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Texto e Discurso: Coerência e Coesão

O documento explora a relação entre texto e discurso, destacando a importância da gramaticalidade, coesão e coerência na textualidade. Discute como o contexto linguístico, situacional e extralinguístico influencia a interpretação de textos e a produção de discursos. Além disso, analisa o papel do tradutor como produtor de texto e a interação entre texto e contexto na comunicação.

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Texto e Discurso: Coerência e Coesão

O documento explora a relação entre texto e discurso, destacando a importância da gramaticalidade, coesão e coerência na textualidade. Discute como o contexto linguístico, situacional e extralinguístico influencia a interpretação de textos e a produção de discursos. Além disso, analisa o papel do tradutor como produtor de texto e a interação entre texto e contexto na comunicação.

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Texto e Discurso

Temas nucleares:

− Texto e discurso, gramaticalidade e textualidade

− coerência e coesão textuais

− A importância do contexto na interpretação: contexto linguí


stico, contexto
situacional e contexto extralinguí
stico para além da situação de enunciação

− A gramaticalidade como factor condicionante da textualidade e da


comunicação verbal humana

− Tipos de texto e modos de discurso


1. O texto como objecto linguí
stico

Texto(1) – objecto linguí


stico.
Discurso – “texto em contexto” (van Dijk 1977)

As lí
nguas são sistemas de elementos e regras de combinação, isto é, são
dotadas de uma gramática. A gramática de cada lí
ngua permite gerar uma
combinação infinita de estruturas resultantes da combinação de um conjunto
limitado de elementos. Certas combinações são gramaticais (estão de acordo
com as regras da lí
ngua) e outras são agramaticais. Podemos combinar
palavras para formar Sintagmas, combinar Sintagmas para formar frases simples
e combinar frases simples para formar frases complexas.
> Gramaticalidade

Da combinação de frases pode resultar um texto, mas nem todas as


combinações de frases formam um texto.
> Textualidade
______

(1)Etimologicamente, a palavra “texto” vem da palavra latina “textum”, que significa “tecido”; éo supino do
verbo texo, is, xui, textum (tecer, entrelaçar). É, pois, como um “tecido”, com linhas horizontais
(linearidade do texto) e verticais (cf. e.g. cadeias referenciais ou anafóricas).
1. O texto como objecto linguí
stico (cont.)

• Texto e não texto


Um texto é um conjunto de frases com uma unidade de sentido. Nem todos os
agrupamentos de frases formam um texto.

(1) O aquecimento global éum problema sério. Vou trocar de carro. (Peres 2009: 10)
 Texto, assumindo uma relação causal entre situações.
Informação implí
cita: o carro que o enunciador possui polui muito.

(2) O arquitecto do Pavilhão de Portugal na Expo foi o Siza Vieira! Convido-te para jantar!
(ibid.)
 Poderáser um texto, por exemplo, no contexto de uma aposta
prévia entre o enunciador e o interlocutor sobre quem foi o arquitecto do
Pavilhão de Portugal...

(3) O medicamento da BIAL para a doença de Parkinson começou a ser


comercializado nos mercados norte-americano e japonês. Desde 2001 que o
ICNF disponibiliza, sob a forma de relatórios anuais, informação relativa a
áreas ardidas e a ocorrências registadas e investigadas.
 Édifí
cil imaginar um contexto que torne a sequência coesa, i.e. um texto.
1. O texto como objecto linguí
stico (cont.)

• As principais propriedades de textualidade – coesão e coerência


− COESÃO
O texto incorpora geralmente um plano e uma rede de ligações (ou
interdependências) entre os seus elementos constituintes, que lhe conferem uma
das suas propriedades essenciais: a coesão textual. A coesão estáintimamente
relacionada com a estrutura do texto. Entre os factores de coesão textual,
destacam-se dois: (i) as cadeias referenciais (ou anafóricas, em sentido
lato), que refletem interdependências semânticas entre vários elementos das
frases no texto, (ii) as conexões interproposicionais, relações de significado
que se estabelecem entre as proposições que constituem o texto.
1. O texto como objecto linguí
stico (cont.)

− COERÊNCIA
O texto tem ainda, normalmente, uma unidade de sentido, construí
da a partir
da articulação de sentidos das suas estruturas constituintes. Trata-se de uma
questão de um plano mais conceptual que exclusivamente linguí
stico. A
possibilidade de encontrar um sentido e uma lógica nos enunciados corresponde
a outra das propriedades essenciais do texto: a coerência textual.
Note-se, por exemplo, que um texto com contradições tem incoerência, embora,
naturalmente, não sejam apenas contradições que criam incoerência.
1. O texto como objecto linguí
stico (cont.)

