Teorias das Relações Internacionais: Evolução
Teorias das Relações Internacionais: Evolução
Relações Internacionais
As principais correntes teóricas das Relações Internacionais (RI) e a evolução das considerações
epistemológicas e teóricas das RI como conhecimento necessário para o analista das Relações
Internacionais e entendimento do campo de estudo.
Prof. Fernando Luz Brancoli
1. Itens iniciais
Propósito
Compreender as diferentes escolas teóricas das Relações Internacionais é central para o estudante de
Relações Internacionais e áreas correlatas para analisar as bases em que se fundamentam as ações da
profissão.
Objetivos
• Reconhecer o que são as teorias de Relações Internacionais e seu emprego nas análises
transnacionais.
• Identificar os principais elementos das teorias e como elas se modificam ao longo do tempo.
• Reconhecer o papel dos Estados e das instituições internacionais nas teorias das Relações
Internacionais.
• Analisar as narrativas sobre os interesses estatais e o papel das nações em temas sensíveis
transnacionais.
Introdução
Apresentaremos uma genealogia das escolas teóricas das Relações Internacionais (RI), assim como conceitos
que, em maior ou menor grau, perpassam essas diferentes maneiras de se analisar o sistema internacional. As
teorias das Relações Internacionais nos permitem entender e tentar dar sentido ao mundo ao nosso redor por
meio de várias lentes, cada uma das quais representa uma perspectiva diferente. As teorias estão
constantemente emergindo e competindo umas com as outras. Por essa razão, pode ser desorientador
aprender sobre abordagens teóricas. Assim, é importante se ter em mente que as teorias podem ser
legitimadas e amplamente aceitas em determinado momento para, posteriormente, serem esquecidas.
As mudanças na teoria de RI demarcam evoluções significativas na disciplina. É importante ter isso em mente
quando consideramos a forma com a qual as teorias de RI desempenham um papel na explicação do mundo e
como, com base em diferentes períodos de tempo e contextos pessoais, uma abordagem pode ser mais útil
para se analisar determinado cenário.
1. Notas históricas das Teorias de RI
Liberalismo e Racionalismo
Como campo organizado de conhecimento, pesquisadores apontam que as Relações Internacionais se
organizaram formalmente no início do século XX, fortemente influenciadas por disputas coloniais e pelas duas
grandes guerras mundiais (PECEQUILO, 2019). Os primeiros pensadores, como Hans Morgenthau, se
dedicaram a explicar as razões dos conflitos armados e a maneira com a qual Estados decidiam ou não
estabelecer práticas bélicas. É interessante apontar que, nesse momento, como forma de angariar prestígio
para a nascente área das RI, diversos analistas argumentaram que pensadores clássicos já teriam feito
reflexões sobre a realidade transnacional e a natureza dos Estados. Nesse sentido, filósofos como Thomas
Hobbes (século XVII) e Immanuel Kant (XVIII) foram apresentados como pertencentes a diferentes escolas das
Relações Internacionais, mesmo tendo vivido muito antes da criação formal da área.
Tradicionalmente, existem duas teorias centrais de RI, embora tenham sofrido uma série de críticas de outras
teorias nos últimos anos, elas permanecem relevantes para a disciplina:
Realismo Liberalismo
Teoria que se baseia, entre outros pensadores, Teoria que se baseia, entre outros pensadores,
nas perspectivas de Thomas Hobbes. nas perspectivas de Immanuel Kant.
No seu auge, o Liberalismo em RI foi referido como uma teoria “utópica”. Seus proponentes veem os seres
humanos como inatamente bons e acreditam que a paz e a harmonia entre as nações não são apenas
alcançáveis, mas também desejáveis. Ela se baseia, entre outros pensadores, nas perspectivas em que
Immanuel Kant desenvolveu a ideia no final do século XVIII afirmando que os valores liberais compartilhados
não deveriam ter razão para entrar em guerra uns contra os outros. Para Kant, quanto mais Estados liberais
houvesse no mundo, mais pacífico ele se tornaria, pois, nações liberais são governadas por seus cidadãos
que, raramente, estão dispostos a se arriscarem em uma guerra. Em contraste com monarquias e governos
não eleitos, que têm desejos egoístas, fora de sintonia com os cidadãos.
O Realismo ganhou força durante a Segunda Guerra Mundial, quando parecia oferecer um relato convincente
de como e por que o pior conflito da história conhecida se originou após um período de suposta paz e
otimismo. Embora tenha se originado de forma nomeada no século XX, muitos realistas traçaram suas origens
em escritos anteriores. De fato, os realistas olharam para o mundo antigo, onde detectaram padrões
semelhantes ao comportamento humano moderno. Como o próprio nome sugere, os defensores do Realismo
pretendem que ele reflita a “realidade” do mundo e explique mais efetivamente as mudanças na política
internacional.
As ideias de Thomas Hobbes são frequentemente mencionadas em discussões do Realismo, devido a sua
descrição da brutalidade da vida durante a Guerra Civil Inglesa de 1642-1651, em que Hobbes mostrou os
seres humanos como vivendo em um “estado de natureza” sem ordem, que ele percebia como uma guerra de
todos contra todos. Para remediar isso, ele propôs que um “contrato social” fosse necessário entre um
governante e o povo de um Estado para manter a ordem relativa.
É importante entender que não existe uma única teoria liberal ou realista. Estudiosos dos dois grupos
raramente concordam totalmente um com o outro, mesmo aqueles que compartilham a mesma abordagem. E
tanto o Realismo quanto o Liberalismo foram atualizados para versões mais modernas (Neoliberalismo e
Neorrealismo), que representam uma mudança na ênfase de suas raízes tradicionais. No entanto, essas
perspectivas ainda podem ser agrupadas em tradições teóricas. Nesse sentido, é necessário entender as
premissas centrais de cada abordagem.
