS FRAGET, a superintendência fez
mais uma visita. Os primeiros dois meses do PRO-GERONTO na UBS FRAGET se
deu – justamente – para esse processo organizacional e posteriormente se iniciou
a implementação do grupo de memória.
Desde o início, muitos idosos se beneficiaram e ainda se beneficiam do projeto.
Alguns participantes do grupo de memória não são fixos, indo a convite dos idosos
para conhecer o projeto e participar de um dia de atividades do grupo (ocasio-
nalmente). Por diversas vezes, o PRO-GERONTO recebeu esses convidados; ini-
cialmente, foi organizada uma ficha de controle desses visitantes que chegou a
registrar dez visitas, porém, esse controle acabou se perdendo. Entretanto, a ideia
é que esse controle retorne, pois acreditamos que os visitantes se beneficiam tam-
bém das informações e vivências ofertadas pelo projeto embora não da mesma
forma. A tabela 1 traz um panorama das avaliações dos idosos no PRO-GERON-
TO (iniciada no início de 2014). Esse panorama se refere somente à avaliação dos
participantes do grupo de memória, pois as demais ações do projeto ainda são
consideradas mais recentes e futuramente será possível uma quantificação das
mesmas.

Tabela 1 – Número de idosos participantes do grupo de memória do PRO-GERONTO que foram


avaliados entre 2014 e 2019.

Ano
2014 2015 2016 2017 2019*
Nº de Avaliados 19 16 9 13 2

Homens 3 1 1 - -
Mulheres 16 15 8 13 2
Menos de 60 anos 5 2 1 2 -
Entre 60-70 anos 6 9 3 7 2
Mais 70 anos 6 5 5 4 -

*
As avaliações de 2019 iniciaram recentemente e por esta razão as informações apresentadas
na tabela são parciais e sofrerão alterações. Optamos por mostrar essas parciais para destacar
o seguimento da ação. **O ano de 2018 não se encontra na tabela devido ao período de
reformulação do projeto a pedido da universidade. Vide texto a seguir.
Fonte: Os Autores.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 300
O total de idosos avaliados foi de 61; entretanto, duas avaliações não foram
contabilizadas na tabela por não ter a data registrada. Cabe ressaltar ainda que
– no ano de 2018 – não houve avaliação, e as atividades do projeto foram pausa-
das por oito meses devido à solicitação da universidade de inserção de algumas
informações contidas no cadastro do PRO-GERONTO no sistema da instituição. O
projeto então foi cadastrado novamente, e sua tramitação levou alguns meses até
que – no segundo semestre do referido ano – foi possível retomar as atividades do
projeto. Outro ponto importante a ser destacado é que o grupo de memória man-
tém a participação permanente de alguns de seus participantes, o que influencia
diretamente na quantidade de avaliações realizadas. Cabe ressaltar – ainda – que
os idosos frequentam a UBS e sempre tinham acesso às informações de retorno do
grupo por meio dos cartazes afixados na recepção. Não tivemos dificuldades em
relação à manutenção do vínculo com os idosos.
Uma das dificuldades apontadas pelos alunos atuantes no projeto se refere à
dificuldade na realização dessas avaliações. Mesmo recebendo lembretes por es-
crito, alguns idosos se esquecem da data e horário da avaliação; por vezes faltam
sem apresentar justificativa ou justificam a ausência alegando questões pessoais,
de saúde e familiares. As remarcações nem sempre são efetivadas pelos mesmos
motivos e isto certamente representa mais um fator influenciador dos dados apre-
sentados na tabela 1. Para driblar essas dificuldades, os alunos passaram a ligar
para os idosos e ainda assim – por vezes – não conseguiam efetivar as avaliações.
Por outro lado, essas ligações permitiram que alguns participantes lembrassem do
compromisso da avaliação.
Outras informações que consideramos importantes de serem aqui destacadas
se referem à quantidade de alunos que já passaram pelo projeto. As informações
estão destacadas na tabela 2.

Tabela 2 – Número de alunos voluntários e bolsistas participantes do PRO-GERONTO.

Número 2014 2015 2016 2017 2019


Voluntários 09 09 08 10 14
Bolsistas -- 01 02 -- 01
Total/Ano 09 10 10 10 15
Total 54
Fonte: Os Autores.

O PRO-GERONTO segue realizando suas atividades e possibilitando o resgate


ou manutenção da identidade de forma criativa, oferecendo a esses idosos novas
possibilidades de viver a velhice. O PRO-GERONTO busca ainda oferecer para os
idosos a interação social que ocorre na realização dos grupos de memória e até
mesmo de lazer, pois muitos relatam que o projeto também é uma forma de lazer
para si e ajuda a lidar com seus aspectos emocionais.

Ações desenvolvidas no PRO-GERONTO


As ações desenvolvidas pelos alunos no projeto visam beneficiar os idosos
residentes dessa comunidade por meio de práticas terapêuticas ocupacionais
que auxiliem em um envelhecimento mais ativo e saudável, contribuindo para a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 301
prevenção de agravos à saúde comuns a esta população. Dentre as práticas reali-
zadas pelos alunos, estão: a avaliação do idoso, o grupo de memória e os atendi-
mentos individuais e domiciliares. A seguir descrevemos brevemente essas ações.

Avaliação do idoso
As avaliações são preferencialmente aplicadas assim que os idosos ingressam
no projeto. Elas são agendadas junto com o idoso e realizadas por meio de instru-
mentos padronizados e instrumentos elaborados especificamente para o projeto.
São realizadas num único encontro, porém, quando há necessidade pode ser ter-
minada em um segundo momento.
Os instrumentos utilizados no PRO-GERONTO são os seguintes: 1- Questioná-
rio geral: elaborado especificamente para o projeto, usado para obter informações
gerais dos idosos. Contém questões referentes à situação socioeconômica, idade,
religião, endereço, contatos e cada um conta com uma foto do idoso situado na
parte superior direita do instrumento para facilitar a identificação. 2- Questionário
de saúde: esse instrumento também foi pensado para o projeto. Nele busca-se
saber as principais queixas (físicas, cognitivas e psicossociais) dos idosos e seu his-
tórico de saúde. Ainda neste instrumento, registra-se o plano de intervenção tra-
çado para o idoso caso seja necessário um atendimento individual ou domiciliar.
3- Miniexame do Estado Mental (MEEM): trata-se do teste de rastreio cognitivo
mais utilizado no mundo. Também é utilizado no rastreio de demência. Publicado
pioneiramente por Folstein et al. (1975). O MEEM tem itens que avaliam a memó-
ria, atenção, orientação e funções executivas. O MEEM tem uma pontuação total
de 30 pontos e dentre os pontos de corte a pontuação de 24 a 25 pontos, de acordo
com Folstein et al. (1975), sugerem déficit cognitivo (MELO; BARBOSA, 2015). 4 –
Teste de Percepção Subjetiva de Memória (MAC-Q): O principal objetivo do teste é
avaliar a percepção que o indivíduo tem de sua memória no momento presente fa-
zendo uma comparação de quando tinha seus 40 anos de idade. Foi proposto por
Crook et al. (1992). A pontuação varia de 7 a 35 pontos e a pontuação de 25 pon-
tos sugere uma percepção de perda subjetiva de memória (LINDÔSO et al., 2011).
5- Avaliação Funcional Breve (AFB): é um instrumento de rastreio para verificar a
capacidade funcional do idoso. Foi proposto por Lachs et al. (1990). Compõe-se de
11 itens que avaliam os seguintes domínios: visão, audição, braço, perna, inconti-
nência urinária, nutrição, estado mental (memória), depressão, atividade de vida
diária, ambiente domiciliar e suporte familiar. 6- Índice de Katz: utilizado para ava-
liar as atividades de vida diária (AVD) tais como banho, vestuário, ir ao banheiro,
transferência, continência e alimentação. Para cada questão, o indivíduo refere o
quanto necessita de ajuda ou não para realizar cada tarefa. A pontuação total é
de seis pontos categorizados da seguinte maneira: 6 pontos para categoria inde-
pendente, 4 pontos para categoria dependência moderada e 2 pontos ou menos
para categoria dependência grave (BASTIANI et al., 2012). 7- Avaliação Funcional
de Pffefer: utilizada para avaliar as atividades instrumentais de vida diária (AIVD).
Compõe-se de 10 itens que avaliam o nível de independência para realizar as AIVD
(manuseio de dinheiro, compras, preparo de alimentos, administração de infor-
mações, compromissos, gerenciamento de medicamentos, orientação espacial).
O escore mínimo é de zero e o máximo é de 30 pontos. Quanto maior for a pontu-
ação, maior é o nível de dependência do indivíduo (BASTIANI et al., 2012).
Os instrumentos de avaliação anteriormente citados servem para que os alunos
participantes do projeto possam conhecer a situação socioeconômica, cognitiva e

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 302
de capacidade funcional do idoso para oferecer-lhe uma intervenção mais adequa-
da a sua realidade e direcionando-o para demais ações do projeto que possam ser-
vir de complemento. As reavaliações ocorrem – geralmente – uma vez no semes-
tre, em que os alunos aplicam os mesmos instrumentos de avaliação mencionados
anteriormente para analisar como tem se dado o acompanhamento terapêutico.
O processo de envelhecimento apresenta alterações biopsicossociais que afetam
a funcionalidade dos idosos e a importância da avaliação/ reavaliação se dá até
mesmo para se analisar os principais aspectos que estão influenciando nos possí-
veis declínios apresentados pelos idosos.

Grupo de memória
O grupo de memória é uma das portas de entrada no projeto (muito procura-
da pelos idosos, ação tida como “carro-chefe”). Isso se dá devido ao fato de que
uma das principais queixas dos idosos que ingressam no PRO-GERONTO são as
alterações na memória que influenciam de diversas formas no cotidiano dos mes-
mos. A oficina de memória foi idealizada para promover aos idosos a prevenção do
declínio cognitivo e a manutenção do desempenho ocupacional. O estudo de San-
tana et al. (2018) refere que as oficinas de memória para idosos promovem o bem-
-estar – o envelhecimento ativo – atua na preservação da capacidade funcional e
mantém o idoso engajado em suas atividades diárias. As atividades propostas têm
como objetivo estimular além da memória, a atenção, concentração, as funções
executivas e promover momentos de relaxamento dos idosos; que são componen-
tes que contribuem para manter seu desempenho ocupacional e permitir manter a
socialização com os outros idosos e com os alunos e docentes do curso de Terapia
Ocupacional.
O grupo de memória acontece toda sexta-feira, das 15:00 às 16:00 horas na
UBS FRAGET. 25 idosos estão cadastrados nessa ação. Alguns estão no projeto
desde seu início. O grupo é aberto, uma vez que o PRO-GERONTO atua na pers-
pectiva do envelhecimento ativo, para pessoas com menos de 60 anos. Já houve
a participação temporária de alguns que se enquadravam nesta situação e tem-se
também participantes com menos de 60 anos que permanecem no projeto. A ro-
tatividade dos participantes acontece, porém não de maneira muito frequente;
isto significa que os idosos ingressam e permanecem por muito tempo no projeto.
É de fato importante que se tenha na comunidade um espaço que proporcione
o cuidado do idoso de forma que ele seja o ator principal das ações, principalmente
em se tratando da memória. A memória representa uma queixa comum entre os
idosos; cada vez mais, eles têm buscado projetos como o PRO-GERONTO para
que possam cuidar de si mesmos sob orientação de alunos e professores. Dentre
as justificativas, tem-se o fato de as funções cognitivas serem de fundamental im-
portância para manutenção da autonomia e da independência, pois afetam dire-
tamente a execução das atividades diárias e práticas, além da necessidade de ma-
nutenção do curso de vida através do engajamento ocupacional. Projetos como
esse também reforçam a importância do atendimento ao idoso na atenção básica
de saúde e também a presença do terapeuta ocupacional. Essa ação é tão bem
aceita que já recebemos convites para desenvolver as atividades em outras UBS
da cidade de Pelotas; porém, a escassez de terapeutas ocupacionais no sistema de
saúde do município interfere nessa concretização. O município de Pelotas ainda
carece de aumentar o número de profissionais terapeutas ocupacionais atuando
nos diferentes níveis de atenção à saúde.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 303
Atendimentos individuais e domiciliares
Os atendimentos individuais são direcionados aos idosos participantes ou não
do grupo de memória que necessitem deste tipo de atendimento. Quando se trata
de participantes do grupo de memória o foco das intervenções é o de a viabilidade
de participação coletiva do idoso. Nesse sentido, pode se fazer necessário avaliar
se o idoso precisa passar pela reabilitação cognitiva (quando já há uma piora no
desempenho cognitivo e suspeita diagnóstica de declínio cognitivo) ou pela esti-
mulação cognitiva (aqui com finalidade preventiva, porém com enfoque nas ne-
cessidades individuais). Os atendimentos individuais duram cerca de 60 minutos.
Já os atendimentos domiciliares são direcionados aos idosos que têm dificulda-
des de acesso a UBS. As situações são variadas e envolvem diagnósticos de AVC,
depressão e outras demandas relacionadas ou não a neuropsiquiatria geriátrica.
As demandas são encaminhadas pela equipe da UBS e posteriormente é feito o
contato com o idoso para marcar a avaliação inicial e os atendimentos conseguin-
tes. A duração de cada atendimento é de 60 minutos.

Inovação das ações do PRO-GERONTO


Recentemente o PRO-GERONTO incluiu novas ações direcionadas a pessoas
que trabalham com o idoso, seja numa instituição de longa permanência (ILPI) ou
em outras modalidades de atendimento ao idoso. Cuidadores de idosos também
podem se beneficiar desta ação. Ela consiste em levar informações sobre o proces-
so de envelhecimento e tudo que dele deriva para que essas pessoas possam me-
lhorar a assistência e descontruir os rótulos usados erroneamente para definir ou
referir os idosos e o envelhecimento. Seria uma ação de capacitação. O primeiro
espaço para esta ação já recebeu (no mês de outubro de 2019) a primeira visita dos
alunos da Terapia Ocupacional; trata-se de um grupo de convivência de idosos que
acontece num ginásio municipal da cidade de Pelotas. Nesse primeiro contato, os
alunos conheceram a equipe e os idosos e posteriormente darão início as ações
junto a equipe e também aos idosos.
Está previsto o desenvolvimento desta mesma ação – também junto a uma
ONG da cidade de Pelotas – porém, houve somente a primeira reunião no mês de
outubro junto a representante, e as ações ainda serão ajustadas. Acredita-se que
em 2020/01 já se consiga efetivar as atividades junto a organização.

Importância do PRO-GERONTO na comunidade


A UBS é a porta da entrada para o atendimento no Sistema Único de Saúde
(SUS). Este serviço prestado à comunidade tem como propósito atender 80% dos
problemas de saúde desta população, evitando que haja a necessidade de super-
lotação de hospitais (BRASIL, 2016). Por esta razão, manter o idoso ativo, parti-
cipativo, mantendo sua capacidade funcional para desempenhar suas atividades
cotidianas (desempenho ocupacional) e consequentemente sua autonomia e in-
dependência, mesmo diante de limitações, podem ser estimuladas por meio do
grupo de memória e demais ações do projeto.
Os idosos que apresentam necessidade de cuidados e acompanhamento
são encaminhados pela equipe da UBS para atendimento terapêutico ocupa-
cional com os alunos do Curso de Terapia Ocupacional supervisionados pelos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 304
professores envolvidos no projeto. A terapia ocupacional tem um olhar diferencia-
do para cada um no grupo, atenta-se a cuidar e observar se em algum momento
o idoso necessitará de ajuda ou de adaptação para participação da atividade. Os
próprios idosos se ajudam entre si; reconhecem as dificuldades do outro e se aju-
dam. Esse é um benefício muito importante para manter o vínculo social. O vínculo
social é um fator protetor para alterações neuropsiquiátricas, e algumas doenças
crônicas não transmissíveis conforme demonstram diversos estudos na área da
Gerontologia dentre os quais podemos citar o estudo de Amaral et al. (2013) quan-
do traz a importância do aspecto social em relação à síndrome da fragilidade no
idoso (que é multidimensional, ou seja, não afeta somente a saúde física e psíquica
do idoso) e o estudo de Pimentel et al. (2019) que destaca a dimensão variada do
fator social para o idoso. Inclusive, o estudo destaca que a Organização Mundial
da Saúde recomenda a prevenção do isolamento social pelo fato de a prevenção
do isolamento social ser um importante fator de promoção da saúde da população
idosa.
Outros benefícios que o PRO-GERONTO proporciona aos idosos são: acompa-
nhamento terapêutico, reinserção dos idosos na comunidade se for necessário,
estimulação e preparo para participação ativa nas atividades rotineiras, promoção
de qualidade de vida, proporção de maior autonomia e independência possível,
prevenção do declínio cognitivo, prevenção da depressão e do isolamento social.
Os relatos que recebemos dos idosos são sempre muito positivos; o projeto os
ajuda muito a entender suas limitações e a lidar com elas, declaram. O vínculo com
os alunos e professores também favorece muito a adesão e manutenção deles no
projeto. Outro ponto importante – inclusive já citado anteriormente – diz respeito
ao fato de o idoso ver no grupo de memória também uma oportunidade de lazer
porque as atividades terapêuticas sempre promovem momentos de descontração.
Ter o acesso à terapia ocupacional – na UBS – representa uma forma de permitir
aos idosos o conhecimento da profissão para reivindicá-la e usufruir desse serviço
tão importante para esta população.

O PRO-GERONTO e sua relevância para o


aprendizado discente
Para os alunos, o PRO-GERONTO representa uma importante maneira de
aperfeiçoar a teoria aprendida em sala de aula. A formação em terapia ocupacio-
nal exige do futuro profissional a sensibilidade para compreender o ser humano
em sua totalidade e nada melhor do que o contato direto com os usuários da UBS
para essa prática.
O terapeuta ocupacional – ainda na sua formação – aprende a desenvolver o
raciocínio clínico (forma de pensar o paciente de maneira reflexiva e relaciona-
da a suas demandas biopsicossociais) nas disciplinas que envolvem essa neces-
sidade para que – ao chegar na prática – a mesma seja bem estabelecida (HAGE-
DORN,1999). Esse processo também advém da absorção da literatura estudada
(CANIGLIA, 2005), formado – assim – um arcabouço de informações que irá auxi-
liar na compreensão e fundamentará futuras intervenções de sucesso (PEDRAL;
BASTOS, 2008). Especificamente no caso do PRO-GERONTO, as disciplinas que
embasam os alunos em sua prática são: Fundamentos da Saúde do Idoso e Inter-
venções da Terapia Ocupacional no Idoso; além das disciplinas de Fundamentos
da Terapia Ocupacional, as disciplinas de Recursos Terapêuticos e as de Tecnologia

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 305
Assistiva que também contribuem na fundamentação teórica do aluno para aten-
der às demandas do projeto.
A vivência nos ambientes e contextos onde serão necessários os serviços de
terapia ocupacional ocorrem na graduação por estágios e pelos projetos de ex-
tensão que viabilizam o contato entre o paciente e o aluno em formação. Nesse
momento de experienciação, há a participação do professor que media e orienta o
trabalho com a comunidade oferecendo – assim – segurança estruturação para o
aluno (UFPel, 2018). Alguns alunos já relataram sentir-se mais seguros para a prá-
tica do estágio (que ocorre nos últimos semestres do curso) depois de ter passado
por um projeto de extensão. Outro relato refere ao rendimento do aprendizado
do aluno em sala de aula tendo em vista que os projetos de extensão viabilizam
a relação direta entre teoria e prática. Os resultados positivos que partem dessa
relação promovem a construção de um conhecimento mais de acordo com a reali-
dade da sociedade e na compreensão das demandas dos idosos que são atendidos
no PRO-GERONTO.
Desta forma, Schaff apud Caníglia (2005, p.42) afirma que:
O objeto do conhecimento é infinito, quer se trate do objeto considera-
do como totalidade do real ou dos vários aspectos desse objeto total, na
medida em que é infinita a quantidade das suas correlações”...”o conhe-
cimento é, pois, um processo infinito.

Portanto, tendo em conta que o ser humano é único e diverso, podemos afirmar
que seu aprendizado nunca se findará por completo.

Considerações Finais
O PRO-GERONTO irá completar seis anos no ano de 2020 e a oportunidade de
contar um pouco da nossa história neste capítulo representa um presente anteci-
pado. Os desafios e dificuldades ao longo desses anos foram presentes e enfrenta-
dos de maneira muito positiva por alunos, professores e idosos, pois entendemos
sua importância para a comunidade. A equipe da UBS FRAGET sempre contribui
quando necessário. Os idosos valorizam as ações, tiram dúvidas e promovem uma
harmonia sem igual na realização dos grupos de memória. É gratificante receber o
carinho de cada um deles, de ouvir seus agradecimentos. Nenhum deles conhecia
a terapia ocupacional até a chegada do PRO-GERONTO.
As perspectivas futuras para o projeto dizem respeito à ampliação das ações e
formalização de parcerias. Algumas destas parcerias já estão em andamento para
que o PRO-GERONTO possa crescer e beneficiar uma quantidade maior de idosos.

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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 308
SOBRE AS AUTORAS
Zayanna Lopes Lindôso, graduada Halana Duarte, graduanda em Tera-
em Terapia Ocupacional pela Faculda- pia Ocupacional pela UFPel. Voluntária
de Santa Terezinha – CEST. Doutora do PRO-GERONTO. E-mail: [Link]-
em Gerontologia Biomédica pela PU- arte@[Link]
CRS. Professora adjunta e coordena-
dora do curso de Terapia Ocupacional Maitê Peres de Carvalho, graduada
da UFPEL. Coordenadora do PRO-GE- em Fisioterapia pela UCPel. Graduan-
RONTO. E-mail: zayanna@[Link] da em Terapia Ocupacional pela UFPel.
Doutora em Ciências da Saúde pela
Amanda da Silveira Ribeiro, gra- FURG. Experiência na área de Promo-
duanda em Terapia Ocupacional pela ção da Saúde com Especialização em
UFPel. Voluntária do PRO-GERONTO. Geriatria e Gerontologia. E-mail: mai-
E-mail: [Link]@gmail. te_carvalho@[Link]
com
Raillane de Oliveira Marques, gra-
Ariadne Fernandes, graduanda em duanda em Terapia Ocupacional pela
Terapia Ocupacional pela Universidade UFPel. Voluntária do PRO-GERONTO.
UFPel. Voluntária do PRO-GERONTO. E-mail: raillane.m@[Link]
E-mail: dinefernandes@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº2 309
PROGRAMA COMUNIDADE DE
PRÁTICAS EMANCIPATÓRIAS:
CONSTRUINDO REDES DE COLABORAÇÃO
INTERSETORIAL E TRANSFORMAÇÃO
SOCIAL PELA PRÁXIS

Diego Eugênio Roquette Godoy Almeida


Luciana Cordeiro
Éllen Cristina Ricci
Maria Victória Motta da Costa
Gabriel Benaventana Santos
Roberta Borges Soares

Apresentação
O Laboratório de Prática Emancipatórias e Territoriais (LAPET) vem construin-
do a Comunidade de Práticas Emancipatórias com o Bairro Dunas (CoPE-Dunas),
território pertencente ao município de Pelotas, desde o início de 2019. A CoPE-Du-
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº3

nas configura-se em um projeto unificado (extensão, pesquisa e ensino), vinculado


ao curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Pelotas. Suas ações
estão voltadas para a educação emancipatória, a qual está a serviço dos sujeitos no
processo histórico de autoconstrução e de libertação (FREIRE, 2014). As pessoas
implicadas no processo educativo são, necessariamente, ativas na apropriação da
cultura e transformação de si e do mundo, o que se dá a partir do estabelecimento
de relações dialógicas e da materialidade e contradição da vida concreta (CORDEI-
RO, 2016). Assim, reafirma-se o compromisso da universidade com a população e
a democratização do bem público por meio de práticas coletivas responsivas aos
problemas sociais.
Segundo Macaia et al (2018), as metodologias participativas sempre prezam
pelo protagonismo dos sujeitos locais, compartilhando interesses e tarefas, rom-
pendo com a tradicional centralidade na expertise do extensionista/pesquisa-
dor. Os autores argumentam que o envolvimento das pessoas desde a análise,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 310


concepção do problema e transformação, favorece a aprendizagem e a emergên-
cia de intervenções relevantes e sustentáveis. Nesse mesmo sentido, Engeström
(2011) propõe o conceito de “pesquisa formativa” para o conjunto de pesquisas
participativas e intervencionistas que almejam à formação coletiva de um novo
“motivo”, objeto de uma atividade humana. O objeto, por sua vez, é fruto dos
constantes modos de significação subsequentes à ação dos sujeitos, revelando o
caráter contraditório e historicamente mutável dos sistemas envolvidos na produ-
ção da atividade (MACAIA et al, 2018). Esse tipo de intervenção está respaldado na
Teoria Histórico-Cultural da Atividade, apresentada mais adiante.
O Dunas teve sua origem no loteamento homônimo, projeto habitacional cria-
do em meados dos anos 1980, em decorrência da grande demanda por moradia na
cidade de Pelotas. Neste território verificam-se sérios problemas de abastecimen-
to de água, esgoto, energia elétrica e recolhimento de lixo, além de problemas
relativos à habitação, resultando em condições precárias de vida e saúde do bairro
(MEREB, 2011). Constata-se, assim, a condição de vulnerabilidade do bairro, en-
tendida aqui como marca da precarização dos vínculos de trabalho e fragilização
da rede social de suporte (CASTEL, 2010).
A CoPE-Dunas é composta por educadores de escolas públicas do bairro, tra-
balhadores da saúde, cultura, assistência social, docentes e acadêmicos da UFPel,
além dos moradores. Inaugurou, assim, promissora metodologia de engajamen-
to de grupos sociais na solução de problemas comuns e estabelecimento de uma
rede viva, capaz de produzir intersubjetividade, conhecimento compartilhado e
práticas alinhadas (ALMEIDA et al, 2019). A CoPE pode ser a chave para transfor-
mações sociais ao fomentar espaços cruciais de aprendizagem, em decorrência do
envolvimento do sujeito como membro da Comunidade de Práticas.
A título de organização textual, este capítulo foi dividido em três etapas: 1 -
apresentação das ferramentas teórico-metodológicas da Comunidade de Práti-
cas; 2 - descrição das práticas educativas nos cenários escolares e na assistência
social; 3 - investimentos intersetoriais e formação de redes.

Traçando a metodologia: Comunidade de


Práticas, Teoria Histórico-Cultural da Atividade e
Pesquisa-Ação Emancipatória
A Comunidade de Práticas consiste em um modelo conceitual focado na apren-
dizagem propiciada pelas relações entre pessoas em atividade, cujas práticas sur-
gem dessa interdependência relacional dentro de uma comunidade (BENZIE; SO-
MEKH, 2015).
Segundo Wenger (1998), três dimensões relacionais são a base para a construção
de uma Comunidade de Práticas:
1) Engajamento mútuo: compromisso dos participantes em refletir e produzir
práticas concretas, estabelecidas a partir de um processo compartilhado;
2) Empreendimento conjunto: processo contínuo de definição sobre os que as
pessoas estão fazendo e querem fazer juntas, de acordo com sua realidade, seus
recursos e suas necessidades;
3) Repertório compartilhado: compartilhamento de símbolos, expressões,
ações, conceitos, artefatos, maneiras de fazer certas coisas, gestos, etc., ao lon-
go da trajetória traçada conjuntamente pelos participantes da Comunidade de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 311
Práticas. O repertório compartilhado se faz coerente por comungar um empre-
endimento comum, desenvolvido por meio das relações e práticas que vão sendo
construídas e pactuadas a partir do engajamento mútuo.
Seu impacto ultrapassa objetivos de trabalho traçados a priori, já que vai além
da obtenção de informação, de diagnóstico de faltas e obstáculos e da constru-
ção de práticas para solucionar problemas, pois essas comunidades podem levar
à transformações identitárias promovidas pela “aprendizagem situada”. Em suas
premissas teóricas, a prática social salienta a interdependência entre agente e
mundo, atividade, significado, cognição, aprendizagem e saber, bem como o cará-
ter negociado e inerentemente social e interessado do significado do agir humano
(WENGER, 1998).
Benzie e Somekh (2015) salientam que o uso qualificado da Teoria da Comuni-
dade de Práticas implica em explorar seus princípios, adaptando-a às especifici-
dades de cada contexto. Seguindo tal recomendação, ao lado dessa teoria, ele-
geu-se a Teoria Histórico-Cultural da Atividade formulada por Vygotsky, Leontiev
e Engeström, como referência capaz de fundamentar práticas socioeducativas e
territoriais em interface com a Terapia Ocupacional Social.
Resgatando brevemente suas origens, a Teoria Histórico-Cultural da Atividade
surgiu nas décadas de 1920 e 1930, quando Lev Vygotsky propôs uma análise so-
bre a psicologia humana a partir do social, superando noções idealistas e mecani-
cistas vigentes na época (NISSEN; LANGEMEYER, 2015). Seu entendimento sobre
a “atividade” deriva do tratamento sociológico dado à categoria “trabalho” por
Marx, atividade central na formação do gênero humano (TROTTA, 2008), sendo
que a cognição adviria dos complexos movimentos dialéticos de criação e repro-
dução social (PICCOLO, 2012).
Leontiev foi outro importante autor na continuidade da Teoria da Atividade,
demonstrando o papel mediador dos objetos criados pela atividade humana na
formação dos sentidos e da consciência, bem como a natureza histórica das fun-
ções mentais produzidas cumulativamente pelas gerações precedentes (PICCO-
LO, 2012). Nos dizeres de Leontiev, “por atividade, designamos os processos psi-
cologicamente caracterizados por aquilo que o processo, como um todo, se dirige
(seu objeto), coincidindo sempre com o objetivo que estimula o sujeito a executar
essa atividade, isto é, ‘motivo’” (LEONTIEV, 1978, p. 68). As ferramentas, por sua
vez, seriam objetos culturais, formas sociais que se desenvolvem historicamente,
sendo a linguagem a estrutura geral mais importante delas, organizando concei-
tualmente o pensamento, a percepção, a emoção, etc. (NISSEN; LANGEMEYER,
2015).
A terceira referência, mais contemporânea, responsável pelo enfoque empírico
e interdisciplinar da Teoria da Atividade, é Yrjö Engeström. Esse autor, em colabo-
ração com diversos pesquisadores no mundo, parte dos mesmos princípios supra-
citados, contudo seus estudos ampliam o escopo analítico centrado no caráter sis-
têmico da atividade (Fig. 1). As atividades, desse modo, são sempre orientadas a
um objeto, que são coletivas e têm duração de longo prazo (LEMOS et al, 2013). O
potencial de tal modelo de intervenção está na longitudinalidade dos processos e
nas cadeias de transformações, importando saber sobre as formas de negociação
de sentidos (objetos), as regras e normas atuantes nos coletivos, a divisão social
do trabalho, os instrumentos disponíveis, bem como as possibilidades de agência
e produção subjetiva pela atividade (SANNINO; ENGSTROM, 2018).
Somando a noção da “aprendizagem situada” nas Comunidades de Práticas com
a Teoria Histórico-Cultural da Atividade, é possível, simultaneamente, delimitar o

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 312
espaço social em que acontecem as atividades extensionistas e fundamentar teó-
rica e metodologicamente as intervenções socioeducativas em Terapia Ocupacio-
nal Social (MALFITANO, 2016). Com efeito a educação seria produto da atividade
coletiva, a qual implica em apropriação da cultura e aumento da participação num
controle proativo das circunstâncias da vida (PARO, 2010). Em sua vertente eman-
cipatória – Comunidade de Práticas Emancipatórias (CoPE-Dunas) – a finalidade
dos processos está na produção de práticas coletivas que desafiem as injustiças de
classe, étnicas, sexuais, geracionais e raciais, fazendo coincidir o sentido pessoal
das ações levadas a cabo em diferentes setores com as necessidades coletivas que
se colocam como objeto de transformação social.
Elegeu-se a Pesquisa-Ação Emanci-
patória (PAE), metodologia de pesquisa
participativa, que tem como finalidade
a transformação da realidade por meio
de processo educativo facilitador da
construção de práticas sociais eman-
cipatórias. Tem como princípios: 1) A
participação radical das pessoas envol-
vidas; 2) O desenvolvimento de pro-
cesso educativo por meio de ciclos em
espiral (sistematização da problemáti-
ca, reflexão e construção de conheci-
Figura 1 – Sistema de mento, proposição de ações para responder os problemas elencados, avaliação
atividades do processo); 3) A produção de conhecimento crítico sobre a realidade que se quer
Fonte: Engström, aprofundar; 4) A transformação de práticas sociais (CORDEIRO, 2016). O proces-
1987, p. 78.
so deflagrado na PAE se dá de forma não linear, já que as práticas sociais vão se
transformando cotidianamente à medida que os conhecimentos produzidos nos
encontros são incorporados pelos participantes. Assim, apesar de haver uma di-
retividade (FREIRE; SHOR, 1986) do pesquisador proponente, os conteúdos e for-
mas da pesquisa, entendidos aqui como instrumentos, são construídos ao longo
do processo (CORDEIRO, 2016).
Na PAE não há momentos separados para coleta, análise e discussão de da-
dos1. Essas etapas ocorrem concomitantemente, muitas vezes de forma “caótica”,
tratando-se de processo dinâmico e contínuo (CORDEIRO, 2016), já que as com-
preensões e opiniões dos participantes vão adquirindo sentidos novos (LOEWEN-
SON et al, 2014), rumo à emancipação. Todas as produções realizadas ao longo do
processo são caracterizadas como dados de pesquisa e, portanto, devem ser sin-
tetizadas para análise. Assim, neste programa, instrumentos diversos vão sendo
acionados à medida que as necessidades se apresentam, conforme será relatado
a seguir. O Quadro 1 traz alguns exemplos de instrumentos para avaliação e inter-
venção nos cenários extensionistas.
1 Constata-se que essa metodologia corrobora a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e exten-
são sem que haja momentos separados para cada elemento. A prática requer a participação efetiva de todos
os envolvidos, denominados pesquisadores, independentemente de seu vínculo com a universidade, sendo
que o conhecimento é produzido e novas práticas são fomentadas processualmente, ao longo dos encontros
(CORDEIRO, 2016).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 313
Quadro 1 – Caixa de ferramentas da PAE usadas segundo os cenários de investigação.

Instrumento Aplicação e objetivos


Oficinas de atividades Uso de diferentes técnicas como atividades gráficas, pintura, música, te-
(LOPES et al, 2014) atro, filmes, etc., objetivando-se conhecer o cotidiano dos participantes
e promover formas de reflexão sobre temas, como violência, identidade,
educação, uso de drogas, entre outros
Jornais e mídias infor- Notícias e informações de jornais, revistas, folders, fanzines e demais mí-
mativas dias a fim de discutir acontecimentos locais e globais, bem como o impacto
desses na realidade do Dunas e dos seus moradores e trabalhadores
Entrevistas individu- Realizadas com estudantes, professores e/ou responsáveis, com o objetivo
ais e coletivas (BOUR- de buscar interpretação (ou constatar mudanças) na relação família-esco-
DIEU, 2012) la-estudante
Observação participan- Convivência e participação direta do pesquisador no cotidiano do território
te (GEERTZ, 1989) ou das instituições envolvidas, com coleta sistemática e interpretação dos
dados
Mapeamento Corporal Ferramenta para contar histórias de vida e para a produção de narrativas
(GASTALDO, MAGA- sobre o adoecimento e as condições de vida
LHÃES, CARRASCO,
2010)
Visita domiciliar (CAM- Abordagem às famílias feita nas residências, mediadas por profissionais do
POS et al, 2014). CRAS ou UBS a fim de captar necessidades individuais e coletivas
Photovoice (LOEWEN- Método participativo usado para identificar, representar e reforçar os recur-
SON, 2014) sos comunitários por meio de técnicas e representações fotográficas
Caminhada Antropoló- Técnica oriunda da Antropologia Urbana, através da qual informações so-
gica (MAGNANI, 2002) bre a natureza do espaço, características dos moradores, formas de lazer,
tipos de comércio e fonte de renda, riscos e potencialidades do território
são coletadas
Questionários e instru- Instrumento para mensurar/avaliar desfechos e processos
mentos pré e pós teste
(CORDEIRO et al, 2014)
Mapa-falante (TOLE- Representação imagética da realidade elaborada em reuniões com os pro-
DO, 2012). fessores e familiares
Reuniões para pactu- Encontros com gestores, profissionais e membros da comunidade a fim de
ações, apresentação e planejar e executar e avaliar todas as ações, estimulando a participação e
discussão de resultados aprendizagem de todos os envolvidos
Relatórios de pesquisa Documentos produzidos pelos pesquisadores considerando o quanto possí-
vel, a participação de todos os envolvidos com a CoPE
Documentos reivindi- Documentos redigidos como exercício de participação social e busca por
catórios, abaixo-assi- reconhecimento a partir de problemas identificados
nados
Rodas formativas Encontros através dos quais produz-se partilha de conhecimentos acadê-
(CORDEIRO, 2013) micos ou não, pautando-se em mecanismos de horizontalidade com o uso
de estratégias diversas que facilitam as trocas e produção de conhecimento

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 314
Instrumento Aplicação e objetivos
Oficinas Emancipa- Instrumento que busca transformar as concepções hegemônica e de senso
tórias (SOARES et al, comum por meio de debate crítico a partir da contradição da materialidade.
2019) Tem potencial de, levar os participantes da oficina a realizarem nova síntese
sobre o objeto em questão.

Proposição de Práticas Socioeducativas


Territoriais
A fim de operacionalizar a construção da CoPE-Dunas, foram feitas reuniões
com as secretarias municipais da saúde, educação, assistência social, cultura, ges-
tores de duas escolas municipais de educação infantil e fundamental, Unidade Bá-
sica de Saúde, Centro de Artes e Esportes Unificado (CEU) e Centro de Referência
de Assistência Social (CRAS).
O intuito foi verificar o interesse de participação no Programa, reiterando al-
guns problemas do território detectados em outras práticas de ensino e extensão,
como aqueles relativos à falta de instrumentalização dos trabalhadores para lidar
com casos individuais considerados difíceis e com conflitos relativos à violência;
dificuldades em relação ao próprio trabalho, já que há falhas no processo de edu-
cação permanente; desafios para lidar com grupos com demandas heterogêneas;
e o imperativo de melhoria da comunicação entre os trabalhadores e entre os ser-
viços do território.
Empregou-se, para mapeamento do território, a “caminhada antropológica”,
técnica oriunda da Antropologia Urbana proposta por Magnani (2002), através da
qual informações sobre a natureza do espaço, características dos moradores, for-
mas de lazer, tipos de comércio e fonte de renda, riscos e potencialidades do ter-
ritório, foram coletadas. Nesta atividade, contou-se com a mediação das Agentes
Comunitárias de Saúde em cooperação com discentes do curso de Terapia Ocupa-
cional.
Após sistematização das informações (ALMEIDA et al, 2019) registradas em
caderno de campo e nas atas de reunião, constatou-se que os trabalhadores dos
serviços do território alimentam representações em torno da infância e juventu-
de equivalentes à selvageria e à passividade. O objeto da atividade educacional,
por consequência, seria a inculcação de “boas maneiras”, espécie de compensa-
ção para as carências familiares, colocando o brincar e o cuidar como elementos
de menor importância. Já a condição juvenil foi reveladora de uma rede de apoio
frágil, sociabilidade e lazer reduzidos em decorrência do tráfico de drogas e ausên-
cia de equipamentos públicos de cultura, esporte e lazer. A juventude, semelhante
às representações da infância, seria uma fase de ameaça, risco. À escola caberia
o papel de ocupação do tempo e competição com atrativos imorais ou ilegais do
território.
Os projetos e ações propostos para responder às necessidades detectadas se-
rão descritos a seguir.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 315
Contexto Escolar
Projeto Formação de educadoras da educação infantil
para o desenvolvimento de práticas emancipatórias
Esse projeto foi desenvolvido na Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI) do
território. Apoiou-se na concepção crítica da educação, a qual compreende que a
escola pública, contraditoriamente, apresenta-se como importante equipamento
para reprodução social de famílias e manutenção da desigualdade social (LIBÂ-
NEO, 2012) e que os educadores passam por formações aligeiradas que reprodu-
zem o tecnicismo, carente de reflexões críticas (ARCE, 2001). Partiu também do
levantamento das necessidades do território e das representações da infância ve-
rificadas anteriormente (ALMEIDA et al, 2019).
Com o objetivo de instrumentalizar as educadoras para o desenvolvimento de
práticas que respondessem às necessidades dos alunos, entendidas como neces-
sidades sociais (CAMPOS; MISHIMA, 2005), oficinas emancipatórias (SOARES et
al, 2019) foram realizadas buscando promover exposição e compreensão das con-
tradições sociais presentes no contexto da escola de ensino infantil. Utilizou-se
estratégias variadas para produzir discussão e conhecimento acerca da determi-
nação histórica, social e cultural da infância e das práticas educativas, da função
da escola pública e do cotidiano da escola infantil. Apesar de avaliações ocorrerem
a cada encontro para que o encontro seguinte pudesse ser proposto (CORDEIRO,
2013, 2016), uma avaliação final do processo foi realizada. Para além de apreensão
de conteúdo, as educadoras relataram que encontraram espaço para refletir sobre
a própria prática educativa, ampliando-a e desconstruindo verdades ideológicas
(TROTTA, 2008) que são reforçadas no próprio cotidiano.

Projeto Construção de narrativas pela experiência de


Walter Benjamin
Esse projeto tem como participantes as crianças da EMEI, de quatro e cinco
anos de idade. Para desenvolver as ações na escola, toma-se o cotidiano como
objeto da Terapia Ocupacional (SALLES; MATSUKURA, 2013) e a educação infantil
como apropriação da cultura (PARO, 2010), ou seja, o processo de humanização
(FREITAS, 2006), através do qual os sujeitos desenvolvem a capacidade de ler o
mundo (KRAMER, 2000), resgatando a história e projetando o futuro pela partilha
de experiências (LESSA, 2016).
Por meio de instrumentos e artefatos culturais que expõem as contradições da
vida moderna, busca-se a construção e transmissão de histórias a partir de práti-
cas horizontais (ROCHA, LESSA, BUSS-SIMÃO, 2016) e solidárias entre adultos e
crianças, com ações coletivas que tragam o senso de pertencimento pela narração
(KRAMER, 1998).
As práticas foram estreadas com a construção de bonecos com materiais reci-
cláveis e tintas. Esse primeiro encontro serviu também para conhecer as crianças,
buscando aproximação e compreensão da dinâmica do grupo trabalhado. Consi-
dera-se que as histórias contadas pelas crianças, docente e extensionistas que, por
sua vez, também trazem histórias de vida e relações únicas com a cultura, foram
iniciadas com grande potencial para a escrita de uma história coletiva na EMEI.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 316
Projeto Grupo Vozes
O Grupo Vozes acontece semanalmente na Escola Municipal Ensino Funda-
mental (EMEF), no contra turno da escola. Nesse espaço, jovens de 10 a 14 anos
discutem as ocorrências do cotidiano juvenil no bairro Dunas, com a mediação de
duas estudantes de Terapia Ocupacional.
Percebeu-se que o repertório de atividades dos jovens está, em sua maioria,
limitado ao uso de aparelhos eletrônicos como: televisão, celular e computador.
Além disso, a avaliação da rede social de suporte e sociabilidade por meio do
“Ecomapa” (CORREIA, 2017) evidenciou a pouca participação dos mesmos no ter-
ritório. Suas relações se dão basicamente com a família (mães, avós, irmãos, tias,
madrinhas, sobrinhos e primos) e os locais frequentados por eles se restringem à
escola e casa dos familiares, sendo que, raramente utilizam algum espaço público
no bairro ou fora dele.
Dados como esses corroboram a crítica de Walter Benjamin em relação à per-
da da “experiência” no mundo contemporâneo (LESSA, 2016). O mundo adulto
não se comunica efetivamente com o mundo infanto-juvenil, dando margens para
conflitos e desconhecimentos mútuos. Se a escola se ocupa somente da transmis-
são de conhecimentos formais, se em casa o contato entre as pessoas é constran-
gido pelas obrigações para subsistência, se a rua não pode ser ocupada devido às
ameaças e violências do território, quais lugares restariam para a partilha de histó-
rias, músicas, casos, anedotas, saberes e demais conteúdos culturais acumulados
pelas gerações? Onde seria possível a transmissão de experiências como processo
humanizante?
Assim, inspirado em Lopes et al (2014), o “Grupo Vozes” têm utilizado oficinas
como tecnologia social voltada para o enriquecimento da “experiência” e apro-
priação de instrumentos materiais ou simbólicos que ampliam a agência. São
exemplos de ações em desenvolvimento: a) mapeamento do território para co-
nhecimento dos espaços e instituições que compõem a rede de apoio, usadas ou
não pelos jovens e suas famílias, a fim de estimular a ampliação das atividades co-
tidianas; b) produção de narrativas biográficas por meio de músicas relacionadas a
narrativas pessoais, familiares, escolares e territoriais; c) estímulo à “amanualida-
de” (FREITAS, 2006) pelo uso de tecnologias (plataformas virtuais, vídeos, filmes)
visando à capacidade que um sujeito tem de modificar sua própria realidade com
aquilo que está disposto ao seu alcance, incitando saberes emancipatórios, com-
prometidos com os cotidianos escolares, familiares e territoriais; d) promoção das
culturas juvenis e a participação social dos estudantes por meio de dispositivos
midiáticos tais como: aplicativos, criação de documentário, fanzines, blogs, canais
em plataformas virtuais, jogos interativos, rodas de conversas, músicas, criação de
paródias, leitura de imagens, fotografias, apresentações culturais, debates, entre
outros.

Contexto da Assistência Social

Projeto “Quintais em prosa”: enfrentamentos à


violência de gênero
O Projeto “Quintais em prosa” consiste em ações territoriais de fortalecimento
da rede de sororidade e práticas socioeducativas em torno da violência de gênero,
proposto pelo programa CoPE-Dunas, em parceria com o Centro de Referência de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 317
Assistência Social – CRAS Areal, que abrange o território Dunas. As condições pre-
cárias de vida das mulheres moradoras do bairro suscitaram a reflexão sobre quais
formas de enfrentamento deveriam ser incentivadas.
Apesar da inserção da mulher na comunidade e sua representatividade, o fe-
nômeno da violência de gênero é crescente. No primeiro trimestre de 2019 a ci-
dade de Pelotas registrou 245 ameaças de violência à mulher, 164 casos de lesão
corporal e 7 registros de estupro (BRASIL, 2019). De 2017 para 2018 o número de
feminicídios quadruplicou (RIVERO; DA SILVA; CHIES, 2019).
Cientes da opressão estrutural do patriarcado em intersecção com o racismo e
outras formas de injustiça e violência, no segundo semestre de 2019, a equipe de
trabalho/pesquisa estruturou o seguinte plano de ação: 1) mapeamento e contato
com “mulheres fortes”, assim chamadas pela liderança no território e vínculo com
o CRAS, as quais, depois de aceitarem participar do projeto, oferecerão a própria
residência para sediar o grupo e convidarão outras mulheres da vizinhança; 2) in-
tervenções domiciliares grupais, trazendo à tona reflexões sobre o cotidiano das
mulheres, informações sobre direitos, (re)conhecimentos sobre rede de apoio so-
cial, partilha de saberes e fortalecimento da rede de sororidade.
Os encontros do “Quintais em Prosa”, próxima etapa da pesquisa-ação, terão
duração de duas horas, momento no qual estarão as moradoras do território, dois
técnicos do CRAS, uma estudante de Terapia Ocupacional e o docente responsável
pelo projeto.
Além da intervenção propriamente dita, o atual planejamento e avaliação de
cada ação já carrega em si potentes vetores formativos para os profissionais, fo-
mentando novos entendimentos, percepções e sentimentos pela práxis (FREIRE,
2014). A esse respeito, vê-se como resultado do trabalho, a inclusão do gênero
como categoria analítica importante do trabalho da assistência social.
Os técnicos do CRAS já desenvolviam um grupo voltado para mulheres, contu-
do a relação entre a condição feminina e vulnerabilidade carecia de novos instru-
mentos para potencialização das ações. Em razão desse processo, a equipe tem
pensado em indicadores e dados relevantes para melhor compreensão das condi-
ções de vida por meio da análise dos prontuários de mulheres. Espera-se monito-
rar os avanços do projeto, triangulando métodos de pesquisa sensíveis à questão
de gênero, que incluem a ampliação da rede de suporte dessas mulheres, as for-
mas de sociabilidade, aumento dos níveis de escolaridade, trabalho, diversificação
do cotidiano, saúde mental, etc.

Perspectivas intersetoriais e formação de redes


Como dito anteriormente, a escolha do território Dunas, como local privilegia-
do das práticas de extensão universitária, deu-se pelas condições de vulnerabili-
dade e por iniciativas ainda embrionárias de resposta intersetorial aos problemas
locais. Em algum momento da pactuação, junto aos gestores dos serviços e secre-
tarias municipais, argumentou-se que o mesmo indivíduo que é assistido em um
serviço é também por outro e que os profissionais enxerguem as necessidades de
maneira fragmentada.
O modelo de análise sistêmica da atividade proposto por Engeström (2011)
oferece pistas importantes sobre componentes determinantes de uma ativida-
de humana, vista por ele sempre como redes de atividades entre sujeitos. Deste
modo, cabe refletir sobre a divisão social do trabalho (TROTTA, 2008) e regras que
configuram dado contexto de atividade a fim de compreender como o trabalho

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 318
assistencial é significado (objeto). O objeto da atividade de uma agente comunitá-
ria seria o mesmo do médico ou enfermeiro? É possível pensar em objetos comuns
nos diferentes serviços que compõem a CoPE-Dunas? Em caso afirmativo, como
promover mudanças no modo como acontecem as atividades assistenciais?
Imbuídos de tais questionamentos, busca-se promover o I Fórum Intersetorial
da Comunidade de Práticas Emancipatórias do Bairro Dunas, visando mudanças
sistêmicas de seus trabalhadores e moradores.
O contato com o território já anuncia muitos desafios que virão, principalmente
a escassez de recursos humanos, materiais e investimento em educação continu-
ada (mediadores da atividade), agendas rígidas e resistência à mudança. Todavia,
aposta-se no poder (trans)formativo da práxis: processo coletivo e humanizador,
motor de mudanças sociais que reduzam tantas sujeições (FREIRE, 2014).

Considerações finais deste capítulo ou primeiros


passos da CoPE-Dunas
As práticas extensionistas descritas partem do pressuposto de que o proces-
so educativo investe na construção de sentidos para as experiências vividas pelas
pessoas envolvidas no território, com desdobramentos em relação aos serviços,
uma vez que o olhar e a atuação estrangeira às unidades traz consigo o poten-
cial questionador e problematizador em uma posição de aprendiz participativo
(NUNES, 2015). Os sujeitos envolvidos neste projeto passaram por processo de
transformação e formação, que implica sempre uma alteração de estratos da per-
sonalidade; estar aberto para essa mudança requer cuidados e suportes especiais
(OURY, 1991).
O foco em viver a experiência do trabalho em redes de atividades, tensionan-
do os processos burocráticos que os serviços públicos carregam, tem favorecido
o acesso à informações cotidianas, profundas e singulares, enaltecendo o essen-
cial no trabalho em redes de atenção ao público: o ser humano (BONDÍA, 2002).
A ação do homem na natureza com finalidade de transformá-la consubstancia a
essência do ser, escrevendo a história (LESSA, 2012). Assim, em tempos instáveis
como o que se tem enfrentado, a Universidade Pública cumpre seu papel.
Considera-se que a Universidade não é uma realidade separada, senão uma
expressão historicamente determinada de uma sociedade cuja tarefa perpassa a
criação de um espaço público de crítica, reflexão e produção de conhecimento so-
bre a realidade na qual está inserida (CHAUI, 2018). Ela tem uma responsabilidade
social que consiste em produzir e socializar conhecimentos que tenham não só o
mérito científico, mas também valor social e formativo.
A atuação da Universidade pública deve estar pautada por valores ligados à
construção da autonomia das pessoas, valorizando a solidariedade, a equidade, a
inclusão e a participação social (CHAUÍ, 2018). Nesse sentido, a CoPE-Dunas tem
se alinhado com os propósitos universitários buscando, por meio de ações basea-
das em parceria duradoura, desenvolver processos educativos que transformem o
território, os estudantes, os professores e a universidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 319
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 323
SOBRE OS AUTORES
Diego Eugênio Roquette Godoy Al- Maria Victória Motta da Costa, gra-
meida, bacharel em Terapia Ocupacio- duanda do sétimo semestre do curso
nal ´pela UFMG, doutor em Educação e de bacharelado em Terapia Ocupacio-
Saúde pela Unifesp. Professor Adjunto nal - FAMED/UFpel. Participa do Labo-
do Curso de Terapia Ocupacional – FA- ratório de Práticas Territoriais e Eman-
MED/UFPel. Coordenador adjunto do cipatórias (LAPET). E-mail: mottama-
Laboratório de Práticas Emancipató- riavic@[Link]
rias e Territoriais (LAPET). E-mail: die-
[Link]@[Link] Gabriel Benaventana Santos, gra-
duando do primeiro semestre do curso
Luciana Cordeiro, graduada em de bacharelado em Terapia Ocupacio-
Terapia Ocupacional pelo CUSC e dou- nal - FAMED/UFpel. Participa do Labo-
tora em Cuidado em Saúde pela USP. ratório de Práticas Territoriais e Eman-
Professora Adjunta do Curso de Tera- cipatórias (LAPET). E-mail: gabrielbe-
pia Ocupacional – FAMED/UFPel. Co- naventana@[Link]
ordenadora do Laboratório de Práticas
Emancipatórias e Territoriais (LAPET). Roberta Borges Soares, graduanda
E-mail: [Link]@[Link] do sétimo semestre do curso de bacha-
relado em Terapia Ocupacional - FA-
MED/UFpel. Participa do Laboratório
Éllen Cristina Ricci, graduada em
de Práticas Territoriais e Emancipató-
Terapia Ocupacional pela USP e dou-
rias (LAPET). E-mail: roborsoares@
tora em Saúde Coletiva pela UNICAMP.
[Link]
Professora Adjunta do Curso de Terapia
Ocupacional – FAMED/UFPel. E-mail:
ellenricci@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº3 324
MEDICINA VETERINÁRIA NA
PROMOÇÃO DA SAÚDE ANIMAL E
HUMANA EM COMUNIDADES EM
VULNERABILIDADE SOCIAL

Marlete Brum Cleff


Helena Piúma Gonçalves
Tábata Pereira Dias
Stefanie Bressan Waller
Cristiano Silva da Rosa
Soliane Carra Perera

Apresentação
Servidores do Departamento de Clínicas Veterinárias da Faculdade de Veteri-
nária e discentes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) vêm atuando junto
a comunidades em vulnerabilidade social, pois as consideram necessárias para a
promoção da saúde pública. Neste contexto, o projeto “Medicina veterinária na
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº4

promoção da saúde humana e animal: ações em comunidades carentes como en-


frentamento da desigualdade social” vem sendo desenvolvido desde agosto de
2009, e continua em plena atividade.
O Ambulatório Veterinário Ceval, como é conhecido pela população devido a
proximidade com a antiga fábrica de óleo vegetal, está localizado em uma área
periférica na região central da cidade caracterizada pela situação de vulnerabilida-
de, com grande quantidade de animais em convívio direto com a população. Esta
situação é preocupante quanto à disseminação de enfermidades entre os animais
e as pessoas, pois compartilham o ambiente físico e a alimentação. Assim, o proje-
to tem como objetivos: o atendimento clínico a pequenos animais; a qualificação
acadêmica dos discentes e docentes; a melhoria da saúde das populações animal
e humana; a conscientização das comunidades sobre a importância do controle
populacional, vacinação, posse responsável e bem-estar dos animais.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 325


As ações continuadas de atendimento clínico, educação e integração favore-
cem o contato dos extensionistas com a comunidade, promovendo a aproximação
e discussão de temas do cotidiano da população e dos animais, além de favorecer
a troca de informações e a resolução de problemas de forma mais efetiva. Ainda,
as ações interativas e as campanhas têm servido para mobilizar a comunidade aca-
dêmica, e levar os extensionistas à reflexão através da observação da realidade em
que vive uma grande parcela da população humana e animal de Pelotas. A partir
deste contato direto com a sociedade, se conhece a realidade das comunidades
menos favorecidas, o que propicia elencar estratégias e ações de trabalho dentro
do projeto.

Atividades desenvolvidas pelos extensionistas


Atendimento clínico ambulatorial e domiciliar a cães e
gatos
O atendimento clínico aos animais participantes do projeto é realizado sema-
nalmente, nas terças e quintas-feiras no horário das 8 às 12 horas, no ambulatório
localizado na rua Conde Porto Alegre, número 793, bairro Centro, Pelotas/RS, em
um espaço da Universidade, junto ao prédio da Faculdade de Engenharia Industrial
Madeireira. A população inserida no projeto é previamente atendida por uma as-
sistente social, que realiza entrevistas com os tutores dos animais para verificação
das condições socioeconômicas, além de explanar sobre os objetivos do projeto
e incluí-los como participantes, cadastrando-os. Estes cadastros são feitos por
família, sendo atendidos todos os componentes do núcleo familiar com o mes-
mo número cadastral. Atualmente, o projeto abrange 698 núcleos familiares para
atendimento veterinário.
A logística dos acolhimentos é realizada por ordem de chegada, sendo dispo-
nibilizadas 10 fichas por dia, duas destas reservadas para retornos. Nos casos de
emergências, os animais são imediatamente atendidos e encaminhados ao Hos-
pital de Clínicas Veterinárias (HCV-UFPel). Os atendimentos são realizados por
professores e discentes de pós-graduação em medicina veterinária com auxílio
de graduandos e bolsistas (Fig. 1). Durante as consultas clínicas, são preenchidos
prontuários onde constam os dados do tutor e do animal, além das informações
clínicas pertinentes através de uma anamnese detalhada e dados do paciente.
Quando necessário, são coletadas amostras para exames complementares ao
diagnóstico, tais como hemogramas, raspados cutâneos, culturas bacterianas e
fúngicas, urinálises e exames coprológicos, sendo estes encaminhados para os la-
boratórios da Faculdade de Veterinária (Favet-UFPel) para análises.
As atividades de atendimento clínico semanal aos animais resultam na aproxi-
mação dos profissionais da saúde, como assistente social e médicos veterinários,
com as famílias que levam os animais para atendimento veterinário. O conheci-
mento do perfil epidemiológico da população animal permite melhor orientar as
práticas em saúde e otimizar os atendimentos, o que segundo a literatura, possibi-
lita ações direcionadas para atingir objetivos individuais e da comunidade, atuan-
do no controle e prevenção de agravos (GONÇALVES; ROSSA; GARCIA, 2019). De
acordo com membros da comunidade, o atendimento aos animais é mais efetivo
e de melhor qualidade, comparado ao que eles mesmos recebem nas redes de saú-
de pública, e acredita-se que isso seja reflexo do conhecimento dos profissionais

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 326
A B

Figura 1– Discentes acerca da população, o que permite a prestação de serviço direcionada, entre ou-
de graduação e pós- tras causas, como o número de atendimentos ofertados, por exemplo, que é bem
graduação realizando
o atendimento menor quando comparado ao número de pessoas atendidas nas redes de saúde
ambulatorial dos do município.
animais cadastrados Em casos especiais, quando as famílias cadastradas possuem grande quanti-
no projeto de dade de animais, inviabilizando o atendimento ambulatorial, e quando há dispo-
extensão (A) e
paciente canino nibilidade da equipe veterinária, realizam-se atendimentos domiciliares. Nessas
sendo examinado (B). ocasiões, os professores, a assistente social e os alunos de pós-graduação e gradu-
Fonte: Fotografias de ação dirigem-se à comunidade e ao domicílio dos tutores para realizar os atendi-
Marlete Brum Cleff. mentos (Fig. 2). Nestas visitas, os animais atendidos recebem atenção e cuidados
2018. idênticos aos procedimentos realizados no Ambulatório (exame clínico e, quando
necessário, coleta de materiais biológicos, como sangue, fezes, urina, raspados
Figura 2 – cutâneos, swabs, entre outros). O atendimento domiciliar é eficaz para o trata-
Atendimento mento terapêutico dos animais, levando assistência profissional quando os mes-
domiciliar aos
mos não podem chegar ao ambulatório. Este momento também representa uma
animais inseridos no
projeto de extensão, oportunidade para planejamento de ações direcionadas, pois possibilita a identifi-
sendo realizado por cação de demandas da comunidade em seu contexto. Durante as visitas à comuni-
discentes e bolsista dade, observam-se carências quanto às necessidades básicas, tanto físicas quanto
de graduação e
psicológicas, relacionadas a infraestrutura, a saúde e bem-estar. Comunidades em
pós-graduação, e
professor (A e B). vulnerabilidade social sofrem, entre outras deficiências, com a falta de saneamen-
to básico, o que favorece a emergência de doenças, principalmente infecciosas e
Fonte: Fotografias de
Marlete Brum Cleff, zoonoses (CAPELLA et al., 2018), refletindo no maior número de atendimentos
2016. clínicos em animais.

A B

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 327
A atenção domiciliar à saúde vem sendo desenvolvida mais intensamente em
medicina humana, e pouco inserida nos sistemas de atendimento à saúde animal
(ROSA JUNIOR et al., 2012). Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) (BRASIL, 2006), a assistência domiciliar é um conjunto de atividades de
caráter ambulatorial, programadas e continuadas, desenvolvidas em domicílio. O
atendimento domiciliar pode propiciar um contato mais estreito dos profissionais
de saúde com o paciente e seus familiares em seu próprio meio, podendo este
momento ser útil para uma avaliação das condições que o cercam, por vezes, de
grande importância para o sucesso dos tratamentos (ROSA JUNIOR et al., 2012).
A resolução das enfermidades diagnosticadas nos animais atendidos pelo pro-
jeto é realizada através de diferentes terapias, incluindo medicamentosa. Os ani-
mais são tratados, em sua grande maioria, com medicamentos recebidos de em-
presas parceiras, além de medicamentos manipulados, homeopáticos e fitoterápi-
cos que são mais acessíveis para a população. Os pacientes de casos emergenciais,
cirúrgicos ou que necessitam de exames de imagem são atendidos no ambulatório
e posteriormente encaminhados para o HCV-UFPel. Em média, semanalmente,
são encaminhados de dois a quatro animais do Ambulatório Veterinário Ceval para
o HCV. Assim, através da ação de atendimento clínico, acontece a resolução mais
rápida dos problemas, além da construção de novos conhecimentos e socializa-
ção, onde a extensão universitária permite desenvolver uma formação acadêmica
mais ampla, que integra teoria e prática possibilitando uma troca de saberes entre
meio acadêmico e comunidade.

Resultados e análise dos atendimentos clínicos


ambulatoriais e domiciliares
Nas atividades de atendimento clínico, a maioria dos pacientes foram cães
(85%), seguidos dos felinos (15%) e eventualmente aves e roedores. Somam-se
em torno de 7.000 atendimentos realizados no Ambulatório Veterinário durante
10 anos de atividade, sem considerar os pacientes que foram encaminhados para
internação, cirurgias ou outros procedimentos no HCV. Dentro desta casuística,
os animais apresentaram principalmente alterações decorrentes de enfermidades
tegumentares, infectocontagiosas e musculoesqueléticas, seguido de distúrbios
digestivos, atendimentos de retornos e clínica geral. Além destas, foram também
presentes as afecções oncológicas, urinárias, reprodutivas, respiratórias, cardía-
cas, neurológicas, oftalmológicas e, por fim, afecções metabólicas e toxicológicas
(Graf. 1).
Nos animais com enfermidades tegumentares, observou-se grande frequência
de ectoparasitoses, causadas por pulgas (100% dos animais), carrapatos (60%) e
sarnas (35%). Os resultados laboratoriais das amostras evidenciaram a presença
de ectoparasitas como Sarcoptes scabiei, Demodex spp., e dentre os fungos os
mais frequentes foram Sporothrix spp., Microsporum, Trichophyton, Malassezia
pachydermatis, Rhodotorula sp. e Candida spp. Nas amostras do conduto auditi-
vo, observou-se o fungo M. pachydermatis, e as bactérias Pseudomonas spp., Sta-
phylococcus spp. e Streptococcus spp. Observa-se que estas afecções são de ca-
ráter infecioso, sendo muitas destas zoonoses. Neste sentido, destacaram-se a
sarna sarcóptica causada pelo ácaro Sarcoptes scabiei; a as micoses esporotricose
(Sporothrix spp.) e dermatofitose (Microsporum canis, M. gypseum, Trichophyton
mentagrophytes), que acometem as camadas superficiais e/ou profundas da pele
podendo tornarem-se sistêmicas, e que infectam animais e pessoas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 328
Gráfico 1 –
Representação
das principais
enfermidades de cães
e gatos atendidos no
projeto de extensão
no Ambulatório
Veterinário Ceval
conforme o sistema
acometido.
Fonte: dados do
projeto.

Ainda, foram detectadas outras zoonoses, como a leptospirose que é causada


por bactérias do gênero Leptospira; e a dioctofimatose, que é uma endoparasitose
causada pelo nematódeo Dioctophyme renale frequentemente relatada em ani-
mais de companhia e silvestres na cidade de Pelotas (RAPPETI et al., 2017), sendo
que cães podem contaminar o ambiente com ovos, favorecendo a manutenção
do ciclo da parasitose (PEDRASSANI; NASCIMENTO, 2015; PERERA et al., 2017).
A grande ocorrência de doenças infectocontagiosas pode estar relacionada à
falta de imunização sistemática, via imunização de filhotes e adultos, uma vez que
estas apresentam custo elevado, o que inviabiliza o acesso às populações de baixa
renda. Quanto aos distúrbios do sistema digestório, estes foram causados em sua
maioria por endoparasitos, com destaque para Ancylostoma spp., Dipylidium spp.,
Ascaris spp. e Trichuris spp. como os principais gêneros, sendo que cães desempe-
nham o papel de hospedeiros definitivos para algumas espécies de helmintos, que
podem causar importantes enfermidades para o homem (URQUHART et al., 1998;
CAMPOS FILHO et al., 2008).
Os resultados obtidos através do atendimento clínico são preocupantes, pois
observa-se nestas comunidades grande quantidade de animais convivendo jun-
to às pessoas, e muitos deles com livre acesso à rua, propiciando a propagação e
contaminação ambiental. De acordo com Becker (2015), o estreito contato entre o
homem e os animais de estimação facilita a disseminação de agentes infecciosos,
estabelecendo diferentes interações entre hospedeiros e parasitos. Os cães e os
gatos interferem diretamente no contexto de saúde pública, sendo primordial a
instituição de ações e políticas públicas praticadas em relação à sanidade animal,
como a guarda responsável, manejo populacional, cuidados médico veterinários e
prevenção de enfermidades que afetam os animais e o ambiente (VIEIRA, 2015).
Em conformidade com o conceito de saúde única, designado pela união indis-
sociável entre saúde animal, humana e ambiental (GONÇALVES et al., 2019), tor-
na-se fundamental que, além de instituir os tratamentos pertinentes, a população
seja corretamente orientada em relação aos hábitos de higiene, formas de elimi-
nação e combate das fontes de contaminação, assim como o cuidado e manejo
de animais enfermos e do ambiente (ROSA JUNIOR et al., 2012). O médico vete-
rinário deve ter claro seu papel na Saúde Pública, pois pode desenvolver ações de
proteção básica à saúde, contribuindo no controle epidemiológico e de ocorrência

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 329
de zoonoses (GONÇALVES et al., 2019). Nesse contexto, manter a população in-
formada e esclarecida sobre as doenças a que estão vulneráveis e como estas são
transmitidas e tratadas, são atividades do médico veterinário. Este deve utilizar
ferramentas e recursos da profissão para manter a qualidade de vida das pessoas,
animais domésticos e do meio ambiente, com o objetivo de promover a Saúde
Única, a promoção da saúde dos ecossistemas e de seus componentes de maneira
integrada e indissociável (GONÇALVES et al., 2019).

Ações Sociais desenvolvidas com a comunidade


Os extensionistas desenvolvem diversas ações sociais, promovendo a inte-
gração e o fortalecimento de vínculos com a comunidade atendida. Entre essas
ações, incluem-se as comemorações referentes ao Dia das Mães, Páscoa, Festa
Junina, Dia das Crianças e Natal. Geralmente, as ações são realizadas em um tur-
no durante a semana, na área externa aos ambulatórios veterinários (Campus da
Engenharia Industrial Madeireira – UFPel). Nestes momentos, há participação de
todos os envolvidos no projeto, incluindo alunos de graduação, pós-graduandos
e servidores como, assistente social do projeto e professores da Faculdade de Ve-
terinária, que promovem atividades educativas e diversão à comunidade durante
as comemorações. Os organizadores buscam apoio através de doações de lojas
comerciais e atacados de Pelotas para arrecadação de itens como roupas, brin-
quedos, materiais de higiene pessoal, cestas básicas, entre outros, a serem doados
para a comunidade.
Algumas atividades, como a Festa de Dia das Mães, são voltadas para ao públi-
co feminino, incluindo palestras relacionadas à saúde da mulher, oficinas (produ-
ção de sabonetes, artesanato, reciclagem, pinturas), bingos e sorteios de brindes,
objetivando a integração e valorização das mulheres que participam mais ativa-
mente do projeto (Fig. 4). Nas Festas de Natal, busca-se realizar atividades vol-
tadas principalmente às crianças, incluindo cama elástica e piscina de bolinhas,
brincadeiras educacionais referentes às zoonoses (boliche dos parasitos), pinturas
no rosto, e presença do Papai Noel (Fig. 5). O Papai Noel participa com a intenção
de animar e manter viva a esperança e o sonho das crianças, presenteando com
doces e brinquedos, e ainda, distribuindo cestas básicas às famílias participantes
da ação. Sempre que possível, realizam-se também outras ações comemorativas,
como citado anteriormente, entre elas a Festa de Dia das Crianças (Fig. 6). Em
uma das ações, foi convidada a “Escola Municipal Ferreira Vianna” para que fos-
sem apresentados os projetos escolares à comunidade como Banda, Teatro e Dan-
ça. Durante as comemorações, são oferecidos lanches (cachorros-quentes, bolos,
picolés, algodão-doce, crepes e sucos) preparados previamente por alunos e pro-
fessores. Nessas ocasiões, distribuem-se também roupas recebidas de doações,
sendo organizadas conforme o gênero e faixa etária para um brechó solidário.
Para que seja possível desenvolver as atividades, são realizadas ações através
da campanha “Favet Solidária”. Nessas campanhas, discentes e professores do
curso de Medicina Veterinária reúnem-se para produzir e vender bolos, doces, sal-
gados e café, assim como receber doações de brinquedos para a comunidade. Em
uma oportunidade, foi realizada a Favet Solidária para arrecadar produtos de bebê
(fraldas e afins) para apoiar uma gestante da comunidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 330
A B

C D

Figura 4: Comemoração do Dia das Mães


com palestras educativas visando a saúde da
mulher (A, Ano: 2016), prevenção do câncer
de mama (B, Ano: 2016), exposição de painel
com fotos das mães e seus filhos (C, Ano: 2018)
e oficina de artesanato com material reciclado
(D, Ano: 2017), atividades desenvolvidas Figura 5 – Festa de comemoração do Natal
durante ações do projeto. com adultos e crianças da comunidade Ceval.
Fonte: Prof.ª Dr.ª Marlete Brum Cleff. Brinquedos disponibilizados e entrega de
presentes pelo Papai Noel para as crianças
das comunidades participantes do projeto de
extensão em 2018.
Fonte: Fotografias de Marlete Brum Cleff,
2018.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 331
A B

Figura 6 – Festa de
Dias das Crianças
Campanhas Educativas, Controle Populacional e
com participação
da banda da escola
Posse Responsável
(A) e crianças da As campanhas são divulgadas por meio de ações ou do diálogo direto, entre
comunidade Ceval os médicos veterinários e estudantes de Medicina Veterinária com a comunidade,
brincando na
piscina de bolinhas orientando não somente os adultos e idosos, mas também os jovens e as crianças,
(B) atividades que são uma grande parcela da população atendida, e muitas vezes carecem de
desenvolvidas no ano atenção e informação. O que vem de encontro com a Lei Municipal nº 5086, de 17
de 2016. de Novembro de 2004 (PELOTAS, 2004), que dispõe sobre o controle das popu-
Fonte: Fotografias de lações de cães e gatos, bem como sobre a prevenção e controle de zoonoses no
Marlete Brum Cleff, município de Pelotas/RS, estabelece no Art. 4º, inciso III, que deve ser realizado a
2016.
“educação sobre a posse e propriedade responsável nas escolas de ensino fundamen-
tal e médio, bem como nas comunidades, através de campanhas educativas”.
Um dos objetivos do projeto é o incentivo para o controle populacional dos
animais e a importância da posse responsável. Sabe-se que a interação entre as
pessoas e os pets exige o compromisso ético dos tutores quanto à manutenção de
hábitos de preservação do bem-estar animal, a fim de permitir que ambas as par-
tes vivam de forma harmônica (SÃO PAULO, 2009). Para isso, questões pertinen-
tes à alimentação e higiene adequadas são exigências básicas obrigatórias, assim
como a preservação da saúde animal por meio de consultas clínicas para o contro-
le de enfermidades e vacinações regulares. Ainda, de acordo com a Lei Federal nº
13.426, de 30 de março de 2017 (BRASIL, 2017), a qual dispõe sobre a política de
controle de natalidade de cães e gatos no Brasil, o uso da esterilização permanen-
te por cirurgia é o método recomendado para garantir a eficiência, segurança e
bem-estar. A lei determina que o atendimento para a esterilização deve ser priori-
tário para animais que convivem junto a comunidades em situação de vulnerabili-
dade social. A falta de controle de natalidade e o manejo inadequado dos animais
domésticos podem gerar problemas e ter impacto significativo à saúde pública,
favorecendo a transmissão de doenças, contaminação do meio ambiente, entre
outros, assim como a exposição dos animais a riscos diversos, além do contágio e
a disseminação de enfermidades.
Na população atendida pelo projeto de extensão, a maioria dos tutores mantém
os animais de forma semidomiciliada, isto é, com acesso livre às ruas. Sabe-se que
este acesso pode propiciar aos cães e gatos o risco de contrair e transmitir doen-
ças infectocontagiosas, além de possibilitar brigas, acidentes e falhas no controle
de natalidade. O risco desses animais se tornarem errantes também é elevado.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 332
Sem os cuidados vigilantes de um tutor, ficam perambulando pela cidade e po-
dem aumentar os níveis de contaminação ambiental (SÃO PAULO, 2009). Sabe-se
que o abandono de animais é um problema atual na sociedade, prejudicando não
somente o bem-estar dos mesmos, mas também afetando a saúde pública. Dessa
forma, os tutores interessados em esterilizar cães e gatos através do projeto de
extensão, são registrados e aguardam para serem agendados e incluídos na rotina
cirúrgica do HCV da Favet - UFPel.
A importância da posse responsável, a fim de evitar o abandono de animais,
também é constantemente divulgada no projeto. A posse responsável, também
conhecida como tutela responsável, é estabelecida, segundo a Lei 6321, de 14 de
Janeiro de 2016 como “a condição na qual o tutor do animal aceita e se compro-
mete a assumir uma série de deveres centrados no atendimento das necessidades
físicas, psicológicas e ambientais de seu animal, assim como prevenir os riscos (po-
tencial de agressão, transmissão de doenças ou danos a terceiros) que seu animal
possa causar à comunidade ou ao ambiente” (PELOTAS, 2016). O Programa de
Proteção Animal, em seu Art. 5º, parágrafo 2º, ressalta que “são objetivos da pos-
se responsável o combate ao abandono e à procriação não planejada” dos animais,
os quais devem ser asseguradas pelos tutores responsáveis. Outros temas aborda-
dos nas campanhas realizadas pela equipe do projeto de extensão, foram:
Importância da vacinação, que objetivou divulgar a importância da realização
de imunizações obrigatórias, como a da raiva, conscientizando a comunidade so-
bre os benefícios desse procedimento aos animais;
Alerta sobre doenças infecciosas, que objetivou advertir a comunidade quanto
ao risco de desenvolvimento de doenças infecciosas nos animais, bem como o
potencial de transmissão quando doentes convivem com animais saudáveis. Essa
campanha também ressaltou os cuidados necessários que os tutores devem ter
quando em convívio com animais portadores de doenças infecciosas, a fim de mi-
nimizar a ocorrência de zoonoses;
Zoonoses de cães e gatos, enfatizando-se as principais zoonoses com destaque
para raiva, toxoplasmose, leptospirose, giardíase, dermatofitose, esporotricose e
dioctofimatose. Essa campanha também alertou sobre a importância dos hábitos
de higiene e da realização de vacinas obrigatórias na prevenção das doenças;
Controle de natalidade de cães e gatos, tratou da importância do controle popu-
lacional dos animais por meio da esterilização cirúrgica, uma vez que esta é uma
prática eficaz, segura e que promove o bem-estar animal;
Câncer de mama em cadelas e gatas, que objetivou enfatizar o risco de desen-
volvimento de câncer de mama, devido aos efeitos colaterais provocados pelo uso
de métodos contraceptivos em cadelas e gatas, os quais não são recomendados
pelos médicos veterinários, assim como a importância da castração das fêmeas na
prevenção de tumores;
Alimentos proibidos para cães e gatos, objetivou alertar a comunidade quanto
ao fornecimento de determinados alimentos por serem tóxicos, e potenciais ris-
cos de intoxicações aos animais por ingestão de alimentos e lixos contaminados,
assim como risco traumático através da ingestão de materiais inadequados para
alimentação de cães e gatos;
Alerta para acidentes em animais com acesso livre às ruas, objetivou alertar so-
bre o risco de animais errantes e semidomiciliados quanto ao acesso às ruas sem
supervisão de um tutor, através de contatos diretos desses com outros animais e
humanos a ocorrência de acidentes, traumas físicos por brigas e mordidas, além
da transmissão e aquisição de doenças infectocontagiosas;

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 333
Campanha do risco de resíduos fecais nas ruas, que objetivou alertar sobre o ris-
co da permanência de dejetos e resíduos fecais, uma vez que são fontes de con-
taminação do ambiente, podendo afetar também a comunidade. Essa campanha
enfatizou as doenças que os animais podem transmitir para o homem quando em
contato com fezes e urina;
Valorização dos recursos naturais para uso nos animais, foram enfatizadas al-
gumas plantas medicinais presentes nas comunidades atendidas pelo projeto, e
informadas suas ações e como poderiam ser utilizadas em benefício aos cães e
gatos, sendo realizada de forma paralela a orientação sobre plantas tóxicas para
animais e pessoas (Fig. 7).

A B

Figura 7 – Ação
de valorização dos Qualificação da formação acadêmica
recursos naturais
através da oficina de
Entre os objetivos do projeto está incluída a qualificação da formação acadê-
sabonetes medicinais mica, possibilitando aos discentes o seu desenvolvimento como sujeitos críticos e
ministrada pela atuantes na sociedade através da vivência prática no contexto da realidade. A for-
equipe do projeto mação sem contextualização gera profissionais tecnicistas, cujas competências e
de extensão habilidades muitas vezes não atendem plenamente ao mercado de trabalho (AN-
(A) e sabonetes JOS, 2014). Essa formação, quando unicamente tecnicista, não oportuniza ao es-
produzidos
pelas mulheres
tudante direcionar o olhar para problemas pontuais, solucionáveis de forma sim-
participantes da ples adaptada à realidade, uma vez que o olhar é padronizado em âmbito teórico.
Comunidade Ceval Dentre as habilidades desenvolvidas pelos discentes participantes, prioriza-se
(B) em 2015. a formação continuada em clínica médica de animais de companhia, através do
Fonte: Fotografias de acompanhamento da prática e da rotina no Ambulatório. Ao inserir-se no proje-
Marlete Brum Cleff, to, o discente vivencia e participa de todas as etapas, desde o exame físico dos
2015. pacientes, observação e análise na conduta terapêutica aos animais de popula-
ções em vulnerabilidade social, acompanhamento quando os pacientes são en-
caminhados ao HCV, além do auxílio na coleta de exames e dados da evolução do
tratamento do paciente, etc. Ainda, o cenário do projeto facilita a observação e
discussão das condutas e o confronto crítico com os conhecimentos apresentados
em sala de aula. O aluno sente-se parte e responsável pelas ações que realiza, e ini-
cia o processo de atuação além da observação, buscando resolver os problemas de
forma conjunta com a população atendida, conhecendo a realidade, buscando al-
ternativas com finalidade de individualizar casos e proporcionar uma abordagem
viável para aquela realidade. A reflexão sobre as atividades desenvolvidas, incluin-
do os atendimentos clínicos e ações realizadas, proporciona aos extensionistas a
reflexão e avaliação dos motivos que levam a uma consulta veterinária. Bem como

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 334
a importância de conscientizar as pessoas quanto aos riscos que envolvem cada
enfermidade, além de planejarem e orientarem quanto às medidas preventivas.
A discussão dos métodos diagnósticos, terapêutica adotada, observação e parti-
cipação nos resultados leva a interação entre a equipe e comunidade, assim como
do médico veterinário com os animais e tutores. Além da reflexão sobre ensino e
serviço, frente a diversificadas realidades, exercendo ética profissional e exercício
de experiência na unidade do Ambulatório Veterinário e na comunidade, qualifi-
cando a formação acadêmica de forma integral.
O discente participante do projeto, por permear entre o meio acadêmico for-
mal e não formal, desenvolve papel fundamental no processo de construção do
conhecimento, buscando nas disciplinas conteúdos que sejam capazes de aten-
der a demanda das comunidades ao mesmo tempo que leva para a sala de aula
subsídios da experiência em campo capazes de exemplificar a teoria. Além do de-
senvolvimento profissional mais humanizado, promovendo a educação através da
transformação social, os colaboradores do projeto desenvolvem habilidades mul-
tidisciplinares, como o trabalho em equipe e a tomada de decisões. Desta forma,
o projeto tem propiciado o envolvimento de estudantes em diferentes níveis de
qualificação o que enriquece o processo de formação acadêmica.
A extensão universitária assume novas percepções e concepções, em que a co-
munidade deixa de ser passiva e passa a ser ativa no processo de desenvolvimento
de trabalhos extensionistas, além da construção do conhecimento pelo professor/
acadêmico nesta atividade, os quais desenvolvem o senso crítico sobre sua pes-
quisa de acordo com a realidade (JEZINE, 2004). A confirmação da extensão como
função acadêmica da universidade não passa apenas pelo estabelecimento da in-
teração ensino e pesquisa, mas implica a sua inserção na formação do aluno, do
professor e da sociedade, na composição de um projeto político-pedagógico de
universidade e sociedade em que a crítica e autonomia sejam os pilares da forma-
ção e da produção do conhecimento (JEZINE, 2004).

Projetos de pesquisa vinculados as atividades de


Extensão
As atividades de extensão desenvolvidas diariamente no Ambulatório, através
dos atendimentos veterinários, acabam direcionando o desenvolvimento de pes-
quisas, uma vez que a casuística no ambulatório veterinário é bastante elevada
e diversificada. Ademais, por atender às comunidades em vulnerabilidade social,
muitas pesquisas podem ser feitas visando obter referências a respeito da saúde
dos animais que ali vivem, a fim de colaborar com a profilaxia de doenças, espe-
cialmente aquelas relacionadas à saúde pública. Nesse sentido, diversos temas de
pesquisa vêm sendo desenvolvidos pelo grupo de trabalho, como a exemplo da
análise e utilização de plantas medicinais presentes na comunidade; pesquisa de
parasitoses frequentes em cães e gatos, através das análises de urina e fezes de
animais e ovos de parasitos do ambiente; diagnóstico e prevenção de enfermi-
dades infecciosas como brucelose, esporotricose, dioctofimatose, leishmaniose;
detecção e busca de opções naturais no tratamento de enfermidades, entre outras
(CAPELLA, 2017; PERERA et al., 2017; CAPELLA et al., 2018). Na rotina, após a
realização das consultas, os pós-graduandos envolvidos nas pesquisas, conversam
com os tutores e preenchem questionários com os dados dos animais pertinentes
aos estudos desenvolvidos, objetivando preparar materiais educativos e direcio-
nar ações para a resolução dos problemas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 335
Segundo Jezine (2004), ao desenvolver a extensão universitária, esta não deve
estar alheia aos trabalhos de pesquisa e ensino, os quais formam os pilares da Uni-
versidade. As Instituições de ensino superior devem estabelecer uma relação de
comprometimento, atendendo a população sem exclusão social. A partir desse
contexto, a extensão é a proposta de proximidade da Universidade com a comu-
nidade, desenvolvendo pesquisa e ensinando numa troca dialógica e direcionada
para a comunidade, atendendo assim, suas demandas e diminuindo as desigual-
dades sociais.

Conclusões
O atendimento clínico de animais provenientes de comunidades em vulnera-
bilidade social tem proporcionado o desenvolvimento de atividades de educação
relacionadas à saúde humana e animal e, consequentemente, contribuído para a
melhoria da qualidade de vida das pessoas e dos animais. Essas ações também
têm favorecido o desenvolvimento educativo integral de todos os envolvidos no
projeto, tornando gratificante o trabalho realizado. Dessa forma, o projeto de Ex-
tensão tem atendido aos requisitos da legislação, melhorando a qualidade de vida
e a interação entre o homem e os animais da região.
A interação entre pessoas e animais requer o desenvolvimento de atitudes
conscientes para que sejam mantidos os equilíbrios biológico, social e ambiental
entre as diversas espécies, caracterizando a necessidade da visão ampla de Saúde
Única. Apesar da existência de uma consciência coletiva sobre a necessidade de
manter essa condição de equilíbrio, é fundamental a instituição de políticas públi-
cas específicas e estáveis para assegurar que sejam concretizadas na prática.

Referências
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conhecimento científico e tecnológico: um olhar para a extensão universitária.
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 336
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-6321-2016-institui-o-programa-de-protecao-animal-no-municipio-de-pelotas-e-
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 337
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2015.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 338
SOBRE OS AUTORES
Marlete Brum Cleff, graduada em Clínica Veterinária, Faculdade de Vete-
Medicina Veterinária pela UFPel, dou- rinária pela UFPel. Participa no projeto
tora em Ciências Veterinárias pela UFR- de extensão contribuindo na realização
GS. Professora do Departamento de de coletas de amostras biológicas e
Clínicas Veterinária da FaVet – UFPel. processamento laboratorial para diag-
Coordenadora do projeto. Atua direta- nóstico das doenças infecciosas dos
mente em todas as etapas de extensão, animais atendidos na rotina do Ambu-
na orientação de discentes na área de latório. E-mail: [Link]@yahoo.
Clínica, Diagnóstico e Terapêutica, co- [Link]
ordena ações com ênfase em Veteriná-
ria Preventiva e Saúde coletiva, assim Cristiano Silva da Rosa, graduado
como ações sociais desenvolvidas junto em Medicina Veterinária pela UFPel,
a comunidade E-mail: marletecleff@ doutor em Ciências pelo Programa de
[Link] Pós-Graduação em Veterinária, Facul-
dade de Veterinária pela UFPel. Pro-
Helena Piúma Gonçalves, gradua- fessor do Departamento de Clínicas
da em Medicina Veterinária pela UFPel, Veterinária da FaVet – UFPel e coorde-
nador adjunto do projeto de extensão,
mestra em Ciências pelo Programa de
participa das rotinas dos atendimentos
Pós-Graduação em Veterinária pela
veterinários no Ambulatório, contribuiu
UFPel. Participa no projeto de extensão
na orientação e supervisão de alunos,
através de atuação na rotina de atendi-
assim como participa das ações e na or-
mento clínico veterinário no ambulató-
ganização das festas comemorativas.
rio Ceval e na organização de ações e
E-mail: [Link]@[Link]
eventos na comunidade. E-mail: hele-
[Link]@[Link] Soliane Carra Perera, graduada em
Medicina Veterinária pela UFPel, mes-
Tábata Pereira Dias, graduada em tra em Ciências pelo Programa de Pós-
Medicina Veterinária pela UFPel, mes- -Graduação em Veterinária, Faculdade
tranda pelo Programa de Pós-Gradua- de Veterinária da UFPel. Participa no
ção em Veterinária, Faculdade de Vete- projeto de extensão contribuindo na
rinária pela UFPel. Participa no projeto realização dos atendimentos veteriná-
de extensão contribuindo nos atendi- rios no Ambulatório, na organização
mentos clínicos no Ambulatório Ceval, das festas comemorativas e no desen-
desenvolvimento de projetos e eventos volvimento de projeto de pesquisa re-
na comunidade. E-mail: tabata_pd@ lacionado aos parasitos de animais de
[Link] companhia envolvendo animais da ro-
tina do Ambulatório. E-mail: soliane.
Stefanie Bressan Waller, graduada cp@[Link]
em Medicina Veterinária pela UFPel,
doutora em Ciências, Departamento de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº4 339
VENCENDO DESAFIOS E
ULTRAPASSANDO PRECONCEITOS
Rosangela Ferreira Rodrigues
Laura Beatriz Oliveira de Oliveira
Maria Gabriela Rheingantz
Anderson Ferreira Rodrigues
Etyeni Abreu da Silva
Mônica Mendes Garcia

A motivação para realizar o projeto surgiu durante o transcorrer do I Seminá-


rio Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação: ampliando os espaços de inclusão,
acessibilidade e desenvolvimento social, no ano de 2012. Nessa ocasião, foi enfa-
tizado que, em alguns países europeus, os investimentos em acessibilidade e in-
clusão são suficientes para incluir um número razoável de indivíduos. Além disso,
nas cidades europeias existe uma crescente preocupação em aumentar a acessibi-
lidade de espaços públicos. Essa preocupação é uma das razões que explica o mo-
tivo de turistas europeus, que visitam o Brasil, observarem de forma equivocada
que existem menos pessoas com necessidades especiais do que nos seus países de
origem. Porém, essa percepção não corresponde à realidade, pois em nosso país,
pessoas com deficiência circulam menos pelas ruas e ambientes públicos devido à
falta de acessibilidade. No Brasil existe uma carência de transporte público adap-
tado, rampas, pisos táteis, utilização da tecnologia para comunicação e outros re-
cursos. Esse fato vem sublinhar a necessidade de chamar a atenção da sociedade
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº5

brasileira para essa questão.


No final do seminário, estava determinada a encontrar alguma forma de re-
tornar para a comunidade um conhecimento científico socialmente responsável.
Compartilhei a ideia com outra professora do departamento de morfologia e pas-
samos a buscar informações a respeito de como o conhecimento e estrutura do
nosso departamento poderia contribuir com o processo de inclusão.
Na área da morfologia estudamos a forma de células, tecidos e órgãos atra-
vés de lâminas histológicas, que requerem o sentido visual e a concentração para
sua confecção, por isso decidimos realizar um curso de capacitação em técnicas
histológicas para alunos surdos. A ausência da audição não constituiria um impe-
dimento. Os detalhes da execução do projeto foram compartilhados entre todos
os docentes e técnicos do departamento de morfologia que gradualmente foram
se interessando pelo trabalho. Dessa forma, o projeto passou a contar com um
quadro amplo de profissionais da área.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 340


O projeto foi instituído e aprovado para receber verba do Programa de Exten-
são Universitária no seu primeiro ano de desenvolvimento, 2014, e também no ano
seguinte.
O objetivo do projeto foi realizar a capacitação de pessoas surdas, através de
um curso de técnicas histológicas, com materiais e recursos humanos apropriados
para sua inserção no mercado de trabalho.
O projeto intitulado “Curso de técnicas histológicas em libras: um intercâm-
bio de aprendizado entre a UFPel e alunos do Colégio Municipal Pelotense” ini-
ciou em 2014, no Departamento de Morfologia da Universidade Federal de Pelotas
(UFPel), para capacitação, em técnicas histológicas, que também são utilizadas
em laboratórios de histopatologia, de alunos surdos ou deficientes auditivos que
estavam cursando o ensino médio.
O sucesso no processo de ensino-aprendizagem das técnicas e a procura de
alunos surdos e discentes da UFPel a fim de participar do projeto, motivou a conti-
nuação em 2015, com expansão para todos os alunos da rede pública, com o “Cur-
so de técnicas histológicas e de imunohistoquímica em libras para inserção de
alunos com deficiência auditiva no mercado de trabalho”. Esse projeto foi pror-
rogado até abril de 2017, entretanto as aulas referentes as técnicas finalizaram em
dezembro de 2016, pois a maioria dos alunos já estava inserido no mercado de
trabalho ou tinha optado por continuar a vida acadêmica. Quatro alunos que não
foram inseridos continuaram sendo assessorados por um intérprete do projeto,
sobre a compreensão de termos utilizados no mercado de trabalho e a forma de
preenchimento de currículos e ficha de inscrição.
Os cursos foram realizados na Faculdade de Medicina, no departamento de
Morfologia, que pertence ao Instituto de Biologia da UFPel. As atividades foram
realizadas de forma semelhante em ambos, entretanto, no curso realizado em
2015 ocorreu à introdução de técnicas de limpeza de vidrarias e equipamentos de
laboratório de análises clínicas. A adição destas técnicas, no segundo curso, ocor-
reu para ampliar a possibilidade de colocação dos alunos no mercado de trabalho,
pois existe maior quantidade de laboratório de análises clínicas em relação aos
laboratórios de Patologia.
Como a primeira língua de pessoas surdas é a língua de sinais, procuramos ini-
ciar a acolhida adaptando a entrada da Faculdade de Medicina e o prédio da Histo-
logia, com placas indicativas no alfabeto manual em libras (Fig.1). Essa adaptação
envolveu também as vidrarias e equipamentos do laboratório de preparo de lâmi-
nas, que seriam utilizadas no curso.

Figura 1 – Placas
indicativas com
alfabeto manual em
Libras na portaria
da Faculdade
de Medicina e
na entrada do
Departamento de
Morfologia.
Fonte: Acervo do
projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 341
Estrutura dos cursos 2014/2015
O primeiro curso, em 2014, foi realizado com nove alunos do Ensino Médio, do
Colégio Municipal Pelotense. As atividades práticas foram efetivadas com auxílio
de intérprete e monitoras ouvintes, dos cursos de Ciências Biológicas e Farmá-
cia. Acadêmicos do curso de engenharia eletrônica e da pós-graduação também
contribuíram para a elaboração de material didático. No segundo curso, em 2015,
além desses colaboradores, foram incluídas na equipe monitoras surdas egressas
do ano anterior. O curso foi realizado com cinco alunos do Colégio Municipal Pelo-
tense, quatro do Alfredo DUB e um da Escola Assis Brasil (Fig.2).

Figura 2 – Alunos e
equipe do curso em:
2014 e 2015.
Fonte: Acervo do
projeto.

Para facilitar a compreensão do processo, foi elaborado um manual com as eta-


pas das técnicas histológicas, organizadas de forma prática e objetiva. Após o es-
clarecimento das etapas do processo, descritas no manual, e demonstração pela
professora, com auxílio da intérprete, ocorria a realização do processo de forma
individual. Em todas as aulas ocorria atendimento individualizado em libras, pois
a língua de sinais não é somente uma alternativa à comunicação do surdo, mas
Figura 3 – sua língua oficial, portanto, é essencial a presença de pessoas capacitadas para
Processamento comunicação fluente em libras nos cursos oferecidos para a comunidade surda
individual das
amostras de órgãos e
(DALL´ASTRA, 2015).
limpeza de materiais. Foi muito importante também o trabalho em equipe entre os alunos, pois uns
Fonte: Acervo do prestavam auxílio aos outros, facilitando a compreensão em determinadas ativi-
projeto. dades (Fig. 3).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 342
A manipulação do micrótomo exige perícia e concentração, para obtenção de
fatias extremamente finas do órgão incluído em parafina. Nesta etapa do proces-
so, os alunos executaram a microtomia de forma precisa e autônoma. Apresenta-
ram um ótimo desempenho também na coloração das lâminas histológicas, que
exige atenção e concentração, uma vez que inclui muitas passagens em substân-
cias químicas, assim como no manejo do microscópio (Fig. 4).

Figura 4 –
Manipulação
do Micrótomo e
Microscópio Óptico.
Fonte: Acervo do
projeto.

Para facilitar a relação das vidrarias e equipamentos com sua nomenclatura, foi
desenvolvido um software, no programa Visual Studio, que associa trinta e cinco
imagens de vidrarias e equipamentos com alternativas de múltiplas escolhas em
português. Apresenta também o recurso de armazenar os resultados sempre que for
acessado, gerando um banco de dados que possibilitam consultas sobre a data de
acesso, nome do aluno, número de acertos por questão, tempo que levou para es-
colher cada alternativa, jogador com mais acertos e as questões com mais acertos.
O software foi utilizado para os alunos se apropriarem do conhecimento e
Figura 5 – Print
screen do Software e também para as avaliações. Sua utilização possibilitou revelar a habilidade que
utilização durante as estes alunos demonstram em atividades visuais e relacionadas à informática,
atividades. pois ajudou a consolidar a nomenclatura dos materiais de forma descontraída e
Fonte: Acervo do no ritmo de cada um. Este tipo de ferramenta não substitui a figura do professor,
projeto. mas auxilia no processo de construção do conhecimento, pois torna o processo
de ensino-aprendizagem mais estimu-
lante (JUCÁ, 2006). A forma como os
alunos empenhavam-se em utilizar o
software durante as aulas, como ferra-
menta para fixação do conteúdo, mos-
tra que consistia em um desafio praze-
roso (Fig. 5).
A associação de imagens com a no-
menclatura foi fundamental para a efi-
ciência do processo de aprendizagem,
pois a visão é a primeira ferramenta uti-
lizada por esta comunidade de alunos
na busca da comunicação. A avaliação
das médias obtidas, após sete acessos
consecutivos, no primeiro ano do pro-
jeto, revelou a evolução dos alunos na
apropriação da nomenclatura (Gráfi-
co 1). O banco de dados possibilitou

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 343
também informação individual sobre as questões corretas ou incorretas, sendo
observado que alguns alunos que pareciam dispersos superaram os demais na
compreensão e assimilação do conteúdo. Percebemos que esses alunos tinham
habilidades individuais que podiam ser exploradas e canalizadas para auxiliar aos
demais, e por isso foram convidados a atuar como monitores surdos na nova etapa
do projeto.
O software foi utilizado também para detectar as questões que tiveram me-
nor quantidade de acertos (Gráfico 2). A observação continuou nos acessos sub-
sequentes para detectar a variação ou permanência das mesmas questões, para
discussão com a equipe executora sobre o motivo da dificuldade em relacionar a
imagem do material com sua denominação.

Gráfico 1 – Média
de acertos em sete
acessos consecutivos.
Fonte: Acervo do
projeto.

Gráfico 2 – Índice
de acerto em cada
questão.
Fonte: Acervo do
projeto.

O uso de recursos tecnológicos como elementos facilitadores para a comunica-


ção auxiliou no entendimento e manipulação de um equipamento muito utilizado
em laboratórios de patologia, denominado de “sistema de captura de imagens”.
O equipamento consiste em uma câmera digital acoplada a um microscópio e a
um computador, permitindo que as imagens das lâminas histológicas sejam foto-
grafadas, armazenadas e disponibilizadas para compartilhamento de diagnóstico
em outros locais, simultaneamente. A demonstração do funcionamento do “siste-
ma de captura de imagens” foi realizada de forma objetiva, procurando explorar o
sentido visual, seguida por utilização individual subsequente (Fig. 6).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 344
Figura 6 –
Demonstração
do Sistema
de Captura
de Imagens
e utilização
individual.
Fonte: Acervo do
projeto.

Dessa forma foi possível observar que um conhecimento novo, quando traba-
lhado de forma clara e adequado ao seu público alvo, torna o aprendizado possível
independente da limitação apresentada pela assistência. Por isso, durante todo o
curso procuramos sempre utilizar os recursos visuais, tanto nas explanações teó-
ricas como nas aulas práticas, focando nas habilidades individuais e não na limita-
ção auditiva como fator impeditivo para o entendimento (Fig. 7).

Figura 7– Explorando A divulgação do curso no jornal impresso de maior circulação da cidade, em


os recursos visuais 2014, resultou em contato e parceria com uma assistente social que selecionou
nas explanações
no projeto alguns alunos e conduziu para o programa Jovem Aprendiz, na cidade
teóricas e aulas
práticas. de Rio Grande. Os alunos que cursaram o Jovem Aprendiz de forma concomitante
com o curso de técnicas histológicas realizaram estágio em uma empresa multina-
Fonte: Acervo do
projeto. cional. Durante a realização do estágio acompanhamos o entusiasmo desses alu-
nos com a inserção no mercado de trabalho e com os benefícios advindos, como
conta em banco e cartão de convênio médico. Entretanto, com a crise que estava
iniciando no país, a empresa ficou somente com um aluno e os outros foram dis-
pensados.

Mudança de rumo
Essa situação motivou uma mudança de rumo no projeto. A intenção inicial na
elaboração do projeto consistia somente em propiciar capacitação em um curso
de técnicas histológica, mas com esse novo panorama econômico que o país apre-
sentava foi percebida a necessidade de auxiliar no processo de colocação no mer-
cado de trabalho. Esse foi um processo difícil, pois como não há uma central de
intérpretes em Pelotas, a maioria das empresas colocava essa situação como um

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 345
impedimento, para a adaptação inicial. Esse obstáculo foi contornado, propician-
do a atuação da intérprete do projeto durante a etapa de adaptação do aluno em
sua nova atribuição.
Seguimos auxiliando na comunicação inicial, para inserção no mercado, e per-
cebemos que, além da adaptação, teríamos que driblar o preconceito que ainda
existe e os reflexos da crise econômica que somente aumentava. Tudo isso coinci-
diu com a desativação do laboratório de patologia da Santa Casa de Misericórdia
de Pelotas, ficando a cidade com apenas dois laboratórios de Patologia. Dessa for-
ma, foi necessário inserir alguns alunos em farmácias, indústria e comércio.
A inserção do primeiro aluno em uma farmácia revelou a importância da soli-
dariedade no ambiente de trabalho. A receptividade e o aco-
lhimento possibilitaram uma excelente integração do aluno
com os demais colegas de trabalho e sua permanência, pois
já está trabalhando no mesmo local há quatro anos (Fig. 8).
Foi possível perceber também como a acolhida é essencial
para que o processo de inclusão ocorra de forma efetiva, pois
evidencia para o indivíduo surdo que ele faz parte do grupo
(VIANA, 2010).
Com a colocação de um aluno do curso em um laborató-
rio de patologia de Pelotas, conseguimos ter o primeiro téc-
nico surdo em histopatologia, no mercado de trabalho (Fig.
8). Seu destaque na execução do trabalho culminou com sua
contratação, indicando a importância de propiciar qualifica-
ção com recursos específicos para cada público-alvo.
Figura 8 – Inserção É essencial o respeito pela experiência visual-espacial e linguística desses alu-
em Farmácia e nos, assim como a utilização de práticas pedagógicas que viabilizem os seus sa-
Inserção no Centro de
beres (SILVA, 2012). Realizar a capacitação priorizando estes aspectos promove
Anatomia Patológica.
segurança, autonomia e desmistifica a ideia de que determinadas tarefas são im-
Fonte: Acervo do possíveis para alguns grupos. Muitas vezes é necessária somente uma adaptação
projeto.
metodológica.

Transformando sonho em realidade


O novo direcionamento do projeto possibilitou uma aproximação maior com os
anseios e sonhos de cada integrante. Nossas atividades passaram a não centrali-
zar somente a capacitação técnica, mas também incentivar o empoderamento e a
busca para ocuparem seu espaço na sociedade.
Nesse contexto, um aluno revelou seu sonho de atuar na área da moda. Par-
timos em busca de uma bolsa para curso de modelo, providenciamos intérprete
para auxiliar e observamos um desempenho excelente, o que motivou a continuar-
mos auxiliando para cursar outro nível do curso. Representou a escola de modelos
em dois anos consecutivos do “Moda Pelotas” e, apesar da finalização do projeto,
ainda não desistimos de encontrar alguma forma para que consiga se profissiona-
lizar (Fig. 9). Neste processo em especial, foi muito importante o auxílio de uma
monitora que se empenhou em propiciar nosso contato com a equipe do profissio-
nal da moda.
Para possibilitar a divulgação dos trabalhos, e também o intercâmbio entre os
profissionais e os alunos, foi criado pela equipe um blog, um grupo no WhatsApp e
outro no Facebook. Esses recursos foram ferramentas excelentes para o comparti-
lhamento de informações.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 346
Figura 9 – Aluno do
projeto: no curso e
no evento “Moda
Pelotas”.
Fonte: Acervo do
projeto.

A assistente social que descobriu o projeto através da imprensa tornou-se par-


ceira e, em 2015, canalizou novamente alunos da segunda turma para o programa
Jovem Aprendiz. Portanto, apesar das mudanças de rumo ao longo do projeto, sua
criação possibilitou o estágio de duas alunas surdas como monitoras no projeto,
o estágio de quatro alunos em uma indústria multinacional com a contratação de
um, a inserção do primeiro técnico surdo em um laboratório de patologia, o dire-
cionamento de três para atuarem em farmácias e de três para a área comercial.

Considerações
Observamos que os recursos utilizados facilitaram o aprendizado e a comuni-
cação, contribuindo para a integração, a elevação da autoestima, o entusiasmo
por um futuro promissor, a revelação de muitas habilidades e formação de pro-
fissionais competentes, aptos a ingressarem no mercado de trabalho, conforme
relatado nos locais de estágios, nos quais foram inseridos.
Constatamos que frequentar o ambiente acadêmico durante o curso propor-
cionou aos alunos ampliar a sua gama de possibilidades e serviu de incentivo para
continuarem alçando voo, pois os desafios nos transformam.
O projeto trouxe também uma contribuição excelente para o departamento,
pois incorporou ao seu acervo, três notebooks; uma TV Qualipix com tela touch
screen e PC integrado; um processador de tecidos; um dispensador de parafina;
uma capela de exaustão de gases e dois micrótomos, que foram adquiridos atra-
vés do apoio financeiro do ProExt, e que estão servindo para utilização em outros
projetos do departamento.
Porém, o mais importante sem dúvida foi uma melhor compreensão da reali-
dade, por parte da comunidade acadêmica ouvinte, em relação a essa parcela de
jovens portadores de deficiência auditiva. Assim, a academia avança no sentido de
ampliar os conhecimentos da realidade para, concomitantemente, intervir nela de
forma a potencializar vocações, habilidades, recursos humanos e sociais, muitas
vezes anulados pelo processo de exclusão.

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mento da pessoa surda: a noção de inclusão associada ao sentimento de perten-
cimento no espaço escolar. Revista Educação Especial, Santa Maria, v. 28, n. 51,
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 347
JUCÁ, Sandro César Silveira. A relevância dos softwares educativos na educação
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nível em: [Link]
Santos%[Link]. Acesso em: 16 jul. 2014.

SOBRE OS AUTORES
Rosangela Ferreira Rodrigues, li- UFPel. Profª. Titular no Departamento
cenciada e bacharel em Ciências Bioló- de Morfologia do Instituto de Biologia,
gicas pela UFPel. Doutora em Ciências UFPel. Vinculada ao projeto desde 2014.
pela UFPel. Profª. Adjunta no Departa- E-mail: mgrheing@[Link]
mento de Morfologia do Instituto de Bio-
logia, UFPel. Coordenadora do Projeto. Anderson Ferreira Rodrigues, gra-
E-mail: rosangelaferreirarodrigues@ duado em Análise e Desenvolvimento
[Link] de Sistemas pela UNINTER. Graduan-
do de Engenharia Eletrônica na UFPel.
Laura Beatriz Oliveira de Oliveira, Especialista em Educação Profissio-
graduada em Farmácia e Bioquímica nal e Tecnológica pela FESL. Vincu-
pela UCPel. Doutora em Biologia Celu- lado ao projeto desde 2014.E-mail:
lar e Molecular pela PUCRS. Profª. Ti- [Link]@gmail.
tular no Departamento de Morfologia com
do Instituto de Biologia da UFPel, coor-
dena projetos de pesquisa em Biologia Etyeni Abreu da Silva, graduanda
Tecidual. Participação e coordenação do curso de Farmácia da UFPel. Bolsis-
de projetos de ensino relacionados ta do PROEXT no projeto desde 2015.
ao desenvolvimento de livros de his- E-mail: etyeniabreudasilva@gmail.
tologia. Participação em projetos de com
extensão relacionados à inclusão. Vin-
culada ao projeto desde 2014. E-mail: Mônica Mendes Garcia, gradua-
centenooliveira60@[Link] da em Letras - Português e Literatu-
ra pela UFPel, tradutor intérprete em
Maria Gabriela Tavares Rheingantz, Língua de Sinais da UFPel. Bolsista do
graduada em Medicina Veterinária pela PROEXT no projeto desde 2015. E-mail:
UFPel. Doutora em Biotecnologia pela [Link]@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº5 348
A REMIÇÃO PELA LEITURA:
PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS NO PRESÍDIO
REGIONAL DE PELOTAS

Nathaly Guatura da Silva


Luciana Iost Vinhas

Apresentação
O projeto de extensão “Remição de pena através da prática de leitura no Pre-
sídio Regional de Pelotas”1, por meio do estabelecimento de uma parceria com o
Presídio Regional de Pelotas2 e com o Conselho da Comunidade da Execução Penal
da Comarca de Pelotas, tem o objetivo de realizar oficinas de leitura e produção
de textos com apenadas e apenados do Presídio Regional de Pelotas, propiciando
também a remição de pena. O projeto teve início em abril de 2019 e as primeiras
oficinas de leitura começaram a ocorrer no PRP no mês de julho do mesmo ano.
A remição de pena pelo trabalho é um direito assegurado pela Lei de Execu-
ção Penal e, através da redação dada pela Lei nº 12.433, de 2011, foi acrescentada
a possibilidade de remição pelo estudo. Com o amparo dessa legislação e no di-
reito constitucional à educação, a resolução dada pela portaria nº 033/2019-GAB/
SUP regulamenta a Remição pela Leitura nas unidades prisionais do Estado do Rio
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº6

Grande do Sul. A portaria é nova, mas já temos conhecimento de outros projetos


de remição que foram recentemente iniciados em outras cidades do estado, e, na
unidade prisional pelotense, nosso projeto é o pioneiro. Durante toda a história
do PRP, é a primeira vez que há remição pela leitura e, ao longo dos 50 anos de
história da UFPel, nunca foi feito um convênio com o Presídio Regional de Pelotas.
1 O projeto é coordenado pela Prof.ª Drª Luciana Iost Vinhas, docente do Centro de Letras e Comuni-
cação, e conta com a participação de estudantes de cursos de graduação da mesma unidade acadêmica:
Nathaly Guatura da Silva (Curso de Licenciatura em Letras-Português, bolsista do projeto), Amanda Romig
Reichow (Curso de Licenciatura em Letras-Português, voluntária), Carolina de Macedo Martins (Curso de Li-
cenciatura em Letras-Português e Espanhol, voluntária), Gabriela Coelho Nunes (Curso de Licenciatura em
Letras-Português e Inglês, voluntária), Julia Müller Pereira (Curso de Jornalismo, voluntária), Luiz Carlos de
Vasconcelos Mangabeira (Curso de Licenciatura em Letras-Português, voluntário). O projeto também conta
com a participação da Prof.ª Drª Dani Moreira (IFSul CaVG), professora colaboradora.
2 O projeto conta com a participação fundamental de duas servidoras do Presídio Regional de Pelotas,
Gisele Medeiros (assistente social) e Vivian Polidori (psicóloga). Além disso, é importante ressaltar o apoio
da Direção do PRP através do Diretor Giuliano Nogueira, que proporcionou as condições de trabalho para a
execução do projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 349


O presente projeto, então, possui um duplo pioneirismo na relação da universida-
de com a comunidade.
Considerando a pouca oferta de atividades e as condições precárias dos pre-
sídios no Brasil, há pouco espaço para a pretendida ressocialização de indivíduos
com a qual se justifica o aprisionamento. Para Chies (2013, p. 19), as filosofias “re”
(ressocialização, readaptação social, reinserção social, reeducação, repersonali-
zação etc.) funcionam como formas discursivas de mascarar a complexidade das
sociedades, seus fenômenos, instituições e contradições, ofuscando “a atuação
seletiva do sistema penal, a qual se alimenta da vulnerabilidade de categorias so-
ciais num contexto de contradições”. Além disso, como afirma Borges (2019), en-
carceramento sempre significou mais do que privação de liberdade. Mais do que a
retirada do direito de ir e vir, o cárcere funciona como um mecanismo sistêmico de
reprodução de violência contra os corpos dos ditos não civilizados, em maior parte
pessoas negras e pobres.
O projeto de extensão no PRP, além de promover a remição pela leitura, visa
proporcionar um ambiente de reflexão e debate sobre questões de interesse co-
mum, um espaço de resistência, e funciona, assim, como uma forma de os partici-
pantes poderem se envolver com atividades sócio-educativas, das quais também
são excluídos no cárcere. Como educadoras, partimos de uma compreensão crí-
tica do ato de ler, adotada por Freire (1989, p. 9), que acredita que a leitura “não
se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita”, ela
“se antecipa e se alonga na inteligência do mundo”. Tal concepção de leitura se
coaduna com o afirmado em Orlandi (2004). Para a autora, ler é um ato no nível
simbólico, e isso significa que ler é interpretar. A prática da leitura se torna mais
que um instrumento para remição de pena ou pura informação: a leitura dá espaço
para novas assimilações da realidade, propicia novas formas de se relacionar com
o mundo, afeta os processos interpretativos nos quais os sujeitos estão inseridos
e, da mesma forma, as vivências dos sujeitos têm efeitos no processo de produção
da leitura.

Como trabalhamos?
As atividades desenvolvidas até o presente momento com as apenadas e com
os apenados são calçadas nas condições previstas na portaria nº 033/2019, que
estabelece a leitura de uma obra literária no período de 21 a 30 dias. Dentro des-
se prazo, a(o) participante também deverá elaborar um relatório de leitura que
permitirá remir quatro dias de sua pena. Apenadas e apenados com ou sem con-
denação podem se inscrever no projeto voluntariamente, sendo que a divulgação
acontece todos os meses sob responsabilidade da SUSEPE, podendo admitir no-
vos participantes.
Tendo em vista a socialização da leitura, a proposta é a de que todas as(os) par-
ticipantes do grupo leiam a mesma obra durante o mês. No parágrafo único do
artigo 2º da portaria nº 033/2019 fica estabelecido que a Remição por leitura pode
ser integrada a programas e projetos de natureza semelhante, como oficinas de
incentivo à leitura. Dessa forma, são realizadas oficinas semanais, com duração
de 60 a 90 minutos, para a discussão de capítulos do livro em processo de leitura.
Assim, as impressões causadas e as dificuldades surgidas durante a leitura podem
ser compartilhadas e debatidas. O grupo entende que essa socialização benefecia
o debate de ideias e estimula o desenvolvimento da capacidade crítica, favorecen-
do a compreensão textual e o interesse pela leitura.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 350
O critério de escolha dos livros leva em consideração a linguagem acessível aos
participantes, a contemplação de assuntos de interesse social e as indicações fei-
tas pelo DEPEN. Durante as oficinas são discutidas questões pertinentes à com-
preensão da obra visando à assimilação das partes em relação ao todo, sempre
dando espaço de fala e escuta às(aos) participantes, que trazem relações dos con-
teúdos lidos com suas experiências de vida. Ressaltamos também alguns concei-
tos literários e outras categorias pertinentes para a reflexão e interpretação dos
textos lidos.
O cronograma de atividades de cada mês é formulado de acordo com o prazo
estabelecido pela portaria; dessa forma, organizamos previamente uma divisão
de cada livro que será lido em cada ciclo. Assim, em cada encontro, deixamos mais
um trecho do livro para ser lido pelas(os) participantes, realizando a discussão no
encontro seguinte. Para fomentar essas discussões são entregues fichas de leitura
com perguntas-chave. As fichas têm o objetivo de sintetizar pontos cruciais para o
entendimento das narrativas e exercitar a escrita, facilitando, assim, a construção
do relatório final. Os participantes podem, portanto, elaborar o relatório final de
leitura com base nas respostas dadas às fichas de leitura.
Na semana anterior ao dia reservado para a elaboração do resumo, pedimos
às(aos) participantes que previamente pensem e escrevam ideias para a sua cons-
trução. Depois de escritos, os resumos são lidos e comentados pela professora
orientadora do projeto e entregues às apenadas e aos apenados para que possam
ser reescritos. A avaliação é feita com base em alguns critérios determinados pela
portaria 033/2019: (i) Estética (respeitar parágrafo, não rasurar, respeitar margem,
letra legível, mínimo 30 linhas e máximo 60 linhas); (ii) Limitação do tema (limitar-
-se a escrever somente o conteúdo do livro, isto é, não citar assuntos alheios ao
objetivo proposto); e (iii) Fidedignidade (proibição de texto que seja considerado
plágio).
Em seguida do recebimento da refacção dos textos pelos participantes, os pa-
receres dos relatórios de leitura são encaminhados às servidoras da SUSEPE que
fazem parte da equipe de remição no PRP. As avaliações são anexadas ao Processo
de Execução Criminal (PEC) da(o) apenada(o). Somente através da aprovação ava-
liada pelo relatório o pedido de remição de pena das(dos) participantes das ofici-
nas será encaminhado ao juiz responsável. Caso a(o) participante ainda não tenha
condenação, a avaliação será anexada ao seu processo e a remição será solicitada
quando receber sua pena.
Para discutir o andamento do projeto e bibliografias pertinentes (sobre cárce-
re, leitura, educação, etc.), o grupo3 se reúne mensalmente nas dependências do
Centro de Letras e Comunicação da UFPel. No início do projeto, as reuniões eram
semanais para que pudéssemos construir e consolidar a metodologia de trabalho
para as oficinas. Desde que começamos a praticá-las no presídio, a equipe respon-
sável pelo ciclo pode se reunir lá mesmo, antes ou depois dos encontros, para dis-
cutir o andamento do projeto. Cada ciclo é referente a um livro lido ao longo de
quatro semanas, e as equipes de trabalho são redefinidas a cada mês. A equipe que
executa o projeto in loco é composta pela bolsista, Nathaly Guatura da Silva, pela
coordenadora do projeto, professora Luciana Iost Vinhas, e por mais um dos estu-
dantes voluntários que participam do projeto. O estudante voluntário é alterado
a cada mês, a fim de que todos possam ter a vivência de participação nas oficinas
no PRP.
3 A composição do grupo está explicitada na nota de rodapé n° 1.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 351
O vínculo institucional com o PRP
Para colocar o projeto em prática, tivemos que passar por algumas questões
burocráticas. Conseguimos acesso ao Presídio através do Conselho da Comunida-
de, que é um estatuto estabelecido pela Lei de Execução Penal. Entretanto, por
não sermos oficialmente vinculados a esse Conselho, não pudemos confecionar
as carteirinhas necessárias para a entrada no presídio. Essas carteirinhas só po-
dem ser feitas através de vínculo institucional ou pessoal com alguma apenada
ou apenado, e a UFPel ainda não possui vínculo com o PRP. Foi apenas pelo apoio
e intervenção da assistente social Gisele Medeiros e da psicóloga Vivan Polidori
que conseguimos dar início às oficinas de leitura. Essas servidoras conseguiram,
junto ao atual diretor da instituição, Giuliano Nogueira, uma autorização para que
pudéssemos tocar o projeto enquanto o vínculo institucional não é consolidado. O
processo de vinculação exige uma série de documentações, e, segundo as servido-
ras, às vezes pode demorar até 6 meses. O que impressiona é o fato de a UFPel ter
coexistido com o PRP na cidade de Pelotas durante seus 50 anos e não ter havido,
até o momento, uma parceria oficial entre essas instituições, considerando a am-
pla oferta de cursos de graduação e de pós-graduação que abrangem diferentes
áreas do conhecimento que poderiam contribuir com a instituição penal. Atual-
mente, já encaminhados os documentos necessários pela parte da Universidade,
estamos aguardando o processo. Será mais uma conquista da comunidade e da
universidade, já que essas instituições têm muito a oferecer uma à outra.

A galeria feminina
No dia primeiro de julho de 2019, após diversas reuniões de preparação e alguns
adiamentos por conta de operações internas do Presídio (o PRP esteve em pro-
cesso de intervenção nos meses de maio e junho de 2019), realizamos a primeira

Figura 1 – Primeiro
encontro com
as mulheres
participantes do
projeto. Ao fundo,
em pé, estão os
oficineiros: Nathaly
Guatura da Silva,
Luciana Iost Vinhas
e Luiz Carlos
Mangabeira.
Fonte: Acervo do
projeto, 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 352
oficina do primeiro ciclo com um grupo de 6 mulheres da galeria feminina. Como
uma escolha simbólica para o início de nossas atividades práticas, o livro de con-
tos “Olhos d’água”, da autora brasileira negra Conceição Evaristo, foi recebido na
sala de aula também de uma forma simbólica: com muita emoção e até mesmo
lágrimas. Já no início da leitura, uma das mulheres apenadas começou a chorar
dizendo que estava se identificando muito com a trajetória da personagem princi-
pal do primeiro conto, homônimo ao da coletânea. Ela disse que nunca havia lido
uma história com a qual se identificasse; durante a apresentação, falou inclusive
que não gostava de ler, mas que havia entrado no projeto buscando alguma ins-
piração. Outras mulheres também disseram não gostar de ler, mas que gostariam
de aprender ou encontrar alguma ocupação, já que não eram muitas as ofertas de
atividades no âmbito da penitenciária.
Infelizmente, já no segundo encontro, o número de mulheres foi reduzido a 1/3
entre saídas, desistências e transferências. A falta de adesão e evasão das mulhe-
res nas atividades é uma problemática complexa devido à grande rotatividade na
ala e à falta de motivação em sair das celas, questão já levantada no primeiro en-
contro por uma das apenadas. Ela explicou que, por mais estranho que pudesse
parecer, dentro da prisão elas criavam na cela um ambiente confortável, e que, por
isso, era difícil sair daquele ambiente para realizar qualquer atividade. Ela também
relatou que muitas apenadas não saem de suas celas nem ao menos para ir ao pá-
tio nos horários permitidos.
Antes que as servidoras da SUSEPE começassem a divulgar o projeto, esta-
belecemos um número máximo de participantes por ciclo: 10. Esse número foi
estabelecido por conta da quantidade de material mensal (livros que devem ser
adquiridos), capacidade física da sala de aula e, também, para maior proveito de
fala e escuta para as participantes. Antes da primeira oficina, o número de mu-
lheres inscritas era 9; contudo, no dia em que ela foi realizada pela primeira vez,
compareceram apenas 6, conforme já relatado. Isso significa que, antes mesmo
de conhecer as condições, leituras e pessoas envolvidas no projeto, 3 mulheres já
haviam desistido. Não se pode concluir a causa exata da falta de adesão e evasão
da galeria feminina, já que se trata de uma questão pouco simples.
Dada a baixa oferta de atividades relacionadas à educação e remição atrás das
grades para o público feminino, seria de se esperar que as mulheres participas-
sem, mas não é o que acontece. E ainda nos faltam conclusões para reverter esse
problema, já levantado em Lopes, Soares e Pinto (2017). Até o momento, foram
realizados 3 ciclos de leituras com grupos da galeria feminina e temos apenas 5
avaliações realizadas. Apenas uma apenada chegou ao final do primeiro ciclo,
compareceu à reunião do segundo ciclo, desistindo em seguida, sem concluí-lo.
No segundo ciclo, tivemos 4 novas inscritas, havendo, entre essas, 2 desistentes:
uma que entrou em liberdade antes de finalizar o ciclo e uma concluinte, conforme
já relatado. O terceiro ciclo foi o mais proveitoso e indicou uma possível conquista
dentro da galeria feminina. Das 9 inscritas, 8 compareceram ao primeiro encontro
e 7 delas participaram do ciclo até o encontro anterior ao da construção do resumo.
No dia de fechamento do terceiro ciclo com as mulheres, as notícias do jornal
regional “Jornal do Almoço” para muitas e muitos que estavam no PRP não foram
boas. Através de um jornal televisivo, as apenadas souberam que seriam transferi-
das para outra unidade prisional em razão de reformas no PRP, por, no mínimo, seis
meses. Esse foi o principal motivo, segundo as próprias apenadas que comparece-
ram, para que suas colegas não fossem ao encontro. A transferência não se tratava
apenas de uma questão de deslocamento espacial, se tratava de distanciamento

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 353
afetivo, isto é, da distância dos parceiros que também estão privados de liberda-
de no PRP. Além disso, essa transferência ocasionaria a distância de familiares e
amigos que não poderiam visitá-las em outra cidade. Além das separações, quais
seriam as condições da nova prisão? Eram muitas as ansiedades para driblar até a
sala de aula; assim, só chegaram 3 apenadas ao final do terceiro ciclo. Mesmo que
também estivessem ansiosas com as notícias, as participantes compareceram e
relataram seus medos. Compreendendo a gravidade da situação e pensando nas
que não puderam comparecer, foi proposto que a avaliação fosse realizada na se-
mana seguinte, mas as mulheres preferiram concluir o ciclo e foi o que fizemos.
Na semana seguinte, o encontro não aconteceu, por indicação da Direção do PRP.
Todas as mulheres do Presídio Regional de Pelotas foram transferidas para o Pe-
nitenciária Estadual de Rio Grande em meados do mês de outubro de 2019, sem
previsão para retorno.
Esse foi o último ciclo de leitura realizado com a galeria feminina por tempo in-
determinado. O que pode ser dito sobre as leituras que realizamos durante os três
meses com as mulheres no PRP é que geraram discussões muito importantes. Pu-
demos falar sobre racismo, sexismo, inclusão social, desenvolver categorias literá-
rias e, principalmente, ouvir as apenadas. Durante as oficinas, íamos rapidamente
do riso às lágrimas com os relatos e desabafos das mulheres. Através da leitura
da palavra escrita, encontramos, juntas, leituras de mundo, da “palavramundo”,
como Freire (1989) coloca. Falamos sobre maternidade, sobre inclusão, sobre po-
sições sociais, sobre emoções; as saudades dos filhos, das mães, dos pais, das ir-
mãs e irmãos, dos amigos, do trabalho... Tudo surgia a partir da leitura da palavra.
Em nenhum momento a palavra deixava de ser mundo.
Acreditamos que isso explique, em parte, até mesmo a falta de adesão e evasão
das mulheres, pois, no sistema prisional, assim como fora dele, as mulheres são
muitas vezes silenciadas e esquecidas. No PRP recebem muito menos visitas do
que os homens, em especial, recebem muito menos visitas de parceiros que os ho-
mens recebem de parceiras. E cumprem pena em espaços que sequer previam sua
existência até não muitos anos atrás, como colocam Lopes, Soares e Pinto (2017)
e que não se adequam às suas necessidades, como em relação à inexistência de
berçários para amamentar seus filhos. São poucas as casas prisionais femininas no
Estado do Rio Grande do Sul e, dessa forma, algumas delas, como o PRP, possuem
galerias destinadas a mulheres. Segundo a Lei de Execução Penal, “o mesmo con-
junto arquitetônico poderá abrigar estabelecimentos de destinação diversa desde
que devidamente isolados” (BRASIL, 1984). Essa redação é dada pelas mudanças
efetuadas na LEP em 1984.
As mulheres não estiveram, durante muito tempo da nossa história, previstas
dentro dos estabelecimentos prisionais porque seus corpos não eram previstos em
espaços públicos. Assim como os corpos das mulheres estavam determinados a
permanecer no espaço doméstico, as punições também estavam determinadas a
permanecer nesse espaço. Conforme Borges (2018, p. 60).
Até o século XVIII, as mulheres eram consideradas incorrigíveis, pos-
to que suas transgressões eram determinadas pelo campo moral e de
descumprimento de seus papéis sociais domésticos e cuidadores. As
punições masculinas estavam no âmbito da correção, sendo colocada
também a privação como momento de reflexão, trabalho e formas de
corrigir e reformar estes homens. No entanto, como as mulheres não
tinham status de cidadania, como direitos políticos iguais aos dos ho-
mens, não eram vistas como possíveis de reforma no mesmo grau em
que os homens.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 354
Dessa forma, é necessário pontuar que a condição de mulheres no cárcere deva
ser pensada de uma maneira muito complexa em diversos níveis. E, não sendo
esse o objetivo do que escrevemos, apontamos apenas a necessidade de que o que
está sendo exposto aqui não seja encarado com estereotipações, como pensar que
as mulheres não participam das oficinas por serem desinteressadas. Considerando
as condições nem um pouco motivadoras do encarceramento, podemos apenas
pensar em mais propostas de extensão que possam envolver as apenadas após seu
retorno ao PRP.

A galeria dos trabalhadores

Figura 2 – Primeiro
dia do primeiro
ciclo com a turma
de homens. Ao
fundo, estão Luciana
Vinhas, Aline
Santos (membro
do Conselho da
Comunidade), Julia
Müller Pereira e
Nathaly Guatura da
Silva.
Fonte: Acervo do
projeto, 2019.

A ideia inicial para o projeto era montar uma turma para a galeria feminina e
uma turma para as galerias masculinas. Entretanto, por decisão da administração
do Presídio, foi autorizada apenas a turma de mulheres, pois as galerias mascu-
linas são organizadas por facções, e, por motivos de segurança, a administração
não autorizou que a remição fosse ofertada a essas galerias em um primeiro mo-
mento do projeto. Ao final do primeiro mês com as mulheres, conversamos com
a Direção sobre a possibilidade de expandir o projeto aos homens da galeria dos
trabalhadores, os quais não são faccionados.
Conseguimos iniciar o projeto com uma turma de 10 homens no mês de agos-
to. Chegamos ao final do primeiro mês com evasão mínima, pois apenas um dos
apenados desistiu. Nove homens compareceram ao último encontro e fizeram o
resumo, e continuamos com os mesmos membros no segundo ciclo, do qual todos
continuaram até o final. Até o momento todos os apenados que participaram das
oficinas tiveram seus resumos aprovados para a remição.
Durante a leitura do primeiro livro, “O papai é Pop”, doado ao projeto pelo pró-
prio autor, o jornalista Marcos Piangers, cujo contato foi estabelecido por Aline San-
tos, membro do Conselho da Comunidade, os apenados já se mostraram bastante
críticos sobre a realidade social representada pelo autor. Pudemos, também, atra-
vés dessa leitura, discutir diversas nuances sobre a paternidade, experimentada

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 355
por mais de 50% do grupo de apenados. Com uma proposta diferente, no segundo
mês, os participantes puderam entrar em contato com a experiência materna da
jornalista Juliana Vinhas em seu livro “Mais que Dois”, doado pela autora, cuja lei-
tura também foi realizada com as mulheres no segundo ciclo.
A aquisição de livros para o projeto tem sido através de doações e compras de
membros. Como precisamos de livros em quantidades grandes (10 exemplares),
as escolhas ficam limitadas aos títulos que conseguimos adquirir; dessa forma, re-
ciclamos os livros devolvidos pelas(os) participantes: os livros usados no grupo de
mulheres podem ser trabalhados com o grupo de homens. Durante o processo de
empréstimo aos apenados e às apenadas, alguns livros são perdidos ou danifica-
dos, o que diminui a quantidade de livros adequados a novos empréstimos. Em
função disso, acabamos precisando adquirir novos exemplares. Importante ressal-
tar que, através do Conselho da Comunidade, foi aprovada uma verba de 9 mil re-
ais para a remição de pena pela leitura, o que possibilitará a aquisição de diversos
exemplares.
A galeria dos trabalhadores, segundo palavras dos próprios homens trabalha-
dores, faz o Presídio funcionar. O grupo de remição é composto por trabalhadores
com diversas funções no PRP: eles trabalham na cozinha, nos corredores e telha-
dos fazendo reparos, na elétrica, na limpeza, etc. As oficinas acontecem às segun-
das-feiras quando termina o turno de trabalho, às 17h. Os homens participantes
têm diferentes níveis de escolaridade e leitura e se relacionam com as leituras que
fazemos de forma diferente, a partir das relações e associações com seus próprios
mundos. Em comum a todos há a forte parceria em comparecer e participar dos
encontros, mesmo após o dia cansativo de trabalho.
A transferência relatada anteriormente não afetou exclusivamente a galeria
das mulheres; outra galeria masculina, a galeria D, também teve que ser trans-
ferida. O motivo da transferência é a reforma das galerias A e B, que precisavam
ser interditadas com urgência em função de um risco de desabamento da estru-
tura da caixa d’água. Além dessa reforma, outras partes do presídio estão sendo
reparadas, o que implica bastante movimento e estresse na rotina dos apenados
trabalhadores. No último ciclo, essa problemática refletiu bastante nas oficinas,
pois os homens não têm conseguido tempo para dedicar às leituras combinadas.

Considerações finais
A cada dia de convívio no interior do Presídio lidamos com algumas das fortes
emoções que as grades tentam conter. Ouvimos histórias, vimos lágrimas e desco-
brimos um pouco mais sobre um sistema que, por falta de interesse e investimento
do Estado, nega tratamento digno, ambiente e alimentação adequada e educação
a uma parcela da sociedade. Muitas vezes, as oficinas se tornam um espaço em
que as apenadas e apenados podem falar, compartilhar suas experiências e visão
de mundo. Esse já é um começo dentro de uma sociedade que visa sempre calar
as pessoas marginalizadas.
A falta de adesão e evasão das mulheres, a princípio, foi a maior problemática
enfrentada para a consolidação do projeto. Mas a realidade é de que a prisão é um
ambiente de muita instabilidade e não podemos saber o que vem a seguir. Ao con-
versar com a SUSEPE sobre a possibilidade de expandir o projeto à galeria dos tra-
balhadores após o primeiro ciclo com a galeria feminina, não imaginaríamos que
essa expansão seria necessária futuramente para que o projeto de extensão per-
manecesse ativo. A cada segunda-feira temos a esperança de que os participantes

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 356
consigam chegar até a sala de aula, nem que seja para dizer que não conseguiram
ler o livro.
Também enfrentamos alguns problemas estruturais, como a localização da
única sala de aula do Presídio, que fica entre o primeiro e o segundo portão das
galerias C e D. Segundo os próprios agentes, essa localização é problemática em
termos de segurança, sendo a parte menos protegida da unidade. Essa localização
também impossibilita que apenados das galerias A e B possam participar do pro-
jeto, pois teriam de passar em frente à galeria C, que, por sua vez, é organizada
por uma facção rival. Também dependeremos de grades para expandir o projeto
a outras galerias, que, segundo servidores da SUSEPE, já foram encomendadas.
Essas grades serão instaladas dentro da sala de aula, entre nós e os alunos, para
expandir o projeto a qualquer galeria faccionada, garantindo a nossa segurança.
Para concluir, é importante ressaltar que o nosso trabalho na promoção de me-
lhorias dentro das prisões não significa que compactuemos com a sua existência
como única alternativa. Na verdade, significa que compreendemos a existência de
muitas pessoas que sofrem dentro desses espaços. É necessário que deixemos de
enxergar as prisões com normalidade, como propõe Davis (2018). Devemos colo-
car sua existência em questionamento e pensar se realmente essa alternativa é a
mais adequada para o curso da nossa sociedade. O aumento da população carce-
rária no Brasil nos últimos anos é alarmante. A política de guerra contra as drogas
tem causado um aumento massivo no sistema prisional, em especial no que diz
respeito a mulheres, em grande parte negras. Não podemos simplesmente igno-
rar esses desenhos criados pelo curso da sociedade punitivista.
Mais do que discutir políticas de remição de pena, é necessário que comecemos
a discutir a abolição das prisões, pois seu histórico, como aponta Borges (2018), é
o de ser o instrumento de um Estado formado com base em uma ideologia racista.
A prisão foi formada a partir do remanejamento de uma lógica colonial, como uma
alternativa capitalista de manter a marginalização do povo negro e pobre, perpe-
tuando a elite branca no poder. Fazemos questão de nos posicionarmos contra o
complexo-industrial-prisional que só beneficia quem lucra com ele e até hoje não
nos tem protegido da violência, até porque ela parte do Estado e não dos nossos
corpos.
A extensão universitária pode trazer benefícios para os futuros egressos do sis-
tema prisional, que serão instrumentalizados através da prática de leitura crítica
para reconstruir no nível simbólico. No ambiente prisional, uma das maiores ne-
cessidades, além de condições espaciais e alimentação dignas, é o acesso ao estu-
do. Apesar de sua previsão na Lei de Execução penal, o Estado não supre essa de-
manda, que acaba ficando condicionada a iniciativas de outras instituições. Dessa
forma, a extensão se torna uma forma de acesso a direitos negados às camadas
menos favorecidas socialmente. Esse é um compromisso que deve ser assumido
pelas instituições públicas de ensino superior brasileiras.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 357
Agradecimentos
Agradecemos ao Presídio Regional de Pelotas, especialmente às servidoras Gi-
sele Medeiros e Vivian Polidori, que assumiram a responsabilidade de conduzir o
projeto no âmbito do PRP e sem as quais não conseguiríamos executar a ação de
extensão.
Agradecemos ao Conselho da Comunidade de Execução Penal da Comarca de
Pelotas, por oferecerem o apoio necessário à execução do projeto.
Agradecemos à Universidade Federal de Pelotas pelo apoio financeiro através
da concessão da bolsa de extensão, que também é essencial para a execução do
projeto.

Referências
BRASIL. Lei de execução Penal. Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1984.

BORGES, J. O que é encarceramento em massa. Belo Horizonte: Letramento:


Justificando, 2018.

CHIES, L. A. B. A questão penitenciária. São Paulo: Tempo Social, v. 25, p. 15-36,


2013.

DAVIS, A. A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018.

FREIRE, P. A importância do ato de ler em três artigos que se completam. 23.


ed. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.

LOPES, L.; SOARES, P.; PINTO, R. Presídio regional de Pelotas – Um estudo sobre
apenadas e as políticas públicas voltadas para sua ressocialização. Perspectivas
em Políticas Públicas, Belo Horizonte, v. 10, n. 20, p. 109-139, 2017.

ORLANDI, E. Interpretação: autoria, leitura e efeitos do


trabalho simbólico. 4. ed. Campinas: Pontes, 2004.
SOBRE AS AUTORAS
Nathaly Guatura da Silva, gradu-
ada em Letras-Português na UFPel.
Bolsista do projeto de extensão “Remi-
ção de pena pela prática de leitura no
Presídio Regional de Pelotas”. E-mail:
nathalyguatura@[Link]

Luciana Iost Vinhas, graduada em


Letras-Português e Inglês na UCPel,
doutora em Letras pela UFRGS. Pro-
fessora adjunta no Centro de Letras
e Comunicação da UFPel. Coordena-
dora do projeto de extensão “Remi-
ção de pena pela prática de leitura no
Presídio Regional de Pelotas”. E-mail:
lucianavinhas@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº6 358
ATIVIDADES EXTENSIONISTAS
DESENVOLVIDAS PELO NEPERS/
UFPEL NAS COOPERATIVAS DE
RECICLAGEM DE PELOTAS/RS

Juliana Carriconde Hernandes


Pamela Lais Cabral Silva
Mateus Torres Nazari
Carolina da Silva Gonçalves
Luciara Bilhalva Corrêa
Érico Kunde Corrêa

Apresentação
O trabalho é alicerce importante na vida do indivíduo, dado que por meio dele
que é possível sua participação efetiva na sociedade, viabiliza-se sua identidade,
reconhecimento e valorização social (MEDEIROS; MACÊDO, 2007). Ainda de acor-
do com os autores supracitados, o número de indivíduos com relações e condições
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº7

precárias de trabalho é crescente, em que por precariedade entende-se o trabalho


mal remunerado, pouco valorizado e/ou com condições inseguras a integridade do
trabalhador. A exclusão social destes trabalhadores acontece, fundamentalmen-
te, por causa dos atuais modelos de relações de trabalho e da relação da sociedade
com o trabalho. Ora, se o trabalho é meio de construção de identidade e consti-
tuição de relações sociais, aquele que exerce trabalho precário é impedido de ter
uma identidade, identidade esta necessária para o convívio social, logo este não
participa da sociedade, vivendo à margem dela.
Tendo isso em vista, é possível afirmar que o número de trabalhadores sujei-
tos a esta situação é cada vez maior e, por consequência, a parcela da população
excluída socialmente também aumenta. Ainda há casos em que a exclusão se dá
pelo trabalho exercido, como é o caso de catadores de materiais recicláveis. Estes
atores desempenham papel laboral fundamental para a organização da sociedade
e seus padrões de consumo, devendo este ser valorizado por sua importância.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 359


No entanto, por desempenhar função no qual têm-se contato direto com os
objetos/materiais rejeitados e descartados pela sociedade, ela própria estigmatiza
tal indivíduo como “sujo” e o exclui. Na busca por provimento de sua família e por
um lugar social, o catador de material reciclável é omitido e torna-se um sujeito
invisível (MEDEIROS; MACÊDO, 2007).
Costa e Pato (2016) apontam que os catadores de materiais recicláveis têm por
vocação a ressignificação, uma vez que utilizam materiais rejeitados para sua so-
brevivência. O resíduo de status inútil passa a ser útil pelas mãos deste trabalha-
dor. Pela ótica ambientalista, tal ressignificação é vista como maneira de se pre-
servar o meio ambiente. Miura (2004) ainda destaca que o catador de material
reciclável vive uma ambiguidade de sentimentos, orgulho quando percebe o papel
importantíssimo que desempenha e suas consequentes colaborações para o meio
ambiente, e vergonha quando equiparado aos materiais que utiliza como forma de
provimento, além de suas condições precárias.
Desde 2002, os catadores possuem sua profissão reconhecida pela Classifica-
ção Brasileira de Ocupações (CBO, 2002). Esses profissionais passaram a ter aces-
so a direitos que antes não tinham, como fundo de garantia, licença maternidade,
aposentadoria, dentre outros benefícios. Os catadores de materiais recicláveis
são comumente divididos entre os catadores de rua e lixões (que trabalham de
forma autônoma) e os organizados em associações e cooperativas (BRAZ et al.,
2014). Conforme Tirado-Soto e Zamberlan (2013), há mais de 800 mil catadores
de resíduos recicláveis no Brasil. A maioria dos catadores brasileiros realiza suas
atividades na informalidade, o que dificulta seu reconhecimento pelos órgãos da
administração pública e instituições de pesquisa (HAMMES et al., 2016).
Por outro lado, Cherfem (2016) menciona que os catadores procuram associa-
ções ou cooperativas em busca de melhores condições de trabalho e segurança so-
cial. Auler et al. (2014) enfatizam que nesses locais possuem infraestrutura melhor,
a triagem dos materiais é mais organizada além de que são disponibilizados aos
trabalhadores equipamentos de proteção individual (EPI). Além disso, há oportu-
nidades de elevação salarial, posição social e autoestima (CASTILHO JUNIOR et
al., 2013).
Contudo, Auler et al. (2014) reportam que atividades realizadas durante o ma-
nejo de resíduos trazem diversos riscos à saúde pública, principalmente aos que
trabalham diretamente com esse tipo de material. Isso resulta na classificação
como insalubres em grau máximo as atividades desenvolvidas pelos catadores,
o que ressalta a necessidade da utilização de EPI’s e local adequado de trabalho
(BRASIL, 2005b).
No âmbito de organização dos catadores em cooperativa, a Política Nacional de
Resíduos Sólidos (PNRS) estabelece que o titular dos serviços públicos de limpeza
urbana e de manejo de resíduos sólidos deve estabelecer o sistema de coleta se-
letiva (BRASIL, 2010). Diante disso, a Prefeitura Municipal de Pelotas, juntamente
com o Serviço Autônomo de Abastecimento de Água de Pelotas (SANEP), implan-
taram o Programa de Coleta Seletiva (PCS) porta a porta no município, incumbin-
do ao SANEP recolher todo o resíduo reciclável dos bairros da cidade abrangidos
pelo PCS, bem como das escolas participantes do projeto Adote uma Escola, e
repassá-lo às cooperativas de triagem de materiais conveniadas (PMGIRS, 2014).
Através do “Programa de Inclusão Social, Geração de Trabalho e Renda para
Famílias de Catadores - Cooperativas de Catadores”, a Prefeitura de Pelotas bus-
cou organizar parte da população dos catadores de resíduos sólidos que invadiam
o aterro municipal e, em condições insalubres, realizavam a catação. A Prefeitura

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 360
e o SANEP estabeleceram convênio com cooperativas de catadores do Município,
a fim de beneficiar vinte catadores por galpão através de um repasse financeiro.
Aproximadamente, 120 famílias pelotenses sobrevivem diretamente da renda ob-
tida nas cooperativas (PMGIRS, 2014).
Atualmente, Pelotas possui seis cooperativas de materiais recicláveis. Estas co-
operativas são responsáveis por receber os resíduos recicláveis coletados, realizar
sua triagem e comercializá-los. O convênio existente entre o SANEP e as coopera-
tivas garantem a cobertura de despesas administrativas, operacionais e recursos
humanos (SANEP, 2019).
Apesar de esforços para melhorar a qualidade de vida destes trabalhadores, a
própria denominação “catador” gera um certo preconceito por parte da popula-
ção, que imediatamente os associam como pessoas que lidam diretamente com
“lixo” e “sujeira”. Esse fato aliado ao baixo padrão socioeconômico, geram baixa
autoestima, descrédito social e impotência aos indivíduos que têm como profissão
e única fonte de renda a coleta e/ou triagem de resíduos sólidos (FERREIRA et al.,
2013). Além disso, os autores ressaltam que, em função dos estereótipos criados
pela sociedade em função da profissão, os catadores sofrem com a exclusão social,
ampliando a desigualdade social e de saúde.
Nesse sentido, evidencia-se a importância dos projetos de extensão com ações
socioeducativas desenvolvidos em Universidade interagindo com a sociedade. Se-
gundo Rodrigues et al. (2013), a atividade de extensão possui papel essencial tanto
na vida dos acadêmicos, que colocam em prática o conhecimento adquirido em
sala de aula, quanto na vida das pessoas que recebem esse aprendizado, melho-
rando a qualidade de vida das pessoas assistenciadas e motivando elas para as
mudanças sociais.
As iniciativas voltadas aos profissionais que atuam em associações e coopera-
tivas de reciclagem devem buscar a construção e troca de informações e conhe-
cimentos, mas principalmente possibilitar o espaço de fala, despertando o senti-
mento de orgulho pelo exercício de seu trabalho, que promovam ao autocuidado
e, assim, melhorem suas condições de vida e o local em que estão inseridos. Com
esse objetivo o Núcleo de Educação, Pesquisa e Extensão em Resíduos e Susten-
tabilidade (NEPERS), vinculado ao Centro de Engenharias da Universidade Federal
de Pelotas (CEng/UFPel), vem atuando e desenvolvendo diversas atividades de ex-
tensão junto às cooperativas do Município de Pelotas/RS.

Ações do Núcleo de Educação, Pesquisa e


Extensão em Resíduos e Sustentabilidade
(NEPERS/UFPel) nas cooperativas
Como maneira de evitar os estereótipos criados pela sociedade, neste capítulo
iremos nos referir aos catadores de materiais recicláveis como “cooperados”, que
é a maneira que o nosso público-alvo se denomina e que o NEPERS acredita ser a
forma mais adequada de tratá-los.
O NEPERS desenvolve projetos nas cooperativas com o intuito de compartilhar
os conhecimentos adquiridos pelos discentes em sala de aula com os cooperados.
Além disso, o grupo de extensão busca pela inserção social destes profissionais e
procura entender as principais melhorias e dificuldades enfrentadas por eles den-
tro e fora dos seus locais de trabalho.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 361
Com isso, a participação do NEPERS nos Fóruns das Cooperativas é de suma
importância para entender a situação das cooperativas, bem como saber das suas
demandas. O núcleo procura atuar como um suporte nas questões técnicas da
área de resíduos sólidos, e no desenvolvimento de demandas que culminam na
construção de projetos de extensão que busquem atender as cooperativas. Vale
ressaltar que os aprendizados acontecem de ambos os lados, as reuniões do Fó-
rum são extremamente ricas para os que estão ao lado da academia (docentes e
alunos), como para os demais que tem assento no Fórum (cooperados e técnicos
do SANEP). Os Fóruns configuram-se em reuniões que acontecem mensalmente
em uma cooperativa, na forma de rodízio, onde os coordenadores das demais en-
contram-se presentes, além de representantes do SANEP e integrantes de univer-
sidades.
Nestas reuniões os coordenadores expõem seus anseios, suas realidades, tro-
cam experiências com os integrantes das outras cooperativas, buscam auxílio no
coletivo para sanar problemas. É um importante ponto de encontro para que as
experiências vivenciadas em uma cooperativa sejam compartilhadas por todos e
dessa forma possam ser acolhidas e os problemas solucionados, tornando a pro-
fissão e a instituição cooperativa mais forte e empoderada.
A participação do NEPERS nesse espaço de significativa importância, fez com
que fossem desenvolvidos os seguintes projetos: capacitação dos classificadores
com a PNRS; rodas de conversa sobre a profissão de cooperados; análises para-
sitológicas dos cooperados e educação em saúde ambiental e; caracterização de
resíduos de serviços de saúde que chegam inadequadamente nas cooperativas.
Sempre se pensou em como auxiliá-los no trabalho em que desenvolvem e suprir
suas demandas e necessidades, gerando informação e desta forma melhorando o
entendimento dessas pessoas frente a assuntos que fazem parte do seu cotidiano.
A seguir, serão apresentadas em tópicos algumas ações extensionistas desen-
volvidas pelo NEPERS/UFPel nas cooperativas de triagem de materiais recicláveis
de Pelotas/RS.

Instrumentalização do trabalhador – Acesso à


Política Nacional de Resíduos Sólidos
Essa iniciativa objetivou dar acesso a informações e instrumentalizar os coo-
perados quanto à PNRS, que foi instituída pela Lei nº 12.305 de 2010, que trata de
aspectos relacionados ao seu campo de trabalho, especialmente sobre resíduos
sólidos. Este projeto justificou-se pelo fato de que na decorrência dos fóruns men-
cionados acima, verificou-se o desconhecimento dos cooperados sobre a legisla-
ção que fundamenta seu trabalho.
Os trabalhadores das cooperativas foram convidados a participar desta instru-
mentalização, na qual 73 deles aceitaram e estiveram presentes na capacitação
oferecida. Tais informações e conhecimentos ocorreram no próprio ambiente de
trabalho dos cooperados, com duração de, aproximadamente, duas horas, sem-
pre abrindo-se espaços para reflexões acerca do tema por parte dos participantes,
de forma a ressignificar o conhecimento. Foram usados o recurso de banners para
a visualização dos temas (Figura 1) e guiar a discussão.
Primeiramente, ressaltou-se a importância da PNRS tanto para os cooperados
quanto para a sociedade em geral. Ainda foi destacada a importância da figura
do cooperado dentro do ciclo de vida do resíduo, enfatizando esta importância

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 362
Figura 1 - Material
de apoio utilizado
durante as
capacitações
Fonte: Hernandes et
al. (2015)

no viés organizacional das municipalidades e da sustentabilidade, preservação e


conservação do meio ambiente. Salientar tais pontos ajudam na construção de
autoestima destes trabalhadores, fazendo que eles passem a se enxergar sob dife-
rentes óticas, não somente aquele da necessidade de garantia de proventos (HER-
NANDES et al., 2015; MEDEIROS; MACÊDO, 2006).
Em um segundo momento, foi discutido os objetivos da PNRS, mecanismo le-
gais, procedimentos para destinação dos resíduos, conforme previsto na lei. Além
disso, foram destacados alguns trechos, as quais citavam a figura do cooperado ou
eram de interesse para eles. Tais levantamentos são importantes, pois se tratando
de uma política pública recente, ainda há muito desconhecimento das medidas e
considerações feitas por ela. Desta forma, instrumentalizar os trabalhadores sobre
a legislação que rege seu trabalho é imprescindível, visto que proporciona eman-
cipação a este indivíduo (HERNANDES et al., 2015; MEDEIROS; MACÊDO, 2007).
Por fim, foram apresentados aos cooperados as mudanças propostas pela
PNRS, elucidando a questão da logística reversa e extinção dos lixões, bem como
trouxemos as novas definições determinadas pela legislação, como os conceitos
de rejeito e resíduo e seus respectivos manejos e destinações, de modo a orien-
tá-los para que haja o cumprimento das disposições legais por parte deles (HER-
NANDES et al., 2015). Em suma, a realização desta atividade fomentou o conhe-
cimento dos trabalhadores quanto às exigências legais da sua profissão, além de
promover o sentimento de orgulho dos cooperados pelo exercício do seu trabalho,
uma vez que ele passa a se ver como um agente promotor de qualidade ambiental
e sanitária.

Construção de emancipação por meio do espaço


de fala - rodas de conversas
Este projeto objetivou dar voz aos cooperados dos centros de triagem de mate-
rial reciclável que atuam no município de Pelotas/RS, de maneira que eles pudes-
sem se sentir valorizados e ouvidos. Nessa busca, optou-se por um espaço demo-
crático de fala, com características de horizontalidade e informalidade, assim foi
escolhido a roda de conversa como condução das reflexões propostas (SAMPAIO
et al., 2014; SILVA et al., 2018).

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Conforme relatado por Silva et al. (2018), o projeto contou com a participação
dos cooperados vinculados às cooperativas de materiais recicláveis da cidade,
totalizando em torno de 45 participantes. Durante o desenvolvimento do proje-
to verificou-se uma apropriação desse espaço da fala por parte dos trabalhado-
res, no qual inúmeros temas passaram por debate, entre eles podemos destacar
melhorias socioeconômicas, adesão da população a coleta seletiva do município,
condições de saneamento dos locais de trabalho e residência, autocuidado, rece-
bimento de materiais perigosos, preconceitos vinculados ao exercício da profissão
e problemas de relacionamento com a comunidade ao entorno.

Quadro 1 - Temas debatidos durante o projeto em relação ao seu número de menções

Número de menções
Temática discutida
<10 11-20 21-30 31-40 <40
Acidentes com resíduos
Baixa remuneração
Desvalorização do papel ambiental do cooperado
Educação ambiental inexistente/ineficiente
Má segregação dos resíduos
Preconceito por causa da profissão
Recebimento de resíduos indevidos
Fonte: Adaptado de Silva et al. (2018)

Claramente as problemáticas que se referem a dificuldades operacionais foram


as mais citadas (Quadro 1), isto pode significar que a principal preocupação do coo-
perado pelotense é a execução de seu trabalho, a fim de garantir o sustento de sua
família. Questões como o recebimento de resíduos não recicláveis e má separação
dos resíduos por parte dos usuários do sistema de coleta seletiva, despendem tem-
po e esforços dos trabalhadores que poderiam ser direcionados a valorização dos
resíduos passíveis de reciclagem. Ainda é importante ressaltar que os cooperados
recebem seus proventos de acordo com a quantidade de resíduos recicláveis que
conseguem segregar, ou seja, dificuldade como as acima mencionadas, repercu-
tem diretamente na garantia de proventos. Além disso, existem os riscos à saúde
que estes resíduos podem ocasionar aos que os manipulam diretamente (GON-
ÇALVES et al., 2013; SILVA et al., 2018). Em alguns trechos, isto fica evidente como
em um onde foi questionado sobre quais melhorias poderiam ser realizadas, e o
cooperado responde “Principalmente a conscientização do povo para não vir tanto
lixo. Nós recebemos muito papel higiênico usado, resto de comida, lixo, lixo, lixo”.
No que diz respeito ao preconceito sofrido por eles, que apesar de ter sido
pouco mencionado, apenas nove vezes, trouxeram também relatos claros, como
quando um dos cooperados menciona a relação da cooperativa com a comunidade
circunvizinha que depositam na porta da mesma resíduos de toda sorte “[...] Quan-
do eles deixam algum material reciclável, como papelão, plástico, etc... a gente pega,
diferente disso não pegamos.” outro ainda complementa “E isso por quê? Porque
nós trabalhamos com lixo”. Outra fala também deixa bastante claro esse sentimen-
to de desvalorização somado a preconceito, o cooperado afirma “Existem pessoas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 364
que sabem como as coisas acontecem, mas existem outras pessoas que acham que
nós somos sujos” (SILVA et al., 2018). Isto corrobora com Miura (2004) que apon-
ta situações em que estes trabalhadores são assemelhados aos resíduos com que
trabalham.
Silva et al. (2018) destacam fragilidade desta parcela da população, seja em re-
lação a infraestrutura precária ou inexistente ou em relação a falta de instrução
tanto por parte da sociedade, no que tange o trabalho dos catadores e o sistema
de coleta seletiva, quanto por parte dos próprios trabalhadores, que ignorados
pela sociedade, carecem de informações sobre autocuidado e saúde ocupacional.
Neste sentido, reforça-se o dever de elaboração de políticas públicas voltadas a
estas temáticas, e ainda se faz necessário iniciativas permanentes que viabilizem
a emancipação destes trabalhadores.

Análises parasitológicas dos cooperados e


Educação em saúde ambiental
Os resíduos recicláveis frequentemente chegam às cooperativas sem a devida
segregação que deveria ocorrer nas residências, contendo muitas vezes matéria
orgânica putrescível, contaminantes biológico e tóxico, dentre outros. Assim, é
grande a propensão dos trabalhadores contraírem doenças infecciosas, dentre
elas as parasitárias (CAVALCANTE; FRANCO, 2007), atrelado a isso, existe a vulne-
rabilidade socioeconômica e as condições precárias de saneamento básico, higie-
ne e nutrição em que estes trabalhadores estão inseridos (FERREIRA et al., 2013).
Baseado no exposto acima, foi de extrema importância a realização da atua-
ção extensionista sobre parasitoses intestinais com os cooperados de centro de
triagem de materiais recicláveis que trabalham nas cooperativas de Pelotas (HER-
NANDES et al., 2015; HERNANDES et al., 2016; HERNANDES, 2016; HERNANDES
et al., 2018; PEREIRA et al., 2016), pois de acordo com Cabral et al. (2000), estas
doenças são as que mais acometem esta população, constituindo um importante
objeto de estudo, pois representam um problema de ordem social e sanitária. As
enteroparasitoses são causadas por protozoários e helmintos que se albergam no
intestino dos seres vivos, provocando uma série de efeitos nocivos à saúde como:
diarreia, desnutrição, anorexia, dor abdominal, podendo em alguns casos mais se-
veros, causar a morte do indivíduo (ANDRADE et al., 2011).
A iniciativa aconteceu nas seis cooperativas de materiais recicláveis convenia-
das com o SANEP e contou com dois momentos. Primeiramente, foi aplicado a
todos que quiseram participar voluntariamente da pesquisa, um questionário re-
lativo aos aspectos socioambientais, para que pudéssemos conhecer e avaliar me-
lhor a situação em que estavam inseridos, e num segundo momento foi conduzido
uma avaliação parasitológica.
O questionário de cunho socioambiental contou com a participação voluntária
de 66 cooperados, nele continham informações sobre idade, gênero, escolarida-
de, renda mensal, número de filhos, utilização de EPI, consumo de alimentos crus
ou mal cozidos, consumo de alimentos que são descartados e chegam na coope-
rativa, local para alimentação na cooperativa, higiene pessoal, entre outras ques-
tões, para que pudéssemos conhecer melhor a população em estudo e poder cor-
relacionar estes dados com os resultados parasitológicos.
A análise parasitológica contou com a participação voluntária de 48 trabalha-
dores. Já era esperado uma menor participação com relação à adesão dos coope-
rados a participar deste momento, já que para realizar esta etapa, é necessário

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 365
que cada trabalhador entregue três amostras fecais para que o exame seja feito.
E neste sentido, muitos trabalhadores se sentem envergonhados e ficam descon-
fortáveis com a situação, o que entendemos perfeitamente e não forçamos a par-
ticipação caso não queiram.
Depois de realizadas as análises parasitológicas, entregue os resultados indivi-
dualmente aos participantes da pesquisa, realizado o encaminhamento daqueles
que estavam parasitados à Unidade Básica de Saúde mais perto da Cooperativa
para o tratamento, e cruzados os dados com o questionário socioambiental, foi
realizada uma palestra sobre educação em saúde ambiental, abordando todas as
questões parasitológicas e higiênico-sanitárias referente à pesquisa, para que hou-
vesse uma elucidação sobre todo o conteúdo abordado no questionário e também
as formas de prevenção e contaminação das parasitoses intestinais (Figura 2).

Figura 2 - Entrega do Em cada cooperativa foi realizada uma palestra sobre Educação em Saúde Am-
resultado das análises biental, abordando os principais parasitos encontrados nos trabalhadores, e in-
parasitológicas e dicando quais as possíveis formas de contaminação, sintomas e tratamento. Foi
palestras sobre
educação em saúde
realizado também uma abordagem com relação às questões higiênico-sanitárias
para os cooperados que achamos relevantes para aquele momento. Para facilitar a visualização dos
que aceitaram registros fotográficos realizados dos parasitos e melhorar a transmissão do conhe-
participar da pesquisa cimento por parte dos palestrantes e pesquisadores, foram utilizados recursos de
Fonte: Arquivo multimídia.
pessoal Após a palestra, nos sentamos em uma roda para que pudéssemos dialogar
com os trabalhadores, respondendo sobre eventuais dúvidas que surgissem e
também verificar o conhecimento dos cooperados a respeito da temática. Essa
conversa ocorreu de forma dinâmica, onde os extensionistas comentavam sobre o
assunto e os trabalhadores das cooperativas foram dialogando. Os temas tratados
envolviam as formas de contaminação das parasitoses, tais como: higienização
pessoal (lavagem incorreta das mãos), ausência ou indevida desinfecção dos ali-
mentos, consumo de carnes mal cozidas ou cruas, ingestão de água não tratada,
saneamento básico, dentre outras questões.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 366
Muitos dos trabalhadores relataram que possuíam hortas em suas residências
e ficaram curiosos em relação a desinfecção dos legumes e verduras. Além disso,
alguns informaram sobre os seus hábitos de higienização e sobre a origem de seus
alimentos.
De posse dessas informações, podemos traçar um perfil da contaminação des-
tes trabalhadores e auxiliá-los para que este cenário possa ser corrigido ou na me-
lhor das hipóteses, melhorado, visto que a presença de parasitos intestinais nesta
população é uma realidade que ainda está longe de ser resolvida.

Resíduos de serviços de saúde nas cooperativas


de Pelotas/RS
A partir das atividades extensionistas realizadas nas cooperativas de triagem
de materiais recicláveis de Pelotas/RS, especificamente nas rodas de conversa, os
cooperados relataram a frequente incidência de resíduos inadequados junto aos
Figura 3 - Alguns recicláveis, tais como seringas, medicamentos, bolsas de hemodiálise e outros
RSS encontrados nas
materiais, que são classificados como resíduos de serviços de saúde (RSS).
cooperativas durante
as caracterizações Os RSS são definidos como todos aqueles resíduos gerados nos serviços que
prestam atendimento à saúde humana ou animal (BRASIL, 2005a). Os riscos ine-
Fonte: Arquivo
pessoal
rentes aos RSS devem-se a possibilidade destes conterem patógenos infecciosos,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 367
produtos químicos tóxicos, metais pesados, substâncias genotóxicas ou radioati-
vas (ALAGÖZ; KOCASOY, 2008; PATWARY et al., 2009). Diante disso, o gerencia-
mento inadequado desse tipo de resíduo pode causar diversos impactos adversos.
Dentre eles, destacam-se a contaminação do meio ambiente, a ocorrência de aci-
dentes de trabalho envolvendo tanto profissionais da saúde e de limpeza pública
quanto cooperados e, também, a propagação de doenças à população em geral,
seja por contato direto ou indireto (GARCIA; ZANETTI-RAMOS, 2004).
Diante dessa problemática, realizou-se um trabalho para quantificar e qualifi-
car os RSS destinados inadequadamente a essas cooperativas, a fim de que este
estudo pudesse ser utilizado como base para implementação de políticas públicas
capazes de assegurar melhores condições de trabalho aos profissionais que atuam
nas cooperativas de triagem de materiais recicláveis.
A caracterização realizada quantificou mais de 36 quilogramas de RSS entre as
cooperativas durante quatro semanas do ano de 2017. Sendo assim, verificou-se
a presença de diferentes exemplos de RSS (Figura 3) entre os resíduos coletados
pela coleta seletiva municipal, o que evidencia falhas na segregação e destinação
de RSS e exposição dos cooperados a diferentes riscos associados a estes resíduos.
No intuito de tornar este trabalho mais acessível à comunidade pelotense e da
região, buscou-se o jornal local (Diário Popular) para fazer uma reportagem sobre
a problemática identificada nas cooperativas quanto à presença RSS e outros resí-
duos inadequados. O assunto foi capa do jornal no dia 7 de novembro de 2017 (Fi-
gura 4), com uma reportagem de duas páginas intitulada “Coleta pouco seletiva”
(Figura 5).