• As principais propriedades de textualidade – coesão e coerência


Excertos com problemas de coesão/coerência:

“Convém sublinhar que os princí pios da Linguí stica Cognitiva se afiguram contrários às teses do
estruturalismo que preconizam a autonomia da linguagem relativamente a factores externos, bem como aos
postulados do generativismo que defendem uma visão mentalista da linguagem, centrada exclusivamente
no ser humano. Assim sendo, o paradigma cognitivo faz depender a categorização dos diversos domí nios da
experiência humana em sentido lato em que se incluem naturalmente a vertente social e cultural.”
(A. Monteiro, Representações metafóricas do futebol nos media portugueses e ingleses: abordagem
cognitiva, diss. mestrado, FLUL)

“Joan reviveu a confusão com que se deparara do palácio do bispo atécasa. Os soldados tinham encerrado
as portas da judiaria e tinham-se colocado diante delas, para evitar que a multidão a assaltasse; porque
agora se dedicavam a saquear as casas dos cristãos.”
(A catedral do Mar, tradução do Espanhol da obra de Ildefonso Facolnes, Bertrand, 2006)

Os alunos preparam-se para um mestrado de dois anos. O primeiro seráfeito na Faculdade de Economia da
Nova e o segundo ano será repartido em dois semestres. Seis meses numa faculdade de um paí s
estrangeiro integrado na rede CEMS MIM e os restantes a realizar um estágio internacional numa das
empresas parceiras do programa.»
(Mundo Universitário, 13-02-2008)

“Como reacção ao encerramento da Internacional, o PSD da Figueira da Foz acusou Mariano Gago de
pretender acabar com o ensino privado. «Esta atitude cumpre uma estratégia socialista de extinguir o
ensino privado. Se fosse uma empresa envolvida nas recentes acções de propaganda do Governo, logo se
preparava uma linha de crédito bancário, isentava de uns quantos impostos e tentavam manter a
actividade. Como se trata do ensino universitário da Figueira da Foz (...), fecha-se e pronto», acusou o
presidente da concelhia (...).

“O Sindicato Nacional do Ensino superior (SNEsup) também manifestou opinião sobre o assunto. Por seu
turno, o SNEsup apoiou a decisão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. De acordo com o
SNEsup, «revela-se assim a total falência de um modelo de ensino superior privado assente na aposta da
quantidade em detrimento da qualidade (...).» (Mundo Universitário, 13-02-2008)
1. O texto como objecto linguí
stico (cont.)

• O tradutor como produtor de texto

O tradutor é um produtor de texto (na lí


ngua-alvo) e o seu produto está,
portanto, sujeito às mesmas restrições de natureza gramatical que os produzidos
por um autor comum, ainda que as escolhas gramaticais do tradutor possam ser
fortemente condicionadas pelas do texto original.

(1) “The translator is (...) a text-producer in the target culture who adopts
somebody else’s intention in order to produce a communicative instrument
for the target culture, or a target-culture document of a source-culture
communication.” (Nord 2005: 13)
2. Texto e discurso – a importância do conceito de contexto na interpretaç
ão
Interessa distinguir duas noções autónomas, ainda que relacionadas: texto e
discurso(1). Para e.g. van Dijk (1977), o que distingue um texto de um discurso é
o contexto. Enquanto o texto é um objecto meramente linguí
stico, com uma
estrutura e regras de construção, o discurso éum objecto de comunicação. É
texto interpretado em contexto, interpretação que convoca mais do que o
conhecimento linguí
stico.

Uma noç
ão rica de contexto pode abranger diferentes conceitos (interdependentes):
A. Contexto linguí
stico (ou textual)
B. Contexto situacional (relacionado com a situação de enunciação)
C. Contexto extralinguí
stico para além da situação de enunciação
Os dois últimos são especialmente relevantes para distinguir a noção de texto
(enquanto objecto gramatical) da noção de discurso (enquanto objecto
comunicacional).
______
(1) Nem todos os autores usam estes dois termos com o mesmo sentido, mas vamos fixar-nos aqui num
que érelativamente comum entre vários autores (cf. e.g. van Dijk 1977).
A. Contexto linguí
stico (ou textual)
(1) O Nuno trabalha num hotel de Vilamoura.
Todos os dias contacta com pessoas de diferentes nacionalidades.
Foi láque conheceu a mulher dele.

