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Contaminação de Águas Subterrâneas em Viamão

A dissertação avalia a contaminação das águas subterrâneas por efluentes domésticos na região de Águas Claras, Viamão - RS, destacando a vulnerabilidade do aquífero Coxilha das Lombas. A pesquisa identificou que, apesar da presença de efluentes, a contaminação é local e considerada pouco expressiva, com apenas 4 amostras apresentando nitrato acima do permitido. O estudo enfatiza a necessidade de controle e fiscalização dos poços e análises periódicas para garantir a qualidade da água consumida pela população.

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Contaminação de Águas Subterrâneas em Viamão

A dissertação avalia a contaminação das águas subterrâneas por efluentes domésticos na região de Águas Claras, Viamão - RS, destacando a vulnerabilidade do aquífero Coxilha das Lombas. A pesquisa identificou que, apesar da presença de efluentes, a contaminação é local e considerada pouco expressiva, com apenas 4 amostras apresentando nitrato acima do permitido. O estudo enfatiza a necessidade de controle e fiscalização dos poços e análises periódicas para garantir a qualidade da água consumida pela população.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOCIÊNCIAS

AVALIAÇÃO DA CONTAMINAÇÃO DAS ÁGUAS


SUBTERRÂNEAS POR EFLUENTES DOMÉSTICOS NA
REGIÃO DE ÁGUAS CLARAS, MUNICÍPIO DE VIAMÃO - RS

MATHEUS LOURENCI FERREIRA

ORIENTADOR – Prof. Dr. Antonio Pedro Viero

Volume I

Porto Alegre - 2018


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOCIÊNCIAS

AVALIAÇÃO DA CONTAMINAÇÃO DAS ÁGUAS


SUBTERRÂNEAS POR EFLUENTES DOMÉSTICOS NA
REGIÃO DE ÁGUAS CLARAS, MUNICÍPIO DE VIAMÃO - RS

MATHEUS LOURENCI FERREIRA

ORIENTADOR – Prof. Dr. Antonio Pedro Viero

BANCA EXAMINADORA

Prof. Dr. Ari Roisenberg – Instituto de Geociências, UFRGS

Prof. Dr. Artur Cezar Bastos Neves Neto - Instituto de


Geociências, UFRGS

Dr. Marcos Alexandre de Freitas – CPRM

Dissertação de Mestrado apresentada


como requisito parcial para obtenção
do Título de Mestre em Geociências.

Porto Alegre - 2018


Resumo

Atualmente, a sociedade tem aumentado sua preocupação com as questões ambientais e


com a disponibilidade e qualidade dos recursos hídricos. Ainda que o Brasil seja um país
hidricamente rico, não são raros os casos de escassez de água desencadeados pelos
períodos prolongados de seca ou pela má gestão dos recursos e práticas que contaminam
os mananciais. De um modo geral as atividades antrópicas geram impacto e contaminam os
cursos d'água, sendo as águas superficiais as primeiras a serem atingidas e portanto
estarem mais suscetíveis à contaminação, quando comparadas com as que estão em
condição subterrânea. Além de serem frequentemente utilizadas para abastecimento
doméstico, as águas subterrâneas também tem papel fundamental no setor agropecuário e
industrial. Devido à falta de abastecimento pela companhia de saneamento e considerando
o alto potencial hídrico do Aquífero Coxilha das Lombas, a explotação das águas
subterrâneas no município de Viamão (RS) especificamente na região de Águas Claras é
generalizada. A área está inserida dentro da porção emersa da Bacia de Pelotas que é
conhecida como planície costeira e envolve sistemas deposicionais do tipo laguna-barreira,
onde predominam areias quartzo-feldspáticas com intercalações de argila de origem
diagenética. A população capta água através de poços rasos do tipo ponteira construídos de
maneira irregular, além de possuir fossas e sumidouros instalados nas imediações das
residências, que podem contaminar o aquífero e colocar em risco a qualidade das águas
subterrâneas. O objetivo geral deste trabalho consistiu em avaliar a influência dos efluentes
domésticos lançados livremente no solo na contaminação do aquífero freático. Além da
realização do levantamento bibliográfico, foi realizada a etapa de campo onde foram
coletadas e analisadas 10 amostras de águas de poços já existentes na localidade de Águas
Claras. Os parâmetros físico-químicos, químicos e bacteriológicos escolhidos foram pH,
condutividade elétrica, temperatura, nitrogênio amoniacal, sódio, cloretos, nitrato, ortofosfato
e o coliforme fecal Escherichia coli. A caracterização geológica e hidrodinâmica do aquífero
possibilitou avaliar sua vulnerabilidade à contaminação através da aplicação do Método
GOD. Dentre os parâmetros analisados apenas o nitrato apresentou valores acima do
permitido (>10 mg/L) em 4 amostras, evidenciando a influência antrópica na
contaminação das águas subterrâneas. No cálculo integrado do índice G-O-D foram
obtidos valores entre 0,192 e 0,216, que indicam que o aquífero possui baixa
vulnerabilidade à contaminação. Apesar dos grandes volumes de efluentes
domésticos lançados através das fossas e sumidouros na região, a contaminação
antrópica das águas subterrâneas é entendida como local e pouco expressiva,
possivelmente causada por problemas construtivos nos poços somada à falta de
saneamento. A baixa vulnerabilidade natural do aquífero pode ser explicada por sua
condição de semiconfinamento e suas características hidrodinâmicas podem
contribuir na diluição dos contaminantes. Por se tratar de uma região hidricamente
rica, cabe ressaltar a importância de um maior controle e fiscalização dos poços,
além da realização periódica de análises químicas a fim de garantir a qualidade da
água consumida pela população de Águas Claras.

Palavras-Chave: hidrogeologia, água subterrânea, vulnerabilidade, contaminação.


Abstract

Currently, the society has increased his preoccupation about environmental issues and the
availability and quality of water resources. Although Brazil is a hydrically rich country, water
scarcity caused by prolonged periods of drought or poor management of resources and
practices that contaminate water sources are not uncommon. In general, anthropic activities
generate impact and contaminate watercourses, being the surface water the first to be
reached and therefore more susceptible to contamination when compared to those in
underground conditions. Besides being frequently used for domestic supply, groundwater is
essential in the agricultural and industrial sector Due to the lack of supply by the sanitation
company and considering the high hydric potential of the Coxilha das Lombas Aquifer, the
explotation of groundwater in the city of Viamão (RS) specifically in Águas Claras region is
generalized. The area is located inside the emerged portion of the Pelotas Basin, which is
known as the coastal plain and involves depositional systems of the lagoon-barrier type,
where quartz-feldspatic sands predominate with intercalations of diagenetic origin clay. The
population captures water through “ponteira’ wells irregularly built, beyond to have tanks and
soak pits installed in the surrounding of residences, which could contaminate the aquifer and
put in risk the quality of groundwater. The general objective of this work consisted in
evaluating the influence of domestic effluents released into the ground in the contamination
of phreatic aquifer. Besides the review of literature, were performed the fieldwork where were
collected and analyzed 10 samples of water from existing wells in the locality of Águas
Claras. The physical-chemical, chemical and bacteriological parameters chosen were pH,
electrical conductivity, temperature, ammoniacal nitrogen, sodium, chlorides, nitrate,
orthophosphate and fecal coliform Escherichia coli. The geological and hydrodynamic
characterization of the aquifer allowed to evaluate its vulnerability through application of
GOD method. Among the analyzed parameters, only nitrate presented values above the
allowed (>10mg/L) in 4 samples, evidencing the anthropic influence in the contamination of
groundwater. In the integrated calculation of the G-O-D index, values between 0,192 and
0,216 were obtained, indicating that the aquifer has low vulnerability to contamination.
Although the large volumes of domestic effluents discharged through the tanks and soak pits
in the region, the anthropic contamination of the groundwater is understood as local and not
very expressive, possibly caused by constructive problems in the wells added to the lack of
sanitation. The low natural vulnerability of the aquifer can be explained by its semi-confined
condition and its hydrodynamic characteristics can contribute to the dilution of the
contaminants. As it is a hydrically rich region, it is important to emphasize the importance of
a greater control and inspection of the wells, in addition to the regular accomplishment of
chemical analyzes in ordr to guarantee the quality of the water consumed by the population
of Águas Claras.

Keywords: hydrogeology, groundwater, vulnerability, contamination.


SUMÁRIO

I. ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO ...........................................................................7


II. JUSTIFICATIVA E ENQUADRAMENTO DO TEMA................................................7
1. INTRODUÇÃO.........................................................................................................8
1.2. OBJETIVOS..........................................................................................................9
2. LOCALIZAÇÃO, CONTEXTO GEOLÓGICO E HIDROGEOLÓGICO...................10
2.1. Localização da Área de Estudo...........................................................................10
2.2. Contexto Geológico Regional..............................................................................11
2.3. Contexto Hidrogeológico.....................................................................................17
2.4. Hidroquímica dos Aquíferos Costeiros................................................................18
3. CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA……………………………………………............19
3.1. Vulnerabilidade de Aquíferos………………………………………………………...19
3.2. Fossas Sépticas e a Contaminação do Lençol Freático………………………….22
3.3. Parâmetros Físico-Químicos, Químicos e Bacteriológicos.................................28
3.3.1. pH.....................................................................................................................28
3.3.2. Nitrogênio Amoniacal.......................................................................................29
3.3.3. Cloretos............................................................................................................31
3.3.4. Nitrato...............................................................................................................31
3.3.5. Ortofosfato........................................................................................................33
3.3.6. Coliformes fecais (Escherichia coli)..................................................................34
3.3.7. Sódio................................................................................................................35
3.3.8. Condutividade Elétrica......................................................................................36
3.3.9. Temperatura.....................................................................................................36
4. METODOLOGIA UTILIZADA………………………………………..…………………36
4.1. Levantamento Bibliográfico.................................................................................36
4.2. Seleção dos Poços e Coleta de Amostras..........................................................37
4.3. Análises Físico-Químicas, Químicas e Bacteriológicas......................................38
4.4. Avaliação da Vulnerabilidade à Contaminação...................................................39
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS…………………………………………………...40
6. ARTIGO SUBMETIDO...........................................................................................44
7. ANEXO...................................................................................................................66
7.1. Comprovante de Submissão do Artigo................................................................65
I. ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO
A presente dissertação de mestrado está estruturada em torno do artigo
científico “Avaliação da contaminação das águas subterrâneas por efluentes
domésticos da região de águas claras, município de Viamão - RS”, submetido ao
periódico ABAS. Assim a organização da dissertação compreende as seguintes
partes principais:
a) A introdução que aborda o tema e descreve os objetivos da pesquisa de mestrado
b) Os aspectos de localização, geologia e hidrogeologia da área de estudo.
c) A contextualização teórica que apresenta os assuntos que dão base e são
utilizados como ferramenta no estudo.
d) A metodologia utilizada no desenvolvimento da pesquisa, responsáveis pela
resolução do problema.
e) O artigo submetido ao periódico ABAS, com corpo editorial permanente e
revisores independentes, escrito pelo autor durante o desenvolvimento de seu
Mestrado. Nele estão descritos os resultados e discussões obtidas na pesquisa, bem
como as conclusões acerca do estudo.

II. JUSTIFICATIVA E ENQUADRAMENTO DO TEMA


O distrito de Águas Claras localizado na zona rural do municipio de Viamão,
região metropolitana da capital do Rio Grande do Sul é conhecido pelo seu alto
potencial hídrico onde o Aquífero Coxilha das Lombas é responsável por subsidiar
as grandes demandas da indústria e da agropecuária na região.
A população é abastecida em sua grande maioria por águas subterrâneas
captadas em poços rasos, desprovidos de qualquer controle e regulamentação e a
ausência de saneamento básico na região também é marcada pela falta de coleta e
tratamento de esgoto. Os efluentes domésticos são descartados através de fossas e
sumidouros, que são construídos no entorno das residências, muito próximos aos
locais onde estão locados os poços de abastecimento doméstico.
Considerando as características geológicas da área, temos um aquífero
costeiro composto predominantente por areias quartzo-feldspáticas, depositados em
um contexto de barreira marinha por um sistema de laguna-barreira. Logo, levando
em conta os fatos supracitados, o risco de contaminação antrópica nas águas
subterrâneas consumidas pela população é extremamente elevado.