Figura 4 - Capa do
jornal Diário Popular
com a manchete
sobre a presença de
RSS nas cooperativas
de reciclagem de
Pelotas/RS verificada
pelo nosso estudo
Fonte: Diário Popular
(2017)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 368
Figura 5 -
Reportagem do
jornal Diário Popular
sobre a incidência de
RSS nas cooperativas
de reciclagem de
Pelotas/RS
Fonte: Diário Popular
(2017)

Os cooperados relataram durante a reportagem a ocorrência de acidentes com


RSS, especificamente com perfuração de dedo por agulha. Um trabalhador desta-
ca: “O pessoal não tem consciência. A gente pode pegar uma doença, mesmo com a
luva”. Outra cooperada ainda comenta “É o que mais aparece. Bolsas de hemodiáli-
se... O que tu imaginar de lixo. O que menos tem é reciclável”. Segundo os trabalha-
dores, metade dos resíduos que chegam à cooperativa são inadequados (DIÁRIO
POPULAR, 2017).
Com base nestes trabalhos, que foram desenvolvidos aliando pesquisa com ex-
tensão, percebe-se que a implementação de políticas educativas e de fiscalização
são medidas necessárias para reduzir a incidência de resíduos impróprios nas co-
operativas, podendo, assim, evitar ou diminuir riscos ao meio ambiente a todos
os profissionais envolvidos na cadeia de resíduos, especialmente, os catadores e
classificadores de materiais recicláveis.

Considerações Finais
As diferentes atividades extensionistas realizadas pelo NEPERS/UFPel busca-
ram inserir a universidade no contexto das cooperativas de triagem de materiais
recicláveis de Pelotas/RS. Sobretudo, as ações colaboraram para a aprendizagem
e aperfeiçoamento dos integrantes do NEPERS (graduandos, pós-graduandos e
professores) e também para a melhoria de vida dos cooperados, seja em aspectos
de saúde e segurança ocupacional (como nas ações de parasitoses, educação em
saúde ambiental e sanitária e caracterização de RSS) quanto formativos (como
capacitações e rodas de conversa). Tais ações desenvolvidas visaram a valoriza-
ção do trabalho realizado por esses profissionais ao mostrar a importância de sua
atividade ao meio ambiente e, com isso, elevar sua autoestima e orgulho de sua
profissão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 369
A interação entre universidade e sociedade é fundamental, uma vez que rompe
a barreira que, muitas vezes, existe entre elas, fazendo com que a universidade
seja parte do contexto social em que está inserida, buscando transformá-lo. Por
fim, essa interface se apresentou como benéfica para ambas as partes, em vista
de que ações extensionistas trouxeram diferentes benefícios ao público-alvo, en-
quanto que os acadêmicos foram inseridos na realidade social de sua região, o que
agregou conhecimentos e elementos da educação não formal à sua formação.

Referências
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ment methods for the health-care wastes in Istanbul. Waste Management, v. 28,
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 372
SOBRE OS AUTORES
Juliana Carriconde Hernandes, gra- Carolina da Silva Gonçalves, gra-
duada em Química-Licenciatura pela duada em Engenharia Ambiental e Sa-
Universidade do Rio Grande (FURG). nitária pela UFPel. Mestranda no Pro-
Doutora em Ciências Biológicas-Para- grama de Pós-Graduação em Ciências
sitologia pela UFPel. Trabalhou com as Ambientais da UFPel. Atuou junto às
cooperativas de reciclagem de Pelotas, cooperativas de Pelotas com análises
com os principais temas: análise para- parasitológicas de cooperados; rodas
sitológica de cooperados, Inserção da de conversa, atividades sobre educa-
Política Nacional de Resíduos Sólidos ção em saúde ambiental e caracteriza-
nas cooperativas e Rodas de conversas ção de resíduos de serviços de saúde.
sobre os problemas enfrentados pela E-mail: [Link]@[Link]
profissão. E-mail: julianacarriconde@
gmail. com Luciara Bilhalva Corrêa, graduada
em Ciências Domésticas pela UFPel.
Pamela Lais Cabral Silva, graduada Doutora em Educação Ambiental pela
em Engenharia Ambiental e Sanitária Universidade Federal do Rio Grande
pela UFPel. Mestranda em Engenharia (FURG). Professora Adjunta do Curso
Agrícola pela Universidade Federal de de Engenharia Sanitária e Ambiental
Viçosa (UFV). Participou de projetos re- da UFPel. Atuou nas cooperativas com
lacionados à valorização e instrumen- a participação no Fórum das Cooperati-
talização do profissional e saúde ocu- vas e análise dos resíduos de serviços de
pacional em cooperativas de material saúde. E-mail: luciarabc@[Link]
de reciclagem de Pelotas-RS. E-mail:
pamela_lais@[Link] Érico Kunde Corrêa, graduado em
Engenharia Agrônoma pela UFPEL.
Mateus Torres Nazari, graduado em Doutor em Biotecnologia Agrícola pela
Engenharia Ambiental e Sanitária pela UFPEL. Professor Adjunto nos cursos
UFPel. Mestrando em Engenharia Civil de Engenharia Ambiental e Sanitária
e Ambiental pela Universidade de Pas- e Bacharelado em Biotecnologia da
so Fundo (UPF). Desenvolveu projetos UFPEL. Coordenador do projeto das
de capacitações, rodas de conversas, cooperativas. E-mail: ericokundecor-
caracterização de RSS e atividades so- rea@yahoo. [Link]
bre educação em saúde ambiental nas
cooperativas de reciclagem de Pelotas/
RS. E-mail: [Link]@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº7 373
CIDADE E CIDADANIA:
PROGRAMA DE INCENTIVO E
ORGANIZAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO
POPULAR EM PLANEJAMENTO URBANO

Sidney Gonçalves Vieira


Giovana Mendes de Oliveira

Apresentação
O presente trabalho se insere na temática do fortalecimento do controle social
de políticas públicas e da atuação dos movimentos sociais. Buscou desenvolver
uma série de atividades capazes de fomentar o apoio à organização dos movimen-
tos sociais por meio de ações de formação, assistência técnica e apoio à mobiliza-
ção e participação social. Nesse sentido, a proposta se justificou pela necessidade
de dotar a sociedade de informações, conhecimentos, técnicas e instrumentos ca-
pazes de capacitar a participação e a mobilização da sociedade urbana. Partiu-se
do pressuposto de que a autenticidade dos movimentos sociais urbanos é rica o
suficiente para organizar seu próprio trabalho. Entretanto, se puder contar com o
apoio técnico que lhe proporcione capacidade para analisar o contexto histórico,
político e social no qual suas lutas concretas estão inseridas haverá uma partici-
pação muito mais consciente, sólida e duradoura, capaz de promover transfor-
DIREITOS HUMANOS E JUSTIÇA Nº8

mações mais efetivas em todo o contexto social e espacial da cidade. Por isso, se
entende que o espaço da cidade é também manifestação da cidadania e que esta
pode ser qualificada sem a perda da autonomia e da autenticidade.
Nesse sentido, a justificativa da proposta foi estruturada em dois pontos funda-
mentais. Primeiro, o entendimento de que os movimentos sociais urbanos são os
detentores originários da política urbana e cabe a eles o estabelecimento de uma
pauta de demandas a serem cumpridas pelas políticas públicas e pelo Estado de
um modo geral, a fim de garantir o acesso mais justo aos bens, equipamentos e
serviços de uso coletivo. E, segundo, a compreensão de que a sociedade passou e
passa por transformações profundas em sua estrutura demográfica, provocando
alterações nas formas de organização social e no necessário atendimento de de-
mandas próprias da sociedade urbana contemporânea. São esses pontos que se
passa a analisar, a seguir.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 374


A proeminência dos movimentos sociais na
definição da política urbana
Durante duas semanas do mês de junho de 2013 o Brasil experimentou uma
mobilização social sem precedentes em sua história recente. Um movimento con-
flagrado inicialmente pela luta pelo “passe livre” no sistema de transporte públi-
co urbano e que incorporou diversas outras reivindicações até então latentes em
uma sociedade que parecia imersa em uma aparente tranquilidade de crescimento
econômico. Entretanto, quem acompanha a realidade das cidades brasileiras não
se surpreendeu com a onda de protestos que deslanchou pelo país, em um mo-
vimento que teve origem e cresceu longe das organizações partidárias e que foi
capitaneado por uma juventude que se julgava inerte nas redes sociais.
O movimento não surpreendeu porque se sabe que a cidade é o locus privile-
giado da reprodução do capital e do trabalho e as razões para a realização desses
protestos não podem ser desvinculadas das condições de existência das próprias
cidades. É na cidade que se reproduz a força de trabalho e as melhorias nas con-
dições de vida da sociedade passam necessariamente por melhorias efetivas nas
políticas públicas urbanas, que deveriam ser responsáveis por melhores condições
de transporte, moradia, saneamento, educação, saúde, lazer, iluminação pública,
coleta de lixo e esgoto entre tantas outras formas materiais e objetivas nas quais
se dá a reprodução social da força de trabalho. As diferentes formas de acesso a
esses bens e equipamentos sociais urbanos refletem a extrema desigualdade so-
cial existente no Brasil que, nas cidades, se manifesta pela maneira autônoma pela
qual a sociedade busca resolver seus problemas. As invasões, os mutirões, os lo-
teamentos irregulares resultam de uma forma de apropriação do espaço urbano
para a qual não contribui nenhuma legislação ou governo. Trata-se da luta de uma
força de trabalho excluída da cidade legal, barata e de baixos salários.
Justamente nessa base socialmente desigual vivenciamos o impacto das dé-
cadas de baixo crescimento experimentadas a partir de 1980, que se somaram à
política neoliberal do Estado e a consequente diminuição das políticas públicas e
sociais. Na cidade, a materialização desse descalabro de injustiças sociais pode
ser muito bem visto no aumento da violência urbana. No período subsequente,
nas décadas de 1990 e 2000, em meio à globalização, floresceu uma nova política
urbana, nas quais apareceram urbanistas, advogados, prefeitos, parlamentares e
inúmeros outros atores sociais que ajudaram a construir a Plataforma de Reforma
Urbana. Incluiu-se na agenda de prefeituras novas práticas de participação, como
o orçamento participativo, e foi privilegiada a urbanização da cidade ilegal (infor-
mal ou invisível) até então ignorada pelas administrações públicas. Surgiu uma
série de melhorias políticas de habitação, saneamento, mobilidade e novas insti-
tuições como o Ministério das Cidades, o Conselho das Cidades e as Conferências
Nacionais das Cidades. Em 2001 o Congresso Nacional aprovou a Lei nº10.257, o
Estatuto da Cidade, como resultado das lutas populares urbanas, ainda que de sua
aplicação não resulte a esperada correção dos desequilíbrios sociais existentes no
espaço urbano. Na sequência, nos governos de Lula e de Dilma Roussef, proliferou
o desenvolvimento de uma série de medidas de combate à pobreza que fortalece-
ram o mercado interno. Principalmente o Programa de Aceleração do Crescimen-
to (PAC) e o Programa Habitacional Minha Casa Minha Vida provocaram um cresci-
mento da construção civil e do mercado imobiliário urbano nas principais cidades
do país. Com isso, a agenda da reforma urbana foi esquecida. Segundo Maricato

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 375
(2014, p.23) “os movimentos sociais ligados à causa se acomodaram no espaço
institucional onde muitas das lideranças foram alocadas”. Mas as disputas por lo-
calização urbana se tornaram mais acirradas, pois a terra urbana continuou refém
dos interesses do capital imobiliário. A disputa por terras entre o capital e a força
de trabalho fizeram afastar ainda mais os limites da periferia: as políticas urbanas,
especialmente a habitacional, permaneceram longe daqueles que as justificam.
Entretanto, no setor dos transportes, aparece de maneira mais forte o sacrifício
dessa população de excluídos: horas de tempo médio em viagens de deslocamen-
to para o trabalho, péssima infraestrutura de redes de todos os modais, condições
mínimas de segurança e conforto.
Enfim, todas essas contradições evidenciam a latência de uma rebeldia que não
poderia ser controlada para sempre. A rebeldia manifestada nas ruas não passa
de uma manifestação do direito à cidade do qual grande parcela da população foi
excluída. Fica evidente a desilusão em relação à democracia e suas formas de re-
presentação. Há uma desqualificação da política e dos políticos que é resultado do
distanciamento que a governabilidade no poder provocou na participação popular
e na gestão participativa direta. O clamor por mais justiça social, menor desequi-
líbrio de renda, acesso às condições básicas de infraestrutura, saúde e educação
passou a ser bradado pelos próprios descontentes, ao invés de seus representan-
tes, evidenciando a possibilidade de uma participação quase ignorada, aquela que
resulta dos desejos das pessoas e que não pode ser cooptado por partidos, institui-
ções ou governos. O papel da universidade, nesse momento tão importante que
evidencia o poder dos movimentos populares, pode ser o de fornecer subsídios
técnicos para o incentivo e a organização da participação popular, organizando
oficinas, palestras, cursos e outras atividades de responsabilidade acadêmica, ca-
pazes de qualificar a participação popular na obtenção de resultados mais eficazes
nas lutas pela justiça social.

A urbanização da humanidade e o papel da


sociedade urbana
Cada vez mais o papel da cidade é enaltecido como o lugar que representa a
condição e o resultado do processo de produção do próprio espaço e da vida. É nas
ruas das cidades que a sociedade urbana ganha voz e visibilidade. Já em 2007, se-
gundo o relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em
inglês) da Organização das Nações Unidas (ONU) intitulado “Situação da popula-
ção mundial 2007. Desencadeando o potencial de crescimento urbano”, destacava
a importância da população urbana mundial. O referido relatório (UNFPA, 2007)
destaca que em 2008 se vivenciou um marco invisível, mas significativo, tal seja
de que pela primeira vez na história da humanidade mais da metade da população
humana passou a viver em áreas urbanas. Em 2030 esse número deverá passar
de 5 bilhões de pessoas e, nesse sentido “o futuro dessas pessoas, o futuro das
cidades nos países em desenvolvimento, o futuro da própria humanidade depen-
derá das decisões tomadas agora em preparação para esse crescimento.” (UNFPA,
2007, p. 1). Entretanto, há um quadro ameaçador instaurado, pois a concentração
de pobreza, o crescimento das favelas e a ruptura social nas cidades aponta para
uma situação de risco. Entretanto, “as cidades concentram a pobreza, mas tam-
bém representam a melhor oportunidade de se escapar dela”, (UNFPA, 2007, p.
65) como salienta o relatório. Ao propor iniciativas proativas para o investimento

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 376
nas cidades o relatório é enfático ao sugerir em primeiro lugar o respeito ao direito
dos pobres à cidade; em segundo lugar, uma visão de longo prazo e mais ampla
acerca do uso do espaço urbano para reduzir a pobreza e promover a sustentabili-
dade. E, finalmente:
Em terceiro lugar, as instituições e os especialistas em população po-
dem e devem desempenhar um papel crucial de apoio às organizações
comunitárias, aos movimentos sociais, aos governos e à comunidade
internacional, para melhorar a natureza e a forma da futura expansão
urbana e assim aumentar o seu poder para reduzir a pobreza e promover
a sustentabilidade ambiental. Um esforço internacional conjunto neste
momento crítico é fundamental para esclarecer as opções de políticas
e fornecer as informações e análises que apoiarão as estratégias para
melhorar nosso futuro urbano. (UNFPA, 2007, p. 68)

Portanto, as tendências de localização e descentralização tanto do planeja-


mento como da tomada de decisões tornam-se cada mais importantes uma vez
que metade de todo o crescimento demográfico urbano está ocorrendo em locali-
dades menores. Justamente essas comunidades, como bairros e vilas, têm a van-
tagem de possuir maior flexibilidade na hora da tomada de decisões sobre ques-
tões críticas, como o uso da terra, infra- estrutura e serviços, e, dessa forma, são
mais propícias à participação popular e à supervisão política. Em contrapartida,
enfrentam maior dificuldade pela escassez de recursos e fundos. Principalmente,
as ações locais são dificultadas pela falta de informações essenciais e a capacidade
técnica para utilizá-las. A ação nesse campo aponta para um potencial imenso a
ser explorado a fim de que se torne realidade efetiva a mobilização e a participa-
ção comunitária. As localidades menores, em particular, precisam de ajuda. (UN-
FPA, 2007, p.68)
O relatório da ONU é primoroso ao apontar as possibilidades de ação e a neces-
sidade de intervenção nessas áreas menores, propondo uma agenda de atividades
em completa sintonia com os objetivos do presente projeto. Nesse sentido, adver-
te o relatório UNFPA (2007, p.73):
Os funcionários do governo precisam de informação de boa qualidade,
claramente apresentada e desagregada para preencher as lacunas de
serviços, especialmente nos bairros em processo de rápido crescimen-
to. A sociedade civil, a mídia e o público em geral precisam das mesmas
informações para compreender seus direitos, formular suas demandas,
exercer pressão sobre planejadores e políticos e monitorar suas respos-
tas. As abordagens participativas são desenhadas para gerar o envol-
vimento da comunidade no desenvolvimento e dar às pessoas algum
controle sobre diferentes tipos de projetos de desenvolvimento. Feliz-
mente, vem aumentando o reconhecimento, especialmente em áreas
urbanas pobres, de que a participação de mulheres e homens pobres
nas decisões que os afetam é fundamental. Entre os pobres urbanos,
frequentemente as mulheres têm sido pioneiras de organizações co-
munitárias que cuidam das necessidades da comunidade e pressionam
por mudanças; essas organizações transformaram-se, muitas vezes, em
eficazes movimentos sociais. O conhecimento empodera populações e
tem implicações de longo prazo para o planejamento. O orçamento par-
ticipativo e o “mapeamento participativo” podem melhorar o nível de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 377
conscientização, mostrar às comunidades quais serviços públicos estão
disponíveis e quem os utiliza, e melhorar o controle local. A pesquisa e
o mapeamento comunitários são extremamente importantes para or-
ganizações de pobres urbanos. Os formuladores de políticas também
necessitam de informações intra-urbanas desagregadas para atender
às necessidades dos pobres de forma mais eficiente. Isso pode ajudar
a assegurar uma distribuição equilibrada e equitativa dos recursos; de-
senhar indicadores de controle de qualidade; selecionar quem incluir ou
excluir de um programa; e permitir ajustes na localização das agências,
na distribuição de funcionários e nas estratégias de comunicação.

Portanto, a qualificação dos cidadãos melhora o controle da sociedade, dos mo-


vimentos sociais e das organizações da sociedade civil permitindo maior e melhor
controle da elaboração, monitoramento e avaliação das políticas públicas. Nesse
sentido, o presente programa se insere como um elemento capaz de fornecer os
subsídios necessários para o acesso às informações e à capacidade técnica na so-
lução de problemas e na conscientização da sociedade urbana na organização e
na participação.

Fundamentação teórica
O Novo Urbanismo e a participação cidadã
Sobretudo a contar do início da década de 1980, as transformações na socie-
dade se operaram de forma mais contundente, trata-se do processo social de ur-
banização da sociedade. Tais transformações ensejaram modificações no produto
social do trabalho: o espaço urbano, que é a cidade, resultado físico e concreto
desse processo. Portanto, continuar trabalhando para analisar a sociedade com
base nos pressupostos teóricos de um modernismo produzido antes dessas trans-
formações é, no mínimo anacrônico. Esses pressupostos já não contêm elementos
capazes de identificar, avaliar e analisar adequadamente o que ocorre na realidade
transformada. Baseado em preceitos elaborados na década de 1930 o urbanismo
modernista perdeu sua capacidade de dar sustentação teórica para os aconteci-
mentos contemporâneos. Novas propostas, contendo elementos específicos de
análise passaram a ser utilizados com mais eficácia, até que se entendeu a neces-
sidade de utilização de novos princípios par dar fundamentação a esse urbanismo.
Com isso surge o neourbanismo, trazendo para a análise urbana o contexto da
urbanização no presente.
De acordo com Ascher (2001), no processo de modernização a primeira mo-
dernidade e sua revolução urbana apresentaram novas ideias sobre a cidade e as
primeiras utopias urbanas, em uma fase que se pode chamar de paleourbanismo;
a segunda modernidade e sua revolução urbana produziram modelos aos quais
associamos o projeto do urbanismo propriamente dito; já a terceira modernidade
e sua revolução urbana estão cedendo lugar a novas atitudes, novos projetos e
formas de pensar e de atuar, é o que podemos chamar de neourbanismo. De modo
geral, essa terceira revolução urbana pode ser caracterizada por cinco grandes
mudanças: a metapolização (uma estrutura urbana caracterizada pela existência
de “cidades dentro das cidades”), a transformação dos sistemas urbanos de mobi-
lidade, a formação de espaços-tempos individuais, a redefinição da correspondên-
cia entre interesses individuais, coletivos e gerais, e novas relações de risco.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 378
De forma diretamente relacionada com o presente programa pode-se desta-
car a importância da redefinição das relações entre interesses individuais, coleti-
vos e gerais, pois nesse aspecto aparece o tema da diversificação dos interesses
individuais e coletivos. Nesta fase da modernização, caracterizada pela terceira
revolução urbana moderna, se observa a maior fragilidade dos vínculos sociais,
que são menos estáveis, apesar de serem mais numerosos e variados, totalmente
imbricados nas múltiplas redes sociais. Assim, os chamados grupos sociais ten-
dem a perder sua força e sua importância objetiva e subjetiva. Os indivíduos já
não compartilham de interesses comuns em diversos campos o que compromete
sobremaneira o funcionamento da democracia representativa, que está baseada
justamente na capacidade de representação a um grupo. Também são colocadas
sob análise as organizações que pretendem integrar posições sobre questões sob
uma determinada ótica ideológica ou programa.
Assim, no entendimento de Ascher (2001, p. 64) “se faz necessário uma refun-
dação da arquitetura territorial institucional e uma renovação dos modelos de fun-
cionamento da democracia em geral e da democracia local em particular.” Essas
alterações apontam para o crescimento da participação popular de caráter autô-
nomo com vistas ao atendimento de demandas cada vez mais específicas. Cresce,
portanto, a necessidade de organização da participação, como maneira de siste-
matizar demandas.

O Plano Diretor como Instrumento de Planejamento


Urbano
Por outro lado, no âmbito das mudanças trazidas pela institucionalização da
pauta dos movimentos sociais urbanos surge a regulamentação estabelecida pelo
Estatuto da Cidade. Passam a ser considerados pressupostos para a elaboração e
revisão de planos diretores, aqui entendidos como participativos. Trata-se de um
dispositivo de legislação urbana que, apesar dos limites concretos que apresenta,
traz-nos uma série de instrumentos que fazem valer o fim social da propriedade
urbana em detrimento do instituto jurídico da propriedade imobiliária de caráter
individual e absoluto.
Na verdade, já na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 tais
princípios aparecem em seus artigos 182 e 183, que tratam da Política Urbana,
estabelecem os instrumentos para a garantia, no âmbito de cada município, do
direito à cidade, do cumprimento da função social da cidade e da propriedade. O
papel do Estatuto da Cidade, Lei Federal 10.257 de 10 de julho de 2001, foi o de
regulamentar os artigos programáticos instituídos pela constituição Federal, esta-
belecendo parâmetros e diretrizes da política urbana no Brasil. O Estatuto oferece
instrumentos para que o município possa intervir no processo de planejamento e
gestão urbana e territorial, e garantir a realização do direito à cidade.
O Plano Diretor aparece como um instrumento de alto poder de transformação
da realidade tanto na sua elaboração original quanto nas revisões necessárias. Os
princípios norteadores do Plano Diretor estão estabelecidos no Estatuto da Cida-
de, que o define como um instrumento básico para orientar a política de desenvol-
vimento e de ordenamento da expansão urbana do município. Há que se levar em
conta as transformações vividas pelo próprio planejamento urbano de um modo
geral, já analisados em Vieira (1997), “Estado e Planejamento Urbano no Brasil”,
em que se evidencia a mudança no padrão de planejamento urbano brasileiro,
deslocando a atividade de um campo eminentemente técnico para um campo de
correlação de forças mais justo entre o Estado e a sociedade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 379
Dentre as diretrizes está o entendimento de que todos os cidadãos estão habi-
litados a participar do planejamento de sua cidade e podem intervir na realidade
de seu município. O “Plano Diretor participativo: Guia para elaboração pelos mu-
nicípios e cidadãos” elaborado pelo Ministério das Cidades (ROLNIK; PINHEIRO,
2004, p. 14) alerta para a necessidade de que
democratizar as decisões é fundamental para transformar o planeja-
mento da ação municipal em trabalho compartilhado entre os cidadãos
e assumido pelos cidadãos, bem como para assegurar que todos se com-
prometam e sintam-se responsáveis e responsabilizados, no processo
de construir e implementar o Plano Diretor.
Construir o Plano Diretor se transforma em uma atividade altamente partici-
pativa, pelo menos do ponto de vista formal. Entretanto, é preciso que a própria
sociedade em seus grupos menores, constituídos em associações de moradores,
organizações não governamentais e os indivíduos no exercício de sua plenitude
democrática, possuam condições para intervenção qualificada.
A primeira etapa na realização de um Plano Diretor diz respeito às leituras téc-
nicas e comunitárias. Ler a cidade é fundamental para identificar e entender a situ-
ação da realidade urbana e rural do município. Para isso, é fundamental que se re-
alizem as leituras técnicas, efetivada pela equipe de profissionais capacitados para
analisar os aspectos físicos, territoriais, políticos, administrativos e sociais do mu-
nicípio. Mas, ao mesmo tempo, é fundamental a realização da leitura comunitária,
baseada no entendimento que a sociedade tem de sua própria realidade, sendo
fundamental nesse momento, a organização e a participação popular. Sobre esse
tema, já se discorreu em Vieira (2012), tratando da “Leitura Técnica e Leitura Co-
munitária: Bases para a Elaboração do Plano Diretor Participativo. Jaguarão, RS”,
enfatizando o processo de planejamento participativo como fundamental para a
produção de cidades mais justas.
A segunda etapa no ideário participativo de confecção do Plano Diretor diz res-
peito à formulação e ao pacto em torno de propostas. Trata-se de uma perspec-
tiva estratégica que pressupõe a capacidade de intervir sobre temas e questões
verdadeiramente cruciais para a cidade e que devem ser enfrentadas de maneira
rápida e eficaz. Para isso, são definidos e pactuados os temas, as estratégias e os
instrumentos de ação.
Logo a seguir deve vir a etapa da definição dos instrumentos, propriamente
dita. Ou seja, o momento em que serão objetivadas as ferramentas que viabilizam
as intenções expressas no Plano Diretor. O próprio Estatuto da Cidade estabelece
mais de trinta instrumentos para que o município tenha controle mais efetivo de
seu território. Nessa etapa será preciso verificar quais os instrumentos são ade-
quados aos casos particulares da realidade estudada.
Por fim, será necessário organizar um sistema de gestão e planejamento do
município, que estabeleça uma estrutura de gestão e um processo participativo
capaz de implementar e monitorar a aplicação efetiva do Plano diretor. O contro-
le social só poderá se efetivar se existirem mecanismos suficientes e capazes de
atender as demandas por controles e ajustes do planejamento em geral. Portanto,
a elaboração do Plano Diretor, em si, não encerra o processo de planejamento,
que deverá ser contínuo e permanente.
Assim, o preparo, por intermédio da orientação e conhecimento da própria ati-
vidade de planejamento é fundamental para a organização e a participação popu-
lar. Já existe um desenvolvimento de conteúdo suficiente para ensejar novas estra-
tégias de organização e luta por demandas, sendo significativamente importante
que a sociedade disponha desse conhecimento para poder balizar sua atuação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 380
A questão Urbana na Perspectiva Autonomista
Aqui se levará em conta a perspectiva autonomista defendida por Cornelius
Castoriadis (1975, 1983, 1992), também defendida por Marcelo Lopes de Souza
(2004), que se alinha a uma reapropriação crítica do planejamento urbano e da
gestão da cidade como instrumento de justiça social.
Para Castoriadis (1975) as democracias representativas ocidentais são, na ver-
dade, oligarquias liberais. O desequilíbrio entre o poder da minoria de dirigentes e
a maioria dos cidadãos comuns desqualifica o uso do termo democracia para os re-
gimes representativos. Segundo Souza (2004) as ideias político-filosóficas de Cas-
toriadis, baseada na autonomia, estão fundamentadas em duas principais fontes.
A primeira, deriva da pólis grega clássica, no que diz respeito à democracia direta;
A segunda, do movimento operário, mais especificamente da experiência dos con-
selhos operários e o debate da autogestão da produção pelos trabalhadores.
Ainda seguindo Souza (2004, p. 174), observamos que autonomia pode englo-
bar dois sentidos que estão relacionados entre si: autonomia coletiva e autonomia
individual. No primeiro caso, da autonomia coletiva, trata-se do “consciente e ex-
plícito autogoverno de uma determinada coletividade, o que depreende garantias
político-institucionais”. Refere-se, portanto, à instituições e às condições materiais
e objetivas, incluindo o acesso à informação, que garante a igualdade de chances
de participação em processos decisórios que dizem respeito à própria comunida-
de. Por outro lado, a autonomia individual, diz respeito à “capacidade de indiví-
duos particulares de realizarem escolhas em liberdade, com responsabilidade e
com conhecimento de causa”. Nesse caso, depende de circunstâncias individuais
e psicológicas como também de fatores políticos e sociais. Aqui há a necessidade
de indivíduos lúcidos, dotados de auto-estima e frequentemente avessos à tutela
política. Nesse sentido, pode-se observar que
A sociedade autônoma visada pelo projeto castoriadiano não é, toda-
via, uma sociedade “perfeita”, no estilo da “sociedade comunista” pre-
conizada pelo marxismo ou das comunidades harmônicas e sem poder
e conflitos idealizadas por muitos anarquistas. Uma sociedade basica-
mente autônoma significa, “apenas”, uma sociedade na qual a separa-
ção institucionalizada entre dirigentes e dirigidos foi abolida, com isso
dando-se a oportunidade de surgimento de uma esfera pública dotada
de vitalidade e animada por cidadãos conscientes, responsáveis e parti-
cipantes. (SOUZA, 2004, p. 176)

O planejamento e a gestão urbanos, com base na perspectiva autonomista,


conforme esposado por Souza (2004) deve ser resultado de um processo histórico
bastante complexo, que independe, nesse sentido, dos resultados de uma revo-
lução imediata, mas sim, e muito mais, de pequenos ganhos de autonomia con-
quistados ao longo do tempo. Pensar quem planeja é uma questão sumamente
importante. Justamente esta perspectiva permite pensar na possibilidade de criar
pequenas ações capazes de produzir, aos poucos, transformações qualitativas nos
processos de tomada de decisão na sociedade. Mesmo em uma sociedade heterô-
noma não é a penas o estado que planeja e a perspectiva de intervir nas diferentes
instâncias em que a ação do planejamento, da organização e da participação po-
pular ocorrem anima a possibilidade de construir ações a mecanismos efetivos de
um pensamento autônomo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 381
Por outro lado, quando se pensa sobre o que é planejado, nessa perspectiva, é
necessário abordar não apenas as questões materiais e objetivas que estão colo-
cadas na prática do cotidiano urbano (território, mobiliário, etc), mas também, e
fundamentalmente, planejar e gerir relações sociais. Aqueles que se envolverem
nesse processo precisarão estar aptos a responder: “que problemas precisam ser
superados? Com quem se pode contar para essa empreitada, e sob quais condi-
ções? Quais são os obstáculos e as dificuldades previsíveis?” (grifo do autor) (SOU-
ZA, 2004, p. 178). É preciso pensar sobre os fins da ação e, portanto, discutir po-
liticamente a abrangência dos propósitos. Não se deve pensar em uma ação res-
paldada por uma única pessoa, um intelectual pretensamente iluminado, pois não
se quer aqui perder de vista a capacidade dos indivíduos envolvidos no processo.
Em uma relação dialógica (expressão tomada de Paulo Freire, 1980a, 1980b 1987 e
1996) o papel da universidade e de seus componentes é justamente a de chamara
a atenção de que a autonomia precisa ser respeitada e estimulada e que, portanto,
os fins devem ser definidos pelos próprios envolvidos.
Por fim, definir como planejar irá depender da capacidade de identificar os gru-
pos dominantes que poderão representar um entrave à participação ou à políticas
redistributivas e ampliadoras da democracia. Para tanto, há que se estar prepa-
rado para a solução de conflitos que poderão surgir em diferentes níveis, desde
o interno, próprio dos diferentes interesses particulares no grupo, até o externo,
relacionado às instâncias de poder já constituídos em organizações e instituições.
Em algum momento seria possível perguntar em que diverge a proposta auto-
nomista da proposta de planejamento politizado brasileiro posto em prática por
correntes de esquerda no país. Na verdade, mesmo o planejamento politizado
brasileiro não conseguiu se desvencilhar totalmente do pensamento tecnocrático
que o antecedeu. Sem querer minimizar a importância das conquistas trazidas ao
longo do tempo para a reforma urbana, ainda é preciso reconhecer que uma pro-
posta autonomista vai mais além daquilo que está posto em prática pela democra-
cia participativa.
No planejamento autonomista não se trata de endossar uma instância
de poder separada e acima dos cidadãos – o Estado -, em cuja presença e
sob cuja batuta o planejamento sempre será realizado, em maior ou me-
nor grau, de cima para baixo. Em uma sociedade autônoma, assim como
a gestão urbana será um dos aspectos da autogestão da sociedade, o
planejamento será um “autoplanejamento”, radicalmente conduzido de
forma democrática e descentralizada, além de flexível. (SOUZA, 2004,
p. 184)

Assim, o caminho que se aponta não é um caminho predeterminado, mas sim


algo a ser percorrido, conquistado a cada passo e em conjunto com todos os cami-
nhantes. O desenvolvimento sócio-espacial deve ser visto como um ideal sempre
em construção, inacabado, renovável. Trata-se de um horizonte a ser conquistado,
como nas palavras de Castoriadis (1983, p.33): “uma sociedade justa não é uma so-
ciedade que adotou leis justas para sempre. Uma sociedade justa é uma sociedade
onde a questão da justiça permanece constantemente aberta.”
Nesse sentido, o programa proposto pretende ser uma parte do caminho a ser
trilhado pela sociedade urbana em questão na busca de resposta para suas de-
mandas. Criar a possibilidade de contribuir para a informação e a dotação técnica
dos envolvidos em um processo muitas vezes áspero, desconhecido e cujas práti-
cas e resultados são maculados por experiências erradas é um objetivo alentador
para uma instituição pública destinada a promover a justiça social.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 382
Metodologia e Objetivos
De acordo com o III Plano Diretor de Pelotas (PD), instituído pela Lei Municipal
Nº 5.502 de 11 de setembro de 2008, as Áreas Especiais de Interesse Social (AEIS)
são porções do território do Município, destinadas para recuperação urbanística e
ambiental, para regularização fundiária e para a produção de Habitação de Inte-
resse Social (HIS). Possuem como diretrizes principais, entre outras, a adequação
da propriedade do solo à sua função social; a integração à cidade dos assenta-
mentos habitacionais de baixa renda, promovendo sua regularização jurídica, ur-
banística, técnica e ambiental; a promoção da oferta de equipamentos urbanos e
comunitários, espaços públicos, serviço e comércio de caráter local e a geração de
trabalho e de renda para seus moradores. Trata-se, portanto, de uma área frutífera
para o desenvolvimento de cidadania e para o incentivo à organização e a partici-
pação social em busca de melhores condições de vida na cidade.
Ainda de acordo com o III PD as AEIS podem ser dos seguintes tipos: I, quan-
do são áreas públicas ou privadas localizadas em áreas de preservação ambiental,
ocupadas por população de baixa renda, em que haja interesse público em pro-
mover a regularização fundiária, recuperação ambiental, produção, manutenção
e recuperação de habitação de interesse social; e II, quando são áreas públicas ou
privadas, ocupadas por população de baixa renda, em que haja interesse público
em promover a regularização fundiária, produção, manutenção e recuperação de
habitação de interesse social. Ainda poderão ser do tipo III, glebas, e IV, interface
rural-urbano, que não se aplicam ao objeto de estudo do presente programa. Basi-
camente, as AEIS devem atender aos seguintes critérios para sua definição: i) pre-
dominância do uso habitacional; ii) população com características sócio-econômi-
ca de baixa renda, entendida como tal aquela composta por famílias cuja renda
mensal seja igual ou inferior a três salários mínimos nacionais; e iii) área passível
de regularização e/ou urbanização. São portanto, propícias ao desenvolvimento
do programa ora proposto.
Para efeitos do presente Programa foi selecionada a área da Macrorregião Ad-
ministrativa do São Gonçalo, que pode ser reconhecida como Bairro São Gonçalo.
Dentro desta área foram selecionadas as AEIS que aí se localizam para efeito de
desenvolvimento do programa, como piloto de futuras intervenções.

Metodologia
Do ponto de vista metodológico, o programa foi fundamentado no método
dialético e, portanto, realizou uma análise da realidade com base no presente, ou
seja, a partir dos dados identificados e caracterizados pelos envolvidos no processo
a partir do seu próprio cotidiano. Após, foi feita uma análise regressiva, de cunho
histórico e social, com vistas a identificar a origem das condições atuais de existên-
cia das comunidades envolvidas. Em seguida, de acordo com o método proposto,
foram feitos prognósticos das possibilidades apresentadas pelo futuro, com base
nas ações. O Programa pretendeu se construir como um evento permanente na
cidade, logrando, com o tempo, atingir toda a cidade de Pelotas. Fato este que se
mostrou impossível de ser alcançado, ante a falta de continuidade dos programas
pelas gestões sucessivas do Governo Federal.
A área da Macrorregião Administrativa do São Gonçalo selecionada para o de-
senvolvimento do Programa, entre 2015-2016, está localizada no perímetro urba-
no da cidade de Pelotas, limitada ao norte pela Avenida Ferreira Viana, à leste pelo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 383
Figura 1 -
Localização do
município de Pelotas
no Rio Grande do Sul
e no Brasil.
Fonte: http://
[Link].
org/wikipedia/
commons/0/00/
RioGrandedoSul_
Municip_Pelotas.svg

Arroio Pelotas, ao sul pelo Canal São Gonçalo e à leste pela Avenida Juscelino Ku-
bistcheck de Oliveira. Dentro desta Macrorregião Administrativa, conhecida como
Figura 2 – Pelotas. Bairro São Gonçalo, foram selecionadas as Áreas de especial Interesse Social deli-
Área Urbana com mitadas pelo III Plano Diretor de Pelotas (Lei 5.502, de 11/09/2008), a saber, Nave-
destaque para áreas
selecionadas para o gantes I, II e II; Vila de Pescadores; Mário Meneghetti; Ambrósio Perret; e, Anglo. A
projeto. seleção se justificou em função da característica das AEIS de concentrarem grande
Fonte: Elaborado número de população de baixa renda, via de regra menos integrada aos processos
pelos autores. institucionalizados de participação e gestão da cidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 384
Oficinas
Foram desenvolvidas atividades que envolveram o saber codificado, mas sem
excluir o saber advindo da comunidade, assim, a abordagem foi pensada de forma
a se adequar ao público alvo. Elas tiveram cronogramas previamente divulgados e
com inscrições.
Foram realizadas oficinas de caráter prático e de menor tempo, e que foram re-
petidas algumas vezes ao longo dos meses. Sua realização se deu na comunidade
para estreitar laços com a mesma. Os temas abordados foram leituras sócio-espa-
ciais da cidade, participação popular e cidadania, funcionamento dos conselhos
municipais, plano diretor, entre outros que foram apontados pelas demandas de
serviços sociais urbanos existentes. Para ministrar as oficinas ocorreu a participa-
ção de professores envolvidos no programa, técnicos da prefeitura e de institui-
ções envolvidas (fornecedores de água, luz, esgoto entre outros). Foram realizadas
também atividades práticas como leituras de mapas e construção de maquetes.

Confecção de material gráfico


Além das ações diretamente com a comunidade, subsidiou-se todo processo
com a produção de materiais virtuais e impressos. Estes foram organizados e pro-
duzidos pela equipe organizadora, salvo para alguns materiais que se recorreu ao
auxílio de terceiros.
Continham as discussões realizadas com parceiros e com a própria comunida-
de. Foram distribuídos nas oficinas, cursos de formação e grupos de debates, bem
como livremente na comunidade.
Estes materiais tiveram o objetivo de auxiliar na discussão e formação de apoio
à mobilização e à participação social.

Grupos de debates
A metodologia a ser utilizada nesta ação foi a realização de Grupos de Deba-
tes, como forma de incentivar a participação e a mobilização individual na aná-
lise dos problemas e das demandas comunitárias. Os Grupos de Debates foram
desenvolvidos com a comunidade e na comunidade e tiveram caráter mais livre.
Nesta ação foram usadas técnicas que visavam aproximar saberes populares com
saberes acadêmicos e que promovessem o diálogo.

Considerações Finais
Com relação à Extensão a relação do programa foi direta, pois se voltou justa-
mente para a prestação de uma atividade para a comunidade externa à universi-
dade. Ofertou formação, assistênciatécnica e outros elementos que caracterizam
a atividade extensionista universitária.
O desenvolvimento do Programa propiciou a aproximação da universidade da
comunidade envolvida, tanto por intermédio da associação de moradores quan-
to por intermédio das ações diretas desenvolvidas. Foram realizadas reuniões de
formação com os moradores, oficinas de capoeira, música, esportes. Durante o
programa, juntamente com a Prefeitura Municipal de Pelotas e com o Núcleo de
Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, o Laboratório de estudos
Urbanos participou da construção de uma praça pública na comunidade, incen-
tivando o plantio de árvores e a confecção de mobiliário urbano pelos próprios

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 385
moradores. Com isso, foi possível desenvolver a autoestima da comunidade e per-
mitir a realização de um planejamento com base nas próprias demandas.
O Programa apresentado foi desenvolvido durante os danos de 2015 e 2016. Foi
possível observar que a ação proposta se apresentou de acordo com os anseios da
comunidade na qual esteve inserido. Se concluiu que isso se deveu ao fato de que a
proposta não agrediu os interesses levantados dentro da própria comunidade, ou
seja, trabalhou justamente com a valorização da participação comunitária.
Assim, se pode dizer que a ação acadêmica, apesar de se passar em um uni-
verso muitas vezes diferente da realidade social deve, na verdade, estar inserido
nesse contexto. O reconhecimento das condições materiais de existência da cida-
de, onde se produz a cidadania, é o terreno fértil para o desenvolvimento de ações
capazes de potencializar o efeito da autonomia com conhecimento.
A realização do programa demonstrou a capacidade de intervenção da univer-
sidade na formação e capacitação da participação popular, tornando mais eficaz e
efetiva a luta comunitária pelo reconhecimento de suas demandas e a inclusão de
suas necessidades em políticas públicas eficazes.

Figura 3 – Atividades
desenvolvidas na
comunidade.
Fonte: Acervo dos
autores.

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VIEIRA, Sidney Gonçalves. (Org.) Construindo cidades. O plano diretor como


experiência de planejamento urbano. Pelotas: Editora e Gráfica da Universidade
Federal de Pelotas, 2012.

VIEIRA, Sidney Gonçalves. Estado e planejamento urba-


no no Brasil. In: Cadernos do ISP. N. 11, dez 1997, Pelo-
tas, UFPel.
SOBRE OS AUTORES
Agradecimentos
Sidney Gonçalves Vieira, licencia-
do em Geografia e Bacharel em Direito O Programa não poderia ter se realizado sem a participação efe-
na UFPEL. Doutor em Geografia pela tiva dos bolsistas e voluntários na realização das atividades:Adriel
UNESP/Rio Claro, SP. Professor Titular Costa da Silva, Andressa Henrique Teixeira, EnéiaJoraci Munhoz de
do Departamento de Geografia, ICH/ Munhoz, Félix Porciúncula dos Santos, GilsianeJansen, Henrique Mo-
UFPEL. Coordenador do Projeto Cida- reira da Rosa, Juliana SchwingelBroilo, Kelvin Dutra Xavier, Kethelyn
de e Cidadania. E-mail: [Link]@gmail. Giulian Pedebos Oliveira, Laion Loester de Paula Dias Gonçalves, Lân-
com.
derson Antória Barros, Tamiris Liporais, Vanessa Correa, Wagner da
Rosa Nunes, Willian Lourenço Moraes.
Giovana Mendes de Oliveira, licen-
ciada em Geografia pela UFRGS. Dou- Agradecimento especial à servidora técnico-administrativa Mara
tora em Geografia pela UFRGS. Pro- Lúcia Vasconcelos da Costa por todo o envolvimento que demonstrou
fessora Adjunta do Departamento de
durante a execução do projeto, no Laboratório de Estudos Urbanos e
Geografia, ICH/UFPEL. Coordenadora
Regionais.
Adjunta do Projeto Cidade e Cidadania.
E-mail: [Link]@[Link]. À comunidade do Anglo, pela participação, envolvimento e engaja-
mento comunitário, motivos que permitiram o sucesso do Programa.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Direitos Humanos e Justiça nº8 387
Educação

E D U C A Ç Ã O
A QUÍMICA VAI À ESCOLA
E À COMUNIDADE:
UM PROJETO VOLTADO À
DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NA UFPEL
Bruno dos Santos Pastoriza
Bruna Gabriele Eichholz Vieira
Roger Bruno de Mendonça

Apresentação
O trabalho descrito é um relato do projeto de extensão desenvolvido a partir
de 2019 na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), denominado de A Química
vai à Escola e à Comunidade, cujo objetivo está em realizar uma ação de divulga-
ção científica para além dos muros da universidade, proporcionando um contato
maior com as escolas de Ensino Básico. Sistematicamente, nos espaços universi-
tários são realizadas pesquisas que se desdobram na produção de novos conhe-
cimentos que, num processo complexo, são muitas vezes integrados à estrutura
básica da ciência que os produziu, além de serem apropriados no que se chama de
ciência aplicada (LENOIR, 2004).
Desse modo, o projeto objetiva desenvolver a divulgação e popularização da
ciência para além da universidade, em especial nas escolas e nos espaços não for-
mais na região de Pelotas-RS por meio de ações voltadas ao público em geral e
não acadêmico que ocupam esses espaços, mobilizando espaços de discussão so-
bre a produção do conhecimento químico, bem como estimulando o interesse por
essa área. A metodologia utilizada para a execução do projeto é firmada em qua-
tro etapas, sendo estas articuladas com as pesquisas desenvolvidas no Programa
de Pós-Graduação em Química (PPGQ) da UFPel.
Uma vez que o projeto encontra-se em andamento, o objetivo deste texto
será, inicialmente, discutir os fundamentos teóricos que pautam o projeto para,
na sequência, encaminhar o relato das ações que já foram realizadas – as quais são
marcadas por momentos ainda internos de planejamento e organização dos ma-
teriais – e, assim, finalizar com os próximos encaminhamentos que estão previstos
e que efetivamente atuarão no transbordamento dos muros da universidade. Nas
EDUCAÇÃO Nº1

considerações finais são apontados aspectos relevantes do projeto, bem como o


necessário reconhecimento dos diferentes tipos de ações que são desenvolvidas
nos projetos de extensão e a necessária presença de atividades que, ainda que in-
ternas à universidade, preparam e organizam os materiais e documentos com fins
de, ao extravasar os muros da universidade, fazê-lo com qualidade e competência.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 389


A Química, a Escola e o Ensino de Química
Baseado no campo da ciência Química, disciplina reiteradamente marcada por
dificuldades e desafios aos discentes da Escola Básica (LESSA; PROCHNOW, 2017;
SILVA et. al 2017),este projeto assume a importância de “falar sobre” os processos
de divulgação da ciência de modo geral e, em específico, dessa área Química, uma
vez que a proposta se desenvolve no contexto de um grupo que atua no campo da
Educação Química (área de interface e bem consolidada que se apresenta articu-
lando propostas do campo educacional com a produção da ciência Química).
Tendo tal localização em foco, é possível assumir que, a partir do ponto de vis-
ta da Educação (especialmente a Educação Química), ao olhar para a produção
do conhecimento das diferentes áreas, tendo o foco na Química, um dos pontos
centrais ao desenvolvimento dos conhecimentos é a linguagem. Estudos como os
de Latour (2000) e Latour e Wolgar (1997) evidenciam claramente o distanciamen-
to que, no nível da linguagem, dos processos, dos axiomas e dos paradigmas, há
entre os conhecimentos produzidos no campo da ciência e os saberes elaborados
na vida cotidiana. Se na articulação entre o campo da ciência e da vida em geral se
evidenciam tais elementos e diferenças, no campo da Química se podem encon-
trá-los de modo muito destacado.
Diferentemente da vida cotidiana, a ciência Química opera num processo de
constante racionalização e abstração entre o númeno e a microfísica; entre o con-
ceitual e o material; entre o simbólico e fenômeno a representar. Segundo Johns-
tone (1982; 2000), é possível dizer que a ciência Química se funda sobremaneira a
partir de, no mínimo, três níveis: o simbólico, o macroscópico e o submicroscópico
(Fig. 1).

Figura 1.
Representação dos
universos e níveis
de compreensão
do conhecimento
químico.
Fonte: Adaptação e
tradução do triângulo
de Johnstone (1982).

Assim, esse autor, amplamente assumido no campo do Ensino de Química, de-


fende a ideia de que no processo de ensino e aprendizagem em Química o aluno
deverá se mover no interior do triângulo lidando com os três componentes da Quí-
mica representados nos três vértices.
De modo distinto, o mundo cotidiano sistematicamente não necessita, ou até
mesmo nega, a transição entre esses níveis (BACHELARD, 1991; 1996), de forma
que, nos processos escolares e sociais, no momento em que há que se apropriar
dos elementos desenvolvidos na ciência Química (tanto por necessidade curricular
quanto por necessidade da vida prática), são encontradas barreiras a esse proces-
so ou excessiva concentração em um ou outro vértice do triângulo.
Possivelmente, essas barreiras são reforçadas pelo distanciamento tanto no
nível da linguagem quanto no nível social (LENOIR, 2004) entre a vida cotidia-
na e a universidade (lugares que, no Brasil, são em grande parte os responsáveis
pela produção do conhecimento). Nesse sentido, ao desenvolver um processo de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 390
aproximação entre diferentes universos, este projeto colabora com a minimiza-
çãodas barreiras e dificuldades de transição entre um e outro, bem como atua na
inteligibilidade de um campo sobre outro.
Não é de hoje que estamos preocupados com a melhoria do ensino, principal-
mente para superar o ensino tradicional, tanto que, nesse objetivo, é significativo
o número da
[...]produção de propostas de ensino elaboradas por vários educadores
químicos brasileiros, as quais vêm enfatizando a experimentação, a con-
textualização do conhecimento químico e a promoção de aprendizagem
significativa nos alunos (SCHNETZLER, 2010, p.58).

Santos e Maldaner (2010) complementam que há décadas os educadores quí-


micos propõem currículos inovadores que possam mudar o quadro de distancia-
mento do ensino médio, de questões relacionadas à cidadania para a significação
do conhecimento pelo estudante e para a formação docente. Nesse sentido, am-
bos autores ressaltam a importância de um melhor ensino básico;de um ambiente
educacional favorável ao pensamento; de um ambiente que possibilite surgimen-
to da pergunta genuína; de um espaço em que, mesmo não sendo produtor de
ciência, com ela esteja integrado para ser um produtor de conhecimentos escola-
res (LOPES, 1999), e está, nesse processo, a tarefa do Ensino de Química e, mais
ainda, a tarefa deste projeto.

A Divulgação Científica e o Ambiente Escolar


A divulgação científica é um termo usualmente utilizado no Brasil para expres-
sar os processos de interação entre a Ciência e o público (CUNHA, 2019). Conforme
Bueno (2008, p.4 apud GOMES, SILVA e MACHADO, 2016, p.389) ressalta, a divul-
gação do conhecimento científico é algo que
Pressupõe um processo de recodificação, isto é, a transposição de uma
linguagem especializada para uma linguagem não especializada, com o
objetivo primordial de tornar o conteúdo acessível a uma vasta audiên-
cia.

Assim, apoiando-se em elementos da recontextualização didática (MAINAR-


DES; STREMEL, 2010; ARAÚJO; SOUSA, 2015) e da alfabetização e divulgação
científica (ALBAGLI, 1996) as discussões que são traçadas neste projeto buscam
em seu fazer a produção de um espaço no qual o conhecimento químico possa ser
recontextualizado e multiplicado à sociedade que também auxilia direta e indire-
tamente para sua proposição.
No âmbito da Divulgação da Ciência, é válido ressaltar que a Ciência é uma prá-
tica social e, como tal, não pode ser vista como independente ou desvinculada do
sujeito e das ideologias que constituem essa esfera de conhecimento (CUNHA,
2019). Cotidianamente, mais do que se poderia imaginar, a população em geral
é participante ativa no processo de produção científica, tanto direta quanto indi-
retamente. Ao pagar impostos, consumir um produto ou deixar de consumi-lo,
optar por um tipo de material, exigir solução para algum problema, apontar efei-
tos ou novos problemas oriundos da ação tecnológica etc. a população participa
de modo indireto, mas ativo, na produção da Ciência. Ainda ativamente, mas de
modo direto, também evidenciamos que a população atua nesse conjunto de pro-
dução da Ciência quando participa de um estudo piloto, de um grupo de controle,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 391
na resposta a questionários e entrevistas, assim como quando fala sobre algo que
“ouviu dizer” sobre a Ciência, divulgando-a. Mesmo que em outro contexto, os es-
tudos de Moscovici (2007; 2004) são um bom exemplo e nos ajudam a compreen-
der esse processo de apropriação da Ciência pela população, o que, necessária e
efetivamente, tem efeitos nessa própria Ciência.
A partir do momento em que se apresenta algo “científico” a alguém que, to-
davia de modo não sistematizado ou “correto”, já teve acesso àquela discussão
ou existência de tal discussão, facilita-se sua apropriação e compreensão do tema
e, numa perspectiva crescente de complexidade, criam-se condições de viabilizar
àquele sujeito sua inserção intelectual e prática na própria Ciê[Link], o sur-
gimento e a produção científica não acontecem ao acaso, eles são frutos de um
processo que leva em consideração um espaço cultural, social e histórico, e que
está em profunda articulação.
Complementarmente, assumindo que a ciência Química, enquanto código, lin-
guagens e processos específicos, tem muitos elementos afastados do mundo coti-
diano e direto (BACHELARD, 1991; 1996; LATOUR; WOOLGAR, 2004), e que essa
separação entre Química e cotidiano pode contribuir com a exclusão por meio do
conhecimento, assume-se que são desejáveis ações que se proponham articular
esses diferentes universos. Assim, ao se propor em realizar um processo de recon-
textualização didática entre os conhecimentos e pesquisas desenvolvidas no cam-
po acadêmico para o nível da escola e da população em geral, se propõe a aproxi-
mação entre esses espaços, colaborando com a compreensão pública da ciência,
com a responsabilidade e retorno social da produção científica (CARIBÉ, 2015).
Além disso, torna-se possível a ampliação dos modos de pensar, das possibilidades
e dos possíveis mundos a serem descobertos por públicos que, devido a diferentes
processos de constituição individual, podem desconhecer os múltiplos campos de
investigações no nível da ciência e, em especial, da Química, sendo mobilizados a
conhecê-los mais intensamente e, talvez, seguir uma formação nesse campo.
Matos Filho et al. (2008, p. 191) discutem sobre pesquisadores como Yves Che-
vallard, os quais examinam “que o saber não chega à sala de aula tal qual ele foi
produzido no contexto científico. Ele passa por um processo de transformação,
que implica em lhe dar uma ‘roupagem didática’ para que ele possa ser ensinado.
Isso acontece porque o objetivo da comunidade científica e da escola é diferen-
te”. Visto isso, a transposição didática da linguagem da comunidade científica para
uma linguagem mais simples, é algo fundamental que propicia a divulgação do
conhecimento científico para outros tipos de públicos, permitindo assim, o acesso
do conhecimento a uma vasta audiência.
Ao considerar os meios responsáveis pela divulgação da Ciência, é possível des-
tacar diversos. Jornais, internet, livros, as mídias sociais como Facebook®, Insta-
gram®, dentre outros, museus, instituições de ensino, etc. todos são espaços em
que se procedem ações de divulgação.
Grande parcela da sociedade ainda não tem conhecimento sobre o que é a “Di-
vulgação Científica” e a “Comunicação Científica”. Apesar de terem apenas um
objetivo de levar o conhecimento científico a cada indivíduo, há uma diferença en-
tre elas que seria o público-alvo e a metodologia. No primeiro caso a informação
é levada por meio de TV, rádios, redes sociais, ou pensadas exclusivamente com
esse fim de divulgação ampla a “não iniciados”, tendo em vista que as pessoas
que recebem essa informação não têm um breve conhecimento e não estão fa-
miliarizadas sobre o ensino de ciências. Já no segundo caso, é redirecionado para
um público específico, esperando-se que haja um conhecimento prévio. Os casos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 392
mais comuns deste último são eventos, mostras e palestras científicas, as quais
usualmente não são abertas ao público em geral. Ainda com Bueno (2010, p. 02),
podemos compreender um pouco mais da especificidade de cada uma dessas mo-
dalidades de divulgação:
A divulgação científica compreende a [...] utilização de recursos, técni-
cas, processos e produtos (veículos ou canais) para a veiculação de infor-
mações científicas, tecnológicas ou associadas a inovação ao público lei-
go. A comunicação científica por sua vez, diz respeito às transferências
de informações científicas, tecnológicas ou associadas a inovações e que
se destinam aos especialistas em determinadas áreas do conhecimento.

Portanto, trabalhar com a divulgação científica não é um trabalho fácil, há ne-


cessidade de buscar um entendimento para o aluno ou indivíduo que não tem co-
nhecimento sobre determinado assunto, que “não é iniciado” naquele campo. Isso
faz com que os divulgadores procurem diferentes modos de levar esse conheci-
mento.
Assim, explicações, exemplificações, comparações, metáforas, nome-
ações, além da própria escolha lexical e utilização de recursos visuais
são exemplos de elementos didatizantes empregados pelo divulgador
no ato de compor o seu texto. Tais estratégias discursivas tendem, por-
tanto, a aproximar o leitor da temática abordada (LEIBRUDER, 2003, p.
234).

A escola e o espaço que a cerca deve ser instrumento socializador do conhe-


cimento, envolvendo todas as áreas de estudo, mas para que isso ocorra efetiva-
mente, temos que levar em consideração um planejamento e adequar este espaço
para participação e inclusão de [Link] tratando de divulgação científica, o pátio
da escola tornou-se um marco importante, pois se tornou um local para que os
alunos possam, além de interagir com outros alunos e funcionários, participar e
desenvolver ações coletivas que auxiliam na aprendizagem. Portanto, quando a
divulgação está voltada para seu âmbito educacional seu objetivo se refere à am-
pliação do conhecimento e da compreensão do público sobre o processo científico,
e procura fazer com que os indivíduos problematizem as situações relacionados
a fenômenos cientificamente estudados, como também estimular a curiosidade
como atributo humano (GIL1998, apud MENDES, 2006 p.96).
A curiosidade se torna fundamental, leva os alunos a pensarem sobre possíveis
problemas e como eles resolveriam, abrindo espaço para o pensamento imagina-
tivo.O professor ou divulgador também deve se atentar a isso, para que ele possa
refletir sobre práticas que incentivam os alunos de uma forma inovadora.
Gurgel e Pietrocola (2011, p. 95) nos alertam para a temática que envolve ciên-
cia e imaginação e a necessidade de ser utilizada de acordo com os compromissos
científicos:
Contudo, a imaginação para ser “científica”, não pode ser uma atividade
puramente livre, por mais que seja um ato bastante complexo e de gran-
de subjetividade, por se relacionar com a construção simbólica mental
do indivíduo, não pode estar desvinculada dos compromissos e dos va-
lores da ciência.

Falar de ciências com jovens ou adultos implica em mobilizar linguagens di-


ferentes daquelasutilizadas com crianças. Isso porque sendo um dos focos da

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 393
Divulgação Científica a apropriação de pessoas não-especialistas sobre temas es-
pecíficos, as vivências, as experiências, a maturidade, o contexto de vida, etc. são
elementos importantes a serem mobilizados para proporcionar um sentido e uma
compreensão daquilo que se está trabalhando em termos de divulgação. É por
isso que usualmente se assume que buscar atividades em que os alunos possam
recorrer ao seu cotidiano seja uma forma de os apresentar à ciência de modo que
eles se interessem e possam ver que a produção científica, mesmo que construída
em um universo distinto e com suas especificidades, não está longe da realidade
cotidiana, como alguns pensam.

Das deficiências à proposição de um Projeto de


Extensão
O cenário anteriormente desenhado em termos da relação entre a produção
científica e sua apropriação por um grupo geral da população evidencia, junto da
literatura especializada, uma deficiência em os centros de produção de conheci-
mento (especialmente o científico, e mais especialmente a ciência Química) es-
tarem próximos da comunidade. Certamente, essa conjuntura assevera que não
basta a uma ação ou a um grupo de indivíduos o papel de aproximação, mas, sim,
a uma coletividade de indivíduos e ações. Tendo por base esse princípio, o projeto
que aqui relatamos foi construído como sendo mais uma das várias ações que a
UFPel tem desenvolvido com fins de articular de modo mais intenso o que vem
sendo criado pela Universidade com a comunidade.
Assumindo a necessidade de se ampliarem as condições de apropriação social
do conhecimento, o projeto Química vai à Escola e à Comunidadetem como público
alvo discentes das Escolas Básicas da cidade de Pelotas-RS, bem como a população
em geral. Sendo desenvolvido com uma equipe inicial formada pelo coordenador
e dois discentes da Licenciatura em Química, o projeto recebeu colaboração direta
de docentes da área da Educação Química, atuantes no Laboratório de Ensino de
Química (LABEQ), de docentes da área da pesquisa Química (particularmente, o
coordenador do Programa de Pós-Graduação em Química, como articulador do
projeto internamente) e de discentes do curso de Licenciatura em Química. Esse
grupo, então, torna possível as ações de desenvolver propostas de divulgação da
ciência e de apropriação pública da ciência para os espaços escolares (a partir tan-
to de escolas já conveniadas ao grupo LABEQ quanto com demais escolas) e da
cidade de Pelotas expressos no projeto.
Além disso, pautados na real diminuição da procura pelos cursos de Química, o
projeto também visa mobilizar e incentivar os estudantes de nível escolar à apro-
priação e aproximação com o campo da ciência, em especial a Química, vendo
esta como uma opção futura de formação e atuação.
Como construção central da proposta, o projeto visa a elaboração de mate-
riais físicos e digitais de divulgação do conhecimento científico que sejam de livre
acesso, de modo a permitir a ampliação do contato do público não universitário às
pesquisas desenvolvidas no Centro de Ciências Químicas, Farmacêuticas e de Ali-
mentos da UFPel (CCQFA) voltadas especialmente à área da Química. Para isso, o
projeto trabalha com parcerias e integração entre as pesquisas desenvolvidas den-
tro do próprio centro, articulando a comunidade não acadêmica e os programas
de pós-graduação da universidade, em especial o Programa de Pós-Graduação em
Química da UFPel (PPGQ).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 394
A metodologia utilizada durante a execução do projeto está organizada em
quatro etapas de trabalho. Na primeira etapa se tem o foco na articulação da equi-
pe de trabalho com as diferentes pesquisas realizadas no âmbito do CCQFA volta-
das à área da Química, especialmente aquelas desenvolvidas no PPGQ. A segunda
etapa tem como foco o estudo das pesquisas que se integraram na primeira etapa
ao projeto. Esse estudo tem se utilizado de metodologias qualitativas (GÜNTER,
2006; SANDÍM-ESTEBAN, 2010; ROMANOWSKI e ENS, 2006) para seu desenvol-
vimento, dando-se destaque aos processos de entrevista com os grupos desenvol-
vedores das pesquisas e seus sujeitos, bem como a estudos bibliográficos voltados
aos materiais e artigos produzidos pelas investigações que se desejará divulgar. A
terceira etapa está voltada à produção de materiais físicos e digitais (como info-
gráficos digitais, esquemas em papel, banners, etc.) que visam a divulgação das
pesquisas estudadas na etapa anterior. Ainda na terceira etapa está prevista a ava-
liação do material desenvolvido neste projeto pelos grupos que desenvolvem as
pesquisas que se deseja divulgar, a fim de que o material produzido tenha suficien-
te qualidade para o processo de divulgação. Por fim, a quarta e fundamental etapa
é a divulgação em si das pesquisas nos espaços fora da universidade. Para esta
etapa serão utilizados os materiais produzidos na etapa anterior em articulação
com os integrantes da equipe de trabalho, que serão os mediadores do processo
de divulgação. O público do projeto contempla tanto aqueles escolares, em ações
realizadas especificamente dentro das escolas, quanto um público diverso, que
poderá participar das ações de divulgação por meio da integração deste projeto
em feiras realizadas pela universidade e em eventos organizados pela prefeitura
da cidade nos espaços públicos.
Das etapas previstas, até o momento já realizamos a primeira etapa, na qual
consistiuna organização do grupo de trabalho, envolvendo os grupos de pesquisa
do PPGQ, e agora estamos finalizando a etapa 2, que consiste em dois estágios:
i) analisar os artigos dos professores que atuam no Centro de Ciências Químicas,
Farmacêuticas e de Alimentos(CCQFA);eii) realizar entrevistas para que possamos
entender sobre determinados assuntos que são apontados nas pesquisas de ino-
vação nas sub-áreas da Química. A ideia é que até o final do ano possamos avançar
e completar a etapa 3, para iniciar o ano de 2020 centrados na divulgaçãodas ativi-
dades e materiais propostos nas escolas e na comunidade de Pelotas.
Baseado nos dados e resultados obtidos até o instante, constatamos que na
maioria dos trabalhos, emerge a temática da Química relacionada ao meio am-
biente, sendo este discutido por meio de pesquisas voltadas à minimização ou re-
mediação da poluição,na análise sobre a presença de contaminantes, no estudo e
otimização dos processos de degradação, etc. Relacionando tais discussões com a
Química da Escola Básica, destacam-se principais assuntos e conteúdos nos quais
as pesquisas desenvolvidas pelo PPGQ podem se articular com a aulas de Química
do Ensino Médio, contribuindo com sua divulgação e inserção já na escola. Ainda
que tais resultados sejam parciais, desde já estamos evidenciando grandes poten-
cialidades de articulação com a escola e com a população em geral, pois, por mais
distintos que sejam os focos, a linguagem, a estrutura e os modos de produção do
conhecimento científico, já nas entrevistas iniciais e na leitura dos trabalhos ela-
borados pelos grupos de pesquisa Química do CCQFA temos analisado a presença
potencial, ainda que silenciosa, dessas pesquisas no cotidiano das pessoas e, as-
sim, isso viabiliza e exige sua pronta apropriação.
Por conta dessas percepções iniciais, nesta proposta, quando tratamos das
ações a serem realizadas nas escolas, buscamos mais do que simplesmente uma

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 395
comunicação “pontual”. O projeto visa, já em 2020, iniciar uma série de articula-
ções e integração de ações, junto a docentes da rede, para divulgar e inserir no
conjunto das aulas os elementos de divulgação científica trabalhados. Isso porque
neste projeto acreditamos que a inserção da ciência no ambiente escolar deve se
dar de modo mais intenso do que simplesmente uma “comunicação” isolada, mas
deve, sim, buscar meios de integrar, permear e estar inserida ao longo das discus-
sões do processo [Link], nesse projeto, torna-se possível a ampliação dos
modos de pensar, das possibilidades e dos possíveis mundos a serem descobertos
por públicos que, devidoa diferentes processos de constituição individual, podem
desconhecer os múltiploscampos de investigações no nível da ciência e, em es-
pecial, da Química, sendomobilizados a conhecê-los mais intensamente e, talvez,
seguir uma formação nesse campo.

Considerações Finais
O propósito deste trabalho é levar o conhecimento e produção científica que
é feito na Universidade a espaços para além dela. Mais do que apenas apresentar
para os alunos das escolas e também à comunidade de modo didático e de fácil
entendimento as produções da ciência Química, neste projeto temos por base a
organização de ações perenes de discussão, compreensão e divulgação, fazendo
com que se despertem não apenas a curiosidade e o interesse nos indivíduos, mas
também sua compreensão sobre os diferentes processos cotidianos e sua intrín-
seca relação com a Ciência. Nesse sentido, é de extrema importância esse conhe-
cimento ser levado para um público leigo, pois desmistifica a ideia de que Ciência
é algo distante e feita para poucos, além de criar um senso crítico da sociedade
em reação a produção científica. Cada vez mais estamos motivados na busca pelo
conhecimento, e com isso, a popularização da ciência se torna importante.
Conforme apontado, para a realização qualificada das ações de divulgação do
projeto são necessárias várias etapas que, num olhar restrito, não parecem ser de
efetiva “extensão”, haja visto seu caráter ainda interno à Universidade. Contudo,
assumimos que o falar seriamente de extensão implica grande cuidado com a ela-
boração dos materiais e, principalmente, um efetivo respeito com o público que
terá acesso a esses materiais, o que nos encaminhou a traçar, ao longo do ano de
2019, uma série de ações de planejamento e construção dos materiais e estraté-
gias (tanto na construção do material a ser utilizado, quanto na articulação com os
pesquisadores e as pesquisadoras da área da Química) e de ensino (uma vez que os
achados desses projeto retroalimentarão as próprias disciplinas da área de Ensino
de Química que tocam no tema da divulgação científica) para, em 2020, iniciar as
etapas de contato com o público mais geral.
Por fim, cabe ressaltar que, cada vez mais expandem-se as fronteiras do co-
nhecimento e, como afirmou Bachelard (2008), evidenciá-las já implica em ultra-
passá-las, de modo que acreditamos contribuir para essa ampliação quando nos
propomos a levar a um público não-especialista aquilo que tem sido realizado e
produzido num campo específico. Mais do que uma simples divulgação, este pro-
jeto de extensão se vê como um articulador e potencializadorda apropriação do
conhecimento pelo público, na expectativa de qualificar sempre os efeitos dessa
apropriação, seja no contexto escolarizado ou no contexto da sociedade em geral.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 396
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jan-mar, 2017.

SOBRE OS AUTORES
Bruno dos Santos Pastoriza, gra- em Química na UFPel. Bolsista no Pro-
duado em Licenciatura em Química grama Institucional de Bolsas de Ini-
pela UFRGS. Doutor em Educação em ciação à Docência (PIBID) e voluntá-
Ciências pela UFRGS-UFSM-FURG, é ria no projeto de extensão A Química
professor da UFPel e Coordenador do vai à Escola e à Comunidade. Email:
Laboratório de Ensino de Química (LA- [Link].22@[Link]
BEQ). Coordena o projeto de extensão
A Química vai à Escola e à Comunida- Roger Bruno de Mendonça, gradu-
ando no curso de Licenciatura em Quí-
de e também atua em outras áreas e
mica na UFPel. Voluntário no projeto de
projetos de ensino e pesquisa. Email:
extensão A química vai à Escola e à Co-
bspastoriza@[Link]
munidade. Email: rogerbruno2009@
[Link]
Bruna Gabriele Eichholz Vieira,
graduanda no curso de Licenciatura

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº1 399
BRINCANDO DE FAZ-DE-CONTA:
A EXPLORAÇÃO DE DISTINTAS
PEDAGOGIAS TEATRAIS NO TRABALHO
DESENVOLVIDO COM CRIANÇAS DO
INSTITUTO NOSSA SENHORA
DA CONCEIÇÃO

Marina de Oliveira
Karolina da Rosa Mendes
Luciane dos Santos Avila
Maiara da Silveira de Oliveira
Rafael de Camargo Bueno
Wesley Fróis Aragão

O “Brincando de faz-de-conta”
O “Brincando de faz-de-conta”1 surgiu em 2017, a partir de uma demanda do
Instituto Nossa Senhora da Conceição, que manifestou interesse de que as alunas
atendidas tivessem contato com o fazer teatral. O Instituto localiza-se no cen-
tro da cidade de Pelotas e acolhe cerca de setenta e cinco alunas, em situação de
vulnerabilidade social, durante o contraturno das aulas. Todas as manhãs, após o
término do ensino regular na escola, elas são conduzidas por uma monitora até as
dependências do Instituto, onde almoçam. No período da tarde, elas têm reforço
dos conteúdos vistos na escola, aulas de informática, assistências odontológica
e psicológica, entre outras atividades. As setenta e cinco alunas são divididas em
três turmas, por faixa etária. A turma um, com idades entre 6 e 8 anos, fica sob
responsabilidade da professora Francine Mesquita; a turma dois, entre 8 e 10 anos,
com a professora Cristiane de Azevedo Dias; e a três, entre 10 e 12 anos, com a
professora Elza Cristina Schuch Vieira.
O projeto iniciou as suas atividades no Instituto Nossa Senhora da Conceição
EDUCAÇÃO Nº2

em abril de 2017, com oficinas teatrais realizadas às quintas-feiras, das 13h30 às

1 Inicialmente, o projeto chamava-se “Brincando de faz-de-conta: a exploração do lúdico nas séries ini-
ciais”. Em 2019, passou a denominar-se: “Brincando de faz-de-conta: teatro no Instituto Nossa Senhora da
Conceição”.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 400


15h302, com a coordenação da profª. Marina de Oliveira. Na ocasião, eram moni-
tores os discentes Luciane dos Santos Avila, Rafael de Camargo Bueno3 e Wesley
Fróis Aragão, que conduziram vivências teatrais para a turma um de alunas do Ins-
tituto, composta por vinte e cinco crianças, com idades entre seis e oito anos. As
aulas de teatro acontecem num espaço do Instituto denominado de “descanso”,
uma sala ampla, localizada no primeiro andar do prédio, com piso frio, algumas
pilastras, armários, quadro negro, duas televisões e a presença de cubos coloridos
para as crianças sentarem.
Importante destacar que o Instituto é um excelente espaço para desenvolver
o projeto “Brincando”, por pelo menos três razões: boa estrutura em termos físi-
cos – salas de aula, banheiros, refeitório, quadra, cozinha, sala de leitura; equipe
de profissionais qualificada e que recebe com carinho os monitores e a equipe da
Universidade, realizando um trabalho de parceria através de reuniões avaliativas
do projeto; o fato de as meninas atendidas pelo Instituto encontrarem-se em vul-
nerabilidade social, sendo, portanto, público-alvo da extensão, por tratar-se de um
grupo que só teria acesso a essas atividades através da ação da Universidade e seus
projetos que chegam de forma gratuita para a comunidade. Nesses momentos
avaliativos, em que participam as professoras das turmas atendidas, a assistente
social Liz Helena Rodrigues e os monitores e a coordenadora do projeto, falamos
dos aspectos positivos e também das dificuldades, além de compartilharmos in-
formações e experiências de aprendizagem durante as oficinas com as crianças
A seguir, faremos um breve relato do que foi enfatizado em cada ano de traba-
lho desde a existência do projeto.

A positivação de identidades negras, a introdução


do professor-personagem e o início de uma
formação de espectadores
Os primeiros encontros voltaram-se para a condução de jogos tradicionais e de
regras, como “Pega-pega”, “Elefante colorido”, “Estátua”, “Queimada”, “Morto-
-vivo”, “Siga o mestre”, “Coelhinho sai da toca”, entre outros. Esses jogos (SPO-
LIN, 1985), além de serem por si só prazerosos, têm por consequência a integração
do grupo, trabalhando, paralelamente, noções de espaço, cooperação, agilidade
corporal, concentração etc.
Ao longo de 2017, o projeto estabeleceu uma rotina de trabalho, ainda hoje
geralmente desenvolvida, com as seguintes etapas: aquecimento, vivência de jo-
gos tradicionais, jogos teatrais/dramáticos e avaliação. O aquecimento é feito em
roda e composto por exercícios que trabalham as articulações e o alongamento do
corpo, além de já instaurar uma atmosfera de trabalho em grupo. Nos jogos tra-
dicionais, a ênfase está no gasto de energia, pois além de trabalhar diversos aspec-
tos da expressão corporal, esses jogos permitem que as alunas liberem energias
não canalizadas, o que facilita a instauração de uma melhor concentração para a
atividade seguinte. Nos jogos teatrais/dramáticos, as participantes desenvolvem
conhecimentos mais específicos, pertencentes à linguagem teatral, como noções
2 Após a realização das oficinas, há o momento de avaliação, em que os monitores, com ou sem a presen-
ça da coordenadora, avaliam as atividades e programam o próximo encontro.
3 Em outubro de 2017, a discente Brenda Seneme Gobbi entrou no projeto no lugar de Rafael Bueno,
que foi para a Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizar mobilidade acadêmica. Em 2019, quando Rafael
voltou da mobilidade, ele retornou para o projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 401
acerca de espaço, personagem, ação, palco, plateia. Na avalição final, feita em
roda, as alunas são instigadas a dar a sua opinião, refletindo sobre os exercícios
realizados.
Embora essa rotina, da forma que está explicada, possa sugerir que as aulas de
teatro funcionam de modo harmônico e sem dificuldades, a realidade não é essa.
Levando-se em conta a idade das alunas e o seu contexto social por vezes difícil,
já que o Instituto abriga crianças em situação de vulnerabilidade social, uma das
primeiras coisas que chamou a atenção da equipe do “Brincando” foi a elevada
inquietude da turma. Embora tivessem prazer em vivenciar os jogos, as crianças
apresentavam também muita dificuldade de escuta e uma tendência à dispersão.
Queriam brincar, mas tinham dificuldade de se ouvir para combinar as regras. Por
outro lado, mostravam-se afetivas e carentes de atenção.
A primeira investigação proposta às alunas foi acerca de sua família. Pedimos
que desenhassem a sua família e que a apresentassem para os demais. Os resul-
tados foram variados, abrangendo núcleos pequenos, como “a aluna e uma vó”, a
núcleos maiores, como “mãe, tio e dez irmãos”. Novamente observamos a dificul-
dade de escuta do grupo, de modo que foi difícil que todas conseguissem apresen-
tar as suas famílias e serem ouvidas até o final. A partir da apresentação, as alunas
improvisaram cenas, em que se destacaram momentos do cotidiano, como a mãe
acordando a filha para ir à escola ou a família realizando alguma refeição. Nos de-
senhos, chamou a atenção que algumas famílias de alunas, que em sua maioria
são negras, não foram retratadas com a cor negra. Paralelamente, a assistente so-
cial do Instituto, Liz Helena Rodrigues, comentou que algumas das alunas haviam
manifestado insatisfação com o seu cabelo crespo. O relato da assistente social foi
o ponto de partida para que iniciássemos um trabalho transversal de positivação
de identidades negras.
Dessa forma, resolvemos planejar as práticas teatrais aprofundando a discus-
são sobre a história e cultura afro-brasileira, em específico a identidade negra.
Essa proposta está em consonância com a lei 10.639/2003, a qual institui a obri-
gatoriedade de estudar a temática africana e afro-brasileira na educação formal.
Sobre a questão, Nilma Gomes aponta:
Ao introduzir a discussão sistemática das relações étnico-raciais e da his-
tória e cultura africanas e afro-brasileiras, essa legislação impulsiona mu-
danças significativas na escola básica brasileira, articulando o respeito e
o reconhecimento à diversidade étnico-racial com a qualidade social da
educação. (GOMES, 2010, p. 20)
Como era comum falarem e improvisarem sobre princesas, a primeira ação
nesse sentido foi a apresentação de uma caixa contendo imagens de princesas
europeias e de princesas africanas. Depois de visualizar as imagens, elas deveriam
escolher uma e desenhar algo a partir dela. As princesas europeias, por serem co-
nhecidas através dos desenhos da Disney, foram mais procuradas, todavia uma
imagem de princesa negra, que segundo elas era parecida com a personagem
Moana, da Disney, também foi admirada. Nos pareceu clara a carência de figuras
femininas negras no imaginário das alunas. Daí a importância de que os filmes de
animação cinematográficos ou que os desenhos e comerciais de TV proponham
também personagens negras.
A segunda ação foi a contação de narrativas como Cadê Maricota?, de May Shu-
ravel (2006), e Dandara: seus cachos e caracóis, de Maira Suertegaray (2015), que
têm meninas negras como protagonistas. Após ouvir as histórias e visualizar as
ilustrações, as alunas foram orientadas a improvisar cenas a partir da recepção
dessas obras.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 402
A terceira ação foi a oficina de confecção das bonecas abayomis, ministrada
pela professora Luciane Avila. Como introdução, Luciane realizou uma perfor-
mance em que cortava pedaços de sua saia para fazer com os retalhos a boneca
abayomi, tal e qual faziam as mulheres negras sequestradas, durante o cárcere
nos navios negreiros. A professora, também negra, através de uma ação teatral,
contou sobre a violência a que os negros foram submetidos durante o sequestro
em direção ao Brasil. Relatou que as mães, aprisionadas, faziam bonecas com os
retalhos recortados de suas saias, na tentativa de acalmar seus filhos, numa situ-
ação brutal.
Algumas alunas manifestaram surpresa ao ouvirem sobre a violência do se-
questro de negros africanos, ao passo que outras sinalizaram já ter ouvido narrati-
vas similares. Considerando a idade das crianças, de 6 a 8 anos, Luciane não enfa-
tizou ou detalhou acerca desse fato, mas também não omitiu a violência implícita
acerca do contexto dos navios negreiros. Assim, através de uma atividade lúdica, a
confecção de bonecas abayomis, as alunas iniciaram uma construção pedagógica
acerca da memória da violência vinculada à diáspora africana. 4

4 As fotos são da profª. Marina de Oliveira. Os monitores autorizaram que suas imagens fossem divulgadas.

Figuras 1 e 2 -
Oficina de Abayomis
ministrada pela profª
Luciane Avila.
Fonte: Acervo de
fotos do Projeto.⁴

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 403
Outra ação em 2017 foi a introdução do professor-personagem,
responsável por conduzir dramatizações em que “Todos são fazedo-
res, tanto ator como público, indo para onde querem e encarando
qualquer direção que lhes apraz durante o jogo” (SLADE, 1978, p. 18).
Rafael Bueno representou, dessa forma, o “Padrinho Mágico”, que
contou a história da bailarina de pano que queria muito ter um corpo
para dançar de verdade.
A narrativa foi apresentada em dois episódios. No primeiro, Rafa-
el e Wesley apresentaram o conto da boneca que queria dançar, im-
provisado por eles. No segundo episódio, Rafael assumiu a figura do
“Padrinho Mágico” que vai até o Instituto realizar o desejo da boneca.
Uma colega de curso, Tainara Machado, que tem prática de balé, foi
convidada para interpretar o papel da “Bailarina”. A presença do pro-
fessor-personagem deixou as meninas intrigadas, pois elas queriam
saber se o Rafael e o “Padrinho Mágico” eram a mesma pessoa. Esse
foi o ponto de partida para introduzir o conceito de personagem.
Ele interagiu com as meninas aplicando jogos tradicinais e pedindo
ajuda das meninas para transformar a boneca de pano em bailarina.
Elas o ajudaram repetindo a palavra mágica “Abagigabuga”, fazendo
com que a boneca ganhasse vida. A transformação da boneca em bai-
larina, através de um recurso cênico, deixou as alunas encantadas. A
“Bailarina” dançou uma coreografia e, na sequência, deu uma aula de
Figura 3 - O Padrinho balé, de modo que as crianças dançaram junto com ela. Após a apresentação, o
Mágico. “Padrinho Mágico” e a “Bailarina” voltaram para o reino encantado onde ela teria
Fonte: Acervo de muitas apresentações para fazer.
fotos do Projeto. Além das atividades técnicas de construção de conhecimento em teatro, ini-
ciamos ações (retomadas nos anos seguintes) de formação das alunas enquanto
espectadoras, propiciando que elas tivessem acesso a espetáculos teatrais. No fi-
nal de 2017, levamos para o Instituto o espetáculo O reizinho mandão, inspirado na
obra de Ruth Rocha, com a atuação do professor-ator do curso de Teatro, Carlos
Eduardo Pérola.
Levando em conta que assistir a um espetáculo teatral é experiência incomum,
sobretudo para as classes menos favorecidas e que as crianças se constituem en-
quanto espectadoras “por processos de recepção híbridos”, que envolvem “suas
experiências como receptores de televisão, cinema, jogos, sites, músicas, artes
visuais, entre outros” (FER-
REIRA, 2006, p. 118), com-
preendemos a importância
de ofertar às alunas distin-
tas experiências estéticas
teatrais, sempre mediadas
pelos ministrantes das ofi-
cinas.

Figura 4 - professor/
ator Carlos Pérola em
O reizinho mandão.
Fonte: Acervo de
fotos do Projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 404
A ação de novos professores personagens e a
exploração do modelo de ação brechtiano
Em 2018, trabalharam como monitores do “Brincando” os discentes Wesley
Frois Aragão (como bolsista), Brenda Seneme Gobbi, Eduarda Garcia Bento, João
Vitor Soares e Maiara Silveira de Oliveira. As oficinas teatrais foram direcionadas
para duas turmas que ainda não tinham participado do projeto: a intermediária,
com meninas de 8 a 10 anos, e a de mais velhas, com idades entre 10 e 12 anos.
Os encontros aconteceram uma vez por semana, nas quintas-feiras das 13h30 às
15h30 (para a turma dois, intermediária) e às sextas-feiras, das 13h30 às 15h30
(para a turma três, das mais velhas).
Com a turma dois, os monitores Brenda, João e Wesley retomaram o trabalho
de dramatizações com a condução de professores-personagens. No ano anterior,
Figura 5 - Professores ficou visível que as crianças dão mais atenção para a figura do professor se ele se
personagens apresenta como personagem, ficando mais atentas e interessadas. Wesley cons-
interagindo com a truiu o “Sr. Bengalinha”, mestre de cerimônias de um circo que estava à procura de
turma. novos artistas e para encontrá-los conduzia apresentações diversas, compostas de
Fonte: Acervo de improvisações das alunas que eram instigadas a participar do circo. João represen-
fotos do Projeto. tou o palhaço “Eskesserél”, distraído e esquecido de seus afazeres. Brenda, por seu
turno, compôs a bailarina “Estrelinda”,
que morava em uma estrela e que veio
em um foguete para o planeta Terra.
Os professores-personagens foram
apresentados em momentos distin-
tos e, quando apareciam, conduziam
dramatizações feitas pelas alunas, que
eram orientadas a explorar diferentes
energias corporais, a partir da propos-
ta de Arthur Lessac, segundo aponta
a professora Gina Tocchetto Oliveira
(2013).
Assim, conduzidos pelo “Sr. Benga-
linha”, as alunas exploraram a energia
Potency, através de gestos alongados, expansivos e tonificados, experimentados
nos momentos em que cada uma delas constuiu corporalmente a figura de um
mestre de cerimônias de um circo. Com o auxílio de “Eskesserél”, as alunas explo-
raram a energia Radiancy, elétrica, veloz e contagiante para compor cada uma o
seu próprio palhaço ou palhaça. Com “Estrelinda”, as meninas experimentaram a
energia Buoyancy, de flutuação, suave e leve para brincar de serem bailarinas.
Com a turma três, os monitores Eduarda, Maiara e Wesley desenvolveram um
processo criativo que teve como referência a metodologia utilizada pelo encena-
dor alemão Bertolt Brecht, Handlungsmuster, traduzido para o português como
Modelo de Ação. Segundo o professor Vicente Concilio:
A palavra em alemão é composta pelas palavras “ação” (handlung) junto
à palavra que significa “padrão” ou “modelo” (muster). Em inglês o termo
é traduzido como action model. Ou seja, nesses dois casos há ênfase na
ação a ser estabelecida sobre e com o modelo. (CONCILIO, 2016, p. 93).

Desse modo, o texto teatral não é o foco central, mas o princípio-motriz para
a criação. A dramaturgia é vista, nesse sentido, como um modelo que pode gerar
possibilidades diversas de ação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 405
Metade da turma três teve como referência a fábula A semente da verdade, um
conto oriental narrado por Patrícia Engel Secco (2010). A outra baseou-se na narra-
tiva Oiá e o búfalo interior, presente no livro Omo-oba: histórias de princesas, da Kiu-
sam de Oliveira (2009). A semente da verdade foi trazida por uma das professoras
do Instituto, que entendeu ser importante discutir valores morais com as crianças.
Oiá e o búfalo interior foi proposta pelo monitor Wesley, com o objetivo de apro-
fundar a positivação da identidade negra, já abordada no ano anterior. As fábulas
foram contadas para todo o grupo e foi solicitado que as meninas escolhessem
com qual delas gostariam de trabalhar. Um pouco mais da metade optou por A
semente da verdade, ao passo que o restante do grupo escolheu a história de Oiá.
Antes da utilização do modelo de ação, foram explorados princípios básicos da
linguagem teatral, através de jogos propostos por Viola Spolin e por Augusto Boal.
Com Spolin, desenvolveram-se elementos improvisacionais, como o “quem”; o
“onde”; o “quê”, eixos que movem e facilitam a criação; enquanto que, com Boal,
foram enfatizados a sensorialidade, o relacionar-se com o outro, com o espaço e
consigo mesmo.
Observou-se, ao longo do processo e na apresentação final, uma diferença en-
tre os dois grupos. Enquanto o grupo de A semente teve mais dificuldade em se
apropriar da história e contá-la de outra forma, o grupo de Óia não se preocupou
em seguir a narrativa tal e qual estava no livro, explorando outras possibilidades,
inclusive em termos coreográficos. Note-se que, nos dois grupos, os monitores
enfatizaram que a proposta do modelo de ação é justamente construir algo novo a
partir de trechos ou fragmentos do texto referência. Mas, de modo geral, as alunas
Figuras 6 e
7 - Desenho “A de A semente apresentaram uma dificuldade maior em explorar outros percursos
imperatriz” e cena de que não a materialização da narrativa conforme estava proposta no livro. Durante
Oiá e o búfalo. a avaliação final, algumas alunas de A semente comentaram que acharam o pro-
Fonte: Acervo de cesso de Oiá mais interessante, por perceberem que as colegas tiveram um espaço
fotos do Projeto. maior de criação.

Os dois processos criativos, por outro lado, exploraram a construção de estéti-


cas negras, já prevista em Oiá e o búfalo e recriada no caso de A semente, em que as
personagens masculinas foram transformadas em femininas e a referência orien-
tal foi substituída pela africana. Desse modo, o imperador oriental, que chama as
crianças do reino para pedir que plantem uma semente, foi substituído por uma
imperatriz africana, que dá às crianças a mesma missão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 406
Além dos processos acima mencionados, o projeto também levou para as alu-
nas o espetáculo Oduduwa e os sete anéis, que tematizou a origem do universo
segundo a mitologia iorubá, apresentado pelos atores-professores Wesley Fróis
Aragão e Rafael de Camargo Bueno.

Figura 8 - Cena de
Oduduwa e os Sete
Anéis.
Fonte: Acervo de
fotos do Projeto.

Exploração de ritmos, energias corporais e


distintos mecanismos de improvisação
No ano de 2019, atuam como monitores do “Brincando” os discentes do curso
de teatro Karolina da Rosa Mendes e Rafael de Camargo Bueno (como bolsistas),
além de Brenda Seneme Gobbi e Eduarda Garcia Bento. A discente Maiara Silveira
de Oliveira deixou o projeto em setembro e foi substituída por Wesley Goulart Coi-
tinho. As oficinas seguem sendo direcionadas para as turmas dois (intermediária)
e a três (de mais idade). Os encontros acontecem nas terças (turma 2) e nas quin-
tas (turma 3), das 13h30 às 15h30. O diferencial desse ano é que o fato de o projeto
ser contemplado com duas bolsas permitiu uma ampliação do tempo da oficina.
Assim, cada turma foi dividida em dois grupos, de modo que as meninas passaram
a vivenciar duas horas de oficina teatral por semana, ao invés de uma, como ocor-
ria nos anos anteriores.
Com metade da turma dois, nas terças-feiras, Eduarda Bento e Rafael Bueno
estão trabalhando o tema “Descobrindo novos lugares a partir da improvisação”,
tendo como referência o livro Felizmente, o leite, uma história de fantasia do escri-
tor britânico Neil Gaiman (2016). A partir de estímulos como “cidade”, “casa”, “pa-
daria” e “escola”, as alunas têm liberdade para propor diferentes improvisações,
que têm como principal objetivo a materialização do “onde”, do espaço proposto.
Com a outra metade, Brenda e Karolina exploram o tema “Criação de pequenas
cenas a partir de improvisações com personagens”, tendo como referência de
preparação corporal os cinco ritmos de Gabrielle Roth, definidos como “fluente”,
“staccato”, “caos”, “lírico” e “quietude” (ROTH, 2000).
Já na turma três, o grupo conduzido por Rafael Bueno trabalha a apropriação da
peça didática de Brecht Aquele que diz sim e aquele que diz não, através do modelo de
ação, em que o texto teatral do autor alemão é ponto de partida para outras criações.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 407
Figura 9 - Cena a
partir de Aquele que
diz sim e aquele que
diz não.
Fonte: Acervo de
fotos do Projeto.

E a outra metade, composta pelas alunas conduzidas por Karolina e Wesley têm
desenvolvido estratégias cênicas para a contação de histórias, manifestando pre-
ferência por narrativas fantásticas, com a presença de seres sobrenaturais.

Figura 10 -
Improvisando em
diferentes níveis.
Fonte: Acervo de
fotos do Projeto.

Destaca-se que a positivação de identidades negras segue sendo desenvolvida


no “Brincando”, de modo explícito ou não, pois o projeto tem atualmente três mo-
nitores negros, Karolina, Rafael e Wesley. Dois deles são bolsistas, através de edi-
tais direcionados para alunos em vulnerabilidade social ou por ações afirmativas.
A presença deles no projeto é salutar, pois eles são referências importantes para as
crianças que, em sua maioria, são negras.

O impacto do projeto para os monitores, para os


profissionais do Instituto e para as alunas
Além de introduzir os fundamentos da linguagem teatral para as crianças assis-
tidas, outra função importante do “Brincando” é a formação do aluno de teatro que
está se constituindo enquanto professor. Por vezes acontece de o aluno do curso
participar do projeto antes mesmo de realizar os estágios, sendo a experiência no
“Brincando” a sua primeira vivência como professor de teatro. Comunicar-se com

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 408
a turma, desenvolver empatia e demonstrar domínio na condução das atividades
são alguns dos primeiros desafios enfrentados pelos monitores.
A relevância do projeto para a formação dos futuros professores pode ser vista
nas seguintes respostas de alguns monitores, convidados a responder um ques-
tionário5 de avaliação do projeto. Ao serem indagados: “A sua participação como
monitor do ‘Brincando’ contribuiu na sua formação como professor de teatro? De
que forma?”, Luciane Avila, que já atuava como professora da rede pública na área
de História, afirmou:
O “Brincando” foi muito importante na minha formação, pois comecei a
atuar como professora de teatro com crianças, no projeto. Minhas experiên-
cias anteriores eram com adolescentes e adultos. As meninas tinham entre
seis e oito anos e, nessa faixa etária, é outro tempo de aprendizagem, de
escuta, de entrega ao jogo teatral. Nesse sentido, foi um desafio desenvol-
ver os planejamentos e aprender a cada erro e acerto. Ao mesmo tempo foi
muito prazeroso vivenciar esse processo com a turma.

Em oposição a Luciane, experiente no que tange à regência em sala de aula,


Maiara Silveira de Oliveira respondeu:
O projeto “Brincando de faz-de-conta” foi a minha primeira atuação como
professora depois que entrei na universidade. Foi onde pude colocar em prá-
tica todas as teorias que estava estudando, e perceber de que formas elas
fazem ou não sentido na realidade de uma sala de aula. Dentro do projeto,
tive a liberdade de escolher com que metodologias trabalhar e de experi-
mentar junto com as alunas diferentes formas da abordagem teatral, o que
foi de extrema importância para a minha formação. Ter a experiência de
vivenciar o lugar de professora, com o auxílio e supervisão da professora
Marina foi também de extrema importância, pois facilitava a autoanálise e
a forma como estava abordando os diferentes conteúdos teatrais.

Karolina da Rosa Mendes enfatizou a importância de a extensão permitir uma


atuação fora da Universidade, diferente da realizada nos estágios:
O fato de trabalharmos num local à parte da faculdade, com suas próprias
demandas e diretrizes, de sermos expostos e lidarmos (direta e indiretamen-
te) com as diversas realidades ali presentes, tendo uma prática da docência
de uma maneira diferente da feita nos estágios, acrescenta e muito na mi-
nha formação.

Rafael de Camargo Bueno, por seu turno, ponderou que o projeto o fez refletir
sobre a sua atuação enquanto professor:
A minha participação como monitor do “Brincando” contribuiu na minha
formação como professor de teatro ao me apresentar desafios semanais nas
conduções das oficinas com as minhas turmas. Através do projeto encontrei
maneiras diferentes de reinventar a minha condução, ora participando com
as alunas dos jogos propostos, ora apenas orientando. Percebo que para
esse trabalho existe a necessidade da entrega, da afinação da escuta e da
sensibilidade para efetivar a comunicação com as minhas alunas. Entendi
que nesse grande trabalho em grupo sou mais uma peça da engrenagem

5 As repostas de avaliação do projeto foram retiradas desse questionário ou do relatório final de bolsis-
tas, da UFPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 409
chamada aula de teatro e para que ela funcione é necessário que estejamos
em pé de igualdade, eu como professor disposto a aprender com as minhas
aulas e elas como minhas alunas dispostas a aprender comigo. Aprendi que
nem todo mundo gosta de fazer teatro e não há mal nisso. Lidei com críti-
cas junto a minha condução inicialmente, depois com críticas das alunas e
esse processo de ser criticado foi importante para eu reavaliar o meu papel
enquanto professor de teatro e realizar avaliações de onde estava errando
e onde estava acertando.

Já Wesley Frois Aragão, em seu relatório final como bolsista, destacou que o
projeto o fez encontrar soluções pedagógicas, construídas a partir de algumas di-
ficuldades, e estabelecer diálogos ente a teoria e a prática:
Consegui tornar mais autônoma a minha prática enquanto professor. En-
contrei soluções e métodos de organização de aula, aspecto em que antes
tinha alguns problemas. Além do mais, fui capaz de estabelecer conexões
enquanto estudava a teoria da pedagogia do teatro e sua relação com a
prática.

O fato de os alunos do curso de teatro avaliarem como positiva a experiência


no “Brincando” não significa que eles não percebam também dificuldades enfren-
tadas no projeto.
Para Wesley, no mesmo relatório, a dificuldade maior foi “a inconstância das
meninas, o que ocasionou em menos encontros. Isso se deu porque quando elas
não tinham escola regular, as atividades no instituto não aconteciam”. Karolina
Mendes apontou como principal dificuldade o fato de que “Algumas vezes aconte-
ce de as crianças verem as aulas de Teatro como uma recreação”, sem terem a di-
mensão de que o teatro é uma área do conhecimento, com conteúdos específicos.
Já Rafael Bueno refletiu:
Durante o projeto as dificuldades encontradas foram: inicialmente encon-
trar uma forma adequada de conduzir as oficinas. Para mim era muito difícil
dar limites para as meninas, então eu ficava parecendo um amigo grandão
e não o professor delas. Tinha medo de ofendê-las ou de ser grosso demais,
assim acabava não assumindo de fato as rédeas da situação. Posteriormen-
te surgiu o desinteresse de algumas alunas, uma mudança abrupta no com-
portamento da maioria das meninas das turmas, que refletiu diretamente
na condução das aulas. Ao passo que algumas estavam interessadas, ou-
tras ficavam dispersas e as vezes acabavam tirando o foco das alunas que
estavam participando.

E, Luciane, ponderando sobre sua primeira experiência com crianças entre seis
e oito anos, afirmou:
Pensando nessa faixa etária, as meninas o todo tempo testavam os limites
e requeriam nossa atenção. Acredito que essa questão faça parte do desen-
volvimento de qualquer criança, mas torna-se um desafio para o professor
e professora em formação. Tínhamos que pensar o planejamento perceben-
do essas necessidades, compreender a percepção de mundo das meninas e
aliar as práticas teatrais que pretendíamos desenvolver. Além disso, viven-
ciar nossas próprias frustrações quando algo dava errado e aprender nesse
caminho. Essa relação foi um desafio, mas também muito prazerosa porque
a turma partilhava de maneira afetuosa cada aprendizagem possibilitada.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 410
Por outro lado, as professoras que atendem às turmas no contraturno das au-
las, também teceram considerações sobre o “Brincando”. Elas foram convidadas
a responder a seguinte pergunta: “No seu entendimento, qual a contribuição ou
importância do projeto “Brincando de faz-de-conta: teatro no Instituto Nossa Se-
nhora da Conceição?” A professora Cristiane Dias fez a seguinte avaliação:
Acredito que o projeto “Faz-de-conta” é de muita importância para o desen-
volvimento das meninas, desde a descoberta da autonomia, a manifesta-
ção da liberdade do pensamento, da emoção e da imaginação, contribuindo
também na resolução de conflitos e na construção da identidade, de como
se posicionar referente a alguns desafios e medos, valorizando também a
cultura e a arte.

Elza Cristina Vieira respondeu que o projeto é fundamental:


Uma vez que colabora para que elas, através da arte da dramatização e
da linguagem, possam expressar seus sentimentos e vivências de mundo.
O projeto também contribui no desenvolvimento das potencialidades das
meninas e no aprimoramento da criatividade, na socialização e no desen-
volvimento oral e corporal.

A percepção positiva das professoras das turmas sobre o “Brincando” reflete a


relação de parceria que há entre elas e os monitores. Geralmente, quando ocorre
alguma situação mais difícil com uma aluna durante as oficinas de teatro, seja por
indisciplina ou por apresentarem algum incômodo físico, as crianças são orienta-
das a retornarem para a sala de aula, sendo acolhidas pela professora responsável
pela turma.
Seguindo o percurso de avaliação do projeto, as alunas da turma três, com ida-
des entre dez e doze anos, foram convidadas a responder por escrito à seguinte
pergunta: “O que você aprendeu sobre teatro nas oficinas do “Brincando”? As res-
postas6 foram variadas, como “Eu aprendi tudo sobre o respeito, teatro e a sobrevi-
ver perto do 4º ano” (A. M.), “A interpretar pessoas e a conviver com pessoas que não
são minhas amigas” (N.), “que exercício também é teatro, escutar as pessoas, ima-
ginar cenas e personagens” (M. E.), “imitar os outros” (C.), “equilíbrio, brincadeiras”
(M.), “Controle de voz, escutar as pessoas quando estão falando” (V. T), “Eu aprendi
a respeitar (certas pessoas) o próximo” (G.), “Eu aprendi a falar só quando for falar”
(R.), “Eu aprendi que devo ouvir os outros e que o alongamento é muito importante”
(S.), “Eu aprendi a entrar em cena e mais nada” (A.), “Aprendi a entrar em cena e im-
provisar” (F.), “Teatro é caminhar pelo espaço, brincadeira da bolinha e etc. no caso
TUDO” (M. E.), “Aprendi que tem que ouvir e fazer o teatro com as colegas e TUDO
mais” (N.), “O teatro me ensinou o que eu não sei, como pega-pega, água e gelo e
etc. como TUDO”. (M.), “De tudo, depois eu explico. Exemplo: eu gostei de tudo” (T.),
“Eu aprendi a me movimentar melhor” (V.), “Várias coisas que têm ação. A gente tem
uma aula de ação e depois a gente faz uma peça de teatro” (D.), “Bastante coisa.
Exemplo: que quando o outro fala o outro escuta. Então TUDO” (E.), “Que exercitar
também é teatro, imitar os outros” (V. R.).
A ênfase de algumas respostas que mencionam o “aprender a escu-
tar” como um aprendizado reflete o quanto este é um ponto ainda desafiante e
que, volta e meia, precisa ser relembrado. Por outro lado, ao responderem que
aprenderam coisas como “imitar os outros”, “interpretar pessoas”, “deslocar-se
6 As palavras que continham erros gramaticais foram corrigidas, optando-se pela preservação da iden-
tidade das crianças.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 411
pelo espaço”, “entrar em cena e improvisar”, “imaginar cenas e personagens”,
“que exercício também é teatro” etc, as crianças demonstram que estão, à sua
maneira e de acordo com o seu momento cognitivo, se apropriando de certos fun-
damentos da linguagem teatral. Interessante que a menção ao “Tudo”, colocado
em letra maiúscula, em mais de uma resposta, parece indicar que há algo mais
sendo construído como conhecimento, mas que elas ainda não têm condições de
compreender e nomear, de forma técnica.

Avanços e recuos – o fazer teatral em processo


Os monitores do “Brincando” têm liberdade de escolher qual metodologia te-
atral têm interesse de investigar. O projeto, nesse sentido, é entendido como um
campo de exploração em que não existem fórmulas, nem um modelo específico
de atuação para o professor de teatro ou um jeito “certo” de fazer. A coordenadora
assiste de modo regular a algumas aulas e auxilia na avaliação e no planejamento
das atividades. Essas nem sempre acontecem de modo satisfatório, pois às vezes
a dificuldade de escuta e dispersão impedem que determinados exercícios sejam
vivenciados de modo pleno. Mais do que certezas, o projeto levanta dúvidas e por
vezes as aulas podem ser malsucedidas ou mesmo interrompidas por situações
de indisciplina ou não adesão das alunas a determinadas propostas7. Mas toda ex-
periência, boa ou ruim, é entendida como construção e aprendizado pedagógico.
O “Brincando” vem produzindo textos regularmente, apresentados e publica-
dos nos Congressos de Extensão e Cultura (CEC) da UFPel, além de ter sido te-
matizado igualmente no Trabalho de Conclusão de Curso de Wesley Fróis Aragão
(2018): “Brincando de faz-de-conta: a fábula como modelo de ação positivando a
identidade negra na encenação teatral com crianças”.
Muitas vezes o andamento das aulas não transcorre como previsto e essas ex-
periências fazem parte do trabalho docente. Após as aulas, a conversa de avalia-
ção para detectar como as atividades ocorreram geralmente resulta em um desejo
de repensar a metodologia proposta ou mesmo a postura como professores em
formação. Além disso, trabalhar com crianças é um processo constante de engaja-
mento, de modo que a cada avanço ou recuo no “Brincando”, novas potencialida-
des teatrais são construídas.

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ARAGÃO, W. F; BENTO, E. G.; OLIVEIRA, M. S.; OLIVEIRA, M. Brincando de faz-


-de-conta: a fábula como modelo de ação na encenação teatral com crianças. In:
V CONGRESSO DE EXTENSÃO E CULTURA DA UFPEL, 2018, Pelotas. Anais […].
Pelotas, UFPel, 2018, p. 417. Disponível em: [Link]
tensao/files/2018/12/Educa%C3%A7%C3%[Link]. Acesso em: 5 set. 2019.

7 Por exemplo, no relatório do dia 24 set. 2019, Rafael Bueno e Eduarda Bento escreveram que a aula
teve que ser interrompida, de modo que as alunas foram convidadas a voltarem para a sala de aula, tendo
em vista a dificuldade de escuta provocada por uma bagunça generalizada, que não foi revertida de modo
satisfatório.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 412
ARAGÃO, W. F. Brincando de faz-de-conta: a fábula como modelo de ação posi-
tivando a identidade negra na encenação teatral com crianças. 2018. Trabalho de
Conclusão de Curso (Teatro licenciatura) – Universidade Federal de Pelotas. Pelo-
tas, 2018. Disponível em: [Link]
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 413
SOBRE OS AUTORES
Marina de Oliveira, graduada em Maiara da Silveira de Oliveira, gra-
Artes Cênicas pela UFRGS. Doutora em duanda do Curso de Teatro-licenciatura
Teoria da Literatura pela PUCRS. Pro- na UFPel. Vinculada ao projeto nos anos
fessora associada do Centro de Artes de 2018 e 2019. E-mail: maiarasilvo@
da UFPel. Coordenadora do projeto de [Link]
extensão “Brincando de faz-de-conta”.
E-mail: marinadolufpel@[Link] Rafael de Camargo Bueno, gradu-
ado em Teatro-licenciatura pela UFPel.
Karolina da Rosa Mendes, gradu- Bolsista do “Brincando de faz-de-con-
anda do Curso de Teatro-licenciatura ta” no ano de 2019. E-mail: rcbooeno@
na UFPel. Bolsista do “Brincando de [Link]
faz-de-conta” no ano de 2019. E-mail:
karoldrmendes@[Link] Wesley Fróis Aragão, graduado em
Teatro-licenciarura pela UFPel. Profes-
Luciane dos Santos Avila, gradua- sor de Artes do Colegio Pater Dominus
da em Teatro-licenciatura pela UFPEL e professor voluntário de História, no
e em História pela FURG. Mestre em Cursinho Alternativa de Guarulhos. Bol-
Educação pela FURG. Professora da sista do “Brincando de faz-de-conta”
rede municipal de ensino de Pelotas. no ano de 2018. E-mail: [Link]@
Vinculada ao projeto no ano de 2017. [Link]
E-mail: lu-aneavila@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº2 414
VIVÊNCIAS TEATRAIS
NA EMEF GETÚLIO VARGAS:
A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA CRIANDO
POSSIBILIDADES NA ESCOLA

Vanessa Caldeira Leite


Andrisa Kemel Zanella
Maria Fernanda Botelho
Carla Silva Araújo
Naylson Rodrigues Costa

Apresentação
Neste artigo, buscamos dar visibilidade e problematizar a extensão universitá-
ria como criadora de possibilidades no contexto escolar, apresentando as ações e
os impactos do projeto de extensão “Vivências Teatrais em Escolas”, do Curso de
Teatro-Licenciatura da Universidade Federal de Pelotas. Ao longo do texto, desta-
cam-se algumas possibilidades e reflexões sobre o ensino de teatro para crianças,
adolescentes e jovens até então carentes de uma cultura teatral, de ver e de fazer
teatro, que pode ser apontada como uma característica do contexto social em que
a escola e a cidade se encontram. Vale destacar que este texto revisa e amplia as
reflexões do artigo “Experenciar teatro: reflexões de uma prática pedagógica com
alunos do ensino fundamental” (LEITE; COSTA, 2017), publicado nos Anais do XX-
VII Congresso Nacional da Federação de Arte/Educadores do Brasil, em 2017.
O projeto de extensão tem como finalidade desenvolver uma proposta de ensi-
no de teatro, por meio de oficinas em contraturno, na Escola Municipal de Ensino
Fundamental Getúlio Vargas, em Pedro Osório, uma cidade do interior do estado
do Rio Grande do Sul, com alunos dos anos finais do ensino fundamental. As au-
EDUCAÇÃO Nº3

las de teatro acontecem desde o ano de 2017 e são desenvolvidas semanalmente.


Atualmente com dois alunos licenciandos do Curso, coautores deste artigo, como
ministrantes das ações.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 415


O artigo está organizado em três seções nas quais discorre-se, primeiramente,
sobre o contexto da escola e da cidade onde acontece o projeto, algumas de suas
características sociais e culturais. Num segundo momento, trata-se da dinâmica
do projeto, das aulas de teatro e das escolhas teórico-metodológicas, para então,
na sequência, tratar dos avanços percebidos e dos desafios a serem superados,
trazendo as percepções das professoras da escola colaboradoras do projeto, de
uma das acadêmicas, ministrante das oficinas e de estudantes da escola. Para fina-
lizar, procura-se apontar, a partir do processo vivido, as perspectivas futuras para
o seguimento das oficinas e as principais metas do projeto, além de destacar a im-
portância de ações extensionistas para a formação do futuro professor, bem como
para a comunidade envolvida.

O contexto do projeto: uma cidade, uma escola


Pedro Osório, outrora denominada Olimpo, segundo Torres (2014), é um pe-
queno município gaúcho constituído às margens do Rio Piratini, situado na região
sul do estado do Rio Grande do Sul, a 357 Km de distância da capital gaúcha. Hoje
o território (antiga vila Olimpo) tem uma área de 603,9 Km2 e possui 8.191 habi-
tantes e já foi disputada entre os portugueses e espanhóis. A expansão da ferrovia
Rio Grande-Bagé no final do século XIX foi fundamental para o surgimento da ci-
dade, possibilitando o povoado desenvolver-se econômica, social e culturalmente.
Tem sua economia baseada principalmente na agropecuária e comércio. Em 1959
emancipou-se das cidades de Arroio Grande e Canguçu, e em 1996, Cerrito que era
uma parte da cidade de Pedro Osório — dividido pelo rio Piratini, possuía de um
lado a vila Olimpo, de outro a vila Cerrito — emancipou-se, formando duas cida-
des, separadas apenas por uma ponte sobre o rio Piratini.
Embora sendo duas cidades, Pedro Osório e Cerrito, a rotina dos moradores
é a mesma. Algumas pessoas trabalham em um município e residem no outro, e
as duas comunidades participam dos mesmos eventos culturais e compartilham
das mesmas dificuldades econômicas e sociais. Devido às poucas oportunidades
de empregos, muitos jovens saem da cidade em busca de trabalho, outros via-
jam diariamente para trabalhar em cidades vizinhas. As possibilidades de trabalho
existentes estão no comércio, nos serviços gerais, na construção civil, nas lavou-
ras de soja e arroz, nas olarias e serviços públicos. Isso porque a cidade deixou de
se desenvolver economicamente devido às três grandes cheias do rio Piratini e o
desativamento da estação ferroviária, após a queda da ponte do trem, no ano de
1982, durante uma enchente avassaladora. Era um município cheio de movimen-
tação cultural, atraia artistas dos arredores e regiões, fazendo com que assim sur-
gissem pontos de encontros sociais. Torres (2014) em sua pesquisa nos relata que:
Entretanto, quase toda essa movimentação cultural se perdeu. Os cine-
mas fecharam as portas e a população ficou sem um teatro para apreciar
seus artistas locais e visitantes, atividades tão necessárias às denomina-
das “trocas culturais”. (TORRES, 2014, p. 57)

Por outro lado, destaca Leite (2013, p. 38) que nesta cidade, “existe um meio ar-
tístico-cultural muito especial, fruto do trabalho de algumas pessoas que se unem
e buscam movimentos artísticos para a população, pois as políticas públicas não
conseguem garantir esse acesso”. A autora ainda cita personagens interessantes
da cidade, por exemplo, o professor Nelson Abott de Freitas, que foi crítico de arte
e responsável pelos Salões de Arte de Pelotas (de 1977 a 1981), desenvolveu um

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 416
trabalho de educação estética e sensível, durante sua carreira docente na área de
Letras, marcando toda uma geração de pessoas que com ele conviveram e que
permaneceram na cidade envolvidos com a arte.
Também é interessante destacar a pessoa do frentista Santana, apaixonado
pela arte e considerado um fenômeno pela sua bagagem cultural e musical. Res-
ponsável por promover na cidade, há mais de 20 anos, recitais musicais que vão
do erudito ao popular. “Faz assim a cidade ser palco de muitos espetáculos, de
diferentes manifestações artísticas, com apoio de amigos, mas sem faturar nada”
(LEITE, 2013, p. 39). Enfim, uma cidade com muito potencial para as artes, com
pessoas da comunidade envolvidas em mostras culturais e festivais, que são efê-
meros, como o Pedrostock, o Terra & Cor da Canção Nativa, a Semana Internacional
de Arte; eventos representativos do interesse pelas artes.
Entendendo o contexto histórico e cultural do município de Pedro Osório, mes-
mo que brevemente e embora com muitas potencialidades, torna-se claro que
ainda falta uma cultura de acesso às diferentes manifestações de arte, de modo
sistemático, organizado e financiado pelo poder público, garantindo uma política
de promoção e incentivo para as artes, principalmente, em se tratando do público
jovem, crianças e adolescentes que carecem de espaços culturais e de lazer, para
apreciação e criação artística.
Neste contexto encontra-se a Escola Municipal de Ensino Fundamental Getúlio
Vargas, a qual vem cumprindo um papel fundamental para com a comunidade,
conforme aponta Oliveira (2013):
As escolas devem ter como prioridade a promoção do conhecimento
que liberte a pessoa da condição do não conhecer, do não saber e, espe-
cialmente, da ausência do aprender, por depender da estrutura social da
qual faz parte, isto é, de sua realidade cotidiana. (OLIVEIRA, 2013, p. 6)

Fundada em 27 de abril de 1960, teve sua origem em uma pequena “brizoleta”,


que eram escolas padronizadas, com uma arquitetura simples em madeira e pro-
jetadas para atender às necessidades educacionais no interior do Rio Grande do
Sul, durante o governo de Leonel Brizola (1959-1963), por isso o nome “brizoleta”.
Com o crescente número de matrículas, levou-se à necessidade de ampliação da
sua estrutura. Sendo assim, diversas modificações foram realizadas ao longo do
tempo no mesmo prédio. Porém, a prefeitura construiu uma nova sede, sendo a
maior escola do município, e seu novo prédio inaugurado em 30 de dezembro de
2014. A escola atende cerca de 283 alunos do Ensino Fundamental completo, dos
1º anos ao 9º, com um quadro de 42 funcionários. A comunidade do bairro Brasília,
onde localiza-se a escola, orgulha-se da estrutura, da história e do papel social que
a escola exerce, apoiando e participando de todas as atividades.
É nesta instituição que desde 2017 acontece todas as semanas no período ves-
pertino, ou seja, no turno inverso às aulas curriculares, com alunos dos 6º aos 9º
anos, oficinas de iniciação teatral promovidas pelo Projeto de Extensão “Vivências
Teatrais em Escolas”. A parceria se efetivou pelo desejo da escola em oferecer te-
atro para os estudantes, o que resultou na aproximação da Secretaria Municipal
de Educação, Cultura, Turismo e Desporto de Pedro Osório com o curso de Tea-
tro-Licenciatura da UFPel que, por sua vez, tem buscado atender às demandas da
comunidade, pois compreende esta integração como um campo de possibilidade
e aprendizagem para a formação do professor.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 417
Figura 1 – Prédio
atual da Escola
Municipal de Ensino
de Fundamental
Getúlio Vargas.
Fonte: Fotografia
de Maria Fernanda
Botelho, 2019.

A relação que se efetivou entre escola de educação básica e universidade é res-


saltada pela professora de artes da escola, Fernanda Botelho. Ela nos conta como
surge a ideia do teatro na sua escola, através de um depoimento feito para a coor-
denadora do projeto, no ano de 2017:
Por ser professora de artes visuais entendo que o aluno deve ter contato
com as outras linguagens artísticas (teatro, dança e música) para experi-
mentar, conhecer e desenvolver as capacidades de percepção, sensibiliza-
ção e autoconhecimento. Não possuindo habilitação, e não havendo oferta
de vagas para professores de teatro, até o momento, no município, minha
busca é que a E.M.E.F. Getúlio Vargas oportunizasse aos alunos essa expe-
riência através de oficinas teatrais. Neste ano, com sobra de carga horária
devido à redução de matrículas e a troca da direção da escola, surgiu o
convite da escola em desenvolver um projeto de teatro na escola. Surgiu
então a necessidade de buscar a parceria da universidade e assim ofertar
um trabalho de qualidade e que tem como prioridade o desenvolvimento
de um ser sensível, evitando distorções sobre o teatro na escola. (Fernanda
Botelho, depoimento, 2017)1

A fala da professora faz pensar sobre a importância de se ter nas escolas um


professor formado especificamente em cada linguagem artística: artes visuais,
música, teatro e dança, conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL,
1998) apresentam. Este ideal de escola é defendido pelo movimento da Arte-Edu-
cação e pelos professores da área de Arte, a exemplo de Koudela (2002), enten-
dendo como fundamental ao aluno perpassar e aprender as diferentes linguagens
da arte com professores específicos. Porém, esse ideal ainda não se concretizou na
maioria das escolas públicas, como é o caso da EMEF Getúlio Vargas. A professora
formada em artes visuais, percebendo a necessidade de desenvolver um trabalho
com o teatro, procurou a universidade para formar esta parceria. Diz-se “parceria”
porque todos aprendem neste trânsito escola-universidade: os alunos da escola,
que são o foco principal da aprendizagem; as professoras responsáveis pelo proje-
to, que acompanham todos os encontros; os ministrantes das oficinas, que estão
estudando para serem professores de teatro, e as coordenadoras do projeto, que
1 Optou-se por destacar em itálico quando tratar-se de depoimentos dos sujeitos envolvidos com o projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 418
mantêm presença ativa com as realidades escolares para repensar suas práticas
na formação de professores, no âmbito da universidade. Assim, surgiu o projeto
de extensão, efetivando a interação direta e contínua entre a universidade e a co-
munidade.

O projeto e suas realizações para ver e fazer


teatro
O ensino de teatro na escola básica ainda encontra muitas barreiras, pois exis-
te um pensamento do senso comum de que estudar teatro significa apenas estar
em um palco, interpretando personagens de um texto, dramático ou não. Ou seja,
ainda existe uma concepção de que a única finalidade do teatro na escola é o en-
tretenimento através de apresentações, as “pecinhas” realizadas em festividades
ou o ensino de um conteúdo de outra área de conhecimento através da cena e, ig-
noram, muitas vezes, todo o processo pedagógico de aprendizagem de um saber
sensível e estético, proporcionado pelo fazer teatral, independente de um produto
final.
Essa concepção é destacada por Ferreira (2012) ao dizer que:
Historicamente, o teatro acontece nos ambientes educacionais, formais
e informais, em duas ocasiões: nas comemorações de datas festivas e
cívicas ou como ferramenta de apoio a alguma atividade específica de
disciplinas consideradas sérias, desenvolvendo conteúdos de outras
áreas do conhecimento, como se o teatro em si não tivesse seus conte-
údos próprios e de suma importância à formação de um cidadão apto a
relacionar-se com as mais diversas linguagens. (FERREIRA, 2012, p. 9)

O projeto de extensão ora apresentado vem contra esse pensamento hegemô-


nico e nasce do desejo de agregar e de desenvolver as potencialidades criativas
e expressivas de crianças, adolescentes e jovens da educação básica. Destaca-se
também a intenção de despertar o gosto pelas artes em geral e, mais especifica-
mente, apresentar a linguagem cênica como uma possibilidade de criação artística
e fruição estética. E ainda, busca-se contribuir com a formação de indivíduos mais
críticos, reflexivos, participativos e comprometidos com a sua autoformação.
Entende-se que mesmo existindo uma demanda e uma carência de professores
habilitados para o ensino de teatro, pois poucos são os concursos públicos para
essa área em Pelotas e região, o projeto não pretende substituir a figura do pro-
fessor contratado para tal fim, por isso atuamos em contraturno. Justifica-se que
a presença de projetos de extensão como esse, podem gerar o interesse e a divul-
gação para contratação de professores efetivos, ou seja, o objetivo também é de
abrir espaços para que surjam oportunidades de trabalho formal.
Diante disso, as oficinas são planejadas com base nos PCN-Arte (BRASIL, 1998)
e a partir de diferentes metodologias para o ensino de teatro, tais como: jogos e
brincadeiras tradicionais, jogos teatrais, jogos dramáticos, jogos de improvisação,
exercícios de alongamento, aquecimento e relaxamento corporal, expressão cor-
poral, tendo como fundamentação teórica Spolin (2005; 2017), Boal (2004), Rever-
bel (1989) e estudiosos do campo da arte-educação como Ferreira (2012), Koudela
(2002) e Japiassu (2001).
Em 2017, procurava-se manter certa rotina de trabalho, de modo a facili-
tar a adaptação e o entendimento dessas atividades, uma vez que não faz par-
te do currículo o ensino de teatro. Nos anos seguintes, as ações e atividades do

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 419
projeto foram sendo repensadas e recriadas de acordo com o grupo de alunos,
seus desejos e grau de comprometimento, não perdendo o foco de vivenciar o
fazer teatral. Aprofundou-se os elementos que compõem o teatro e as improvi-
sações criadas tornaram-se mais criativas e os participantes mais envolvidos na
construção de personagens e das ações criadas.

A rotina das oficinas


As oficinas, embora flexíveis, costumam seguir um padrão. Inicia-se o encontro
com um momento de acolhida: sentados em roda, faz-se uma breve conversa, ge-
ralmente retoma-se as impressões do último encontro e escuta-se o registro feito
por um aluno no diário coletivo (a ser explicado mais adiante). Feito isso, parte-se
para o alongamento, sucedido de alguns jogos de aquecimento e preparação fí-
sica, para então, adentrar nas atividades específicas de acordo com o objetivo da
oficina do dia.
De modo a elucidar a rotina das oficinas, traz-se alguns exemplos. A preparação
do corpo se dá através de alongamentos físicos e jogos de aquecimento corpo-
ral com brincadeiras e jogos tradicionais, como: “pega-pega” com suas variações;
“morto-vivo”, substituindo a movimentação tradicional (vivo-em-pé, morto-aga-
chado) por movimentos que levam ao alongamento corporal (vivo-em-pé, com
braços esticados para cima; morto-mãos no chão, sem dobrar os joelhos), estimu-
lando a agilidade, o condicionamento físico, a coordenação motora, a atenção, a
concentração e a expressão corporal.
Os jogos tradicionais já compõem o repertório de brincadeiras dos estudantes
e são muito importantes para se introduzir a linguagem do fazer teatral, criando
possibilidades e situações para se conhecer melhor o grupo, pois permitem o sen-
so de cooperação, de atenção às regras do jogo, por serem “atividades de aqueci-
mento físico ou direcionadas unicamente para o fortalecimento da noção de coo-
peração” (JAPIASSU, 2001, p. 80).
Também são trabalhados os jogos com o foco na sensibilização, consciência
Figura 2 – Oficina
com alunos da corporal, concentração e confiança em grupo. Por exemplo, a série de caminha-
escola, série das das proposta por Boal (2004), em que as caminhadas no espaço determinam que o
caminhadas. grupo ande aleatoriamente pelo espaço da sala, respondendo a estímulos, como:
Fonte: Fotografia (1) preencher o espaço a fim de buscar seu equilíbrio; (2) caminhar e parar em es-
de Maria Fernanda tátua, observando se estão deixando espaços vazios e sem equilíbrio; (3) caminhar
Botelho, 2017. em dupla ou trios; (4) caminhar em dupla, ligados a uma determinada parte do
corpo; (5) caminhar sendo puxado por
alguma parte do corpo. Caminhadas
com estímulos sensoriais, com diferen-
tes ritmos e movimentos corporais são
ferramentas pontuais que auxiliam na
tarefa de desconstruir estereótipos e
desmecanizar os corpos. Perceber a si
enquanto corpo e projetar para ele no-
vos movimentos, segundo Boal (2004,
p. 102), leva-nos a compreender que
“mudar nossa maneira de andar nos
faz ativar certas estruturas musculares
pouco utilizadas e nos torna mais cons-
cientes do nosso próprio corpo e de
suas potencialidades”.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 420
Para construir algum material cênico, através do improviso e dos jogos teatrais
como impulsionadores da criação artística, trabalha-se com uma delimitação es-
pacial feita com giz no chão, denominada de “área de jogo”. Segundo Japiassu
(2001):
Esse espaço físico, delimitado a priori para o jogo, pode – e deve – variar
ao longo das sessões (a área de jogo poderá ser qualquer local previa-
mente estabelecido de comum acordo entre os jogadores, dentro da
sala de aula, ou até mesmo fora dela). (JAPIASSU, 2001, p. 73)

Dentro desse espaço participa-se ativamente dos jogos, mantendo a concen-


tração para solucionar o desafio proposto e com um corpo não cotidiano ou extra
cotidiano, o corpo cênico, previamente preparado; fora da área de jogo é possível
que o jogador pare e apenas observe o que acontece na área, porém, sempre em
estado de prontidão para entrar quando for necessário. Utiliza-se também essa
parte externa à área de jogo como um espaço para a plateia (quando há divisão em
grupos — metade da turma joga, a outra metade assiste) e como uma espécie de
“coxia”, para onde o jogador vai quando não está encontrando o foco no jogo, até
reencontrá-lo e sentir-se apto para retornar à ação, conforme já problematizado
anteriormente por Cardona et al. (2018).
Os jogos teatrais, propostos por Viola Spolin (2005), são trabalhados no projeto
por ser uma metodologia de ensino do teatro muito eficaz para grupos de adoles-
centes. Esta abordagem trata de um processo de aprendizagem teatral, por meio
de jogos de regras e da representação corporal consciente, através da fisicaliza-
ção, contrária à dramatização como mera imitação ou cópia. Proporciona prazer
desenvolvendo habilidades e capacidade de entendimento para lidar e resolver
inúmeras situações problemas, com a proposta de cada jogo ter o Ponto de Con-
centração e as perguntas: Quem?, Onde?, O Que? a ser improvisado pelos alunos,
após acordo, para resolver o problema cenicamente. O aluno aprende com a sua
ação corporal os elementos constitutivos da linguagem teatral, personagem, es-
paço e ação dramática, além de torná-lo mais seguro em relação ao jogo, às regras
e ao trabalho em grupo. Isso porque na experiência estará desenvolvendo sua ex-
pressão criativa, por meio da resolução de problemas colocados pelo próprio jogo
teatral proposto pelo professor.
Um exemplo, o jogo da bola: “primeiro, o grupo decide sobre o tamanho da
bola e, depois, os membros jogam a bola de um para o outro no palco. Uma vez
começando o jogo, o professor-diretor dirá que a bola terá vários pesos” (SPOLIN,
2005, p. 57). O jogo teatral, por princípio, se utiliza da imaginação para fisicali-
zar e demonstrar através da ação o tamanho e o peso da bola que recebem. Esse
jogo, além de desenvolver habilidades cênicas utilizando-se de uma nova lingua-
gem através do corpo, também cria uma atmosfera de concentração simultânea
a uma descontração. Durante a improvisação dos jogos teatrais é necessário con-
centrar-se na ação do colega, observando a força que o mesmo utilizava e tam-
bém concentrar-se para “pegar essa bola” e definir seu tamanho. Ao final do jogo,
a avaliação é feita pela plateia, parte dos estudantes, que assistiram o grupo de
jogadores, na tentativa de compreender se foi resolvido cenicamente o problema
inicial, mostrado com o gesto corporal e não contado através da fala.
Com base na tríade Onde?, Quem? e O Quê?, que são, segundo Japiassu (2001,
p. 70) “noções que compõem os princípios fundamentais para a instalação da rea-
lidade cênica [...] da realidade do signo teatral ou da existência propriamente dita
do fenômeno teatral criado com base no jogo”, foi possível avançar nas cenas e

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 421
improvisações elaboradas pelos alunos. A partir do foco do Onde, ocupou-se di-
versos espaços públicos da cidade, como a praça em frente a Igreja São José, o
camping municipal, a pracinha em frente a escola, propondo a criação de cenas a
partir da ressignificação desses espaços. As improvisações foram construídas de
modo que o banco da praça pôde se transformar em um ônibus, o carrossel em
uma sala de jantar etc. Também nestes espaços, personagens foram criados mos-
trando Quem eles eram naquelas cenas.

Figura 3 – Oficina na
praça, ressignificação
dos espaços.
Fonte: Fotografia
de Maria Fernanda
Botelho, 2018.

No decorrer do projeto foi organizada uma caixa de figurinos na escola, com


doações de objetos, roupas e acessórios, de modo a trabalhar a criação de person-
gens a partir de diferentes estímulos e dos jogos dramáticos propostos por Olga
Reverbel (1989). Em vários encontros os alunos puderam escolher seu figurino
para criação de uma ou mais personagens e, a partir destas criações, foram tra-
balhadas várias cenas e improvisos. Para desenvolver a ação dramática (O Quê),
trabalhamos juntamente com exercícios de criação dramatúrgica, construindo pe-
quenas cenas improvisadas a partir de diferentes estímulos, como manchetes de
jornais, obras de arte, histórias da cidade, trechos de poemas, etc.

Figura 4 –
Improvisação e
construção de
personagens com
figurinos.
Fonte: Fotografia
de Maria Fernanda
Botelho, 2018.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 422
O encerramento das aulas se dá, na maioria das vezes, com relaxamento cor-
poral, deitados em colchonetes, com música instrumental tranquila e diferentes
estímulos narrativos para levá-los à lugares tranquilos através da imaginação.
Também se utiliza da sensibilização e percepção do corpo como forma de relaxa-
mento, fazendo-os conectarem-se com o momento e o presente (COSTA; LEITE,
2018, p. 377).
Após o relaxamento, propõem-se o círculo de discussão, “nele, apresenta-se os
protocolos referentes às sessões anteriores e discutem-se as descobertas realiza-
das pelo grupo com as práticas dos jogos teatrais” (JAPIASSU, 2001, p. 71). Ao final
de cada encontro um aluno leva consigo o protocolo, o qual chamamos de “diário
artístico” (GIGANTE et al., 2018) para que cada um possa registrar de maneira livre
as sensações e impressões a respeito do que foi vivenciado no dia. O diário escrito
pelos alunos é um registro onde cada um conta a sua experiência da forma como
desejar, ou ainda:
Os protocolos são as coisas que o aluno quer dizer sobre o que vivenciou
nas aulas de teatro. Eles se referem sempre à última sessão de trabalho
e costumam ser apresentados quando tem início um novo encontro, du-
rante o círculo de discussão inicial. (JAPIASSU, 2001, p. 74)

O diário artístico é um caderno sem pautas, onde as páginas são preenchidas


pelos alunos de forma livre, espontânea e artística. Este diário se torna um feedba-
ck para os ministrantes, proporcionando a oportunidade de registrar os resultados
e os sentimentos provocados pelas atividades. O diário artístico é um espaço de
partilha dos anseios e expectativas pessoais e coletivas acerca das oficinas de tea-
tro na escola. Segundo Gonçalves (2013):
Ao disponibilizar seus corpos para a aprendizagem em arte, os alunos
de teatro acabam não fazendo anotações em seus cadernos, cópias do
quadro-negro, colagens e tarefas, como na maioria das disciplinas que
integram as práticas escolarizadas. Os protocolos constituem-se, des-
se modo, uma metodologia utilizada pelo professor para que os alunos
possam se manifestar por meio de materialidades discursivas sobre suas
aulas. (GONÇALVES, 2013, p. 108)

A importância do diário artístico se dá por ser um meio de comunicação en-


tre os alunos e os ministrantes que ocorre de outra forma que não a instantânea,
podendo-se pensar e criar antes de colocar em prática seu depoimento. O diário
artístico é, ainda, a solução encontrada para ouvir àqueles que em outros momen-
tos não se sentem confortáveis a expressar-se por meio da fala, no momento do
círculo de discussão (GIGANTE et al., 2018).

Fruição teatral: das cenas montadas e da


recepção teatral
Cabe ressaltar que o projeto proporcionou também diferentes atividades de re-
cepção teatral sendo, para a grande maioria do grupo, a primeira experiência de
ver teatro. Tal direcionamento buscou contemplar os três eixos norteadores do
ensino de teatro, abordado pelos PCN-Arte (BRASIL, 1998): a produção, a con-
textualização e a apreciação. Este último eixo é fundamental para ampliação do
repertório cultural dos alunos, a partir da recepção de espetáculos de qualidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 423
A primeira atividade foi realizada em agosto de 2017, com a ida de um grupo de
alunos da escola até a cidade de Pelotas para assistirem, na Biblioteca Pública Pe-
lotense, ao espetáculo teatral: “Dona Frida”, da “Cia. de Teatro Você Sabe Quem”
— com direção de Thales Echeverry e elenco: Aline Cotrim, Dâmaris Cogno, Diego
Carvalho, Eduarda Bento.
Em junho de 2018, levou-se até a escola a aula-espetáculo: “Panorama sobre a
arte do teatro: do rito ao espetáculo”. Sob direção de: Adriano Moraes. Atuação:
Carlos Eduardo Pérola. Figurinos e adereços: Marcelo Silva.

Figura 5 – Cena da
aula espetáculo:
“Panorama sobre a
arte do teatro: do rito
ao espetáculo”.
Fonte: Fotografia
de Maria Fernanda
Botelho, 2018.

No mesmo ano, em outubro, os estudantes envolvidos no projeto foram a Pe-


lotas para assistir ao espetáculo do Coletivo Meiaoito, “Cartão Postal”, ocorrido na
sala Carmen Biasoli, no Centro de Artes da UFPel. Direção de: Lucas Galho. Elenco:
Alice Buchweitz, Brenda Seneme, Gustavo Brocker, Lizi Fonseca e Lucas Galho.
Iluminação: Marcos Kuszner. Sonoplastia: João Vitor. Cartão Postal é baseado na
obra “Os Estonianos”, de Júlia Spadaccini.

Figura 6 – Grupo de
alunos e professoras
com o elenco após
espetáculo do
Coletivo Meia Oito.
Fonte: Fotografia
de Andrisa Kemel
Zanella, 2018.

Desde o início foi trabalhada a ideia de que o objetivo do projeto não era formar
atores ou montar peças, contudo, surgiu por parte dos alunos uma necessidade de
experienciar o estar em cena diante de um público. Aos poucos, os jogos teatrais

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 424
foram originando improvisos bastante elaborados e decidiu-se, por fim, construir
um material cênico para ser apresentado.
A escolha dos livros deu-se a partir da reescritura das histórias de três livros:
“Lá vem o homem do saco”, de Regina Renno, “Os sete camundongos cegos”, de
Ed Young e a poesia “Vai já pra dentro menino”, da autoria de Pedro Bandeira.
Conseguiu-se construir uma única narrativa que englobasse as três obras e, com
ela, iniciaram-se os improvisos e a construção das cenas de forma colaborativa e
dialógica, buscando atender às necessidades e dar espaço para a expansão das
ideias de todos (CARDONA et al., 2018).
Em 2018 foi elaborada uma cena intitulada “O amigo secreto”, tendo como
pano de fundo o tema natalino com uma confraternização entre diferentes per-
sonagens criados individualmente pelos alunos. A cena foi baseada em jogos tea-
trais que já faziam parte das oficinas, tais como: as caminhadas pelo espaço, dar e
tomar o foco e fiscalização de objetos invisíveis. A criação dos personagens se deu
livremente, de modo que surgiram jogador de futebol, modelo, médico, bailarina
etc. Ao final, todos saem cantando e dançando em fila entre a plateia sendo guia-
dos pelo estandarte do projeto, confeccionado pelo próprio grupo.
Em 2019, as primeiras oficinas envolveram os alunos em um processo que de-
sencadeou uma mostra artística do trabalho, com o objetivo de vivenciar o rito
teatral fora de datas festivas promovidas pela escola. A cena “Os mentirosos”, de
Maria Clara Machado, foi apresentada três vezes, em diferentes espaços. Primei-
ramente, para algumas turmas dos primeiros anos do ensino fundamental no au-
ditório, lugar onde realizamos as oficinas. A segunda apresentação foi dentro da
sala de aula de uma das turmas dos anos iniciais e, a terceira, no pátio para os
funcionários e os professores. Desde o primeiro encontro percebeu-se o cresci-
mento individual de cada um, bem como observou-se que os novos integrantes
se familiarizaram rapidamente com a linguagem teatral. Ao longo das semanas as
atividades foram ganhando forma, transformando-se em cenas que nasceram de
movimentos e ações do cotidiano.

Os impactos do projeto sob os diferentes olhares


Na tentativa de perceber os impactos do projeto “Vivências” na Escola Munici-
pal Getúlio Vargas, neste percurso de três anos, foi preciso ouvir a professora co-
laboradora e a diretora da escola, além de trazer algumas impressões dos alunos
registradas no diário artístico e das reflexões dos ministrantes do projeto. A fim
de cercamo-nos das impressões e olhares sobre o projeto, lançou-se a seguinte
pergunta para as professoras: Como você vê os impactos do projeto na escola e
para os participantes? As respostas foram gravadas e, algumas, posteriormente
transcritas aqui.
Conforme indica a professora Fernanda, em depoimento coletado em 2019, os
alunos que hoje estão no projeto estão identificados com a proposta do teatro;
decerto, é uma escolha comprometida, diferentemente do primeiro ano:
Eu vejo algumas diferenças nesses 3 anos. Inicialmente, no primeiro ano, o
grupo que participava, por ser uma novidade na escola porque nunca teve
um projeto de teatro, havia uma euforia, uma empolgação e um movimen-
to muito grande dos alunos para participar desse projeto. Depois, com o
passar do tempo, eu vi que ficaram os alunos que realmente se aproxima-
vam dessa linguagem. Não apenas para ter uma atividade extra na escola
e sim uma atividade em que eles estavam se identificando. [...] Bem, este

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 425
ano, eu acho assim, eu percebo um ano atípico. Esses alunos estão tendo
um comportamento completamente diferente dos anos anteriores. (Fer-
nanda Botelho, depoimento, 2019)

O comprometimento se dá não apenas com o projeto de teatro, mas com as de-


mais ações e atividades que acontecem na escola, conforme indica a professora;
eles se sentem parte da escola, estão ativos e engajados com este espaço:
Todas as vezes que são solicitados, os alunos que participam do projeto
Vivências, respondem rapidamente. Eles participam da banda da escola,
participam de CTG. Enfim, eles estão à frente de todas as iniciativas da
escola, todos os projetos que se abrem eles querem participar. [...] Agora,
recentemente, a gente está participando de um projeto de paisagismo na
escola e eles, todos os alunos que participam do projeto Vivências, respon-
deram ao questionário, que seria um levantamento, um diagnóstico da es-
cola, enquanto que os demais, pouquíssimos participaram. Então, eles têm
opinião, eles têm posicionamento. Eles se sentem escola, eles têm uma vi-
são da escola diferente dos outros alunos. Além de uma autonomia que é
percebida todas as vezes que eles têm que se apresentar, que eles têm que
falar. Eles se apropriam da fala, eles têm uma potência, o que tem trazido
de positivo o Vivências para esses alunos. (Fernanda Botelho, depoimen-
to, 2019)

O projeto “Vivências Teatrais em Escolas” vem atingindo resultados positivos


para além dos objetivos iniciais previstos na elaboração do projeto; empodera-
mento, pertencimento, proteção, busca de ajuda, educação, conhecimento e vida
são elementos destacados pela professora:
Acredito também que o Vivências empoderou certas meninas que fazem
parte do grupo. Tanto que tá um grupo mais feminino mesmo. Mas tem
meninas que tinham problemas muito sérios e que a gente só veio descobrir
porque elas conseguiram se expor, procurar professores, procurar ajuda.
Porque se sentiam protegidas, sentiam acolhidas pela escola. E eu tenho
certeza que foi através das oficinas dos Vivências porque foi depois de par-
ticipar do Vivências que essas meninas conseguiram chegar até os profes-
sores e pedir ajuda. Aí a gente percebe a maior contribuição, porque a gen-
te tá atingido não só a educação, o conhecimento, mas também ajudando
na vida dessas crianças. (Fernanda Botelho, depoimento, 2019)

Na visão da diretora da escola, Cicília Corrêa da Rosa, encontramos os mesmos


sentimentos em relação aos objetivos e impactos do projeto; ela percebe maior
integração entre os alunos, autoconhecimento, desenvolvimento de habilidades
criativas, comunicativas, autoconfiança, responsabilidade e autoestima elevada:
As aulas do Vivências na escola permitiram aos alunos de turmas dife-
rentes uma maior integração. Passaram a ter mais conhecimento sobre
si mesmos, são capazes de expressar mais facilmente suas vontades ou
dúvidas. Além disso, há mais estímulo no uso das habilidades criativas. As
aulas de teatro na escola deixaram os alunos mais comunicativos, confian-
tes e responsáveis, também se nota o aumento da autoestima que é muito
importante porque estão construindo uma imagem positiva de si mesmos.
(Cicília Corrêa da Rosa, depoimento, 2019)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 426
Os alunos que já estão há mais tempo no projeto demonstram melhor desen-
voltura durante as atividades, maior concentração, mantêm o foco por mais tem-
po, demonstram maior consciência corporal, além de ajudar uns aos outros com
observações e críticas construtivas. E, em relação ao jogo, mantêm seus corpos
dispostos e em prontidão durante um período maior, segundo avaliação já realiza-
da pela equipe do projeto no ano de 2018:
Outro aspecto que pudemos observar, foi a diminuição gradual da ini-
bição de alguns, outros que costumavam falar e participar pouco das
práticas têm apresentado um comportamento mais expressivo diante
do grupo e parecem sentir-se à vontade para mergulhar nos jogos. Atra-
vés da leitura do nosso diário de bordo, podemos visualizar nitidamente
uma evolução dos alunos, tanto individual, quanto coletiva; eles arti-
culam sua avaliação de forma objetiva compartilhando suas opiniões e
expectativas sobre o projeto, além de parecerem mais animados para
desenvolverem verbalmente suas impressões diante do grupo. (CAR-
DONA et al., 2018, p. 327)

Através dos registros feitos no diário artístico, percebe-se uma progressão do


entendimento dos alunos sobre o que é o teatro e para que ele serve. Muitos deles
contam que antes do projeto relacionavam teatro a novelas, peças ou o decorar
de falas, e, atualmente, relacionam teatro a compromisso e respeito. Perdeu-se
aquela ideia de que o teatro é apenas o espetáculo e, atualmente, os alunos valori-
zam o processo teatral como um todo e entendem que cada parte desse processo
importa igualmente.
O teatro não é só uma palavra
O teatro é vida,
O teatro é emoção
O teatro é a minha paixão
O teatro é uma coisa muito boa muito legal
No teatro você não fica parado, você se solta, se meche
O teatro é a melhor coisa da minha vida
Mais teatro, menos não!
(Tayanne, 10 anos, depoimento registrado no diário artístico)

Bom, eu achei que o teatro era só decorar falas e deu. Mas percebi que
não é só para decorar é pra se sentir no personagem, é saber o que o per-
sonagem sente o que passa com ele [...] eu acho muito importante é que o
teatro é “respeito”. (Amanda, 14 anos, depoimento registrado no diário
artístico)

Os alunos, por meio do projeto, aprenderam a apropriar-se dos espaços que


seus corpos ocupam e, ainda, muitos relatam no diário artístico o prazer que é
estar nesses diversos espaços fazendo teatro. Demonstram forte interesse e entu-
siasmo para desenvolver as atividades teatrais, e destacam o processo realizado
ao ar livre, aulas na rua, na praça e no camping da cidade como espaço de criação.
Pelos depoimentos acima e as atividades desenvolvidas até o momento, ob-
serva-se que o projeto “Vivências Teatrais em Escolas”, promoveu mudanças sig-
nificativas nos estudantes envolvidos nas ações realizadas e na realidade escolar,
contribuindo para uma transformação na perspectiva individual e também coleti-
va. Para Freire (1991), a transformação de uma sociedade necessita da educação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 427
Figura 7 – Registros
feitos pelos alunos no
diário artístico.
Fonte: Fotografia
de Vanessa Caldeira
Leite, 2019.

Educação que se efetivou nas ações propostas pela extensão universitária, as quais
vêm criando possibilidades de transformação que se iniciam no contexto educa-
tivo, mas também extrapolam os muros da escola ao ser partilhado com a comu-
nidade. Há, deste modo, um movimento de ressignificação do cenário formativo,
artístico e cultural do município de Pedro Osório.
O “Vivências Teatrais em Escolas” visa a constante evolução e tem como foco
o processo em si sem, necessariamente, objetivar um produto final/espetáculo,
aproveitando-se de cada encontro como uma experiência artístico-pedagógica
única e indispensável à fruição da teatralidade. Japiassu (2001) afirma que:
O objetivo do ensino das artes, para a concepção pedagógica essencia-
lista, não é a formação de artistas, mas o domínio, a fluência e a com-
preensão estética dessas complexas formas humanas de expressão que
movimentam processos afetivos, cognitivos e psicomotores. (JAPIAS-
SU, 2001, p. 30)

É importante que o projeto mantenha sua identidade enquanto extensão, aten-


dendo às necessidades dos estudantes que sentirem-se estimulados a participar,
bem como proporcionando um retorno à escola e à comunidade que a cerca. Bus-
camos manter essa relação com a cidade de Pedro Osório, trabalhando na for-
mação de público e espectadores, mas, principalmente, proporcionando aos es-
tudantes da escola oportunidades de experienciar livremente o teatro como ele
é, sem espetacularizações ou ideias deturpadas sobre as artes cênicas, apenas de-
senvolvendo a natureza do fazer teatral.

Considerações finais
Percebe-se que as crianças, adolescentes e jovens de Pedro Osório são sensíveis
e sonhadores, carregam um olhar ingênuo e curioso sobre o mundo, se entregam
aos jogos, às brincadeiras sem medo de se arriscar. Ao longo do projeto identifi-
cam-se avanços gerados pelo processo, tais como: a busca pela concentração e a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 428
relação com o espaço total, parcial e pessoal; a qualidade de movimentos desme-
canizados e a tentativa de anular estereótipos; o entendimento ágil das atividades
sugeridas, deixando de lado a timidez, o que possibilita, assim, uma entrega total
aos jogos propostos.
Experienciar teatro é uma prática pedagógica poderosa, a qual através do jogo
e da brincadeira propicia ferramentas importantes para a formação desses jovens,
possivelmente tornando-os em seres humanos inteligentes e conscientes de suas
diversas competências e habilidades.
Com as ações realizadas pelo projeto percebe-se a efetiva e necessária relação
universidade e comunidade, ainda no contexto da educação básica, de modo que
os professores de teatro em formação aprendem e se qualificam com a experiên-
cia e os alunos da escola ampliam ainda mais a sensibilidade, a criação, a autono-
mia e a autoexpressão, reverberando, assim, na formação artística e cultural da
comunidade envolvida.

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ção em História, FURG, Rio Grande, 2014.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 430
SOBRE OS AUTORES
Vanessa Caldeira Leite, graduada Maria Fernanda Botelho, gradua-
em Licenciatura em Artes na UFPel, da em Licenciatura em Artes Visuais da
doutora em Educação na UFPel. Pro- UFPel, professora de Artes da E.M.E.F.
fessora Adjunta do Centro de Artes da Getúlio Vargas (Pedro Osório/RS). Co-
UFPel. Coordenadora do Projeto de laboradora do Projeto de Extensão
Extensão Vivências Teatrais em Esco- Vivências Teatrais em Escolas. E-mail:
las. E-mail: [Link]@hotmail. [Link]@[Link]
com
Carla Silva Araújo, aluna do Curso
Andrisa Kemel Zanella, bacharel do Teatro-Licenciatura da UFPel. Bol-
sista do projeto de Extensão Vivências
em Artes Cênicas nas habilitações Dire-
Teatrais em Escolas no ano de 2019 e
ção e Interpretação Teatral pela UFSM
voluntária do projeto em 2017. E-mail:
e licenciada em Pedagogia pela ULBRA,
carla54araujo@[Link]
doutora em Educação pela UFPel. Pro-
fessora Adjunta dos cursos de Dança e Naylson Rodrigues Costa, alu-
Teatro Licenciatura do Centro de Artes no do Curso do Teatro-Licenciatura
da UFPel. Coordenadora adjunta do da UFPel. Bolsista do projeto de Ex-
Projeto de Extensão Vivências Teatrais tensão Vivências Teatrais em Escolas
em Escolas. E-mail: andrisakz@gmail. no ano de 2017 e voluntário do pro-
com jeto nos anos 2018 e 2019. E-mail:
naayrodrigues15@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº3 431
MUSICALIZAÇÃO E INFÂNCIA:
REFLEXÕES SOBRE A FORMAÇÃO DE
PROFESSORES DE MÚSICA A PARTIR DE
PROJETOS DE EXTENSÃO

Regiana Blank Wille


Camila Castro Barboza
Desirée Salles da Costa Gonçalves
Diocelena Miranda
Mileny Jouglard Gomes

A Extensão Universitária e a formação


Refletir sobre a extensão universitária consiste em destacar uma prática aca-
dêmica que necessariamente conecta a universidade e a comunidade e corrobora
para a formação do profissional cidadão, trazendo à tona a comunidade como um
espaço privilegiado para produção de conhecimento significativo e capaz de su-
perar desigualdades sociais (FORPROEX, 2001). Em outras, palavras, a extensão
universitária possibilita a formação e a produção de conhecimentos envolvendo
professores e acadêmicos de forma dialógica, permitindo muitas vezes que a es-
trutura rígida das disciplinas curriculares tenham uma flexibilidade curricular, que
possibilite uma formação mais crítica (JEZINE, 2004).
Segundo o relato de Rodrigues (1997), a extensão no Brasil, desde seu início, em
1930, até 1987, passou por vários períodos e foi sendo moldada de acordo com os
objetivos impostos pelos poderes políticos, sociais e econômicos. O autor destaca
que até, aproximadamente, 1970 a Universidade era subordinada aos poderes do
Estado e voltada para a formação da elite brasileira, desenvolvendo a pesquisa e o
ensino para atender as necessidades dela. Não havia acesso das classes populares
EDUCAÇÃO Nº4

ao ensino superior e, dessa forma, as atividades de pesquisa e ensino não eram


desenvolvidas para solucionar ou discutir os reais problemas dessas classes. Dessa
maneira, as práticas de extensão tinham como objetivo proporcionar cursos técni-
cos para a população para capacitação de mão de obra para o trabalho, assumindo
um caráter assistencialista, que perdurou por vários anos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 432


Quando o país iniciou seu processo de democratização do poder (década de
1980), segundo Rodrigues (1997), foi resgatado o conceito de cidadania. A Univer-
sidade, através do Encontro Nacional de Associações de Docentes (AD’s), buscou
a sua autonomia nos aspectos políticos e científicos para desenvolver a pesquisa
e o ensino. O surgimento do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras
(CRUB), em 1982, passou a discutir a extensão e, através dos vários movimentos
sociais que lutavam pelo acesso ao ensino, o conceito e as práticas de extensão
foram sendo modificados, perdendo esse caráter assistencialista e mercantilista
que vigorava anteriormente.
Logo, a extensão passou a ser vista como uma comunicação e inter-relação
das pesquisas e ensino das universidades com a sociedade (RODRIGUES, 1997).
A Universidade passou por mudanças relacionadas à sua função, a de agente de
transformação social e, para tanto, foi necessária uma maior proximidade com
a comunidade, nas mais diversas escalas e classes sociais. De acordo com Jezine
(2004, p.2), a função acadêmica da extensão se pauta na relação teoria-prática, o
que configura “uma nova visão de extensão universitária, esta passa a se consti-
tuir parte integrante da dinâmica pedagógica curricular do processo de formação
e produção do conhecimento”. Significa envolver professores e alunos de forma
dialógica, alterar a estrutura rígida dos cursos para uma flexibilidade curricular que
possibilite a formação crítica (JEZINE, 2004).
Destacamos que, no Curso de Música Licenciatura da UFPEL, a extensão tem
um papel preponderante na formação dos futuros professores, e aqui em relação
à educação musical infantil. A partir da participação nos projetos de extensão, os
acadêmicos têm um contato com a educação infantil antes mesmo dos estágios
curriculares obrigatórios, ou seja, uma experiência com a comunidade e a área
de formação de forma diferenciada. Essa participação ocorre nos Projetos de Ex-
tensão Musicalização Infantil e Musicalização para Bebês. Enfatizamos, assim, a
importância da extensão para que a formação identitária do futuro profissional
docente possa iniciar antes do estágio em projetos de extensão, os quais possibi-
litam experiências docentes e pedagógicas e também aproximam o acadêmico e
a comunidade Para o graduando de licenciatura, o estágio curricular obrigatório
é limitado tanto pelo tempo de realização quanto pela pouca autonomia dos aca-
dêmicos em realizar atividades e desenvolver metodologias. Por isso, durante a
graduação, os acadêmicos que participam de projetos de extensão possuem uma
oportunidade a mais de inserção na realidade que encontrarão quando tornarem-
-se profissionais. A extensão possibilita ao acadêmico a experiência na formação
inicial, que segundo Wille (2013), “é repleta de influências, pois o futuro professor
como pessoa não se forma no vazio, formar-se supõe experiências, interações so-
ciais e aprendizagem”. Significa pensar a formação como “um processo de sociali-
zação em que contextos familiares, escolares e profissionais se mesclam, originan-
do cada história de vida numa construção sutil, que ultrapassa as dificuldades, os
obstáculos e que busca aproveitar os acessos apresentados” (WILLE. 2013, p. 107).
E os projetos de extensão compõem um desses acessos, de modo que os acadêmi-
cos se formam e se transformam sempre em interação com o contexto e com as
multiplicidades que cruzam suas vidas ainda na universidade.
Reiteramos, portanto, a contribuição dos projetos de extensão na formação
profissional de graduandos de licenciaturas a partir do contato entre o aprendiza-
do na Universidade e a aplicabilidade de sua profissão na sociedade, conhecendo
a prática de sua profissão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 433
Ao desenvolvermos processos de ensino e aprendizagem a partir das práticas
realizadas nos projetos, buscamos uma aproximação e troca de conhecimentos
entre os professores, os acadêmicos e a comunidade. Essa troca ocorre junta-
mente com o ensino e a pesquisa, pois são momentos em que a teoria entra em
confronto com o mundo real, que possui necessidades e anseios. Os conteúdos
abordados dentro da universidade entre professores e alunos estabelecem conta-
to com a realidade e podem ser absorvidos a partir de uma prática real (HENNIN-
GTON, 2005). Em vista disso, a A extensão universitária tem um grande desafio,
que é repensar a relação do ensino e da pesquisa frente às necessidades sociais, o
que significa colocar as contribuições da extensão para que se efetive a cidadania
e a posterior transformação da sociedade. Desta maneira, o modelo extensionista
busca auxiliar a sociedade, contribuindo para a melhoria dos cidadãos (CARBONA-
RI; PEREIRA, 2007).
As atividades dos Projetos Extensão Musicalização para Bebês e Musicalização
Infantil realizam um trabalho fundamentado, organizado e supervisionado. As au-
las são previamente planejadas, o repertório escolhido é estudado, além da su-
pervisão da coordenação do projeto. Tudo o que é realizado no projeto é anterior-
mente planejado e discutido nas reuniões que são realizadas semanalmente para
organização e avaliação. Além disso, o Grupo de Estudos em Educação Musical e
Inclusão (GEEMIN) e o Grupo de Pesquisa Formação Docente e Educação Musical
são outros dois importantes momentos em que há um fazer docente coletivo, seja
para discutir, planejar ou investigar questões relacionadas aos projetos, formando
efetivamente o tripé universitário ensino-pesquisa-extensão na vida dos futuros
professores envolvidos.

Música e Infância
Se partirmos da premissa de que a música é uma construção essencialmente
humana e que se revela nas diferentes expressões culturais e artísticas, ela é um fe-
nômeno universal presente nas diferentes culturas, manifestando-se ao longo de
toda vida. Através da música, podemos manifestar nossas emoções, nos deleitar
esteticamente, nos divertirmos, nos comunicarmos e também a utilizarmos como
elemento dentro de rituais e celebrações. São diferentes funções, em diferentes
tempos e espaços. Desta forma, consideramos que todo o ser humano é musical.
É necessário, então, que, partindo do pressuposto de que a música é uma carac-
terística humana, possamos desmistificar o conceito de que a música seria uma
atividade destinada para poucos, e somente alguns podem usufruir dela (GLUS-
CHANKOF; PÉREZ-MORENO, 2017).
Muitos professores (de música também) consideram a música como um privi-
légio de alguns poucos indivíduos agraciados antes mesmo de nascer. Na visão de
Piaget (1954), várias competências - não somente as musicais - são fruto do de-
senvolvimento e podem ser ampliadas por aquele que queira aprender. É necessá-
rio, contudo, considerar as diferenças individuais entre as pessoas, o que causará
alterações de velocidade no progresso das aprendizagens. O autor aponta que o
ensino de música deve propiciar à criança a oportunidade de construção dos seus
conhecimentos musicais. Ao invés de oferecermos tudo pronto ou de forma mecâ-
nica, é mais salutar proporcionarmos momentos de construção do conhecimento.
Nossos educadores musicais já atuantes ou em formação precisam estar conscien-
tes de que suas ações estarão mais respaldadas e seus planejamentos fundamen-
tados se estiverem alicerçados sobre o conhecimento dos processos e etapas do
desenvolvimento dos seus alunos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 434
Assim, eles poderão garantir a continuidade entre suas experiências pessoais
já existentes com a música e o ensino formal a ser compartilhado com seus pares
(BEYER, 1995, p. 30).
Segundo Trevarthen (2011), os seres humanos não nascem apenas como indi-
víduos, mas como pessoas sociáveis que buscam outras pessoas, com intenção de
participar da imitação recíproca e na regulação emocional mútua das atividades da
vida. Dentro do útero materno, foram nove meses de intenso trabalho de coope-
ração biológica entre as células do embrião em desenvolvimento e entre o feto e o
corpo da mãe e, agora depois de nascer, este pequeno quer expressar emoções e
solicitar atenção da mãe e receber o carinho ou atenção de seus familiares.
Mesmo com poucas horas de vida, os recém-nascidos já colocam em prática
capacidades de comunicação, são combinações de movimentos e vocalizações
(interações), revelando que o sistema nervoso já está em pleno funcionamento.
Os bebês já expressam várias emoções, desde o prazer em reconhecer a voz da
mãe, seu tato, até tristeza, incômodo e impaciência. Além disso, eles têm capaci-
dade de imitar expressões faciais, gestos das mãos, fechar e abrir os olhos e emitir
sonoridades vocais. Estas são capacidades mentais intersubjetivas que acendem
interesse e respostas afetivas nos adultos que os cercam. Destaca-se a questão
da imitação, uma vez que os estudos neurológicos demonstram que possuímos
mecanismos espelhos no cérebro humano, denominados neurônios espelho, que
são ativados quando realizamos determinadas ações, como quando observamos
os outros as realizando. Estas descobertas implicam a compreensão das ações dos
outros, o que vários pesquisadores têm chamado de nascimento da mente com-
partilhada ou social (TREVARTHEN, 2011; PÉREZ-MORENO, 2017).
A emoção e a intenção em compartilhar e expressar são as molas propulsoras
dessas situações de comunicação dos recém-nascidos; assim, podemos dizer que
a função da comunicação infantil vem da necessidade de entrar em contato com
pessoas que compartilham o mesmo entendimento. Para isso, os bebês imitam
sequências de emoção e intenção através de gestos faciais, movimentos corporais
e vocalizações de seus interlocutores, criando uma porta de entrada à aprendiza-
gem da cultura.
Dessa mesma forma, são os pais e outros adultos que estão no entorno,
utilizando sua própria língua e gestos musicais nas interações, o que faz com que o
pequenino absorva as características e esteja familiarizado com uma série de sons.
A infância pode ir sendo conformada por relações de vínculos com vários indivídu-
os, desvinculando-se do primeiro núcleo mãe-bebê para outros, como familiares
e cuidadores. Esse alargamento de relações é extremamente importante para o
desenvolvimento de competências ligadas à comunicação e de relacionamento in-
terpessoal (RODRIGUES; ARRAIS; RODRIGUES, 2013).
Os desenvolvimentos cognitivo e musical estão intimamente conectados.
Somos capazes de perceber que os sons que escutamos estão organizados em um
sistema ao qual chamamos de música, devido às nossas capacidades cognitivas.
Dessa forma a representação de sons em nossa mente permite que possamos en-
tender sistemas sonoros como a linguagem falada e a música. Os bebês já escutam
os sons que os rodeiam antes de nascer, pois seu sistema auditivo já está desenvol-
vido no último trimestre da gravidez. Durante seu primeiro ano de vida, eles são
capazes de perceber variações sutis dos sons que escutam. Significa que podem
detectar a diferença de uma nota em melodias que lhe são familiares e distinguir a
voz de sua mãe das vozes de outras mulheres (COSTA-GIOMI, 2013). São capazes
de refletir uma grande capacidade perceptiva aos parâmetros musicais tais como:

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 435
timbres, velocidade da música, estrutura métrica, contorno melódico das canções
e até mesmo o registro daqueles que cantam (TREHUB, 2001). Mas todas essas
questões nos mostram que os bebês vêm ao mundo preparados para discriminar
os sons com presteza e precisão (ILARI, 2000).
Mas estas capacidades são desenvolvidas a partir das suas experiências musi-
cais, o que significa que a oportunidade de escutar repetidamente determinados
sons e suas combinações colabora para melhorar sua percepção auditiva. Se as
crianças têm a oportunidade de crescerem em um ambiente ou em um entorno
musical rico em sonoridades, serão influenciadas nesse desenvolvimento. As crian-
ças pequenas expressam sua percepção musical através da utilização de símbolos,
tais como os movimentos, desenhos e palavras, e nos primeiros anos os movimen-
tos refletem um senso rítmico, não propriamente correspondente com o pulso ou
uma sincronização mais precisa da estrutura rítmica.
Outras características expressivas também aparecem com mudanças de dinâ-
mica (sons fracos e fortes), a velocidade (sons rápidos e lentos) e até mesmo as
articulações (legato e staccato). Ao trazermos os bebês para uma aula de musi-
calização e participarmos com eles de atividades de movimento (rodas, gestos),
estamos ajudando e orientando sua atenção para as características sonoras que os
rodeiam. É possível, por exemplo, comunicar uma ideia rítmica abstrata com um
movimento concreto ao mexermos os braços do bebê no mesmo ritmo da música,
a isso que se pode chamar de uma cognição musical corpórea (PÉREZ MORENO,
2017).
O desenvolvimento da cognição musical se inicia antes do nascimento e desde
cedo os bebês formam representações cognitivas da música baseadas nas dife-
renças e semelhanças entre os sons. Não é possível afirmar que escutar música na
infância aumente a inteligência, mas esta afeta o processamento neurológico dos
sons trazendo benefícios intelectuais a longo prazo. A complexidade da cognição
musical e a sensibilidade sonora das crianças pequenas, aliadas à gama de músicas
presentes na cultura, mostram como é importante e apropriada a participação de-
las em atividades de educação musical.