Para interpretar o sentido de um subtexto, precisamos naturalmente, em


primeiro lugar, de conhecer o contexto textual. Neste caso, ele écrucial para
interpretar adequadamente, por exemplo, o pronome ele (que remete para a
expressão anterior o Nuno) ou o Sintagma Nominal pessoas de diferentes
nacionalidades (subentende-se que são pessoas que frequentam o hotel em que
o Nuno trabalha e não, por exemplo, pessoas que trabalham num laboratório
farmacêutico).
B. Contexto situacional (situação de enunciação)

Outro elemento de que precisamos para definir uma noção rica de contexto éa
situação de enunciação, que desempenha um papel crucial na interpretação
dos discursos: o enunciador e seus interlocutores, os objectos presentes, os
acontecimentos em curso, o tempo e espaço em que decorre a enunciação,...

(1) Tu nunca me tinhas dito que gostavas de cerejas.


(2) Isto éteu?
(3) Não faças isso assim.
(4) Queres mais?

Todos conseguimos compreender estas frases (ou textos), sabemos o seu


significado e podemos ajuizar da sua gramaticalidade. Enquanto objectos
estritamente gramaticais, trata-se de construções completas. Mas sem um
contexto situacional elas não podem ser integralmente interpretadas.
C. Contexto extralinguí
stico (para além da situação de enunciação)
A interpretação de um texto depende normalmente de aspectos extralinguí
sticos
(além da situação de enunciação), como o conhecimento que os falantes têm do
mundo, pressupostos culturais, informação que partilham entre si, etc. Estes
aspetos são cruciais para captar globalmente um discurso (i.e. um texto em
contexto, como objecto de comunicação). A atribuição de sentido a um texto
convoca informação extra-textual. O conhecimento partilhado éuma componente
do contexto extralinguí
stico particularmente relevante (também) para a Tradução,
podendo justificar-se a adição de Notas do/a tradutor(a) para ajudar o leitor a
preencher lacunas.
− Sistemas de conhecimento / Sistemas de crenças [“belief systems”]
a que a informação estáassociada

Aquilo que sabemos, aquilo que para nós é verdadeiro ou aquilo em que
acreditamos, incluindo tudo o que tem a ver com mentalidades e culturas.

(1) Émuito grave que o preço do petróleo esteja a subir. (Peres 2009: 1)

Um texto único (do ponto de vista estritamente gramatical), mas discutivelmente


diferentes discursos consoante o enunciador (e.g. vendedor de posto de
abastecimento de gasolina vs. ministro das Finanças português vs. chairman da
Federal Reserve americana), já que as suas consequências são potencialmente
diferentes.
− Conhecimento partilhado [“shared knowledge”, “commonground”]

Aquilo que é comum aos interlocutores numa situação de enunciação.


Estreitamente relacionado com o conceito anterior, mas distinguí
vel deste.

(1) – Achas que tudo vai correr bem?


– Acho. A situação estácontrolada e tudo deverácorrer como previsto.
Dentro de umas duas horas conheceremos o resultado.” (Peres 2009: 1)

(2) – Então, o que éque vai ser? O costume?


– Sim, o costume. [CONVERSA OUVIDA NUM CAFÉ]

(3) Que grande dia no domingo, hem?

Podemos captar o texto (todos os elementos de análise linguí


stica/gramatical),
mas não captar o discurso, porque nos falta o conhecimento partilhado
(relativamente ao tema de que se estáa falar).
• Interacção entre texto e contexto
Existe uma interacção entre texto e contexto: por vezes, sóo contexto num sentido
amplo nos permite avaliar se estamos perante um texto (i.e. uma sequência de
frases como uma unidade com sentido, coesa e coerente) ou um não-texto.

(1) O aquecimento global éum problema sério. Vou trocar de carro.


 Texto coeso, assumindo uma relação causal entre situações.
Informação implí
cita: o carro que o enunciador possui polui muito.

(2) O arquitecto do Pavilhão de Portugal na Expo foi o Siza Vieira! Convido-te para jantar!
 Poderáser um texto coeso, por exemplo, no contexto de uma aposta
prévia entre o enunciador e o interlocutor sobre quem foi o arquitecto do
Pavilhão de Portugal...