Exemplo
Se pensarmos no simples contraste de otimismo e pessimismo, podemos ver uma relação familiar em
todos os ramos do Realismo e do Liberalismo. Os liberais compartilham uma visão otimista das RI,
acreditando que a ordem mundial pode ser melhorada, com a paz e o progresso substituindo a guerra. A
visão otimista geralmente os une. Por outro lado, os realistas tendem a descartar o otimismo como uma
forma de idealismo equivocado e chegam a uma visão mais pessimista. Isso se deve ao foco na
centralidade do Estado e sua necessidade de segurança e sobrevivência em um sistema anárquico, no
qual ele só pode realmente confiar em si mesmo. Como resultado, os realistas chegam a uma série de
relatos que descrevem as RI como um sistema em que guerra e conflito são comuns e períodos de paz
são apenas momentos em que os Estados estão se preparando para conflitos futuros.
Outro ponto a se ter em mente é que cada uma das abordagens abrangentes em RI possui uma perspectiva
diferente sobre a natureza do Estado. Tanto o Liberalismo quanto o Realismo consideram o Estado como
sendo ator dominante nas RI, embora o Liberalismo adicione um papel para atores não estatais, como
organizações internacionais. No entanto, dentro dessas teorias, os próprios Estados são tipicamente
considerados como possuidores de poder supremo. Isso inclui a capacidade de fazer cumprir decisões, como
declarar guerra a outra nação ou, inversamente, tratados e acordos. Em termos de Liberalismo, seus
proponentes argumentam que as organizações são valiosas para auxiliar os Estados na formulação de
decisões e na formalização da cooperação a resultados pacíficos. Os realistas, por outro lado, acreditam que
os Estados participam de organizações internacionais quando é de seu interesse. Muitos estudiosos
começaram a rejeitar essas teorias tradicionais nas últimas décadas por seu foco no Estado e o status quo.
Diferentemente das ciências “duras”, nas quais é possível trabalhar em laboratório e controlar o meio
ambiente, nas ciências sociais é praticamente impossível controlar variáveis isoladamente e suas
interações. Isso significa que as perspectivas teóricas são dinâmicas e evoluem à medida que as
situações mudam. No entanto, as principais teorias que surgiram nos permitem identificar padrões
gerais que ajudam a entender o que aconteceu e alguns indicadores do que pode acontecer no
futuro sob conjunturas semelhantes.
Exemplo
O uso dessas teorias ou paradigmas pode nos ajudar a responder algumas das questões fundamentais
no campo. Como trata-se de uma área preocupada com questões globais, os pontos levantados tendem
a ser em ampla escala: por exemplo, o que é a guerra e por que os países vão à guerra? Por que
determinado Estado respondeu aos eventos de uma maneira específica? Como um país pode influenciar
outro a adotar determinado padrão de comportamento ou impedi-lo de se comportar de determinada
maneira? Por que alguns Estados parecem ser cooperativos e outros parecem ser belicosos?
Nas abordagens tradicionais de RI, os indivíduos isolados não são relevantes. Nesse sentido, as teorias das RI
são um campo em que também devemos levar em consideração aspectos estruturais. Dessa forma, um
próximo elemento que devemos incluir em nossas análises é sobre quem toma as decisões dentro do campo
internacional. Os Estados são entidades monolíticas que operam por conta própria? Ou que papéis os
indivíduos desempenham na direção de um Estado?
Para Hughes e Johnston (2005, p. 829), os interesses centrais são aqueles que “fluem do desejo [do Estado]
de preservar sua essência: limites territoriais, população, governo e soberania”. Nessa definição reforçam-se
os elementos militares tradicionais, mas também significa assegurar a vitalidade econômica de um país, seus
valores e outros componentes centrais à essência do Estado. Pode-se argumentar que eles também são
essenciais para a segurança de um país, mas fogem da definição tradicional. Assim, um país seguirá as
políticas que considera de seu interesse nacional e, ao mesmo tempo, promoverá seus interesses centrais.
No entanto, é possível expandir a definição para fazer uma distinção entre segurança definida em termos
tradicionais e a “segurança humana”, que se refere a um conjunto mais amplo de questões necessárias para a
sobrevivência humana. Ao olhar para essas questões de segurança, teorias alternativas se concentram em
como a política mundial pode contribuir para a insegurança dos indivíduos.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Parte das teorias dominantes no campo das Relações Internacionais apontam que os Estados se comportam
como atores monolíticos e que agirão de forma racional. Esta interpretação significa:
que sempre existirão Estados mais poderosos no sistema internacional e que o acúmulo de poder econômico
é um objetivo em comum.
que Estados se comportam como se fossem uma única entidade e que tomarão decisões com base em um
processo que lhes permita promover seus próprios interesses.
que Estados sempre atuam de forma organicamente monolítica ao lidar com desafios externos e que os
objetivos de todas as nações são semelhantes
que a disseminação de ideias democráticas e as mudanças institucionais faz com que Estados se comportem
de maneira semelhante, o que os levará a ter objetivos palpáveis.
que os Estados no sistema internacional são monolíticos porque são representados, externamente, sempre
por um grupo coeso de indivíduos, o que faz com que os dilemas internos não impactem as decisões
posteriores.
A alternativa B está correta.
As principais teorias de RI fazem uma escolha analítica de ignorar disputas internas dos Estados,
interessando-se mais pelos resultados posteriores que modificam a política externa. Nesse sentido, países
operam teoricamente com ações que lhes permitam promover seus próprios interesses.