A inclusão e o Ensino, Pesquisa e Extensão


A partir da efetivação dos projetos de extensão, outras demandas consideradas
prementes face aos desafios que foram surgindo com o passar dos anos a atuação
com projetos junto à Extensão do Grupo de Pesquisa1 e também o surgimento de
um Grupo de Estudos2 sobre inclusão. Os projetos de extensão começaram a rece-
ber várias crianças com deficiência, num primeiro momento crianças com autismo
(TEA3) e posteriormente outras deficiências. Os projetos de extensão/musicaliza-
ção foram criados para suprirem a demanda de educação musical para bebês e
crianças pequenas, isso significa que não há seleção para ingresso desde que se
tenham vagas qualquer criança pode participar.
Contudo, não tínhamos a percepção nem a experiência em relação à inclusão,
o que se tornou um grande desafio. Dessa forma, o desenvolvimento de ações
1 Grupo de Pesquisa Formação Docente e Educação Musical registrado no Diretório de Grupos de Pes-
quisa do CNPQ.
2 O Grupo de Estudos em Educação Musical em Inclusão é um Projeto de Ensino registrado na Pró-Rei-
toria de Graduação da UFPEL e conta com uma bolsista no ano de 2017 e 2018. Neste grupo participam todos
os acadêmicos dos projetos de extensão.
3 Transtorno do Espectro Autista.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 436
pedagógicas em educação musical para os projetos voltados à infância e com foco
na inclusão necessitam de uma formatação que pudesse conectar efetivamente a
formação dos futuros professores, que fosse capaz de congregar ensino, pesquisa
e extensão. Assim, o trabalho na formação de professores de música necessitou
estar qualificado também nesta faixa-etária e os projetos específicos voltados à
educação infantil qualificados ainda mais, unindo o ensino, a ação e a pesquisa.
A partir daí, consideramos necessário observarmos, discutirmos e até mesmo
revermos o que havíamos realizado na educação infantil e se fosse necessário mu-
darmos nossas práticas. Foram ações extremamente necessárias se considerar-
mos que o trabalho envolvendo a música ocorre:
[…] pela exploração, pela pesquisa e criação. Pela integração de subje-
tivo e objetivo, de sujeito e objeto, pela elaboração de hipóteses e com-
paração de possibilidades, pela ampliação de recursos, respeitando as
experiências prévias, a maturidade, a cultura do aluno, seus interesses e
sua motivação interna e externa (BRITO, 2003, p. 53).

Assim, o trabalho na formação de professores de música necessitaria estar


ainda mais qualificado também nesta faixa-etária. A realização de investigações
voltadas aos projetos que se dedicam à infância e à música dentro do Curso de
Música - Licenciatura vieram suprir uma demanda importante na qualificação do
licenciandos e de suas ações durante o curso. Nossas intenções têm sido tornar
nossos acadêmicos/futuros professores de música, profissionais mais preparados,
conscientes de suas práticas e o mais importante, participantes destas reflexões
e possíveis mudanças. Fazer com que os futuros professores pensem suas práti-
cas desde já pressupõe torná-los reflexivos e independentes desde o início de sua
construção enquanto docentes de música.
O GEEMIN foi criado em virtude da elevada demanda de crianças autistas, com
Síndrome de Down e paralisia cerebral, que entraram para o projeto através de in-
dicações de outros profissionais, como fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais,
psicólogos, entre outros, que compreendem a educação musical como forma de
desenvolver áreas importantes no que tange o pleno desenvolvimento infantil.
Sabendo do desafio que teríamos em continuar nosso projeto de musicalização
com crianças atípicas, observamos a necessidade de estudar formas de incluí-las
em nosso planejamento, de maneira que pudessem desfrutar dos conhecimentos
proporcionados da mesma forma que os demais.
Sendo assim, nos encontros do grupo, lemos textos sobre formas de inclusão,
comportamento da criança autista, desenvolvimento da criança com síndrome de
Down, bem como da criança com paralisia cerebral. No momento, nos mantemos
focados no estudo do autismo, já que esses estão em maior número no projeto.
No Grupo de Pesquisa Formação Docente e Educação Musical, discutimos so-
bre como está ocorrendo a formação do professor atualmente dentro do curso de
Licenciatura em Música da UFPEL, bem como o processo de ensino aprendizagem
da educação musical, estratégias de ensino para crianças pequenas, levando em
conta que cada criança tem sua própria forma de aprendizado. Ainda, estudamos
técnicas de adaptação para desenvolver o mesmo conteúdo para crianças que
aprendem de formas diferentes.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 437
Os projetos de extensão: música para bebês e
crianças
As atividades pedagógico-musicais oferecidas à comunidade através dos pro-
jetos de extensão ocorrem no LAEMUS - Laboratório de Educação Musical, locali-
zado no Centro de Artes, Bloco II, que faz parte do Curso de Música - Licenciatura
da Universidade Federal de Pelotas. Dentre os projetos de extensão desenvolvidos
no Laboratório, destacamos a Musicalização para Bebês e a Musicalização Infantil.
Os projetos se dividem em Musicalização para Bebês de zero (0) a dois (2) anos e
Musicalização Infantil de dois (2) aos quatro (4) anos.
Trabalhamos atualmente com oito turmas de crianças, a coordenadora e de-
zesseis monitores voluntários. Dentre os objetivos dos projetos estão estimular a
musicalidade dos bebês e crianças, transmitir o conhecimento musical através de
atividades que trabalham o canto, percepção, movimentos corporais e exploração
de instrumentos percussivos. O projeto de Musicalização para Bebês existe desde
2007, dez anos depois a procura pelo projeto e o desejo dos pais que as crianças
permanecessem por mais tempo aumentou significativamente. Foi necessário o
aumento de turmas e a criação de outro projeto que abarcasse essa nova faixa
etária de 2 aos 4 anos de idade.
Assim, surgiu o segundo Projeto, que denominamos Musicalização Infantil, que
trabalha com as turmas de 2-3 e 3-4 anos. Em 2019, participam nos dois projetos
cerca de 80 crianças e há uma fila de espera em torno de 120.
Os encontros da Musicalização acontecem de segunda a quinta-feira, com
duas turmas em cada dia, uma das 18h às 18h30min e a outra das 18h40min às
19h10min. O projeto de Musicalização é aberto à comunidade e desde o ano
de 2014, com outro desafio proposto: a grande procura de pais com filhos
diagnosticados com TEA (Transtorno do Espectro Autista). Esta procura foi gerada
a partir da indicação de psicólogos e fonoaudiólogos que acompanham crianças
com TEA em suas respectivas terapias. O principal motivo da indicação é que a
maioria das atividades de estimulação realizadas com as crianças autistas é es-
truturada individualmente com psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudió-
logos, fisioterapeutas, entre outros, e através do projeto eles podem ter contato
com outros meios de socialização, não somente com fins terapêuticos. Sendo esta
procura continuada, observamos a importância de trabalhar e pesquisar estudos
e alternativas voltados para o TEA - Transtorno de Espectro Autista, e sua relação
com a educação musical.
Segundo Louro (2006),
Não é necessário, portanto, reservar o ensino de música para pessoas
com deficiência somente a instituições especializadas ou direcioná-las
unicamente com intenções terapêuticas, pois assim estaremos negando
o princípio da inclusão social de um contingente expressivo de alunos e,
quem sabe, possíveis profissionais da música. Portanto, as escolas e os
professores de música precisam estar sensíveis e preparados para com-
preender a diversidade de nossa população (LOURO, 2006, p. 30).

O foco do projeto é a musicalização de bebês e crianças e a inclusão, não tendo


como foco a terapia, entretanto, o contato das crianças autistas com a atividade
musical de música precocemente se torna um aliado importante para estimular o
seu desenvolvimento pessoal e social (FERREIRA, 2011).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 438
O autismo é um distúrbio do desenvolvimento humano que vem sendo estu-
dado pela ciência há quase seis décadas, mas sobre o qual ainda permanecem,
dentro do próprio âmbito da ciência, divergências e grandes questões a respon-
der. O autista nasce com um transtorno neurobiológico, ou seja, uma alteração
no desenvolvimento que faz com que ele tenha dificuldades no relacionamento
com as pessoas e com o ambiente onde vive. Ele precisa, assim, de ajuda para se
desenvolver e superar suas limitações. Segundo Afonso (2013):
A música pode contribuir para diminuir estes comprometidos no autista,
possibilitando o desenvolvimento de potenciais e restabelecendo fun-
ções para que ele possa alcançar uma melhor integração intra e/ou inter-
pessoal e, em consequência, uma melhor qualidade de vida (AFONSO,
2013, p. 1396).

Ao planejarmos as aulas dos projetos, consideramos a importância do estímulo


aos bebês e crianças com diagnóstico do Espectro Autista e de sua inclusão, bem
como a importância que as atividades realizadas têm para o desenvolvimento cog-
nitivo e musical. Nosso foco nas aulas dos projetos são a musicalização infantil e
nosso principal objetivo é musical, aproximar o aluno da música através da vivência
musical (MADALOZZO; MADALOZZO, T., 2013). E nessa aproximação utilizamos
a brincadeira como uma interface natural da criança com o mundo (JOLY, 2003).

Planejamento Pedagógico
As aulas do projeto de Musicalização de bebês acontecem uma vez na semana
com duração de 30 minutos. Os bebês são acompanhados pelos pais e/ou cuida-
dores, estimulados por eles, que também participam das atividades musicais. As
aulas estruturam-se na seguinte ordem:
1. Canto de início: boas-vindas aos bebês;
2. Hora do canto: momento que permite a criança se expressar de acordo com
o ritmo e a canção proposta;
3. Expressão corporal: consiste em atividades que irão trabalhar a forma de ex-
pressão não verbal e coordenação motora;
4. Percussão corporal: Movimentos e toques ritmados, batidas no corpo sem
locomoção;
5. Brinquedo projetivo: objetiva exercícios que os cuidadores realizam com os
seus bebês;
6. Movimento sem locomoção: atividade que auxilia na percepção e interiori-
zação da pulsação da música;
7. Movimento com locomoção: bebês acompanham marchas, os saltos, os ga-
lopes, etc;
8. Socialização: objetiva a utilização da música como aliada no ensino de re-
gras, mostrando seus limites de uma forma natural;
9. Danças e cirandas: movimentos corporais geralmente simples;
10. Conjunto de percussão: atividades nas quais os bebês tocam os instrumen-
tos ou brinquedos sonoros;
11. Canto de relaxamento: objetiva relaxar e acalmar os bebês para finalizar as
atividades;
12. Canto de despedida: referência para o bebê que a aula chegou ao fim.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 439
A estrutura das aulas ocorre sempre da mesma forma. São modificadas as can-
ções que serão reproduzidas e os instrumentos que serão apresentados e expe-
rimentados, de forma a relacionar diversos aspectos musicais. Por conta de uma
pequena diferença de idade entre as turmas de segunda e terça (eles possuem
um ano de diferença), há algumas alterações nas atividades para acompanhar o
desenvolvimento dos bebês maiores. Na turma de segunda, por exemplo, o canto
de boas-vindas não trabalha com expressão corporal, enquanto na turma de terça
escolhemos um movimento para o bebê durante a canção.
As aulas seguem uma rotina, para que os bebês saibam quando inicia a aula, o
que irá acontecer em seguida e quando a aula está se encaminhando para o fim.
Isso é importante especialmente para os autistas, que precisam do conforto da or-
dem para que adquiram segurança e apoio para se expressarem musicalmente. As
aulas são planejadas levando em consideração todos os bebês participantes, cada
um com suas especificidades. As atividades muitas vezes não revelam resultados
imediatos, mas sim uma construção da musicalidade dos bebês que vai sendo de-
monstrada ao longo das aulas, e até mesmo fora delas, em casa por exemplo. É
um processo lento e gradual e é possível observar os resultados em alguns bebês
que já estão no projeto desde o ano passado. Para os bebês ingressantes, os resul-
tados vêm aos poucos, conforme as aulas vão acontecendo.
As aulas do Projeto de Musicalização Infantil são estruturadas basicamente da
mesma forma, seguindo uma estrutura de início, meio e fim.. Como as crianças
são maiores e algumas já estão no projeto desde que eram bebês, temos traba-
lhado outros conteúdos de forma progressiva. Inserimos escala musical, contorno
melódico e a percussão instrumental agora trabalhamos explorando o pulso. A in-
tenção é que as atividades realizadas estejam dentro do conceito de totalidade da
pedagogia musical ativa (baseada em ORFF/ WUYTACK).
Consideramos, assim, que o conteúdo das aulas precisa ser apresentado de for-
ma integral explicitando início, meio e fim. Os elementos a serem trabalhados pre-
cisam estar progressivamente organizados para que os alunos fiquem satisfeitos a
partir da tomada de consciência musical, sendo interessante para todos. As crian-
ças passam a ter noção de organização do tempo e procedimentos padrões, per-
cebendo que as atividades acontecem numa sequência lógica, e, ainda, podem en-
tender o que é esperado deles em cada momento (MADALOZZO; MADALOZZO,
T., 2013; RUSSELL, 2005).
Com relação ao repertório, seguimos algumas sugestões do Referencial Curri-
cular Nacional para a Educação Infantil, bem como canções que consideramos in-
teressantes para trabalhar com os pequenos, seja por questões melódica, rítmicas
ou de forma musical. Significa pensar em um repertório geral com ênfase lúdica,
repertório teste mais intuitivo, com atividades de sensibilização e um repertório
simbólico mais intencional e musical sistemático. Procuramos contemplar obras
de música erudita, folclórica, popular, regional, do cancioneiro infantil, cantigas
de roda, de ninar, rimas, parlendas etc. Estamos introduzindo a escuta de diversos
gêneros musicais, diferentes estilos, épocas e culturas, quer sejam da produção
musical brasileira ou de outros países.
Destacamos a importância da variação do repertório, como também o equilí-
brio entre músicas já aprendidas e a inserção de músicas novas. É importante que
os bebês tenham a sensação de conhecer e de reconhecer as canções do repertó-
rio, procurando ainda elos entre as atividades, para que a transição entre ela seja
suave e os bebês compreendam o que está acontecendo. No que se refere aos
autistas, esta é uma questão de vital importância, pois para eles a mudança de
atividade de forma abrupta é de difícil compreensão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 440
Outro recurso que vem sendo introduzido em nossas aulas é o uso de “PECS”,
que significa Sistema de Comunicação por Troca de Figuras, do inglês Picture Ex-
change Communication System. É um procedimento para o processo de ensino e
aprendizagem de pessoas com distúrbios de comunicação, muito utilizado tam-
bém com pessoas com TEA, o qual estimula a funcionalidade da comunicação
por intermédio da troca de figuras. A utilização das PECS tem o intuito de levar a
criança perceber que a comunicação permitirá a ela conseguir mais rapidamente
o que deseja. Também passamos a adotar o conceito de Histórias Sociais junto às
histórias sonorizadas.
A História Social (Story Social ou Story Boards) foi criada por Carol Gray, em
1991, para uso em crianças e adultos com autismo. Ela esperava que isso os ajudas-
se melhor em uma variedade de situações sociais. Embora seu público-alvo fosse
pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), ela havia criado especifi-
camente para pessoas com habilidades de comunicação mais altas. Hoje, o uso de
histórias sociais se expandiu para todos os tipos de estudantes, incluindo aqueles
com déficits significativos de comunicação. Passamos a utilizar as histórias sociais
antes mesmo das aulas, quando pais já preparam seus pequenos antes de chega-
rem na aula contando uma história, preparando as crianças para o que vai aconte-
cer, as atividades, as ações que serão realizadas, etc.
Os materiais utilizados para as aulas incluem ainda instrumentos de percussão
infantil, como ovinhos, maracas, pandeiros, caxixis, triângulos, bem como mate-
riais alternativos, como latas de leite em pó que foram transformadas em peque-
nos tambores, lenços, bolas, fantoches, garrafas pet, etc. Todos os materiais são
utilizados de acordo com o planejamento e necessidades das aulas. Os materiais,
tanto de percussão quanto alternativos, são selecionados pela sua qualidade so-
nora; por outro lado, é importante pensar na segurança e higiene dos materiais
utilizados, estes devem ser resistentes quanto aos materiais e possibilitar a higie-
nização.
É importante ressaltar que o objetivo do projeto com os bebês e crianças é pos-
sibilitar-lhes vivências musicais que contribuam para o seu desenvolvimento musi-
cal e social, e não que estes saiam do projeto tocando algum instrumento musical.
Neste período da vida, em que tudo é novidade, rápido e intenso, é importante
que eles explorem os instrumentos, cantem, utilizem a imaginação e se integrem
ao fenômeno musical. O papel dos pais é extremamente importante porque eles
participam ativamente das aulas e são os responsáveis por levarem para o ambien-
te familiar o que trabalhamos em aula. Muitos são os relatos de que as crianças
realizam as atividades feitas em aula e se mostram mais “musicais” em casa, ou
seja, elas demonstram o quanto são e estão atentas na aula de musicalização, mo-
mento em que absorvem as informações e em casa é tempo de colocar em prática.
No final do ano letivo, realizamos uma grande aula com as turmas em um mo-
mento em que fazemos música em conjunto com muitos amigos. Não realizamos
apresentações e recitais, são períodos momentos em que encerramos um ciclo fa-
zendo o que já vem sendo trabalhado durante todo o ano. Os pais podem convidar
uma ou duas pessoas das suas relações para assistirem e participarem conosco
desse momento. Essa grande aula acontece no auditório do Centro de Artes e é o
momento em que tudo o que trabalhamos durante o ano é lembrado e festejado
numa grande celebração musical.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 441
Considerações Finais
A extensão universitária, a partir dos projetos de musicalização infantil e para
bebês, exerce um papel de grande relevância para a formação de professores que
irão atuar na educação musical infantil. Destacamos que estes proporcionam que
os discentes atuem de forma prática e reflexiva, desenvolvendo as teorias peda-
gógicas e os conhecimentos técnico musicais abordados dentro da academia,
despertando a capacidade de aprender com as vivências reais. Os projetos de ex-
tensão possibilitam que os estudantes de música atuem na educação infantil an-
tes dos estágios obrigatórios, agregando de forma significativa outros sentidos e
conhecimentos à sua formação docente-pedagógico-musical.
As atividades dos projetos de musicalização infantil e para bebês são funda-
mentadas, organizadas e supervisionadas pela coordenadora, as aulas e o repertó-
rio utilizado nelas, bem como planejamento, discussões e avaliação dos métodos
utilizados são planejados previamente durante as reuniões semanais que contam
com a participação dos monitores e a coordenadora. Além das reuniões semanais,
há o grupo de estudos GEEMIN, que é uma forma de os acadêmicos terem conta-
to sobre as diferentes questões relacionadas à inclusão e às deficiências. O grupo
atua fornecendo subsídios e conhecimentos específicos a partir das experiências
nos projetos de musicalização, pois não existem disciplinas específicas voltadas
sobre a temática no currículo do Curso de Música - Licenciatura. O grupo de estu-
dos possibilita aos monitores do projeto fundamentação teórica e instrumentali-
zação necessários às suas ações nos projetos.
As atividades extensionistas são complementos essenciais à formação de pro-
fessores e o principal meio de interação entre a universidade e a sociedade. Nos
projetos de musicalização, uma das propostas é o fazer música em conjunto, a
prática musical em comunidade. Nas atividades, os pais e as crianças estão envol-
vidos e todos estão se desenvolvendo musicalmente, aumentando seus vínculos
familiares e também com outras pessoas, através de atividades de prática musical.
Para Koopman (2007), são três as características centrais do fazer música em
comunidade: o fazer musical colaborativo, o desenvolvimento desta comunidade
e a melhoria ou evolução pessoal. Isso acontece nas aulas quando os pais junto
com seus filhos se envolvem ativamente nas atividades e também junto aos outros
participantes, quando há partilha de experiências, onde pais e crianças, professo-
res e licenciandos estão interagindo e estabelecendo vínculos uns com os outros,
através do fazer musical coletivo.
Consideramos que a construção de significações, a gênese do pensamento e
a própria constituição como sujeito são feitas através das interações constituídas
com outros parceiros em práticas reais e palpáveis através de um ambiente que
reúne circunstâncias, elementos, práticas sociais e significações. Este trabalho
interativo realizado nos projetos de Musicalização Infantil e para Bebês, que se
origina na interação com parceiros, é prolongado por toda a vida, especialmente
na educação escolar, e poderá avalizar, reproduzir e transformar as significações
sociais, abrindo um amplo campo de transformação pessoal.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 442
Referências
AFONSO, Lucyanne de Melo. Música e Autismo: práticas musicais e desenvolvi-
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Pelotas, 2013.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 444
SOBRE AS AUTORAS
Regiana Blank Wille, graduada em Extensão Musicalização Infantil e para
Educação Artística - Habilitação em Bebês, do Grupo de Pesquisa Formação
Música - UFPEL, Doutora em Educação Docente e Educação Musical e Bolsis-
– UFPEL. Professora do Curso de Música ta do Grupo de Estudos em Educação
– Licenciatura, Centro de Artes, UFPEL. Musical e Inclusão. E-mail: salles9917@
Coordenadora e ministrante dos Proje- [Link]
tos de Extensão Musicalização Infantil
e para Bebês e do Grupo de Pesquisa Diocelena Miranda, graduanda do
Formação Docente e Educação Musical Curso de Música – Licenciatura, Centro
e do Projeto de Ensino: Grupo de Estu- de Artes, UFPEL. Monitora e membro
dos em Educação Musical e Inclusão. dos Projetos de Extensão Musicaliza-
E-mail: regianawille@[Link] ção Infantil e para Bebês, do Grupo de
Pesquisa Formação Docente e Educa-
Camila Barboza Castro, graduan- ção Musical e do Grupo de Estudos em
da do Curso de Música – Licenciatu- Educação Musical e Inclusão. E-mail:
ra, Centro de Artes, UFPEL. Monitora lenamiranda94@[Link]
e membro dos Projetos de Extensão
Musicalização Infantil e para Bebês, do Mileny Jouglard Gomes, graduan-
Grupo de Pesquisa Formação Docente da do Curso de Música – Licenciatu-
e Educação Musical e do Grupo de Es- ra, Centro de Artes, UFPEL. Monitora
tudos em Educação Musical e Inclusão. e membro dos Projetos de Extensão
E-mail: castrobcamila@[Link] Musicalização Infantil e para Bebês, do
Grupo de Pesquisa Formação Docente
Desirée Salles da Costa Gonçalves, e Educação Musical e do Grupo de Es-
graduanda do Curso de Música – Li- tudos em Educação Musical e Inclusão.
cenciatura, Centro de Artes, UFPEL. E-mail: milenyjouglard2009@hotmail.
Monitora e membro dos Projetos de com

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº4 445
LEITURA, PRODUÇÃO TEXTUAL
E GRAMÁTICA NA EXTENSÃO
UNIVERSITÁRIA

Paula Fernanda Eick Cardoso

Apresentação
No presente artigo, apresentaremos as atividades desenvolvidas em um pro-
jeto de extensão da Universidade Federal de Pelotas, intitulado Trabalho com as
habilidades de leitura, escrita e interpretação e discutiremos os impactos desse pro-
jeto através da análise de dois dos textos narrativos produzidos por estudantes de
uma turma de quinto ano da rede municipal de ensino, aos quais foram ofertadas
oficinas de leitura e produção textual através desse projeto de extensão. O proje-
to supracitado tem por objetivo desenvolver, de maneira contínua, as habilidades
de leitura e produção de textos dos participantes, bem como motivá-los a usar a
língua portuguesa em sua modalidade oral, a fim de expandir a competência co-
municativa de forma plena.
Os participantes da última edição do projeto vivem em Arroio do Padre, muni-
cípio enclave de Pelotas, que se localiza a cinquenta quilômetros da zona urbana
pelotense e cuja economia é voltada ao setor primário. A população de Arroio do
Padre é estimada em dois mil e oitocentos habitantes, os quais vivem em peque-
nas propriedades rurais.
Os textos resultantes da aplicação das oficinas foram analisados pelos minis-
trantes com base em cinco critérios diferentes: tema, tipo de texto, modalidade
linguística, coerência e coesão. As análises orientaram o processo de reescrita
dos textos pelos estudantes, processo esse que pretendia levá-los a compreen-
der as diferenças entre a modalidade de língua que eles utilizam e aquela com
avaliação social positiva. Essas análises revelaram que as crianças usam o seu co-
nhecimento de linguagem para organizar os pensamentos e construir os textos.
Embora esse conhecimento possa desrespeitar, em certo sentido, os preceitos da
EDUCAÇÃO Nº5

tradição gramatical, ele não é caótico. Ao contrário, é regido por uma gramática,
pois há regularidade, constância e uniformidade na construção das estruturas lin-
guísticas, porém essa gramática pode adotar eventualmente uma lógica diferente
daquela postulada pelas gramáticas normativas. Portanto, ao avaliar os textos dos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 446


estudantes, os ministrantes evitaram tomar por base exclusivamente os preceitos
da tradição gramatical.
Assim, um dos impactos desse projeto de extensão consiste em contribuir tam-
bém para a formação e o aperfeiçoamento de futuros professores de língua portu-
guesa, pois através da preparação e da aplicação das oficinas, bem como da aná-
lise dos textos produzidos pelos participantes do projeto, os ministrantes – alunos
dos cursos de Licenciatura em Letras da Universidade Federal de Pelotas – têm
a oportunidade de desempenhar tarefas próprias da atividade docente, em um
processo orientado e supervisionado pelo coordenador do projeto. As orientações
suscitaram uma importante discussão sobre a necessidade de os professores de
língua portuguesa estudarem as regras subjacentes à modalidade de língua em-
pregada por seus alunos a fim de evitar censurá-los por levar adiante estruturas
que, apesar de estarem enraizadas na língua portuguesa há muitos séculos, não
estão registradas nas gramáticas normativas. As orientações também levaram à
percepção de que há, muitas vezes, um contraste entre as explicações oferecidas
pelas gramáticas normativas e pelos linguistas para determinados fenômenos da
língua portuguesa e que as explicações normativistas podem ser demasiadamente
simples para dar conta da complexidade do português falado no Brasil.
O presente artigo está organizado da seguinte forma: na primeira seção, apa-
recerá a fundamentação teórica, na qual analisaremos as estratégias de retomada
pronominal de objeto direto de terceira pessoa, o estabelecimento da concordân-
cia nominal e a formação das passivas sintéticas com o intuito de destacar que
a variação existente nas estruturas sintáticas do português tem explicações im-
portantes, que podem auxiliar os professores a compreender de forma mais apro-
priada o funcionamento da língua portuguesa. Esse saber é fundamental para os
ministrantes das oficinas, pois norteará a ação pedagógica no projeto. Na seção
seguinte, falaremos sobre o projeto de extensão do qual participaram as crianças
que escreveram os textos, descrevendo a oficina que motivou essas produções.
Na seção posterior, aparecerão dois dos textos produzidos pelas crianças da rede
pública de ensino, bem como as análises de cada um deles. Em seguida, aparecerá
a conclusão. Por fim, serão mencionadas as obras citadas neste artigo.

Fundamentação teórica
A tradição gramatical representa os esforços de muitos estudiosos no sentido
de descrever e explicar a língua portuguesa escrita culta, principalmente seus as-
pectos fonológicos, morfológicos e sintáticos. Talvez por esse motivo muitos pro-
fessores que trabalham com a disciplina de língua portuguesa na rede brasileira de
ensino ainda tomem por base exclusivamente os preceitos da tradição gramatical
para avaliar as produções orais e escritas dos estudantes. Esses professores costu-
mam relatar com certa frequência que seus alunos desconhecem a gramática do
português porque ignoram regras prescritas pela tradição gramatical. Embora a
escola deva ensinar às crianças e aos jovens uma modalidade de língua que des-
conheçam, esse ensino não pode permanecer desconectado do uso efetivo que
os estudantes fazem da língua. O ensino do português não pode restringir-se a
uma única perspectiva acerca dos fenômenos linguísticos. Há a necessidade de os
professores de língua portuguesa adotarem uma visão crítica sobre as prescrições
da tradição gramatical a fim de verificar se elas realmente dão conta da língua que
falamos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 447
Nos textos escritos por crianças, aparecem, por exemplo, estruturas como “Car-
los ama” ou “Carlos ama ela”, as quais são rejeitadas por muitos professores com
base nos preceitos da tradição gramatical. A primeira é considerada incorreta por-
que emprega uma categoria vazia no lugar do complemento verbal, o que resulta
em um suposto desrespeito à regência verbal. A segunda é considerada incorreta
visto que emprega um pronome pessoal do caso reto na função de complemento
verbal (segundo a tradição gramatical, pronomes pessoais do caso reto deveriam
atuar como sujeito). Em seus estudos, Bagno (2002, p. 99-109) apresenta uma ex-
plicação interessante para a ocorrência de frases como as mencionadas acima. A
fim de evitar estruturas avaliadas como demasiadamente corretas, por exemplo,
“Carlos a ama”, os brasileiros criaram uma forma para recuperar um objeto dire-
to de terceira pessoa através do emprego de uma categoria vazia. Essa estrutura
tornou-se possível porque o falante conta com o conhecimento de linguagem do
interlocutor, o qual sabe que, em português, “quem ama ama alguém ou algo”;
portanto, diante de uma sentença do tipo “Carlos ama �”, o interlocutor busca in-
formação no contexto linguístico e extralinguístico para dar significado à categoria
vazia.
Bagno mostra também que a estrutura exemplificada na frase “Carlos ama ela”
não foi criada pelos brasileiros, mas foi trazida para o Brasil pelos portugueses.
Há registros do emprego desse tipo de construção gramatical em textos literá-
rios arcaicos do historiador Fernão Lopes (século XIV): “El-rei, sabendo isto, houve
mui grande pezar, e deitou-o logo fora de sua mercê, e degradou elle e os filhos a
dez leguas de onde que elle fosse” (Bagno, 2002, p.103). A frase chama a atenção
porque há duas ocorrências do pronome “elle”. Na primeira, “elle” atua como com-
plemento verbal de “degradou” e na segunda como sujeito de “fosse”. Além disso,
“elle” co-ocorre com “o” na função de complemento verbal, como está exempli-
ficado em “deitou-o”. Esse fato pode representar um indício de que as duas for-
mas estiveram em competição em certo momento da história do português, mas
a tradição gramatical decidiu registrar apenas uma delas como correta – a forma
com o pronome oblíquo –, talvez porque fosse a estrutura que permitiria ao por-
tuguês aproximar-se da estrutura gramatical do latim, língua de prestígio naquele
momento, na qual havia marcação explícita de caso gramatical. Essa marcação de
caso levava as palavras a apresentar uma forma diferente em virtude da função
sintática que desempenhassem: nominativo (sujeito), acusativo (objeto direto),
dativo(objeto indireto).
Há, portanto, a necessidade de os professores de língua portuguesa adotarem
uma atitude investigativa que lhes permita compreender os usos de línguagem de
seus alunos. A descrição e a explicação, com o apoio das pesquisas linguísticas, dos
supostos “erros” cometidos pelos estudantes poderão evitar que eles sejam puni-
dos em suas produções textuais por usar regras gramaticais que estão presentes
no português há muitos séculos ou ainda por usar regras gramaticais que surgiram
das nossas necessidades comunicativas. Então, antes de propor a reescrita de de-
terminados trechos dos textos dos estudantes, o professor precisa ter em mente
as prováveis explicações interessantes para os supostos “desvios” de linguagem.
Essa atitude pode mudar a orientação do processo ensino/aprendizagem, pois, ao
invés de reforçar preconceitos linguísticos ou simplesmente rejeitar uma forma de
expressão em detrimento de outra, o professor pode tentar analisar, inclusive em
conjunto com a turma, as possíveis causas para o aparecimento de certas formas
de expressão, o que seguramente tornaria a atividade de reescrita mais interes-
sante. As dificuldades eventualmente identificadas nas produções dos alunos de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 448
observar as prescrições da tradição gramatical talvez não signifiquem o desprezo
pelas regras gramaticais, mas sim o uso de regras diferentes daquelas descritas
pelos gramáticos. Um dos impactos do projeto de extensão descrito no presente
artigo consiste justamente em procurar desenvolver essa compreensão do ensino
de língua materna nos estudantes envolvidos no projeto.
Outro fenômeno que precisa ser observado é a marcação de pluralidade. As
gramáticas normativas (Cegalla, 2005, p. 635; Cunha & Cintra, 2013, p.164; Becha-
ra, 2009, p.143) prescrevem que os adjuntos adnominais concordem em número
com os substantivos que caracterizam. Portanto, nós deveríamos dizer e escrever
frases como “Os dois passarinhos pequenos fugiram”, em que a flexão de número
é marcada no artigo (“os”), no numeral (“dois”), no substantivo (“passarinhos”) e
no adjetivo (“pequenos”), além do verbo, que precisa concordar em número (plu-
ral) e pessoa (terceira) com o sintagma nominal “os dois passarinhos pequenos”.
Entretanto, nos textos produzidos por crianças, são identificadas estruturas como
“Os dois passarinho pequeno fugiu”, em que a marcação de número ocorre apenas
no artigo e no numeral (uma espécie de economia linguística).
É importante destacar, entretanto, que no sintagma nominal “os dois passari-
nho pequeno”, a marca da pluralidade não ocorre em qualquer elemento do sin-
tagma. Ela incide sobre o primeiro elemento, que é um determinante compatível
com essa marca, e sobre o numeral. Qualquer pequena alteração no registro da
pluralidade resultaria em uma estrutura agramatical nessa modalidade de língua,
como pode ser observado em: *“o dois passarinhos pequeno”; *“o dois passarinho
pequenos”; *“o dois passarinho pequeno” – o asterisco indica a agramaticalidade
das estruturas. A estrutura gramatical acima, ou seja, aquela à qual conseguimos
atribuir significado (“os dois passarinho pequeno”) é regida por regras tão sofisti-
cadas quanto aquelas que aparecem nas gramáticas normativas, mas diferentes.
Aliás, como lembra Franchi (2006, p.28), essa marcação de pluralidade sobre um
único elemento do sintagma não é propriedade exclusiva da modalidade coloquial
do português brasileiro. Em inglês culto, por exemplo, a marcação de número tam-
bém ocorre sobre um único elemento do sintagma, sobre o nome que atua como
núcleo, como em “the two small birds” (o dois pequeno passarinhos).
Então, quando ouvimos um professor dizer que os estudantes não falam o por-
tuguês corretamente, a modalidade de língua utilizada como parâmetro é aquela
descrita pelas gramáticas normativas. Segundo essas gramáticas, há uma forma
correta de falar o português, cujas regras foram extraídas de obras de importantes
escritores do passado e reconhecidas por gramáticos e professores de língua por-
tuguesa, e várias formas incorretas de falar a nossa língua, que são utilizadas por
muitos falantes, em diferentes dialetos em todo o Brasil. Segundo Othero (2017,
p.49), é importante mencionar, no entanto, que as gramáticas normativas não fi-
zeram uma descrição profunda da língua utilizada pelos escritores para então pro-
por o sistema de regras da modalidade de língua empregada por eles. Ao contrá-
rio, os gramáticos apresentaram regras herdadas da tradição gramatical e depois
buscaram exemplos literários capazes de ilustrá-las. Aliás, muitos exemplos foram
criados pelos próprios gramáticos.
Talvez por esse motivo alguns escritores se surpreendam diante das prescrições
gramaticais. Bagno (2002, p.127-128) menciona frases em que não são observadas
as regras de concordância verbal preconizadas pelas gramáticas normativas para
as passivas sintéticas, frases de Euclides da Cunha e de Carlos Heitor Cony, respecti-
vamente: “Salta-se do trem; transpõe-se poucas centenas de metros entre casas
deprimidas [...]” ou ainda “Num debate entre gente mais culta que eu, reclamei do

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 449
primarismo com que se rotula os outros [...]”. Considerando os preceitos da tradi-
ção gramatical, há um problema de concordância verbal em “transpõe-se poucas
centenas de metros”, pois o verbo deveria aparecer no plural (“transpõem-se”),
visto que o sujeito está no plural (“poucas centenas de metros”). Para as gramáti-
cas normativas, “transpõem-se poucas centenas de metros” equivaleria a “poucas
centenas de metros são transpostas”. O mesmo vale para “primarismo com que
se rotula os outros”, em que “rotula” deveria aparecer no plural: “primarismo com
que se rotulam os outros”, forma equivalente a “primarismo com que os outros são
rotulados”. Como vemos, a tradição gramatical parece não descrever apropriada-
mente nem mesmo a língua utilizada por escritores brasileiros.
De acordo com Bagno (2002), a passiva sintética formada a partir de um pro-
nome apassivador (“se”) não integra a gramática natural de muitos falantes do
português brasileiro – conhecimento de linguagem que internalizamos desde ten-
ra idade. Os brasileiros reconhecem apenas a passiva analítica, que é a estrutura
sintática constituída normalmente pelo verbo auxiliar “ser” mais o particípio de
outro verbo (“O texto já foi lido”; “Casas são erguidas diariamente”; “Os docu-
mentos serão enviados amanhã”). Praticamente não aparecem, na linguagem
não monitorada dos brasileiros, construções como “Vendem-se terrenos”, “Alu-
gam-se casas”, “Doam-se gatinhos”. A pretensa equivalência de significado entre
passivas sintéticas e passivas analíticas propalada pelas gramáticas normativas
inexiste para muitos brasileiros. As frases acima não significam “Terrenos são ven-
didos”, “Casas são alugadas”, “Gatinhos são doados”. Segundo Bagno, o “se” é
sujeito em português, um sujeito indeterminado. Nesse caso, ao dizermos e escre-
vermos “Vende-se terrenos”, “Aluga-se casas” e “Doa-se gatinhos”, pretendemos
informar que alguém deseja vender terrenos, alugar casas e doar gatinhos.
As gramáticas normativas, ao contrário, defendem a existência das passivas
sintéticas, considerando que, em latim, o pronome “se” não poderia atuar como
sujeito em virtude do sistema de marcação de casos, segundo o qual as palavras
apresentavam uma forma diferente a partir da função sintática que desempenhas-
sem. No entanto, Bagno argumenta que, no português brasileiro, o “se” é cada
vez mais sujeito, como pode ser observado em estruturas do seguinte tipo: “Lugar
bom de se morar”, “Texto fácil de se ler”, “Osso duro de se roer”, “Comédias pra
se ler na escola”, em que o “se” atua como sujeito do infinitivo, uma forma verbal
que deveria dispensar a marcação de sujeito por ter um agente indeterminado.
Todavia, os brasileiros sentem a necessidade de preencher a posição de sujeito.
Embora bastante criticado por muitos gramáticos, esse uso do pronome “se” está
bem difundido na comunicação dos brasileiros.
Como podemos observar, o professor de língua portuguesa não pode ignorar
os resultados das pesquisas linguísticas na preparação das suas aulas, caso con-
trário correrá o risco de indicar a seus alunos que utilizem a modalidade de língua
prescrita pelas gramáticas normativas em todos os contextos comunicativos, o
que seguramente causaria prejuízos para a comunicação dessas pessoas. Afinal,
qual estudante pareceria real ao dizer aos seus colegas frases como “Vender-se-ão
bolos aqui amanhã”? Na verdade, os professores precisam propor atividades que
permitam aos alunos estabelecer relações entre a modalidade de língua que eles
utilizam e aquela com avaliação social positiva a fim de que eles reconheçam di-
ferentes formas de expressar seus pensamentos e possam ajustar a linguagem ao
contexto comunicativo em que se encontrem. Essa é uma discussão importantíssi-
ma para os futuros professores de língua portuguesa, a qual é realizada no proces-
so de preparação das oficinas do projeto de extensão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 450
Para Possenti (2011, p.112), o professor deveria estimular seus alunos a subs-
tituir uma forma por outra. Se um aluno diz “Nóis vai ficá”, o professor poderia
chamar a atenção para o fato e solicitar que ele substituísse essa forma por outra.
Caso ele não conseguisse fazê-lo, o próprio professor deveria lhe oferecer as al-
ternativas “Nós vamos ficar”, “Vamos ficar” ou “Ficaremos”. Possenti acredita ser
possível corrigir as estruturas linguísticas empregadas pelos alunos, sem explici-
tar as regras envolvidas nas construções avaliadas de maneira positiva em nossa
sociedade. Ele diz que, na infância, aprendemos a língua materna dessa forma e
assim também aprendemos qualquer língua estrangeira.

O projeto de extensão
O trabalho realizado nas oficinas ofertadas pelo projeto de extensão intitulado
Trabalho com as habilidades de leitura, escrita e interpretação procurou aliar-se à
realidade da escola parceira da proposta com a meta de ampliar a competência
comunicativa das crianças através do desenvolvimento contínuo da leitura e da
produção de textos. Como já foi dito na introdução, o projeto foi ofertado, na últi-
ma edição, aos alunos de uma escola municipal de Arroio do Padre, no Rio Grande
do Sul, pois vislumbramos a possibilidade de a universidade pública contribuir para
o crescimento linguístico de crianças que veem diminuídas suas oportunidades de
educação formal por não viver em um centro urbano. Já a motivação para a es-
colha dos alunos do quinto ano do ensino fundamental residiu no fato de que o
desenvolvimento do hábito de leitura deve começar o mais cedo possível na vida
das crianças.
Inicialmente, o trabalho justificou-se por sua ação direcionada à formação de
pequenos leitores. Em um país em que o ensino público ainda enfrenta inúmeras
dificuldades e em que há altos índices de analfabetismo funcional, são relevantes
todas as tentativas de incentivar as crianças a tornarem-se leitores. Além disso, o
projeto poderia contribuir para a redução do fracasso escolar, pois a intimidade
com a leitura é capaz de favorecer a aprendizagem das disciplinas curriculares. Em
outras palavras, trabalhamos com base no princípio de que as crianças precisam
aprender a ler para que posteriormente sejam capazes de ler para aprender.
A dificuldade em dar sentido aos textos escritos pode comprometer a capaci-
dade de aprendizagem das crianças, pois, para aqueles que não conseguem ler
adequadamente, o estudo das disciplinas curriculares transforma-se em algo mais
custoso. Em outras palavras, para quem não consegue ler de maneira apropriada
podem tornar-se demasiadamente árduas as tarefas de resolução, por exemplo,
de problemas de matemática, questões de ciências, geografia, história. Portanto,
a reprovação resulta, muitas vezes, dos obstáculos criados pelas dificuldades de
leitura. As crianças que não leem apropriadamente tendem a tornar-se mais tími-
das, introspectivas, introvertidas, receosas de participar de situações de exposi-
ção, em que temem ser ridicularizadas. Essa introspecção acaba por comprometer
o seu desenvolvimento, criando, assim, uma espécie de círculo vicioso. A criança
não se expõe porque receia ser humilhada, mas exatamente porque não se expõe
terá provavelmente maiores dificuldades de aprendizagem.
Acreditamos que o projeto contribuiu para o desenvolvimento linguístico dos
participantes, pois percebemos que, com o passar do tempo, o ritmo de leitura
oral dos estudantes aproximou-se daquele exemplificado pelo ministrante das
oficinas. Além disso, a interpretação e a produção textual tornaram-se mais di-
nâmicas. Talvez esse crescimento linguístico possa ser explicado especialmente

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 451
pelo fato de que muitos dos participantes provêm de famílias cujos membros têm
poucos anos de escolaridade e exatamente por isso não conseguem fornecer às
crianças as orientações necessárias para o fortalecimento do trabalho realizado
na escola. Como as oficinas foram ofertadas em turno inverso ao das atividades
regulares de ensino, as crianças conseguiram ampliar o período de contato com os
textos escritos, a leitura, a produção textual. E o contato contínuo com os textos
escritos favorece o aumento do vocabulário dos estudantes, a percepção da im-
portância da pontuação para a construção do sentido dos textos, a internalização
das regras gramaticais que subjazem as estruturas linguísticas da modalidade de
português com avaliação social positiva.
É importante destacar que há a intenção de formar um banco de textos com
as produções das crianças, o qual poderá ser utilizado como corpus para futuras
pesquisas que procurem investigar as propriedades da língua portuguesa escrita.
Considerando o tempo e o espaço, neste artigo, apresentaremos a análise de dois
dos textos produzidos na aplicação de uma oficina de produção textual a qual to-
mou por base o trabalho com alguns capítulos do livro O Pequeno Príncipe, de An-
toine de Saint-Exupéry. A análise dos textos nos permite compreender, ainda que
parcialmente, o impacto da aplicação das oficinas naquela comunidade escolar.
Para introduzir a leitura, mostramos cenas do filme inspirado no livro, bem como
ilustrações contidas no próprio livro. Conversamos com as crianças sobre a perso-
nagem Pequeno Príncipe e o planeta em que ele habitava.

Proposta de aula com base na leitura do texto O Pequeno Príncipe


1ª Etapa: Leitura dos capítulos X, XI, XII, XIII, XIV, e XV do Pequeno Príncipe.
2ª Etapa: Discussão guiada por questões sobre a temática dos capítulos.
1) Quantos planetas o Pequeno Príncipe visitou antes de chegar à Terra?
2) Como eram esses planetas?
3) Por que o Pequeno Príncipe não ficou em nenhum dos planetas que visitou
antes da Terra?
4) O Pequeno Príncipe disse que apenas em um dos planetas ele poderia ter fei-
to um amigo. Em qual?
5) Você concorda com a ideia de que as pessoas grandes pensam de modo dife-
rente das crianças? Por quê?
3ª Etapa: Proposta de trabalho
1) Imagine e depois desenhe um planeta que o Pequeno Príncipe gostaria de vi-
sitar.
2) Escreva uma história narrando a visita do pequeno Príncipe a esse planeta.
4ª Etapa: Leitura para os colegas das narrativas que foram criadas.
5ª Etapa: Leitura do livro Irmã Estrela do escritor Alain Mabanckou (o professor
lê para as crianças).
6ª Etapa: Discussão sobre a relação entre as obras: O Pequeno Príncipe e Irmã
Estrela.

Cabe destacar que os capítulos anteriores (I-IX) já haviam sido lidos em sala,
visto que, ao final de cada oficina, líamos trechos do livro O Pequeno Príncipe
juntamente com as crianças, e elas ficavam com exemplares da obra para re-
ler em casa. Na atividade descrita no quadro acima, propusemos que os alunos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 452
primeiramente imaginassem um planeta e o desenhassem. Em seguida, pedimos
que escrevessem uma narrativa, na qual narrassem a visita do Pequeno Príncipe ao
planeta inventado.
Com base nos cinco critérios apontados anteriormente: tema, tipo de texto,
modalidade linguística, coerência e coesão, analisaremos dois dos textos produ-
zidos pelos alunos. Nosso projeto tem uma meta futura de quantificar os dados,
entretanto, no presente artigo, realizaremos um estudo qualitativo dos elementos
estruturais e linguísticos presentes nos textos selecionados. Pretendemos reforçar
a importância, para a produção textual, do conhecimento de linguagem interna-
lizado pelas crianças em suas vivências familiares, escolares e sociais, bem como
contribuir com a discussão sobre o ensino de língua materna no processo de pro-
dução do texto escrito.
No que se refere ao critério tema, observaremos a capacidade de a criança en-
tender e atender à proposta da oficina. Nesse caso, em especial, a oficina concen-
trou-se na capacidade criativa de imaginar um planeta ao qual o Pequeno Príncipe
pudesse visitar.
No critério tipo de texto, verificaremos a capacidade de a criança produzir um
texto narrativo em que haja narrador, espaço, personagens, tempo e enredo. O
narrador é aquele que conta uma história. Ele pode ser uma das personagens da
história, ou aquele que só observa o que acontece e conta, ou ainda aquele que,
além de contar o que acontece, dá opinião, faz comentários, se intromete na his-
tória.
O espaço é o lugar em que ocorrem as ações, os fatos. Na situação proposta,
teremos planetas imaginados pelas crianças os quais são visitados pelo Pequeno
Príncipe. As personagens, por sua vez, são os seres que dão vida à história, fazen-
do com que ela aconteça. Nos textos analisados, as personagens serão o Pequeno
Príncipe e os moradores dos planetas imaginados pelas crianças. O tempo em que
se desenvolve a história pode ser determinado com marcadores que indicam dia,
ano, horas ou períodos do dia. Como veremos, as histórias contadas pelas crianças
a partir dessa oficina apresentam, em geral, um tempo indeterminado, visto que
não há marcadores desse tipo.
O enredo é construído pelas ações da narrativa. Os fatos se desenrolam for-
mando a trama da história. O enredo tem uma situação inicial que diz respeito ao
começo da narrativa, momento em que se apresentam personagens, tempo, lugar
da história. O enredo tem também um conflito que apresenta um desequilíbrio ou
problema provocado por algum motivo. Além da situação inicial e do conflito, o
enredo apresenta um clímax, que é o momento de maior tensão na história, e o
desfecho no qual há resolução do conflito. Na análise do tipo de texto, interessar-
-nos-á particularmente a construção do enredo e a presença dos elementos que o
constituem.
Na modalidade linguística, verificaremos se o autor do texto consegue expri-
mir-se de forma adequada ao estilo escrito e formal, revelando domínio no uso
das estruturas da língua, do sistema ortográfico e dos recursos de pontuação. Ob-
servaremos preferencialmente as convenções ortográficas, uso de maiúsculas e
minúsculas, separação de sílabas e de vocábulos, concordância nominal e verbal,
regência nominal e verbal, flexão nominal e verbal, pontuação, imprecisão e ina-
dequação vocabular, impropriedade de registro, mistura de tratamento.
A coerência está relacionada à articulação das ideias e permite verificar se há
fragmentação do texto ou contradição com o mundo externo. Esse critério observa
também se há circularidade ao longo do texto. Buscaremos, portanto, encontrar,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 453
nos textos, um projeto bem sucedido de desenvolvimento do conteúdo. Conside-
rando que as crianças produziram textos narrativos, a apresentação dos elemen-
tos do enredo em sequência contribuirá para a coerência da história inventada. Já
a coesão será observada a partir do emprego dos recursos coesivos de que a língua
dispõe, tais como nexos, correlação de tempos verbais, referências lexicais, ana-
fóricas e substituições, a fim de relacionar termos ou segmentos na construção de
um texto.
Na seção seguinte, faremos a análise de dois dos textos produzidos pelas crian-
ças a partir da oficina descrita acima.

Análises das produções escritas


Antes das análises, apresentaremos, na íntegra, os textos escritos pelas crianças.

Texto 1
O mundo novo
Um dia um principizinho visitou um novo planeta chamado planeta água e ma-
tas o príncipe conheceu um homem Xerxes e eles converssaram o dia todo.
-Oi quer brincar, disse o príncipe
-Sim disse o xerxes
-Deque você quer brincar
-Não sei disse xerxes
-pode ser de pega pega disse xerxes
-É vamos brincar
-então vamos lá
então eles brincaram a manhã toda de pega pega e de tarde de esconde escon-
de e o principizinho tinho que se desidir se ele queria ficar ou ir embora
-Eu quero ficar nesse planeta e muito divertido tem meu amigo Xerxer disse
principizinho.
-se você quer ir embora pode ir disse xerxes
-nunca vou te deixar para traz meu amigo disse principizinho meio triste
-Não eu não vou embora
Então o principizinho ficou no planeta só para ficar com o seu amigo e todos
ficaram felizes que ele ficou no planeta por causa que ele era um menino bem edu-
cado e brincalhão e um dia ele ressebeu uma notícia que ele ia morar la para resto
de sua vida e ele ficou muito felis por receber essa notícia.

O primeiro texto analisado intitula-se O mundo novo. Nele, há a proposição de


um planeta adequado à visita do Pequeno Príncipe. No local designado Água e Ma-
tas, o Principezinho conhece um homem, que se torna seu amigo. Como podemos
observar, nesse texto aparecem as diferentes etapas do enredo: há uma situação
inicial, um conflito, um clímax e um desfecho para a narrativa. A situação inicial in-
troduz a história ao falar do Principezinho e do mundo que ele pretendia conhecer.
O conflito começa com a necessidade de o principezinho definir se ficaria ou não
no Planeta Água e Matas. O clímax da história é marcado pela decisão do Príncipe
de não deixar seu amigo Xerxes para trás. No desfecho da história, o Príncipe rece-
be a notícia de que ficará nesse planeta pelo resto de sua vida.
É importante mencionar também que o autor do texto consegue estabele-
cer com bastante clareza a diferença entre a narração e a fala das personagens.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 454
Exatamente por isso identificamos, no trecho a seguir, o comprometimento do
Príncipe com o seu novo amigo: “Nunca vou te deixar para trás, meu amigo”. Essa
fala acaba por nos remeter à personagem criada por Saint-Exupéry, a qual se ca-
racterizou por um profundo apegou à “rosa” e a outras personagens daquela nar-
rativa.
Quanto à modalidade linguística, não há dificuldades relevantes capazes de
comprometer a construção do sentido. Há alguns problemas de ortografia em
“desidir” em vez de “decidir”, “traz” em vez de “atrás”, ressebeu” ao invés de “re-
cebeu”, “felis” ao invés de “feliz”. Entretanto, essas inadequações ortográficas não
provocam mudança de fonema; por isso o vocábulo pretendido pela criança é rapi-
damente recuperado pelo leitor.
No que diz respeito à coesão, destacamos que, no começo do texto, parece
haver duas orações conectadas sem uso de nexo frasal, o que poderia perturbar
o encadeamento de ideias. Vejamos: “Um dia um principezinho visitou um novo
planeta chamado planeta água e matas o principezinho conheceu um homem cha-
mado Xerxes”. A construção do sentido tornar-se-ia mais fácil caso houvesse, por
exemplo, um pronome relativo que relacionasse a segunda oração com a primeira,
como “onde” ou “em que”. Nesse caso, teríamos: “Um dia um principezinho visitou
um novo planeta chamado Planeta Água e Matas onde/em que conheceu um ho-
mem chamado Xerxes”. Há aqui um fenômeno sintático que interfere na coesão e
na coerência textual. No entanto, essa dificuldade poderá ser facilmente superada
pelo aluno caso haja uma maior exposição aos recursos linguísticos disponíveis na
língua portuguesa escrita culta. Afinal, para Possenti (2011, p.112), como vimos na
fundamentação teórica, é possível corrigir as estruturas linguísticas empregadas
pelos alunos, sem explicitar as regras envolvidas nas construções com avaliação
social positiva.
Em seguida, aparecem as falas das personagens, nas quais há frases curtas, mas
com uma relativa complexidade sintática, pois podemos encontrar subordinação
de orações (“quer brincar”) e locuções verbais (“pode ser” e “vamos brincar”). Na
segunda parte da narrativa, também há subordinação de orações, além da coor-
denação, como em: “Então eles brincaram a manhã toda de pega pega e de tarde
de esconde esconde e o principezinho tinha que se decidir se ele queria ficar ou
ir embora”. Nesse trecho, a união entre as duas primeiras orações é estabelecida
pelo nexo “e”. Já a conexão entre a terceira e a segunda é estabelecida pelo nexo
“se”, o qual introduz uma oração que tem uma força ilocucionária interrogativa e
complementa o sentido da locução verbal “tinha que se decidir”. A quarta oração
formada por um verbo no infinitivo atua como complemento verbal de “querer”.
Por fim, temos a quinta oração conectada à anterior por meio do nexo “ou”. Perce-
bemos, portanto, uma importante complexidade sintática na estrutura menciona-
da. A presença desses processos parece facilitar o entendimento do texto, pois a
organização sintática revela que os eventos não são simultâneos.
Na segunda parte de diálogos, há uma estrutura muito interessante na qual en-
contramos uma ideia de causa introduzida sem o auxílio de conjunção: “Eu quero
ficar nesse planeta é muito divertido tem meu amigo Xerxes”. A decisão de ficar no
planeta é motivada por duas razões diferentes, quais sejam: o planeta ser diver-
tido e haver um amigo do Principezinho naquele local. A ausência do nexo frasal
poderia comprometer o entendimento do trecho, mas não o faz em virtude do
conhecimento de linguagem que temos e que nos capacita a preencher possíveis
lacunas existentes nos textos com informações do contexto. Há ainda nessa parte
uma estrutura em que aparece a ideia de condição através do emprego do nexo
frasal “se”: “Se você quer ir embora, pode ir – disse Xerxes”.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 455
Na última parte da narrativa, reaparecem coordenação e subordinação, o que
contribui para a construção do sentido. Estão coordenadas as seguintes ideias:
“Então o principezinho ficou no planeta e todos ficaram felizes que ele ficou no
planeta”. A terceira oração aparece ligada à segunda por meio do nexo “que”, o
qual introduz uma ideia de explicação. Após há uma causal: “Por causa que ele era
um menino bem educado e brincalhão”. Há ainda subordinação entre as seguintes
informações: “O principezinho ficou no planeta só para ficar com seus amigos”. A
preposição “para” introduz, nesse caso, o sentido de finalidade e rege uma oração
reduzida de infinitivo.
A variação dos recursos sintáticos revela o amadurecimento linguístico da
criança, ou seja, a consciência dos recursos que estão disponíveis na língua para
expressar o pensamento. A presença desses elementos assegura a coesão e a co-
erência textuais. O professor precisa, portanto, valorizar esse conhecimento de
linguagem dos alunos para que eles se sintam estimulados a produzir sempre mais
e assim crescer do ponto de vista linguístico. Portanto, ao invés de simplesmente
censurar a linguagem das crianças, os professores deveriam procurar reconhecer
seus acertos para fortalecer a confiança que as próprias crianças deveriam ter no
conhecimento de língua de que dispõem. Além disso, os professores poderiam au-
mentar a exposição aos textos escritos para promover a identificação dos naturais
contrastes entre a linguagem escrita e a linguagem falada, modalidade de língua
utilizada por muitas crianças como referência no momento de escrever.

Texto 2
Um dia depois de voutar para o seu planeta e ver sua rosa e ver que esta perfeita
foi para um planeta branco coberto de neve avistou um homem que vendia gelo.
-Bom dia. Escamo o pequeno pricipe.
-Bom dia
-o que você esta fazendo?
-pegando gelo.
-para que?
-para ganhar dinheiro
-para que dinheiro?
-para comprar coisas.
-para que compar?
-para ter coisas.
-Eu não preciso de coisas.
-Então o que você faz?
-cuido da minha rosa.
-você não compa?
-Eu não.
-Se você não compra então va em bora.
-O piqueno foi em borá e voutou para o seu planeta.

O segundo texto tem propriedades que o diferenciam dos demais. Aqui o Pe-
queno Príncipe é tratado com aspereza por não compreender a perspectiva de
vida do morador do planeta. Há no texto uma interessante progressão de ideias
que o mantém coerente do começo ao fim. A criança imagina um contexto em que
o Pequeno Príncipe conversa com um vendedor de gelo, o qual precisa de dinheiro
para adquirir bens. Como o Príncipe não pretende comprar nada, o morador do
planeta solicita que ele se retire; há, portanto, um ponto de vista bastante criativo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 456
No que diz respeito aos elementos da narrativa, chama a atenção a maneira
como o autor do texto construiu o enredo: há uma situação inicial, um conflito, um
clímax e um desfecho para a história. A situação inicial menciona que o Príncipe
decidiu conhecer outro planeta apenas depois de se certificar de que estava tudo
bem com a sua rosa. O conflito é estabelecido no diálogo entre o Príncipe e o ven-
dedor de gelo, no qual fica clara a incapacidade de o Príncipe entender o objetivo
da atividade desempenhada pelo morador do planeta. O clímax da história é mar-
cado pela inquietante pergunta feita ao Príncipe: “Você não compra?”. A resposta
dele encaminha para o desfecho da história, pois, como o Príncipe não compra
nada, o vendedor de gelo pede que ele vá embora.
A modalidade de linguagem empregada no texto apresenta alguns problemas.
Há um “voutar” ao invés de “voltar”. Além disso, há outros problemas no primeiro
parágrafo, como podemos observar: “Um dia depois de voutar para o seu plane-
ta e ver sua rosa e ver que esta perfeita foi para um planeta branco coberto de
neve avistou um homem que vendia gelo”. No trecho acima, há duas ocorrências
da conjunção “e”. Encontramos também um problema de acentuação na forma
“esta”. Além disso, a oração “avistou um homem” é introduzida sem o auxílio de
um nexo. No entanto, essas dificuldades parecem não perturbar a construção do
sentido do trecho. O mesmo pode ser dito para outras inadequações registradas
ao longo da narrativa. Há, por exemplo, outra ocorrência de “esta” no lugar de
“está” em “O que você esta fazendo?”. Há um “que” ao invés de “quê” em “para
que?”. Existem também um “em bora” ao invés de “embora”.
Apesar dos problemas, identificamos a presença da coordenação e da subor-
dinação, o que diversifica os recursos linguísticos empregados na expressão das
ideias. Há coordenação, por exemplo, no seguinte trecho: “O pequeno foi embora
e voutou para o seu planeta”, e a subordinação aparece em “... avistou um homem
que vendia gelo”, na qual ocorre uma adjetiva para caracterizar “homem”, ou ain-
da “Se você não compra, então vá embora”, em que há uma condicional, “se você
não compra”.
Neste texto, aparece o caso discutido na fundamentação teórica de preenchi-
mento da posição de complemento verbal por uma categoria vazia, em “para que
compar?”. Nesse trecho, a função sintática de complemento do verbo “comprar”
não é desempenhada pelo pronome oblíquo “-as”, como prescrito pela tradição
gramatical (“para que comprá-las?”). Há uma categoria vazia que retoma “coisas”,
uma informação mencionada no parágrafo anterior (“para comprar coisas”).
A coesão é estabelecida pelas referências lexicais em que a repetição dos subs-
tantivos garante que o texto avance sem causar prejuízo para a construção do
sentido, como em: “para ganhar dinheiro?”; “-para que dinheiro?”; “-para comprar
coisas”; “-para que comprar?”; “-para ter coisas”. O substantivo “dinheiro” aparece
tanto na fala do Pequeno Príncipe quanto na fala do vendedor de gelo, o mesmo
ocorre com o verbo “comprar”. Essas repetições asseguram a progressão textual,
sem a perda do que havia sido dito anteriormente. Esses elementos contribuem
para a progressão das ideias.
Cabe destacar, ao final desta seção, que o presente artigo não pretende anali-
sar exaustivamente os textos propostos pelas crianças. O objetivo desse trabalho
consiste em apresentar as atividades que vêm sendo realizadas no projeto de ex-
tensão Trabalho com as habilidades de leitura, escrita e interpretação a fim de que
a comunidade acadêmica possa reconhecer a importância das discussões sobre o
ensino de língua materna motivadas pelo projeto através, por exemplo, do regis-
tro de uma forma de “olhar” os textos produzidos pelas crianças, que não tome por

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 457
base exclusivamente as regras prescritas pela tradição gramatical. As produções
das crianças não podem ser entendidas como um campo para purismo gramatical,
não podem ser avaliadas a partir de um parâmetro que não é observado na íntegra
sequer por escritores brasileiros. O importante é que os professores de língua por-
tuguesa procurem ampliar e fortalecer o conhecimento de linguagem das crianças
e jovens para que eles possam recorrer, de maneira confiante, a seus conhecimen-
tos linguísticos no momento de estruturar seus textos.

Considerações finais
No presente artigo, procuramos apresentar algumas atividades desenvolvidas
na última edição do projeto de extensão intitulado Trabalho com as habilidades de
leitura, escrita e interpretação. Dentre essas atividades, encontra-se a aplicação da
oficina relacionada à leitura do livro Pequeno Príncipe e à produção de um texto
que narrasse as aventuras do Principezinho em um planeta imaginado, de manei-
ra individual, pelos participantes do projeto. Analisamos dois desses textos com
base em cinco critérios: tema, tipo de texto, modalidade linguística, coerência e
coesão, com o intuito de registrar o tipo de análise textual que foi feito ao longo do
desenvolvimento do projeto para promover as atividades de reescrita, bem como
para destacar a importância de os professores de língua portuguesa evitarem o
uso exclusivo dos preceitos da tradição gramatical na avaliação dos textos dos es-
tudantes da rede brasileira de ensino.
A importância de os professores tomarem por base diferentes perspectivas de
descrição e análise da língua portuguesa no preparo de suas aulas encontra-se
no fato de que a restrição aos preceitos da tradição gramatical poderá levar os
professores a adotarem uma estratégia de trabalho segundo a qual os estudantes
acabem memorizando regras gramaticais apenas para aplicá-las em alguma ativi-
dade avaliativa. Regras gramaticais que, muitas vezes, estão em desacordo com a
língua portuguesa empregada atualmente no Brasil.
A escola precisa ensinar a língua portuguesa culta, uma modalidade de língua
que muitos estudantes ainda desconhecem, mas esse ensino deve estar conec-
tado aos usos reais de língua. Os alunos precisam ser estimulados a identificar
formas diferentes de expressão a fim de reconhecer a diversidade linguística do
português brasileiro. Ao tomar por base o conhecimento de linguagem das crian-
ças e jovens, o professor fortalece a gramática natural dos estudantes e favorece
a sua expansão através de atividades de leitura e produção de textos. Além disso,
a compreensão dos fenômenos linguísticos auxilia o professor a buscar diferentes
estratégias de trabalho capazes de permitir aos estudantes superar suas dificulda-
des e crescer linguisticamente. Talvez a escola precise deixar clara a diversidade
sintática da nossa língua a fim de que a criança possa fazer suas escolhas, ajustan-
do-as ao contexto comunicativo.
Analisar em conjunto com os alunos trechos das produções textuais, omitindo
a identificação do autor e também propor atividades individuais e coletivas de re-
escrita dos trechos poderão contribuir para a ampliação da consciência linguística.
Embora as crianças ouçam histórias com relativa frequência, parece haver tam-
bém a necessidade de explicitar os elementos que constituem os textos narrativos
a fim de que as produções textuais possam cumprir seu papel social de comunicar.
Não podemos ignorar que, em nossa sociedade, o conhecimento da modalida-
de culta da língua portuguesa tende a favorecer a ascensão social. Por esse motivo,
acreditamos ser de grande importância oferecer às crianças amplas oportunidades

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 458
de acesso a essa modalidade de língua a fim de que elas se familiarizem com a
gramática subjacente ao nível culto de linguagem, a qual está presente nos textos
escritos nos diferentes gêneros textuais.
Por fim, é fundamental destacar que o projeto de extensão procurou contribuir
para o crescimento linguístico das crianças envolvidas no projeto através da parti-
cipação em diferentes oficinas de leitura e produção textual. Além disso, promoveu
a integração dos ministrantes das oficinas – alunos dos cursos de Licenciatura em
Letras da Universidade Federal de Pelotas – com a realidade do ensino de língua
materna em uma escola da rede municipal, bem como motivou a análise desses
textos com base nas discussões feitas nas disciplinas curriculares sobre os critérios
de avaliação textual e a reflexão sobre como “ensinar” português aos falantes de
português. Ao preparar as oficinas, os ministrantes tiveram a oportunidade de co-
locar em prática os conhecimentos adquiridos nos cursos universitários, saberes
fundamentais para a vida profissional.

Referências
BAGNO, M. Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa. 3. ed. São Paulo:
Parábola, 2002.

BAGNO, M. Não é errado falar assim! Em defesa do português brasileiro. 2. ed.


São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa. 37. ed. Rio de Janeiro: Nova


Fronteira, 2009.

CEGALLA, D. P. Novíssima gramática da língua portuguesa. 46. ed. São Paulo:


Companhia Editora Nacional, 2005.

CUNHA, C. & CINTRA, L. Nova gramática do português contemporâneo. 6. ed.


Rio de Janeiro: Lexicon, 2013.

FRANCHI, C. Mas o que é mesmo “Gramática”? São Paulo: Parábola Edito-


rial,2006.

OTHERO, G. A. Mitos de linguagem. 1. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2017.

POSSENTI, S. Questões de Linguagem: Passeio Grama-


tical Dirigido. 3. ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.
SOBRE A AUTORA
SAINT-EXUPÉRY, A. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro:
Paula Fernanda Eick Cardoso, gra- Agir, 1983.
duada em Letras-Licenciatura Plena
pela UFPel. Doutora em Letras pela
Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul PUCRS. Professora do
Centro de Letras e Comunicação da
UFPel. Coordena o projeto de exten-
são Trabalho com as habilidades de
leitura, interpretação e escrita. E-mail:
paulaeick@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº5 459
PROCESSOS DE IMPLEMENTAÇÃO
E EXECUÇÃO DE PROJETOS
DE EXTENSÃO
UM RELATO SOBRE INICIAÇÃO
AO HANDEBOL NA UFPEL

Rose Méri Santos da Silva


Ana Valéria Lima Reis
Felipe Gustavo Griep Bonow
Lara Vinholes
Mauricio Machado

Apresentação
Inicia-se o presente capítulo a partir do reconhecimento da relevância e capital
importância da aproximação do desempenho das atividades universitárias com a
comunidade em que estão inseridas, buscando tornar vivo e potente os princípios
da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão na vida acadêmica de to-
dos (as) os (as) envolvidos (as).
Destaque-se ainda a concepção e a magnitude que o esporte vem assumindo
na atualidade, ou seja, sua abrangência e legitimidade vêm paulatinamente cres-
cendo.
Nos primeiros anos do século XX já estavam lançadas as bases e estabe-
lecidos os sentidos básicos do que Nicolau Sevcenko chama de “febre
esportiva”, observável principalmente nas décadas de 1920 e 1930; algo
que vinha crescendo desde meados do século XIX, mas somente na vira-
da do século encontrou condições concretas para se configurar melhor.
Estavam forjados os pressupostos fundamentais de uma “civilização es-
EDUCAÇÃO Nº6

portiva” (PRIORE & MELO, 2009 p. 69)

Vivenciamos um contexto social em que o esporte assume um importante


papel, operando enquanto um agente muito potente, como nos indica Marques
(2007),

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 460


o esporte se apresenta na sociedade contemporânea como um fenôme-
no sociocultural de grande importância. Faz-se presente em inúmeras
esferas do todo social, principalmente no lazer. Por ser um universo cria-
do e constantemente transformado pelo Homem no decorrer da histó-
ria, carrega valores morais e se manifesta de acordo com o ambiente e
os sujeitos que com ele se relacionam.

Dentro da mesma perspectiva muitas são as considerações que fortalecem e


consolidam tais indicações, como pode-se perceber nas palavras de Greco (2000)
o esporte torna-se um meio de interação, de comunicação, de poder
conquistar o saber fazer, de compreender e conhecer através das rela-
ções estabelecidas com o ambiente. Ele é um meio, um agente instru-
mental operativo no processo educativo de formação da personalidade,
de oportunizar escolha, de ensinar a decidir, de expressão, criação; sen-
do agente na formação da cidadania e da melhoria da qualidade de vida
da população, somente ele consegue tamanha aglutinação e convivên-
cia humana, o que o projeta para o século XXI como uma manifestação
plural.

Percebe-se então, que as práticas esportivas, em suas diferentes manifesta-


ções, são constituintes da vida social, impulsionam relações entre pessoas e gru-
pos, renovando vivências e laços de solidariedade, podendo proporcionar o desen-
volvimento humano, gerando processos mais amplos de percepção e melhoria da
qualidade de vida.
Já no atual quadro social brasileiro o esporte é um direito de todo o cidadão,
como pode ser verificado no artigo 217 da Constituição Federativa do Brasil, no
Título VIII – da Ordem social, no Capítulo III – Da Educação, da Cultura e do Despor-
to, em que estabelece “É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais
e não formais, como direito de cada um” (BRASIL, 1988). Sendo assim, impera a
necessidade de ações que viabilizem a democratização, valorização e acesso ao
esporte, visto que, o mesmo, possui grande capacidade de mobilização e integra-
ção, resgatando os sujeitos para uma vida mais saudável, segura e solidária.
Nesse contexto, destaque-se aqui os esportes coletivos que se configuram en-
quanto “parte do fenômeno esportivo e despertam fascínio em praticantes e es-
pectadores” (CASAGRANDE, 2012). Dentre as distintas possibilidades de modali-
dades esportivas coletivas vivenciadas em nosso cotidiano, destaque-se o Hande-
bol, que traz consigo diversos benefícios, como cita Janusz (1993)
El balonmano, en tanto que juego de equipo, tiene valores psicológicos,
sociológicos, educativos; enseña a luchar noble e tenazmente; capacita
la actuación en grupo y no egoístamente en solitario; promueve la ca-
maradería, la solidariedad; invita a tomar rápidas decisiones y fomenta
el sentido de la responsabilidad.

Em sua caracterização conceitual o Handebol se utiliza de cinco elementos prin-


cipais, ou seja, trata-se de um jogo coletivo, de um jogo de oposição, de um jogo
de invasão, de um jogo de luta direta pela bola, assim como de um jogo de contato
físico. Para além disso, Almeida e Dechechi (2012) acrescentam que o “Handebol é
esporte coletivo com bola, jogado com as mãos, cujo objetivo é marcar mais gols
que o adversário numa baliza de 3 X 2 metros defendida por um goleiro”.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 461
Em termos de sua constituição o Handebol apresenta uma complexidade e uma
dinâmica muito intensa, diretamente relacionada ao “elevado número de interve-
nientes do jogo que estão em interacção e da diversidade de suas opções, e por
outro, da imprevisibilidade e aleatoriedade das situações geradas pela relação das
equipes em confronto” (RIBEIRO e VOLOSSOVITCH, 2008).
Em sua trajetória histórica ele teve início em meados de 1848, na Dinamarca,
com um jogo que apresenta características semelhantes ao seu formato atual.
Após diversas mudanças, o ano de 1911 foi dado como o marco para o que, hoje, é
praticado como Handebol enquanto uma modalidade esportiva. Almeida e Deche-
chi (2012) destacam ainda que atualmente a Federação Internacional de Handebol
(IHF), “reconhece oficialmente apenas o Handebol de quadra (indoor handball ou
team handball) e o handebol de areia (beach handball)”.
Frente a imensa amplitude que o envolve, surgem muitas dúvidas e anseios de
como trabalhar com a iniciação da referida modalidade. Sendo assim, emerge o
Mini-Handebol, enquanto um potente e produtivo caminho a ser seguido para a
efetivação do processo de ensino e aprendizagem do Handebol na infância, como
nos indicam Abreu e Bergamaschi (2016)
O mini handebol é uma atividade de iniciação aos princípios e funda-
mentos do handebol, que busca trabalhar de forma lúdica todo o proces-
so de ensino dos movimentos, ações e aplicações dos mesmos aos jogos
com ou se bola para crianças de 6 a 10 anos de ambos os sexos.

Para Hubner (1999) o “Mini-Handebol deve ser considerado como uma filosofia,
cujo conteúdo é na sua essência um jogo com bola para crianças”, devendo pautar
sua atuação em atividades que estimulem a alegria e o prazer na sua prática. Ele
pode ser trabalhado com crianças de ambos os sexos, com diferentes característi-
cas e habilidades, proporcionando assim uma potente possibilidade de vivências
corporais múltiplas.
Abreu (2019) acrescenta ainda que “qualquer criança de 06 a 10 anos de idade
pode jogar mini-handebol”, sendo que, segundo ele, as faixas etárias devem ser
divididas em Mini A (6 e 7 anos) e Mini B (8, 9 e 10 anos). Já no Handebol de base,
“são lançadas as condições para que a criança possa praticar a modalidade de for-
ma saudável e bem preparada em todas as idades (EHRET [Link], 2002).
Os aspectos anteriormente abordados, acionaram e sustentaram a implemen-
tação de um projeto de extensão, nomeado de Iniciação ao Handebol Escolar na
UFPel, com o código 437, que se pauta em uma concepção de esporte como um
processo educativo que visa investir energia, prazer e alegria no viver, atuando
sempre na perspectiva de qualificação da vida, dando condições que cada indiví-
duo seja trabalhado dentro de sua singularidade, visto que, acredita-se que a práti-
ca de atividades prazerosas leva, cada indivíduo, a busca de uma harmonia de vida
e ao exercício pleno de sua cidadania.

Traços e pistas de uma trajetória de trabalho em


constante construção
Os passos iniciais do projeto Iniciação ao Handebol Escolar na UFPel começa-
ram a ser trilhados no ano de 2017, tendo como objetivo geral disseminar, poten-
cializar e qualificar a prática da iniciação ao Handebol na comunidade escolar de
Pelotas, assim como buscando consolidar a integração entre ensino, pesquisa e
extensão na vida acadêmica de todos (as) os (as) graduandos (as) envolvidos (as).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 462
A implementação do referido projeto ficou a cargo dos estudantes de Educação
Física da ESEF/UFPel, sob a supervisão e orientação de professores da referida ins-
tituição e se pautou em dois eixos de ações, a realização de oficinas de iniciação ao
Handebol, efetivadas nas diferentes escolas do município, assim como a formação
de um grupo de Handebol de Base, no ginásio da ESEF/UFPel.
As oficinas de Iniciação ao Handebol
Escolar tiveram seu processo de imple-
mentação no ano de 2017, com uma
fase inicial em que foi divulgado um
período de inscrições aos discentes de
graduação da ESEF/UFPel, interessa-
dos em ministrar as oficinas de Hande-
bol nas escolas. Como segundo passo
foram organizados encontros de dis-
cussão e de qualificação dos discentes
envolvidos, enfatizando as temáticas
relacionadas à iniciação do Handebol.
A seguir passou-se a efetivação das ofi-
cinas, sendo que cada sessão ministra-
da era previamente organizada através
de um plano de aula, elaborado pelos
graduandos envolvidos, tendo como
estrutura uma introdução, parte princi-
Figura 1 - Grupo de pal, parte final, volta a calma e roda de conversa. Destaque-se ainda que todos os
Handebol de Base planos de aulas eram revisados pela professora coordenadora do projeto e após a
2017 aplicação das oficinas, os graduandos envolvidos elaboravam um relatório com o
Fonte: Acervo do plano de aula, fotos e uma reflexão de todo trabalho desenvolvido.
projeto. O trabalho executado nas oficinas teve seu ápice no ano de 2018, quando con-
tou com a participação de nove graduandos e de 190 crianças, cursando entre o
4º e o 8º ano do ensino fundamental, no qual recebemos feedbacks positivos dos
alunos e professores/supervisores das escolas, principalmente quanto à aborda-
gem e construção do conhecimento acerca do tema e interação da universidade
com a escola.
No ano de 2019 as oficinas ministradas foram em duas escolas de ensino médio,
na qual compareceram diversas turmas, totalizando em média um número de 25
alunos por aula, estas ministradas em 5 encontros em uma das escolas. Já no se-
gundo educandário foi realizado um único dia com cerca de 40 alunos.
Saliente-se aqui que o retorno dos professores das instituições envolvidas sem-
pre foi muito positivo em relação ao trabalho desenvolvido, com a constante soli-
citação de escolas diversas para que novas oficinas sejam ministradas, promoven-
do assim uma efetiva democratização do acesso ao Handebol. Entretanto, com
a ampliação de outras demandas do grupo de trabalho do projeto em referência,
assim como por avaliarmos que no ano de 2018, havia se atingido um montan-
te significativo de escolas em nível fundamental, optou-se por manter, no ano de
2019, somente as oficinas em escolas de ensino médio.
Já em relação ao eixo do Handebol de Base, destaque-se seu iniciou que ocor-
reu também no ano de 2017, envolvendo aproximadamente 25 estudantes da rede
pública e privada de Pelotas, na faixa etária de dez a quatorze anos, de ambos
os sexos. Os encontros ocorriam duas vezes por semana, nas dependências do
ginásio da ESEF/UFPel, com um trabalho pautado na iniciação ao Handebol de-
senvolvido através de um planejamento enfatizando os fundamentos técnicos de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 463
Figura 2 - Grupo de
Mini-Handebol 2018
Fonte: Acervo do
projeto.

defesa (posição básica, deslocamento defensivo, marcação propriamente dita) e


de ataque (domínio corporal, apreensão, passe, recepção, arremesso, drible, pro-
Figura 3 - Traves gressão e finta), assim como as principais capacidades físicas envolvidas no jogo
reduzidas
confeccionadas pelos
do Handebol (coordenação, força, agilidade, resistência e velocidade)
discentes da ESEF Já no início do ano de 2018, novos rumos foram adentrados, mantendo-se a
para o Mini-Handebol mesma linha condutora do trabalho em referência, entretanto iniciando-se tam-
Fonte: Acervo do bém um grupo de Mini-Handebol, envolvendo crianças da rede escolar de Pelotas,
projeto. de ambos os sexos, na faixa etária de 6 a 10 anos (Figura 02).
Neste período vivenciaram-se inquietações diversas, an-
seios e dificuldades na conduta do trabalho, pois percebeu-se
a necessidade de adaptações, visando o respeito às peculiari-
dades dessa faixa etária, que iam desde alterações na meto-
dologia de trabalho até mesmo nas questões dos materiais,
como por exemplo na substituição das bolas de couro pelas
de borracha, mais leves e macias, ou ainda na confecção de
traves reduzidas (Figura 03)
A partir de todas essas peculiaridades, entraves e desloca-
mentos, buscando uma otimização do projeto em questão,
sentiu-se a necessidade de um maior embasamento teórico,
que ancorasse e trouxesse subsídios norteadores para o tra-
balho desenvolvido. Nesse sentido, ao final do ano de 2018,
nos dias 14 e 15 de dezembro, organizou-se o I Encontro de Mini-Handebol e Ini-
ciação, com os professores Guilherme Borin1 e Diego Abreu2 e Leandro Dias3, en-
volvendo aproximadamente 50 professores da rede escolar de Pelotas e da região
sul, assim como graduandos e docentes da ESEF/UFPel. A referida capacitação
trouxe inúmeras novidades, consolidando-se como um propulsor para novos ru-
mos a serem investidos no trabalho que vinha sendo executado.
1 Técnico de Handebol do Clube A Hebraica de São Paulo, Professor do Núcleo de Esportes no Colégio Rio
Branco de São Paulo e um dos técnicos da Confederação Brasileira de Handebol responsáveis pelos Acampa-
mentos de Handebol nas categorias de base.
2 Diretor de Mini-handebol na FPHb, Docente na UMESP e FAINAM (Ed. Física e Pedagogia), Técnico da
Metodista e Mão Solidária (SP)
3 Atleta da seleção brasileira, [Link] (Bélgica), Metodista/ São Bernardo, Pinheiros entre outros clu-
bes.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 464
Mudanças e deslocamentos de uma proposta que
se consolida
A partir do início do ano de 2019, inaugurou-se o Centro de Mini-Handebol (CE-
MINH) (figura 04), que visa ser um centro de referência de estudos e de ensino do
Mini-Handebol.

Figura 4 - Logo
do Centro de Mini-
Handebol (CEMINH)
Fonte: Acervo do
Projeto

Para além disso, no presente ano assumiu-se uma nova nomenclatura, passan-
do a ser chamado de “Passada pro Futuro”, tendo como mascote a imagem ex-
pressa na figura 05.
Em seu formato atual o projeto “Passada para o Futuro” mantém sua organiza-
ção pautada nos três eixos de atuação, que são: o eixo I com o Mini-Handebol que
conta com atividades duas vezes semanais em quatro grupos, sendo estes o Mini
A para crianças de seis a sete anos; o Mini B para crianças de oito a nove anos e o
Mini C para crianças de dez até doze anos. Todos os grupos pautam seu trabalho
em propiciar atividades de iniciação ao Handebol de forma recreativa e prazerosa,
proporcionando experiências variadas e ricas para as crianças participantes. O eixo
Figura 5 - Mascote do II que se refere ao grupo de Handebol de Base – este eixo conta com atividades
Mini-Handebol 2019
duas vezes semanais em um grupo de atuação para escolares, com idade entre
Fonte: Acervo do treze e quinze anos, de toda rede escolar de Pelotas, através de atividades com
Projeto
enfoque na iniciação específica do Handebol. Assim como o
eixo I, as aulas ocorrem no ginásio da ESEF/UFPel, no horário
das 18h às 19h e das 19h às 20h respectivamente.
Já o eixo III, são as Oficinas de Handebol Escolar – que tem
como objetivo potencializar a prática de Handebol na comu-
nidade escolar pelotense e suas atividades se dão de acordo
com o interesse e procura das escolas. As atividades propos-
tas variam de acordo com a faixa etária dos escolares e do
tempo de realização das oficinas.
Entretanto, com a implantação do CEMINH, o projeto
“Passada pro Futuro”, mais do que mudanças estruturais e
de logísticas, iniciou uma nova trajetória de trabalho, pau-
tada principalmente no estudo e na implementação de uma
proposta didático pedagógica, que utiliza-se de ferramen-
tas de metodologias distintas, que apresentam-se como
produtivas para os objetivos traçados pelo grupo de traba-
lho. Sendo assim, o planejamento das atividades ocorre de
acordo com os seguintes balizadores, elementos da Iniciação

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 465
Esportiva Universal (IEU) de Pablo Juan Greco (1998), as fases do jogo, segundo
Guilherme Borin (2018) e elementos da metodologia do Mini-Handebol de Diego
Abreu (2017).
A respectiva proposta didático pedagógica busca propiciar e promover prazer
pela prática esportiva do Handebol, contribuindo assim para a formação de prati-
cantes inteligentes, capazes de solucionar problemas e não meros reprodutores
de jogadas e de comandos técnicos, ademais a promoção do prazer pela prática
esportiva contribui de forma ímpar no fomento e disseminação da modalidade em
referência, através do aumento do número de praticantes e de uma prática que se
perpetua ao decorrer da sua vida e não somente no âmbito escolar.
Percebe-se que esta metodologia proposta, propicia ainda uma prática inclusi-
va e integradora em que crianças com maior e menor nível de habilidade possam
se manter motivadas e sentir prazer pela prática, devido à caracterização da aula
por jogos e derivados aliados à uma estrutura de aula que facilite o estabelecimen-
to dos pontos de ensino e dos possíveis feedbacks acerca das fragilidades encon-
tradas durante a prática.
Em relação a estruturação das aulas (Mini A, Mini B, Mini C e Handebol de Base)
utilizamos o modelo proposto por Bunker e Thorpe (1986) intitulado como Tea-
ching Games for Understanding (TGfU), o qual auxilia, tanto treinadores quanto
professores, a avançar com conhecimentos e competências acerca do aprendiza-
do do jogo no contexto esportivo ou da educação física escolar. O mesmo rompe
com a idéia do ensino das técnicas de forma isolada, concedendo primazia ao en-
sino do jogo por meio da compreensão tática, dos processos cognitivos de percep-
ção e da tomada de decisão.
Figura 6 -
Fluxograma:
Proposta de
Estruturação de
Aula intitulada como
Teaching Games
for Understanding
(TGfU) Para uma melhor compreensão das diversas dimensões que envolvem a pre-
Fonte: Gráfico
sente proposta didático pedagógica aqui enfatizada, passaremos a descrever a
elaborado pelos organização do trabalho proposto e implementado em cada grupo do “Passada
autores pro Futuro”.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 466
Mini A (6-7 anos)
Saliente-se aqui a importância de um trabalho que busque o pleno desenvol-
vimento das crianças praticantes, além da existência de práticas atrativas para
as mesmas, que visem uma maior participação. Através da afirmação de Abreu
(2016) sobre o Mini- Handebol em que “é uma atividade de iniciação aos princípios
e fundamentos do handebol, que visa trabalhar principalmente de forma lúdica
todo o processo de ensino de movimentos, ações e aplicações dos mesmos aos jo-
gos com ou sem bola para crianças de ambos os sexos de 6 a 10 anos de idade.”, o
trabalho desenvolvido se baseia na execução de atividades recreativas que desen-
volvam a iniciação das crianças no Handebol, desde o gosto ao esporte e também
o desenvolvimento de fundamentos específicos da modalidade.
Levando em consideração a faixa etária envolvida e as demandas específicas do
Handebol as habilidades fundamentais trabalhadas são: correr, saltar e arremessar.
Além disso, as mesmas são acompanhadas dos Parâmetros de Pressão de tempo,
variabilidade, complexidade, precisão, organização e carga (GRECO et al., 2013).
Por fim, é realizada uma relação dessas habilidades e condicionantes com as fa-
ses do jogo de Handebol (contra-ataque, tiro de saída, ataque rápido, ataque orga-
nizado, retorno defensivo e defesa organizada) citadas por Borin, (2018). Tais aproxi-
mações metodológicas são proporcionadas visando que futuramente seja mais fácil
a transferência, das experiências motoras vivenciadas, para o jogo formal.

Figura 7 - Relação
das habilidades
fundamentais,
parâmetros de
pressão e as fases do
jogo.
Fonte: Gráfico
elaborado pelos
autores

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 467
Mini B (8-9 anos):
A proposta pedagógica de ensino do Mini-Handebol para crianças na faixa etá-
ria de 8 a 10 anos, reúne elementos de duas distintas metodologias que se comple-
mentam. Nesse sentido, reunimos elementos oriundos da metodologia desenvol-
vida por Greco e Benda, 1998 intitulada como Iniciação Esportiva Universal (IEU),
a qual se baseia na utilização de jogos e seus derivados para o estabelecimento do
processo de ensino. Aliados à utilização dos elementos citados anteriormente, uti-
lizamos elementos da proposta metodológica do Mini-Handebol desenvolvida por
Abreu e Bermagaschi (2016), proposta esta que estabelece o processo de ensino
através das fases do jogo.
Portanto, através da união dos elementos oriundos da IEU, capacidades táticas
básicas (acertar o alvo, transportar a bola, se oferecer, criar superioridade numé-
rica, reconhecer os espaços, jogo coletivo e superar o adversário) e jogos de inte-
ligência e criatividade tática, juntamente com o conceito de ensino do Handebol
através das fases do jogo, construímos a respectiva proposta pedagógica de ensi-
no. Sendo assim, através da divisão das fases do jogo, propostas por Borin, 2018
(Contra Ataque, Ataque Rápido, Ataque Organizado, Retorno Defensivo, Defesa
Organizada e Saída de Meta), analisamos estas fases e buscamos as manifesta-
ções das capacidades táticas citadas acima, com isso ocorre a formação do que de-
nominamos complexos (manifestações das capacidades táticas básicas nas fases
do jogo propostas por Borin, 2018).

Figura 8 - União dos


elementos oriundos
da metodologia
de ensino do Mini-
Handebol e da
Iniciação Esportiva
Universal
Fonte: Gráfico
elaborado pelos
autores

Mini C (10-12 anos)


O grupo do Mini C, trabalha utilizando elementos de três metodologias, sendo
elas: a Iniciação Esportiva Universal de Greco e Benda (1998); as fases do jogo de
Borin (2018) e o Mini-Handebol de Abreu e Bermagaschi (2016).
A construção de uma metodologia híbrida, que opera ferramentas de distintos
procedimentos metodológicos, se deu através de elementos das propostas cita-
das acima, sendo utilizado da Iniciação Esportiva Universal as capacidades táticas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 468
básicas (jogo coletivo, se oferecer, transportar a bola, acertar o alvo, superar o
adversário, superioridade numérica, reconhecer os espaços) e estrutura funcional
(1+1x0; 1x1; 2x1; 2x2+1; 2x2 e assim por diante). As fases do jogo que foram utiliza-
das foram (contra-ataque, ataque rápido, ataque organizado, retorno defensivo,
defesa organizada, tiro de saída). Através desses elementos foi feito uma ligação
em quais deles tivessem relação no jogo, por exemplo: Na estrutura funcional 1x1
podem ter transportar a bola, acertar o alvo, superar o adversário, reconhecer os
espaços; após foi feito a ligação entre as capacidades táticas básicas (CTB) e as
fases do jogo, exemplo: na CTB se oferecer, as fases do jogo tiro de saída, contra
ataque, ataque rápido e ataque organizado se relacionam, após feito essas rela-
ções entre as metodologias, criamos ou utilizamos atividades que cumpram com
essa estrutura, conforme descrito abaixo:

Figura 9 - Relação
das Capacidades
Táticas Básicas,
Fases do Jogo e as
Estruturas Funcionais
Universal
Fonte: Gráfico
elaborado pelos
autores

Handebol de Base (13-15 anos)


Este eixo conta com atividades duas vezes semanais em um grupo de atuação
para escolares, com idade entre treze e quinze anos, de toda rede de Pelotas atra-
vés de atividades com enfoque específico no Handebol. O planejamento baseia-se
em elementos da Iniciação Esportiva Universal de Greco e Benda (1998) de acordo
com a faixa etária e das fases do jogo segundo Borin (2018).
Percebe-se assim, que a utilização da nova metodologia do “Passada pro Fu-
turo” parece contemplar os diversos fatores que a complexidade do Handebol
abrange, pois os jovens e as crianças envolvidas no projeto atualmente apresen-
tam, no ponto de vista dos professores, gestos motores e habilidades táticas do
Handebol bem desenvolvidas de acordo com a sua faixa etária. Gallahue e Ozmun
(2005) diz que as crianças podem e devem atingir o estágio maduro das habilida-
des fundamentais aos cinco ou seis anos de idade, porém acrescenta que a grande
maioria precisa de oportunidades para a prática, o encorajamento e a instrução
em um ambiente que promova o aprendizado.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 469
Figura 10 - Relação
das Habilidades
Técnicas e as Fases
do Jogo
Fonte: Gráfico
elaborado pelos
autores

Outros caminhos, múltiplas possibilidades


Buscando reafirmar a importância da indissociabilidade de pesquisa, ensino
e extensão faz-se necessário destacar a potência de outras atuações do projeto
“Passada pro Futuro”, ou seja, para além das atividades semanais com as crian-
ças, o grupo promove o Festival de Mini-Handebol, realizado juntamente com os
discentes da disciplina de Handebol I do curso de Licenciatura em Educação Física
da ESEF/UFPel, que são divididos em comissões, tais como divulgação, arbitra-
gem, confecção de medalhas etc, ficando encarregados de toda a organização e
execução do mesmo. O evento acontece semestralmente e conta com a participa-
ção das crianças e jovens que já frequentam o projeto e de demais estudantes da
rede escolar de Pelotas, que são convidados a participarem do festival. Já foram
realizadas duas edições do evento, a primeira edição em 2018 e a segunda edição
no primeiro semestre de 2019, esta última contando com aproximadamente 100
crianças, tornando possível a união entre o projeto de extensão em referência e os
alunos regularmente matriculados na disciplina de Handebol do curso de Licencia-
tura em Educação Física da ESEF/UFPel.
Outrossim, o grupo realiza reuniões de estudo em que procura discutir e pes-
quisar sobre temas relacionados com o trabalho desenvolvido. Entende-se a im-
portância da pesquisa para o pleno desenvolvimento dos discentes participantes,
assim como, para a melhoria do trabalho desenvolvido, segundo Lima et al. (2017)
“ o hábito de pesquisar promove crescimentos fundamentais aos que a fazem, tan-
to durante o período acadêmico, quanto na carreira profissional…”.
Com o objetivo de democratizar a troca de conhecimentos o grupo procura par-
ticipar de eventos com temáticas relacionadas ao trabalho desenvolvido. Desde o
ano de 2017 o grupo participou de diversos eventos, como ouvintes e apresenta-
dores de trabalhos, tais como, o 2º Congresso Internacional de Pedagogia do Es-
porte, o Simpósio Nacional de Educação Física, o IX Congresso SulBrasileiro de Ci-
ências do Esporte, o II Encontro Internacional de Pesquisa em Ciências Humanas,
Semana Integrada de Inovação, Ensino, Pesquisa e Extensão. É possível destacar
a participação no Congresso Internacional de Pedagogia do Esporte, evento em
que foi concedida uma Menção Honrosa ao Relato de Experiência denominado “O
Trabalho do Handebol Escolar na UFPel e suas Manifestações.” (Figura 10)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 470
Para finalizar
A efetiva execução do projeto “Passada pro Futuro” ao longo de toda sua traje-
tória, desde o ano de 2017 até nossos dias, demonstrou ser uma potente ferramen-
ta que propicia a prática esportiva de escolares advindos de escolas públicas e pri-
vadas da cidade de Pelotas. Para além disso, destaque-se aqui sua potencialidade
para contribuir na formação profissional dos discentes envolvidos, contribuindo
para que tenham o embasamento necessário para ser um profissional atuante e
possam melhor perceber o que irão enfrentar em sua carreira, tendo mais segu-
rança e constituindo-se como professor.
Outrossim, ressalte-se que com a nova estruturação da metodologia de traba-
lho, implementada no “Passada pro Futuro”, foi possível observar um avanço na
transferência do que é trabalhado durante os encontros, através de mini jogos e
exercícios, para situações similares ao jogo formal. O esporte enquanto fenômeno
complexo e plural pode e deve transcender o aprendizado das capacidades físicas
e das habilidades técnico-táticas. Aspectos de natureza afetiva social cognitiva e
moral precisam ser contempladas no processo aproximando as crianças de situ-
ações cotidianas estimulando-as a vivenciar em conjunto a resolução do conflito
(NAVARRO, 2015).
Desta maneira, o referido projeto de extensão, em suas distintas nuances, cum-
pre com o seu objetivo de levar uma prática prazerosa da modalidade esportiva
aos alunos, com uma metodologia que respeita as necessidades de acordo com as
especificidades, ou seja, sem pular etapas da aprendizagem, oportunizando assim
uma vida esportiva maior e mais qualificada na modalidade.

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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 472
SOBRE OS AUTORES
Rose Méri Santos da Silva, gradua- projeto “Passada pro Futuro” no eixo
da em Licenciatura Plena de Educação “Mini B” desde de 2017. E-mail: felipe.
Física na UFPel; Doutora em Educação bonow@[Link]
em Ciências: Química da Vida e Saúde
na FURG/UFRGS. Professora efetiva Lara Vinholes, graduanda em Licen-
da Escola Superior de Educação Física ciatura em Educação Física na ESEF/
da UFPel. Coordenadora do projeto Ini- UFPel; Colaboradora no projeto “Pas-
ciação ao Handebol Escolar na UFPel. sada pro Futuro” no eixo “Mini A” desde
“Passada Pro Futuro” desde 2017. de 2017. E-mail: [Link]@gmail.
E-mail: roseufpel@[Link] com

Ana Valéria Lima Reis, graduada Mauricio Machado, graduando


em Licenciatura em Educação Física na em Licenciatura em Educação Físi-
ESEF/UFPel; Colaboradora no projeto
ca na ESEF/UFPel; Colaborador no
“Passada pro Futuro” no eixo “Han-
debol de Base” desde de 2017. E-mail: projeto “Passada pro Futuro” no
anavalerialimars@[Link] eixo “Mini C” desde de 2017. E-mail:
mauriciomachado857@[Link]
Felipe Gustavo Griep Bonow, gra-
duado em Licenciatura em Educação
Física na ESEF/UFPel; Colaborador no

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº6 473
JOGANDO PARA APRENDER

Eraldo dos Santos Pinheiro


Patrícia da Rosa Louzada da Silva
Franciéle da Silva Ribeiro
Felipe Fernando Guimarães da Silva
Vivian Hernandez Botelho

Introdução
O esporte é um fenômeno que perpassa gerações e acompanha as transforma-
ções humanas, sejam as sociais, o desenvolvimento científico ou das comunica-
ções. No âmbito educativo, a Ciência do Esporte, através da Pedagogia do Espor-
te, vem contribuindo de modo significativo a respeito do estudo e da intervenção
do processo de ensino e aprendizagem do esporte (GALLATTI et al., 2014). Estudar
esporte demanda refletir sobre o seu ensino, conhecendo as suas manifestações
(rendimento, lazer, reabilitação e educacional) e como cada uma se aplica nos di-
versos ambientes de sua prática (GAYA; TORRES, 2008).
De acordo com a Pedagogia do Esporte, existem diversos métodos para o en-
sino do esporte, sendo que a Iniciação Esportiva Universal (IEU) sugere a combi-
nação de habilidades fundamentais, como correr, saltar, chutar e lançar, com a
vivência de jogos de perseguição, estafetas e brincadeiras, sem a especialização
precoce de nenhum gesto motor (GRECO; SILVA; SANTOS, 2009). Com o pas-
sar dos anos, o modelo tradicional de ensino dos jogos desportivos, pautado na
aprendizagem por meio dos elementos técnicos do jogo, com fomento do exercí-
cio analítico descontextualizado do ato de jogar, vem sendo superado pelo ensino
que prioriza a inteligência tática dos envolvidos. No entanto, não é consenso como
deve ser o modo de se ensinar (VOSER et al., 2017).
Em se tratando de formação inicial no curso de Educação Física (EF), o ensino
do esporte em si e as metodologias de ensino do esporte são assuntos recorrentes
e compõem a grade curricular. No entanto, a oportunidade de experiências com
a aplicação de maneira prática dos conhecimentos adquiridos no ensino torna-se
uma barreira importante na formação dos professores, que só terão essa oportu-
EDUCAÇÃO Nº7

nidade durante os curtos períodos de estágios curriculares.


Acredita-se que a extensão universitária é um dos pilares indispensáveis da
formação inicial, já que além das inúmeras potencialidades de benefícios a seus
agentes (i.e., os acadêmicos envolvidos), contribui no atendimento das demandas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 474


da sociedade. Nesse contexto, adentrar o universo escolar, por meio de projetos
de extensão universitária, é dar oportunidade para os acadêmicos explorarem os
desafios de ensinar esporte, frente às adversidades sociais presentes na escola.
Assim, pensando em planejar, organizar e atuar em atividades educacionais, por
meio de uma proposta de ensino do esporte, surge o projeto de extensão intitulado
Jogando Para Aprender (JPA), cujo objetivo é propiciar práticas esportivas orien-
tadas a crianças e adolescentes e, simultaneamente, a inserção de acadêmicos do
curso de Educação Física (EF) em experiências docentes no ambiente escolar.

Materiais e métodos
O projeto de extensão JPA é uma das ações realizadas pelo Laboratório de Es-
tudos em Esporte Coletivo (LEECol) da Escola Superior de Educação Física (ESEF)
da Universidade Federal de Pelotas(UFPel), no qual articulam-se organicamente
ensino, pesquisa e extensão.

Etapa 1: Criação do projeto:


Os primeiros delineamentos para estruturar o JPA, em 2016, foi uma busca on-
line por escolas estaduais nas proximidades da ESEF. Em seguida, iniciou-se o pro-
cesso de escolha, guiado pelos seguintes critérios: maior proximidade com a ESEF,
não possuir professor especialista de EF nas séries iniciais do ensino fundamental I,
consentir e apoiar uma proposta de ensino do esporte no ambiente escolar.
Após verificar que uma escola estadual atendeu a todos os critérios, realizou-se
o contato com a coordenação pedagógica da mesma. Assim que a proposta foi
aceita, foram encaminhados os documentos para a 5ª Coordenadoria de Educação
de Pelotas e à Coordenadoria de Extensão da UFPel, onde obteve aprovação.
O processo de implantação do JPA foi seguido por reuniões semanais entre os
membros do grupo, com a finalidade de alinhar o plano de trabalho em esporte a
ser desenvolvido na escola.
As atividades esportivas guiadas iniciaram no segundo semestre de 2017, vindo
a tornar-se uma realização contínua, que envolve a participação de 110 crianças
anualmente. No Quadro 1, pode-se observar toda a estrutura do JPA e seu desen-
volvimento, a partir do ano de 2017.

Quadro 1 - Estrutura do JPA de 2017 a 2019

2017 2018 2019

Escolas parceiras 01 01 01

Atendimento anual 110 110 110

Graduandos participantes 06 08 12

Pós-graduandos participantes 01 01 03

Fonte: Elaborado pelos autores (2019).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 475
Etapa 2: Planejamento das atividades
A base conceitual para o planejamento e a organização do JPA é a IEU. As ex-
pectativas de ensino e metas de aprendizado são encaminhadas em unidades di-
dáticas semestrais, com uma proposta de ensino pautada nas estruturas tempo-
rais das fases universais I , II e III, as quais são aplicáveis a crianças de 6 a14 anos
(GRECO; BENDA, 1998).
Salienta-se que as capacidades coordenativas são um dos pilares básicos para o
desenvolvimento esportivo em longo prazo, seja visando o lazer ou o rendimento.
De acordo com a etapa de formação, a indicação é de que as estratégias de desen-
volvimento explorem o aprendizado das capacidades coordenativas e táticas, pro-
movendo estímulos para que o indivíduo aprenda jogando (GRECO; SILVA; SAN-
TOS, 2009). Essa relação entre estratégia e táticas foi explorada no JPA, conforme
pode ser observado no Quadro 2.
Para Garganta (2000), “a tática é percebida como algo que se refere à estraté-
gia”. No processo de ensino e aprendizagem da tática, o iniciante deve ser insti-
gado a fazer a “leitura” e ser estimulado a entender quais as melhores ações de
ataque e defesa para ter sucesso no jogo e a consecutiva compreensão do jogo.

Quadro 2 – Base conceitual do planejamento tático das atividades esportivas do JPA

Parâmetro – Tijolo Atividade/ Tarefas táticas nas quais:


Acertar o alvo Deve-se lançar, chutar, combater, disparar uma bola a um alvo,
para que atinja um local escolhido.
Transportar a bola para o objetivo Objetiva-se transportar, jogar, fazer a bola chegar a um objetivo
determinado.
Criar superioridade numérica O importante é, através do jogo com colega, conseguir um
ponto, gol, ou preparar o ponto, gol para o outro (assistência).
Jogo coletivo O importante é receber a bola do colega, ou passar a bola para
este.
Reconhecer espaços É importante reconhecer as chances para se jogar ao gol.
Superar adversário No confronto com adversário, consegue-se assegurar a posse
de bola.
Fonte: Capacidades táticas básicas (GRECO; BENDA, 1998).

Etapa 3: Realização anual das atividades esportivas do JPA


As atividades esportivas guiadas ocorrem nas dependências da escola parceira,
desde 2017, no turno da tarde, no espaço disponível, composto por uma quadra de
cimento não coberta, como se pode ver na Figura 1, e um salão amplo, utilizado
em dias de chuva. Ocorrem dois encontros semanais de 50 minutos cada por tur-
ma atendida, sendo a aula no mesmo turno escolar, ministrada por pelo menos
três acadêmicos do curso de EF e supervisionada por uma professora estudante
do Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Além disso, as professoras
titulares da escola, que são pedagogas e não especialistas em EF, acompanham as
atividades.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 476
Figura 1 – Espaço
disponível para a
prática esportiva
Fonte: Acervo JPA

O número de atendimentos por turma ocorre de acordo com a organização


escolar anual. Para exemplificar, a Figura 2 aponta o demonstrativo das turmas
participantes, que ao longo dos três anos se manteve semelhante. Grifa-se que
a “Turma C” foi maior em 2019 pelo fato de unir os 3° e 4° anos do Ensino Funda-
mental.

Figura 2 –
Organização das
turmas do JPA por
idades
Fonte: Elaborada
pelos autores (2019).
O planejamento das aulas ocorre por semestre, de acordo com a turma e com
a base conceitual indicada, levando em consideração a fase da IEU e as idades dos
escolares. A quantidade de pessoas que compõem a equipe de trabalho permi-
te um bom atendimento por turma, possibilitando, inclusive, assumirem funções
como o preenchimento do diário de campo por aula e o registro dos principais
acontecimentos da aula em fotos e vídeos.

Resultados
Acredita-se que ao longo desses anos o JPA tem conseguindo atingir seu objeti-
vo de propiciar práticas esportivas orientadas às crianças e adolescentes, simulta-
neamente à inserção de acadêmicos do curso de Educação Física em experiências
docentes no ambiente escolar.
Com um quantitativo de cerca de 110 atendimentos anuais, o JPA totaliza apro-
ximadamente 330 atendimentos ao longo dos três anos de atuação. Julga-se que
o planejamento estruturado das atividades guiadas vem surtindo significativos
resultados, sendo perceptível com base nos achados dos testes motores e dos re-
gistros no diário de campo. Nota-se a melhoraria dos alunos em relação aos aspec-
tos motores, tais como desempenho das habilidades de locomoção – conforme
mostra a Figura 3 –, realização de determinadas tarefas em menor tempo, maior
controle de objetos manipulados, além de aumento na precisão durante jogos e
brincadeiras de acertar alvos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 477
Figura 3 – Escolares
praticando atividades
que desenvolvem os
aspectos motores
Fonte: Acervo JPA

No sentido dos aspectos cognitivos, observam-se avanços na organização dos


alunos e na atenção durante os jogos e brincadeiras, conforme se pode observar
na Figura 4, onde os alunos estão atentos e organizados, respondendo às deman-
das do jogo. É possível constatar seus progressos ao analisarem-se os registros
das turmas ao longo do tempo do JPA. Ali, está demonstrado o quanto tinham di-
ficuldades de entendimento ao participarem dos jogos, até mesmo nos momentos
de tomadas de decisões, as quais só ocorriam quando estimulados. No entanto,
com a prática e os desafios propostos, os alunos demonstram maior qualidade nas
ações, a partir de uma melhor “leitura” das demandas do jogo.
Figura 4 – Jogo
para aprimorar as
capacidades táticas
Fonte: Acervo JPA

Além disso, percebe-se desenvolvimento igualmente em relação aos aspectos


atitudinais. Nesse sentido, não só o relacionamento entre os pares, mas também o
respeito às propostas de cada aula tem evoluído. Atribuem-se as mudanças de ati-
tude às diversas vezes em que a aula foi parada e os problemas expostos em roda
de conversa, como mostra a Figura 5, para que todos passassem a tentar ajudar,
minimizando as agressões verbais e vindo a buscar deles a resolução dos conflitos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 478
Figura 5 – Roda
de conversa
com escolares e
professores durante
a aula
Fonte: Acervo JPA

Para além dos aspectos relacionados aos escolares participantes, nota-se a


importância do JPA para a formação docente dos graduandos em EF. A Figura 6
retrata a equipe de graduandos do JPA. Destaca-se, como principal resultado, a
oportunidade de exercitarem o ensino do esporte em situação real na escola, sen-
do capazes de mediar, discutir e dialogar na busca de resolução dos problemas do
cotidiano escolar.
Figura 6 – Equipe de
trabalho 2019
Fonte: Acervo JPA

Ademais, outros resultados percebidos dizem respeito às demais experiências


a partir do JPA, tais como reuniões de equipe, como demonstra a Figura 7, e articu-
lações com a pesquisa, através da participação em eventos acadêmicos, apresen-
tação de resumos e publicação de artigos.
Destaca-se que os recorrentes convites para divulgar o JPA levaram a equipe a
organizar, desde 2018, cursos semestrais de capacitação sobre o ensino do esporte
para acadêmicos de Educação Física, como pode ser observado na Figura 8. Os
cursos, além de se constituírem como espaços favoráveis à troca de experiências,
têm sido utilizados como requisito de ingresso aos interessados em participar da
equipe anual do JPA.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 479
Figura 7 –
Professores do JPA
em reunião
Fonte: Acervo JPA

Figura 8 – Curso de
capacitação para os
alunos da graduação
Fonte: Acervo JPA

Considerações finais
Os diversos níveis de experiência, engajamento e reflexão sobre a prática que o
projeto JPA tem possibilitado a todos nos permite concluir que seu objetivo bifocal
vem sendo alcançado.
Com relação exclusivamente aos escolares, pode-se afirmar que eles têm a
oportunidade de vivenciar diversas experiências através do esporte, as quais não
apenas contribuem para seu desenvolvimento motor e de aspectos táticos, senão
que joga importante papel na sua construção como seres humanos. Por meio dos
valores do esporte, os escolares aprendem que é importante, antes de mais nada,
ter companheiros para jogar e para isso é necessário respeitar o colega, as indivi-
dualidades e trabalhar em equipe.
Outrossim, importa sublinhar o aspecto do tautocronismo almejado em seus
resultados. Considerando-se que as aulas de EF, no Ensino Fundamental I das es-
colas estaduais de Pelotas, não são ministradas por professores de Educação Fí-
sica, a oportunidade de realização de iniciativas como o JPA torna-se amplamen-
te relevante, seja pelo aprendizado dos escolares, que têm acesso a uma prática

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 480
guiada de esporte na escola, seja pelo crescimento profissional dos acadêmicos
envolvidos, aos quais é propiciada a oportunidade de planejar, organizar e atuar
em atividades educacionais no ambiente escolar, compartilhando com a comuni-
dade escolar o conhecimento científico adquirido durante o processo de formação
na universidade.

Referências
GAYA, A.; TORRES, L. A cultura corporal do movimento humano e o esporte edu-
cacional. In: BÁSSOLI, A. O.; PERIM, G. L. Fundamentos pedagógicos para o
Programa Segundo Tempo. Porto Alegre: UFRGS; Brasília: Ministério dos Espor-
tes, 2008. p. 57-65.

GRECO, P. J.; BENDA, R. N. Da aprendizagem motora ao treinamento técnico -


conceitos e perspectivas. In: GRECO, P. J. (Org.). Iniciação esportiva universal:
metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. v.2. Belo Horizonte:
Editora da UFMG, 1998. p.15-38.

GRECO, P. J.; SILVA, S.; SANTOS, L. R. Organização e desenvolvimento peda-


gógico do esporte no Programa Segundo Tempo. In: OLIVEIRA, B; PERIM, G. L.
(Orgs.). Fundamentos pedagógicos do Programa Segundo Tempo: da reflexão
à prática. Maringá: Eduem, 2009. p. 163-206.

GARGANTA, J. O treino da táctica e da estratégia nos jogos desportivos. In: GAR-


GANTA, J. (Ed.). Horizonte e órbitas no treino dos jogos desportivos. Porto:
Converge Artes Gráficas, 2000. p. 51-61.

GALATTI., et al. Pedagogia do esporte: tensão na ciência e o ensino dos jogos es-
portivos coletivos. Revista da Educação Física/UEM, v.25, n.1, p.153-162, [Link].
2014.

GIUSTI, J. G., et al. O ensino do esporte através do jogo: análise, possibilidades e


desafios na educação física escolar. Pensar a prática, v. 20, n. 3, 2017.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 481
SOBRE OS AUTORES
Eraldo dos Santos Pinheiro, gradu- cola Superior de Educação Física pela
ado em Educação Física na UNILASAL- UFPel. Supervisora do Projeto Jogando
LE, doutor em Ciências do Movimento para Aprender. E-mail: frandasilva9@
Humano na UFRGS. Professor adjunto [Link]
da Escola Superior de Educação Físi-
ca, UFPel. Coordenador do Labora- Felipe Fernando Guimarães da Sil-
tório de Estudos em Esporte Coletivo va, graduado em Licenciatura em Edu-
e do Projeto Jogando para Aprender. cação Física pela UFPel. Mestrando da
E-mail: esppoa@[Link] Escola Superior de Educação Física pela
UFPel. Supervisor do Projeto Jogando
Patrícia da Rosa Louzada da Silva, para Aprender. E-mail: [Link]@
graduada em Licenciatura em Educa- [Link]
ção Física pela UFPel, mestra em Edu-
cação Física pela UFPel. Doutoranda da Vivian Hernandez Botelho, gradu-
Escola Superior de Educação Física pela ando do Curso de Licenciatura em Edu-
UFPel. Supervisora do Projeto Jogando cação Física pela UFPel. Colaboradora
para Aprender. E-mail: patricia_prls@ do Projeto Jogando para Aprender.
[Link] E-mail: vivianhbotelho@[Link]

Franciéle da Silva Ribeiro, gra-


duada em Licenciatura em Educação
Física pela UFPel. Mestranda da Es-

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº7 482
PRODUÇÃO DE VÍDEO ESTUDANTIL:
A HORA E A VEZ DO ALUNO

Josias Pereira
Eliane Candido
Vania Dal Pont
Viviane Lino

Apresentação
A Universidade Pública é um espaço importante de produção, acumulação e
disseminação de conhecimentos. Professores, alunos e comunidade trocam co-
nhecimento e aprendem em conjunto e, sobretudo, são essas trocas que confi-
guram o tripé ensino, pesquisa e extensão, base fundamental da universidade.
Embora cada pilar dessa base seja independente funcionalmente, a Constituição
Federal de 1988, em seu artigo 207, estabelece que esses três eixos devem ser
trabalhados de forma equivalente, obedecendo ao princípio de indissociabilidade
previsto no conjunto de normas que regem a Constituição.
Complementarmente, o artigo 43 da Lei 9.394, de 1996, estabelece as diretri-
zes e bases da educação nacional definindo, no Inciso VII, que a educação supe-
rior deve “promover a extensão, aberta à participação da população, visando à
difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa
científica e tecnológica geradas na instituição” (BRASIL, 1996,). Desse modo, a
extensão universitária ocorre quando a universidade realiza uma ação junto com a
comunidade, possibilitando a troca de conhecimento desenvolvido na instituição,
articulando com esse público externo os conhecimentos adquiridos no ensino e na
pesquisa.
Essa ação de interação pode contribuir transformando a realidade social. Nesse
sentido, acreditamos que a Extensão Universitária é uma iniciativa que contribui
no desenvolvimento social e na articulação de políticas públicas. Assim, o projeto
de extensão Produção de Vídeo Estudantil – ao qual nos vinculamos – visa, desde
EDUCAÇÃO Nº8

2011, servir de instrumento de inserção social aproximando a academia da comu-


nidade, promovendo ações que contemplam a indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 483


Projeto de Extensão Produção de Vídeo
Estudantil: o início de um percurso de ações no
Ensino Básico
Em 2011, a professora de Língua Portuguesa do Ensino Básico, Giovana Janhke,
procurou o curso de bacharelado em Cinema e Audiovisual da Universidade Fede-
ral de Pelotas (UFPel), localizada no estado do Rio Grande do Sul (RS), pois pre-
cisava de ajuda na produção de um curta-metragem com os alunos do 8º ano da
Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Independência, situada no bairro
Sítio Floresta, zona periférica da cidade de Pelotas/RS. A referida professora que-
ria que a universidade realizasse uma oficina para os alunos do 8º ano, a fim de
oferecer a estes jovens conhecimentos técnicos de uma produção audiovisual para
a viabilização do curta-metragem no espaço escolar. O professor Josias Pereira –
que havia ingressado como docente na universidade há 2 meses – se prontificou
a realizar a oficina, já que trabalhava com produção de vídeo estudantil na cidade
do Rio de Janeiro e por sete anos foi “Amigo da Escola”1, realizando oficinas para
alunos do 3º ano do ensino fundamental junto ao Centro Integrado de Educação
Pública (CIEP) Dr. Adão Pereira Nunes2.
Buscando, então, atender a demanda solicitada, o professor fez uma visita à
escola e percebeu que uma única oficina não resolveria o problema da professora
e propôs a ela um acompanhamento semanal. A proposta previa que esse acom-
panhamento se daria por meio de oficinas ministradas pelo professor Josias, às
sextas-feiras, das 8h às 11h, até o final do ano letivo. A professora Janhke, assim
como a equipe diretiva da escola, concordou com a intervenção, nascendo, assim,
o projeto de extensão Produção de Vídeo Estudantil.
Com o projeto devidamente protocolado e aprovado junto à UFPel – o qual,
desde então, objetiva oferecer formação continuada à professores e alunos para
a produção audiovisual na escola –, o professor Josias, coordenador do projeto,
convidou alguns alunos do curso de Cinema e Audiovisual para colaborarem com
ações básicas que possibilitassem conhecimento sobre a produção de audiovisual.
Durante o período de 6 meses foram ministradas oficinas de vídeo com os alunos
do 8º ano. Elas foram divididas em 4 partes de acordo com as etapas básicas do
processo de produção: 1ª- Criação do roteiro; 2ª- Produção dos vídeos; 3ª- Grava-
ção dos vídeos; 4ª- Edição dos vídeos.
O trabalho resultou em quatro curtas-metragens, O Dilema3, O Velho Craque4,
Debutantes e Regina quer Casar. Eles foram realizados pelos alunos da EMEF In-
dependência com total apoio da equipe diretiva. A exibição dos trabalhos foi feita
para a comunidade escolar, em um sábado à noite, no auditório da escola. Os alu-
nos convidaram seus familiares para participarem da exibição e a iniciativa lotou o
auditório, que recebeu mais de 150 pessoas. Alguns curtas foram hospedados na
plataforma de vídeo YouTube, no canal denominado “Produção de Vídeo Estudan-
til”5, criado para divulgar o projeto de extensão.
1 Amigos da Escola é um projeto social brasileiro que foi fundado pela Rede Globo, em agosto de 1999,
com o objetivo de fortalecer a rede pública de ensino básico.
2 O referido centro fica no bairro de Irajá, zona norte do Rio de Janeiro.
3 [Link]
4 [Link]
5 [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 484
Em seguida, ao percebermos o interesse dos professores pelos conhecimen-
tos técnicos implicados no processo de produção de vídeo, o canal começou a de-
senvolver vídeos produzidos com o objetivo de oferecer aos professores e alunos
saberes técnicos e artísticos do cinema, com base em teorias da área. Era a possi-
bilidade de estender o acesso a essa área, oportunizando que educandos e educa-
dores pudessem acessá-lo de onde quer que estivessem.
Posteriormente, entendendo que produzir vídeo dentro do espaço escolar ul-
trapassa os estudos técnicos e artísticos do cinema, houve a necessidade de se
repensar a proposta elencando o caráter pedagógico a este fazer. Para tanto, fo-
ram realizadas algumas pesquisas com professores da rede pública buscando-se
compreender a realidade escolar na qual estavam inseridos.
Nessa perspectiva, com base na ideia de que o fazer vídeo no ambiente escolar
é uma forma singular de aplicar os conhecimentos artísticos e técnicos da área do
cinema, o canal passou a oferecer alguns vídeos com uma linguagem mais volta-
da para professores e outros vídeos com linguagem mais apropriada aos alunos.
Desde a sua criação, o canal foi se reinventando e já atingiu mais de 18 milhões de
acessos, o que demonstra que existe interesse por parte de professores e alunos
em fazer vídeo na escola, bem como aprender algumas técnicas sobre a produção
audiovisual.

Estendendo as ações do projeto: parcerias


institucionais e a articulação de redes de ensino
Considerando o retorno positivo por parte da comunidade escolar da EMEF In-
dependência e da comunidade local, o professor Josias e a professora Giovana pro-
curaram o secretário de educação de Pelotas/RS, no ano de 2012, para a criação de
um festival de vídeo estudantil na cidade. O secretário gostou da ideia e apoiou o
festival, surgindo, assim, o I Festival de Vídeo Estudantil de Pelotas. O projeto de
extensão passa, então, a incorporar essa nova ação.
A partir desse novo compromisso foi necessário organizar uma metodologia
que além de viabilizar a produção de vídeo no contexto escolar, pudesse oferecer
conhecimentos da produção audiovisual considerando a realidade das escolas pú-
blicas de ensino básico do município. Com a ajuda da professora Giovana, desen-
volvemos um passo a passo sobre produção de vídeo estudantil, buscando ofere-
cer esse conhecimento de forma simples e didática junto às oficinas de vídeo rea-
lizadas nas escolas. Em seguida, foi realizada uma capacitação com os professores
para que tivessem noções básicas de uma produção de vídeo. Em um segundo
momento, foi feita a capacitação aos alunos que iriam realizar o vídeo estudantil.
Depois da capacitação docente e discente, foi realizado o I Festival de Vídeo
Estudantil de Pelotas. No mesmo ano, ainda em 2012, o professor Josias e a pro-
fessora Giovana lançaram na Feira do Livro de Pelotas o livro “Produção de vídeo
nas escolas: Educar com Prazer” (PEREIRA; DALPONT, 2012.). A obra, além de
apresentar um profícuo debate sobre o fazer vídeo no contexto escolar, conta com
depoimentos dos alunos que participaram do projeto na escola Independência, na
qual – conforme já referido – iniciou-se o percurso do projeto de extensão que até
hoje desenvolvemos.
Dentre as discussões que compõem o livro, defende-se que o fazer vídeo vale
pelo processo que leva o aluno a realizá-lo e não pelo produto final em si. Sob
essa perspectiva, iniciamos um debate com os professores sobre a importância

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 485
de analisar esse processo e de trabalhar o currículo oculto6 que é acionado nesse
fazer. Percebemos que a produção de vídeo abre um espaço de fala ao aluno pelo
qual ele manifesta o seu desejo em participar dos debates que circulam na socie-
dade e de dividir suas opiniões com o mundo.
Dentro do processo de produção de vídeo, dar voz aos alunos – estimular o seu
protagonismo – motivando-os a participar desses debates é também uma prá-
tica pedagógica, talvez uma das mais humanizadoras nesse processo. O grande
mestre Paulo Freire, na década de 80, já defendia que “ninguém educa ninguém,
ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo
mundo” (FREIRE, 1981, p. 79).
Essa discussão foi – e tem sido – bastante produtiva, tanto que o trabalho junto
à EMEF Independência prosseguiu no ano seguinte, em 2013, com oficinas minis-
tradas pela professora Vânia Dal Pont a alunos do 8º e 9º ano. O trabalho resultou
em 3 vídeos feitos pelos estudantes. Dessa vez, as oficinas foram realizadas no
contraturno das aulas e a cada novo contato com os alunos e professores buscáva-
mos sempre reforçar a importância do processo e não do produto final.
O debate estendeu-se, inclusive, para outros estados, em oportunidades que
tivemos de relatar um pouco dessa experiência que, à época, era ainda mais ino-
vadora que atualmente. Em uma oficina de vídeo estudantil realizada com adoles-
centes na cidade da Serra do Cipó, em Minas Gerais, a professora Vânia colocou
em evidência questionamentos relacionados à produção de vídeo como prática
pedagógica e não apenas como um fazer técnico. Em contrapartida, também pro-
vocamos discussões que buscam fazer o professor refletir sobre a necessidade de
o docente deixar o aluno criar o que deseja e não apenas realizar o vídeo como
uma ação pedagógica e burocrática da escola.
Essas são problematizações que caminham junto com o projeto, desde a sua
criação, suscitando a formação de um grupo de pesquisa, ativo até hoje, que bus-
ca desenvolver essas e outras questões no campo científico. Passamos, então, a
escrever artigos contemplando esses questionamentos e relatando, com base na
experiência a campo, como o fazer vídeo na escola difere do fazer vídeo de forma
comercial.
Nessa vivência a campo e a partir das discussões desenvolvidas no grupo, per-
cebemos a importância de se debater com os professores que o que eles estavam
fazendo era algo inovador dentro do processo pedagógico. Ao fazer vídeo no es-
paço escolar deve-se ter necessariamente a preocupação pedagógica, mas uma
preocupação não somente centrada no tema do vídeo e, sim, no processo pedagó-
gico que é realizado com o auxílio do corpo docente da escola.
Nesse tocante, um próximo passo importante foi o de buscar novas parcerias
institucionais fora de Pelotas, sobretudo em cidades vizinhas, a fim de ampliar esse
debate e oferecer para outros municípios e escolas uma formação sobre produção
de vídeo no âmbito escolar. Cumprindo-se esse próximo passo, no ano de 2014, o
professor Josias entrou em contato com a Secretaria Municipal de Educação de
Rio Grande para a criação do festival de vídeo estudantil no município. O projeto
foi aceito, passando a ser anualmente organizado. Essa organização é coordenada
pela própria prefeitura local, que convidou o projeto de extensão para participar
da iniciativa.
6 Segundo Pereira e Dal Pont (2017) o currículo oculto compreende a ação docente de trabalhar concei-
tos transversais para a formação global do aluno. Essas intervenções ocorrem quando o docente debate e cria
ações que não estão explícitas no currículo da disciplina.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 486
No primeiro ano, foram oferecidas oficinas a professores e alunos nos mesmos
moldes de como foram realizadas em Pelotas. Para organizar as ações entre as
duas cidades, já que Rio Grande/RS fica a 60km de distância de Pelotas, imple-
mentamos no canal de vídeo do projeto, junto ao YouTube, novos materiais que pu-
dessem ajudar o professor em sua formação. Criamos, em 2014, o Vlog “Primeiros
Passos”7, o qual orienta o professor sobre como ele pode organizar a turma para
realizar vídeo, oferecendo ao docente dicas técnicas sobre o assunto. No mesmo
ano, também criamos o programa “Vídeo em Foco”8, a fim de divulgar o trabalho
feito pelos alunos.
Posteriormente, no mesmo ano, organizamos um site denominado “Produção
de Vídeo Estudantil”9, cujo objetivo é o de ajudar professores na parte pedagógi-
ca do projeto. Para tanto, criamos dentro do site um espaço com hiperlinks que
direcionam a materiais pedagógicos em PowerPoint10 e em arquivos de texto que
podem ser baixados pelo professor para auxiliá-lo na produção de vídeo. Dentre
os materiais são oferecidos, inclusive, aqueles trabalhados junto às oficinas mi-
nistradas nas escolas. Além disso, na aba “Livro, Teses e Artigos”11, há hiperlinks
de vários livros, teses e dissertações sobre produção de vídeo na escola. Na aba
“Música”12 indicamos músicas livres de direitos autorais para que os alunos possam
utilizá-las como trilha sonora em seus trabalhos, sem incorrer a problemas legais.
Cientes de que os cursos de licenciatura não ensinam ou mesmo orientam para
a utilização do “fazer vídeo” como prática pedagógica, passamos a produzir, cada
vez mais, materiais que pudessem ajudar o professor nessa tarefa. Ocorre que,
para além das questões técnicas que são recorrentemente relatadas pelos docen-
tes como um desafio no uso dessa ferramenta em sala de aula – que é mais que
uma ferramenta, é uma metodologia –, há também dificuldades de cunho pedagó-
gico. Nesse sentido, é preciso considerar, por exemplo, que o professor possui um
tempo limitado para trabalhar esse projeto com os alunos. Sabe-se que, de modo
geral, é longo o tempo que demanda uma produção de vídeo, assim, para adaptá-
-lo ao espaço escolar é preciso problematizar essa necessidade: como organizar os
alunos e fazer um curta em 2 ou 3 meses?
Foi debatendo com alunos e professores envolvidos nessa produção que, ao
longo dos anos de 2011-2014, percebemos que a escrita do roteiro era a etapa mais
demorada e complexa de ser desenvolvida. Com essa informação em mãos inicia-
mos uma pesquisa de como fazer o roteiro de forma mais simples para os alunos e
professores, sempre numa dinâmica de trocas com esses atores sociais.
A partir dessas inquietações desenvolvemos, em 2015, o longa-metragem “SEM
HPV: O filme que ensina a Fazer Filme”13 com o objetivo de estimular professores a
fazerem vídeo com seus alunos, oferecendo de uma forma metalinguística conhe-
cimentos que colaborem para essa prática pedagógica.

7 [Link]
8 [Link]
9 [Link]
10 [Link]
11 [Link]
12 [Link]
13 [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 487
O longa foi gravado com o apoio dos
alunos do curso de Cinema e Audiovi-
sual da UFPel e contou com estudantes
da Educação Básica como atores. Esses
estudantes, na época, tinham entre 12-
15 anos e integravam o curso de teatro
da Escola Estadual Cassiano do Nasci-
mento, localizada na cidade de Pelotas.
O projeto de extensão firmou convênio
com essa instituição de ensino, a qual
também nos cedeu o espaço físico para
as gravações.
O filme tem um total de 2h de dura-
ção e foi divido em seis episódios de 20
minutos cada para que o professor pos-
sa exibi-lo e debatê-lo com os alunos no
período de aula. Foram 20 dias de gra-
vação, que ocorreu apenas nos finais de
semana, totalizando 2 meses de grava-
ção – de junho até agosto de 2015. As
gravações tinham início às 8h e término
Figura 1 – Cartaz do às 18h. Aqui é importante ressaltar a dedicação dos alunos com as gravações, pois,
longa-metragem apesar de ocorrerem nos finais de semana e ocuparem grande parte do dia, nunca
“SEM HPV: O filme tivemos problemas com a falta dos atores, os quais estavam sempre presentes e
que ensina a Fazer
Filme”. Realizado
prontos para a gravação.
em 2015 dentro do Nesse mesmo ano, além do desenvolvimento de novos materiais de apoio a
projeto de extensão alunos e professores do Ensino Básico, foi consolidada uma nova parceria para a
“Produção de vídeo criação de mais um festival de vídeo estudantil, dessa vez com a Secretaria Mu-
estudantil”. nicipal de Educação de São Lourenço do Sul/RS, cidade localizada a aproximada-
Fonte: Acervo do mente 70km de Pelotas. A nova parceria trouxe uma experiência peculiar à equipe
projeto - Fotografia que compõe o projeto de extensão, uma vez que 40% dos moradores da cidade
de Josias Pereira.
residem no campo, zona rural.
Assim, as oficinas com os alunos foram feitas nas escolas do campo, uma delas,
a Escola Municipal de Ensino Fundamental Germano Hubner – que fica a uma hora
do centro da cidade cujo acesso é interligado, em grande parte, por estrada de
chão. Visitamos algumas escolas a convite da secretaria, sendo assim, as oficinas e
os vídeos foram realizados com alunos da zona rural e da área quilombola. Poste-
riormente, os trabalhos dos estudantes foram exibidos junto ao Festival de Vídeo
Estudantil de São Lourenço do Sul.
Com a repercussão do material desenvolvido até então e a criação de festivais
com o apoio institucional da UFPel, ainda em 2015, o professor Josias recebeu a
professora Eliane Candido que representando a Secretaria Municipal de Educação
de São Leopoldo interessou-se em saber como era realizado o festival de vídeo
estudantil nas cidades onde já ocorriam. O professor acompanhou a professora
Eliane a duas escolas que realizavam vídeo no município de Pelotas – a EMEF In-
dependência e a EMEF Afonso Vizeu. A professora conversou com os docentes e
discentes das escolas para entender como funcionava o projeto, a fim de adaptá-lo
e aplicá-lo em sua cidade. Além disso, ao conhecer os materiais disponíveis no site
e no canal do YouTube, a professora considerou viável a organização de oficinas de
produção de vídeo com o apoio desses materiais.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 488
Posteriormente, foi agendada uma visita do professor Josias à cidade de São
Leopoldo/RS para uma conversa com o secretário municipal de educação. Logo,
foi criado o I Festival de Vídeo Estudantil de São Leopoldo, conhecido como São
Léo em Cine, que já em sua primeira edição apresentou mais de 30 vídeos reali-
zados pelos alunos das escolas públicas. O festival foi um sucesso e contou com a
parceria do Cinesystem Cinemas do Bourbon Shopping que cedeu, por dois dias,
as salas de cinema para exibição dos vídeos à comunidade escolar, abrangendo um
público de aproximadamente 1.000 pessoas entre alunos, familiares, professores,
equipes diretivas, autoridades e convidados.
Figura 2 – I Festival
de Vídeo Estudantil
de São Leopoldo /
São Léo em Cine.
Fonte: Acervo do
projeto - Fotografia
de Eliane Candido.

Com o crescente interesse de professores e, sobretudo, de alunos pela produ-


ção de vídeo no contexto escolar, desenvolvemos, em 2015, a websérie “Cine Passo
a Passo”14. A iniciativa partiu de uma reunião com os alunos, os quais reclamaram
que os nossos vídeos eram muito pedagógicos e “chatos”, já que a linguagem era
bastante acadêmica. Assim, criamos a websérie voltada aos alunos, usando uma
linguagem mais simples e coloquial.
No ano seguinte, em 2016, o professor Josias foi convidado a fazer parte do
mestrado acadêmico do curso de Educação Matemática, pois o grupo desejava
ampliar o uso prático das tecnologias dentro do espaço escolar da matemática. O
professor iniciou um trabalho convidando os alunos do mestrado a conhecerem o
projeto de extensão e a realizarem vídeos dentro do espaço escolar.
Nesse mesmo ano, houve também a expansão do projeto, que passa a contar
com a parceria da Secretaria Municipal de Educação de São José do Norte, municí-
pio localizado próximo a Rio Grande, para realização do festival de vídeo estudan-
til. Na época, era desenvolvido no município o projeto “Mais Educação”15, vincu-
lado ao governo federal. A Secretaria de Educação pediu, então, para a equipe do
projeto de extensão capacitar uma das participantes do “Mais Educação” para que
esta pudesse fazer vídeo com os alunos.

14 [Link]
15 [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 489
A professora indicada não tinha afinidade com tecnologia audiovisual, assim o
professor Josias teve de agendar encontros via Hangout16 para capacitá-la a rea-
lizar vídeo, já que a cidade de São José do Norte/RS fica a 100km de distância de
Pelotas e a secretaria não tinha verbas para levar a nossa equipe à cidade. A capa-
citação foi feita em 8 encontros de 2 horas cada e, ao final, a professora conseguiu
realizar 5 vídeos com seus alunos.
Ainda em 2016, uma nova parceria foi firmada, passando a Secretaria de Edu-
cação do município do Capão do Leão/RS, localizado próximo a Pelotas, a também
organizar um festival de vídeo estudantil na cidade, seguindo os moldes dos festi-
vais desenvolvidos nos demais municípios parceiros do projeto.
Figura 3 – Oficina de
produção de vídeo
com alunos do Capão
do Leão realizado
pelo professor Josias
Pereira.
Fonte: Acervo do
projeto - Fotografia
de Vânia Dal Pont.

É preciso ressaltar que todas as reuniões para a criação dos festivais de vídeo
estudantil, nas cidades onde o evento ocorre em parceria com o projeto de ex-
tensão, foram feitas com os secretários de educação das respectivas cidades, pois
acreditamos que com a anuência das secretarias de educação a produção de vídeo
estudantil passa a ganhar legitimidade.
Nessa conjuntura, a parceria entre a UFPel e as secretarias municipais de edu-
cação tem permitido que a produção de vídeo seja efetivamente integrada ao es-
paço escolar. Assim, essa articulação institucional garante ao professor o reconhe-
cimento dessa prática pela secretaria de educação de seu município, que apoia
este tipo de ação técnica, artística e pedagógica.

Nasce o Congresso Brasileiro de Produção de


Vídeo Estudantil
A abrangência dos festivais e o debate com vários professores da Educação Bá-
sica motivou a criação do Congresso Brasileiro de Produção de Vídeo Estudantil
(CBPVE), que teve a sua primeira edição em 2016, proposta que adicionou mais
essa ação ao projeto de extensão da UFPel. O Congresso visa debater com profes-
sores da Educação Básica ações pedagógicas e técnicas concernentes à produção
de vídeo estudantil.
16 Google Hangouts é uma plataforma de comunicação, desenvolvida pela empresa Google, que inclui
mensagens instantâneas, chat de vídeo, SMS e VOIP.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 490
Tal iniciativa propiciou um espaço de trocas com o intuito de compreender
como a ação de fazer vídeo dentro do espaço educacional pode contribuir no pro-
cesso de ensino-aprendizagem. Desde então, o CBPVE tem percorrido diferentes
cidades e estados, sobretudo para possibilitar o crescimento de uma rede de dis-
cussões sobre a ação de produzir vídeo com os alunos. A primeira edição do even-
to ocorreu em 2016, junto à cidade de Pelotas, no campus do Centro de Artes da
UFPel.

Figura 4 –
I Congresso Brasileiro
de Produção de
Vídeo Estudantil
(2016) Professor
Josias na abertura do
Congresso.
Fonte: Acervo do
projeto - Fotografia
de Eliane Candido.

No ano seguinte, em 2017, ocorreu a segunda edição do congresso, dessa vez


na cidade de São Leopoldo/RS, com o apoio da Universidade do Vale do Rio dos
Sinos (UNISINOS) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), parcerias
necessárias para aumentar o alcance do projeto.

Figura 5 –
II Congresso
Brasileiro de
Produção de Vídeo
Estudantil (2017).
Professora Eliane
Cândido, na abertura
do Congresso.
Fonte: Acervo do
projeto - Fotografia
de Josias Pereira.
Considerando as produtivas discussões e trocas que circularam no congresso,
criamos, nesse mesmo ano, a “Roquette-Pinto”17, revista eletrônica do curso de
Pós-Graduação de Educação Matemática e do curso de Cinema e Audiovisual da
UFPel. A ideia foi abrir mais um espaço de discussão no meio científico, com o
objetivo de publicar artigos e relatos de experiências desenvolvidos por professo-
res do Ensino Básico e pós-graduandos, com foco na produção de vídeo feita por
alunos e professores.

17 [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 491
Já em 2018, ocorreu o III Congresso Brasileiro de Vídeo Estudantil, realizado em
Vitória da Conquista, Bahia, em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ci-
ência e Tecnologia da Bahia (IFBA) e com a Universidade Estadual do Sudoeste
da Bahia (UESB), ampliando o número de professores que produzem vídeo como
prática pedagógica.

Figura 6 – III
Congresso Brasileiro
de Produção de Vídeo
Estudantil (2018).
Fonte: Acervo do
projeto - Fotografia
de Josias Pereira.

Desde a criação do Congresso, já realizadas três edições, percebemos que a


grande maioria dos professores tem manifestado preocupação quanto ao estarem
ou não desviando o processo de ensino para uma questão estritamente técnica
demandada pela produção de vídeo. Nesse sentido, defendemos que o fazer vídeo
no espaço escolar deve assumir, a priori, um papel pedagógico, presente em todas
as etapas de produção desse processo, inclusive na técnica, uma vez que esta par-
ticipa da construção de sentidos incutidos na peça audiovisual.
Outra questão levantada no CBPVE coloca em evidência o objetivo da criação
de festivais e o caráter competitivo desses eventos. Em meio aos debates advindos
dessa inquietação, alguns professores consideram essencial o caráter competitivo
dos festivais, pois entendem que motiva a participação dos alunos; outros consi-
deram que o caráter competitivo coloca o prêmio e a disputa à frente da singular
ação pedagógica que a produção de vídeo promove no espaço escolar.
Entendemos que a exibição do vídeo, seja por meio de uma mostra competiti-
va ou não competitiva, compreende apenas uma das etapas de um processo muito
maior que, se bem articulado e efetivamente protagonizado pelos alunos, pode es-
timular e fortalecer o processo de ensino-aprendizagem. Trata-se de um processo
pedagógico humanizador, não de um mero produto que se cria para exibir troféus.
Assim, o que se vê, é que são diversas as questões levantadas sobre a produção
de vídeo na prática escolar, demonstrando que quem está fazendo esse trabalho
na escola está preocupado em fazê-lo de forma significativa.

Entrando no campo científico


O projeto Produção de Vídeo Estudantil, desde a sua criação, em 2011, foi na-
turalmente consolidando-se sob o tripé ensino, pesquisa e extensão. Foi a partir
do projeto de extensão que nos foi possível compreender o quanto, conforme
prevê a LDB, a universidade é capaz de “atuar em favor da universalização e do

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 492
aprimoramento da educação básica, mediante a formação e a capacitação de pro-
fissionais, a realização de pesquisas pedagógicas e o desenvolvimento de ativida-
des de extensão que aproximem os dois níveis escolares”18 (BRASIL, 1996).
Podemos dizer que foram as trocas com a comunidade externa e as ações
desenvolvidas junto a ela que encaminharam as pesquisas científico-pedagógi-
cas que têm sido produzidas ao longo dessa caminhada. Os trabalhos científicos
oriundos do projeto de extensão é uma forma de divulgarmos para a comunidade
acadêmica não apenas o projeto, mas sua importância social.
O primeiro trabalho científico do projeto foi escrito e publicado no ano de 2014,
em parceria com a bolsista de extensão Kelly Demo Christ. O artigo denominado
“A produção audiovisual estudantil: uma possibilidade na relação entre mídia e
educação” (2014)19 foi desenvolvido com o intuito de divulgar para a comunidade
científica possibilidades do uso da mídia na escola, não apenas por meio da exi-
bição de vídeos, mas pela prática, pelo “fazer”, pela criação midiática dentro do
processo educacional.
Desde então, escrever artigos se tornou uma prática importante para a divulga-
ção do projeto, pois percebemos que muitas pessoas citavam os nossos trabalhos
por ser algo novo e, sobretudo, pouco estudado dentro da academia20. De 2014
até hoje, realizamos 31 apresentações em congressos, seminários, conferências
e palestras. Escrevemos 9 livros e 21 artigos com temas relativos ao projeto de
extensão Produção de Vídeo Estudantil.
Entrar o campo científico foi também uma forma de atender as demandas de
alguns professores da Educação Básica que se mostravam interessados em ter um
aporte teórico para contribuir com o debate sobre a importância de se fazer vídeo
na escola, já que a produção de vídeo enfrenta, às vezes, resistência por parte de
alguns agentes educacionais. Entendemos que essa resistência ocorre pelo fato de
alguns educadores acharem que fazer vídeo no espaço escolar é algo puramente
técnico e não pedagógico.
Por outro lado, há uma resistência que advém do modelo de escola que ain-
da persiste na sociedade, pautado no conteúdo e no professor. Nesse sentido, a
produção de vídeo estudantil subverte essa lógica da escola tradicional, uma vez
que nessa prática pedagógica “a hora e a vez” é do aluno, pois é ele quem está no
centro do processo educacional.
Nessa perspectiva de buscar aportes teóricos que possam “conversar” com a
prática de produção de vídeo, o grupo já desenvolveu dezenas de escritas que ar-
ticulam essa ação pedagógica à proposta de diversos autores, como, por exemplo,
as propostas freirianas na sua relação dialógica com o aluno e a semiótica grei-
masiana, que discute como o signo é internalizado por meio de uma significação
dada. Também exploramos teorias emergentes, tais como a Neurociência, a Peda-
gogia dos Multiletramentos e as Metodologias Ativas.
Com o aporte da Neurociência, especificamente da Neurobiologia, buscamos
investigar o importante papel da emoção no desenvolvimento biológico, social e
na memória. Cosenza e Guerra (2011) defendem que a aprendizagem e a memória
18 Inciso VIII, artigo 43, incluído na Lei de Diretrizes e Bases (L9394, 1996) via Lei nº 13.174, de 2015.
19 Link - [Link]
20 Além dos trabalhos desenvolvidos em parceria com os demais membros da equipe do projeto de ex-
tensão, o professor Dr. Josias Pereira, coordenador do projeto, orientou até então 2 monografias e 4 disserta-
ções de mestrado. Vale ressaltar que duas alunas do mestrado optaram pela pesquisa na área de produção de
vídeo após conhecerem o projeto e realizarem oficinas de vídeo com os alunos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 493
são caras de uma mesma moeda, e a memória é ativada pela emoção, ou seja,
existe emoção no processo de fixar a informação. Esse sentimento, por sua vez, é
recorrentemente citado em depoimentos de alunos sobre o fazer vídeo na escola.
Já o interesse pela Pedagogia dos Multiletramentos está no fato de esta peda-
gogia – que é também uma teoria – provocar profunda e necessária desestabiliza-
ção do sistema escolar tradicional, pois visa não apenas à formação de um usuário
funcional – com competência técnica – habilitado para o “saber fazer”, mas de
um sujeito criador de sentidos, capaz de analisar criticamente textos verbais e não
verbais, (re)significando-os, seja na recepção ou na produção (ROJO, 2012).
As Metodologias Ativas, por sua vez, têm ganhado importante destaque na
educação nos últimos anos, pois pressupõe a inovação com base em uma sala de
aula que permite a participação ativa dos estudantes, privilegiando o aprendizado
significativo. Essa possibilidade de empreender e de inovar de forma significativa
é o cerne do trabalho com produção de vídeo estudantil, por isso, defendemos que
mais do que uma ação pedagógica, a produção de vídeo estudantil é uma metodo-
logia ativa de aprendizagem.
As pesquisas que a nossa equipe vem desenvolvendo no campo científico – gra-
ças as ações de extensão – estão cada vez mais abrangentes, não só do ponto de
vista teórico, mas pela visibilidade que vêm alcançando, contribuindo para novas
práticas pedagógicas e novas formas de participação e intervenção, pela socieda-
de civil, pela comunidade escolar e pelas políticas educacionais públicas.

Novas iniciativas: ações empreendidas nos


últimos dois anos (2018-2019)
Nos festivais que o projeto de extensão articula junto às escolas e secretarias
municipais de educação, a organização se dá por conta do órgão governamen-
tal, embora nossa equipe ofereça orientação para que o evento se efetive. Nossa
equipe atua na busca por parcerias institucionais e na formação de professores e
alunos para a produção de vídeo dentro do espaço escolar.
Desse modo, por serem os festivais realizados com as secretarias de educação,
essa iniciativa é sensível a mudanças políticas e, por vezes, corre o risco de ser
descontinuada. Essa situação ocorreu com o Festival de Vídeo Estudantil de Pelo-
tas, que funcionou por 4 anos consecutivos – até a sua IV edição – mas, posterior-
mente, em função de trocas de governo e da falta de recursos humanos por parte
da Secretaria Municipal de Educação para a organização do festival, o evento foi
interrompido em 2016.
No entanto, em 2018, o festival é reativado ocorrendo o V Festival de Vídeo Es-
tudantil de Pelotas (Fevies)21. Dessa vez, a organização do evento se dá por meio
de uma parceria entre UFPel e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
Sul-riograndense (IFSUL), viabilizada pela professora Viviane Lino que, na época,
era professora substituta na instituição.
Na cidade de São Leopoldo, com o intuito de não incorrer na descontinuidade
do festival por mudanças políticas, o secretário de educação que atuou na época
da criação do festival tornou-se vereador por São Leopoldo/RS e criou a Lei Nº
8597, de 23 de maio de 2017, que inseriu o festival no calendário de eventos da
cidade, possibilitando que a produção de vídeo na escola se tornasse uma ação
21 [Link]
-da-mostra-competitiva

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 494
pedagógica do município. É importante ressaltar que, para o nosso grupo de ex-
tensão, o mais importante é que o projeto seja realizado nas escolas, independen-
te das ações políticas que o envolve.
Além da organização de mais um festival na cidade de Pelotas, em razão de sua
retomada, o ano de 2018 foi também marcado por produtivos debates com os pro-
fessores da Educação Básica do Capão do Leão/RS e foi pensado, junto com eles,
um espaço dentro do festival para que os alunos pudessem relatar sua experiência
de fazer vídeo. Assim, junto ao III Festival de Vídeo Estudantil de Capão do Leão,
criamos o I Seminário de Produção de Vídeo Estudantil de Capão do Leão com o
objetivo de discutir com os estudantes o processo demandado no fazer vídeo. O
seminário contou com a presença da secretária de cultura e dois vereadores da
cidade que desejavam conhecer o projeto.
No mesmo ano, outras importantes ações foram ampliadas, como a produção
de materiais que visam orientar professor e aluno na prática de produção de vídeo.
Com a divulgação do projeto em artigos e revistas científicas muitas cidades pas-
saram a conhecer o projeto e a pedir ajuda na produção de vídeo estudantil. Nosso
canal no YouTube chegou a alcançar, no início de 2019, o número de 33 mil inscritos
e 18 milhões de acessos.
A partir de vários pedidos de oficinas e cursos de produção de vídeo, criamos
outros materiais virtuais, como as webséries “Dicas do Jô”22, em que o professor
Josias apresenta de modo simples e rápido algumas dicas de como fazer vídeo, e
“Aprenda a Fazer vídeo do Início ao fim”23 dividida em 20 módulos, cada um exibi-
do em um programa diferente. Os módulos orientam o professor desde a etapa de
organização da turma até a edição do vídeo e, posteriormente, exibição do traba-
lho dentro do espaço escolar.
A etapa de organização do material gravado e a edição de áudio e de vídeo
sempre foram algo delicado e, pelo relato dos alunos, talvez a parte mais difícil de
executar na escola, especialmente pela falta de estrutura física e de recursos ma-
teriais e técnicos que muitas instituições da rede pública enfrentam. Além disso,
não podemos pressupor que todos os alunos e professores possuam um compu-
tador em casa, especialmente máquinas que comportem softwares de edição que
exigem, por vezes, uma alta tecnologia. Todavia, nas oficinas, percebemos que a
maioria dos alunos e professores tem Smartphones.
Pensando em buscar um software que fosse gratuito, prático e intuitivo, e que
atendesse as necessidades da produção de vídeo estudantil, chegamos ao Oliver,
um programa de edição livre que pode ser instalado em diversos computadores de
diferentes capacidades técnicas. Assim, criamos alguns vídeos tutorias para ajudar
professor e aluno a instalar e utilizar esse programa24.
Ainda em 2018, criamos o aplicativo (APP) “Produção de vídeo Estudantil” com
o objetivo de que alunos e professores possam acessar de forma mais eficaz os
programas e as webséries que criamos para contribuir com a produção de vídeo
estudantil. Desse modo, os alunos que assistem filmes e vídeos pelo celular podem
ter acesso rápido a diversos programas como Cine Passo a Passo, Dicas do Jô, Di-
reção de atores, dentre outros. Trata-se de um APP que oferece subsídio teórico
necessário para pôr em prática a produção de vídeo no ambiente escolar.

22 [Link]
23 [Link]
24 [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 495
Em 2019, as ações do projeto de extensão continuaram crescendo. Nesse ano,
durante palestra sobre Neurociência e Produção de Vídeo Estudantil, ministra-
da pelo professor Josias a convite da Secretaria Municipal de Educação de Can-
guçu, mais uma parceria foi firmada para a organização de um festival de vídeo
estudantil na cidade de Canguçu/RS. Ação semelhante ocorreu no município de
Cruz Alta/RS, onde estamos colaborando na criação da I Mostra de Vídeo Estudan-
til que ocorrerá em novembro de 2019 e, para 2020, o I Festival de Vídeo Estudantil
de Cruz Alta25.
Neste ano seguiram, também, as intervenções que fazemos junto às escolas,
dentre elas ressaltamos a realização de ações na Escola Municipal de Ensino Fun-
damental Mate Amargo, de Rio Grande, a partir do convite do diretor da escola,
que entrou em contato conosco para que realizássemos uma oficina de vídeo para
os seus professores. No último sábado do mês de maio, realizamos a oficina para
54 professores e percebemos que a maior expectativa desses educadores era co-
nhecer os vídeos feitos por alunos.
Considerado esse interesse por parte dos professores, conversamos sobre a
possibilidade de criarmos um cineclube estudantil para que professores e alunos
pudessem conhecer os trabalhos e a realidade de estudantes de outras institui-
ções. Para colocar em prática o cineclube, nossa equipe fez uma pesquisa sobre
vídeos produzidos por professores e alunos, disponíveis na rede mundial de com-
putadores. Após a seleção de alguns vídeos, os separamos por temáticas e criamos
uma ficha técnica com a sinopse da obra, sugerindo, do ponto de vista técnico e
pedagógico, como utilizá-lo em sala de aula para criar debates com seus alunos.
A iniciativa vem sendo acompanhada pela nossa equipe de extensão numa troca
constante sobre os efeitos que esta ação vem provocando. Com a visita do diretor
da EMEF Mate Amargo a um dos encontros da equipe, em setembro 2019, fomos
informados de que os resultados têm sido bastante produtivos, pois o cineclube
na escola tem motivado alunos e professores a produzirem seus próprios vídeos.
Percebendo o impacto positivo junto à EMEF Mate Amargo ampliamos o aces-
so a esse material, disponibilizando-o em um espaço no nosso site, especialmente
desenvolvido para hospedar o projeto cineclube estudantil26, apelidado por pro-
fessores e alunos de “Cineflix Estudantil”27. Nesse espaço há mais de 100 vídeos
estudantis cadastrados e, dessa vez, são os próprios professores que nos enviam
os vídeos produzidos com os seus alunos, fornecendo também uma ficha técnica
nos moldes que já referimos. O objetivo do cineclube estudantil é justamente di-
vulgar os vídeos realizados no contexto escolar e que suas temáticas e/ou técnicas
possam ser discutidas por outros estudantes.
Nessa jornada de novas iniciativas a equipe do projeto de extensão também
criou um curso de Roteiro na modalidade EAD, via plataforma AVA Moodle da
UFPel, para professores da rede pública de ensino. O curso foi inicialmente pen-
sado para 100 professores, no entanto fomos surpreendidos com 752 inscritos de
todo o Brasil. Aumentamos, então, o número de vagas para 250 e considerando o
interesse dos professores pelo curso de roteiro – que ocorreu de maio a julho de
2019 – já estamos organizando novas edições e novas temáticas para 2020.
25 Os eventos estão sendo organizados pelo Polo de Educação a Distância (EAD) da cidade de Cruz Alta.
26 [Link]
27 APP - [Link]
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 496
Para não concluir
A produção de vídeo no espaço escolar, juntamente com a criação dos festivais,
tem possibilitado o engajamento e a participação das famílias nas escolas, bem
como da comunidade local. Assim, tal produção envolve ações que ultrapassam os
muros da escola desde a escrita do roteiro até a etapa que compreende na exibi-
ção e discussão dos trabalhos com os alunos. É por esse processo – que dá voz aos
alunos, que os aproxima de seus familiares e de sua comunidade – que a produção
de vídeo estudantil se mostra capaz de aprofundar o currículo oculto. Como já fora
defendido, trata-se de um processo pedagógico humanizador, não de um mero
produto que se cria no intuito de ganhar e exibir troféus.
Entendemos, portanto, que o fazer vídeo no contexto escolar deve assumir, a
priori, um papel pedagógico presente em todas as etapas de produção, inclusive
na técnica, uma vez que esta participa da construção de sentidos incutidos na peça
audiovisual. Não se trata simplesmente de um vídeo, de um filme, de um conjunto
de técnicas, mas de um corpo de linguagem multissemiótica que permite ao aluno
dizer o mundo (re)construído pela força da imagem.
Nossa caminhada na extensão tem sido longa, não pelo tempo que dedicamos
a percorrer essa estrada, mas, sobretudo, pelas ações significativas que o grupo
de extensão Produção de Vídeo Estudantil tem desempenhado28. Consideramos
uma caminhada produtiva, porque durante a trajetória temos sido capazes de dar
a mão para muitos que quiseram, querem e quererão caminhar conosco, pois não
há nada mais produtivo do que caminharmos juntos.

Referências
BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil:
promulgada em 5 de outubro de 1988. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 1990.

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei número 9394, 20


de dezembro de 1996.

COSENZA, Ramon; GUERRA, Leonor. Neurociência e Educação: Como o Cére-


bro Aprende. Minas Gerais: Editora Artmed, 2011.

FREIRE, P. Pedagogia do Oprimido. 9 ed., Rio de Janeiro. Editora Paz e Terra.


1981.

PEREIRA, Josias; DALPONT, Vânia. Como fazer vídeo estudantil na prática da


sala de aula. Pelotas, RS: Erdfilmes, 2017.

ROJO, Roxane; MOURA, Eduardo (orgs.). Multiletramentos na escola. São Pau-


lo: Parábola Editorial, 2012.

28 [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 497
SOBRE OS AUTORES
Josias Pereira, graduado em Comu- Vania Dal Pont, graduada em
nicaçãol Social pela UFRJ. Doutor em Ciencias e Matemática pela Fafiman.
Educação pela UFPel. Professor Adjun- Doutoranda em Educação pela UFPel.
to do curso de Cinema e Audiovisual e Pesquisadora voluntária no Projeto de
do Curso da Pós Graduação em Educa- Pesquisa e Extensão Produção de Vídeo
ção Matematica da UFPel. Coordena- Estudantil da Universidade Federal de
dor e criador do projeto de extensão e Pelotas (UFPEL) desde 2012. E-mail:
Pesquisa Produção de Vídeo Estudantil. vaniadalpont@[Link]
E-mail: Josiasufpel@[Link]
Viviane Peres de Jesus Lino, gradu-
Eliane Beatriz Candido, graduada ada em Tecnologia em Gestão de Turis-
em Pedagogia - Administração e Su- mo e em Licenciatura em Letras - habi-
pervisão Escolar pela FEEVALE. Mes- litação Português/Inglês pela UCPEL.
tranda em Educação Matemática pela Mestra em Letras pelaUCPEL. Profes-
UFPel. Professora aposentada. Pesqui- sora de Ensino Básico em Pelotas-RS.
sadora voluntária no Projeto de Pes- Pesquisadora voluntária no Projeto de
quisa e Extensão Produção de Vídeo Pesquisa e Extensão Produção de Vídeo
Estudantil da Universidade Federal de Estudantil da Universidade Federal de
Pelotas (UFPEL), desde 2017. E-mail: Pelotas (UFPEL) desde 2018. E-mail:
eliane.candido21@[Link] vivianepereslino@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº8 498
A MATEMÁTICA ITINERANTE:
UM PROJETO EM COMEMORAÇÃO
AO BIÊNIO DA MATEMÁTICA

Luana Leal Alves


Letícia Klein Parnoff
Lisandra de Oliveira Sauer

Apresentação
Os anos de 2017 e 2018, foram proclamados pelo Congresso Nacional, através
da Lei Ordinária 13.358 (BRASIL, 2016), para ser o Biênio da Matemática no Brasil,
com o objetivo de fomentar o desenvolvimento educacional no país, popularizan-
do e incentivando o estudo da Matemática. Em alusão ao Biênio da Matemática,
surge o projeto de extensão “Matemática Itinerante”, desenvolvido pelo Instituto
de Física e Matemática (IFM) da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), com o
apoio de docentes e estudantes do curso de Matemática da referida instituição,
o projeto fez parte do Biênio da Matemática, já que buscava divulgar e incentivar
a Matemática no país. Assim, o objetivo do projeto foi contribuir para a popula-
rização e difusão da Matemática para a comunidade pelotense, manifestando a
contribuição do curso de Matemática da Universidade Federal de Pelotas para as
comemorações do Biênio da Matemática.
O projeto foi desenvolvido através de três ações envolvendo a comunidade
acadêmica e a sociedade pelotense:
1. Exposição: 25 anos do curso de Matemática da UFPel;
2. Mostra Matemática: obtendo o menor percurso utilizando películas de sabão;
3. A Matemática do Pokémon Go.
A exposição, 25 anos do curso de Matemática da UFPEL, foi realizada através
de um vídeo exposto durante a realização da semana acadêmica da Matemática,
e também no dia da comemoração dos 25 anos do curso de Licenciatura em Ma-
temática. Estiveram presentes, uma equipe formada por uma técnica-administra-
tiva, uma aluna do Curso de Licenciatura em Matemática, um aluno do curso de
Música da UFPEL e uma professora do Departamento de Matemática e Estatística
EDUCAÇÃO Nº9

(DME). Nesta exposição foram relacionados os fatos históricos mais importantes


(na opinião da equipe) do país e do curso de Matemática, que marcaram os 25 anos
de comemoração. Essa mostra se deu através de fotos e músicas apresentadas a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 499


todos os participantes do evento, atingindo efetivamente 67 pessoas, contando
com técnicos administrativos, professores e ex-professores do curso de Matemá-
tica, egressos e alunos do curso de Matemática onde alguns aparecem na (Fig. 1).