7
Os estudos envolvendo a qualidade das águas subterrâneas bem como sobre
a vulnerabilidade do aquífero na região de Águas Claras são escassos e estão
disponíveis em escala regional, abrangendo apenas informações sobre o potencial
hídrico das águas subterrâneas. Assim, se fazem necessários estudos
hidrogeológicos e hidroquímicos na área que contribuam para a gestão dos recursos
hídricos e o entendimento das características do aquífero que abastece o distrito de
Águas Claras.

1. INTRODUÇÃO
Do ponto de vista da vida na Terra, temos a água como um dos bens mais
fundamentais para a sua manutenção e apesar de dois terços da superfície do
Planeta ser coberto por ela, calcula-se que apenas 3% dela é doce. Porém, está
disponível para consumo 0,8%, sendo que não se tem conhecimento de quanto
desta fração se enquadra nos padrões de potabilidade para consumo.
Atualmente a sociedade tem aumentado sua preocupação com as questões
ambientais, bem como com os recursos naturais a exemplo da água, sendo
colocados em foco sua disponibilidade e qualidade. Apesar de vivermos num país
hidricamente rico, não são raros os episódios de escassez de água, seja pela
ocorrência de períodos prolongados de seca ou pela má gestão e atividades
poluidoras que acabam por afetá-la.
A atividade antrópica por mais inofensiva que pareça ser pode gerar impacto
e contaminar os cursos d'água, sendo as águas superficiais as primeiras a serem
atingidas e portanto mais suscetíveis aos impactos, quando comparadas com as que
estão em maiores profundidades. Logo, a explotação das águas subterrâneas é uma
opção bastante atraente para abastecimento público, pois apresentam boa
qualidade (em geral) e baixo custo de captação, por estarem muito próximas às
áreas de consumo.
A água subterrânea é utilizada frequentemente para abastecimento
doméstico, irrigação, dessedentação de animais, recreação e fins industriais. É
considerada um recurso natural indispensável para a humanidade e para o meio
ambiente, pois mantêm a umidade do solo, garante o fluxo de base dos cursos
d’água, sendo responsável pela sua perenização em épocas de estiagem. No
entanto o fato dela estar em condições de subsuperfície e protegida por uma
cobertura de solo e rochas, não a exime de sofrer contaminação.
8
Em relação aos dados gerais do Brasil 34,8% das pessoas não tem acesso à
rede coletora de esgoto (IBGE, 2008). Sendo assim, o destino final do esgoto
doméstico e industrial em fossas e tanque sépticos, bem como a disposição
inadequada de resíduos sólidos urbanos e industriais, os postos de combustíveis, os
cemitérios e a modernização da agricultura representam fontes de contaminação
das águas subterrâneas por bactérias e vírus patogênicos, parasitas, substâncias
orgânicas e inorgânicas.
A falta de saneamento básico, caracterizada pela ausência de sistema de
tratamento de esgotos e abastecimento de água, obriga a população local a
construir fossas negras e sépticas dentro de seus terrenos para a deposição de
efluentes, e frequentemente perfuram poços do tipo cacimba e ponteira nas suas
imediações. Essa prática pode contaminar as águas subterrâneas, especialmente os
aquíferos rasos, possibilitando consequências drásticas na saúde coletiva. Sendo
assim, a explotação inadequada de poços de abastecimento são vistos como os
principais fatores de risco para a contaminação das águas subterrâneas na área de
estudo.
Portanto, para que a exploração das águas subterrâneas seja realizada de
forma segura e sustentável é preciso avançar no conhecimento das características
do meio físico, nas potenciais fontes de contaminação e nas técnicas de proteção
dos aquíferos, com o objetivo de aprimorar a gestão dos recursos hídricos
subterrâneos e eliminar os riscos à saúde pública.

1.2. OBJETIVOS
Este trabalho teve como objetivo geral a avaliação da influência da
contaminação antrópica por fossas e sumidouros nas águas subterrâneas captadas
por poços rasos na região do distrito de Águas Claras no município de Viamão, RS.
Os objetivos específicos foram:
a) Caracterizar geoquimicamente as águas subterrâneas através das análises físico-
químicas, químicas e microbiológicas;
b) Reconhecer as características geológicas e hidrológicas do aquífero estudado;
c) Determinar a vulnerabilidade natural do aquífero à contaminação;
d) Gerar dados e informações que sirvam de subsídio para a gestão das águas
subterrâneas da região.

9
2. LOCALIZAÇÃO, CONTEXTO GEOLÓGICO E HIDROGEOLÓGICO
2.1. Localização da Área de Estudo
O Município de Viamão pertence à área metropolitana de Porto Alegre.
Localizado na porção leste do Estado do Rio Grande do Sul entre os paralelos
29°57’00” S e 30°26’30” S e meridianos 51°02’00” W e 50°47’00” W, é delimitado ao
sul pela Lagoa dos Patos e a leste pela Lagoa do Casamento. A área urbana de
Viamão compreende aproximadamente 280 km2 e a área rural abrange 1.244 km2,
num total de 1.494 km2. Águas Claras encontra-se na porção leste do município,
tendo como principais vias de acesso para a área de estudo a RS-040 e a estrada
vicinal Boa Vista (Fig. 1). O distrito possui cerca de 24.000 habitantes e é dividido
em três loteamentos: Águas Claras, Morro Grande e Costa da Boa Vista.

Figura 1 - Mapa de localização do município de Viamão com a área de estudo destacada em


vermelho.

Utilizando os critérios estabelecidos pela classificação climática global de


Köppen (1931), o município de Viamão se enquadra no clima subtropical temperado
com verão quente (Cfa). A temperatura média de Viamão é de 18.9°C, registrando
as temperaturas mais altas no mês de Janeiro com média de 24.3°C e máximas em
torno de 29,2°C. Já as mais baixas são registradas em Julho, com média de 14.1°C
e mínimas em torno 9,6°C. Vale ressaltar ainda que nos meses mais frios são
registrados os maiores picos de umidade relativa do ar, que chegam a atingir 76%.
Apesar de apresentar uma pluviosidade significativa ao longo de todo o ano, o
período que compreende as maiores taxas está entre os meses de junho e
10
setembro. A precipitação média anual é cerca de 1450 mm, com valores mensais
mínimos de 98 mm e máximos de 143 mm. O balanço hídrico da região demonstra
que a recarga dos aquíferos ocorre entre os meses de junho e setembro, gerando
anualmente uma infiltração de água meteórica de 150 mm.

2.2. Contexto Geológico Regional


A área de estudo está inserida dentro da parte proximal e superior da Bacia
de Pelotas, em um contexto de bacia marginal subsidente, originada pelo
rifteamento do Gondwana e abertura do Atlântico Sul, sendo preenchida por
sequências clásticas continentais e transicionais (Asmus & Porto, 1972; Villwock &
Tomazzeli, 1995) (Fig. 2).
Ao longo de sua evolução a bacia acabou por acumular mais de 10 km de
sedimentos essencialmente terrígenos, se estendendo desde Santa Catarina (a
partir do Alto de Florianópolis) até o norte do Uruguai (Alto de Polônio) e
comportando uma associação petrotectônica de transição entre as bacias mais ao
sul (Salado, Colorado) e as mais ao norte (desde a Bacia de Santos até a Bacia de
Pernambuco-Paraíba) (Fig. 2).

Figura 2 - Principais estruturas e fisiografia da Bacia de Pelotas incluindo área continental


adjacente. Modificado de Urien & Martins, 1978.

11
A porção emersa da Bacia de Pelotas corresponde a uma feição fisiográfica
conhecida como Planície Costeira do Rio Grande do Sul, onde estão expostos os
sedimentos depositados desde o Paleógeno sob a influência de oscilações glacio-
eustáticas acarretadas por acentuadas variações climáticas (Barboza et al., 2008).
Em termos de dimensões, a linha de costa da planície costeira se estende por
620 km, com direção NE-SW e área de aproximadamente 33.000 km², englobando
diversos corpos d’água como, por exemplo, a Laguna dos Patos, a Lagoa Mirim e a
Lagoa Mangueira.
A planície costeira está compartimentada em quatro sistemas deposicionais
laguna-barreira e um sistema deposicional de leques aluviais em decorrência das
variações do nível relativo do mar, sendo os três primeiros sistemas laguna-barreira
de idade pleistocênica e o último de idade holocênica, que foi formado há
aproximadamente 7ka e ainda está ativo (Fig. 3). A planície evoluiu no sentido leste,
sendo que cada um dos sistemas registra o pico de uma transgressão marinha,
seguido de um evento regressivo (Villwock et al., 1986) (Fig. 4).

12
Figura 3 - Mapa de localização e sistemas deposicionais da Planície Costeira do Rio Grande
do Sul. Modificado de Tomazelli & Villwock (2000).

13
Figura 4 - Perfil esquemático transversal aos sistemas deposicionais da Planície Costeira do
Rio Grande do Sul na latitude de Porto Alegre. As barreiras são correlacionadas aos últimos
picos da curva isotópica de oxigênio. Modificado de Tomazelli & Villwock (2000).

O sistema de leques aluviais é formado pelos processos de transporte


associados aos ambientes de encostas das áreas altas do embasamento, à
montante da planície costeira. Já os sistemas de laguna-barreira foram formados
pelo retrabalhamento da porção distal dos depósitos aluviais, por processos
marinhos e lagunares (Villwock & Tomazelli, 1995).
Dentro de cada sistema laguna-barreira são descritos três subsistemas
interligados:
1. Subsistema Lagunar: se desenvolve no espaço retrobarreira e engloba
lagunas, lagos costeiros, pântanos e canais interlagunares;
2. Subsistema Barreira: engloba as praias arenosas e o campo de dunas
eólicas;
3. Subsistema de Ligação: engloba a zona que liga o subsistema lagunar ao mar
aberto.

14
O sistema laguna-barreira I possui uma idade absoluta de aproximadamente
400 ka de acordo com a curva isotópica do oxigênio e ocupa uma faixa com
orientação NE-SW com cerca de 250 km de extensão e uma largura média entre 5 e
10 km. Seu desenvolvimento se deu principalmente a partir da acumulação de
sedimentos eólicos que se ancoraram preferencialmente sobre altos do
embasamento. Em sua extremidade NE estes altos são representados pelas rochas
sedimentares e vulcânicas da Bacia do Paraná e, na parte central e SW, pré-
cambrianas do Batólito de Pelotas. Remanescentes de sedimentos correlativos à
barreira I ocorrem também a oeste da Lagoa Mirim.
As fácies sedimentares são predominantemente caracterizadas por areias
quartzo-feldspáticas avermelhadas, de granulação fina a média, muito bem
arredondadas, semi-consolidadas, podendo apresentar elevado conteúdo de matriz
síltico-argilosa de origem diagenética. Crostas e nódulos ferruginosos se encontram
disseminados nos sedimentos. Os intensos processos intempéricos acabaram por
promover a destruição quase que total das estruturas sedimentares primárias e em
consequência disso, a maioria dos afloramentos se apresentam maciços, sendo
raros os locais em que as estruturas eólicas ainda podem ser observadas.
O sistema laguna-barreira II corresponde a um segundo evento transgressivo-
regressivo com idade absoluta de aproximadamente 325 ka. Os depósitos praiais e
eólicos ficaram preservados como um grande pontal arenoso desenvolvido a leste
da Lagoa dos Barros e ao sul, como um antigo sistema de ilhas-barreira,
responsável pelo primeiro isolamento da Lagoa Mirim.
As fácies sedimentares correspondem a areias quartzo-feldspáticas,
castanho-amareladas, bem arredondadas e envoltas por uma matriz argilosa. Os
depósitos lagunares, instalados na região de retrobarreira são representados por
areias finas, siltico-argilosas, mal selecionadas, esbranquiçadas e com laminação
plano-paralela.
O sistema laguna-barreira III corresponde ao terceiro evento transgressivo-
regressivo com idade absoluta de aproximadamente 120 ka. De acordo com
Tomazelli e Dillenburg (2007), a barreira III corresponde a uma sequência costeira
tipicamente regressiva (progradante) que foi dividida, com base em dados
sedimentológicos e paleontológicos, em fácies distintas correlacionadas aos
sistemas eólico, praial (backshore e foreshore) e marinho raso.