Questão 2
Ligada diretamente aos valores centrais e ao interesse nacional de um país está a noção tradicional de
segurança, pois um dos elementos principais de qualquer nação é garantir a proteção da população. Mas isso
também leva aos perigos do “dilema de segurança”. Podemos definir esse conceito como:
uma estratégia buscada por analistas liberais, já que faz com que Estados, ao se armarem, entrem em um
“equilíbrio militar”, acarretando guerras menos frequentes.
a inevitável necessidade dos Estados de se aliarem a países mais fortes, já que não há garantias de proteção.
uma movimentação estratégica que foi extinta após o fim da Guerra Fria, já que o dilema de segurança era
uma representação dos embates entre Moscou e Washington.
uma forma de descrever as relações entre Estados com maior e menor capacidade militar. Os países com
menos ferramentas bélicas estarão, de forma perpétua, sob o risco de serem invadidos.
A analogia frequentemente usada de não haver “ninguém para ligar” em uma emergência internacional ajuda a
sublinhar o fato de não existir uma entidade global que seja responsável pela proteção de todos. Dentro de
nossos próprios Estados, normalmente temos forças policiais, militares, tribunais e assim por diante. Em uma
emergência, existe a expectativa de que essas instituições “farão algo” em resposta.
Internacionalmente, não há uma expectativa clara de que alguém “faça alguma coisa”, pois não há
hierarquia estabelecida. Portanto, os Estados podem, em última análise, confiar apenas em si
mesmos.
Saiba mais
Um dos teóricos clássicos estudados por realistas ― e que tratam desse tema ― é o florentino Niccolò
Machiavelli. Ele se concentrou em como as características humanas básicas influenciam a segurança do
Estado: em sua época, os líderes geralmente eram do sexo masculino, o que também influencia a visão
realista da política. Em O Príncipe (1532), Maquiavel enfatizou que a principal preocupação de um líder é
promover a segurança nacional: para desempenhar essa tarefa com sucesso, o líder precisa estar alerta
e lidar eficazmente com ameaças internas e externas ao seu governo. Na visão de Maquiavel, os
governantes obedecem à “ética da responsabilidade” e não à moral religiosa convencional que orienta o
cidadão comum ― ou seja, devem ser bons quando podem, mas também devem estar dispostos a usar a
violência quando necessário para garantir a sobrevivência.
De forma mais contemporânea, no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, Hans Morgenthau (1948) procurou
desenvolver uma teoria internacional abrangente, pois acreditava que a política, como a sociedade em geral, é
governada por leis que têm raízes na natureza humana; sua preocupação era esclarecer a relação entre
interesses e moralidade na política internacional.
Em contraste com os idealistas mais otimistas, Morgenthau estabeleceu uma abordagem que enfatizava o
poder sobre a moralidade. De fato, a moralidade foi retratada como algo que deveria ser evitado na
formulação de políticas. No relato de Morgenthau, toda ação política é direcionada para manter, aumentar ou
demonstrar poder. O pensamento é que as políticas baseadas na moralidade ou no idealismo podem levar à
fraqueza ― e possivelmente à destruição ou dominação de um Estado por um concorrente. Nesse sentido,
perseguir o interesse nacional não está sujeito a cálculos de moralidade.
Todos os Estados são constrangidos por Qualquer curso de ação que os Estados
existirem em um sistema anárquico adotam é baseado em seu poder
internacional, no qual não há uma hierarquia relativo quando medido em relação a
responsável pela proteção. outros países.
Waltz ofereceu uma versão de Realismo que recomendava que os teóricos examinassem as características do
sistema internacional em busca de respostas. Ao fazer isso, ele desencadeou uma nova era na teoria de RI
que tentou usar métodos científicos sociais em vez de métodos de teoria política. A diferença é que as
variáveis de Waltz podem ser medidas empiricamente, enquanto isso, ideias como a natureza humana são
suposições baseadas em certas visões filosóficas. Os realistas acreditam que sua teoria descreve mais de
perto a imagem da política mundial. Por essa razão, o Realismo, talvez mais do que qualquer outra teoria de RI,
é frequentemente utilizado no mundo da formulação de políticas.
No entanto, os críticos do Realismo argumentam que a teoria pode ajudar a perpetuar o mundo violento e
conflituoso que descrevem. Ao assumir a natureza não cooperativa da humanidade e a ausência de hierarquia
no sistema estatal, os realistas encorajam os líderes a agir de forma baseada na suspeita, poder e força. O
Realismo pode, assim, ser visto como uma profecia autorrealizável. E é frequentemente criticado como
excessivamente pessimista, pois vê a natureza conflitiva do sistema internacional como inevitável. Contudo,
de acordo com os realistas, os líderes enfrentam infinitas restrições e poucas oportunidades de cooperação.
Assim, eles podem fazer pouco para escapar da realidade da política de poder.
Para um realista, encarar a realidade de sua situação não é pessimismo ― é prudência. A visão
realista das relações internacionais enfatiza que a possibilidade de mudança é limitada. Para um
líder confiar em um resultado tão idealista seria loucura.
Talvez por se destinar a explicar a repetição e um padrão de comportamento atemporal, o Realismo não foi
capaz de prever ou explicar uma grande transformação recente do sistema internacional: o fim da Guerra Fria
entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União Soviética, em 1991. Quando a Guerra Fria terminou, a
política internacional passou por rápidas mudanças que apontaram para uma nova era de competição limitada
entre Estados e oportunidades abundantes de cooperação. Essa transformação provocou o surgimento de
uma visão otimista da política mundial que descartou o Realismo como “pensamento antigo”.
Os realistas também são acusados de se concentrar demais no Estado como uma unidade sólida,
negligenciando outros atores e forças dentro do Estado e ignorando questões internacionais não diretamente
ligadas à sobrevivência do Estado. A caixa de ferramentas do Realismo não leva em conta alguns eventos,
como as ações de cidadãos comuns (ou de organizações internacionais, nesse caso). Isso se deve à natureza
centrada no Estado do pensamento sobre o qual o Realismo é construído. Muitos críticos do Realismo se
concentram em uma de suas estratégias centrais na gestão dos assuntos mundiais ― uma ideia chamada
equilíbrio de poder.