Figura 1: Público
presente na
apresentação
durante a
comemoração.
Fonte: Acervo das
autoras.

A Ação Mostra Matemática: Obtendo o menor percurso utilizando películas de


sabão, trata-se de um experimento com água e sabão, mais um instrumento for-
mado por dois vidros paralelos e três pinos, como mostra a (Fig. 2).
Essa ação foi realizada durante a Feira do Livro de Pelotas, no estande de apre-
sentação dos cursos de Licenciatura em Matemática, contando com a participação
de 50 pessoas da comunidade em geral. A Ação A Matemática do Pokémon GO,
teve como propósito, a divulgação para o público em geral de teorias matemáti-
cas que justificam o funcionamento do GPS, instrumento que embasa a distribui-
ção dos Pokémons no jogo. Participaram da atividade 37 pessoas da comunidade
pelotense, que estavam visitando o parque da Baronesa, sendo 26 crianças e 11
monitores.
Esta é considerada a principal ação do projeto. Assim sendo, gostaríamos de
Figura 2: instrumento dar maior ênfase neste trabalho, pois todas as atividades desenvolvidas se deram a
utilizado. partir de jogos concretos, sendo esses adaptados do jogo virtual de mesmo nome,
Fonte: Acervo das relacionando-se com conceitos matemáticos, apresentando uma proposta didáti-
autoras. co-pedagógica, que utiliza a curiosidade como base para o questionamento e in-
vestigação do ambiente. A ferramenta
metodológica foi o Ciclo de Indagação,
uma abordagem alternativa, ao méto-
do científico convencional que presume
responder uma pergunta originada da
observação do ambiente por meio de
uma ação.
O Projeto Matemática Itinerante con-
sidera a necessidade de divulgação da
Matemática, já que ainda é vista como
a “vilã” das disciplinas pela sociedade.
Desta forma, serão apresentadas as ati-
vidades desenvolvidas, nas quais bus-
cam expor a Matemática de um ponto
de vista mais atrativo para comemorar
o Biênio da Matemática.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 500
Abaixo, destacam-se os tópicos que tornam a ação relevante, enquanto um pro-
jeto de extensão, a qual buscou divulgar a Matemática para a comunidade e geral.

Funcionamento do GPS no jogo Pokémon GO


O jogo Pokémon GO, foi criado para ser utilizado em Smartphones, utilizando
a Geolocalização1, embutida no GPS (sistema de posicionamento global) através
da câmera do aparelho, se insere o Pokémon para que seja possível ver, e então
capturá-lo.
Figura 3 - Interface Na (Fig. 3), visualizamos o Pokémon, como aparece na tela do Smartphone,
do aplicativo. conforme o que foi mencionado anteriormente.
Fonte: https:// O mapa onde os Pokémons são desferidos, é gerado a partir da sincronização
[Link]/ do GPS do Smartphone com uma base de dados contendo informações sobre ruas,
pt_br/ calçadas, parques e praças (com base no Gloogle Maps ou Open Street Map). A dis-
tância do Pokémon até o jogador, é apresentada a partir de
um ponto de referência, exibidos na tela, de modo que seja
possível saber se eles estão próximos ou distantes, ficando o
jogador responsável por criar sua estratégia para que possa
capturar os Pokémons. O GPS funciona no aplicativo Poké-
mon GO, através de um sistema que contém vinte e quatro
satélites que percorrem órbitas ao redor do planeta, tornan-
do possível determinar a localização em qualquer lugar.
O Smartphone ao receber informações do GPS, coleta es-
tas referências de no mínimo três satélites, e a partir destas
informações, determina o posicionamento do usuário. Estas
informações, hoje utilizadas no jogo Pokémon GO, também
são encontradas em navios, veículos e aeronaves. Logo, é
notório a importância do GPS para o funcionamento do jogo
Pokémon GO, pois ele permite aos usuários localizar-se e en-
contrar pontos de referência, onde exista Pokémons, para
que seja possível capturá-los.

Pokémon GO para ensino de Matemática


Os jogos desenvolvidos, embora tenham como pano de fundo o jogo virtual de
mesmo nome, diferem-se pela necessidade de raciocínio, o que é oposto no jogo
virtual, pois no Pokémon GO, existe a interação ativa e não passiva dos participan-
tes. O uso de jogos para potencialização do ensino de Matemática é discutido por
vários pesquisadores, como por exemplo, Kishimoto (2011); Borin (1996); Brotto
(1999); Lopes e Grando, (2012). Sendo assim, entende-se que os jogos podem,
também, serem utilizados como excelentes recursos pedagógicos, propiciando o
desenvolvimento no ensino e aprendizagem da Matemática.
Quando as situações lúdicas são intencionalmente criadas pelo adulto
com vistas a estimular certos tipos de aprendizagem, surge a dimensão
educativa. Desde que mantidas as condições para a expressão do jogo,
ou seja, a ação intencional da criança para o brincar, o educador está
potencializado as situações de aprendizagem (KISHIMOTO, 2011, p. 41).

1 Pode-se entender a Geolocalização como um processo de localização especial, através de informações


obtidas por meio da disposição de coordenadas geográficas a partir dados adquiridos por um dado sistema
de referência.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 501
A partir do que a autora afirma, podemos perceber que atividades lúdicas, ao
serem internacionalizadas, estão potencializando o desenvolvimento da aprendi-
zagem, e essas ações permitem a autonomia da criança desenvolvendo o apren-
dizado, de forma significativa e prazerosa. A atividade A Matemática no Pokémon
GO, é formada por cinco jogos, dentre eles iremos relatar suas aplicações, sendo
elas: Pokémons no seu retângulo, Caçando Pokémons, Caçando Pokémons com os
Amigos e Ginásio Pokémon.
A Matemática é vista por muitos, como uma disciplina de difícil compreensão,
tornando-se desinteressante e de difícil aprendizado para muitos alunos. Dessa
forma, podemos utilizar os jogos como ferramenta no auxílio do ensino da Mate-
mática, tornando a aprendizagem da disciplina mais atrativa. Segundo Borin (1996,
p.9), “Diminuir bloqueios apresentados por muitos alunos que temem a Matemáti-
ca e sentem-se incapacitados para aprendê-la”. E são essas atitudes que possibili-
tam um melhor desempenho e entusiasmo com a disciplina, favorecendo a apren-
dizagem do ensino de Matemática entre os alunos. Através de iniciativas como A
Matemática GO, os alunos descobrem um novo jeito de aprender brincando.
Ensinar e aprender Matemática, vai muito além de transmissão de algoritmos,
é preciso entender que:
Fazer Matemática é expor ideias próprias, escutar as dos outros, formu-
lar e comunicar procedimentos de resolução de problemas, formular
questões, perguntar e problematizar, falar sobre experiências não reali-
zadas ou que não deram certo, aceitar erros e analisá-los, buscar dados
que faltam para resolver problemas, explorar o espaço em que ocupa,
produzir imagens mentais, produzir e organizar dados, dentre outras
coisas (LOPES e GRANDO, 2012, p. 05).

A partir do que as autoras ressaltam, torna-se necessário salientar a importân-


cia da estimulação da curiosidade da criança, explorando ludicamente o universo
matemático, para que seja possível desenvolver hipóteses, estratégias e argumen-
tos. Desse modo, o aluno torna-se capaz de desenvolver o raciocínio com maior
autonomia, através dos estímulos aguçados pelos jogos.
Todo ser humano tem a necessidade de brincar, pois esta é uma das imprescin-
dibilidades essenciais da vida. Isto posto, torna-se possível desenvolver o estimulo
da imaginação, criatividade e autonomia para o ensino/aprendizagem. Segundo
Brotto (1999), “Quando jogamos estamos praticando, direta e profundamente,
um exercício de coexistência e de reconexão com a essência da vida” (p.17). Para o
autor, o ato do jogo vai muito além, ele desperta no jogador sentidos que estimu-
lam sua forma de raciocinar e de formar estratégias.
Analisando o sentido da palavra jogo, Grando (1995, p. 30) sobreleva que “eti-
mologicamente a palavra JOGO vem do latim locu, que significa gracejo, zombaria
e que foi empregada no lugar de ludu: brinquedo, jogo, divertimento, passatem-
po”. Com o que a autora define como jogo, entendemos que o mesmo pode ser uti-
lizado como distração e socialização. Mas o seu uso como instrumento de ensino
pode oferecer benefícios para aprendizagem, desenvolvendo assim, habilidades
e conceitos que podem serem explorados através de atividades lúdicas, como por
exemplo, os jogos.
A partir da discussão sobre as potencialidades dos jogos para ensino de Mate-
mática, iremos apresentar uma reflexão sobre a experiência da aplicação das ativi-
dades desenvolvidas pelo projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 502
Pokémons no seu retângulo
Esse jogo se destinou à Educação Infantil e ao primeiro ano do Ensino Funda-
mental, visando explorar conceitos relacionados a contagem, circunferência e
retângulo. Como objetivo geral, procurou-se descobrir fixado a um retângulo, os
melhores locais de posicionamento do jogador no interior do retângulo, no senti-
do de alcançar o maior número de Pokémons.
Para jogar, foram necessários um retângulo de 2,5 m por 3,5 m de lado, dese-
nhado no chão, e seis Pokémons distribuídos aleatoriamente no interior do retân-
gulo, após iniciava-se o jogo com um jogador posicionado em um local do interior
do retângulo. Durante o jogo havia a presença de um monitor, que era o responsá-
vel por marcar este local e entregar ao jogador o cordão, com aproximadamente
2,13 m, que indicava o raio de ação do jogador para caçar Pokémons. O jogador
deveria segurar um ponto do cordão, enquanto o outro jogador deveria girar o
cordão em torno do primeiro, formando um círculo de centro no primeiro jogador,
percebendo quantos Pokémons ficariam no interior do mesmo, estes indicavam os
Pokémons capturados.
A posição entre os jogadores foi feita de forma alternada, para que o processo
se repetisse até que o jogador desvendasse as posições em que ele deveria ficar
no interior do retângulo, onde todos os Pokémons pudessem ser capturados. Para
solucionar o jogo existe pelo menos uma posição possível, que é o centro do retân-
gulo, uma vez que a corda possui comprimento maior que a diagonal do mesmo, e
durante a execução da atividade, o monitor deveria intervir através de perguntas
instigantes e observações, visando estimular o desenvolvimento do raciocínio ma-
temático, na construção do pensamento geométrico do jogador, tais como:
• Quantos Pokémons tem na cancha, no início do jogo?
• Pontuar que a corda seria a marcação do alcance máximo de um jogador;
• Observar a figura geométrica formada no chão, no caso o círculo;
• Marcado o círculo no chão, observar todos os alcances máximos;
• Para o jogador central, refletir sobre a sua posição em relação ao círculo;
• Em relação ao círculo traçado, quais serão os Pokémons capturados?
• Se o Pokémon desejado estivesse fora do círculo, o que você tem que fazer
para conseguir capturá-lo? Por quê?
• É possível alcançar qualquer Pokémon que esteja na cancha?
• Qual é a melhor posição para você parar no interior da retângulo, e pegar
o maior número de Pokémons possíveis com o alcance determinado por esta
corda?
São as intervenções do monitor, e as reflexões da criança, que as levam a cons-
trução de conceitos de forma lúdica, compreendendo o lúdico, não somente como
diversão, mas também como construção de aprendizado. Quando expostas a esses
processos, as crianças apresentam diversas formas de compreensão, importantes
na construção e abstração de conceitos.

Caçando Pokémons
A atividade foi desenvolvida para trabalhar com alunos do Ensino Fundamental
1, ou seja, estudantes do primeiro ao quinto ano, sendo a aplicação mediada por
um monitor e tendo apenas duas crianças participando por vez. Os conceitos e ha-
bilidades desenvolvidos no jogo foram – contagem, direções, adição e subtração
de números naturais e relação de ordem – além de explorar a habilidade de cálculo
mental envolvendo adição e subtração.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 503
Para aplicação da atividade, fixou-se um retângulo de 2,5 m por 3,5 m de lados,
o qual denominamos por “cancha”. Foram necessários a utilização de alguns itens,
tais como, dez Pokémons, onde foram representados por caixas de leite, com a
imagens dos personagens (além de conter o número de defesa e ataque), distribu-
ídos aleatoriamente, juntamente as bolas de fogo com valores fixados para cap-
turá-los.
A ação teve como objetivo caçar o maior número de Pokémons possíveis, le-
vando-se em conta, o poder de fogo de cada bola. Para a aplicação foi necessá-
rio organizar os jogadores em duplas, sendo inicialmente, distribuídas três bolas,
cada uma delas apresentavam o seu poder de fogo, ou seja, consistiam no número
de vezes que a bola poderia ser arremessada. Para aplicação da atividade, cada
jogador precisou posicionar-se em um local do interior do retângulo, e desse local
arremessar uma bola na direção de um Pokémon, não importando à distância que
estaria do mesmo.
Para capturar o Pokémon, o jogador precisava ter o poder de fogo maior, ou
igual, ao poder de defesa do personagem desejado. Caso o poder de fogo fosse
menor que o valor de defesa ele “enfraqueceria”, ou seja, teríamos que subtrair da
defesa o valor da bola de fogo, resultando no novo poder de defesa para aquele
Pokémon atingido. Assim, ele poderia, ou não, ser capturado por outro grupo.
Cada poder de fogo só poderia ser utilizado uma única vez, e o Pokémon ao ser
atingido, teria a intervenção do monitor, sendo instigado pelo jogador que com-
parasse e explicasse oralmente o seu poder de defesa com o poder de fogo da
bola lançada. Caso o jogador não acertasse um Pokémon, passaria a vez para o seu
adversário. Para que tal fato ocorresse, antes de iniciar a captura, perguntava-se
aos participantes se era possível apanhar todos os Pokémons com as bolinhas que
ambos haviam recebido. Outras questões foram suscitadas ao longo da atividade,
tais como:
• Qual foi o Pokémon mais difícil de ser capturado? Por qual motivo?
• Existe algum Pokémon que é impossível de se capturar? Por que?
• Quando visualiza um Pokémon que deseja caçá-lo, como deve proceder?
Essas perguntas foram cruciais para o questionamento sobre o jogo, pois neste
caso, o mesmo pode levar o aluno a refletir sua resposta inicial, e o porquê a mes-
ma não havia se concretizado. O jogo terminava quando nenhum jogador tivesse
mais bolas. Logo foram feitas a contabilização dos poderes de ataque dos jogado-
res, sendo considerado vencedor o jogador que somar mais pontos.
A aplicação de atividades como esta, permite as crianças o estimulo de estraté-
gias de resolução, além de ser um momento em que a Matemática é introduzia de
forma lúdica e prazerosa, possibilitando desmistificar os mistérios em torno da Ma-
temática, e fornecendo ferramentas que propiciam a reflexão e o raciocínio lógico.

Caçando Pokémons com os amigos


Essa atividade foi elabora para o Ensino Fundamental 2, ou seja, de sexto ao
nono ano, tendo como objetivo explorar direção, adição e subtração de números
naturais e relação de ordem. Para o desenvolvimento da atividade, foram dispo-
nibilizados, um monitor e duas equipes com cinco jogadores cada, sendo que um
dos integrantes seria o atirador de sua equipe e os demais, Pokémons. Como ce-
nário de jogo, fixou-se um retângulo de 6 m por 3,5 m de lados, dividido ao meio,
formando dois campos de 3m por 3,5m. Em cada campo havia uma subdivisão, na
região mais próxima ao centro com 1m por 3,5 m, ficando cada equipe em uma
parte da quadra com o seu atirador na região central, conforme a figura abaixo:

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 504
Figura 4-
Representação da do
campo de jogada.
Fonte: Acervo das
autoras.

Como objetivo, os jogadores que obtivessem maior número de pontos com a


captura de Pokémons, venceria o jogo. Os pontos eram indicados por fichas que
continham o poder de luta dos quatro jogadores. A soma total das fichas era no
mesmo valor para ambas as cores, mas distribuídas de forma diferente. Para o iní-
cio do jogo o atirador de uma das equipes deveria arremessar uma bola, na direção
dos Pokémons da equipe adversária, procurando atingir um deles. Todos os joga-
dores deveriam permanecer na sua região de origem, se o atirador acertasse, sua
equipe continuava jogando, e o poder de luta do Pokémon atingido era revertido
em pontos para a equipe, ficando o Pokémon atingido excluído do jogo.
Se nenhum Pokémon da equipe adversária fosse atingido, a vez passaria para
o atirador do outro grupo, caso contrário, ele continuaria com a posse do poder
de caçar mais Pokémons. O jogo terminaria, de acordo com a regra, ao final de 10
minutos de jogo corrido, ou então, quando acabassem os Pokémons nas regiões
de captura. Seria considerada vencedora a equipe que tivesse acumulado maior
número de pontos, após a soma dos poderes de luta dos Pokémons capturados.
Por se tratar de um jogo de ação, optou-se por deixar as perguntas serem fei-
tas pelo monitor, no início e no final do jogo:
No início do jogo:
4. É possível que as duas equipes consigam fazer a mesma pontuação?
5. Qual equipe possui o Pokémon de maior poder de luta?
No final da partida:
1. Qual a pontuação de cada equipe?
2. Qual a equipe que foi vencedora?
Essa atividade proporciona ao aluno um momento de múltiplas aprendizagens,
tais como, atividades de coordenação motora, lateralidade, raciocínio lógico, de-
senvolvimento de estratégias, atenção, entre outras.
Cabe destacar que todas essas atividades são de grande importância para o
desenvolvimento da criança. Assim sendo, a Matemática não é uma Ciência que
deve ser trabalhada de forma isolada, ao contrário, ela pode ser praticada de for-
ma multidisciplinar, desenvolvendo o físico e cognitivo da criança.

Ginásio Pokémon
Essa atividade foi elaborada para o Ensino Médio, com o objetivo de explorar
noções relacionadas à distância Euclidiana no plano e sistemas de coordenadas. A
atividade teve um jogo de tabuleiro 7x7, como mostra a figura a seguir:

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 505
Figura 5 – Jogo de
tabuleiro.
Fonte: Acervo das
autoras.

Foram determinados territórios para cada jogador, sendo os extremos opostos


no tabuleiro. Posicionados em seu território para iniciar a partida, o jogador mais
novo jogava dois dados simultaneamente, dados de cores distintas com seis faces,
um deles representa os movimentos para à direita e o outro para frente, assim,
deveriam mover o pino sobre o tabuleiro, de acordo com os dados.
Considerando que os dados das cores verde e amarelo seriam responsáveis
pelo caminho horizontal e vertical respectivamente, e numa jogada obtivessem o
número 3 no dado de cor verde, e 4 no dado de cor amarelo, o pino deveria ser des-
locado três unidades na horizontal para à direita e quatro na vertical para frente.
Feita a jogada, a vez passava ao próximo jogador, e assim por diante.
Ao serem sorteados nos dados, os números que ultrapassassem as casas do
tabuleiro, o pino deveria ser deslocado nos sentidos opostos, ou seja, horizontal
para à esquerda e vertical para baixo. Por regra ficou decidido, que a ordem de
arremesso dos dados não seria alterada, e no caso da posição ao final da jogada
ser sobre uma célula destacada, o jogador deveria sortear uma carta e responder
corretamente a pergunta que nele estivesse2, neste caso os dados seriam lança-
dos novamente. Se o jogador não acertasse a pergunta, passaria a vez para o seu
adversário. Caso os pinos dos dois jogadores ficassem posicionados na mesma cé-
dula, cada um deveria sortear uma das cartas com o Pokémon e seu o poder de
luta. O maior poder de luta, obtinha o direito de mover uma casa, na diagonal em
direção ao território do seu adversário.
Ainda como regra ficou fixado que o jogo terminaria quando um pino chegasse no
território do adversário, ou depois de transcorridos 5 minutos de jogo e neste caso,
o ganhador seria o jogador que estivesse mais próximo do território adversário. Du-
rante a execução da atividade, o monitor era o responsável por perguntas que ins-
tigassem os dois jogadores, estimulando assim, a noção de localização, tais como:
2 Quais são as coordenadas da célula que você se encontra com relação ao seu território? Quais são as
coordenadas da célula que você se encontra com relação ao território do seu adversário? A distância da célula
que você se encontra com relação ao seu território é maior ou menor do que as somas das coordenadas de sua
posição? Qual a distância que se encontra o seu pino e de seu adversário? Quais as coordenadas do território
inicial? Quais as coordenadas do território inicial de seu adversário? Qual é à distância entre os territórios?
Quais as coordenadas da célula que está no centro do tabuleiro? Por que? Qual é a célula simétrica, em relação
ao centro do tabuleiro, a que você se encontra? Qual a figura geométrica formada pelo segmento que une a
célula que você se encontra ao seu território e um dos lados do tabuleiro?

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 506
• O que significa no tabuleiro ficar mais próximo do território adversário?
• É possível que neste jogo haja empate?
No decorrer de toda a atividade, cada jogador era acompanhado por um mo-
nitor, que de acordo com a faixa etária do participante, faziam perguntas relacio-
nadas a partida, procurando estimular a reflexão do aluno e expor oralmente seu
raciocínio. As respostas não foram fornecidas sem que o participante pensasse a
respeito do que estava respondendo, O que levava o aluno a desenvolver um racio-
cínio lógico e crítico sobre o que estava sendo expondo.

Aplicação da ação na Baronesa


Após elaboração das atividades, foi feita a intervenção da atividade no parque
da Baronesa, localizado no município de Pelotas/RS, visando democratizar e in-
centivar o estudo da Matemática. Os participantes das atividades foram crianças
que estavam no parque no momento. Não houve nenhum processo de seleção, as
crianças eram convidadas a participarem, mas poderiam desistir a qualquer mo-
mento.
Todos que participassem das atividades, ganhariam uma corda de pular,
gentilmente cedidas, pelo Macro Atacado Treichel de Pelotas. Não levamos em
consideração o nível de escolaridade dos participantes, todos percorreram as qua-
tro atividades. Podemos destacar alguns pontos em relação as atividades e a suas
aplicações:
- Jogo Pokémons no seu retângulo: a atividade foi desenvolvida pela acadêmica
do curso de Licenciatura em Matemática, Liane Blank Schneider. O Objetivo era
explorar os conceitos de contagem, circunferência e retângulo. Esta atividade se
mostrou bastante interessante, metade dos participantes já tinham estes concei-
tos formulados. Ao final da atividade, observou-se que a maioria dos participan-
tes, conseguiu posicionar-se ao centro, identificar que o tamanho do raio influen-
ciava na captura de Pokémons, além disso, muitos dos participantes conheceram
o compasso a partir desta atividade.
- Jogo de estratégia: Caçando Pokémons: a atividade foi desenvolvida pelas aca-
dêmicas Leticia Klein Parnoff e a mestranda Luana Leal Alves. O objetivo era ex-
plorar os conceitos de contagem, direções, adição e subtração de números natu-
rais e relação de ordem. Aqui também foi explorada a habilidade de cálculo men-
tal, envolvendo adição e subtração. Constatou-se que os participantes de menor
idade, se interessaram bastante por essa atividade, e poucos fizeram uso de lápis
e papel para a realização dos cálculos.
- A Atividade Caçando Pokémons com os amigos: desenvolvida pela acadêmi-
ca Andreia Sell Quandt. O objetivo era explorar os conceitos de direção, adição
e subtração de números naturais e relação de ordem. É importante salientar que
esse jogo, é uma variação do caçador, e que é um jogo de ação, para a realização
desse jogo, os participantes montaram equipes na hora da atividade, o que possi-
bilitou a integração entre eles, tendo em vista que a maioria se conheceu naquele
momento.
- A Atividade Ginásio Pokémon – e se a sua aproximação não pudesse ser feita em
linha reta? É um jogo de tabuleiro que foi desenvolvida pelos acadêmicos Marcelo
Wellington Tancini Vieira e Quelen Correa Furtado. O objetivo era explorar à dis-
tância euclidiana e os sistemas de coordenadas no plano. Nesta atividade houve
um interesse maior pelos participantes de mais idade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 507
Participaram dessas atividades 21 pessoas cadastradas, mas várias outras que
estavam no parque também acompanharam. Com idades entre 5 e 17 anos, todos
os participantes concluíram as atividades. Acredita-se que o objetivo da divulga-
ção da Matemática para a comunidade pelotense foi atingido, pois além da apli-
cação da atividade, também foi disponibilizado o site (com a elaboração das ati-
vidades), para que os participantes pudessem, juntamente com seus professores,
utilizar as atividades em sala de aula, tornando assim, a disciplina de Matemática
mais prazerosa.
Abaixo a foto da aplicação da oficina realizada no Parque da Baronesa:

Figura 6 - Aplicação
das atividades.
Fonte: Acervo das
autoras.

Durante a aplicação das atividades, era evidente a empolgação das crianças


em interagir. Todas foram participativas e cooperaram com os colegas, tornando
evidente que mesmo com as dificuldades enfrentadas, elas relacionaram-se e che-
garam a um trabalho coletivo. Desse modo, concluímos que a aplicação desse pro-
jeto foi uma oportunidade não só para as crianças e adolescentes, mas também,
para os extensionistas, que através de estratégias desenvolvidas puderam refletir
sobre o ensino da Matemática de uma forma lúdica. O ensino da disciplina, pode
ser prazeroso, a partir de técnicas desenvolvidas para despertar o raciocínio crítico
dos alunos, através de ações como as que foram realizadas pelo grupo.

Considerações finais
Intervenções como essas, proporcionam um aprendizado de maior qualidade
aos estudantes, por se tratar de uma forma menos dura a disciplina de Matemá-
tica. São através de trabalhos como os que foram desenvolvidos pelo grupo de
extensionistas, que percebemos a importância do trabalho acadêmico na socieda-
de. Compartilhamos com a comunidade, o que aprendemos dentro da academia,
sempre com o objetivo de tornar a aprendizagem inclusiva, para todos.
A realização de ações como estas, farão a diferença no resultados das escolas,
se todo o professor desenvolver novos caminhos para o ensino da Matemática.
Serão satisfatórios os resultados com a disciplina, sem que a Matemática continue
sendo vilã das disciplinas, mas possa ter um lugar de destaque no desempenho de
muitos estudantes. Os objetivos foram alcançados pelo projeto de extensão Mate-
mática Itinerante, que visou um novo olhar dos alunos para o ensino/aprendizagem
de Matemática, podendo ser desenvolvido nas escolas da rede pública e particular.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 508
Referências
BORIN, Julia. Jogos e Resolução de Problemas: uma estratégia para as aulas
de matemática. São Paulo: IME-USP, 1996.

BRASIL. Lei Ordinária 13.358, de 07 de novembro de 2016. Dispõe sobre a insti-


tuição do Biênio da Matemática 2017-2018 Gomes de Sousa. Disponível em:
<[Link]
Acesso em: 17 out. 2019.

BROTTO, Fábio. O jogo e o esporte como um exercício de convivência – São


Paulo: Universidade de Campinas, 1999.

GRANDO, Regina Célia. O jogo suas Possibilidades Metodológicas no Processo


Ensino - Aprendizagem na Matemática. 1995. 194 f. Dissertação (Mestrado),
Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1995.

KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org.). O jogo, brinquedo, brincadeira e a educa-


ção. 4 Ed. São Paulo: Cortez, 2011.

LOPES, Celi Espasandin; GRANDO, Regina Célia. Resolução de problemas na


educação matemática para a infância. UNICAMP, Campinas. 2012.

Agradecimentos

Agradecemos ao Supermercado Treichel, pelo oferecimento das cordas de pular aos partici-
pantes da ação A Matemática do Pókemon Go, à Prefeitura de Pelotas, por ter cedido o Parque da
Baronesa para a aplicação das atividades.

SOBRE AS AUTORAS
Luana Leal Alves, licenciada em Lisandra de Oliveira Sauer, licencia-
Matemática pela UFPel. Doutoranda da em Matemática pela FURG. Doutora
em Educação em Ciências pela FURG. em Matemática pela UFRGS. Profes-
Professora na rede pública municipal sora do Departamento de Matemática
de ensino de Pelotas. E-mail: luanale- e Estatística vinculado ao Instituto de
alalves@[Link] Física e Matemática da UFPel. E-mail:
[Link]@[Link]
Leticia Klein Parnoff, licenciada
em Matemática pela UFPel. Mestran-
da em Educação Matemática na UFPel.
E-mail: leticialkp@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº9 509
ESCRITA CRIATIVA:
UMA INTERVENÇÃO ANCORADA NA
AUTORREGULAÇÃO DA APRENDIZAGEM

Bruna Moura da Silva


Annelise Costa de Jesus
Lourdes Maria Bragagnolo Frison
Ana Margarida da Veiga Simão

Autorregulação da aprendizagem
A autorregulação da aprendizagem é uma teoria da Psicologia à Educação, que
vem sendo investigada por diversos pesquisadores. Para Bandura (1997) a teoria
sociocognitiva contempla os processos de auto-observação, julgamento e autor-
reação. É pela autorregulação que o individuo monitora sua ação e opera essas
subfunções. A auto-observação promove informações necessárias para o estabe-
lecimento de padrões de desempenho e para a avaliação das mudanças que acon-
tecem no comportamento; julgamento é o que serve para a verificação daquilo que
afeta e subsidia as autorreações de ações realizadas; as autorreações são mecanis-
mos que motiva a regular o curso das ações (AZZI, 2014; AZZI; POLYDORO, 2008).
Entende-se que, por meio da auto-observação o sujeito empenha-se na análise de
seu desenvolvimento dentre aspectos sociais e internos, buscando a compreensão
dos fatores que interferem neste processo. Após essa análise julga valores a serem
atribuídos a sua aprendizagem, destes valores o sujeito determina ações a serem
incorporadas, retroalimentado este sistema de forma a retomar todas as etapas
de auto-observação, julgamento e autorreação.
A autorregulação da aprendizagem, segundo o modelo proposto por Zimmer-
man (2013), compõe três fases: fase prévia, fase de realização e fase de autorrefle-
xão, etapas que estão organizadas em fases cíclicas causais entre o processo de au-
torregulação (VEIGA SIMÃO, FRISON, 2013). Na fase da antecipação, o estudante
avalia seus conhecimentos prévios e toma decisões de como realizá-la. Estabelece
objetivos e traça seu planejamento em relação às atividades a serem efetivadas,
mobilizando estratégias. Na fase da execução, o estudante a partir do objetivo
EDUCAÇÃO Nº10

proposto, monitora sua ação. Na fase da autorreflexão, o autojulgamento e a au-


torreação envolvem o estudante. Avalia a tarefa realizada, corrigindo possíveis er-
ros, controla e monitora seus processos para aprender (ZIMMERMAN, 2013).
O projeto CriaTivo é ancorado na perspectiva de Zimmerman (2013), no qual
trabalha com ênfase nos processo de aprendizagem autorregulatória respeitando

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 510


as fases de planificação, execução e avaliação, entendendo que cada fase tem
processos e subprocessos que coexistem seguindo uma lógica cíclica, ou seja, em
cada uma das etapas autorregulatórias integram-se as demais (planificação, exe-
cução e avaliação) de forma a retomar os processos retroalimentando a cada pas-
so rumo ao desenvolvimento das aprendizagem autorregulatórias.
Tendo como suporte teórico os fundamentos da autorregulação da apren-
dizagem, este artigo tem o objetivo apresentar como o projeto foi concebido e
desenvolvido numa parceria entre o GEPAAR, Grupo de Estudos e Pesquisa da
Aprendizagem Autorregula, e algumas estudantes voluntárias do PIBID/Pedago-
gia, Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência, que implementaram
o projeto em duas escolas, uma da rede pública estadual e outra municipal de
Pelotas. Apresentam-se alguns resultados preliminares do desenvolvimento do
projeto realizado em uma turma piloto em uma escola da rede pública estadual de
Pelotas. É preciso dizer que o projeto teve como objetivo geral implementar uma
intervenção para potencializar a aprendizagem da escrita de alunos nos alunos em
sala de aula e capacitar as pibidianas e professoras envolvidas a atuarem autono-
mamente em práticas de escrita de textos.

Origem e preparação para aplicação do CriaTivo


no contexto brasileiro
O projeto CriaTivo foi desenvolvido por uma equipe de investigadores em Psi-
cologia da Educação da Universidade de Psicologia de Lisboa tendo como objetivo
a obtenção de práticas que potencializassem a escrita de alunos no contexto esco-
lar. Teve como mentora a pesquisadora Ana Margarida de Veiga Simão, realizado
em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa. As autoras revelam que obtiveram
a oportunidade de implementar o projeto em escolas da rede pública de Lisboa,
resultando em um percentual de 53% de melhoria na escrita dos alunos envolvi-
dos.
No Brasil, conforme Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, apenas 14,5%
dos alunos do 3º ano de escolas da rede pública de ensino, em NSE 11, apresenta-
ram índices de proficiência esperados em escrita no Brasil. Estes baixos índices de
aproveitamento justificam a busca pela parceira da profa. Lourdes Maria Bragag-
nolo Frison, líder do GEPAAR/UFPEL, com a profa. Ana Margarida da Veiga Simão,
líder do PEAAR, Programa de Estudo da Aprendizagem Autorregulada, da Univer-
sidade de Lisboa, com o intuito de, ao realizar o projeto em escolas públicas no
Brasil, conquistar resultados que minimizem o déficit educacional, especialmente
em relação à escrita de textos de alunos do Ensino Fundamental.
Após a confirmação da parceria da implementação do projeto, foram realiza-
dos cinco encontros de formação com as 24 estudantes universitárias do grupo
do PIBID/Pedagogia/UFPel. Nestes encontros o projeto foi apresentado e discu-
tido assim as atividades a serem trabalhadas com os alunos em sala de aula. Re-
fletiu-se também a importância da autorregulação da escrita, do planejamento,
das competências e estratégias necessárias para desenvolvê-lo. Houve bastante
aprofundamento e orientações referentes à realização das estratégias a serem de-
senvolvidas e ensinadas às crianças em relação à escrita de textos. A professora
Ana Margarida da Veiga Simão participou de um dos encontros realizados para
esta finalidade.
1 Nível Socioeconômico mais baixo da escala do Inep.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 511
Durante a capacitação, os pibidianos da Pedagogia fizeram todas as ativida-
des de escrita que seriam posteriormente realizadas com as crianças com o intui-
to de compreenderem e praticarem na universidade as propostas de atividades
e estratégias autorregulatórias que seriam implementadas na escola, em sala de
aula com as crianças. Esta prática proporcionou aos pibidianos entenderem os ob-
jetivos implícitos em cada uma das atividades, vivenciando antecipadamente o
que fariam posteriormente com as crianças em aula. Esta ação possibilitou maior
eficácia na implementação do projeto e no desenvolvimento das atividades e es-
tratégias autorregulatórias previstas no projeto.
Após realização da capacitação, discutiu-se junto ao grupo de pibidianos em
quais turmas e escolas o projeto seria desenvolvido. Primeiramente, houve uma
intencionalidade de implementação do projeto nas escolas parceiras com o PIBID/
Pedagogia/UFPEL com todo o grupo de 24 pibidianos atuantes nas escolas, no
entanto, após uma análise contextualizada da realidade escolar foi verificado a
inviabilidade de se aplicar o projeto nas turmas de 1º e 2º anos já atendidas pelo
PIBID, porque a grande maioria das turmas é composta por crianças que ainda não
apresentam nível alfabético de escrita, necessário para desenvolver as atividades
de escrita de textos previstas para o desenvolvimento do projeto. Portanto, foram
atendidas turmas de 3o, 4o e 5o ano. Assim contou-se para o desenvolvimento do
projeto com a participação das cinco professoras titulares das respectivas turmas,
com a participação de 91 alunos e 10 pibidianas.

A configuração do CriaTivo
O CriaTivo: promoção de estratégias de autorregulação na escrita, baseia-se na
narrativa de uma história que decorre em atividades lúdicas, tendo como carac-
terística o imaginário das crianças. Essa narrativa perpassa todo projeto e opera
como motor motivador para realização das atividades, além disto, o material utili-
zado para as atividades também promove motivação, por ser ilustrativo, colorido
e desafiador. Para estímulo, todo material é guardado em um baú de onde surgem
as atividades de escrita, o mapa do arquipélago da escrita que vai compor o mural
do CriaTivo nas salas de aula e as moedas douradas, confeccionadas com material
E.V.A que representam o ouro do pirata conquistado durante a aventura. Essas
moedas são dadas como recompensa por cada atividade realizada, sendo, poste-
riormente, utilizadas para o encontro do tesouro da escrita na sessão final. As mo-
edas, além de serem utilizadas para fornecer feedbacks em relação às escritas das
crianças, servem de estímulo e influenciam como reforço positivo para as crianças
seguirem envolvidas e estimuladas nas atividades previstas para cada uma das
sessões. As moedas assumem um papel simbólico, porque são conquistadas pelas
atividades de escrita que realizam colaborativamente no grupo e, no final, servem
de troca para a conquista das pistas para encontrar o tesouro que o personagem
principal, o pirata Tivo, busca no arquipélago da escrita.
Para contextualizar melhor, a história conta a aventura do pirata Tivo, na qual
as crianças o criam através do imaginário, assim como a arara Cria que é sua prin-
cipal parceira, ela assume o papel de autorregulação e juntos seguem em busca
de um “Tesouro da escrita”, que, segundo a narrativa, deve estar escondido no
arquipélago composto por três ilhas denominadas Vulcão, Cascata e Farol. Estas
ilhas representam cada fase do desenvolvimento autorregulatório da escrita: o
planejamento (ilha do Vulcão), redação (ilha da Cascata) e revisão (ilha do Farol).
Em cada uma dessas ilhas, surgem atividades contextualizadas pela narrativa e

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 512
pela aventura dos personagens principais, atuando diretamente no processo cog-
nitivo, metacognitivo, comportamental e motivacional das crianças, que desen-
volvem trabalhos em grupo, em duplas e individualmente como forma de autor-
regular os processos de escrita. O projeto abarca 13 sessões, que após a sessão
inicial e o somatório de nove sessões correspondentes às três ilhas, o projeto entra
na última fase de integração composto por mais duas sessões, nas quais fazem a
interligação de todas aprendizagens que realizam ao percorrerem as três ilhas. A
narrativa termina com a caça ao tesouro.
Veiga Simão et al. pontua (2017, p.18-19) :
A separação geográfica pelas três ilhas permite aos alunos compreender
a distinção entre cada uma das fases do processo de escrita e a viagem
final a caminho da Caverna do Tesouro possibilita a integração desta
aprendizagem num processo cíclico. Através da leitura e análise da nar-
rativa e dos comportamentos das suas personagens, os alunos tomam
consciência das estratégias de autorregulação que utilizam, e simulta-
neamente, aprende comportamentos autorregulatórios que ainda não
conhecem.

A caça ao tesouro é realizada em uma sessão final que encerra o projeto de


forma lúdica. O tesouro é composto por em um portfólio que contem todas as
escritas das crianças realizadas durante o projeto, uma caneta que representa a
“espada” do pirata da escrita, um livro clássico infantil e um diploma de participa-
ção personalizado para cada aluno. O fechamento do projeto transcende a mate-
rialidade de ganhos, visto que as aprendizagens construídas durante o projeto se
faz numa escala gradativa de valores internalizados de autorregulação.
O desenvolvimento do projeto se configura em 13 sessões que duram de 60
a 120 minutos. Nas sessões inicial e final (120 minutos cada) é proposto a escrita
de uma redação que compõe o arsenal de verificação dos avanços nas escritas no
decorrer da execução do projeto. É através da análise destas duas produções que
compomos nossos dados de significação do projeto.
Como fonte de estratégia autorregulatória para os alunos, são apresentadas
mnemônicas durante o desenrolar da história. Quanto à estrutura de planeja-
mento de texto surge o canto da arara Cria: QOQOC! Esta mnemônica auxilia nos
passos a serem seguidos para composição escrita: “Quem são os personagens?”;
“Quando acontece a história?”; “O que acontece na história?” e “Como termina a
história?” (SIMÃO, 2017, p.38). Quanto aos pontos de revisão do texto surgem as
mnemônicas POMI que referem-se às questões de Pontuação; Ortografia; Maiús-
cula e Incompleto; “com o foco na revisão para a correção de aspectos microtextu-
ais da composição escrita” e ECAS que refere-se às questões de Estrutura; Clareza;
Adição e Substituição; “com foco na revisão para melhoria de aspectos macrotex-
tuais da composição da escrita” (VEIGA SIMÃO, 2017, p.97).

O desenvolvimento do Projeto na prática


Iniciou-se a programação do projeto em 2018 com a realização de cinco encon-
tros de formação com os pibidianos, para posterior implementação do projeto que
está sendo realizado em escolas da rede pública de Pelotas até o final do ano de
2019. A seguir, descrevemos como trabalhamos nestes cinco encontros, trazendo
depoimentos das pibidianas, supervisoras e professoras envolvidas com o projeto.
Num primeiro momento, foi solicitado que todos os pibidianos lessem o livro

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 513
CriaTivo para construir uma bagagem que os possibilitassem uma apropriação
posterior da capacitação de forma mais efetiva. Uma supervisora de uma das es-
colas, de uma das turmas envolvidas, salientou que: “O projeto é de suma impor-
tância visto que busca desenvolver competências relacionadas com a escrita, con-
duzindo um processo motivacional para empenho escolar, social e profissional dos
educandos”.
No primeiro dia de capacitação, foi realizada uma familiarização dos partici-
pantes envolvidos sobre as etapas do projeto, os prazos, atividades e discorrido
sobre a teoria da autorregulação da aprendizagem. Foram realizadas várias dinâ-
micas de escrita que são compreendidas no projeto de forma a facultar a aplicação
futura em sala de aula, como, por exemplo, a elaboração de crachás e escrita da
atividade sobre “Escrever bem é...”.
Uma das pibidianas envolvidas relata que: “Esse foi um momento de grande
aprendizado, não só para entender como funciona na prática, como também nos co-
locarmos no lugar dos discentes que participarão das atividades, auxiliou na compre-
ensão de como aplicar o projeto”. (P5). Vivenciar o projeto antes da aplicação em
sala de aula mobilizou muito as pibidianas: “foi muito importante realizar a dinâ-
mica de apresentação, a qual será feita com as crianças posteriormente. Todas nós
escrevemos o nome e o codinome, representando a característica mais marcante de
cada uma das pibidianas”. (P2).
Desta forma, promovendo um bom entendimento sobre as realizações das
atividades, junto à dinâmica dos crachás, foi realizada a dinâmica de escolha dos
“capitães do dia”, esta prática percorre todas sessões do projeto, tem como fun-
cionalidade tornar os alunos mais proativos e participantes, seu papel como ca-
pitão do dia é ser auxiliar do professor, como com a distribuição dos materiais,
tendo como foco a motivação dos alunos. “O papel de capitão estimula a confiança
além de capacitar os outros colegas a desempenharem seus deveres dentro de prazos
previamente estipulados”. (P4). A escolha dos capitães do dia se dá ao critério do
professor, sendo mais usual o sorteio, no entanto, durante a aplicação das aulas,
através do Projeto de Extensão, verificou-se que os sorteios tomavam muito tem-
po de aula, optando-se desta forma por seguir a ordem de chamada de nomes da
turma, podendo dedicar-se mais efetivamente às atividades do projeto e resultar
em uma escolha mais democrática e justa, visto que todos alunos tiveram oportu-
nidade de serem capitães.
Neste dia também foram realizadas explanações sobre a mnemônica do QO-
QOC! Possibilitando às pibidianas adentrarem na história e vivenciarem o projeto
sob a perspectiva dos alunos, sobre isto, outra pibidiana destaca que é: “imprescin-
dível pensarmos na totalidade da criança, ou seja, trabalhar o corpo e a mente juntos,
explorando a imaginação, tendo o cuidado de trabalhar a ‘gestão de tempo’, para que
não fiquem durante uma manhã inteira, por exemplo, realizando a mesma tarefa”.
Ressaltou também que “precisamos formar alunos ativos, autônomos, conscientes e
intencionais em suas aprendizagens”. (P1).
No encontro posterior, debruçou-se às explicações sobre a representação de
cada ilha e os conhecimentos atribuídos. Foi solicitado a escrita de uma redação
utilizando os conhecimentos adquiridos no encontro anterior, como o canto da
arara: QOQOC! Representando os passos a serem seguidos em um planejamento.
Esta foi uma atividade a ser realizada em grupo, como relata a pibidiana 10:
cada pequeno grupo realizou uma atividade de escrita de texto coletivo,
sendo a sala dividida em grupos, e os mesmos escolheram os persona-
gens que utilizariam na escrita. De início um participante de cada grupo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 514
começou a escrita do texto, e quando a professora, que estava gestando o
tempo, dava o sinal, a folha passava ao colega do lado, essa sequência se
repetiu por quatro vezes (que era o número de integrantes do grupo).

Sendo o planejamento o foco principal deste encontro, a pibidiana 2 acrescenta:


os pibidianos receberam uma folha para criar uma história, porém antes
de escrevê-la precisavam planejá-la, ou seja, dizer quem eram os perso-
nagens, onde aconteceu a história, quando aconteceu, o que aconteceu,
como terminou a história e dar um título para ela. Somente depois dessa
sistematização era iniciada a história.

Além da escrita de texto foi realizada a reescrita de um poema, referente a uma


das atividades da ilha do Farol, trabalhando as questões de revisão. Neste mo-
mento foram explicadas as mnemônicas POMI2 e ECAS3 que serviram de base para
revisão do poema.
Num terceiro encontro, contamos com a participação de Ana Margarida de
Veiga Simão para a capacitação dos pibidianos. Neste encontro, a professora Ana
reforçou sobre a importância de motivarmos os alunos no desempenho das ati-
vidades, pois através deste empenho os alunos apresentam resultados mais exi-
tosos. Ela orientou sobre a importância da utilização das moedas como forma de
recompensa das atividades, fazendo com que os alunos, de forma lúdica, estejam
motivados e empenhados com a realização das atividades. Sobre este encontro,
uma supervisora de turma relatou que houve explicações: “sobre métodos e estra-
tégias (aprender a planejar, corrigir, avançar, aprender a pensar, aprender a pensar
juntos em atividades cooperativas, aprender a partilhar)”, também relatou que hou-
ve: “motivações para tornar o projeto uma realidade no cotidiano das escolas, mes-
mo após o seu término com as bolsistas”.
No quarto encontro, foi realizada uma atividade de roteiro de escrita individu-
al, no qual os pibidianos deveriam contextualizar os conhecimentos adquiridos
ao longo da capacitação. Esta atividade é referente às sessões de integração do
livro CriaTivo. Promovendo reflexão e instigando à autoanálise dos processos de
criação da escrita, pretende-se que os pibidianos se apropriem das estratégias de
autorregulação da escrita, podendo assim repassá-las aos seus alunos durante a
realização do projeto.
Sobre o quinto e último encontro, a pibidiana 8 relata: “Retomamos o que tinha
sido feito nas outras ilhas e socializamos as aprendizagens construídas”. Neste dia,
foram revisitadas todas as aprendizagens construídas no decorrer da capacita-
ção, promovendo maior entendimento sobre a totalidade do projeto e realizando
a integração de todas etapas, explicitando a compreensão da autorregulação da
aprendizagem como um processo cíclico e sequencial.
O projeto, com as crianças na escola, iniciou com uma turma piloto, em maio
de 2019, posteriormente foram feitos ajustes na proposta para iniciar em outras
turmas. Por meio das atividades realizadas nesta turma, foi possível observar a re-
alidade escolar e assim fazer as adaptações necessárias que foram discutidas du-
rante reuniões semanais com o grupo PIBID, na FaE (Faculdade de Educação) no
final da tarde das quartas-feiras. Estas reuniões também serviam para organiza-
ção do material necessário a ser utilizado na implementação do projeto nas es-
colas. Foram também esclarecidas todas as dúvidas que surgiam em relação às
2 Pontuação; Ortografia; Maiúsculas; Incompleto.
3 Estrutura; Clareza; Adição; Substituição.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 515
sessões, considerando os feedbacks emitidos por pibidianos participantes sobre
o andamento das sessões realizadas e as que seriam dinamizadas nos encontros
posteriores.
A realidade das duas escolas é bastante semelhante, ambas atendem crianças
com muitas dificuldades de aprendizagem. Destaca-se também que nas duas es-
colas há um número elevado de alunos infrequentes e muitas transferências de
alunos entre escolas, o que dificulta o acompanhamento sistemático por parte do
projeto. Em relação às autorizações, alguns pais não enviaram ou não assinaram
o termo de consentimento para que as crianças pudessem participar do projeto,
especificamente, na turma piloto, dos 16 alunos da turma de 4º ano, apenas 12
puderam ser acompanhados.
Durante a realização do projeto nesta turma e, através do diálogo com profes-
soras da escola, foi possível observar os conflitos existentes na vida dos aprendi-
zes. Entre os alunos, havia os que precisavam trabalhar informalmente para aju-
dar no sustento da casa, o que impedia a frequência e seguimento sistemáticos
às aulas e às aprendizagens desencadeadas no projeto. Um problema marcante
é o fato de que, em dias de chuva, poucos alunos comparecem à escola devido às
condições territoriais de alagamentos. Alguns dos alunos têm grande número de
irmãos e dividem o pouco espaço residencial entre os familiares, isto influencia
na impossibilidade de dedicarem-se aos estudos e na realização de atividades em
casa. Os problemas comportamentais também influenciavam diretamente a reali-
zação das atividades do projeto, em vários momentos a pibidiana tinha que inter-
romper o seguimento da aula para resolver questões conflituosas entre os alunos,
foi necessário muito diálogo e reflexão para conquistar resultados positivos. As
crenças dos alunos eram claramente negativas em relação ao seu futuro educa-
cional, isto pôde ser observado já na primeira sessão na qual havia a proposta de
elaboração de crachás com nome e codinome dos alunos, nos quais deveriam re-
presentar alguma característica positiva de si. Com intuito de conhecer um pouco
sobre as motivações dos alunos, a pibidiana propôs que eles pudessem colocar no
crachá sua intenção profissional, poucos alunos tinham uma visão de futuro, che-
gando a comentar “não irem muito longe na escola”. Existe uma atividade durante
o projeto que inclui o desenvolvimento de crenças positivas sobre si, a atividade
deste dia propunha a escolha de um objetivo para melhorar a escrita individual e
escrita da turma, após debaterem em aula junto à pibidiana, os alunos escolheram
unanimemente a opção “acreditar nas minhas ideias” (VEIGA SIMÃO, 2017, p.46).
O embasamento da autorregulação da aprendizagem tem sido traba-
lhado com todas as faixas etárias, até mesmo as crianças do pré-esco-
lar podem receber orientações por meio de atividades pedagógicas, e a
partir delas, conquistarem a capacidade de gerenciarem pensamentos
e ações, influenciando diretamente na motivação de novas aprendiza-
gens. (SIMÃO; MOREIRA, 2019 apud JESUS, SIMÃO, FRISON, 2019).

Avaliação do projeto
Quanto à avaliação do projeto pelos alunos, foi proposta, segundo Simão (2017,
p.82), a escrita de três tópicos: “a) O que eu mais gostei no projeto de escrita criativa
foi; b) Durante o projeto, eu consegui melhorar; c) Para o projeto ficar melhor devia”.
No geral, foi possível observar que os alunos se envolveram ativamente e
reconheceram o valor do projeto CriaTivo. Na questão “a”, as respostas mais

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 516
recorrentes foram: “A história” e “O tesouro”. Na questão “b”, os alunos relataram
uma melhoria na escrita, nos conhecimentos e estrutura de texto. Na questão “c”,
muitos alunos disseram que não precisaria mudar nada, alguns disseram que a his-
tória e o projeto deveriam ter continuidade, representando seus envolvimentos e
recepção com o CriaTivo.
Estruturou-se um questionário de avaliação para as professoras participantes
do projeto, composto por 9 questões: 1) Você percebe alguma mudança de com-
portamento dos alunos após a aplicação do projeto? Quais?; 2) Quais as obser-
vações trazidas pelos alunos relativas ao projeto?; 3) Você observou a escrita dos
alunos após a implementação do projeto? Quais considerações tens a fazer?; 4)
Você observou a utilização ou comentários sobre as estratégias autorregulatórias
desenvolvidas pelo projeto? Por exemplo: QOQOC, POMI e ECAS. Comente; 5) Os
alunos apresentam maior criatividade e imaginação para a escrita?; 6) Os alunos
demonstram maior interesse pela escrita?; 7) Considerações acerca dos pontos
positivos do projeto; 8) Considerações negativas sobre o projeto; 9) Em números
diga quantos alunos avançaram na escrita, quantos não avançaram nada e quan-
tos mostraram médios avanços. Nomeie os alunos que percebestes avanços e des-
creva estes avanços.
Observando a devolutiva da professora envolvida com a turma piloto sobre as
questões propostas, reafirmamos que inicialmente havia um desânimo para pro-
dução escrita, ficando evidente esse fato, como também a motivação das crianças
em relação ao projeto:
Durante o período de aplicação das oficinas os alunos sempre se mostra-
ram bastante empolgados, ansiosos pelas oficinas, apesar de inicialmente
mostrarem certa resistência em relação à produção escrita. Acredito que a
motivação deva-se ao vínculo criado com a bolsista, e também ao clima de
mistério e ludicidade que as oficinas oferecem.

Na questão 6, a professora também traz outras considerações acerca da moti-


vação dos alunos, além de caracterizar comportamentos reflexo do trabalho so-
ciocognitivo, resultante das atividades grupais:
Sim, com certeza, mostram-se mais descontraídos na escrita, com o traba-
lho eles compartilham mais suas ideias com o grupo e acabam ajudando os
colegas que tem mais dificuldade de criação.

Uma das pibidianas envolvidas com o projeto aborda a relação das produções
colaborativas da seguinte maneira:
Com o projeto, aprendi a explorar de maneira mais ampla o universo de
possibilidades que a minha imaginação pode me dar, pois através dela
consigo inventar e reinventar muitas coisas, outro ponto que é importan-
te frisar é o trabalho e cooperação coletiva, todos juntos em busca de um
mesmo ideal, ajudando e reparando falhas que são naturais, isso é muito
importante, seja na sala de aula com as crianças ou na universidade. Além
disso, falando de maneira particular, controlar o tempo, planejar, revisar e
reescrever o próprio texto é algo que muitas vezes passava batido por mim,
e com o CriaTivo isso se tornou mais recorrente. (P 5).

A professora da turma fomenta a capacidade evolutiva de seus alunos e a ino-


vação de seus métodos de ensino:

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 517
O Projeto instiga os alunos a gostarem da escrita, pois ao longo do pro-
cesso eles percebem-se como produtores dos textos e ao mesmo tempo
revisores do seu trabalho. Outro ponto positivo que gostaria de destacar é
a mudança na minha prática, a partir da metodologia desenvolvida no pro-
jeto, houve um enriquecimento no meu trabalho com a produção textual.

Congruentes a esta ideia, a pibidiana que implementou o projeto da turma pilo-


to também salientou os reflexos em sua futura prática profissional:
O Projeto CriaTivo me propiciou o contato com a realidade escolar, bem
como desenvolver estratégias, junto ao projeto, que possibilitassem a me-
lhoria na escrita dos alunos intencionada pelo trabalho CriaTivo. Pude per-
ceber o envolvimento deles com o projeto e principalmente uma grande
motivação para a escrita que antes não tinham. Como profissional, pude
adquirir novas aprendizagens que serão aplicadas em minha pratica edu-
cacional. (P1).

Frutos do CriaTivo
Foi utilizado como base de orientação do projeto o livro intitulado CriaTivo:
Promoção de Estratégias de Autorregulação na Escrita. Com a implementação do
Projeto CriaTivo no Brasil, pretende-se realizar as adaptações necessárias para o
português do Brasil e incluir nossos resultados e algumas acomodações do proje-
to. Nossa intenção é que se possa contribuir com a publicação do livro no Brasil
para uma maior empregabilidade das estratégias autorregulatórias no âmbito da
escrita e possibilitarmos de ampliação das potencialidades na escrita dos alunos
das redes de ensino.
Em parceria com o PIBID pode-se trazer resultados obtidos até o momento com
a análise da turma piloto. Congruentes com os resultados obtidos de Portugal, os
dados obtidos revelam que também houve uma melhoria na escrita dos alunos de
53%. Em uma segunda turma de 4º ano, na qual foi implementado o projeto na
mesma escola, com total de 16 alunos, na qual 11 eram assíduos, salienta-se o caso
único aprendiz que com TDA (Transtorno de Déficit de Aprendizagem) apresen-
tou resultados surpreendentes não somente quanto à elaboração de textos, mas
também em sua aprendizagem de escrita que se encontrava em um nível muito
precário. Após a implementação do projeto e do empenho da bolsista neste caso,
o aluno passou de um texto inicial composto por 2 linhas para um texto final de 13
linhas.
A pibidiana que atuou nesta turma relatou:
particularmente minha turma foi bem produtiva, trazendo-me resultados
surpreendentes que pulsam de forma radiante em meu peito repleto de fe-
licidade. Embora tenha havido descrença no aprendizado de um aluno, a
graduação em Pedagogia juntamente com o Projeto CriaTivo capacitou-
-me a inovar em novos métodos de aprendizado de maneira resultante,
como se fez na vida deste educando, que na primeira sessão do projeto não
desenvolvia individualmente funções como escrever e ler, porém findou-se
de forma maravilhosa com o progresso em ambas, consolidando assim a
sua escrita e oralidade. (P2).

A professora desta turma do 4º ano relatou inicialmente que “o projeto está


contribuindo para desenvolvimento da escrita dos alunos. As produções textuais es-
tão começando a ter forma de escrita devido ao incentivo dado através de recursos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 518
diferenciados”. A professora relatou também que 6 alunos avançaram na escrita
desenvolvendo maior criatividade, imaginação e pontuação. Outros 5 tiveram
avanços médios. Vale ressaltar que desta turma ainda não foi possível analisar o
resultado dos textos escritos.

Conclusão
Com a implementação do Projeto CriaTivo pode-se obter resultados exitosos
apresentados pela turma piloto, com o índice de 53% de melhoria nas escritas dos
alunos do 4º ano. Ratifica-se a importância deste projeto, pois permitiu avanços
significativos nas aprendizagens das crianças. Entende-se que os avanços se de-
vem ao fato do trabalhado ter como base a teoria da autorregulação da aprendi-
zagem, que investe no ensino explícito de estratégias autorregulatórias, as quais
potencializaram a aprendizagem dos alunos.
Além disso, cabe ressaltar sobre o impacto na formação profissional das gradu-
andas de Pedagogia participantes do Projeto, que possibilitou novas práticas de
ensino a serem utilizadas futuramente como profissionais, além do contato direto
com as crianças e a realidade escolar possibilitando a reflexão sobre os meios de
permitem superar os desafios encontrados, buscando autonomamente e autorre-
gulatoriamente movimentos que possibilitem conquistar resultados exitosos, não
somente durante o Projeto, mas como futuras profissionais.

Referências
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nitive Career Path. Educational Psychologist, v. 48, n. 3, p. 135–147, 2013.

SOBRE AS AUTORAS
Bruna Moura da Silva, graduanda Produtividade CNPq/Pq2. Coordenado-
de Pedagogia pela UFPEL. Bolsista do ra do Projeto CriaTivo: Promoção de es-
Projeto de Extensão/UFPEL: CriaTivo: tratégias de autorregulação da escrita,
Promoção de Estratégias Autorregula- líder do GEPAAR, Grupos de Estudos e
tórias para o ensino da Escrita. E-mail: Pesquisa da Aprendizagem Autorregu-
bbrunammoura@[Link] lada. E-mail: frisonlourdes@[Link]

Annelise Costa de Jesus, graduanda Ana Margarida da Veiga Simão,


de Pedagogia pela UFPEL. Bolsista do graduada em Psicologia pela FPCE-UL.
Projeto de Pesquisa e Iniciação Cientí- Doutora em Ciências da Educação pela
fica/ UFPEL: Promoção de Estratégias FPCE-UL. Professora catedrática e in-
Autorregulatórias para o ensino da vestigadora no Centro de Investigação
Escrita. E-mail: annelise_cj@hotmail. em Ciência Psicológica da Faculdade
com de Psicologia da Universidade de Lis-
boa. Coordenadora, desde 2015, do
Lourdes Maria Bragagnolo Frison, Projeto de Investigação CriaTivo: Pro-
graduada em Pedagogia pela PUCRS. moção de estratégias de autorregula-
Professora associada do Departamento ção da escrita e do Programa de Estu-
de Fundamentos em Educação, da Fa- dos da Aprendizagem Autorregulada,
culdade de Educação, da Universidade PEAAR. E-mail: amsimao@psicologia.
Federal de Pelotas (UFPel). Bolsista de [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº10 520
ENCONTROS SOBRE
O PODER ESCOLAR:
REFLEXÕES SOBRE UM PROJETO DE
EXTENSÃO E DE FORMAÇÃO CONTINUADA
DE EDUCADORES

Lígia Cardoso Carlos


Dirlei de Azambuja Pereira

A história dos Encontros sobre o Poder Escolar


A ação extensionista, com trabalhadores em educação, começou em 2001 dian-
te das reivindicações de docentes da educação básica da região sul do Rio Grande
do Sul por parcerias para a formação continuada. O quadro socioeducativo daque-
le período (de redemocratização do país após a ditadura civil-militar (1964-1985);
da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Nº 9394, publicada em
1996; e das discussões sobre a gestão democrática da educação) foi o alicerce para
um projeto de extensão concebido em uma perspectiva interinstitucional entre a
Faculdade de Educação (Universidade Federal de Pelotas), o Instituto Federal Sul-
-rio-grandense, a Universidade Católica de Pelotas, a 5ª Coordenadoria Regional
de Educação, o 24º Núcleo do CPERS-Sindicato, a Secretaria Municipal de Edu-
cação e Desporto de Pelotas/RS e o Conselho Municipal de Educação de Pelotas1.
O “caráter de organização coletiva, presente desde seu início, revela um pro-
cesso de colaboração que garante a sua realização com reconhecido sucesso”
(CARLOS; PEREIRA, 2018b, p. 01). A definição do nome, que problematiza o ne-
cessário empoderamento da escola e dos profissionais que nela desenvolvem suas
práxis, teve inspiração em um excerto apresentado na contracapa da obra Quem
manda na educação no Brasil?, de autoria de João Monlevade e Maria Abádia da
EDUCAÇÃO Nº11

Silva (2000). Nele, os autores asseguram que “a democratização da sociedade e


da escola exigem outro enfoque, o da construção dos processos decisórios que
lentamente estão constituindo um novo poder, o poder escolar”. Iluminado por
1 A partir do ano de 2018, a Universidade Federal do Pampa passou a integrar o projeto de extensão,
somando, portanto, oito instituições parceiras.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 521


essa ideia, o Encontro sobre o Poder Escolar caracteriza-se como um espaço-tem-
po no qual os trabalhadores em educação compartilham experiências, aprendem/
ensinam em diálogo com os pares e se organizam como coletivo. Destarte, ao
participarem desse provocativo ambiente de formação, “os profissionais da edu-
cação podem consubstanciar a luta por uma educação de qualidade mediante a
assunção do poder que se encontra na escola e em suas possibilidades formativas”
(CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 159). A proposta, desde a sua origem, tem como
objetivos:
[...] contribuir para a valorização dos profissionais da educação ao dar
vez e voz aos seus saberes e fazeres; trazer à luz as potencialidades cria-
tivas dos professores que, no dia a dia, compõem os cenários escolares
em meio às dificuldades que permeiam a prática docente; reunir univer-
sidade e escolas de educação básica aproximando o saber acadêmico
e os saberes da experiência num movimento em direção à qualificação
da educação básica e do ensino universitário (DALL’IGNA, 2012, p. 55).

No transcurso desses dezenove anos, o projeto de extensão Encontros sobre


o Poder Escolar se compromete com a edificação de um diálogo crítico sobre os
contextos de trabalho e de formação dos profissionais da educação. E conside-
ra as experiências pedagógicas que são engendradas nos espaços escolares como
a produção de um poder que colabora com a qualificação da escola básica e dos
processos formativos nas universidades. A relação estabelecida entre os saberes
acadêmicos e os saberes da experiência (TARDIF; LESSARD; LAHAYE, 1991) tra-
ta-se de uma grande contribuição também possibilitada pela proposta à comuni-
dade educacional. O projeto de extensão fundamenta-se na compreensão de que
os docentes precisam ser sujeitos de sua formação e que, no cotidiano de suas
escolas e frente aos diversos processos de precarização do trabalho, arquitetam
práxis que consubstanciam a elaboração de uma proposta político-pedagógica a
qual, por sua vez, qualifica os atos de ensinar e aprender. E essas ações precisam
ser compartilhadas.
Outra “força mobilizadora da iniciativa foi a oposição ao discurso que culpabi-
liza as/os docentes e seus processos de formação por problemas encontrados nas
escolas”. Destarte, o projeto assume, como pressuposto, “um modo de formação
que também fosse de valorização e reconhecimento do trabalho que acontece
no interior das escolas”. Esses indicadores basilares foram “se materializando na
proposta de conferências com intelectuais da área e de mesas de apresentação e
troca de experiências dos professores da educação básica”. O critério fundamental
instituído “para a apresentação de experiências pedagógicas no evento, que é uma
ação do projeto, desde o início até hoje, é de que sejam da escola e para a escola e
não trabalhos acadêmicos sobre a escola” (CARLOS; PEREIRA, 2018b, p. 02). Des-
se modo, o evento se edificou e continua com “sua dinâmica na perspectiva do di-
álogo entre as escolas e, mesmo que expectativas mais democráticas nem sempre
sejam atingidas, há um processo constantemente em movimento que vai tecendo
vínculos, fomentando encontros e forjando espaços de formação com autonomia”
(CARLOS; PEREIRA, 2018b, p. 02).
Além do evento chamado Encontro sobre o Poder Escolar, que de 2001 a 2010
aconteceu anualmente e que passou a ser realizado a cada dois anos (a partir da 11ª
edição), outras ações integram a proposta. Diversas atividades são desenvolvidas
pelas instituições que integram o projeto, como as ações preparatórias sobre as
temáticas que serão debatidas em cada evento (como os intitulados Encontrinhos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 522
e as palestras). Em relação ao evento, esse tem como elemento essencial as Me-
sas de Apresentação de Experiências Pedagógicas, pois essas buscam evidenciar o
protagonismo dos trabalhadores em educação. No início dos anos 2000, não eram
habituais ações, em formatos de eventos, que intencionavam colocar os profis-
sionais da educação como o centro dessas atividades. E essa foi uma inovação na
ação extensionista. Junto às apresentações de experiências pedagógicas, o evento
contou, no decorrer dos anos, com conferências, palestras e outras ações intitula-
das “como a Voz dos Estudantes, Voz dos Pais, Voz das Equipes Diretivas (posterior-
mente renomeado como Voz dos Profissionais da Educação), as Vozes da Comuni-
dade Escolar, o curso Redes de Poder (2008-2010), as Mostras Culturais” (CARLOS;
PEREIRA, 2018a, p. 162) e as Rodas de Conversa. Os dados, a seguir, possibilitam
uma visualização do número de participantes e de experiências pedagógicas2 da
primeira a décima terceira edição do evento:

Quadro 1: Participantes inscritos e experiências pedagógicas apresentadas do 1º ao 13º Encontro


sobre o Poder Escolar

Encontro 1º 2º 3º 4º 5º 6º 7º
Ano 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007
Participantes 1200 1400 1300 1800 1541 1458 1700
Experiências apresentadas 28 35 85 110 112 139 144
Encontro 8º 9º 10º 11º 12º 13º
Ano 2008 2009 2010 2012 2014 2017
Participantes 1646 1652 1545 1512 800 700
Experiências apresentadas 159 155 150 167 174 105
Fonte: CARLOS; DALL’IGNA, 2014, p. 74 . 3

Considerando as informações acima4, fica comprovada a relevância do projeto


de extensão e do evento para os processos formativos dos profissionais da região
sul do Rio Grande do Sul. Entendemos que essa ação extensionista, por sua quali-
dade e longevidade, integra a cultura de formação de educadores de nossa região.
2 É importante esclarecer que, nas “edições de 2001 e 2002, havia um convite a autores/autoras de expe-
riências pedagógicas para socializarem as suas práticas no encontro. A partir da 3ª edição, as inscrições para
a apresentação de trabalhos passaram a ser abertas a todas/todos, o que revela o compromisso, no histórico
do projeto, com a constituição de uma cultura de protagonismo por parte dos/das profissionais em socializar
as suas práxis educativas. Já na 4ª edição, os resumos dos trabalhos inscritos passam a compor os anais do
encontro e, na 5ª edição, os textos das conferências e palestras também começam a integrar esse material”
(CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 161). Elucidamos ainda que, em algumas edições, nem todas as experiências
pedagógicas apresentadas estão presentes nos Anais do evento devido aos critérios estabelecidos para a pu-
blicação dos resumos.
3 O quadro de Carlos e Dall’Igna (2014) apresentava os dados referentes até a 11ª edição do evento. Com
o objetivo de atualizá-lo, inserimos as informações da 12ª edição (2014) e da 13ª edição (2017).
4 O ínterim de três anos, entre a 12ª e a 13ª edição do evento, ocorreu devido à compreensão, por parte
da Comissão Organizadora e das Instituições que participam do projeto, de que em 2016 não existia uma
conjuntura que possibilitasse a realização do Encontro (CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 161). No que pertine
à redução da quantidade de participantes a partir da 12ª edição, percebemos que, “nos últimos anos, há um
crescente número de eventos relacionados à formação continuada dos profissionais da educação, muitos
deles organizados pelas próprias secretarias municipais de educação. A expansão da educação a distância,
por sua vez, aumentou as possibilidades formativas dos docentes. Diante do quadro exposto e resultante
dele, notamos que, nas duas últimas edições (2014 e 2017), ocorreu uma diminuição no número de inscrições”
(CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 162).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 523
Temáticas dos Encontros sobre o Poder Escolar
Um aspecto peculiar do evento, como já ponderamos, são as Mesas de Apre-
sentações de Experiências Pedagógicas. Nas referidas mesas, os trabalhadores
em educação compartilham saberes advindos da ação pedagógica, socializam “ex-
periências com os pares e produzem reflexões sobre as práticas educativas cons-
truídas no cotidiano escolar”. Com efeito, “é possível compreender a dinâmica do
ato pedagógico em uma perspectiva mais alargada, evitando assumirem para si a
culpa dos fracassos vinculados à educação” (CARLOS; PEREIRA, 2018b, p. 02-03).
Os assuntos das experiências pedagógicas inscritas e apresentadas pelos pro-
fissionais das escolas envolvem temáticas distintas e estão publicadas nos Anais
do evento (a partir da 4ª edição, em 2004). Assim, com a intenção de estruturar
uma base de informações para avaliação e continuidade do projeto, realizamos
um exame, de natureza documental (GIL, 2002), a respeito das experiências pe-
dagógicas que constam nos Anais da 4ª a 13ª edição dos Encontros sobre o Poder
Escolar.
Logo após a definição dos Anais a serem perscrutados, elegemos os eixos te-
máticos, conforme as áreas de conhecimento, que balizariam o processo de análi-
se e enquadramento dos trabalhos (resumos). Como resultado, listamos quinze ei-
xos temáticos, a saber: 1) Artes; 2) Biologia/Ciências; 3) Educação Física/Nutrição;
4) Educação/Pedagogia; 5) Ensino Religioso; 6) Filosofia; 7) Física; 8) Geografia/
História; 9) Interdisciplinar/Multidisciplinar/Temas Transversais; 10) Letras (Por-
tuguês)/Línguas estrangeiras/Literatura; 11) Matemática; 12) Não condiz com o
evento; 13) Psicologia; 14) Química e 15) Sociologia. No processo de investigação,
observamos os títulos e o conteúdo dos resumos publicados nos Anais. Como re-
sultado, apresentamos o quadro a seguir:

Quadro 2: Temáticas por áreas de conhecimento e número experiências pedagógicas


apresentadas nos Encontros sobre o Poder Escolar

2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 T P
ENCONTROS SOBRE O 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 O O
PODER ESCOLAR 0 0 0 0 0 0 1 1 1 1 T S
4 5 6 7 8 9 0 2 4 7 A I
L Ç
TEMÁTICAS POR ÁREAS DO CONHECIMENTO Ã
O
Artes 11 12 14 13 18 13 23 15 11 08 138 4ª
Biologia/Ciências 04 06 10 05 10 14 05 10 13 03 80 6ª
Educação Física/Nutrição 04 03 03 02 08 08 10 05 06 05 54 8ª
Educação/Pedagogia 24 17 41 49 43 42 39 41 40 17 353 1ª
Ensino Religioso 02 00 02 01 01 01 01 02 03 00 13 9ª
Filosofia 01 00 00 03 01 00 01 02 03 00 11 10ª
Física 00 00 00 00 00 00 02 00 02 00 04 13ª
Geografia/História 09 15 09 15 08 10 14 09 21 13 123 5ª

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 524
2 2 2 2 2 2 2 2 2 2 T P
ENCONTROS SOBRE O 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 O O
PODER ESCOLAR 0 0 0 0 0 0 1 1 1 1 T S
4 5 6 7 8 9 0 2 4 7 A I
L Ç
TEMÁTICAS POR ÁREAS DO CONHECIMENTO Ã
O
Interdisciplinar/ 31 27 35 35 33 41 23 30 37 28 320 2ª
Multidisciplinar/Temas
Transversais
Letras (Português)/Lín-
guas estrangeiras/Lite- 12 19 17 12 10 23 22 10 17 25 167 3ª
ratura
Matemática 01 02 06 04 08 02 09 16 14 05 67 7ª
Não condiz com o evento 00 00 00 00 00 00 01 00 02 00 03 14ª
Psicologia 00 00 00 00 00 00 00 02 00 00 02 15ª
Química 00 02 00 00 01 01 00 00 03 00 07 12ª
Sociologia 00 01 02 03 00 00 00 03 02 00 11 10ª
TOTAL TOTAL
Experiências Publicadas 99 104 139 142 141 155 150 145 174 104 1353

Fonte: GRANADO; PEREIRA; CARLOS (2018, p. 344)5.

Considerando as experiências analisadas quantitativamente, notamos que, de


um total de mil trezentos e cinquenta e três (1353) resumos, quase a metade (673)
está associada às áreas temáticas Educação/Pedagogia e Interdisciplinar/Multidis-
ciplinar/Temas Transversais. As demais doze áreas temáticas somadas resultam
em seiscentos e oitenta (680) trabalhos. No que se refere ao número de resumos
publicados sobre os temas Educação/Pedagogia, no período estudado, observa-
mos que na 5ª e 13ª edições (2005 e 2017, respectivamente) ocorreram as meno-
res incidências de escritos nessa área. Já na área Interdisciplinar/Multidisciplinar/
Temas Transversais, os menores índices de resumos publicados foram nos anos
de 2005, 2010 e 2017 (5ª, 10ª e 13ª edições). O eixo temático Letras (Português)/
Línguas estrangeiras/Literatura teve o seu menor número de resumos publica-
dos em 2010 (10ª edição) e o seu maior em 2017 (13ª edição). Em relação à área
de Artes, em 2010 (10ª edição) teve vinte e três (23) trabalhos publicados (maior
ocorrência) e oito (08) resumos publicados em 2017 (13ª edição), sendo o menor
número registrado no período em estudo. No eixo Geografia/História, no trans-
correr das edições, há uma variação de oito (08) a quinze (15) resumos publicados,
com destaque para a 12ª edição (2014), na qual constam nos Anais vinte e um (21)
trabalhos. Na sexta e sétima áreas (Biologia/Ciências e Matemática, nessa ordem),
5 Ajustes foram realizados no quadro originalmente publicado em 2018. Consideramos conveniente in-
formar que estamos produzindo uma segunda análise do conteúdo dos resumos para determinar a área em
que se inscrevem, bem como estamos discutindo a necessidade de inserção de outros eixos temáticos que
melhor se adequem às propostas das experiências pedagógicas apresentadas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 525
identificamos que as publicações variam de três (03) a quatorze (14) resumos (Bio-
logia/Ciências) e de um (01) a dezesseis (16) resumos (Matemática), sendo nesse
eixo uma das intercorrências mais expressivas. Na área Educação Física/Nutrição
(8ª posição), ocorreu uma variação de dois (02) a dez (10) trabalhos publicados. No
tocante às áreas Ensino Religioso (9ª posição), Filosofia e Sociologia (10ª posição),
Química (12ª posição), Física (13ª posição) e Psicologia (15ª posição), notamos que
nessas residem os menores índices de resumos publicados (com uma variação, no
total, de dois a treze trabalhos). Salientamos que, mediante a investigação realiza-
da, encontramos três (03) resumos que foram publicados, mas que não condiziam
com as temáticas estabelecidas pelo evento.
Outro aspecto a ser destacado, ao visualizarmos o quadro anterior, é sobre a
dimuiçção de resumos publicados na 13ª edição (2017). Entendemos que um dos
motivos, como apontamos anteriormente, é o significativo aumento de eventos
de formação continuada que ocorrem na região sul do RS, muitos deles ofertados
pelas secretarias de educação dos municípios.
Examinar, atentamente, os trabalhos publicados nos Anais dos Encontros sobre
o Poder Escolar configura-se como um relevante modo de refletir sobre o que vem
sendo produzido como práxis educativa na educação básica, bem como oportuni-
za a compreensão sobre as temáticas que estão em evidência nesse recorte tem-
poral.
Os dados até aqui apresentados indicam uma proeminente reflexão, que ne-
cessita ser desenvolvida, sobre a insuficiência “de experiências pedagógicas em
determinadas temáticas e áreas de conhecimento e, consequentemente, acerca
da escassez de trocas de experiências entre as/os docentes da educação básica que
estimulem a produção de novos meios/novas estratégias de se ensinar e aprender”
(CARLOS; PEREIRA, 2018b, p. 05). Observamos, nessa análise sobre as experiên-
cias pedagógicas, a presença de temas que são potencializados “por fatores exter-
nos como políticas sociais, tecnologias, dentre outros fatores”. É apropriado enfa-
tizar que os “trabalhos socializados também mostram a dificuldade de sustentar
projetos pedagógicos referenciados localmente” e sistematizados em parceria, o
que produz óbices para as “tomadas de decisão mais coletivas” (CARLOS; PEREI-
RA, 2018b, p. 05).
Quando visualizamos a trajetória do projeto de extensão, compreendemos
que os debates e as reflexões presentes nas discussões, que estão relacionadas
“às apresentações das experiências pedagógicas e conferências, acrescidas das fi-
chas de avaliação dos eventos”, permitem reconhecer “a sobrecarga de trabalho
das/dos docentes e as exigências burocráticas que atritam com encaminhamentos
locais, a insuficiência do número de profissionais para o bom atendimento das de-
mandas da escola, a precariedade da estrutura física”, bem como outros aspectos
que evidenciam o abandono com a educação pública (CARLOS; PEREIRA, 2018b,
p. 05).

O Poder Escolar e sua fundamentação teórica


Ao direcionarmos o nosso olhar para a história dessa ação extensionista, pro-
curamos dados que nos possibilitam interpretá-la no campo da formação de pro-
fessores e dos saberes docentes com o escopo de viabilizar avanços em sua con-
tinuidade. Destarte, sublinhamos os debates a respeito dos saberes docentes que
começam a compor as discussões realizadas pela comunidade educacional na dé-
cada de 1990 (TARDIFF; LESSARD; LAHAYE, 1991; GAUTHIER, 1998); as reflexões

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 526
sobre a ideia de professor reflexivo e professor pesquisador, conectadas a um pro-
cesso que busca o reconhecimento da formação e da profissionalização dos edu-
cadores que também ocorre, no Brasil, nos anos de 1990 (PIMENTA, 2005); e as
pesquisas que apontam críticas aos projetos de formação encaminhados (em uma
perspectiva individual) aos professores, que, por seu turno, estão desassociados
de uma proposta para a carreira docente e que não consideram os diversos con-
textos da ação pedagógica, bem como não potencializam o engendramento de
saberes no âmago da profissão (NÓVOA, 1991; GATTI, 2008; FREITAS, 2012).
Compreendemos que as atividades desenvolvidas nos Encontros sobre o Poder
Escolar, com predomínio para as mesas de apresentação e discussão de práticas
escolares, oportunizam que experiências, advindas do mundo do trabalho, se
constituam em um saber manifesto, alicerçado pelo profissional que é o agente
principal da ação (CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 172). Ainda que imperem sociali-
zações de modos de fazer habituais assinalados pela ideia de localizar estratégias
pedagógicas para as situações problemáticas que se apresentam no cotidiano, es-
sas criações educativas (advindas de um contexto e de uma produção particular)
se reconfiguram na medida em que são compartilhadas com os pares. “As expe-
riências pedagógicas apresentadas pelos docentes da educação básica e discuti-
das nos eventos Encontros sobre o Poder Escolar são campo de formação e de
possibilidade de ampliação da compreensão das práticas pedagógicas” (CARLOS;
PEREIRA, 2018a, p. 172). Portanto, ao recorrerem às suas experiências enquanto
docentes, os profissionais evidenciam os seus cotidianos de trabalho, “ora dialo-
gando com questões macro, ora permanecendo em situações mais imediatas de
ensino, marcadas pela cultura escolar e curricular, nas quais a discussão teórica,
muitas vezes, se fragiliza” (CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 172).
Assim, a formulação da proposta (DALL’ IGNA, 2012; CARLOS; DALL’IGNA,
2014) estrutura-se na ideia de que: saberes são produzidos pelos educadores em
seus contextos de trabalho (TARDIFF, 2002); aprendizagens são potencializadas
na partilha de experiências entre os profissionais da educação quando esses se en-
contram ou quando trabalham em conjunto e cooperativamente (FULLAN; HAR-
GREAVES, 1999); a reflexão construída de maneira crítica sobre a prática coíbe o
ativismo e o discurso desconectado da realidade concreta (FREIRE, 1997); e, por
fim, as transformações desejadas na educação escolar são resultantes de um pro-
cesso coletivo, democrático e autônomo (PARO, 2001).
No decorrer de seus dezenove anos de existência, as referências acima expos-
tas estruturam a proposta e possibilitam um constante ressignificar do projeto e
de sua ação extensionista principal, o evento Encontro sobre o Poder Escolar que,
no ano de 2019, realizou a sua décima quarta edição.

A 14ª edição do Encontro sobre o Poder Escolar


O 14º Encontro sobre o Poder Escolar, que ocorreu de 23 a 26 de setembro de
2019, teve como slogan a frase: Escola e Comunidade: compromisso de todos e de
cada um6. O tema surgiu a partir das avaliações apresentadas no 13º Encontro sobre
o Poder Escolar (2017) e buscou problematizar a relação necessária e desafiadora

6 Para um melhor detalhamento das frases-tema das edições anteriores dos Encontros sobre o Poder
Escolar, acessar as páginas 159, 160 e 161 do artigo: CARLOS, L. C.; PEREIRA, D. de A.. Formação de profes-
sores em uma perspectiva democrática: Encontros sobre o Poder Escolar. Roteiro, Joaçaba, Edição Especial,
p. 155-176, dez. 2018.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 527
entre as escolas e suas comunidades. Considerando esse aspecto, como uma deci-
são simbólica e política, pela primeira vez o evento foi realizado em uma escola7, o
Colégio Municipal Pelotense (Pelotas/RS).
Na programação, tivemos as seguintes conferências: Escola e Comunidade:
compromisso de todos e de cada um, com a Profa. Dra. Helena Singer (Ashoka Amé-
rica Latina e IEA/USP); Gestão escolar em uma perspectiva democrática e a comuni-
dade escolar, com o Prof. Dr. Vitor Henrique Paro (FE/USP); Diversidade: a escola
em diálogo com a comunidade, com a Profa. Dra. Nilma Lino Gomes (FaE/UFMG)
e Liberdade de cátedra, autonomia docente e o contexto da comunidade científica e
escolar, com o Procurador Enrico Rodrigues de Freitas (Ministério Público Fede-
ral). Apresentações culturais também integraram a programação. Nesse sentido,
ocorreu uma sessão e um debate sobre o documentário Escola Sem Censura, com a
presença do diretor do filme, o Prof. Dr. Ricardo Gonçalves Severo (FURG); a apre-
sentação do Espetáculo Quando você me toca do Tatá – Núcleo de Dança-Teatro
(UFPel) e a realização do Buteco da Filosofia, um projeto coordenado pela Profa.
Dra. Flávia Carvalho Chagas (UFPel), que contou com a presença de educadores
da rede pública de ensino debatendo o eixo suleador8 do evento (a relação entre
escola e comunidade).
As Rodas de Conversa, já tradicionais nesse encontro, foram desenvolvidas em
torno de nove assuntos, os quais citamos: Roda de Conversa 1: Entre a experiên-
cia e o planejamento: uma dobradura no trabalho intelectual das professoras; Roda
de Conversa 2: Cartografia Escolar como Linguagem na Educação Básica; Roda de
Conversa 3: Educação Inclusiva na rede municipal de Pelotas: as frentes de atuação;
Roda de Conversa 4: Conversando sobre depressão, automutilação e suicídio na in-
fância e adolescência; Roda de Conversa 5: Ensino de Matemática: limites e poten-
cialidades a partir da BNCC; Roda de Conversa 6: Arte na escola? Fazeres, saberes
e percepções; Roda de Conversa 7: Proibir ou Permitir o uso das Mídias Digitais em
sala de aula?; Roda de Conversa 8: Aprendendo a pensar sobre critérios de escolha
de obras literárias; e Roda de Conversa 9: Brinquedoteca: fantasia e imaginação na
casa dos brinquedos da FaE. As Rodas de Conversa foram um momento de provo-
cativo e substancial diálogo sobre temáticas que integram o cotidiano de trabalho
dos profissionais da educação básica e foram muito bem avaliadas pelos presen-
tes.
E as Mesas de Apresentações de Experiências Pedagógicas, momento caracte-
rístico do evento, contaram com cento e trinta e sete (137) trabalhos. No quadro
abaixo, destacamos as áreas de conhecimento dos resumos aprovados e apresen-
tados:

7 Em edições anteriores, as conferências eram ministradas no Theatro Guarany (Pelotas/RS) e as apre-


sentações das experiências pedagógicas aconteciam, geralmente, nas salas da Universidade Católica de Pe-
lotas.
8 A adoção do termo sulear sustenta-se na perspectiva freiriana. Conforme Adams (2018, p. 445), em
contraposição “ao ‘nortear’, cujo significado é a dependência do Sul em relação ao Norte, ‘sulear’ significa o
processo de autonomização desde o Sul, pelo protagonismo dos colonizados, na luta pela emancipação. Im-
plica uma ação autônoma desde o Sul, enfrentando a integralidade das questões presentes na colonialidade
do saber e do poder, que tem a ver com um outro projeto de vida envolvendo a cultura, a economia, a política,
a ciência e outras dimensões”.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 528
Quadro 3: Temáticas por áreas de conhecimento e número experiências pedagógicas
apresentadas no 14º Encontro sobre o Poder Escolar (2019)9

14º ENCONTRO SOBRE O PODER ESCOLAR 2019


TEMÁTICAS POR ÁREAS DO CONHECIMENTO Total Posição
Artes 07 7ª
Biologia/Ciências 10 4ª
Educação Física/Nutrição 02 9ª
Educação/Pedagogia 38 1ª
Ensino Religioso - -
Filosofia 01 11ª
Física 01 11ª
Geografia/História 10 4ª
Interdisciplinar/Multidisciplinar/Temas Transversais 38 1ª
Letras (Português)/Línguas estrangeiras/Literatura 14 3ª
Matemática 08 6ª
Não condiz com o evento - -
Psicologia 06 8ª
Química 02 9ª
Sociologia - -
TOTAL 137
Experiências Apresentadas
Fonte: Acervo dos autores.

Na 14ª edição do evento, identificamos um relevante aumento no número de


inscrições e trabalhos aprovados. No que concerne aos eixos temáticos, assim
como em edições anteriores, as principais áreas (em número de resumos) foram
Educação/Pedagogia e Interdisciplinar/Multidisciplinar/Temas Transversais, am-
bas com trinta e oito (38) experiências pedagógicas. Os eixos Letras (Português)/
Línguas estrangeiras/Literatura , com quatorze (14) resumos, Biologia/Ciências e
Geografia/História, com dez (10) trabalhos cada, ficaram na terceira e quartas po-
sições, respectivamente. Matemática (com oito resumos), Artes (com sete resu-
mos) e Psicologia (com seis resumos), figuram em sexto, sétimo e oitavo lugares,
nessa ordem. Já as áreas de Educação Física/Nutrição, Química, Filosofia e Física
tiveram de um (01) a dois (02) resumos aprovados. Os eixos Ensino Religioso e So-
ciologia não tiveram trabalhos encaminhados.
Torna-se imprescindível ainda citar, nesse registro sobre a 14ª edição do even-
to, o bordado produzido pelas educadoras Gisele Ramos Lima, Maria Antonieta
Dall’Igna10 e Nara Regina Berndt. Construído a várias mãos, ele sintetiza a história
do projeto, como podemos observar:
9 No que pertine às posições das temáticas por áreas do conhecimento, observamos que, em virtude dos
empates, não ranqueamos as colocações 2ª, 5ª, 10ª e 12ª.
10 A Profa. Dra. Maria Antonieta Dall’Igna (UFPel) foi a primeira coordenadora do projeto de extensão
Encontros sobre o Poder Escolar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 529
Figura 01: A arte do
14º Encontro sobre o
Poder Escolar (2019)
Fonte: LIMA;
DALL’IGNA; BERNDT
(2019)¹¹.

11

A estética da imagem traz elementos que buscam evidenciar palavras/temas


que têm um grande significado na construção da proposta extensionista. E as co-
res e os desenhos utilizados dialogam com a região do pampa gaúcho e com o
mundo da escola.
Ao avaliarmos o 14º Encontro sobre o Poder Escolar, entendemos que ele, por
sua história e na atual conjuntura, é um relevante espaço-tempo de formação con-
tinuada para os profissionais da educação e se constitui como um ambiente de
compromisso com a edificação de uma educação pública, popular e socialmente
referenciada.

Conclusões
Encerramos esse escrito declarando que o projeto extensão e de formação con-
tinuada Encontros sobre o Poder Escolar e, especialmente, as experiências peda-
gógicas socializadas pelos profissionais da educação básica são um relevante lu-
gar de formação e de teorização das práticas pedagógicas. Debatê-las e procurar
examiná-las em seus contextos produz rupturas com uma determinada tradição,
enraizada na cultura educacional, que “responsabiliza individualmente o docente
por suas ações e dinâmicas no mundo do trabalho. Além disso, promove a ideia
de comunidades de aprendizagem nas quais o que um profissional vivencia pode
cooperar com os demais” (CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 173).
É pertinente observar que a proposta, em sua configuração operacional, for-
talece uma articulação propositiva entre as instituições que integram a ação ex-
tensionista, favorecendo a elaboração de atividades (assentadas no diálogo e na
escuta) e potencializando a recriação do projeto no transcurso dos anos. O Encon-
tro sobre o Poder Escolar já se configura, devido à sua constituição e às suas bases,
como uma instituição (CARLOS; PEREIRA, 2018a, p. 174).
Por sua dimensão crítica, a qual se contrapõe a eventos de lógica motivacional
em destaque na hodiernidade, o Poder Escolar tem oportunizado a qualificação
dos processos de formação e a ressignificação das práxis educativas desenvolvidas
pelos educadores nas escolas públicas da região sul do RS. Neste sentido, desta-
camos: a relevância das experiências pedagógicas socializadas pelos profissionais
da educação e que, diante das discussões realizadas nas mesas temáticas, têm
sido qualificadas; as informações apresentadas nas avaliações dos encontros as-
severam a importância desse espaço de formação continuada e destacam o seu
formato; o número expressivo de educadores que participam e compartilham suas

11 Para maiores informações sobre o bordado, acessar: LIMA, G. R.; DALL’IGNA, M. A.; BERNDT;
N. R. A arte do 14º Encontro sobre o Poder Escolar. Disponível em: <[Link]
lar/2019/09/02/a-arte-do-14o-encontro-sobre-o-poder-escolar/>. Acesso em: 30 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 530
experiências pedagógicas no evento, o que evidencia que o Poder Escolar integra
a cultura de formação continuada da região; o número de estudos, em nível de
mestrado e doutorado, que começam a ser desenvolvidos em face da longevidade
do projeto, dos achados que ele potencializa e das informações registradas nos
Anais do evento; o aparecimento de outros eventos, na região sul do estado do Rio
Grande do Sul, que se estruturam baseados na dinâmica do Poder Escolar (CAR-
LOS; PEREIRA, 2018a, p. 174).
Os Encontros sobre o Poder Escolar têm se comprometido com processos que
intencionam uma crítica consubstanciada sobre a educação, os processos de for-
mação e de trabalho dos educadores. Para tanto, acredita na defesa de um projeto
coletivo e democrático de escola pública, no qual os trabalhadores em educação
sejam os protagonistas no fazer cotidiano e não executores de propostas que pre-
carizam o trabalho docente e as atividades educativas realizadas nas escolas. E
também assume o compromisso, como um projeto de extensão universitária, em
contribuir com a formação continuada dos educadores da região.

Referências
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TARDIF, M. Saberes Docentes e Formação Profissional. São Paulo: Cortez,


2002.

SOBRE OS AUTORES
Lígia Cardoso Carlos, graduada em Dirlei de Azambuja Pereira, gradua-
Ciências Sociais (UFRGS) e Doutora do em Pedagogia (UFPel) e Doutor em
em Educação (UNISINOS). Professora Educação (UFPel). Professor Adjunto
Associada da Faculdade de Educação da Faculdade de Educação da Universi-
e do Programa de Pós-Graduação em dade Federal de Pelotas (UFPel). Vice-
Geografia da Universidade Federal de -líder do Grupo de Pesquisa FEPráxiS.
Pelotas (UFPel). Integrante do Grupo Coordenador adjunto do projeto En-
de Pesquisa GESFOP. Coordenadora do contros sobre o Poder Escolar. E-mail:
projeto Encontros sobre o Poder Escolar. pereiradirlei@[Link]
E-mail: [Link].c@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Educação nº11 532
M E I O
AM B I E N T E
Meio Ambiente
ENSINO, PESQUISA
E EXTENSÃO NO RURAL:
A EXPERIÊNCIA DO LABORATÓRIO DE
ESTUDOS AGRÁRIOS E AMBIENTAIS – LEAA
Renata Menasche
Giancarla Salamoni

Apresentação
Criado em 2001 como projeto de extensão permanente, na perspectiva de an-
corar atividades de ensino, pesquisa e extensão, atualmente o Laboratório de Es-
tudos Agrários e Ambientais – LEAA é constituído por uma equipe de professoras/
es-pesquisadoras/es1 e estudantes – bolsistas e não bolsistas –, de graduação e de
pós-graduação, especialmente dos cursos de Geografia e de Antropologia da Uni-
versidade Federal de Pelotas. A principal marca da produção acadêmico-científica
do grupo envolvido neste projeto está em sua associação a temáticas pertinentes
ao mundo rural.
O LEAA ocupa um espaço físico-institucional junto ao Instituto de Ciências Hu-
manas da UFPel, colocando-se, no escopo de seus projetos e ações, como media-
dor na interlocução com outras instituições – acadêmicas e não acadêmicas – e
com a sociedade. Essa mediação se materializa em atividades de ensino, voltadas
ao aprendizado extracurricular de discentes – é assim que, no processo recente de
curricularização da extensão na UFPel, o LEAA integra ações dos cursos de Geo-
grafia e de Antropologia –; de projetos de pesquisa, que possibilitam a participação
de docentes e discentes de graduação e de pós-graduação na prática da pesquisa
acadêmica; bem como em ações de extensão, que objetivam a integração com a
comunidade, a partir do diálogo entre seus saberes e experiência e os produtos
resultantes da criação cultural e da pesquisa científica geradas na instituição.
Além disso, também no sentido da ampla disponibilização da produção acadê-
MEIO AMBIENTE Nº1

mico-científica nas temáticas a que se dedica, o LEAA se propõe à organização,


sistematização e arquivamento de monografias, dissertações, teses, livros, peri-
ódicos e outros materiais bibliográficos, estabelecendo-se como fonte e espaço
de consulta para interessados/as nos estudos rurais. Esse serviço, bem como a
1 O projeto é coordenado pelas professoras Giancarla Salamoni e Renata Menasche (coordenadora-ad-
junta), tendo por colaboradora a professora Maria Regina Caetano Costa e colaborador o professor Adão José
Vital da Costa.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 534


divulgação de informações referentes aos projetos e ações realizados no âmbito
do LEAA, é potencializado com a criação, em 2007, de uma plataforma digital no
formato de website, também registrado como projeto de extensão permanente,
que pode ser visitado no endereço eletrônico [Link]

As origens do projeto
A primeira ação de extensão desenvolvida pelo LEAA foi referente à consul-
toria e assessoria externa no projeto de Extensão “Museu Etnográfico da Colônia
Maciel”, coordenado pelo professor Fabio Vergara Cerqueira, do Departamento de
História da UFPel. O Museu Etnográfico da Colônia Maciel está localizado na Vila
Maciel, 8º distrito do município de Pelotas, há aproximadamente 45 quilômetros
de seu centro urbano, no trajeto que segue através da rodovia BR 392 em direção
ao município de Canguçu. A ideia de criação do Museu surgiu entre os anos de
2000 e 2002, a partir de um projeto de pesquisa então desenvolvido no âmbito do
Laboratório de Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia da Universidade
Federal de Pelotas – LEPAARQ. Esse projeto teve por objetivo a investigação da
trajetória da imigração italiana em Pelotas, sendo que a escolha da Colônia Maciel
como núcleo central da pesquisa se pautou por dois critérios: é a colônia com mais
significativa presença italiana na região; apesar ter sido implantada pelo governo
imperial, jamais foi reconhecida como tal, motivo de forte descontentamento lo-
cal.
A partir do contato inicial – propiciado pelo projeto de pesquisa – com a comu-
nidade rural da Colônia Maciel, composta predominantemente por descendentes
de imigrantes italianos, foi possível identificar a intenção de constituir um espaço
destinado à preservação da memória de seus antepassados. A partir desta ideia
com o suporte técnico aportado pela Universidade, foi possível viabilizar a implan-
tação do Museu Etnográfico da Colônia Maciel.
No ano de 2004, um projeto de criação do Museu foi apresentado à Assembleia
do COREDE-Sul, para votação na Consulta Popular do Estado do Rio Grande do
Sul. O projeto foi aprovado, tendo sido um dos mais bem votados. Nesse proces-
so, a Prefeitura Municipal de Pelotas realizou a cedência do prédio que, a partir de
2005, acolheria o Museu. O prédio histórico da antiga Escola Garibaldi fora cons-
truído em 1928, para abrigar a primeira escola da Colônia Maciel. Foi assim que o
Museu Etnográfico da Colônia Maciel pode ser oficialmente inaugurado em junho
de 2006, mantendo-se funcionando, desde então, através de parceria entre a Pre-
feitura Municipal de Pelotas – a partir da participação da Escola Municipal de En-
sino Fundamental Garibaldi, da Secretaria Municipal de Educação e da Secretaria
Municipal de Cultura –, a Universidade Federal de Pelotas – representada pela Pró-
-reitoria de Extensão e Cultura, pelo Gabinete do Reitor e pelo LEAA – e o Instituto
de Memória e Patrimônio.
A cooperação interinstitucional, por um lado, e a intensificação da relação com
a comunidade da Colônia Maciel e com sua paróquia Sant’Anna, organização local
da Igreja Católica, possibilitando um círculo positivo de colaboração, viabilizou a
proposição, em 2004, do projeto de extensão de educação ambiental relacionada
à gestão do lixo na Colônia Maciel, conduzido pelo LEAA em parceria com o Insti-
tuto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense, o IFSul Pelotas2.
O projeto denominado Educação Ambiental e Gestão do Lixo no Espaço Rural
(EAGLER) foi financiado pelo Fundo Municipal do Meio Ambiente, da Prefeitura
2 Representado pelos professores Ana Paula de Araujo e Ricardo Costa.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 535
Municipal de Pelotas. Foram então realizadas diversas atividades educativas junto
à comunidade – oficinas de reciclagem de garrafas pet, oficinas de papel machê,
curso de educação ambiental, curso de compostagem de resíduos orgânicos, entre
outras –, envolvendo pais, alunos e professores da Escola Municipal Garibaldi (Fig.
1). Essa ação extensionista resultou na elaboração de material gráfico e didático,
utilizado em outras intervenções em escolas rurais do município, constituindo-se
em material educativo itinerante. A interface com a temática ambiental integra a
concepção museológica incluída no projeto, segundo a qual o patrimônio cultural,
material e imaterial, não pode ser tratado de forma dissociada do patrimônio na-
tural. Esse projeto ambiental foi concluído em dezembro de 2008, tendo tido sua
prestação de contas aprovada pelo Conselho Municipal do Meio Ambiente.

Figura 1 – Atividades Conectando ensino, pesquisa e extensão


de educação
ambiental na Escola Trilhar os caminhos da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão
Municipal Garibaldi, é tarefa que desafia a “reformar o pensamento”, tal como propõe Carvalho, ao
Colônia Maciel, apresentar a obra A cabeça bem-feita, de Edgar Morin (2014), sinalizando ações a
Pelotas/RS. serem perseguidas:
Fonte: Acervo LEAA.
O que a reforma do pensamento pretende é educar educadores de modo
mais sistêmico, isto é, gerar intelectuais polivalentes, abertos, capazes
de refletir sobre a cultura em sentido amplo. Para isso, torna-se urgen-
te encorajar professores de todos os níveis a religarem suas disciplinas,
assim como investirem em reformas curriculares que propiciem uma
reflexão como meta, pontos de vista que rejuntem natureza e cultura,
homem e cosmo, e edifiquem uma aprendizagem cidadã capaz de repor
a dignidade da condição humana (CARVALHO apud MORIN, 2014, s.p).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 536
No ano de 2006, teve início o projeto de extensão intitulado “Mostra Etnográ-
fica do RS: História e Gêneros de Vida”, que, em 2019, realizou sua sexta edição
(Fig. 2). O objetivo do projeto é suscitar a reflexão sobre o processo de organiza-
ção do espaço geográfico, com ênfase na formação territorial sob a perspectiva
social, cultural e econômica do Estado do Rio Grande do Sul. Ao abranger diversas
dimensões da territorialidade, busca-se oportunizar perceber a espacialidade de
distintas sociedades, tomando como ponto de partida a escala regional. Esse pro-
jeto vem sendo desenvolvido com a participação de discentes da disciplina Forma-
ção Territorial do Rio Grande do Sul, do curso de Geografia da UFPel, na forma de
exposição de banners, objetos, alimentos, vestuário, material bibliográfico, entre
outros.
A Mostra é aberta à visitação e participação da comunidade, com o intuito de
promover o encontro entre diversas áreas do conhecimento e o diálogo com a so-
ciedade, reconhecendo a importância das abordagens interdisciplinares na cons-
trução dos estudos sobre identidades territoriais.

Figura 2 – Atividades
do projeto de
A inserção em redes de pesquisa
extensão Mostra O LEAA ancora, desde sua criação, em 2001, o Grupo de Pesquisa Estudos
Etnográfica do RS: Agrários e Ambientais, registrado no diretório dos Grupos do CNPq, que se dedi-
história e gêneros de ca aos estudos sobre a heterogeneidade dos espaços rurais, buscando apreender,
vida.
por um lado, a diversidade na organização socioespacial da agricultura familiar e,
Fonte: Acervo LEAA. por outro, as dinâmicas e identidades territoriais.
Esse grupo de pesquisa se articula à Rede de Estudos Agrários – REA, uma rede
de pesquisa constituída em 2010 e que hoje reúne grupos de pesquisa no campo da

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 537
Geografia, sediados em diferentes instituições públicas do país, a saber: Núcleo de
Estudos Agrários (NEA/UNESP), Rio Claro/SP; Núcleo de Estudos e Pesquisa em
Geografia Rural (NEPGER/UNIMONTES), Montes Claros/MG; Grupo de Estudos
Regionais e Socioespaciais (GERES/UNIFAL), Alfenas/MG; e o Grupo de Estudos e
Pesquisa Sobre Alimentos e Manifestações Tradicionais (GRUPAM/UFS), Sergipe/
SE.
Tal Rede, que se organiza em encontros anuais e bianuais – foram já realizadas
cinco edições –, se agrega a partir de temas comuns, como multifuncionalidade,
estratégias de reprodução social e territorial, políticas públicas e desenvolvimento
rural, autoconsumo e mercantilização, tendo como objeto de estudo a agricultura
familiar e como categoria geográfica de análise a paisagem rural. É assim que tem
sido desenvolvido um projeto interinstitucional denominado “Multifuncionalidade
na organização do espaço pela agricultura familiar: abordagens comparativas nos
estados de MG, RS, SP e SE”, cujos resultados estão sistematizados nos livros Es-
tudos Agrários: a complexidade do rural contemporâneo (Editora UNESP/Cultura
Acadêmica, 2011); Agriculturas Familiares: estratégias de reprodução social e ter-
ritorial (Editora UFPel, 2014); Estudos Agrários: o desenvolvimento de pesquisas
no rural (Editora UNIMONTES, 2015); Faces da Agricultura Familiar na Diversidade
do Rural Brasileiro (Editora Appris, 2016).
O LEAA também abriga, desde 2009, o Grupo de Estudos e Pesquisas em
Alimentação, Consumo e Cultura – GEPAC (ver: [Link]
registrado no diretório dos Grupos do CNPq e dedicado a estudar as tendências
da alimentação contemporânea, particularmente no que se refere ao lugar dos
alimentos locais, artesanais, tradicionais e aos apelos de ruralidade, naturalidade
e saudabilidade nelas presentes (MENASCHE, 2018). Pesquisadoras e estudantes
vinculadas/os ao GEPAC participam de algumas redes de pesquisa, a partir das
quais se articulam as agendas de pesquisa do Grupo, a saber: Rede de Estudos
Rurais ([Link] Grupo de Estudos do Consumo ([Link]
[Link]/) e Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança
Alimentar e Nutricional ([Link]

Saberes e Sabores da Colônia: restituição da


pesquisa como extensão
Entre 2011 e 2017, a equipe multidisciplinar reunida em torno da agenda de pes-
quisa Saberes e Sabores da Colônia percorreu a Serra dos Tapes (Fig. 3), buscando
conhecer, especialmente a partir da observação das práticas alimentares, a com-
plexidade existente neste espaço rural e a cultura camponesa compartilhada por
famílias rurais de origens diversas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 538
Figura 3 – Ao longo do período, foi expressivo o número de estudantes que integraram a
Localidades em que equipe que realizou as iniciativas articuladas sob essa agenda de pesquisa. Foram
foram realizadas 16 graduandos/as – especialmente dos cursos de Antropologia e Geografia, mas
inserções de pesquisa
também Cinema, Gastronomia, Letras e Psicologia – e 14 pós-graduandos/as – em
no âmbito da agenda
de pesquisa Saberes e Desenvolvimento Rural, Ciências Sociais, Antropologia, Agronomia e Nutrição –
sabores da colônia. que tiveram nas atividades do projeto Saberes e Saberes da Colônia oportunidade
Fonte: Acervo LEAA. de interação com famílias rurais interlocutoras da pesquisa, de trabalho em equipe
multidisciplinar e de formação em pesquisa.
Receitas herdadas, pratos tradicionais, produtos e ingredientes locais, espécies
e variedades nativas, práticas da alimentação cotidianas ou rituais, utensílios e
objetos que conformam a cultura material relacionada à produção e consumo de
alimentos, mecanismos de sociabilidade em que acontece sua circulação e, ain-
da, espaços em que se realizam atos associados ao comer foram, no processo de
pesquisa, percebidos enquanto elementos que compõem sistemas culinários, cuja
diversidade expressa modos de vida e visões de mundo de grupos sociais específi-
cos, marcando pertencimentos e distinções identitárias.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 539
Figura 4 – No trabalho, desenvolvido em parceria com o Laboratório de Ensino, Pesquisa
Composição e Produção em Antropologia da Imagem e do Som – LEPPAIS/UFPel, coordena-
de fotografias
do pela professora Claudia Turra Magni, a produção de imagens foi tomada como
produzidas ao longo
do processo de constitutiva da pesquisa etnográfica realizada junto a distintos grupos e localida-
pesquisa. des rurais (ver Fig. 4). Assim, além de resultar em trabalhos de conclusão de curso
Fonte: Acervo
de graduação, dissertações de mestrado, teses de doutorados, artigos e em um
GEPAC. livro (MENASCHE, 2015 – ver Fig. 5)3, esse processo de pesquisa gerou um conjun-
to de produtos imagéticos4.

3 O conjunto desta produção bibliográfica está disponibilizado no site do GEPAC ([Link]


gepac/).
4 O desenvolvimento dos produtos imagéticos aqui referidos deu-se em parceria com o artista plástico
Mauro Bruschi.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 540
Figura 5 – Imagem Foram produzidos onze vídeo-documentários, que compõem a Série Saberes e
da capa do livro, Sabores da Colônia (MENASCHE et al., 2015b), listados a seguir:
representativa da • Carneação de porco
identidade visual da
agenda Saberes e • Família Camelato, do vinho e do suco
Sabores da Colônia. • Festa da Comunidade Catótica de São Miguel
Fonte: Acervo
• Festa na colônia, festa de Sant`Ana
GEPAC. • Memórias negras sobre alimentação
• Oficinas sobre hábitos alimentares: trocas de saberes
• Pão na Pedra
• Peito de ganso defumado
• Schimia de melancia de porco
• Schmier de melancia de porco
• Terno de Reis
Além de prestarem-se ao registro de saberes e práticas, alguns desses vídeo-
-documentários foram concebidos como recurso para restituição da pesquisa aos
interlocutores/as. A título de exemplo, é o caso do vídeo Festa na colônia, festa
de Sant`Ana, realizado por Carmen Janaina Machado (2015) – hoje Doutora em
Desenvolvimento Rural pela UFRGS – durante o processo de sua pesquisa para o
Trabalho de Conclusão no curso de Licenciatura em Geografia. Vejamos, a seguir,
como a autora relata a observação das reações de seus interlocutores/as quando,
em uma tarde em que se dedicavam aos preparativos de outra festa, também na
Colônia Maciel, Pelotas, lhes foi exibida uma primeira versão do vídeo.
Assim que iniciou a primeira projeção, os homens, que estavam de cos-
tas para a tela, fazendo a refeição, inclinaram o corpo de forma a assistir
ao vídeo no salão. Enquanto isso, do outro lado do balcão, as mulheres,
na cozinha, onde realizavam diferentes tarefas, dividiam o olhar entre
as panelas e o telão. À medida em que os interlocutores apareciam no
filme, os demais homens sorriam e comentavam sobre a desenvoltura
daquele que protagonizava a cena. Assim, entre fatias de pão e xícaras
de café, conversas, risos e gestos expressivos, eram instigados pelas
imagens. Seu Deomar, sentado à ponta da mesa, assistindo ao vídeo em

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 541
silêncio, abre um sorriso no momento em que se vê no telão, comentan-
do algo baixinho com o senhor sentado ao seu lado. Elda, que trabalha-
va no espaço da cozinha, fica atenta ao ver-se nas imagens, parecendo
emocionada. Os homens, na maior parte do tempo, assistiram ao vídeo
em silêncio, com conversas paralelas em tom baixo. Ao final, todos le-
vantaram e aplaudiram, e Emanuele, que conduz toda narração do filme
de forma muito articulada, faz um agradecimento à pesquisadora em
nome da comunidade. Quando os homens seguiram para suas tarefas,
foi a vez das mulheres tomarem seu café e assistirem à projeção.

Da mesma forma que os homens, as mulheres, sentadas de costas para


a tela, se organizaram de forma a assistir ao vídeo e alimentar-se. Ao
contrário dos homens, elas falavam alto, dando risada e comentando
as participações de quem aparecia no vídeo, gesticulando e apontan-
do para a tela. Uma delas comenta como “a Lourdes aparece bastante”.
Esta, ao lado, sorria, assistindo o filme em pé, enquanto repunha os ali-
mentos que faltavam na mesa. Sentou-se somente quando apareceu,
com seu esposo, nas imagens do telão. As mulheres comentaram que as
imagens não eram de uma única festa. Ao final do vídeo, enquanto al-
gumas retornaram à cozinha, para retomar o trabalho, assistindo de lá,
outras permaneceram sentadas, mesmo após terminar a refeição. Elda
sorria ao comentar sua fala no vídeo com outras, parecendo avaliar sua
performance. (PINHEIRO et al, 2015, p. 28-29)

Nesse, como em outros casos de atividades de restituição da pesquisa no âmbi-


to da agenda Saberes e Sabores da Colônia, pode-se observar o potencial do uso da
imagem na comunicação com as comunidades estudadas, muito além do alcance
da produção escrita.
Foi também produzido um CD-ROM interativo, contendo, além de pequenos
textos e clipes dos vídeos antes mencionados, registros fotográficos apresentan-
do paisagens da região estudada; localidades e suas festas; escolas e famílias ru-
rais participantes da pesquisa; cozinhas, comidas e processos de elaboração de
produtos alimentares artesanais e tradicionais (saber-fazer); contextos e espaços
de consumo desses alimentos (feiras, restaurantes rurais, roteiros turísticos na co-
lônia).
Algumas das receitas coletadas durante o processo de pesquisa foram com-
piladas em um livreto, que, juntamente com o CD-ROM interativo, compôs o kit
oferecido às famílias rurais interlocutoras da pesquisa (MENASCHE et al, 2015c).
Cabe comentar que o livreto de receitas foi especialmente bem acolhido, trazen-
do reconhecimento e trocas, na medida em que propiciou a circulação de receitas
entre as várias colônias estudadas.
Uma versão ampliada do kit (Fig. 6), que incluía um CD-ROM contendo os dez
primeiros vídeos produzidos (MENASCHE et al, 2015a), foi destinada a escolas ru-
rais, organizações de agricultores e instituições da região, assim como às redes
acadêmicas em que integrantes da equipe de pesquisa estão inseridas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 542
Figura 6 – Imagens Ainda, entre os produtos imagéticos produzidos encontra-se uma exposição de
de uma das páginas dez painéis em banners, que abordam os principais temas da pesquisa, com pe-
do livreto de
quenos textos, fotografias e, em destaque, uma imagem fotográfica com efeito
receitas, do CD-ROM
contendo os vídeo- pictórico (Fig. 7).
documentários e do O conjunto dos painéis em banners foi – e ainda tem sido – exposto em locais
CD-ROM interativo. públicos nas localidades estudadas, na Universidade e em eventos – como a Feira
Fonte: Acervo do Livro e a Semana do Patrimônio – na cidade de Pelotas. E uma versão portátil
GEPAC. desses painéis foi confeccionada para uso em palestras e em atividades de restitui-
ção da pesquisa (ver Fig. 8).

Figura 7 – Imagens
de dois dos painéis
produzidos.
Fonte: Acervo
GEPAC.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 543
Figura 8 – Mini- As atividades de restituição da pesquisa em escolas rurais da região foram
painéis utilizados propostas e realizadas a partir da constatação de que a entrega dos produtos às
em atividade de
restituição da famílias rurais interlocutoras não se constituía, em muitos casos, especialmente
pesquisa em escola naqueles em que elas não dispunham de equipamentos que possibilitassem visu-
rural da região. alizá-los, em restituição efetiva da pesquisa. Foi então que passamos a propor às
Fonte: Acervo escolas a realização de sessões que reunissem estudantes e professoras/es do tur-
GEPAC. no e para a qual eram convidados/as interlocutores/as da pesquisa moradores/as
das proximidades.
Nesses encontros, a equipe apresentava o CD-ROM interativo, convidando es-
tudantes e comunidade em geral a seu uso, dado a escola dispor de um exemplar
em sua biblioteca. Também eram exibidos alguns dos vídeo-documentários. Os
encontros também se constituíam em ocasião em que era proporcionada aos es-
tudantes a escuta de depoimentos de interlocutores/as da pesquisa presentes, em
interação com o material imagético apresentado.
A recepção do material imagético apresentado nessas atividades foi bastante
positiva, evidenciando um processo de valorização de saberes e práticas associa-
dos à cultura alimentar local. As reações eram permeadas de afetos e memórias,
de muitas/os crianças e jovens escutamos contar de sua identificação com algo
que era mostrado: “eu sei fazer, ajudo meu avô”, “isso é gostoso!”, “minha mãe faz
desse jeito”.
Entendendo, com Gonçalves (2005, p.19), que “os objetos que compõem um
patrimônio precisam encontrar ‘ressonância’ junto a seu público”, tomamos o sen-
tido das reações despertadas junto à comunidade diante do material imagético
apresentado como componente de uma estratégia possível para salvaguarda de
seu patrimônio alimentar. E, buscando contribuir para isso de modo mais efetivo,
investimos na conformação de um banco de dados aberto, na forma de sítio da
internet, disponível no seguinte sítio: [Link]
colonia/ (Fig. 9).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 544
Figura 9 – Imagem
do sítio da internet
Saberes e Sabores da
Colônia, evidenciando
os diferentes tipos de
produtos imagéticos
disponibilizados.
Fonte: Acervo
GEPAC.

Nesse sítio da internet são disponibilizadas a quaisquer pessoas interessadas


as produções escritas e imagéticas elaboradas no âmbito da agenda de pesquisa
Saberes e Sabores da Colônia.
No que diz respeito às imagens, os vídeo-documentários antes comentados
estão agora organizados em uma videoteca. Doze ensaios fotográficos foram ela-
borados (ver Fig. 10) e novas fotos se somaram ao acervo que já havia sido produ-
zido na organização de uma fototeca, sistematizada a partir dos seguintes temas:
Caminhos, paragens e paisagens; Lugares de morada, fazeres da terra; Universo
da cozinha; Fazeres culinários; Alimentar a cidade, consumir o rural; A universi-
dade em campo. Por último, em “Grafias”, estão disponibilizadas fotos de panos
de parede, cadernos de receitas e desenhos de crianças resultantes de trabalho
realizado em escolas rurais.

Figura 10 – Imagem
do sítio da internet
Saberes e Sabores da
Colônia, evidenciando
os ensaios
fotográficos.
Fonte: Acervo
GEPAC.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 545
Esse sítio da internet deverá ser apropriado mais intensamente pelas comu-
nidades estudadas, o que temos iniciado a fazer a partir de novas ações junto a
escolas rurais, em que deverão ser envolvidos/as novos/as estudantes... que po-
derão, em contato com as famílias rurais, encontrar novos temas e contextos de
pesquisa... vínculos e engajamentos que se renovam. E assim seguimos...

Referências
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liar na diversidade do rural brasileiro. Curitiba: Ed. Appris, 2016.

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FONSECA, Ana Ivania Alves; SILVA, Cássio Alexandre da; COSTA, Silviane Gaspa-
rino (Org.). Estudos agrários: o desenvolvimento de pesquisas no rural. Montes
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GONÇALVES, José Reginaldo Santos. Ressonância, materialidade e subjetivida-


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e Sabores da Colônia: série de vídeos. Vídeo. Pelotas, RS, 2015b. Disponível em:
[Link] Acesso em:
20 out 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 546
MENASCHE, Renata; TURRA-MAGNI, Claudia; BRUSCHI, Mauro (Org.). Saberes
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SALAMONI, Giancarla; COSTA, Adão José Vital da. (Org.). Agriculturas familia-
res: estratégias de reprodução social e territorial. Pelotas: Ed. UFPel, 2014.

SOBRE AS AUTORAS
Renata Menasche, doutora em An-
tropologia pela UFRGS. Professora
Associada do Departamento de Antro-
pologia e Arqueologia da UFPel. Coor-
denadora-Adjunta do LEAA. E-mail:
[Link]@[Link]

Giancarla Salamoni, graduada em


Geografia pela UFSM, Doutora em Ge-
ografia pela UNESP Rio Claro. Professo-
ra Titular do Departamento de Geogra-
fia da UFPel. Coordenadora do LEAA.
E-mail: [Link]@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº1 547
INSETOS E SEMENTES
QUAL A RELAÇÃO?

Vera Lucia Bobrowski


Beatriz Helena Gomes Rocha
Paulo Romeu Gonçalves
Gustavo Medina Tavares
Aldo Girardi Pozzebon

Apresentação
Vida de Inseto é um projeto de extensão desenvolvido por docentes do Depar-
tamento de Ecologia, Zoologia e Genética (DEZG) do Instituto de Biologia (IB), do
Centro de Ciências Químicas, Farmacêuticas e de Alimentos (CCQFA) e do curso
de Biotecnologia do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDTEC) da Univer-
sidade Federal de Pelotas (UFPel), inscrito primeiramente no SIEX (nº 52905023) e
posteriormente no COBALTO (nº 134). O projeto iniciou em 2013, por iniciativa de
um grupo de alunos do Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas que buscava
estreitar os laços com a comunidade no sentido de compartilhamento de conhe-
cimentos e saberes que efetivassem e consolidassem o papel da Universidade, de
forma a contribuir para a transformação social e também para uma formação uni-
versitária, em que a teoria se transformasse em ações. O objetivo inicial era levar
o ensino de insetos e a divulgação científica para além dos muros da Universidade,
desenvolvendo diferentes modelos pedagógicos e metodologias ativas. Ao longo
destes seis anos de atividades ininterruptas do projeto, inúmeros alunos fizeram
parte do grupo de extensionistas como colaboradores e bolsistas imprimindo suas
marcas e levando consigo o espírito da extensão universitária.
Ao mesmo tempo, novas demandas foram surgindo o que nos levou a cadastrar
um novo projeto, em 2016, com ações extensionistas e de produção de material
didático o GETEC (Grupo de Estudos e Trabalhos em Ensino de Ciências), do qual
MEIO AMBIENTE Nº2

o Sementário tem sido a principal ação. A abordagem deste novo projeto de ex-
tensão soma-se ao Vida de Inseto por valorizar o conhecimento científico sobre
a importância das sementes, a relação inseto/planta, tanto para produção como
para conservação de sementes, a amplitude da biodiversidade, resgatando aspec-
tos sociais, culturais e ambientais.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 548


A escolha da temática
Estes dois projetos de extensão focados nos insetos e nas sementes trazem
temas amplos, mas também não deixam de estarem próximos ao cotidiano das
pessoas. Por se tratarem de coleções biológicas didáticas (caixa entomológica e
sementário), estas são amostras da biodiversidade e registram informações como
variações genéticas e morfológicas, distribuição geográfica, local de coleta e tam-
bém uma história por trás de cada material colecionado.
Devemos considerar que a classe Insecta apresenta milhões de espécies descri-
tas, classificadas em 30 ordens, sendo que destas 27 ocorrem no Brasil (ARAÚJO
et al., 2019). Além de sobressaírem-se por sua enorme riqueza, são estritamente
importantes por estarem relacionados a diversos serviços ecológicos, como cicla-
gem de nutrientes, polinização, dispersão de sementes, fonte de alimento para
inúmeras espécies animais, entre outras (HERMOGENES et al., 2016, ARAÚJO
et al., 2017). Embora a presença desses animais seja comum em nosso cotidiano,
grande parte de sua diversidade morfológica e funcional passa despercebida.
A temática “insetos” foi escolhida devido à facilidade que esse grupo apresenta
em relação à coleta e identificação, e também pela sua ampla variedade de for-
mas, cores e tamanhos, sendo assim, um material prático e atrativo para o ensino
(MATOS et al., 2009). São animais facilmente associados ao dia a dia dos alunos
e, por esse motivo, despertam a atenção e estimulam a curiosidade. Apesar da
importância ecológica, econômica e social dos insetos, eles ainda são mais conhe-
cidos pelos danos e prejuízos do que pelos benefícios que podem gerar para a co-
munidade, muitas vezes causando repulsa (COSTA-NETO; PACHECO, 2004; AMA-
RAL; MEDEIROS, 2015). Devido à dimensão desta classe, torna-se fundamental
trabalhar esse assunto inserindo conceitos científicos e também desmistificando
conhecimentos populares (AMARAL et al., 2016).
O nome do projeto é uma homenagem ao filme Vida de Inseto (Bug’s Life®,
Pixar-Disney, 1998) - com o qual a partir de pequenos frames e gifs trabalham-se
os erros que o filme apresenta quanto à construção dos personagens e a classifi-
cação dos mesmos, nas improbabilidades ecológicas e também nos acertos como
curiosidades comportamentais, fisiológicas e mimetismo. Esse tipo de metodolo-
gia pode ser expandido para outras produções cinematográficas e assim abranger
outros grupos de seres vivos.
Durante os três primeiros anos de execução do Vida de Inseto, sempre ressal-
tou-se a importância dos insetos para a polinização, isto é, como a preservação
dos diferentes polinizadores é imprescindível para nossa sobrevivência, pois inter-
fere diretamente na dispersão de pólen e na produção de sementes de muitas es-
pécies. Assim, em 2016 surgiu a ideia da criação do sementário, através do projeto
GETEC, para igualmente mostrar as variabilidades genética e morfológica, iden-
tificar a espécie vegetal e a sua semente através do portfólio e ressaltar a relação
inseto/ planta e a importância dos polinizadores (Fig. 1).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 549
Figura 1 – Coleções
biológicas utilizadas
nos projetos: A -
caixa entomológica;
B - sementário e
portfólio. 2019.
Fonte: Autores.

A B

A dualidade ensino e extensão - o fazer na prática


Ambos os projetos tiveram como objetivo inicial contribuir com o ensino de Ci-
ências, através de cursos de formação continuada para professores do Ensino Bá-
sico, auxiliando-os no desenvolvimento de diferentes modelos pedagógicos com
os insetos e/ou as sementes como temas centrais. Conforme as ações dos projetos
foram sendo desenvolvidas pode-se observar o interesse de outros públicos, como
alunos dos diferentes níveis de escolaridade, da educação infantil ao ensino médio
e educação de jovens e adultos, e comunidade em geral, tanto da área rural quan-
to da urbana.
A utilização de modelos didáticos em aulas práticas no ensino de Ciências e
de Biologia (dos anos iniciais ao ensino médio) tem se mostrado como uma im-
portante ferramenta, fugindo assim, de um padrão de ensino passivo tradicional
em relação às Ciências Naturais, tendo em vista de que com esse recurso, o alu-
no passa a ter papel fundamental e ativo no seu aprendizado (SILVA; PEIXOTO,
2003). A grande diversidade em relação a cores, formatos e atributos tornam tanto
a caixa entomológica como o sementário potenciais modelos didáticos (GUIMA-
RÃES-BRASIL et al., 2017, POZZEBON et al., 2018). As suas utilizações possibili-
tam inúmeras abordagens de temas da área de Ciências Biológicas como questões
evolutivas, ecológicas, genéticas, fisiológicas e botânicas além das já salientadas
anteriormente (Fig. 1).
Cada membro ingressante nos projetos, voluntário ou bolsista, ao iniciar as ati-
vidades agrega conhecimento e recicla os objetivos. Em 2015, com a entrada de
um novo grupo de discentes no projeto Vida de Inseto, foram acrescentadas ações
que incluíram a educação infantil. Por meio de propostas lúdicas como criação de
estórias, músicas sobre insetos, teatro e dedoches e assim, professores e alunos
interligaram o lúdico e o conhecimento científico (Fig. 2). A ciência dentro da edu-
cação infantil deve apresentar um enfoque diferenciado quando comparado a ou-
tros níveis de escolaridade, visto que a criança está iniciando a vida escolar e seu
desenvolvimento como ser humano. A ludicidade vem ao encontro com esta fase
da vida, em que o brincar passa a ser instrumento do aprender. Como descreve
Vasconcelos (2005), “(...) o brincar constitui-se numa forma de linguagem que a
criança usa para compreender seu ambiente”. Pensando neste contexto procurou-
-se desenvolver atividades lúdicas que realmente pudessem ser aplicadas pelos
docentes em suas salas de aula.
A caixa entomológica é utilizada em todos os eventos, sendo organizada de
diferentes formas conforme o evento e o assunto a ser abordado, por exemplo,
diversidade, polinizadores, transmissores de doenças, ciclos de vida, entre outros.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 550
A confecção inicial do insetário ocorreu a partir de doações feitas pela equipe téc-
nica do Museu Entomológico Ceslau Biezanko do Departamento de Fitossanidade
da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, doações de professores do Instituto de
Biologia e de alunos das Ciências Biológicas e Agronomia.

Figura 2 – Recursos
didáticos utilizados
na educação infantil.
A - Fantasias
utilizadas na
contação de estórias.
B - Confeccção de
dedoches. 2019.
Fonte: Autores.

AA BB

A metodologia utilizada pelo projeto nas suas ações mescla diferentes momen-
tos conforme a demanda solicitada, a qual se divide em seis momentos, tendo
uma abordagem tanto prática quanto teórica. Quando são oficinas, primeiramen-
te, os participantes trabalham como “biólogos leigos”, usando apenas seus conhe-
cimentos prévios para classificar e diferenciar alguns insetos (mosca, abelha, bor-
boleta, grilo, formiga, besouro etc.) de outros artrópodes (carrapato, aranha, es-
corpião, centopeia, tatuzinho-de-jardim piolho-de-cobra, etc.) baseando-se na
aparência. Essa prática é feita expondo modelos biológicos conservados tanto em
álcool 70% quanto na caixa entomológica. Os animais utilizados são de conheci-
mento popular e tem seus nomes expostos na sua forma comum. Os participantes
demonstram seus conhecimentos sobre o que acham ser insetos e respondem ou-
tras perguntas relacionadas à nomenclatura popular, periculosidade dos insetos e
se eles fornecem mais benefícios ou malefícios aos seres humanos e ao meio am-
biente.
Quando se trata de formação de professores a segunda parte é basicamente
teórica, porém não visando à transferência de conteúdo e sim a promoção de co-
nhecimentos significativos contextualizando os assuntos e utilizando os conheci-
mentos dos próprios participantes para introduzir uma nova informação. Sendo
assim, nessa parte utiliza-se uma aula expositiva dialogada sobre as caracterís-
ticas morfológicas gerais da classe Insecta, seu surgimento baseado no registro
fóssil, sua diversidade biológica comparada com outros seres vivos e também
dentro do próprio grupo, as possíveis razões para terem tido um sucesso evoluti-
vo - dentre elas; adaptações aos diferentes meios, características corporais e até
fisiológicas, tamanho, asas e voo, coevolução com plantas, desenvolvimentos di-
ferenciais, adaptações aos diferentes tipos de alimentação e também para defesa
(camuflagem, mimetismo, peçonha etc.) e uma parte especial relativa aos insetos
sociais - e terminando com um apanhado geral da importância ecológica, médica,
forense e econômica dos insetos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 551
A terceira parte enfoca as metodologias alternativas para o ensino de Ciências,
utilizando, por exemplo, filmes infantis e modelos didáticos. Esta metodologia é
utilizada tanto em formação de professores quanto em oficinas para estudantes
do Ensino Básico. Através de pequenos cortes no filme Vida de Inseto (Bug’s Life®,
Pixar-Disney, 1998) trabalham-se os erros que o filme apresenta quanto à constru-
ção dos personagens e na classificação dos mesmos, nas improbabilidades ecoló-
gicas e também nos acertos como curiosidades comportamentais, fisiológicas e
mimetismo. Esse tipo de metodologia pode ser expandido para outras produções
cinematográficas e grupos de seres. A construção de modelos didáticos em papel
cartona é outra opção metodológica proposta. Nessa prática, as ciências se com-
binam com as artes e com a matemática tornando-se interdisciplinar, nela os alu-
nos podem construir os modelos e pintar em diferentes cores as distintas partes
do inseto, bem como a inserção dos apêndices nas posições corretas.
A quarta etapa volta a transformar os participantes em taxonomistas, porém
agora tendo eles se apropriado do conhecimento sobre as características que
identificam um inseto. Através de um questionário similar ao primeiro, eles no-
vamente analisam os mesmos espécimes e colocam em prática o conhecimento
adquirido. Essa técnica visa contrastar o conhecimento popular (da primeira parte)
com o conhecimento científico (mais rigoroso) fazendo com que busquem as ca-
racterísticas gerais do grupo Insecta nos espécimes expostos.
Na quinta parte a caixa entomológica é finalmente exposta. Apresenta-se como
é possível a construção de uma coleção entomológica de duas formas: o docente
fazendo ela com os alunos a partir de coletas e também de doações de museus ou
da universidade (firmando a interação universidade-escola) ou totalmente através
de doações, se o docente não dispuser de tempo para a prática. Esta metodologia
é também muito utilizada em mostras e exposições.
Como fechamento da atividade é feita a correção de qualquer conceito que te-
nha ficado dúbio ou de alguma forma equivocado através de uma roda de conver-
sa. Assim, apontam-se as características dos outros artrópodes definindo os gru-
pos aos quais eles pertencem.
Nas oficinas oferecidas para professores da educação infantil a principal ativi-
dade executada eram as estórias sobre a vida dos insetos, elaboradas pelo grupo.
Ao término da contação das estórias para alunos e professores, os participantes
dos eventos eram convidados a escrever suas próprias estórias utilizando concei-
tos científicos de forma correta e apropriada para faixa etária dos seus alunos e as
suas realidades.
Para complementar as estórias, eram utilizadas músicas e dedoches, tornando
a apresentação mais dinâmica. As músicas foram elaboradas pelo grupo do pro-
jeto, com melodias conhecidas pelas crianças e professores, como “atirei o pau
no gato” e “pirulito que bate-bate”. Para auxiliar no canto foi utilizado um violão.
Os dedoches foram confeccionados pelos professores durante a oficina, utilizando
E.V.A. (Ethylene Vinyl Acetate), tesouras, cola quente e canetinhas, por serem de
custo acessível e fácil manuseio.
Para a execução das ações do projeto Sementário, a metodologia adotada nos
eventos tem sido a expositiva dialogada. A coleção de sementes é constituída por
exemplares de espécies cultivadas, silvestres, frutíferas, medicinais e florestais,
processadas, acondicionadas em tubetes com tampa plástica, identificados e or-
ganizados em expositores. Esse acervo diversificado está representado por mais
de 90 tipos diferentes de sementes, sendo mantido no Laboratório de Genética
(LabGen) do Departamento de Ecologia, Zoologia e Genética (DEZG) do Instituto

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 552
de Biologia (IB). As sementes são oriundas de doações de pesquisadores melho-
ristas da Embrapa Clima Temperado, de professores e de acadêmicos da Uni-
versidade Federal de Pelotas, e de aquisições no comércio local. Para auxiliar na
contextualização das temáticas foram confeccionados banners que possibilitam
abordar: tipos e morfologia de sementes; variabilidade intraespecífica; modos
de dispersão; aspectos socioculturais, nutricionais e ecológicos (interação inseto/
planta), sendo para esta última usada uma caixa entomológica para exemplificar
a entomofilia (Fig. 3).
As oficinas e as mostras interativas são ajustadas em função do público alvo,
pois são realizadas com professores em formação continuada e em eventos cien-
tíficos com participação de alunos dos diferentes níveis da educação básica e/ou
da comunidade em geral, sendo, portanto, necessárias adaptações nas etapas a
serem ministradas, tanto na linguagem adotada quanto na profundidade do co-
nhecimento científico e na metodologia de abordagem. Outro aspecto conside-
rado é a execução das ações, se individualizadas ou conjuntamente com o projeto
Vida de Inseto.

A B C

Figura 3 – Recursos A partir de 2016, associaram-se aos projetos alunos dos cursos da Agronomia,
didáticos utilizados Bacharelado em Ciências Biológicas, Veterinária, Nutrição, Química e Biotecnolo-
nas apresentações do gia, além dos alunos de Licenciatura em Ciências Biológicas já participantes do
projeto Sementário/
GETEC.
projeto Vida de Inseto, o que veio a contribuir de forma decisiva para agregar no-
vos saberes.
A- Apresentação
expositiva
A participação dos alunos dos diferentes cursos acrescentou aos projetos uma
dialogada. B- caixa visão prática, intercâmbio de novas ideias, planos e estratégias, trazendo o conhe-
entomológica cimento teórico adquirido na universidade quanto aos benefícios e malefícios que
e sementário. os insetos poderiam causar aos seres humanos, aos animais e as plantas cultivadas
C-Banner. 2019. relacionando a importância ecológica, médica, forense e econômica dos insetos.
Fonte: Autores. Quanto às sementes, os alunos resgataram conhecimentos como a importância
para alimentação humana e animal (valor nutricional, medicinal, condimentar,
etc.), composição química, aspectos ecológicos, sociais, culturais e econômicos,
centros de origens e as novas tecnologias associadas a estes conhecimentos, in-
formando através de oficinas, mostras, palestras ou rodas de conversa, tanto a
comunidade escolar quanto ao público em geral (Fig. 4).
Além da interdisciplinaridade, o ganho da interação entre acadêmicos de di-
ferentes cursos leva ao crescimento individual, pois os processos de ensino e de
aprendizagem na extensão não se resumem a ações individualizadas, de conheci-
mento fragmentado, mas faz convergirem emoções, afetos mútuos, a prática da
tolerância e do trabalho em equipe, enriquecimento recíproco, a improvisação ali-
cerçada no conhecimento teórico, ou seja, pressupõe vários atores que confluem
para um objetivo comum: uma formação profissional ética e cidadã.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 553
A B

C D

Figura 4 – Como destaca Philippi-Jr (2011 apud Del-Masso et al., 2017, p.2) a interdiscipli-
Diferentes formas naridade é
de apresentação
dos projetos: A- [...] um processo que exige mudanças na modalidade de produção do
Palestras; B- Mostras conhecimento, implicando transformações individuais e institucionais.
interativas; C-
Ela se concretiza por meio de práticas que se diversificam, dependendo
exposição no Museu
de Ciências Naturais de escolhas científicas, objetos de pesquisa, problemas tratados e con-
Carlos Ritter; D- dições institucionais locais, respeitando-se, contudo, princípios comuns.
Eventos científicos.
Fonte: Autores.
A formação extensionista dos alunos
colaboradores do projeto
A universidade desde seu princípio foi um órgão responsável pelo conhecimen-
to científico, pelo desenvolvimento e inovação da ciência. Mas, muito além disso,
envolvida com a comunidade, a qual é a geradora dos questionamentos a serem
estudados e descobertos. Os trabalhos de ensino, pesquisa e extensão se comple-
mentam, de forma essencial, mas se fortalecem pela extensão, que proporciona o
diálogo com a sociedade, partilhando os saberes, envolvendo discentes, docentes
e a comunidade em geral neste fluxo de conhecimento (BOBROWSKI et al., 2016).
A relação entre o ensino e a extensão conduz a uma experiência que envolve os
alunos e propõe a educação junto à sociedade. “Nesse sentido, a relação entre o en-
sino e a extensão conduz a mudanças no processo pedagógico, na medida em que
ambos constituem-se em sujeitos do mesmo ato: aprender” (BRASIL, 2006, p.23).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 554
É perceptível a importância do papel que as universidades têm em disseminar
o conhecimento científico produzido pela pesquisa e compartilhado com o ensino,
tornando a ciência algo mais próximo da comunidade. Uma maneira de aproximar
a população desses conhecimentos é através de atividades de extensão.
A extensão corresponde à ponte de mão dupla, que interliga universidade e so-
ciedade, por onde flui o conhecimento obtido através do ensino. A extensão ne-
cessita da pesquisa para diagnosticar e solucionar problemas, buscando sempre
a atualização. A pesquisa depende do ensino e da extensão na busca pela amplia-
ção do seu universo de atuação, para novas descobertas, para difundir e aplicar
o conhecimento produzido, bem como para conduzir aos novos rumos do saber
científico.
De acordo com Santos, Rocha e Passaglio (2016, p.25)
Neste movimento de integração em que estão imersas a universidade e
a comunidade, o aluno atuante se depara com um grande número de ta-
refas novas e de situações que lhe cobram condutas de responsabilidade
e autonomia no processo de formação profissional. A extensão aparece
então como mecanismo que leva o aluno a participar e a buscar ações e
soluções para o contexto social e, diante deste contexto, atuar, experi-
mentar, conhecer e conviver de forma cívica e responsável.

Na maioria das ações houve a participação da comunidade escolar no planeja-


mento das atividades, o que é imprescindível para nortear a escolha e a forma de
desenvolvimento das temáticas a serem abordadas, bem como nas correções de
rumo para o aprimoramento dos projetos após a execução das ações extensionis-
tas.
Conforme relatos dos alunos extensionistas colaboradores do Vida de Inseto e
do Sementário, as atividades de extensão permitiram além do desenvolvimento
da capacidade de comunicação e oratória, o aprofundamento do conhecimento
sobre os assuntos abordados durante as oficinas. Também permitiu uma melhor
interação com o público, pois o mesmo engloba diferentes faixas etárias e escola-
ridade necessitando sempre de adequação da linguagem científica a ser utilizada.
As atividades de extensão auxiliam os estudantes participantes na ampliação
da visão sobre a realidade sociocultural das diferentes comunidades visitadas, fato
esse evidenciado no relatório de um dos bolsista de extensão da nossa equipe:
“Temos que ter a consciência que sempre iremos aprender, que extensão é realmente
uma via de conhecimento de mão dupla”.
Neste sentido, um dos discentes colaboradores em sua reflexão salienta que
o princípio da indissociabilidade das atividades de ensino, pesquisa e extensão é
fundamental no fazer acadêmico: “As atividades de extensão são para mim, um
contato direto entre o meio acadêmico ao qual pertenço e a comunidade como um
todo. Através dos projetos de extensão que participei pude perceber a importância da
Universidade não só de formar profissionais, mas também de auxiliar a comunidade
como um todo. Pude perceber qual é o verdadeiro papel do cientista dentro da Univer-
sidade e fora dela também”.
Os acadêmicos puderam perceber que a extensão possibilita mais do que a for-
mação de profissionais, mas uma formação para o exercício da cidadania, como
descreve outro bolsista “Através das atividades de extensão eu como aluno pude
ter mais contato com minha profissão na prática, me deixando cada vez mais moti-
vado nas aulas e nos meus estudos, agindo de diferentes maneiras com um progres-
so na minha formação acadêmica como estar mais pronto para desafios aprender a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 555
improvisar e lidar com as pessoas e público trabalhar em grupo e sempre estar dis-
posto a aprender com todos”.
Corroborando com o relato de Santos, Rocha e Passaglio (2016), sobre o mo-
vimento de integração em que estão imersas a universidade e a comunidade, o
aluno atuante se depara com um grande número de tarefas novas e de situações
que lhe cobram condutas de responsabilidade e autonomia no processo de forma-
ção profissional. A acadêmica extensionista entrevistada assinala “As atividades de
extensão contribuíram para que minha formação fosse realmente completa. Poder
estar levando conhecimento e informação para além da Universidade foi uma expe-
riência muito gratificante, que permitiu a mim ampliar a visão de mundo e também
me possibilitou diversas vivências que agregaram muito em minha formação. E essa
participação nos projetos continua refletindo até hoje, pois no meu emprego atual foi
apontado como algo positivo”.
Da mesma forma, outra participante do projeto reforça a importância da ex-
tensão na autonomia e responsabilidade no processo de formação profissional. A
fala da entrevistada demarca “Para mim foi muito importante, pois me possibilitou
um vasto conhecimento e aprendizado tanto como extensionista (descobrindo curio-
sidades e características bem legais dos insetos), quanto com a troca de experiências
com a comunidade. Também na vida pessoal, onde aprendi a falar melhor em público,
bem como trabalhar em equipe, além de desenvolver novas habilidades para lidar
com diferentes públicos”.
A relação entre teoria e prática, a democratização do saber acadêmico e o re-
torno desse saber à universidade, testado e reelaborado, só poderá ser pleno pela
articulação entre os três pilares da universidade (ensino, pesquisa e extensão). Isto
é: quanto mais integradas estiverem estas ações, mais integralmente se estará
formando o profissional para o mundo do trabalho, como aponta o entrevistado:
“A extensão é o que faz eu ver o real motivo por eu estudar. Estudo em universidade
pública com dinheiro de impostos da comunidade, e acho que é essencial pra todos
os acadêmicos que levem seus trabalhos pra comunidade como forma de retorno em
tudo que está sendo investido”. Ou ainda na fala de outro colaborador do projeto:
“As atividades de extensão foram a parte mais importante da minha vida acadêmica.
Através delas eu consegui integrar meus conhecimentos adquiridos com a sociedade,
tendo uma visão ampla do poder que o conhecimento nos dá em mudar a realidade
em nossa volta. Aprendi muito com a extensão e considero ela essencial para que o
aluno saia da faculdade plenamente capaz”.
Há uma preocupação crescente no meio acadêmico com a formação do pro-
fissional das diferentes áreas do conhecimento, configurando, cada vez mais, a
necessidade de mudanças, tanto no campo profissional, como também nos políti-
co e social. Conforme Feuerwerker; Costa; Rangel (2000) a extensão universitária
assume o papel de potencializadora desta relação, por meio da diversificação de
cenários e metodologias de aprendizagem fornecendo novos espaços de discus-
são, análise e reflexão das práticas no cotidiano do trabalho e dos referenciais que
as orientam, reafirmando, ainda, o seu compromisso na formação acadêmica, hu-
mana e social.

As contribuições do projeto para a comunidade


As ações dos projetos Vida de Inseto e Sementário têm se expandido, buscan-
do cada vez mais promover a divulgação do conhecimento científico produzido
na universidade através de pesquisas e do ensino e consolidando cada vez mais a
parceria Universidade - Educação Básica - Sociedade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 556
As atividades realizadas pelo projeto Vida de Inseto, desde sua criação em 2013,
e a partir de 2016 em ações conjuntas com o Sementário já alcançaram um público
em torno de 3.000 mil pessoas de forma direta e um público bem maior de forma
indireta, em munícipios da região sul do Rio Grande do Sul. A seguir destacamos as
ações dos projetos ao longo de sete anos de atividades.

2013
Início do projeto Vida de Inseto
Arroio Grande - Encontro de Professores 80 professores
Oficina no Curso de Especialização em Ciências e Tecnologias - CAVG/ UFPel 20
professores
Criação da fanpage - [Link]

2014
Santa Vitória do Palmar - Curso de formação continuada para professores da Edu-
cação Básica 30 professores
Jaguarão - Curso de formação continuada para professores da Educação Infantil
30 professores
Piratini - Curso de formação continuada para professores Anos Iniciais 30 pro-
fessores
I Congresso de Extensão e Cultura – UFPel Apresentação dos resultados do pro-
jeto – prêmio destaque CEC

2015
E.E.E.B. Osmar da Rocha Grafulha – Pelotas 40 professores
E.E.E.B. Osmar da Rocha Grafulha 50 alunos
E.E.E.M. Joaquim Duval – Pelotas 120 alunos
E.M.E.F. Geraldo Antonio Telesca – Canguçu 22 professores
I Semana Integrada de Ensino Pesquisa e Extensão – II Congresso de Extensão e
Cultura – UFPel Apresentação dos resultados dos projetos.

2016
Início do projeto Sementário, com ações individuais ou conjuntas com Vida de
Inseto.
E.M.E.I. Herbert José de Souza - Bairro Getúlio Vargas, Pelotas 20 alunos
E.M.E.F. Sete de Setembro - Distrito de Rincão dos Maia - Canguçu 70 alunos
Feira de Ciências - Santana do Livramento 300 visitantes
12º Congresso Internacional de Ciências e Tecnologias na Educação - Pelotas
apresentação de resultados do projeto
E.E.E.M. Marechal Rondon, distrito de Monte Bonito, Pelotas 55 alunos
II Semana Integrada Inovação Ensino Pesquisa e Extensão UFPel - Pelotas - III Con-
gresso de Extensão e Cultura Apresentação dos resultados dos projetos
Seminário de Extensão Universitária da Região Sul (34º SEURS) - Foz do Iguaçu –
PR
7º Congresso Brasileiro de Extensão Universitária (CEBEU) - Ouro Preto - MG

2017
Palestra na semana pedagógica - Divulgação dos projetos - Morro Redondo 70
professores
Colégio Municipal Pelotense - Sábado em Foco 35 alunos
Mostra de Extensão e Cultura UFPel/Piratini 200 visitantes

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 557
IV Desafio Mural G-Biotec - Parque Tecnológico de Pelotas 280 visitantes
E.E.E.M. Antônio Leivas Leite, Cohab Lindóia, Pelotas 50 alunos
E.M.E.F. Benjamim Constant, Arroio do Padre atendimento a 60 alunos e 5 pro-
fessores
III Semana Integrada Inovação Ensino Pesquisa e Extensão UFPel - Pelotas - IV
Congresso de Extensão e Cultura Apresentação dos resultados dos projetos
II Encontro de Extensionistas da UFPel 120 visitantes

2018
26ª FENADOCE - Pelotas 150 visitantes
Evento Semana da Agricultura na EMAEF Alaor Tarouco Canguçu 100 pessoas
E.E.E.M. Ponche Verde - Piratini 50 pessoas
E.M.E.F. Margarida Gastal - Capão do Leão 20 alunos
IV Semana Integrada Inovação ensino pesquisa e Extensão UFPel - Pelotas - V Con-
gresso de Extensão e Cultura Apresentação dos resultados dos projetos - prê-
mio destaque CEC
II Encontro de Estudante Extensionistas - III SIIEPE 150 pessoas
Colégio Municipal Pelotense no evento Sábado em Foco 35 alunos
E.M.E.F. Dr. Joaquim Assumpção 30 alunos
V Desafio Mural G-Biotec 2018 - Parque Tecnológico de Pelotas 300 visitantes;
E.M.E.F. Maria Joaquina – Distrito de Cerrito Alegre, Pelotas 70 pessoas
Pré - vestibular Popular Desafio - Pelotas 30 alunos
36º Seminário de Extensão Universitária da Região Sul (SEURS) - Porto Alegre – RS
Mostra das profissões UFPel 100 alunos
Exposição Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter 100 visitantes

2019
27ª FENADOCE 100 visitantes
Mostra das profissões Escola SESI - 2019 120 alunos
Mostra das profissões da UFPel - 2019 250 alunos
Colégio Municipal Pelotense no evento Sábado em Foco 28 alunos
Colégio Municipal Pelotense Oficina Ensino Médio 25 alunos
E. E. M. Mário Quintana 60 alunos
V Semana Integrada Inovação Ensino Pesquisa e Extensão UFPel - Pelotas - VI
Congresso de Extensão e Cultura Apresentação dos resultados dos projetos
VI Desafio Mural G-Biotec 2019- Parque Tecnológico de Pelotas
Elaboração de um e-book para ensino de Ciências (2019/2020)

Segundo Hennington (2005), a extensão universitária mostra a importância de


sua existência no momento em que estabelece uma relação dual entre instituição
e sociedade. Esta acontece por meio da aproximação e troca de conhecimentos
e experiências entre professores, alunos e sociedade, possibilitando o desenvol-
vimento de processos de ensino e aprendizagem, a partir de práticas cotidianas,
juntamente com o ensino e pesquisa e, especialmente, por propiciar o confronto
da teoria com o mundo real.
As ações extensionistas realizadas por meio dos projetos são direcionadas no
sentido de atingirem uma dimensão em que os discentes, docentes e a população
tornem-se atores ativos do processo de aprendizagem, já que ensinar é criar as
possibilidades para a construção e reconstrução de saberes. Nesse sentido, não foi
nosso intuito propor somente uma transmissão de conhecimentos, mas sempre
um diálogo, possibilitando desvelar dúvidas relativas a diferentes temas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 558
Considerações finais
A perspectiva, a partir da qual se trabalha, é a de que a compreensão obtida
através das ações dos projetos de extensão determinará o modo como os estu-
dantes se relacionam com a sociedade; não como meros coadjuvantes, mas como
partícipes ativos e transformadores. Espera-se contribuir para a formação diferen-
ciada dos acadêmicos do ensino superior, preparando-os para o futuro exercício
profissional e de sua cidadania, e na popularização da ciência.
A extensão proporciona à universidade uma renovação constante pela relação
com a realidade onde está inserida, oportunizando uma revisão em relação a sua
própria estrutura, aos seus currículos e as suas ações institucionais.
Por meio da extensão a universidade influencia e é influenciada pelos saberes
da sociedade, ou seja, há uma troca de valores entre a universidade e o meio. A
universidade como detentora de saberes e conhecimentos tem uma missão que
vai além da divulgação científica, que é a de envolver a comunidade em suas ações
institucionais promovendo um sentimento de pertencimento e identidade.

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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 559
CENTRAL do Brasil. Direção: Walter Salles Júnior. Produção: Martire de Cler-
montTonnerre e Arthur Cohn. Intérpretes: Fernanda Montenegro, Marilia Pera,
Vinicius de Oliveira, Sônia Lira, Othon Bastos, Matheus Nachtergaele et al. Ro-
teiro: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro e Walter Salles Júnior. [S. l.]: Le
Studio Canal; Riofilme; MACT Productions, 1998. 5 rolos de filme (106 min), son.,
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 560
SOBRE OS AUTORES
Vera Lucia Bobrowski, graduada em na UFPel, professor associado do Cen-
Agronomia na UFPel, doutora em Ge- tro de Ciências Químicas, Farmacêuti-
nética e Biologia Molecular na UFRGS, cas e de Alimentos da UFPel. Voluntário
professora titular do Instituto de Biolo- do projeto. E-mail: paulo.romeu55@
gia da UFPel. Coordenadora do projeto. [Link]
E-mail: [Link]@[Link]
Gustavo Medina Tavares, graduado
Beatriz Helena Gomes Rocha, gra- em Licenciatura em Ciências Biológicas
duada em Agronomia na UFPel, douto- na UFPel, mestre em Biologia Animal
ra em Ciência e Tecnologia de Semen- na UFRGS, Voluntário e ex-bolsista do
tes na UFPel, professora associada do projeto E-mail: gmtavares@[Link]
Instituto de Biologia da UFPel. Cola-
Aldo Girardi Pozzebon, graduando
boradora do projeto. E-mail: biahgr@
em Agronomia da UFPel. Voluntário e
[Link]
ex-bolsista do projeto. E-mail: aldogi-
rardipozzebon@[Link]
Paulo Romeu Gonçalves, graduado
em Agronomia na UFPel, doutor em em
Ciência e Tecnologia de Agroindustrial

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº2 561
SANEAMENTO BÁSICO:
A UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS
COMO SUPORTE TÉCNICO AOS
MUNICÍPIOS DA ZONA SUL

Ana Luiza Bertani Dall’Agnol


Larissa Loebens
Diuliana Leandro
Maurizio Silveira Quadro
Andréa Souza Castro

O projeto
O Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Saneamento Ambiental (NPSA) é
um grupo que realiza atividades junto ao Centro de Engenharias (CEng) da Univer-
sidade Federal de Pelotas (UFPel).O grupo realiza atividades desde o ano de 2011,
quando suas atividades eram desenvolvidas nas dependências da Agência de De-
senvolvimento da Bacia da Lagoa Mirim (ALM), onde era conhecido por Laborató-
rio de Análise Ambiental e Geoespacial – LAAG. A partir de 2015, com a liberação
do espaço do novo prédio do Centro de Engenharias, a COTADA, o grupo mudou-
-se para este local, onde passou a ser denominado de Núcleo de Ensino, Pesquisa e
Extensão em Saneamento Ambiental. O grupo é vinculado ao curso de Engenharia
Ambiental e Sanitária e, desde 2017, ao Programa de Pós-Graduação em Ciências
Ambientais, e já contou também com a colaboração de alunos dos cursos de Enge-
nharia Hídrica, Engenharia Civil, Engenharia Agrícola e Geoprocessamento. Diver-
MEIO AMBIENTE Nº3

sos projetos voltados para a comunidade regional vêm sendo realizados ao longo
da última década dentro do grupo nas áreas de recursos hídricos, resíduos sólidos,
prevenção contra desastres naturais, geoprocessamento e saneamento básico.
Um dos projetos ativos do grupo é o de Apoio ao Desenvolvimento do Sane-
amento dos Municípios da Zona Sul. Este projeto visa desenvolver atividades de
auxílio e consultoria para elaboração e implementação de ações de saneamento
básico, assim como monitorar a qualidade ambiental dos municípios. Além disso,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 562


são realizadas atividades de capacitação, como cursos para servidores técnicos
municipais, estaduais e federais.
O advento da Lei Federal nº 11.445, Lei do Saneamento Básico, que estabele-
ce as diretrizes nacionais para o saneamento no paístrouxe a obrigatoriedade da
elaboração dos planos de saneamento básico a todos os municípios, de forma a
garantir um planejamento de longo prazo das ações de saneamento a nível local.
Porém, diversos municípios brasileiros encontram dificuldades na elaboração des-
ses planos. Neste sentido, uma das soluções é a capacitação dos agentes públicos
municipais, para a elaboração e/ou implantação destes Planos de Saneamento.
Além disto, a criação do núcleo de apoio (assessoria e consultoria) aos municípios
no que tangue as ações de saneamento básico é de extrema importância para sa-
nar dúvidas e questões técnicas, facilitando assim, a elaboração e implementação
dos planos nos municípios.
O objetivo geral do projeto de apoio ao desenvolvimento do saneamento am-
biental em municípios da Zona Sul é introduzir um pensamento sistêmico, inter-
disciplinar, incorporando conhecimentos necessários para as ações de saneamen-
to ambiental em pequenos municípios e comunidades rurais, bem como expressar
a importância das ações de elaboração dos planos de saneamento, resíduos sóli-
dos e dos planos ambientais na qualidade de vida das comunidades.
O projeto conta, atualmente, com a participação de seis alunos da graduação
do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária, cinco alunos do programa de pós-
-graduação em Ciências Ambientais e nove servidores vinculados ao Ceng, sendo
oito professores e um técnica de laboratório.
Assim, neste documento, são relatadas algumas das atividades já realizadas
neste projeto e levantadas algumas discussões a respeito do tema em foco: o sa-
neamento básico.

O saneamento
A sociedade majoritariamente urbana dos dias de hoje é consequência, espe-
cialmente das mudanças decorrentes da revolução industrial. Essas mudanças
trouxeram consigo os problemas característicos dos grandes centros urbanos: o
crescimento da população nas cidades, estas geralmente sem as infraestruturas
adequadas para suportar esse avanço, gerando desigualdades sociais (SANTOS,
2009).
Este aumento populacional nas cidades precisa ser acompanhado pelo desen-
volvimento dos serviços públicos, dentre eles aqueles relacionados ao saneamen-
to. O saneamento é o conjunto de ações sociais e econômicas que tem como ob-
jetivo manter a salubridade ambiental, garantindo qualidade de vida à população.
Através do abastecimento de água, coleta e tratamento de resíduos sólidos, lí-
quidos e gasosos e da drenagem urbana, as infraestruturas de saneamento são
capazes de promover a saúde pública, através do controle de vetores e doenças,
educação sanitária (NUGEM, 2015).
No Brasil, em termos de saneamento, foi criado o Plano Nacional de Sanea-
mento – PLANASA, em 1969. Esse plano gerou grandes incrementos na área, au-
mentando a cobertura dos serviços, especialmente no abastecimento de água, no
entanto, não foi capaz de universalizar seu acesso (SALLES, 2009). A partir de 05 de
janeiro de 2007, entrou em vigor a Lei nº 11.445, a qual prevê a adoção dos planos
de saneamento básico em todo o país, que devem ser elaborados pelos municípios
e distrito federal, estados e também pelo governo federal. Assim, o Plano Nacional

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 563
de Saneamento Básico – PLANSAB foi aprovado no ano de 2013, contendo as dire-
trizes, os cenários futuros e as ações e metas previstas para o saneamento básico
no Brasil para os 20 anos seguintes (BRASIL, 2007; BRASIL, 2013).
Além disso, a Lei nº 11.445/2007 apresenta as diretrizes do saneamento básico
no Brasil, o qualcompreende o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações
operacionais de abastecimento de água potável, esgotamento sanitário, limpeza
urbana e manejo de resíduos sólidos e drenagem e manejo de águas pluviais. Esta
Lei ainda traz os princípios fundamentais para o setor, dentre eles, a universaliza-
ção do acesso aos serviços públicos de saneamento básico; prevê a adoção de mé-
todos, técnicas e processos que considerem as peculiaridades locais e regionais;
segurança, qualidade e regularidade dos serviços prestados e que estão alinhados
à promoção da saúde pública e à proteção do meio ambiente (BRASIL, 2007).
Historicamente, de acordo com Saker (2007), a prestação dos serviços de sane-
amento na maioria dos municípios brasileiros fica a cargo das Companhias Estadu-
ais. Conforme os diagnósticos do Sistema de Nacional de Informações sobre Sane-
amento (SNIS), no Rio Grande do Sul, por exemplo, a Companhia Riograndense de
Saneamento (CORSAN) forneceu, em 2015, informações de água e/ou esgoto de
315 dos 497 municípios deste estado (SNIS, 2016).
Com a vigência da Lei do Saneamento Básico, nº 11.445/2007, os municípios
ficaram obrigados a elaborar seus Planos Municipais de Saneamento Básico –
PMSB, contemplando o abastecimento de água, o esgotamento sanitário, o ma-
nejo de resíduos sólidos e o manejo de águas pluviais (BRASIL, 2007). Além disso,
em 2010, a Lei 12.305, que institui a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, em
seu Art. 18 dispõe também sobre a elaboração dos Planos Municipais de Gestão
Integrada de Resíduos Sólidos – PMGIRS por parte dos municípios (BRASIL, 2010).
Sendo assim, mesmo que os serviços sejam prestados pelas companhias, é res-
ponsabilidade dos municípios elaborarem seus PMSB e PMGIRS para: diagnosticar
a situação do saneamento em seu território e realizar um prognóstico contendo as
propostas de melhoria para o setor. De qualquer forma, deve haver a colaboração
entre os interessados e envolvidos, o que inclui os prestadores de serviços, seja
para prestar informações, quanto para participar das discussões ao longo da ela-
boração deste importante documento.
Apesar disso, os municípios encontram dificuldades em realizar seus Planos, es-
pecialmente os de pequeno porte. Lisboa et al. (2013) apontam, entre as principais
dificuldades para a elaboração dos PMSB a indisponibilidade de recursos financei-
ros e limitações quanto aos recursos técnicos e humanos dentro das prefeituras.
Dall’Agnol et al. (2019a) também verificaram que os gestores públicos da Região
Sul do Rio Grande do Sul consideram que a falta de capacitação técnica, os entra-
ves burocráticos e falta de recursos técnicos e financeiros dificultam a elaboração
e a implementação dos PMGIRS.
Conforme Muniz (2014) a falta de informações e organização dos municípios no
campo do saneamento básico são as principais dificuldades encontradas na elabo-
ração dos planos: falta equipe técnica qualificada e estrutura organizacional para
discutir as questões relativas ao desenvolvimento do plano dificultam o processo.
Outra questão é a falta de recursos financeiros nas prefeituras, visto que a Lei Fe-
deral nº 11.445 (BRASIL, 2007) estabelece a elaboração dos planos por parte dos
municípios, mas não indica a fonte dos recursos para sua execução
De acordo com Freitas (1998), ao se investir em saneamento, aumentando a
cobertura e melhorando a qualidade dos serviços de, especialmente água e esgo-
to, ocorre uma melhoria no setor da saúde através da redução da ocorrência de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 564
algumas doenças e no bem-estar da população. Por isso, são essenciais que sejam
feitos investimentos para a universalização do acesso ao saneamento (MENDES
et al., 2000), visto que sua insuficiência contribui para uma saúde pública precá-
ria, principalmente no que diz respeito à qualidade da água dos corpos hídricos
urbanos no Brasil, que acabam por aumentar o risco de infecção por doenças de
veiculação hídrica para a população do entorno (FERREIRA et al., 2016).