15
Os sedimentos da porção basal são compostos por fácies arenosas, fina a
muito fina com baixo teor de silte e argila, com estruturas cruzadas hummocky, e
com presença de grãos de glauconita. Os depósitos praiais são compostos por
areias quartzosas esbranquiçadas, finas e bem selecionadas, com estratificação
bem desenvolvida que incluem a laminação plano-paralela com truncamentos de
baixo ângulo e cruzadas planares e acanaladas. Também é notável a ocorrência de
uma grande quantidade de icnofósseis representados por tubos de Ophiomorfa além
de moldes de conchas de moluscos. A porção superior da sucessão de fácies, é
representada por uma cobertura de areias eólicas finas de coloração marrom-
avermelhada, de aspecto predominantemente maciço com alguns horizontes de
paleossolos. Algumas vezes apresentam-se bioturbados por vestígios de raízes e de
tocas de insetos.
Os depósitos que correspondem ao Sistema Lagunar III, são compostos por
areias finas, siltico-argilosas, mal selecionadas, de coloração creme e com
laminação plano-paralela e apresentam comumente concreções carbonáticas e
ferruginosas.
O sistema laguna-barreira IV teve sua formação iniciada há cerca de 7 ka e
continua ativo, corresponde à linha de costa atual e registra os estágios finais da
última transgressão marinha pós-glacial. Se estende ao longo dos 620 km da costa
do Rio Grande do Sul de maneira heterogênea, apresentando intercalações de
segmentos de barreira transgressivos e regressivos. Tal variação está associada
com o balanço sedimentar, controlado pela topografia antecedente, pelos tipos de
sedimentos disponíveis, por fatores climáticos e oceanográficos (Dillenburg et al.,
2009).
Dentro dos depósitos de barreira são identificados leques de sobrelavagem
e/ou deltas de maré enchente, constituídos basicamente por areias quartzosas finas,
de coloração variável entre bege, acinzentado e esverdeado, moderadamente
selecionados e podendo apresentar finas lâminas ricas em minerais pesados. Os
depósitos praiais são constituídos essencialmente por areias quartzosas finas a
muito finas de coloração cinza e bege esverdeada, moderadamente selecionadas.
Os eólicos caracterizam-se por areias finas, bem selecionadas, de coloração bege a
amarelada, com níveis milimétricos esparsos de coloração cinza, produzidos por
concentrações de minerais pesados.

16
O sistema lagunar é constituído por um conjunto de ambientes e
subambientes deposicionais que incluem corpos aquosos costeiros, sistemas
aluviais, deltaicos e paludais (Tomazelli & Villwock, 1995). Os depósitos de margem
são constituídos por areias quartzosas finas, de coloração cinza a verde claro,
moderadamente a mal selecionadas, enquanto que os depósitos de fundo são
formados pela ocorrência de lamas ricas em matéria orgânica, de coloração
variando de cinza a preta, com biodetritos, podendo conter esparsas intercalações
de finos intervalos arenosos.

2.3. Contexto Hidrogeológico


Como a área de estudo está inserida dentro da planície costeira a
hidrogeologia da área acaba por envolver os aquíferos sedimentares costeiros do
Rio Grande do Sul, mais especificamente o Sistema Aquífero Quaternário Barreira
Marinha (bm) e o Sistema Aquífero Quaternário Costeiro II (qc2) (Fig. 5).

Figura 5 – Mapa hidrogeológico da porção costeira destacando a área de estudo (retângulo


vermelho). Modificado de CPRM (2005).

O Sistema Aquífero Quaternário Barreira Marinha (bm) também conhecido


como Aquífero Coxilha das Lombas, localiza-se em uma estreita faixa de direção
nordeste, composto por areias inconsolidadas, de granulometria fina a média,
vermelho-claro a esbranquiçadas, com pouca matriz argilosa. As capacidades
específicas são altas, ultrapassando 4 m³/h/m e o seu teor salino é muito baixo, em
média menor do que 50 mg/L (Machado & Freitas, 2005). Hausman (1995) classifica
essas águas subterrâneas, conforme o diagrama de Piper, como cloretadas a

17
bicarbonatadas mistas, com valores de pH entre 4,5 - 6,5 e assim, acabam por
obedecer os padrões de potabilidade para consumo.
O Sistema Aquífero Quaternário Costeiro II (qc2) compreende os aquíferos
relacionados com os sedimentos da planície costeira, desenvolvendo-se desde
Santa Vitória do Palmar até Torres, predominantemente na região lagunar interna e
junto aos contrafortes da Serra Geral. Compõe-se de uma sucessão de areias finas
inconsolidadas, esbranquiçadas e argila cinza. No topo, os primeiros metros são
pelíticos, bastante cimentados. As capacidades específicas variam de baixas a
médias, entre 0,5 e 1,5 m³/h/m. Os sólidos totais dissolvidos variam entre 600 e
2000 mg/L (CPRM, 2005).

2.4. Hidroquímica dos Aquíferos Costeiros


Utilizando o diagrama de Piper (1994) que classifica e compara os diferentes
grupos de águas subterrâneas a partir das proporções entre os principais cátions
(Ca2+, Mg+2, Na+ + K+) e ânions (HCO3 -, Cl- e SO4-) em dois diagramas triangulares
respectivos, se classificou as águas subterrâneas dos aquíferos costeiros em 4
classes distintas (Fig, 6).

Figura 6 – Diagrama de Piper para classificação das águas subterrâneas dos aquíferos
costeiros do RS. Modificado de Souza (2015).

18
O estudo da composição química das águas subterrâneas da planície costeira
atribui as características pedológicas, como a composição quartzo-arenosa e a
carência em cátions alcalinos-terrosos (Ca2+ e Mg2+) dos solos, além das condições
climáticas da região como favoráveis na formação de águas subterrâneas doces,
onde o sódio e cloreto predominam como íons principais (Mirlean et al., 2005).
Segundo Evangelista (1989), considerando os principais cátions em águas
subterrâneas, o íon sódio é dominante em aquíferos costeiros com influência de
salinização e que está intimamente relacionado com processos de trocas iônicas,
principalmente com o Ca2+.
O trabalho realizado pela CPRM (2005) dividiu os aquíferos costeiros através
de características hidroquímicas em: a) Sistema Aquífero Quaternário Costeiro I,
onde os ânions variam entre bicarbonatos e cloretos sendo o cátion predominante o
sódio. No entanto, as águas foram categorizadas como bicarbonatadas a cloretadas
sódicas, além de eventualmente serem encontradas águas cloretadas com maior
teor salino; b) Sistema Aquífero Quaternário Costeiro II, com as mesmas
características do primeiro, variando apenas na quantidade maior de sólidos totais
dissolvidos e, altos teores de ferro na porção norte. Vale ressaltar ainda, a evidente
influência da água marinha nos aquíferos costeiros da pelos altos teores de Na+ e Cl-
principalmente nos poços mais próximos ao oceano.

3. CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA
3.1. Vulnerabilidade de Aquíferos
A premissa para a preservação dos recursos hídricos subterrâneos está
ligada ao estabelecimento de áreas ou atividades com maior risco de degradação
dos aquíferos, priorizando a aplicação de medidas de prevenção e proteção, em
locais de maior interesse socioeconômico e ambiental. Logo, os sistemas naturais e
sociais podem ser afetados por um conjunto de fatores condicionantes, designando-
se por vulnerabilidade a medida do grau em que os sistemas são afetados (Foster &
Hirata, 1993).
De um modo geral, a vulnerabilidade de um sistema aquífero se refere à sua
capacidade ser afetado pela contaminação antrópica, podendo ser representada na
forma de mapas, permitindo aos órgãos gestores, uma melhor avaliação das

19
propostas de desenvolvimento aliada ao controle da poluição e monitoramento da
qualidade da água subterrânea.
No caso de áreas costeiras que são notadamente ambientes frágeis, onde os
recursos hídricos subterrâneos podem ser facilmente contaminados, inclusive pela
salinidade marinha gerando um problema ambiental que pode vir a ser irreversível.
As águas subterrâneas dos aquíferos costeiros são geralmente afetadas por
complexos processos geoquímicos e múltiplas fontes de contaminação. O aumento
populacional, as intensas atividades de irrigação, as drenagens industriais e os
sistemas de esgoto domésticos causam danos severos à qualidade da água
subterrânea nas áreas costeiras (Rajmohan et al., 2009).
Os contaminantes superficiais de origem antrópica desempenham um papel
importante na contaminação dos aquíferos costeiros, que podem ser comumente
contaminados também por processos naturais, onde há intrusão de água marinha
nos aquíferos em regiões próximas ao oceano (Karanth, 1987).
Para mensurar a vulnerabilidade de um aquífero devem ser levadas em conta
as suas características físicas, químicas e hidrogeológicas, que refletem sua
susceptibilidade à ação de fatores naturais e antrópicos. A concepção da
vulnerabilidade baseia-se no fato de que as propriedades dos aquíferos oferecem
um determinado grau de proteção natural às águas subterrâneas contra agentes
externos, especialmente no que diz respeito à contaminantes de diversas origens.
Neste sentido, o risco de contaminação se define como a probabilidade de que a
água subterrânea na parte superior do aquífero seja contaminada em um nível
crítico por atividades que se desenvolvem na superfície do terreno (Adams & Foster,
1992; Hirata & Fernandes, 2008)
Dentre as metodologias mais utilizadas nas pesquisas que envolvem a
avaliação da vulnerabilidade das águas subterrâneas à contaminação podem ser
citadas Método DRASTIC (Aller et al., 1987) e o Método GOD (Foster & Hirata,
1988). Os estudos que envolvem esta temática servem para identificar quais dos
aquíferos, ou parte deles, são mais vulneráveis (frágeis à contaminação), bem como
quais as atividades são responsáveis pelos maiores riscos de contaminação na área
estudada.
O Método DRASTIC é um dos mais utilizados atualmente, e serve para
avaliar o risco de poluição das águas subterrâneas usando variáveis

20
hidrogeológicas, descritas por um acrônimo cujo significado consta na quadro
abaixo.

Quadro 1 – Variáveis hidrogeológicas utilizadas no Método DRASTIC.

A metodologia atribui números r de 1 a 10 para cada fator, dependendo da


faixa de valores. Estes são multiplicados por pesos w que variam de 1 a 5, sendo
que o fator mais significativo recebe o peso 5 e o menos significativo 1. Assim, o
índice DRASTIC é calculado pela seguinte fórmula:

Índice DRASTIC = DrDw+RrRw+ArAw+SrSw+TrTw+IrIw+CrCw

O menor valor possível é 23, no caso em que os números atribuídos às


faixas de valores são todos 1, e o maior valor é 230. Logo, quanto maior o índice
DRASTIC, maior a vulnerabilidade do aquífero à contaminação. No entanto, um
valor baixo do índice não significa que não possa ocorrer contaminação, apenas que
a mesma será menos provável e menor que em outras áreas.
O Método GOD também visa avaliar o risco das águas subterrâneas à
contaminação, porém é largamente empregado quando há escassez de dados ou
pouca malha de cobertura dos mesmos. Neste método consideram-se três
parâmetros, dispostos conforme o Quadro 2.

21
Quadro 2 – Variáveis hidrogeológicas utilizadas no Método GOD.

Neste método se aplicam constantes entre 0 e 1 para cada fator (G, O, D) e


as constantes são multiplicados entre si para produzir a classificação final, que é
então transformada em vulnerabilidade de aquíferos podendo variar entre
desprezível e extrema.