Se um Estado tentar forçar a sorte e crescer demais, desencadeará uma guerra, porque outras nações
formarão uma aliança para tentar derrotá-lo ― ou seja, para restaurar o equilíbrio. Esse sistema de equilíbrio
de poder é uma das razões pelas quais as Relações Internacionais são anárquicas. Portanto, o Realismo fala
frequentemente sobre a importância de alianças flexíveis como forma de garantir a sobrevivência. Essas
alianças são determinadas menos por semelhanças políticas ou culturais e mais pela necessidade de
encontrar alianças temporárias ou “inimigos do meu inimigo”. Enquanto os realistas descrevem o equilíbrio de
poder como uma estratégia prudente para administrar um mundo inseguro, os críticos o veem como uma
forma de legitimar a guerra e a agressão.
Ao olhar para o Realismo e suas ramificações, podemos argumentar que tanto o Realismo quanto o
Neorrealismo oferecem insights para a compreensão de alguns aspectos das relações internacionais. Ambas
as abordagens apresentam claramente seus pressupostos e o papel central que o poder desempenha. Ambos
deixam claro que não estão realmente olhando dentro do Estado-nação, mas apenas as decisões tomadas ou
nas políticas do Estado-nação, e tentando desconstruir as razões por trás dessas decisões. E ambos
assumem prescrições para decisões de política externa. Uma das outras vantagens das abordagens realista e
neorrealista é que elas são relativamente diretas e fáceis de entender.
Equilíbrio de poder
Esse termo descreve uma situação em que os Estados estão continuamente fazendo escolhas para
aumentar suas próprias capacidades enquanto minam as capacidades de outros. Isso gera uma espécie
de equilíbrio, pois ― teoricamente ― nenhum país pode se tornar muito poderoso dentro do sistema
internacional.
Apesar dessas críticas, o Realismo permanece central no campo da teoria de RI, com a maioria das outras
teorias preocupadas ― pelo menos em parte ― em criticá-lo. Além disso, continua a oferecer muitos insights
importantes sobre o mundo da formulação de políticas devido ao seu histórico de oferecer ferramentas de
política aos formuladores de políticas.
Abu Bakr al-Baghdadi, morto numa operação militar, no distrito de Idlib, no noroeste
da Síria, em outubro de 2019 e seu sucessor, Abu Ibrahim al-Hashimi al-Qurashi, foi
anunciado ainda em outubro.
Vídeo divulgado pelo Estado Islâmico, em que supostos espiões do Reino Unido são
executados: “acha realmente que seu governo vai se preocupar com você quando
você cair em nossas mãos?”, em 2016.
Muitos deles foram direcionados a cidades de países ocidentais, como Melbourne, Manchester e Paris ― o
que levou o problema a se tornar global. Em última análise, a intenção é criar um Estado Islâmico (ou Califado)
em termos geopolíticos e culturais, para impedir potências ocidentais ou regionais de interferir nesse
processo. Claro, isso significa que o território dos Estados existentes está sob ameaça. Embora o grupo
Estado Islâmico se considere um país, devido às suas ações, tem sido definido como uma organização
terrorista por Estados e organizações internacionais. Os líderes religiosos islâmicos também condenaram a
ideologia e as ações do grupo. Apesar de não ser um Estado oficialmente reconhecido, ao tomar e manter
territórios no Iraque e na Síria, o grupo Estado Islâmico claramente possuía aspectos de Estado.
A maior parte dos esforços para combater o grupo Estado Islâmico inclui ataques aéreos contra suas
posições, combinados com outras estratégias militares, como o uso de forças locais aliadas para retomar
território (principalmente no Iraque). Isso sugere que a guerra é considerada o método mais eficaz de
contrabalançar o crescente poder do terrorismo e neutralizar a ameaça que o grupo Estado Islâmico
representa não apenas para os Estados ocidentais, mas também para os países da região.
Assim, enquanto o terrorismo transnacional, como o praticado pelo grupo Estado Islâmico, é uma ameaça
relativamente nova nas relações internacionais, em última análise, os Estados contam com a autoajuda para
garantir sua própria segurança. Nesse contexto, os realistas têm duas estratégias ― ambas estão em
evidência nesse caso ― principais para gerenciar a insegurança:
Primeiro, a frouxa coalizão de países que atacou o grupo Estado Islâmico ― como EUA, Rússia e França ―
contou com várias alianças com potências regionais como Arábia Saudita, Turquia e Irã. Ao mesmo tempo, tais
nações minimizaram o papel das organizações internacionais, na medida em que obter concordância para o
uso da força nas Nações Unidas é difícil, principalmente devido à rivalidade entre os Estados. Em segundo
lugar, dissuadir um inimigo com força esmagadora e superior ― ou com a ameaça do uso dela ― foi percebido
como o método mais rápido para recuperar o controle sobre os territórios sob o domínio do Estado Islâmico.
Caça russo Su-34.
A óbvia desproporcionalidade das forças militares do Estado Islâmico quando comparadas com as forças
militares dos EUA, França ou Rússia parece confirmar a racionalidade da decisão ― que mais uma vez remete
à ênfase do Realismo na importância de conceitos como dissuasão, mas também na visão dos Estados como
atores racionais. No entanto, a abordagem do ator racional pressupõe que o inimigo também é um ator
racional que escolheria um curso de ação em que os benefícios superem os riscos.