Os resultados do projeto
Dentro das ações já desenvolvidas dentro do projeto, foram realizados cursos
de capacitação dirigidos aos gestores públicos dos municípios da Zona Sul do Rio
Grande do Sul. Para isso, as prefeituras e secretarias municipais foram informadas
via e-mail e telefone sobre os cursos, temas a serem debatidos e convidados a
participar.
Os cursos de capacitação foram ministrados nas dependências da Universida-
de Federal de Pelotas, no Auditório da Reitoria do Campus Anglo. Durante os en-
contros ocorreram palestras de temas relacionados à temática do saneamento.
Os temas das palestras foram pensados com o intuito de gerar informações aos
gestores sobre a realização dos Planos Municipais de Saneamento e Gestão In-
tegrada de Resíduos Sólidos. Assim, algumas das palestras contavam com temas
Figura 1 – Folder de referentes a: Uso de geoprocessamento para mapeamento de áreas degradadas;
divulgação de curso Educação Ambiental; Aterros Sanitários, Identificação de Impactos; Composta-
de capacitação. gem; Saneamento Básico para o Desenvolvimento Humano, Resíduos de Serviço
Fonte: Autores. de Saúde, entre outros. A (Fig. 1) apresenta o folder utilizado para a divulgação do
Curso de Capacitação para Elaboração
e Implementação de Planos Municipais
de Resíduos Sólidos, que ocorreu em ju-
nho de 2015.
Nos cursos realizados, participaram
professores, bolsistas do grupo, repre-
sentantes de órgãos como Defesa Civil,
Companhia Riograndense de Sanea-
mento (CORSAN), Fundação Estadual
de Proteção Ambiental (FEPAM), além
dos gestores dos municípios. No cur-
so realizado em 2013, quarenta e duas
pessoas participaram das atividades de
capacitação, representando doze mu-
nicípios. Já em 2015, dezesseis municí-
pios participaram, contando com trinta
e oito sujeitos capacitados. Cabe ressal-
tar, que o projeto não atinge somente
o público participante das atividades
presenciais, mas impacta indiretamen-
te a população dos municípios, uma vez
que transmite novos conhecimentos
aos seus gestores.
Na (Fig. 2) registra-se a palestra
ministrada pela Professora Diuliana
Leandro, a qual tratava sobre uso de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 565
geotecnologias dentro da gestão pública, em especial para mapear áreas degra-
dadas. Esse tema foi considerado um dos mais importantes para a capacitação,
pois os próprios gestores levantaram a necessidade de maior qualificação técnica
neste segmento. O uso das geotecnologias é fundamental, nos dias de hoje, para a
otimização do tempo e de análises dentro dos processos ambientais. Muitas vezes
os setores públicos acabam por seguir realizando procedimentos defasados e que
demandam mais tempo, por falta de mão de obra qualificada para acompanhar as
mudanças que vêm com a tecnologia.
Dentro desse contexto, Silva et al. (2017) afirmam que o uso de técnicas de pro-
cessamento e análise de imagens de satélite é uma das ferramentas de geopro-
cessamento que podem ser amplamente utilizadas no âmbito do monitoramento
ambiental e do controle do uso e ocupação do solo, através de indicadores am-
bientais. Por isso, a capacitação dos gestores acerca do tema é fundamental, pois
com isso há uma melhora no processo de análises ambientais, como é o caso do li-
cenciamento ambiental, mapeamentos e monitoramentos de uso do solo e maior
suporte para a tomada de decisões.

Figura 2 – Professora
Diuliana Leandro
ministrando palestra
sobre mapeamento
de áreas degradadas
por resíduos sólidos
utilizando Sistemas
de Informação
Geográfica (SIG).
Fonte: Autores.

Outro tema central foi a palestra ministrada pelo coordenador do projeto,


Professor MaurizioSiveira Quadro, o qual tratou dos aspectos relacionados à ela-
boração e implementação dos Planos de Gerenciamento Integrado de Resíduos
Sólidos (Fig.3). Nessa ocasião, o Professor contextualizou a importância da elabo-
ração dos planos para os municípios no que diz respeito aos aspectos legais, como
a obrigatoriedade dos mesmos para adquirir recursos federais, além de seus bene-
fícios para o desenvolvimento econômico e social na realidade de cada município.
Neste momento, também foram apresentadas as principais etapas e procedimen-
tos a serem adotados para elaboração e implementação dos planos, elucidando
como seria a melhor forma de proceder nesse processo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 566
Figura 3 – Professor
Maurizio Silveira
Quadro ministrando
palestra sobre
Elaboração e
Implementação
de Planos de
Gerenciamento
Integrado de
Resíduos Sólidos.
Fonte: Autores.

Este tema envolvendo Planos de Resíduos se mostra relevante dentro do con-


texto regional, pois, em uma pesquisa realizada por Dall’Agnol et al. (2019a), os
autores verificaram que apenas 18% dos municípios da região que responderam
à pesquisa possuíam seus PMGIRS implementados. Da totalidade dos municípios
que declararam não possuir o PMGIRS implementado, 78,6% afirmaram que os
planos estavam em fase de elaboração. Na (Fig. 4) é possível observar a fase de
elaboração dos planos nos municípios avaliados.

Figura 4 - Fase de
elaboração do PMSB
dos municípios
avaliados.
Fonte: Autores.

Conforme apresentado na (Fig. 4), acima, a fase de elaboração dos PMGIRS


variou entre os municípios, sendo que a maior parcela, 45%, afirmaram estar na
etapa de contratação da equipe que iria realizar o plano e, 27% já estavam finali-
zando o mesmo.
Diante dessa realidade, fica evidente a necessidade de avanços nesse setor,
pois os próprios autores ressaltam que a elaboração dos planos municipais possui
grande influência na eficácia do planejamento da gestão de resíduos sólidos dos
municípios (DALL’AGNOL et al., 2019a).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 567
As maiores dificuldades verificadas na elaboração dos cursos foram fazer con-
tato com os municípios e sua efetiva participação. Muitos relatavam falta de recur-
sos para o deslocamento e custos de estadia ou até mesmo o desinteresse da ad-
ministração em enviar pessoas para participar de eventos de temática ambiental.
Apesar disso, em torno de 60% dos municípios do projeto estiveram presentes em
algum momento de capacitação.
Por meio dos cursos de capacitação, estabeleceu-se um canal de interação en-
tre os municípios e o grupo. Através disso, as prefeituras procuram a universidade
como ferramenta de apoio para solucionar problemas relacionados ao saneamen-
to, como é o caso dos PMSB, os quais os municípios têm responsabilidade de im-
plementar, no entanto muitos encontram dificuldades para concretizá-los.
Assim, foram realizados convênios com os municípios de São José do Norte,
Arroio do Padre, Morro Redondo e Arroio Grande, todos pertencentes à região do
projeto, para que o grupo realizasse os seus Planos.
Os PMSB desses municípios foram finalizados e esse foi um dos principais re-
sultados do projeto até aqui. A (Fig. 5), a seguir, apresenta os valores obtidos no
Relatório Resultados Pesquisa Planos Municipais de Saneamento no Rio Grande
Do Sul, realizado em 2014, referente a existência dos planos de saneamento bási-
co nos municípios, dos 497 municípios do estado apenas 308 participaram da pes-
quisa.
Figura 5 - Resultados
Pesquisa Planos
Municipais de
Saneamento no Rio
Grande Do Sul.
Fonte: Autores.

É possível concluir que em 2014 boa parte dos municípios gaúchos não havia
elaborado seus Planos Municipais de Saneamento Básico, o que evidência a im-
portância de projetos que auxiliem os municípios nesse processo oferecendo auxí-
lio técnico e capacitação aos municípios.
No que diz respeito ao processo de elaboração dos PMSB dentro do projeto,
o maior obstáculo foi em relação à falta de informações. Não existem bancos de
informações que poderiam ser consultados para a realização do diagnóstico dos
serviços de saneamento. A etapa de diagnóstico é fundamental para a realização
de qualquer plano de trabalho. É preciso conhecer a situação atual para que se
possa planejar os cenários e ações futuras.
Os municípios não possuíam, por exemplo, mapeamentos contendo informa-
ções sobre existência de redes de água e esgotos, características dessas redes,
como material, ano de construção, controle de manutenções. Essas lacunas impe-
diam que o município pudesse planejar “onde” e “como” melhorar os serviços, pois

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 568
não havia a documentação de base contendo as informações. Além disso, sem a
documentação não é possível monitorar a evolução em relação ao passado.
Assim, durante a elaboração dos planos, as equipes foram à campo juntamente
com funcionários mais antigos das prefeituras para fazer o levantamento dessas
e outras informações. Através do cenário atual e com os indicadores criados, os
municípios poderão, ao longo dos anos, revisar seus Planos e analisar se as metas
foram atingidas através da comparação.
Na elaboração do plano municipal de saneamento básico deve-se ter cuidado
para o mesmo não seja visto como um produto técnico e de difícil elaboração,
devendo ser resultado de um processo de decisão política e social (MUNIZ, 2014).
Nesse sentido, cabe ressaltar que a elaboração dos PMSB foi organizada de ma-
neira transparente e envolvendo a participação pública, como prevê a legislação.
Ao longo do processo, um canal de comunicação no site do grupo estava sempre
ativo para que a população pudesse contatar a qualquer momento. Além disso,
foram realizadas audiências públicas, nas quais a população contribuiu para a rea-
lização de planos participativos e representativos da realidade de cada município.
De acordo com Moraes (2009) “o plano deve ser dotado de características: a)
política – fruto de processo de decisão político-social; um plano muito bom tecni-
camente, pode ser inviável politicamente e, assim, pode não ser implementado; b)
transparência – tornar público os estudos, a situação atual e as prioridades para os
serviços de saneamento básico; e c) democratização – garantida pela participação
da sociedade estabelecida também pela Lei 11.445/2007”.
A própria Constituição Federal brasileira diz, em seu Art. 225, que todos têm
direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, o qual é um bem de uso
comum do povo e essencial à sua sadia qualidade de vida (BRASIL, 1988). Assim,
o projeto de Apoio ao desenvolvimento do saneamento nos municípios da zona
sul tem sua importância pautada diante da importância social, econômica e am-
biental que o saneamento básico representa para a sociedade. O incremento do
saneamento na Região Sul gera muitos benefícios no que diz respeito a qualidade
de vida da sua população, em especial àqueles que vivem em situação de vulne-
rabilidade social, onde geralmente há pouco ou nenhum acesso ao saneamento.
Diversos trabalhos (BELLIDO et al., 2010; BLUM, FEACHEM, 1983; ERCUMEN
et al., 2014; NANDI et al., 2017; PAIVA; SOUZA, 2018) afirmam que há uma relação
entre as condições de saneamento e a melhora da saúde da população, além de
contribuir para a promoção dos direitos humanos ao acesso à água e ao sanea-
mento e para uma sociedade mais equitativa (COSWOSK et al., 2019).
No contexto local, Dall’Agnol et al. (2019b) realizaram estudo na Região Sul e
Campanha do Rio Grande do Sul a respeito das Doenças Relacionadas ao Sanea-
mento Ambiental Inadequado (DRSAI) e verificaram que as internações hospita-
lares demonstraram um declínio de 19,0 entre 2000 e 2010. No entanto, as inter-
nações em decorrência de DRSAI não apresentam este comportamento, demons-
trando picos de ocorrência, principalmente no ano de 2005 e 2006, decaindo em
2007 e voltando a crescer em 2010.
Em outro trabalho realizado por Dall’Agnol et al. (2019c), os autores verificaram
que há evidencias de que incrementos no saneamento básico, especialmente o es-
gotamento sanitário, geraram benefícios positivos para a redução das internações
hospitalares por doenças de transmissão feco-oral na cidade de Pelotas no perío-
do de 1998 e 2017. Esses resultados apontam para a importância dos investimen-
tos no setor do saneamento, afim de melhorar a qualidade de vida da população
da Região Sul.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 569
Espera-se que os PMSB, como ferramentas norteadoras que são, possam con-
tribuir para a melhora do saneamento nos municípios onde foram implementa-
dos, refletindo em ganhos para a população. Atualmente, o grupo está movendo
esforços para a realização do PMGIRS do município de São José do Norte e a ade-
quação do PMSB de Santa Vitória do Palmar, dando continuidade aos trabalhos.
Portanto, fica clara a relação entre pesquisa, ensino e extensão dentro deste
projeto. A expansão do conhecimento técnico para além dos limites físicos da uni-
versidade se dá através dos cursos de capacitação e também da elaboração dos
planos e da apresentação das audiências públicas, destacando assim a relação ex-
tensionista do programa. Os levantamentos de informações realizados também
podem ser considerados pesquisas aplicadas aos municípios, onde assim são fei-
tos trabalhos científicos de investigação, mostrando também o caráter de pesqui-
sa envolvido. Por fim, há uma relação de extensão e ensino associada ao envolvi-
mento dos alunos nas atividades, vivenciando diferentes situações, que levam ao
amadurecimento e desenvolvimento pessoal e profissional.
Por fim, ressalta-se a importância da universidade pública no contexto social
de sua região, pois desenvolve inúmeros projetos como este que afetam positi-
vamente sua comunidade. Estes projetos geralmente surgem da necessidade de
preencher lacunas que muitas vezes os setores públicos não conseguem sanar
dentro dos setores, como por exemplo, educação, cultura, saúde, meio ambiente,
e por isso a universidade é uma poderosa ferramenta de transformação social.

Considerações finais
A universidade, como centro da construção e disseminação do conhecimento,
tem um papel fundamental dentro da sociedade onde está inserida. Os projetos
de extensão universitários, aliados às pesquisas científicas, são capazes de gerar
muitos benefícios para o desenvolvimento regional.
As ações extensionistas possibilitam uma aproximação entre a universidade e a
comunidade local permitindo que, assim, aconteça a transmissão dos saberes não
somente através da educação formal. Os benefícios dessas ações são mútuos, pois
a experiência dos alunos com as atividades fora dos limites físicos da universidade
auxilia no seu desenvolvimento pessoal e profissional.
A participação da universidade neste processo foi muito importante, pois per-
mitiu que esses municípios se adequassem à legislação, além de gerar benefícios
também para o grupo de pesquisas e seus participantes. Professores e alunos par-
ticiparam da elaboração dos Planos, o que possibilitou a aplicação prática dos co-
nhecimentos que os discentes aprendem em sala de aula. Além disso, os alunos
puderam desenvolver habilidades de liderança, organização e andamento do pro-
jeto, além do contato com gestores públicos e munícipes, apresentação ao público
através de audiências públicas.
Além disso, a recente criação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Am-
bientais possibilitou a troca de conhecimentos entre os envolvidos, uma vez que
se trata de um programa multidisciplinar que conta com alunos de diversas áreas
do conhecimento, servidores públicos e demais profissionais já inseridos no mer-
cado de trabalho, agregando novos conhecimentos e experiências ao processo e a
trajetória acadêmica, pessoal e profissional dos atuantes.
Ressalta-se que este projeto permitiu aos municípios envolvidos concluírem
seus planos, algo que ainda é a realidade distantes de muitos municípios brasileiros.
Portanto, destaca-se a importância de projetos voltados para o desenvolvimento

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 570
regional e, especialmente, para a melhoria e a universalização dos serviços de sa-
neamento para que estes alcancem as parcelas negligenciadas da população, que
são aquelas que mais sofrem com a falta destes serviços.
Destacam-se, para concluir, os resultados construídos até o momento através
do projeto: uma contribuição para com a comunidade regional, com a aprovação,
até o momento de quatro Planos Municipais de Saneamento Básico, que são do-
cumentos oficiais a serem utilizado pelos municípios para melhorar a qualidade
dos serviços de saneamento prestados nos 20 anos seguintes, o que, futuramente,
irá impactar diretamente na qualidade de vida da população regional.

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DADES. SNSA, 2015. Disponível em: [Link] Acesso em: 10 mai.
2019.

SOBRE OS AUTORES
Ana Luiza Bertani Dall’Agnol, gra- Maurizio Silveira Quadro, graduado
duada em Engenharia Ambiental e Sa- em Engenharia Agrícola (UFPel). Dou-
nitária (UFPel). Mestranda em Ciências tor em Ciência do Solo (UFRGS), Profes-
Ambientais (UFPel). Atua nas princi- sor Associado do Centro de Engenha-
pais áreas: Saneamento Ambiental, rias e do Programa de Pós-Graduação
Gerenciamento de Resíduos Sólidos e em Ciências Ambientais (PPGCAmb) da
Saúde Ambiental. Colaboradora vin- Universidade Federal de Pelotas. Atua
culada ao projeto desde 2017. E-mail: nas principais áreas: Gestão de Recur-
analuizabda@[Link] sos Hídricos, Tratamento de Efluentes,
Saneamento Ambiental, Resíduos Sóli-
Larissa Loebens, graduanda de En- dos. Coordenador vinculado ao projeto
genharia Ambiental e Sanitária (UFPel). desde 2017. E-mail: mausq@hotmail.
Atua nas principais áreas: Análise de com
Qualidade de Água e Tratamento de
efluentes utilizando Processos Oxi- Andréa Souza Castro, graduada em
dativos Avançados. Bolsista vincu- Engenharia Agrícola (UFPel). Doutora
lada ao projeto desde 2017. E-mail: em Recursos Hídricos e Saneamento
laryloebens2012@[Link] Ambiental (UFRGS). Professora Adjun-
ta do Centro de Engenharias e do Pro-
Diuliana Leandro, graduada em En- grama de Pós-Graduação em Ciências
genharia Cartográfica (UFPR). Doutora Ambientais (PPGCAmb) da Universi-
em Ciências Geodésicas (UFPR). Pro- dade Federal de Pelotas. Atua nas prin-
fessora Adjunta do Centro de Engenha- cipais áreas: Saneamento Ambiental
rias e do Programa de Pós-Graduação e Recursos Hídricos, Escoamento Su-
em Ciências Ambientais (PPGCAmb) da perficial, Telhados Verdes, Pavimentos
Universidade Federal de Pelotas. Atua Permeáveis. Coordenadora adjunta vin-
nas principais áreas: Monitoramento culada ao projeto desde 2017. E-mail:
Ambiental, Fragilidade Ambiental, De- andreascastro@[Link]
sastres Naturais, Saneamento Ambien-
tal. Colaboradora vinculada ao projeto
desde 2017. E-mail: [Link]@
[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº3 573
PROPOSTA DE USO DE ENERGIA
ALTERNATIVA PARA O PERÍMETRO DE
IRRIGAÇÃO DO ARROIO DURO
Isabel Tourinho Salamoni
Gilson Simões Porciúncula
Vinicius Marins Cleff
Julye Moura Ramalho de Freitas

Introdução
Os perímetros públicos de irrigação (PPI) consistem em áreas para produção
agrícola, nos quais se realiza o manejo e operação de infraestruturas para irriga-
ção de uso comum. O Perímetro de Irrigação do Arroio Duro, situado na cidade de
Camaquã/RS, é gerenciado pela Associação dos Usuários do Perímetro de Irriga-
ção do Arroio Duro (AUD), que é composta por empresários rurais, que detêm a
posse ou o uso da terra, fazendo parte do perímetro de irrigação do arroio Duro.
É objetivo da associação atender as demandas de irrigação e/ou drenagem dos
produtores associados, realizando as atividades operacionais, assistência técnica
e os serviços de manutenção da infraestrutura do sistema hidráulico (barragem,
canais, comportas e outros equipamentos).
A energia elétrica compõe uma parcela significativa nos gastos da AUD, tendo
em vista que o sistema de bombeamento para a irrigação é considerado um gran-
de consumidor (aproximadamente 50% das despesas diretas em energia elétrica).
Uma alternativa para auxiliar o suprimento da elevada demanda energética, de
uma forma mais sustentável, segura e menos onerosa, a médio e longo prazo, é
por meio da utilização da energia solar fotovoltaica.
Desde 2012 já é possível, no Brasil, os consumidores gerarem sua própria ener-
gia a partir de fontes renováveis de energia (FRE), podendo conectar seus siste-
mas à rede elétrica e se beneficiar do sistema de compensação de energia, conhe-
cido como net metering. Este sistema foi criado através da Resolução Normativa
MEIO AMBIENTE Nº4

482, da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) publicada em abril de 2012


(ANEEL, 2012) e revisada através da Resolução Normativa 687 de 2015 (ANE-
EL, 2015). Trata-se da micro e da minigeração distribuídas de energia elétrica,
inovações que podem aliar economia financeira, consciência socioambiental
e autosustentabilidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 574


Com este mecanismo, os consumidores que geram sua energia não precisam
de sistemas de acumulação, pois a energia gerada por eles que não é utilizada no
momento da geração é transmitida para a rede pública, e quando seu sistema não
está gerando energia, à noite, por exemplo, esta é compensada pela rede pública.
Estas operações são registradas através de um relógio bidirecional.  
Baseado neste contexto, a busca por uma eficientização dos equipamentos
consumidores de energia, bem como por uma forma alternativa para suprir esse
elevado consumo de energia elétrica da AUD torna-se fundamental.

Impacto regional
PPI do arroio Duro é responsável por irrigar cerca de 21.000 ha com produtivi-
dade média de 7.040kg/ ha (MINISTÉRIO DA INTEGRAÇÃO, 2014). O perímetro
compreende a propriedades cujas áreas variam de 0,90 a 4.125,90 ha, totalizan-
do 45.781,77 ha, entre quinhentos e sete proprietários e consumo médio anual de
água por ha de 12.000 [Link] estes que ressaltam a importância do trabalho
em questão nesse objeto de estudo.
De acordo com Porciúncula et al. (2019), o Projeto de Avaliação e Revitalização
do Perímetro Público de Irrigação do Arroio Duro (PAR-AUD) tem como objetivo
avaliar e verificar as condições da infraestrutura do Perímetro de Irrigação do Ar-
roio Duro e, quando necessário, propor ações que busquem a melhoria de obras ou
equipamentos, garantindo assim o funcionamento adequado do Perímetro. Além
disso, essa avaliação servirá como base para o Ministério do Desenvolvimento Re-
gional (MDR) tomar as providências necessárias para uma eventual emancipação
do perímetro. Ainda segundo os autores, as linhas de atuação do projeto foram
divididas em três metas, sendo elas: Estudo e Avaliação do Projeto Público de Ir-
rigação do Arroio Duro (Meta 1); Proposta de Revitalização do Projeto Público de
Irrigação do Arroio Duro (Meta 2); Proposta de Uso de Energia Alternativa para o
Projeto Público de Irrigação do Arroio Duro (Meta 3).
O estudo aqui apresentado faz parte do projeto PAR-AUD e corresponde a
meta 3, cuja finalidade foi realizar um estudo para avaliar a viabilidade técnica e
econômica do uso de energia solar nos sistemas de bombeamento do perímetro,
que culminará em um projeto de uso de energia alternativa.

Método
O método do trabalho consiste em seis ações. Para o cumprimento de cada
ação foram estabelecidas etapas que fazem parte da metodologia do trabalho e
serão detalhadas nos próximos itens.
• Levantamento de dados sobre o consumo e demanda energética do perímetro;
• Reconhecimento das Unidades Consumidoras;
• Reconhecimento e levantamento de área disponível para implantação dos
sistemas fotovoltaicos;
• Estimativa e análise de potencial de geração fotovoltaica;
• Proposta do sistema solar fotovoltaico;
• Análise de viabilidade econômica da proposta;

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 575
Levantamento de dados sobre consumo e demanda
energética do perímetro
Inicialmente foram obtidas e analisadas as faturas de energia dos dez pon-
tos de consumo que compõe o perímetro da AUD, para criação de um cenário
onde visualizasse a real necessidade de atendimento dos pontos de consumo
de responsabilidade da AUD, de modo a se estipular os sistemas fotovoltaicos
adequados para cada local.
Além das faturas de energia foram solicitadas à AUD as memórias de massa
das duas instalações de média tensão, que dispõe de medidores com capacidade
para fornecimento destes dados: Sistema de Bombeamento da Divisa e Sistema
de Bombeamento da [Link] este processo, através de contato com a
direção da AUD, obteve-se a informação de que o Sistema de Bombeamento da
Pacheca, que estava arrendado pela associação, não teria seu contrato renovado
e, portanto, esta unidade não foi objeto do estudo.

Reconhecimento das unidades consumidoras


Em visita a AUD foram localizadas e catalogadas todas as unidades consumi-
doras (UC’s) de baixa e média tensão, com intuito de identificar a capacidade dos
disjuntores e fiação para suporte da instalação fotovoltaica. A tabela 1 exemplifica
os dados obtidos e catalogados durante a vistoria.

Tabela 1 – Unidade Consumidora de Baixa Tensão 2758751

Nº da UC 27587851
Nº do medidor 2490155
Endereço BR 116 18185 AP 9313
Bairro --
Cidade Camaquã
Coordenada 30°52’28’’S 51°48’40’’O
Nº da UT 0350 09313
Nº de fases Trifásico
Potência da UT 45 kVA
Coordenadas 30°52’28’’S 51°48’40’’O
Disjuntor 100 A
Nº de fases Trifásico
Condutor 16 mm²
Aterramento Sim
Fotos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 576
Fonte: autores.

Também nesta etapa avaliou-se a necessidade do suprimento de energia que


haveria em cada uma das unidades consumidoras, através dos seus dados de con-
sumo energético. Baseando-se no histórico de consumo das UC’s, estimaram-se
as dimensões que os sistemas FV teriam em cada ponto de consumo, caso pudes-
sem ser instalados no próprio local.
Para as estimativas foi utilizado um módulo com potência de 380 Wp e eficiên-
cia de 19,15%, e os dados obtidos para as instalações de baixa tensão estão indi-
cados na tabela 2.

Tabela 2 - Relação de consumo e geração do Grupo B.

Local Características de Consumo Pré Dimensionamento


Geração Área de
Unidade Con- Classe de Consumo Qtd. de
Subgrupo Dimensão de Energia Módu-
sumidora (UC) Consumo Anual Módulos
Necessária los
6.720
24695611 Comercial Trifásico 4,29 kWp 13 5.863 kWh 26 m²
kWh
24695815 Comercial Trifásico 1200 kWh 0,00 kWp 0 00 kWh 00 m²
Rural - Agro- 6.785
24695882 Trifásico 4,29 kWp 13 5.863 kWh 26 m²
pecuaria kWh
1.944
24696030 Residencial Monof. 0,66 kWp 2 902 kWh 04 m²
kWh
7.200
24696064 Comercial Trifásico 4,62 kWp 14 6.314 kWh 28 m²
kWh

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 577
Local Características de Consumo Pré Dimensionamento
Geração Área de
Unidade Con- Classe de Consumo Qtd. de
Subgrupo Dimensão de Energia Módu-
sumidora (UC) Consumo Anual Módulos
Necessária los
29.028 27.960
27587851 Industrial Trifásico 20,46 kWp 62 124 m²
kWh kWh
Residencial - 4.632
47605430 Trifásico 2,64 kWp 8 3.608 kWh 16 m²
Rural kWh
Rural - Agro- 8.148
49568825 Trifásico 5,28 kWp 16 7.215 kWh 32 m²
pecuaria kWh
65.640 57.723
TOTAL 41,01 kWp 128 256 m²
kWh kWh
Fonte: autores.

Reconhecimento e levantamento da área disponível


para implantação dos SFV
Nesta etapa avaliaram-se as condições de viabilidade técnica de todas as UC’s.
Foram levantadas as áreas de coberturas das edificações das unidades consumi-
doras para possível instalação de sistema solar fotovoltaico.
Na sequência, foram relacionadas as demandas energéticas de cada consumi-
dor com o potencial de geração que cada local teria para compor um sistema solar
fotovoltaico.
Foi estudado potência de geração utilizando a área útil em cada uma das unida-
des enquadradas no Grupo B com possibilidade da implantação da tecnologia FV.
Em algumas não houve estudo, ou por não haver edificação, ou pelo fato da co-
bertura ser inapropriada. Sendo assim, quantificou-se todo o potencial de geração
nas coberturas com condições reais de implantação dos módulos FV.
Em relação às instalações enquadradas no Grupo Tarifário A, foi identifica uma
unidade nesta modalidade, localizada junto à estação de bombeamento do Arroio
Duro, denominada ‘Divisa’.Por se tratar de um consumidor rural, com sistema de
irrigação, esta unidade consumidora recebe uma série de benefícios em relação à
sua tarifa, conforme determinação da REN 414/2010 (ANEEL, 2010). O principal é
o desconto de 70% na energia consumida no horário denominado de reservado,
entre 21:30 e 06:00hs, e de 10% tanto na energia consumida quanto na demanda
de energia, nos demais horários do dia, e a análise do dimensionamento do siste-
ma deve levar em conta estes aspectos.
No entanto, para dimensionar um sistema FV que atendesse essa UC, também
se levam em consideração outros fatores como zonas alagáveis e planicidade do
terreno, assim como demanda contratada na instalação, entre outros.
Devido à necessidade de uma grande área para suprir a demanda energética da
unidade da ‘Divisa’, inicialmente desconsiderou-se o uso da edificação existente
no local, visto sua inexpressiva área de cobertura frente à grande quantidade de
módulos necessários para atender este local, por isso para essa unidade conside-
rou-se a possibilidade da implantação no solo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 578
Durante o levantamento das áreas disponíveis em solo para implantação dosis-
tema FV, a partir dos dados obtidos nas visitas técnicas in loco e através de infor-
mações prestadas pelos funcionários da AUD, identificaram-se as áreas alagáveis,
condicionando o estudo somente a áreas em condições de utilização para implan-
tação do sistema de geração fotovoltaica.  
Para a análise dos sistemas fotovoltaicos (SFV) em coberturas de edificações,
no qual pudesse haver algum sombreamento ocasionado pela própria construção,
foi utilizado o software SketchUp. Cada uma das edificações com possibilidade de
implantação dos SFV foi modelada no software e georeferenciadas, afim de que
pudessem ser analisados os períodos de possíveis sombreamentos nos solstícios
de inverno, verão e equinócio.  A análise do sombreamento da UC 27587851, no
galpão do prédio sede da AUD, está representada na (Fig. 1).

Figura 1- Análise de
sombreamento na
UC 27587851.
Fonte: Autores.

No caso da proposta do sistema em solo, os módulos foram distribuídos se-


guindo a metodologia de Pinho et al. (2008), que garante que um obstáculo diante
de um módulo FV não faça sombra no pior período do ano (inverno) três horas
antes e três horas depois do meio dia solar, levando em conta a distância entre o
módulo e o obstáculo e a latitude do local da instalação.
Em visitação a AUD, todas as UCs foram analisadas de modo a identificar o po-
tencial de implantação dos SFV de forma integrada a edificações pré-existentes ou
em área de solo disponível no entorno das mesmas.
Para cada UC levantada, foi elaborado um Diagrama de Forças (FOFA), con-
forme (Fig. 2). Esta é uma ferramenta que possibilita a análise estratégica de um
cenário, que aponta forças, oportunidades, fraquezas e ameaças, neste caso, das
possíveis áreas para implantação dos sistemas fotovoltaicos. Este diagrama pos-
sibilitou a identificação dos melhores locais a serem implantados os sistemas que
serão detalhados a seguir, no decorrer do relatório, que são correspondentes ao
dimensionamento do sistema.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 579
Figura 2 – Diagrama
de forças: Galpão da
Sede da AUD.
Fonte: Autores.

Estimativa e análise do potencial de geração


fotovoltaica
A primeira etapa da análise da estimativa de potencial de geração FV se dá pela
análise da área de implantação, onde se definem o ângulo de inclinação dos mó-
dulos e o desvio azimutal ao norte, onde os módulos podem ser sobrepostos a
uma cobertura com configurações já existentes de ângulo e inclinação, ou ainda
utilizando estruturas de angulação.  
Na segunda etapa foram avaliados os índices de radiação solar incidente nos
módulos conforme a posição definidana primeira etapa. Esta análise foifeita por
meio da utilização dos cálculos do programa RADIASOLe utilizando a base de da-
dos os dados do Centro de Referência para Energia Solar e Eólica (CRESESB, 2019).
Na terceira etapa foi realizado o cálculo de estimativa de geração de energia
FV, expressada em ‘kWh’, conforme o número de módulos instalados e a radiação
incidente nos [Link]és desse resultado foi possível obter o montante de
energia anual que cada um dos sistemas é capaz de gerar conforme suas configu-
rações área, angulação e desvio azimutal.  

Proposta de sistema fotovoltaico


Após definição dos equipamentos, nesta etapa dimensionou-se os sistemas fo-
tovoltaicos. Dessa forma foi determinada a relação de componentes para a quan-
tidade e configuração dos módulos FV.
Logo, foi especificado as estruturas de sustentação dos módulos dos sistemas.
Foi determinada a relação de componentes para a sustentação e fixação dos mó-
dulos, tanto na área de cobertura quanto na área em solo.
Tambémquantificou-se os equipamentos de cada sistema proposto. Basica-
mente, a etapa determina os seguintes itens:
• módulos;
• inversores;
• proteções;
• condutores;  
• estruturas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 580
Por fim, nesta etapa foram demonstrados os benefícios energéticos oriundos
da contribuição de geração de energia solar FV nas unidades de consumo da AUD.
Mostrando gráficos de geração x consumo e a contribuição da energia solar nas
diferentes propostas. Ao final desta etapa foi avaliada e viabilidade técnica da ins-
talação dos sistemas de acordo com o percentual de contribuição da energia solar
para cada sistema.
Conforme observado na (Fig. 3), as unidades consumidoras do Grupo B se-
rão contempladas por um só sistema, que teve como proposta a sua instalação
na cobertura do Galpão da AUD(Fig.2).Comcento e quarenta e quatro módulos
fotovoltaicos projetados chega a uma potência instalada de 54,72 kWp. Este po-
tencial é capaz de gerar aproximadamente 71.073 kWh por ano.

Figura 3 – Gráfico de
consumo vs. Geração
anual.
Fonte: Autores.

Também foram propostas duas opções de sistema para a unidade consumidora


enquadrada no Grupo A. A proposta que melhor contempla o consumo de ener-
gia da unidade consumidora está situada ao lado das bombas de irrigação (maior
parte do consumo). Dessa forma, conforme estabelecido pela figura 4, no perío-
do anual o sistema dimensionado deve suprir 72% do consumo energético anual
das bombas, tendo capacidade de gerar 784.133 kWh por ano. Esse sistema terá
581,40 kWp e contará com 1530 módulos fotovoltaicos.

Figura 4 – Gráfico de
consumo vs. Geração
anual.
Fonte: Autores.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 581
Análise de viabilidade econômica
Neste item foram levantadas propostas orçamentárias de todos os sistemas
estudados afim de analisar a viabilidade da implantação dos sistemas propostos
através dos diagramas de força.   
Após estabelecer os custos de implantação dos sistemas, analisou-se a situa-
ção futura de cada unidade consumidora, tendo em vista a forma como cada UC
está sendo atendida e enquadrada nos grupos tarifários. Dessa forma, fez-se uma
projeção futura em que demonstram os custos relativos a consumo de energia das
unidades após a implantação dos sistemas. Ou seja, valor mínimo a ser pago por
cada uma das unidades consumidoras do Grupo B será o custo de disponibilidade,
conforme apresentado na coluna ‘Valor mínimo’ na tabela 3.

Tabela 3 – Valor mínimo a ser pago pelas UC’s após a compensação.

Local Características de Consumo Consumo de Energia Futuro


Unidade Energia Custo de
Consumo Custo Anual
Consumido- Subgrupo Anual Ne- Disponibili- Custo Anual
Anual Atual
ra (UC) cessária dade
24695611 Trifásico 6.720 kWh R$ 5.174,40 5.863 kWh 100 kWh/ R$ 924,00
mês
24695815 Trifásico 1200 kWh R$ 924,00 0,00 kWh 100 kWh/ R$ 924,00
mês
24695882 Trifásico 6.785 kWh R$ 3.596,05 5.863 kWh 100 kWh/ R$ 636,00
mês
24696030 Monofásico 1.944 kWh R$ 1.194,40 902 kWh 30 kWh/mês R$ 720,00
24696064 Trifásico 7.200 kWh R$ 5.544,00 6.314 kWh 100 kWh/ R$ 924,00
mês
27587851 Trifásico 29.028 kWh R$ 22.351.56 27.960 kWh 100 kWh/ R$ 924,00
mês
47605430 Trifásico 4.632 kWh R$ 2.496,65 3.608 kWh 100 kWh/ R$ 636,00
mês
9568825 Trifásico 8.148 kWh R$ 4.318,44 7.215 kWh 100 kWh/ R$ 636,00
mês
TOTAL 65.640 kWh R$ 45.599,50 57.723 kWh R$ 6.324,00

Fonte: Autores.

Para a unidade consumidora do Grupo A, é condicionado que a instalação ade-


rente ao sistema de compensação de energia elétrica pague ademanda contrata-
da, estipulado pela REN 414/10 (ANEEL, 2010). Para o caso representado na (Fig. 5),
sistema de 581,40 kWp, toda a energia capaz de ser gerada na área disponibilizada
suprirá 72% do consumo de energia da UC.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 582
Figura 5 – Gráfico de
consumo vs. Geração
anual.
Fonte:Autores.

Como foi representado, a economia gerada anual por este sistema deverá ser
de aproximadamente R$ 219 mil. A sua ‘Conta Futura’ será basicamente o mon-
tante de energia ativa líquida que não é contemplada pela geração, mais a deman-
da contratada.

Análise do tempo de retorno do investimento


Nesta etapa, após estabelecer, os tamanhos dos sistemas, os seus respectivos
custos de implantação e montante de energia gerada por cada um, foi estimado o
tempo de retorno dos investimentos, consolidando a análise. Para esta avaliação,
foi utilizado um cenário de crescimento da tarifa de energia na modalidade pre-
dominante entre as UC’s, que é tarifa verde. Nesta concepção a inflação da tarifa
CEEE-D nos últimos 5 anos foi de aproximadamente 13% a.a. em média.
A taxa de desconto aplicada no fluxo de caixa foi obtida pelo WACC (Custo
Médio Ponderado do Capital) regulatório vigente para o setor de distribuição de
energia elétrica, considerando a carga tributária considerada por Carvalhães, Al-
buquerque e Silva (2014).
A (Fig. 6) demonstra em gráfico o estudo do proposto para o Galpão da AUD,
que por sua vez teve um valor médio de R$ 222.747,00. Observa-se que o tempo
de retorno se dará a partir do 4º ano após o investimento e devido funcionamento
da geração solar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 583
Figura 6 – Gráfico de
consumo vs. Geração
anual.
Fonte:Autores.

O sistema de geração que supri o consumo do sistema de bombeamento tam-


bém foi orçado e analisado com o preço dos orçamentos. As necessidades de en-
trada de energia são as mesmas para o sistema anterior. A (Fig. 7) analisa o tempo
de retorno de onze anos, considerando um investimento de R$ 2.751.501,46.

Figura 7 – Gráfico de
consumo vs. Geração
anual.
Fonte: Autores.

Conclusões
Ao analisar a estrutura do estudo, demonstra-se que há viabilidade para im-
plantação de uma fonte para geração de energia elétrica, no ponto de vista econô-
mico, se tratando somente da situação energética da AUD. Esta análise demonstra
um potencial de retorno dentro do esperado, mesmo no contexto atual, baseado
em uma análise conservadora.
Para isso, ainda é avaliado algumas questões referentes à legislação, que estão
em discussão pelo órgão responsáveis pelo setor. Com a previsão de retirada de
parte dos incentivos fiscais para consumidores rurais e com a possibilidade de efi-
cientização do sistema de bombeamento, o tempo de retorno dos sistemas pro-
postos tende a reduzir, ou seja, ao modo que o valor das tarifas pagas pelo serviço
de irrigação aumentar, proporcionalmente haverá aumento no retorno financeiro
do valor de implantação dos sistemas.
Se tratando do consumo de energia nas atividades de bombeamen-
to, será necessário um arrendamento de área para devida implantação, e é

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 584
importante salientar que devido as condições contratuais com a concessionária,
aliado aos incentivos tarifários, a geração de energia para suprimento desse atores
(bombas), demonstra maior viabilidade ao ser no mesmo ponto de consumo, pois
de acordo com as análises feitas, uma possível geração remota demandaria outros
custos contratuais e tarifários, fazendo com o que o investimento se torne muito
menos atrativo. O arrendamento deverá ser considerado como um custo para a
AUD, o valor negociado com o locador deverá ser somado a ‘conta futura’, pois
não foi considerado neste relatório.
A aplicação dos módulos sobre a cobertura do Galpão da AUD também servirá
para divulgação e propagação da utilização de energia renovável, e demonstra a
iniciativa da empresa em dar prioridade para o uso de energia fotovoltaica. Para
este caso, após a instalação do sistema, deverá ser pago somente a taxa de dispo-
nibilidade de cada unidade consumidora enquadrada no Grupo B.
Além dos benefícios energéticos, vale ressaltar que a energia fotovoltaica é
uma fonte renovável, limpa e quase sem impactos ambientais, e demonstra a ini-
ciativa da empresa em dar prioridade para o uso de energia limpa.

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saextensao/article/view/16268. Acesso em: 23 fev. 2020.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 585
SOBRE AS AUTORAS
Isabel Tourinho Salamoni, gradu- Vinicius Marins Cleff, graduado em
ada em Arquitetura e Urbanismo pela Engenharia Elétrica pela Universidade
Universidade Católica de Pelotas. Dou- Católica de Pelotas. Mestrando no Pro-
tora em Engenharia Civil pela Universi- grama de Pós-Graduação em Arquite-
dade Federal de Santa Catarina. Docen- tura e Urbanismo da Universidade Fe-
te e vice-diretora da Faculdade de Ar- deral de Pelotas. Atuação principal na
quitetura e Urbanismo da Universidade área de geração de energia solar foto-
Federal de Pelotas. RS - Brasil. Atuação voltaica e eficiência energética. E-mail:
principal na área de geração de energia viniciuscleff@[Link]
solar fotovoltaica e eficiência energéti-
ca. E-mail: isalamoni@[Link] Julye Moura Ramalho de Freitas,
graduada em Arquitetura e Urbanismo
pela Universidade Católica de Pelotas.
Gilson Simões Porciúncula, gradua-
Mestre em Arquitetura e Urbanismo
do em Engenharia Agrícola pela Univer-
pela Universidade Federal de Pelotas.
sidade Federal de Pelotas. Doutor em
Atuação principal em pesquisas na área
Engenharia Mecânica pela Universida- de eficiência energética e energia so-
de Federal de Santa Catarina. Docente lar fotovoltaica, trabalhando com sof-
do Curso de Engenharia de Produção twares de simulação computacional de
da Universidade Federal de Pelotas. eficiência energética. E-mail: jurama-
Exerceu a direção da Agência para o lhof@[Link]
Desenvolvimento da Lagoa Mirim, da
Universidade Federal de Pelotas, entre
2014 e 2017. E-mail: [Link]-
la@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Meio Ambiente nº4 586
Saúde

S A Ú D E
ATENÇÃO ODONTOLÓGICA
MATERNO-INFANTIL:
20 ANOS REALIZANDO PRÉ-NATAL
ODONTOLÓGICO E EFETIVANDO A
ATENÇÃO NOS MIL DIAS DA CRIANÇA

Ana Regina Romano


Marta Silveira da Mota Krüger
Andréia Drawanz Hartwig
Thays Torres do Vale Oliveira
Fernanda Geraldo Pappen

Apresentação
Na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas (FO-UFPel), a
atenção odontológica para bebês teve início no segundo semestre do ano de 1996,
quando crianças com até três anos de idade eram atendidas por demanda espon-
tânea. Entretanto, a partir da primeira avaliação, realizada após 18 meses, ficou
evidenciado que as atividades curativas, além de estressantes aos pais, crianças
e profissionais, pouco colaboravam para a melhora da saúde bucal das crianças,
sugerindo que a atenção odontológica à criança no primeiro ano de vida era essen-
cial para a manutenção da sua saúde bucal (MENEZES et al., 1998).
A recomendação do Ministério da Saúde é que a primeira consulta odontológi-
ca da criança ocorra entre a erupção do primeiro dente decíduo e não mais tarde
do que o primeiro ano de vida (BRASIL, 2012). O início mais cedo é considerado
uma medida fundamental para prevenir o principal acometimento da saúde bu-
cal da criança, a cárie da primeira infância (CPI), afetando-a logo após a erupção
dentária (LEONG et al., 2013), chegando a acometer 18,7% (SILVEIRA et al., 2015)
e 34,3% (CHAFFEE et al., 2015), respectivamente, no segundo e terceiro anos de
vida, levando a uma limitação nas funções bucais (ALSUMAIT et al., 2015). Além
de atender mais cedo, começar desde a gestação também tem sido recomendado
SAÚDE Nº1

(AAPD, 2019a), proporcionando a atenção nos primeiros mil dias da criança, ou


seja, da concepção até o fim do segundo ano de vida da criança (HARTER et al.,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 588


2017). A saúde bucal perinatal e infantil são os fundamentos sobre os quais a edu-
cação preventiva e o atendimento odontológico devem ser construídos para au-
mentar a oportunidade de a criança ter uma vida livre de doenças bucais evitáveis
(APPD, 2019a).
No projeto de extensão Atenção Odontológica Materno-Infantil (AOMI), as dí-
ades mãe-filho começaram a ser acolhidas a partir de junho de 1999, realizando o
pré-natal odontológico, sendo impulsionada pela indagação sobre os tabus e mi-
tos existentes no atendimento na gravidez (SARTORI; MICHELOTTO; ROMANO,
1998). Desde então, as mulheres ingressam na gestação e recebem atendimento
odontológico para melhoria e recuperação de sua saúde bucal objetivando o efeito
multiplicador na promoção de saúde bucal de seu filho (a). Então, foi criado o lema
do projeto – “serei capaz de cuidar da saúde bucal do meu filho se souber e for capaz
de cuidar da minha”. Após o nascimento dos seus filhos (as), os pares são acompa-
nhados até os bebês completarem 36 meses de idade, destacando a importância
da primeira consulta ser antes do primeiro ano de vida.
Tão importante quanto ter a primeira consulta no primeiro ano de vida, são
as visitas periódicas regulares durante o período de acompanhamento, sendo re-
forçadas nos resultados de Medeiros et al. (2015). No projeto AOMI a criança é
acompanhada até os 36 meses de idade, sendo que a mãe continua com o reforço
ao autocuidado e com a adequação do meio bucal. Além disso, como muitas mães
procuram o serviço após o nascimento do bebê, algumas para prevenção e outras
para resolverem algum problema bucal do filho (a), foi mantido o atendimento
demanda espontânea do bebê, preferencialmente antes do primeiro ano de vida
e, no máximo, antes de completar dois anos de idade, os quais seguem, após in-
gresso no projeto, o mesmo tratamento dos bebês que tiveram pré-natal odonto-
lógico.
Iniciar a atenção odontológica desde a gestação demonstra resultados favorá-
veis à saúde bucal da criança (MEDEIROS et al., 2015; PLUTZER; SPENCER, 2008).
Além disso, o uso regular de serviços odontológicos de prevenção tem sido asso-
ciado a melhores condições de saúde bucal, visto que visitas regulares permitem a
detecção precoce e melhor tratamento das doenças bucais bem como aumentam
a conscientização dos pais sobre as causas e prevenção de doenças bucais (ABAN-
TO et al., 2015). Considerando o exposto, o objetivo deste capítulo é apresentar as
ações na atenção odontológica do Projeto AOMI-FO, UFPel, destacando o reflexo
do pré-natal odontológico na prevenção da cárie dentária no terceiro ano de vida.

As ações na atenção odontológica materno-


infantil
Os mil dias, são resultado da soma dos 270 dias da gestação, 365 do primeiro e
segundo anos de vida (Fig. 1). A partir do ingresso da mulher grávida, em qualquer
semana gestacional, é conduzida uma entrevista, um exame da cavidade bucal e
um planejamento que é elaborado e executado de acordo com a necessidade da
gestante, possibilidade física e sistêmica dela e capacidade do projeto de realizar.
Importante destacar que, além de desmistificar a odontologia na gestação ao mi-
nimizar os tabus e mitos existentes, o pré-natal odontológico tem o objetivo de
favorecer a saúde bucal da criança, conforme ilustrado na figura 2.
As consultas iniciais da gestante são para adequar o seu meio bucal, favorecen-
do o autocuidado. No PRO, as mulheres grávidas recebem orientações específicas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 589
para controlar o biofilme bacteriano e realizam os tratamentos curativos necessá-
rios, respeitando os limites impostos pela condição da gestação. Estas ações que,
além de modificar seus hábitos, leva a uma diminuição do número de bactérias da
saliva e assim, a possibilidade de retardar a contaminação do bebê e a cárie dentá-
ria na primeira infância (KISHI et al., 2009). Ao final da gestação, as futuras mães
recebem também as orientações iniciais para promoção de saúde bucal e geral
para seu bebê. Nas mães cujas crianças ingressaram antes de um ano por deman-
da espontânea, além da orientação de saúde bucal também algumas consultas são
conduzidas, normalmente de urgência por odontalgias ou necessidades estéticas.
É importante que as ações de motivação para o autocuidado sejam constantes
e envolvendo, se possível, toda a família. A adoção de hábitos comportamentais
mais sólidos na infância começa em casa com os pais, principalmente com a mãe
(CASTILHO et al., 2013). Despertar o interesse da família para os cuidados com a
saúde e educá-los para adotarem um estilo de vida saudável exerce papel central
no atendimento odontológico nos mil dias da criança.

Figura 1- Ilustração
dos primeiros mil dias
da criança. Fonte da
imagen da gestação:
“En el vientre
materno” (National
Geographic Channel);
Bebê do projeto
AOMI (imagem
autorizada).
Fonte: National
Geographic Channel.

Figura 2- Objetivos
do pré-natal
odontológico. Fonte
do bebê no útero: “En
el vientre materno”.
Fonte: National
Geographic Channel.

A idade média da primeira consulta do bebê no projeto AOMI é de 7,9 meses,


sendo variável de acordo com o ano do ingresso: na gestação, antes dos 12 meses
ou entre 12-23 meses de idade, conforme apresentado na Tabela 1 com os dados
dos prontuários de 2002 a agosto de 2019. A partir do ingresso, independente de ter

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 590
ou não realizado o PRO, a criança é acompanhada regularmente e com as mesmas
ações, resumidas na figura 3 para o primeiro e o segundo anos de vida. As crianças
seguem sendo acompanhadas e o número de consultas depende da necessidade
individual, especialmente relacionada ao risco de ter atividade de cárie dentária,
mas a condição ideal seriam cinco consultas: uma no primeiro ano de vida, duas no
segundo e duas no terceiro. A avaliação odontológica de bebês necessita de uma
atenção especial devido aos diversos aspectos singulares da cavidade bucal nos
primeiros meses de vida, que contém estruturas anatômicas exclusivas e transi-
tórias, além de uma variada gama de anomalias de desenvolvimento e patologias
próprias a essa faixa etária (CARVALHO SANTOS et al., 2009).
A avaliação do risco aplicada no projeto AOMI proporciona um gerenciamento
efetivo dos retornos das crianças e a avaliação da trajetória de risco a atividade de
cárie, com a utilização de estratégias preventivas, manteve a maioria das crianças
em situação de saúde bucal ao longo de três anos (KRÜGER, 2017). A escolaridade
materna >8 anos de estudo, a frequência de sacarose ≤ 7 vezes ao dia, a presença
da participação familiar na higiene bucal do bebê, a presença de espaço interden-
tal na arcada, a ausência de placa visível e o autocuidado materno bom/satisfató-
rio, tiveram uma relação significativa com a criança ter se mantido em condição de
sem cárie até o terceiro ano de vida (KRÜGER, 2017).
Também o início tardio da higiene bucal nas crianças assistidas no projeto AOMI
esteve relacionado à presença de cárie no segundo ano de vida (PAULI et al., 2017),
reforçando a importância de que este hábito de prevenção e controle seja iniciado,
o mais tardar, com a irrupção do primeiro dente decíduo (APPD, 2019b), devendo
haver treinamento e estímulo constante para sua realização, especialmente, em
mães menos motivadas (PAULI et al., 2017). A recomendação do projeto AOMI é
que o início seja a partir do quarto mês de vida pois, isoladamente, proporcionou
a menor porcentagem de crianças acometidas em relação a época de início da hi-
giene bucal: 6,2%, 12,7% e 36,8%, respectivamente, ao começar antes, com ou
após >2 meses da presença dos dentes (PAULI et al., 2017). Desta forma, o início
precoce da higiene bucal, o uso de dentifrício fluoretado e a ação frequente, exer-
cem uma influência positiva na saúde bucal (WINTER et al., 2015).
O Projeto de Extensão AOMI é desenvolvido com uma carga horária de quatro
horas semanais durante o semestre letivo, e está cadastrado nos projetos unifica-
dos com o código 159, sendo executado no quarto andar da FO-UFPel. Neste con-
texto, a média de consultas de cada criança no terceiro ano de vida é de 4,14, pois
não é raro o abandono do acompanhamento após terem seu problema resolvido,
bem como precisarem de muito mais consultas quando houver doença instalada.
A tabela 1 mostra um resumo de alguns dados do projeto AOMI, evidenciando que
nas crianças de demanda espontânea, a presença de um problema na cavidade
bucal foi significativamente maior e no grupo que ingressou mais tarde a média de
consultas foi praticamente a mesma dos demais grupos, com a diferença que uma
mesma criança realizou até 17 consultas. Também se observa não existir diferença
de procura entre os sexos, que a maioria das crianças tem a cor da pele branca,
com mães tendo mais de oito anos de estudo e renda familiar entre 1,1-2,9 salários
mínimos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 591
Tabela 1- Características sociodemográficas e da assistência das crianças, de acordo
com o período de ingresso no projeto AOMI (n=815).

Ingresso no projeto AOMI (%)


Variáveis (n) Na gestação <12 meses 12-23 meses P
296 (36,3) 279 (34,2) 240 (29,5)
Sexo Masculino (414) 155 (37,4) 134 (32,4) 125 (30,2) 0,521*
Feminino (401) 141(35,2) 145 (36,2) 115 (28,7)
Cor da Pele ○ Branca (625) 230 (36,8) 222 (35,5) 173 (27,7) 0,080*
Não branca (142) 65(45,8) 38 (26,8) 39 (27,4)
Filho único Sim (317) 115 (36,3) 97 (30,6) 105 (33,1) 0,002*
Não (414) 181 (43,7) 144 (34,8) 89 (21,5)
Escolaridade ≤ 8 anos de estudo (301) 113 (37,5) 106 (35,2) 82 (27,3) 0,781*
Materna ○ >8 anos de estudo (486) 183 (37,7) 161 (33,1) 142 (29,2)
Renda Familiar ◊ ≤ 1 SMB (186 ) 78 (41,9) 65 (35,0) 43 (23,1) 0,291*
1,1-2,9 SMB (337) 121 (35,9) 119 (35,3) 97 (28,8)
≥ 3 SMB (221) 97 (43,9) 73 (33,0) 51 (23,1)
Motivo da con- Prevenção (539) 290 (53,8) 154 (28,6) 95 (17,6) <0,001*
sulta Presença de problema 06 (2,2) 125 (45,3) 145 (52,5)
(276)
Média de idade da primeira consulta (DP) 5,4 (2,84) 6,8(3,24) 18,5 (3,32) <0,001 ◊
Média do total de visitas (DP) 4.2(1,26) 4,2 (1,52) 4.0 (2,93) 0,612 ◊
Número máximo de consultas 10 12 17
* Teste Qui-quadrado ○ Falta dados ** SMB=salários mínimos brasileiros ◊ Teste Kruskal Wallis
Fonte: Autores.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 592
Figura 3 - Esquema
das ações
desenvolvidas no
projeto AOMI no
primeiro e segundo
anos de vida.
Fonte: Autores. PRIMEIRO
SEGUNDO

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 593
Figura 4- Principais
agravos bucais no
terceiro ano de vida,
porcentagem de
acordo com o ano do
ingresso do bebê no
projeto de extensão
AOMI (n=815).
Fonte: Autores.

Embora o grande objetivo do projeto AOMI seja realizar a prevenção das do-
enças bucais, a assistência especializada nesta faixa etária é importante, uma
vez que vários problemas bucais são detectados neste período da vida do bebê.
Avaliando a porcentagem dos principais agravos presentes nas crianças unindo
as que fizeram PRO e as que ingressaram antes do primeiro ano de vida (Fig. 4),
observa-se que alterações na oclusão foram as mais frequentes. Pegoraro et al.
(2018) descreveram que nas crianças assistidas no projeto AOMI, a mordida aberta
anterior foi a alteração oclusal mais prevalente e que a presença de maloclusão es-
teve fortemente associada ao uso da chupeta por 24 meses ou mais, assim como
o aleitamento exclusivo por menos de seis meses. A promoção da amamentação
exclusiva até os seis meses de idade, além de prevenir doenças e transtornos na
infância, deve ser uma estratégia populacional eficaz para prevenir a má oclusão
(PERES et al., 2015). Estes dados reforçam os achados de Pereira et al. (2018), do
papel do uso prolongado da chupeta na presença de alterações oclusais e de Costa
et al. (2018) que descreveram que o uso da chupeta aumenta as chances de apre-
sentar maloclusão moderada/severa em 9,8 vezes mesmo nas crianças amamen-
tadas exclusivamente até seis meses.
No projeto AOMI, as alterações em tecidos moles têm sido mais frequentes no
primeiro ano de vida, principalmente pela presença de alterações congênitas como
no frênulo lingual que teve, desde 2014, com a lei do teste da linguinha (AGOSTI-
NE, 2014) a sua busca para avaliação e conduta aumentado. Também pelos cis-
tos de inclusão, alteração no freio labial ou alterações adquiridas como cistos/
hematomas de erupção, gengivoestomatite herpética primária, mucocele e etc.
Assim, é importante o conhecimento das manifestações bucais em tecidos moles
e estar apto a realizar a conduta clínica adequada em cada uma delas. Outro fator
presente na condição bucal dos bebês são os traumatismos bucais que no projeto
AOMI, estando presente em 17,8% quando o ingresso foi no primeiro ano para
32,4% quando no segundo. Este maior acometimento pode ser reflexo da procura
tardia ser por traumatismo, uma vez que o maior acometimento ocorre entre um
e dois anos de idade, chegando a acometer 39,9%, das crianças, provavelmente
pelo começo do aprendizado de andar que, aliado aos fatores fisiológicos e com-
portamentais, eleva as chances de acidentes (CUNHA; PUGLIESI; VIEIRA, 2001).
Nas alterações dentárias estão incluídas pigmentações extrínsecas, anomalias
de forma (fusão), número (agenesias e hiperdontia) e os defeitos de desenvolvi-
mento de esmalte (DDE) que são os mais comuns. Os DDE podem ser resultado
de complicações durante a gestação e prematuridade, sendo também fator de
risco para presença da cárie dentária (COSTA et al., 2018). Independente do tipo
de alteração dentária, o diagnóstico precoce permite um planejamento ideal do

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 594
tratamento, com a intervenção no momento oportuno, para minimizar complica-
ções no desenvolvimento oclusal e reduzir a necessidade de tratamento posterior.
Por fim, a doença cárie dentária esteve dentre os agravos bucais mais prevalen-
tes no terceiro ano de vida, acometendo quase metade das crianças que procura-
ram o projeto a partir do segundo ano de vida. Esta doença pode provocar uma sé-
rie de sequelas orgânicas e psicológicas, sendo fundamental iniciar a sua preven-
ção no primeiro ano de vida, evitando sua instalação ou pelo menos, diminuindo a
sua extensão (LEMOS et al., 2014). A cárie dentária é a principal causa da presença
de dor e importante fator na má qualidade de vida relacionada à saúde bucal, cau-
sando impacto negativo nas atividades diárias das crianças (FREIRE; CORRÊA-FA-
RIA; COSTA, 2018). Desta forma, o projeto AOMI prioriza a atenção precoce, se
possível durante os primeiros mil dias de vida da criança para proporcionar melhor
saúde bucal, pois é com o acompanhamento longitudinal e motivação constante
das mães/famílias que as crianças mantêm a saúde bucal.
Cabe destacar que, para efetivar sua execução, o projeto AOMI conta com a
participação de professores de diferentes áreas, alunos da pós-graduação e da
graduação que são operadores ou auxiliares clínicos. Desde sua origem tem co-
laborado com a formação de graduação e, a partir de 2010, com a pós-graduação
(mestrado e doutorado com ênfase em Odontopediatria ou Endodontia, residên-
cia multiprofissional em saúde da criança), e seus resultados proporcionaram vá-
rios trabalhos de conclusão de curso, duas dissertações e duas teses. Produzir co-
nhecimento para melhorar as ações do projeto e da especialidade; ser um agente
multiplicador de saúde familiar; e também de desmistificar, na formação, a odon-
tologia na gravidez, tem sido os grandes objetivos do projeto, atuando no tripé:
ensino, pesquisa e extensão.

O reflexo do pré-natal odontológico (PRO) na


prevenção da cárie dentária
O tratamento preventivo, além de ter um impacto positivo no bem-estar emo-
cional das crianças (ALSUMAIT et al., 2015), tem evidenciado ser efetivo na redu-
ção da cárie da primeira infância seja em programas voltados à atenção precoce
do bebê (THOELE et al., 2008; WIGEN et al., 2011) ou iniciados durante a gravidez
(MEDEIROS et al., 2015; PLUTZER; SPENCER, 2008). Mas quando as crianças fa-
zem a primeira consulta antes de completarem um ano de vida e têm a mesma
atenção odontológica pós-natal, será que existe impacto em realizar o pré-natal
odontológico? Em 2015, França-Pinto em sua tese de doutorado, com dados do
projeto AOMI, demonstrou que a atenção odontológica nos primeiros mil dias re-
fletia positivamente na saúde bucal das crianças, incentivando-nos a continuar es-
tas ações.
Assim, será apresentada uma atualização dos dados do efeito sobre a cárie
dentária no terceiro ano de vida da atenção PRO em comparação com um grupo
de crianças que ingressaram antes do primeiro ano de vida no projeto AOMI. Foi
conduzida uma avaliação retrospectiva de dados de prontuários de bebês acom-
panhados desde o primeiro ano de vida no projeto AOMI no período de 2007 a
2018. O projeto AOMI mantém um banco de dados, no qual estão contidas as in-
formações obtidas dos prontuários das crianças para realização de pesquisas, sen-
do aprovado pelo parecer 57/2013 do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade
de Odontologia da UFPel. Além disso, as gestantes/mães assinaram um termo de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 595
consentimento livre e esclarecido. Os dados são coletados em uma ficha específi-
ca, de forma padronizada, por uma única pessoa, seguindo critérios pré-definidos,
tanto da anamnese, como do exame físico da cavidade bucal e contendo as variá-
veis de interesse para diferentes estudos.

Figura 5 - Diagrama
para avaliação do
reflexo do pré-natal
odontológico no
terceiro ano de vida
(n=354).
Fonte: Autores.

Nesta avaliação foram incluídos os bebês assistidos no projeto AOMI cujas mães
aderiram à proposta (Fig. 5), ou seja, vindo pelo menos uma consulta em cada ano
de vida e que a condição da cavidade bucal com relação à cárie dentária do bebê
estivesse corretamente preenchida. Da anamnese foram considerados os dados:
sociodemográficos, relato materno da frequência diária de ingestão de sacarose
do segundo ano de vida (até 7 ou > 7) e do início da higiene bucal com os dados
referentes à erupção do primeiro dente a partir do relato materno ou do próprio
exame (antes da erupção=sem dente; com a erupção= diferença de até 2 meses
entre o início e a presença dos primeiros dentes; após a erupção= quando o início
foi depois de 2 meses da erupção do primeiro dente). Dos registros do exame fí-
sico da cavidade bucal dos bebês foram coletados dados referentes ao segundo
e terceiro anos de vida, sendo considerado o mais próximo de 23 e 35 meses de
idade, respectivamente. Foi considerada a presença de espaços no arco dentário,
a presença de placa bacteriana e a condição dos dentes em relação à cárie dentá-
ria. A avaliação da cárie dentária na primeira infância no terceiro ano de vida foi
conduzida conforme Drury et al. (1999), ratificadas pela academia Americana de
Odontopediatria (AAPD, 2019b), ou seja, presença em superfícies lisas de lesões
cariadas, incluindo lesões não cavitadas em esmalte ou restauradas (CPI-s: média
de superfícies acometidas).
Também foi considerada a percepção profissional da motivação materna, a
qual foi observada pela equipe de atendimento, quando diferentes avaliações en-
tre consultas, foi considerada a de maior frequência no período de três anos. A
mãe com alta motivação estava atenta e preocupada com a saúde bucal do seu
filho (a) mesmo que com dificuldades em atender às adequações sugeridas; na
média motivação aquela mãe que embora estivesse atenta e preocupada com a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 596
saúde bucal do seu filho (a), encontrava dificuldade para tudo, mesmo responden-
do às sugestões de adequações; a mãe com baixa motivação era aquela desatenta,
que desviava o olhar quando estava recebendo as orientações, responsabilizando
o próprio filho (a) de cuidar da boca e não atendendo as sugestões de adequações.
Para fins de avaliação, a motivação materna observada foi dicotomizada em alta
e média-baixa.
Inicialmente, foi realizada uma análise para caracterização da amostra com
presença ou ausência do pré-natal odontológico (PRO), utilizando Teste Exato de
Fisher para variáveis categóricas e o Teste Mann–Whitney para as quantitativas.
Após, foi conduzida uma análise multivariada pela Regressão de Poisson com va-
riância robusta estimando-se o Risco Relativo (RR) de haver CPI no terceiro ano de
vida associada aos fatores independentes, com Intervalo de Confiança (IC) de 95%
e nível de significância de 5%.
Os exames e tratamentos realizados no projeto de extensão AOMI são conduzi-
dos por estagiários voluntários graduandos do curso de Odontologia, com acom-
panhamento direto do professor orientador. Para padronizar os exames e condu-
tas, no início de uma nova turma de estagiários, são apresentados os prontuários
utilizados nos atendimentos e são ministrados seminários sobre as condutas. Os
exames clínicos dos bebês de até 12 meses de idade são realizados na macri (ca-
deira especial para atendimento de bebês). A partir dessa idade as crianças são
examinadas utilizando-se a técnica joelho a joelho e, conforme comportamento
da criança, os exames passam a ser realizados na cadeira odontológica.

Tabela 2- Caracterização da amostra de acordo com a presença ou ausência do pré-natal


odontológico (n = 354).

Pré-natal Odontológico
VARIAVÉIS PRESENTE AUSENTE P
224 N (%) 130 N (%)
Cárie na primeira infância (CPI) 0,004*
Ausente (317) 209 (93,3) 108 (83,1)
Presente ( 37) 15 (6,7) 22 (16,9)
Sexo da criança 0,011*
Masculino (176) 123 (69,9) 53 (29,8)
Feminino (178) 101 (56,7) 77 (43,3)
Semana gestacional 1,000*
A termo (322) 204 (63,3) 118 (36,7)
Pré-termo (32) 20 (62,5) 12 (37,5)
Escolaridade Materna 0,501*
≤ 8 anos de estudo (142) 93 (65,5) 49 (34,5)
> 8 anos de estudo (212) 131 (61,8) 81 (38,2)
Motivação Materna 0,025*
Alta (241) 143 (59,3) 98 (40,7)
Média-baixa (113) 81 (71,7) 32 (28,3)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 597
Pré-natal Odontológico
VARIAVÉIS PRESENTE AUSENTE P
224 N (%) 130 N (%)
Média (Desvio padrão)
Renda Familiar ○ (salário mínimo brasileiro) 2,5 (2,07) 2,7 (2,17) 0,766**
Número de irmãos 2,0 (1,11) 2,0 (1,24) 0,212**
Idade da primeira consulta (meses) 5,1 (2,57) 7,0 (3,06) <0,001**
Idade da Primeira higiene bucal (meses) 5,4 (3,90) 6,6 (3,99) 0,004**
Idade da erupção do primeiro dente (meses) 8,0 (1,94) 8,3 (2,65) 0,218**
Frequência de sacarose no 2o. ano de vida (vezes) 7,0 (2,81) 6,8 (3,10) 0,169**
Idade da avaliação no 3º. ano de vida (em meses) 30,9 (3,42) 31,1 (3,61) 0,470**
Número de visitas no 3º. ano de vida 4,5 (2,30) 4,6 (2,48) 0,676*
Número médio de superfície acometidas no 3º. ano 0,35 (1,43) 0,82 (2,56) 0,007**
Número de visitas durante a gestação 2,6 (1,90) - -
Número total de visitas maternas 8,9 (6,06) 0,4 (1,30) <0,001**
*Teste Exato de Fisher **Teste Mann–Whitney
Fonte: Autores.

A idade média do exame foi aos 31 meses e as características dos 354 bebês da
amostra, conforme presença ou ausência do pré-natal odontológico (PRO) estão
descritas na Tabela 2. Das crianças com PRO, 93,3% estavam livres de cárie com-
paradas com 83,1% das sem PRO, tendo, respectivamente, em média 0,35 e 0,82
superfícies acometidas. A presença do PRO levou a uma significante menor preva-
lência de cárie da primeira infância no terceiro ano de vida, mesmo apresentando
mais mães desmotivadas. É importante destacar que embora as crianças sem PRO
tenham tido mais CPI (16,9%), ao considerar as 354 crianças, os valores médios
foram baixos (10%) em comparação com os 34,3% registrados em Porto Alegre,
RS, para crianças com semelhança na idade e critério de avaliação (CHAFFEE et
al., 2015).
Na análise bruta (Tab. 3), observa-se que, isoladamente, apenas o sexo e a se-
mana gestacional não estão significantemente associados com a presença da cá-
rie na primeira infância no terceiro ano de vida. Foram fatores de proteção: a es-
colaridade materna ≥ oito anos de estudo, a renda familiar maior que dois salários
mínimos, a higiene bucal ter sido iniciada antes da erupção dos primeiros dentes
e a erupção dos primeiros molares terem sido com 16 ou mais meses de idade da
criança. Ao fazer os ajustes, apenas a maior escolaridade materna se manteve
como fator protetor. O maior risco CPI, na análise bruta, foi associado a: maior fre-
quência de sacarose (>7x/dia) no segundo ano, ter iniciado limpeza bucal após dois
meses ou mais da erupção do primeiro dente, ter uma qualidade ruim da limpeza
bucal observada pela presença placa visível no terceiro ano de vida, a ausência de
espaços interdentais, não ser filho único, a mãe ter baixa-média motivação e não
ter realizado o PRO. Após os ajustes, apenas a ausência de espaços entre os den-
tes que não se manteve associada a CPI no terceiro ano de vida.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 598
A cárie dentária é resultante de um desequilíbrio de múltiplos fatores de risco
e fatores de proteção ao longo do tempo (AAPD, 2019b). Os resultados do pro-
jeto AOMI corroboram com a literatura que aponta vários fatores relacionados
à etiologia da cárie na primeira infância: baixo nível socioeconômico (WARREN
et al., 2008), hábitos irregulares de alimentação (FELDENS et al., 2010) com um
consumo exagerado de alimentos e bebidas doces (WARREN et al., 2008), higiene
bucal pobre (WARREN et al., 2008) e elevados níveis de estreptococos do grupo
mutans (KISHI et al., 2009). Sendo que no AOMI, os filhos de mães que não reali-
zaram o PRO tiveram 3,01 vezes mais risco de desenvolverem cárie, mesmo que
todas as crianças tenham começado na idade ideal, ou seja, antes de completarem
o primeiro ano de vida (BRASIL, 2012). A motivação para introdução de hábitos de
prevenção e controle da cárie dentária, através de métodos simples e relativamen-
te baratos de cuidados pessoais, que incluem a higiene bucal o mais tardar com a
erupção do primeiro dente (AAPD, 2019b) pode ter favorecido. Mães com assis-
tência pré-natal odontológica tendem a trazer seu filho mais cedo para a primeira
visita ao dentista e iniciar mais cedo a higiene bucal de seus filhos (as).
Rodrigues et al. (2008) salientaram que este período é uma ótima oportunida-
de para se educar a mulher quanto à sua saúde e a de seu filho, uma vez que ela
se apresenta altamente receptiva, tanto para adquirir novos hábitos como para
mudar comportamentos. Ações para melhorar a saúde bucal de mulheres grávi-
das podem reduzir os gastos para tratamento da doença cárie na primeira infância
(BUERLEIN; HOROWITZ; CHILD, 2011), uma vez que podem melhorar a saúde dos
seus filhos (MEYER et al., 2010). As mães com PRO tiveram atenção odontológica
integral e identificar mulheres gestantes com altos valores de cárie dentária e saú-
de bucal precária, educando-as sobre a importância de sua própria saúde bucal e a
saúde futura de seus filhos podem ajudar a mudar a sua trajetória de saúde bucal
(APPD, 2019a), especialmente, quando houver mais filhos e que o tempo materno
é dividido.
Também o tratamento restaurador e a mudança de seus hábitos pode ter pro-
vocado uma diminuição do número de bactérias da saliva e assim, a possibilida-
de de retardar a contaminação do bebê com os estreptococos do grupo mutans
(KISHI et al., 2009). Além disso, enquanto muitas gestantes experimentaram dor
de dente (KRÜGER et al. 2015), o que pode ter levado a cuidarem melhor de seus
filhos para evitar que sentissem o mesmo. Esse resultado, provavelmente, está
relacionado à condição de responsabilidade da mãe em relação à saúde bucal da
criança nesta idade (FADEL; WAGNER; FURLAN, 2008). Embora outros familiares
possam desenvolver essa função, a mãe é ainda a maior responsável, tornando-se
a melhor transmissora para a introdução de novos hábitos familiares, especial-
mente na época da gestação, quando sua atenção e preocupação estão elevadas
(RIGO; DALAZEN; GARBIN, 2016). Como enfatizam Medeiros et al. (2015), a assis-
tência odontológica pré-natal é um importante período para inspirar práticas po-
sitivas para as mulheres, o que pode refletir ao longo da vida na sua saúde bucal .
O pré-natal odontológico do projeto AOMI, além de promover saúde bucal às
mulheres gestantes, desmistificando os tabus e mitos existentes, mostrou um re-
flexo positivo na saúde bucal de seus filhos, evidenciando a efetivação do lema:
“serei capaz de cuidar da saúde bucal do meu filho se souber e for capaz de cuidar
da minha”. Desta forma, o projeto AOMI prioriza a atenção precoce, se possível
durante os primeiros mil dias de vida da criança para proporcionar melhor saúde
bucal, pois é com o acompanhamento longitudinal, visitas regulares e com moti-
vação constante que as crianças mantêm a saúde bucal.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 599
Tabela 3 – Análise bruta e ajustada da associação entre o número de superfícies dentárias
acometidas (CPI-s) no terceiro ano de vida e diferentes variáveis independentes (n=354).

CPI-S (superfícies cariadas com lesões não cavitadas


Variáveis e obturadas)
RRB (IC 95%) valor-p RRA (IC 95%) valor-p
Sexo Masculino 1,00 0,657 1,00 0,096
Feminino 0,94 (0,70-1,25) 0,77 (0,57-1,05)
Semanas A termo (≥37 semanas) 1,00 0,402 1,00 0,176
gestacionais Pré-termo (<37 semanas) 1,22 (0,77-1,94) 1,39 (0,86-2,26)
Filho único Sim 1,00 0,023 1,00 0,013
Não 1,43 (1,05-1,94) 1,50 (1,09-2,07)
Renda familiar ≤ 2,0 SMB 1,00 0,016 1,00 0,361
>2,0 SMB 0,68 (0,50-0,93) 1,18 (0,82-1,70)
Escolaridade ≤ 8 anos de estudo 1,00 <0,001 1,00 0,014
Materna >8 anos de estudo 0,46 (0,34-0,61) 0,64 (0,45-0,91)
Motivação Alta 1,00 <0,001 1,00 <0,001
materna Média-Baixa 4,23 (3,12-5,74) 2,04 (1,42-2,93)
Frequência ≤ 7 vezes/dia 1,00 <0,001 1,00 <0,001
de sacarose
no 2o. ano >7 vezes/dia 6,71 (4,64-9,69) 4,41 (2,98-6,52)

Início da Com a erupção 1,00 <0,001 1,00


higiene bucal Após 2 meses da erupção 2,51(1,76-3,57) 2,09 (1,46-3,00) <0,001
Antes da erupção 0,50 (0,35-0,71) 0,75 (0,53-1,08) 0,125
Espaços Presente 1,00 <0,001 1,00 0,015
interdental Ausente 2,36 (1,77-3,16) 1,47 (1,08-1,99)
Erupção do < 16 meses 1,00 0,004 1,00 0,070
primeiro Molar ≥ 16 meses 0,64 (0,48-0,87) 0,75 (0,56-1,02)
Placa dentária Ausente 1,00 <0,001 1,00 <0,001
visível no 3o. Presente 3,66 (2,36-5,66) 2,30 (1,44-3,68)
ano
Pré-natal Presente 1,00 <0,001 1,00 <0,001
Odontológico Ausente 2,36 (1,77-3,16) 3,01 (2,19-4,13)
RR- Risco Relativo B- bruta A- adjustada IC=Intervalo de confiança SMB=Salário mínimo brasileiro
Fonte: Autores.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 600
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Agradecimentos

À professora Doutora em Odontopediatria Marina Sousa Azevedo, pelo desprendimento eincen-


tivo para que houvesse a submissão deste capítulo mesmo que, pelas regras do edital, seu nome
não pudesse constar como coautora, em virtude de já estar participando de outro texto do livro. A
Marina faz parte da história do projeto AOMI, sendo professora orientadora, coordenadora adjunta
do projeto AOMI e atuante por quase 15 anos, seja na condição de graduanda, pós-graduanda e
professora do Departamento de Odontologia Social e Preventiva.

A todos os auxiliares, operadores clínicos e supervisores que fizeram parte da família AOMI, em
especial as Rosanes (Sartori e Michelotto) que, em 1998, com seus questionamentos sobre os tabus
existentes na atenção odontológica na gestação, impulsionaram o inicio do pré-natal Odontológi-
co no projeto AOMI.

Às gestantes/mamães e aos bebês/crianças que foram assistidos no Projeto AOMI nestes 20 anos
de atuação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 604
SOBRE AS AUTORAS
Ana Regina Romano, graduada em Thays Torres do Vale Oliveira, gra-
em Odontologia pela UFPel. Doutora duada em Odontologia pela UFPel.
em Odontopediatria pela USP. Profes- Mestranda em Clínica Odontológica
sora do Departamento de Odontologia com ênfase em Odontopediatria pela
Social e Preventiva da Faculdade de FO-UFPel. Extensionista no projeto
Odontologia da UFPel. Orientadora e AOMI. E-mail: thaystorresdovale@
coordenadora do projeto de extensão [Link]
Atenção Odontológica Materno-Infan-
til (AOMI) desde a sua origem. E-mail:a- Fernanda Geraldo Pappen, gradua-
[Link]@[Link] da em Odontologia pela UFPel. Douto-
ra em Endodontia pela UNESP. Profes-
Marta Silveira Da Mota Krüger, sora do Departamento de Semiologia
graduada em Odontologia pela UFPel. e Clínica da Faculdade de Odontologia
da UFPel. Atuou vários anos no projeto
Doutora em Odontopediatria pela
AOMI, orientando na realização das en-
UFPel. Extensionista no projeto AOMI.
dodontias nas gestantes e/ou mamães.
E-mail: martakruger@[Link]
E-mail: ferpappen@[Link]
Andréia Drawanz Hartwig, gradua-
da em Odontologia pela UFPel. Douto-
ra em Clínica Odontológica com ênfase
em Odontopediatria pela FO-UFPel.
Extensionista no projeto AOMI. E-mail:
andreiahartwig@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº1 605
PROGRAMA DE PRIMEIROS
SOCORROS ARTICULANDO
RELAÇÕES DA UNIVERSIDADE
COM A COMUNIDADE

Norlai Alves Azevedo


Celmira Lange
Eda Schwartz
Maurílio da Luz Rodrigues Fernandes
Guilherme Silveira Onofre
Cristiana Escobar Bast

Apresentação
Contextualizar a época histórica e política de saúde torna-se importante para
compreender a evolução da atuação em projetos em que foi criado o projeto de
extensão Programa de Treinamento em Primeiros Socorros para Comunidade, na
Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). No início
de 1990, com a contratação de novos professores na Faculdade de Enfermagem,
havia uma professora que já atuava como voluntária, anterior à contratação na
UFPel em capacitação de funcionários de empresa pública, na prevenção de aci-
dentes e atuação em atendimento de urgência e emergência pré-hospitalar. Di-
ante da experiência profissional na área, criou o projeto de extensão que é manti-
do até hoje, com grande repercussão na comunidade.
Desde o ano de sua criação até o momento, o projeto contou com três coor-
denadores e diversos docentes, pós-graduandos, técnicos-administrativos e dis-
centes como integrantes. Foram coordenadoras do projeto as professoras douto-
ras Celmira Lange, Eda Schwartz e, atualmente, Norlai Alves Azevedo.
Nas décadas de 1980 e 1990, não havia o Serviço de Atendimento Móvel de
Urgência (SAMU) em Pelotas e nem no país, e diante das estatísticas de morbimor-
SAÚDE Nº2

talidade por causas externas e das solicitações, por parte da comunidade, em ori-
entar pessoas leigas no atendimento de agravos à saúde no pré-hospitalar, fez-se

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 606


necessária a criação do projeto, que levou seu conhecimento além dos muros da
universidade. Neste período, havia poucos recursos humanos para desempenhar
o atendimento pré-hospitalar, a comunidade contava apenas com o auxílio dos
bombeiros e policiais militares.
Na década de 1980, as causas externas se destacaram no ranking da morbi-
mortalidade, tanto no cenário mundial, quanto no brasileiro, principalmente nas
áreas urbanas, tendo como suas principais vítimas os homens jovens. Diante deste
cenário, as causas externas se tornam uma questão de saúde pública importante e
a sua prevenção tornou-se uma prioridade na área da Saúde (BRASIL, 2015).
Os tipos de causas externas são os traumatismos, as lesões ou outros agravos
à saúde, podendo ser intencionais ou não, abrangendo as lesões provocadas por
meio do transporte, homicídios, agressões, quedas, afogamentos, envenenamen-
tos, suicídios, queimaduras e, também, por circunstâncias ambientais (BRASIL,
2015).
No Rio Grande do Sul, o número de óbitos por causas externas variou de 6.422
(1999) a 7.397 (2007), com média anual de 6.894,5 óbitos. Em Pelotas-RS, as cau-
sas externas de morte se modificaram de acordo com a faixa etária e o sexo. Entre
1996 e 2009, a taxa de mortalidade por causas externas foi maior entre os homens
do que entre as mulheres. As taxas mais elevadas foram observadas no grupo etá-
rio maior de 39 anos, em ambos os sexos. Também foi observado que a maior taxa
total foi em homens de 15 a 39 anos, no biênio 1996-1997: 146,6 por 100 mil habi-
tantes (COSTA et al., 2013).
Revendo a história sobre o atendimento pré-hospitalar, encontramos que, no
ano de 1893, o senado brasileiro aprovou uma lei que estabelecia o socorro médi-
co de urgências em vias públicas, sendo esse um dos primeiros registros sobre o
atendimento pré-hospitalar no Brasil (FRANÇA; MARTINO, 2013). No ano de 1949,
surge o Sistema de Atendimento Médico Domiciliar (SAMDU), instituído pelo De-
creto nº 27.664 de 30 de dezembro de 1949, cujo objetivo era o atendimento nas
residências, nos locais de trabalho e nos hospitais, com a presença de um médico.
A assistência pré-hospitalar brasileira está diretamente conectada à institu-
ição militar. Em 1899, os bombeiros do Rio de Janeiro apresentaram a primeira
ambulância a entrar em atividade, ainda de tração animal, sendo este o primeiro
registro no país. A partir daí, as ambulâncias foram evoluindo e se mecanizando,
adequando-se ao serviço, de modo que outras instituições aderiram a essa propos-
ta (SILVA et al., 2010).
O atendimento pré-hospitalar no Brasil começou a ser mais consistente e ter
maior discussão durante a década de 1990 (BRASIL, 2006). Em novembro de 2002,
foi editada a Portaria n° 2.048/GM pelo Ministério da Saúde, que define o aten-
dimento pré-hospitalar como aquele prestado à vítima em um primeiro nível de
atenção, após ter ocorrido algum agravo à sua saúde, fora do ambiente hospita-
lar, podendo levar a vítima ao sofrimento e até mesmo à morte, sendo necessário
prestar-lhe atendimento e/ou transporte adequado aos demais serviços de saúde
integrado ao Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2002).
O serviço de atendimento médico de urgência (SAMU) surgiu no estado do Rio
Grande do Sul na metade da década de 1990, na cidade de Porto Alegre, quando
foi realizado um termo de cooperação técnica junto à França (RAMOS; SANNA,
2005). Em setembro de 2003, foi editada a Portaria 1864, que instituiu o compo-
nente pré-hospitalar móvel da Política Nacional de Atenção às Urgências, através
da implantação de Serviços de Atendimento Móvel de Urgência, disque 192, em
todo o território brasileiro, assim como suas centrais de regulação e seus núcleos

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 607
de educação em urgência. Já em Pelotas, os Serviços de Atendimento Móvel de
Urgência começaram a atuar em agosto de 2005.
Diante deste cenário, a Faculdade de Enfermagem, por meio de seus docen-
tes, sentiu a necessidade de se engajar com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura
(PREC), propondo projetos de extensão, dentre os quais o Projeto Programa de
Treinamento em Primeiros Socorros para a Comunidade, como forma de atender
a demanda das comunidades e preparar os profissionais de saúde e a sociedade
em geral para prevenir acidentes, minimizando sequelas e a mortalidade.
Neste sentido, pesquisas feitas nos Estados Unidos e no Canadá demonstraram
que a sobrevivência de vítimas de parada cardíaca fora do hospital é, em média,
6,4% ou menos. Porém, o desenvolvimento de programas de treinamento em re-
animação cardiorrespiratória por socorristas leigos da comunidade melhorou a
sobrevivência à alta hospitalar de vítimas de parada cardíaca testemunhada. E,
ainda, socorristas leigos e policiais treinados em aeroportos e cassinos relataram
taxas de sobrevivência de 49% a 74%, decorrentes de parada cardiorrespiratória
testemunhada (AHA, 2005).
Destarte, a construção de uma sociedade mais preparada na promoção da saú-
de, prevenção de acidentes, além de um primeiro atendimento mais adequado
em situações de urgência na área da saúde, é fator essencial para o sucesso do
desfecho de agravos à saúde. Deste modo, proporciona-se uma sociedade mais
justa e empoderada no conhecimento relacionado ao atendimento pré-hospitalar
em casos de agravos à saúde.
Em face disso, este capítulo tem como objetivo descrever a trajetória do proje-
to de extensão Programa de Treinamento em Primeiros Socorros para a comuni-
dade.

Discussão
Os projetos da universidade como propulsores de
visibilidade e atendimento a demandas da sociedade
O projeto Programa de Treinamento em Primeiros Socorros para Comunidade
permitiu uma formação diferente do projeto pedagógico tradicional para uma rea-
lidade de currículo mais integrado à sociedade e constituiu um momento ímpar de
avaliação e diferentes oportunidades para os acadêmicos. Assim, tornou-se uma
importante ferramenta para o desenvolvimento das competências colaborativas
na formação de estudantes na área da saúde junto com a comunidade, atuando
em diversos cenários, tais como escolas, Companhia Estadual de Energia Elétrica,
hospitais, unidades básicas de saúde, unidades acadêmicas de universidades, em-
presas, entre outros.
É importante destacar a relevância do diálogo e do estabelecimento de parce-
rias entre as diversas instituições de ensino, saúde, empresas, despertando para a
necessidade de implementar a educação para o cuidado em atenção pré-hospita-
lar como um direito de todas as pessoas. Isto posto, demonstra-se o engajamento
de universidade e comunidade. A inovação, o desenvolvimento do conhecimento
e o papel da universidade no contexto da sociedade permitiram, já naquela época,
1990, identificar o papel da Faculdade de Enfermagem, participando no conjunto
em que o cuidado pré-hospitalar com o ser humano com agravos de saúde fosse
uma inovação para o desenvolvimento da sociedade e os desafios da Universidade
nesse processo.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 608
Caracterização do projeto
Ao longo de seus vinte e nove anos de existência, o projeto buscou desenvol-
ver suas atividades por meio de oficinas, treinamentos, palestras e sensibilização
dos envolvidos para que efetivamente tivessem uma participação ativa durante os
treinamentos. Neste movimento, também foi necessário elaborar folders educati-
vos sobre primeiros socorros. A proposta que se apresentava era iniciar com uma
pequena introdução teórica, posteriormente prática, e depois todos os participan-
tes atuavam nas simulações de situações de atendimento em primeiros socorros
propostos por professores e acadêmicos, ancorado nas experiências prévias de
agravos à saúde.
A demanda do projeto sempre foi espontânea, ou seja, a comunidade solicita
ao coordenador, a um componente do grupo ou até mesmo ao Departamento de
Enfermagem ou Direção da Faculdade de Enfermagem, e, em conjunto, os alu-
nos, a coordenadora e os solicitantes decidem as ações a serem desenvolvidas,
tais como datas e horários, temas e metodologia a ser empregada para atender
tais demandas.
É importante mencionar que adaptamos os cursos e treinamentos de acordo
com os cenários que teremos para atuar. Atualmente, o projeto ocorre na Facul-
dade de Enfermagem, em encontros semanais, nos quais são preparadas as ati-
vidades. Depois de definidos o local e os temas a serem abordados, bem como o
número de participantes, os alunos são divididos e preparam a parte teórica para,
posteriormente, apresentarem para todo o grupo de componentes, momento em
que todos podem opinar, sugerindo mudanças no texto. Assim, ocorridas as mu-
danças sugeridas, a parte teórica é apresentada novamente. Após, treinamos a
simulação da prática, até que se entenda que todos estão aptos a atender as ne-
cessidades da população que solicitou tal atividade.
Nesse sentido, durante todos os anos de atividades, o projeto já atendeu cen-
tenas de solicitações, de escolas municipais, estaduais e particulares, bem como
hospitais, unidades básicas de saúde, polícia rodoviária federal, agentes comunitá-
rios de saúde, escolas agrícolas e inúmeros cursos da própria universidade, através
de treinamento para os servidores técnico-administrativos, curso de segurança do
trabalho, mestrado em odontopediatria, cursos em semana da Comissão Interna
de Prevenção de Acidentes (CIPA) na Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, no
Hospital São Francisco de Paula, Sociedade Beneficência Portuguesa e no Pron-
to-Socorro, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-granden-
se (IFSul), Campus Pelotas-Visconde da Graça (CAVG) e Companhia Estadual de
Energia Elétrica (CEEE) em Pelotas, FENADOCE, entre outros eventos.
O projeto também já atendeu a maioria dos municípios da zona sul do Estado,
como: São Lourenço do Sul, Turuçu, Pedro Osório, Pinheiro Machado, Rio Grande,
Piratini, Cerrito, Capão do Leão, Encruzilhada do Sul, Santa Vitória do Palmar, Ja-
guarão e Santana da Boa Vista.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 609
Figura 1 - Docentes
e discentes da
Faculdade de
Enfermagem -
UFPEL realizando
Capacitação em
Primeiros Socorros
para equipe
multidisciplinar das
Unidades Básicas
de Saúde da área
rural no Município de
Turuçu/RS.
Fonte: Arquivo
pessoal.

Dentre os muitos eventos, relatamos a seguir algumas participações do projeto


Figura 2 - para atender às solicitações de comunidades.
Capacitação em No início de sua criação, o projeto participou de uma capacitação dos funcioná-
atendimento pré-
hospitalar para a rios da CEEE, em prevenção de acidentes em rede elétrica de alta tensão e atendi-
comunidade de mento pré-hospitalar.
Piratini/RS. Em março de 1995, em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura
Fonte: Arquivo (PREC) e o Departamento de Extensão e Cultura (DEXT), o Núcleo de Profissiona-
pessoal. lização de Agricultores, Emater e Embrapa, em convênio com a UFPEL , foi realiza-
do treinamento em primeiros socorros
pelo projeto para agricultores oriundos
de assentamentos do Capão do Leão,
Canguçu, Piratini e Encruzilhada do Sul.
Em outubro de 1995, o projeto parti-
cipou na primeira FECRIANÇA de Pelo-
tas, orientando pais, crianças e adoles-
centes na prevenção dos mais diversos
acidentes que podem ocorrer na infân-
cia. Entre as orientações abordadas,
salientamos o cuidado com o manuseio
de produtos químicos, acidentes mais
comuns na cozinha, como fogo, pane-
las quentes, água fervendo, objetos
pontiagudos e cortantes, asfixia por sa-
cos plásticos, cobertores pesados e tra-
vesseiros fofos; evitar fraturas e lesões
ao deixar crianças pequenas sozinhas
sobre móveis trocadores, sofás e cama;
crianças em escadas e brincadeiras com
bicicletas, patinete, entre outros.
O projeto participou de um Progra-
ma da PREC, em 1996, que incluía de-
zessete cursos de graduação com seus

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 610
respectivos projetos de extensão, onde foi inserido o projeto de primeiros socor-
ros. Na ocasião, todas as primeiras quartas-feiras do mês a UFPEL enviava um ôni-
bus para os municípios de Pedro Osório, Piratini, Pinheiro Machado e Canguçú,
que tinha como objetivo realizar ações extensionistas nestes municípios por um
ano. Nessa época, o projeto contava com quatro alunos participantes. No decorrer
dos anos, o número de alunos variou de quatro a trinta e, atualmente, conta com
alunos, docentes e servidores técnico administrativos.
Em meados de 1996 até 2000, eram inseridas aulas de primeiros socorros mi-
nistradas por integrantes do projeto para os acadêmicos de enfermagem do sé-
timo semestre na Disciplina de Enfermagem Médico-Cirúrgica II. Já nesta época,
conseguíamos integrar a extensão com o ensino, o que tornava a aprendizagem
dos alunos mais atrativa e o ensino mais prazeroso, pela metodologia ativa que
era empregada.
Em 1998, a UFPEL, por meio da PREC, promoveu uma maratona no Campus
Capão do Leão, que contou com a participação de alunos e docentes do projeto
Programa de Primeiros Socorros para a Comunidade da Faculdade de Enferma-
gem, com atuação nas prováveis lesões ou agravos que os maratonistas viessem
a apresentar.
Em 2002, os integrantes do projeto foram convidados a participar de um pro-
grama financiado pelo Governo Federal, em parceria com o Governo Estadual,
através da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, que tinha como obje-
tivo capacitar em urgência e emergência todos os profissionais da área da saú-
de, dos municípios da Terceira Coordenadoria Regional de Saúde, em nível pré e
intra-hospitalar, bem como a comunidade em geral. Os seguintes cursos foram
oferecidos: - Avançado, para médicos e enfermeiros da área hospitalar Unidade de
Terapia Intensiva (UTI) e pronto-socorro; - Especialista, para médicos e enfermei-
ros da rede básica de saúde; - Profissionalizante, para os técnicos de enfermagem
da área hospitalar; - Médio, para técnicos de enfermagem da área da rede básica
de saúde, bombeiros e profissionais de nível médio da Empresa Concessionária de
Rodovias do Sul (ECOSUL); e, finalmente, - Básico, para a comunidade em geral,
motoristas, donas de casa, trabalhadoras de creches, entre outros.
Este projeto se deu em uma parceria do Corpo de Bombeiros de Pelotas com
a ECOSUL, a Faculdade de Enfermagem e a Terceira Coordenadoria Regional de
Saúde, sendo coordenado pela professora responsável pelo projeto de Primeiros
Socorros e os alunos, e construído e ministrado por docentes da Faculdade de En-
fermagem da UFPEL. Ao final das capacitações, foram realizados dois simulados
de acidentes com múltiplas vítimas, sendo o primeiro no Bairro Fragata, um aci-
dente com ônibus, e o segundo no antigo frigorífico Anglo, com divulgação na im-
prensa escrita televisionada.
Em 2006, o Projeto Rondon, realizado no Município de Pacaraima/Roraima,
contou com a participação de uma docente e dois alunos da Faculdade de Enfer-
magem, os quais ministraram oficinas de primeiros socorros para professores da
rede municipal, Agentes Comunitários de Saúde e Agentes Comunitários Indíge-
nas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 611
Figura 3 - Oficina de
primeiros socorros
para professores
da Rede Municipal
de Pacaraima/ RR -
Projeto Rondon.
Fonte: Arquivo
pessoal.

No aniversário dos 35 anos da Faculdade de Enfermagem, em 2011, uma nova


parceria se formou entre o Corpo de Bombeiros, ECOSUL, Pronto-Socorro e os
Projetos de Extensão da Liga de Atendimento Pré-hospitalar e Programa de Trei-
namento de Primeiros Socorros. Foi realizado um grande simulado de acidente
com múltiplas vítimas nas dependências do Campus Anglo, que contou com a di-
vulgação na mídia. No dia do evento, esteve presente a RBS/TV, que proporcionou
visibilidade à extensão universitária, UFPel e Faculdade de Enfermagem.

Figura 4 - Simulado
de acidentes com
múltiplas vítimas no
Campus Anglo/UFPel.
Fonte: Arquivo
pessoal.

Em 2018, ministramos treinamento em assentamentos do movimento dos Sem


Terra em Basílio/Pedro Osório, e também em uma ocupação no Capão do Leão,
tornando uma experiência ímpar para os alunos participantes, os quais ainda não
tinham vivenciado a realidade destas comunidades.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 612
Figura 5 -
Treinamento com os
assentados no Capão
do Leão/RS.
Fonte: Arquivo
pessoal.

O projeto Programa de Treinamento em Primeiros Socorros para Comunidade


vem participando da Feira Nacional do Doce (FENADOCE), em todas as edições
nas quais a UFPel se fez presente, por meio de oficinas, distribuição de panfletos
com orientações de prevenção de acidentes, promoção da saúde e treinamentos
práticos com manequins. Acreditamos que estes treinamentos são muito impor-
tantes tanto para a academia, quanto para a população, uma vez que propiciam
a integração da Universidade com as comunidades, ocorrendo, assim, a troca de
conhecimento entre elas.

Figura 6 -
Participação do
projeto na Fenadoce
Pelotas/RS.
Fonte: Arquivo
pessoal.

Participação em SEURS
Os integrantes do projeto participaram ativamente de diversos Seminários de
Extensão Universitária da Região Sul (SEURS), alguns dos quais ocorreram nos
anos de 2016, 2017 e 2018, respectivamente, nas cidades de Florianópolis/SC, por
meio de curso teórico-prático e apresentações de trabalho; em Pelotas/RS, com
apresentações de trabalhos orais; em Camboriú/SC, na modalidade de minicur-
so; em Foz do Iguaçu/PR, com apresentação de minicurso; e em Porto Alegre/RS,
na modalidade de minicurso, abordando temas referentes a primeiros socorros e
atendimento pré-hospitalar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 613
Figura 7 -
Participação do
projeto no SEURS em
Foz do Iguaçu/PR.
Fonte: Arquivo
pessoal

Os integrantes do projeto participaram, ainda, de semanas acadêmicas da


UFPEL, ministrando curso de primeiros socorros para os cursos de Odontologia,
Agronomia, Veterinária, Engenharia Madeireira, Enfermagem, entre outros.
Desde que foi criado o projeto Faculdade de Enfermagem Pesquisa e Extensão
(FEN Pesquisa e Extensão), cuja finalidade é dar visibilidade aos projetos de exten-
são e pesquisas da Faculdade de Enfermagem aos alunos ingressantes, o progra-
ma de primeiros socorros participou em todas as edições, por entendermos que
isso proporciona um retorno positivo, na medida em que os ingressantes, após
tomarem conhecimento dos referidos projetos, tem uma possibilidade maior de
escolha para sua inserção nos projetos disponíveis.

Inserção nos meios científicos através de pesquisa


Outra vertente do projeto de primeiros socorros é a sua inserção em meios cien-
tíficos, através da pesquisa e de trabalhos publicados. Construímos um projeto de
pesquisa que teve como objetivo investigar o conhecimento dos acadêmicos dos
cursos e faculdades da UFPel a respeito do atendimento de primeiros socorros, a
partir do qual já se realizaram duas pesquisas de trabalho de conclusão de curso,
a saber: “Conhecimento de acadêmicos de enfermagem sobre primeiros socor-
ros em parada cardiorrespiratória”, autoria de Marina Peglow Bubolz; e “Conheci-
mento dos acadêmicos de Medicina, Terapia Ocupacional e Educação Física sobre
primeiros socorros em parada cardiorrespiratória”, autoria de Guilherme Silveira
Onofre, entre outros.
Contamos, ainda, com diversos trabalhos apresentados em congressos e publi-
cados em anais, bem como artigos e periódicos.
Pretendemos, também, concluir a escrita de um manual de primeiros socorros,
a ser editado em 2020, além de continuar trabalhando com a população em geral e
comunidades acadêmicas com a prevenção de acidentes e agravos à saúde, assim
como o atendimento pré-hospitalar. Ainda, proporcionar a troca de saberes entre
os integrantes do projeto e as diversas etnias e culturas locais e regionais.
Almejamos, outrossim, oportunizar a realização de pesquisas na área, publi-
car resultados, contribuindo com o aprendizado científico dos acadêmicos, bem
como auxiliar, por meio do conhecimento adquirido, na prática dos profissionais
de saúde.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 614
Este projeto de extensão fará parte, em 2020, da curricularização da extensão
da Faculdade de Enfermagem, oferecendo número de vagas para os alunos com
carga horária que venha atender a obrigatoriedade curricular, além da procura
espontânea de acadêmicos pelo projeto, pois entendemos que a extensão se faz
com interesse e responsabilidade, e estas premissas o movem.

Considerações finais
O projeto Programa de Treinamento em Primeiros Socorros para a Comunida-
de leva em consideração a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão,
promovendo uma interação transformadora entre Universidade e outros setores
da sociedade, por meio da difusão do conhecimento produzido.
É importante ressaltar que há mais de duas décadas já se fazia, por meio deste
projeto, a inserção de conteúdos de primeiros socorros em disciplina curricular da
graduação, ao passo que os projetos de extensão universitária, atualmente, deve-
rão fazer parte de todos os projetos políticos-pedagógicos dos cursos de gradua-
ção.
Acreditamos ser importante a continuidade do projeto de primeiros socorros
para a saúde da população, por meio da pesquisa, das reflexões dos conteúdos
teóricos estudados e da conscientização do conhecimento. As ações desenvolvi-
das pela extensão universitária vislumbram a transformação do pensar e agir da
população em relação à prevenção de acidentes e agravos à saúde no atendimen-
to pré-hospitalar, que tem sido a premissa do projeto nestes quase trinta anos de
existência ininterrupta.
O retorno demonstrado pela comunidade evidencia a contribuição de conheci-
mento produzido sobre atendimento pré-hospitalar às vítimas de trauma e outros
agravos à saúde, na intenção de reduzir sequelas e a taxa de mortalidade, o que
contribui para a construção de uma sociedade mais justa e ética.

Referências
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v. 16, n. 4, dez. 2005/fev. 2006.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção às Urgências. Brasí-


lia, 2006.

BRASIL. Ministério da Saúde. Comissão Intergestores Tripartite. Portaria nº 2048,


de 5 de novembro de 2002. Política Nacional de Atenção às Urgências. Brasília,
2002.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento


de Vigilância de Doenças e Agravos Não Transmissíveis e Promoção da Saúde.
Saúde Brasil 2014: uma análise da situação de saúde e das causas externas. Bra-
sília, 2015.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria do nº 1.864, de 29 de setembro de 2003.


Institui o componente pré-hospitalar móvel da Política Nacional de Atenção às
Urgências, por intermédio da implantação de Serviços de Atendimento Móvel de
Urgência em municípios e regiões de todo o território brasileiro: Samu 192. Brasí-
lia, 2003.

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COSTA, J. S. D. et al. Evolução da mortalidade por causas externas no município
de Pelotas e no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, 1996-2009. Epidemiol. Serv.
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FRANÇA, S. P. S.; MARTINO, M. M. F. Atendimento pré-hospitalar como estraté-


gia de promoção de saúde pública: revisão integrativa. Rev. Enferm. UFPE onli-
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RAMOS, V. O.; SANNA, M. C. A inserção da enfermeira no atendimento pré-hos-


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SILVA, E. A. C. et al. Aspectos históricos da implantação de um serviço de atendi-


mento pré-hospitalar. Rev. Eletr. Enf., v. 12, n. 3, p. 571-577, 2010.

SOBRE AS AUTORAS
Norlai Alves Azevedo, graduada em projeto de 1992 /1999.
Enfermagem pela FEN/UFPEL. Dou- E-mail: edaschwa@[Link]
tora em Medicina e Ciências da Saúde
pela PUCRS. Professora Associada da Maurílio da Luz Rodrigues Fernan-
FEN/ UFPEL. Coordenadora do proje- des, graduando em Enfermagem pela
to desde 2000. E-mail: norlai2011@ FEN/UFPEL. Monitor voluntário do
[Link] projeto desde março de 2019. E-mail:
maurilio_08@[Link]
Celmira Lange, graduada em En-
fermagem pela FEN/ UFPEL. Doutora Guilherme Silveira Onofre, gradua-
em Ciências pela USP/RP. Professora do em Enfermagem pela FEN/ UFPEL.
Associada da FEN/ UFPEL. Coordena- Vinculado ao projeto de 2015/2018.
dora do projeto de 1991/2000. E-mail: E-mail: guilhermesonofre@[Link]
celmira_lange@[Link]
Cristiana Escobar Bast, graduanda
Eda Schwartz, graduada em Enfer- em Enfermagem pela FEN/ UFPEL. Vin-
magem pela FEN/ UFPEL. Doutora em culada ao projeto desde 2018. E-mail:
Enfermagem pela UFSC. Professora Ti- cescobarbast@[Link]
tular da FEN/ UFPEL. Coordenadora do

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº2 616
AÇÕES DE EXTENSÃO DA LIGA
ACADÊMICA INTERDISCIPLINAR DE
TOXICOLOGIA (LAITOX)

Giana de Paula Cognato


Taís da Silva Teixeira Rech
Francine Rodrigues Pedra
Bruna Voigt Rodrigues
Marina Vieira Fouchy
Daniela de Bittencourt Maia

Apresentação
As ligas acadêmicas são determinadas como entidades de cunho civil e cientí-
fico, que podem ter período de funcionamento indefinido, sediadas na cidade da
instituição de ensino de origem e, principalmente, por não terem fins lucrativos.
O objetivo desse tipo de associação é complementar a formação acadêmica em
uma área específica, por meio de atividades que atendam aos princípios de ensi-
no, pesquisa e extensão (FILHO, 2011). Dentro dessa definição, a Liga Acadêmica
Interdisciplinar de Toxicologia (LAITox) foi iniciada em 2016, através de um projeto
de ensino mobilizado por alunos do curso de Farmácia da Universidade Federal de
Pelotas (UFPel). Desde o nascimento da LAITox, vários alunos de diferentes cursos
de graduação já fizeram ou fazem parte do corpo discente e contribuem para o
amadurecimento interdisciplinar desse projeto. No início de 2019, a LAITox era
formada por alunos dos cursos de biotecnologia (1), ciências biológicas (2), enfer-
magem (1), farmácia (7), medicina (1), nutrição (1), química de alimentos (1) e tec-
nologia de alimentos (1) e todas as ações de extensão foram planejadas através de
reuniões semanais totalizando mais de 100 horas de trabalho ao longo do ano. Os
alunos da LAITox sentiram a necessidade de realizar ações de extensão visando à
SAÚDE Nº3

prevenção de intoxicações na comunidade, visto que a região sul do Brasil é a que


mais apresenta casos de intoxicações segundo relatório divulgado pelo Centro de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 617


Informações Toxicológicas (CIT) no anos de 2015, 2016 e 2017. Além disso, o Rio
Grande do Sul teve os maiores índices de intoxicações do país, com a região onde
se encontra a cidade de Pelotas ficando com o segundo lugar em número de into-
xicações (SEBBEN et al., 2015; SEBBEN et al.,2016; SEBBEN et al., 2017).
A saúde das pessoas está relacionada com os seus hábitos diários e a constru-
ção destes pode ser promovida pela análise da realidade biopsicossocial do indiví-
duo. Após essa análise, novas estratégias que supram as necessidades de saúde da
comunidade podem ser criadas e viabilizadas (BRASIL, 2010). Portanto, a exten-
são universitária tem um papel transformador para todos os envolvidos: a comuni-
dade se apropria de conhecimentos essenciais para a promoção de sua qualidade
de vida, e ao mesmo tempo, os estudantes adquirem uma formação profissional
com responsabilidade social em não apenas buscar a curadas doenças, mas tam-
bém promover a saúde através da diminuição dos índices de intoxicação na região.
Nesse sentido, a LAITox desenvolve, hoje, três projetos de extensão relacionados
à temática “prevenção de intoxicações” e que estão apresentados em sub-capítu-
los a seguir. Além disso, a realização destas ações de extensão causou um impacto
emocional na vida e na percepção dos alunos membros da LAITox, e que pode ser
lido nos relatos redigidos no último subcapítulo apresentado aqui.

Projeto 1 - LAITox vai à escola: Conscientização


sobre os malefícios das drogas de abuso
Atualmente, o uso de drogas de abuso é considerado um grave problema de
saúde pública em todo o mundo, contribuindo para acidentes fatais, além de pre-
juízos econômicos e sociais (REIS, 2016). Segundo o CIT RS (2018), as intoxicações
por drogas de abuso ocorrem com maior prevalência na faixa etária de 10 a 29 anos
e devido à grande preocupação da população em relação ao uso abusivo de drogas
entre adolescentes e jovens adultos, a escola é considerada um espaço adequado
para se desenvolver a prevenção e promoção da saúde (MOREIRA et al., 2015). Na
faixa etária supracitada, o uso de drogas de abuso é mais acentuado, provavel-
mente pela facilidade de acesso, pela dificuldade em lidar com conflitos familiares
ou ainda pela presente necessidade de inserção em um determinado grupo social
(RIBEIRO et al., 2018). Um estudo realizado em 2014, na cidade de Pelotas, indicou
que 16,6% dos adolescentes fazem uso de tabaco de forma contínua, cerca de 43%
utilizaram tabaco ao menos uma vez na vida e o uso de álcool é mais prevalente
entre jovens do sexo masculino (PASUCH E OLIVEIRA, 2014). Sendo assim, a abor-
dagem sobre o tema em escolas é de fundamental importância, podendo-se fazer
uso de atividades interativas e educacionais, tais como jogos lúdicos (NASCIMEN-
TO et al., 2017). Portanto, este projeto teve por objetivo esclarecer aos estudantes
do ensino médio e fundamental, as conseqüências relacionadas ao consumo abu-
sivo de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas sobre o organismo e à sociedade.
Este projeto foi aplicado em duas escolas públicas de Pelotas, sendo estas a
Escola Estadual de Ensino Médio Doutor Augusto Simões Lopes e a Escola Muni-
cipal de Ensino Fundamental Olavo Bilac. A LAITox foi recebida pela direção e pro-
fessores das escolas para a apresentação do projeto e definição da ação de forma
conjunta. A ação de extensão teve três etapas importantes realizadas pelos aca-
dêmicos da LAITox. A primeira consistiu em uma comunicação através de slides
expositivo-dialogados que versou sobre os principais problemas de saúde que as
drogas de abuso (álcool, cigarro, maconha, medicamentos e crack) podem trazer
aos seus usuários (Fig. 1).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 618
Figura 1.
Comunicação através
de slides expositivo-
dialogados.
Fonte: Foto de Bruna
Voigt Rodrigues.

Na segunda etapa, os alunos participaram de uma atividade interativa e didáti-


ca realizada através de um jogo de dado com perguntas de nível fácil, médio e difí-
cil sobre cada classe de drogas de abuso abordadas na etapa um. O dado utilizado
continha símbolos indicativos em três das faces, representando as seguintes dro-
gas de abuso: cigarro, medicamento (representado por uma cápsula), bebida al-
coólica (representado por um copo contendo cerveja). As outras faces continham
os dizeres ‘passa a vez’ (onde o grupo que jogou o dado passava a vez para o outro
grupo), um ponto de interrogação (?), quando o grupo teve a opção de escolher o
tópico de pergunta, e por fim, um dos lados não continha nenhum símbolo e signi-
ficava que o grupo ficaria uma rodada sem jogar. A (Fig. 2) mostra o dado utilizado
no jogo que foi confeccionado pelos integrantes da LAITox.

Figura 2. Dado
utilizado no jogo
interativo.
Fonte: Fotos
de Bruna Voigt
Rodrigues. A B

A terceira e última etapa teve como objetivo avaliar o impacto desta ação de
extensão sobre os alunos e professores das escolas visitadas. Para tanto, foram
distribuídas fichas de avaliação com quatro questões relacionadas às atividades
que foram realizadas pela LAITox. A primeira questão da ficha perguntou se atra-
vés da atividade os alunos haviam conseguido compreender melhor o assunto, e
todos os participantes das duas escolas responderam positivamente. A segunda
pergunta questionou sobre a dinâmica utilizada para abordar o tema, com 27%
dos participantes afirmando que esta foi boa, 73% avaliaram como sendo muito
boa e não houve nenhuma resposta classificada como ruim. A terceira pergunta

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 619
questionou se os alunos teriam interesse na realização de mais ações semelhantes
na escola e todos (100%) afirmaram que sim. Essa avaliação pode ser visualizada
no Gráfico 1.

Gráfico 1: Avaliação
dos alunos e
professores referente
à atividade realizada
pela LAITox.
Fonte: Gráfico
elaborado por Taís da
Silva Teixeira Rech.
Os professores que participaram do projeto também relataram que a ação pode
ser utilizada para discussão futura sobre os tipos de intoxicação abordados na ação
e para reforço das informações divulgadas com o intuito de prevenir o problema.
Ao todo, 74 alunos e 7 professores participaram do projeto até o momento A pers-
pectiva é ampliar o projeto para mais escolas da rede pública da região e continuar
aprofundando o assunto nas escolas já visitadas.
Essa atividade de extensão oportunizou um momento descontraído e lúdico
em sala de aula, utilizando uma dinâmica diferenciada envolvendo um jogo di-
dático e a participação de todos os alunos (Fig. 3). Após a realização da avaliação
sobre a atividade de extensão, foi possível perceber que os discentes atingidos
obtiveram uma visão mais ampliada sobre os efeitos e consequências do uso abu-
sivo de drogas, bem como um reforço da importância de se combater o uso dessas
substâncias.

Figura 3. Alunos
participando da
atividade proposta.
Fonte: Foto de Bruna
Voigt Rodrigues.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 620
Projeto 2 - CINETOX: Discutindo um filme sobre a
temática drogas de abuso
O cinema possui um grande poder de prender a atenção do público desde que
foi criado. Os filmes formam, em nossas mentes, mundos cheios de possibilida-
des, o que gera interesse e fascinação perante o público. Assim, novos conceitos
e idéias podem ser apresentados utilizando o cinema como forma de tornar as
pessoas mais abertas e receptivas para a aprendizagem. O desenvolvimento de
uma discussão sobre os temas abordados em filmes enriquece ainda mais os co-
nhecimentos e aumenta o impacto causado pelo assunto de interesse (SANTOS e
TEIXEIRA, 2013).
Dentre os projetos e ações de extensão da LAITox, o CINETOX tem como ob-
jetivo oferecer sessões de cinema com filmes que estejam relacionados ao tópico
toxicologia, visando proporcionar um espaço de debate sobre os assuntos. A troca
de informações e a inserção do público nesses temas são elementos geradores
de diálogo, que têm como foco a contribuição para o desenvolvimento e para a
ampliação do conhecimento.
O uso de drogas de abuso sempre foi um problema de saúde pública e, infeliz-
mente, cada vez mais recorrente na nossa sociedade. Entre o público mais vulne-
rável na temática drogas de abuso estão os jovens e adolescentes, que parecem
estar cada vez menos preparados e estruturados para lidar com as demandas so-
ciais e emocionais exigidas nos dias de hoje. Frequentemente, essa vulnerabilida-
de pode levar ao início do uso de drogas e bebidas alcoólicas, com a intenção de se
distanciar dos problemas do dia a dia (SILBER e SOUZA, 1998).
Para realizar a primeira edição do CINETOX, foi feita uma avaliação prévia de
filmes com temas relacionados à toxicologia. O filme escolhido foi “Diário de um
adolescente” em virtude da temática estar de acordo com o objetivo do projeto.
Após a divulgação da ação nas redes sociais e a captação de público (formado por
12 estudantes da área da saúde da UFPel), o evento foi realizado no prédio Salis
Goulart da Universidade Federal de Pelotas, contando com o apoio de todos os
membros da LAITox. A primeira sessão do evento foi organizada no segundo se-
mestre de 2019, tendo como tema principal a utilização de drogas de abuso por
jovens e adolescentes. Após a exibição do filme, os participantes e os membros da
liga debateram o desfecho e as situações presentes no filme com discussão media-
da pela professora coordenadora da LAITox.
Durante a discussão, os inscritos no evento se mostraram muito receptivos ao
debate, relataram experiências e ideias, o que gerou um importante momento de
compartilhamento de conhecimento por parte de todos os presentes. Ao final da
discussão, foi distribuído um questionário sobre a ação de extensão com o objeti-
vo de averiguar o conhecimento e o impacto da sessão de cinema sobre os parti-
cipantes. Ao todo, 12 pessoas responderam ao questionário. A primeira pergunta
questionava se o participante achava que os grupos sociais poderiam influenciar
no uso de drogas e as respostas obtidas mostraram que 75% dos presentes acha-
vam que sim e 25% pensam que talvez essa influência possa ocorrer. Essa avalia-
ção pode ser visualizada no Gráfico 2.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 621
Gráfico 2: Resposta
dos participantes
com relação à
influência de grupos
sociais sobre o uso de
drogas.
Fonte: Gráfico
elaborado por Bruna
Voigt Rodrigues.
A segunda questão perguntava se os presentes já haviam vivenciado alguma
situação retratada no filme. A grande maioria dos participantes (58%) relatou que
não, apesar de alguns mencionarem casos de abuso de drogas na família e no seu
ciclo de amizades durante a discussão. A porcentagem dos que responderam que
vivenciaram ficou em 42%. Essa avaliação pode ser visualizada no Gráfico 3.

Gráfico 3: Vivências
dos participantes em
situações retratadas
no filme exibido pela
LAITox.
Fonte: Gráfico
elaborado por Bruna
Voigt Rodrigues.
O questionário também contou com uma terceira pergunta sobre a opinião dos
participantes com relação à estratégia de exibição de filme para gerar discussões
sobre temas delicados, como é o caso das drogas de abuso. Neste sentido, todos
os presentes responderam que a dinâmica foi muito boa (75%) ou boa (25%), com
nenhuma resposta ruim. O Gráfico 4 mostra essa avaliação.

Gráfico 4: Opinião
dos participantes
sobre a estratégia
utilizada pela LAITox
para abordar o tema
drogas de abuso.
Fonte: Gráfico
elaborado por Bruna
Voigt Rodrigues.
Dentro do exposto, é possível perceber que apesar do projeto ter tido apenas
uma sessão, houve uma grande aceitação pelo público e interesse por sessões
futuras. Além disso, o debate proporcionado pelo evento gerou uma troca de
conhecimento entre os integrantes da LAITox e os participantes, sendo este de
grande importância para a formação humana e acadêmica dos mesmos. O conta-
to descontraído e leve através da visualização de um filme despertou o interesse
dos alunos e componentes da comunidade acadêmica e as discussões trouxeram
uma conscientização e uma nova maneira de observar as situações recorrentes

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 622
na atualidade, mesmo que estas sejam pouco discutidas em outros momentos. O
projeto CINETOX tem como perspectiva a realização de futuras sessões sobre o
tema toxicologia, visto o grande interesse e engajamento dos participantes.

Projeto 3 – Minuto com a LAITox: Boletim sobre


toxicologia na Rádio Com
A comunicação é essencial para vários aspectos da vida humana e não é dife-
rente quando se fala em saúde. Nesse contexto, a utilização do rádio como propa-
gador de informações sobre saúde já é realizada desde os anos 1920, através da
criação do Departamento Nacional de Saúde Pública. Atualmente, já existem vá-
rios relatos de diferentes profissionais que se utilizam desse recurso midiático para
difundir a educação em saúde. (GALLO et al., 2011; ROGES, 2012; TORRES et al.,
2015). Dentro desse contexto, a divulgação de conteúdos ligados à toxicologia, em
especial à prevenção de intoxicações, pôde ser realizada através de uma parceria
entre a LAITox e a Radio Com 104,5 FM, localizada na cidade de Pelotas.
A Rádio Com foi criada em 1998 com o apoio de alguns sindicatos de trabalha-
dores interessados na liberdade de expressão. O início se deu através de reuniões
abertas à comunidade, com o propósito de mostrar a toda população que todos
aqueles que demonstravam interesse no crescimento desse projeto poderiam
criar e participar da rádio. A filosofia levada em consideração era a de Hebert de
Souza, que diz que “o termômetro que mede a democracia numa sociedade é o
mesmo que mede a participação dos cidadãos na comunicação”. Desse modo, a
rádio não apenas divulga para o público ouvinte uma determinada informação e
sim, convida-o para participar desse processo, sendo este um diferencial impor-
tante da Rádio Com quando comparada aos demais veículos de comunicação local
(RÁDIO COM, 2019).
O objetivo desta ação de extensão foi alcançar o mais variado público, a fim
de levar informações importantes sobre toxicologia através de pautas para rádio
criadas pelos membros da LAITox. As oito pautas elaboradas até o momento tive-
ram duração entre um e três minutos e abordavam a prevenção de intoxicações
relacionadas a medicamentos (com áudios sobre uso racional de medicamentos,
intoxicações causadas por medicamentos, descarte, armazenamento e autome-
dicação) e drogas de abuso (com áudios sobre álcool, maconha e dependência
química). Os áudios foram gravados com o auxílio de um software de gravação
em aparelho celular e também foi criada uma vinheta original que foi utilizada na
abertura e fechamento das pautas, a fim de criar uma identidade para o boletim
da LAITox. Depois de editadas e finalizadas, essas pautas foram vinculadas à pro-
gramação da Rádio Com durante três turnos (manhã, tarde e noite) desde o mês
de setembro de 2019 até o presente momento. A escolha do meio de comunicação
teve por propósito alcançar aquelas pessoas que talvez não tenham acesso à inter-
net, ou ainda, preferem a rádio como meio para atualização para notícias.
Como análise dos resultados para esta ação, a LAITox e a RadioCom criaram
uma enquete vinculada junto às suas mídias sociais (Facebook) durante 10 dias
e que perguntava ao público se os áudios disponibilizados estavam contribuindo
para uma melhor compreensão sobre a prevenção de intoxicações. O público tam-
bém poderia participar escrevendo sobre quais assuntos relacionados à toxicolo-
gia gostariam de ouvir. Ao todo 31 pessoas responderam à enquete e os resultados

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 623
obtidos foram 100% positivos, visto que
os participantes responderam “sim”
para um melhor entendimento dos as-
suntos abordados. Além disso, a LAI-
Tox recebeu comentários como “gos-
taria de ouvir sobre drogas de abuso”,
“agrotóxicos”, “interação entre medi-
camentos e álcool”, “medicamentos e
os alimentos”, entre outros. A (Fig. 8)
explicita esses resultados.
Um dos assuntos que se pode consi-
derar comum a todos é a automedica-
ção. A pauta redigida para este tema,
assim como para todos os outros abor-
dados, apresentou linguagem clara e
informal, para que qualquer pessoa
conseguisse absorver a mensagem. A
seguir, a pauta sobre automedicação:

“Alô ouvintes da RádioCom! Bem-vin-


dos ao minuto com a Laitox, a Liga Aca-
dêmica Interdisciplinar de Toxicologia da
Universidade Federal de Pelotas, trazen-
Figura 4: Imagem do informações importantes sobre toxicologia para toda a comunidade da Região.
das respostas dos E hoje falaremos sobre a automedicação
ouvintes da Rádio Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a automedicação é a
Com à enquete sobre
o minuto com a utilização de medicamentos por conta própria ou por indicação de pessoas não habili-
LAITox. tadas para tratamento de doenças cujos sintomas são percebidos pelo usuário, sem a
Fonte: Facebook
avaliação prévia de um profissional de saúde. A automedicação diz respeito, portan-
LAITox. to, ao uso de medicamentos sem a prescrição do médico, por exemplo. Os medica-
mentos que mais causam intoxicação são os analgésicos, antitérmicos e antiinflama-
tórios. O risco da automedicação é muito grande, uma vez que a combinação errada
de substâncias pode anular ou ainda potencializar o efeito de outra. Por exemplo,
medicações com prescrição controlada e que são utilizadas no tratamento de insônia,
depressão e ansiedade podem levar a óbito, se usadas sem orientação e prescrição
médica. Portanto, automedicar-se traz riscos à sua saúde, já que a ingestão de subs-
tâncias de forma inadequada pode causar reações como dependência, intoxicação e
até a morte. Então se cuide e tenha consciência do uso racional de medicamentos.
Esse foi o nosso recado de hoje! Agradecemos a atenção e até o próximo minuto
com a Laitox!”
As drogas de abuso também são outra temática extensamente abordada pela
LAITox em todos os seus projetos de extensão. Por isso, também foram criadas
pautas sobre esse assunto, como no exemplo a seguir, que divulgou informações
sobre a droga de abuso maconha:
“Alô ouvinte da Rádio Com! Bem-vindos ao minuto com a Laitox, a Liga Acadêmi-
ca interdisciplinar de toxicologia da Universidade federal de Pelotas, trazendo infor-
mações importantes sobre toxicologia para toda a comunidade da Região.
E hoje falaremos sobre a MACONHA!
Considerada a droga ilícita mais utilizada mundialmente, a maconha tem como
principal forma de administração a inalação, um método que gera um rápido efeito

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 624
no organismo. O que muitos usuários não sabem é que, apesar de ser um produto
natural, também tem seus riscos a longo prazo para o organismo.
MAS QUAIS RISCOS SÃO ESTES?
Alteração da percepção de tempo e espaço, aumento da frequência cardíaca, con-
fusão mental, exacerbação de sintomas psicóticos pré-existentes, desenvolvimento
do transtorno de pânico, redução da capacidade motora e perda de memória.
MAS A MACONHA CAUSA DEPENDÊNCIA?
Sim, já foi comprovado cientificamente que a maconha gera dependência, ao
contrário do que muitas pessoas pensam. A dependência causada pela maconha se
caracteriza por uma necessidade de seus efeitos após a interrupção do seu uso. Se
o usuário não consumir, ele pode se sentir agitado, inquieto, irritado, apresentar difi-
culdade para dormir e também apresentar sintomas como dor de cabeça, câimbras e
náuseas.
Por isso, não entre nessa! Se você quiser saber mais sobre o assunto, ou quiser
ajudar alguém que precisa, procure o Centro de Atenção Psicossocial mais próximo
de você!
Esse foi o nosso recado de hoje! Até o próximo minuto com a Laitox!”
Em virtude de a LAITox ser composta por acadêmicos de diversos cursos como
Farmácia, Biologia, Medicina e Tecnologia em Alimentos, entre outros, é possível
incorporar nas pautas os conhecimentos obtidos ao longo dos diferentes cursos de
graduação. Essa vantagem da interdisciplinaridade faz com que os ouvintes pos-
sam compreender melhor o motivo que leva à ocorrência das intoxicações, assim
como quais substâncias ou microrganismos estão agindo no organismo naquele
momento.
As perspectivas futuras para esta ação vão depender inteiramente do público
ouvinte, sendo que os membros da Liga irão fornecer novas pautas frente aos te-
mas propostos pelos ouvintes da Rádio Com. Uma questão atual que vem sendo
bastante discutida em congressos, trabalhos científicos e revistas - e inclusive faz
parte dos pedidos da nossa enquete - são os malefícios causados pelos agrotóxi-
cos devido ao seu potencial tóxico. Segundo o dossiê da Associação Brasileira de
Saúde Coletiva (Abrasco), entre os anos de 2007 e 2014, ocorreram 34.174 intoxi-
cações por agrotóxicos notificadas no Sistema Único de Saúde (SUS), tendo como
percentual de contaminação 64% dos alimentos no Brasil, colocando o nosso país,
desde 2008, na posição de maior mercado mundial de agrotóxicos (dossiê ABRAS-
CO, 2015). Sendo assim, para disseminar este assunto não só através da internet, a
rádio se torna um meio de comunicação que traz um retorno muito bom, uma vez
que é possível alcançar pessoas com diferentes hábitos, idades, incluindo aqueles
indivíduos que não apresentam conhecimento sobre intoxicações no geral.

Considerações finais: Impacto na vida acadêmica


e pessoal dos membros da LAITox
Neste subcapítulo, os membros da LAITox gostariam de compartilhar relatos
sobre as vivências adquiridas durante as ações da extensão desenvolvidas, de
maneira que estas possam inspirar outros alunos e professores a experienciar os
extraordinários benefícios sociais e emocionais que a extensão universitária pode
trazer.
“A atividade nas escolas fez nós, estudantes, refletirmos sobre nossas ati-
tudes humanas e pensarmos como futuros profissionais....raciocinarmos
de uma forma diferente. O “pensar fora da sala de aula” nos foi oferecido

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 625
com uma das maiores emoções que poderíamos sentir. Saímos da atividade
sabendo que qualquer ação feita já será o suficiente para fazer alguma di-
ferença na vida de alguém. Cada aluno da rede pública atingido pela nossa
intervenção contribuiu de uma forma incrível para nosso autoconhecimen-
to. Eles nos fizeram perceber nossa importância, dentro de um todo imenso,
rodeado de bilhões de pessoas. Podemos refletir o quanto somos únicos, e
para modificarmos a sociedade, temos que pensar e agir diferente da mul-
tidão.”

“Nossa motivação em realizar a ação de extensão é essencialmente um di-


ferencial, é modificarmos as nossas vidas, dando um sentido para elas. Re-
fletir sobre como a profissão que buscamos na universidade nos modificará
como seres humanos, através da extensão, com certeza deixará uma marca
no que somos e podemos ser.”

“Através do contato com as pessoas da comunidade, fomos capazes de


aprender a transmitir segurança, mesmo nervosos em executar a ação de
extensão. Aprendemos a tratar o próximo com empatia, e ao mesmo tem-
po, compartilhar o conhecimento científico para esclarecer as dúvidas que
possam aparecer com relação aos temas abordados. Na LAITox todos nós
aprendemos a trabalhar em equipe e como é muito mais gratificante fazer
tudo com essa cooperação dos colegas”.

“Cada projeto, cada detalhe, a equipe e o mais importante: ver que conse-
guimos atingir o nosso objetivo de levar informações sobre toxicologia para
a comunidade: tudo é extremamente gratificante! A primeira vez que fui a
uma jornada da LAITox, eu pensei: “Que demais! Como eu gostaria de fazer
parte dessa Liga!”e hoje eu sou uma das integrantes e tenho muito orgulho
disso, porque sonhei e hoje realizei! Eu, como locutora da rádio no Projeto
“Minuto com a LAITox” tento falar com clareza e pausadamente para fazer
com que as pessoas entendam as mensagens que queremos deixar. Todos
os conteúdos tratados nesse projeto são conhecidos pela comunidade em
geral, como medicamentos, drogas de abuso e outros, então a equipe tenta
redigir as pautas dando ênfase nos malefícios que essas substâncias cau-
sam, para que assim, consigamos ajudar ao próximo! Cuidar um pouco do
outro, assim como cuidamos de nós. é Gratidão por isso! Eu Amo a LAITox!

“A atividade do cinetox foi uma experiência incrível. Acredito que todos sa-
íram dali revigorados e cheios de perguntas internas a serem esclarecidas,
mas com a certeza de que aquela ação extensionista nos modificou para
sempre.”

“Como aluna e depois professora, minha vivência sempre esteve envolvi-


da com a pesquisa científica. Eu nunca imaginei que as ações de extensão
desenvolvidas na LAITox pudessem me trazer tanta satisfação pessoal e
profissional. Fazer extensão é algo que mexe com a alma e eu nunca mais
quero parar de sentir que estamos fazendo a diferença na vida de alguém!
A extensão causa um vício benéfico para a saúde de quem faz e de quem
recebe.”

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 626
Os relatos supracitados demonstram como a extensão pode ser uma oportuni-
dade de aprendizado profissional com humanização do estudante em formação
através do contato direto com a sociedade. As vivências de resultados concretos,
gerados pela atividade na qual os acadêmicos da LAITox participaram, geraram re-
flexões sobre as ações extensionistas realizadas e, desse modo, consciência sobre
o impacto positivo do conhecimento sobre a realidade.

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impactos dos agrotóxicos na saúde. - Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expres-
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SOBRE AS AUTORAS
Giana de Paula Cognato, graduada desde outubro de 2018. E-mail:
em Farmácia Industrial pela Pontifícia francinepedra@[Link]
Universidade Católica do Rio Grande
do Sul. Doutora em Ciências Biológicas Bruna Voigt Rodrigues, graduanda
(Bioquimica) pela Universidade Fede- do Curso de Farmácia da UFPel. Mem-
ral do Rio Grande do Sul. Professora bro da LAITox desde abril de 2019.
Adjunta do curso de Farmácia do Cen- E-mail: [Link]@hotmail.
tro de Ciências Químicas, Farmacêu- com
ticas e de Alimentos da UFPel. Coor-
denadora Docente da LAITox. E-mail: Marina Vieira Fouchy, graduanda
[Link]@[Link] do Curso de Tecnologia em Alimentos
da UFPel. Membro da LAITox desde
Taís da Silva Teixeira Rech, gradu- abril de 2019. E-mail: marinavieira01@
anda do Curso de Farmácia da UFPel. [Link]
Mestranda pelo Programa de Pós-Gra-
duação em Bioquímica e Bioprospecção Daniela de Bittencourt Maia, gra-
da UFPel. Membro da LAITox desde ou- duanda do Curso de Farmácia da UFPel.
tubro de 2018. E-mail: taisteixeira.r@ Membro da LAITox desde agosto de
[Link] 2019. E-mail: danielabittencourtmaia@
[Link]
Francine Rodrigues Pedra, gra-
duanda do Curso de Ciências Bioló-
gicas da UFPel. Membro da LAITox

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº3 628
O INTERNATO DOS ALUNOS DE
MEDICINA NA MATERNIDADE
DO HOSPITAL SANTA CASA DE
MISERICÓRDIA DE PELOTAS
E O SEU PAPEL SOCIAL

Thales Moura de Assis


Alice Voese Damé
Anderson Mendes dos Santos
Celene Maria Longo da Silva
Scilla Lazzarotto Correia Lima

O que é o Internato Médico?


O curso de medicina é divido em três ciclos de dois anos cada: o básico, a clínica
e o internato. Esta última prática de aprendizado tem duas vertentes, (i) a euro-
peia, a qual é mais direcionada ao ensino teórico ao prático e (ii) a americana, que
mescla o ensino teórico e o prático supervisionado ao final do curso, através de
serviço prático tutoriado (CHAVES, 2007).
O internato passou a ser obrigatório no mês de outubro de 1969 por intermédio
da Resolução nº 8 do Conselho Federal de Medicina (ABEM, 1982), uma vez que
ele começou a estar presente no modelo de educação médica brasileira a partir da
década de 40 (CHAVES, 2007).
A diretriz curricular nacional do Curso de Graduação em Medicina estipula que o
aluno seja apresentado, em sua formação médica, a um treinamento prático com,
no mínimo 2700 horas, sendo essas atividades supervisionadas por docentes com
vínculo acadêmico pela universidade (BRASIL, 2001), cuja proposta tem fins de
viabilizar melhor preparo na construção do médico inserindo-o em áreas de supra
importância a nossa sociedade: clínica médica, cirurgia geral, ginecologia-obste-
trícia, pediatria e saúde coletiva.
SAÚDE Nº4

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 629


A Maternidade do Hospital Santa Casa de Pelotas
O hospital da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas situa-se na Praça Piratini-
no de Almeida, número 53, no centro da cidade de Pelotas. A cidade, Princesa do
Sul, como é conhecida, teve o seu primeiro hospital assistencial fundado no dia 20
de junho de 18471. O funcionamento da maternidade do hospital é de domingo a
domingo, pelo período de 24 horas ininterruptos. O corpo técnico é formado por
estudantes de medicina, técnicos de enfermagem, uma enfermeira, um pediatra e
dois obstetras, tendo a equipe médica atuação de 12 horas com início e/ou fim das
8h às 20h, ou seja, são dois turnos de 12 horas cada.
Esses profissionais e alunos seguem as orientações elaboradas pelo projeto
Rede Cegonha, o qual tem por finalidade a integralidade e a totalidade de amparo
à gestante na cidade de Pelotas e da região (BRASIL, 2018). A Rede Cegonha per-
meia o atendimento à grávida antes, durante e depois da gestação a fim de que
tenhamos a diminuição da mortalidade do binômio materno-infantil, sendo esse
o seu principal objetivo.
A maternidade da Santa Casa de Pelotas atende, além das pacientes peloten-
ses, mulheres de cidades como Capão do Leão e Arroio do Padre. As demais cida-
des têm acesso ao hospital e ao atendimento por meio da autorização da central
de leitos do município. Também, Pelotas faz parte da chamada Região de Saúde
212, a qual tem por definição um espaço físico geográfico formado por um grupo
de municípios limítrofes com a intencionalidade de organização burocrática, tais
regiões compreendem: Santana da Boa Vista, Pinheiro Machado, Arroio Grande,
Canguçu, Chuí, Capão do Leão, Cristal, Herval, Jaguarão, Morro Redondo, Pedras
Altas, Pedro Osório, Pelotas, Piratini, Rio Grande, Amaral Ferrador, Santa Vitória
do Palmar, Arroio do Padre, São José do Norte, São Lourenço do Sul, Cerrito e
Turuçu.
O serviço da Maternidade conta com atendimento público e privado. O serviço
privado é atendido exclusivamente por médicos do corpo clínico do hospital, plan-
tonistas ou não, estando os alunos isentos desse atendimento. O atendimento
pelo Sistema Único de Saúde (SUS) é para a maioria das mulheres que buscam a
Maternidade da Santa Casa, e é para essa parcela da população que está voltado
o atendimento dos plantonistas da maternidade — com os quais os internos têm
relação direta e onde ocorre o aprendizado prático na Maternidade.

O internato como projeto de extensão e a sua


relação com a sociedade
O internato voluntário é uma política educacional adotada nas universidades
brasileiras para os alunos dos cursos de graduação e tem como objetivo um com-
promisso social em expor os alunos aos desafios da vida prática em tempo real,
atendendo pessoas com diferentes histórias de vida e convivendo com equipes
multidisciplinares, com isso, proporcionando melhor aprendizado. A associação
entre a teoria e a prática demonstra a importância das atividades do internato,
1 Informação retirada da página de internet do hospital. Fonte: Santa Casa de Pelotas. História. Disponí-
vel em: [Link] Acesso em: 03 out. 2019.
2 Fonte: Regiões de Saúde. Secretaria da Saúde. Rio Grande do Sul. Disponível em:
[Link]
Acesso em: 03 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 630
pois diante do atendimento aos pacientes o aluno identifica situações já estuda-
das e é levado a aprofundar seu conhecimento teórico em problemas novos viven-
ciados na prática local. Os plantonistas servem de referencial prático para a con-
textualização do conhecimento por parte dos estudantes. Cabe aos preceptores
zelarem pelo bem-estar das pessoas ali atendidas bem como pela manutenção do
ambiente acadêmico.
O Internato em Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade da Santa Casa de Pe-
lotas é uma atividade complementar de ensino e extensão que ocorre em ativida-
des práticas na forma de plantões, com frequência média de três turnos por mês,
e de atividades teóricas sob a forma de aulas expositivas ministradas quinzenal-
mente. Para integrar o internato, é realizada uma prova teórica para seleção, a
qual ocorre duas vezes ao ano para acadêmicos do curso de Medicina que tenham
terminado a disciplina de semiologia ou que estejam terminando, em relação à
data da prova, tanto da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) quanto da Univer-
sidade Católica de Pelotas (UCPel).
A equipe de cada turno (12 horas) na maternidade do hospital é multidisciplinar,
formada por técnicos de enfermagem, um enfermeiro, um médico pediatra, dois
médicos obstetras e dois internos. As atividades realizadas pelos acadêmicos no
internato estão voltadas para o conhecimento global de como funciona uma ma-
ternidade em um hospital de médio porte e voltada para o atendimento de gestan-
tes de risco habitual. Essa interação com as usuárias do serviço de saúde acontece
desde a admissão de gestantes em pronto-atendimento, avaliação do bem-estar
materno-fetal, acompanhamento do trabalho de parto ativo, auxílio em partos va-
ginais, atividade em bloco cirúrgico em cesarianas até a evolução puerperal.
O internato proporciona uma oportunidade para os alunos aprimorarem a rela-
ção médico-paciente e conhecimentos aprendidos sobre a fisiopatologia da ges-
tação e do puerpério. Nesse contexto, são mobilizados os conhecimentos anatô-
micos, obstétricos, hospitalares e cirúrgicos. Além disso, o contato com a paciente
e com seus acompanhantes, a possibilidade de transmitir tranquilidade e fornecer
orientações adequadas sobre o momento desafiador que toda a família vivencia
durante o trabalho de parto, nascimento e primeiros dias pós-parto, auxiliam para
melhorar sua capacidade de comunicação, compreensão e discernimento de con-
dutas médicas e a capacidade de traduzir para a família em qual momento da evo-
lução do trabalho de parto ela se encontra.
A tabela abaixo apresenta o número de atendimentos na Maternidade da Santa
Casa de Misericórdia de Pelotas nos anos de 2018 e 2019, de maneira a demonstrar
o volume de assistência prestada por essa instituição para a comunidade local e
regional.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 631
Tabela 1 - Nascimentos na maternidade da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas, em 2018 e
2019.

Sistema Único da Saúde Particular e Convênios Total de nascimentos


PC PN TOTAL PC PN TOTAL PC PN T
N % N % N % N % N % N % N % N % Total
Janeiro 106 59,2 73 40,8 179
Fevereiro 89 55,6 71 44,4 160
Março 70 42,9 93 57,1 163
Abril 140 83,3 28 16,7 ** ** 168
Maio 123 82,6 26 17,4 82 55,0 67 45,0 149
Junho 77 58,8 54 41,2 131
Julho 92 88,5 12 11,5 55 52,9 49 47,1 104
Agosto 8 42,1 17 89,5 2 10,5 19 57,9 17 89,5 2 10,5 19
Setembro * * 17 89,5 2 10,5 19 100,0 17 89,5 2 10,5 19
Outubro * * 15 93,8 1 6,3 16 100,0 15 93,8 1 6,3 16
Novembro * * 15 100,0 0 0,0 15 100,0 15 100,0 0 0,0 15
Dezembro 32 36,0 57 64,0 89 82,4 18 94,7 1 5,3 19 17,6 50 46,3 58 53,7 108
Total 2018 0,0 593 48,2 470 38,2 1.231

Janeiro 71 53,0 63 47,0 134 88,2 14 77,8 4 22,2 18 11,8 85 55,9 67 44,1 152
Fevereiro 50 46,7 57 53,3 107 87,7 14 93,3 1 6,7 15 12,3 64 52,5 58 47,5 122
Março 56 42,7 75 57,3 131 94,9 6 85,7 1 14,3 7 5,1 62 44,9 76 55,1 138
Abril 63 51,6 59 48,4 122 93,8 4 50,0 4 50,0 8 6,2 67 51,5 63 48,5 130
Maio 62 48,1 67 51,9 129 95,6 6 100,0 0 0,0 6 4,4 68 50,4 67 49,6 135
Junho 66 44,3 83 55,7 149 94,9 8 100,0 0 0,0 8 5,1 74 47,1 83 52,9 157
Julho 52 48,6 55 51,4 107 93,0 7 87,5 1 12,5 8 7,0 59 51,3 56 48,7 115
Agosto 132 97,8 0,0 0,0 3 2,2 66 48,9 69 51,1 135
Total 2019 420 41,5 459 45,4 1.011 93,3 59 80,8 11 15,1 73 7,0 545 50,3 539 49,7 1.084
2018 e 2019 1.138 49,2 1009 43,6 2.315
* nos meses de setembro, outubro e novembro de 2018, o atendimento pelo SUS foi interrompido por questões
administrativas da instituição.
** o mês de abril de 2018 não foi contabilizado para fins estatísticos por falta dos dados da totalidade de parto cesária e
normal, respectivamente. Essa falta de informação interfere no percentual total de 2018 e no percentual total de partos e
cesárias.
Fonte: Livro de registros da maternidade da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas.

A atividade do interno para com a paciente


Intervenções médicas no processo de parto nem sempre foram realizadas. Por
muito tempo os partos da espécie humana seguiram os mesmos processos de to-
das as outras espécies, o mais fisiológico possível. Revisando a história da Obs-
tetrícia, algumas reflexões surgem sobre o papel do acadêmico de medicina no
internato e na rotina de atendimento na maternidade.
A saúde da mulher gestante nem sempre foi o foco do parto, considerava-se
um evento natural e fisiológico e pouco se sabia sobre os riscos inerentes à gesta-
ção, ao parto e ao puerpério. A taxa de mortalidade dessas mulheres já foi muito
mais elevada no passado, no início do Século XX, a cada mil mulheres que davam à
luz cerca de 350 morriam em consequência da gestação ou do parto3.
3 Fonte: Dado de Portugal, conforme publicação no site da FMUP (Faculdade de Medicina – Universidade
do Porto), disponível em: [Link] Acesso em: 03
out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 632
Mesmo após a Idade Média, quando a medicina pode se desenvolver e ser prati-
cada com maior grau de liberdade, ainda não era recorrente a participação médica
no parto. A história da atividade obstétrica remete a isso até mesmo na adoção de
alguns termos, por exemplo, em inglês, Midwifery, ao qual se pode compreender
como “em meio às mulheres”, denota consigo a realidade não tão passada de que
o processo de parto era uma experiência exclusivamente feminina e vivenciada
entre as mulheres, fazendo alusão à ausência da participação masculina e, conse-
quentemente, de médicos, entendem-se como homens, no processo.
A atividade de acompanhar uma grávida durante o processo de parto era tão
distante da área médica que por muito tempo era atribuída às parteiras — assim
eram chamadas as mulheres ainda sem formação específica, embora com o seu
conhecimento empírico, que ajudavam e acompanhavam o momento do parto.
Caso fosse necessária alguma intervenção cirúrgica a atividade era atribuída aos
barbeiros — os precursores da cirurgia, que também não utilizavam conhecimento
específico e fundamentado sobre a fisiologia humana.
Atualmente, já é bem estabelecido que a ocorrência do trabalho de parto deve
acontecer, preferencialmente, em ambiente hospitalar, tendo em vista que esse
ambiente conta com equipe multidisciplinar e suporte técnico necessário para
eventuais intervenções, a fim de dar total proteção a gestante e o concepto. O
adequado acompanhamento pré-natal também tem contribuído para a redução
da mortalidade materno-fetal.
Os internos da Santa Casa atuam na maternidade como parte da equipe médi-
ca e acompanham todo o processo de trabalho de parto, nascimento e puerpério
imediato sob supervisão direta de um médico obstetra. Essa interação proporcio-
na oportunidade de contato e de troca de experiências de vida com as pacientes e
familiares desde a admissão no ambiente hospitalar até a sua alta dois dias após
o parto. Estas ações acontecem em diferentes cenários no ambiente da materni-
dade:

Admissão:
É na admissão da maternidade que acontece o regime de pronto-atendimento
com a chegada de pacientes por livre demanda ou por encaminhamento dos se-
tores primário de saúde (consultórios ou unidades básicas de saúde), secundário
(ambulatórios especializados) e terciário (outros hospitais da cidade e o pronto
socorro municipal). É também na admissão que ocorre a primeira troca de experi-
ências e informações entre o interno e a gestante.
Logo na chegada ao hospital, a gestante e seus acompanhantes trazem consigo
ainda algumas ideias lúdicas em relação ao transcorrer do trabalho de parto, aque-
las descritas e interpretadas por Lebovici (1987, apud FLECK; PICCININI, 2013)4, as
quais conflitam a realidade com o pensamento mágico. Algumas dessas dúvidas
já foram trabalhadas durante o pré-natal, entretanto, nem sempre as gestantes
conseguem clareza nesse preparo, outras não conseguem sequer realizar o pré-
-natal. Por exemplo, as pacientes frequentemente confundem a perda do tampão
4 Ressalta-se que, neste momento, não daremos atenção profunda aos conceitos apontados por Lebo-
vici, apenas destacamos brevemente seu posicionamento corroborante com a experiência que vivenciamos
no contato com a parturiente. Como sugestão interessante para leitura complementar, indicamos o artigo
de Adriana Fleck e César Augusto Piccinini O bebê imaginário e o bebê real no contexto da prematurida-
de: do nascimento ao 3º mês após a alta, o qual pode ser encontrado nos Periódicos eletrônicos em Psicolo-
gia, disponível em: [Link]
Acesso em: 03 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 633
mucoso (secreção produzida pelo útero a fim de formar uma barreira mecânica
para proteger o embrião) com a perda do líquido amniótico, igualmente, quando
uma paciente apresenta perda de líquido, acham que o bebê precisa nascer naque-
la hora, bem como em que ocorre a perda de todo o líquido, o que não acontece
fisiologicamente. Então, cabe a nós estudantes e profissionais desmistificar todas
essas dúvidas e tabus que surgem na sociedade em relação ao momento do parto
para que ele transcorra da melhor maneira possível, levando em consideração que
as desinformações ou a não compreensão clara de todos os estágios da gestação
podem causar muita angústia e insegurança a paciente e seus familiares.
No momento da admissão, toda a equipe precisa atuar com agilidade e tranqui-
lidade. A equipe precisa identificar de forma ágil e objetiva os sinais e os sintomas
do trabalho de parto ativo ou se ainda está em fase de preparação para o trabalho
de parto. Em alguns casos, as gestantes chegam em trabalho de parto bem adian-
tado e as tarefas de admissão precisam ser aceleradas, momento em que os es-
forços de toda a equipe são voltados para a agilidade no atendimento. Em outros
momentos é possível acompanhar a evolução com mais tranquilidade, explicando
passo a passo para toda a família como será o andamento do trabalho de parto,
ao passo que, muitas vezes, ao questionar a paciente se ela se informou sobre o
trabalho de parto ou se foi explicado para elas como seria todo o processo, desde
os pródromos (início do trabalho de parto) até o nascimento do bebê. No pré-na-
tal, por exemplo, é muito comum dizerem que são leigas nesse assunto, logo, fica
a nosso serviço explicar brevemente como se dará todo o processo. Diante da dor
e do medo do sofrimento, muitos sentimentos são demonstrados por todos ao
chegarem ao hospital. Aprender a lidar com esses sentimentos com tranquilidade
e maturidade é uma das principais tarefas de toda a equipe da maternidade. Uma
frase muito recorrente é: “Calma! Você já está no hospital, está tudo bem contigo e
com o teu bebê, vai dar tudo certo!”, uma vez que a ansiedade no momento do início
do trabalho de parto é um sentimento inevitável por parte da gestante e de seus
familiares.
Essa oportunidade de contato permite dialogar com a gestante sobre medos,
mitos, tabus, espiritualidade e até as vivências prévias, sendo essa forma uma ma-
neira de abordar alguns conceitos importante e transmitir orientações para tornar
o trabalho de parto mais confortável, seguro e humanizado, uma vez que o obje-
tivo de expor o aluno às vivências da profissão engloba o que foi citado. Visto que
não podemos ser apenas técnicos no momento dessa abordagem inicial com a
paciente, precisamos ser humanos, empáticos, ter uma boa relação médico-pa-
ciente a fim de que possamos transmitir o máximo de seguridade a essa paciente
que recorre aos nossos serviços.

Internação:
Após a admissão da gestante e fornecimento das primeiras orientações, a equi-
pe multidisciplinar começa a preparação da gestante para o trabalho de parto. A
paciente passa a ser acompanhada pelos internos, avaliando sinais vitais, sinais
e sintomas de evolução do trabalho de parto. As informações mais importantes
a serem registradas na evolução da gestante são referentes ao bem estar mater-
no e fetal, por exemplo, os batimentos cardíacos fetais e a intensidade e dura-
ção das contrações uterinas, e isso tudo é explicado à paciente, nada é feito sem
o consentimento dela, uma vez que temos por objetivo tornar a paciente parte
do processo e das decisões tomadas em relação a ela, sempre primando pelo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 634
bem-estar materno-fetal. O exame para avaliar a dilatação do colo uterino, altura
da apresentação do feto e variedade de posição do feto costuma ser realizado pelo
plantonista mais experiente, mas os internos também são ensinados a avaliar es-
ses sinais mais específicos da obstetrícia.
O intervalo entre a internação e o nascimento do recém-nascido é de duração
variável e depende de muitos aspectos, os quais não serão abordados neste artigo
entretanto, convém dizer que à medida em que vai realizando o contato periódico
com a paciente e os familiares passa a ser construída uma boa relação médico-pa-
ciente, além de criar uma oportunidade de empoderar a gestante e dar segurança
para o trabalho de parto, sendo essa relação um aprendizado essencial ao interno
e à formação médica do aluno, importante para o futuro do bom atendimento ao
público.
O cenário do trabalho de parto é desafiador à relação médico-paciente já que,
embora possa ocorrer todo o processo com excelência, estarão presentes no cená-
rio a ansiedade da gestante e dos familiares e, também, o contato com a inevitável
dor típica do trabalho de parto; bem como as contrações que aumentam e se in-
tensificam a cada minuto. Na fase mais adiantada do trabalho de parto o diálogo
se torna mais difícil, somente será adequado se um bom vinculo se estabeleceu
nas fases mais iniciais da internação.
Muito já se foi estudado na área da psicologia médica sobre os mecanismos de
defesa da mente humana nos momentos de dor e de ameaça, sendo caracterís-
tico desses momentos a regressão comportamental. Aqui se mostra importante
o embasamento teórico do aluno, as estratégias para lidar com situações difíceis
fazem parte do aprendizado diário na maternidade. Essa bagagem será de real
importância para que esse futuro profissional possa lidar com tal momento único
para qualquer família, independentemente do nível socioeconômico.

Trabalho de parto ativo:


Nessa etapa do trabalho de parto a gestante costuma estar fragilizada e muitas
vezes cansada. Podem ter passado algumas horas desde a internação e a percep-
ção da gestante é de aumento considerável e progressivo da dor. Mesmo com li-
berdade para caminhar ou deitar, a algumas se tornam mais agitadas, outras mais
silenciosas. O desgaste físico é intenso, o apoio da equipe de saúde e do acompa-
nhante é extremamente necessário. Em alguns momentos pode se tornar cons-
trangedor, seja pelas náuseas ou por descontrole de esfíncteres desencadeados
pela dor intensa. Lidar com essas adversidades do trabalho de parto é um aprendi-
zado muito intenso e marcante para todos os envolvidos.
O interno, nesse momento, realiza importante atividade de incentivar a pacien-
te a ter coragem e não desistir, uma vez que é visível o esgotamento físico e, mui-
tas vezes, também o desgaste emocional da gestante. Muitas delas verbalizam a
vontade de desistir durante o trabalho de parto. Mobilizar a força interna de cada
uma é uma tarefa desafiadora, uma vez que se lida com modificações das estru-
turas físicas para dar passagem ao feto pelo canal do parto. Aprende-se nesse
momento não somente os procedimentos técnicos, mas também a adquirir uma
experiência que não pode ser suficientemente descrita em livros.

Pós-operatório imediato:
Logo após o nascimento o cenário muda; o corpo humano libera diversos neu-
rotransmissores que, após a saída do feto pelo canal de parto e da primeira visua-
lização e do contato pele-a-pele entre a mãe e seu bebê, faz com que a sensação

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 635
dolorosa desapareça, seguida de uma descrita e visual sensação de recompensa.
Além dos sentidos e sensações emocionais, ocorre também modificações fisioló-
gicas no corpo da mulher protegendo-a de hemorragias e facilitando a produção
do colostro para o aleitamento materno. Não é incomum que a puerpera, não mais
sobre o efeito da dor, agradeça a toda a equipe hospitalar pela persistência no
trabalho de parto, além de pedir desculpa por seu comportamento na evolução
do parto, cabendo a toda equipe tranquilizá-la, demonstrar empatia em dizer que
todas essas emoções fazem parte de todo o contexto. O momento final na sala
de partos costuma ser de imensa alegria e felicidade para todos os envolvidos no
atendimento.

Pós-operatório tardio e alta-hospitalar:


O final desse período de internação e a preparação para um novo distanciamen-
to da relação médico-paciente se aproxima. Visitas ao leito por parte da equipe de
saúde acontecem com frequência nos dois dias que a gestante ficará sob observa-
ção no hospital. A equipe médica tem por tarefa rastrear possíveis complicações
no puerpério. Para identificar algum fator que interfira no bem-estar materno são
realizadas algumas perguntas para avaliar se as funções fisiológicas estão normais.
Descartado qualquer complicação, permanecem as tarefas de recomendações de
saúde para as próximas etapas e reforça-se a necessidade de a família dedicar-se
ao cuidado da mãe e do recém-nascido, lembrando das visitas periódicas ao seu
local de atendimento ambulatorial para receber as vacinas e acompanhamento de
rotina. Na ocorrência adequada de todos esses processos é chegada a hora da alta
hospitalar.
Durante a alta hospitalar o interno passa as orientações para a puerpera e para
os familiares de como devem ser os próximos dias, explica sobre os sinais de alerta
e conversa também sobre os primeiros desafios que serão enfrentados. É hora de
atuar em medidas de prevenção à infecção pós-operatória, à anemia, à depressão
pós-parto; sobre planejamento familiar e a morte súbita do recém-nascido. Essa
despedida em forma de conversa marca o fim da atuação do interno nesse am-
biente hospitalar.
A cada paciente, o aprendizado adquirido pelo interno é crescente e a intenção
de todos é tornarem-se cada vez melhores para as próximas pacientes que virão.
Com isso, reforça-se que o internato como atividade de ensino, pesquisa e de ex-
tensão tem importante papel no aprendizado médico. As habilidades vivenciadas
neste estágio são inerentes à prática médica em quase todas as especialidades e
são complementares à construção de uma boa carreira, treinando esses futuros
médicos nas tarefas de acolher, saber ouvir, aprender e ensinar.
As mulheres envolvidas no atendimento na maternidade recebem o carinho e
a atenção dos futuros médicos, muitas vezes sem se darem conta de que também
elas estão ensinando esses estudantes a lidarem com a dor e o sofrimento em sua
forma mais intensa. Os médicos plantonistas, além da assistência propriamente
dita para a comunidade, oferecem sua experiência prática para a formação dos
alunos, mas a presença dos alunos nesse ambiente faz com que eles não percam a
ternura dos primeiros ensinamentos da arte de lidar com o nascimento humano.
Essa colaboração mútua torna o internato na maternidade um local de grande im-
portância para toda a comunidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 636
Relatos de Experiências
A) Médica: já foi interna e hoje é médica obstetra da
Santa Casa, Andressa Novello.
“Éramos duas estudantes de medicina, até aqui nada de novo na questão faculda-
de, além das muitas novidades e o interesse em aprender que impulsiona os inician-
tes. Logo após encerrarmos a semiologia médica (pré-requisito para fazer a prova do
internato), o alvoroço e a ansiedade tomaram conta da dupla sobre a concorrida pro-
va para o internato de obstetrícia da Santa Casa de Pelotas. Os relatos de plantões
exaustivos e da extensa carga horária cursavam com a proximidade de partejar e ‘co-
locar a mão na massa’ nos entusiasmava. Estudamos juntas para a prova, passamos
e iniciamos o internato no ano de 2011, cheias de dúvidas e de incertezas.
As longas noites de plantão e as dificuldades e belezas da especialidade inúmeras
vezes me deixavam com aquele delicioso questionamento em relação ao meu futuro
profissional. Sempre era surpreendida por um sorriso maternal, um aperto de mãos
confiante ou aquela energia triunfante do nascimento de uma nova família.
Lembro dos olhos claros, de uma jovem gestante, que com todo o encanto ange-
lical dos seus 13 anos, adentrava chorando de mãos dadas comigo, após a indicação
médica de interrupção da gestação por via alta (parto cesárea). Comovida com uma
família humilde, do interior, lembro-me de um pai que aguardava, nas escadas, o re-
torno de sua esposa e de seu filho após uma cesariana de emergência. Eram meados
de julho ou de agosto, não recordo com clareza, mas lembro que o frio daquela ma-
drugada fora aquecido com o choro aliviado daquele pai ao saber que seus “tesouros”
estavam bem, como ele mesmo descreveu.
E aos pouquinhos meu coração foi cedendo e com a proximidade das provas de
residência, fui tendo a certeza de que seguiria por esse caminho.
Juntamente comigo, minha dupla de vida, de faculdade e de internato, seguiu a
mesma escolha. Formamos na UCPel, em dezembro de 2014, e, na semana que ante-
cedeu nossa formatura, comemoramos juntas a aprovação na residência de gineco-
logia e obstetrícia. Optamos pela UFPel.
O trajeto nunca foi fácil, acredito que em nenhuma especialidade seja. O misto de
sentimentos que a residência nos traz, oscila muito entre o medo e a paixão. Cresce-
mos muito como profissionais, como médicas e, principalmente, como seres humanos.
Aprendi muito e ainda aprendo com a GO. A empatia, a paciência e a capacidade
de “ficar ao lado” que tanto caracteriza a obstetrícia, me fazem evoluir a cada dia.
Anos após meu internato, depois de findar a residência, retornei aonde tudo co-
meçou, agora como ginecologista e obstetra. Olhar para trás e ver o quanto valeu ter
trilhado esse caminho até aqui, me deixa lisonjeada.
Minha dupla de profissão, atualmente trabalha na cidade de Uruguaiana/RS e
compartilhamos experiências diariamente.
Eu, retornei à Santa Casa e fui bem acolhida, especialmente por um dos precepto-
res que tanto me ensinou no internato e que hoje compartilha comigo suas experiên-
cias e conhecimentos da área.
A GO tem sim suas incertezas, seus medos, seus ‘dias nublados’, mas carrega em
suas entrelinhas uma satisfação incrível e um aconchego ao coração.
Que eu possa sempre ser luz e, através das minhas mãos, trazer luz à vida das
minhas pacientes. Que eu saiba confortar, auxiliar e amparar as novas vidas que se
iniciam. Do latim ‘obstare’, que eu esteja sempre “ao lado” das minhas pacientes.”