3.2. Fossas Sépticas e a Contaminação do Lençol Freático


As fossas sépticas (Fig. 6) são unidades de tratamento primário
de esgoto doméstico nas quais são feitas a separação e a transformação físico-
química da matéria sólida contida no esgoto. É uma maneira simples e barata de
disposição dos esgotos indicada, sobretudo, para a zona rural ou residências
isoladas. Todavia, o tratamento não é completo como numa estação de tratamento
de esgotos.
As fossas sépticas são uma estrutura complementar e necessária
às moradias, sendo fundamentais no combate a doenças, verminoses e endemias,
pois diminuem o lançamentos dos dejetos humanos diretamente
em rios, lagos, nascentes ou mesmo na superfície do solo. O seu uso é essencial
para a melhoria das condições de higiene das populações rurais e de localidades
não servidas por redes de coleta pública de esgotos.
O esgoto in natura deve ser lançado em um tanque ou em uma fossa para
que com o menor fluxo da água, a parte sólida possa se depositar, liberando a parte
líquida. Uma vez feito isso bactérias anaeróbias agem sobre a parte sólida do esgoto
decompondo-o. Esta decomposição é importante pois torna o esgoto residual com
menor quantidade de matéria orgânica pois a fossa remove cerca de 40 %
da demanda biológica de oxigênio. Assim, o esgoto pode ser lançado com menor
prejuízo de volta à natureza. Numa fossa séptica não ocorre a decomposição
aeróbia e somente ocorre a decomposição anaeróbia devido à ausência quase total
de oxigênio. Devido a possibilidade da presença de organismos patogênicos, a parte
22
sólida deve ser retirada, através de um caminhão limpa-fossas e transportada para
um aterro sanitário nas zonas urbanas e enterrada na zonas rurais.

Figura 6 – Aspectos gerais e disposição espacial de uma fossa séptica.

O tratamento das águas residuárias nas fossas sépticas se dá pela digestão


anaeróbia que é um processo biológico de decomposição de material orgânico que,
em princípio, não apresenta grande eficiência na correção das características
indesejáveis dos esgotos como a presença de nutrientes.
A digestão anaeróbia de compostos orgânicos complexos é normalmente
considerada um processo de dois estágios. No primeiro estágio, um grupo de
bactérias facultativas e anaeróbias, denominadas formadoras de ácidos ou
fermentativas, convertem os orgânicos complexos em outros compostos. Compostos
orgânicos complexos como carboidratos, proteínas e lipídios são hidrolisados,
fermentados e biologicamente convertidos em materiais orgânicos mais simples,
principalmente ácidos voláteis. No segundo estágio ocorre a conversão dos ácidos
orgânicos, gás carbônico e hidrogênio em produtos finais gasosos, o metano e o gás
carbônico. Esta conversão é efetuada por um grupo especial de bactérias,
denominadas formadoras de metano, as quais são estritamente anaeróbias.
Resumidamente a digestão anaeróbia pode ser considerada como um ecossistema
onde diversos grupos de microrganismo trabalham interativamente na conversão da
matéria orgânica complexa em: metano, gás carbônico, água, gás sulfídrico e
amônia, além de novas células bacterianas.

23
As fossas sépticas devem ficar num nível mais baixo do terreno e longe
de poços, cisternas ou de qualquer outra fonte de captação de água (no mínimo
trinta metros de distância), para evitar contaminações, no caso de eventual
vazamento. Contudo, as fossas sépticas não são suficientes para a destinação
adequada do esgoto. O efluente da fossa ainda contém poluentes que precisam ser
removidos. Por este motivo, após a fossa séptica, é recomendado a instalação de
sumidouro, vala de infiltração, vala de filtração ou filtro anaeróbico. A escolha mais
adequada depende das características locais, como tipo de solo, nível do lençol
freático, área disponível para implantação da unidade, e localização da fonte de
água para consumo.
O sumidouro (Fig. 7) é um poço sem laje de fundo que permite
a infiltração (penetração) do efluente da fossa séptica no solo. O diâmetro e a
profundidade dos sumidouros dependem da quantidade de efluentes e do tipo de
solo. Mas, não deve ter menos de 1m de diâmetro e mais de 3 m de profundidade,
para simplificar a construção. Os sumidouros podem ser feitos com tijolo maciço ou
blocos de concreto ou ainda com anéis pré-moldados de concreto. A construção de
um sumidouro começa pela escavação do buraco, a cerca de 3 m da fossa séptica e
num nível um pouco mais baixo, para facilitar o escoamento dos efluentes por
gravidade. A profundidade do buraco deve ser 70 cm maior que a altura final do
sumidouro. Isso permite a colocação de uma camada de pedra, no fundo do
sumidouro, para infiltração mais rápida no solo, e de uma camada de terra, de
20 cm, sobre a tampa do sumidouro. A laje ou tampa do sumidouro pode ser feita
com uma ou mais placas pré-moldadas de concreto, ou executada no próprio local,
tendo o cuidado de armar em forma de tela.

24
Figura 7 - Aspectos gerais e disposição espacial de um sumidouro.

A vala de infiltração simples (Fig. 8) é recomendada para locais onde o lençol


freático é muito próximo à superfície. Esse sistema consiste na escavação de uma
ou mais valas, nas quais são colocados tubos de dreno com brita, ou bambu,
preparado para trabalhar com dreno retirando o miolo, que permite, ao longo do seu
comprimento, escoar para dentro do solo os efluentes provenientes da fossa séptica.
O comprimento total das valas depende do tipo de solo e quantidade de
efluentes a ser tratado. Em terrenos arenosos 8 m de valas por pessoa são
suficientes. Em terrenos argilosos são necessários 12 m de valas por pessoa.
Entretanto, para um bom funcionamento do sistema, cada linha de tubos não deve
ter mais de 30 m de comprimento. Portanto, dependendo do número de pessoas e
do tipo de terreno, pode ser necessária mais de uma linha de tubos/valas.

25
Figura 8 - Aspectos gerais e disposição espacial de uma vala de infiltração simples.

A vala de filtração composta (Fig. 9) é uma vala escavada no terreno, que


ocupa uma área grande e é pouco profunda. O esgoto passa por uma tubulação
perfurada, infiltra numa camada de areia e depois é coletado por uma outra
tubulação, abaixo dessa camada. Esse tipo de vala deve ser utilizada em terrenos
poucos permeáveis como, por exemplo, terrenos argilosos. O efluente deve ser
encaminhado para um corpo d’água, que pode ser o córrego mais próximo, ou a
galeria de água pluvial.

26
Figura 9 - Aspectos gerais e disposição espacial de um vala de infiltração composta.

O filtro anaeróbico (Fig. 10) é um tanque totalmente fechado, com pedra


britada em seu interior. O efluente é filtrado pela pedra britada e deve ser despejado
no córrego mais próximo ou na galeria de águas pluviais.

27
Figura 10 - Aspectos gerais e disposição espacial de um filtro anaeróbico.

3.3. Parâmetros Físico-Químicos, Químicos e Bacteriológicos


Os parâmetros utilizados para a realização do trabalho de pesquisa foram:
pH, nitrogênio amoniacal, cloretos, nitrato, ortofosfato, coliformes (Escherichia coli),
sódio, condutividade elétrica (CE) e temperatura.

3.3.1. pH
O parâmetro pH (potencial hidrogeniônico) é a medida da concentração
hidrogeniônica, ou seja, íons H+ presentes na água. Calculado como o logaritmo
negativo da concentração de H+, é resultante inicialmente da dissociação das
próprias moléculas da água e posteriormente acrescida pelos íons hidrogênio
provenientes de outras fontes. O pH é essencialmente função do gás carbônico
dissolvido e da alcalinidade da água. Assim, pode indicar condição de acidez,
alcalinidade ou neutralidade da água e pode ser resultante de fatores naturais e
antrópicos (Rocha, 2008).
O pH afeta o processo da tratamento da água com cloro e está relacionado a
fenômenos de incrustação e corrosão em instalações hidráulicas e sistemas de
28
distribuição, adicionando constituintes para a água, tais como: ferro, cobre, chumbo,
zinco e cádmio. É importante no controle da corrosão e de incrustações, visto que a
solubilidade de muitos materiais presentes na água varia com o pH do meio. Nas
condições padrão (25°C e 1 atm), o pH igual a 7 corresponde à neutralidade, valores
inferiores a 7 correspondem à faixa ácida, e valores superiores a 7, à faixa básica
(alcalina).
A Portaria 2.914/2011 do Ministério da Saúde (Brasil, 2011) recomenda que
no sistema de distribuição o pH da água seja mantido na faixa de 6,0 a 9,5.

3.3.2. Nitrogênio Amoniacal


O nitrogênio está presente em águas residuárias sob quatro formas, que são
o nitrogênio amoniacal, nitrogênio orgânico, nitrito e nitrato. Em águas residuárias
domésticas, o nitrogênio está presente principalmente como nitrogênio amoniacal
(em torno de 60%) e nitrogênio orgânico (em torno de 40%). Nitrito e nitrato ocorrem
em pequenas quantidades, que representam menos de 1% do nitrogênio total, uma
vez o esgoto doméstico não apresenta quantidade de oxigênio dissolvido suficiente
à ação das bactérias nitrificantes.
Em sua forma reduzida o nitrogênio amoniacal tem um comportamento tóxico
em soluções aquosas. A amônia pode se apresentar sob as formas ionizada (NH 4+)
ou não ionizada (NH3). Essas espécies de amônia são intercambiáveis e a soma de
suas concentrações constitui a amônia total ou nitrogênio amoniacal total. A amônia
existe na água como amônia livre NH3 e amônia ionizada NH4+, dependendo do pH,
de acordo com a equação de Butler (1998):
NH4+ (aq) = NH3 (aq) + H+ (aq)..................pKa = 9,25

O nitrogênio amoniacal em sua forma gasosa tem sido largamente citado


como produto tóxico às algas, ao zooplâncton e aos peixes. A amônia gasosa
presente no meio aquoso atua como inibidora da fotossíntese das algas, visto que a
mesma possui a capacidade de atravessar membranas biológicas e alterar o
sistema fotossintético (Naval & Couto, 2005).
A forma mais tóxica da amônia só é estável em águas alcalinas pela presença
da amônia livre (NH3), e em águas ácidas seu efeito é bastante reduzido pela
presença da amônia ionizada (NH4+) (Alves, 2006). A amônia livre, em comparação
à amônia ionizada, é muito mais tóxica. Este fato está relacionado à sua

29
permeabilidade através da membrana celular dos peixes e pequenos vertebrados
presentes nos cursos hídricos, e de sua solubilidade em lipídios, que nestes
ocasionam efeitos letais em rios. A amônia pode ser acumulada nos tecidos dos
peixes, podendo causar efeitos secundários como alteração do metabolismo. Seu
efeito pode estar relacionado com a perda de equilíbrio, hiper-excitabilidade,
aumento da atividade respiratória, aumentos de batimentos cardíacos, danos ao
fígado e rins, etc. (Bellido, 2003).
O equilíbrio entre as diferentes espécies de amônia depende das
características físicas e químicas dos corpos d'água. Elevações do pH ou da
temperatura deslocam o equilíbrio químico no sentido da amônia não-ionizada.
Adicionalmente, as forças iônicas são importantes para a definição do equilíbrio
entre as espécies de amônia em águas com salinidades elevadas. O comportamento
tóxico das diferentes parcelas de amônia, particularmente da forma não ionizada,
também depende das condições do meio aquático. Embora as concentrações da
espécie NH3 cresçam com aumentos de pH e temperatura, sua toxicidade diminui
(Broderius,1985).
Segundo Assunção (2009), o lançamento de formas reduzidas de nitrogênio
nos mananciais implica no consumo de oxigênio dissolvido (OD) no meio aquático
devido principalmente ao processo de nitrificação bacteriana, que demanda um
consumo de aproximadamente 4 kg de oxigênio para cada 1 kg de amônia
descarregada no corpo receptor. O consumo do oxigênio dissolvido do meio
aquático para oxidação da matéria orgânica, além da demanda para nitrificação,
pode levar a concentrações prejudiciais à sobrevivência das espécies de peixes.
Além da restrição inerente às concentrações de OD para sobrevivência das
diversas espécies de peixes, as formas de nitrogênio apresentam diferentes níveis
de toxicidade, levando a tolerâncias variadas para as diferentes espécies de peixes.
Em geral os níveis letais são: amônia entre 0,6 e 2,0 mg/L, nitrito > 0,5 mg/L e nitrato
> 5,0 mg/L (Bastos, 2003).
Há uma grande variedade de atividades humanas que geram efluentes com
elevadas quantidades de nitrogênio amoniacal: petroquímica, farmacêutica,
fertilizantes e indústria de alimentos, lixiviado proveniente de resíduos sólidos
urbanos e resíduos sólidos de suinocultura. A disposição deste tipo de resíduo gera
um sério problema ambiental porque a amônia livre, diluída em água, é um dos

30
piores meios de contaminação da vida aquática (Effler, 1990). A produção de
nitrogênio por fontes tróficas vem aumentando significativamente desde a década de
1950, excedendo em cerca de 30% o nitrogênio fixado naturalmente.
A ANVISA determina para consumo humano uma concentração máxima de
1,5 mg/L de N-NH3.