(3) A Ana comprou um casaco de peles. Um meteorito causou a extinç


ão dos dinossauros.
 Édifí
cil imaginar um contexto que torne a sequência coesa, i.e. um texto.
• Exemplo da relevância linguí
stica da informação contextual (dos três
tipos referidos acima): os sintagmas nominais definidos
Os sintagmas nominais com determinantes (e.g. artigos) podem ser divididos em
dois grandes tipos – os indefinidos e os definidos. A sua distribuição não é
idêntica. Tipicamente, um indefinido não requer informação prévia (textual ou
extralinguí
stica) sobre as entidades que estão a ser referidas, adequando-se
prototipicamente a contextos de apresentação das entidades no texto (i.e. da sua
introdução no universo do discurso que estáa ser produzido).
(1) Uma criança entrou na sala. Trazia uma bola na mão.
(2) Uma criança entrou na sala. #Trazia a bola na mão. [SEM INFORMAÇÃO CONTEXTUAL]
(3) #A criança entrou na sala. #Trazia a bola na mão. [SEM INFORMAÇÃO CONTEXTUAL]

Já um sintagma definido requer essa informação. Ela pode ser de três tipos
(cf. Peres 2013: 766).
I. Definitude textual (ou anafórica)

A informação relevante (para processar o sintagma definido) éobtida no contexto


linguí
stico. Há menção prévia no texto das entidades relevantes. Os definidos
comportam-se nestes casos como anáforas.

(1) [Uma criança]i entrou na sala. [A criança]i vinha a chorar.

(2) Uma criança entrou na sala. Trazia [uma bola]i na mão.


[A bola]i era vermelha.

(3) Chegou [um casal]i. [O homem]i trazia um chapéu.


II. Definitude situacional (ou dêictica)

A informação relevante (para processar o sintagma definido) éobtida no contexto


situacional (na situação de enunciação). Estão presentes na situação da
enunciação entidades que permitem fazer a interpretação do definido. Os
definidos comportam-se nestes casos como dêicticos.

(1) Apanha a bola!


(2) Sai da frente do carro!
(3) A embaixada estámuito bem localizada...
[ENUNCIADO À FRENTE DO EDIFÍCIO DA EMBAIXADA]
(4) O dia vai ser complicado! Preparem-se!
III. Definitude epistémica (ou cognitiva)

A informação relevante (para processar o sintagma definido) éobtida no contexto


extralinguí
stico para além da situação de enunciação (e.g. conhecimento do
mundo, conhecimento partilhado,...).

(1) O Paulo conhece a mulher do Pedro.

(2) Amanhãnão trago o carro para a Faculdade.

(3) O primeiro-ministro estáa perder popularidade. Com o paí


s em crise, não é
de estranhar.

(4) Temos de ir ao consulado tratar desse assunto.


[NUMA CONVERSA ENTRE DOIS PORTUGUESES EM MACAU]
• A importância da informação contextual na tradução

Vários autores têm sublinhado a importância dos factores contextuais – em


particular daqueles que são de natureza mais pragmática – na tradução de
textos. Por exemplo, Nord (2005) (usando “texto” num sentido lato que
corresponde ao conceito de “discurso” aqui utilizado) refere:

(1) “If textuality is no longer considered a mere structural property of an


utterance, but primarily a feature of its use in communication, the concept of
text on which my model of translation-oriented text analysis will be based has
to include both the structural and the pragmatic-situational aspects.”
(Nord 2005: 13)
Referência bibliográficas
Dijk, Teun A. van: 1977, Text and Context. Explorations in the Semantics and Pragmatics
of Discourse, Longman, Londres.

Koch, Ingedore: 2013, Introdução à lingüí


stica textual : trajetória e grandes temas,
Martinsfontes, São Paulo.
Móia, Telmo: 2014, “Construção de textos: gramaticalidade, coesão e coerência”, in
Revista do Centro de Estudos Judiciários, 2014-II, pp. 271-280. Disponí
vel em:
[Link]
Nord, Christiane: 2005, Text Analysis in Translation: Theory, Methodology, and Didactic
Application of a Model for Translation-Oriented Text Analysis, 2.ªed., Amsterdam: Rodopi.
Peres, João Andrade: 2009, “Tópicos de Linguí
stica do Texto”, 50 pp., Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa, ms.
Peres, João Andrade: 2013, “Semântica do Sintagma Nominal”, in Eduardo B. P. Raposo et
al. (orgs.), Gramática do Português, Lisboa: F. Calouste Gulbenkian, pp. 735-815.
Peres, João Andrade e Telmo Móia: 1995, Áreas Crí
ticas da Lí
ngua Portuguesa, Editorial
Caminho, Lisboa (2.ªed., revista, 2003).

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