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Neorrealismo
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Guerra e Estado
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Verificando o aprendizado
Questão 1
O Realismo clássico sugere que todos os líderes, independentemente de sua orientação política, operam de
maneira semelhante. Esta premissa, mesmo que readaptada continuará sendo marcante na teoria realista das
relações internacionais. Isso se dá principalmente porque:
tais lideranças reconhecem a necessidade de sobrevivência, ao mesmo tempo em que tentam administrar os
assuntos de seu Estado em um ambiente competitivo.
mesmo lideranças autoritárias precisam responder, em alguma medida, a dispositivos de controle interno,
principalmente pelo apelo à sobrevivência estatal.
a estrutura internacional, ou seja, o fato de existirem normas e regras transnacionais que moldam o
comportamento das lideranças, faz com que mandatários sejam impelidos a tomar decisões semelhantes.
a cooperação, de forma racional, promove a integração dos Estados, fazendo com que as nações se
comportem de forma semelhante ao longo do tempo.
na medida em que os Estados não cooperam de forma constante, devido à anarquia internacional, países mais
fortes irão realizar práticas imperialistas, o que acaba por reduzir a soberania dos países mais fracos.
Questão 2
As teorias realistas e neorrealistas são criticadas por diversos pontos. Sobre essas críticas, avalie as
assertivas:
I, II e IV estão corretas.
Liberalismo e convergência
Liberalismo como teoria agregadora
O Liberalismo baseia-se no argumento moral de que assegurar o direito de um indivíduo à vida, à liberdade e à
propriedade é o objetivo mais elevado de um Estado. Consequentemente, os liberais enfatizam o bem-estar
do indivíduo como o alicerce fundamental de um sistema político justo. Um sistema político caracterizado por
um poder sem controle, como uma monarquia ou uma ditadura, não pode proteger a vida e a liberdade de
seus cidadãos. Portanto, a principal preocupação do Liberalismo é construir instituições que protejam a
liberdade individual, limitando e controlando o poder político.
Embora essas sejam questões de política doméstica, a área internacional também é importante para os
liberais, uma vez que as atividades de um Estado no exterior podem ter uma forte influência sobre a liberdade
doméstica. Os liberais estão particularmente preocupados com as políticas externas militaristas: a principal
questão é que a guerra exige que os Estados construam poder militar ― e essa capacidade coercitiva pode
ser para oprimir seus próprios cidadãos. Por essa razão, os sistemas políticos enraizados no Liberalismo
muitas vezes limitam o poder militar como ao garantir o controle civil sobre os militares.
As guerras de expansão territorial ou imperialistas são vistas de forma especialmente crítica por parte dos
teóricos liberais. As guerras expansionistas não apenas fortalecem o Estado às custas da população, mas
também exigem compromissos de longo prazo com a ocupação militar e o controle político de territórios e de
povos estrangeiros. A ocupação e o controle exigem grandes burocracias que têm interesse em manter ou
ampliar a ocupação dos espaços conquistados.
Resumindo
Apesar do debate, a possibilidade de uma paz democrática substituir gradualmente um mundo de guerra
constante ― como descrito pelos realistas ― é uma faceta duradoura e importante do Liberalismo.
Atualmente vivemos em um sistema internacional estruturado pela ordem mundial liberal construída após a
Segunda Guerra Mundial (1939-1945). As instituições, organizações e normas internacionais dessa ordem são
construídas sobre os mesmos fundamentos das instituições e das normas liberais domésticas; notadamente o
desejo de restringir o poder violento dos Estados. É inevitável, entretanto, reforçar que as tentativas de
controle do uso da força internacionalmente são mais diluídas e dispersas.
Exemplo
O Direito Internacional não autoriza guerras de agressão. Contudo, não existe uma força policial
internacional para fazer cumprir esta lei, mas um agressor sabe que ao infringi-la corre o risco de uma
considerável reação. Além disso, um Estado agressor também corre o risco de perder os benefícios da
paz, como os ganhos do comércio internacional, ajuda externa e reconhecimento diplomático.
A maioria dos estudos liberais hoje se concentra em como as organizações internacionais fomentam a
cooperação ajudando os Estados a superar o incentivo para escapar dos acordos multilaterais. Esse tipo de
análise é comumente denominado como institucionalismo neoliberal. Isso geralmente causa confusão, pois o
Neoliberalismo também é um termo usado fora da teoria de RI para descrever uma ideologia econômica
generalizada de desregulamentação, privatização, impostos baixos, austeridade e livre comércio. A essência
do Neoliberalismo, quando aplicado nas RI, é que os Estados podem se beneficiar significativamente da
cooperação se confiarem uns nos outros para cumprir seus acordos.
Sala da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York.
Quando um terceiro (como uma organização internacional imparcial) é capaz de monitorar o comportamento
dos signatários de um acordo e fornecer informações a ambos os lados, o incentivo à desistência diminui e
ambos os lados podem se comprometer a cooperar. Nesses casos, todos os signatários do acordo podem se
beneficiar de ganhos absolutos. Ganhos absolutos referem-se a um aumento geral no bem-estar para todas
as partes envolvidas ― todos se beneficiam em algum grau, embora não necessariamente igualmente. Os
teóricos liberais argumentam que os Estados se preocupam mais com ganhos absolutos do que com ganhos
relativos.
Ganhos relativos
Os ganhos relativos, que se relacionam estreitamente com as reflexões realistas, descrevem uma
situação em que um Estado mede seu aumento no bem-estar em relação a outros países e pode se
esquivar de quaisquer acordos que o tornem um concorrente mais forte.
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Liberalismo e convergência
Limitações do Liberalismo como teoria das RI
Assim como o Realismo, o Liberalismo e suas variações também têm suas limitações. Como observado
anteriormente, o Liberalismo e, em menor medida, o Neoliberalismo, assumem o melhor da natureza humana e
apontam que esse “bom comportamento” irá garantir relações cooperativas e benéficas entre as nações. Isso
pressupõe que noções de moralidade dos indivíduos podem, de fato, arregimentar toda uma nação. Embora
possa existir um acordo geral quanto à ideologia ou à direção da nação, ela é determinada por mais do que
qualquer indivíduo.