3.3.3. Cloretos
A origem natural dos cloretos pode estar relacionada à dissolução de minerais
ou à intrusão de águas salinas. Além disso, altos valores de Cl- podem indicar
poluição por esgoto doméstico. Segundo Varnier e Hirata (2002), em trabalhos com
poços de monitoramento, observaram elevadas concentrações de Cl - em poços
locados próximos à tanques sépticos, reduzindo essa concentração com o
distanciamento, sendo os valores encontrados de 62 mg/L e 11,8 mg/L no poço mais
próximo e mais distante dos tanques sépticos, respectivamente.
Altas concentrações de íons cloreto na água podem trazer restrições ao
sabor, porém, sem nenhum efeito fisiológico, a não ser o efeito laxativo em pessoas
acostumadas a baixas concentrações (Batalha & Parlatore, 1977).
O Ministério da Saúde, através da Portaria 1469 de 29 de dezembro de 2000
recomenda teores máximos de 250 mg/L, em função ao gosto forte, salgado, que
impõe nas águas.
O cloreto é muito corrosivo para a maioria dos metais em sistemas de alta
pressão e temperatura, tais como caldeiras e equipamentos de extração de petróleo.
Concentrações de cloretos, acima do normal, em águas potáveis costeiras, podem
ser indicação de infiltração de água do mar no suprimento de água potável, ou da
presença de efluentes industriais. Altas concentrações de cloretos podem causar
corrosão em concreto, ferro e argamassas. Esta propriedade está diretamente
correlacionada com a dureza da água, pode-se esperar este tipo de corrosão em
águas com dureza menor que 200 ppm de CaCO3 e mais de 200 ppm de cloretos.

3.3.4. Nitrato
Das diversas formas de nitrogênio presentes na natureza, a amônia (NH 3) e,
em especial, o nitrato (NO3-) podem ser causas da perda de qualidade da água.
Embora a amônia, quando presente na água em altas concentrações, possa ser letal
aos peixes pela toxicidade que representa para esse grupo da fauna, a amônia

31
originada no solo ou aplicada via fertilizantes tende a ser rapidamente convertida em
amônio (NH4+) e esse, por sua vez, é convertido em nitrato pelo processo microbiano
da nitrificação.
Portanto, o nitrato é a principal forma de nitrogênio associada à contaminação
da água pelas atividades agropecuárias. Isso ocorre pelo fato de que o ânion nitrato,
caracterizado por ser fracamente retido nas cargas positivas dos colóides, tende a
permanecer mais em solução, principalmente, nas camadas superficiais do solo, nas
quais a matéria orgânica acentua o caráter eletronegativo da fase sólida (repelindo o
nitrato), e os fosfatos aplicados na adubação ocupam as cargas positivas
disponíveis. Na solução do solo, o nitrato fica muito propenso ao processo de
lixiviação e ao longo do tempo pode haver considerável incremento nos teores de
nitrato nas águas profundas.
Além do uso de fertilizantes agrícolas e criação de animais, os sistemas de
saneamento in situ, quer por tanques sépticos ou fossas rudimentares, constituem
outra importante fonte de nitrato nas águas subterrâneas.
A intensidade do processo de contaminação depende principalmente das
quantidades de nitrato presentes ou adicionadas ao solo, da permeabilidade do solo,
das condições climáticas (pluviosidade) e de manejo da irrigação e da profundidade
do lençol freático ou aquífero (Bhumbla, 2001).
O enriquecimento excessivo das águas superficiais com nitrato leva à
eutrofização dos mananciais. Uma vez que as relações tróficas nos ambientes
aquáticos são moduladas pela disponibilidade de N e P, o excesso de um desses
nutrientes ocasiona o fenômeno chamado eutrofização (enriquecimento da água em
nutrientes), o que favorece a proliferação exagerada de algas e plantas aquáticas.
Como consequência, pode haver redução da penetração de luz na água, alterando o
ambiente subaquático. Além disso, a própria respiração e os restos de plantas e
algas mortas depositados no fundo provocam a redução na disponibilidade de
oxigênio, culminando com a mortandade de peixes e outros organismos.
Pessoas adultas podem ingerir quantidades relativamente altas de nitrato, por
meio de alimentos e da água, e excretá-lo pela urina sem maiores prejuízos à saúde.
Contudo, bebês menores de seis meses de idade possuem bactérias no trato
digestivo que reduzem o nitrato a nitrito, podendo haver envenenamento. Quando o
nitrito alcança a corrente sangüínea, ocorre reação com a hemoglobina, formando o

32
composto metahemoglobina o qual diminui a capacidade de o sangue transportar
oxigênio. Nessa situação, a criança pode sofrer asfixia ficando com a pele azulada,
especialmente, ao redor dos olhos e da boca, sintomas típicos da
metahemoglobinemia ou síndrome do bebê azul. A doença é letal quando 70% da
hemoglobina do corpo é convertida em metahemoglobina (Zublena & Cook, 1997).
Recentemente, embora sem dados confirmados para o organismo humano
(baseado apenas em estudos com uso de cobaias), altas concentrações de nitrato
têm sido associadas à ocorrência de câncer estomacal ou de esôfago pela formação
N-nitrosaminas, um potente agente carcinogênico derivado da interação do nitrito
com aminas secundárias (Nugent et al., 2001; Leifert et al., 1999).
Em face do risco que representa, a concentração de nitrato na água para
consumo humano não deve exceder 10 mg L -1 de N-NO3- ou 44 mg L-1 de NO3-, de
acordo com os limites adotados pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente –
CONAMA (Brasil, 1986) e pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2001).

3.3.5. Ortofosfato
O fósforo presente nas águas residuárias, na forma iônica, encontra-se
geralmente como íon fosfato. Em esgotos sanitários, o fósforo aparece,
principalmente, como fósforo orgânico, polifosfato e ortofosfato (forma inorgânica do
fósforo advindo de decomposição biológica). O fósforo orgânico provém das
excreções humanas e de animais, como também de restos de alimentos. Quando os
compostos orgânicos sofrem decomposição biológica, dão origem a ortofosfatos.
Os ortofosfatos são biodisponíveis e uma vez assimilados, são convertidos
em fosfato orgânico e em fosfatos condensados. Após a morte de um organismo, os
fosfatos condensados são liberados na água; entretanto, não estão disponíveis para
absorção biológica até que sejam hidrolizados por bactérias para ortofosfatos. Essa
reação de hidrolização (decomposição biológica) somente ocorre na presença de
matéria orgânica.
O fósforo também é considerado um grande poluente de cursos de água,
especialmente as águas superficiais, já que ocorre pouca percolação deste
elemento. O fósforo em excesso no ambiente pode provocar diversos impactos
negativos. A eutrofização é o enriquecimento excessivo da água e é causada por
drenagem de fertilizantes agrícolas, águas pluviais de cidades, detergentes, rejeitos
de minas e drenagem de dejetos (humanos e animais). Quando estes resíduos
33
aumentam a concentração de nutrientes (fosfatos, principalmente) de rios e lagos,
podem causar eutrofização excessiva. Os nutrientes estimulam o crescimento de
algas e plantas, que interferem com a utilização da água para beber ou recreação;
estas entradas, geralmente irregulares, causam ondas de crescimento, seguidas por
períodos de consumo excessivo que podem utilizar todo o oxigênio e exterminar os
peixes.
O ciclo do fósforo no solo envolve as plantas, os animais e os
microorganismos. Incluem-se nesse sistema processos de absorção pelas plantas,
reciclagem pelos resíduos de plantas e animais, reciclagem biológica pelos
processos de mineralização-imobilização, reações de sorção pelas argilas e óxidos e
hidróxidos do solo, e solubilização de fosfatos pela atividade de microorganismos e
plantas. Quando os solos são cultivados o ciclo é alterado, pois há adição de
elementos com as adubações, e remoção quando da colheita ou ocorrência de
erosão ou percolação (Stevenson, 1994).
O fósforo é um dos elementos essenciais para as plantas e animais. Em solos
altamente intemperizados, a disponibilidade de fósforo pode ser muito baixa,
necessitando aplicação de fertilizantes (Novais & Smyth, 1999).
O fósforo contido no material de origem encontra-se na forma mineral, sendo
que as apatitas (fosfatos de cálcio) são os minerais primários mais comuns
(Frossard et al., 1995). As formas e a distribuição do fósforo no solo sob ambientes
naturais estão intimamente ligados ao seu intemperismo em formas inorgânicas e
orgânicas, sendo que a orgânica aumenta com o aumento da matéria orgânica e
com a diminuição do pH.
A legislação brasileira não reconhece o fósforo como contaminante de solo.
No Brasil a legislação do CONAMA (2005) estabelece que o nível crítico de fósforo
total na água é de 0,020 – 0,025; 0,030 – 0,050 e 0,050 – 0,075 mg L-1, nas Classes
1, 2 e 3 respectivamente.

3.3.6. Coliformes fecais (Escherichia coli)


De acordo com Black (2002), coliformes são micro-organismos que habitam
no intestino de animais de sangue quente, entre eles o homem, e estão presentes
em suas excretas. Em contato com a água, as fezes humanas e até mesmo as de
outros animais podem encontrar outro hospedeiro. A análise bacteriológica reforça e
constata a poluição do aquífero freático por fossas sépticas e negras.
34
O grupo coliforme é normalmente usado como indicador da ausência ou da
precariedade de um sistema de saneamento (Vieira & Oliveira, 2001). Os coliformes
não provocam doenças; sua presença na água apenas indica que a ingestão do
líquido poderá provocar patogenias por outros grupos de micro-organismos, já que
no trato gastrointestinal, junto dos coliformes, podem ser liberadas também várias
classes de organismos patogênicos, assim como solitárias, lombrigas e giárdias.
A Escherichia coli é o subgrupo das bactérias do grupo coliformes,
comprovadamente de origem fecal. Segundo Cardoso et al. (2003), a presença de
Escherichia coli indica contaminação recente, já que eles não se multiplicam nem
persistem por um longo período, possuindo sobrevivência similar à das bactérias
patogênicas. De acordo com a Portaria 2.914/2011 do Ministério da Saúde (Brasil,
2011), em amostras individuais procedentes de poços, fontes, nascentes ou outras
formas de abastecimento sem distribuição canalizada, toleram-se a presença de
coliformes totais, na ausência de Escherichia coli. Em uma determinada amostra
de água, as doenças de transmissão hídrica podem ser provocadas por bactérias,
principalmente a disenteria bacilar e o cólera (Granziera, 2001).

3.3.7. Sódio
É liberado durante o intemperismo dos silicatos e dissolução de rochas
sedimentares de origem marinha, geralmente presente em águas doces como íons
Na+, sendo que em soluções concentradas podem ocorrer como NaCO 3, NaHCO- e
Na SO4. As mais altas concentrações de sódio ocorrem em associação com os íons
Cl-.
Outra importante fonte de sódio é a contribuição da água do mar nas regiões
costeiras, tanto pela intrusão de aquíferos costeiros como por infiltração de água da
chuva incorporado do mar. Os sais de sódio são altamente solúveis e tendem a
permanecer em solução, uma vez que não produzem reações de precipitação entre
eles como ocorre no caso do cálcio.
A presença de sódio em grandes quantidades é muito prejudicial para a
agricultura e tende a impermeabilizar os solos, especialmente em áreas de
drenagem deficiente. A concentração de sódio em águas naturais é muito variável,
podendo alcançar até 120.000 mg/L em zonas evaporíticas, no entanto, raramente
excede 100 ou 150 mg/L em água doce normal.