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 637
B) Interno: depoimento da estudante do 8º semestre
de Medicina da Universidade Católica de Pelotas (UCPel),
Camila Caldeira Simões.
“Entrei no internato de ginecologia e obstetrícia da Santa Casa de Pelotas em ou-
tubro de 2017. Antes disso, tinha acompanhado uma amiga em dois plantões lá, para
pensar se eu realmente gostaria de fazer esse estágio. No primeiro dia, não teve ab-
solutamente nada, nenhuma avaliação, nenhum parto, nada. No segundo dia, teve
apenas um parto vaginal. Foi esse parto que fez com que meus olhos enchessem de
lágrimas, e foi aí que percebi como gostaria de participar desse internato. Até então
não havia cogitado a hipótese de fazer a residência em ginecologia e obstetrícia (GO),
inclusive em uma época até ria de colegas que diziam que gostavam da área, mas a
vida, de uma maneira ou de outra, acaba nos mostrando o rumo certo.
Durante o internato, fui aprendendo diversas nuances sobre o dia a dia da pro-
fissão, tanto com os médicos plantonistas, quanto com os internos antigos, os en-
fermeiros e os técnicos de enfermagem. Diante disso, posso dizer que aprendi, prin-
cipalmente, a ter empatia. Uma frase que nós, alunos, sempre explicamos para as
pacientes, expondo que cada parto é um parto, assim como cada paciente é uma
paciente e que precisamos ter empatia para entender a dor e o sofrimento de cada
uma delas. Visto que, muitas vezes as pacientes chegam à maternidade gritando de
dor, não deixam realizar exames essenciais para avaliar o bem-estar materno-fetal,
fazendo com que nosso trabalho fique mais difícil, então é nesse momento que pre-
cisamos nos colocar no lugar delas e fazer com que elas se sintam o mais confortável
possível, tendo paciência para explicar como funciona o trabalho de parto e dizer que
cuidaremos dela. É disso que as gestantes precisam: confiança e conforto.
Enfim, realizei 4 plantões por mês, durante os primeiros 6 meses, auxiliava em
partos vaginais e em cesáreas, também fazia as evoluções puerperais no período dos
dois dias que as pacientes ficam na maternidade, a fim de que possamos avaliar o seu
bem-estar físico para que ela possa retornar bem com o seu bebê. Posteriormente,
mais para o finalzinho dos 6 meses do internato, como os médicos já me conheciam,
deixavam eu fazer mais atividades, como suturas cutâneas (as famosas intradérmi-
cas) e fazer os partos vaginais na companhia deles. Em relação aos partos vaginais,
sou suspeita para falar, porque eu amo! Para mim, é a melhor parte do internato, não
existe algo mais lindo do que trazer alguém ao mundo. Fico realizada quando faço
algum parto vaginal, principalmente quando consigo proteger o períneo e a paciente
fica sem laceração. Isso é algo que os médicos sempre ensinam: “protege o períneo”,
além de ver se tem circular no bebê (cordão no pescoço). Então, passaram os 6 meses,
acabei continuando no estágio, e posso dizer que essa experiência mudou minha vida
acadêmica. Hoje, tenho certeza do que quero para o meu futuro, quero ser ginecolo-
gista e obstetra!
Paralelamente a toda essa felicidade, assim como conheci a parte mais linda da
GO, também já passei por muitas partes difíceis, como morte materna por hipotonia
uterina e partos vaginais complicados, o que muitas vezes fez eu me questionar se
realmente seguiria na área.
O internato me proporcionou tudo isso, sou totalmente grata, hoje sinto-me uma
pessoa totalmente diferente de quando entrei, com muita experiência, empatia e,
principalmente, muito amor pela área!”

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 638
C) Paciente: depoimento coletado de uma puérpera que
teve seu bebê na semana do dia 22/10/2019.
1) Ao ser questionada sobre como foi ser atendida na Santa Casa, sua resposta foi:
“Aqui eu gostei mais porque foi mais simpático, entendeu? E eu tive mais ajuda do
que nos outros hospitais. Eu gostei do atendimento e das orientações que me deram
porque ali na hora eu já estava desistindo e eu não conseguia mais. A hora que ele
(médico e interno) me orientou a fazer a força teve uma intenção boa e foi onde me
ajudou mais a fazer [o parto], porque, bem dizer, eu estava muito nervosa e não con-
seguia fazer nada. Só que com as orientações que ele me deu e me passou um pouco
de confiança foi que eu consegui fazer”.
2) Ao arguir a paciente sobre se o atendimento foi melhor com a presença dos
internos:
“Foi melhor porque, na realidade, eles [outros hospitais] não falavam praticamen-
te nada, não me indicou como que era para fazer a força. Aí eu cheguei aqui e ele me
indicou que era para fazer desse jeito. Viu que eu estava fazendo errado e me orientou
que não era desse jeito. Foi isso aí que gostei e foi onde me ajudou a fazer mais rápido
porque eu estava mais gritando do que fazendo força. Na realidade quem passou a
maior parte do tempo comigo foram vocês (internos), e eu gostei bastante do atendi-
mento aqui, foi muito bom”.

Referências
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO MÉDICA. O internato nas escolas
médicas brasileiras. Rio de Janeiro: ABEM; 1982.

CHAVES, Igor Tavares da Silva; GROSSEMAN, Suely. O Internato médico e suas


perspectivas: estudo de caso com educadores e educandos. Revista Brasileira de
Educação Médica, Rio de Janeiro, v. 31, n. 3, p. 212-222, 2007.

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de


Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 4, de 07 de novembro de 2001. Dire-
trizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina. Disponível
em: [Link] Acesso em: 03 out. 2019.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de


Ações Programáticas Estratégicas. Orientações para elaboração de projetos
arquitetônicos Rede Cegonha : ambientes de atenção ao parto e nascimento
[recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Depar-
tamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde,
2018. 48 p. : il. Disponível em: [Link]
tacoes_projetos_arquitetonicos_rede_cegonha.pdf . Acesso em: 03 out. 2019.

FLECK, Adriana; PICCININI, César Augusto. O bebê imaginário e o bebê real no


contexto da prematuridade: do nascimento ao 3º mês após a alta. In: Periódi-
cos eletrônicos em Psicologia. Aletheia – Revista Interdisciplinar de Psicologia
e Promoção da Saúde, n. 40,2013. Disponível em: [Link]
[Link]?script=sci_arttext&pid=S1413-03942013000100003. Acesso em: 03 out.
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 639
RIO GRANDE DO SUL. Secretaria da Saúde. Regiões de Saúde. Disponível em:
[Link]
REGIOES_SAUDE.pdf. Acesso em: 03 out. 2019.

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE PELOTAS. Santa Casa de Pelotas. Histó-


ria. Disponível em: [Link] Acesso
em: 03 out. 2019.

FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DO PORTO. Estudo da


FMUP demonstra: Mortalidade materna ‘caiu’ 100 vezes nos últimos 80 anos.
Disponível em: [Link]
nr=7634. Acesso em: 03 out. 2019.

SOBRE OS AUTORES
Thales Moura de Assis, graduando Celene Maria Longo da Silva, gra-
do 6º semestre do Curso de Medicina duada em Medicina na UFSM. Doutora
na UFPel. Aluno coordenador do proje- em Epidemiologia na UFPel. Professora
to. E-mail: [Link]@[Link] associada da UFPel. Coordenadora do
projeto. E-mail: [Link]@gmail.
Alice Voese Damé, graduanda do com
8º semestre do Curso de Medicina na
UCPel. Aluna coordenadora do projeto. Scilla Lazzarotto Correa Lima, gra-
E-mail: [Link]@[Link] duada em Medicina na UFPel. Coor-
denadora adjunta do projeto. E-mail:
scillasilva@[Link]
Anderson Mendes dos Santos, gra-
duando do 6º semestre do Curso de
Medicina na UFPel. Aluno do projeto.
E-mail: mendesanderson2013@gmail.
com

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº4 640
DIÁLOGOS SOBRE ALIMENTAÇÃO
E NUTRIÇÃO EM APROXIMAÇÃO
COM A COMUNIDADE ESCOLAR DA
VIZINHANÇA
Sônia Teresinha De Negri

Apresentação
Por volta dos anos 2010-2011, houve importante estímulo institucional para a
realização de atividades extensionistas vinculadas ao Programa Vizinhança. Pla-
nejado pela Reitoria, representava o desejo para a ocorrência de maior aproxima-
ção do ambiente universitário e seus saberes, com o ambiente social. As ações
eram planejadas visando aos bairros circunvizinhos aos campi da UFPel, com suas
particularidades e necessidades diversas e, principalmente, àqueles do entorno do
Campus Porto. Nesse período, iniciavam-se as atividades administrativas e acadê-
micas no Anglo.
Cada Projeto de Extensão em si compreendia uma unidade, que integrava um
projeto ampliado denominado Programa Vizinhança. Foram planejadas ações
extensionistas junto a comunidade, a partir de levantamentos das necessidades,
carências e potencialidades dos grupos sociais da vizinhança. Os benefícios comu-
nitários propostos eram diversos. No meio acadêmico, o Programa propiciava a
participação de docentes e discentes, estimulava a diálogos e aproximações in-
teráreas, favorecia a difusão de conhecimentos científicos e a troca de saberes,
devido seu caráter interdisciplinar.
O Programa Vizinhança encontrou no contexto escolar espaços apropriados
para a inserção acadêmica e a realização de objetivos de caráter extensionista.
A comunidade escolar é tida como um local profícuo para o desenvolvimento de
saberes diversos e a propagação de conhecimentos. As crianças, pela sua natureza
peculiar, são curiosas e criativas. Elas se encontram em uma fase da vida na qual as
mensagens educativas são importantes ao seu futuro como pessoa cidadã. Tam-
bém propagam em suas famílias o que aprendem na escola, reafirmando a impor-
tância de conteúdos variados da educação, principalmente quando esta decorre
da dialogicidade entre teoria e prática (FREIRE, 2002).
SAÚDE Nº5

No intuito de participar da demanda extensionista da Universidade pelo Pro-


grama Vizinhança apresentaram-se dois projetos de extensão, a saber: “Atividades

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 641


em Nutrição com a comunidade da vizinhança” e “Diálogos em Nutrição: promo-
vendo aproximação com a comunidade”. Ambos vinculados ao referido Programa,
foram cadastrados no Departamento de Nutrição e no Controle de Projetos de Ex-
tensão da Pró-reitoria de Extensão e Cultura da Universidade Federal de Pelotas
(DIPLAN/PREC/UFPel). Com objetivos particulares, ambos os projetos apresenta-
vam várias afinidades, que permitiram realizações conjuntas. As atividades foram
iniciadas em 2011 e seguiram-se em fluxo contínuo até o ano de 2016. A partir da
definição dos objetivos no campo da Nutrição, encontrou-se receptividade ao seu
desenvolvimento em uma escola pública de ensino fundamental. Pertencente à
Rede Estadual de Ensino do Rio Grande do Sul, a escola está localizada em um
bairro de periferia da cidade de Pelotas/RS, nas proximidades ao campus Porto.
Trata-se de uma região da cidade que denota muitas carências e problemas diver-
sos, no campo social, econômico e, em saneamento básico, dentre outros. O con-
junto dos problemas afeta a comunidade em seu bem-estar social e, em aspectos
da saúde humana.
Os referidos projetos eram pertencentes à área da saúde e se ancoravam na
temática Alimentação e Nutrição. Para atuação na escola, a temática foi organi-
zada a partir de três eixos norteadores, especialmente elencados para orientar as
atividades na escola.
O primeiro eixo ancorou-se em Educação em Alimentação e Nutrição (EAN)
direcionada aos escolares e demais membros da comunidade escolar, visando o
ensino sobre alimentação, nutrição e saúde do escolar e, priorizando o uso da me-
todologia dialógica (FREIRE, 2002; BRASIL, 2012a).
O segundo eixo compreendeu a realização de oficinas de culinária. Visava à
disseminação de informações sobre alimentação saudável, por meio da associa-
ção entre teoria e prática. Em destaque, apontava para a valorização de frutas e
hortaliças na alimentação diária, favorecendo o hábito alimentar saudável (BRA-
SIL, 2006; 2014). As atividades práticas consistiam na elaboração de preparações
alimentícias apropriadas ao consumo por crianças e adolescentes e, ocorriam em
âmbito escolar.
O terceiro eixo tratou sobre a gestão do Programa de Alimentação Escolar
(PNAE), vinculado ao Ministério da Educação (BRASIL, 2013), que dispõe sobre a
realização de serviço de alimentação a escolares matriculados em escolas públicas
e filantrópicas.
O presente texto narrativo tem por objetivo descrever ações desenvolvidas no
âmbito da extensão universitária, ocorridas através de dois projetos afins, em âm-
bito escolar. Apresentam-se, também, informações sobre as participações discen-
tes e, de produtos acadêmicos resultantes dos projetos (De NEGRI, 2016).
A extensão universitária traduz-se em oportunidades ímpares de enriqueci-
mento acadêmico, pelos significativos benefícios que podem ser gerados pela in-
terlocução direta como a sociedade.

O desenvolvimento das atividades de extensão


em contexto escolar
Interagindo e conhecendo o ambiente escolar
A ciência da Nutrição se apresenta como elemento dinâmico e positivo no
campo científico. Expressa-se em sociedade proporcionando esclarecimentos e
orientações sobre escolhas alimentares adequadas, conforme as necessidades

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 642
nutricionais em cada etapa do ciclo da vida. As evidências científicas reafirmam o
conhecimento, de as práticas alimentares salutares serem determinantes ao ade-
quado crescimento biológico e impactarem positivamente no desenvolvimento
integral do ser humano. As escolhas pessoais e familiares, os hábitos regionais,
a disponibilidade e o acesso aos alimentos, o consumo alimentar, dentre outros
aspectos influenciam sobremaneira no estado nutricional dos indivíduos, princi-
palmente em crianças e adolescentes (BRASIL, 2012b).
As atividades de extensão universitária representam um processo educacional,
cultural, científico e interdisciplinar, favorecendo o desenvolvimento da socieda-
de (FÓRUM DE PRÓ-REITORES DE EXTENSÃO, 2013). Para que os saberes sejam
difundidos adequadamente em sociedade, o canal de comunicação elencado pre-
cisa estar adequado à receptividade do público-alvo.
Na garantia de condições à concretização dos projetos na comunidade escolar
elencada, os primeiros passos voltaram-se ao levantamento de informações junto
aos escolares da escola participante. No turno matutino predominam alunos em
idade adolescente, matriculados do sexto ao nono ano do ensino fundamental.
No vespertino, as classes são a pré-escola e turmas do primeiro ao quinto ano do
ensino fundamental.
A equipe discente formada por estudantes do curso de Nutrição iniciou as ati-
vidades nas salas de aula, onde abordaram sobre alimentos saudáveis e a impor-
tância de consumo da alimentação escolar. Os primeiros contatos propiciaram o
diálogo com os alunos, que manifestavam curiosidades sobre alimentos e saúde.
As observações vivenciadas pela equipe contribuíram ao conhecimento sobre os
alunos e o contexto escolar, a fim de planejamento das atividades educativas a
serem realizadas, segundo os propósitos dos projetos.
Na continuidade, as ações de extensão na escola passaram a ser semanais,
prioritariamente no turno vespertino, voltando-se às crianças dos anos iniciais. Os
recursos didáticos lúdicos foram escolhidos para o ensino sobre alimentação e nu-
trição. As estudantes de Nutrição interagiam com os escolares em salas de aula
(Fig.1) e no refeitório da escola, durante o serviço da alimentação escolar. A reali-
zação de um levantamento com questões objetivas, junto aos escolares, sobre há-
bitos alimentares e conhecimentos básicos sobre alimentos e nutrição, contribuiu
ao enlaçamento entre projeto e escola. Desta etapa produziram-se trabalhos de
acadêmicas participantes, como os de Vitória et al. (2012) e Furtado (2012).

Figura 1 – Atividade
educativa em
alimentação e
nutrição, realizada
com escolares
de uma escola
estadual de ensino
fundamental.
Pelotas/RS, 2012.
Fonte: Acervo da
autora.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 643
Desenvolvimento de Educação Alimentar e
Nutricional no âmbito escolar
A Educação Alimentar e Nutricional (EAN) se constitui importante estratégia
para a promoção de práticas alimentares saudáveis, em todo o ciclo de vida. A saú-
de e a garantia de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) perpassam por EAN.
Esta deve ser contínua e permanente na difusão de conhecimentos e orientações
que assegurem a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis
(BRASIL, 2012a).
As condições de saúde na infância, associadas ao ritmo de crescimento e ao
grau de desenvolvimento pessoal, se refletirão na adolescência e na vida adulta.
Sabe-se que é fundamental a prática de alimentação de qualidade desde a infân-
cia, em correspondência às necessidades ao adequado estado nutricional de esco-
lares. O rendimento escolar, a capacidade cognitiva e a socialização de crianças
são diretamente relacionados com o acesso e o consumo de alimentos diversifica-
dos e nutritivos (DANELON; DANELON, M. S.; SILVA, 2006; BRASIL, 2013).
No decorrer do desenvolvimento dos projetos, as atividades de EAN não se res-
tringiram aos espaços das salas de aula. Buscou-se a interação com a comunidade
escolar, sendo possível pela participação em eventos promovidos pela escola, em
que as famílias dos escolares estavam presentes.
Em um desses eventos, a equipe de estudantes integrou-se aos festejos juninos
promovidos pela escola, onde participavam os escolares e suas famílias. De ma-
neira lúdica e didática, realizou-se uma atividade educativa em meio à oferta de
alimentos característicos da festividade, de alto valor calórico e baixa qualidade
nutricional. O intuito foi de aproveitar o momento descontraído e disseminar so-
bre a importância de consumo de frutas e hortaliças pela população, sem provocar
conflitos com os demais alimentos disponíveis aos participantes da festividade.
A dita atividade consistia de adivinhação da fruta/hortaliça, que havia sido co-
locada às cegas dentro de uma caixa colorida. A criança deveria identificar pela
sensação tática o alimento escondido. Após a descoberta, cabia a um estudante
falar do valor nutricional e a importância de consumo desse alimento. E, assim foi
realizada o jogo educativo sobre diversas frutas/hortaliças. A atividade motivou
à participação dos escolares e seus irmãozinhos presentes na festividade junina
promovida pela escola (Fig.2).
A atuação de estudantes dos cursos de Nutrição e de Gastronomia, nesta etapa
de realização dos projetos, promoveu a aproximação de áreas afins. Entende-se
que a interdisciplinaridade no campo da Alimentação e Nutrição enriquece a for-
mação acadêmica e favorece a disseminação à sociedade, sobre a prática de ali-
mentação segura e saudável.
As atividades realizadas nesse momento lúdico foram sistematizadas em texto
e apresentadas em evento de extensão universitária da UFPel (COSTA et al., 2015).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 644
Figura 2 – Atividade Concomitantemente aos trabalhos realizados em salas de aulas, com os escola-
em Educação res, parte dos estudantes da equipe se voltou à participação nas oficinas culinárias.
Alimentar e
Na escola, elas vinham ocorrendo aos sábados pela manhã há mais tempo, sendo
Nutricional lúdica
realizada durante promovidas pela direção escolar. O público-alvo eram escolares inscritos nessa ati-
festividade junina na vidade extraclasse. Atendendo a convite da direção, em 2012, assumiu-se a orga-
escola estadual de nização das oficinas culinárias, em parceria com a escola.
ensino fundamental. Estava estabelecida a promoção de EAN através da dialogicidade entre a teoria
Pelotas/RS, 2014.
e a prática. As receitas culinárias elencadas para cada encontro abordavam sobre
Fonte: Acervo da diversos alimentos, com sugestões de acréscimo de frutas e hortaliças em pre-
autora.
parações alimentícias, associadas a outros ingredientes. Aproveitavam-se os mo-
mentos de atividade prática para abordagem sobre alimentos processados, ricos
em açúcar e sal, contra-indicados na alimentação diária.
A partir de 2013, as oficinas culinárias foram incrementadas. Contou-se com
equipe renovada de estudantes dos cursos de Nutrição e de Gastronomia, sendo
dois bolsistas pela PROExt/UFPel. A parceria com a escola estava garantida pelo
fornecimento de insumos, a disponibilização da cozinha da escola e demais condi-
ções necessárias ao projeto.
Assegurando a finalidade de os projetos de extensão promoverem contribui-
ções em educação para a cidadania e, de acordo aos quesitos para Educação Ali-
mentar e Nutricional, ampliaram-se as oficinas para além de somente elabora-
rem-se receitas culinárias. Estava proposto que as falas dos estudantes deveriam
reafirmar os valores nutricionais dos ingredientes e as contribuições na promoção
da saúde dos escolares. Desse modo, as oficinas eram ministradas para cerca de
quinze alunos da escola, em atividade extraclasse, aos sábados não letivos.
Uma vez estabelecidas as condições aos trabalhos nas oficinas culinárias saudá-
veis, planificou-se uma pesquisa participante voltada ao Trabalho de Conclusão de
Curso de uma estudante de Nutrição (REZENDE, 2014).
Resumidamente, explicitam-se a seguir as atividades que embasaram a refe-
rida pesquisa. Foram realizadas cinco oficinas culinárias, em intervalo quinzenal,
com a participação de doze escolares. A cada início de oficina procedia-se uma
roda de conversa, com uso de materiais didáticos e amostras de alimentos. Uma
estudante de Nutrição apresentava o alimento-tema da oficina do dia. A roda de
conversa ocorria em uma sala de aula e durava cerca de vinte minutos. O alimen-
to-tema pertencia a um ou mais grupos de alimentos elencados para as oficinas,
quais eram: cereais, frutas e vegetais, leguminosas, ovos e leite. Finalizada a intro-
dução ao alimento-tema daquele dia, os alunos eram conduzidos ao lavatório da
escola para procederem à higienização orientada das mãos e colocação de touca
e avental (Fig.3).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 645
Ao adentrarem na cozinha, os escolares eram recebidos por estudantes de Nu-
trição e de Gastronomia que, previamente, haviam organizado os ingredientes
para a elaboração da receita culinária. Eram selecionados ingredientes de baixo
custo, in natura ou minimamente processados, acessíveis à população local. À me-
Figura 3 – Momentos
das oficinas de dida do possível, os alunos participavam diretamente da manipulação, contactan-
culinária saudável do com os alimentos e modos de preparo. No momento da degustação dos ali-
realizadas na escola
estadual de ensino mentos elaborados, era provocado o diálogo a fim de destaques ao valor alimentar
fundamental. e nutricional do que fora preparado. Vários depoimentos de escolares apontaram
Pelotas/RS, 2014.
para experiências positivas com alimentos, muitos desconhecidos ou que não fa-
Fonte: Acervo da
autora. ziam parte do hábito alimentar (REZENDE; De NEGRI, 2015).

Os resultados alcançados nas oficinas culinárias apontaram pontos positivos. A


Figura 4 – Escolares equipe de estudantes atuou de modo integrado e dinâmico, como promotora de
participando
ativamente das EAN para escolares. Oficinas culinárias, devidamente organizadas para tratar so-
oficinas de culinária bre alimentos saudáveis, podem fazer parte do processo educacional em alimen-
saudável em Escola
da rede Estadual de tação e nutrição. As crianças, ao participarem ativamente de modos de preparos
Ensino Fundamental. de alimentos sentem-se estimuladas ao seu consumo. Recomenda-se que sejam
Pelotas/RS, 2014.
valorizados os alimentos nutritivos e saudáveis, como ocorrido na execução dos
Fonte: Acervo da
autora.
projetos de extensão (Fig. 4).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 646
A execução do Programa de Alimentação Escolar
Os serviços de alimentação de escolas públicas assumem o compromisso legal
de fornecimento de refeições adequadas do ponto de vista nutricional, higiênico
e, com segurança, visando às preferências alimentares dos escolares. O Programa
Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) pressupõe a garantia do fornecimento
de refeições aos escolares no turno de aulas. Para tanto, mensalmente o governo
federal envia recursos financeiros às escolas para a aquisição de gêneros alimentí-
cios necessários ao preparo das refeições. Os cardápios devem ser planejados por
nutricionistas, segundo as recomendações científicas para alimentação de escola-
res. As refeições servidas nas escolas influenciam o comportamento alimentar dos
alunos e contribuem na formação de hábitos alimentares (DANELON; DANELON,
M. S.; SILVA, 2006; BRASIL, 2012b; BRASIL, 2013).
No que se refere à execução do PNAE, os estudantes reforçavam sobre a impor-
tância de consumo da alimentação preparada na escola. Foram realizadas ações
educativas sobre alimentação nutritiva e de qualidade junto às turmas de aula,
principalmente com os escolares das séries iniciais do ensino fundamental. Tam-
bém, os acompanhamentos de estudantes de Nutrição no refeitório eram tidos
como estímulos ao consumo da alimentação servida.
A direção da escola frequentemente manifestava dificuldades para a compra
diversificada de alimentos e, principalmente de frutas e hortaliças, informando so-
bre a insuficiência de recursos financeiros a esse fim. Também, a escola enfrentava
carência em recursos humanos e em equipamentos de cozinha para a elaboração
de cardápios recomendados por nutricionistas da Secretaria da Educação/RS. Vi-
sando a identificação das reais necessidades de recursos financeiros para a reali-
zação de cardápios conforme indicado pelo PNAE, em comparação com dotação
orçamentária da escola, procedeu-se uma pesquisa, que resultou em Trabalho de
Conclusão de Curso de uma estudante de Nutrição (MOREIRA, 2014).
A investigação levantou os custos dos insumos utilizados ao preparo das re-
feições servidas na escola e, àqueles apontados como necessários a elaboração
de cardápios previstos pelo PNAE. As conclusões confirmaram a insuficiência or-
çamentária da escola como maior impedimento para a confecção de cardápios
sugeridos pelos nutricionistas da SE/RS. Uma população escolar oriunda de co-
munidade de tantas carências requer aporte calórico e nutricional diário, através
de alimentação diversificada e, que precisa ser parcialmente oferecida na escola.
A aceitação da alimentação escolar é um dos pilares do PNAE (BRASIL, 2013).
O consumo de alimentos saudáveis no período escolar favorece a boa disposição,
atenção e contribui ao processo de ensino e aprendizagem. Para muitos alunos, o
que é servido na escola é a sua principal refeição diária. O teste de aceitabilidade é
recomendado pelo PNAE e deve ser realizado com freqüência, pela escola. Quan-
do são observados resultados pouco satisfatórios na aceitabilidade dos cardápios,
há necessidade de ajustes no modo de preparo, ou na formulação de novas com-
binações alimentares, até a obtenção de pareceres favoráveis. Segundo o PNAE,
a aceitabilidade de cada preparação ou cardápio diário deve estar acima de 85%
pela comunidade escolar, ou seja, pressupõe que atentem para as preferências ali-
mentares.
Para fins de conhecer a aceitabilidade dos cardápios na escola onde ambos
os projetos estavam sendo desenvolvidos, realizou-se uma pesquisa com alunos
do ensino fundamental dos dois turnos de aula, para a verificação da aceitabili-
dade dos cardápios da alimentação escolar. As conclusões apontaram para a

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 647
aceitabilidade muito positiva das refeições, tanto de sabores adocicados ou sal-
gados. A escola denota exercer seu compromisso quanto ao fornecimento de
alimentação escolar, superando as dificuldades e contribuindo com a saúde dos
escolares. Os dados coletados compuseram o Trabalho de Conclusão de Curso de
uma estudante e bolsista de extensão, que foi publicado como artigo científico
(RIBEIRO; De NEGRI, 2019).
Os projetos de pesquisas associados a ambos os projetos de extensão aqui nar-
rados foram aprovados por Comitês de Ética em Pesquisa da UFPel. Os quesitos
sobre ética em pesquisa foram assegurados, incluindo a obtenção de consenti-
mento pela Coordenadoria Regional de Educação e pela direção da escola, que
acompanhou as execuções e recebeu seus resultados.

Figura 5 – Alguns
membros da equipe
dos projetos de
extensão por ocasião
das oficinas culinárias
na Escola Estadual de
Ensino Fundamental
de Pelotas/RS, 2014.
Fonte: Acervo da
autora.

Figura 6 – Membros
da equipe dos
projetos de extensão
participando do
SEURS/UFSC/2014
Fonte: Acervo da
autora.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 648
Conclusões
Quando se abordam as atividades extensionistas universitárias, referimo-nos à
aproximação afinada com o contexto da sociedade em si. A extensão é um meio
acadêmico que possibilita a propagação do conhecimento científico, ultrapassan-
do os limites físicos dos espaços destinados ao âmago da ciência e, assim, também
alcançando a sociedade em que se insere. A partir dessa compreensão, os proje-
tos desenvolvidos e narrados neste texto encontraram espaço ao seu desenvolvi-
mento em uma escola pública de ensino fundamental, localizada em um bairro de
periferia da cidade e que apresenta complexas dificuldades. A direção da escola
apresenta-se aberta para inovações, avanços e diálogos, favorecedores para a in-
tegração da escola com a Universidade.
Entende-se que, na condição de proponente dos referidos projetos vinculados
ao Programa Vizinhança, os objetivos planejados foram alcançados e, pode-se
afirmar, ultrapassaram as expectativas iniciais. Houve positiva associação entre as
propostas extensionistas com os anseios da escola que acolheu o desenvolvimen-
to dos projetos. Do meio acadêmico vários estudantes universitários participaram
em diversas etapas e momentos. Espera-se que as experiências vivenciadas, inde-
pendentemente da permanência e intensidade da atuação de cada um, possam
ter agregado conhecimentos significativos na sua formação universitária.
Quanto aos escolares, principalmente na fase da infância, pode-se afirmar so-
bre a sua positiva integração nas atividades educacionais em alimentação e nutri-
ção, que foram propostas. Eles interagiram nas oficinas culinárias, nas atividades
educacionais lúdicas e se mostraram receptivos a novos conhecimentos.
A educação dialógica deve perpassar por todos os níveis escolares, inclusive no
nível superior e, a extensão universitária se realiza nesse sentido.

Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de
Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira: promovendo a ali-
mentação saudável. Brasília: Min. Saúde, 2006.

BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Secretaria


Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Marco de Referência de Educa-
ção Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas. Brasília, 2012a.

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cação. Manual de orientação para a alimentação escolar na educação infantil,
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CECANE/SC, 2 ed. Brasília, 2012b. 48 p.

BRASIL. Ministério da Educação. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Edu-


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básica no âmbito do Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE. Bra-
sília, 2013.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de


Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. Brasília, 2014.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 649
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VITÓRIA, J.S.; SILVEIRA, F.V.; WELTER, D.C.; De NEGRI,


SOBRE A AUTORA S.T. Reconhecimento da nutrição e dos meios de comuni-
cação para alunos de uma escola pública de Pelotas/RS.
Sônia Teresinha De Negri, gradua-
In: 11ª MOSTRA DE PESQUISA UNIVERSITÁRIA, 2012,
da em Nutrição pela UNISINOS. Dou-
Rio Grande. Anais [...].Rio Grande: FURG, 2012.
tora em Ciências pela UFPel. Professora
do Departamento de Nutrição/UFPel.
Coordenadora do projeto. E-mail:
soniadenegri@ [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº5 650
TRATAMENTO E ACOMPANHAMENTO
DE TRAUMATISMOS ALVÉOLO
DENTÁRIOS:
PROJETO “CETAT”, 15 ANOS ASSISTINDO À
COMUNIDADE DE PELOTAS E REGIÃO

Cristina Braga Xavier


Letícia Kirst Post
Luciane Geanini Pena dos Santos
Eduardo Luiz Barbin
Fábio Garcia Lima
Josué Martos

Apresentação
No ano de 2004, a Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pe-
lotas (FO/UFPel) passava por um momento histórico, pois estava então no meio
da implementação de um novo currículo onde o curso passava a ter duração de 5
anos, e sofria uma série de modificações curriculares. A disciplina de Traumatolo-
gia Buco-Maxilo-Facial (TBMF), que desde o ano de 1997 atendia alguns pacientes
com traumatismo dentário, passava a acontecer no 9º semestre e não mais no 8º,
como acontecia no currículo antigo. Neste mesmo momento, o projeto de exten-
são “Salve o seu Dente”, do Departamento de Cirurgia, Traumatologia e Prótese
Buco-Maxilo-Faciais (DCTPBMF), responsável por levar à comunidade de Pelotas
e região importantes informações sobre os traumatismos dentários e principal-
mente sobre o que fazer quando uma avulsão dentária ocorre, estava em pleno
funcionamento. Escolas estaduais e municipais estavam sendo visitadas, e ativi-
dades como palestras, teatros de fantoches e exibição de slides eram feitas se-
manalmente, nos diversos bairros da cidade, explicando a necessidade de ação
imediata após a ocorrência dos traumas. Assim, inúmeros pacientes, procuravam
a FO/UFPel para receberem o atendimento adequado após o trauma, conforme
SAÚDE Nº6

as orientações recebidas durante as atividades do “Salve o Seu Dente”, no en-


tanto havia uma interrupção da disciplina de TBMF, em função das mudanças no

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 651


currículo, e os pacientes não tinham uma clínica adequada para receberem o aten-
dimento. Surgiu, então, a ideia de criar um projeto de extensão para atender esta
demanda crescente de pacientes que procuravam a faculdade.
Então, no ano de 2004, surgia o projeto de extensão CETAT, sob a coordena-
ção da professora Cristina Braga Xavier, do DCTPBMF, agregando a participação
de professores de diversas áreas da odontologia (cirurgia, endodontia, dentística
restauradora, periodontia e clínica integrada) com a concepção de proporcionar
um atendimento multidisciplinar, abordando os mais diversos aspectos clínicos do
trauma e proporcionando um atendimento imediato às urgências, com um proto-
colo de tratamento e acompanhamento de médio prazo. Houve, também, a preo-
cupação de criar um momento de estudo sobre as múltiplas variáveis que afetam
o prognóstico dos traumatismos, à luz da literatura atualizada e da experiência
clínica, propiciando a qualificação dos professores e alunos envolvidos.
O escopo principal do projeto foi de atender os pacientes com avulsão dentá-
ria e suas complicações. O CETAT foi concebido para ter uma duração limitada de
tempo, até a reorganização da disciplina de TBMF em suas atividades clínicas. No
entanto, como a demanda de atendimento sempre foi muito grande, pois a maio-
ria destes pacientes segue em acompanhamento por no mínimo cinco anos, e so-
mado a isto ocorre à entrada de novos pacientes quase que semanalmente e, ao
fato de que a disciplina sempre teve muita dificuldade em ter professores de ou-
tras especialidades odontológicas além da CTBMF, o projeto foi se perpetuando,
consolidando suas características e permanece em atividade até hoje, ininterrup-
tamente ao longo destes 15 anos.
O CETAT vem desempenhando um trabalho importante para a comunidade de
Pelotas e região. Mantém o atendimento inicial de pacientes encaminhados do
Pronto Socorro Municipal (PSM) de Pelotas com diversos tipos de Traumatismo
Alvéolo Dentário (TAD) e vem sendo um “Serviço de Referência” à população de
cidades como Rio Grande, Canguçu, Capão do Leão, São Lourenço do Sul, Jagua-
rão, Santana da Boa Vista e outras cidades da região. Também mantém uma par-
ceria com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e com as Unidades Básicas de
Saúde (UBSs), tanto em relação ao atendimento dos pacientes como em cursos

Figura 1 – Curso
ministrado por
professores do
CETAT para
Cirurgiões-Dentistas
das Unidades Básicas
de Saúde de Pelotas.
Fonte: Arquivo de
fotos do CETAT.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 652
de capacitação e aprimoramento dos cirurgiões dentistas (CD) das UBSs (Fig. 1).
Portanto, a FO/UFPel tornou-se um centro de referência para o atendimento des-
ses pacientes no município de Pelotas e Prefeituras vizinhas, de Cristal até o Chuí,
tendo o projeto uma abrangência macrorregional.
Em inúmeros momentos ocorre a “unificação” provisória do atendimento clí-
nico da disciplina de TBMF com o Projeto CETAT e com a atuação dos residentes
em CTBMF, principalmente durante os períodos de férias, greves e paralisações,
quando o projeto interrompe suas atividades. Ao longo dos anos observa-se tam-
bém que aumentou o número de CDs que entram em contato com os professores
do CETAT para “tirar dúvidas” de como proceder no atendimento ou de como en-
caminhar pacientes para atendimento no projeto, visto que a maioria das UBSs
não tem condições de realizar todos os tipos de tratamento que o trauma dentário
requer. Além disso, foi relatado por inúmeros pacientes a dificuldade para conse-
guir atendimento após o tratamento de urgência realizado no PSM de Pelotas em
outro serviço de pronto atendimento, seja por dentistas das UBSs ou em consul-
tórios particulares.
No ano de 2016, devido a uma longa paralisação, foi criado um projeto de en-
sino para aprimorar as atividades do CETAT e da disciplina de TBMF, denominado
“Estudos em Traumatismos”, que manteve os alunos em atividades discentes e
melhorou a estruturação administrativa de agendamento dos pacientes, controle
e contabilização dos materiais odontológicos utilizados nos atendimentos. Tam-
bém foi possível aprimorar o conhecimento científico, organizar material clínico
e informações para viabilizar a apresentação de diversos trabalhos na Semana In-
tegrada de Ensino Pesquisa e Extensão da UFPel (SIEPE), Semana Acadêmica de
Odontologia (SAO) e outros congressos da área e também viabilizar a estrutura-
ção de novas pesquisas e a elaboração de artigos científicos. Todas essas ativida-
des refletiram em melhoria na qualidade do Serviço prestado à comunidade, pois
houve um treinamento e capacitação para toda a equipe. Este projeto foi finaliza-
do no final de 2018.
O CETAT, através de seus docentes e alunos, também leva informação e atua-
lizações a diversos locais, através de cursos e palestras, citando como exemplo os
cursos realizados no ano de 2018, durante a Semana Acadêmica Odontológica da
UFPel, na I Jornada Integrada da Residência em CTBMF/UFPel, no 1º Congresso
Latino Americano de CTBMF, realizado na cidade de Gramado/RS, bem como a
participação no Congresso Internacional de Odontologia do Rio de Janeiro, Jor-
nada Integrada de Odontologia de Passo Fundo, dentre tantos outros eventos ao
longo destes 15 anos. Estas ações servem como multiplicadoras de conhecimento
e levam o nome da UFPel para vários locais, como um importante Centro de Estu-
dos em Traumas Dentários (JORGE et al., 2009; NEEDLEMAN et al., 2013)..
Atualmente contamos também com o auxílio da internet e redes sociais na
divulgação das atividades do projeto, dos horários das clínicas e das atividades
de cunho teórico realizados. Está sendo desenvolvida e aprimorada a página na
web institucional: [Link] e instagram, cuja identificação é:
@cetatufpel. Estas ferramentas têm como objetivo aumentar a comunicação com
a comunidade, alunos e outros profissionais, possibilitando ampliar cada vez mais
a abrangência do CETAT.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 653
Rotinas de atendimento no projeto CETAT
As ações do projeto são baseadas nos principais protocolos de atendimento e
melhores evidências científicas, que orientam desde a primeira consulta do pa-
ciente até o acompanhamento em longo prazo do trauma, mas sempre respei-
tando a individualidade de cada caso. Os pacientes permanecem em acompanha-
mento por muitos anos até o completo desfecho dos casos, além disso, muitos
traumas acontecem em crianças e estas só tem alta após o completo crescimento
craniofacial, em que reabilitações definitivas podem ser realizadas. Ao longo dos
anos, constatam-se diversos casos de sucessos clínicos e respostas positivas a tra-
tamentos do TAD, o que motiva e dá esperanças aos pacientes, como também,
incentiva a procura dos alunos a participarem do CETAT.
As atividades compreendem desde o agendamento e confirmação de consultas
de pacientes com TAD, que já estão em atendimento, até o acolhimento de pa-
cientes de urgência. As urgências chegam à FO/UFPel por livre demanda ou oriun-
dos do PSM de Pelotas, UBS e de consultórios particulares, após o atendimento
emergencial, para a sequência do tratamento. Também é feito um gerenciamento
de um banco de dados com informações de consultas e retornos de todos os pa-
cientes atendidos.
As atividades clínicas do projeto ocorrem, uma vez por semana durante 4 horas,
nas terças-feiras a partir das 18 horas, na Clínica Sul, do DCTPBMF da FO/UFPel (3º
andar). Todos os tipos de atividades clínicas necessárias ao tratamento das avul-
sões são realizadas, tais como: proservação, acompanhamento clínico e radiográ-
fico, contenções, terapias com hidróxido de cálcio, restaurações, exodontias, en-
xertos, dentre outras. Assim percebe-se uma demanda contínua de atendimento
e controle de pacientes com traumatismo alvéolo-dentários.
Durante os períodos de férias, quando ocorre interrupção das atividades e
quando surgem urgências em horários distintos, o projeto conta, desde 2005, com
bolsistas PROBIC da UFPel, os quais fazem os atendimentos clínicos sempre su-
pervisionados pelos professores extensionistas e muitas vezes com o auxílio dos
residentes de CTBMF.

Figura 2 –
Atendimento na
Clínica da Sul do
DCTBMF da FO/
UFPel.
Fonte: Arquivo de
fotos do CETAT.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 654
Durante as clínicas semanais, todos pacientes são atendidos pelos alunos de
graduação e pós-graduação, supervisionados pelos professores envolvidos no
projeto. A periodicidade das consultas é definida de acordo com a gravidade do
caso, tempo decorrido desde o trauma e com as novas demandas, que muitas ve-
zes causam uma fila muito grande de pacientes esperando por agendamento de
retorno (Fig. 2).
No presente momento, tem-se a participação de seis professores, dois do de-
partamento de CTPBMF, dois da área de Dentística e Clínica e dois da área de En-
dodontia, e também a participação de uma ortodontista voluntária. Participam
ainda, os seis alunos da residência em CTBMF, que geralmente fazem o primeiro
atendimento no PS e acompanham a sequência do tratamento de muitos pacien-
tes, principalmente quando estes precisam de procedimentos de enxertos e cirur-
gias mais complexas e de vinte alunos da graduação, do 2º ao 10º semestres. Des-
ses, dois são bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica
(PROBIC) da Pró-reitoria de Extensão e Cultura (PREC), sendo um na modalidade
vulnerabilidade social e outro, na modalidade “ações afirmativas”, iniciativa pio-
neira da PREC no ano de 2019, a qual tivemos a felicidade de ser contemplados
e que vem demonstrando um importante passo na inclusão social e capacitação.
Na rotina de atendimento, os acadêmicos se dividem de acordo com suas ativi-
dades em: Atendentes Clínicos (AtC- do 6º ao 10º semestre) que realizam exame,
diagnóstico, procedimentos clínicos e cirúrgicos; Auxiliares Clínicos (AuC- 5°se-
mestre) são responsáveis pela realização de exames radiográficos, processamento
dos mesmos e algumas vezes de auxílio na manipulação dos materiais odontoló-
gicos e preenchimento dos prontuários; Serviço de Apoio Clínico e Gerenciamento
(AS- do 2º ao 4°semestre) os quais são responsáveis pelos registros fotográficos
dos casos, pelo preenchimento das planilhas de agendamento/produção/consu-
mo de materiais, fichas do SUS, recepção e organização da agenda.
Os bolsistas do projeto são responsáveis por realizar o agendamento semanal
das consultas de retorno, por fazer o arquivamento digital de todas as radiografias
e fotos clínicas em pastas individuais no computador, criando assim um banco de
informações digitalizados dos pacientes. Também estão constantemente atuali-
zando as fichas dos pacientes e a cada final de semestre, organizando junto com
a coordenação, a definição de demandas de atendimento, de encaminhamentos
para outras disciplinas e de remoção das fichas de pacientes que não virão mais
para o atendimento, seja por alta, desistência, encaminhamento ou impossibilida-
de de contato telefônico, para um arquivo que denominamos de “arquivo morto”,
o qual permite acesso a qualquer tempo em caso de retorno do paciente ou neces-
sidade de acesso de dados.

Unificando Ensino-Pesquisa-Extensão
Uma das metas do projeto é em relação à formação acadêmica integral, in-
tegrada e que busca a interdisciplinaridade com os docentes e pós-graduandos
da FO/UFPel, como também, de outras Universidades e a manutenção do conví-
vio com ex-alunos através da sua participação voluntária na rotina das clínicas e
eventos científicos. A “oxigenação” do projeto ocorre a partir da busca contínua
do conhecimento das mais diversas áreas, desde avaliação do serviço e sua postu-
ra frente a problemas, até mesmo na elaboração dos indicadores e insumos para
análise e elaboração de novas políticas públicas e integração das UBSs, do PS de
Pelotas e da própria FO/UFPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 655
A última terça-feira do mês é reservada para a realização de discussões e es-
tudos de casos a partir da casuística do próprio projeto. A realização de discus-
são dos casos de alta complexidade, envolvendo especialistas em diversas áreas
da odontologia, introduz os avanços tecnológicos apresentados pelos centros de
excelência em pesquisa e estudos de TAD do mundo inteiro, buscando qualificar
cada vez mais o atendimento dos nossos pacientes e estimular que os alunos aper-
feiçoem seus conhecimentos técnico-científico na área, a qual, com certeza, será
um dos grandes desafios de suas clínicas quando cirurgiões-dentistas (Fig. 3).

Figura 3 – Seminário
e discussão de casos,
realizados no CETAT,
com a equipe de
professores e alunos
extensionistas do ano
de 2018 .
Fonte: Arquivo de
fotos do CETAT.

Diversas pesquisas e a elaboração de artigos científicos, a partir da casuística do


projeto, também são realizadas pela equipe envolvida no projeto e este trabalho
é possível graças à manutenção constante do banco de dados e cuidados com os
registros (BORIN-MOURA et al., 2018; FURICH et al., 2019; MARTOS et al., 2015,
2017, 2018; MATGE et al., 2015; MOURA et al., 2017, SILVEIRA et al. 2013, 2016; XA-
VIER et al., 2015). Nossa casuística hoje é uma fonte inestimável de informações
clínicas, absolutamente importantes para compreender melhor os desfechos dos
diferentes traumas ao longo do tempo. Vários trabalhos de conclusão de curso de
graduação e residência já foram e estão sendo realizados com dados do projeto,
seja na forma de relato ou série de casos, seja na forma de pesquisas. Muitos tra-
balhos foram publicados em periódicos nacionais e internacionais e destacamos
também nossa participação anual nos eventos da UFPel, como: Congresso de Ex-
tensão e Cultura (CEC), Congresso de Iniciação Cientícica (CIC) e Congresso de En-
sino de Graduação (CEG) que proporcionam a alunos e professores a possibilidade
de avaliar, discutir e rever os objetivos do projeto, à luz das atividades realizadas
na Universidade.
Ainda, dentro da FO/UFPel, existe uma interação direta com a Disciplina de
Traumatologia e uma interface com outros projetos de extensão, como por exem-
plo, o NETRAD (traumatismo em dentes decíduos), o Salve o Seu Dente, o Endo-Z,
o PROAT (atendimento a traumatizados), dentre outros.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 656
Gráfico 1 – Contextualização do trauma e a sua importância
Distribuição de
pacientes com na formação dos alunos, através da participação
traumatismos em
dentes permanentes,
no CETAT demonstrada a partir dos principais
atendidos no
Departamento de
resultados do projeto
CTPBMF- CETAT, por Entre fevereiro e outubro de 2019, já foram realizados mais de 400 atendimen-
ano de ingresso no tos na clínica do CETAT, atingindo aproximadamente 150 pacientes, entre casos
Serviço.
novos e aqueles que já estão em acompanhamento há vários anos no projeto.
Fonte: Dados de Em um levantamento realizado dos atendimentos realizados no CETAT até o
Pesquisa. Pelotas,
ano de 2017, por Barcellos et al. (2018), foram contabilizadas 761 fichas de pacien-
2018.
tes atendidos no projeto e verificou-se
que 1757 dentes foram traumatizados.
Pode-se observar uma média de 47,5
pacientes novos atendidos por ano
(Gráfico 1).
Verificou-se que 525 pacientes eram
do gênero masculino (69,0%) e a faixa
etária prevalente foi dos 13 aos 19 anos
(n= 220, 28,9%), seguida pelos de7 aos
12 anos (n= 206, 27,1%).
As avulsões dentárias, dentre todos
os tipos de trauma atendidos, contabi-
lizaram 277 pacientes (15,8% dos casos)
e os dentes mais acometidos em todos os tipos de trauma foram os incisivos cen-
Gráfico 2 –
Distribuição trais superiores (n=981, 55,9%). Em um comparativo feito com o estudo prévio de
percentual dos Moura et al. (2017), realizado com dados de janeiro de 2002 a dezembro de 2012,
716 pacientes com tinha-se um total de 545 pacientes com 1304 dentes traumatizados, constatando-
traumatismos em -se um acréscimo de 216 casos novos e de453 novos dentes traumatizados num
dentes permanentes
período de cinco anos, sendo que a média de dentes acometidos por paciente,
de acordo com a
etiologia do trauma, manteve-se em 2,3. Em relação à etiologia, em quatro anos, as quedas de própria
durante 15 anos de altura passaram a ser a principal causa, deixando em segundo lugar os acidentes
atendimento no automobilísticos.
projeto CETAT. O TAD consiste na lesão de dentes e/ou outros tecidos duros e moles da cavida-
Fonte: Dados de de oral. Embora essas lesões sejam mais prevalentes em populações específicas,
Pesquisa. todos os indivíduos apresentam algum
risco de trauma durante suas atividades
diárias. As lesões apresentam etiologia
complexa e os cuidados de urgência
prestados são muitas vezes inadequa-
dos ou inapropriados (BORUM; AN-
DREASEN, 2001).
A incidência de TAD afeta em tor-
no de 5% da população em uma escala
global e está aumentando progressi-
vamente nos últimos anos. Dentre as
etiologias mais comuns do TAD estão
as quedas de própria altura e de altu-
ra, colisões contra objetos e pessoas,
acidentes automobilísticos, práticas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 657
esportivas e violência (LAM, 2016). Dados que vêm ao encontro do que se consta-
tou nos atendimentos no projeto CETAT.
Nos últimos anos, tem havido crescente preocupação sobre este problema de
saúde bucal, por causa da alta prevalência e custo envolvido em seu tratamento,
em função do acompanhamento em longo prazo destes pacientes e da possível
necessidade de reabilitações extensas dos mesmos. Esse alto índice contribui para
transformar o TAD em um problema de saúde pública (BRASIL, 2012).
Mais da metade dos traumatismos envolve incisivos centrais superiores (XA-
VIER et al., 2011) e a classificação do TAD está de acordo com a sua gravidade,
desde simples fraturas de coroas dentais até a avulsão dentária, considerada um
trauma grave, pois significa a completa exarticulação do dente do seu alvéolo
(osso).
A faixa etária mais acometida em dentes permanentes é a adolescência, porém
alguns autores relatam a faixa de 20 a 30 anos, como a mais afetada. Além disso,
a maior frequência de traumas ocorre no sexo masculino (MOTA, 2011). Assim o
estudo dos TAD assume um papel importante dentro da sociedade devido a sua
frequência (TRAEBERT et al. , 2003), e por isso é tão importante à participação
dos alunos nestas atividades, pois fatalmente se depararão com estes casos no dia
a dia de sua clínica odontológica, e precisam saber agir, visto que muitos proce-
dimentos diferem em alguns aspectos da tradicional odontologia “restauradora/
cárie, periodontal e estética clareadora”.
Em busca da elucidação dos desafios que representam o atendimento ao TAD
e o contínuo relato de despreparo dos profissionais da saúde, a Associação Inter-
nacional de Traumatologia Dentária (IADT) em 2012 desenvolveu uma declaração
de consenso, após uma revisão da literatura dental e discussões em grupo (DIAN-
GELIS et al., 2016; ANDERSSON et al., 2016; MALMGREN et al., 2017), onde foi
possível estabelecer diretrizes para ajudar dentistas e pacientes na tomada de de-
cisões clinicas e para fornecer os melhores cuidados de forma eficaz e eficiente
ao paciente, às diretrizes representam as melhores evidências atuais baseadas na
busca de literatura e na opinião profissional e servem como base ao atendimento
no CETAT.
A avulsão de dentes permanentes é a mais séria de todas as injúrias dentais
representando de 1 a 16% dessas lesões e consiste no deslocamento total do den-
te para fora do seu alvéolo ocorrendo o rompimento do ligamento periodontal e
do feixe vásculo nervoso. Sua ocorrência é uma das mais sérias emergências em
consultórios odontológicos e acomete grande número de pessoas, principalmente
crianças e adolescentes. O reimplante dentário é o único tratamento não protético
que se pode realizar frente a um caso de avulsão. O sucesso do tratamento depen-
de principalmente do tempo que se leva para realizar o reimplante. Outros fatores
também interferem no prognóstico, como: o manejo do dente a ser reimplantado,
a técnica de reimplante, o meio de transporte do dente quando não reimplantado
imediatamente, o tratamento clínico do dente reimplantado e a proservação do
caso.
Uma das diretrizes que está muito bem estabelecida na literatura específica, é
a necessidade de proservação em reimplantes dentários a fim de detectar o mais
precocemente possível as necessidades de intervenções terapêuticas, minimizan-
do sequelas e preservando por maior tempo possível o dente traumatizado. Sendo
que a sequência do tratamento destes pacientes requer uma equipe multidiscipli-
nar envolvendo as diferentes especialidades da odontologia, a fim de obter resul-
tados previsíveis, aprimorando os índices de sucesso.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 658
No CETAT temos muitos casos de pacientes que sofreram avulsão, ainda crian-
ças, com os mais diferentes desfechos pós-trauma. Muitos tiveram a perda preco-
ce dos elementos dentários, e a atuação do Serviço foi fundamental para que esses
pacientes atravessassem a fase de crescimento com algum tipo de reabilitação
provisória, uma vez que implantes dentais ou próteses definitivas só podem ser
realizados, após o término do crescimento facial, que ocorre entre 16 e 18 anos
aproximadamente e alguns destes pacientes, ao término desta fase, fizeram seus
implantes ou próteses definitivas também no projeto (Fig. 4). Outros ainda perma-
necem com os dentes na boca até hoje, evidenciando que o tratamento aplicado
foi muito bem sucedido (Fig. 5).

A B C

Figura 4 – Sequência Na foto (A) da figura 4, é possível visualizar o primeiro atendimento no projeto
de fotos do CETAT da paciente MK, então com 10 anos de idade, durante a realização do reim-
atendimento de
um caso de avulsão
plante do dente 21 avulsionado. Na foto (B), a mesma paciente, com 14 anos de
dentária ao longo de idade, realizando o tratamento ortodôntico e apresentando ainda o dente reim-
quatorze anos. plantando em função. Já na foto (C) a paciente, apresentando o dente 21 substi-
Fonte: Arquivo de tuído por implante osteointegrado, após 14 anos do reimplante. Salienta-se que,
fotos do CETAT. com exceção do tratamento ortodôntico corretivo, todos os outros tratamentos
foram realizados no projeto de extensão.

A B

Figura 5 – Sequência A foto (A) mostra o primeiro atendimento no projeto CETAT do paciente B.R.,
de fotos do então com 11 anos de idade, que chegou após 24 horas da avulsão com o dente
atendimento de
um caso de avulsão armazenado em água. O reimplante do dente 21 (incisivo central esquerdo) foi re-
dentária, tratado e alizado no CETAT. Na foto (B) o mesmo paciente com 17 anos de idade em consulta
acompanhado ao de proservação do caso, mantendo seu dente no local, embora atualmente com a
longo de sete anos no sustentação de um mini implante intracoronário, instalado também no projeto.
projeto de extensão
CETAT.
Fonte: Arquivo de
fotos do CETAT.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 659
Considerações finais
Ao longo dos seus 15 anos de funcionamento, o projeto atendeu pacientes que
contaram com períodos de acompanhamento por mais de 10 anos, outros que
ficam menos tempo em atendimento e alguns que fizeram somente o primeiro
atendimento, receberam as orientações iniciais e foram encaminhados a outros
Serviços ou não aderiram ao tratamento proposto. Ainda se encontram grandes
dificuldades, relacionada à continuidade do acompanhamento dos pacientes,
muitas por mudança de número de telefone sem atualização, do não compare-
cimento às consultas de controle, das mudanças de cidade e outras. Mecanismos
a fim de se evitar a perda do contato, estão sendo discutidos e testados dentro
do projeto, tais como as ferramentas interativas através do uso da internet, por
exemplo. Também tem sido repassada a constante informação aos pacientes so-
bre a importância do retorno e controle para o sucesso do tratamento.
O tratamento das lesões traumáticas dos dentes é um desafio para a prática
odontológica, pois ocorre quando os dentistas estão menos preparados para isso
(SERRA et al; 2016). Tendo em vista a importância desta afirmação, é que o proje-
to, além de visar o atendimento às necessidades da comunidade em geral, busca
preparar o acadêmico de odontologia da melhor forma possível para que se mos-
tre mais confortável e preparado quando confrontado por esse desafio.
O Projeto de Extensão CETAT é uma referência no tratamento de trauma, tanto
no atendimento dos pacientes, como na capacitação de alunos, de cirurgiões-den-
tistas e nas consultorias sobre trauma dento-alveolar, evidenciando a importân-
cia da Universidade através de suas ações de extensão. Somado a isto, tem-se a
realização de pesquisas que permitem conhecer melhor as nuances do trauma,
contemplando também o tripé que norteia a função da Universidade, através das
ações de extensão, pesquisa e ensino.

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General Dentistry, v. 4, p. 55-60, 2015.

SOBRE OS AUTORES
Cristina Braga Xavier, graduada em Eduardo Luiz Barbin, graduado
Odontologia pela UFPel. Doutora em em Odontologia pela USP. Doutor
Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxi- em Odontologia Restauradora pela
lo-Facial (CTBMF) pela PUCRS. Pro- USP. Professor do Departamento de
fessora do Departamento de Cirurgia, Semiologia e Clínica (DSC) da Facul-
Traumatologia e Prótese Buco-maxi- dade de Odontologia da FO-UFPel.
lo-faciais (CTPBMF) da Faculdade de Orientador clínico do projeto. E-mail:
Odontologia da FO-UFPel. Idealizado- [Link]@[Link]
ra e coordenadora do Projeto CETAT.
E-mail: cristinabxavier@[Link] Fábio Garcia Lima, graduado em
Odontologia pela UFPel. Doutor em
Letícia Kirst Post, graduada em Odontologia, com área de concentra-
Odontologia pela UNIPAR. Doutora ção em Dentística Restauradora pela
em Cirurgia e Traumatologia Buco-Ma- UFPel. Professor do Departamento de
xilo-Facial (CTBMF) pela PUCRS. Pro- Semiologia e Clínica (DSC) da Faculda-
fessora do Departamento de Cirurgia, de de Odontologia da FO-UFPel. Orien-
Traumatologia e Prótese Buco-maxi- tador de atividades clínicas e de pesqui-
lo-faciais (CTPBMF) da Faculdade de sa no projeto. E-mail: limafg@hotmail.
Odontologia da FO-UFPel. Vice-coor- com
denadora do Projeto CETAT. E-mail:
letipel@[Link] Josué Martos, graduado em Odon-
tologia pela UFPel, doutor em Odon-
Luciane Geanini Pena dos San- tologia pela Universidade de Granada,
tos, graduada em Odontologia pela España. Professor do Departamento de
Semiologia e Clínica (DSC) da Faculda-
UFSM. Doutora em Endodontia pela
de de Odontologia da FO-UFPel. Orien-
UFSC. Professora do Departamento
tador de atividades clínicas e de pesqui-
de Semiologia e Clínica (DSC) da Fa-
sa no projeto. E-mail: [Link]@terra.
culdade de Odontologia da FO-UFPel.
[Link]
Orientadora clínica do projeto. E-mail:
geaninipena@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº6 662
COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA
DE DOENÇAS CRÔNICAS E
MULTIMORBIDADE:
REFLEXÕES E DESAFIOS

Natália Martins Flores


Micael Machado
Mariana Oliveira
Bruno Pereira Nunes

Apresentação
Os avanços tecnológicos e científicos têm produzido impactos sociais signifi-
cativos nas últimas décadas, devido à intensificação do sistema tecnocientífico. A
ciência insere-se de forma pulsante na vida das pessoas e ganha legitimidade para
resolver desafios complexos como a crise climática, a crise na produção de alimen-
tos, a proliferação de epidemias, ao mesmo tempo em que ajuda a promover o
bem-estar e a saúde dos indivíduos. Para conseguir cumprir essa função social, a
difusão do conhecimento científico torna-se uma etapa fundamental da produção
científica, permitindo que diversos agentes sociais tenham acesso aos benefícios
da ciência.
Difundir ciência pode ser considerada uma das atividades das universidades
públicas federais, já que elas são responsáveis por cerca de 95% da produção cien-
tífica brasileira (CROSS; THOMSON; SINCLAIR, 2018). Isso se dá por meio da exe-
cução de diferentes projetos, a depender dos agentes envolvidos. Eles conectam a
produção de ciência ao setor produtivo, por meio de mecanismos de transferência
de tecnologia, e também a comunidades e grupos sociais específicos, por meio da
prestação de serviços e troca de saberes.
Neste capítulo relatamos os resultados e reflexões sobre um projeto de ex-
tensão de comunicação e divulgação científica desenvolvido no âmbito do Grupo
SAÚDE Nº7

Brasileiro de Estudos sobre Multimorbidade (GBEM), vinculado à Faculdade de


Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O grupo pesquisa um

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 663


problema de saúde pública relevante em nível mundial: a ocorrência de doenças
crônicas não-transmissíveis (DCNT) e multimorbidade1 na população. Principal
causa de morte e incapacidades no mundo e no Brasil, a ocorrência de doenças
crônicas tem aumentado nos últimos anos devido, em parte, ao envelhecimento
da população mundial, desafiando os sistemas de saúde. Para fornecer soluções,
a rede de pesquisadores do GBEM se empenha na realização de pesquisas sobre a
ocorrência, as causas e as consequências destas doenças. A comunicação destas
pesquisas para um público mais amplo completa esse ciclo de produção de conhe-
cimento.
No decorrer do texto, explicamos as ações comunicativas desenvolvidas no âm-
bito do nosso projeto, que tem a produção de conteúdo para as mídias sociais e a
realização de cursos de atualização como foco. Também fazemos pontuações so-
bre o caráter formativo desta prática extensionista, trazendo referenciais teóricos
do campo de estudos da comunicação e divulgação científica.

O desafio da comunicação de ciência


O Grupo Brasileiro de Estudos em Multimorbidade consolidou a difusão científi-
ca em eixo prioritário desde a sua criação, em 2016. Uma das razões para moldar a
preocupação comunicativa deste grupo de pesquisadores se refere ao fato do seu
objeto de estudo ser recente e, por isso, ainda ser pouco conhecido pela comuni-
dade acadêmica e pela sociedade. A agenda de pesquisa sobre multimorbidade re-
cém começa a se estruturar no campo das Ciências da Saúde. O Grupo, registrado
no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, tem 57 pesquisadores (sete são cola-
boradores internacionais), sendo que 35% destes estão em algum nível de forma-
ção acadêmica (da graduação até estágios pós-doutorais) salientando o papel do
grupo na formação de recursos humanos. Até hoje, artigos científicos e trabalhos
acadêmicos foram e vêm sendo realizados dentro das atividades do GBEM2.
Além disso, há um consenso na comunidade acadêmica de que a multimorbida-
de é um dos grandes desafios de saúde pública a serem enfrentados pela socieda-
de nas próximas décadas, devido à alta ocorrência na população (>20% dos adul-
tos e >60% dos idosos apresentam duas ou mais doenças concomitantes). Para o
profissional de saúde, o manejo clínico de múltiplos problemas concomitantes exi-
ge uma abordagem integrativa diferenciada que atenda às diferentes e complexas
demandas. Os sistemas de saúde também precisam se adaptar para atender essa
demanda e promover um cuidado adequado a pessoas com multimorbidade ga-
rantindo a atenção integral e a prevenção quaternária3. As evidências científicas
sobre o problema são escassas já que a maioria dos ensaios clínicos randomizados
(padrão-ouro para evidência clínica) não incluiu idosos ou pessoas com multimor-
bidade (BUFFEL DU VAURE et al. 2016; ACADEMY OF MEDICAL SCIENCES, 2018).
Os sistemas de saúde e a sociedade precisarão adaptar sua atenção à multimor-
bidade enquanto os primeiros protocolos clínicos vêm sendo criados, como, por
exemplo, a diretriz do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), pu-
blicada em setembro de 2016.
1 Ocorrência simultânea de diferentes problemas de saúde na mesma pessoa. Normalmente, definida
como a presença de duas ou mais doenças crônicas.
2 As informações do Grupo Brasileiro de Estudos em Multimorbidade podem ser acessadas no site do
Grupo no Diretório de grupos de pesquisa do CNPq ([Link] e no seu
site institucional ([Link] Acesso em: 22 out. 2019.
3 Genericamente, prevenção quaternária significa evitar o acontecimento de iatrogenias e ações dos sis-
temas, serviços e profissionais de saúde que possam prejudicar a saúde dos indivíduos e população.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 664
Encontrar meios de colocar o tema da multimorbidade na agenda de tomado-
res de decisão e profissionais da saúde se torna a primeira demanda importante
assumida pelo GBEM. Essas primeiras ações de comunicação visam atualizar e vi-
sibilizar o tema para esse público, potencialmente interessado em melhorar suas
práticas de atendimento rotineiro ou de gestão dos sistemas de saúde. Entende-
mos que essas ações pertencem ao nicho da divulgação científica, definida como
uma atividade que visa democratizar informações científicas a um público não es-
pecializado em ciência (BUENO, 2010). O nosso público de interesse não domina,
necessariamente, um repertório científico comum de conceitos científicos, apesar
de estar familiarizado com jargões técnicos do campo da prática de saúde.
Um segundo público-alvo das ações do projeto são pesquisadores da área da
saúde, que queiram se atualizar sobre a produção científica de multimorbidade
para fins acadêmicos e de pesquisa. Conceitualmente, tratamos essas estratégias
como sendo de comunicação científica, pois se direcionam a um “(...) público [que]
frequenta espaços, ambientes e acessa veículos especializados (congressos ou pe-
riódicos/revistas científicas, por exemplo), com desenvoltura e está continuamen-
te empenhado em assimilar termos, processos e conceitos novos” (BUENO, 2010,
p.3), o que implica em um esforço menor para tentar atrair a sua atenção. Essa
empreitada visava, principalmente, visibilizar o tema da multimorbidade também
na comunidade acadêmica.
Por fim, o projeto também tem a ambição de atrair um público de interessa-
dos em maior conhecimento sobre doenças crônicas que não tenha formação na
área da saúde, e/ou potencialmente afetados por essa condição de saúde. Neste
caso, voltamos a falar de divulgação científica. Para alcançá-lo, usam-se diversas
estratégias de simplificação da linguagem, como metáforas, infográficos, recursos
didáticos, entre outros. Dos três escopos delineados, esse é o que mais exige do
pesquisador, que precisa adaptar a sua linguagem e seu discurso para o repertó-
rio de um público diferente dos seus colegas de trabalho da área. Neste caso, os
pesquisadores são desafiados a colocar em prática habilidades possivelmente não
aprendidas durante a sua trajetória acadêmica.
A divulgação científica vem ganhando espaço no meio acadêmico nos últimos
anos, sendo assumida por muitos pesquisadores como uma das atribuições do
cientista (OLIVEIRA, 2018). Pesquisas mostram que eles tendem a cultivar uma
atitude positiva em relação à mídia, sendo contatados com frequência por jorna-
listas, além de participarem de outros eventos voltados a públicos mais amplos,
como palestras, falas, exposições de ciência e atendimento a visitas de escolas
em seus ambientes de trabalho (MASSARANI; PETERS, 2016; OLIVEIRA, 2018).
A maioria destas interações, no entanto, parte de pedidos de jornalistas e de pú-
blicos específicos do que de uma ação proativa do pesquisador (OLIVEIRA, 2018;
ROCHA; MASSARANI; PETERS, 2018).
Dentre os fatores que motivam cientistas a divulgar ciência está a experiência
prévia do pesquisador com aquele tipo de atividade, a atitude negativa ou positiva
em relação a ela, a percepção sobre a sua capacidade de atuar nesta área e so-
bre a atuação de outros colegas (POLIAKOFF; WEBB, 2007; DUDO; BESLEY, 2016;
BESLEY; OH; NISBET, 2012; DUDO, 2012), além de um presumido contato com a
mídia e com treinamentos formais em comunicação (DUDO; BESLEY, 2016). No-
ta-se que o ambiente institucional cumpre um papel importante de despertar e
promover uma cultura voltada para a divulgação de ciência. A ação da prática ex-
tensionista pode também trabalhar neste sentido.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 665
A difusão de informações de Ciência e Tecnologia (C&T), no âmbito da exten-
são universitária, visa fortalecer as relações estabelecidas entre laboratórios de
pesquisa de universidades e comunidade externa. Mais do que uma relação uni-
direcional de prestação de serviços, o projeto precisa adquirir um caráter plural e
dialógico que proporcione troca de conhecimentos entre seus agentes, sejam eles
executores e beneficiários. Como projeto de extensão, a divulgação científica tem
potência para transformar o olhar de pesquisadores e estudantes de pós-gradua-
ção sobre as suas próprias práticas acadêmicas e sobre a ciência que produzem:
Ao atuar nas dimensões estéticas e culturais, a extensão universitária
tensiona o ensino e atualiza a pesquisa. Esse movimento nos convoca
não só a pensar o lugar da extensão na formação cidadã dos envolvidos,
como também a reconhecer seu papel real e seu objetivo na estrutu-
ra da universidade no cumprimento daquela que pode ser uma de suas
tarefas mais generosas e instigantes: a de ser o local de formação, con-
tribuição e promoção de propostas para melhoria da vida (DEUS, 2018,
p.629-630).

Nestes termos, a proposta também visou promover uma cultura voltada para
a divulgação de ciência entre os pesquisadores do GBEM. Isso seria alcançado, de
forma indireta, pelo aumento da atuação comunicativa em rede e nas mídias so-
ciais e também pelo incentivo e orientação para o engajamento ativo dos pesqui-
sadores na produção de conteúdo. A produção de conteúdo e as ações e práticas
de sensibilização dos pesquisadores para a comunicação e divulgação científica
têm produzido desafios interessantes para o grupo, que relatamos a seguir.

Estratégias e ações de comunicação do GBEM


As ações de comunicação científica do nosso projeto focaram-se numa dupla
estratégia, de fortalecimento da presença on-line do GBEM, e de criação de even-
tos locais para discussão e atualização de conhecimentos sobre multimorbidade
e divulgação científica. Para estabelecer uma presença na rede, criamos um blog
([Link] e mídias sociais para o grupo, que passaram a ser
alimentadas regularmente com postagens. O blog exerce a função de ser reposi-
tório da produção científica do grupo, enquanto as mídias sociais Instagram, Face-
book e Twitter funcionam como replicadoras deste conteúdo. Além disso, no blog
estão descritas informações básicas do GBEM, como os projetos de pesquisa de-
senvolvidos, quem são seus integrantes e quais são seus objetivos e ações.
As notícias publicadas no blog do GBEM têm um direcionamento institucional,
visando à comunidade acadêmica. Encontramos nesta plataforma um modo de
visibilizar os acontecimentos do grupo, como a realização de palestras, as experi-
ências de pesquisa dos bolsistas do projeto, entre outros. Neste sentido, a plata-
forma serve também para dar um sentido de pertencimento dos pesquisadores à
rede de estudos de multimorbidade. Um segundo grupo de textos tem como pú-
blico-alvo a comunidade científica como um todo, pois aborda eventos e temas do
campo da saúde. O anúncio da formulação de uma lista brasileira de morbidades,
a inclusão da multimorbidade como descrito no Medical Subject Heading (MeSH)
e a entrevista com uma pesquisadora sobre o tema da sua tese estão neste rol de
notícias.
Atenção especial merece ser dada para a formulação da lista brasileira de morbi-
dades, ação que vem sendo empreendida pelos pesquisadores do GBEM ao longo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 666
de alguns encontros em 2018. A formulação desta lista terá uma etapa consultiva,
que deve contar com a colaboração de pesquisadores e profissionais da saúde. Por
essa razão, começamos a delinear algumas ações nas redes sociais para incentivar
essas pessoas a se engajarem nesta colaboração. Uma dessas estratégias consiste
na disseminação das postagens do GBEM em páginas e grupos de Facebook com
temas de saúde pública e saúde, para conseguir atingir públicos que ainda não
conhecem o grupo.
As mídias sociais do GBEM ainda estão circunscritas a um público seleto. São
324 seguidores e 320 pessoas que curtiram a página no Facebook, 105 seguidores
no Instagram e 110 seguidores no Twitter. No entanto, as métricas das postagens
no Facebook dão indicações de que o público alcançado por essas publicações é
bastante expressivo. Metade das postagens feitas ao longo do período de anda-
mento do projeto têm uma taxa de alcance superior a 1.000 pessoas, o que repre-
senta o triplo de usuários inscritos na página (Quadro 1). É interessante salientar
que esse alcance é orgânico, sem pagamento de taxas de impulsionamento de
publicações. O alcance parece ser atingido por meio do compartilhamento das
postagens pela comunidade de inscritos na página de Facebook.

Quadro 1 - Total de alcance e envolvimento das postagens do GBEM no Facebook.

Taxa de Taxa de Número de


Post
alcance envolvimento cliques
Lista Brasileira de Multimorbidade 2.068 39 44
Reunião Rede Saúde 1.495 90 125
Vídeo #Divulga GBEM 1.279 90 26
Ciclo Palestras 1.036 83 86
Infográfico de Doenças Crônicas 1.021 69 66
Ciclo Palestras 1.112 176 149
Lista Brasileira de Multimorbidade 1.126 32 36
Reportagem Diário Popular 450 20 21
Matéria jornal Correio Braziliense com 422 32 14
participação de GBEM
Disseminação do Artigo Científico do GBEM 401 22 28
Fonte: Elaborado pelos autores.

No quadro, as métricas de envolvimento e número de cliques do Facebook for-


necem indícios de que a comunidade de usuários é bastante participativa. As pu-
blicações têm uma média de 65 curtidas e compartilhamentos, segundo anuncia
a taxa de envolvimento. O número de cliques também é relativamente alto, com
uma média de 60 cliques por publicação. Essa métrica específica indica que um
grande número de usuários acessa os links disponibilizados nas postagens, que
direcionam para o blog ou canal do YouTube do GBEM. Observa-se, também, que
as publicações com maior alcance e taxas de envolvimento e cliques são de posta-
gens que visam a comunidade acadêmica. Apenas duas publicações das sete mais
populares são de divulgação científica (Vídeo #Divulga GBEM e Infográfico de Do-
enças Crônicas), pontuação que retomaremos mais adiante.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 667
Dentre elas, destacam-se postagens sobre as pesquisas científicas do grupo
com links para seus artigos científicos. A linguagem utilizada para formular a cha-
mada para os artigos é informal, característica da linguagem nas redes sociais.
Essa estratégia pode ser uma forma de incentivar pesquisadores de outras áreas
e profissionais de saúde a se atualizar sobre o tema multimorbidade. Ao poten-
cializar o acesso ao banco de dados, o uso de hiperlinks constitui-se numa forma
de produção de métricas alternativas4 para os artigos, já que promove também o
compartilhamento deste material nas redes sociais.
A visibilidade do GBEM na internet tem crescido desde a implementação do
projeto. Em 2017, tivemos o acesso de 1.656 usuários ao site, número que subiu
para 5.250 em 2018 e teve uma pequena decrecida para 3.979 em 2019. Essa que-
da se explica pelo fato de termos produzido poucos textos para blog no último
ano, e nos concentrado na produção de conteúdo nas mídias sociais. Ferramentas
de busca, como o Google, lideram as origens de tráfego para o site, com 3.365
usuários direcionados. Facebook e Twitter representam ainda pouco deste tráfe-
go, aglomerando 429 e 31 usuários direcionados. Isso nos leva a observar que as
estratégias de captação de potencial público nas redes sociais e conexão com o
conteúdo do blog precisam ser aprimoradas.

Promoção de eventos formativos


Durante o desenvolvimento do projeto foram realizadas duas palestras abertas
à toda comunidade acadêmica da universidade. As atividades foram gratuitas e
abertas a todos os interessados independente do seu vínculo institucional. A pri-
meira palestra ocorreu no dia 13 de novembro de 2018, no auditório do 4º andar
do Campus Anglo da UFPel, abordando a temática da “tradução do conhecimento
científico”, sendo proferida por uma professora da Faculdade de Enfermagem que
realizou pós-doutorado na área da palestra. A palestra apresentou conceitos da
tradução do conhecimento, formas de organização e operacionalização da tradu-
ção do conhecimento em saúde com o intuito de sensibilizar alunos e pesquisado-
res sobre a importância da temática.
A segunda palestra foi realizada no dia 04 de dezembro de 2018, também no
auditório do 4º andar do Campus Anglo e abordou as “etapas da pesquisa epide-
miológica”. A palestra abordou as fragilidades e fortalezas das diferentes etapas
da pesquisa, a capacidade de identificação de vieses em estudos, as formas de
obtenção de dados em epidemiologia e o fomento do estudo sobre epidemiologia
com o intuito de embasamento para a comunicação científica. A palestra objeti-
vou subsidiar a adequada tradução do conhecimento científico em epidemiologia
a partir do entendimento das etapas da pesquisa e suas respectivas fortalezas e
fragilidades.
As duas atividades contaram com a participação de 25 pessoas, incluindo alu-
nos da graduação e pós-graduação da UFPel, a maioria vinculado à área da saú-
de. A realização dessas atividades foram relevantes para o debate sobre os temas
propostos - fundamentais para o andamento do projeto de extensão - mas, tam-
bém, para identificar fortalezas e fragilidades na realização da atividade proposta.
Estratégias de divulgação, horário de realização e sensibilização do público-alvo
4 As métricas alternativas são ferramentas de editoração científica usadas para medir o impacto social
de artigos científicos por meio do rastreamento de seus compartilhamentos e citações em blogs, jornais digi-
tais, mídias sociais (Twitter), entre outros. Periódicos científicos internacionais e nacionais têm inserido estas
métricas no seu sistema de funcionamento (BARATA, 2015).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 668
devem ser adequados para aumento da participação de pesquisadores de diferen-
tes áreas do conhecimento aumentando o caráter interdisciplinar do projeto e das
atividades de comunicação.

Ações de divulgação científica


Algumas ações comunicativas foram desenvolvidas visando um público mais
amplo de pessoas interessadas em saber mais sobre doenças crônicas, entre elas,
profissionais de saúde. Podemos citar, pelo menos, três ações estabelecidas neste
sentido: a produção e publicação de in-
fográficos nas mídias sociais divulgan-
do informações sobre multimorbidade
(fig. 1), a produção de pautas para jor-
nais locais e a criação de uma iniciati-
va de produção audiovisual chamada
#DivulgaGBEM. O infográfico e os ví-
deos serviram para explorar recursos e
estratégias visuais na comunicação e
divulgação científica das pesquisas do
grupo.
Uma estratégia interessante para
atingir públicos mais amplos consistiu
em tentar pautar os veículos de co-
municação de Pelotas e região sobre
o tema das doenças crônicas. Tenta-
mos contato, especificamente, com as
redações dos jornais impressos O Sul,
Zero Hora e Correio Popular. Como re-
sultado, conseguimos a publicação de
uma matéria no jornal Correio Popular
sobre os estudos epidemiológicos de
ocorrência de multimorbidade no Rio
Grande do Sul e em Pelotas. Também
tivemos a divulgação de pesquisas do
grupo e no site Medscape, em matéria
publicada em dezembro de 20185, e no
jornal Correio Braziliense, em matéria
de setembro de 20196, ambas ocasio-
Figura 1 – nadas pela demanda de jornalistas pelo
infográfico. tema. Consideramos um saldo de divulgação positivo que mostra que o grupo vem
Fonte: Facebook adquirindo visibilidade apesar de ser incipiente.
GBEM. O #DivulgaGBEM delinea-se como um projeto de divulgação científica desti-
nado a profissionais de saúde e outros potenciais interessados em multimorbi-
dade, com pouco aprofundamento e conhecimento sobre o tema, e parte do en-
tendimento de que a linguagem audiovisual é propícia para gerar engajamento
5 A matéria feita pelo Medscape pode ser acessada em: [Link]
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6 A matéria feita pelo Correio Braziliense pode ser acessada em: [Link]
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CLNtrSZF2AQ1ci-u1fpTZI. Acesso em: 22 out. 2019.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 669
nas mídias sociais. Trata-se de vídeos produzidos pelos próprios pesquisadores do
GBEM, em que eles narram, diretamente para a câmera do celular, os resultados e
temas de suas pesquisas. Os vídeos, de dois a seis minutos de duração, eram edi-
tados por um aluno voluntário do curso de jornalismo, que lhes atribuía legendas,
vinheta e abertura, com identidade visual do GBEM.
O objetivo da ação é fazer circular informações e resultados das pesquisas do
grupo com profissionais de saúde que lidam com essas questões no seu cotidiano
de atendimento, como a pressão alta
em pacientes, o uso de machine lear-
ning e algoritmos na pesquisa clínica,
entre outros. Um dos vídeos do projeto
traz o coordenador do grupo fazendo
um compilado dos principais resultados
de pesquisa relatados em artigos do
grupo (Fig. 2):
Com lançamento em julho de 2018,
o projeto #DivulgaGBEM já tem seis
vídeos produzidos. A sua execução de-
pende de um intenso esforço de sensi-
bilização dos pesquisadores do GBEM
para a divulgação científica. Fornece-
mos uma carta convite para os pes-
quisadores do grupo, por e-mail, com
Figura 2 – Vídeo orientações sobre a forma como os vídeos deveriam ser gravados, bem como o
do coordenador do modo de construção do seu conteúdo.
projeto.
Cuidados com a iluminação do local de gravação, com a montagem do cenário
Fonte: Acervo do e com a forma de se apresentar no vídeo, citando o nome do pesquisador e da
projeto. Universidade estão no rol das orientações mencionadas na carta-convite. Essa es-
pécie de manual traz também orientações com relação à linguagem, citam o fato
do conteúdo ser direcionado a um público não especialista e, por isso, exigir uma
linguagem simples, de fácil compreensão. A citação da sequência dos assuntos a
serem comentados no vídeo (tema da pesquisa, motivos que fizeram empreender
a pesquisa, resultados e sua importância “na prática”) demonstram nossa tenta-
tiva de auxiliar o pesquisador a tornar a sua fala interessante para um público não
acadêmico.
Os primeiros meses de execução do projeto #DivulgaGBEM concentraram na
mobilização destes pesquisadores para a produção dos audiovisuais, com o es-
tabelecimento de um calendário regular de lançamento dos vídeos, sem atentar
tanto para a disseminação e o consumo destes vídeos nas redes sociais. De fato,
se formos prestar atenção nas métricas de alcance dos vídeos no Facebook e o seu
número de visualizações no canal do YouTube, chegaremos à conclusão de que
seu alcance ainda é limitado em termos de público. Os vídeos tiveram de 41 a 152
visualizações, uma média de 76 visualizações por vídeo. No Facebook, a taxa de
alcance dos vídeos ficou na faixa de 400, com taxas de envolvimento também bai-
xos, em relação a outros tipos de postagem (quadro 2). Indícios de que o projeto
ainda precisa avançar em termos de produção e disseminação de conteúdo para
atingir comunidades de não cientistas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 670
Quadro 2 – Métricas de redes sociais dos vídeos do #DivulgaGBEM

Post Taxa de Taxa de Número de


alcance envolvimento cliques
Vídeo 1 #DivulgaGBEM 1.279 90 26
Vídeo 2 #DivulgaGBEM 453 41 20
Vídeo 3 #Divulga GBEM 451 34 43
Vídeo 4 #Divulga GBEM 363 42 34
Vídeo 5 #Divulga GBEM 92 12 4
Fonte: Elaborado pelos autores.

O processo de sensibilização para a divulgação científica também se estabele-


ceu por meio de conversas informais com pesquisadores do grupo e reuniões pre-
senciais, que tinham como foco alinhar os processos de colaboração científica dos
seus membros e promover uma relação mais direta entre os pesquisadores e a co-
municação de ciência. Neste âmbito, realizamos um encontro sobre o tema mídias
sociais e divulgação científica para pesquisadores do grupo na UFPel, em Pelotas,
e também incentivamos os pesquisadores a produzirem seus próprios conteúdos e
se engajarem no compartilhamento de informação nas mídias sociais.

Considerações e perspectivas
A Universidade, na sua relação com a sociedade, aparece como um lugar central
na elaboração de soluções para os desafios contemporâneos. O Grupo Brasileiro
de Estudos em Multimorbidade tem cumprido a sua função de aprimorar as prá-
ticas e discussões sobre doenças crônicas. As ações comunicativas desenvolvidas
no âmbito do grupo funcionam como amplificadores dos resultados de pesquisas
a profissionais de saúde e tomadores de decisão. O fato do grupo ser um espaço
interdisciplinar de produção de pesquisas, de formação de recursos humanos e de
comunicação faz com que a extensão seja facilmente trabalhada nas suas práticas.
Podemos caracterizar o ano inicial do projeto de Comunicação e Divulgação do
GBEM como um período de estabelecimento dos canais de comunicação do gru-
po. Para consolidar o projeto, será preciso aumentar o fluxo de usuários que aces-
sa as mídias sociais e o site do GBEM, a partir da formulação de estratégias mais
eficazes para a disseminação desse conteúdo.
Outro eixo interessante de desenvolvimento de ações consiste em produzir
estratégias de comunicação específicas para alcançar tomadores de decisão dos
sistemas públicos de saúde, no nível local, da cidade de Pelotas, e no nível regio-
nal. Para isso, estão sendo planejados algumas atividades para a continuidade do
projeto de extensão. Destacam-se o fomento de parcerias com professores de
cursos da UFPel relacionados ao projeto (do curso de Cinema, por exemplo) e o
planejamento de cursos relacionados à interpretação de artigos e notícias cien-
tíficas. Estes cursos terão como público-alvo profissionais de saúde, tomadores
de decisão e profissionais de comunicação objetivando maior embasamento na
utilização adequada das evidências científicas produzidas sobre doenças crônicas
e multimorbidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 671
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SOBRE OS AUTORES
Natália Martins Flores, graduada Mariana Oliveira, graduanda do cur-
em Jornalismo pela UFSM, doutora em so de enfermagem da UFPel. Bolsista
Comunicação pela UFPE. Ex-docente de Iniciação Científica, participou como
do curso de Jornalismo do Centro de voluntária do projeto de extensão, res-
Letras e Comunicação/UFPel. Foi co- ponsabilizando-se pelas postagens nas
ordenadora adjunta do Projeto de Ex- mídias sociais Facebook, Twitter e Ins-
tensão “Contribuições para a gestão e tagram. E-mail: maarianamorais5@
políticas públicas de saúde: ênfase em [Link]
ações de comunicação direcionadas às
Bruno Pereira Nunes, graduado
doenças crônicas e multimorbidade”.
em Enfermagem pela UFPel, doutor
E-mail: nataliflores@[Link]
em Epidemiologia pela UFPel. Profes-
sor adjunto do curso de Enfermagem
Micael Machado, graduando do Cur- da UFPel. Líder do Grupo Brasileiro de
so de Jornalismo da UFPel. Participou Estudos sobre Multimorbidade (GBEM)
de forma voluntária no projeto, como e coordenador do Projeto de Extensão
responsável pela produção e edição “Contribuições para a gestão e políticas
dos vídeos do #Divulga GBEM. E-mail: públicas de saúde: ênfase em ações de
ummicael@[Link] comunicação direcionadas às doenças
crônicas e multimorbidade”. E-mail:
nunesbp@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº7 673
PET TERAPIA
INTERVENÇÕES ASSISTIDAS POR ANIMAIS
COMO UM MÉTODO COMPLEMENTAR NA
EDUCAÇÃO E NA SAÚDE

Márcia de Oliveira Nobre


Camila Moura de Lima
Carolina da Fonseca Sapin
Débora Matilde de Almeida
Sabrina de Oliveira Capella
Viviane Ribeiro Pereira

Introdução
O Pet Terapia é um projeto de pesquisa, ensino e extensão da Universidade Fe-
deral de Pelotas exerce atividades de Intervenções Assistidas por Animais (IAAs)
na comunidade de Pelotas e região desde 2006. O programa visa à inserção do cão
como um elo motivador nas práticas cognitivas, motoras, afetivas, entre outras.
Tais intervenções compreendem ações que têm a presença e a participação ativa
de animais e podem ser elaboradas segundo objetivos definidos, como acontece
na Educação Assistida por Animais (EAA) e na Terapia Assistida por Animais (TAA),
ou ainda, em interações informais, produzidas nas Atividades Assistidas por Ani-
mais (AAA). Essas técnicas devem ser sempre efetivadas em conjunto com pro-
fissionais da saúde e/ou da educação, respectivamente (IAHAIO, 2018; CHELINI;
OTTA, 2016; BRELSFORD, 2017), buscando atender às necessidades específicas
dos indivíduos.
As IAAs, aliadas à terapia convencional, atuam no campo da saúde e educação
como uma proposta inovadora para o cuidado, com potencial para serem utiliza-
das pelos profissionais. Também estão voltadas a objetivos específicos e promoção
do bem-estar emocional, comportamental, cognitivo e social de crianças, jovens
SAÚDE Nº8

e adultos por meio de uma abordagem lúdica, divertida e interessante (PICARD,


2015; BECK, 2015; PEREIRA, 2017).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 674


Fundamentação teórica
A relação homem-animal ocorre há milhares de anos, mais intensamente desde
a domesticação dos animais, quando estes passaram a se integrar à estrutura so-
cial humana. Existem evidências de que os primeiros cães tenham sido utilizados
para auxiliar na caça e, com o decorrer do tempo, tal relação tenha se aprimorado,
passando eles a ajudar também em atividades de pastoreio, guarda, trabalho e
companhia. Na sociedade atual, os animais de companhia são cada vez mais bem
vistos e requisitados por estabelecerem fortes vínculos emocionais recíprocos com
os humanos (BRADSHAW, 2012).
Os relatos de interação entre animais e pessoas em prol dos benefícios aos pa-
cientes são históricos. Um dos pioneiros da TAA foi o médico psiquiatra infantil
Boris Levinson, que incluiu o próprio cão em sessões com crianças portadoras de
transtornos de comportamento, resultando no interesse delas em retornar às ses-
sões (LEVINSON, 1962). No Brasil, a precursora das IAAs foi a médica psiquiatra
Nise da Silveira, que utilizou cães e gatos nas terapias (CASTRO; LIMA, 2007).
É reconhecida a capacidade dos animais em facilitar socializações, expressar
emoções, transmitir tranquilidade e instigar novas formas de pensar e agir das
pessoas. Por tais características, os cães vêm sendo introduzidos como facilita-
dores de trabalhos terapêuticos para os pacientes, proporcionando-lhes melhoras
físicas, principalmente as relacionadas à coordenação motora. Ademais, observa-
-se um significativo ganho no que se refere aos aspectos psicológicos (CHELINI;
OTTA, 2016), destacando-se em especial: estímulos à memória, melhora da capa-
cidade de interação e socialização, motivação à formação de vínculos, sentimento
de segurança e aumento da confiança do paciente. A presença dos cães favorece
também o controle comportamental, as atitudes de responsabilidade, o respeito e
a empatia (BEETZ, 2013; MENDONÇA et al., 2014).
As IAAs podem ser consideradas estratégias eficazes no processo de melho-
ra da saúde da pessoa assistida, pois estimulam os laços afetivos estabelecidos,
reforçando sentimentos positivos, fornecendo suporte emocional, encorajando o
enfrentamento de situações difíceis, estreitando relações de confiança, minimi-
zando o isolamento social e facilitando a assistência prestada pelos profissionais
que atendem esse paciente (CHALMERS; DELL, 2015, VACCARI; ALMEIDA, 2007).
Objetivando proporcionar um cuidado efetivo e diferenciado, a equipe do Pet
Terapia promove ações voltadas a impulsionar a saúde e o bem-estar de assistidos
por meio de visitas, nas quais proporcionam atividades lúdicas com a presença dos
cães coterapeutas. Esse procedimento é fundamental para o êxito do programa
em razão de o acolhimento pela presença dos cães coterapeutas se constituir um
diferencial significativo no processo de recuperação de saúde e de ser criado um
ambiente lúdico, atrativo e menos tenso (PEREIRA et al., 2017). A proposta das
IAAs é planejar e estruturar atividades lúdicas com base nas necessidades e po-
tencialidades de cada participante, buscando atingir objetivos preestabelecidos
e considerando a importância das IAAs para cada caso específico. Para tanto, é
importante realizar reuniões, estabelecer cronogramas, objetivos e seguir proto-
colos de acordo com as normas de cada uma das instituições atendidas (NOBRE
et al., 2017).
Quando falamos das IAAs, é importante e necessário darmos uma atenção
especial ao animal que será o mediador dos objetivos propostos. Várias espé-
cies deles podem ser utilizadas nessas intervenções como, por exemplo, cavalos,
cães, porquinho-da-índia, coelhos, calopsitas, entre outras (BRELSFORD, 2017).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 675
O contato físico com o coterapeuta, por intermédio do lúdico, ocasiona prazer
ao paciente quando ele exerce as atividades sugeridas (PEREIRA, 2017; VACCARI;
ALMEIDA, 2007). Há evidências científicas de que tal interação, com a liberação
de hormônios, possa influenciar parâmetros fisiológicos propiciando sensação de
bem-estar (ALBUQUERQUE; CIARI, 2016; YAMASHIRO; RIBEIRO, 2005).
Não existem públicos específicos para o desenvolvimento das IAAs. Elas podem
ser realizadas com crianças, jovens, adultos e idosos, assim como com pessoas
com estresse, distúrbios cognitivos e/ou motores, depressão, doenças crônicas
debilitantes, ou ainda, com aquelas sem alterações patológicas, mas que buscam
em tais procedimentos afetuosidade, momentos de descontração e diversão. É
importante para crianças que vivenciaram eventos traumáticos — internação
hospitalar, maus-tratos, negligência e/ou abandono — o acolhimento por uma
equipe diferenciada, a qual ofereça cuidados específicos para além de medicação
e procedimentos invasivos e/ou técnicos. Dessa forma, minimizam-se os efei-
tos da experiência, que pode ser assustadora, dolorosa e muitas vezes provocar
consequências emocionais devastadoras. As intervenções com um cão de terapia
podem ajudá-las no enfrentamento de situações adversas e proporcionar apoio
emocional. O contato com o animal irá estimular nelas a diminuição de compor-
tamentos negativos e de ansiedade, bem como aumentar a autoestima, a auto-
confiança e o afeto (CHANDLER, 2005; BERGEN, 2015). A prática de atividades
com estímulos táteis que envolvam o cão e a presença deste durante a sessão au-
xiliam na recuperação da autoestima, na motivação e na sensibilidade do paciente
(YAMASHIRO; RIBEIRO, 2005; SANJOAQUÍN, 2002).
Em alguns países, a EAA vem sendo utilizada em programas com a finalida-
de de incentivo à leitura. Durante os encontros, as crianças leem para os cães e,
com isso, há uma maior socialização entre os participantes e uma melhora nas
habilidades de leitura e na autoconfiança (TREAT, 2013, HALL et al, 2016). Além
de atividades em grupo, a EAA destaca-se por ser uma estratégia voltada a aten-
dimentos pedagógicos individuais de alunos que necessitam de um suporte mais
especializado a fim de conseguir vencer as dificuldades de aprendizagem. O cão
pode atuar como um motivador para a realização das atividades e assim contribuir
para a criação de vínculo entre professor e aluno (CHELINI; OTTA, 2016). Nesse
contexto, salienta-se a importância da educação inclusiva, que se caracteriza pela
junção da uma série de ações em prol do direito de todos os alunos permanecerem
juntos, aprendendo sem nenhum ato de discriminação.
A TAA envolve diferentes áreas da saúde e conta com os animais como parte
do tratamento. Entre essas áreas enfatiza-se a fisioterapia, cujas ações consistem
na inserção de um cão no protocolo fisioterapêutico convencional, e pode ser rea-
lizada em sessões individuais ou em grupos (CHELINI; OTTA, 2016). As sessões de
fisioterapia assistida por animais podem promover melhora de problemas emo-
cionais, físicos e mentais dos assistidos (PECELIN et al., 2007). No Brasil, a técnica
teve início em 2003, com idosos institucionalizados, e, posteriormente, foi amplia-
da para outras áreas da fisioterapia. Ressalte-se, porém, a existência de poucos
locais que trabalham com tal prática no país, principalmente em se tratando de
pacientes com alterações neuromusculares e/ou hospitalizados (GONÇALVES et
al., 2019; CAMARGOS et al., 2017a; VIEIRA et al., 2016).
A fisioterapia assistida por animais complementa, facilita e potencializa a fisio-
terapia convencional, além de torná-la mais agradável, já que a inclusão do cão co-
terapeuta nas sessões agrega o fator motivacional. Além disso, ele pode agir como
mediador dos exercícios propostos inserido em um contexto lúdico, estimulando

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 676
a mobilidade corporal. Lançamentos, massagens com pés e mãos, escovação e
deslocamento constituem alguns exemplos de exercícios que podem ser adap-
tados para utilizar o cão como facilitador. Como resultado destaca-se a melhora
motora quanto ao equilíbrio, tempo de caminhada, à distância do passo, simetria
e dinâmica do controle postural (CAMARGOS et al., 2017b; CHELINI; OTTA, 2016).
A interação com o cão pode auxiliar o paciente no relaxamento do tônus muscular,
na redução da ansiedade, além de proporcionar sensação de segurança (CHELINI;
OTTA, 2016). Pode também desencadear um estímulo hormonal acarretando au-
mento da secreção de endorfinas, dopamina, serotonina e ocitocina, considerados
hormônios da felicidade, assim como ocasionando diminuição do cortisol, hormô-
nio ligado ao estresse (VACCARI; ALMEIDA, 2007). Com isso, ocorre redução da
frequência cardíaca e da pressão arterial, podendo esta, por vezes, atingir valores
inferiores aos registrados em pessoas em situação de repouso (ARACELI, 2003;
ODENDAAL, 2000).
Atualmente, existem estudos aprofundados sobre o uso da TAA em crianças e
adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) — síndrome comporta-
mental de caráter não degenerativo e geneticamente heterogêneo, com impacto
no neurodesenvolvimento. Classificada em três níveis, o transtorno ainda apre-
senta características essenciais, que incluem deficits na comunicação e interação
social, padrão estereotipado de comportamento, interesses ou atividades e sinto-
matologia evidente na primeira infância (MELLO, 2007).
De acordo com Grandin (2010), o sucesso da TAA está associado à hipersensi-
bilidade sensorial em virtude de algumas pessoas que manifestam o transtorno
poderem não tolerar o cheiro do cão ou seus latidos. Possíveis assistidos seriam
candidatos dispensáveis a essa modalidade de intervenção, devendo, portanto, o
profissional da saúde responsável pela aplicação da técnica estar apto a observar
as características individuais dos pacientes e identificar se a TAA é o processo tera-
pêutico mais adequado no momento (CHELINI; OTTA, 2016). Considerado o me-
diador entre o assistido e o terapeuta, o cão atua como agente facilitador, possibi-
litando uma comunicação especial, seja gestual ou visual, contemplando também
as características essenciais do paciente com TEA e permitindo que o terapeuta
consiga intervir (DOTTI, 2005).
É importante salientar que essas ações de cuidado em saúde devem ser pla-
nejadas e organizadas pelos serviços e pela equipe multiprofissional de saúde, na
perspectiva da atenção voltada à integralidade da assistência, ou seja, é necessá-
ria à construção de abordagens diferenciadas de acordo com a necessidade e es-
pecificidades de cada paciente. As IAAs são planejadas para que o cão coterapeuta
passe a ser o mediador nas relações entre o indivíduo assistido, o profissional de
saúde e o educador. Dessa forma, o cão funcionará como um ‘’catalisador social’’
e ‘’promotor da saúde e bem-estar’’ facilitando o desenvolvimento de atividades
voltadas a promover a autoconfiança, a autoestima, a interação social, a afetivi-
dade, o senso de responsabilidade, empatia e amorosidade (PEREIRA, 2017; SA-
VALLI; ADES, 2016).

Metodologia
Para a realização das IAAs, são utilizados os cães coterapeutas do projeto Pet
Terapia da Universidade Federal de Pelotas os quais são selecionados e treinados
para essas atividades. Os cães recebem cuidados específicos em relação à saúde,
nutrição, aos exercícios, à socialização, aos comandos básicos e ao descanso.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 677
Previamente à efetivação das IAAs, acontece o contato da equipe do projeto
Pet Terapia com as instituições de saúde e educação parceiras para o desenvol-
vimento das sessões. Há, portanto, a necessidade de organização das atividades
de acordo com as necessidades específicas individuais ou em grupo e das datas e
horários da realização das atividades. Também são esclarecidos os cuidados com
os cães coterapeutas em relação à saúde, ao comportamento e bem-estar.
Realiza-se uma primeira visita com objetivos bem definidos: integração da
equipe; reconhecimento do local pelos cães coterapeutas; e discussão sobre a
condução das IAAs. Na maioria dos locais as visitas ocorrem semanalmente, com
duração de cerca de 1h, observando-se se a adequação de cada local para o desen-
volvimento das atividades. Geralmente as sessões são divididas em três momen-
tos: o primeiro é voltado à formação do vínculo entre o assistido e o cão mediante
manifestações de carinho, afetividade e conforto; o segundo está direcionado à
realização de atividades específicas, com materiais temáticos os quais envolvam
o animal — jogos lúdicos, passeios conduzindo o cão, brinquedos, recursos intera-
tivos, desenhos, pinturas e simulações de vivências a fim de entreter, descontrair
e desenvolver habilidades motoras e cognitivas; e o último, o encerramento, é di-
rigido ao estímulo da despedida por parte dos assistidos em relação aos cães e à
equipe.
O Pet Terapia é um programa formado por uma equipe integrada de profes-
sores, técnicos e acadêmicos de graduação e pós-graduação que, no início, eram
oriundos principalmente da Faculdade de Veterinária da UFPel e responsáveis pela
efetivação das AAAs. Porém, no decorrer dos anos, foram se agregando profissio-
nais e acadêmicos de outros cursos da mesma universidade, tais como Psicologia,
Enfermagem, Zootecnia, Terapia ocupacional, Pedagogia e Fisioterapia, nas prá-
ticas de TAA e EAA. A integração com outras áreas da saúde e da educação pro-
porcionou a abordagem inter, multi e transdisciplinar do projeto, oportunizou sua
qualificação e seu crescimento técnico, e permitiu um melhor atendimento das
demandas das instituições parceiras. É importante salientar que os profissionais
da saúde e educação dessas instituições parceiras são importantes componentes
da equipe, assim como os dos cursos da UFPel.

Desenvolvimento
Os cães coterapeutas do Pet Terapia foram selecionados e treinados em sua
capacitação com o intuito de preservar o bem-estar animal e assim motivar a in-
teração e a afetividade entre os cães e os humanos. Em relação aos primeiros,
destaca-se nas intervenções uma forte preocupação com cuidados específicos re-
lacionados à saúde, nutrição, profilaxia, condição física e psicológica. Portanto, é
imprescindível a inclusão de um veterinário nas IAAs com o objetivo de controlar
a saúde do cão na sua totalidade e monitorar seu bem-estar, pois é considerado
um animal de trabalho. No projeto existe um rigoroso cuidado com eles, os quais
são avaliados diariamente quanto à sua saúde e à sua linguagem corporal a fim de
identificar situações de doenças, desconforto e estresse. Eles também são acom-
panhados todos os dias com vistas a avaliar aspectos, tais como desenvolvimen-
to de comandos básicos, brincadeiras, socialização, e horários de relaxamento e
descanso. As atividades dos cães nas sessões de IAAs duram cerca de 1h, tempo
importante para que os coterapeutas se encontrem no seu adequado potencial de
desempenho e consigam atingir os objetivos de cada sessão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 678
O preparo dos cães coterapeutas compreende as habilidades natas de cada um
deles associadas aos treinamentos a fim de dessensibilizá-los e prepará-los para a
execução de determinadas atividades, as quais devem ser agradáveis e motivado-
ras. O processo de preparação do animal tem início já na seleção, sendo ele filhote
ou adulto. Não há a recomendação de escolha por raças específicas, mas existe
uma tendência por aquelas mais sociáveis e não agressivas. Importante destacar
que os sem raça definida podem ser excelentes coterapeutas. Diferentes testes
de temperamento desses animais permitem classificá-los e selecioná-los. Durante
a avaliação, são analisados alguns pontos: aceitar a presença de uma pessoa es-
tranha, pedir carinho, andar tranquilamente em ambientes com muitas pessoas,
reagir apropriadamente a outro animal da mesma espécie e de outra, reagir bem a
distrações e à separação do seu condutor.
Após a seleção do animal, a segunda etapa do processo é a socialização, quando
deve ser exposto a uma maior diversidade de estímulos comuns às IAAs que esse
coterapeuta deve participar no futuro, como locais, pessoas, sons, outros animais,
etc. Ele deve ser exposto a pessoas desconhecidas, de ambos os sexo, diferen-
tes idades, etnias, características físicas — barba, altura, tom de voz, etc. Também
deve ser considerada a exposição a vestimentas diferentes, adornos e utensílios
(chapéus, bonés, capacetes, aventais, óculos, bengalas, andadores, cadeiras de
rodas, guarda-chuvas, balões, brinquedos, etc). No decorrer da socialização, o cão
deve ainda conhecer o maior número de animais da mesma e de diferentes espé-
cies. Em relação aos ambientes, cabe expô-lo a novos espaços e superfícies — con-
creto, lama, areia, grama, pisos escorregadios, escadas, rampas, espelhos, eleva-
dores, ruas com tráfego intenso, caixas de transporte, movimento, interior de car-
ros, entre outros. Ele precisa estar habituado a todo tipo de som com o qual possa
se deparar antes, durante e depois das IAAs. É importante a dessensibilização a
sons de fogos de artifício, buzinas, motores, alarmes, tempestades, campainhas,
sirenes, instrumentos musicais, sons de bebês, choro, gritos e barulho de crianças
brincando. Além disso, deve conhecer objetos que frequentemente possam estar
presentes nos futuros locais de realização das IAAs.
Some-se a tais procedimentos a necessidade de serem realizados exercícios de
dessensibilização ao toque. Vale dizer: o cão deve ser treinado ao toque em todo o
corpo, com diferentes movimentos e intensidade. Para tornar-se um coterapeuta,
é fundamental estar habituado ao manuseio de membros, orelhas, cauda e boca,
além de se submeter a leves apertões e puxões, e a ser pego no ar e no colo. No
treinamento de obediência, vai aprender a andar na guia e a receber comandos
básicos como sentar, deitar, ficar e manter-se junto. Também devem ser corrigidos
comportamentos indesejados, como pular, mordiscar e latir. Esse treinamento é
indispensável para que o animal se torne calmo e capaz de executar as ativida-
des propostas corretamente em qualquer ambiente. Logo, o treino deve ser feito
a princípio no ambiente domiciliar do animal e, com a evolução do aprendizado,
passar a ocorrer em locais diferentes, com mais movimentos e distrações que de-
safiarão sua atenção para os comandos.
Na última etapa, o cão será estimulado a pequenos truques que aperfeiçoarão
as atividades desenvolvidas nas intervenções. Nesta fase cabe conhecer suas ap-
tidões e incentivar atividades que despertem nele o prazer em executá-las. Por
exemplo, brincar com bolinhas ou outros objetos, obedecer a comandos de pegar
e soltar. Em atividades lúdicas envolvendo o paciente, podem também ser trei-
nados outros comandos: dar a pata com o objetivo de cumprimentar as pessoas,
rolar, girar e beijar, simbolizando brincadeiras e carinhos. Conforme o porte e o

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 679
temperamento dos cães, ainda mediante comando, podem ser estimulados a su-
bir no colo, beneficiando principalmente situações nas quais o paciente não possa
interagir com o animal de outra maneira, como no caso de pacientes com algum
distúrbio motor que o impeça de fazer alguns movimentos. É imprescindível, em
todas as etapas de preparo do cão, proceder-se de forma gradual, com calma, cui-
dado e em períodos curtos, a fim de ele não perder o interesse no aprendizado.
Durante todo o preparo devem ser oferecidos reforços positivos para o animal, ora
por meio de petiscos, carinhos, ora por qualquer outro reforço interessante para
ele. Dessa forma, o aprendizado acaba por se constituir um processo divertido e
agradável ao cão.
De forma geral, para atuar nas IAAs, além da preparação do cão, cabe aten-
tar-se ao perfil comportamental do animal, ou seja, analisar seu nível de energia.
Aquele com energia alta é mais agitado e ativo, enquanto o com energia média ou
baixa é menos agitado e mais passivo. Essa característica interfere diretamente no
tipo de intervenção na qual ele será inserido e se relaciona também à disposição
e resiliência que o animal terá para despender nas atividades de grande esforço
Figura 1 – Cão co- físico ou psicológico.
terapeuta do Pet Durante período integral de capacitação do cão é estabelecida uma relação de
Terapia pronto para proximidade entre ele e o treinador/condutor, sendo este a referência para o ani-
iniciar a IAA para
trabalhar com as
mal e responsável por reconhecer os limites, aptidões e segurança do coterapeuta.
crianças com o uso Portanto, faz-se imprescindível a presença do condutor em todas as IAAs em razão
de óculos. de ser o único profissional capacitado para atuar com o cão. Ainda, o condutor vai
Fonte: Projeto Pet garantir que as IAAs decorram como planejadas e assim os objetivos sejam alcan-
Terapia/UFPel. çados. Ademais, garantirá o bem-estar do coterapeuta, detectando rapidamente
o nível de estresse do animal e, sendo o
caso, deverá evitar expô-lo àquela situ-
ação. Assim, para que o animal se torne
um cão de trabalho em IAAs, necessita
ter aptidão nata para a socialização,
além de responder efetivamente a to-
dos os treinamentos e adaptações (Fig.
1). Logo, nem todos os cães, por mais
dóceis que sejam, têm perfil para atua-
rem como coterapeutas.
Com o público-alvo inicia-se a for-
mação de vínculo entre o cão e o assis-
tido, estimulada pelo carinho, toque e
pela interação, a qual é extremamen-
te importante para o bom andamento
da sessão. Ressalte-se que não há um
tempo determinado e específico de
duração das sessões, podendo, em al-
gumas situações, existir até mesmo a
necessidade de várias sessões para ser
efetivamente desenvolvido tal vínculo,
principalmente na TAA e na EAA. No
segundo momento do processo, são
realizadas atividades com objetivos es-
pecíficos, traçadas com a equipe, a fim
de promover o desenvolvimento social,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 680
cognitivo e/ou motor do assistido. Nesta fase é fundamental a utilização de ma-
teriais lúdicos para ocorrer uma integração entre o assistido e o coterapeuta. Sa-
liente-se a necessidade do uso de colete pedagógico no cão, recurso que permite
a efetivação de várias atividades com o emprego de ilhoses, cadarços, fechos, etc.
Ademais, devem ser valorizadas brincadeiras com o cão, por meio da observação,
identificação ou interação, valendo-se, para tanto, de letras e cores, ou ainda, con-
siderando-se o estímulo a hábitos da sua rotina, como pentear, caminhar, comer,
bem como o entendimento do “sim” e do “não”, entre outros aspectos. Nesta fase
ainda é trabalhada a aceitação do cão com aqueles que têm medo de animais e
com os que, por medo, pânico ou agressividade, apresentam histórico de maltra-
tar animais. Em tais casos, inicialmente são utilizados bonecos com a imagem dos
cães e, progressivamente, os cães coterapeutas são introduzidos nas atividades.
Para todos os assistidos, seja na AAA, TAA ou EAA, essa parte da sessão tem de ser
muito motivadora, pois a equipe precisa estar atenta à integração e interação com
cão e adequar constantemente as atividades em relação à dinâmica do assistido
(Fig. 2).
O último momento da sessão é destinado à preparação dos cães para ir embo-
ra. Eles e os assistidos ganham petiscos por meio de jogos lúdicos e, utilizando-se
os “pets games”, também são escovados e enfeitados com tiaras, fitas e outros
adornos, trabalhando-se, desse modo, a despedida dos animais. Posteriormente à
saída dos cães, os assistidos ainda podem ser estimulados a escrever, desenhar e
desenvolver trabalhos artesanais relacionados aos cães coterapeutas e às ativida-
des realizadas na sessão.

Figura 2 – Atividade
lúdica do Pet Terapia,
com a utilização de
tintas estimulando
a interação entre o
cão co-terapeuta e a
criança.
Fonte: Projeto Pet
Terapia/UFPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 681
Resultados
Desde 2006 o Pet Terapia atende à demanda da comunidade de Pelotas e re-
gião. Até o momento foram realizadas as IAAs em diversas instituições da cidade,
a saber: Cerenepe ‒ Centro de Reabilitação de Pelotas; APAE – Associação de Pais
e Amigos dos Excepcionais de Pelotas; Asilo de Mendigos; Asilo de Pobres de Rio
grande; Lar Doce Morada; Hospital Escola (UFPel); Hospital Espírita de Pelotas;
Centro de Atendimento ao Autista Dr. Danilo Rolim de Moura; Unidade Cuida-
tiva (UFPel); escolas municipais de Pelotas (Afonso Vizeu, Bibiano de Almeida,
Fernando Osório e Professor Elmar da Silva Costa); Escola Imaculada Conceição;
Unidade Básica Centro Social urbano do Areal; CRAS ‒ Centro de Referência de
Assistência Social – centro. Todas essas instituições receberam visitas semanais e
algumas delas já com a realização da parceria há vários anos. Outras ações ocorre-
ram em instituições parceiras, como na Biblioteca da UFPel; Escola de Integração
(UFPel); no Asilo de idosos de Rio Grande; na Oficina para os Servidores da UFPel;
Oficina para Estudantes Universitários (UCPel/UFPel). Também foram desenvolvi-
das atividades em eventos públicos: Mostra de Cursos da UFPel; IIº Fórum inter-
nacional de Novas Abordagens de Saúde Mental; entrega do selo Empresa Amiga
dos Animais, pela Prefeitura de Pelotas; 45° Feira do Livro de Pelotas; Pet Show
FEST 2018/Preview de lançamento; Iª Semana de Proteção Animal. Dessa forma,
já foram implementadas mais de 2500 ações desde 2006, atingindo-se de forma
direta cerca de 1500 pessoas. Ressalte-se que algumas ações foram efetivadas
exclusivamente para um determinado grupo atendido, principalmente nas AAAs.
Outras ações foram ainda continuadas de TAA e/ou EAA, ocorridas durante meses
ou anos com os mesmos integrantes. É importante salientar que as IAAs atingem
de forma indireta os familiares, responsáveis e acompanhantes dos assistidos au-
mentando-se assim o número de pessoas contempladas.
Em relação à equipe, existe uma rotatividade significativa em função do vínculo
do projeto com acadêmicos de graduações. Assim, por semestre, há ao redor de
20 colaboradores e, no total do período desse projeto, já fizeram parte da equipe
mais de 500 pessoas diferentes, cada uma colaborando com a sua área de conhe-
cimento, somando e agregando qualidade às IAAs e à comunidade.
No decorrer do tempo, houve crescimento em relação à proposta do Pet Tera-
pia, pois se conseguiu trabalhar de forma integrada com a extensão, o ensino e a
pesquisa, e atuar de forma multi, inter e transdisciplinar. As ações com uma equipe
de diversas áreas da saúde e educação possibilitou a integração e interação dos
conhecimentos, resultando num processo integrado para a realização das IAAs,
no qual existe a constante análise, discussão, avaliação e modificações quando ne-
cessárias. Isso se dá com base na rotina das nossas atividades pois a equipe precisa
entender as necessidades de cada indivíduo ou grupo e planejar, desenvolver e
estabelecer atividades que envolvam o cão coterapeuta conforme os objetivos a
serem alcançados com o(s) assistido(s). Assim, é preciso haver integração e inte-
ração dos conhecimentos na condição perspectiva do assistido, na do cão atuante
como coterapeuta, e na de todo o processo que será realizado.
O desenvolvimento integrado dos três pilares da educação — extensão, ensino
e pesquisa — dá-se também de forma rotineira. O ensino resulta da formação teó-
rica e prática da equipe mediante o estudo das IAAs, seja incluindo toda a equipe,
seja em grupos menores, mas priorizando o conhecimento existente em artigos e
livros e na discussão e análise dos casos vivenciados. Para tanto, ocorrem reuniões
semanais e atividades práticas com a equipe. A pesquisa é resultado da busca de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 682
novos conhecimentos na efetivação das IAAs sob diferentes formas: no modo de
realização, na resposta dos assistidos frente às IAAs, na análise e no treinamento
dos cães coterapeutas. Por consequência, há a geração de novos conhecimentos
que são publicados em congressos da área e em artigos. O Pet Terapia participou
do desenvolvimento de trabalhos de conclusão de cursos de graduações e espe-
cializações e também de dissertações de mestrado e teses de doutorado. A ex-
tensão é o resultado da formação da equipe e da aplicação desses conhecimentos
com comunidade, sempre priorizando a qualidade e a atenção dos serviços dispo-
nibilizados aos assistidos e às instituições parceiras.
Desse modo, no cotidiano, produz-se a construção do saber com a apropriação
do conhecimento (ensino/formação acadêmica, graduação e pós-graduação), ela-
borando-se novos saberes (pesquisa/graduação e pós-graduação) baseados nas
vivências da prática diária com as IAAs. Tal saber é retornando para a comunidade
(extensão) em ações que visam o compartilhamento do conhecimento adquirido e
construído, por intermédio de um processo educativo, cultural e científico. Conse-
guiu-se, pois, criar no Pet Terapia uma indissociabilidade das atividades de ensino,
pesquisa e extensão na rotina diária, proporcionando à equipe e à comunidade a
vivência integrada e compartilhada dos três eixos da educação. Como exemplos
podem ser citadas as ações compartilhadas na sessão de pediatria do Hospital Es-
cola que, por meio da atividade de extensão proposta, propiciaram a qualificação
de toda a equipe, tendo a análise de tal atividade resultado em trabalho de conclu-
são de curso e também em artigo científico. Ademais, houve atividades envolven-
do crianças com transtorno do espectro autista. Elas qualificaram a equipe nessa
área e revelaram aspectos importantes das TAAs com os pacientes, ocasionando
a elaboração de tese de doutorado, apresentação de vários trabalhos em congres-
sos e publicação de artigos em revista.
Da mesma forma, construiu-se a relação entre ensino, pesquisa e extensão con-
siderando-se: a leitura de crianças em fase de alfabetização e a utilização dos cães
coterapeutas como ouvintes; a percepção dos pais ou responsáveis por crianças do
espectro autista frente às IAAs; a integração de crianças em situação de vulnera-
bilidade social com os cães coterapeutas; e ainda, estudos sobre o bem-estar dos
cães coterapeutas. Em 2016 se implementou, dentro do Programa de Residência
Multiprofissional do Ministério da Educação, o Programa de Residência em Inter-
venções Assistidas por Animais para Médicos Veterinários, sendo o único no Brasil.
As visitas semanais da equipe do Pet terapia, momentos em que se expressam
sorrisos, abraços, carinho e sentimentos livres de dor e choro, são esperadas pelas
crianças e adultos hospitalizados e por seus pais e/ou responsáveis com grande
expectativa e entusiasmo, transformando-se num momento único e diferenciado
da rotina hospitalar cotidiana. Conforme mencionado, essas visitas contemplam
atividades previamente planejadas pela equipe, incluindo o cuidado com a afetivi-
dade. As atividades motoras e, quando possível, as lúdicas, são feitas com a inte-
ração do cão coterapeuta e com o uso de jogos e materiais que lembrem os cães
(PEREIRA et al., 2017). Durante as IAAs promovidas pelo Pet terapia em hospital,
foi possível se observarem inúmeros benefícios aos assistidos, acompanhantes e
à equipe envolvida. De acordo com relatos dos profissionais envolvidos, durante a
ocorrência das atividades, as crianças hospitalizadas sentiram-se bem com a pre-
sença dos cães, tornando-se perceptível uma amenização da saudade de casa e o
despertar de sentimentos de afetividade e melhora no humor. Também foi possí-
vel constatar que, antes das intervenções, elas e seus acompanhantes encontra-
vam-se abatidos e tristes e, após o término das atividades, houve uma mudança
de humor e descontração (LIMA et al, 2018b).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 683
Já nas IAAs realizadas com pacientes psiquiátricos adultos, foi possível consta-
tar melhora emocional, demonstrada mediante empatia e afeição pelos cães cote-
rapeutas do Pet Terapia. No decorrer das visitas, os assistidos relatavam o quanto
a interação com os cães influenciava positivamente na relação com as outras pes-
soas. Os jogos lúdicos utilizados com a temática dos cães coterapeutas facilitaram
a adesão e participação dos pacientes. Tais atividades proporcionaram momentos
de entretenimento e relaxamento, confirmados pelo relato da terapeuta ocupacio-
nal, que ressaltou a melhora momentânea dos pacientes, facilitando a intervenção
profissional durante a sessão e em momentos posteriores às IAAs. Justifica-se o
relato em função de se poder verificar a diminuição do estresse, o desenvolvimen-
to dos sentimentos de afeição, carinho e a facilidade da expressão de sentimentos
potencializando a interação social entre os assistidos e os profissionais envolvidos
(LIMA et al, 2018b).
O Pet Terapia vem trabalhando com crianças e adolescentes em situação de
vulnerabilidade social, vítimas de maus-tratos e negligência, que manifestam gra-
ves problemas emocionais e de convívio social. Para a implementação de uma
abordagem lúdica, durante as intervenções, utilizaram-se os cães coterapeutas no
ambiente escolar, inseridos na TAA e a EAA. Os resultados apontaram para uma
melhora significativa das reações negativas dessas crianças em tempo reduzido
de interação social com os cães. Elas revelaram sentimentos e reações de carinho
e afeto para com os animais, o que refletiu em evolução no aprendizado escolar e
na interação com o grupo de crianças. Percebeu-se ter sido o cão considerado um
instrumento de apego, confiança, amizade e amor para a criança escolar em sofri-
mento emocional (PEREIRA, 2017).
A EAA promovida pelo Pet terapia vem sendo praticada em escolas de ensino
fundamental, salas de recursos e escolas de atendimento a crianças com deficit
cognitivo. Em todos os locais, a EAA tem sido muito estimulante para as crianças,
professores e equipe, tanto no que se refere ao incentivo à leitura, aprendizado em
geral, desenvolvimento de motricidade e da memória, quanto ao desenvolvimen-
to da socialização e da afetividade (NOBRE et al., 2017). Com base nas atividades
realizadas, destaca-se o uso do colete pedagógico e do livro sensorial, os quais
possibilitam estabelecer o vínculo entre o assistido e cão coterapeuta, além de
proporcionar o aperfeiçoamento de algumas habilidades utilizando-se números,
letras, diferentes cores e formas. Os benefícios da EAA foram verificados median-
te a observação da evolução de cada aluno, que se sentiu mais motivado em reali-
zar as atividades propostas, e a constatação de uma maior afetividade e socializa-
ção entre os participantes, propiciando-lhes avanços importantes nas atividades
pedagógicas propostas (LIMA et al., 2018a).
O Pet Terapia trabalha há alguns anos com TAA e EAA contemplando crianças
e adolescentes autistas, de diferentes idades e graus do espectro. As sessões são
divididas em três momentos, sendo o primeiro voltado à formação de vínculo, por
meio do carinho, entre o assistido e o cão, provendo ambos de afetividade e con-
forto. Para crianças que têm receio do animal, inicialmente o trabalho é desenvol-
vido com um cão de pelúcia a fim de que ela se sinta segura na interação com o
cão, possibilitando-lhe assim, posteriormente, a inserção do cão coterapeuta nas
sessões. São realizadas atividades específicas com materiais temáticos envolven-
do o cão e, no final das sessões, as crianças são estimuladas a se despedirem dos
cães e das demais pessoas. Com a evolução das visitas, elas se sentiram à vontade
com a presença do cão, dele se aproximando e realizando carinho, escovando sua
pelagem, decorando-o com bandanas e convidando-o para as brincadeiras pro-
postas pela equipe (NOGUEIRA, 2018).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 684
Tais mudanças comportamentais são promovidas por emoções positivas gera-
das pelo cão coterapeuta, oportunizando aos pacientes passarem mais tempo em
aproximação. Partindo-se da observação das crianças e de suas atividades, foram
introduzidos recursos lúdicos a fim de explorar habilidades específicas. A utiliza-
ção desses recursos permitiu trabalhar de forma leve e indireta as necessidades
terapêuticas de cada uma, favorecendo a compreensão e expressão de seus sen-
timentos e melhorando seu desenvolvimento cognitivo. O cão age então como
agente facilitador, possibilitando uma comunicação especial, seja gestual, seja vi-
sual, contemplando também as características essenciais da criança com transtor-
no do espectro autista e permitindo que o terapeuta consiga intervir.
Observou-se, além disso, uma maior adesão das crianças à terapia com a TAA,
assim como um maior interesse em participar das sessões, principalmente aquelas
com graus mais leves de autismo. As mudanças comportamentais com base na
TAA são promovidas por emoção positivas geradas pelo cão coterapeuta, levan-
Figura 3 – Atividade do os pacientes a passarem mais tempo em aproximação. Com o vínculo criado,
de fisioterapia, crianças estabelecem uma sensação de segurança e imutabilidade, permitindo
trabalhando uma conexão entre o mundo imaginário infantil e o mundo real quando se trata
movimentos e especificamente de crianças autistas. O vínculo com o cão coterapeuta permite
equilíbrio utilizando a
que ela alcance a realidade, diminuindo o isolamento causado pelo deficit em in-
interação com o cão
co-terapeuta com o teração e comunicação social (NOGUEIRA, 2018).
arremesso da bolinha O Pet Terapia vem também atuando com fisioterapia assistida por animais in-
para o cão ir buscar. serindo pacientes adultos e idosos com doenças crônicas e doenças neurodegene-
Fonte: Projeto Pet rativas. São realizados atendimentos individuais e em grupos e, para cada pacien-
Terapia/UFPel. te que participa, são traçados objetivos e elaborados protocolos específicos que
atenda àssuas necessidades. Durante
as sessões, nota-se que a presença dos
cães age como fator motivacional para
a realização das atividades propostas,
assim como estimulador da interação
social entre os pacientes, os quais se
mostram mais animados e contentes.
Nas sessões individuais de fisiote-
rapia assistida por animais, notou-se
que os pacientes manifestaram um
laço afetivo mais forte com os cães,
sendo possível desenvolver um proto-
colo terapêutico mais específico para
o paciente. Durante os exercícios que
podem exigir mais e serem um pouco
desconfortáveis aos pacientes, os cães
auxiliam na distração, aumentando a
aceitação deles (Fig. 3). Os exercícios
adaptados para serem realizados com
a presença do cão estimulam a motri-
cidade, o controle e o equilíbrio dos
pacientes, bem como aumentam o
grau de interação com a equipe. Têm-
-se obtido resultados satisfatórios
das sessões, como a melhora no con-
trole dos membros e da motricidade

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 685
dos pacientes, colaborando-se para uma maior efetividade do protocolo fisiotera-
pê[Link] a esses benefícios, o Pet Terapia tem estudado a pressão arterial
de pacientes/assistidos e observou a redução da pressão arterial em grande parte
das pessoas avaliadas.

Conclusão
As IAAs,utilizando o cão como coterapeuta, estão em ascensão e mostram-se
importantes como estratégias para a qualificação e humanização do atendimento.
Elas podem ser incorporadas aos serviços de saúde e educação como uma nova
prática integrativa e serem complementadas de cuidado,com o objetivo de pro-
mover a melhora clínica, psíquica e cognitiva dos participantes, desenvolvendo
suas habilidades em diversos aspectos. O cão coterapeuta, cujo papel é muito rele-
vante nas IAAs, requer cuidados específicos, sendo sempre necessária a avaliação
e manutenção do seu bem-estar.
Finalizamos com a satisfação de afirmar que o Pet terapia estimula os sabe-
res para os acadêmicos da graduação e pós-graduação e para a equipe em geral
oportunizando-lhes novos conhecimentos por meio de pesquisas inovadoras, que
retornam à comunidade mediante o desenvolvimento de TAA, EAA e AAA. Assim,
as IAAs realizadas pelo Pet Terapia contribuem em diversas instituições de Pelotas
para melhorar a qualidade de vida dos participantes, diminuindo o estresse e faci-
litando a educação e a resposta às terapias convencionais.
Agradecemos à Faculdade de Veterinária e àUniversidade Federal de Pelotas
pela possibilidade de desenvolver o Pet Terapia e às instituições parceiras na prá-
tica das IAAs durante o ano de 2019: Hospital Escola/UFPel, Hospital Espírita de
Pelotas, Escola Municipal Afonso Vizeu, Centro de Atendimento ao Autista Dr.
Danilo Rolim de Moura, Unidade Cuidativa – Centro Regional de Referência em
Cuidados Paliativos. Também somos gratos às empresas que apoiam o projeto Pet
Terapia com o apoio na nutrição (Hill’sPet Nutrition; DASPPET Produtos Veteriná-
rios LTDA.), na imunização rotineira de cães (Zoetis./VetLog Comércio de Produ-
tos Veterinários), no controle de ecto e endoparasitas (VIRBAC), nos produtos de
higiene (IBASA) e nos medicamentos de rotina (AGENER União).

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2005.

SOBRE AS AUTORAS
Márcia de Oliveira Nobre, gradua- Débora Matilde de Almeida, gra-
da em Medicina Veterinária pela UFPel. duada em Medicina Veterinária pela
Doutora pela UFRGS. Professora no UFPel. Residente pelo Programa de
Departamento de Clínicas Veterinárias, Residência Multiprofissional – Medicina
Faculdade de Veterinária da UFPel. Co- Veterinária da UFPel – Área de Inter-
ordenadora do Projeto de Extensão – venções Assistidas por Animais. Bolsis-
Pet Terapia- Animais como auxiliares na ta MEC. E-mail: [Link]@hot-
reabilitação de pessoas com necessida- [Link]
des especiais. E-mail: marciaonobre@
[Link] Sabrina de Oliveira Capella, gra-
duada em Medicina Veterinária pela
Camila Moura de Lima, graduada UFPel. Doutora pela UFPel. Residente
em Medicina Veterinária pela UFPel. pelo Programa de Residência Multi-
Especialista Área de Intervenções As- profissional – Medicina Veterinária da
sistidas por Animais pelo Programa de UFPel Área de Intervenções Assistidas
Residência Multiprofissional – Medicina por Animais. Bolsista MEC. E-mail:
Veterinária - UFPel. Vínculada ao Pro- [Link]@[Link]
jeto Pet Terapia desde 2012 . E-mail:
[Link]@[Link] Viviane Ribeiro Pereira, graduada
em Enfermagem pela UFPel. Douto-
Carolina da Fonseca Sapin, gradua- randa do Programa de Pós-Graduação
da em Medicina Veterinária pela UFPel. em Enfermagem da UFPel. Bolsista
Doutora pelo Programa de Pós-gradua- CAPES/FAPERGS. Vínculo ao Proje-
ção em Veteriária/UFPel. Vinculada ao to Pet Terapia desde 2014. E-mail:
Projeto Pet Terapia desde 2016. E-mail: [Link]@[Link]
carolinasapin@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº8 689
PROJETO DE EXTENSÃO PREVENÇÃO
E PROMOÇÃO DA SAÚDE EM GRUPO
DE GESTANTES E PUÉRPERAS
Juliane Portella Ribeiro
Marilu Correa Soares
Luiza Rocha Braga
Karen Barcelos Lopes
Melissa Hartmann

Introdução
A gravidez é uma experiência complexa com aspectos diferentes para cada mu-
lher. É importante o envolvimento tanto da mulher como de seu companheiro, da
família e dos demais serviços de saúde nas atividades de promoção e prevenção à
saúde para que este período seja vivenciado de forma mais segura e humanizada
(SANTOS; RADOVANOVI; MARCON; 2010).
Logo, a gestação é um período de constantes modificações físicas e alterações
emocionais na vida da mulher, do companheiro/futuro pai, repercutindo nas re-
lações familiares, exigindo adaptações de todos a um novo contexto de vida, no
âmbito pessoal, familiar e sociocultural (LEITE et al., 2014).
O primeiro trimestre corresponde às primeiras modificações na percepção do
corpo, sentimento de estar ou não grávida, medo de abortar, aumento da sensibi-
lidade, alterações no apetite. No segundo trimestre a gestação torna-se mais real,
a mulher passa a sentir a movimentação do bebê e as atividades diárias podem
ficar mais lentas. No terceiro trimestre, a ansiedade é manifestada pela aproxi-
mação do parto e de alguns sentimentos já experimentados por essa mulher, no
entanto, reapresentados a ela de forma diferente como medo da morte, mas ago-
ra no parto, se o bebê vai nascer saudável e as mudanças na rotina da vida após o
nascimento (SANTOS; ZELLERKRAUT; OLIVEIRA, 2008).
No decorrer da gestação, acontece de a mulher ficar mais receptiva às infor-
mações relativas ao seu estado gravídico e aos cuidados com o bebê é neste mo-
mento, onde o estreitamento de laços entre mãe e filho ainda no útero estão acon-
tecendo. Por essa razão, entende-se que o pré-natal é o cenário para criação de
espaços de educação em saúde que possibilitem às gestantes e puérperas falar
sobre suas vivências e consolidar informações importantes sobre o período graví-
dico puerperal.
SAÚDE Nº9

Neste sentido, o Ministério da Saúde aponta que os espaços de educação po-


dem ocorrer em grupos específicos para gestantes tanto em salas de espera, nas

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 690


comunidades ou como em qualquer outro espaço que propicie a troca de ideias
(BRASIL, 2013).
Acredita-se que o trabalho com grupos como prática compartilhada é impor-
tante para construção de estratégias de enfrentamento dos desafios que se apre-
sentam na vida dos participantes. Segundo Santos, Zellerkraut e Oliveira (2008)
quando a prática é desenvolvida no cotidiano do trabalho em saúde facilita a pro-
dução coletiva do conhecimento e a reflexão acerca da realidade vivenciada pelos
membros.
O trabalho com grupo de gestantes, para Matos et al. (2015), possibilita devol-
ver à mulher o papel de protagonista do nascimento do seu filho, pois as atividades
desenvolvidas neste cenário devem preservar o contexto social de cada gestante,
sua cultura e seus valores. Essa prática resulta na construção do conhecimento
em conjunto, na promoção do cuidado integral e na humanização da gestação, do
nascimento e do puerpério.
Para Fonseca e Janicas (2014), o grupo de gestantes deve compor o cronogra-
ma de atividades pertencentes à assistência pré-natal e não apenas constar nos
programas públicos de saúde, pois ajuda na conscientização das futuras mães em
relação ao atendimento de suas necessidades, estimula a reflexão, favorece a or-
ganização e instrumentalização das mulheres na conquista da cidadania.
Neste contexto de diálogo, cabe ao profissional ou ao responsável pelo grupo o
papel de mediador, direcionando as atividades sem perder as demandas que sur-
girem ao longo da conversa com as participantes, possibilitando a socialização de
saberes, a promoção da saúde e prevenção doenças, além de proporcionar a troca
de conhecimento e experiências entre participantes e mediadores.
Diante do exposto, o objetivo deste artigo é apresentar o projeto de extensão
intitulado Prevenção e Promoção da saúde em Grupos de Gestantes e Puérperas
relatando a experiência de acadêmicas e docentes da Faculdade de Enfermagem
da Universidade Federal de Pelotas.

Metodologia
O projeto de extensão Prevenção e Promoção da Saúde em Grupos de Gestan-
tes e Puérperas foi criado a partir da mobilização de duas acadêmicas do 5º semes-
tre da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Pelotas (FE-UFPel),
Maria Emília Bueno e Manuela Bueno, que moravam próximas a uma Unidade Bá-
sica de Saúde (UBS) da periferia da cidade de Pelotas-RS e sentiram a necessidade
de promover encontro com as gestantes da área de abrangência da referida UBS,
a fim de esclarecer dúvidas e anseios das mulheres e familiares em relação à ges-
tação, parto, puerpério e cuidados com o recém-nascido. Para tanto, convidaram
a professora Francisca Dias de Oliveira da FE-UFPel, então responsável pela dis-
ciplina Saúde da Mulher para coordenação do projeto denominado de Grupo de
Gestantes. No entanto, com aposentadoria da Profª. Francisca em 2005, o projeto
passou a ser coordenado pela Profª Substituta Caroline Linck nos períodos de 2005
a 2007.
Em 2008, assume a coordenação do projeto a Profª Drª Marilu Correa Soares
que reformula a ementa do projeto de extensão, o qual passa a ser denomina-
do Prevenção e Promoção da Saúde em Grupos de Gestantes e Puérperas e de-
senvolvido por uma bolsista do Programa de Bolsas de Extensão e Cultura (PRO-
BEC), uma mestranda do Programa de Pós Graduação de Enfermagem (PPGEnf)
da Universidade Federal de Pelotas, acadêmicas de enfermagem voluntárias de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº9 691
diferentes semestres da graduação e a equipe profissional da Unidade Básica de
Saúde Sanga Funda.
O projeto tem por objetivo esclarecer dúvidas relativas à gestação, trabalho de
parto, parto, puerpério e primeira infância; incentivo ao aleitamento materno ex-
clusivo; informações sobre os benefícios do parto normal para a mulher e o bebê.
O projeto também aborda temática sobre prevenção das doenças da primeira in-
fância; importância das medidas de higiene para gestante, puérpera e bebê; orien-
tações sobre planejamento familiar proporcionando à mulher a escolha segura do
método contraceptivo.
Os encontros do projeto de extensão ocorrem mensalmente com duração em
torno de 30 a 40 minutos, tendo como público alvo mulheres em diferentes idades
gestacionais, faixa etária, condições socioeconômicas, culturais e no pós-parto.
Os assuntos são escolhidos previamente pelas gestantes, geralmente no gru-
po anterior; a partir disso, as acadêmicas e mestranda preparam os materiais (au-
diovisuais e folders informativos) a serem apresentados como disparadores para
discussão, visto que o principal objetivo do grupo é a troca de experiências entre
gestantes, puérperas, coordenadores, discentes da FE e os profissionais da UBS e
o aprimoramento da atenção humanizada à saúde da gestante, puérpera e fami-
liares.
Em 2018, a coordenação do projeto passa a ser exercida pela Profª. Drª. Juliane
Portella Ribeiro que amplia a área de atuação do projeto para área hospitalar.

Resultados
A atenção qualificada às mulheres no ciclo gravídico vai além da consulta in-
dividual de pré-natal, visto que no acompanhamento periódico das gestantes é
importante compartilhar experiências, dúvidas, sentimentos e produzir conheci-
mento sobre questões do período gravídico puerperal, sendo o grupo de gestantes
um espaço para contemplar tais demandas de maneira qualificada e segura para
essas mulheres (FONSECA; JANICAS, 2014).
Para Amaral, Souza e Cecatt (2010), durante o pré-natal e puerpério a mulher
precisa receber informações fundamentais para a vivência do ciclo gravídico-puer-
peral, logo, o grupo de gestantes tem a função de esclarecer questões importan-
tes e dúvidas que não foram sanadas durante a consulta individual.
Nesta perspectiva, os grupos realizados pelo projeto de extensão Prevenção e
Promoção da Saúde em Grupos de Gestantes e Puérperas seguem as temáticas de
interesse das gestantes, puérperas e familiares, sem impor ordem ou obrigatorie-
dade, uma vez que se parte do princípio de que a temática a ser abordada nos en-
contros deverá ser de livre escolha das participantes cujos temas são de suas curio-
sidades, dúvidas ou o simples desejo de compartilhar as experiências que tiveram
sobre determinado o assunto. O objetivo principal é tornar a mulher protagonista
do seu cuidado, por meio do seu empoderamento, sendo os grupos de gestantes e
puérperas um espaço profícuo para o exercício da autonomia.
Nesta linha de pensamento, o projeto de extensão Prevenção e Promoção da
Saúde em Grupos de Gestantes e Puérperas mantêm a característica de incentivar
as participantes a levarem seus companheiros ou pessoas de sua confiança nos
grupos. Em média, a atividade conta com a participação de 12 pessoas. Contudo,
observa-se que a maioria das gestantes não leva o marido ou companheiro e jus-
tificam que os mesmos se encontram em horário de trabalho, o que dificulta este
acompanhamento, então as mulheres acabam levando, na maioria das vezes, suas
mães e amigas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº9 692
O Ministério da Saúde (MS) orienta acolher o acompanhante da mulher, não
oferecendo obstáculos a sua participação no pré-natal, no trabalho de parto, no
parto e no pós-parto. Podendo ser o acompanhante alguém da família ou ami-
go(a) conforme preconiza a Lei nº 11.108, de 7 de abril de 2005 (BRASIL, 2013).
Nesta ótica, entende-se que os grupos precisam ser trabalhados de forma di-
nâmica e objetiva, as participantes necessitam partilhar suas experiências, tendo
suas dúvidas e anseios esclarecidos. É importante que o coordenador do encontro
nunca desrespeite o conhecimento trazido pelas participantes, pois estes geral-
mente são saberes culturais passados de avós e mães para as filhas, cabendo ao
profissional ou acadêmico esclarecer o conhecimento popular com base na ciência
e literatura.
Para Abrahão e Freitas (2009), elaborar um grupo requer um trabalho cuidado-
so de observação, criatividade e de sensibilidade com as singularidades de cada
participante. É preciso incluir a organização prévia das atividades, no sentido de
construir um espaço, sem perder os acontecimentos presentes durante o encontro.
De acordo com o Ministério da Saúde o facilitador do grupo tem que evitar o
estilo de grupos em palestra, por ser pouco produtivo, pois se perde questões que
surgem no decorrer da explanação que são mais importantes para as participantes
do que um roteiro preestabelecido (BRASIL, 2005).
Seguindo todos esses cuidados, os grupos realizados pelo projeto de extensão
visam exatamente à valorização da singularidade de cada participante, pois a dis-
cussão em roda de conversa entre gestantes, profissionais de saúde e acadêmi-
cas permite uma horizontalidade do diálogo e compartilhamento do saber, como
mostram as figuras (1 e 2).

Figura 1 – Grupo
de gestante sobre
Aleitamento materno
2016.
Fonte: Acervo do
Projeto de extensão.

Figura 2 – Grupo
de gestante sobre
Aleitamento materno
2016.
Fonte: Acervo do
Projeto de extensão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº9 693
Diante do exposto, entende-se importante incentivar os alunos desde a gradu-
ação à participação em projetos que desenvolvam o trabalho com grupos, pois es-
tes espaços são ferramentas que em muito, o acadêmico de enfermagem, poderá
aprimorar seu conhecimento, compartilhar informações como também incentivar
e orientar os participantes.
De acordo com Strassburger e Dreher (2006), a participação dos acadêmicos
em grupo de gestantes oportuniza a vivência profissional por meio da responsa-
bilidade de coordenar os grupos e organizar as atividades a serem desenvolvidas
com as participantes. No entanto, acredita-se que independente do profissional
e/ou acadêmicos responsáveis pela coordenação dos grupos de gestantes e puér-
peras é importante que se esteja comprometido com grupo, que se tenha conhe-
cimento para dialogar sobre os assuntos pertinentes e esclarecer dúvidas, respei-
tando, principalmente, a subjetividade de cada participante.
Outro ponto importante a se destacar, refere-se à utilização de uma linguagem
acessível às participantes, evitando-se os termos técnicos e de difícil compreensão
para que as informações necessárias não se percam nesse diálogo, nem mesmo
que distancie essas mulheres de a possibilidade de receberem instrução adequada
para a sua saúde e a saúde de seus filhos ainda em gestão ou recém-nascidos. É
preciso, por fim, que o grupo seja um espaço em que as participantes se sintam à
vontade e acolhidas.
Para Matos et al. (2015), os profissionais de saúde que trabalham com grupos
necessitam estar motivados e preparados para interagir com as participantes, ten-
do consciência dos limites e potencialidades de cada integrante do grupo.
Atualmente, sob coordenação da Prof.ª Drª. Juliane Portella Ribeiro, além da
UBS, o projeto ampliou sua área de atuação, desenvolve-se atividades com mu-
lheres que vivenciam a gestação e o puerpério na Unidade Materno-Infantil ou têm
seu bebê internado na Unidade Pediátrica ou UTI Neonatal do Hospital Escola da
Universidade Federal de Pelotas (HE/UFPel/EBSERH). A atividade denominada
Roda de Conversa consiste em uma estratégia de cuidado multidisciplinar que tem
por objetivo apoiar as mulheres durante o período de internação e proporcionan-
do espaço para troca de experiências e informações.
As rodas de conversa ocorrem uma vez por semana, com duração de 15 a 30
minutos. A colaboração de profissionais e acadêmicos das áreas de enfermagem,
serviço social, psicologia, educação física, odontologia e nutrição permite a abor-
dagem de temáticas diversificadas, tais como: cuidado de si; aleitamento mater-
no; consulta puerperal; mudanças corporais e emocionais no puerpério; rede de
apoio; direitos da gestante, puérpera e do recém-nascido; ansiedades, medos e
depressão pós-parto; maternidade; desenvolvimento motor da criança; volta às
atividades motoras maternas após o parto; prevenção de acidentes na infância,
oficina de arte gestacional (Fig. 3 e 4).
Agregar outras áreas do saber com a contruibuição de profissionais das varia-
das áreas da saúde mental e do corpo, oportuniza um leque variado de temas, de
forma que, ao longo do período de internação, a mulher não seja exposta repeti-
damente a mesma discussão. Além disso, expõem o acadêmico ao exercício de
cooperação e trabalho multidisciplinar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº9 694
Figura 3 – Realização
da Arte gestacional,
2018.
Fonte: Acervo do
Projeto de extensão.

Figura 4 – Notícia
extraída da página
do Facebook do HE/
UFPel/EBSERH sobre
a realização da Arte
gestacional, 2018.
Fonte: Facebook do
HE/UFPel/EBSERH.

Também, em parceria com profissionais do HE/UFPel/EBSERH, se faz presente


nos Cursos de Gestantes oferecidos à comunidade de Pelotas (Fig. 5 e 6). O curso
é composto por seis módulos desenvolvidos um por semana, com participação de
equipe multiprofissional composta por Assistente Social, Enfermeiras, Médicos
Obstetras, Médico Pediatra, Fisioterapeuta, Educador Físico, Odontólogos, Psicó-
loga e Nutricionista (Fig. 7).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº9 695
Figura 5 – Notícia
sobre nova edição do
curso de gestante,
2019.
Fonte: Diário
Popular, 14/08/2019.
Disponível em:
[Link]
diariopopular.
[Link]/geral/
he-faz-mais-uma-
edicao-do-curso-de-
gestante-143873/.

Figura 6 – Módulo do
Curso de Gestantes
do HE/UFPel/EBSERH
2019.
Fonte: Acervo do
Projeto de extensão.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº9 696
É sob esta perspectiva que o proje-
to de extensão Prevenção e Promoção
da saúde em Grupos de Gestantes e
Puérperas se consolida há mais de 15
anos, pois acredita-se que o trabalho
com grupos de gestantes e puérperas
favorece a troca de saberes entre par-
ticipantes e mediadores de grupo, pos-
sibilitando a qualificação da atenção à
saúde da gestante.

Conclusão
O projeto de extensão aqui apresen-
tado é uma estratégia para prevenção e
promoção da saúde, pois possibilita às
gestantes, puérperas e acompanhantes
a troca de experiências e esclarecimen-
to de dúvidas uma vez que nele são ex-
pressos os saberes de cada um.
O projeto de extensão Prevenção e
Promoção da Saúde em Grupos de Ges-
tantes e Puérperas é um espaço no qual
a mulher pode preparar-se para viven-
cias que contemplam o ciclo gravídico-
-puerperal, levando em consideração
que as informações e as trocas de expe-
riências oferecem e reforçam subsídios
para suas escolhas e tomada de decisão
em relação à gestação, nascimento e
Figura 7: cuidado com seu filho. Neste espaço, os participantes e mediadores trocam infor-
Cronograma do mações favorecendo o conhecimento construído de forma recíproca, em clima de
Curso de Gestantes
confiança e aprendizado.
do Hospital Escola,
2019. As atividades realizadas neste projeto de extensão propiciam às acadêmicas
relacionar a prática com a teoria e os diferentes atores deste cenário aprendem a
Fonte: Elaborado
pelos profissionais do valorizar e respeitar a subjetividade de cada um.
HE/UFPel/EBSERH e Por fim, o projeto de extensão incentiva o profissional de saúde e acadêmicos
membros do Projeto para o trabalho em equipe e possibilita a promoção da saúde e a prática do cuida-
de extensão. do humanizado desde o pré-natal até o puerpério, contribuindo para os avanços
dos programas de Atenção Básica e da consolidação do Sistema Único de Saúde.

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SOBRE AS AUTORAS
Juliane Portella Ribeiro, graduada da FEn/UFPel. Membro do Núcleo de
em Enfermagem pela UFPel. Doutora Pesquisa e Estudos com Crianças, Ado-
em Enfermagem pela FURG. Docente lescentes, Mulheres e Famílias (NUPE-
da FEn/UFPel. Coordenadora do Proje- CAMF). E-mail: luizarochab@gmail.
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lescentes, Mulheres e Famílias (NUPE- Karen Barcellos Lopes, graduada
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Marilu Correa Soares, graduada em Membro do Núcleo de Pesquisa e Es-
Enfermagem pela UFPel. Doutora em tudos com Crianças, Adolescentes, Mu-
Enfermagem em Saúde Pública EERP/ lheres e Famílias (NUPECAMF). E-mail:
USP. Docente aposentada da FEn/ karenbarcelos1@[Link]
UFPel. Vice-coordenadora do Projeto
Extensão. Líder do Núcleo de Pesqui- Melissa Hartmann, discente do 8º
sa e Estudos com Crianças, Adolescen- semestre da FEn/UFPel. Bolsista vo-
tes, Mulheres e Famílias (NUPECAMF). luntária do projeto de Extensão. Mem-
E-mail: enfermeiramarilu@[Link] bro do Núcleo de Pesquisa e Estudos
com Crianças, Adolescentes, Mulhe-
Luiza Rocha Braga, graduada em res e Famílias (NUPECAMF). E-mail:
hmelissahartmann@[Link]
Enfermagem pela FURG, enfermeira
do HE/UFPel. Doutoranda do PPGEnf

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº9 699
PROJETO ACOLHENDO
SORRISOS ESPECIAIS:
FORMANDO PROFISSIONAIS COM BASES
NO ACOLHIMENTO E NA HUMANIZAÇÃO
DA ATENÇÃO À SAÚDE DE PESSOAS COM
DEFICIÊNCIA

Lisandrea Rocha Schardosim


Marina Sousa Azevedo
José Ricardo Sousa Costa
Gabriela Ibing Sberse
Andreia Drawanz Hartwig
Natália Marcumini Pola

Apresentação
Em odontologia, as pessoas com deficiência são aquelas que apresentam uma
alteração ou condição, simples ou complexa, momentânea ou permanente, de
etiologia biológica, física, mental, social e/ou comportamental que exija uma
abordagem diferente da tradicional ao atendimento odontológico (CAMPOS et
al., 2009). O projeto Acolhendo Sorrisos Especiais tem como principal objetivo pro-
mover a atenção, em nível ambulatorial e hospitalar, a pessoas com deficiência e
está em atividade desde 2005 e, a partir de 2012, passou a hospedar o Centro de
Especialidades Odontológicas (CEO) Jequitibá.
Este projeto de extensão é considerado um centro de referência no atendimen-
to às pessoas com deficiência, recebendo grande demanda da cidade de Pelotas
e da região sul do Estado. Fazem parte da equipe docentes, técnicos, acadêmicos
de graduação e pós-graduação da Faculdade de Odontologia e docentes e acadê-
micos da graduação de outros cursos da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Cerca de 600 pacientes, entre crianças, adultos e idosos já receberam atendi-
SAÚDE Nº10

mento odontológico e, aproximadamente, 50 acadêmicos participam anualmente


de forma voluntária das atividades do projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 700


Histórico do projeto
O projeto de extensão Acolhendo Sorrisos Especiais foi criado em 2005 para
continuar e formalizar uma parceria existente entre Faculdade de Odontologia e
a Escola de Educação Especial CERENEPE. Inicialmente o enfoque era a atenção
à saúde de crianças com deficiência neuropsicomotora matriculadas na escola. O
trabalho consistia em ações preventivas com bebês e crianças menores de 2 anos
de idade (Fig. 1), atividades educativas com os escolares (Fig. 2) e atendimento
clínico no consultório odontológico da instituição (Fig. 3), o qual era realizado por
estudantes de vários semestres do curso de odontologia e por uma docente.

Figura 1 – Ação
preventiva
(escovação) com
bebê no CERENEPE.
Pelotas, 2006.
Fonte: Acervo do
projeto.

Figura 2 - Atividade
educativa com
os escolares do
CERENEPE. Pelotas,
2006.
Fonte: Acervo do
projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 701
Figura 3 -
Atendimento
odontológico
realizado por
acadêmicos do
projeto na Escola
CERENEPE, sob
supervisão docente.
Pelotas, 2007.
Fonte: Acervo do
projeto.

Figura 4 -
Atendimento
odontológico à
paciente com
deficiência realizado
por acadêmicos do
projeto Acolhendo
Sorrisos Especiais nas
dependências da FO/
UFPel. Pelotas, 2019.
Fonte: Acervo do
projeto.

Cinco anos mais tarde, em 2010, o


projeto passou a oferecer atendimen-
to odontológico ambulatorial à pessoa
com deficiência na clínica da Faculdade
de Odontologia, pois a demanda por
atendimento de outras escolas e da
própria faculdade, além da Escola CE-
RENEPE, cada vez crescia (Fig. 4 e 5),
tornando fundamental e necessária a
ampliação da assistência.
Figura 5 -
Atendimento
odontológico de
paciente com
deficiência realizado
por acadêmicos do
projeto Acolhendo
Sorrisos Especiais nas
dependências da FO/
UFPel. Pelotas, 2019.
Fonte: Acervo do
projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 702
Atendimento hospitalar sob anestesia geral
Em 2010, a Odontologia de clínica geral para pessoas com deficiência iniciou o
acesso sistematizado ao Centro Cirúrgico do Hospital Escola da UFPel (HE-UFPel).
Neste cenário, são acolhidos pacientes cujo contexto comportamental não permi-
te abordagem ambulatorial, bem como pacientes com comorbidades sistêmicas
com risco de morte. Anteriormente, o atendimento hospitalar do paciente com
deficiência era realizado de forma eventual e os procedimentos eram predomi-
nantemente cirúrgicos e invasivos.
Em 2011, por meio da criação dos Programas de Residência Multiprofissional
em Saúde do Hospital Escola - HE/UFPel, os atendimentos odontológicos sob
anestesia geral (AG) tornaram-se prática semanal e curricular para os residentes
vinculados a estes programas, em es-
pecial, aos da área de Atenção à Saúde
da Criança, prática que se mantém até
os dias de hoje (Fig. 6).
Atualmente, são realizados procedi-
mentos odontológicos sob AG nas áre-
as de dentística, endodontia, implanto-
dontia, periodontia e cirurgia. O acesso
a uma odontologia conservadora nas
suas ações tem propiciado amplia-
ção dos cuidados bucais, minimizando
agravos como dor, perda dentária e
consequente sofrimento; desta forma,
refletindo em benefícios não só ao pa-
ciente como também ao seu núcleo fa-
miliar (ARDUIM, 2018). A conservação
Figura 6 – estética e funcional dos elementos dentários resulta beneficamente na manuten-
Atendimento ção e/ou recondução do núcleo familiar ao convívio social, isto é, contribui para
odontológico de
que o paciente sinta bem estar, melhorando autoestima e proporcionando melhor
paciente com
deficiência realizado qualidade de vida.
por residente
do Programa
de Residência
Desafios de um projeto de extensão como CEO
Multiprofissional em Em 2012, o projeto passou a hospedar o Centro de Especialidades Odontológi-
Atenção à Saúde da
cas (CEO) Jequitibá, quegarante aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) do
Criança (HE/UFPel) e
docente do projeto município de Pelotas/RS assistência odontológica de média complexidade, enca-
Acolhendo Sorrisos minhados das Unidades Básicas de Saúde.
Especiais, sob AG, em Os CEOs foram criados com o propósito de ampliar e qualificar a oferta de ser-
bloco cirúrgico no viços odontológicos especializados, já que a assistência odontológica pública bra-
HE/UFPel. Pelotas,
sileira estava restrita quase que completamente aos serviços básicos — o que com-
2011.
prometia a oferta de uma maior diversidade de procedimentos e tratamentos de
Fonte: Acervo do maior complexidade, como também o estabelecimento de um adequado sistema
projeto.
de referência e contrarreferência (BRASIL, 2017).
Sabe-se que o CEO deve receber pacientes advindos dos encaminhamentos dos
profissionais da atenção básica, os quais devem ser responsáveis pelo acolhimento
e primeiro atendimento do paciente. Assim, no CEO deve ser realizada a continui-
dade ao atendimento inicial, quando este não é mais possível de ser executado nas
Unidades Básicas (BRASIL, 2017). É importante destacar que o CEO recebe recur-
sos financeiros provenientes do Ministério da Saúde e, também, uma contribuição

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 703
adicional do Estado e do município. No entanto, este repasse de verba está atrela-
do a uma produção mínima mensal de procedimentos (BRASIL, 2017).
O CEO Jequitibá é um CEO tipo I (BRASIL, 2017), para tanto, a previsão de pro-
cedimentos para pacientes com deficiência é de 80 procedimentos básicos/mês
que incluem restaurações, exodontias, raspagens, alisamento e polimento, apli-
cações de flúor ecariostático, selantes, entre outros. Além disso, para o cumpri-
mento da produção mensal, 50% dos procedimentos devem ser de restaurações
em dentes decíduos ou permanentes. No primeiro semestre letivo do ano de 2019,
foram realizados diversos procedimentos curativos e preventivos, 149 atendimen-
tos agendados e 10 atendimentos de urgência (Fig. 7).

Figura 7 –
Procedimentos
odontológicos
realizados pelos
acadêmicos
extensionistas no
projeto Acolhendo
Sorrisos Especiais no
semestre letivo 2019-
1. Pelotas, 2019.
Fonte: Acervo do
projeto.

Percebe-se que o projeto de extensão Acolhendo Sorrisos Especiais atua contri-


buindo com a implementação de uma política pública prestando serviço à comu-
nidade, porém, o fato deste CEO ocorrer em ambiente universitário e atrelado a
uma extensão universitária interpõe alguns desafios.
Primeiramente é importante destacar que os projetos de extensão dependem
da atuação de acadêmicos voluntários. O interesse e adesão ao projeto variam
a cada semestre letivo, dificultando a organização da demanda de pacientes e o
cumprimento das metas estabelecidas. Além disso, por ser voluntário, qualquer
outra atividade de graduação curricular que possa ocorrer no período é colocada
como prioridade, ficando o projeto em segundo plano, apesar de sua importância
para a comunidade e para a própria Faculdade de Odontologia que recebe recur-
sos a partir das atividades executadas neste CEO. Outra questão a ser destacada
está relacionada ao calendário acadêmico ao qual o projeto encontra-se vinculado.
A produção referente à quantidade de procedimentos executadosdeve ser envia-
da mensalmente, porém, o projeto acaba sendo desenvolvido quase que em total
acordo com o calendário acadêmico vigente, pois durante o recesso e férias a maio-
ria dos alunos não está na cidade e é o período em que docentes e técnicos podem
gozar também de suas férias. Com isso, há consequente prejuízo na produção.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 704
Outro ponto relevante é que o projeto atende pacientes do município de Pe-
lotas/RS, advindos dos encaminhamentos dos dentistas da atenção básica, mas
também é um serviço de referência para a metade Sul do Estado. Assim, são aten-
didos pacientes de diversas localidades como Piratini, Rio Grande, Santa Vitória do
Palmar, Arroio Grande, Morro Redondo, Capão do Leão, entre outros municípios,
os quais não são contabilizados para o cumprimento das metas do CEO abrigado
no Projeto. Deste modo, quando uma pessoa com deficiência de outra localidade
busca atendimento no município de Pelotas, o único local de referência com aten-
dimento 100% através do Sistema Único de Saúde para estes usuários é o projeto
Acolhendo Sorrisos Especiais, porém, os procedimentos executados nestes pacien-
tes não são contabilizados para a produção do CEO Jequitibá.
Todos os pacientes encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) ou
que procuram o projeto por livre demanda são colocados em uma lista de espera.
Os pacientes dessa lista são triados pelos acadêmicos do projeto, a fim de agilizar
o atendimento e mantê-lo pelo menor tempo possível aguardando por assistên-
cia. Dessa forma, pacientes colaboradores são contrarreferenciados para as UBSs;
pacientes que necessitam atendimento de média complexidade ou com dificulda-
de no manejo do comportamento permanecem no projeto ou são encaminhados
para o outro CEO existente em Pelotas (CEO Sorrir – Prefeitura Municipal de Pelo-
tas) e, por fim, os pacientes que necessitam atendimento sob anestesia geral são
encaminhados para o HE–UFPel e atendidos por acadêmicos do projeto Acolhendo
Sorrisos Especiais e pelos residentes do programa de Residência Multiprofissional.
Com relação ao pacientes do município encaminhados ao CEO universitário,
de forma geral, são pacientes que não puderam ser atendidos nas Unidades Bási-
cas de Saúde, portanto, casos mais complexos, muitas vezes de difícil manejo. Os
acadêmicos do projeto devem ter a experiência no atendimento de casos de maior
complexidade, porém, não podem vivenciar somente situações de difícil aborda-
gem, mesmo porque a maioria dos pacientes com deficiência colaboracom o aten-
dimento e pode ser assistido no âmbito da atenção primária. Assim, também é
importante que os acadêmicos atendam pessoas com deficiência na situação mais
comum, para que tenham experiências positivas e sintam-se capacitados para o
atendimento a este público quando ingressarem no mercado de trabalho.
Sabe-se que a falta de capacitação, treinamento e experiência na graduação
é um dos fatores que impedem os dentistas de prestarem um adequado aten-
dimento ao paciente com deficiência. Um estudo de trabalho de conclusão de
curso realizado com dentistas da rede municipal de saúde de Pelotas mostrou
que uma das barreiras mais notadas pelos profissionais foi a pouca experiência
durante a graduação no atendimento destes pacientes (CASTANHEIRA; DA SIL-
VA, 2018).
Como os projetos de extensão têm caráter voluntário quanto à participação
dos graduandos, existe um projeto de reforma curricular para que a atenção às
pessoas com deficiência torne-se disciplina obrigatória no currículo da Faculdade
de Odontologia da UFPel. Enquanto esta mudança não ocorre, além do projeto
há também a oferta de uma disciplina optativa, assim os acadêmicos podem ter
não só formação com horas de extensão, a partir do projeto, como também de
ensino, com a disciplina. A partir de um estudo realizado no Brasil verificou-se
que somente 27,8% dos cursos de Odontologia oferecem disciplina contemplan-
do a atenção à pessoa com deficiência no currículo, e destas nem todas são de
caráter obrigatório (SPEZZIA; BERTOLINI, 2017).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 705
Impactos do projeto
Além da assistência à comunidade, é possível observar o alcance de suas ações
na formação acadêmica, no incentivo à pesquisa e produção científica e na capa-
citação e sensibilização de profissionais. Desta forma, a seguir, é possível melhor
vislumbrar a influência do projeto nos diferentes meios vigentes:

Formação acadêmica
Em acordo com as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira
(BRASIL, 2018), este projeto de extensão permite a formação cidadã dos estudan-
tes, colocando-os em contato com uma realidade presente no nosso contexto so-
cial, podendo ter a vivência de contribuir com a inserção social das pessoas com
deficiência e ainda contribuir com uma política pública de extrema importância
para a sociedade.
Osacadêmicos que participam desta extensão adquirem conhecimento e ex-
periência na atenção aos pacientes com deficiência, podendo ter uma vivência
interdisciplinar e serem futuros profissionais que se sintam aptos a prestar aten-
dimento a este público, assim contribuindo para uma melhoria no acolhimento a
estes usuários.
Em acordo com o artigo 17 das Diretrizes para a Extensão na Educação Superior
Brasileira (BRASIL, 2018), este projeto realiza, desde 2018, mobilidade dos estu-
dantes do curso de Odontologia Universidade Católica de Pelotas para atuação no
projeto Acolhendo Sorrisos Especiais, contribuindo para ampliação da formação de
futuros profissionais sensibilizados com o acolhimento aos pacientes com defici-
ência e que poderão atender esta demanda da sociedade futuramente. No último
ingresso de acadêmicos voluntários (2019-2), mais de 20% dos acadêmicos ingres-
santes foram da Universidade parceira.
Também é importante destacar que este projeto, assim como previsto no artigo
18 das Diretrizes (BRASIL, 2018), valoriza o corpo técnico-administrativo em suas
ações, tendo a participação de seis profissionais do corpo técnico, atuando direta
e indiretamente para que as atividades se cumpram de forma plena, resolutiva e
integrada. A depender de sua função, esses profissionais podem atuar tanto no
auxílio direto na assistência odontológica como na secretaria, gestão e assistência
social.
Dessa forma, verifica-se que este projeto de extensão viabiliza formação ao es-
tudante intrinsecamente envolvida e comprometida com a realidade da nossa so-
ciedade, a qual só é possível com a participação integrada de toda a comunidade
acadêmica: discentes, técnico-administrativos e docentes.