Indo além do papel do indivíduo, a perspectiva liberal nas RI também assume que os Estados-nação se
beneficiarão da cooperação, o que, por sua vez, afetará a maneira como eles se comportam. Assim, os países
irão se unir para criar organizações como as Nações Unidas como forma de promover a cooperação e a
estabilidade no sistema internacional. No entanto, um contra-argumento para isso é o ponto de que as
organizações internacionais realmente exercem apenas um impacto mínimo sobre o comportamento dos
Estados-nação.
Representante da Rússia veta resolução da ONU contrária à invasão da Ucrânia, A
resolução foi rejeitada com 11 votos favoráveis, um voto contrário, da Rússia, e três
abstenções, da China, Emirados Árabes Unidos e Índia, em fevereiro de 2022.
Assim, há dúvidas sobre quão eficazes as instituições internacionais, que são a espinha dorsal dessa
abordagem, realmente são, a menos que os Estados lhes deem o poder de agir. Uma organização
internacional como a ONU só será tão eficaz quanto os países permitirem. E então é preciso questionar se ―
ou quanto ― os Estados poderosos se renderam a essas instituições. Assim, para os críticos, especialmente
os da escola realista, é virtualmente impossível ir além dos fundamentos dos Estados e do poder.
Assim, permanecem questões sobre se os países realmente trabalharão juntos, a menos que percebam que é
do seu próprio interesse fazê-lo. Além disso, alguns críticos do Liberalismo dizem que ele se concentra nas
áreas de baixa política, como Direitos Humanos ou meio ambiente, em vez de alta política, principalmente
segurança. Em um mundo globalizado, os países tornaram-se mais conscientes do fato de que as decisões
tomadas dentro de um país afetam os outros, o que reforça a perspectiva liberal. Em casos como o meio
ambiente, em que, por exemplo, gases de efeito estufa não respeitam as fronteiras nacionais, os teóricos
liberais apontam que todos os países se beneficiam de políticas de controle de emissões. Mas a teoria não
leva em conta os “caronas” ― países que não agem, mas se beneficiam da ação de outros.
Resumindo
Em última análise, a sobrevivência de um país depende de garantir sua segurança, que é um interesse
central e na categoria de alta política. A menos que um país tenha a garantia de sua própria
sobrevivência, os outros valores tornam-se secundários.
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Um argumento central do Liberalismo é que as concentrações de poder violento inexplicável são uma ameaça
fundamental à liberdade individual e devem ser contidas. Os principais meios de restringir o poder são as
instituições e normas tanto em nível doméstico quanto internacional. No nível internacional, as instituições e
organizações limitam o poder dos Estados, fomentando a cooperação e fornecendo meios para impor custos
aos Estados que violam os acordos internacionais. Finalmente, as normas liberais adicionam mais uma
limitação ao uso do poder, moldando nossa compreensão de quais tipos de comportamento são apropriados.
Resumindo
Hoje em dia, é claro que o Liberalismo não é uma teoria “utópica” que descreve um mundo de sonho de
paz e felicidade como uma vez foi acusado de ser. Ele fornece uma réplica consistente ao Realismo,
firmemente enraizado em evidências e uma profunda tradição teórica.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Estudar Relações Internacionais deve gerar alguns processos de reconhecimento de formas e conceitos,
quase que de forma imediata, de forma que fique estruturado na mente dos seus estudantes. Um bom
exemplo é Qual é reconhecer a teoria da paz democrática, que pode ser observada ao lermos a seguinte
declaração abaixo:
A Democracia cria coalizões que garantem que guerras injustas não aconteçam.
Para se estudar Teoria das Relações Internacionais com eficiência é necessário reconhecer teóricos. A partir
disso quais desses filósofos foi a principal influência no surgimento subsequente do pensamento liberal de RI?
Jeremy Bentham.
Thomas Hobbes.
Immanuel Kant.
Karl Marx.
Friedrich Nietzsche.
Construtivismo
Fundamentos do Construtivismo
O construtivismo analisa o sistema internacional como um espaço que deve ser observado como socialmente
construído. Essa visão se refere à natureza da realidade e à natureza do conhecimento que também são
chamados de ontologia e epistemologia na linguagem da pesquisa.
Alexander Wendt.
Saiba mais
Os construtivistas argumentam que a agência e a estrutura são mutuamente constituídas, o que implica
que as estruturas influenciam a agência e que a agência influencia as estruturas. A agência pode ser
entendida como a capacidade de alguém agir, enquanto a estrutura se refere ao sistema internacional
que consiste em elementos materiais e ideológicos.
Voltando ao exemplo de Wendt, isso significa que a relação social de inimizade entre os Estados Unidos e a
Coreia do Norte representa a estrutura intersubjetiva ― ou seja, as ideias e crenças compartilhadas entre os
dois países ―, enquanto os Estados Unidos e a Coreia do Norte são os atores que têm a capacidade ― isto é,
agência ― de mudar ou reforçar a estrutura existente ou a relação social de inimizade. Essa mudança ou
reforço depende, em última análise, das crenças e ideias mantidas por ambos os Estados. Se essas crenças e
ideias mudarem, o relacionamento social pode mudar para uma conexão de amizade.
O então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, cumprimentando o primeiro-ministro
russo, Vladimir Putin, na Casa Branca russa, em Moscou, Rússia, em 10 de março de
2011.
Essa postura difere consideravelmente da dos realistas, que defendem que a estrutura anárquica do sistema
internacional determina o comportamento dos Estados. Os construtivistas, por outro lado, argumentam que a
“anarquia é o que os Estados fazem dela” (WENDT, 1992).
Isso significa que a anarquia pode ser interpretada de diferentes maneiras, dependendo do
significado que os atores atribuem a ela.