35
3.3.8. Condutividade Elétrica
Segundo Fenzel (1986), a Condutividade Elétrica é o valor recíproco da
resistividade elétrica. A condutividade da água é determinada pela presença de
substâncias dissolvidas que se dissociam em ânions e cátions. É a capacidade de a
água transmitir a corrente elétrica. Os sais dissolvidos e ionizados presentes na
água transformam-na num eletrólito capaz de conduzir a corrente elétrica. Como há
uma relação de proporcionalidade entre o teor de sais dissolvidos e a condutividade
elétrica, pode-se estimar o teor de sais pela medida da condutividade de uma água.
Os valores de condutividade elétrica da água são utilizados há décadas como
indicativos da qualidade da água e a sua medida é feita através de um
condutivímetro ou uma sonda multiparâmetro e sua representação é dada em
unidades milisiemens por cm2 (mS/cm2) ou microsiemens por cm2 (µS/cm2). Como
a condutividade aumenta com a temperatura, usa-se 25ºC como temperatura
padrão, sendo necessário fazer a correção da medida em função da temperatura se
o condutivímetro não o fizer automaticamente.

3.3.9. Temperatura
A temperatura da água é uma variável importante de ser analisada pois é
influenciada por diversos fatores ambientais tais como composição química,
presença de contaminantes e profundidade do aquífero. Em aquíferos freáticos
rasos as águas subterrâneas possuem uma amplitude térmica pequena, isto é, sua
temperatura não possui grandes variações e não sofre influência das mudanças da
temperatura atmosférica. Nos aquíferos freáticos profundos ou até nos confinados
profundos, a temperatura da água é influenciada pelo grau geotérmico local, sendo
que de modo geral aumento em média 1ºC a cada 30 m. No Aquífero Guarani por
exemplo, que está compreendido dentro da Formação Botucatu da Bacia do Paraná,
são comuns temperaturas de 40 a 50ºC em suas partes mais profundas. Essas
águas aquecidas ascendem em zonas de falhas através das rochas vulcânicas da
Formação Serra Geral e podem aflorar na superfície.

4. METOLOGIA UTILIZADA
4.1. Levantamento Bibliográfico
O levantamento bibliográfico foi realizado durante todo o andamento da
pesquisa, tendo como base artigos científicos, teses, dissertações e relatórios

36
técnicos com o objetivo de gerar um conhecimento básico sobre a geologia e
hidrogeologia da região de Águas Claras. Também foram analisados os temas de
vulnerabilidade e contaminação de aquíferos, além dos parâmetros químicos, físico-
químicos e bacteriológicos indicadores de contaminação utilizados no estudo.
A pesquisa no banco de dados do SIAGAS (Sistema de Informação de Águas
Subterrâneas) revelou 143 poços no município de Viamão, sendo que na área de
Águas Claras existem 21 poços cadastrados no sistema, porém se tratam de poços
profundos e que não estão relacionados com o aquífero freático abordado no
estudo.

4.2. Seleção dos Poços e Coleta de Amostras


Como o distrito de Águas Claras não possui rede de distribuição de água e
coleta de esgoto, o abastecimento é exclusivamente suprido por água subterrânea
captada em poços, que estão sujeitos à contaminação pelos dejetos lançados no
ambiente através de fossas e sumidouros. Logo a escolha dos poços deu-se em
função de sua distribuição e quantidade, e o seu risco à contaminação.
A região possui um grande número de habitantes sendo que sua maior parte
mora em condomínios fechados e conta com poços profundos, cuja água distribuída
possui excelente qualidade e é regularmente analisada. No entanto, a área
selecionada trata-se de um bairro de baixa renda que é abastecido por poços do tipo
ponteira com profundidades menores que 20 metros.
Além das fossas e sumidouros presentes em todas as residências, são
observadas outras potenciais fontes de contaminação no entorno da área, como por
exemplo, atividades de plantio e criação de animais (bovinos e aves), local de
descarte e reciclagem de lixo e oficinas mecânicas.
Considerando as características supracitadas, foram selecionadas 10
residências de classe baixa, localizadas próximo às margens da rodovia RS-040,
que são abastecidas por água captada em poços rasos construídos de maneira
clandestina e que jamais passaram por algum tipo de análise de potabilidade para
consumo humano (Fig. 11).

37
Figura 11 – Localização dos poços onde foram coletadas as amostras.

Assim, para serem realizadas as análises físico-químicas, químicas e


bacteriológicas foram coletadas 10 amostras de água diretamente na saída dos
poços utilizados para o abastecimento dos moradores. As amostras foram
armazenadas em frascos previamente identificados de plástico e de vidro com
preservantes (de acordo com o parâmetro em questão), posteriormente
acondicionadas em caixas de isopor com gelo e enviadas para o laboratório de
análises físico-químicas do Centro de Ecologia da UFRGS (CENECO).

4.3. Análises Físico-Químicas, Químicas e Bacteriológicas


Em laboratório foram realizadas as análises dos parâmetros pH, nitrogênio
amoniacal, nitrato, coliformes fecais (Escherichia coli), cloretos, ortofosfato e sódio.
Os parâmetros de condutividade elétrica e temperatura foram medidos in loco com
um condutivímetro marca Digimed modelo DM3-TIN. As metodologias utilizadas na
análise de cada parâmetro estão dispostas na tabela 1.

38
Tabela 1 – Metodologias utilizadas nas análises laboratoriais de cada parâmetro.

Parâmetro Metodologia

pH Potenciométrico
Nitrogênio Amoniacal Nesslerização
Nitrato Espectrofotometria UV
Escherichia coli Substrato Enzimático
Cloretos Volumetria de Precipitação
Absorciometria c/ Redução do Ácido
Ortofosfato
Ascórbico
Sódio Espectrometria de Emissão Atômica
Condutividade Elétrica Eletrométrico
Temperatura Eletrométrico

4.4. Avaliação da Vulnerabilidade à Contaminação


Para avaliar a vulnerabilidade natural do aquífero à contaminação antrópica, foi
aplicado o método GOD (Foster & Hirata, 1988) que utiliza como parâmetros o grau
de confinamento do aquífero (G - Groundwater occurrence), a ocorrência de
cobertura litológica sobre o aquífero (O - Overall lithology of the unsaturated zone) e
a distância até o lençol freático (D - Depth to the water table). Logo, para o cálculo
do índice GOD foram consideradas as características hidrogeológicas observadas
no campo e as características referentes a cada poço onde foram coletadas as
amostras. As etapas do método e os pesos de cada variável considerada na análise
de vulnerabilidade estão dispostas na figura 12.

39
Figura 12 – Metodologia GOD utilizada na avaliação da vulnerabilidade do aquífero.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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43
6. ARTIGO SUBMETIDO
RESUMO
A exploração das águas subterrâneas no município de Viamão (RS), especificamente na
região de Águas Claras é generalizada devido à falta de abastecimento e tratamento de
esgoto, e o alto potencial hídrico do Aquífero Coxilha das Lombas. A população capta água
através de poços rasos construídos de maneira irregular, além de possuir fossas e
sumidouros instalados nas imediações das residências, que podem contaminar o aquífero e
colocar em risco a qualidade das águas subterrâneas consumidas. O objetivo geral deste
trabalho consiste em avaliar a influência dos efluentes domésticos lançados livremente no
solo na contaminação do aquífero freático. Foram coletadas amostras de água subterrânea
e analisadas os parâmetros físico-químicos, químicos e bacteriológicos, tais como pH,
nitrogênio amoniacal, cloretos, nitrato, ortofosfato, sódio, condutividade elétrica, temperatura
e coliformes (Escherichia coli) em 10 poços já existentes na localidade de Águas Claras. A
caracterização geológica e hidrodinâmica do aquífero possibilitou avaliar sua vulnerabilidade
à contaminação através da aplicação do Método GOD. Dentre os parâmetros analisados
apenas o nitrato apresentou valores acima do permitido para consumo humano (>10 mg/L)
em 4 amostras, evidenciando a influência antrópica na contaminação das águas
subterrâneas. No cálculo integrado do índice G-O-D foram obtidos valores entre 0,192 e
0,216, que indicam que o aquífero possui baixa vulnerabilidade à contaminação. Apesar dos
grandes volumes de efluentes domésticos lançados através das fossas e sumidouros na
região, a contaminação antrópica das águas subterrâneas é entendida como local e pouco
expressiva, possivelmente por causa da baixa vulnerabilidade do aquífero. A baixa
vulnerabilidade natural do aquífero pode ser explicada por sua condição de
semiconfinamento e suas características hidrodinâmicas podem contribuir na diluição dos
contaminantes. Como se trata de uma região hidricamente rica, cabe ressaltar a importância
de um maior controle e fiscalização dos poços, além da realização periódica de análises
químicas e bacteriológicas naqueles utilizados para abastecimento residencial.

Palavras-Chave: hidrogeologia, água subterrânea, vulnerabilidade, contaminação.

44
ABSTRACT
The exploration of groundwater in the municipality of Viamão (RS), specifically in the region
of Águas Claras, is intense due to the lack of water supply and sewage treatment and the
good water potential of the Coimbra do Lombas Aquifer. The population take out
groundwater from irregular shallow wells and provides sewage directly into septic tank and
sinks installed in the vicinity of the residences, which can contaminate the aquifer and
endanger the quality of consumed groundwater. The general objective of this study is to
evaluate the influence of domestic effluents released freely in the soil in the contamination of
the groundwater aquifer. Samples of groundwater were collected in 10 wells in the locality of
Águas Claras and it was analyzed physicochemical, chemical and bacteriological
parameters, such as pH, ammoniacal nitrogen, chlorides, nitrate, orthophosphate, sodium,
electrical conductivity, temperature and Escherichia coli. The geological and hydrodynamic
characterization of the aquifer allowed to evaluate its vulnerability to contamination through
the application of the GOD Method. Among the parameters analyzed, only nitrate levels were
higher than those allowed for human consumption (> 10 mg / L-N) in 4 samples evidencing
the anthropogenic influence on groundwater contamination. The integrated calculation of the
G-O-D index generated values between 0.192 and 0.216, indicating low vulnerability of the
aquifer to anthropogenic contamination. Despite the large volumes of domestic effluents
discharged directly into septic tanks and sinks in the region, anthropogenic contamination of
groundwater is understood as local and not very expressive, possibly because of the low
vulnerability of the aquifer. The low natural vulnerability of the aquifer can be explained by its
condition of semi confinement and the hydrogeological characteristics that contribute to the
dilution of the contaminants. Considering that the region has a high potential for
groundwater, it is necessary to emphasize the need for a greater control and inspection of
the wells as well as the periodical execution of chemical and bacteriological analyzes in
those used for residential supply.

Keywords: hydrogeology, groundwater, vulnerability, contamination.

45
1. INTRODUÇÃO

1.1. Aspectos gerais

Apesar de vivermos em um planeta com aproximadamente 70% da superfície


coberta por água, cujo volume total é da ordem de 1,5*10 9 km3, a disponibilidade dos
recursos hídricos para atender todas as demandas socioeconômicas mundiais
corresponde a menos de 1% desse total, sendo que grande parte destas águas não
têm qualidade adequada para diversos usos em consequência de contaminação
antrópica, especialmente as superficiais, ou de características naturais, no caso das
águas subterrâneas (Braga et al., 1999; Leal, 1999; Tundisi, 2003).

Como os cursos d’água superficiais são afetados por fatores climáticos e estão mais
suscetíveis à contaminação antrópica, se tem nas águas subterrâneas uma ótima
opção para o abastecimento da população, pois por se encontrarem em
subsuperfície apresentam menor incidência de contaminação antrópica, possuem
melhor qualidade e sua captação não exige investimento muito elevado.