Incentivo à pesquisa e produção científica


Além disso, este projeto está articulado permanentemente à pesquisa. Muitos
trabalhos de conclusão de curso, resumos em congressos e artigos científicos são
produzidos a partir dos dados coletados nesta extensão, bem como da vivência
dos acadêmicos participantes e outros projetos vinculados. Um exemplo disso foi
o trabalho desenvolvido por acadêmicos da pós-graduação egraduação em uma
Escola de Educação Especial (CERENEPE), cujo objetivo foi verificar a efetividade
de uma intervenção educativa na melhoria da saúde bucal dos alunos com defici-
ência, deste centro. Este trabalho, além de permitir uma vivência única aos aca-
dêmicos, também promoveu integração entre universidade e sociedade, melhoria

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 706
na saúde bucal da população assistida e ainda gerou apresentações em congres-
sos e duas publicações em periódicos (HARTWIG et al., 2017, SILVA-JÚNIOR et al.,
2018).
Nos últimos 3 anos, foram mais de 20 trabalhos apresentados e publicados em
anais de congressos e semanas acadêmicas, 6 trabalhos de conclusão de curso/
monografias defendidos.

Capacitação e sensibilização de profissionais


O Projeto amplia sua inserção e responsabilidades sociais ao desenvolver a
multiplicação dos saberes através da participação e realização de cursos associa-
dos à área de pacientes com deficiência. Seus atores (docentes, técnicos e acadê-
micos) participam proativamente como ministrantes e espectadores de cursos em
semanas acadêmicas universitárias, simpósios e na capacitação de profissionais
da odontologia da rede de Atenção Primária de municípios do Estado do Rio Gran-
de do Sul (RS) (Fig. 8 e 9).

Figura 8 –
Capacitação teórica
para o atendimento
odontológico
de pessoas com
deficiência realizada
para dentistas da
rede municipal de
saúde de Bento
Gonçalves/RS, 2019.
Fonte: Acervo do
projeto.

Figura 9 –
Capacitação teórica
para o atendimento
odontológico
de pessoas com
deficiência realizada
para dentistas da
rede municipal de
saúde de Pelotas/RS,
2019.
Fonte: Acervo do
projeto.

Além disso, seus membros têm atuado como colaboradores na Comissão de


Pacientes Especiais do Conselho Regional de Odontologia (CRO-RS) na busca por
uma odontologia inclusiva, humanizada e resolutiva para este seleto grupo de pa-
cientes. Desempenha papel importante e relevante na discussão das temáticas e
estabelecimento de propostas e metas para a construção de um futuro melhor
(Fig. 10).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 707
Figura 10 –
Participação do
Projeto Acolhendo
Sorrisos Especiais
no Simpósio do
Conselho Regional de
Odontologia do RS
sobre Acessibilidade
da pessoa com
deficiência ao
atendimento
odontológico. Porto
Alegre/RS, 2019.
Fonte: Acervo do
projeto.

Perspectivas futuras
As metas futuras do projeto incluem a ampliação das ações relativas a atendi-
mentos aos cuidadores (Ação: Cuidando de quem cuida), realização de atividades
educativas e preventivas itinerantes em escolas de educação especial, com ênfase
em crianças menores de 02 anos de idade, visando a prevenção e a promoção à
saúde, além da capacitação de profissionais da rede municipal de saúde para o
atendimento domiciliar.

Considerações finais
O projeto Acolhendo Sorrisos Especiais,ao longo dos seus 19 anos de atuação,
não só oferece atenção odontológica às pessoas com deficiência como contribui
de forma prática para a formação integral do acadêmico de Odontologia, possi-
bilitando meios para multiplicar suas vivências e experiências com outros profis-
sionais atuantes no sistema único de saúde através de ações de capacitação. O
acadêmico pode viver na prática diversas situações em casos muito particulares
de atendimento, mas, além disso, ele também aprimora sua capacidade de con-
tato com o paciente, compreendendo suas particularidades e necessidades, o que
permitirá ao futuro profissional ter confiança e experiência em atuar em atendi-
mentos com pessoas com deficiências e, consequentemente, maior habilidade e
sensibilidade em contornar situações em que o paciente se sente desconfortável
com o ambiente do consultório odontológico. Desta forma, o graduando é pre-
parado para inserir-se no mercado de trabalho e atender a esta demanda ainda
negligenciada pelos serviços de saúde.

Referências
ARDUIM, A. S. O procedimento odontológico sob anestesia geral como solu-
ção de problemas para os pacientes com deficiências e suas famílias: estudo
qualitativo. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Residência
Multiprofissional em Área da Saúde) – Hospital Escola, Universidade Federal de
Pelotas, Pelotas, 2018.

BRASIL. Ministério da Educação. Conselho nacional de educação. Câmara de


educação superior. RESOLUÇÃO Nº 7, de 18 de dezembro de 2018.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 708
BRASIL. Ministério da Saúde. Centro de Especialidades Odontológicas. 2017.
Disponível em: [Link]
-de-saude-bucal/atencao-especializada/centro-de-especialidades-odontologicas.
Acesso em: 17 out. 2019.

CASTANHEIRA, V. S.; DA SILVA, L. F. Percepção e atitudes dos dentistas vincu-


lados à Secretaria de Saúde de Pelotas sobre o atendimento a pacientes com
necessidades especiais. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em
Odontologia) – Faculdade de Odontologia, Universidade Federal de Pelotas, Pe-
lotas, 2018.

CAMPOS, C.; FRAZÃO, B.; SADDI, G.; MORAIS, L.; FERREIRA, M.; SETÚBAL,
P.C.; ALCANTARA, R. Manual prático para o atendimento odontológico de pa-
cientes com necessidades especiais. Goiânia: Universidade Federal de Goiânia,
2009.

HARTWIG, A. D.; STÜERMER, V.M.; SILVA-JÚNIOR, I. F.; SCHARDOSIM, L. R.;


AZEVEDO, M. S. Effectivenessof an oral health educational intervention forindi-
viduals with special health care needs from asouthern Brazilian city. Special Care
in Dentistry, v.37, n.5, p.246-252, Sep. 2017.

SILVA JUNIOR, I.F.; STÜERMER, V.M.; HARTWIG, A.D.; AZEVEDO, M.S. Use of
dental care services and related factors in students with special health care needs
in a rehabilitation and education center. Revista Sul-Brasileira de Odontologia,
v.15, n.1, p.5-11, Jan./Jun. 2018.

SPEZZIA, S; BERTOLINI, S. Ensino odontológico para pacientes especiais e ges-


tão em saúde. Journal of Oral Investigation, v.6, n.1, p.1-8, 2017.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 709
SOBRE OS AUTORES
Lisandrea Rocha Schardosim, gra- 2010 com pessoas com deficiência atra-
duada em Odontologia pela UFPel. vés da preceptoria na Residência Mul-
Doutora em Estomatologia Clínica pela tiprofissional em Saúde Oncológica e
PUCRS. Professora associada do De- da Saúde da Criança do HE-UFPel, bem
partamento de Odontologia Social e como, a partir de 2013, diretamente no
Preventiva da Faculdade de Odontolo- Projeto Acolhendo Sorrisos Especiais da
gia / UFPel. Coordenadora da Odonto- FO-UFPel. E-mail: costajrs@hotmail.
logia no Programa de Residência Mul- com
tiprofissional em Atenção à Saúde da
Criança – HE/UFPel e Coordenadora Natália Marcumini Pola, gradu-
do Colegiado do Curso de Graduação ada em Odontologia pela Faculdade
em Odontologia/UFPel. Coordenadora de Odontologia de Araçatuba – FOA/
adjunta do projeto de extensão Aco- Unesp. Doutora em Odontologia, Área
lhendo Sorrisos Especiais – atendimento de concentração em Periodontia, pelo
odontológico ambulatorial e hospitalar Programa de Pós Graduação da FOA/
de pacientes com deficiência. E-mail: UNESP. Professora adjunto do Depar-
lisandrears@[Link] tamento de Semiologia e Clínica da
Faculdade de Odontologia de Pelotas
Marina Sousa Azevedo, graduada – UFPel. Professora colaboradora no
em Odontologia pela UFPel. Doutora projeto de extensão Acolhendo sorrisos
em Clínica Odontológica- Odontope- especiais desenvolvido na FO/Ufpel.
diatria, Programa de Pós-Graduação E-mail: nataliampola@[Link]
em Odontologia pela UFPel. Professora
Adjunta do Departamento de Odonto- Gabriela Ibing Sberse, graduanda
logia Social e Preventiva da Faculdade em Odontologia pela UFPel. Atualmen-
de Odontologia – UFPel. Coordenadora te é bolsista de extensão do Projeto
da área de Clínica Odontológica do Pro- Acolhendo Sorrisos Especiais, participa
grama de Pós-graduação em Odonto- do projeto como voluntária desde 2016.
logia – UFPel. Professora do Núcleo de E-mail: gabrielasberse@[Link]
Pacientes com Deficiência desde sua
contratação em 2013, anteriormente Andreia Drawanz Hartwig, gradu-
atuava na atenção às pessoas com de- ada em Odontologia pela UFPel. Dou-
ficiência quando exercia cargo de pre- toranda em Clínica Odontológica, ên-
ceptoria da área de Odontologia, na Re- fase em Odontopediatria – Programa
sidência Multiprofissional em Saúde da de Pós-Graduação em Odontologia
Criança junto Hospital Escola – UFPel. –UFPel. Atuou no Projeto como volun-
Participação no Projeto de Extensão tária durante a graduação e mestrado,
Acolhendo Sorrisos Especiais desde 2013 durante o Doutorado passou a orientar
como colaboradora ou coordenadora. junto aos docentes e possui diversos
E-mail: marinasazevedo@[Link] trabalhos em colaboração com a equipe
do Projeto com a temática relacionada
José Ricardo Sousa Costa, graduado aos pacientes com deficiência. E-mail:
em Odontologia pela UFPel. Doutor em andreiahartwig@[Link]
Odontologia – ULBRA/RS; Atua desde

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº10 710
PROJETO DE EXTENSÃO ENDO Z DA
FACULDADE DE ODONTOLOGIA DA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS
Ezilmara Leonor Rolim de Sousa
Jeniffer Lambrecht
Larissa Moreira Pinto
Luiz Antônio Soares Falson

Apresentação
Atuando de modo a suprir a demanda de Endodontia da comunidade de Pe-
lotas-RS e região, foi criado, no ano de 2014, o Projeto de Extensão Endo Z, cujo
nome é uma homenagem à broca chamada “Endo Z”, a qual é utilizada para a
realização de um desgaste compensatório na estrutura dental durante a abertu-
ra coronária, uma das etapas essenciais do tratamento endodôntico. O projeto
acontece na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas sob a
coordenação da professora doutora Ezilmara Leonor Rolim de Sousa. Este projeto
visa ao atendimento a pacientes de baixa renda com necessidade de tratamento
endodôntico e de cirurgia parendodôntica acolhidos pelo serviço de triagem da
FO-UFPEL, bem como a capacitação, o treinamento, o aperfeiçoamento e a atua-
lização de profissionais e discentes da área de Odontologia.

Introdução
A Odontologia é a área da saúde que estuda e trata o sistema estomatognático
que compreende: face, pescoço, cavidade bucal, abrangendo ossos, musculatura
mastigatória, articulações, dentes e tecidos. Trata-se de uma área complexa com
inúmeras especialidades que busca a manutenção da saúde bucal dos indivíduos
(FREITAS et al., 2015). Uma das especialidades mais desafiadoras para os profis-
sionais é a Endodontia, sendo uma peça decisiva para a preservação do elemen-
to dental. A Endodontia, classificada como serviço de média complexidade em
Odontologia, segundo Leonardo e Leal (2005), é a ciência que envolve a etiologia,
a prevenção, o diagnóstico e o tratamento de pulpopatias e periapicopatias englo-
bando, inclusive, suas repercussões sistêmicas. O tratamento endodôntico, pro-
SAÚDE Nº11

priamente dito, tem como objetivo prevenir ou tratar as patologias que atingem o
complexo pulpar (TSESIS et al., 2013). Assim sendo, o intuito de conservar os ele-
mentos dentais da boca está relacionado tanto pela parte dos profissionais como

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 711


pelos próprios pacientes, pois sua perda não gera somente problemas funcionais,
mas, também, possíveis transtornos psicológicos. Outrossim, quando o elemento
dental já se apresenta com comprometimento das estruturas pulpares e periapi-
cais unido a destruição coronária, a Endodontia se fundamenta nesse contexto,
tanto como tratamento endodôntico, ou mesmo como uma cirurgia parendodôn-
tica, associados ao restabelecimento coronário e à colocação em função mastiga-
tória do elemento dental (RAUBER; MÓRA, 2018).
Em virtude de grande demanda de tratamentos endodônticos dos pacientes
acolhidos pelo serviço de triagem da FO-UFPEL, foi criado, no ano de 2014, o Pro-
jeto de Extensão Endo Z visando ao atendimento a pacientes de baixa renda resi-
dentes de Pelotas e região que necessitem de tratamento endodôntico ou de ci-
rurgia parendodôntica. Assim, o objetivo deste capítulo é dissertar sobre a impor-
tância do projeto de extensão Endo Z para a comunidade assistida e sua relevância
no aprendizado dos extensionistas na Faculdade de Odontologia da Universidade
Federal de Pelotas.

Metodologia
O projeto funciona durante o período letivo, a partir da segunda semana de aula
do semestre até a semana que antecede os exames finais. Os atendimentos clínicos
aos pacientes ocorrem semanalmente nas quartas-feiras à noite das dezoito horas
e trinta minutos (18h30m) até às vinte e duas horas e trinta minutos (22h30m) na
Clínica Oeste, no primeiro andar do prédio da Faculdade de Odontologia na cidade
de Pelotas-RS, com atuação de acadêmicos e de cirurgiões-dentistas, sob a super-
visão de docentes especialistas em Endodontia e de profissionais preceptores. O
projeto possui um prontuário próprio com Termo de Consentimento Livre e Escla-
recido que é assinado pelo paciente antes do início do tratamento e por meio dele
obtém-se informações que são relevantes para o atendimento clínico, bem como
para o banco de dados. Outrossim, o projeto prioriza o acompanhamento (tam-
bém chamado de proservação) dos tratamentos realizados pelos discentes, pois o
sucesso de uma endodontia depende de inúmeros fatores que são determinados
após certo período de avaliação dos tratamentos finalizados.
Por conta do grande número de etapas pré-definidas e que devem ser seguidas
para o sucesso do tratamento endodôntico, a curva de aprendizado dos acadêmi-
cos torna-se mais demorada ao comparar essa área com outras da grade curricular
do curso de Odontologia (DE DEUS et al., 2017). Ademais, nos atendimentos volta-
dos à Endodontia não são levadas em conta apenas as características do operador
para definir o resultado do tratamento, apesar de boa habilidade manual, sensibi-
lidade tátil e delicadeza, ainda existe um desafio biológico a ser vencido (LEONAR-
DO; LEAL, 2005). O projeto é composto por estudantes do curso de Odontologia
da UFPel entre o sexto (6°) e o décimo (10º) semestre da graduação, por alunos
do mestrado em Endodontia e por duas professoras doutoras em Endodontia. O
Endo Z fornece atendimento gratuito e de qualidade a pacientes da comunidade
de baixa renda, ademais, complementa o ensino, a extensão e a pesquisa do Curso
de Odontologia da FO-UFPEL oferecendo, também, a capacitação clínica em En-
dodontia aos discentes e profissionais da Odontologia.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 712
Resultados e discussões
A saúde bucal, implícita na saúde integral, também está relacionada às condi-
ções socioeconômicas e culturais da população. Como observa Porto (2002), a saú-
de da boca está diretamente relacionada às condições de alimentação, moradia,
trabalho, renda, meio ambiente, transporte, lazer, liberdade, acesso a serviços de
saúde e informação. Nesse sentido, a luta pela saúde oral está, fundamentalmen-
te, ligada a luta pela melhoria dos determinantes sociais, políticos e econômicos.
Segundo De Quadros et al. (2005), o conhecimento da distribuição de doenças
dentro da sociedade constitui um complemento necessário para a compreensão
de fatores etiológicos, sintomatológicos, tratamentos e prognósticos. Partindo-se
do suposto de que as estatísticas de saúde devem compor um conjunto organiza-
do de dados provenientes dos registros civil, da produção de serviços, das bases de
dados de morbimortalidade, procura-se enfatizar a necessidade de coletar dados
sobre saúde e uso de serviços de saúde que só podem ser gerados por inquéritos
populacionais periódicos complementando, dessa forma, as deficiências das in-
formações para monitorar e avaliar as condições de saúde e o desempenho do
sistema de saúde brasileiro (VICAVA et al., 2002). Assim sendo, o determinante
populacional tem um importante papel no perfil da comunidade acolhida pela FO-
-UFPEL e, por consequência, pelo projeto Endo Z. Logo, a maior procura por aten-
dimento odontológico no projeto se dá pelo sexo feminino, tal constatação pode
ser justificada de acordo com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de
Domicílios) Contínua de 2018, sendo a população brasileira composta por 51,7%
de mulheres e 48,3% de homens (IBGE, 2018), em comparação ao encontrado nos
levantamentos do projeto de extensão Endo Z, nos quais se encontrou uma quan-
tidade de 145 mulheres (68%) e 68 homens (32%) entre 2014 e 2019.
De acordo com a Tabela 1, a maioria dos pacientes que receberam tratamento
no projeto Endo Z possuem idade superior a 51 anos, já a minoria possui menos de
20 anos de idade. Não foram realizados atendimentos odontopediátricos, pois a Fa-
culdade de Odontologia possui clínicas infantis que promovam esse atendimento.

Tabela 1 – Número e porcentagem de pacientes atendidos no Projeto de Extensão Endo Z, na


FO-UFPEL, segundo idade, 2014 a 2019.

Idade Quantidade %
0 a 10 0 0
11 a 20 22 10,3
21 a 30 44 20,6
31 a 40 49 23
41 a 50 43 20,1
Mais de 51 55 25,8
Total 213 100
Fonte: (LAMBRECHT, 2019).

Conforme a Tabela 2, no que tange à escolaridade dos pacientes atendidos no


projeto de extensão Endo Z, estatisticamente, a maioria (24,4%) dos pacientes
possui o ensino fundamental incompleto e a minoria (0,4%) são pós-graduados.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 713
Dessa forma, percebe-se que o nível de escolaridade dos pacientes atendidos é
inversamente proporcional a sua necessidade de tratamento endodôntico.

Tabela 2 – Número e porcentagem de pacientes atendidos no Projeto de Extensão Endo Z, na


FO-UFPEL, segundo escolaridade, 2014 a 2019.

Escolaridade Quantidade %
Fundamental Incompleto 52 24,4
Fundamental Completo 19 8,9
Médio Incompleto 12 5,6
Médio Completo 50 23,4
Superior Incompleto 20 9,3
Superior Completo 20 9,3
Pós-Graduado 1 0,4
Não Informado 39 18,3
Total 213 100
Fonte: (LAMBRECHT, 2019).

Os trabalhadores, em especial, têm dificuldades no acesso às unidades de saú-


de no horário comercial, conduzindo a um agravamento dos problemas existen-
tes, transformando-os em urgência e em motivo de falta ao trabalho (BRASIL,
2004). Além disso, de acordo com a Tabela 3, cerca de 8,5% dos pacientes atendi-
dos no projeto são oriundos de outras cidades, onde não há a disponibilidade de
tratamentos endodônticos via Sistema Único de Saúde (SUS). Em virtude disso, o
projeto oferece atendimento entre as dezoito horas e trinta minutos (18h30m) e as
vinte e duas horas e trinta minutos (22h30m), para um melhor e mais amplo aco-
lhimento dos pacientes que trabalham em horário comercial, tendo dessa forma
um alcance regional.

Tabela 3 – Número e porcentagem de pacientes atendidos no projeto de extensão Endo Z, na FO-


UFPEL, segundo cidade, 2014 a 2019.

Cidade Quantidade %
Pelotas 195 91,5
Rio Grande 6 2,8
Capão do Leão 6 2,8
Piratini 2 0,9
São Lourenço do Sul 1 0,4
Jaguarão 1 0,4
Canguçu 1 0,4
Santa Vitória do Palmar 1 0,4
Total 213 100
Fonte: (LAMBRECHT, 2019).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 714
Critérios para a determinação de sucesso ou
insucesso de um tratamento endodôntico
A Associação Americana de Endodontia (QUALITY ASSURANCE GUIDE-
LINES, 1987) definiu critérios para avaliação do sucesso dos tratamentos endo-
dônticos. Os critérios apontados (subjetivos e objetivos) são: mobilidade dentária,
dor à palpação, doença periodontal, fístula, sensibilidade à percussão, função do
dente, disseminação da infecção e aspectos subjetivos, tais como sintomatolo-
gia. Dessa forma, dentes que apresentam sintomatologia persistente, fístula re-
corrente ou edema, desconforto à palpação ou percussão, evidencia de uma fra-
tura irreparável, excessiva mobilidade ou perda periodontal progressiva e perda
da função são considerados fracassos endodônticos. Em avaliações radiográficas
caracteriza-se um insucesso quando há: um aumento da espessura do ligamento
periodontal; ausência do reparo ósseo no interior da lesão ou aumento do tama-
nho da rarefação; ausência da formação de uma nova lâmina dura; presença de ra-
refações ósseas em áreas onde previamente não existiam; espaços não obturados
visíveis no canal, apicalmente ou lateralmente e reabsorções ativas associadas a
outros sinais radiográficos de insucesso. Dessa forma, os resultados do trabalho
de conclusão de curso de Lambrecht (2019), cujos tratamentos endodônticos rea-
lizados por acadêmicos do projeto Endo Z tiveram um índice de sucesso de 77,7%,
foi encontrado 11,1% de insucesso e 11,1% de dentes em reparo. Pode-se dizer que
os extensionistas do projeto Endo Z estão realizando os procedimentos endodôn-
ticos de forma satisfatória.
Imura et al. (2007) avaliaram o resultado de tratamento endodôntico inicial e
retratamento não cirúrgico realizado por um especialista em Endodontia em seu
consultório particular. Um total de 2.000 dentes foram avaliados por exames clí-
nicos e radiográficos, posteriormente os resultados passaram por análises estatís-
ticas e análises multivariadas, a partir das quais obtiveram taxa geral de sucesso
endodôntico de 91,45%. De Quadros et al. (2005) avaliaram 579 dentes tratados
endodonticamente por alunos de graduação da FOP-UNICAMP, e descreveram
uma variação de 83% a 96% no índice de sucesso, dependendo da condição pul-
par, revelando 75,5% de taxa de sucesso. Travassos et al. (2005) estudaram 410
pacientes submetidos a tratamento endodôntico na disciplina de Endodontia em
um curso de pós-graduação e encontraram uma taxa de sucesso de 82,9% após 2
a 3 anos de proservação.
Seltzer et al. (1963), Bender et al. (1966), Selden et al. (1974), Swartz et al.
(1983), Smith et al. (1993) indicaram sucesso endodôntico quando o dente está
confortável, assintomático, sem fístula, sem evidências de destruição tecidual ou
com evidência de reparo total ou parcial da área de rarefação óssea na radiografia
de controle na consulta de retorno do paciente. Em 1994, a Sociedade Européia
de Endodontia (European Society of Endodontology) considerou como indicati-
vos de sucesso do tratamento endodôntico a ausência de dor, de tumefação, de
fístula, da perda de função e de outros sintomas associados à evidência de espaço
no ligamento periodontal. Por outro lado, o tratamento não é considerado sucesso
se a radiografia revelar que a lesão permanece a mesma ou somente diminuiu de
tamanho. Nestes casos, considera-se como estando a lesão em fase de reparação.
Estrela et al. (2014), em uma revisão de literatura, afirma que três aspectos estão
associados à análise do sucesso do tratamento endodôntico: clínico, radiográfi-
co e características microscópicas. Dois desses aspectos normalmente orientam

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 715
o planejamento do caso: história e interpretação de imagens. Os autores ainda
apresentam à característica de falha a alguns aspectos clínicos - presença de dor,
desconforto, dente com restauração provisória, presença de inchaço, abscesso
e, ainda, aspectos de imagem - presença de radiolucidez periapical. No que diz
respeito ao retratamento endodôntico convencional, o sucesso é de aproximada-
mente 2/3 dos casos (SJÖGREN, 1996). Por conseguinte, deve-se optar inicialmen-
te por retratar endodonticamente o dente que não obteve sucesso, mostrando
sinais de patologia após a terapia inicial (SIQUEIRA, 2001). Em um estudo de De
Quadros (2007) foram avaliados 579 dentes tratados endodonticamente por alu-
nos de graduação da FOP-UNICAMP e o índice de sucesso obtido foi de 75,5%.
O sucesso do tratamento endodôntico depende de inúmeros fatores, sendo de-
terminado após certo período de avaliação. A Sociedade Europeia de Endodontia
(EUROPEN SOCIETY OF ENDODONTOLOGY, 2006) recomendou que a radio-
grafia de controle fosse realizada pelo menos em até um ano após o término do
tratamento e subsequentemente, se necessária. O prognóstico foi considerado
favorável diante das seguintes características: ausência de dor, inchaço ou outros
sinais e sintomas; sem abscesso; sem perda da função; evidência radiográfica de
normalidade do espaço periodontal envolto à raiz. O único exame que retrata a re-
alidade histopatológica do verdadeiro reparo é a biópsia realizada durante a cirur-
gia perirradicular. Entretanto, a cirurgia é indicada somente quando o tratamento
ou retratamento é impossível de ser realizado (fraturas de instrumentos, materiais
obturadores impossíveis de remover, entre outros) e nos casos de fracasso do re-
tratamento ou quando o prognóstico do retratamento convencional é desfavorá-
vel (SIQUEIRA, 2001).

A Proservação Endodôntica e seus Desafios


A proservação clínica e radiográfica dos tratamentos realizados faz parte da
rotina endodôntica (BARBIERI; PEREIRA; TRAIANO, 2011). A proservação consis-
te em estágios de observações periódicas de um tratamento odontológico para o
acompanhamento da evolução de estados clínicos, radiográficos de saúde bucal e
de saúde geral do paciente. De acordo com Goes (1937), a proservação significa,
entre outros: observar; vigiar; estar atento. No Trabalho de Conclusão de Curso de
uma extensionista do projeto Endo Z, realizado em 2019 (LAMBRECHT, 2019), foi
possível observar, o quanto a proservação dos casos de endodontia foi reduzida
por falta de registros e dados pertinentes ao tratamento executado, principalmen-
te, a falta de radiografias, ou radiografias mal processadas, isso acarretou em que
de 179 prontuários avaliados pela extensionista apenas foram inseridos 22 para a
consulta de proservação. A partir dos casos proservados, obteve-se a frequência
de um total de 18 dentes de 22 com registro adequado, pois 4 pacientes não com-
pareceram a consulta de retorno agendada. Dessa forma, o índice de retorno dos
pacientes foi de 80% (Tabela 4). Acho que por depois da tabela.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 716
Tabela 4 – Número de dentes tratados, desistentes ou encaminhados, excluídos por falta de
registro, com registro adequado e proservados, segundo o ano.

Desistentes/ Falta de Registro


Ano Tratados Proservados
Encaminhados Registro Adequado
2014 36 12 32 4 3
2015 19 22 15 4 3
2016 15 18 12 3 2
2017 27 17 22 5 5
2018 9 4 3 6 5
Total 106 73 84 22 18
Fonte: (LAMBRECHT, 2019).

Somando-se a tanto, os principais desafios encontrados no estudo citado para


a proservação dos tratamentos endodônticos realizados no Projeto Endo Z, en-
tre o período de 2014 a agosto de 2018 (LAMBRECHT, 2019), foram elencados os
seguintes motivos: prontuários incompletos ou falhos, radiografias ausentes ou
em condições inadequadas, pacientes encaminhados para outra disciplina, per-
da de contato com os pacientes, desistências do tratamento e pacientes ausentes
na consulta de proservação. Em um total de 106 dentes concluiu-se o tratamento
endodôntico no projeto até o mês de agosto do ano 2018, porém foram excluídos
84 prontuários, por diversos motivos já citados. Destes excluídos, a falta de preen-
chimento dos dados por parte do aluno e radiografias ausentes ou em condições
inadequadas geraram a exclusão 70 prontuários. Mesmo estando presente a ra-
diografia final e de boa qualidade, não foi possível contatar 14 pacientes, ainda, 4
pacientes não compareceram a consulta de preservação agendada.
Quanto à falta de radiografias, há alguns fatores presentes que corroboram
para que isso aconteça, tal como a não realização adequada do processamento
do filme radiográfico pelo operador clínico, bem como o armazenamento inade-
quado, além de líquidos utilizados estarem sujos ou vencidos e, até mesmo, por
aparelhos de Raio X não estarem funcionando corretamente. Algumas radiogra-
fias encontravam-se coladas uma a outra, ou a película apresentava coloração to-
talmente amarelada ou enegrecida devido ao processamento inadequado. Em um
estudo na Faculdade NOVAFAPI, Lima et al. (2010), avaliaram a qualidade das ra-
diografias, onde de 37 películas analisadas, 26 foram consideradas insatisfatórias
(70%). Além disso, foram detectados 39 erros, sendo 10 desses erros de técnica
e 29 de processamento radiográfico. No mesmo estudo, 48,6% dos prontuários
apresentavam ausência de radiografia final. Assim, os autores salientam que o
descaso com os exames complementares significa que o cuidado com o paciente
está falho, podendo acarretar diversos problemas. Dentre esses, podem ser cita-
das a dificuldade de proservação de tratamentos executados, como fator encon-
trado similarmente no projeto Endo Z.
A perda de radiografias e a falta de informações a serem preenchidas nos
prontuários, também foram fatores agravantes observados durante o registro
dos dados da pesquisa. É considerável ressaltar, que as radiografias são os ins-
trumentos de prova mais importantes para a comprovação de tratamentos rea-
lizados (DITTERICH et al., 2008). Dessa maneira, é fundamental destacar que o

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 717
correto preenchimento e arquivamento da documentação nas instituições de en-
sino superior ajuda a conscientizar o graduando sobre a importância do prontuário
de saúde, como foi exposto por Costa et al. (2008) em um estudo que aponta que
a realização destes deveres influencia o acadêmico a tornar-se um profissional or-
ganizado e ciente de suas obrigações éticas e legais. Costa et al. (2009) realizaram
uma pesquisa com o objetivo de avaliar falhas no preenchimento das fichas clíni-
cas odontológicas dos prontuários de pacientes atendidos na Universidade Esta-
dual de Montes Claros, em 2005, sob os aspectos éticos e legais. Logo, foi observa-
do que grande quantidade de documentos estava preenchida de forma incorreta
pelos alunos, principalmente do 5º, 6º, e 7º semestres do curso. Analogamente,
os prontuários do projeto Endo Z foram preenchidos em grande parte por alunos
de tais períodos da graduação. Outro fator que interferiu nos resultados do estu-
do e que mostra a dificuldade de se realizar pesquisas com pacientes e estabele-
cer um índice de retorno é a falta de contato, seja por telefone, endereço entre
outros fatores. Isso foi constatado tanto no momento da conferência do registro
para obtenção do endereço e/ou número de telefone, como também quando ao
se tentar entrar em contato com o paciente e foi obtida a informação de que não
se relacionava à pessoa que havia recebido tratamento. Em relação ao retorno dos
pacientes, o principal motivo para ausência à consulta de proservação foi falta sem
justificativa do paciente, fato que foge ao controle do operador clínico. De acordo
com os resultados encontrados em um Trabalho de Conclusão de Curso, realizado
na FOP-UNICAMP, as principais causas da falta e/ou desistência do tratamento
odontológico são: esquecimento da consulta agendada, impossibilidade de faltar
ao trabalho e baixo poder econômico (HAITER; BULGARELI, 2014).
Na tabela 5, podemos notar que o maior índice de retorno foi dos 7 a 20 meses
e que apenas no período de 21 a 40 meses não foram realizadas exodontias dos
dentes tratados. Em um estudo de Pontes et al. (2013), foi relatada a ocorrência de
divergências quanto a melhor forma de se avaliar o sucesso endodôntico, sendo
que algumas academias utilizam critérios clínicos e radiográficos, enquanto ou-
tras, apenas radiográficos. No projeto Endo Z, os critérios utilizados são clínicos e
radiográficos.

Tabela 5 – Número e porcentagem da avaliação radiográfica da condição periapical dos


elementos dentais na proservação em meses. Pelotas.

Proservação Condições radiográficas N %


Região periapical normal 5 27,7
7 a 20 meses Região periapical menor 2 11,1
Sem radiografia / exodontia 1 5,56
Região periapical normal 6 33,3
21 a 40 meses Região periapical menor 0 0
Sem radiografia / exodontia 0 0
Região periapical normal 3 16,6
41 a 56 meses Região periapical menor 0 0
Sem radiografia / exodontia 1 5,56
Total 18 100
Fonte: (LAMBRECHT, 2019).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 718
De acordo com a Tabela 6, durante as consultas de proservação nenhum pacien-
te relatou sentir dor no dente que havia sido tratado endodonticamente no pro-
jeto. No entanto, foi possível notar a presença de gengivite em 6 dentes (33,3%)
e de periodontite em 5 dentes (27.8%), porém por não apresentarem dor, fístula,
edema, e possuírem radiografia periapical, restauração definitiva e função masti-
gatória normal, esses elementos foram caracterizados como sucesso (ESTRELA
et al., 2014). Ao exame clínico na consulta de proservação, foi possível observar
que 16 elementos dentários estavam todos restaurados e 2 elementos estavam
ausentes por exodontia (Tabela 6). Dos 18 elementos dentais avaliados, 9 destes
estavam com a mesma restauração realizada ao final de seu tratamento endodôn-
tico inicial. Todos os dentes que foram avaliados clinicamente na consulta de pro-
servação estavam com algum tipo de restauração. Dentes restaurados com resina
composta foram 13 (72,3%), 1 (5,56%) estava com Cimento de Ionômero de Vidro
e 2 (11,11%) eram coroas protéticas com pino. Todo dente que recebe tratamento
endodôntico deve ser restaurado com material definitivo, em um menor período,
para evitar fraturas, novas cáries, contaminação do sistema de canais radiculares
pela infiltração de saliva (GUIDE TO CLINICAL ENDODONTICS, 2004). Deve-se re-
alizar uma restauração para um bom vedamento que possa impossibilitar a pene-
tração de microrganismos via canal radicular. Segundo Almeida et al. (2011), são
questionáveis as funções de vedar cavidades e prevenir a recontaminação do ca-
nal radicular pós-tratamento endodôntico, embora exista uma grande variedade
de materiais provisórios ou definitivos. O estudo enfatiza, ainda, a necessidade
de que o dente tratado endodonticamente seja restaurado o mais rapidamente
possível, já que os materiais provisórios não impedem por período satisfatório a
infiltração microbiana coronária. No Projeto de Extensão Endo Z, é instituído aos
acadêmicos, como conduta de rotina, o uso de resina composta fotopolimerizável
e proteção das embocaduras do canal radicular.

Tabela 6 – Número e porcentagem da avaliação restauradora e das condições clínicas dos


elementos dentais encontrados no exame de proservação. Pelotas.

Dentes
Avaliação Restauradora N %
Restauração resina composta 13 72,3
Restauração com CIV 1 5,56
Pino 2 11,11
Condições Clínicas N %
Normal 13 72,2
Sensibilidade à percussão 3 16,7
Sensibilidade à palpação 0 0
Presença de fístula 0 0
Gengivite 6 33,3
Periodontite 5 27,8
Mobilidade 4 22,2
Dente confortável 16 88,9
Exodontia 2 11,11
Total 18 100
Fonte: (LAMBRECHT, 2019).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 719
Perfil endodôntico dos alunos do projeto de
extensão Endo Z
No projeto de extensão Endo Z, os acadêmicos iniciam seus atendimentos em
tratamentos de dentes anteriores de modo a adquirir prática ao decorrer de sua
trajetória acadêmica. Em um estudo transversal realizado por Falson et. al. (2018)
com 18 operadores clínicos do projeto, foram coletados dados acerca do tema:
perfil endodôntico dos alunos do projeto de extensão Endo Z. Foram incluídas as
respostas de todos os alunos operadores que estavam cursando entre o 6º e o 10º
semestre do curso de Odontologia. O questionário proposto foi de múltipla esco-
lha, sendo anexados espaços para observações, caso o aluno julgasse necessário.
As perguntas foram feitas sobre o conhecimento dos alunos na área de Endodon-
tia, suas vivências em relação à especialidade dentro do Projeto e como esses alu-
nos avaliavam suas experiências e aprendizado. Após a análise dos dados coleta-
dos nos questionários, obteve-se o perfil do aluno participante do Endo Z como
sendo de: sexo feminino em sua maior parte (61,1%), idade entre 20 e 25 anos
(77,8%) e cursando o 7º semestre da graduação (33,3%). Com relação a avaliação
da experiência no projeto, todos (100%) afirmaram que conseguiram aperfeiço-
ar de forma positiva a técnica endodôntica e a qualidade final de seus tratamen-
tos. Mais da metade (55,5%) avaliou seu aproveitamento no projeto como “Muito
Bom”, enquanto uma menor parte (27,7%) avaliou como “Bom” e (16,6%) como
“Razoável”. Os dentes mais tratados pelos alunos do projeto foram os molares, so-
mando 55.6%. Também se observaram incisivos e caninos, sendo 16,6% e pré-mo-
lares como 16,6%. Contudo, 11,1% dos alunos nunca finalizaram um tratamento.
Na escolha da técnica utilizada para os tratamentos, todos (100%) utilizam a téc-
nica de Oregon Modificada por Berbert (LEONARDO; LEAL, 2005) para o preparo
do canal e 55,5% escolheram a técnica de condensação lateral para a condensação
do cone durante a obturação. Ainda, para instrumentação do canal, os dados nos
mostram que 55,6% dos alunos utilizaram apenas a técnica de instrumentação
manual, 5,5% utilizaram somente a técnica automatizada e, por fim, 38,9% uti-
lizaram ambas as técnicas. O tempo gasto pelos alunos durante o tratamento foi
separado pela quantidade de raízes dos dentes, para os multirradiculares, 11,1%
afirmaram que levam em torno de 3 horas para finalizar a terapia endodôntica, en-
quanto 83,3% relatam a necessidade de mais de 3 horas para os mesmos procedi-
mentos, além disso, apenas 5,6% nunca exerceram tal tratamento. Já para dentes
unirradiculares 27,7% realizam em apenas 2 horas, 27,7% em 3 horas e cerca de
44,4% demoram mais de 3 horas para a finalização do tratamento. “Varia bastan-
te, depende se é manual ou automatizado”, relatou um dos extensionistas. Ques-
tionou-se o conhecimento dos participantes sobre tratamentos em sessão única
e foi unanime o conhecimento dessa técnica. “Muitas Dificuldades” (5,6%), “Às
Vezes” (94,4%) e “Nunca”, deve-se enfatizar que nessa questão criou-se uma aba
destinada a observações por parte dos alunos para que expusessem suas maiores
dificuldades. Dois alunos relataram que a principal dificuldade ocorre no momen-
to da técnica radiográfica, vale ressaltar que de acordo com um dos acadêmicos
“embora na graduação tivesse mais problemas, o projeto ajuda bastante a suprir
essas dúvidas”. Encontraram-se ainda relatos em que a abertura coronária e as
angulações de alguns canais causavam frustração nos alunos. Portanto, entende-
-se que as dificuldades estão ligadas à habilidade manual e à compreensão dos
procedimentos de maneira individual para cada operador. Por meio do estudo de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 720
Falson et. al. (2018), foi possível traçar o perfil do extensionista do Endo Z, tanto
no que tange a informações básicas, quanto ao conhecimento adquirido sobre a
Endodontia. Obteve-se um feedback por parte dos alunos, possibilitando então
avaliar quais aspectos deveriam ser melhorados, em relação ao ensino dentro do
Projeto e até mesmo para o enriquecimento da Faculdade de Odontologia como
um todo. Nesse sentido, a percepção dos estudantes de graduação em relação a
seu aprendizado é considerada um importante componente no monitoramento
da qualidade dos programas acadêmicos (SEIJO, 2010). Portanto, o projeto Endo
Z tem como um de seus objetivos a capacitação de acadêmicos para a realização
dos procedimentos endodônticos, tornando viável a ampliação de sua experiência
pré-clínica e clínica dentro da área de atuação dos seus orientadores. Na Facul-
dade de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas são disponibilizadas no
currículo apenas três disciplinas que ofertam conteúdo teórico-prático para essa
especialidade onde, em uma delas, os procedimentos são realizados na pré-clínica
em modelos de dentes artificiais em resina ou em dentes humanos emprestados
do Banco de Dentes da FO-UFPEL. Ainda assim, as outras disciplinas oportuni-
zam o atendimento a pacientes em clínicas integradas, ou seja, com mais de uma
especialidade como foco, por esse motivo, o aprendizado na área endodôntica,
muitas vezes torna-se prejudicado. Portanto, as universidades como eixo central
na formação de profissionais, têm a responsabilidade de executar e promover a
realização de levantamentos epidemiológicos que possam subsidiar políticas ca-
pazes de reverter à condição de saúde da população em geral (BRASIL, 2001), de
forma a melhorar a qualidade e as condições de ensino nas academias brasileiras.

Considerações finais
Portanto, frente ao exposto neste capítulo, pode-se concluir que o projeto de ex-
tensão Endo Z tem grande importância para a comunidade atendida na Faculdade
de Odontologia da Universidade Federal de Pelotas devido à grande demanda da
população acolhida que necessita de tratamentos endodônticos. Assim sendo, o
projeto se mostra de grande relevância, visto que vem ajudando a solucionar a ca-
rência de tratamentos endodônticos de pacientes oriundos de diversas partes da
região sul, dando um apoio à comunidade de baixa renda e evitando que infecções
endodônticas evoluam para casos mais graves, como a perda do elemento dental
por falta de tratamento, ou até mesmo que prejudique sistemicamente a saúde
do paciente. Tendo em vista o exposto, para inferir que o projeto está cumprindo
corretamente com seus objetivos, a alta taxa de sucesso dos procedimentos reali-
zados é um parâmetro muito importante nesse quesito. Ademais, foi possível ob-
servar o quanto o acompanhamento dos tratamentos endodônticos realizados no
projeto de extensão Endo Z foi prejudicado, por falta de registros e informações
pertinentes ao tratamento executado. Desse modo, se faz extremamente neces-
sário otimizar tanto a anotação das informações quanto o correto processamento
e arquivamento dos filmes radiográficos e a atualização do contato telefônico do
paciente na rotina clínica odontológica. É evidente a importância de se proser-
var os tratamentos endodônticos, pois se obtém informações sobre o resultado
e possível identificação de necessidade de retratamento nos casos de insucesso,
bem como mostra pedagogicamente os benefícios e as falhas no uso dos pron-
tuários e outros dados necessários, inclusive para comprovação de legalidade e
ética na profissão da Odontologia. No âmbito educacional, o projeto de extensão
Endo Z, possibilita, tanto para acadêmicos, como para profissionais, treinamento

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 721
e aprendizado, por meio do enfrentamento de uma grande diversidade de casos,
quanto pela orientação de professores com formação altamente qualificada. Fren-
te a esses estudos, a coordenadoria do projeto de extensão Endo Z tomou todas
as providências necessárias para que fossem corrigidas as falhas de prontuários
perdidos e radiografias inadequadas, visando obter uma maior taxa de sucesso
nesse quesito.

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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 724
SOBRE OS AUTORES
Ezilmara Leonor Rolim de Sousa, Larissa Moreira Pinto graduan-
graduada em Odontologia pela UNI- da em Odontologia na Faculdade de
MAR. Doutora em Endodontia pela Fa- Odontologia da UFPel. Extensionista
culdade de Odontologia de Piracicaba - do Projeto de Extensão Endo Z. E-mail:
UNICAMP. Professora Associada de En- larimoreirapinto@[Link]
dodontia no Departamento de Semio-
logia Clínica do Curso de Odontologia Luiz Antônio Soares Falson, gradu-
da Faculdade de Odontologia da UFPel. ando em Odontologia na Faculdade de
Coordenadora do Projeto de Extensão Odontologia da UFPel. Extensionista
Endo Z. E-mail: ezilrolim@[Link] do Projeto de Extensão Endo Z. E-mail:
luizfalson@[Link]
Jeniffer Lambrecht, graduada em
Odontologia pela UFPel. Cirurgiã-den-
tista do Projeto de Extensão Endo
Z. E-mail: [Link]@
[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº11 725
PROMOÇÃO DE SAÚDE NA INFÂNCIA
COMO META ORIENTADORA
DOS PROJETOS DE EXTENSÃO
DESENVOLVIDOS NA ÁREA DE
ORTODONTIA NA UFPEL
DE 2015 ATÉ 2018

Douver Michelon
Catiara Terra da Costa
Marcos Antônio Pacce
Vanessa Polina Pereira da Costa

Apresentação
O presente ensaio apresenta uma reflexão a respeito do impacto decorrente
das flutuações no aporte de recursos voltados à implementação de políticas pú-
blicas de financiamento em extensão universitária no Brasil, através do relato de
experiências nas atividades realizadas no programa intitulado “Crescendo com
um Sorriso - Núcleo de Atenção às Disfunções Orofaciais na Criança”, o qual foi
estruturado pelos docentes da área de Ortodontia na UFPel. O programa referido
foi contemplado, em 2015 e 2016, com financiamento no Edital PROExt do Minis-
tério da Educação e Cultura, e teve como metas principais a promoção de saúde e
o incentivo a práticas de hábitos saudáveis voltados ao público infantil, integrando
atividades preventivas e assistências em nível ambulatorial. O desenvolvimento
do programa proporcionou o acúmulo de experiências positivas, bem como im-
portantes transformações nas práticas em Extensão na unidade, no período com-
preendido entre 2015 e 2018. A realização de adaptações restritivas ao projeto ori-
ginal, além de alterações durante a sua execução, ainda que indesejáveis, torna-
ram-se necessárias devido às turbulências políticas e econômicas que assolaram o
país durante os últimos quatro anos. Tais necessidades se deveram especialmente
ao carreamento anacrônico de verbas e a severos contingenciamentos orçamen-
tários promulgados pelo governo federal no período referido.
SAÚDE Nº12

Até o ano de 2014, as edições de projetos de Extensão, executadas nos anos


que antecederam o estabelecimento do programa ao qual esse trabalho faz re-
ferência, mantinham atividades majoritariamente voltadas ao atendimento

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 726


ambulatorial de crianças frequentadoras dos serviços da Clínica Infantil da Facul-
dade de Odontologia. No entanto, nesse ano, o grupo de docentes da área de
Ortodontia, motivados pela percepção da necessidade de atualizar e ampliar suas
metas executivas em Extensão, buscou trabalhar na construção de novas ideias e
projetos, mais abrangentes e mais alinhados como os termos da Política Nacional
de Extensão, com esforços voltados para a promoção de saúde na infância como
meta orientadora e unificadora.
A execução do programa possibilitou a conquista de grande parte dos objetivos
propostos inicialmente, ainda que, por ocasião da exacerbação de intensas crises
conjunturais que atingiram o Brasil a partir de 2015, a proposta tenha sofrido diver-
sos cortes orçamentários significativos. A superação dos desafios impostos pelas
dificuldades encontradas e a avaliação dos resultados permitiram a evolução e o
amadurecimento da equipe envolvida nessas atividades, sem que se tenha perdi-
do de vista a importância e a necessidade de aprender com os erros, e ao mesmo
tempo, considerar aspectos conjunturais como fatores de risco importantes no
planejamento de projetos.

Universidade Estado e Sociedade na efetivação e


ampliação de políticas públicas voltadas à saúde da
criança
A Extensão no contexto acadêmico pode ser considerada a dimensão capaz de
ultrapassar as funções primárias da Universidade, pois é a única capaz de suprir
com plenitude o caráter social dessa instituição. A Extensão apresenta-se ainda
como um instrumento importante para mediar a formulação e execução de polí-
ticas públicas e ações efetivas entre o Estado e a sociedade civil, voltadas para a
educação em saúde (GAZZINELLI et al., 2019), bem como, de políticas de interes-
se mundial (PETERSEN, 2003). Entretanto, foi somente em 1994 e 1995, em uma
parceria entre os então denominados Ministérios da Educação (MEC) e Ministério
da Cultura (MinC), juntamente com o Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Uni-
versidades Públicas Brasileiras (Forproex), que foi criado o Programa de Extensão
Universitária (ProExt) do MEC/SESu. Esse programa teve inicialmente um aporte
menor de recursos, contudo, mais tarde com mais aportes e o envolvimento de
outros ministérios, tornou-se o principal instrumento institucional federal para o
fomento da Extensão no âmbito público, sob a óptica das realizações de políticas
públicas federais.
O programa ProExt/MEC/SESu se caracterizou como o primeiro, principal e
maior edital voltado à Extensão universitária no Brasil, tendo sido editado até o
ano de 2016, mas foi simplesmente descontinuado desde então.
Nesse sentido, a captação de recursos alcançada no programa intitulado “Cres-
cendo com um Sorriso - Núcleo de Atenção às Disfunções Orofaciais na Criança”,
através da sua submissão ao edital ProExt/MEC/2015/2016, representou acesso às
condições, que por sua vez tornaram possível a consolidação de ações capazes de
impulsionar inovações na Extensão até então praticada. Sobretudo, representou
iniciativa transformadora da realidade, em que alunos e professores se deslocam
para fora do ambiente da faculdade, indo ao encontro com sua comunidade (ver
Fig. 1).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 727
Programa Crescendo com um Sorriso - Núcleo de
Atenção às Disfunções Orofaciais na Criança
A proposta foi o resultado da iniciativa dos membros da comunidade acadê-
mica da Faculdade de Odontologia da UFPel associados à área de Ortodontia e
Ortopedia Facial, e envolveu incialmente 6 docentes orientadores, 11 discentes
bolsistas (ProExt/MEC) de graduação, 23 discentes voluntários de graduação, 2
discentes de pós graduação e um técnico administrativo em educação. A equipe
executiva trabalhou intensamente para a materialização das metas propostas,
voltadas para a ampliação efetiva da qualidade das atividades de Extensão até en-
tão praticadas na unidade. A proposta foi registrada na UFPel sob Código DIPLAN/
PREC: 52079025.
O programa foi construído considerando os serviços de saúde infantil ofertados
na unidade e a necessidade de aumento da presença da universidade em institui-
ções da rede de ensino da região. Foi elaborado tendo em vista que uma parte
significativa do público infantil apresenta disfunções orofaciais, as quais são fre-
quentemente deletérias ao desenvolvimento da oclusão e ao crescimento facial,
podendo levar a diversos agravos, com consequências significativas para a saúde
e para a qualidade de vida. Muitos desses problemas, depois de estabelecidos, ca-
racterizam-se pela evolução para quadros mais complexos, e não raro esses agra-
Figura 1: Fotos vos podem não ser completamente revertidos ou atenuados em indivíduos adul-
dos membros da tos. Exemplos importantes desses problemas são o bruxismo infantil, as mordidas
equipe executiva em abertas persistentes, a respiração bucal crônica, a deglutição atípica complexa, a
algumas instituições fonação atípica e os problemas posturais crônicos. Muitas dessas desordens fre-
parceiras em 2015
para realização de
quentemente são derivadas de causas multifatoriais, podendo levar a necessida-
ações de Extensão des terapêuticas de elevada complexidade nos serviços de saúde, os quais, quase
universitária. sempre, carecem de infraestrutura adequada e de pessoal suficientes para suprir
Fonte: Acervo do essa ordem de demandas, vindo a agravar de sobremaneira o cenário crítico rela-
Projeto. cionado aos problemas de saúde pública voltados à saúde da criança.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 728
A proposta estabeleceu como meta principal o desenvolvimento de ações foca-
das na prevenção de disfunções orofaciais dirigidas prioritariamente para crianças
(TAVARES, 2000). Foram constituídas ações de modo a suprir melhor demandas
ambulatoriais já anteriormente existentes, e ao mesmo tempo promover difusão
dos conhecimentos sobre prevenção em saúde e cultivo de hábitos favoráveis à
saúde junto ao público alvo principal, composto por crianças de 0 até 12 anos,
dentro e fora da faculdade de Odontologia. A proposta foi dirigida também aos
responsáveis ou acompanhantes, e nas unidades escolares parceiras aos profes-
sores, pois grande parte desses problemas de saúde surgem e se desenvolvem
Figura 2: Fotos
dos membros da
como resultado da desinformação. Abordagens preventivas básicas, baseadas
equipe executiva na valorização da higiene oral (BUISCHI, 2003) também acompanharam o desen-
promovendo volvimento das demais temáticas em grande parte das ações realizadas, devido
interações com
escolares com o
a sua reconhecida alta relevância na Odontologia (VARGAS et al.,1998), sendo,
objetivo de realizar portanto, indispensável em termos de ações em saúde pública (ver Fig. 2).
instrução prática As ações foram estruturadas tendo como referência três eixos principais: ações
educativa voltada
para a qualidade da
clínicas terapêuticas ambulatoriais (ver Fig. 3), ações de acolhimento e promoção
higiene oral. de saúde na sala de espera da clínica infantil (ver Fig. 4), e ações de promoção de
Fonte: Acervo do saúde e estímulo a comportamentos favoráveis à saúde em nove instituições par-
Projeto. ceiras que aderiram ao programa (ver tabela 1).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 729
As atividades de extensão extramuros demandaram comparativamente maior
esforço, tendo sido construídas ao longo do ano de 2015, através de reuniões se-
manais de trabalho, oficinas, e projetos de ensino associados, bem como, com a
realização de atividades de treinamento em campo para o desenvolvimento e pre-
paração das equipes de trabalho.

Figura 3: Fotos dos


membros da equipe
em atividades de
Extensão na Clínica
Infantil da Faculdade
de Odontologia da
UFPel.
Fonte: Acervo de
Projeto.

A conturbada crise econômica, política e social que aflorou nesse mesmo ano e
afetou diretamente o setor público no Brasil, trouxe consequências que levaram à
necessidade de reestruturação considerável do todo o planejamento incialmente
proposto no programa. Diversos atrasos ocorreram em razão de envios anacrôni-
cos dos recursos federais previstos para o programa e dos cortes orçamentários
(mais de 50% do orçamento originalmente contemplado no Edital PROExt/MEC),
o que fez com que parte das ações junto às instituições parceiras fossem plena-
mente efetivadas somente em 2016, com a formalização do projeto de extensão
intitulado “Promovendo Hábitos Saudáveis na Escola” - Edição 2016.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 730
Figura 4: Fotos
dos membros da
equipe em atividades
de acolhimento,
orientação e
educação para a
saúde na sala de
espera da Clínica
Infantil da F.O/UFPel.
Fonte: Acervo do
Projeto.

As ações desenvolvidas dentro da faculdade de Odontologia, devido à infraes-


trutura ambulatorial previamente existente, e principalmente em razão do apoio
solidário recebido pela administração, puderam ter início e ser desenvolvidas com
maior efetividade desde os primeiros meses de 2015, mesmo em pleno enfren-
tamento do momento de crise conjuntural no país. Assim, as ações voltadas ao
atendimento clínico ambulatorial, que já vinham sendo desenvolvidas continua-
damente em projetos nos anos anteriores à criação o programa em 2015, não en-
frentaram dificuldades tão significativas, ou no mesmo nível das atividades com
execução fora da faculdade de Odontologia. Essas ações voltadas para o ambien-
te ambulatorial receberam já em 2015 o acréscimo de atividades continuadas de
acolhimento e humanização na sala de espera e Clínica Infantil da Faculdade de
Odontologia da UFPel, com ações de promoção de saúde e educação preventi-
va em saúde. Entretanto, foi somente em 2016, quando recursos chegados com
atraso puderam ser usados na instituição, que essas atividades foram melhor qua-
lificadas, apesar do financiamento significativamente inferior àquele com o qual
o programa foi contemplado no Edital ProExt/MEC. De qualquer modo, o aporte
recebido como apoio possibilitou melhorias importantes na infraestrutura, bolsas
para acadêmicos participantes e um maior acesso a materiais de consumo espe-
cializados para uso ambulatorial na Clínica Infantil.
Os acompanhantes das crianças de zero a doze anos usuárias dos serviços de
saúde na Clínica Infantil da Faculdade de Odontologia da UFPel, responsáveis ou
cuidadores, bem como, professores das escolas parceiras foram também direta-
mente envolvidos nas ações desenvolvidas no programa. Entre os objetivos alcan-
çados no projeto esteve a conquista de um processo mais amplo e efetivo de ações
preventivas na comunidade, e, portanto, uma maior abrangência considerando o
paradigma universidade/sociedade. Os resultados da proposta foram divulgados
em eventos acadêmicos locais e regionais. A produção acadêmica diretamente

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 731
relacionada ao projeto constituiu na publicação de 11 resumos expandidos, 4 re-
sumos em anais de congressos e apresentação de 14 palestras em eventos acadê-
micos. As ações desenvolvidas em 2015 atingiram diretamente 580 crianças.

Projeto Promovendo Hábitos Saudáveis na Escola


– Edição 2016
Esse projeto de extensão teve suas bases iniciais estabelecidas no ano de 2015,
como derivação do programa descrito anteriormente e iniciado naquele ano, evo-
cando a importância da Escola como parte fundamental do programa (VALARELLI
et al., 2017). Foi registrado na UFPel sob Código DIPLAN/PREC: 52079025. As ações
foram planejadas dando continuidade ao referido programa, e foram elaboradas e
desenvolvidas de modo a sensibilizar o público infantil quanto às temáticas centrais
que constituíram o mesmo, considerando o ambiente Escolar (DEMARZO; AQUI-
LANTE, 2008). As ações envolveram o uso de artifícios criativos para acesso ao uni-
verso imaginário infantil, e estiveram baseadas no uso de recursos lúdicos adapta-
dos conforme as diferentes faixas etárias de cada nível escolar. Além disso, também
foram desenvolvidas atividades diferenciadas em cada instituição, organizadas de
acordo com a infraestrutura preexistente em cada uma delas (por exemplo, duas
instituições parceiras possuíam local apropriado para higiene oral, o que possibilitou
ações com práticas de higienização oral supervisionada, ver Fig. 4).
O espaço físico das instituições também influenciou o formato e a duração das
atividades desenvolvidas. Em algumas instituições foram realizadas majoritaria-
mente palestras, já em outras também foram realizadas atividades coletivas e

Figura 4: Fotos
dos membros da
equipe em atividades
de orientação
em práticas
supervisionadas de
higiene oral.
Fonte: Acervo do
Projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 732
Tabela 1: Instituições integrativas, com envolvimento mais ativo e dinâmico dos escolares e professores
parceiras , datas e (ver Fig. 5 e 7).
número de ações
desenvolvidas em O processo de avaliação do projeto envolveu questionário aplicado aos profes-
cada uma no ano de sores nas escolas, além de auto-avaliação das equipes executivas. Os resultados
2016. colhidos nessas avaliações ofereceram substrato para o aperfeiçoamento do pro-
Fonte: Relatórios jeto ao longo da sua execução, além de estabeleceram uma via de comunicação
de Extensão da objetiva com a comunidade escolar, melhorando, desse modo, o direcionamento
área de Ortodontia
das ações em relação às demandas de cada escola especificamente.
da Faculdade de
Odontologia nos As equipes executivas tiveram a oportunidade de vivenciar experiências trans-
sistemas Siex e formadoras, as quais somente ocorrem pelo contato direto e aberto com a comu-
Cobalto da UFPel. nidade. O vínculo estabelecido fortaleceu significativamente as relações pessoais
e motivacionais dos atores envolvidos no projeto, Fig. 5.

Um processo amplo e efetivo de ações integrativas junto aos professores nas


escolas caracterizou o atingimento pleno das principais metas propostas no proje-
to. A divulgação do projeto foi realizada em eventos acadêmicos locais e regionais.
A produção acadêmica relacionada diretamente ao projeto constituiu na publica-
ção de 1 artigo em periódico nacional em 2016, 2 resumos expandidos, 2 resumos
em anais de congressos e apresentação de 4 palestras em eventos acadêmicos.
Nesse projeto foram atingidas 1772 crianças. Na tabela 1 é possível apreciar o nú-
mero de ações desenvolvidas em cada instituição parceira em 2016.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 733
Figura 5: Fotos dos
membros da equipe
realizando interações
com escolares e
professores.
Fonte: Acervo do
Projeto.

Projeto Promovendo Hábitos Saudáveis na Escola


– Edição 2017 -2018
Esse projeto foi constituído essencialmente pela mesma equipe de docentes
envolvidos na a proposta original em 2015, mantendo, dentro do possível (con-
siderando o esgotamento dos recursos financeiros), as mesmas metas básicas e
muitos dos mesmos parâmetros estruturais e metodológicos propostos nas suas
versões desenvolvidas em 2015 e 2016. Foi registrado na UFPel sob o código PREC/
COBALTO 525.
Os editais PROExt/MEC/SESu foram descontinuados, e sua última edição foi em
2016. Esse fato, aliado a restrições nas fontes de financiamento público voltados
para fins sociais, representaram evidência da contínua crise política e econômica
no país, a qual alcançou também os anos de 2017 e 2018. Assim, o projeto neces-
sitou ser readequado a um novo formato ainda mais restrito, que incluiu equipes
executivas drasticamente menores, contando apenas com o apoio do programa
de bolsas de extensão institucionais da UFPel.
O projeto foi constituído de um discente de graduação bolsista e quatro vo-
luntários. Assim, nesse contexto, após a realização de um processo de reavalia-
ção e de uma ampla discussão entre docentes e discentes da equipe executiva,
considerando as imposições conjunturais continuadas, decidiu-se coletivamente
que somente seria possível atingir cinco instituições parceiras nessa edição, as
quais foram escolhidas de maneira aleatória. As escolas sorteadas foram: Escola
Estadual de Ensino Fundamental Nossa Senhora Medianeira, Instituto Estadual de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 734
Educação Assis Brasil, Colégio Estadual Cassiano do Nascimento, Escola Estadual
de Ensino Fundamental Ondina Cunha e Escola Estadual Dr. Francisco Simões. As
demais instituições receberam um comunicado com explicações sobre os motivos
que levaram à necessidade de descontinuar a parceria naquele momento, junta-
mente com agradecimentos pelas oportunidades de crescimento dos acadêmicos
e os votos de uma possível retomada no futuro.

Os esforços dispendidos para atingir as cinco instituições tornaram-se um gran-


Figura 6: Fotos da de desafio, e a superação das dificuldades conjunturais mencionadas levaram a
equipe entregando equipe executiva à busca de alternativas, como as articulações interdisciplinares e
materiais de higiene
a escolares em
multiprofissionais, que se tornaram apoio decisivo para o projeto. Em destaque,
parceria com PET nesse sentido, encontra-se o estabelecimento de parcerias colaborativas com ou-
ODONTO. tras iniciativas em Extensão ativas na UFPel, como o Projeto Ensinar Saúde Brin-
Fonte: Acervo do cando, coordendado pela Profa. Dra. Ruth Irmgard Bärtschi Gabatz, do curso de
Projeto. Enfermagem da UFPel. Esse projeto, vinculado ao grupo de acadêmicos daquele
curso, desenvolvia por vários anos ações continudadas na Escola Estadual de En-
sino Fundamental Nossa Senhora Medianeira, em Pelotas/RS, sendo esta uma das
instituições parceiras em comum entre os dois projetos, o que se tornou fator de
aproximação para o estabelecimento inicial de atividades conjuntas entre proje-
tos. Também foi buscado o estabelecimento de cooperação mútua com grupos
atuantes na área da saúde Odontológica na UFPel, como foi o caso da parceria
estabelecida com o Programa de Ensino Tutorial da unidade (grupo PET Odonto),
coordendado na época pelo Prof. Dr. Josué Martos. Com esse grupo atuante foram
desenvolvidas ações na Escola Estadual de Ensino Fundamental Ondina Cunha, em
Pelotas/RS. Por iniciativa da equipe executiva, em colaboração com os integrantes
do grupo PET ODONTO, foram contatadas empresas privadas ligadas à área de
saúde oral em busca de apoio. Dentre as empresas consultadas, duas gentilmente
se dispuseram a realizar valiosas doações de apoio, com envio de material visual
para uso no projeto. Foram recebidos 500 folders e 1000 “gibis” educativos em
saúde oral, bem como 20 macro-modelos, constituídos de modelos da dentição e
de escovas dentárias, ambos construídos em escala aumentada, para serem usa-
dos como apoio na instrução coletiva em higiene oral. Também foram recebidos
120 “kits” contendo: escovas dentárias, creme dental, fio dental e materiais de hi-
giene pessoal, que foram entregues aos alunos da escola referida (ver figura 6).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 735
As iniciativas dirigidas para a proposição de trabalhos cooperativos com outros
grupos trouxe contribuição substancial para o aumento da qualidade das ações
desenvolvidas, garantindo a manutenção da estrutura geral do projeto e o cum-
primento de grande parte das metas previamente estabelecidas no programa ori-
ginal em 2015, ainda que, inevitavelmente, com significativa redução no aspecto
quantitativo em relação ao público alvo atingido.
Foram inseridos como colaboradores do projeto alunos do curso de pós-gra-
duação da Residência Multiprofissional em Atenção à Saúde da Criança da UFPel,
como parte do conjunto de esforços estabelecidos para mitigar a retração imposta
pela continuada crise conjuntural brasileira que chegou até esse período, os quais
prestaram valiosas e importantes contribuições.
A equipe executiva implementou diversos materiais gráficos, destinados ao uso
nas instituições parceiras, enfatizando o processo educativo em saúde e o cultivo
de hábitos favoráveis à saúde. Parte desses materiais gráficos, além de servirem
de apoio direto para a realização das ações, foram elaborados de modo a fortale-
cer a relação continuada entre o projeto em si e as escolas parceiras (DEMARZO;
AQUILANTE, 2008), e também para captar a atenção do público escolar quanto às
temáticas desenvolvidas nas ações (ver Fig. 8).

Figura 7: Fotos dos


membros da equipe
realizando interações
ativas de acordo
com os espaços
disponíveis na escola.
Fonte: Acervo do
Projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 736
Figura 8: Infográficos Os resultados do projeto foram divulgados em eventos acadêmicos locais
e certificado
e regionais, e em duas ocasiões recebeu distinções: destaque no XVIII Salão de
produzidos pela
equipe e usados Extensão-UFRGS em 2017 e a segunda colocação na avaliação dos trabalhos em
junto às instituições Extensão apresentados no 10o Congresso de Extensão UCPel em 2018. A produ-
parceiras. ção acadêmica relacionada diretamente ao projeto constituiu na publicação de 2
Fonte: Acervo artigos em periódicos nacionais, 3 resumos expandidos, 3 resumos em anais de
de material
audiovisual de
congressos e apresentação de 6 palestras em eventos acadêmicos. Nesse projeto
apoio a projetos da as ações atingiram diretamente 550 crianças.
área de Ortodontia
da Faculdade de
Odontologia da
UFPel.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 737
Projeto Saúde e Alegria na Sala de Espera –
Edição 2017 -2018
A estruturação desse projeto também sofreu com as imposições drásticas ne-
cessárias para a superação dos obstáculos relacionados ao esgotamento de recur-
sos nos serviços públicos brasileiros anteriormente citados. O projeto foi registra-
do sob o código PREC/COBALTO 580.
As atividades clínicas ambulatórias regulares que vinham sendo desenvolvidas
até o seu início foram reestruturadas, devido ao alto custo dos insumos neces-
sários e outras peculiaridades, e devido às escassas oportunidades de captação
de recursos, sendo os atendimentos de necessidades ambulatoriais redistribuídos
junto às atividades curriculares regulares na Clínica Infantil do curso de Odontolo-
gia da UFPel, em especial nos estágios de final do curso de graduação.
O projeto, contudo, permitiu a consolidação ativa das ações continuadas de
acolhimento, humanização e educação para a saúde junto à sala de espera e Clínica
Infantil da Faculdade de Odontologia. A equipe executiva do projeto contou com
6 docentes orientadores, 1 bolsista do programa institucional de bolsas da UFPel e
17 voluntários discentes de graduação.
As atividades desenvolvidas foram, como nas edições anteriores, igualmente
adaptadas ao seu público alvo, que continuou o mesmo. As atividades, portanto,
continuaram mantendo o enfoque recreativo e de caráter lúdico. Essas atividades
também se revelaram um apoio significativo aos atendimentos ambulatoriais de
rotina na Clínica Infantil da Faculdade de Odontologia da UFPel, promovendo a
descontração do público infantil e, por consequência, contribuindo para a redução
do estresse que eventualmente precede os atendimentos ambulatoriais.
As atividades realizadas obedeceram aos seguintes eixos metodológicos nor-
teadores: atividades de planejamento, preparação e avaliação da equipe executi-
va, atividades associadas ao cotidiano da clínica infantil, e atividades associadas
a datas festivas ou ocasiões especiais, sempre do ponto de vista do público alvo.
Entre as atividades se destacam a “Páscoa”, o “Dia das Mães, o “Dia dos Pais” , as
“Festas Juninas”, o “Dias das Crianças” , o “Dia das Bruxas” e o “Natal”. A escolha
das ações, e dos períodos para as suas realizações, foram determinadas de modo
a compatibilizar as imposições de calendário letivo na unidade e à disponibilida-
de de horários de cada um dos discentes e docentes envolvidos. A equipe tam-
bém buscou integração com atividades tradicionalmente realizadas junto a outras
disciplinas ligadas à Clínica Infantil, como o “Natal Solidário”, entre outras. Como
opção à limitação de recursos, o grupo de docentes e discentes usou materiais
alternativos e de descarte reciclável como insumo na construção de materiais de
trabalho, como por exemplo papelão e brinquedos doados para a construção de
um “palco e fantoches”, o qual possibilitou a realização de espetáculos abordan-
do temas em saúde infantil. O projeto também usou matérias residuais de outros
projetos e edições anteriores, como folders, “gibis” educativos em saúde oral e
macro-modelos para instrução de higiene oral.
O grupo de alunos do projeto realizou a divulgação da ações em eventos acadê-
micos locais, regionais e nacionais, ocasiões em que as apresentações do projeto
receberam as seguintes distinções: 1º Lugar na Categoria Tema Livre/Extensão na
55º Semana Acadêmica Odontológica – F.O. UFPel– 2017 e 1o Colocado em Exten-
são no 10o Congresso de Extensão UCPel-2018. A produção acadêmica relacionada
diretamente ao projeto foi constituída de publicação 3 resumos expandidos, 3 re-
sumos em anais de congressos e 6 apresentações de palestras em eventos acadê-
micos. Nesse projeto, as ações desenvolvidas atingiram diretamente 450 crianças.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 738
Resultados
Os relatos apresentados refletiram o alcance direto de 3352 crianças, em quatro
anos de desenvolvimento dos projetos relatados, como inúmeros ganhos em de-
corrência da proposição ao diálogo entre sociedade e universidade através da Ex-
tensão Universitária, tendo impacto concreto na efetivação de políticas públicas.
Ao mesmo tempo, revelaram o efeito institucional deletério em função das
instabilidades sociopolíticos e econômicos ocorridas no Brasil no mesmo período,
pois, como pode ser visto no gráfico 1, de forma diretamente proporcional à au-
sência de apoio financeiro, o número de pessoas atingidas declinou.
O fortalecimento da Extensão Universitária perpassa pelo estabelecimento de
mecanismos e ações governamentais de gestão institucional estáveis, os quais
possam contribuir de maneira continuada para o bem estar social. Nesse sentido,
a experiência vivenciada nos quatro anos execução dos projetos, reportados no
escopo desse texto, é um testemunho do grande impacto que financiamentos de
maior monta podem trazer para a construção e exercício pleno do direito à saúde
para o público infantil. No entanto, ao mesmo tempo, oferece a percepção de que,
por outro lado, as estruturas como o programa ProExt/MEC, infelizmente não es-
táveis por si só, movimentam-se de acordo com as flutuações políticas, econômi-
cas e sociais, o que pode ser problemático em um país que ainda não encontrou
equilíbrio mínimo nesses três âmbitos estruturais. Ao mesmo tempo, pode ser vis-
to que o efeito institucional deletério por efeito das instabilidades sociopolíticas e
econômicas ocorridas no Brasil no mesmo período, o número de pessoas atingi-
das declinou, de forma diretamente proporcional à ausência de apoio financeiro
como, pode ser visto no gráfico 1.

Gráfico 1: Número
de crianças atingidas
pelos Projetos de
Extensão em quatro
anos de realização.
Fonte: compilação de
dados dos Relatórios
de Extensão nos
sistemas Siex e
Cobalto da UFPel.
A - Crescendo com um Sorriso/ Núcleo de Atenção ás Disfunções Orofaciais na Criança –Cód.
DIPLAN/PREC: 52079025
B - Promovendo Hábitos Saudáveis na Escola –Cód. DIPLAN/PREC: 52084066
C - Saúde e Alegria na Sala de Espera –Có[Link]/PREC: 52084096
D - Crescendo com um Sorriso e Saúde e Alegria na Sala de Espera – Cód. PREC/COBALTO 580
E - Promovendo Hábitos Saudáveis na Escola –Cód. PREC/COBALTO 525

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 739
O fortalecimento da Extensão Universitária perpassa pelo estabelecimento po-
líticas governamentais de gestão institucional que sejam minimamente estáveis,
de modo que possam contribuir para o bem estar social a longo prazo. Nesse sen-
tido, a experiência vivenciada nos quatro anos de execução dos projetos é um tes-
temunho do impacto positivo que financiamentos de maior monta podem trazer
para a construção de um exercício pleno do direito a saúde. A avaliação do gráfico
1 possibilita verificar claramente o efeito das referidas flutuações sociopolíticas
e econômicas, pois nele pode ser visto que os dois últimos anos foram marcados
pelo decréscimo significativo no número crianças atingidas nas ações desenvolvi-
das nos projetos.

Reflexões e considerações finais


O Programa de Extensão originalmente constituído para ser executado em
2015 tornou possível o início de uma nova e transformadora fase nas práticas
extensionistas na unidade, bem como proporcionou uma interação significativa-
mente maior entre a universidade e comunidade na região de Pelotas/RS. Sobre-
tudo, proporcionou uma oportunidade excepcional de crescimento aos docentes e
discentes envolvidos ao interagirem com as Escolas da região. Esse processo levou
o desenvolvimento das atividades de extensão a uma nova dimensão, pois as insti-
tuições envolvidas se dispuseram a estabelecer parcerias voltadas para promoção
de saúde.
Considerando todos esforços necessários para superar as dificuldades inespe-
radas enfrentadas, é possível destacar dois fatores de maior significado. O primei-
ro foi o estabelecimento de parcerias ativas com a escola , que é tradicionalmente
um ambiente voltado também para a educação em saúde, sendo, portanto, natu-
ralmente receptiva a ações na mesma direção vindas de outras instituições. Além
disso, a escola abriga um público que está em um momento muito favorável da
vida para a aquisição de comportamentos e hábitos favoráveis à saúde. O segundo
fator foi o desenvolvimento natural da componente motivacional nas equipes de
acadêmicos envolvidos, o qual se tornou decisivo para o sucesso dos projetos. Es-
ses elementos, juntos, possibilitaram a integração da universidade com os saberes
escolares, consolidando um importante passo transformador em direção à quali-
dade de vida do público infantil na região de Pelotas/RS.
A experiência no exercício dos projetos relatados permitiu concluir que o plane-
jamento de atividades em extensão deve considerar criteriosamente os fatores de
risco, devendo certamente incluir sempre as decorrências relacionadas a estreita
relação de interdependência entre Universidade, Estado e Sociedade.
As vivências acumuladas com o desenvolvimento das ações extensionistas re-
lacionadas aos quatro anos relatados, sobretudo, reforçam que a Extensão é res-
ponsável por acrescentar um elemento adicional muito importante e essencial nas
funções primordiais da Universidade, a Sociedade.

Referências
BUISCHI, Y.P. Promoção de saúde bucal na clínica odontológica. São Paulo, Ar-
tes Médicas, 2003.

DEMARZO, M. M. P.; AQUILANTE, A. G. Saúde Escolar e Escolas Promotoras de


Saúde. In: PROGRAMA de Atualização em Medicina de Família e Comunidade.
Porto Alegre, RS: Artmed: Pan-Americana, v. 3, p. 49-76, 2008.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 740
GAZZINELLI, M.; GAZZINELLI, A.; REIS, D.; PENNA, C. Educação em saúde:
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Saúde Pública, v. 21, n. 1, p. 204, 2006. Disponível em: <[Link]
cuidadocomapele/arquivos/textos_para_leitura/educacao_em_saude/Educacao_
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PETERSEN, P.E. The World Oral Health Report 2003: continuous improvement of
oral in the 21st century-the approach of the WHO Global Oral Health Programme.
Community Dent Oral Epidemiol, v.31, Suppl1, p.3-23, 2003.

TAVARES, J. Aspectos relacionados à promoção de saúde bucal envolvendo o


atendimento de crianças e adolescente. Dissertação (Programa de Pós-Gradu-
ação Mestrado em Odontopediatria) Faculdade de Odontologia. Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000. 185 f.

VALARELLI, F.; FRANCO, R.; SAMPAIO, C.; MAUAD, C.; PASSOS, V.; VITOR, L.;
MACHADO, M.; OLIVEIRA, T. Importância dos programas de educação e moti-
vação para saúde bucal em escolas: relato de experiência. Odontologia Clínica-
-Científica, v.10, n.2, p.174, 2011. Disponível em: <[Link]
pdf/occ/v10n2/[Link]>. Acesso em: 17 mar. 2017.

VARGAS, C.M.; CRALL, J.J.; SCHNEIDER, D.A. Sociodemographic distribution of


pediatric dental caries: NHANES III, 1988-1994. J Am Dent Assoc, v.129, p.1229-
38, 1998.

SOBRE OS AUTORES
Douver Michelon, graduado em Marcos Antônio Pacce, graduado
Odontologia pela UFPel. Doutor em Or- em Odontologia pela UFPel. Doutor
todontia pela UNICAMP-SP. Professor em Ortodontia pela UFPel. Professor
associado do departamento de Odon- adjunto do departamento de Odonto-
tologia Social e Preventiva do curso de logia Social e Preventiva do curso de
Odontologia da Faculdade de Odon- Odontologia da Faculdade de Odon-
tologia da F.O. da UFPel, atuando em tologia da F.O. da UFPel, atuando em
ensino de graduação e pós-graduação, ensino de graduação e pós-graduação,
com ênfase em extensão, tendo atuado com ênfase em extensão, tendo atuado
na coordenação dos projetos descritos na coordenação adjunta dos projetos
no texto. E-mail: douvermichelon@ descritos no texto. E-mail: semcab@
[Link] [Link]

Catiara Terra da Costa, graduada Vanessa Polina Pereira da Costa,


em Odontologia pela UFPel. Doutora graduada em Odontologia pela UFPel.
em Odontopediatria pela UFPel. Pro- Doutora em Odontopediatria pela
fessora adjunta do departamento de UFPel. Professora adjunta do departa-
Odontologia Social e Preventiva do mento de Odontologia Social e Preven-
curso de Odontologia da Faculdade tiva do curso de Odontologia da Facul-
de Odontologia da F.O. da UFPel, atu- dade de Odontologia da F.O. da UFPel,
ando em ensino de graduação e pós- atuando em ensino de graduação e
-graduação, com ênfase em extensão, pós-graduação, tendo atuado como co-
tendo atuado na coordenação adjunta laboradora e orientadora nos projetos
dos projetos descritos no texto. E-mail: descritos no texto. E-mail: polinatur@
catiaraorto@[Link] [Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº12 741
PROJETO DE EXTENSÃO
IMPLANTODONTIA PARA
ACADÊMICOS DE ODONTOLOGIA:
O ATENDIMENTO DA COMUNIDADE EM
CONJUNTO COM A FORMAÇÃO
DOS ALUNOS

Mateus Bertolini Fernandes dos Santos


César Dalmolin Bergoli
Mateus de Azevedo Kinalski
Cristina Pereira Isolan

Apresentação
O Projeto de Extensão Implantodontia para Acadêmicos de Odontologia foi
criado inicialmente sob o título de Projeto de Extensão em Próteses Sobre Implan-
tes no ano de 2017, tendo suas atividades iniciadas em agosto deste ano.
O projeto tem caráter unificado visando à indissociabilidade entre ensino, pes-
quisa, e extensão, de modo à aproximar os acadêmicos e a comunidade ao tema
referente à cirurgia de instalação de implantes dentários e a subsequente rea-
bilitação com próteses sobre implantes, o qual é, atualmente, o padrão ouro de
tratamento reabilitador para pacientes edêntulos. A concepção deste projeto é
fundamentada no projeto pedagógico da Faculdade de Odontologia-UFPel (FO-
-UFPEL, 2019), onde consta que o aluno deve: “Atuar em todos os níveis de aten-
ção à saúde, entendendo e se comprometendo com o ser humano como um todo,
respeitando-o e valorizando-o dentro do seu contexto social, econômico, cultural
e político.” e “Exercer sua profissão de forma articulada no contexto social, enten-
dendo-a como uma forma de participação e compromisso social.” Além disso, sua
formação deve possibilitar que tenha competências para: “Atuar de forma efetiva
no contexto da comunidade, contribuindo, como cidadão, na melhoria da quali-
dade de vida.” e, adicionalmente “Participar de investigações científicas sobre o
SAÚDE Nº13

processo saúde-doença, analisando e interpretando os resultados epidemiológi-


cos e clínicos, inserindo-os no contexto do conhecimento acadêmico, bem como
aplicando-os nos cuidados da saúde.” Ainda, as diretrizes do plano nacional de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 742


extensão universitária (MEC, 2018) foram conside-
radas no momento da concepção do projeto, visan-
do uma relação de diálogo entre todos os membros
da equipe, na intenção de produzir aprimoramento
técnico e novos conhecimentos diante da interação
dos acadêmicos com a sociedade.. Na busca de se
manter a indissociabilidade sobre a tríade Ensino-
-Pesquisa-Extensão o projeto desenvolve ações
de (1) ensino, através de aulas teóricas e seminá-
rios com o intuito de discutir a teoria relacionada e
ampliar as fontes de conhecimento dos alunos; (2)
pesquisa, onde alunos de graduação e pós-gradua-
ção tem a oportunidade de participar e desenvolver
pesquisas clínicas; e (3) extensão, onde o projeto
presta serviço especializado à comunidade.
O presente capítulo tem o intuito de apresentar
as diversas ações realizadas pelo Projeto de Exten-
são Implantodontia para Acadêmicos de Odonto-
Figura 1 – Logotipo logia abordando pontos importantes relacionados especificamente à área aca-
do projeto. dêmica e aos resultados e impactos que este tem proporcionado à comunidade
Fonte: Acervo do pelotense.
projeto.

Contextualização da implantodontia e a sua


importância na formação dos alunos
Sabe-se que a perda de elementos dentários é um indicador epidemiológico de
extrema importância para a saúde (MOJON et al., 2004) e que ela pode ser ocasio-
nada por diversos fatores, como falhas irreversíveis em tratamentos endodônti-
cos, doença periodontal avançada, trauma, fraturas radiculares e cáries (BECKER
et al., 1998). Os implantes dentários tornaram-se a melhor opção de tratamento
para regiões desdentadas, sejam elas unitárias, parciais, ou totais (DOS SANTOS
et al., 2019; SARKIS-ONOFRE et al., 2019). Embora seja considerado o estado da
arte (SARKIS-ONOFRE et al., 2019), este tópico não é abordado no atual currículo
do curso de graduação da Faculdade de Odontologia da UFPel. Considerando que
existe uma crescente demanda na população por este tipo de tratamento e que a
realização de tais procedimentos requer conhecimento específico sobre o tema
(MORASCHINI et al., 2015), o projeto foi concebido com a perspectiva de suprir
a demanda de atendimento odontológico especializado com implantes dentários
da comunidade, bem como proporcionar aos alunos do curso de Odontologia o
contato com o tema, através de aulas teóricas e seminários e também através de
atendimentos clínicos onde se realizam procedimentos tanto cirúrgicos quanto
protéticos, de modo que os alunos possam ter noções de planejamento e execu-
ção de casos envolvendo implantes dentários.

Ineditismo do projeto e a sua importância no


atendimento da população
Segundo a última Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2010), cerca de
68% dos indivíduos adultos necessitam de reabilitação de ao menos um dente

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 743
(RONCALLI et al., 2012). Considerando a cidade de Pelotas, apenas 6,1% dos indi-
víduos com mais de 60 anos apresentaram dentição natural completa, enquanto a
média de dentes presentes em boca foi de 9 por indivíduo (RIBEIRO et al., 2016).
Embora esses dados se limitem à determinada faixa etária, os resultados demons-
tram que a cidade de Pelotas possui alta prevalência de perdas dentárias.
Nesse contexto, os implantes dentários apresentam-se como uma das princi-
pais alternativas terapêuticas para reabilitação de dentes perdidos, possibilitando
altas taxas de sobrevivência em maxila e ou mandíbula (CHAPPUIS et al., 2013).
No ano de 2010, a Portaria nº 718 da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministé-
rio da Saúde estabeleceu o fornecimento de implantes dentários osseointegrados
para os pacientes do Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2010). Embora esta por-
taria tenha sido publicada, o serviço de fornecimento continua incipiente frente à
considerável demanda de atendimento reabilitador da população (ALMEIDA et
al., 2016). Além disso, até o presente momento, a cidade de Pelotas não apresenta
dados referentes a oferta de implantes dentários através do SUS.

Figura 2 -
Atendimento na
Clínica da FO-UFPel.
Fonte: Acervo do
projeto.

A Faculdade de Odontologia da UFPel é a principal instituição pública de oferta


de serviços odontológicos de média e alta complexidade da região sul do Rio Gran-
de do Sul. A instituição fornece desde atendimentos básicos até serviços especia-
lizados (Centro de Especialidades Odontológicas – CEO Jequitibá). No entanto,
os serviços relacionados aos implantes dentários não eram ofertados entre suas
diferentes áreas de abordagens. Em virtude disso, no ano de 2017, o Projeto de Ex-
tensão Implantodontia para Acadêmicos de Odontologia iniciou os atendimentos
visando a cobertura dos indivíduos residentes de Pelotas e região, referenciados
para a reabilitação por meio de implantes dentários. A média de idade dos indi-
víduos atendidos no projeto até o momento é de 49 anos (I.C 19 – 84), a Tabela 1
apresenta as variáveis sociodemográficas dos indivíduos atendidos desde a cria-
ção do projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 744
Tabela 1 – Variáveis sociodemográficas dos pacientes atendidos no projeto (n=100).

N %
Sexo
Masculino 40 32
Feminino 85 68
Escolaridade
Analfabeto 0 0
Ensino fundamental 15 12,00
Ensino médio 62 49,60
Ensino superior 37 29,60
Pós-graduação 11 8,80
Hábito de fumar
Não fuma 107 85,60
Fumante moderado 9 7,20
Fumante pesado 9 7,20
Diabetes
Sim 8 6,40
Não 117 93,60
Hipertensão
Sim 29 23,39
Não 95 76,61
Fonte: Acervo do projeto.

Segundo dados do DATASUS (2020), apenas 316 implantes dentários foram


realizados pelo SUS no estado do Rio Grande do Sul desde o ano de 2011 (IBGE,
2010). Comparativamente, ao longo de dois anos e meio já se realizou a instalação
de 265 implantes dentários e a reabilitação protética de mais de 130 elementos
dentais exclusivamente nesse projeto da Faculdade de Odontologia da UFPel.
Um dos principais fatores relacionados as perdas dentárias são as condições
socioeconômicas. Independente de faixa etária, os indivíduos que apresentam
maior prevalência de perdas dentárias no Brasil possuem renda entre R$ 500,00 a
R$1.500,00 mensais. Desse modo, torna-se importante ofertar atendimentos que
visem suprir a demanda dos indivíduos desassistidos. No Rio Grande do Sul, se-
gundo dados do IBGE, a renda média salarial encontra-se até 3.1 salários mínimos.
Considerando os indivíduos atendidos no projeto, a renda salarial média é de 2.9
salários mínimos (R$2.992,14) próxima da média do estado do RS.

Ações unificadas ENSINO-PESQUISA-EXTENSÃO


Extensão
O objetivo extensionista deste projeto é o de proporcionar o atendimento da
comunidade com um serviço especializado de alta complexidade que não é pro-
porcionado pelo fluxo de atendimento convencional da FO-UFPel, e que também

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 745
não é prestado pela rede municipal da cidade de Pelotas (SUS). Estes atendimen-
tos são realizados por alunos de graduação e pós-graduação, tendo a possibilidade
de contato com todos os procedimentos que envolvem a área da Implantodontia,
sejam eles de caráter cirúrgico ou protético.
A inclusão na lista de espera para avaliação e tratamento dentro do projeto se
dá pelo referenciamento de casos dentro da própria FO-UFPel onde o setor de
triagem ou diferentes disciplinas do curso de Graduação encaminham os pacien-
tes com este tipo de demanda.
Figura 3 –
Atendimentos
realizados para
instalação de
implantes realizado
por aluno de pós-
graduação e auxiliado
por aluno de
graduação (esquerda)
e atendimento para
confecção de prótese
sobre implante por
aluno de graduação
(direita).
Fonte: Acervo do
projeto.

Ensino
Inicialmente, as atividades de ensino propostas pela ação de ensino dentro do
nosso projeto tinham como objetivo principal a discussão de artigos científicos e li-
teratura pertinente com o intuito de ampliar o conhecimento e atualizar os alunos
sobre o tema da implantodontia. No entanto, com o passar dos semestres e das
atividades, foi recorrente a demanda vinda dos alunos, principalmente de gradua-
ção, da necessidade de informações básicas sobre o tema, uma vez que o curso de
Odontologia da FO-UFPel não possui disciplina específica que verse sobre o tema.
Na tentativa de suprir esta demanda, a partir do segundo semestre letivo de
2019, a ação de ensino 3744 – Ensino de Graduação de Próteses Sobre Implantes,
vem realizando encontros semanais nas terças-feiras no período das 12h30min às
13h30min. Estes encontros foram propostos aos moldes de uma disciplina “optati-
va” de implantodontia, cobrindo todos os temas básicos necessários para o enten-
dimento da teoria e técnicas relacionadas ao tema. Para isto, docentes e alunos
de pós-graduação do projeto, bem como docentes convidados, ministram aulas
teóricas sobre diferentes temas (Fig. 4).
É importante salientar que as atividades de ensino realizadas nesta ação não
se restringem à equipe do projeto e que esta é uma atividade de “portas abertas”
onde alunos de todos os semestres letivos e de outras instituições são bem-vin-
dos. Todas as semanas são realizadas divulgações dos temas que serão abordados
através das redes sociais do projeto e até o momento as aulas têm tido grande
procura. No semestre letivo 2019-2 as aulas tiveram média de 59 participantes por
encontro.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 746
Figura 4 – Aula
desenvolvida dentro
das atividades
unificadas de ensino
de próteses sobre
implantes.
Fonte: Acervo do
projeto.

Pesquisa
No que diz respeito à pesquisa, o projeto visa avaliar a satisfação dos pacien-
tes atendidos com próteses sobre implantes, bem como as taxas de sobrevivência
de implantes e próteses sobre implantes inseridas nos pacientes atendidos pelo
projeto. Dentro das atividades do projeto são desenvolvidos acompanhamentos
longitudinais e ensaios clínicos randomizados (ECRs), todos com prévia aprovação
do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da FO-UFPel e registro dos ensaios clínicos
na plataforma Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC). Atualmente os pro-
jetos de pesquisa que estão sendo desenvolvidos são apresentados na Tabela 2.

Tabela 2 – Informações sobre os projetos de pesquisa desenvolvidos.

Nº do parecer
CAAE* Plataforma
Título de aprovação ReBEC
Brasil
CEP
Acompanhamento de pacientes 91767718.6.0000.5318 2.792.042 RBR-463SK7
submetidos a instalação de implantes e
confecção de próteses dentárias
Efeito do laser em aspectos clínicos 69947717.1.0000.5318 2.369.402 RBR-35TNJ7
e subjetivos após a instalação de
implantes: estudo clínico randomizado
Avaliação do sucesso, sobrevivência, 09533919.1.0000.5318 3.282.944 RBR-
perda óssea marginal e complicações 2W83NH
de próteses sobre implantes dentários
com diferentes tipos de conexão
implante-prótese: ensaio clínico
randomizado
*Certificado de apresentação para Apreciação Ética (CAAE).
Fonte: Acervo do projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 747
Funcionamento do projeto
O projeto funciona com alunos de diversos semestres da graduação (divididos
entre alunos que cursam até o 5º, 6º, 7º, 8º, 9º e 10º), alunos de pós-graduação
(mestrado e doutorado) e dentistas formados que tenham interesse na área de
implantes e próteses sobre implantes. As tarefas dentro do projeto são divididas
de acordo com o grau de conhecimento e nível de formação necessário para a
realização dos processos. No início do ano de 2019, realizou-se uma intervenção
com uma profissional da área da Educação, especializada na teoria de Engeström
(2001), na ação de ensino “O processo de aprendizagem do aluno imerso em um
projeto de extensão em implantodontia” com o intuito de ouvir a opinião de todo
os membros do projeto e, assim, definir as necessidades e funções de cada um de
maneira coletiva. A atuação dos membros do projeto foi então dividida da seguin-
te maneira:

Alunos até o 5º Semestre – Atividades administrativa


Alunos cursando até o 5º semestre desenvolvem atividades administrativas
dentro do projeto, uma vez que ainda não cursaram cadeiras importantes neces-
sárias para o atendimento dos pacientes. As atividades administrativas são dividi-
das em entrega e controle de prontuários, controle do agendamento de cirurgias
e pedido de componentes aos fabricantes de implantes, entrega e controle dos
materiais de consumo e instrumentais disponibilizados pelo projeto.

Alunos cursando o 6º ou 7º Semestre – Atendimento de


suporte
Alunos que estão cursando o 6º ou 7º semestre já cursaram disciplinas básicas
relacionadas à radiologia e ao atendimento clínico de periodontia e dentística, que
se relaciona a procedimentos como raspagem, limpezas (profilaxias) dentárias, e
restaurações. Neste contexto, os alunos são responsáveis por radiografar os pa-
cientes e também a realizar atendimentos básicos nos pacientes do projeto. Este
tipo de atendimento é bastante importante no contexto de proporcionar a ma-
nutenção da saúde oral dos pacientes atendidos no projeto como um todo, e não
focado apenas na(s) região(ões) onde são realizados os implantes.

Alunos cursando o 8º Semestre


No 8º semestre os alunos cursam pela primeira vez uma cadeira clínica de pró-
tese dentária; assim, a partir deste semestre letivo, os alunos começam a atuar es-
pecificamente no contexto da implantodontia. Neste primeiro contato os alunos
atuam como auxiliares dos alunos que cursam o último semestre letivo do curso,
com o objetivo de familiarização com os instrumentais, procedimentos e técnicas.

Alunos cursando o 9º Semestre


No 9º semestre, os alunos passam a realizar planejamento de cirurgias de im-
plantes, auxílio destas cirurgias e também atendem os pacientes confeccionado
próteses sobre implantes previamente instalados. Neste semestre os alunos aten-
dem em dupla, sendo esta constituída por dois alunos do mesmo semestre que se
intercalam no atendimento das diversas atividades.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 748
Alunos cursando o 10º Semestre
Alunos que cursam o último semestre letivo do curso de Odontologia atuam
tanto no planejamento e auxílio de cirurgias quanto na confecção propriamente
dita de diferentes tipos de prótese sobre implantes, sendo auxiliados pelos alunos
do 8º semestre.

Pós-graduandos e profissionais formados


Alunos de pós-graduação e profissionais formados atuam no projeto em diver-
sas áreas dependendo da sua formação prévia e também das suas áreas de inte-
resse. Enquanto alguns alunos de pós-graduação atuam de maneira semelhante
ao estágio docência, em que orientam os alunos da graduação na realização de
procedimentos, alguns têm atuação específica na realização de cirurgias enquanto
outros tem função relacionada à reavaliações anuais dos pacientes, com enfoque
em pesquisas de longevidade. Profissionais formados podem atuar dentro do pro-
jeto desde que estejam vinculados à Universidade como estagiários ou matricu-
lados em alguma disciplina do programa de pós-graduação como aluno especial.

Equipe
Atualmente, o projeto de extensão conta com uma equipe formada por dois
docentes que supervisionam todas as atividades clínicas e coordenam o projeto
e por 23 alunos de graduação de diversos semestres. A equipe conta ainda com 8
alunos de pós-graduação de diferentes níveis (mestrado, doutorado e pós-douto-
rado). Todos os referidos membros da equipe fazem parte das ações de ensino e
extensão, sendo que alguns deles participam ainda nas ações de pesquisa.

Seleção de alunos para o projeto


No fim do semestre letivo 2019-1, o projeto realizou processo seletivo de 8 va-
gas considerando a criação de novas posições e a reposição de alunos que se gra-
duaram. Dentro destas, 1 vaga era relacionada a atividades administrativas (para
alunos que estivessem cursando até o 5º semestre), 3 relacionadas ao atendimen-
to de suporte (alunos cursando o 6º ou 7º sem) e 4 quatro para atendimento pro-
priamente dito (8º ao 10º sem). Foram recebidas 80 inscrições e o processo de
seleção ocorreu através de análise de currículos e entrevista realizada por meio de
questionário.
Considerando a grande procura para ingresso no projeto, estipulou-se que à
partir do segundo semestre de 2019 a presença nas aulas teóricas de implanto-
dontia desenvolvidas dentro da ação de ensino “Ensino de Graduação de Próteses
Sobre Implantes” deveriam ser consideradas como critério de desempate, favo-
recendo os alunos que tiveram maior frequências nas atividades. Salienta-se ain-
da que durante a última seleção, os alunos que já participavam do projeto foram
responsáveis pela correção das avaliações teóricas dos candidatos no processo
seletivo. Estes alunos criaram um gabarito através de discussão em grupo, con-
siderando os pontos que eles julgavam primordiais para o bom desempenho nas
atividades do projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 749
Metas alcançadas
A partir da criação do projeto, mais de 130 indivíduos receberam atendimentos
odontológicos específico na área de implantodontia. Quanto ao tipo de instala-
ção, foram instalados 177 (67,05%) implantes tardios, estes que são instalados em
regiões onde o paciente já perdeu os dentes há algum tempo e o tecido ósseo
da região já se cicatrizou completamente. Outra opção de instalação de implan-
tes dentários é quando se realiza a extração do dente e colocação do implante no
mesmo ato cirúrgico, esta técnica é denominada implante imediato, e durante os
anos de 2017-2019 foram realizados 87 (32,95%) casos deste tipo. O termo pro-
tocolo de carregamento se refere a quando se realiza a reabilitação do implan-
te dentário, onde tem sido proposto um período de espera de 4-6 meses quando
se utilizam implantes convencionais para a completa osseointegração, ou seja, a
união entre o tecido ósseo e o implante, denominado carga tardia. O protocolo
de carregamento com carga imediata preconiza a realização de coroa provisória
sobre os implantes em um período de até 7 dias após a instalação do implante. No
período de 2017-2019, o protocolo de carregamento dos implantes instalados no
projeto foi distribuído em 92,80% com carga tardia e o restante com carga ime-
diata. Embora haja diferenças na incidência de tipo de instalação e protocolos de
carregamento, ambas técnicas possuem indicação na literatura (ESPOSITO et
al., 2010) e foram realizadas devido a particularidades encontradas em cada caso
clínico, visando proporcionar o atendimento individualizado e integrado a cada
paciente. As frequências relativas e absolutas do tipo de instalação, carregamento
e marca comercial dos implantes instalados podem ser consultadas na Tabela 3.

Tabela 3 – Frequência relativa e absoluta dos implantes instalados no projeto quanto a variáveis
(instalação, carregamento e marca comercial) (n=197).

n %
Tipo de instalação
Tardio 177 67,05
Imediato 87 32,95
Protocolo de carregamento
Carga tardia 245 92,80
Carga imediata 19 7,20
Marca comercial
Arcsys 61 23,11
Neodent 203 76,89
Fonte: Acervo do projeto.

Considerando a confecção de próteses sobre implantes, 131 casos foram fina-


lizados no mesmo período, incluindo coroas unitárias, próteses múltiplas, over-
dentures ou protocolos. Como visto, o projeto atende desde casos mais simples
(coroas unitárias) até a realização de procedimentos complexos, como overdentu-
res (próteses totais realizadas sobre 2 ou mais implantes) ou protocolos (próteses
retidas e suportadas por 4 implantes ou mais).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 750
Mídias digitais e a divulgação do projeto
Website (WordPress UFPel)
O projeto conta com um website sob o domínio wordpress da UFPel (https://
[Link]/projetoimplantes/). O site aborda de maneira simplificada todos
os tópicos mencionados neste capítulo, contendo uma aba exclusiva de informa-
ções para os pacientes e à comunidade, onde estes têm acesso a informações so-
bre o que é implante dentário, o que é osseointegração, riscos, possibilidades, e
taxas de sucesso deste tipo de tratamento. O site permite ainda que pacientes já
incluídos no projeto possam entrar em contato com a equipe para informar altera-
ções cadastrais ou a necessidade de atendimento.

Facebook e Instagram
O projeto também está inscrito nas plataformas Facebook e Instagram, onde
são divulgadas notícias e eventos relacionados ao projeto, fotos de procedimentos
técnicos e das atividades de rotina do projeto de extensão. Esta ferramenta tem
sido utilizada para ampliar a divulgação do conhecimento para alunos e profis-
sionais da área, bem como fornece informações básicas às pessoas que não são
profissionais da área.

Plataforma Giphy
A plataforma Giphy funciona como uma base de dados onde imagens no for-
mato GIF podem ser criadas e enviadas para posterior utilização como adesivos
(stickers) na plataforma stories do Instagram. O projeto possui uma conta na refe-
Figura 5 – Imagens rida plataforma e utilizando o termo IMPLANTOUFPEL ou apenas UFPEL na busca
criadas na plataforma de imagens do tipo adesivo é possível encontrar imagens criadas por nós relativas
Giphy. à UFPel, à Faculdade de Odontologia da UFPel e outras específicas da área de im-
Fonte: Acervo do plantodontia e do Projeto de Extensão Implantodontia para Acadêmicos de Odon-
projeto. tologia.

Contratualização com a Fundação de Apoio


Universitário (FAU)
Como abordado anteriormente, o tratamento com implantes dentários pela
FO-UFPel não está contratualizado com o SUS e, por esta razão, os pacientes
têm de arcar com os custos relacionados à aquisição dos implantes dentários,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 751
componentes protéticos e aos serviços terceirizados de confecção das próteses
sobre implantes.
Em maio de 2019, foi assinado contrato entre a UFPel e a Fundação de Apoio
Universitário (FAU) visando à institucionalização destes pagamentos, de modo
que os pacientes depositem o valor orçado na conta do projeto e as aquisições de
materiais de consumo e permanente sejam administrados pela FAU. Toda a tra-
tativa referente à institucionalização da conta e desta modalidade de pagamento
encontra-se disponível no processo SEI 23110.008002/2019-13.

Considerações finais
Nos pouco mais de dois anos que o projeto desenvolve suas atividades, obser-
vou-se uma demanda reprimida da comunidade para tratamento com implantes
dentários e próteses sobre implantes. Além disso, a ausência de disciplina específi-
ca que aborde a teoria e passos técnicos para planejamento, instalação de implan-
tes e confecção de próteses sobre implantes também acarreta em uma crescente
demanda por parte dos alunos de graduação. Ainda, o programa de pós-graduação
em Odontologia da UFPel tem sido reconhecido nacionalmente por suas diversas
pesquisas clínicas que têm sido realizadas e, assim, há também um crescente nú-
mero de alunos de pós-graduação com interesse em desenvolver pesquisas clíni-
cas neste tema também. Neste contexto, o projeto tem possibilitado, de maneira
unificada, o atendimento de parte da demanda da comunidade, a capacitação de
alunos de graduação e pós-graduação para este tipo de tratamento de alta com-
plexidade e ainda o desenvolvimento de pesquisas clínicas que servirão de base
para definir protocolos e observar a taxa de sucesso dos tratamentos prestados.
Vislumbra-se para o futuro a manutenção das atividades do projeto de modo a
fortalecer a indissociabilidade da tríade ensino-pesquisa-extensão, objetivando
(1) o ensino público, gratuito e de qualidade sobre o tema relacionado ao projeto
para os alunos extensionistas; (2) prestar atendimento continuado visando à ma-
nutenção da saúde oral dos pacientes que já foram atendidos pelo projeto, bem
como à inclusão de novos pacientes para serem atendidos e (3) o desenvolvimento
de pesquisas clínicas que gerem evidências científicas para os diversos problemas
que existem e possam vir a existir no campo da Implantodontia e Próteses sobre
implantes.

Referências
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A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 753
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS. Faculdade de Odontologia. Projeto
Pedagógico do Curso de Odontologia. 2019. Disponível em: [Link]
[Link]/odontologia/files/2019/11/[Link] Acesso em: 15 nov.
2019.

SOBRE OS AUTORES
Mateus Bertolini Fernandes dos Mateus de Azevedo Kinalski, gra-
Santos, graduado em Odontologia duado em Odontologia na UFPel, mes-
pela FOSJC-UNESP, doutor em Clíni- tre em Clínica Odontológica– Prótese
ca Odontológica – Prótese Dental pela Dentária pelo PPGO-UFPEL. Mem-
FOP-UNICAMP. Coordenador do Pro- bro da equipe do projeto. E-mail:
jeto. E-mail: mateusbertolini@yahoo. mateus_kinalsk@[Link]
[Link]
Cristina Pereira Isolan, graduada
César Dalmolin Bergoli, graduado em Odontologia pela UNIPAR, doutora
em Odontologia pela UFSM, doutor em Materiais Dentários pelo PPGO-U-
em Odontologia Restauradora – Pró- FPEL. Membro da equipe do projeto.
tese Dentária pela FOSJC-UNESP. Co- E-mail: cristinaisolan1@[Link]
ordenador Adjunto do Projeto. E-mail:
cesarbergoli@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Saúde nº13 754
T E C NO L O G I A
Tecnologia e Produção

E P R O D U Ç Ã O
PROJETO DE DESENVOLVIMENTO
DA BOVINOCULTURA LEITEIRA DO
RIO GRANDE DO SUL, ENFOCANDO
AÇÕES DE BOAS PRÁTICAS
AGROPECUÁRIAS

Helenice Gonzalez de Lima


Natacha Deboni Cereser
Fernanda de Rezende Pinto
Cláudio Dias Timm
Patrícia da Silva Nascente
Flávia Fontana Fernandes

Origem do Projeto
A origem desse projeto de extensão ocorreu em 2008 através do convite rea-
lizado à coordenadora para participar de um projeto desenvolvido pelo escritó-
rio municipal da EMATER/RS-ASCAR de Pelotas, coordenado pelo Engenheiro
Agrônomo Luiz Adilson dos Santos, em cinco propriedades leiteiras denomina-
das unidades participativas representativas. Nessa etapa do projeto, as unidades
TECNOLOGIA E PRODUÇÃO Nº1

eram acompanhadas pelos Engenheiros Agrônomos Luiz Maria Miranda Godói


e Francisco Antônio Arduin Arruda da EMATER/RS-ASCAR, lotados no escritório
municipal de Pelotas, e por docentes e pesquisadores oriundos da Universidade
Federal de Pelotas (UFPEL), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
Sul-riograndense – Campus Pelotas (CaVG) – Visconde da Graça e EMBRAPA/
CPACT/ETB, formando uma equipe multidisciplinar convidada como parceira.
Cada participante era responsável por uma área de atuação dentro da unidade de
referência sob a coordenação do idealizador do projeto Luiz Adilson dos Santos.
As áreas de atuação que as entidades parceiras integravam foram o manejo de for-
rageiras, conservação e uso do solo, manejo nutricional, manejo sanitário do reba-
nho, gestão econômica, uso de irrigação e melhoramento genético; sendo as ati-
vidades coordenadas, respectivamente pelos professores e pesquisadores Pedro
Lima Monks (UFPel), Flávia Fontana Fernandes (UFPel), Jorge Schafhauser Júnior

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 756


(EMBRAPA), Helenice Gonzalez de Lima (UFPel), Darcy Bitencourt (EMBRAPA),
Álvaro Luiz Carvalho Nebel (CaVG) e Carlos Alberto Soares da Silva (CaVG). Com o
andamento do projeto, observou-se a necessidade de formalização de um convê-
nio entre as entidades e, também, a inclusão da participação de técnicos da Pre-
feitura Municipal de Pelotas com auxílio da Secretaria de Desenvolvimento Rural,
sendo o convênio assinado no Salão Nobre da Prefeitura Municipal de Pelotas.
Com a formalização necessária feita, no ano de 2010, na UFPel houve, então, a
criação de um Programa de extensão e de projetos vinculados a ele nas diferentes
áreas de atuação, denominado Programa de Desenvolvimento da Bovinocultura de
Leite da Metade Sul do Rio Grande do Sul – Competitividade e Sustentabilidade da
Pecuária Leiteira Familiar (PDBL), primeiramente coordenado pelo professor En-
genheiro Agrônomo Pedro Lima Monks, lotado no Departamento de Zootecnia
da Faculdade de Agronomia e, após a aposentadoria deste, foi substituído pela
Professora Engenheira Agrônoma Flávia Fontana Fernandes do Departamento de
Solos da Faculdade de Agronomia, que permanece até os dias de hoje.
Posteriormente, foi solicitado pelo escritório da EMATER/RS-ASCAR que o pro-
jeto fosse expandido para outros municípios da Região Sul, quando foi formali-
zado um Protocolo de intenções pelos representantes das entidades envolvidas,
incluindo a EMATER-Regional Pelotas e a Associação dos Municípios da Zona Sul
(AZONASUL), o qual ocorreu durante a 84ª Expofeira de Pelotas no Núcleo de
Criadores de Gado Jersey de Pelotas, na presença das autoridades e produtores
rurais.
Em 2012, houve a inclusão da participação da Cooperativa Sul-Rio-Grandense
de Laticínios (COSULATI), visando aumentar os elos de ligação do programa com
a rede produtiva da região, considerando ser uma ação com resultados a longo
prazo e que necessita, justamente, de elos fortes para permanência das atividades
nas propriedades.
Toda essa ampliação no Programa gerou também a necessidade dentro da uni-
versidade de que novas áreas e professores participassem, possibilitando, com
isso, um maior número de áreas a serem desenvolvidas dentro das unidades de
referência e a viabilidade de aumentar o número de propriedades atendidas. A
convite dos professores Antônio Jorge Amaral Bezerra, Carlos Eduardo da Silva
Pedroso, Otoniel Geter Lauz Ferreira, Fioravante Jaekel dos Santos, Luiz Fernan-
do Spinelli Pinto, Maria Cândida Moitinho Nunes, Pablo Miguel, Rogério Oliveira
de Souza, Vitor Emanuel Quevedo Tavares, Mário Duarte Canever, todos da Facul-
dade de Agronomia; Natacha Deboni Cereser, Fernanda de Rezende Pinto, Tânia
Regina Bettin dos Santos, Diego Moscarelli Pinto, Arnaldo Diniz Vieira, Bernardo
Garziera Gasperin da Faculdade de Veterinária e Patrícia da Silva Nascente do Ins-
tituto de Biologia, passaram a formar o grupo de trabalho do Programa PDBL.
Cada área criou seu projeto de extensão vinculado ao PDBL e, além dos compo-
nentes da UFPEL, juntaram-se ao programa o pesquisador Jamir Luis Silva da Silva
(EMBRAPA) e Engenheiro Agrônomo Rodrigo Bubolz Prestes (EMATER).
Na Faculdade de Veterinária, o Programa de Desenvolvimento da Bovinocultu-
ra de Leite da Metade Sul do Rio Grande do Sul – Competitividade e Sustentabili-
dade da Pecuária Leiteira Familiar (PDBL), viabilizou a criação dos seguintes proje-
tos: (1) Bovinocultura leiteira: Fungos e Micotoxinas em leite cru refrigerado e com
mastite — coordenado pela Professora Patrícia da Silva Nascente; (2) Manejo de
ordenha e qualidade do leite em propriedades do sul do Rio Grande do Sul — coor-
denado pela Professora Natacha Deboni Cereser; (3) Monitoramento da qualidade
da água em propriedades leiteiras na região sul do Estado do Rio Grande do Sul

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 757
— coordenado pela Professora Fernanda de Rezende Pinto; (4) Monitoramento e
controle sanitário parasitológico, em propriedades leiteiras, no sul do Rio Grande
do Sul, Brasil — coordenado pela Professora Tânia Regina Bettin dos Santos; (5)
Gestão econômica e zootécnica das propriedades leiteiras — coordenado pelos
Professores Mário Duarte Canever e Arnaldo Diniz Vieira; e (6) Projeto regional de
desenvolvimento da bovinocultura leiteira do Rio Grande do Sul – Boas práticas
agropecuárias — coordenado pela Professora Helenice Gonzalez de Lima, sendo
este último o tema deste capítulo.

Metodologia do projeto regional de desenvolvi-


mento da bovinocultura leiteira do Rio Grande do
Sul – Boas práticas agropecuárias
As atividades eram desenvolvidas conforme o perfil da propriedade e disponibi-
lidade do produtor, as quais eram observadas após as visitas técnicas (às proprie-
dades) dos acadêmicos bolsistas e voluntários do projeto, geralmente acompa-
nhados por acadêmicos participantes dos demais trabalhos do Programa.
Na primeira visita, foi realizado um questionário levantando as principais ca-
racterísticas estruturais e de manejo da unidade e demandas necessárias, coletas
de material (leite, sangue etc.), encaminhadas para o laboratório e realizadas as
análises técnicas. Os resultados foram tabulados e posteriormente discutidos com
os professores e acadêmicos. Na visita seguinte à propriedade, os resultados fo-
ram repassados aos produtores e realizadas as devidas orientações. Houve acom-
panhamento mensal às unidades ou quando houvesse necessidade. Os dados e
discussões levantados serviram de ferramentas para os alunos confeccionarem
material didático na forma de folder, manuais e banner, trabalhos elaborados para
apresentações em eventos técnicos-científicos, redação de artigos para revistas e
preparação de workshops.

Atividades do Projeto regional de desenvolvimen-


to da bovinocultura leiteira do Rio Grande do Sul –
Boas práticas agropecuárias
A viabilização do começo das atividades deste projeto, junto às unidades par-
ticipativas representativas, só foi possível pela disponibilização tanto de estrutura
física e equipamentos como de material de consumo do Laboratório de Inspeção
de Leite e Derivados (hoje denominado Laboratório de Produtos de Origem Ani-
mal), da Faculdade de Veterinária, coordenado pelo Professor Cláudio Dias Timm,
que ali desenvolvia, desde 1997, atividades de ensino, pesquisa e extensão. Esse
feito não só permitiu como incentivou a realização de todo o processamento de
amostras iniciais e discussão de resultados. A partir de 2012, com a primeira apro-
vação de recurso em edital ProExt do Ministério da Educação, foi possível a viabi-
lização das atividades com recurso próprio do projeto.
As atividades sempre foram realizadas em parceria direta com os demais pro-
jetos desenvolvidos pela Faculdade de Veterinária; na grande maioria das vezes,
as atividades eram construídas em conjunto nas unidades, otimizando recursos e
promovendo a interação entre os alunos e docentes participantes dos diferentes
projetos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 758
Esse caráter multidisciplinar vem na origem do projeto proposto pela EMATER
e se manteve no decorrer do desenvolvimento das atividades nas diferentes áreas.
Permitindo a interlocução entre professores, pesquisadores, técnicos e alunos dos
diversos cursos da UFPel.
As atividades iniciais do projeto foram a aplicação de questionário nas primei-
ras cinco (05) unidades participativas representativas. Eram propriedades perten-
centes ao município de Pelotas e que representavam diferentes sistemas e níveis
de produção leiteira, possuindo rebanhos de diferentes raças. Nessas unidades,
após o levantamento de dados, foram realizados testes para o diagnóstico de tu-
berculose e brucelose de todo o rebanho e isolamento de agentes causadores de
mastite.
Totalizando, ao longo dos primeiros dois anos do projeto, um expressivo núme-
ro de 830 diagnósticos de tuberculose, 440 diagnósticos de brucelose e 157 isola-
mentos e caracterizações de agentes causadores de mastite. Após o isolamento
do agente de mastite, foram novamente testadas as bactérias frente a 12 princí-
pios ativos de antibióticos comumente utilizados em medicina veterinária, totali-
zando 1884 testes.
Neste período, foram encontrados casos de animais reagentes ao teste de tu-
berculose e brucelose em dois rebanhos, sendo que todos os animais positivos fo-
ram encaminhados para abate sanitário em frigoríficos locais, e as propriedades
seguiram rigoroso controle do restante do rebanho para que erradicassem a en-
fermidade do local. Esta constatação levou a um atraso na execução dos trabalhos
até que os rebanhos estivessem livres dos casos positivos por, pelo menos, dois
exames consecutivos realizados com intervalo de 90 dias.
Quando o projeto passou a ser regional, em 2011, e novas propriedades ingres-
saram para acompanhamento, uma das exigências era que o produtor previamen-
te realizasse os testes em seu rebanho, com a finalidade de que fossem evitados
novos e possíveis atrasos na realização das atividades.
Com a ampliação das unidades atendidas, através da regionalização da pro-
posta pela EMATER, as atividades se intensificaram e o projeto finalizou o ano de
2018 com 3193 amostras processadas e 31846 testes para antimicrobianos, o que
permitiu que 240 pareceres fossem confeccionados pelos acadêmicos para as uni-
dades participativas, contendo resultados de análises e recomendações, com um
total de 81 propriedades visitadas nos municípios de Pelotas, Capão do Leão, Can-
guçu, Rio Grande, São Lourenço do Sul, Turuçu, Camaquã, Arroio do Padre, Cristal,
Cerrito, Pedro Osório, Piratini, Arroio Grande e Nova Petrópolis. Isso permitiu que
46 acadêmicos bolsistas e 69 voluntários participassem do projeto ao longo de
dez anos de atividade, totalizando 115 acadêmicos da UFPel e outras instituições
de ensino como Universidade Federal de Santa Maria e Instituto Federal de Edu-
cação, Ciência e Tecnologia Sul-riograndense – Campus Pelotas (CaVG) – Visconde
da Graça.
Os acadêmicos e professores ligados ao projeto apresentaram trabalhos com
os resultados do estudo nos seguintes eventos: IX Congresso Latino-Americano
de Higienistas de Alimentos, 2019, Maceió/AL; 32º Seminário de Extensão Uni-
versitária da Região Sul, 2014, Curitiba/PR; 30º Seminário de Extensão Universi-
tária da Região Sul, 2012, Rio Grande/RS; XI Congresso Iberoamericano de Exten-
são Universitária, 2011, Santa Fé/ Argentina; I a V Semana Integrada de Ensino,
Pesquisa e Extensão (SIEPE) e Encontro de Pós-graduação da UFPel, 2015 a 2019
Pelotas, RS; 29º ao 32º Congresso Nacional de Laticínios, 2011 a 2019, Juiz de
Fora/MG; III Simpósio de Qualidade de Leite Prof. Dr. Antônio Nader Filho, 2016,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 759
Jaboticabal/SP; II Congresso Internacional de Gastronomia e Ciência de Alimentos,
2016, Fortaleza/CE; IV Congresso Brasileiro de Qualidade do Leite, 2015, Curitiba/
PR; XIII Congresso Internacional do Leite, 2015, Porto Alegre/RS; 1º ao 3º Mostra
de trabalhos científicos do simpósio do leite,2012 a 2014, Erechim/RS; Congresso
de Extensão e Cultura, 2013 e 2014, Pelotas/RS; XX ao XXII Congresso de Iniciação
Científica, 2011 e 2013, Pelotas/RS; V Salão Internacional de Ensino, Pesquisa e
Extensão, 2013, Bagé/RS; XIV ENPOS, 2012, Pelotas/RS; Zootec, 2012, Cuiabá/
MS; III Congresso Sul Brasileiro de Avicultura, Suinocultura e Laticínios - Feira de
Equipamentos, Serviços e Tecnologia, 2012, Bento Gonçalves/RS; 5º Congresso
Brasileiro de Extensão Universitária, 2011, Porto Alegre/RS; 38º Combravet, 2011,
Florianópolis/SC; IV Congresso Brasileiro de Qualidade de Leite, 2010, Florianó-
polis/SC. Destes eventos, os trabalhos foram destaques no Simpósio de Jabotica-
bal/SP e em dois SIEPEs, o de 2015 e o de 2019.
Ao longo de 10 anos de desenvolvimento do projeto de extensão foram totali-
zadas a participação em 31 eventos de pesquisa e extensão, sendo 19 eventos no
estado do Rio Grande do Sul, distribuídos em seis municípios. Nos demais estados
brasileiros foram submetidos trabalhos em 12 eventos — nos estados de Santa
Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Alagoas e Ceará.
Um trabalho foi apresentado em evento internacional de extensão em Santa Fé,
Argentina.
Foram publicados 16 artigos científicos em revistas indexadas nacionais, apre-
sentados 44 trabalhos em eventos, sendo 3 trabalhos completos, 33 resumos ex-
pandidos e 8 resumos simples, conforme o Gráfico 1, totalizando 60 materiais
científicos publicados.
Com os dados e os materiais oriundos do projeto, foi possível a execução do
trabalho de conclusão em Residência do Programa de Residência Multiprofissional
e em Área Profissional da Saúde da UFPel de uma aluna, e fez parte da atividade de
outros dois residentes deste mesmo programa; além de possibilitar a confecção
de Manuais pelos residentes. Viabilizou, ainda, material e disponibilizou as unida-
des para a realização de dissertações de mestrado e ações de pesquisa, como o
Projeto Perfil de sensibilidade, determinação da concentração inibitória mínima
de sanitizantes e formação de biofilme de Staphylococcus spp. isolados durante a
ordenha.

Gráfico 1 –
Publicações de
artigos em revistas
científicas indexadas,
trabalhos completos,
resumos expandidos
e simples em eventos
técnico científicos.
Fonte: Dados do
projeto

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 760
Em 2012, foi encaminhada uma proposta para o Edital ProExt – do Ministério
da Educação, ficando em 29ª colocação e recebendo o recurso para sua execução.
Em 2013, a proposta também recebeu mais uma vez recurso para sua execução.
Em 2015, mesmo ficando em 19ª colocação não conseguiu recursos, mas em 2016
ficou classificada em 4ª lugar, o que permitiu o recebimento de recurso da última
edição do ProExt – MEC/Sisu. Nesses três anos os recursos do Ministério da Edu-
cação permitiram custeio de material permanente, material de consumo e, princi-
palmente, bolsas para os acadêmicos, permitindo a reestruturação laboratorial, a
ampliação de propriedades atendidas e amostras processadas (Graf. 3), um incre-
mento considerável de acadêmicos participando ativamente do projeto (Graf. 2),
o que refletiu em um maior número de publicações nos anos subsequentes como
já foi visto (Graf. 1). Verifica-se, assim, o quanto o investimento do recurso público
teve impacto na execução do projeto e formação de um maior número de acadê-
micos.
Culminou também em dois eventos promovidos na forma de workshops em
parceria com os projetos: Manejo de ordenha e qualidade do leite em proprieda-
des do sul do Rio Grande do Sul, coordenado pela Professora Natacha Deboni Ce-
reser e Monitoramento da qualidade da água em propriedades leiteiras na região
sul do Estado do Rio Grande do Sul, coordenado pela Professora Fernanda de Re-
zende Pinto, com seus respectivos alunos bolsistas e voluntários do Laboratório
de Produtos de Origem Animal e Centro de Controle de Zoonoses.

Gráfico 2 – Número
de acadêmicos
bolsistas e
voluntários da UFPEL
participantes do
projeto de 2009 a
2019.
Fonte: Dados do
projeto.

Gráfico – 3. Número
de amostras
processadas pelo
projeto de 2009 a
2018.
Fonte: Dados do
projeto

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 761
Resultados
Os resultados das atividades do projeto pelo acompanhamento das unidades
de referência participativa foram sendo gradativamente descritos, discutidos e
publicados ao longo dos 16 artigos que foram submetidos às revistas nacionais.
Neste capítulo, tivemos a pretensão de divulgar o somatório de todas as ativida-
des desenvolvidas pelos docentes e acadêmicos participantes do projeto e suas
percepções do trabalho na forma de depoimentos.

Depoimentos de participantes do projeto


A seguir, colocamos em texto corrido o depoimento de ex-alunos bolsistas, pro-
dutores e docentes que participaram ou ainda participam do projeto:

“Desde o terceiro semestre da graduação participei do Projeto de Desenvolvimen-


to da Bovinocultura Leiteira (PDBL) junto à UFPEL e colaboradores. A formação te-
órica que pude ter acesso na universidade e em paralelo com o Projeto, me viabiliza-
ram inúmeros aprendizados e experiências práticas referentes ao universo do leite.
A participação no projeto me preparou tanto para o ambiente de produção científica
e acadêmico como para o mercado de trabalho, possibilitando o convívio e contato
diretamente com as pessoas relacionadas ao agronegócio e que desempenham papel
fundamental (produtores rurais, técnicos e docentes). Justamente por ser um projeto
que contemplava diversas áreas da prestação de assistência técnica no leite, possi-
bilitou aprendizados diversos durante o período em que fui colaboradora e ainda, em
minha pós-graduação, viabilizando minha pesquisa. Com toda a certeza o PDBL con-
tribuiu para minha formação acadêmica e profissional, direcionando meus estágios
futuros e também minha carreira como consultora técnica.”

Marina Oliveira Daneluz – foi bolsista, Médica Veterinária, Mestre em Desen-


volvimento Territorial e Sistemas Agroindustriais. Consultora técnica em proprie-
dades leiteiras na área de gerenciamento e administração rural na região Oeste de
Santa Catarina.

“Participar do PDBL durante minha graduação permitiu que, de alguma forma, eu


pudesse compartilhar e retornar à população o conhecimento que estava adquirindo.
Poder auxiliar com conhecimento técnico naquilo que era parte ou em sua totalidade
a fonte de renda daquelas pessoas fazia com que me sentisse de grande utilidade. Os
conhecimentos que adquiri e os valores que desenvolvi e aprimorei durante este pe-
ríodo me acompanham diariamente durante os momentos que estou atuando como
Médica Veterinária, nos quais devo agir com responsabilidade, sabedoria, segurança
e embasamento técnico.”

Lauren Machado Moreira – foi bolsista, Médica Veterinária, Mestre em Ciên-


cias, M.V Temporária do MAPA.

“Participar do Projeto de Extensão durante meu período de graduação proporcio-


nou-me um amadurecimento pessoal e intelectual, onde pude aprimorar os conceitos
vistos em sala de aula, unindo teoria e prática e, assim, colaborando com meu cresci-
mento profissional. Aprendi também a trabalhar em equipe, confrontar ideias e ir em
busca de novos questionamentos e conhecimentos.”

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 762
Silvana Lüdtke Carrilhos Haertel – foi bolsista, Zootecnista, Responsável Téc-
nica da Associação de Criadores de Gado Jersey do RS.

“Para mim, o PDBL foi um projeto completo. Durante os cinco anos em que parti-
cipei do projeto, convivi com diversos produtores de leite, onde pude compreender a
importância não somente econômica, mas também social que essa cadeia representa
para a nossa região e país. Pude aprimorar meus conhecimentos e melhorar a minha
performance perante o público a partir de convivência em grupo, apresentação de
resultados e promoção e participação de cursos e palestras. Por fim, desenvolver as
atividades dentro do laboratório me fez entender a importância de pesquisar deter-
minados micro-organismos, e assim, descobri a área que mais gosto dentro da Medi-
cina Veterinária - “Epidemiologia e Controle de Produtos de Origem Animal”. Depois
de três anos de formada, posso dizer que participar desse projeto foi primordial para
a minha formação.”

Milimani Andretta – foi bolsista, Médica Veterinária, Mestre em Epidemiologia


e Controle de produtos de origem Animal, Doutoranda.

“O projeto de extensão foi de extrema importância para minha formação tanto


profissional quanto pessoal. Foi durante o desenvolvimento dele que fui criando um
forte vínculo com a agricultura familiar. Após a graduação, trabalhei com qualidade
do leite a campo, junto dos produtores... e já ter tido uma experiência prévia através
do projeto foi fundamental. Hoje, não mais trabalho a campo, mas sou responsável
técnica de agroindústrias familiares (de queijos, mel e ovos), portanto segui com meu
vínculo e gosto por essa área de extensão rural. O projeto me trouxe muito conhe-
cimento técnico, de laboratório, mas também foi nele que comecei a formar minha
carreira profissional até descobrir que de fato é esta área que quero seguir. Agradeço
muito pela oportunidade que tive de ter este aprendizado, e por ter conhecido cole-
gas e professores que ajudaram muito na minha formação e que sei que ainda posso
contar quando precisar.”

Camila Beatriz Bonatto – foi bolsista, Médica Veterinária, M.V. do Serviço de


Inspeção Municipal de Nova Petrópolis e Pós-graduanda em Produção, Tecnologia
e Higiene de Alimentos de origem Animal.

“A arte de transmitir informação e conhecimento nem sempre é uma tarefa fácil,


no entanto aquele que a executa da melhor maneira possível, contribuindo, assim,
para o desenvolvimento de uma localidade merece o reconhecimento de todos. Tal
ofício vem sendo lindamente exercido pelos extensionistas rurais no Brasil. Desde que
ingressei no curso de graduação tive certeza de que minha vontade de aprender no-
vos conceitos e técnicas tinham um propósito que ia muito além da realização pessoal
e profissional, mas sim na possibilidade de levar aquilo tudo de forma prática e aces-
sível àqueles que mais necessitam e que movimentam o agronegócio do país: o pro-
dutor rural. Ao longo da minha formação busquei realizar estágios extracurriculares
a fim de conhecer diferentes realidades e aos poucos desenvolver habilidades com o
propósito de tornar mais curta a distância entre a pesquisa gerada nas universidades/
empresas destinadas a este fim e o dia-a-dia do pequeno produtor com pouco acesso
à informação. Para tanto o Projeto de Desenvolvimento da Bacia Leiteira da Região
Sul (PDBL) foi um divisor de águas, onde percebi que tudo aquilo que eu almejava
estava se concretizando, dia após dia. Tudo foi um processo de construção. A cada

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 763
visita aos produtores pertencentes ao projeto eu retornava para casa realizada, pois
sabia que éramos uma equipe forte, que abrangia várias áreas das Ciências Agrárias
e da saúde, porém todos com o mesmo objetivo. Discutíamos os resultados obtidos
e juntos buscávamos as soluções mais apropriadas para cada realidade. Momentos
estes que levo na memória! Hoje, com quatro anos de formada em Zootecnia e na
iminência de me tornar doutora na mesma área, orgulho-me de ter sido integrante
de um projeto tão importante para a região a qual estou inserida, especialmente por
ver que todos os esforços valeram a pena após cada sorriso de agradecimento de
cada produtor satisfeito com as melhorias verificadas. Considero-me uma extensio-
nista e espero honrar este ofício da melhor maneira possível ministrando palestras e
recentemente com a publicação de um livro contendo informações oriundas da mi-
nha dissertação de mestrado. Acredito que esta seja a grande finalidade da pesquisa:
servir como ferramenta na obtenção de dados e soluções que supram a demanda de
determinada população.”

Roberta Farias Silveira – foi bolsista, Zootecnista, mestre em Zootecnia e Dou-


toranda em Produção Animal

“A ação do projeto na minha propriedade foi muito satisfatório, as ações desen-


volvidas me ajudaram em muito na melhoria na qualidade do leite, na sanidade das
vacas um controle mais efetivo e satisfatório no rebanho melhorando em muito a
satisfação em se manter na atividade e com isto ter uma melhor criação de terneiras,
A mim ajudou em muito. Além desta integração com gente nova, ideias novas, isto
traz crescimento. Que bom se tivéssemos sempre como contar com este apoio.”

Jorge Alfredo Cassana – Técnico em Agropecuária e produtor rural de uma uni-


dade de referência participative do PDBL

“Acho muito importante essa troca aluno e produtor, um com o conhecimento e


outro com experiência. E também que para o produtor sem nenhum custo, já que em
muitas propriedades operam praticamente no vermelho o que inviabiliza contratar
um profissional qualificado.”

Sandra Campos de Ávila – produtora rural de uma unidade de referência parti-


cipativa do PDBL.

“As ações extensionistas do projeto possibilitaram melhorias na qualidade do lei-


te e implementação de boas práticas agropecuárias nas propriedades rurais envol-
vidas. Nota-se um grande envolvimento dos alunos de graduação e pós-graduação,
técnicos extensionistas, docentes e produtores rurais em cada uma das atividades
desenvolvidas. A possibilidade de entrar em contato com a realidade do meio rural
e a busca por soluções para as dificuldades encontradas proporcionaram aos alunos
uma vivência que certamente será aplicada futuramente na vida profissional. Já para
os técnicos e produtores, o contato com as tecnologias e propostas de melhorias auxi-
liou em modificações positivas na produção leiteira. O trabalho multidisciplinar é um
ponto alto desse projeto, mostrando a importância dos diferentes saberes voltados
para a resolução de um problema em comum.”

Fernanda Rezende de Pinto – Professora do Departamento de Veterinária Pre-


ventiva.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 764
“Destaca-se no projeto a oportunidade dada aos acadêmicos de exercitar a indis-
sociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, bem como a interdisciplinaridade. As
atividades do projeto são pautadas em conhecer a realidade regional por meio das
visitas às unidades produtoras de leite, caracterizando e realizando coleta de dados
e amostras em cada estabelecimento, para posterior processamento laboratorial na
universidade. Os resultados obtidos são discutidos entre os acadêmicos de diferentes
cursos e níveis de forma a compor o conjunto de recomendações a serem repassadas
aos proprietários. Tem-se assim, a vivência do campo, a pesquisa científica e o estí-
mulo ao desenvolvimento crítico dos estudantes. Tal maneira de trabalho tem pre-
parado os acadêmicos para vida profissional de maneira mais completa, baseando
no que a ciência mostra como melhores caminhos para produção, mas sem esquecer
das questões humanas determinantes do processo. Esta formação tem permitido aos
colaboradores do grupo, sejam bolsistas ou voluntários, hoje profissionais, excelente
inserção no mercado de trabalho. Proporcionando também benefício aos produtores
e estabelecimento onde desempenham suas atividades.”

Natacha Deboni Cereser – Professora do Departamento de Veterinária Pre-


ventiva.

Conclusão
Como coordenadora, me sinto realizada em poder fazer parte desta propos-
ta, que desde o primeiro ano que ingressei na UFPel tive a oportunidade de ser
apresentada. A criação deste projeto dentro de um grande Programa me deu um
norte dentro da minha carreira docente, vinculou as atividades ao setor produti-
vo, possibilitou a complementação técnica de nossos acadêmicos e de outros que
buscaram sua formação. Criou um ambiente de trabalho para outros colegas da
instituição, criou laços de trabalho e afeto. Vejo o projeto como uma ferramenta
de transformação do nosso meio, tanto rural quanto acadêmico. Concluímos com
êxito esses primeiros 10 anos de atividades e planejamos novos rumos e transfor-
mações.

Agradecimentos

A todos produtores, técnicos de extensão, professores, pesquisadores e acadêmicos que parti-


ciparam do projeto. E aos Editais PROExt – MEC/Sisu (Proext 2012, 2013 e 2016) que viabilizaram
as atividades.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 765
SOBRE OS AUTORES
Helenice Gonzalez de Lima, gra- Cláudio Dias Timm, graduado em
duada em Medicina Veterinária pela Medicina Veterinária pela UFPel. Dou-
UFPel. Doutora em Zootecnia pela tor em Ciência e Tecnologia Agroin-
UFRGS. Professora associada da Facul- dustrial pela UFPel. Professor titular da
dade de Veterinária da UFPel. Coorde- Faculdade de Veterinária da UFPel. Co-
nadora no projeto. E-mail: helenice@ laborador no projeto. E-mail: timm@
[Link] [Link]

Natacha Deboni Cereser, graduada Patrícia da Silva Nascente, gradua-


em Medicina Veterinária pela Univer- da em Medicina Veterinária pela UFPel.
sidade de Cruz Alta. Doutora em Me- Doutora em Ciências pela UFRGS. Pro-
dicina Veterinária pela Universidade fessora associada do Instituto de Biolo-
Estadual Paulista. Professora adjunta gia da UFPel. Colaboradora no projeto.
da Faculdade de Veterinária da UFPel. E-mail: pattsn@[Link]
Colaboradora no projeto. E-mail:
natachacereser@[Link] Flávia Fontana Fernandes, gradu-
ada em Engenharia Agronômica pela
Fernanda de Rezende Pinto, gra- UFPel. Doutora em Ciências do Solo
duada em Medicina Veterinária pela pela UFRGS. Professora adjunta da
Universidade Estadual Paulista. Dou- Faculdade de Agronomia da UFPel.
tora em Medicina Veterinária pela Uni- Coordenadora do Programa. E-mail:
versidade Estadual Paulista. Professora flaviaff@[Link]
adjunta da Faculdade de Veterinária
da UFPel. Colaboradora no projeto.
E-mail: f_rezendevet@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº1 766
ATIVIDADES LÚDICAS NO ENSINO DE
SOLOS E NO DESENVOLVIMENTO
DE HABILIDADES

Luis Eduardo Akiyoshi Sanches Suzuki


Luciana da Silva Corrêa Lima
Gilberto Strieder
William Roger da Silva Almeida
Rodrigo de Lima do Amaral
Mariana Fernandes Ramos

Apresentação
Este capítulo pretende relatar o desenvolvimento, resultados e produtos obti-
dos a partir do projeto de extensão “O solo e a água como ferramenta para a edu-
cação ambiental”, cadastrado sob código PREC 52123011, com período de execu-
ção de abril de 2011 a dezembro de 2015.
No período de execução do projeto, alunos de graduação da UFPel dos cursos
de Agronomia, Engenharia Agrícola, Engenharia Hídrica e do Programa de Pós-
TECNOLOGIA E PRODUÇÃO Nº2

-Graduação em Recursos Hídricos da UFPel, contribuíram para desenvolvimento


deste projeto.
O projeto tinha como objetivos desenvolver recursos didáticos, experimentos
interativos, ferramentas que pudessem ilustrar conceitos, processos e conteúdos
relativos ao solo, com uma abordagem para estudantes e a comunidade em geral.

Justificativa para desenvolvimento do projeto


Cada vez mais em evidência estão as questões ambientais e as interações en-
tre sociedade e ambiente, a preocupação com os recursos naturais e o consumo
consciente, temas que têm sido abordados nas mais diferentes áreas do conheci-
mento e setores da sociedade. Neste sentido, é de extrema relevância a busca de
ferramentas que abordem estas questões de forma lúdica e atraia a atenção da

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 767


sociedade, utilizando uma linguagem que atinja os diferentes públicos, com dife-
rentes condições sociais, econômicas e culturais.
A Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, que instituiu a Política Nacional de Educa-
ção Ambiental, define em seu artigo 1o a Educação Ambiental como “os processos
por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhe-
cimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do
meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e
sua sustentabilidade” (BRASIL, 2019).
A Educação Ambiental tem por finalidade proporcionar ao ser humano o en-
tendimento do universo e de sua participação nele, principalmente em relação à
conservação do meio ambiente e uso sustentável dos recursos naturais, com o ob-
jetivo de formar cidadãos aptos a utilizar o ambiente em que vivem, conservando-
-o para as gerações presentes e futuras (FLORIANO, 2006).
Carvalho (2004) cita que a Educação Ambiental no Brasil ocorreu pela percep-
ção da sociedade com os sérios problemas mundiais, como a contaminação do
solo, ar e água, poluição das cidades e perda da qualidade de vida. Dessa forma,
sua abordagem necessita de aprimoramentos, principalmente em relação à ne-
cessidade de atividades extraclasse. Quando se fala em meio ambiente, as estra-
tégias utilizadas se baseiam mais na informação do que na educação.
Segundo Alves (2003) na sala de aula se aprende a teoria, os nomes, mas não se
aprende e nem se observa as coisas a que se referem. De acordo com este autor,
principalmente para as crianças, o ambiente externo à sala de aula as encanta e
desperta sua curiosidade, fazendo com que surjam perguntas.
Neste sentido, é importante o contato dos estudantes com o ambiente externo
à sala de aula, principalmente com a natureza, sendo o solo um importante recur-
so para despertar a curiosidade dos estudantes e trazer questões relacionadas à
Educação Ambiental.
De acordo com Almeida e Oliveira (2007) os problemas ambientais podem con-
duzir a educação para um novo caminho, pois não se trata apenas em transmitir
conteúdos, conceitos, mas sim aprender a olhar e ler a natureza, entendendo a
ciência com criatividade e atividade que permite integrar a arte e os diferentes
conhecimentos.
É neste sentido que este projeto de extensão buscou utilizar a criatividade
na elaboração de recursos que pudessem interagir com o público, tornando a
aprendizagem de conteúdos e conceitos de forma mais natural e agradável.
Em uma pesquisa realizada em um colégio federal no Município do Rio de Ja-
neiro, constatou-se que para a maioria dos alunos, a Educação Ambiental significa
proteger e preservar o meio ambiente, assim como a necessidade de promover a
conscientização em relação ao mesmo (FONSECA et al, 2005). Segundo levanta-
mento destes mesmos autores, 87% dos professores e 61% dos alunos relataram
nunca terem participado de qualquer projeto ambiental, por falta de oportunida-
de, e 56% dos alunos desconheciam qualquer projeto ambiental em andamento
no Rio de Janeiro.
A Educação Ambiental representa uma importante área dentro do currículo es-
colar da educação primária, considerando os problemas ambientais que se carac-
terizam como uma das crises do mundo contemporâneo (GAUDIANO, 2005).
No contexto ambiental, a escola possui a finalidade de gerar um sistema de
informações sobre os problemas ambientais e tomar consciência sobre eles, pois
possui uma rede que cobre o país e através dela pode abranger a maioria dos alu-
nos em idade escolar (CARVALHO, 2004).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 768
De acordo com Pacheco (2001) a Educação Ambiental faz pensar as posturas
de conservação e preservação ambiental e, principalmente, a questão ética. Se-
gundo este mesmo autor, através de professores qualificados e conhecedores da
questão sociopolítica, a formação da consciência ambiental deve ser desenvolvida
pela educação.
Carvalho (2004) cita que na escola é necessário construir um conhecimento am-
biental que relacione os fatores que interferem no dia-a-dia e que trate os proble-
mas sociais, políticos, econômicos, culturais e ambientais contextualizadamente
para, a partir daí haver uma efetiva transformação da sociedade, através da cons-
trução de uma consciência ambiental.
A degradação ambiental está relacionada a fatores socioeconômicos e cultu-
rais, que influenciam e determinam as relações das pessoas com o ambiente, resul-
tando na falta de percepção integrada do meio ambiente e seus componentes e da
compreensão da necessidade de sua preservação e conservação. Nesse sentido, o
conhecimento e a compreensão integrada dos diversos aspectos do meio ambien-
te, especialmente o solo, é fundamental para conscientização das transformações
que o homem está realizando sobre o planeta. Nas escolas o período dedicado ao
solo como componente do sistema natural é praticamente nulo ou, em geral, tra-
balhado de maneira fragmentada e, portanto, improdutiva, mostrando a falta de
sensibilidade e percepção da importância do solo (MUGGLER et al, 2004b).
Em acordo com esta referência, Suzuki (2017) verificou que os Parâmetros Cur-
riculares Nacionais e os livros didáticos para o ensino fundamental e médio abor-
dam o conhecimento sobre solos em seus mais variados aspectos, porém, a abor-
dagem é pequena e limitada, e não explora a interdisciplinaridade e as relações do
solo com outros fatores da natureza e com questões sociais e econômicas.
O solo é um componente essencial do meio ambiente, desempenhando fun-
ções essenciais no funcionamento dos ecossistemas terrestres, portanto, atenção
especial deve ser dada a este componente ambiental.
De modo geral, as pessoas possuem pouca consciência e sensibilidade em re-
lação ao solo, contribuindo para sua degradação, seja pelo mau uso ou pela ocu-
pação desordenada, além disso, a negligência das pessoas em relação ao solo tem
como consequência os problemas ambientais ligados à degradação do solo, tais
como a erosão, a poluição, os deslizamentos, o assoreamento de cursos de água,
etc. (MUGGLER et al, 2006).
A Educação em Solos é uma forma de Educação Ambiental, na qual se enfa-
tizam conteúdos pedológicos e percepções relativas à interação do solo com os
demais componentes do ambiente, buscando conscientizar as pessoas da impor-
tância do solo, sendo um componente essencial do ambiente e para a vida, que
deve ser conservado e protegido da degradação (MUGGLER et al, 2006).
Lima (1999) apresentou uma experiência didático-pedagógica no ensino da pe-
dologia, em uma atividade interdisciplinar entre o curso de Geografia e as artes
plásticas. Foi desenvolvida a oficina “Aprendendo Pedologia com Arte” com os alu-
nos no curso de graduação em Geografia da Universidade Federal de Uberlândia
(MG), para abordar o assunto cor do solo. Inicialmente foi realizada aula teórica
sobre os constituintes minerais e os processos que dão cor ao solo, como interpre-
tar propriedades e processos no solo por meio da cor, e ainda conhecer as pinturas
rupestres e o trabalho de artistas plásticos modernos e contemporâneos que tra-
balharam e trabalham com têmperas feitas com pigmentos minerais do solo e das
rochas. Em seguida uma artista plástica falou sobre pintura com têmpera de pig-
mentos minerais. Os alunos buscaram solos com cores variadas e prepararam as

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 769
tintas e realizaram pinturas no papel. As pinturas foram apresentadas em painéis,
na exposição 1º Mostra de Arte “Pedologia – As cores do solo”. O interesse pela ofi-
cina foi tão grande que professores de escolas de 1o e 2o graus solicitaram a oficina.
A visualização de material expositivo, bem como o contato dos alunos com a
natureza é um instrumento didático de grande importância para a aprendizagem
e despertar da curiosidade.
A preocupação com o ambiente faz com que as instituições de ensino, pesquisa
e extensão busquem formas de sensibilizar as pessoas para o consumo consciente
e para a poluição ambiental. Nesse sentido, as crianças e jovens são as maiores
difusoras desse conhecimento e sensibilização das pessoas.
Embora as pessoas tenham a preocupação ambiental como parte do seu coti-
diano, a percepção do ambiente e seus componentes ainda é deficiente, especial-
mente no que se refere ao componente solo. Diante dessa deficiência da maioria
das pessoas frente ao solo, a educação se faz ainda mais necessária, no sentido de
se promover uma mudança de valores e atitudes. Isto se conquista por meio da
realização de trabalhos que buscam ampliar a percepção do solo como um com-
ponente essencial do meio natural e humano (MUGGLER et al, 2004a). Embora as
pessoas tenham preocupação com a preservação dos recursos naturais, poucas
conhecem a dinâmica desses recursos e as formas de preservá-los.
No sentido de auxiliar os professores do Ensino Fundamental a melhorar o ensi-
no de solos, uma das contribuições das Instituições de Ensino Superior é repensar
e redefinir o direcionamento no qual estão sendo formados os futuros professores,
que irão atuar no ensino relacionado ao ambiente, no qual inclui solo e água na
educação fundamental. Estas instituições também podem contribuir por meio de
ações como cursos e eventos de educação continuada, elaboração de publicações,
desenvolvimento de experiências, organização de exposições didáticas, e dispo-
nibilizando informações por meio da internet, dentre outras atividades (LIMA,
2005). Estas são algumas das contribuições que estão sendo propostas com este
projeto de extensão.
Corroborando com Lima (2005), Suzuki (2017) verificou que poucos cursos de
Licenciatura em Geografia possuem em seu currículo disciplinas na área de Ciência
do Solo, e o autor indicou a necessidade dos autores dos livros didáticos os elabo-
rarem em conjunto com as instituições de ensino superior, especificamente com
grupos de trabalho relacionados aos assuntos de Ciência do Solo abordados nos
livros.
Diante do exposto, reflete-se a necessidade de novas e criativas abordagens
da Educação Ambiental nas escolas e para a sociedade, e o solo é um recurso que
pode ser utilizado com este intuito, pois é um recurso visível a todos e de uso e
importância para toda a sociedade.
Em termos de possibilidade de impacto e abrangência deste projeto, o municí-
pio de Pelotas está localizado na região sul do Rio Grande do Sul, com uma popu-
lação registrada no último censo, em 2010, pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Ge-
ografia e Estatística (2019), de 328.275 habitantes. Segundo dados do INEP (2019),
em 2018, o município possuía 2.313 docentes no ensino fundamental e 1.050 no
ensino médio, havendo 38.622 matrículas no ensino fundamental e 10.309 no en-
sino médio. Há no município 129 estabelecimentos de ensino fundamental e 36
de nível médio, além de quatro instituições de ensino superior, duas públicas (Uni-
versidade Federal de Pelotas e Instituo Federal Sul-Rio-Grandense) e duas insti-
tuições particulares (Universidade Católica de Pelotas e Faculdade Anhanguera).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 770
Além desta amplitude e diversidade educacional, o município também conta
com uma riqueza natural, através dos recursos hídricos e pela diversidade de so-
los, o que confere ao município uma importância agrícola, com diversidade de uso
do solo e dos recursos hídricos.

Recursos didáticos e propostas de atividades


Ao longo do período de desenvolvimento do projeto de extensão “O solo e a
água como ferramenta para a educação ambiental” alguns recursos didáticos fo-
ram produzidos, e ainda continuam mesmo o projeto tendo sido finalizado em
2015.
A proposta de desenvolvimento destes recursos era que fosse de baixo custo,
lúdico, que despertasse a curiosidade, que entusiasmasse quem estivesse utilizan-
do o recurso e que pudesse contribuir com o ensino e desenvolvimento de habili-
dades.
Quatro vídeos foram criados junto ao projeto, com os seguintes temas e obje-
tivos:
- Infiltração e retenção de água no solo: demonstrar a retenção e a infiltração
de água no solo, utilizando garrafas PET como principal material para montagem
do experimento.
- Erosão do solo: parcelas de perda de solo foram montadas para mostrar as fa-
ses da erosão (impacto, desagregação, transporte e deposição) e a importância da
cobertura vegetal na redução da erosão e aumento da infiltração de água no solo.
- Ciclo hidrológico: maquetes didáticas foram criadas para representar parte
do ciclo hidrológico, especialmente para tratar das questões de cobertura vegetal
e técnicas de conservação do solo e da água.
- 15 de abril – Dia Nacional da Conservação do Solo: foi elaborado um vídeo
para mostrar a importância da data.

Além dos vídeos, duas maquetes foram confeccionadas, uma representando


uma área urbana dividida em duas partes, uma parte com o solo totalmente im-
permeabilizado por construções e asfalto e a outra com vegetação e menor imper-
meabilização; uma outra maquete representando uma área rural, também dividi-
da em duas partes, um lado com o solo exposto e a vegetação queimada, e o outro
lado com práticas de conservação do solo e da água (Fig. 1).
As duas maquetes foram confeccionadas com material de baixo custo como
isopor, caixa de leite tipo tetra pak, palitos de sorvete e churrasco e tinta de tecido.
Por serem construídas com material reciclável, as maquetes podem ser molha-
das e secas para serem utilizadas novamente.
Após a montagem das maquetes, despeja-se água sobre elas utilizando um irri-
gador e observam-se as diferenças na retenção, infiltração e escoamento de água
e sedimentos nas maquetes, em função dos diferentes usos.
A partir desta atividade, pode-se questionar os alunos sobre a importância da
vegetação em áreas urbanas e rurais, os problemas que podem ocorrer em cidades
impermeabilizadas, os problemas das queimadas e desmatamentos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 771
Figura 1 – Maquetes
representando
uma área urbana
com o solo
impermeabilizado
por construções e
asfalto (1a) e outro
lado da maquete com
vegetação e menor
impermeabilização
(1b); e outra maquete
representando uma (1a) (1b)
área rural, com o
solo exposto e a
vegetação queimada
(1c), e o outro
lado da maquete
com práticas de
conservação do solo
e da água (1d).
Fonte: Fotografias
de Luis Eduardo A. S.
Suzuki.
(1c) (1d)

Também foram desenvolvidos alguns recursos e propostas de atividades para


os seguintes temas:

- Origem do solo: a proposta para este tema é discutir a formação do solo e as


diferentes características do solo formado.
Nesta atividade, propõe-se aos alunos que eles tragam na próxima aula diferen-
tes rochas. Na aula seguinte, de posse das rochas, realiza-se uma saída de campo
com os alunos para que eles observem os diferentes solos existentes no ambiente
e que anotem o solo que se assemelha àquele de onde eles coletaram as rochas.
Ao visualizar o solo no campo, abre-se uma pequena trincheira e avalia-se com
os alunos a presença de rochas, a textura do solo, a cor do solo, a umidade e o tipo
de vegetação sobre ele.
Em sala de aula, questione os alunos sobre a origem do solo, como surge o solo,
as rochas e os diferentes solos formados, as diferentes vegetações presentes em
cada solo.

- O solo vira arte: nesta atividade, o objetivo é trabalhar as diferentes cores e


texturas do solo para fazer desenhos e esculturas, para despertar a curiosidade do
motivo para as diferentes cores e texturas do solo.
Propõe-se o uso de solos com diferentes cores e texturas para fazer arte, por
exemplo, pinturas e esculturas.
Ao trabalhar os diferentes solos, será percebido que eles possuem diferentes
cores e que alguns materiais são possíveis de serem moldados e modelados.
Pode-se desenvolver ainda nesta atividade os sentidos, especialmente o tato
ao tocar o solo e sentir as diferentes texturas, e a visão ao identificar as diferentes
cores do solo.
A partir desta atividade, pode-se questionar o motivo de o solo possuir dife-
rentes cores, o fato de alguns materiais serem moldados e modelados com mais
facilidade, enquanto outros são mais difíceis ou não se consegue modelar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 772
- O som que vem da terra: aqui pode-se trabalhar a textura do solo e os diver-
sos sons resultantes dos diferentes tamanhos das partículas do solo.
Indica-se o uso de solos úmidos com diferentes texturas (de argiloso a arenoso,
pode-se inclusive utilizar areias de diferentes granulometrias) para serem tocados
e sentir as diferenças em relação à pegajosidade, moldabilidade, aspereza e se-
dosidade. Cada solo, após ser seco ao ar, deve ser colocado em latas de alumínio
(latas de refrigerante) para se relacionar o som do atrito do solo com a lata e a sua
textura.
Será possível perceber que em função de sua textura, o solo gera diferentes
sons, podendo-se inclusive fazer música.
Pode-se desenvolver aqui principalmente o tato ao tocar o solo e sentir as dife-
rentes texturas, a visão ao identificar as diferentes cores e granulometrias do solo,
a audição ao escutar os diferentes sons gerados de acordo com a textura do solo.
A partir desta ação, pode-se questionar o motivo de o solo possuir diferentes
texturas, a sensação sentida para cada solo ao tocá-lo e o motivo dos diferentes
sons impressos pelos diferentes solos. Esta atividade pode despertar no aluno a
sua sensibilidade, especialmente o tato e audição e a relação com a visão.

- Vida no solo: a proposta aqui é discutir os organismos presentes no solo e suas


funções.
Indica-se nesta atividade uma saída de campo com os alunos e coleta de solo
em uma área de mata, campo nativo, pastagem ou qualquer área que possua ve-
getação.
No campo, deve-se abrir uma trincheira e observar as cores do solo na sua su-
perfície e nas camadas mais profundas, bem como verificar a presença de organis-
mos, raízes e a porosidade do solo.
Coleta-se o solo por camadas, separando-as em função das cores e armazenan-
do-as em sacos plásticos e identificando a camada coletada. Se possível, durante a
coleta mantenha os agregados do solo com sua estrutura preservada para que no
laboratório ou na sala de aula os alunos possam observar a porosidade do solo, as
raízes e os organismos.
Com esta atividade pode-se indagar sobre a cor escura do solo na superfície,
os tipos de organismos encontrados no solo, os tipos de poros (diâmetro, compri-
mento e continuidade), a importância dos organismos no solo, a função das raízes
e das plantas para o solo, a matéria orgânica.

- Decomposição dos resíduos: nesta ação propõe-se trabalhar a decomposi-


ção dos resíduos vegetais e não vegetais, relacionando o tipo de resíduo e o tem-
po de decomposição, bem como a importância dos organismos na decomposição
desses resíduos.
Para esta atividade deve-se coletar folhas de diferentes plantas e em diferentes
estágios de decomposição, observando-se as partes da folha que são decompos-
tas primeiro bem como o tempo que leva para cada folha ser decomposta. Tam-
bém pode-se colocar papéis, plásticos e resíduos orgânicos misturados ao solo e
ver o tempo de decomposição de cada material.
Pode-se questionar sobre a importância dos organismos na decomposição dos
resíduos, a importância do descarte adequado de resíduos, o motivo da facilidade
ou dificuldade de decomposição dos diferentes resíduos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 773
- O solo e a esponja: neste item trabalham-se algumas funções do solo como a
retenção e infiltração de água e a aeração, ao comparar o solo com uma esponja.
Mergulha-se uma esponja em uma vasilha com água, ao elevar a esponja da
vasilha com água, parte da água vai infiltrar dos poros da esponja, principalmen-
te dos poros maiores responsáveis pela infiltração de água no solo e aeração. Ao
cessar a saída de água da esponja, deve-se apertá-la de modo que mais água seja
expulsa. Esta água retirada estava em poros menores, e é a água que fica retida
no solo para que a planta possa utilizar. Ainda restará água na esponja, mas é uma
água que a planta não consegue utilizar, pois ela está fortemente aderida às par-
tículas do solo.
Estimula-se o aluno, com esta atividade, a ver o solo como um sistema poroso,
responsável pelo armazenamento de água para as plantas, recarga de águas sub-
superficiais pela infiltração da água, e a atuação do solo como um filtro, podendo
reter materiais que podem contaminar as águas.
Questione o aluno sobre o caminho da água das chuvas quando chega ao solo,
para onde vai a água que infiltra no solo, o motivo de alagamentos em algumas
áreas, como a água fica retida no solo e os processos envolvidos na sua infiltração.

- Infiltração e retenção de água no solo: o objetivo é demonstrar o volume de


água que infiltra e que fica retido em solos com diferentes texturas.
Corta-se a base de duas garrafas PET, amarrando-se um tecido no bico da gar-
rafa e preenchendo uma garrafa com solo arenoso e a outra com solo argiloso.
Outras duas garrafas devem ser cortadas ao meio, pois servirão de suporte para
as garrafas que receberam o solo. Após preparar o material, coloca-se o mesmo
volume de água para os dois solos e observa-se a infiltração de água. Após cessar a
infiltração, colete a água retida nas garrafas utilizadas para suporte e quantifique
o volume infiltrado em cada solo.
Estimula-se com esta atividade o aluno a pensar a infiltração e a retenção de
água para os diferentes solos, a sua porosidade.
Pode-se questionar o aluno sobre qual o volume de água retido e o volume de
água que infiltrou em cada solo, fazendo com que ele calcule esses volumes e pen-
se a respeito dessas diferenças.

- Erosão do solo: a proposta é demonstrar o processo de erosão do solo, enfati-


zando os diferentes usos do solo, a necessidade de cobertura vegetal sobre o solo
e os danos que a erosão pode causar ao ambiente.
Para realizar esta atividade deve-se adquirir duas jardineiras de plástico, com
aproximadamente 20 cm de largura x 50 cm de comprimento x 20 cm de altura. Em
uma das pontas da jardineira deve-se fazer um furo na base, de aproximadamente
1 cm de diâmetro, onde deve-se colocar uma mangueira conectada a este furo que
servirá para passagem da água que infiltra no solo. Dentro da jardineira coloca-
-se uma camada de aproximadamente 5 cm de brita e acima dessa camada uma
tela mosquiteiro ou tecido voal. Acima da tela ou tecido coloca-se uma camada de
aproximadamente 15 cm de solo ou areia. Em uma das jardineiras pode-se colocar
palha sobre o solo, enquanto na outra jardineira o solo fica descoberto. Após o
preparo das jardineiras, deve-se colocar um apoio embaixo da sua extremidade
oposta onde foi colocada a mangueira, para que elas tenham uma declividade.
Em seguida, deve-se despejar água com um regador em cima das jardineiras,
observando-se a infiltração de água e o processo de erosão em função da presença
e ausência de palha, bem como as fases do processo erosivo (impacto, desagrega-
ção, transporte e deposição).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 774
Questione sobre como ocorre a erosão e seus impactos ao ambiente, as práti-
cas de conservação do solo e da água para evitar a erosão.

- O solo e seus usos: trabalha-se com os alunos a percepção deles sobre os di-
ferentes usos e importância do solo, como para a construção, agrícola, descarte de
resíduos, praças e jardins, por exemplo.
Pode-se dar uma caminhada com os alunos nas proximidades da escola e até
mesmo dentro da escola, para que eles possam observar os usos do solo. Se possí-
vel, deve-se procurar solos com uso agrícola (uma horta, por exemplo), solos com
construções, praças e jardins. Além de observar, pode-se abrir trincheiras nesses
locais e verificar as diferenças nas características dos solos.
A partir da caminhada, pode-se questionar os alunos sobre a importância do
solo e seus diversos usos.

Além destes recursos didáticos, jogos foram criados com o uso de material re-
ciclável sem o intuito de trabalhar especificamente o solo, mas em atividades vin-
culadas, por exemplo, ao meio ambiente, a matemática e ao desenvolvimento de
habilidades cognitivas, memória e concentração, dentre outras.
Os materiais produzidos foram o jogo de damas, caça-palavras, cai não cai, do-
minó matemático, hexágono e triângulo matemático (Fig. 2).

(a) (b)

Figura 2 – Jogos (c) (d)


produzidos com
materiais recicláveis:
jogo de damas (a),
caça-palavras (b),
dominó matemático
(c), cai não cai (d),
hexágono (e) e
triângulo matemático
(f).
Fonte: Fotografias
de Luis Eduardo A.S. (e) (f)
Suzuki.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 775
Espaço solo e água
Com o intuito de divulgar os recursos didáticos produzidos e as atividades pro-
postas para o ensino de assuntos relacionados ao solo e água, foi criado em 2011 o
site denominado “Espaço Solo e Água” ([Link]/soloeagua) (Fig. 3).
Através do site, busca-se abranger um maior número de pessoas para se di-
vulgar as atividades realizadas. De 24 de março até 24 de outubro de 2019, o site
recebeu 4.673 visualizações, sendo 705 nos últimos 30 dias deste período.