Outra questão central para o construtivismo são as identidades e os interesses. Essa escola das Relações
Internacionais argumenta que os países podem ter múltiplas identidades que são socialmente construídas por
meio da interação com outros atores. As identidades são representações da compreensão de um ator sobre
quem ele é, o que, por sua vez, sinaliza seus interesses. E as identidades constituem interesses e ações.
Deve-se notar, porém, que as ações de um Estado devem estar alinhadas com sua identidade. As normas
sociais também são centrais para o construtivismo. Essas são geralmente definidas como:
Estado
Um Estado não pode, portanto, agir de forma contrária à sua identidade, porque isso colocará em
questão a validade de tal elemento, incluindo suas preferências. Essa questão pode explicar por que a
Alemanha, apesar de ser uma grande potência com uma economia global, não se tornou uma potência
militar na segunda metade do século XX. Após as atrocidades do regime nazista de Adolf Hitler, durante
a Segunda Guerra Mundial, a identidade política alemã mudou de militarismo para pacifismo devido a
circunstâncias históricas únicas.
[...] um padrão de comportamento apropriado para atores com uma determinada identidade.
(KATZENSTEIN, 1996, p. 5)
Espera-se que os Estados que se conformam a uma determinada identidade cumpram as normas associadas
a essa identidade. Essa ideia vem com a expectativa de que alguns tipos de comportamento e ação são mais
aceitáveis do que outros. Esse processo também é conhecido como a lógica da adequação, na qual os atores
se comportam de certas maneiras porque acreditam que esse comportamento é apropriado (MARCH; OLSEN,
1998).
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Limitações do Construtivismo
Variações e limites da teoria construtivista
Embora todos os construtivistas compartilhem as visões e os conceitos anteriormente mencionados, há uma
variedade considerável dentro dessa escola teórica. Os construtivistas convencionais fazem perguntas do tipo
“o que leva um ator a agir?”. Eles acreditam que é possível explicar o mundo em termos causais e estão
interessados em descobrir as relações entre:
Interesses Identidades
Os construtivistas convencionais assumem, por exemplo, que os atores agem de acordo com sua identidade e
que é possível prever quando essa identidade se torna visível ou não. Além disso, os construtivistas
investigam quais fatores causaram a mudança de determinada identidade. Nessa mesma lógica, autores
construtivistas considerados críticos se concentram em perguntas do tipo “como os atores passam a acreditar
em certa identidade?”. Os construtivistas críticos querem reconstruir uma identidade ― ou seja, descobrir
quais são suas partes componentes ― que eles acreditam que são criadas pela comunicação escrita ou falada
entre os povos.
Entre as críticas feitas a essa abordagem, podemos encontrar que não se trata realmente de um modelo
teórico, mas existe mais como um conjunto de conceitos atrelados a ideias e entendimentos individuais que
são passíveis de mudança. De fato, uma das premissas básicas do construtivismo é a necessidade de abordar
a mudança estrutural. Uma vez que a própria base da abordagem está ligada à dinâmica, surgem questões
sobre como explicar essas transformações. Enquanto os construtivistas valorizam as estruturas sociais que
compõem os Estados-nação e o sistema internacional, a abordagem levanta questões sobre o que muda
essas estruturas e o que essas mudanças significam para o sistema internacional.
Se um dos objetivos da teoria é descrever, explicar e prever,
outra crítica que pode ser feita aos construtivistas é que, se
identidades e percepções podem mudar ao longo do tempo,
como podemos prever o que pode acontecer?
De uma perspectiva realista, pode-se argumentar que o Butão está em uma posição desfavorável, pois é
prejudicado por sua localização geográfica e não pode competir pelo poder com seus vizinhos (UPRETI,
2005). A preservação de sua soberania nacional provavelmente dependeria do resultado da maior competição
entre China e Índia. Uma visão construtivista, por outro lado, argumenta que essas condições estruturais não
necessariamente restringem a capacidade do Butão de perseguir seus interesses nacionais, uma vez que não
são as únicas condições que influenciam o comportamento do Estado: o significado dado a essas condições
estruturais também importa.
Exemplo
Quando o Tibete foi anexado pela China, o Butão se sentiu ameaçado. Como resultado, fechou sua
fronteira ao norte e se voltou para a Índia, seu vizinho ao sul. A partir desse momento, o Butão percebeu
a China como uma ameaça potencial e a Índia como um aliado. Essas relações sociais representam a
estrutura ideacional que se originou do significado dado à estrutura material. É importante notar, no
entanto, que as relações sociais estão sujeitas a mudanças, dependendo das ideias, crenças e ações do
Butão, da Índia e da China. Essa mudança pode levar ao estabelecimento de um relacionamento oficial,
cuja natureza é a amizade e não a inimizade.
O Butão também desenvolveu uma identidade nacional distinta que o diferencia de seus vizinhos
maiores. Essa identidade projeta o Butão como o último reino budista Mahayana independente
sobrevivente do mundo. O uso da palavra independente refere-se diretamente ao interesse nacional
do Butão ― a preservação de sua soberania nacional.
A identidade nacional do país é socialmente construída por meio de um processo que começou na década de
1980, quando o quarto rei do Butão introduziu a política “Uma Nação, Um Povo”. Essa política exigia a
observância de um código de conduta conhecido como Driglam Namzha, que pode ser pensado como uma
norma reguladora porque o objetivo da política é direcionar e restringir o comportamento. Por exemplo,
embora a identidade nacional sugira homogeneidade, o Butão é na verdade um país multiétnico, multirreligioso
e multilíngue. Existem três grupos étnicos principais:
Driglam Namzha
É o código oficial de comportamento e vestimenta do Reino do Butão. Esse código de conduta é
construído sobre a estrita observância de votos ― como forte lealdade de parentesco, respeito pelos
pais, anciãos e superiores e cooperação mútua entre governantes e governados. Também reforçou as
regras para usar um vestido nacional ― o gho para os homens e o kira para as mulheres. Além disso, o
Dzongkha foi selecionado como a língua nacional do país.