Além de ser frequentemente utilizada para abastecimento doméstico, a água


subterrânea tem papel fundamental no setor agropecuário e industrial (Casarini,
1998; Hirata & Varnier, 1998; Palhares, 2005). É considerada um recurso natural
indispensável para a humanidade e para o meio ambiente, pois mantêm a umidade
do solo, garante o fluxo de base dos cursos d’água, sendo responsável pela sua
perenização em épocas de estiagem. No entanto, o fato dela estar em condições de
subsuperfície e protegida por uma cobertura de solo e rochas não a exime de sofrer
contaminação antropogênica.

Segundo dados gerais do Brasil, 34,8% das pessoas não tem acesso à rede coletora
de esgoto e saneamento básico (IBGE, 2016). Portanto, nos locais onde não se tem
acesso à água tratada a explotação das águas subterrâneas torna-se uma ótima
alternativa para o abastecimento populacional. O desconhecimento sobre a
potabilidade das águas subterrâneas captadas por poços construídos de maneira
clandestina, que não atendem as normas construtivas e ambientas, bem como o
destino final de dejetos domésticos e industriais descart ados livremente no solo
através de fossas e sumidouros, colocam em risco a população que utiliza esse

46
recurso (Amaral et al., 2003; Zavoudakis, 2007). Cabe destacar, ainda, que são
inúmeros os casos de águas subterrâneas com fortes restrições de potabilidade
registrados em todo o mundo por conta de contaminação natural decorrente as
características mineralógicas e texturais dos aquíferos. Nestes casos podem ser
destacadas as águas subterrâneas com excesso de flúor (Frank et al., 2007; Nanni,
2006, Viero et al.; 2009), arsênio (Borba et al., 2003; Pimentel et al., 2003),
elementos radioativos (Bonotto & Bueno, 2008; Lauria & Godoi, 2000), entre outros.

Em zonas rurais a contaminação antrópica das águas subterrâneas pode envolver


além dos aspectos intrínsecos à falta de saneamento, o uso de fertilizantes e
pesticidas nas atividades agrícolas (Mattos & Silva, 1999; Pessoa et al., 2003).

1.2. Vulnerabilidade de aquíferos

A vulnerabilidade de um sistema aquífero está associada às suas características


físicas, químicas e hidrogeológicas, que refletem a susceptibilidade das águas
subterrâneas à ação de fatores naturais e antrópicos. A concepção da
vulnerabilidade baseia-se no fato de que as propriedades dos aquíferos oferecem
um determinado grau de proteção natural às águas subterrâneas contra agentes
externos, especialmente no que diz respeito à contaminantes de diversas origens
(Ribeira, 2004; Hirata & Fernandes, 2008).

As metodologias utilizadas na determinação da vulnerabilidade de aquíferos têm


como objetivo principal avaliar as características de um determinado corpo d’água
subterrâneo, servindo como ferramenta de auxílio às propostas de proteção
ambiental e gestão dos recursos hídricos, bem como o planejamento e ordenamento
territorial de uma determinada área.

Dentre os principais métodos utilizados na determinação da vulnerabilidade dos


aquíferos estão o Método DRASTIC (Aller et al., 1987), o Método AVI (Van
Stempvoort et al., 1992) e o Método GOD (Foster & Hirata, 1988). Como as duas
primeiras metodologias citadas anteriormente requerem um abundante banco de
dados compostos por diversos fatores geológicos e hidrológicos, que muitas vezes
não se encontram disponíveis, o Método GOD atende justamente a este requisito,
pois utiliza dados facilmente obtidos sobre o aquífero.

47
O Método GOD avalia três fatores principais, sendo G = Grau de confinamento
hidráulico do aquífero; O = Ocorrência de extratos de cobertura; D = Profundidade
até o lençol freático. Este método aplica constantes arbitradas entre 0 e 1 para cada
fator e o produto entre essas variáveis determina o índice da vulnerabilidade que
pode variar entre desprezível e extrema (Fig. 1).

Figura 1 - Método GOD para avaliação da vulnerabilidade de aquíferos (Foster


et al., 2006).

1.3. Objetivos

Este estudo tem como objetivo geral avaliar a influência da atividade antrópica na
contaminação das águas subterrâneas por disposição de efluente de esgoto
doméstico em fossas e sumidouros na região do distrito de Águas Claras, no
município de Viamão, RS. Através da análise de parâmetros químicos, físicos e
microbiológicos de amostras de água coletadas em 10 poços tipo ponteira, foi
caracterizada a qualidade das águas subterrâneas e partir de dados geológicos e
hidrogeológicos foi estimada a vulnerabilidade do aquífero freático da região
estudada.

48
2. GEOLOGIA E HIDROGEOLOGIA DA ÁREA

A área de estudo está localizada no distrito de Águas Claras, zona rural do município
de Viamão, a cerca de 40 km de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do
Sul (Fig. 2). O contexto geológico envolve os depósitos da porção emersa da Bacia
de Pelotas (Asmus & Porto, 1972; Tomazelli & Villwock, 2000; Villwock & Tomazelli,
1995) denominada Planície Costeira do Rio Grande do Sul, sendo caracterizada por
quatro sistemas deposicionais laguna-barreira que registram ciclos de transgressão
e regressão marinha (Villwock et al., 1986).

Figura 2 – Localização da área de estudo.

O distrito de Águas Claras está inserido dentro da região de afloramento do sistema


laguna-barreira I, o mais antigo com cerca de 400Ka, disposto em uma faixa de
direção NE-SW que se estende por aproximadamente 250 km e possui uma largura
que varia entre 5 e 10 km. Seus depósitos foram gerados a partir da acumulação de
sedimentos eólicos ancorados preferencialmente sobre altos do embasamento,
sendo na extremidade NE representados pelas rochas sedimentares e vulcânicas da
Bacia do Paraná e na parte central e SW pelas rochas pré-cambrianas do Batólito de
Pelotas (Arienti, 1986; Tomazelli & Villwock, 2000). Os sedimentos são
predominantemente caracterizados por areias quartzo-feldspáticas avermelhadas,
de granulação fina a média, muito bem arredondadas, semi-consolidados, podendo

49
apresentar elevado conteúdo de matriz argilosa de origem diagenética (Villwock et
al., 1980).

A hidrogeologia da área estudada compreende os aquíferos sedimentares costeiros


do Rio Grande do Sul, mais especificamente o Sistema Aquífero Quaternário
Barreira Marinha e o Sistema Aquífero Quaternário Costeiro II (Fig. 3). O primeiro
sistema corresponde a uma estreita faixa de direção nordeste, composto por areias
inconsolidadas depositadas em ambiente eólico, de granulometria fina a média,
vermelho-claro a esbranquiçadas, com matriz argilosa de origem diagenética que
pode alcançar até 15% da composição modal (Tomazelli & Villwock, 2000). As
capacidades específicas dos poços são altas, ultrapassando 4 m³/h.m, e o teor de
sais dissolvidos na água é muito baixo, com média menor do que 50 mg/L (Machado
& Freitas, 2005). São classificadas conforme o diagrama de Piper como cloretadas a
bicarbonatadas mistas, com valores de pH entre 4,5 a 6,5 (Hausman, 1995). Já o
segundo sistema se desenvolve de norte a sul do Estado Gaúcho ao longo de toda a
planície costeira, sendo composto por uma sucessão de areias finas inconsolidadas,
esbranquiçadas e argila cinza depositadas em ambientes fluvial, lagunar e paludial
(Tomazelli & Villwock, 2000). As capacidades específicas variam de baixas a
médias, com valores entre 0,5 e 1,5 m³/h.m e os sólidos totais dissolvidos variam
entre 600 e 2000 mg/L, revelando um quadro de maior salinidade das águas (CPRM,
2005).

Figura 3 – Mapa hidrogeológico da porção costeira destacando a área de estudo. Modificado


de CPRM (2005).

50
As características hidrodinâmicas do Aquífero Quaternário Barreira Marinha, também
conhecido como Aquífero Coxilha das Lombas, obtidas através de ensaios de
bombeamento com duração de 24 horas, revelam valores de transmissividade (T),
coeficiente de armazenamento (S) e condutividade hidráulica (K), calculados pelo
método de Theis, da ordem de 4,0 m3/h.m, 0,007 e 1,2*10-3cm/s, respectivamente
(Freitas et al., 2002). Os parâmetros hidráulicos calculados indicam um alto potencial
hídrico deste aquífero, o qual tem a maior representatividade na área estudada pois
engloba a totalidade dos pontos de coleta.

3. MATERIAL E MÉTODOS

3.1. Levantamento bibliográfico

O levantamento bibliográfico foi realizado com base em artigos científicos, teses,


dissertações e relatórios de estudos com o objetivo de gerar um conhecimento
básico sobre a geologia e hidrogeologia da região de Águas Claras, no município de
Viamão, RS, a vulnerabilidade e contaminação de aquíferos, e ainda, os parâmetros
químicos e microbiológicos indicadores de contaminação utilizados no estudo.

Foi realizada também a pesquisa no banco de dados do SIAGAS (Sistema de


Informação de Águas Subterrâneas), que conta com 143 poços no município de
Viamão. Na área de Águas Claras existem 21 poços cadastrados no sistema, porém
se tratam de poços profundos e que não estão relacionados com o aquífero freático
abordado no estudo.

3.2. Seleção dos poços na área de estudo para amostragem

A seleção dos poços se baseou nos seguintes critérios: a) Quantidade e distribuição


de poços rasos. A escolha dos poços deu-se em função da densidade dos mesmos
e do risco à contaminação. O distrito de Águas Claras não possui saneamento
básico, com rede de distribuição de água e coleta de esgoto, o abastecimento é
exclusivamente suprido por água subterrânea captada em poços tipo ponteira, que
estão sujeitos à contaminação pelos dejetos lançados no ambiente através de
fossas e sumidouros; b) Densidade populacional. Apesar do distrito possuir grande
número de habitantes, a maior parte mora em condomínios fechados e conta com
poços profundos, cuja água distribuída possui excelente qualidade e é regularmente
51
analisada. A área estudada representa um bairro de baixa renda que é abastecido
por poços do tipo ponteira com profundidades menores que 20 metros em sua
grande maioria; c) Potenciais fontes de contaminação. Além das fossas e
sumidouros presentes em todas as residências, são observadas no entorno da área
atividades de plantio e criação de animais (bovinos e aves), local de descarte e
reciclagem de lixo e oficinas mecânicas.

Assim, foram escolhidas 10 residências de classe baixa, localizadas próximo às


margens da rodovia RS-040, que são abastecidas por água captada em poços rasos
construídos de maneira clandestina e que jamais passaram por algum tipo de
análise de potabilidade para consumo humano (Fig. 4).

Figura 4 – Localização dos poços com coleta das amostras.

3.3. Coleta de amostras

Para a realização das análises físico-químicas, químicas e bacteriológicas foram


coletadas 10 amostras de água diretamente na saída dos poços utilizados para o
abastecimento dos moradores, sendo as amostras armazenadas em frascos
previamente identificados de plástico e de vidro com preservantes (de acordo com o
parâmetro em questão), posteriormente acondicionadas em caixas de isopor com

52
gelo e enviadas para o laboratório de análises físico-químicas do Centro de Ecologia
da UFRGS (CENECO).

3.4. Análises físico-químicas, químicas e bacteriológicas

No laboratório foram realizadas as análises dos parâmetros pH, nitrogênio amoniacal,


nitrato, coliformes fecais (Escherichia coli), cloretos, ortofosfato e sódio. Os
parâmetros de condutividade elétrica e temperatura foram medidos in loco com um
condutivímetro marca Digimed modelo DM3-TIN. As metodologias utilizadas na
análise de cada parâmetro estão dispostas na tabela 1.

Tabela 1 – Metodologias utilizadas nas análises laboratoriais de cada parâmetro.