Figura 3 – Página
principal do site
“Espaço solo e água”
([Link]/
soloeagua).
Fonte: imagem do
projeto.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 776
O espaço foi inspirado nas iniciativas de outras instituições como o “Museu de
Ciências da Terra Alexis Dorofeef” ([Link] da Universidade Fe-
deral de Viçosa, o “Museu de Solos do Rio Grande do Sul” ([Link]
[Link]) e o “Projeto Solo na Escola” ([Link]
html) da Universidade Federal do Paraná.
Neste site são apresentadas imagens dos recursos didáticos produzidos e um
roteiro de como confeccioná-los e de que forma eles podem ser trabalhados pelos
professores.
No site, além dos recursos didáticos, também são disponibilizadas as provas
do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio com as questões relacionadas es-
pecificamente ao solo e água e publicações de trabalhos sobre o ensino de solos
desenvolvidos por integrantes deste espaço.
Figura 4 – Imagens
de desenhos feitos
A disponibilização no site das questões do ENEM sobre solo e água tem o pro-
com colagem de solo pósito de reforçar a importância deste tema no ensino, e a necessidade de os pro-
por alunos do ensino fessores fazerem uma abordagem maior, diversificada e aprofundada sobre solo e
fundamental. água junto aos alunos.
Fonte: Fotografias Em 2014, o “Espaço Solo e Água” foi reconhecido como um dos 30 espaços de
de Luis Eduardo A.S. educação em solos e divulgação da Ciência do solo no Brasil (MUGGLER, 2014).
Suzuki.

Uso dos recursos didáticos


Alguns dos recursos didáticos produzidos foram utilizados
para desenvolvimento de atividades em escolas no municí-
pio de Pelotas e Canguçu com alunos do ensino fundamental,
e em cursos para profissionais da área de extensão rural de
Pelotas e região. Também estão sendo utilizados para o ensi-
no de graduação e pós-graduação de cursos da Universidade
Federal de Pelotas.
Alguns dos recursos didáticos elaborados podem ser uti-
lizados para os diferentes públicos (estudantes do ensino
fundamental, do segundo grau, do ensino superior e público
em geral), sendo necessário basicamente uma mudança de
linguagem para adaptar seu uso para públicos e objetivos es-
pecíficos.
Nas ações para alunos do ensino fundamental, cada cola-
borador do projeto ficava responsável por alguma atividade
específica, e os alunos eram divididos em grupos para serem
auxiliados pelo colaborador do projeto na atividade, e ao tér-
mino de cada atividade os grupos se revezavam nas atividades.
Os colaboradores do projeto, que auxiliavam no desenvol-
vimento das atividades e na criação dos recursos didáticos,
eram alunos de graduação dos cursos de Engenharia Hídri-
ca, Engenharia Agrícola e Agronomia e do Programa de Pós-
-graduação em Recursos Hídricos, da Universidade Federal
de Pelotas.
A figura 4 mostra alguns produtos gerados da atividade “O
solo vira arte”, realizada com alunos do ensino fundamental.
Relatando as ações realizadas com alunos do ensino fun-
damental, em cada atividade era possível identificar a alegria
e o entusiasmo dos alunos e dos colaboradores do projeto.
Para os alunos, o olhar curioso de algumas atividades era es-
tímulo para eles interagirem, para saberem o que encontra-
riam naquele momento.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 777
Considerações
O desenvolvimento deste projeto tem sido enriquecedor para seus colaborado-
res, por desenvolver e estimular a criatividade na geração de recursos didáticos de
baixo custo e em atividades que sejam atrativas e estimulantes, pela necessidade
de alunos de graduação e pós-graduação terem que trabalhar uma linguagem di-
recionada para públicos e objetivos específicos na execução do projeto, além de
ver o sorriso e a curiosidade dos alunos nas escolas onde o projeto foi apresentado.
A disponibilidade no site “Espaço solo e água” ([Link]/soloeagua) dos
recursos didáticos desenvolvidos e da forma com que eles podem ser utilizados
em atividades de ensino, parece contribuir para sua disseminação, considerando o
número de acessos no site.
Não foi mensurado ao longo de execução do projeto o quanto estas atividades
tem contribuído com o ensino, a criatividade, a concentração, o raciocínio lógi-
co e outras habilidades dos alunos que tem participado do projeto nas escolas,
e realmente seria difícil fazer esta avaliação no momento das atividades, consi-
derando que o conhecimento e habilidades adquiridas deveriam ser avaliadas ao
longo do tempo, pois assim como este conhecimento e habilidades que buscou-se
desenvolver nas atividades propostas, se somam a outros já adquiridos pelo aluno
e que ele ainda virá a adquirir ao longo de sua trajetória. Estas atividades deveriam
permanecer na formação do indivíduo e na sua bagagem de conhecimento, con-
tribuindo para sua cultura, sua criatividade, suas habilidades, e não de forma mo-
mentânea, mas, espera-se que este jeito de “aprender brincando” seja uma forma
efetiva de contribuir para os alunos se apoderarem dos conhecimentos e desen-
volvimento de habilidades, e que isto se reflita em ações positivas em suas vidas.

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Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2017.

Agradecimentos

Aos demais colaboradores do projeto de extensão “O solo e a água como ferramenta para
a educação ambiental”, às escolas que permitiram a apresentação deste projeto de extensão aos
seus alunos e aos professores que nos receberam com todo o respeito e carinho.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 779
SOBRE OS AUTORES
Luis Eduardo Akiyoshi Sanches William Roger da Silva Almeida,
Suzuki, graduado em Engenharia Agro- graduado em Engenharia Hídrica pela
nômica pela UNESP, licenciado em Ge- UFPel. Vinculado ao projeto desde no-
ografia pela UFPel. Doutor em Enge- vembro/2013. E-mail: willrogerall@
nharia Florestal pela UFSM. Professor [Link]
Associado do Centro de Desenvolvi-
mento Tecnológico da UFPel. Coorde- Rodrigo de Lima do Amaral, gradu-
nador do projeto desde 01/04/2011. ado em Engenharia Hídrica pela UFPel.
E-mail: dusuzuki@[Link] Vinculado ao projeto desde novem-
bro/2013. E-mail: rodrigo_do_amaral@
Luciana da Silva Corrêa Lima, gra- [Link]
duada em Engenharia Agrícola pela
UFPel. Mestranda no Programa de Mariana Fernandes Ramos, gradu-
Pós-Graduação em Ciência do Solo ada em Tecnologia em Gestão Ambien-
da UFRGS. Vinculada ao projeto des- tal pelo IF Sul-Rio-Grandense. Mestre
de abril/2011. E-mail: limaluciana@ em Recursos Hídricos pela UFPel. Vin-
[Link] culada ao projeto desde março/2014.
E-mail: [Link]@gmail.
Gilberto Strieder, graduado em En- com
genharia Agrícola pela UFPel. Vincula-
do ao projeto desde abril/2011. E-mail:
gilstrieder@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº2 780
MEDIAÇÃO DE CONHECIMENTOS
DE QUÍMICA ASSOCIADOS AO
COTIDIANO ATRAVÉS DAS AÇÕES DE
EXTENSÃO DO PROJETO TRANSFERE

Aline Joana Rolina Wohlmuth Alves dos Santos


Fábio André Sangiogo
Charlene Barbosa de Paula
Leandro Lampe
Letícia Leal Moreira
Vitória Schiavon da Silva

O projeto TRANSFERE e sua trajetória temporal


da mediação de conhecimentos
O desenvolvimento de metodologias, de propostas inovadoras, e até mesmo
de recursos educacionais pelas instituições de ensino está muitas vezes atrelado a
projetos de ensino, pesquisa e extensão. O projeto de extensão TRANSFERE - Me-
diação de conhecimentos químicos entre universidade e comunidades, registrado
TECNOLOGIA E PRODUÇÃO Nº3

no Centro de Ciências Químicas Farmacêuticas e de Alimentos (CCQFA) da Univer-


sidade Federal de Pelotas (UFPel), não é diferente, pois, desde sua origem, busca
contribuir para o processo de ensino e aprendizagem do público-alvo (a comuni-
dade em geral), em processos de mediação que interrelacionam conhecimentos
científicos e do cotidiano (LOPES, 1999). Nas interrelações entre a química e o co-
tidiano, busca-se contribuir na formação de sujeitos que produzam novos conhe-
cimentos, na formação para cidadania e que, segundo Santos e Schnetzler (1997),
se refere à participação dos indivíduos na sociedade, torna-se evidente
que, para o cidadão efetivar a sua participação comunitária, é necessá-
rio que ele disponha de informações. Tais informações são aquelas que
estão diretamente vinculadas aos problemas sociais que afetam o cida-
dão, os quais exigem um posicionamento quanto ao encaminhamento
de suas soluções (p. 47).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 781


Este projeto teve origem no ano de 2011 com o registro na UFPel através do
código DIPLAN/PREC 50910012, e tinha duas propostas de ação: uma centrada em
comunidades escolares, juntamente com o PIBID (Programa de Iniciação à Docên-
cia); e outra proposta relacionada à interação a comunidades de economia solidá-
ria, que são voltadas a atividades econômicas de autogestão na forma de coope-
rativas, associações, clube de trocas, redes de cooperação, etc, com foco no traba-
lho, inclusão social e consumo solidário. Neste ano foi criado um logotipo para o
projeto, que consta em todas as publicações e materiais didáticos produzidos.
No ano de 2013 a equipe atuou com quatro bolsistas no âmbito do Programa de
Bolsas de Extensão e Cultura (PROBEC) - Modalidade Demanda Anual, da Pró-Rei-
toria de Extensão e Cultura (PREC/UFPEL), sendo dois bolsistas destinados às co-
munidades escolares e dois às comunidades de economia solidária. Ainda no ano
de 2013, o projeto foi contemplado por uma chamada pública denominada “Meni-
nas e Jovens Fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação”, apresentado
pelo edital do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/420134/2013-1)), da
Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) e
do Petróleo Brasileiro (Petrobras). Assim, a partir de 2014, o foco do projeto pas-
sou a ser as comunidades escolares públicas de Ensino Médio de Pelotas, num pri-
meiro momento centrado nas meninas, como determinava a política de inclusão
de meninas na ciência. O edital objetivava selecionar e financiar projetos que vi-
sassem contribuir no desenvolvimento científico, tecnológico e inovação do País,
com a finalidade de ampliar o número de estudantes do sexo feminino nas carrei-
ras de ciências exatas, engenharias e computação (PRETO, 2016). O financiamen-
to obtido pelo CNPq permitiu a concessão de bolsas de iniciação científica para
quatro estudantes do Ensino Médio, um professor de Química do Ensino Médio e
um graduando em Química da UFPel entre os anos 2014 e 2015. Assim, além dos
professores de Química da Universidade e da Escola e dos estudantes de gradu-
ação (bolsista e voluntários), o projeto contou com a participação de quatro es-
tudantes de nível médio, que colaboraram na elaboração e desenvolvimento das
ações extensionistas.
Em 2014 as ações do projeto estavam voltadas para comunidade escolar e co-
munidade de economia solidária, sendo que duas bolsas PROBEC/UFPel foram
destinadas para as comunidades solidárias e as demais bolsas CNPq mantiveram-
-se na comunidade escolar. O apoio da UFPel em relação à concessão das bolsas
acadêmicas para atuação nos projetos de extensão sempre mereceu destaque,
haja vista a importância dada pela Instituição, ao investir e incentivar as ações ex-
tensionistas de benefício às comunidades e de formação cidadã dos seus graduan-
dos. Desse modo, nota-se a ampliação do projeto na comunidade escolar, com os
apoios financeiros da UFPel e CNPq. Com equipe de trabalho ampliada, pode-se
destacar a atuação ativa das bolsistas nas ações extensionistas e, além disso, ini-
ciou-se a criação de um site, de modo que as atividades realizadas, bem como ma-
teriais produzidos, pudessem ser divulgados, alcançando assim, um público ainda
mais expressivo, além da comunidade escolar, uma vez que os temas abordados
nas ações extensionistas tinham relação com o cotidiano, podendo ser de interes-
se de outros públicos. Ao término da vigência das bolsas do CNPq, no final do ano
de 2014 as estudantes e o professor da Escola manifestaram interesse em perma-
necer no projeto, sendo que as estudantes permaneceram no projeto até o final de
2015, quando concluíram o Ensino Médio e o professor permanece como membro
da equipe até a atualidade.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 782
No ano de 2015 o projeto seguiu com o bolsista de graduação do CNPq até ju-
lho daquele ano, bem como com o apoio da UFPel pela concessão de duas bolsas
de extensão, sendo um bolsista destinado à comunidade solidária e o outro à co-
munidade escolar. Neste ano, intensificou-se o uso das mídias eletrônicas, com a
divulgação do site [Link] e de seu
QRcode, da página do Facebook®, pesquisando por @projetotransfere, e um ví-
deo de depoimentos de ex-bolsistas sobre as ações do projeto no âmbito escolar
publicado no youtube, [Link] Ainda no ano de 2015, a re-
vista “Em Pauta” da UFPel divulgou uma notícia sobre o projeto, que proporcionou
maior visibilidade das ações do TRANSFERE dentro do âmbito da UFPel, http://
[Link]/?cat=[Link] ações deste ano, e dali em diante, foram reali-
zadas com a presença de estudantes de ensino médio atuando de forma voluntá-
ria na equipe de trabalho, completando uma equipe formada por integrantes de
diversos níveis de formação, professores da escola e da universidade, graduandos
e estudantes da escola.
No ano de 2016 o projeto iniciou seu foco apenas em comunidades escolares,
na tentativa de qualificar metodologias e ampliar o público atendido por meio
da inserção de outras comunidades escolares, com a contribuição de duas bolsas
PROBEC/UFPel. Neste ano, com a conclusão do Ensino Médio das estudantes e
com a ciência da importância da participação de estudantes da escola no projeto,
realizou-se uma ampla divulgação na busca por voluntários, e dois estudantes do
1º ano do Ensino Médio manifestaram interesse e passaram a integrar a equipe do
projeto, participando do planejamento e desenvolvimento das ações extensionis-
tas. Um destes estudantes permaneceu por três anos como voluntário do projeto,
e ao finalizar o Ensino Médio (em 2018), relatou ter adquirido experiência em ações
de extensão, amadurecimento e contato com o ambiente acadêmico através da
interação direta com os professores e graduandos em Química, na interação uni-
versidade-escola. No ano de 2019, este estudante ingressou através do Programa
de Avaliação da Vida escolar (PAVE/UFPel) no curso de Ciências Biológicas, onde
segue seus estudos como graduando. O acompanhamento durante 03 anos foi de
grande valia ao projeto TRANSFERE, considerado como uma vitória de persistên-
cia do estudante que usufruiu de todos recursos disponíveis na Escola, no objetivo
de se tornar um graduando, na busca pelo “sonho” de ser universitário. Nessa re-
alização, o projeto TRANSFERE estava lá, presente, na Escola, atuante e recep-
tivo a auxiliar o público alvo, estudantes, professores e comunidade escolar em
geral. Outro ponto de destaque no ano de 2016 foi a produção de um Trabalho de
Conclusão de Curso (TCC) na Licenciatura em Química da UFPel, sendo resultado
de pesquisa e atividades de extensão realizados por uma bolsista de graduação
entre os anos de 2013 a 2016. O TCC foi intitulado “O estudo e viabilidade dos Três
Momentos Pedagógicos na implementação de oficinas em aulas de Química do
Ensino Médio”, disponível através do link [Link]
No ano de 2017, o projeto foi registrado no sistema da UFPel sob o código 178,
e atuou com a presença de apenas um bolsista de Programa de Bolsas Acadêmicas
da UFPel (PBA/UFPel). Neste ano, foi realizado um trabalho de intensificação na
divulgação das ações através das mídias eletrônicas.
No ano de 2018, o projeto TRANSFERE passou a contar com a colaboração de
outro projeto de extensão intitulado “Site do projeto TRANSFERE”, registrado sob
o código 349, sendo que neste ano os dois projetos atuaram conjuntamente com a
presença de dois bolsistas PBA/UFPel e em parceria com o projeto de ensino “Qui-
Co - Estratégias de ensino e aprendizagem para Química do Cotidiano”, registrado

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 783
sob o código 1702018. Com a atuação em parceria, a ampliação das comunidades
escolares atendidas foi possível, passando de uma a duas comunidades atendidas,
conforme previsto em 2016.
Neste ano de 2019, a equipe de trabalho segue com a atuação ativa de um bol-
sista PBA/UFPel e com a parceria dos projetos QuiCo e Site do projeto Transfere,
em atuação em três comunidades escolares públicas de Ensino Médio de Pelo-
tas. Atualmente, desde o início de 2019, o projeto conta com a participação de
outras duas estudantes de Ensino Médio, visto a conclusão do Ensino Médio do
estudante voluntário que atuava desde 2016 e seu ingresso na UFPel através do
PAVE para o curso de Bacharelado em Ciências Biológicas. Estas estudantes são
ativas e participativas no planejamento e execução das atividades de extensão na
Escola onde estudam, sendo que já confeccionaram uma nova oficina intitulada
“A Química presente no funcionamento das pilhas” que será implementada em
novembro deste ano, confeccionaram um frasco coletor de pilhas apelidado de
“papa-pilhas”, instituindo uma rotina de coleta de pilhas na Escola e entrega nos
pontos de coleta autorizados e, por iniciativa própria, desenharam representantes
para o projeto, que mostram a inclusão de jovens empoderados no mundo cien-
tífico. A figura 1 destaca o talento para o desenho das estudantes voluntárias do
projeto neste ano de 2019, valorizando uma iniciativa delas, com destaque para o
peito dos personagens com o logo do projeto TRANSFERE.
Figura 1 - Da
esquerda para
a direita: jovens
personagens;
logotipo criado em
2011; QRcode com
link direto para
o site do projeto
TRANSFERE.
Fonte: Acervo do
Projeto.

Nestes anos de atuação, o projeto exerceu ações com base no trabalho de bol-
sistas, professores colaboradores, graduandos voluntários e estudantes volun-
tários das Escolas e a equipe TRANSFERE segue atuando ativamente em ações
de extensão, com foco na qualidade das ações extensionistas, além de atuar na
produção de materiais didáticos, textos, trabalhos e artigos, além de um trabalho
intenso na divulgação de todos os resultados através das mídias eletrônicas com
vistas a ampliar e diversificar o acesso ao público alvo. O site é a principal porta
de acesso do projeto ao público, onde constam informações sobre o projeto, bem
como todas as produções de trabalhos e materiais didáticos, que podem servir
como consulta a estudantes, professores e público em geral interessado no estudo
de temas de química associados ao cotidiano. Diante do exposto, o texto objetiva
apresentar ações de extensão provenientes de desdobramentos de atividades que
focam o contexto escolar, uma vez que estas ações são integrantes do projeto des-
de a sua origem em 2011.

Química no cotidiano
No âmbito escolar, as ações extensionistas mencionadas ao longo da descrição
da trajetória do projeto, referem-se às oficinas temáticas elaboradas e desenvol-
vidas pela equipe de trabalho. Essas oficinas, que emergem da necessidade e da

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 784
demanda das comunidades escolares nas quais o projeto está inserido, buscam
promover uma relação entre conhecimentos Químicos e o cotidiano dos estudan-
tes. Ao tratar do termo “oficina”, entendemos que ela consiste em uma maneira
de organizar e apresentar as atividades, e assumimos os referenciais de Paviani e
Fontana (2009), que entendem as oficinas como uma forma de construir conheci-
mento, com ênfase na ação, sem perder de vista, porém, a base teórica.
Por se tratarem de ações que envolvam o processo de ensino e aprendizagem
na e da escola, o projeto sempre buscou ampliar seus conhecimentos de modo
com que as oficinas promovessem um momento oportuno para ampliar conhe-
cimentos dos estudantes de nível médio. Desse modo, o projeto estrutura suas
oficinas com base na abordagem teórico metodológica dos Três Momentos Pe-
dagógicos de Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2002), que consiste: i) na Pro-
blematização Inicial, momento onde ocorre a problematização da situação a ser
estudada ou de outra situação que apresente relação com os conhecimentos que
serão abordados, busca-se fazer com que os estudantes notem a necessidade de
novos conhecimentos para a compreensão de determinada situação e/ou fenôme-
no; ii) na Organização do Conhecimento, momento em que são apresentados e
mediados os conhecimentos tidos como necessários para a compreensão do que
se vem abordando ao longo da atividade; e iii) na Aplicação do Conhecimento, mo-
mento em que se espera que os estudantes estejam aptos a “aplicarem” os conhe-
cimentos trabalhados, podendo ter relação ou não com a problematização inicial,
desde que tenha obrigatoriamente a relação com os conhecimentos estudados.
Seguindo os pressupostos apontados, até o presente momento foram elaboradas
e desenvolvidas em ambiente escolar as seis oficinas: Fogos de artifício; Gases no
cotidiano; Banho de sal grosso e o estudo de soluções; Elementos químicos nos
medicamentos; A química dos detergentes; e Aprendendo química a partir da chu-
va ácida. Sendo que todas estas oficinas e materiais didáticos produzidos encon-
tram-se disponíveis para download em [Link]
totransfere/oficinas.
Todas as oficinas têm seu foco na inter-relação da Química com o Cotidiano,
na tentativa de aproximação de saberes entre as comunidades e aprimoramento
de aprendizados. De acordo com Pazinato e Braibante (2014), o desenvolvimento
de uma oficina temática fundamentada nos três momentos pedagógicos surge da
necessidade de associação entre o cotidiano e os conceitos desenvolvidos em sala
de aula que, conforme os autores, é um dos atuais desafios do ensino de Química
e tem suscitado muitas pesquisas nessa área.
Ao longo da trajetória do projeto TRANSFERE, sempre esteve presente a pre-
ocupação da análise e da reflexão das ações desenvolvidas, com o intuito de apri-
moramento das oficinas. Logo, o retorno do público alvo é algo muito importante,
acompanhado pela análise qualitativa de respostas dadas aos questionários e às
falas do público alvo durante as ações extensionistas.

Ações extensionistas
As oficinas temáticas nas escolas
O desenvolvimento de oficinas tem se mostrado de grande importância para as
comunidades assistidas, na comunidade escolar e na comunidade acadêmica, ser-
vindo como uma via de mão dupla para ambas entre espaços e sujeitos. Segundo
Paviani e Fontana (2009):

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 785
A oficina pedagógica atende, basicamente, a duas finalidades: (a) articu-
lação de conceitos, pressupostos e noções com ações concretas, viven-
ciadas pelo participante ou aprendiz; e b) vivência e execução de tarefas
em equipe, isto é, apropriação ou construção coletiva de saberes (p.78).

Logo, a oficina tende a proporcionar aprendizagens, não só para a comunidade


escolar, mas para a comunidade acadêmica, desde o momento em que a confec-
ção dos materiais é iniciada até a execução e avaliação da oficina. As oficinas no
ambiente escolar atuam como uma metodologia de ensino diferente da qual os
estudantes estão acostumados, o que pode ser considerado como um facilitador
para o processo de ensino e de aprendizagem, pois todas oficinas contam com um
momento de realização de algum experimento como forma de “aplicar” o conhe-
cimento que foi assimilado durante a oficina. De acordo com Souza (2013, p 13)
“A realização de experimentos em Ciências representa uma excelente ferramenta
para que o aluno concretize o conteúdo e possa estabelecer relação entre a teoria
e a prática”.
Nas oficinas desenvolvidas pelo projeto TRANSFERE, as quais seguem a aborda-
gem dos Três Momentos Pedagógicos (3MPs) descritos por de Delizoicov, Angotti
e Pernambuco (2002), contemplam, geralmente, no primeiro momento pedagó-
gico (1º MP), a entrega aos estudantes de um questionário inicial com perguntas
simples sobre o assunto a ser abordado, de maneira que instigue a compreensão
dos estudantes a respeito do tema. Neste momento ocorre diálogo entre a turma
e os graduandos, de forma a evidenciar os conhecimentos prévios dos estudan-
tes. No segundo momento pedagógico (2º MP), a equipe do projeto TRANSFERE
faz uso de apresentação de slides, bem como quadro negro para a explicação dos
conceitos teóricos, sempre destinando tempo para o diálogo no grupo. No tercei-
ro momento pedagógico (3º MP), os estudantes realizam uma atividade experi-
mental, colocando em prática o que aprenderam ao longo da oficina. Ainda neste
momento, como forma de finalização da oficina, é entregue aos estudantes um
questionário final, com perguntas que visam identificar indícios de aprendizagem,
bem como, as percepções dos estudantes em relação às oficinas. O questionário
não possui caráter avaliativo, ou seja, não é atribuída uma nota aos estudantes
a partir das respostas dadas ao questionário. Ele serve apenas como uma forma
de avaliação do desenvolvimento da oficina e da atuação da equipe do projeto
TRANSFERE. Assim, as respostas subsidiam discussões e reflexões acerca das
ações extensionistas, na identificação de contribuições da oficina para o público
alvo, e para auto-avaliação das ações.
As ações que o projeto TRANSFERE vêm desenvolvendo nas escolas têm se
mostrado de grande potencialidade, são bem aceitas por parte dos estudantes e
de toda a comunidade escolar, além de evidenciarem contribuições ao processo
de ensino e aprendizagem (SANTOS, LAMPE, SANGIOGO; 2019). Por vezes, as
respostas dadas pelos estudantes aos questionários são simplificadas e concisas,
no entanto é notória a identificação de indícios de aprendizagem vinculados à
compreensão de conceitos de Química relacionados ao tema abordado e sua re-
lação com o cotidiano. Um dos pontos destacados pelos estudantes é a grande
satisfação em realizar atividades nos laboratórios de química, bem como a reali-
zação de atividades experimentais, pois, de acordo com os relatos de estudantes,
a utilização do laboratório de química da escola é muito rara ou inexistente. Os
estudantes mencionam também o interesse em participar das oficinas, uma vez
que essas se diferem das aulas ministradas na rotina escolar.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 786
Nas escolas parceiras do projeto, existem vários fatores que tendem a limitar o
uso do laboratório de química na rotina escolar, como: a escassez de tempo para
o professor preparar uma aula com atividade experimental, a escassez de reagen-
tes ou vidrarias laboratoriais e, até mesmo, o fato das turmas apresentarem uma
quantidade grande de estudantes e o professor ter receio de levá-los ao laborató-
rio e acontecer algum acidente.
Figura 2 - Da esquer-
da para a direita as A figura 2 mostra o 1º MP de algumas oficinas temáticas realizadas nas três
oficinas: “Fogos de escolas públicas da cidade de Pelotas, sendo evidente o uso dos espaços escolares
Artifício”; “Banho de (Laboratório de Ciências) nas três escolas assistidas, para as atividades de exten-
Sal grosso e estudo são. A figura 3 evidencia a realização da parte experimental de três oficinas temá-
de soluções”;“Apren- ticas, durante o 3º MP. Este momento é o mais aguardado e considerado como o
dendo Química a par-
tir da Chuva Ácida”. mais interessante pelos estudantes de Ensino Médio. Em todas as oficinas o uso
de EPIs (jaleco e óculos) é incentivada para pelo menos um dos estudantes inte-
Fonte: Acervo do
Projeto.
grantes do grupo.

Figura 3 - Da
esquerda para a
direita, as oficinas Encontros semanais em ambiente escolar
destacando o livrinho
no canto direito A equipe TRANSFERE se reúne semanalmente durante o turno da tarde, sendo
inferior: “Banho esta equipe formada por estudantes de Ensino Médio voluntários do projeto, pro-
de sal grosso e fessores da Escola, professores da UFPel, bolsistas de projetos de extensão e de
estudo de soluções”; ensino e graduandos de Química da UFPel voluntários do projeto. As reuniões para
“Aprendendo
o planejamento e execução das atividades ocorrem semanalmente nas comuni-
Química a partir da
Chuva Ácida”; “Fogos dades assistidas, com ênfase no ambiente escolar de uma das escolas parceira do
de Artifício”. projeto. Essa rotina é mantida desde o início das ações na escola, em 2014. O uso
Fonte: Acervo do
dos espaços escolares é de extrema importância, pois o projeto visa dar autono-
Projeto. mia aos participantes, principalmente aos estudantes de Ensino Médio que atuam
como voluntários no projeto, de maneira que possam contribuir em todos os pro-
cessos de organização, desenvolvimento e execução das oficinas.
O tema das oficinas nas escolas é demanda da comunidade escolar, principal-
mente dos professores de Química da Escola. A primeira fonte de pesquisa sobre
os temas de química é feita nos livros da biblioteca da Escola, durante as reuniões

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 787
semanais ou através de busca na internet por artigos acadêmicos. Na sequência,
os materiais didáticos são produzidos para o tema escolhido, como por exemplo,
os livrinhos, que são livretos de bolso que contém o conteúdo teórico do tema
abordado, bem como a descrição da atividade experimental sobre aquele tema.
A produção do material didático, bem como da confecção do experimento, em
ambiente escolar, é muito válida, pois prioriza a interação de grupos com forma-
ção diferentes e a mediação de ideias e saberes. Já, no Laboratório de Ciências são
testados os experimentos a serem realizados nas oficinas, de modo que os estu-
dantes de Ensino médio que atuam como voluntários do projeto possam atuar em
todas as etapas que compreendem a oficina.
Os experimentos também são testados no Laboratório de Ensino de Química
– LABEQ no Campus Capão do Leão da UFPel, antes da realização das oficinas.
Além disso, reuniões semanais com a equipe de professores, graduandos e bolsis-
tas da Universidade também são realizadas na Universidade para traçar o planeja-
mento, para propor a organização e para atuar no sentido de promover a execução
das atividades nas Escolas. Geralmente as oficinas são apresentadas nas turmas
de Ensino Médio da primeira escola que instituiu parceria com o projeto, que é
a mesma escola onde as oficinas são planejadas e produzidas. Neste momento
os estudantes de ensino médio que atuam como voluntários do projeto também
participam da execução da oficina, o que causa grande curiosidade e interesse dos
demais estudantes ao verem suas colegas atuando como mediadores na oficina,
motivando-os a conhecer mais sobre o projeto TRANSFERE e, talvez, a integrar a
equipe.

Confecção de materiais didáticos


Para o desenvolvimento das oficinas é imprescindível o apoio de materiais didá-
ticos, planejados e confeccionados pelos estudantes de Ensino Médio que atuam
como voluntários do projeto e pelos graduandos em Química da Universidade, sob
orientação dos professores. Acredita-se que o material serve de apoio ao processo
de ensino e aprendizagem, uma vez que os estudantes passam a ter um material
de consulta no estudo do tema abordado em cada oficina. Na interpretação de
Longo (2012):
a utilização de materiais didáticos como prática de ensino se faz presente
por ser facilitadora do aprendizado e da compreensão do conteúdo de
forma lúdica, motivadora e divertida, possibilitando uma estreita relação
dos conteúdos aprendidos com a vida cotidiana, tornando os alunos mais
competentes na elaboração de respostas criativas e eficazes para resol-
ver problemas. (p.130).

Por este motivo, na construção do livrinho e dos slides, os conceitos são abor-
dados de uma forma mais descontraída, mas com conceitos abordados durante a
oficina. Os estudantes podem fazer uso do livrinho em outros momentos, como
durante as aulas regulares e os slides podem ser acessados no site do Projeto, onde
consta todo material. A função educativa do material didático é contribuir na for-
mação cognitiva, social e moral dos indivíduos. Entretanto, cabe ressaltar que o
material apresenta duas funções que devem estar em constante equilíbrio, sendo
elas: a função lúdica, que está ligada à diversão, ao prazer e até ao desprazer, e a
função educativa, que visa à ampliação dos conhecimentos dos educandos (KISHI-
MOTO, 1998).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 788
Para a confecção dos livrinhos algumas etapas são seguidas (Fig. 4). A escolha
do tema da oficina (Fig. 4a) é feita de acordo com a demanda escolar, principal-
mente dos professores, com vistas a abranger temas de difícil compreensão pelos
estudantes. A partir da escolha do tema e dos conteúdos que serão abordados,
inicia-se a preparação do livrinho. Nele, são apresentados conceitos químicos a se-
rem trabalhados, o roteiro do experimento prático, e apresentação de endereços
eletrônicos do projeto. A pesquisa literária (Fig. 4b) é realizada a partir de livros,
artigos, revistas, sites, etc. São selecionados textos que dão ênfase à reflexão e
ao questionamento de conceitos, sempre em busca de fontes informativas confi-
áveis, pois é importante que as informações estejam corretas e dispostas de uma
forma clara. O preparo do material (Fig. 4c), isto é, do livrinho é feito seguindo
modelo já determinado pela equipe, onde na capa consta o nome do projeto, títu-
lo da oficina e o link do site e a página do Facebook. As páginas seguintes seguem
com uma breve introdução com o conteúdo abordado de forma interdisciplinar e
articulado ao cotidiano, contendo imagens ilustrativas, infográficos e textos. Por
último, o roteiro da parte experimental é apresentado, com espaços para anota-
ções e, ao final, as referências bibliográficas utilizadas. Nesta etapa são confeccio-
nados os slides pelos alunos da Universidade com ajuda dos alunos da escola, sob
orientação da professora da Universidade. Atenta-se para a criação de slides colo-
ridos e bem organizados, para que caso os alunos ou professores da escola procu-
rarem pelo material, possam entender a proposta e assim utilizar os slides. Os sli-
des são apresentados no segundo momento pedagógico, contendo os conteúdos
de Química e imagens que articulam com o cotidiano, assim como o roteiro da
prática.
Figura 4 -
A organização e a impressão do material (Fig. 4d) geralmente é feita na Universi-
Representação
dos passos para dade, com revisão dos professores da Universidade e pelos graduandos bolsistas e
a construção do voluntários do projeto. Os livrinhos são confeccionados com oito páginas ao total,
livrinho. sendo a impressão realizada em duas folhas A4, frente e verso na forma de livreto,
Fonte: Acervo do com a impressão de duas folhas por página. Após a impressão é preciso grampear,
Projeto. para que as folhas fiquem em formato de livro. A organização do material didático
demanda tempo, por isso é importante
que a equipe estruture um cronograma
para que no dia da oficina esteja tudo
como planejado. A entrega do material
didático (Fig. 4e) para os estudantes
das turmas de Ensino Médio é realizada
durante o desenvolvimento da oficina,
mas especificamente no momento em
que os estudantes iniciam a parte expe-
rimental, já que no livrinho consta todo
o roteiro da prática. Neste momento
é explicado para os alunos o que é o
livrinho, o que ele contém e como ele
pode servir de material de apoio no es-
tudo do tema e na realização da parte
experimental da oficina. É importante
destacar que este livrinho é ofertado a
cada estudante e poderá ser utilizado
posteriormente pela professora duran-
te as aulas de Química.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 789
Divulgação dos materiais didáticos
Ao identificar avanços tecnológicos, Viana (2004, p. 19) diz que “a sociedade
atual, vivencia uma realidade, onde as crianças nascem e crescem em contato com
as tecnologias que estão ao seu alcance”, portanto é necessário que seja realizada
a busca por novas metodologias, sendo por meio de estratégias pedagógicas que
busquem a interação dos estudantes, estimulando através de ferramentas inova-
doras o interesse e a aprendizagem.
Pensando no crescente uso das tecnologias e buscando aproximar a Química
do maior número de pessoas, surgiu o site do projeto TRANSFERE, em 2015, con-
feccionado na plataforma gratuita wix. O site (Fig. 5) pode ser acessado através do
link [Link] ou do QRcode, sendo
que na página inicial constam as abas: Início, Sobre nós, Oficinas, Química Virtual,
Trabalhos Apresentados e Notícias. Na aba “Início” são apresentadas informações
gerais sobre o Projeto e suas contribuições, e ainda constam links para materiais
da aba Química virtual e Notícias sobre as atividades desenvolvidas nas escolas,
como também trabalhos apresentados em eventos.
Na atualidade, já não se pode mais isolar a educação da presença da tecnologia,
pelo contrário, é conveniente e produtivo fazer com que ambas se beneficiem uma
da outra, e que os professores saibam fazer uso disso, de acordo com suas práticas
docentes (CABRAL; LEITE, 2008). Logo, o site surge como uma potencial ferra-
menta auxiliadora no processo de ensino e aprendizagem, contendo todos os ma-
teriais produzidos pelo projeto. Assim, os estudantes, professores e público alvo
em geral que mantém contato com o
site do projeto TRANSFERE ou outras
ferramentas digitais estão, na verdade,
recebendo aporte no auxílio da inter-re-
lação entre Química, cotidiano e Tecno-
logias de Informação e Comunicação
(TICs) (SANTOS et al., 2019). A divul-
gação do site é realizada nas oficinas
desenvolvidas nas Escolas e em todos
trabalhos apresentados pela equipe em
eventos acadêmicos.
Ao disponibilizar e divulgar mate-
riais no site é necessário, antes, realizar
a preparação dos materiais didáticos e
imagens pelos integrantes do projeto, a
Figura 5 - Página exemplo da conversão do formato docx para pdf do material das oficinas temáticas,
inicial do site do e a edição das fotos para que os direitos de anonimato dos participantes das oficinas.
Projeto TRANSFERE. Para os que desejam saber mais sobre a equipe que atua no projeto é possível
Fonte: Acervo do encontrar na aba “Sobre nós” informações sobre os integrantes atuais e egres-
Projeto. sos do projeto, contendo o curso dos graduandos e a escola em que os bolsistas
voluntários fazem parte, ainda consta um link do currículo lattes de cada parti-
cipante, na qual é possível conhecer, por exemplo, os projetos em que atua ou
atuou. Na aba “Notícias” se encontram todas as atividades realizadas desde o ano
de 2015, são apresentadas informações sobre cada atividade desenvolvida, como
por exemplo, a escola onde a atividade foi desenvolvida, número de estudantes
presentes, assim como fotos das atividades.
A aba “Química Virtual” apresenta, de uma maneira diferente, assuntos de Quí-
mica relacionados com o cotidiano, possibilitando ao leitor um pensamento crítico

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 790
que contribua para uma maior significação das informações com a ciência dentro
da própria sociedade. As informações são apresentadas na forma de infográficos
que aborda os conteúdos por um meio mais visual, contendo diversas imagens
e textos curtos, porém explicativos. Ainda é possível realizar o download em pdf
dos conteúdos informativos, sendo que até o presente momento no site constam
três temas: “A Química dos corantes alimentícios”, “Combustíveis: gasolina e óleo
diesel” e “Armas letais e não letais como abordagem temática para o Ensino de
Química”.
O público que acessa o site ainda pode conhecer os trabalhos apresentados em
eventos, acessando a aba “Trabalhos apresentados” que se trata de um espaço
para anexos de documentos referentes aos trabalhos do projeto, assim informan-
do com maior detalhamento o procedimento e resultados das atividades realiza-
das pelo projeto. Até o momento o projeto apresenta desde 2012 um total de 24
trabalhos apresentados em diversos eventos locais, regionais e nacionais durante
todos os anos de projeto, todos disponíveis para leitura e download em pdf. Di-
versos trabalhos foram apresentados em eventos, como: Congresso de Iniciação
Científica da UFPel (CIC - 2012, 2013, 2014, 2015); Congresso de Extensão e Cultura
da UFPel (CEC - 2015, 2016, 2017, 2018, 2019); Seminário de Extensão Universitá-
ria da Região Sul (SEURS - 2013, 2014, 2018, 2019); Encontro de Debates sobre o
Ensino de Química (EDEQ - 2013, 2014, 2016, 2017, 2018, 2019); Encontro Nacional
de Ensino de Química (ENEQ - 2016); Reunião Nacional da Sociedade Brasileira
de Química (SBQ - 2015); Reunião da Sociedade Brasileira de Química da Região
Sul (SBQ-Sul - 2016); e Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências
(ENPEC- 2017, 2019). Dentre os trabalhos, destaca-se: o CIC - 2014, intitulado “Ofi-
cina ‘Gases no Cotidiano’ em aulas de Química da Educação Básica” que recebeu
a premiação de destaque na sua sessão coordenada; e o pôster apresentado no
evento da SBQ-Sul - 2016, que recebeu a premiação de painel destaque em Edu-
cação Química através do Trabalho “O Projeto de Extensão Transfere e a busca
por novas práticas para serem desenvolvidas no Ensino Médio”, conforme notícias
disponíveis em [Link] e [Link]
No final do ano de 2018, a equipe produziu seu primeiro artigo, publicado no
início de 2019, intitulado “O aprimoramento de conhecimentos populares por
meio de oficina temática envolvendo a química do cotidiano”, publicado na revis-
ta Expressa Extensão da UFPel. Esse é considerado um marco importante da va-
lorização do trabalho extensionista desenvolvido pelo projeto e seus parceiros. O
artigo trata de uma análise sobre as ações realizadas, mais precisamente sobre as
oficinas elaboradas e desenvolvidas pelos projetos (SANTOS; LAMPE; SANGIO-
GO, 2019). Neste ano de 2019, mais um artigo foi publicado, desta vez na revista
Brazilian Journal of Development. O artigo intitulado: “Armas químicas”, “Com-
bustíveis”, “Corantes Alimentícios” como proposta para a interface entre mídias
eletrônicas, química e cotidiano, trata da utilização de espaços eletrônicos como
o site e página no Facebook para mediação de informações e aprendizados sobre a
Química associada ao cotidiano (SANTOS et al., 2019).

Criação de uma rede de comunicação


O espaço escolar não pode mais negar a influência tecnológica, vale ressaltar
a importância que o Facebook possui na vivência dos estudantes. Assim, é preciso
compreender as potencialidades e pensar na utilização do Facebook como um re-
curso que permita a construção coletiva do conhecimento. De acordo com Morei-
ra e Januário (2014):

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 791
Conceber a educação, hoje, remete-nos para os novos e atuais proces-
sos sociais, sustentados significativamente numa cultura em rede, im-
plicando-nos na inevitabilidade de integrar o processo de ensino-apren-
dizagem no cotidiano dos indivíduos e de potenciar as sociabilidades aí
existentes (p.80).

Em face disso, o projeto TRANSFERE utiliza o Facebook, mais precisamente a


página@projetotransfere,como ferramenta auxiliadora na criação de uma rede
de comunicação e contatos com o objetivo de unir o público interessado no apri-
moramento dos processos de ensino e aprendizagem, com foco em metodologias
diferenciadas no estudo de química relacionada ao cotidiano (Fig. 6).A equipe vem
promovendo uma ampla e constante campanha de divulgação da página com o
intuito de aumentar o número de pessoas que acessam as informações do projeto
e que, portanto, tem a possibilidade de contato com temas de Química vinculados
ao cotidiano e com metodologias diferenciadas de ensino e aprendizagem através
de oficinas temáticas. Todas as informações lançadas na página fazem link direto
ao site, que armazena todo o conteúdo do projeto. Os conteúdos disponibiliza-
dos na página do Facebook tendem a seguir a maneira como as mídias eletrônicas
exploram os conteúdos, isto é, os textos são mais curtos, visuais e atrativos. São
utilizadas imagens que instiguem os internautas sobre o tema abordado, para que
pessoas que acessam a página se interessem em curtir, compartilhar e explorar
mais sobre as publicações, acessando o site. Como o site do projeto na platafor-
ma wix não permite a contabilização dos acessos, esta contagem é feita através
da página do Facebook, onde são contabilizadas as visualizações, as curtidas nas
publicações e na página do projeto, além da quantidade de compartilhamento das
publicações. Atualmente a página conta com 249 curtidas, sendo que as publica-
Figura 6 - Página do
projeto TRANSFERE ções vêm aumentando o alcance de pessoas. A última publicação teve um alcance
no Facebook. de 672 pessoas e a penúltima, 1003 pessoas alcançadas. Ao somar o alcance das 17
Fonte: Acervo do publicações mais recentes que são direcionadas ao site, atinge-se um número de
Projeto. 6.609 pessoas alcançadas, 51 compartilhamentos e 203 curtidas nas publicações.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 792
Contribuições do projeto TRANSFERE
As ações que o projeto desenvolve fazem uma inter-relação com a vida coti-
diana dos estudantes e os temas de Química, além de serem realizadas nos La-
boratórios de Ciências das escolas, um lugar diferente da sala de aula provocando
uma participação efetiva dos estudantes que declaram um interesse a mais pela
Química quando esta é trabalhada de uma maneira diferente da convencional e
alegam que os experimentos feitos nas oficinas ajudam a compreender melhor o
tema, relacionando a prática com a teoria. Os encontros semanais nas dependên-
cias da escola com os estudantes voluntários, que auxiliam no desenvolvimento
das oficinas temáticas, têm grande relevância, pois a partir deles a equipe conse-
gue compreender mais a fundo as perspectivas dos estudantes do ensino médio,
uma vez que a equipe consegue se inteirar sobre os interesses dos estudantes e,
a partir disso, qualificar suas oficinas. Além disso, estes encontros semanais cola-
boram para a relação dos estudantes voluntários com a comunidade acadêmica,
provocando nos estudantes um interesse a mais pelo meio acadêmico, e até mes-
mo colaborando para suas decisões futuras após a conclusão do ensino médio e
ingresso na universidade.
A construção dos materiais didáticos e das oficinas exige de toda a equipe do
projeto TRANSFERE um estudo sobre o tema que será abordado, deste modo,
destacam-se as contribuições para a formação de toda equipe, ressaltado os co-
nhecimentos conceituais para a confecção do material, comprometimento e orga-
nização. Pensar sobre um material que seja interessante, autoexplicativo, atrativo
aos olhos dos estudantes, possibilita aos graduandos um desenvolvimento inte-
lectual, de habilidades e desenvolvimento como futuros profissionais. A formação
de graduandos através de ações extensionistas reflete diretamente na qualifica-
ção do público alvo, o que vem sendo observado pela análise das respostas da-
das pelos estudantes de ensino médio aos questionários iniciais e finais fornecidos
durantes as oficinas. São notáveis indícios de aprendizagem por parte dos estu-
dantes, sustentando que as oficinas temáticas colaboram no processo de ensino e
aprendizagem.
O site do projeto TRANSFERE se apresenta como uma ferramenta importante
para divulgação dos materiais didáticos elaborados pela equipe e busca romper
as barreiras do limite de aproximação entre as pessoas que acessam o site com os
conteúdos químicos. Os materiais didáticos e o site em si buscam promover uma
aprendizagem mais significativa, já que abordam temas presentes no cotidiano
facilitando essa interação e significação de conceitos. Essa plataforma interativa
oportuniza que outros públicos, além das comunidades assistidas, possam ter con-
tato com assuntos, temas e informações voltados ao ensino de Química. Assim,
um número maior de pessoas pode ter um contato com materiais diversificados
e inovadores para o ensino, já que estes materiais podem ser utilizados como um
suporte para o processo de ensino e aprendizagem. Além do site, a criação de uma
rede de comunicação se fez necessária, para ampliar a divulgação do site e para
unir pessoas com interesse em comum, neste caso interesse pela Química asso-
ciada ao cotidiano. Atualmente, uma das mídias de comunicação de maior desta-
que é o Facebook, logo o projeto considerou viável esse espaço para inter-relação
entre os públicos diversos. Essa interação e troca de informações e vivências torna
o processo de ensino e aprendizagem mais dinâmico e interativo, sendo possível,
em pouco tempo, disseminar informações e materiais ao público.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 793
O projeto TRANSFERE, ao longo dos anos, vem ampliando sua perspectiva de
atuação, seja pela incorporação de referenciais teóricos ou pela tipologia de sujei-
tos de níveis de formação diversos como professores da escola e da universidade
e estudantes da escola e da universidade, num trabalho colaborativo entre uni-
versidade e escola, em ações e qualificação na produção de materiais didáticos,
reflexões sobre as ações e divulgação das atividades que têm origem na extensão.
A trajetória temporal do projeto vem demonstrando um crescimento, aprimora-
mento, ampliação e amadurecimento das ações extensionistas desenvolvidas,
que refletem diretamente na formação da equipe e público envolvidos. A exten-
são é muito rica em saberes e aprendizados. A inter-relação entre comunidades
escolares e universidade gera contribuições devido ao estreitamente de relações,
convívio social com a diversidade de mundos, aprendizados de cunho cidadão e de
empatia. Enfim, ações extensionistas são o retorno da academia às comunidades,
corresponde à reflexão do uso dos conhecimentos acadêmicos em prol da cons-
trução de um mundo melhor, cada projeto fazendo a sua parte, cada integrante
se doando e contribuindo pra este objetivo. A palavra que resume a extensão é
doação, é acreditar que cada ação pode gerar benefícios diretos, a médio ou longo
prazo, é crer num mundo melhor e contribuir efetivamente para isso.

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Agradecimentos

Pró-Reitoria de Extensão e Cultura – PREC da UFPel e CNPq/420134/2013-1.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 795
SOBRE OS AUTORES
Aline Joana Rolina Wohlmuth Al- Leandro Lampe, graduado em Li-
ves dos Santos, graduada em Farmá- cenciatura em Química pela UFPel.
cia Bioquímica – Análises Clínicas pela Mestrando em Educação Profissional e
UFSM. Doutora em Química Inorgânica Tecnológica na UFSM, atuou no Proje-
pela UFSM. Professora Associada na to de março/2016 a julho/2019. E-mail:
UFPel. Coordenadora e idealizadora lendroolampe@[Link]
do projeto. E-mail: alinejoana@gmail.
com Letícia Leal Moreira, graduanda
em Licenciatura em Química na UFPel.
Fábio André Sangiogo, graduado Atua no Projeto desde março/2019.
em Licenciatura em Química pela UNI- E-mail: lealmleticia@[Link]
JUÍ. Doutor em Educação Científica e
Tecnológica pela UFSC. Professor Ad- Vitória Schiavon da Silva, gradu-
junto da UFPel. Coordenador adjunto anda em Licenciatura em Química na
do projeto. E-mail: fabiosangiogo@ UFPel. Atua no projeto desde mar-
[Link] ço/2018. E-mail: vitoriaschiavondasilva
@[Link]
Charlene Barbosa de Paula, licen-
ciada em Química pela UFPel. Atuou no
projeto de agosto de 2018 a dezembro
de 2019. E-mail: xaxahdepaula@gmail.
com

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº3 796
CURSO TEÓRICO-PRÁTICO DE
PROCESSAMENTO DE SÊMEN E
INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL EM AVES –
10 ANOS DE HISTÓRIA
Denise Calisto Bongalhardo
Carolina Oreques de Oliveira
Tiago Araújo Rodrigues

Apresentação
A técnica de inseminação artificial (IA) nos animais domésticos começou a ser
estudada em 1899, pelo biólogo russo Ilya Ivanoff. Ivanoff, após alguns anos de
pesquisa, conseguiu no ano de 1920, fertilizar ovos de galinhas utilizando sêmen
coletado dos ductos deferentes de galos (IVANOFF, 1922).
Nos anos seguintes, a técnica de inseminação se difundiu e novos estudos fo-
ram realizados para aprimoramento da coleta de sêmen nos machos e insemi-
nação nas fêmeas. Na década de 30, Burrows e Quinn (1937) apresentaram uma
técnica eficiente para coleta de sêmen em aves através do método de massagem
abdominal, que permancece como metodologia de coleta até os dias de hoje.
Entre as vantagens da inseminação artificial está o aumento da taxa de fertili-
dade; machos mais velhos com idade natural de descarte podem ser aproveitados
por períodos mais longos, machos com alto valor genético que possuam ferimen-
tos que impossibilitem a cópula podem continuar disseminando sua genética e o
acasalamento preferencial que ocorre na cópula natural é eliminado (KHARAYAT
et al., 2016).
TECNOLOGIA E PRODUÇÃO Nº4

Atualmente, a IA é uma biotecnologia amplamente utilizada na indústria de pe-


rus; devido ao intenso melhoramento genético para ganho de peso nesta espécie,
os machos tornaram-se muito maiores do que as fêmeas, inviabilizando a cópula
natural. Assim, o uso da IA nesse segmento potencializa a produção e a eficiência
reprodutiva dos animais (KHARAYAT et al., 2016).
Entre todas as espécies de aves conhecidas, 13% são consideradas ameaçadas
de extinção (MOHAN et al., 2018). A utilização da reprodução assistida nessas aves
aumenta a possibilidade de preservação, além de proporcionar maior diversifica-
ção genética.
Sendo assim, podemos verificar que a técnica de IA em aves tem uma vasta
aplicação. Contudo, existe uma deficiência de projetos que visem a difusão dessa
prática para profissionais, estudantes e criadores da área. Portanto, o Curso de
Processamento de Sêmen e Inseminação Artificial em Aves surgiu com o objetivo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 797


de proporcionar aos participantes o aprendizado e o aprimoramento em biotécni-
cas aplicadas à reprodução de aves, possibilitando que os mesmos reproduzam o
conhecimento adquirido durante o curso em suas empresas e/ou instituições.
Na parte teórica do curso foram ministradas palestras sobre histórico da inse-
minação artificial em aves, anatomia micro e macroscópica do aparelho reprodu-
tor de aves, manejo reprodutivo do macho e da fêmea, utensílios e equipamentos
para laboratórios de reprodução, higienização e limpeza de material e preparo de
diluentes. Na parte teórico-prática, os participantes têm a oportunidade de fazer
coleta de sêmen e inseminação artificial, bem como realizar técnicas para testar a
qualidade do sêmen e verificar fertilidade.
No primeiro dia do curso, os participantes receberam um manual, elaborado
pelas professoras Denise Bongalhardo e Carine Corcini, contendo os protocolos
das práticas que seriam realizadas. O material audio-visual das palestras também
foi disponibilizado. O conteúdo teórico das palestras foi organizado em um livro,
que está sendo finalizado para publicação.

Tabela 1 - Modelo de
Ficha de Avaliação do
Curso Teórico-Prático
de Processamento
de Sêmen e
Inseminação Artificial
em Aves.
Fonte: Autores

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 798
Ao final do curso, os participantes preenchiam uma ficha de avaliação (Tabela
1). O coordenador analisava as respostas, tabulava os dados e discutia os resulta-
dos com os outros membros da equipe, visando aprimorar o curso nas próximas
edições.

História do curso
O curso foi idealizado pelas professoras da UFPel Denise Bongalhardo, coor-
denadora do Laboratório de Biotécnicas da Reprodução de Aves (LABRA) do De-
partamento de Fisiologia e Farmacologia do Instituto de Biologia, e Carine Dahl
Corcini, do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Reprodução Animal (ReproPel) da
Faculdade de Veterinária, contando com o apoio do professor Nelson José Lauri-
no Dionello, do Laboratório de Ensino e Experimentação Zootécnica “Dr. Renato
Rodrigues Peixoto” do Departamento de Zootecnia da Faculdade de Agronomia
“Eliseu Maciel” e do professor Marcos Antônio Anciuti, do Instituto Federal Sul-
-Riograndense (IFSul – Campus Pelotas “Visconde da Graça”).
A primeira edição do curso ocorreu no ano de 2010, na Universidade Federal de
Pelotas, e a décima em 2019, na Universidade Federal de Lavras. Um breve relato
de cada edição do curso é feita à seguir.

I Curso: realizado no período de 16 a 20 de agosto de 2010 na UFPel.


A primeira edição do curso teve duração de cinco dias, com carga horária total
de 40h (8h/dia). Todos os participantes eram da região Sul do Brasil (Rio Grande do
Sul e Santa Catarina).
O evento foi direcionado a aves de produção, destacando-se a presença de
dois médicos veterinários da antiga Sadia (atual BRF). O crescente interesse da
indústria na criação de perus foi o motivo que trouxe estes profissionais para o cur-
so, visto que a inseminação artificial para a reprodução destas aves é obrigatória
(KHARAYAT et al., 2016).
Os resultados da avaliação do curso são apresentados à seguir:
1. Programa do curso: 23% bom, 62% muito bom, 15% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 31% bom, 54% muito bom, 15% excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 46% bom, 38% muito bom, 15%
excelente.
4. Qualidade dos recursos didáticos: 15% regular, 23% bom, 31% muito bom,
31% excelente.
5. Carga horária: 15% regular, 15% bom, 38% muito bom, 31% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 8% regular, 31% bom, 54% muito bom, 8% ex-
celente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 23% bom,
46% muito bom, 31% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 15% regular, 31% bom,
38% muito bom, 15% excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 27% regular, 9%
bom, 55% muito bom, 9% excelente.
10. Coordenação e pessoal de apoio: 18% bom, 36% muito bom, 45% excelente.
Pode-se observar que na metade dos critérios (1, 2, 3, 7 e 10), 100% dos par-
ticipantes classificou o curso como bom, muito bom ou excelente. Nos outros, a
grande maioria também classificou o curso como bom, muito bom ou excelente
(4=85%, 5=85%, 6=92%, 8=85% e 9=73%), sendo que a classificação como regular

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 799
não superou os 30% em nenhum caso. Ninguém classificou o curso como ruim em
nenhum dos critérios. Quanto à carga horária (critério 5), os participantes sugeri-
ram que o curso fosse ministrado de forma mais intensiva, em menos dias, mas
com carga horária maior por dia.

II Curso: realizado no período de 25 a 27 de maio de 2011 na UFPel.


Nesta edição, o curso teve duração de três dias, com carga horária total de 30h
(10h/dia), conforme sugerido pelos participantes do primeiro curso. Este formato
foi repetido nos cursos posteriores. Além da região sul (Rio Grande do Sul), tam-
bém estiveram presentes participantes da região sudeste do Brasil (Minas Gerais).
No momento da inscrição, os participantes indicavam suas áreas de atuação e
interesse. Neste ano, observou-se a presença de médicos veterinários atuando na
área de aves silvestres e selvagens; desta forma, os ministrantes incluíram a abor-
dagem de outras espécies de aves em suas palestras, além das aves de produção.
Destaca-se a participação do médico veterinário Alexandre Paulo Resende Net-
to Armando, do Criadouro Científico e Cultural Poços de Caldas, diretamente en-
volvido no Plano de Ação Nacional para a Conservação do Mutum-de-Alagoas (SIL-
VEIRA et al., 2008), espécie extinta na natureza. Alguns meses após a realização do
curso, o médico veterinário nos enviou vídeos mostrando que obteve sucesso na
coleta de sêmen e inseminação artificial destas aves. Recentemente (Fantástico,
20/10/2019), foi veiculada a notícia “Primeira espécie de animal extinta na América
do Sul será reintroduzida em Alagoas” (PRIMEIRA, 2019), referindo-se à reintrodu-
ção de três casais de Mutum-de-Alagoas na Mata Atlântica.
Os resultados da avaliação do curso são apresentados a seguir:
1. Programa do curso: 7% regular, 23% bom, 39% muito bom, 31% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 7% regular, 16% bom, 31% muito bom, 46%
excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 7% regular, 16% bom, 54% mui-
to bom, 23% excelente.
4. Qualidade dos recursos didáticos: 7% regular, 31% bom, 31% muito bom, 31%
excelente.
5. Carga horária: 22 % bom, 39% muito bom, 39% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 7% regular, 31% bom, 54% muito bom, 8% ex-
celente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 7% ruim,
15% bom, 16% muito bom, 62% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 15% regular, 23% mui-
to bom, 62% excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 15% bom, 46%
muito bom, 39% excelente.
10. Coordenação e pessoal de apoio: 15% bom, 23% muito bom, 62% excelente.
Com a alteração da carga horária de 40 para 30h, pode-se observar que 100%
dos participantes classificou o critério 5 como bom, muito bom ou excelente (no
ano anterior foi de 85%), mostrando que a mudança foi positiva. No critério 9 (con-
dições físicas), o mesmo também ocorreu (100% neste ano em comparação com
85% no ano anterior). No critério 7 houve um pequeno percentual (7%) que classi-
ficou o curso como deficiente, entretanto 78% classificou o curso como muito bom
ou excelente, demonstrando que a grande maioria irá aplicar os conhecimentos
adquiridos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 800
III Curso: realizado no período de 12 a 14 de dezembro de 2012 na UFPel.
Os participantes eram provenientes das regiões Sul (Rio Grande do Sul) e Su-
deste do Brasil (Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro).
O curso contou com a participação de criadores de psitacídeos de São Paulo e
Minas Gerais. Segundo a Federação Ornitológica do Brasil (FOB, 2019), a criação
de aves exóticas e domésticas é uma forma de combater o comércio ilegal e o trá-
fico de aves silvestres. No Brasil, 80% das espécies animais contrabandeadas são
aves (RENCTAS, 2019). Destas, 90% são passeriformes, como o canário da terra
(Sicalis Flaveola) e trinca ferro, e 6% são psitacídeos (papagaios, jandaias, periqui-
tos e araras).
Os resultados da avaliação do curso são apresentados a seguir:
1. Programa do curso: 10% bom, 40% muito bom, 50% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 10% bom, 30% muito bom, 60% excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 10% bom, 30% muito bom, 60%
excelente.
4. Qualidade dos recursos didáticos: 30% muito bom, 70% excelente.
5. Carga horária: 30% bom, 20% muito bom, 50% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 10% bom, 40% muito bom, 50% excelente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 10% bom,
40% muito bom, 50% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 10% bom, 30% muito
bom, 60% excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 10% bom, 40%
muito bom, 50% excelente.
10. Coordenação e pessoal de apoio: 10% bom, 10% muito bom, 80% excelente.
Em nenhum dos critérios houve avaliação ruim ou regular, sendo que em nove
dos 10 critérios a grande maioria dos participantes classificou o curso como muito
bom ou excelente: 90% nos itens 1, 2, 3, 6, 7, 8 e 9 e 100% nos itens 4 e 10.

IV Curso: realizado no período de 02 a 04 de outubro de 2013 na UFPel.


Os participantes eram provenientes das regiões Sul (Rio Grande do Sul) e Su-
deste (Minas Gerais) do Brasil.
Nesta edição, tivemos a participação de dois médicos veterinários de uma em-
presa de clínica e consultoria da fauna silvestre de Minas Gerais (Zoovet Clínica e
Consultoria©), com atuação em serviços de monitoramento e resgate de fauna,
bem como prestação de assistência à criatórios de animais silvestres e exóticos de
todo o Brasil. Um criador de passeriformes de Pelotas também esteve presente.
Os resultados da avaliação do curso são apresentados a seguir:
1. Programa do curso: 10% bom, 40% muito bom, 50% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 10% bom, 40% muito bom, 50% excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 50% muito bom, 50% excelente.
4. Qualidade dos recursos didáticos: 44% muito bom, 56% excelente.
5. Carga horária: 10% bom, 50% muito bom, 40% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 10% bom, 50% muito bom, 40% excelente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 10% regular,
30% muito bom, 60% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 20% bom, 40% muito
bom, 40% excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 40% muito bom,
60% excelente.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 801
10. Coordenação e pessoal de apoio: 20% muito bom, 80% excelente.
Observa-se que na metade dos critérios (3, 4, 5, 9 e 10), 100% dos participantes
classificou o curso como muito bom ou excelente. No critério 8, apenas 20% classi-
ficou o curso como bom, enquanto nos outros critérios (1, 2, 6 e 7), 90% classificou
como muito bom ou excelente.

V Curso: realizado no período de 22 a 24 de outubro de 2014 na UFPel.


Os participantes eram provenientes das regiões Sul (Rio Grande do Sul) e Su-
deste do Brasil (Minas Gerais e São Paulo), sendo que um tinha interesse especial
em aves de rapina (falcoaria). A falcoaria é considerada patrimônio imaterial pela
UNESCO e as técnicas desenvolvidas com esta prática são aplicadas em projetos
de reintegração de aves de rapina aos seus ambientes naturais, contribuindo para
sua conservação. No Brasil, aves de rapina são utilizadas em aeroportos, hospitais
e plantações, sendo um método ecologicamente correto e eficiente para controle
da fauna (ABFPAR, 2019).
Os resultados da avaliação do curso são apresentados a seguir:
1. Programa do curso: 33% muito bom, 67% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 50% muito bom, 50% excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 50% muito bom, 50% excelente.
4. Qualidade dos recursos didáticos: 20% muito bom, 80% excelente.
5. Carga horária: 100% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 33% muito bom, 67% excelente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 16% bom,
17% muito bom, 67% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 100% excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 50% muito bom,
50% excelente.
10. Coordenação e pessoal de apoio: 100% excelente.
Pode-se observar que em três dos 10 critérios (5, 8 e 10), 100% dos participantes
classificou o curso como excelente e em seis (1, 2, 3, 4, 6, e 9), 100% classificou
como muito bom ou excelente. Apenas no critério 7 o curso foi avaliado como bom
por 16% dos participantes, entretanto a grande maioria (84%) considerou o curso
muito bom ou excelente.

VI Curso: realizado no período de 14 a 16 de outubro de 2015 na UFPel.


Os participantes eram provenientes das regiões Sul (Rio Grande do Sul) e Cen-
tro-Oeste (Distrito Federal) do Brasil.
Neste ano tivemos a participação de um médico veterinário falcoeiro, pesqui-
sador do “Programa Fauna nos Aeroportos Brasileiros”, uma parceria entre a Uni-
versidade de Brasília (UnB) e a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária
(INFRAERO), que objetiva reduzir os acidentes aeronáuticos provocados por ani-
mais em 10 aeroportos do Brasil, através do monitoramento e controle da fauna
que ameaça a segurança no espaço aéreo (COSTA, 2011). Uma maneira de fazer o
controle é através do uso de aves de rapina treinadas para afastar outras aves (es-
pecialmente quero-queros, que colidem mais frequentemente com as aeronaves,
e carcarás, que provocam os maiores danos).
Os resultados da avaliação do curso são apresentados a seguir:
1. Programa do curso: 27% muito bom, 73% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 100% excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 18% muito bom, 82% excelente.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 802
4. Qualidade dos recursos didáticos: 9% bom, 9% muito bom, 82% excelente.
5. Carga horária: 9% bom, 36% muito bom, 55% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 10% bom, 10% muito bom, 80% excelente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 18% muito
bom, 82% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 18% muito bom, 82%
excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 9% bom, 18%
muito bom, 73% excelente.
10. Coordenação e pessoal de apoio: 9% muito bom, 91% excelente.
Em sete dos 10 critérios (2, 3, 4, 6, 7, 8 e 10), pelo menos 80% dos participantes
classificou o curso como excelente, enquanto nos outros três (1, 5 e 9), mais de
90% classificou como muito bom ou excelente.

VII Curso: realizado no período de 30 de novembro a 02 de dezembro de 2016


na UFPel.
Todos os participantes desta edição eram estudantes de graduação (Zootecnia
e Medicina Veterinária) ou pós-graduação (Zootecnia e Veterinária) da Universi-
dade Federal de Pelotas. Desde a primeira edição, pessoas de diferentes partes
do país demonstraram interesse pelo curso, através de contato por telefone ou
e-mail. Entretanto, a localização geográfica de Pelotas, no extremo sul do Brasil,
demonstrou ser um fator limitante para alguns participantes, sendo que até então
somente pessoas das regiões Sul e Sudeste conseguiam efetivar sua participação.
Desta forma, começamos a idealizar a realização do curso na região Sudeste do
Brasil.
Os resultados da avaliação do curso são apresentados a seguir:
1. Programa do curso: 20% bom, 10% muito bom, 70% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 30% muito bom, 70% excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 10% bom, 20% muito bom, 70%
excelente.
4. Qualidade dos recursos didáticos: 40% muito bom, 60% excelente.
5. Carga horária: 20% bom, 10% muito bom, 70% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 44% muito bom, 56% excelente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 10% bom,
30% muito bom, 60% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 10% muito bom, 90%
excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 30% muito bom,
70% excelente.
10. Coordenação e pessoal de apoio: 20% muito bom, 80% excelente.

VIII Curso: realizado no período de 29 de novembro a 01 de dezembro de 2017


na UFPel.
Assim como no ano anterior, todos os participantes desta edição eram estu-
dantes de graduação (Zootecnia) ou pós-graduação (Zootecnia e Veterinária) da
Universidade Federal de Pelotas, embora pessoas de várias regiões do país conti-
nuassem a entrar em contato solicitando informações e demonstrando interesse
pelo curso. A ideia de realizar o curso na região Sudeste do Brasil se fortaleceu e
iniciamos uma parceria com o professor Juliano Vogas Peixoto, da Universidade
Federal de Lavras, para organizar a próxima edição em Minas Gerais.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 803
Os resultados da avaliação do curso são apresentados a seguir:
1. Programa do curso: 17% muito bom, 83% excelente.
2. Proporção entre teoria e prática: 100% excelente.
3. Profundidade e desenvolvimento dos temas: 33% muito bom, 67% excelente.
4. Qualidade dos recursos didáticos: 33% bom, 67% muito bom.
5. Carga horária: 50% muito bom, 50% excelente.
6. Carga de trabalhos práticos: 17% muito bom, 83% excelente.
7. Abordagem do curso de acordo com o interesse do participante: 33% muito
bom, 67% excelente.
8. Aplicabilidade dos novos conhecimentos no trabalho: 33% muito bom, 67%
excelente.
9. Condições físicas (laboratórios, instalações e salas de aula): 17% deficiente,
33% bom, 50% muito bom.
10. Coordenação e pessoal de apoio: 17% bom, 17% muito bom, 67% excelente.

IX Curso: realizado no período de 22 a 24 de novembro de 2018 na UFLA.


Esta foi a primeira edição do curso fora da Universidade Federal de Pelotas e
também a que teve o maior número de participantes, de todas as regiões do país:
Sul (Rio Grande do Sul), Sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais), Cen-
tro-Oeste (Goiás e Distrito Federal), Nordeste (Bahia e Rio Grande do Norte) e
Norte (Roraima).
Destaca-se a grande participação de criadores de galos da raça Índio-Gigante:
30% do total de inscritos. Esta raça é brasileira, originária do cruzamento de galos
de combate (rinha) com galinhas puras (Shamo e Malaio) ou caipiras, resultando
em aves com uma aparência exótica e exuberante, com aptidão ornamental ou
para corte (ABRACIG, 2019). Em leilões da raça, os exemplares podem ser vendi-
dos por preços tão elevados quanto os obtidos em arremates de gado (MATHIAS,
2018). De acordo com a Associação Brasileira de Criadores da Raça Índio-Gigante
(ABRACIG), os machos devem ter no mínimo 1,05m de altura e peso maior do que
4,5kg, enquanto as fêmeas devem medir pelo menos 90cm e pesar 3kg; o tamanho
destas aves garante um ótimo rendimento de carne, que é nutritiva, com textura
macia e baixo teor de gordura (MATHIAS, 2018).

X Curso: realizado de 17 a 20 de outubro de 2019 na UFLA.


Mais uma vez o curso foi realizado na Universidade Federal de Lavras e contou
com participantes das regiões Norte (Pará), Centro-Oeste (Goiânia) e Sudeste (Rio
de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo) do Brasil.
Nesta edição, foi incluída uma palestra sobre “Patologias que afetam a repro-
dução” ministrada pela Médica Veterinária Priscilla Rochele Barrios, visto que
questionamentos sobre este assunto foram recorrentes nos últimos cursos.

Abrangência do curso
Nas 10 edições, tivemos um total de 122 participantes, uma média de 12 por
evento. O número reduzido de participantes está diretamente associado à qua-
lidade do curso por vários motivos: quando o grupo é pequeno, os ministrantes
e colaboradores conseguem acompanhar de perto as atividades práticas, orien-
tando, corrigindo e demonstrando como deve ser feito. O tempo disponibilizado
para a realização das práticas também é maior, garantindo que todos consigam
experimentar as técnicas. A socialização entre as pessoas é facilitada quando o

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 804
grupo é pequeno, permitindo uma maior troca de experiências. Por esses motivos,
o número de vagas sempre foi limitado. O público alvo foi composto por profissio-
nais, estudantes e criadores (Fig. 1).

Figura 1 - Público
alvo atingido nas
10 edições do Curso
Teórico-Prático de
Processamento
de Sêmen e
Inseminação Artificial
em Aves.
Fonte: Autores

Entre os profissionais, a grande maioria foi de Médicos Veterinários, seguidos


por Zootecnistas e um pequeno percentual de Biólogos e Agrônomos (Fig. 2). En-
tre os estudantes observou-se a mesma tendência, sendo a grande maioria alunos
de Medicina Veterinária, seguidos por alunos de Zootecnia e um pequeno percen-
tual cursando Ciências Biológicas, Agronomia e Curso Técnico em Agropecuária
(Fig. 3). Entre os criadores, a maioria trabalhava com galos índio-Gigante, mas
também tivemos interessados em psitacídeos, passeriformes e aves de rapina.
Os participantes vieram de todas as regiões do país, com representação de 12

Figura 2 - Categorias
profissionais nas 10
edições do Curso
Teórico-Prático de
Processamento
de Sêmen e
Inseminação Artificial
em Aves.
Fonte: Autores

estados (Fig. 4). Nas edições do curso realizadas em Pelotas, praticamente todos
os participantes eram da região Sul, com um pequeno percentual da região Su-
deste. Entretanto, quando o curso foi realizado em Lavras, participantes de outras
regiões puderam comparecer.
Quanto à abrangência do curso dentro da Universidade Federal de Pelotas,
tivemos a participação de 41 pessoas na equipe, sendo que algumas estiveram
presentes em várias edições. Entre os servidores (Tabela 2), foram 19 colabora-

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 805
dores no total, sendo 10 professores, quatro técnicos de laboratório e um técnico
administrativo da UFPel, além de quatro professores de outras instituições (FURG,
UFLA e IFSul). Os servidores estavam lotados no Instituto de Biologia (departa-
mento de Fisiologia e Farmacologia e departamento de Morfologia), na Faculda-
de de Agronomia (departamento de Zootecnia), na Faculdade de Veterinária e no
Centro de Integração do Mercosul.
Tabela 2 - Participação de servidores (professores e técnicos) nas 10 edições do Curso Teórico-

Figura 3 - Cursos dos


estudantes presentes
nas 10 edições do
Curso Teórico-Prático
de Processamento
de Sêmen e
Inseminação Artificial
em Aves.
Fonte: Autores

Figura 4 - Estados
de origem dos
participantes das
10 edições do Curso
Teórico-Prático de
Processamento
de Sêmen e
Inseminação Artificial
em Aves. * Outros:
ES, PA, RR e SC (2%
cada); BA e RN (1%
cada).
Fonte: Autores

Prático de Processamento de Sêmen e Inseminação Artificial em Aves.

Edição do curso
Servidores Instituição 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Ana Luisa Schiffino Valente UFPel x x x x x x x
Ana Paula Nunes UFPel x
Antonio Sergio Varela Junior FURG x x x
Carine Dahl Corcini UFPel x x x x x x
Carmen Figueredo Alves UFPel x x x x x
Denise Calisto Bongalhardo UFPel x x x x x x x x x x

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 806
Edição do curso
Servidores Instituição 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Diego Moreira de Souza UFPel x x
Fernanda Medeiros Gonçalves UFPel x x x x x
Greici Maia Behling UFPel x x x
Juliano Vogas Peixoto UFLA x x x
Luiz Carlos Porto da Silva UFPel x x x
Mabel Mascarenhas Wiegand UFPel x x x x
Marcos Antônio Anciuti IFSul x x x x x x x x
Michele Pepe Cerqueira UFPel x x x x x
Nelson José Laurino Dionello UFPel x x x x x x x x
Niédi Hax Franz Zauk UFPel x x x x x x x
Priscilla Rochele Barrios UFLA x
Sandra Mara Fiala Rechsteiner UFPel x
Sílvia Lannes de Campos da Costa UFPel x x x x x x x x
Fonte: Autores

Entre os alunos, foram 22 colaboradores (Tabela 3), dos cursos de graduação em


Medicina Veterinária, Zootecnia e Ciências Biológicas e dos programas de pós-gra-
duação em Veterinária (PPGV), Zootecnia (PPGZ) e Biotecnologia (PPGB). Muitos
alunos participaram do curso em uma edição e nos anos seguintes atuaram como
colaboradores, auxiliando nas práticas e posteriormente ministrando palestras.

Tabela 3 - Participação de alunos da UFPel (graduação e pós-graduação) nas 10 edições do Curso


Teórico-Prático de Processamento de Sêmen e Inseminação Artificial em Aves.

Edição do curso
Alunos Curso 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Alexander Ferraz PPGZ (Mestrado) x x x x
Amauri Telles Tavares Zootecnia x x x x x x x
Angelina Flores Borelli PPGZ (Mestrado) x
Betris Ehlert da Silva Ciências Biológicas x x
Camila de Pinho Gotuzzo Ciências Biológicas x x
Camila Tonini Medicina Veterinária x x
PPGZ (Mestrado)
Carlos Eduardo Ferreira PPGV x x x x x
Carolina Oreques de Oliveira PPGZ (Mestrado e x x x x
Doutorado)
Caroline Degen Wachholz Zootecnia x x
Cíntia dos Santos Duarte Ciências Biológicas x x
Cristiano Machado Teixeira Ciências Biológicas x
Geórgia da Cruz Tavares Medicina Veterinária x x x
Guilherme Rizotto Medicina Veterinária x
Hanna Graziela Soares Lima PPGZ (Mestrado) x
Karina Lemos Goularte PPGV x
Mateus Junior Flach Zootecnia x
Rosa Marani Brizolara Ciências Biológicas x
Sara Lorandi Soares Medicina Veterinária x x x x x x x
PPGZ (Mestrado)
PPGB (Doutorado)

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 807
Edição do curso
Alunos Curso 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Sérgio Leandro Costa de Ávila PPGZ (Mestrado) x
Stela Mari Meneghello Gheller Medicina Veterinária x x x x x x
PPGV (Mestrado e
Doutorado
Tamiris Barbosa Beck PPGZ (Mestrado) x
Tiago Araújo Rodrigues PPGZ (Mestrado) x
Fonte: Autores

Considerações finais
Nos 10 anos de evento, mais de 150 pessoas foram atingidas diretamente, sen-
do como participantes ou como membros da equipe de trabalho. O curso possui
impacto em várias esferas da sociedade, como a indústria de aves de produção,
os criatórios de aves ornamentais e as instituições que atuam na preservação das
espécies, além da formação de estudantes de graduação e pós-graduação. Mui-
tos dos participantes nos deram retorno, afirmando que conseguiram aplicar os
conhecimentos adquiridos, ou que a capacitação foi relevante no momento de
conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Alguns participantes ainda mantêm
contato, nos procurando sempre que tem alguma dificuldade ou dúvida sobre o
assunto. Os membros da equipe também se enriquecem com a troca de experi-
ências e se sentem motivados pelas avaliações positivas recebidas ao longo dos
anos. Desta forma, e considerando que a procura pelo curso continua, novas edi-
ções deverão ser realizadas.

Referências
ABFPAR. A falcoaria hoje. 2019. Disponível em: < [Link]
ria/a-falcoaria-hoje/>. Acesso em: 31 out. 2019.

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nível em: <[Link]
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FOB. Fundação Ornitológica do Brasil. 2019. Disponível em: <[Link]


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IVANOFF, E. I. On the use of artificial insemination for zootechnical purposes in


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KHARAYAT, N.S.; CHAUDHARY, G.R.; KATIYAR, R; BALMURUGAN, B.; PATEL,


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MATHIAS, J. Como criar galo índio-gigante. 2018. Disponível em: <[Link]


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MOHAN, J.; SHARMA, S.K.; KOLLURI, G.; DHAMA, K. History of artificial insemi-
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Alagoas. Edição Renato Nogueira Neto. 2019, 5 min, son., color. Disponível em:
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RENCTAS. Tráfico de animais silvestres afeta 18% das espécies de aves, mamífe-
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SILVEIRA, L.F.; RODA, S.A., SANTOS, A.M.M.; SOARES, E.S.; BIANCHI, C.A. Pla-
no de ação para a conservação do Mutum-de-Alagoas (Mitu mitu = Pauxi mitu).
2008. Disponível em: <[Link]
no-de-acao/[Link]>. Acesso em: 26 out. 2019.

SOBRE OS AUTORES
Denise Calisto Bongalhardo , gra- Departamento de Pós-Graduação em
duada em Medicina Veterinária pela Zootecnia (PPGZ), UFPel. Colaborado-
UFPel. Professora Titular, Laboratório ra e palestrante do Curso Teórico-Prá-
de Biotécnicas da Reprodução de Aves, tico de Processamento de Sêmen e In-
Departamento de Fisiologia e Farma- seminação Artificial em Aves. E-mail:
cologia, Instituto de Biologia, Univer- [Link]@[Link]
sidade Federal de Pelotas. Idealizadora
e Coordenadora do Curso Teórico-Prá- Tiago Araújo Rodrigues, graduado
tico de Processamento de Sêmen e In- em Engenharia Agronômica pela UFPel.
seminação Artificial em Aves. E-mail: Colaborador em práticas de laboratório
denisecb@[Link] do Curso Teórico-Prático de Processa-
mento de Sêmen e Inseminação Artifi-
Carolina Oreques de Oliveira, gra- cial em Aves. E-mail: thyagosvp@hot-
duada em Zootecnia pela UFPel. Douto- [Link]
randa em Nutrição de Não-Ruminantes,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº4 809
EXPERIÊNCIAS DO PROJETO
CAPACITAÇÃO TECNOLÓGICA DE
PEQUENOS AGRICULTORES PARA
A AGROINDUSTRIALIZAÇÃO DE
FRUTAS E HORTALIÇAS

Carla Rosane Barboza Mendonça


Caroline Dellinghausen Borges
Paulo Renato Buchweitz
Rui Carlos Zambiazi

Introdução
A propagação da importância de uma dieta saudável tem gerado aumento pela
procura e consumo de vegetais frescos, neste contexto, vem ganhando destaque
o mercado de vegetais minimamente processados (BRASIL, 2014). Esse cenário
abre novas possibilidades para pequenos produtores rurais, dispostos a investir
em estratégias de comercialização diversificadas, que resultem na ampliação de
seus mercados. Criam-se, desta forma, importantes espaços que podem ser ocu-
pados por universidades brasileiras junto a esses grupos. Um bom relacionamento
entre universidades e agricultores permite reunir saberes diferentes e novas for-
TECNOLOGIA E PRODUÇÃO Nº5

mas de inovar em pesquisa e extensão (DENARDI, 2001).


Dentro desse contexto, um grupo de agricultores da localidade de Sinott (Dis-
trito de Monte Bonito, interior de Pelotas/RS), associados na forma de uma coope-
rativa, apoiados pela EMATER-RS, planejaram a construção de uma agroindústria
para o processamento de derivados de vegetais. O projeto foi exitoso, tendo rece-
bido financiamento do Banco Mundial, e apoio da Prefeitura de Pelotas. A partir da
aprovação do projeto gerou-se a necessidade de propiciar a capacitação ao grupo,
para aplicação das tecnologias de produção adequadas à obtenção desses produ-
tos, visando fundamentalmente à revitalização das atividades destes produtores,
tanto no âmbito rural como através da inserção dos mesmos em mercados maio-
res dentro do estado.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 810


Assim, técnicos da EMATER fizeram contato com professores da área de Ali-
mentos do CCQFA-UFPel para estabelecer uma parceria e auxiliar nas demandas
que surgiram. Tais fatos justificaram a criação de um projeto de extensão, visando
proporcionar a ampliação das alternativas produtivas dos pequenos agricultores,
de forma estruturada e obedecendo aos padrões higiênico-sanitários aplicáveis,
além de promover o resgate da auto-estima dos mesmos, através do estímulo à
participação de todos no processo de desenvolvimento rural e tecnológico, por
acreditar que o pequeno agricultor possa se tornar um empreendedor capaz de
gerir seus próprios negócios e de gerar um aumento da sua qualidade de vida, em
função do aumento de renda.
O anseio de maximizar o aproveitamento da produção, evitando com isso o
desperdício de vegetais por deterioração ou por falta de mercado para produtos in
natura, representou mais uma premissa para a execução do projeto.
Cabe salientar, que uma grande preocupação da sociedade no mundo globali-
zado está diretamente relacionada com a qualidade dos produtos que consomem,
assim, as indústrias se esforçam para alcançar a satisfação dos consumidores.
No caso específico dos alimentos, o fator primordial para garantir a qualidade
é a segurança do produto, pois problemas neste sentido podem comprometer a
saúde do consumidor. Uma importante ferramenta para a segurança dos alimen-
tos é o emprego das Boas Práticas de Fabricação (BPF), estas representam uma
exigência legal e constituem-se de um conjunto de princípios e regras para o cor-
reto manuseio de alimentos (ONUKI, 2016).
Segundo Capiotto e Lourenzani (2010), para atingir condições de competitivi-
dade, cada vez mais se exige o aprimoramento e a busca pela perfeição nas ativi-
dades executadas, serviços fornecidos e produtos realizados. A utilização de ins-
trumentos e conceitos modernos, eficazes e eficientes nos processos produtivos,
têm se tornado a estratégia da busca pelo sucesso.
Aliado às exigências do mercado, o produtor preocupa-se com a maximização
do aproveitamento de excedentes da produção, com a ampliação da vida útil de
seus produtos e com a possibilidade de diversificação de mercado, visando am-
pliar os ganhos econômicos (MENDONÇA et al., 2013).
Desta forma, o projeto de extensão visou estimular à manutenção das ativi-
dades dos agricultores, a partir da melhoria em sua condição econômica, a partir
da qualificação de recursos humanos, requisito imprescindível para acompanhar a
evolução do mercado de produção e comercialização de alimentos, que está em
constante expansão.
Dentro deste contexto, as ações deste projeto de extensão tiveram por objetivo
capacitar produtores rurais do interior de Pelotas-RS, para produção de deriva-
dos de frutas e hortaliças, habilitando-os a empregar tecnologias que resultem em
produtos de alta qualidade, com custos compatíveis, visando à revitalização das
atividades destes produtores, tanto no âmbito rural como através de sua partici-
pação em mercados maiores.

Desenvolvimento
Este relato discorrerá sobre o trabalho que foi desenvolvido junto a um grupo de
pequenos agricultores, associados na forma de cooperativa, da localidade Sinott,
Distrito de Monte Bonito, no interior de Pelotas-RS. Esse grupo planejou a implan-
tação de uma agroindústria de processamento de vegetais, apoiado pela EMA-
TER, a qual recebeu financiamento do Banco Mundial e da Prefeitura Municipal de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 811
Pelotas. As ações de concretização do projeto iniciaram a ser implementadas no
ano de 2009, culminando em 2012 com a inauguração da Cooperativa dos Produ-
tores Agrícolas do Monte Bonito (COOPAMB).
Para o desenvolvimento do projeto de extensão, também se utilizaram as de-
pendências dos Laboratórios de Alimentos, do Centro de Ciências Químicas, Far-
macêuticas e de Alimentos (CCQFA) da Universidade Federal de Pelotas, sob res-
ponsabilidade e orientação das Professoras Carla Mendonça e Caroline Borges,
com o auxílio de outros professores da Área de Alimentos do CCQFA e de discentes
dos Cursos de Química de Alimentos e Tecnologia em Alimentos, entre os anos
2009 e 2014.
A Colônia Sinott localiza-se no 9º Distrito de Pelotas, relatos da literatura men-
cionam que os Sinott foram uma das sete famílias inglesas que chegaram a Pelotas
por volta de 1840. Esses se estabeleceram no Monte Bonito, na zona hoje conhe-
cida como “Represa dos Sinott” (PELOTAS: CAPITAL CULTURAL, 2011). Os mora-
dores desta localidade em geral se dedicam a agricultura e trabalham em sistema
familiar, produzindo para subsistência e vendendo hortifrutigranjeiros em feiras
ou em comércio local.

Preparação
O início das atividades se deu com o levantamento, por meio de diálogo, com
os produtores rurais, a fim de identificar suas necessidades e expectativas. A partir
de então, passou-se a realizar testes, para adequar as melhores condições de pre-
paração de produtos minimamente processados, desidratados e congelados de
frutas e hortaliças. Foram seguidas as metodologias descritas em algumas obras
produzidas pelos componentes de grupo de extensão (MENDONÇA; BORGES;
GRANADA, 2009; LUVIELMO; MACHADO; BUCHWEITZ, 2009; MENDONÇA,
2009).
Nos produtos minimamente processados avaliaram-se, segundo o produto, o
emprego de agentes antioxidantes (ácido cítrico e ascórbico), agente de firmeza
(cloreto de cálcio), ou revestimento comestível (goma xantana), bem como o uso
de embalagens de polietileno tereftalato (PET) e de poliestireno expandido (PS)
recobertas com filme de policloreto de vinila flexível (PVC). Os principais vegetais
avaliados, na forma de minimamente processados foram: cenoura, brócolis, chu-
chu, beterraba, couve-flor, couve, vagem, pimentão e repolho.
Em relação aos congelados, avaliaram-se os efeitos do processo de congela-
mento, convencional e criogênico, e a execução de branqueamento como um pré-
-tratamento. Os melhores parâmetros de congelamento foram estabelecidos para
brócolis, cenoura, vagem, milho, batata e ervilha.
Já nos produtos desidratados foram avaliados pré-tratamentos como branque-
amento, adição de antioxidantes ácido cítrico, ácido ascórbico e metabissulfito de
potássio, assim as melhores condições de processamento foram obtidas para to-
mate, cebola e maçã.
O planejamento e execução dos cursos e palestras levou em consideração as
expectativas e necessidades demonstradas pelos agricultores. Ministraram-se
cursos teóricos sobre Boas Práticas de Fabricação (BPF) (BRASIL, 1997; NASCI-
MENTO NETO, 2006), processamento mínimo de vegetais (VITTI et al., 2004;
MORETTI, 2007; MENDONÇA; GRANADA; BORGES, 2009; MENDONÇA; BOR-
GES, 2012), congelados (MENDONÇA, 2009; MENDONÇA, 2012) e produtos de-
sidratados (RAUPP et al., 2009; LUVIELMO; MACHADO; BUCHWEITZ, 2009),

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 812
além de rotulagem/legislação de alimentos (BRASIL, 2005). Nos cursos práticos
foram trabalhadas as Boas Práticas de Fabricação (BPF) e o preparo de produtos
minimamente processados e congelados de origem vegetal.
Os cursos nos anos de 2009 a 2011 foram ministrados na própria localidade, no
período da noite, para que os agricultores pudessem participar sem prejuízos de
suas atividades diárias. Em 2012 e 2013 os cursos foram realizados nas instalações
da agroindústria COOPAMB.
O conteúdo trabalhado foi preparado na forma de apostilas, as quais foram dis-
tribuídas ao público alvo e utilizadas ao longo dos encontros. Os conteúdos abor-
dados foram os seguintes:

A) Boas Práticas de Fabricação (BPF)


- Higiene pessoal e dos instrumentos de trabalho.
- Principais alterações dos produtos comercializados.
- Organização dos produtos.
- Armazenamento adequado dos produtos desde pós-colheita até o consumo final.
- Outros assuntos relacionados às BPF.

B) Tecnologia de processamento
- Vegetais minimamente processados
- Vegetais desidratados
- Vegetais congelados

C) Legislação e rotulagem de alimentos


- Noções sobre rotulagem obrigatória, baseada na legislação vigente (Brasil, 2005)
- Legislações pertinentes.

Avaliação da qualidade dos produtos


Para determinar as condições do processamento, foi executada a avaliação
sensorial dos produtos. Nos minimamente processados julgou-se a cor e aparên-
cia por meio da análise descritiva quantitativa (GULARTE, 2009), utilizou-se uma
escala não estruturada de 9 cm, em que os extremos, para cor, foram os termos:
inadequada e extremamente característica, e para aparência, os termos: muito
ruim e muito boa. Essa análise foi realizada com 12 pessoas treinadas de ambos os
sexos. Os resultados foram avaliados estatisticamente, por análise de variância,
complementada por Teste de Tukey, ao nível de 5% de significância, por meio do
programa Statistix 6.0.
Para os congelados e desidratados aplicou-se o teste de ordenação, em que 10
julgadores avaliaram as amostras, ordenando-as segundo suas preferências em
relação a textura e aparência. Os resultados foram avaliados estatisticamente por
meio da tabela de Kramer - Nevell e Mac Farlene (GULARTE, 2009).

Avaliação dos cursos


Após os cursos solicitou-se aos participantes que fizessem a avaliação da qua-
lidade das atividades, por meio de um questionário. Essa avaliação teve por ob-
jetivo definir o grau de atingimento dos objetivos e a efetividade das ações do
projeto. Na Figura 1 está mostrado o questionário aplicado.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 813
Figura 1: Questionário de avaliação dos cursos.
1. Avaliação geral dos cursos
Fraco Ótimo
1 2 3 4 5

2. Avaliação dos cursos teóricos


Fraco Ótimo
1 2 3 4 5

3. Avaliação dos cursos práticos


Fraco Ótimo
1 2 3 4 5

4. Avaliação da metodologia utilizada


Fraco Ótimo
1 2 3 4 5

5. Avaliação da equipe
Fraco Ótimo
Figura 1 - 1 2 3 4 5
Questionário de
avaliação dos cursos.
Fonte: Acervo do 6 Dê suas sugestões para as próximas atividades:
Projeto.
Fonte: Acervo do Projeto

Execução dos cursos


Nos anos de 2009 a 2011 foram ministrados vários cursos teóricos e práticos. No
curso teórico relativo às BPFs foram abordados assuntos referentes às alterações
de alimentos (físicas, químicas e biológicas), higiene pessoal, higiene no projeto
industrial, higiene de equipamentos e superfície e higiene de frutas e hortaliças.
No curso prático de BPFs foram abordados os assuntos de higiene pessoal, de
equipamentos e superfícies, assim como dos vegetais.
No curso sobre vegetais minimamente processados abordaram-se as etapas de
processamento, envolvendo as operações de colheita, transporte, recepção, esto-
cagem, seleção, limpeza, sanitização, classificação, descascamento, corte, saniti-
zação, conservação, centrifugação, embalagem, rotulagem, transporte e comer-
cialização. Neste momento foram explicados o objetivo e os diferentes métodos
possíveis de serem aplicados em cada etapa, citando-se exemplos específicos. No
curso prático foram preparados alguns vegetais na forma de minimamente pro-
1
cessados, bem como na forma congelada.
Em relação ao congelamento de vegetais foram abordados aspectos relativos
à influência da aplicação de congelamento lento e rápido na qualidade (vantagens
e desvantagens), após o fluxograma de processamento incluindo as etapas de co-
lheita, transporte, recepção, limpeza, classificação, seleção, preparo, branquea-
mento, resfriamento, acondicionamento, congelamento e armazenamento con-
gelado foi pormenorizado.
No curso de vegetais desidratados aspectos referentes ao fluxograma de produ-
ção foram abordados, incluindo colheita, recepção, seleção, classificação, limpeza,
lavagem, descascamento, aparação, corte, branqueamento, sulfuração e secagem,

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 814
ainda foi discutido sobre o controle de qualidade dos produtos desidratados.
Na exposição realizada sobre legislação e rotulagem nutricional foram tratados
assuntos referentes à informação nutricional obrigatória, importância da rotula-
gem nutricional, legislações pertinentes e acesso às tabelas para os cálculos de
informações nutricionais.
Durante a execução das atividades, tanto teóricas como práticas, os partici-
Figura 2 – Fotos de pantes evidenciaram interesse e compreensão sobre os temas abordados, partici-
alguns momentos pando ativamente e realizando questionamentos, expressando a importância das
dos cursos teóricos
atividades que estavam sendo realizadas. Além das perguntas, frequentemente
(esquerda) e práticos
(direita), realizados citavam exemplos e sugeriam propostas de produtos, ao mesmo tempo em que
entre os anos de 2009 recomendavam metodologias de processamento que poderiam ser adaptadas a
a 2011. realidade da comunidade.
Fonte: Acervo do Na Figura 2 podem ser vistas imagens de alguns momentos dos cursos (teóricos
Projeto e práticos).

Percebeu-se que as metodologias trabalhadas atendiam as necessidades ime-


diatas daquela ocasião, mas também poderiam ser adaptadas, servindo de base
para novos produtos ou processos, tanto para aplicação aos vegetais que já eram
produzidos por eles, como também para outros a serem desenvolvidos.
O material utilizado no curso foi transformado em apostilas referentes a cada
tema abordado, as quais devem ter servido como bibliografia e material de consul-
ta, no caso da necessidade de sanar dúvidas.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 815
Resultados dos testes em laboratório
Nos testes realizados em laboratório para elaboração de produtos minimamen-
te processados, desidratados e congelados observou-se que a conservação dos
produtos é dependente do tratamento aplicado. A seguir serão descritos os resul-
tados obtidos para alguns dos produtos elaborados, que serviram de base para o
processamento na agroindústria.
No processamento dos pimentões constatou-se importante influência do tipo
de embalagem (PET e PS/PVC) e dos aditivos empregados (cloreto de cálcio, ácido
ascórbico e cítrico). Quando não se usou aditivos e armazenou-se em embalagem
PET a aparência do produto ficou comprometida. Já para as amostras de chuchu
minimamente processado, o tipo de embalagem não influenciou, e os aditivos
(cloreto de cálcio, ácido cítrico e ascórbico) não mostraram ganhos globais nos
parâmetros avaliados. Em relação à vagem minimamente processada, verificou-
-se vantagem no uso de CaCl2 associado a embalagem PET, enquanto que os an-
tioxidantes (ácido cítrico e ascórbico) não contribuíram para qualidade visual do
produto.
A utilização dos antioxidantes, assim como do cloreto de cálcio, tanto isolada-
mente como combinados, depreciou a aparência da cenoura minimamente pro-
cessada. Entretanto, quando se utilizou goma xantana em combinação com os
aditivos, obtiveram-se melhores características sensoriais.
Na beterraba minimamente processada, a utilização combinada de antioxidan-
tes, cloreto de cálcio e goma xantana auxiliou na manutenção de características
desejáveis por mais tempo.
Para cenoura congelada, os testes sensoriais demonstraram a influência signifi-
cativa dos tratamentos aplicados, sendo a preferência dos julgadores pelas amos-
tras submetidas a branqueamento, independente da forma de congelamento a
que foram submetidas (convencional ou criogênico).
Figura 3 – Fotos de
alguns dos produtos
Já para milho congelado, verificou-se que o processo de branqueamento, ape-
elaborados. Da sar de alterar a estrutura da célula do vegetal, é indispensável para manutenção
esquerda para da cor do produto, inibindo o escurecimento enzimático durante a estocagem e
direita: cenoura congelamento.
minimamente No processo de desidratação das maçãs, constatou-se a influência das etapas
processada, couve
minimamente de pré-tratamento (sanitização, aplicação de aditivos ou tratamento térmico), es-
processada e brócolis tas etapas produziram impacto na aparência no produto. O emprego de ácido cítri-
congelado. co foi vantajoso para a aparência das maçãs desidratadas, por outro lado, o bran-
Fonte: Acervo do queamento denotou ser o pré-tratamento menos favorável para este produto.
Projeto. Abaixo podem ser visualizadas as fotos de alguns produtos testados (Fig. 3).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 816
Nos tomates desidratados, verificou-se que o uso dos aditivos ácido ascórbico
ou metabissulfito de potássio depreciou a aparência global.
Na Figura 4 podem ser vistas imagens das amostras e cabines utilizadas na aná-
lise sensorial dos produtos.

Figura 4 – Fotos das


cabines (esquerda) e
amostras de cebolas
desidratadas (direita)
durante a análise
sensorial.
Fonte: Acervo do
Projeto

Apoio do Programa de Extensão Universitária –


PROEXT
Este projeto foi contemplado com o Edital PROEXT 2009/2010, tendo recebido
financiamento do MEC de R$ 25.000,00, para aquisição dos materiais necessários
as análises (reagentes, meios de cultura e vidrarias), material permanente (como
notebook, projetor data show, impressora, multiprocessadores, centrífuga) que
auxiliaram no desenvolvimento dos cursos, além de 2 bolsas para discentes de
graduação. Com esse apoio foi possível implementar muitas ações do projeto e
dar um bom acompanhamento para o grupo de cooperados.

Atividades na agroindústria COOPAMB


Durante o planejamento e execução das ações na agroindústria, as coordena-
doras do projeto extensão participaram, a convite da EMATER, de reuniões com os
responsáveis e puderam auxiliar indicando o melhor layout da linha de produção
e áreas de apoio, bem como sugeriram os tipos e características desejáveis dos
equipamentos necessários.
No ano de 2012 foram inauguradas as instalações da agroindústria COOPAMB,
e os cursos foram novamente ministrados. Todos os temas já trabalhados foram
novamente retomados, sendo feitas atualizações e adaptações para atender a re-
alidade da estrutura disponível. Também foram considerados os aspectos pesqui-
sados para obter melhor qualidade e vida útil dos produtos. Nesta ocasião foram
realizados 4 cursos teóricos e 1 prático, com a participação de em média 15 pes-
soas da agroindústria por curso. Os professores responsáveis, em geral 2 em cada
curso, executavam as atividades acompanhados dos discentes, que normalmente
eram entre 4 a 5.
Nos anos de 2012 e 2013, a equipe deste projeto esteve em constante contato
com os cooperados e realizou algumas visitas à agroindústria para trocar ideias e
auxiliar na resolução de dificuldades tecnológicas do grupo.
Na Figura 5 podem ser vistas algumas imagens de práticas executadas na
agroindústria.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 817
Figura 5 – Fotos do
processamento de
couve-flor (esquerda)
e brócolis (centro
e direita) realizado
na COOPAMB sob a
supervisão da equipe
do projeto.
Fonte: Acervo do
Projeto.

Também foi possível realizar análises de alguns produtos, para fins de rotu-
lagem nutricional ou para acompanhar a condição microbiológica. Um exemplo
dessas atividades de acompanhamento foi para sanar a dificuldade de obter a per-
feita sanitização do milho, quando processado como espiga, pois nesta condição,
o tempo usual e a concentração de produto clorado utilizados não estavam sendo
suficientes. Os testes foram executados na agroindústria e as análises microbioló-
gicas realizadas nos laboratórios de alimentos da UFPel, permitindo definir a con-
dição ideal da etapa de sanitização deste produto.
Várias outras atividades foram realizadas junto ao grupo no início da operação
da agroindústria, entre elas podem-se citar: testes de congelamento de abóbora;
utilização de abóbora de pescoço para preparações salgadas; estabilização de ba-
tata minimamente processada; avaliação sensorial de milho doce congelado e de
morangos congelados, entre outras ações similares.
Os resultados deste trabalho geraram dados e informações sobre a viabilidade
de produção de produtos de origem vegetal por novas metodologias, as quais ser-
viram como base para diversos estudos e trabalhos de pesquisa, apresentados em
vários congressos de extensão e pesquisa ao longo dos anos que o projeto esteve
vigente. Todo o material produzido foi repassado ao grupo para fonte de consulta
e orientação.
Estima-se que cerca de 10 produtos vegetais tenham sido testados e analisados,
sendo praticamente todos eles avaliados sensorialmente, seja por teste de aceita-
ção ou de preferência. Análises microbiológicas foram realizadas nas amostras,
sendo pesquisada a presença de Salmonella spp., coliformes totais e termotole-
rantes, além da contagem de bactérias psicrotróficas. Ainda, análises físico-quí-
micas como de proteínas, fibras, cinzas, açúcares totais, lipídeos, acidez e sólidos
solúveis também foram executadas.
Nos anos que se seguiram, após o término do projeto, os professores do grupo
de extensão mantiveram contato constante com os administradores da Coopera-
tiva, em alguns casos auxiliando em necessidades específicas que surgiram, em
outros através da realização de visitas técnicas com alunos dos cursos de gradua-
ção e pós-graduação lato sensu na área de alimentos e também por meio de con-
tato informal, para atualizar informações e manter o vínculo com a Universidade.
Com isso tem sido possível acompanhar o desenvolvimento das atividades da CO-
OPAMB. Por envolver a agricultura familiar, em 2013 a Cooperativa passou a for-
necer seus produtos para o Programa Nacional de Alimentação Escolar, tendo seu
mercado bastante ampliado. Outro importante comprador dos produtos da Coo-
perativa, entre os anos de 2013 e 2018, foi a Universidade Federal de Pelotas, para
o preparo das refeições pelo Restaurante Escola. Atualmente, o maior volume de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 818
produção tem sido de vegetais minimamente processados, que são comercializa-
dos em diversos supermercados de Pelotas. Entretanto, os eventuais prejuízos à
agricultura que têm ocorrido, têm dificultado a situação econômica da Cooperati-
va (informação verbal).1

Avaliação do projeto
Acredita-se que as ações deste projeto tenham contribuído para o avanço da
UFPel nas atividades de extensão e avalia-se como relevante a contribuição pres-
tada ao grupo de pessoas envolvidas. Espera-se que o grupo de agricultores coo-
perados possam ter sido favorecidos em seu crescimento econômico, social e cul-
tural, bem como o de sua região.
O projeto de extensão motivou as pessoas responsáveis pelas atividades da Co-
operativa a processar os vegetais dentro de um alto padrão de qualidade, man-
tendo a ênfase nas boas práticas de fabricação e seguindo com critério as meto-
dologias de processamento. Essa consciência tem sido mantida até os dias atuais
(2020), e pode ser constatada pelo excelente padrão de qualidade dos produtos
elaborados.
Segundo informações prestadas pelo atual presidente da COOPAMB, as ações
do projeto de extensão foram fundamentais na capacitação dos cooperados e se-
guem servindo de base para as atividades de produção (Informação verbal)1.
Cabe destacar que outra importante contribuição, foi a orientação para aquisi-
ção de um equipamento que realizasse o branqueamento de vegetais. Para sanar
essa necessidade, em princípio foi feita uma adaptação, instalando um sistema de
aquecimento de água em um tanque de inox. Posteriormente, o branqueador foi
adquirido.
Considera-se importante também, o fato das ações realizadas envolverem dis-
centes e docentes da UFPel, portanto, contribuindo para a formação acadêmica
dos discentes de graduação e pós-graduação, demonstrando a consonância com
o ensino, por promover a consolidação de conhecimentos, exercitar teorias tra-
balhadas em sala de aula, capacitar e estimular os discentes a novas posturas e
habilidades, bem como motivá-los a experimentação em laboratório, por meio da
execução e avaliação de processos tecnológicos aplicados à produção de alimen-
tos, evidenciando assim, estreito elo com a pesquisa.
Ainda, a participação dos discentes da UFPel neste projeto também viabilizou
cumprir requisitos dos projetos pedagógicos dos cursos de graduação de alimen-
tos, pois oportunizou o cumprimento de horas em atividades complementares e
livres, requeridas para a formação superior, consolidando a interação entre ensino,
pesquisa e extensão. Ao todo, 27 discentes participaram do projeto na condição de
colaboradores, destes 13 foram bolsistas, os demais foram voluntários. Todos eles
auxiliaram na produção do material para os cursos, apostilas e também ativamen-
te na execução dos cursos (teóricos e práticos), bem como na realização das análi-
ses dos produtos e na redação dos trabalhos publicados, sempre com a orientação
dos professores responsáveis. Ainda, foram abertas possibilidades de estágio de
conclusão de curso na agroindústria, tendo 3 alunos egressos do projeto realizado
estágio final na COOPAMB.
Soma-se à importância do projeto o grande volume de publicações geradas, na
forma de artigo e trabalhos em congressos (totalizando 42 trabalhos completos
em congressos de extensão e pesquisa, além de 1 artigo publicado na Revista Ex-
pressa Extensão), alguns inclusive tendo recebido destaque por premiações.
1 Informação prestada pelo Sr. Nilson Scheunemann, presidente da COOPAMB, em fevereiro de 2020.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 819
Em relação aos dados obtidos do questionário de avaliação dos cursos, foi pos-
sível verificar que quanto à qualidade geral, a grande maioria das respostas (94,5%)
estiveram entre as descrições de bom e ótimo, sendo o restante (5,5%) como re-
gular. Nos demais itens questionados, envolvendo a avaliação dos cursos teóricos,
práticos, metodologia utilizada e equipe, todas as repostas (100%) qualificaram os
cursos entre as descrições bom e ótimo. Ainda, em outras considerações, foi men-
cionado o desejo de continuidade dos cursos, destacando-se a relevância do apoio
da universidade no momento de início das atividades na agroindústria, também
sugeriram que seria interessante a execução de cursos relacionados ao controle
de qualidade.

Considerações Finais
As ações deste projeto contribuíram para a consolidação e o avanço da ativida-
de produtivas de pequenos agricultores, visando reduzir as desigualdades e esti-
mular a consolidação dos objetivos de inclusão social.
Outro aspecto relevante do projeto foi a possibilidade de integrar o ensino, a
pesquisa e a extensão, desta forma a Universidade Federal de Pelotas esteve con-
tribuindo para o desenvolvimento da região em que está inserida e também for-
mando acadêmicos mais preparados e socialmente comprometidos.
Acredita-se que o projeto atingiu seus objetivos, em especial pela avaliação dos
participantes, que foi bastante positiva, bem como por ter transmitido conheci-
mento tecnológico aos produtores, possibilitando que colocassem em prática a
produção de vegetais minimamente processados e congelados, dentro de pa-
drões adequados de qualidade. Ainda, o mercado conquistado pela Cooperativa e
a manutenção até os dias atuais das atividades de produção sob rigorosos critérios
higiênicos e tecnológicos, são gratificantes para o projeto.
Por fim, cabe destacar o reconhecimento da importância e competência da ex-
tensão universitária, que proporciona espaço para interação com a comunidade e
para aplicação do conhecimento acadêmico, enriquecendo ambos, comunidade e
academia.

Referências
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. Acesso em: 11 ago. 2011.

RAUPP, D. S.; GARDINGO, J.R.; SCHEBESKI, L. S.; AMADEU, C. A.; BORSATO,


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Ponta Grossa, v. 39, n. 2, p. 415-422, 2009.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 821
VITTI, M.C.D.; KLUGE, R.A.; COSTA, C.A.; ONGARELLI, M.G.; JACOMINO, A.P.
MORETTI, C.L. Aspectos fisiológicos e bioquímicos de beterraba minimamente
processada. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.39, n.10, p.1027-1032, out. 2004.

SOBRE OS AUTORES
Carla Rosane Barboza Mendonça, Paulo Renato Buchweitz, gradua-
graduada em Ciências Domésti- do em Engenharia Agrícola pela UFPel.
cas pela UFPel. Doutora em Quími- Doutor em Tecnologia de Alimentos
ca pela UFRGS. Professora do Centro pela Unicamp. Professor do Centro
de Ciências Químicas, Farmacêuticas de Ciências Químicas, Farmacêuticas
e de Alimentos da UFPel. Coordena- e de Alimentos da UFPel (aposenta-
dora do Projeto de Extensão. E-mail: do). Colaborador no projeto. E-mail:
carlaufpel@[Link]. pbweitz@[Link]

Caroline Dellinghausen Borges, ba- Rui Carlos Zambiazi, graduado em


charel em Química de Alimentos pela Química Industrial pela UFSM. Doutor
UFPel. Doutora em Biotecnologia Agrí- em Food and Nutritional Science pela
cola pela UFPel. Professora do Centro University of Manitoba, Canadá. Pro-
de Ciências Químicas, Farmacêuticas e fessor do Centro de Ciências Quími-
de Alimentos da UFPel. Colaboradora cas, Farmacêuticas e de Alimentos da
no projeto. E-mail: caroldellin@hot- UFPel. Colaborador no projeto. E-mail:
[Link] zambiazi@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº5 822
LINSE | UFPEL –
LABORATÓRIO DE INSPEÇÃO DE
EFICIÊNCIA ENERGÉTICA EM EDIFICAÇÕES,
UMA DÉCADA PROMOVENDO EFICIÊNCIA
ENERGÉTICA NO PAÍS

Juliana Al-Alam Pouey


Antonio César Silveira Baptista da Silva
Fábio Kellermann Schramm
Eduardo Grala da Cunha
Liader da Silva Oliveira
Antônio Carlos de Freitas Cleff

Apresentação
O LINSE | UFPel – Laboratório de Inspeção de Eficiência Energética em Edifica-
ções é, atualmente, um dos três Organismos de Inspeção Acreditados em ativida-
de no país para emissão da Etiqueta Nacional de Eficiência Energética (ENCE) para
Edificações. Intimamente ligado aos objetivos nacionais de redução do consumo
de energia no país, especificamente nas edificações, busca atender às metas esta-
belecidas pela Lei nº 10.295, de 17 de outubro de 2001, que dispõe sobre a Política
TECNOLOGIA E PRODUÇÃO Nº6

Nacional de Conservação e Uso Racional de Energia (BRASIL, 2001).


Esta responsabilidade é desempenhada pelo LINSE | UFPel, por meio do Proje-
to de Extensão denominado: Etiquetagem de Eficiência Energética de Edifica-
ções Residenciais, Comerciais, Públicas e de Serviço, em execução desde 2012,
coordenado pelo Prof. Dr. Antonio César Silveira Baptista da Silva.
Segundo o projeto ora vigente, o objetivo do LINSE é:
[…] promover a eficiência energética nas edificações do país, através
da divulgação, capacitação de pessoal e avaliação no nível de eficiência
energética de edificações, segundo os Requisitos Técnicos da Qualidade
para o Nível de Eficiência Energética de Edifícios Comerciais, de Servi-
ços e Públicos (RTQ-C), Requisitos Técnicos da Qualidade para o Nível
de Eficiência Energética de Edifícios Residenciais (RTQ-R), Requisitos de

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 823


Avaliação da Conformidade do Nível de Eficiência Energética para Edifí-
cios (RAC). Para tanto serão realizadas palestras, cursos e inspeções de
eficiência energética, conforme o escopo do LINSE | UFPel acreditado
junto a Coordenação Geral de Acreditação (Cgcre) do Inmetro, como or-
ganismo de inspeção, identificado e certificado como OIA/EEE 003 (SIL-
VA, 2016, p. 01).

Eficiência energética em edificações


As crises do petróleo ocorridas na década de 1970 deram origem aos primeiros
programas governamentais e legislações específicas para promover a eficiência
energética no mundo. Em 1974, na França e na Alemanha, foram desenvolvidos
os primeiros regulamentos que buscavam a eficiência energética em edificações.
Nesta mesma época, nos Estados Unidos, alguns estados americanos também
criaram seus regulamentos.
No Brasil, as iniciativas neste sentido foram bem posteriores, com algumas
ações importantes, porém isoladas na década de 1980, como a criação do PBE –
Programa Brasileiro de Etiquetagem (1984) e do Procel - Programa Nacional de
Eficiência Energética (1985), mas sendo efetivas, de fato, somente neste século
após a crise energética nacional, que afetou o fornecimento e distribuição de ener-
gia elétrica no Brasil em 2001, sendo publicada, dentre outras, a Lei nº 10.295/2001
(BRASIL, 2001), conhecida como Lei de Eficiência Energética.
Em 2003, foi instituído pela Central Elétricas Brasileiras S.A. - Eletrobras e pelo
Procel, o Procel Edifica - Programa Nacional de Eficiência Energética em Edifica-
ções, onde as ações foram ampliadas e organizadas com o objetivo de incentivar
a conservação e o uso eficiente dos recursos naturais especificamente nas edifica-
ções, reduzindo os desperdícios e os impactos sobre o meio ambiente causados
por estas.
Ainda no ano de 2004, entra em atividade o LABCEE – Laboratório de Confor-
to e Eficiência Energética vinculado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
UFPel, a partir de um convênio com a Eletrobras, celebrado no âmbito do Procel
Edifica, denominado Programa de Capacitação de Laboratórios de Conforto ECV
937/2003.
Em outubro de 2007, na reunião da ANDIFES - Associação Nacional dos Dire-
tores das Instituições Federais de Ensino Superior, foi lançada pelo Procel Edifica
uma primeira versão da Rede de Eficiência Energética em Edificações (R3E), inter-
ligando quinze laboratórios de universidades capacitados por convênios que aten-
diam ao Plano de Ação deste programa, do qual o LABCEE/UFPel é membro fun-
dador. A partir desse momento, os objetivos da Rede foram ampliados no sentido
de promover o intercâmbio da produção científica e didática entre as instituições
e fomentar as parcerias nas atividades de ensino, pesquisa e extensão, atendendo
aos anseios dos professores e coordenadores dos respectivos laboratórios.
Como resultado, após anos de intensa colaboração entre várias entidades liga-
das à construção civil, instituições acadêmicas, como a UFPel, organismos gover-
namentais e não governamentais, foi lançado o método para avaliação do desem-
penho energético de edificações comerciais, de serviços e públicas. Os trabalhos
foram conduzidos pelo Ministério de Minas e Energia, enquanto a Secretaria Téc-
nica era exercida pelo Procel Edifica.
As publicações oficiais sobre Eficiência Energética em Edificações do Inmetro
– Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial - tiveram

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 824
início em 2009, por meio das Portarias 163/2009: Regulamento Técnico da Qualida-
de do Nível de Eficiência Energética de Edifícios Comercias, de Serviços e Públicos
- RTQ-C (Inmetro, 2009) e 185/2009: Regulamento de Avaliação da Conformidade
do Nível de Eficiência Energética de Edifícios Comercias, de Serviços e Públicos -
RAC-C (Inmetro, 2009).
A partir destas publicações, a Eletrobras e o Procel Edifica, ainda em 2009, pas-
saram a ministrar Cursos de Capacitação para profissionais e estudantes das ins-
tituições que participavam da R3E. Os professores, funcionários e então mestran-
das do LABCEE/UFPel, Prof. Dr. Antonio César Silveira Baptista de Silva, Prof. Dr.
Eduardo Grala da Cunha, Liader da Silva Oliveira, Juliana Al-Alam Pouey e Daniela
da Rosa Curcio, realizaram estes cursos no RTQ-C, RTQ-R e RAC.
Estes cursos ocorreram entre os anos de 2009 e 2011, totalizando cinco cur-
sos e quase cem horas de treinamentos técnicos ministrados pelos pesquisadores
do LABEEE/UFSC, possibilitando um conhecimento técnico muito específico que
poucos profissionais da área no país até este momento tinham, e que deu subsí-
dios para a criação da documentação técnica do LINSE | UFPel nos anos seguintes.
Em 2010, foi publicada a Portaria nº 372, de 17 de setembro de 2010, documento
técnico denominado RTQ-C – Requisitos Técnicos da Qualidade para o Nível de
Eficiência Energética de Edifícios Comerciais, de Serviços e Públicos (INMETRO,
2010), documento vigente atualmente e utilizado pelo LINSE | UFPel, o qual possui
ainda três portarias complementares publicadas pelo Inmetro, sendo elas: 17/2012,
299/2013 e 126/2014.
Ainda em 2010, foi publicado o Regulamento Técnico da Qualidade para o Nível
de Eficiência Energética de Edificações Residenciais – RTQ-R, portaria nº 449, de
25 de novembro de 2010 (INMETRO, 2010).
Figura 1 - Modelo
Posteriormente, em 2013, foi publicada a Portaria nº 50, de 01 de fevereiro de
de ENCE Comercial, 2013, o RAC – Requisitos de Avaliação da Conformidade para Eficiência Energética
conforme RAC (2013), de Edificações (Inmetro, 2013), ainda vigente e utilizado pelo LINSE | UFPel.
emitida pelo LINSE. Estas publicações especificam o método para avaliação e obtenção da ENCE
Fonte: Autores. - Etiqueta Nacional de Conservação de Energia, mesma Etiqueta encontrada em
eletrodomésticos e automóveis, porém com informações
específicas para as edificações. A ENCE, com modelo apre-
sentado na figura 1, pode ser concedida para duas etapas do
ciclo de vida das edificações: para a etapa de projeto, que
pode ser avaliado pelo método prescritivo ou pelo método
de simulação computacional, e para o Edifício Construído,
avaliado por meio de inspeção in loco.
O RTQ-C, regulamento específico para edifícios comer-
ciais, públicos e de serviço, apresenta os critérios para clas-
sificação do nível de eficiência energética pela avaliação de
três sistemas: envoltória, iluminação e condicionamento
de ar, incluindo, ainda, eventuais bonificações, podendo ser
concedida uma etiqueta parcial ou geral para o edifício.
O RTQ-R, regulamento específico para edificações resi-
denciais, tem como objetivo criar condições para a avaliação
do nível de eficiência energética de residências unifamiliares
e multifamiliares, pela avaliação dos sistemas de envoltória
e de aquecimento de água das unidades habitacionais e, ain-
da, eventuais bonificações, bem como os sistemas presentes
nas áreas comuns dos edifícios multifamiliares.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 825
Neste contexto, as inspeções e a emissão da ENCE - Etiqueta Nacional de Con-
servação da Energia, são realizadas pelos denominados OIA/EEE – Organismos
de Inspeção Acreditados na área de Eficiência Energética de Edifícios. Estes orga-
nismos devem ser reconhecidos e acreditados pela Cgcre - Coordenação Geral de
Acreditação, vinculado ao Inmetro, com reconhecimento pelo Governo Brasileiro
(PEDRINI et al., 2012).

Criação do LINSE | UFPel


Em 2010, a Eletrobras lançou edital com o objetivo específico de difundir os
Regulamentos de Eficiência Energética no país, por meio das Instituições de Ensi-
no Federais que possuíssem o conhecimento técnico sobre o assunto, de modo a
ampliar o número de OIA (Organismos de Inspeção Acreditados) no país, uma vez
que apenas um OIA estava em operação, naquele momento.
A UFPel foi convidada a participar deste edital para criar um OIA, seguindo a
ABNT NBR ISO/IEC 17.020, e ser responsável pela aplicação dos métodos para ava-
liação do desempenho termoenergético das edificações pela comparação interla-
boratorial dos resultados, de modo que garantisse a repetitividade dos resultados
e aprimoramento da própria regulamentação, bem como ser responsável pelos
cursos de formação de inspetores e consultores para atuarem nas áreas relaciona-
das a esta etiquetagem.
A UFPel participou do Edital, tendo sido uma das quatro instituições seleciona-
das, dentre as mais de vinte que participaram. A formalização de participação no
convênio se deu através do Ofício SG/UFPEL nº 327/2010 e confirmado pela assi-
natura do Termo de Adesão ao Convênio nº ECV 314/2010 (ELETROBRAS, 2010)
firmado entre a Eletrobras, UFRN e FUNPEC.
Iniciou-se neste momento, sob o programa de extensão denominado Etiqueta-
gem de Eficiência Energética de Edificações Residenciais, Comerciais, Públicas e
de Serviço, o processo de criação de um OIA na estrutura da UFPel e a criação do
Sistema de Gestão deste OIA.
Nesta mesma época, o projeto de extensão denominado Eficiência Energética
nas Edificações: Capacitação e Consultoria nas novas Regulamentações Brasileiras
(CUNHA, 2011-2015), sob coordenação do Prof. Dr. Eduardo Grala da Cunha, foi
responsável pela divulgação e capacitação técnica de profissionais e estudantes,
sendo ministrados dezenove cursos de capacitação na normatização de Eficiência
Energética das Edificações, até 2015.
Após orientações jurídicas e capacitação da equipe em gestão, em 2012, o LIN-
SE foi criado dentro da estrutura da UFPel, vinculado ao Departamento de Tecno-
logia da Construção da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, em paralelo e in-
dependente ao Laboratório de Conforto e Eficiência Energética (LABCEE), tendo
seu regimento interno aprovado pela Resolução N° 06, de 04 de outubro de 2012.
O regime interno do LINSE | UFPel traz em seu Capítulo I, Art.2º seus objetivos:
Constitui objetivo geral: Divulgar, desenvolver, consolidar e avaliar a efi-
ciência energética de edificações através dos instrumentos legais vigen-
tes no país.

Constituem objetivos específicos:

I - Divulgar os instrumentos legais vigentes no país a estudantes de


graduação, pós-graduação e profissionais da área da construção civil;
II- Desenvolver sistemas, instrumentos, equipamentos e processos que

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 826
proporcionem benefícios diretos ou indiretos à consolidação ou avalia-
ção da eficiência energética nas edificações; III- Desenvolver a avaliação
continuada dos instrumentos legais de eficiência energética vigentes no
país; IV- Avaliar a eficiência energética de edificações, segundo os instru-
mentos legais vigentes no país e as especificações do Instituto Nacional
de Metrologia (INMETRO); V- Realizar pesquisas integradas entre a Fa-
culdade de Arquitetura e Urbanismo com outras Unidades da UFPel, ins-
tituições públicas e privadas, governamentais e não governamentais, e
com a comunidade organizada. VI- Realizar trabalhos de interesse coleti-
vo, colocando a produção do conhecimento e a prestação de serviços em
favor da construção de uma sociedade mais justa e de melhor qualidade
para todos (UFPEL, 2012, p. 01).

O Regimento do LINSE prevê também a estrutura organizacional e suas com-


petências, composta pelas figuras do Coordenador Geral, Gerente Técnico, Geren-
te da Qualidade e Gerente Administrativo.
Entre os anos de 2011 e 2014 houve um árduo trabalho dos profissionais envol-
vidos desde o princípio para, de fato, tornar o LINSE | UFPel um OIA/EEE.
O Prof. Dr. Antonio César Silveira Baptista da Silva, Coordenador Geral do LIN-
SE desde sua criação até os dias atuais (coordenador do projeto de extensão e pes-
quisa do LINSE), ocupou inicialmente também o cargo de Gerente Administrativo.
O Prof. Dr. Fábio Kellermann Schramm, então professor do Curso de Administra-
ção, Gerente da Qualidade, que foi responsável por criar e implementar o Sistema
de Gestão do LINSE, segundo a ABNT NBR ISO/IEC 17.020.
No departamento técnico, a MSc. Arq. Juliana Al-Alam Pouey, na época Mes-
tranda do PROGRAU-UFPel trabalhando no tema de eficiência energética em edi-
ficações e aplicação dos regulamentos e bolsista do convênio com a Eletrobras,
com o cargo de Gerente Técnica, sendo responsável pelo desenvolvimento dos do-
cumentos técnicos do LINSE em conjunto com o Técnico da UFPel Eng. Elet. Liader
da Silva Oliveira, com o Prof. Dr. Eduardo Grala da Cunha, responsável pelos docu-
mentos do método de simulação e com o Prof. MSc. Eng. Mec. Oberdan Carrasco
Nogueira, com horas cedidas pela FURG, responsável pelo desenvolvimento dos
documentos do sistema de condicionamento de ar.
Neste período alguns trabalhos de conclusão de curso foram desenvolvidos por
graduandos do curso de Administração, orientados pelo Prof. Dr. Fábio Kellermann
Schramm com temas vinculados ao desenvolvimento do laboratório.
Estes TCCs foram: “Adaptação do Modelo Last Planner de Sistema de Plane-
jamento e Controle de Projetos à Gestão de Projetos: o Caso do OIEEE da UFPel”
(2011), da aluna Jane de Moraes Calderipe; “Eficiência Energética em Edificações:
adoção do Selo Procel-Edifica por construtoras do Estado do Rio Grande do Sul”
(2011), do aluno Ricardo Farias de Souza; “Uma Análise do Uso da Ferramenta Blue-
printing no Projeto de Novos Serviços: o caso do Laboratório de Inspeção de Efici-
ência Energética de Edificações – LINSE” (2012), da aluna Camila Cardoso Pereira e
“Desenvolvimento e Implantação do Sistema de Gestão da Qualidade Baseado na
NBR ISO/IEC 17020 Concomitantemente ao Desenvolvimento do Novo Serviço: o
caso do Laboratório de Inspeção de Eficiência Energética em Edificações – LINSE”
(2013), da aluna Elisa Hoff.
Após graduada, a Bacharel em Administração Elisa Hoff, anteriormente bolsis-
ta de graduação no LINSE, ocupou o cargo de Gerente Administrativa, durante o
período da acreditação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 827
Em paralelo ao desenvolvimento do LINSE | UFPel, um importante passo foi
dado para a eficiência energética em edificações pelo Governo Federal, Ministério
do Planejamento, Orçamento e Gestão, em 2014, através da publicação no Diário
Oficial da União da Instrução Normativa 02/2014 (BRASIL, 2014), a qual dispõe so-
bre regras para a aquisição ou locação de máquinas e aparelhos consumidores de
energia pela Administração Pública Federal e uso da ENCE nos projetos e respecti-
vas edificações públicas federais novas ou que recebam retrofit.
Esta Instrução Normativa tornou obrigatório que os projetos de edificações pú-
blicas federais novas e obras de retrofit devem ser desenvolvidos ou contratados
visando, obrigatoriamente, à obtenção da ENCE Geral de Projeto e de Edificação
Construída classe “A”.
Em agosto de 2014, o LINSE | UFPel recebeu pela primeira vez a equipe de au-
ditores e especialistas do Inmetro, sendo submetido à primeira Auditoria Externa
visando a obtenção da Acreditação pela Coordenação Geral de Acreditação (Cgcre)
do Inmetro.
Em 29 de dezembro de 2014, a Universidade Federal de Pelotas, na figura do
LINSE | UFPel, foi acreditada pela Cgcre do Inmetro como OIA/EEE 003 – Tipo A,
segundo os requisitos estabelecidos na ABNT NBR ISO/IEC 17020/2012, constituin-
do esta acreditação a expressão formal do conhecimento de sua competência para
realizar atividades de inspeção, conforme Escopo de Acreditação. Atestada pelo
Certificado e Selo de Acreditação, apresentado na figura 2.
O LINSE | UFPel foi o terceiro Organismo de Inspeção Acreditado no país, apto
a realizar inspeções de avaliação de conformidade de eficiência energética de edi-
ficações, conforme as normas vigentes e seu escopo de acreditação, e principal-
mente, foi o primeiro dentre as quatro instituições contempladas pelo Convênio
da Eletrobras a vir a se tornar um OIA, contemplando o objetivo do convênio.
Em 2016, após nova auditoria externa do Inmetro, o LINSE | UFPel ampliou o
Figura 2 - Selo de
escopo e o tipo de acreditação, sendo acreditado pela Cgcre do Inmetro como OIA/
Acreditação do EEE 003 – Tipo C, estando autorizado a realizar também consultorias e a inspeção
LINSE | UFPel, OIA/ inclusive de prédios da UFPel, ao comprovar completa isenção. No seu escopo,
EEE 003. além de Projetos passou a estar acreditado para inspeção de Edifícios Construídos
Fonte: Autores. Comerciais, Públicos e de Serviços, conforme o RTQ-C.

O LINSE | UFPel
O LINSE | UFPel desenvolve atividades de Inspeção de Eficiência Energética de
Projetos e Edifícios Construídos Comerciais, Públicos e de Serviços, conforme o
RTQ-C, Consultorias em Eficiência Energética em Edificações e Cursos de Capaci-
tação no tema.
Desde 2011, foram realizados um total de vinte e cinco Cursos de Capacitação
ministrados em parceria com o LABCEE, outras Universidades, como UFRGS -
Porto Alegre/RS, UPF - Passo Fundo/RS, UNIFRA - Santa Maria/RS, UFTPR - Pato
Branco/PR, e Banco do Brasil - Brasília/DF. Aproximadamente quatrocentas pesso-
as, entre profissionais e estudantes da área da construção civil foram capacitados
sobre os regulamentos de eficiência energética neste período. Destes, seis cursos
(2016-2019) foram ministrados já no projeto de extensão unificado (SILVA, 2016-
2020).
Além dos cursos, mais de trinta palestras e workshops sobre o tema foram mi-
nistradas pelo Coordenador Geral e Gerente Técnica do LINSE | UFPel em eventos
profissionais e semanas acadêmicas ao longo destes anos.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 828
Até o fim do ano de 2019, o LINSE | UFPel emitiu quatorze ENCEs conforme o
RTQ-C e RAC, sendo destas, doze de Projeto e duas de Edifício Construído, e reali-
zou duas consultorias no RTQ-C. Atualmente, possui três inspeções e uma consul-
toria em andamento.
A publicidade das ENCEs emitidas é realizada pelo Inmetro, em seu site, dis-
ponível em: [Link] assim como to-
dos demais produtos aprovados no Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) e
que, portanto, estão autorizados a ostentar a Etiqueta Nacional de Conservação
de Energia (ENCE).
As ENCEs emitidas pelo LINSE | UFPel estão disponíveis em: [Link]
[Link]/consumidor/pbe/[Link]. São apresentadas conforme
mostrado na figura 3.

Figura 3 - Quadro Em virtude da IN02/2014, que prevê a obrigatoriedade de obtenção da ENCE


de Edificações para os projetos e edifícios públicos federais desde 2014, a demanda do LINSE é
Comerciais, Públicas
predominantemente de contratação do setor público federal ou de construtoras/
e de Serviços
(adaptado de escritórios que ganharam licitações de projeto ou execução de edifícios públicos
INMETRO, 2019) federais.
Fonte: Autores.
Nesse contexto, o LINSE | UFPel, por ser um órgão federal, tem o diferencial da
possibilidade de ser contratado por meio de dispensa de licitação, conforme Lei nº
8.666/1993 (BRASIL, 1993).
Sendo assim, este projeto de extensão tem por característica intrínseca a abran-
gência nacional do LINSE, tendo relevância e reconhecimento no cenário nacional
de eficiência energética em edificações, prestando serviços em vários Estados,
apesar da localização geográfica no extremo sul do país.
Um reflexo da abrangência do LINSE | UFPel, são as ENCEs emitidas pelo OIA
de projetos ou edifícios localizados no Distrito Federal, Minas Gerais, Mato Gros-
so, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, San-
ta Catarina e São Paulo.
Fisicamente o LINSE | UFPel localiza-se no edifício da Agência da Lagoa Mirim,
Pelotas-RS, em espaço destinado para suas atividades.
Ao longo destes anos, passaram pelo laboratório mais de vinte alunos da UFPel
durante sua formação de graduação ou pós-graduação.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 829
A equipe do LINSE | UFPel, mostrada na tabela 1 abaixo, é composta atualmen-
te pelos seguintes colaboradores:

Tabela 1- Equipe atual (2019) do LINSE | UFPel.

Instituição/
Nome Função Formação
Unidade
Antonio César Silveira Coordenador Geral Docente, Dr. Eng. UFPel/FAUrb
Baptista da Silva. Inspetor de Envoltória
Fábio Kellermann Gerente da Qualidade Docente, Dr. Eng. UFPel/FAUrb
Schramm
Antônio Carlos de Gerente Administrativo Técnico UFPel, Téc. UFPel/FAUrb
Freitas Cleff Inspetor da Iluminação e Geral em Eletrotécnica
Juliana Al-Alam Pouey Gerente Técnica Discente, MSc. Arq. UFPel/ PROGRAU
Inspetora da Envoltória,
Iluminação, Cond. Ar e Geral
Liader da Silva Oliveira Inspetor da Envoltória, Técnico UFPel, Eng. UFPel/FAUrb
Iluminação, Cond. Ar e Geral Eletricista
Marcelo Schramm Inspetor do Cond. de Ar Docente, Dr. Eng. UFPel, CEng
Eduardo Grala da Inspetor do Método de Docente, Dr. Arq. UFPel/FAUrb
Cunha Simulação
Daniela da Rosa Curcio Inspetora Envoltória Docente, MSc. Arq. IFSul/ Edificações
Vanessa Bütow Inspetora Envoltória Docente, MSc. Arq. IFSul/ Edificações
Signorini
Renata Caetano Pereira Inspetora Iluminação Discente Arq. e Urb., UFPel/FAUrb
Tec. Eletrotécnica
Rodrigo Karini Leitzke. Apoio Externo Discente, Bacharel UFPel/ PROGRAU
em Ciência da
Computação
Vitória de Sena Ferreira Apoio Técnico Discente Arq. e Urb. UFPel/FAUrb
Lucas Ferro Pesce da Apoio Técnico Discente Eng. de UFPel/CEng
Fonseca Produção
Fonte: Autores.

O LINSE | UFPel tem como Missão: “Promover soluções em eficiência energéti-


ca das edificações, contribuindo para a implementação e consolidação de políticas
públicas e para o desenvolvimento sustentável” (UFPel, 2012).
Para o desenvolvimento das atividades, o LINSE | UFPel possui contrato com a
fundação de apoio Fundação Delfim Mendes Silveira que executa o gerenciamen-
to dos recursos de modo a atender às legislações do TCU e proporcionar agilidade
financeira e administrativa ao Organismo de Inspeção da UFPel.
Nestes quase dez anos de trabalho e cinco anos de Acreditação que o LINSE
| UFPel completou no fim do ano de 2019, não restam dúvidas de que o saldo é

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 830
positivo, no entanto, nem tudo tem sido fácil. Imaginava-se que o mais difícil seria
conseguir obter a acreditação, mas não o quão difícil seria manter um OIA em fun-
cionamento no país.
Ao todo, seis OIAs em Eficiência Energética em Edificações já receberam Acre-
ditação, no entanto, somente três estão ativos atualmente, conforme site do In-
metro. (Disponível em: [Link]
[Link]).
Isso mostra a dificuldade que é, não só criar um OIA, mas também, e principal-
mente, a consolidação deste no cenário nacional.
Após a primeira Auditoria Externa do Inmetro em 2014, o LINSE | UFPel passou
por outras três Auditorias Externas, sendo a última em agosto de 2019, quando
então fechou o chamado Ciclo de Acreditação. O funcionamento de um OIA/EEE
envolve custos significativos, para manutenção da acreditação.
Hoje, após uma década de trabalho, apesar da eficiência energética em edifi-
cações ainda não ocupar o destaque e reconhecimento de sua importância econô-
mica e ambiental, tanto dos profissionais da área da construção civil, quanto dos
consumidores e usuários dos edifícios, entende-se que o retrocesso nesta trajetó-
ria não é uma possibilidade.
Este trabalho segue sendo desenvolvido e aprimorado na extensão e também
na pesquisa, não só na UFPel como em outras instituições de ensino do país.
Em 2018, a Portaria nº 248, de 10 de julho de 2018 (Inmetro, 2018) teve como
objetivo a consulta pública da Proposta da INI-C, Instrução Normativa para a Clas-
se de Eficiência Energética de Edifícios Comerciais, de Serviços e Públicos, me-
todologia de avaliação de aperfeiçoamento do RTQ-C, que futuramente virá a
substituí-lo, promovendo maior precisão dos resultados, mas exigindo alteração e
revisão de todo o Sistema de Gestão (SG) do LINSE. O SG, em constante evolução,
é composto atualmente pelo Manual da Qualidade e cento e dezoito documen-
tos, sendo treze Procedimentos Administrativos, treze Procedimentos Técnicos e
noventa e dois Documentos da Qualidade, além de inúmeros outros documentos
externos, de referência, documentos auxiliares e equipamentos.
O processo de aperfeiçoamento e maturidade do SG também tem respaldo
na pesquisa homônima Etiquetagem de Eficiência Energética de Edificações Re-
sidenciais, Comerciais, Públicas e de Serviço, na qual, por exemplo, se avalia o
desempenho do LINSE e se aprimora procedimentos técnicos a serem adotados
frente às novas tecnologias, como Building Information Model (BIM) e o processo
de Etiquetagem, com envolvimento de alunos de graduação e pós-graduação.
No PROGRAU – UFPel, Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanis-
mo, nas linhas de pesquisa “Conforto e Sustentabilidade do Ambiente Construído”
e “Tecnologia e Conservação do Ambiente Construído”, desde 2011, pelo menos
treze dissertações concluídas e oito em andamento tratam de pesquisas vincula-
das ao tema de eficiência energética em edificações.
Através deste Projeto Unificado com caráter predominante na Extensão, o LIN-
SE | UFPel leva o nome de nossa Universidade por todo este país, como exemplo
de competência, dedicação e empenho em prol da Eficiência Energética em Edifi-
cações, pois crê que o conhecimento tem mais valor quando aplicado ao bem dos
demais.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 831
Referências
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17020:2012: Avaliação da conformidade: requisitos para o funcionamento de
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INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMALIZAÇÃO E QUALIDADE IN-


DUSTRIAL. Portaria nº 185, de 22 de junho de 2009: regulamento de avaliação
da conformidade do nível de eficiência energética para edifícios comerciais, de
serviços e públicos. Rio de Janeiro: Inmetro, 2009.

INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMALIZAÇÃO E QUALIDADE IN-


DUSTRIAL. Portaria nº 372, de 17 de setembro de 2010: regulamento técnico da
qualidade do nível de eficiência energética de edifícios comerciais, de serviços e
públicos. Rio de Janeiro: Inmetro, 2010.

INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMALIZAÇÃO E QUALIDADE


INDUSTRIAL. Portaria nº 18, de 16 de janeiro de 2012: regulamento técnico da
qualidade do nível de eficiência energética de edificações residenciais. Rio de Ja-
neiro: Inmetro, 2012.

INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMALIZAÇÃO E QUALIDADE IN-


DUSTRIAL. Portaria nº 50, de 01 de fevereiro de 2013: requisitos de avaliação da
conformidade para eficiência energética de edificações. Rio de Janeiro: Inmetro,
2013.

INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMALIZAÇÃO E QUALIDADE


INDUSTRIAL. Coordenação Geral de Acreditação. Certificado de acreditação nº
OIA/EEE 003 – Tipo A. Rio de Janeiro: Inmetro, 2014.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 832
INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMALIZAÇÃO E QUALIDADE
INDUSTRIAL. Coordenação Geral de Acreditação. Certificado de acreditação nº
OIA/EEE 003 – Tipo C. Coordenação Geral de Acreditação, Rio de Janeiro: Inme-
tro, 2016.

INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMALIZAÇÃO E QUALIDADE IN-


DUSTRIAL. Portaria nº 248, de julho de 2018: consulta pública: aperfeiçoamen-
to do regulamento técnico da qualidade para a classe de eficiência energética de
edifícios comerciais, de serviços e públicos. Rio de Janeiro: Inmetro, 2018.

PEDRINI, A. et al. O processo de criação de organismos de inspeção acreditados


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2012: aprova regimento do Laboratório de Inspeção de Eficiência Energética em
Edificações (LINSE). COCEPE. Pelotas: UFPel, 2012.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 833
SOBRE OS AUTORES
Juliana Al-Alam Pouey, gradua- Eduardo Grala da Cunha, gradua-
da em Arquitetura e Urbanismo pela do em Arquitetura e Urbanismo pela
UFPel. Mestra em Arquitetura e Urba- UFPel. Doutor em Arquitetura pela
nismo pela UFPel. Foi Professora Subs- UFRGS. Pós-Doutorado pela Universi-
tituta na Faculdade de Arquitetura e dade de Kassel, Alemanha. Professor
Urbanismo da UFPel ministrando dis- Associado da UFPel, Coordenador do
ciplinas do Departamento de Tecnolo- PROGRAU. Consultor ad hoc do CNPq,
gia (2016-2018). Atualmente é Gerente da CAPES, da FAPESP, da FAPEAL e
Técnica e Inspetora do LINSE | UFPel da FACEPE. Bolsista Produtividade
(2012). E-mail: julianapouey@hotmail. CNPq Nível 2. Inspetor do LINSE | UFPel
com (2012). E-mail: eduardogralacunha@
[Link]
Antonio César Silveira Baptista
da Silva, graduado em Arquitetura e Liader da Silva Oliveira, gradua-
Urbanismo pela UFPel. Doutor em En- do em Engenharia Elétrica pela UCPel.
genharia Civil pela UFSC . Professor Mestre em Arquitetura e Urbanismo
da UFPel desde 1996, atualmente é pela UFPel, na área de Qualidade e
Professor Associado desta, Coordena- Tecnologia do Ambiente Construído.
dor do Laboratório de Conforto e Efi- Atualmente é engenheiro eletricista
ciência Energética - LABCEE (2003) e da UFPel e Inspetor do LINSE | UFPel
Coordenador do Laboratório de Inspe- (2012). E-mail: liader@[Link]
ção de Eficiência Energética em Edifi-
cações – LINSE | UFPel (2012). E-mail: Antônio Carlos de Freitas Cleff, gra-
[Link]@[Link] duado em Licenciatura Plena P/Prof.
Form. Esp. Cur Ens 2 g pelo CEFET-PR.
Fábio Kellermann Schramm, gra- Especialista em Administração Univer-
duado em Arquitetura e Urbanismo sitária pela UFPel. Atualmente é Técni-
pela UFPel. Doutor em Engenharia Civil co em Eletrotécnica da UFPel e Gerente
pela UFRGS. Atualmente é professor Administrativo e Inspetor do LINSE |
associado da UFPel, atuando como do- UFPel (2017). E-mail: tonicleff@gmail.
cente no curso de graduação em Arqui- com
tetura e Urbanismo e no Programa de
Pós-graduação em Arquitetura e Urba-
nismo da UFPel, além de ser Gerente
da Qualidade do LINSE | UFPel (2012).
E-mail: fkschramm@[Link]

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº6 834
MURAL G BIOTEC:
10 ANOS

Luciana Bicca Dode


Ana Lucia Soares Chaves

Mural G Biotec
O curso de Biotecnologia integra o Centro de Desenvolvimento Tecnológico da
UFPel e foi criado a partir do REUNI, tendo a primeira turma de ingressantes no
segundo semestre de 2008. Apoiado no Programa de Pós-graduação em Biotec-
nologia (PPGB) e seus consolidados cursos de mestrado e doutorado proporciona
a formação de profissionais cujo perfil é genuinamente forjado na formação para
pesquisa científica qualificada e na capacidade empreendedora e de inovação.
Neste ambiente, onde há um incansável compromisso nasceu o Mural G Biotec,
reunião de ideias que resultaram em um amplo conjunto de ações de extensão
permanentes que são desenvolvidas desde 2010 no Curso de Bacharelado em Bio-
tecnologia com o propósito de popularizar o papel da ciência e da biotecnologia no
desenvolvimento econômico e social, destacando os avanços na área industrial,
agropecuária, saúde e meio ambiente e seus impactos no dia a dia.
Se por um lado, os futuros biotecnologistas da UFPel tem no Mural G Biotec a
oportunidade de dialogar com a sociedade aproximando e desmistificando o co-
nhecimento científico e biotecnológico, tem na organização curricular, no estímu-
TECNOLOGIA E PRODUÇÃO Nº7

lo a curiosidade científica e na pesquisa a oportunidade de relacionar a ciência e


a biotecnologia com a solução dos problemas vislumbrados durante as atividades
de extensão.
Participar no Mural G Biotec exige aos integrantes propor, planejar, executar e
avaliar ações de popularização da ciência e divulgação científica junto a diferentes
públicos. Atuando de forma cooperativa e colaborativa, futuros biotecnologistas
exercitam habilidades e desenvolvem novas competências, pois a possibilidade
de ser autor e protagonizar novas estratégias de extensão para popularização da
ciência e da biotecnologia reforça a necessidade de autonomia, responsabilidade
e criatividade.
Atuar fora dos muros da universidade é desafiador já que a população desco-
nhece a biotecnologia, as denominações técnicas e as bases científicas de inúme-
ros processos cotidianos, exigindo uma adequação do discurso para cada novo

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III 835


público. Sabendo ainda que antes de popularizar é necessário dominar o conhe-
cimento e se apropriar da fundamentação científica, muita pesquisa e busca de
informações tornam a extensão um contínuo processo de aprender e ensinar.
Crianças, jovens, adultos e idosos, simpatizantes e aliados ao desenvolvimento
científico e também oponentes aos avanços biotecnológicos passaram a ser ao
mesmo tempo sujeito e objeto das ações do Mural G Biotec. A medida que polê-
micas e também vitórias da ciência são temas apresentados em palestras, mostras
interativas, divulgados em eventos e postagens nas redes sociais on line, opiniões
e manifestações, favoráveis ou não, contribuem para reflexão.
Nos quase 10 anos de Mural G Biotec, através da decisão colegiada e coopera-
tiva observou-se a expansão de uma árida chapa metálica de 1,4x 2,0m em ações
Figura 1- Mural G que reverberaram na comunidade acadêmica do curso de Bacharelado em Biotec-
Biotec em chapa nologia gerando identidade e criando a necessária sensação de pertencimento e
metálica. satisfação em produzir e compartilhar os avanços da ciência (Fig. 1).
Fonte: Acervo das Empatia, cooperação, colaboração também são observados no logotipo elabo-
autoras. rado pelo então acadêmico Lucas Goedert e adotado até hoje (Fig. 2). Enquan-
to o slogan do Mural G Biotec expressa
a premissa maior do grupo: “O Mural
somos todos e cada um” extrapola os
limites acadêmicos e insere a biotecno-
logia na comunidade.
Além dos dois programas cadastra-
dos em 2014 no SIEX-UFPEL: Programa
de Interação Científico-tecnológica e
Biotecnologia Invade a Escola: Culti-
vando com Ciência (2014-2016), a equi-
pe do Mural G Biotec esteve ativamen-
te envolvida com os projetos Mural G
Biotec (2010-2014 e 2017-2019), Mural
G Biotec em Ação (2012-2013; 2015-
2016), Mural CIEP-Biotec: Biotecnolo-
gia Invade a Escola (2012-2013); Desafio
Mural G-Biotec 2012: a biotecnologia e
você (2012), Rede Social Mural G-Biotec
(2013-2017), Identidade e Pertencimen-
to (2013), Consolidação da Participação
Colaborativa G-Biotec/PPGB (2013), II
Desafio Mural G Biotec (2015), III De-
safio Mural G Biotec (2016) além dos
projetos unificados cadastrados na pla-
taforma Cobalto-UFPel: Mural G Biotec
(2017-2018), Mural G Biotec 10 anos
Figura 2 - Logotipo (2019-2020), V Desafio Mural G Biotec (2018) e VI Desafio Mural G Biotec (2019).
do projeto de Nosso objetivo é relatar resumidamente a trajetória dos 10 anos de extensão
extensão Mural G
Mural G Biotec ao descrever parte da história da atividade extensionista nas ações
Biotec
desenvolvidas no Curso de Bacharelado em Biotecnologia da Universidade Fede-
Fonte: Acervo das ral de Pelotas (DODE et al., 2017).
autoras.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº7 836
Como tudo começou...
Partindo das premissas propostas no movimento pedagógico “ciência, tecno-
logia e sociedade” (KRASILCHICK; MARONDINO, 2004), em julho 2010 foi possí-
vel reunir quatro alunos dispostos a assumir mais uma tarefa: extensão buscando
a popularização do conhecimento científico e biotecnológico. Ingressantes, em
suas atribuladas rotinas de final do primeiro semestre, apoiados por professores
e pós-graduandos do PPGB-UFPEL consolidaram e deram início a um projeto de
extensão devidamente cadastrado no SIEX, o Mural G Biotec.
Apresentados pela primeira vez no XI Salão de Extensão da UFRGS por Nunes
e colaboradores (2010) os objetivos do Mural G Biotec destacados: incentivo da
interação e conexão entre acadêmicos do curso de Bacharelado em Biotecnologia
e pós-graduandos do PPGB-UFPel e a popularização da ciência e da biotecnologia
permanecem atuais e norteiam todas as ações do projeto.
Apoiado e desenvolvido com as tecnologias da informação e comunicação
(TICs) o Mural passou a integrar a rotina acadêmica dos jovens extensionistas do
curso de Biotecnologia na mesma proporção que a WEB 2.0 também fazia parte
das suas vidas.
O Blog Mural G Biotec, além da divulgação das atualizações do mural físico
passou a compartilhar sugestões de livros, filmes, eventos e oportunidades em
biotecnologia alcançando notável público de seguidores ([Link]
[Link]/). Seguindo as novas tendências o Twitter passou também a compor
as estratégias de popularização da ciência do Mural G Biotec ([Link]
muralgbiotec). À medida que foram surgindo e consolidando as novas redes so-
ciais on line, o Mural G Biotec ganhou e fã Page no Facebook e comunidade no
ORKUT. A integração das mídias digitais ampliou a visibilidade do conhecimento
cientifico e biotecnológico atingindo não apenas a comunidade local mas também
internautas que passaram a interagir e seguir o Mural G Biotec (CASARIN et al.,
2015). A fã page no Facebook mantém uma média de 1900 jovens seguidores de
diferentes países de quatro continentes .
O Mural G Biotec também instalou sua rede social própria na plataforma Ning
em setembro de 2011, fomentando a integração do conteúdo de disciplinas op-
tativas e obrigatórias nas atividades extensionistas do projeto. A rede congregou
uma comunidade com interesses específicos em biotecnologia mantendo ativi-
dade até março de 2017. Articulada as demais mídias sociais do projeto, além de
manter durante todo período 3 fóruns de discussão, recebeu dos 148 integrantes
169 postagens no Blog, 542 fotos e 42 videos, estabelecendo diálogo interativo
com as disciplinas obrigatórias de Bioética, Fundamentos da Biologia Vegetal e
Biotecnologia Vegetal contribuindo para o necessário exercício de explorar na for-
mação acadêmica indissociavelmente ensino, pesquisa e extensão (DODE et al.,
2013; GUIMARÃES et al., 2015).
A participação e ampliação das ações do Mural G Biotec nas redes sociais on line
(RSOs) evoluiu rapidamente aproveitando os pressupostos de construção coletiva
apoiada na WEB 2.0 e permitiu a descentralização das ações, horizontalizando as
possibilidades de consolidação do processo de letramento científico e biotecnoló-
gico e valorizando a participação individual na construção e apropriação do conhe-
cimento coletivo. A tecnologia da informação vem fomentando o fortalecimento
de rede científicas e tecnológicas fato que pode ser observado ao longo da tra-
jetória do Mural que manteve sempre as RSOs ativas e em constante diálogo com
as demais ações.

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº7 837
Mural G Biotec em ação e a mobilidade do
conhecimento
Atendendo à a urgência de apropriação do conhecimento em um curso recen-
te, com características multidisciplinares e estabelecendo um diálogo com a so-
ciedade, em 2012 empresas de diferentes áreas foram convidadas a proferir pa-
lestras temáticas, alterando o usual fluxo da informação academia-comunidade.
Meio ambiente, Resíduos sólidos, Biotecnolgia Industrial, RNAi, Biotecnologia e
Dermocosmética, Computação com DNA foram alguns dos temas abordados na
primeira fase. Desde então, palestras cujas temáticas e palestrantes são escolhi-
Figura 3 - Chamadas
dos nas reuniões sistemáticas semanais do grupo, contribuem para discussão da
divulgadas no Mural
G Biotec convidando biotecnologia e seus impactos na sociedade.
para o Mural G Biotec O sucesso da iniciativa consolidou o Mural G Biotec em ação contínua, propor-
em ação. cionando a comunidade acadêmica a oportunidade de fortalecer o diálogo (Fig. 3).
Fonte: Acervo das No primeiro semestre de 2019, fortalecidos e ávidos por reforçar a interação
autoras. academia-comunidade, palestras do Mural G Biotec em Ação foram ministradas
por acadêmicos para comunidade aos
sábados, em auditório central no Cam-
pus II da UFPel. Vacinas, Transgênicos,
Microbiologia no dia-dia, Imunologia e
Biofortificação foram algumas das te-
máticas apresentadas pelos acadêmi-
cos de biotecnologia
A globalização interferiu não apenas
na economia mundial, mas principal-
mente no trânsito livre de ideias e va-
lores, proporcionando direta e indire-
tamente novas formas de estabelecer
relações (DELLORS,1999). Tais reflexos
são notáveis na cultura e também na
possibilidade de ampliar a velocida-
de de difusão da ciência e do conheci-
mento biotecnológico. A formação crítica e o desenvolvimento de competências
através da apropriação de valores essenciais à cidadania resulta na construção do
profissional capaz de produzir, reunir e compartilhar informações comprometidas
com o avanço da sociedade. Isso pressupõe o exercício da capacidade de comuni-
cação, expressão e argumentação destacando assim o papel do Mural G Biotec.

E a Biotecnologia invadiu a escola e cultivou a


ciência...
A partir da participação no 1st Fascination of Plants Day 2012, uma exposição no
saguão da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel percebeu-se que biotecnologia
deveria ir também para escola. A Escola Estadual de Ensino Fundamental Osmar
da Rocha Grafulha (CIEP), cujo primeiro contato foi firmado ainda no evento, foi a
escola que nos recebeu e onde começamos a dialogar com crianças e adolescentes.
Lá, foram desenvolvidas atividades sistemáticas com alunos do 6º ano, palestras
com alunos do ensino médio, mural, biblioteca dinâmica de ciência e tecnologia,
além de atividades e oficinas com professores (Fig. 4).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº7 838
Figura 4 - Mural Com a participação de acadêmicos dos cursos de Agronomia e de Ciências Bio-
elaborado na E.E.E.F. lógicas, observou-se o fortalecimento da prática extensionista multidisciplinar,
Osmar da Rocha
Grafulha. houve a revitalização na área no entorno escolar com a implantação de um pomar
Fonte: Acervo das didático (Fig. 5) e de uma horta de plantas aromáticas contribuindo para realização
autoras. de um antigo anseio da comunidade e configurando um espaço para novas ativida-
des práticas que integraram diferentes
adiantamentos com apoio do PROEXT
(SILVA et al., 2016). Foram produzidas
mudas de frutíferas distribuídas na co-
munidade escolar (MUELLER et al.,
2015 e FUHRMAMM et al., 2015).
Além do CIEP, o Biotecnologia inva-
de a escola participou das atividades
do Sábado em Foco do Colégio Muni-
cipal Pelotense, recebendo alunos em
oficinas no Campus Capão do Leão, ati-
vidades esporádicas, palestras, mostras
interativas e oficinas na Escola Munici-
pal de Ensino Básico Bibiano de Almei-
da, Escola Municipal Margarida Gastal,
Colégio Santa Mônica, Escola Estadual
de Ensino Médio Marechal Rondon e
Instituto de Educação Assis Brasil.

Bbioteca instrumento
cultural do MURAL G
Biotec
Em 2018, fortalecido com o suces-
so do livre compartilhamento de livros
obtido em ações anteriores realizadas
no âmbito escolar o Mural G Biotec ini-
cia a Bbioteca, estante dinâmica para
compartilhamento de livros que além
de promover a cultura almeja reforçar
a cooperação, solidariedade, responsa-
Figura 5 - Pomar bilidade e a sustentabilidade. Estabelecendo um intercâmbio e fluxo de livros da
didático implantado comunidade e para a comunidade, em pouco mais de 18 meses a Bbioteca com-
na E.E.E.F. Osmar
partilhou mais de 5.000 títulos, destinou livros técnicos específicos para bibliote-
da Rocha Grafulha
(CIEP)/Pelotas. cas acadêmicas, montou sala de estudos com amplo e variado acervo na área de
biotecnologia, destinou literatura infantil e juvenil para escolas parceiras e comu-
Fonte: Acervo das
autoras. nidades, participou, também, de feiras e eventos. (ROLIN et al., 2018)
Na Bbioteca, o livro compartilhado, recebido, doado, trocado é o instrumento
material que possibilita acesso e promoção da cultura. Ao desconstruir as normas
de funcionamento usuais das bibliotecas e facilitar o livre acesso ao livro a Bbio-
teca reforça a consolidação de valores como responsabilidade e solidariedade e
democratiza o acesso, promovendo a valorização do livro.
A ação de extensão recebe e encaminha obras de seu acervo para comunidade
e mantém fâ page própria onde divulga novidades e realiza campanhas (Fig. 6 e 7).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº7 839
Figura 6 - Bbioteca
na 26ª FENADOCE/
Pelotas.
Fonte: Acervo das
autoras.

Desafio Mural G Biotec


Transferir e compartilhar o conhecimento científico e bio-
tecnológico, no Desafio Mural G Biotec é uma atividade que
juntamente com o Espaço Ciência aproxima a academia da
comunidade. Através de editais específicos, são divulgadas
as modalidades e a temática do evento e os trabalhos sele-
cionados por avaliadores participam de evento aberto à co-
munidade.
“A Biotecnologia e você” (2012); “Contando estórias so-
bre a biotecnologia e você” foi (2015), “A biotecnologia e suas
aplicações”(2016), “Desbravando a Ciência” (2017), “Vivendo
a Ciência”(2018) e “Bioeconomia e sustentabilidade”(2019)
foram as temáticas dos desafios que resultaram em uma di-
versificada gama de atividades integradas e integradoras
que buscaram promover a reflexão crítica dos grupos de
pesquisa na universidade sobre as dificuldades e também a
Figura 7 - Estante da importância da ciência para o desenvolvimento nacional.
Bbioteca no Campus
Anglo.
As duas primeiras edições do Espaço Ciência aconteceram na sala Watson e
Crik, prédio 20 no campus Capão do Leão, com um número limitado de alunos
Fonte: Acervo das
autoras. do ensino médio. O sucesso da abertura à comunidade promoveu o crescimen-
to do evento, realizado desde 2017 no Pelotas Parque Tecnológico com diferen-
tes modalidades de interação e também aproximando empresas e a cultura do
empreendedorismo e da inovação tanto da academia quanto da comunidade. O
evento passou a receber grande número de estudantes principalmente de escolas
públicas e também a comunidade em geral além de contar com a participação de
startups e empresas locais (SANCHEZ et al., 2018) (Fig. 8 e 9).

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº7 840
Figura 8 – IV Desafio
e III Espaço Ciência,
Pelotas Parque
Tecnológico, 2017.
Fonte: Acervo das
autoras.

Figura 9 – V Desafio
e IV Espaço Ciência,
Pelotas Parque
Tecnológico, 2018.
Fonte: Acervo das
autoras.

Considerações finais
O ensino de ciências nas escolas públicas continua baseado na atividade do do-
cente, predominando invariavelmente a teoria sobre a prática. Restrito a sala de
aula e aos livros, o aluno passivo na condução do processo de construção do co-
nhecimento carece de experiências capazes de promover e instigar a curiosidade
científica e a aprendizagem. Da mesma forma, a desvinculação do conhecimento
da realidade distancia o dia a dia da ciência. Tais fatos, problematizados por To-
runcha (2000) há quase duas décadas, continuam sendo observados contribuindo
para a desvalorização da ciência e desconhecimento de seu papel. Desta forma,
o Mural G Biotec em suas intervenções vem buscando ampliar as possibilidades de
apresentação do conhecimento científico ao proporcionar novas práticas e criar
espaços extraclasse para necessária reflexão sobre a ciência e sua importância,
despertando novos talentos e contribuindo para o letramento científico e biotec-
nológico.
Adotando a perspectiva contemporânea e a amplitude do conceito de cultura
proposto por Porto (2011), o Mural G Biotec em suas ações cuja multidisciplinari-
dade e transversalidade, inerente ao conhecimento biotecnológico, são expres-
sas através de atividades de popularização e divulgação da ciência, as quais têm

A Extensão Universitária nos 50 Anos da UFPEL - Parte III - Tecnologia e Produção nº7 841
contribuído na promoção de uma cultura científica e na popularização da biotec-
nologia. Ao facilitar a aproximação academia/comunidade o Mural G Biotec facili-
ta uma reflexão da sociedade sobre ciência e biotecnologia e da academia sobre o
seu papel no desenvolvimento social por meio da observação de seu impacto local
e regional. A extensão no curso de Bacharelado em Biotecnologia cumpre seu pa-
pel de forma indissociável do ensino e da pesquisa, contribuindo para a consolida-
ção da cidadania e da democratização do conhecimento.

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SOBRE AS AUTORAS
Luciana Bicca Dode, graduada em Ana Lucia Soares Chaves, graduada
Engenharia Agronômica e Medicina em Engenharia Agronômica pela UFPel.
Veterinária pela UFPel, graduada em PhD em Biologie Céllulaire et Molécu-
Farmácia pela UCPel. Doutora em Bio- laire Végétale (Institut National Poly-
tecnologia Agrícola pela UFPel. Profes- technique de Toulouse/ENSAT/Fran-
sora Associada do Centro de Desenvol- ça/2001) e doutora em Biotecnologia
vimento Tecnológico, Biotecnologia. (PPGBA/UFPEL/2001). Professora As-
Tem nos projetos Sorrindo Verde e sociada responsável pela disciplina de
Mural G Biotec o resultado de sua ati- Bioquímica em vários cursos de gradu-
vidade extensionista. E-mail: luciana@ ação. E-mail: [Link]@
[Link] [Link]

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