Ngalongs Sharchhops
Lhotshampas
Exemplo
Podemos ver que essas normas e práticas estão regulamentadas até o momento. Os cidadãos
butaneses são obrigados a usar o traje nacional durante eventos e quando frequentam a escola ou o
trabalho. Esse regulamento é, como explicado anteriormente, importante porque o comportamento de
um Estado e de seus cidadãos deve cumprir as normas associadas à identidade nacional do Butão. O
regulamento também significa que essas normas são percebidas como algo positivo pelas autoridades
butanesas, o que ressalta a natureza prescritiva das normas.
Resumindo
Projetar seu país como o último reino budista Mahayana independente sobrevivente no mundo e como
líder no avanço de um paradigma de desenvolvimento holístico e sustentável permite que as autoridades
butanesas sinalizem o status de seu país como um estado soberano independente. Também permite que
o Butão aumente sua visibilidade internacional, o que é vantajoso quando as tensões aumentam com e
entre seus vizinhos.
Vem que eu te explico!
Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar.
Os fundamentos do Construtivismo
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Os construtivistas apontam que a realidade está sempre em construção, o que abre a perspectiva de
mudança. Sobre essa afirmação, podemos apontar que
os significados das dinâmicas internacionais não são fixos, podendo mudar ao longo do tempo, dependendo
das ideias e das crenças dos atores.
o Direito Internacional é praticamente inútil, na medida em que não existem valores compartilhados por todos
os Estados pelo globo.
as mudanças apontadas pelos construtivistas se dão principalmente por meio do uso da força e do emprego
do poderio militar.
a construção da realidade apontada pelos construtivistas é uma mera abstração analítica, não tendo,
portanto, impacto na política real.
E
o Construtivismo está intimamente ligado às Instituições Internacionais, já que são elas que exclusivamente
são capazes de promover a mudança de ideologias.
Questão 2
As Teorias Construtivistas em RI não são propriamente novas, e nem substituem as demais, mas no entanto,
aponta sua visão para aspectos diversos. Como o Construtivismo ofereceu uma nova visão para o estudo das
Relações Internacionais?
Demonstrou como a atenção às normas e identidades dos Estados pode ajudar a desvelar questões
anteriormente negligenciadas.
Apontou a necessidade de se olhar para dinâmicas internas, como por exemplo as coalizões de grupos de
interesse, como forma de se aprofundar na análise de política internacional.
Considerações finais
Neste conteúdo, foram introduzidas as principais tradições teóricas em RI. As teorias tradicionais e
alternativas constituem as principais ferramentas analíticas das RI contemporâneas. Vimos como o assunto se
desenvolveu por meio de uma série de debates entre diferentes abordagens teóricas. Notamos que esses
debates não foram conduzidos em isolamento dos fatos políticos ― mas sim moldados e influenciados por
acontecimentos históricos, pelos grandes problemas políticos e econômicos da época. Além disso, as teorias
também foram influenciadas por desenvolvimentos metodológicos em outras áreas de conhecimento.
Nenhuma abordagem teórica pode ser apresentada como “a melhor” nesse campo de estudo. As principais
tradições teóricas e abordagens alternativas que descrevemos são todas ativamente empregadas na
disciplina hoje. Essa situação reflete a necessidade de diferentes abordagens para capturar diferentes
aspectos de uma realidade histórica e contemporânea bastante complexa. A política mundial não é dominada
por uma única questão ou conflito; pelo contrário, é moldada e influenciada por muitas e diferentes questões.
A situação pluralista dos estudos de RI também reflete as preferências pessoais de diferentes estudiosos: eles
geralmente preferem teorias particulares por razões que podem ter tanto a ver com seus valores pessoais e
com suas visões de mundo quanto em relação a acontecimentos nas relações internacionais.
Podcast
Ouça o podcast. Nele, faremos um um balanço dos principais aspectos sobre a teoria das Relações
Internacionais.
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Aqui estão alguns documentários e filmes que ilustrarão ainda mais o seu estudo. Procure assisti-los;
CERVO, A. L. Conceitos em relações internacionais. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 51, 2008, p.
8-25.
SILVA, M. A. M. Teoria crítica em relações internacionais. Contexto Internacional, v. 27, 2005, p. 249-282.
Referências
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DOYLE, M. W. Liberalism and world politics. The American Political Science Review, v. 80, n. 4, 1986, p.
1151-1169.
HUGHES, B. B.; JOHNSTON, P. D. Sustainable futures: policies for global development. Futures 37, n. 8, 2005,
p. 813-831.
KLATT, M.; MEISTER, M. A proporcionalidade como princípio constitucional universal. Revista Publicum, n. 1,
2015, p. 30-70.
MARCH, J. G.; OLSEN, J. P. The institutional dynamics of international political orders. International
organization, v. 52, n. 4, 1998, p. 943-969.
MORGENTHAU, H. Politics among nations: the struggle for power and peace. Nova York: Alfred Kopf, 1948.
PECEQUILO, C. S. Teoria das relações internacionais: o mapa do caminho: estudo e prática. Rio de Janeiro:
Alta Books, 2019.
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TICKNER, A. B. Core, periphery and (neo)imperialist international relations. European Journal of International
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UPRETI, B. C. National happiness and foreign policy of Bhutan: interlinkages and imperatives. In: Rethinking
development: local pathways to global wellbeing conference, 2005.
WALTZ, K. Theory of international politics. Waveland Press, 2010. [1ª ed., 1979].
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Organization, v. 46, n. 2, 1992, p. 391-425.