3.5. Avaliação da vulnerabilidade à contaminação

Para avaliar a vulnerabilidade do aquífero à contaminação antrópica, foi aplicado o


método GOD (Foster & Hirata, 1988) que utiliza como parâmetros o grau de
confinamento do aquífero (G), a ocorrência de cobertura litológica sobre o aquífero

53
(O) e a distância até o lençol freático (D). Logo, para o cálculo do índice GOD foram
consideradas as características hidrogeológicas observadas no campo e as
características referentes a cada poço onde foram coletadas as amostras.

4. RESULTADOS

4.1. Aspectos hidrogeológicos da área estudada

A hidrogeologia da área estudada é marcada pela ocorrência de um aquífero


semiconfinado, formado por areias finas a médias, pertencentes à Fácies Barreira do
Sistema Laguna Barreira I, recobertas por uma camada de areia argilosa de baixa
permeabilidade. A espessura da camada confinante varia de 6 a 30 metros,
conforme registros nos poços amostrados. A grande variação na espessura da
camada confinante em curtas distâncias é indicativo de que a mesma possui
geometria lenticular e pouca continuidade lateral (Fig. 5). Dados de literatura
apontam valores de condutividade hidráulica da ordem de 10 -3 cm/s. Não foi possível
executar ensaios de slug ou ensaios de bombeamento nos poços devido às suas
características construtivas e por estarem em uso, impedindo a penetração dos
equipamentos de controle. Todos os poços utilizam bomba de sucção, o que limita o
rebaixamento à profundidade da ordem de 7,0 metros, não permitindo a execução
de ensaios de bombeamento nem a introdução de slug.

Figura 5 – Seção esquemática indicando as variações de espessura da camada confinante.

54
A potenciometria da área, estimada com base nos 10 poços estudados (Tab. 2), é
caracterizada por baixo gradiente hidráulico, com superfície potenciométrica quase
horizontalizada e fluxo geral de norte-nordeste para sul-sudoeste (Fig. 6).

Tabela 2 - Dados de localização e altimétricos dos poços estudados. NE: nível estático.

Figura 6 – Mapa potenciométrico e fluxo geral das águas subterrâneas da área.


Escala em tons de cinza: cotas do nível estático dos poços em metros.

4.2. Vulnerabilidade do aquífero

A primeira etapa do método consistiu na definição do tipo de aquífero no que se


refere ao grau de confinamento hidráulico. O aquífero em análise foi considerado do
tipo semiconfinado por registrar uma camada areno-argilosa superficial sobreposta à
camada aquífera, com continuidade lateral limitada, o que confere peso igual a 0,4
na variável G.
55
A segunda etapa consistiu na especificação das características do substrato que
recobre a zona saturada do aquífero em termos de grau de consolidação e litologia
do mesmo. Assim, foi observado que a área é recoberta por um sedimento areno-
argiloso oriundo das intercalações das areias eólicas e sedimentos argilosos do
sistema laguna-barreira I, conferindo peso igual a 0,6 na variável O.

A terceira etapa consistiu em determinar a distância entre a superfície do terreno e o


nível da água em subsuperfície. Foi utilizada um medidor de nível, que foi
introduzido nos poços, obtendo-se profundidades entre 5,10 e 6,33 m, o que confere
pesos entre 0,8 e 09 para a variável D.

Através do cálculo integrado do índice GOD foram obtidos valores entre 0,192 e
0,216, os quais indicam que o aquífero possui baixa vulnerabilidade natural à
contaminação (Tab. 2). Os resultados de vulnerabilidade obtidos são corroborados
pelos resultados das análises química e bacteriológicas das águas subterrâneas,
apresentados no item 4.1, que revelam baixa intensidade na contaminação apesar
da presença de grande número de fossas e sumidouros no local.

Tabela 2 – Valores atribuídos/obtidos com a aplicação do método GOD nos poços do distrito
de Águas Claras.

56
4.3 Análises físico-químicas, químicas e bacteriológicas

Os resultados dos parâmetros físico-químicos, químicos e bacteriológicos analisados


em laboratório são apresentados na tabela 3.

Tabela 3 – Resultados das análises físico-químicas, químicas e bacteriológicas.

Os valores obtidos de pH variam entre 4,4 e 5,6, apresentando pouca variação com
média de 4,89, o que imprime características levemente ácidas às águas e valores
menores que os ideais para consumo humano segundo IQA da CETESB (pH entre 6
a 9). No entanto, elas estão dentro da faixa de pH característica do aquífero
(Machado & Freitas, 2005).

As concentrações de nitrogênio amoniacal estão entre 0,142 e 1,27 mg/L,


representado valores muito baixos, o que decorrem provavelmente da
decomposição por oxidação do nitrogênio amoniacal, abundante no esgoto
doméstico, e conversão para nitrato, que apresenta concentrações significativas nas
amostras analisadas.

O nitrato registra concentrações entre 0,989 e 11,8 mg/L de NO3--N, o que equivale
a valores entre 4,38 a 52,26 mg/L de NO3-. O nitrato pode ter origem antrópica ou
natural, esta resultante da decomposição de matéria orgânica no solo.
Concentrações de nitrato em águas subterrâneas menores do que 10 mg/L são
atribuídos a fontes naturais por diversos autores (AESRD, 2011; Dejwalkh, 2006;
McMahon & Bohlke, 2006; Mueller & Helser, 2002). Na região de Porto Alegre, o

57
conteúdo natural de nitrato nas águas subterrâneas alcança teores de até 12 mg/L,
conforme definido por Roisenberg et al., (2003). Com base nestas premissas, fica
evidente que os poços PM 01, PM 02, PM 03, PM 04, PM 05, PM 06, PM 07 e PM
08 apresentam contaminação com nitrato, sendo que as águas dos poços PM 02,
PM 03, PM 05 e PM 07 são impróprias para o consumo humano porque registram
valores maiores que o limite de potabilidade definido pelo Ministério da Saúde que é
igual a 10 mg/L de NO3--N. Merece ser destacado que os níveis de contaminação
são relativamente baixos em função da grande quantidade de fossas e sumidouros
existentes no local, o que provavelmente está relacionado à baixa vulnerabilidade do
aquífero.

As análises bacteriológicas apontam a presença de Escherichia coli em todos os


poços com valores menores que o limite de quantificação do método, que
corresponde a 10 NMP/100mL, indicando a ocorrência de contaminação em níveis
muito baixos. Apesar do registro de pequenas quantidades deste parâmetro nas
amostras analisadas, as águas são impróprias para o consumo humano, uma vez
que a potabilidade das águas implica na ausência de coliformes. Os valores
encontrados da bactéria Escherichia coli refletem a contaminação antrópica das
águas subterrâneas do local, cuja intensidade é baixa em consequência da baixa
vulnerabilidade do aquífero e da curta persistência destes agentes bacterianos no
ambiente.

O ortofosfato não foi detectado nas amostras, indicando que o fósforo não ocorre
como contaminante nas águas subterrâneas analisadas.

A temperatura das águas subterrâneas analisadas é relativamente baixa, com


valores entre 21 e 23ºC, indicando que as mesmas tem circulação rasa e decorrem
de recarga direta de águas da chuva.

A condutividade elétrica apresentou valores entre 39 e 323 µs/cm, apresentando um


valor médio de 154,24 µs/cm. De um modo geral, os baixos valores de CE (<200
µs/cm) são característicos de poços rasos onde as águas possuem pouco tempo de
residência e, consequentemente, menor presença de elementos químicos
dissolvidos. Apenas as amostras PM 02, PM 03 e PM 05 apresentaram valores de

58
CE >200 µs/cm, o que não está associado a qualquer parâmetro analisado neste
estudo.

O conteúdo de cloreto e sódio, embora relativamente baixos, também decorrem da


contaminação por esgoto doméstico no aquífero local, uma vez que são elementos
presentes com relativa abundância nestes efluentes (CETESB, 2005) e mostram
correlação positiva com o nitrato (Fig. 7 e 8). Cloreto e sódio não têm fonte natural
comum com o nitrato, de modo que a boa correlação observada, necessariamente,
reflete contaminação por esgoto cloacal onde os três parâmetros aparecem com
abundância.

35

30

25

20
Cl (mg/L)

15

10

0
0 2 4 6 8 10 12 14
NO3-N (mg/L)

Figura 7 – Diagrama de dispersão do nitrato e cloreto das amostras analisadas.

59
20

15
Na (mg/L)

10

0
0 2 4 6 8 10 12 14
NO3-N (mg/L)

Figura 8 – Diagrama de dispersão do nitrato e sódio das amostras analisadas.

As concentrações de sódio variam entre 0,369 e 23,7 mg/L e os de cloretos, entre


6,5 e 52,5 mg/L. O diagrama de variação binário apresentado na figura 9 mostra
uma boa correlação entre estes dois parâmetros, porém com a razão Cl/Na mais
elevada do que a encontrada nos esgotos domésticos, cujo valor é similar à
composição estequiométrica do NaCl. Os baixos valores de sódio em relação ao
cloreto estão associados à sua menor mobilidade geoquímica em ambientes que
contêm argilo-minerais, como é o caso do aquífero estudado que apresenta até 20%
de caolinita diagenética. Os argilominerais têm uma boa capacidade de sorção de
cátions, mas não retêm ânions em condições de pH neutro (Deutsch, 1997; Sposito,
1989), como registrado nas amostras de águas analisada. O diagrama da figura 9
mostra dois trends com inclinações distintas, os quais resultam provavelmente, de
diferenças no conteúdo de caolinita nos sedimentos. O trend mais inclinado, com
razão Cl/Na mais elevada, é formado pelas amostras PM 02, PM 05 e PM 06 e
reflete o maior conteúdo de caolinita que causa maior adsorção de sódio e
consequente empobrecimento relativo ao cloreto.

60
25

20
Na (mg/L)

15

10

0
0 10 20 30 40 50 60
Cl (mg/L)

Figura 9 – Diagrama de dispersão do sódio e cloretos das amostras analisadas. A linha


verde corresponde a razão estequiométrica do NaCl.

5. CONCLUSÕES

Apesar dos grandes volumes de efluentes domésticos lançados através das fossas e
sumidouros na região, os níveis de contaminação antrópica são baixos e de um
modo geral ocorrem pela contaminação por nitrato nos poços PM 02, PM 03, PM 05
e PM 07. Logo, as águas subterrâneas estudadas estão impróprias para consumo
humano.

Considerando que o aquífero possui uma condição de semiconfinamento, a


contaminação das águas subterrâneas da área pode ser causada possivelmente por
problemas construtivos nos poços somada à influência da falta de saneamento.
Ainda que se trate de uma contaminação pouco expressiva de nitrato, Escherichia
coli, Na e Cl observada nas amostras de água analisadas em laboratório, devem ser
realizadas novas análises para que haja controle dos contaminantes no aquífero.

Como a área de estudo não possui rede de abastecimento de água, a ocorrência de


poços clandestinos com problemas construtivos deve ser um fato comum e pode
atingir boa parte da população que consome água dos poços rasos construídos de
maneira desordenada na região. Logo se fossem adotadas as normas específicas
para construção de poços de água, certamente a incidência de contaminação
61
dessas águas subterrâneas seria praticamente inexistente, visto a baixa
vulnerabilidade natural do aquífero à contaminação e a alta qualidade das águas
subterrâneas.

Mesmo envolvendo aquíferos rasos, a aplicação do índice GOD para as águas


subterrâneas da região indicou baixa vulnerabilidade à contaminação. Tal fato pode
ser explicado pela característica semiconfinada do aquífero, marcada pela
ocorrência de argila nas camadas superiores que compõe o perfil do poço. As
características hidrodinâmicas do aquífero também podem contribuir na diluição dos
contaminantes visto que se trata de um aquífero com grande disponibilidade hídrica.

Por fim, vale ressaltar que a região possui alto potencial para águas subterrâneas e
que, portanto, se faz necessária a implantação de um projeto de saneamento básico,
bem como a intensificação no controle e fiscalização de poços existentes na região,
com aplicação de medidas protetivas e análises químicas e bacteriológicas
periódicas.

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65
7. ANEXO
7.1. Comprovante de Submissão de Artigo

66

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