Contaminação de Águas Subterrâneas em Viamão
Contaminação de Águas Subterrâneas em Viamão
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOCIÊNCIAS
Volume I
INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOCIÊNCIAS
BANCA EXAMINADORA
Currently, the society has increased his preoccupation about environmental issues and the
availability and quality of water resources. Although Brazil is a hydrically rich country, water
scarcity caused by prolonged periods of drought or poor management of resources and
practices that contaminate water sources are not uncommon. In general, anthropic activities
generate impact and contaminate watercourses, being the surface water the first to be
reached and therefore more susceptible to contamination when compared to those in
underground conditions. Besides being frequently used for domestic supply, groundwater is
essential in the agricultural and industrial sector Due to the lack of supply by the sanitation
company and considering the high hydric potential of the Coxilha das Lombas Aquifer, the
explotation of groundwater in the city of Viamão (RS) specifically in Águas Claras region is
generalized. The area is located inside the emerged portion of the Pelotas Basin, which is
known as the coastal plain and involves depositional systems of the lagoon-barrier type,
where quartz-feldspatic sands predominate with intercalations of diagenetic origin clay. The
population captures water through “ponteira’ wells irregularly built, beyond to have tanks and
soak pits installed in the surrounding of residences, which could contaminate the aquifer and
put in risk the quality of groundwater. The general objective of this work consisted in
evaluating the influence of domestic effluents released into the ground in the contamination
of phreatic aquifer. Besides the review of literature, were performed the fieldwork where were
collected and analyzed 10 samples of water from existing wells in the locality of Águas
Claras. The physical-chemical, chemical and bacteriological parameters chosen were pH,
electrical conductivity, temperature, ammoniacal nitrogen, sodium, chlorides, nitrate,
orthophosphate and fecal coliform Escherichia coli. The geological and hydrodynamic
characterization of the aquifer allowed to evaluate its vulnerability through application of
GOD method. Among the analyzed parameters, only nitrate presented values above the
allowed (>10mg/L) in 4 samples, evidencing the anthropic influence in the contamination of
groundwater. In the integrated calculation of the G-O-D index, values between 0,192 and
0,216 were obtained, indicating that the aquifer has low vulnerability to contamination.
Although the large volumes of domestic effluents discharged through the tanks and soak pits
in the region, the anthropic contamination of the groundwater is understood as local and not
very expressive, possibly caused by constructive problems in the wells added to the lack of
sanitation. The low natural vulnerability of the aquifer can be explained by its semi-confined
condition and its hydrodynamic characteristics can contribute to the dilution of the
contaminants. As it is a hydrically rich region, it is important to emphasize the importance of
a greater control and inspection of the wells, in addition to the regular accomplishment of
chemical analyzes in ordr to guarantee the quality of the water consumed by the population
of Águas Claras.
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Os estudos envolvendo a qualidade das águas subterrâneas bem como sobre
a vulnerabilidade do aquífero na região de Águas Claras são escassos e estão
disponíveis em escala regional, abrangendo apenas informações sobre o potencial
hídrico das águas subterrâneas. Assim, se fazem necessários estudos
hidrogeológicos e hidroquímicos na área que contribuam para a gestão dos recursos
hídricos e o entendimento das características do aquífero que abastece o distrito de
Águas Claras.
1. INTRODUÇÃO
Do ponto de vista da vida na Terra, temos a água como um dos bens mais
fundamentais para a sua manutenção e apesar de dois terços da superfície do
Planeta ser coberto por ela, calcula-se que apenas 3% dela é doce. Porém, está
disponível para consumo 0,8%, sendo que não se tem conhecimento de quanto
desta fração se enquadra nos padrões de potabilidade para consumo.
Atualmente a sociedade tem aumentado sua preocupação com as questões
ambientais, bem como com os recursos naturais a exemplo da água, sendo
colocados em foco sua disponibilidade e qualidade. Apesar de vivermos num país
hidricamente rico, não são raros os episódios de escassez de água, seja pela
ocorrência de períodos prolongados de seca ou pela má gestão e atividades
poluidoras que acabam por afetá-la.
A atividade antrópica por mais inofensiva que pareça ser pode gerar impacto
e contaminar os cursos d'água, sendo as águas superficiais as primeiras a serem
atingidas e portanto mais suscetíveis aos impactos, quando comparadas com as que
estão em maiores profundidades. Logo, a explotação das águas subterrâneas é uma
opção bastante atraente para abastecimento público, pois apresentam boa
qualidade (em geral) e baixo custo de captação, por estarem muito próximas às
áreas de consumo.
A água subterrânea é utilizada frequentemente para abastecimento
doméstico, irrigação, dessedentação de animais, recreação e fins industriais. É
considerada um recurso natural indispensável para a humanidade e para o meio
ambiente, pois mantêm a umidade do solo, garante o fluxo de base dos cursos
d’água, sendo responsável pela sua perenização em épocas de estiagem. No
entanto o fato dela estar em condições de subsuperfície e protegida por uma
cobertura de solo e rochas, não a exime de sofrer contaminação.
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Em relação aos dados gerais do Brasil 34,8% das pessoas não tem acesso à
rede coletora de esgoto (IBGE, 2008). Sendo assim, o destino final do esgoto
doméstico e industrial em fossas e tanque sépticos, bem como a disposição
inadequada de resíduos sólidos urbanos e industriais, os postos de combustíveis, os
cemitérios e a modernização da agricultura representam fontes de contaminação
das águas subterrâneas por bactérias e vírus patogênicos, parasitas, substâncias
orgânicas e inorgânicas.
A falta de saneamento básico, caracterizada pela ausência de sistema de
tratamento de esgotos e abastecimento de água, obriga a população local a
construir fossas negras e sépticas dentro de seus terrenos para a deposição de
efluentes, e frequentemente perfuram poços do tipo cacimba e ponteira nas suas
imediações. Essa prática pode contaminar as águas subterrâneas, especialmente os
aquíferos rasos, possibilitando consequências drásticas na saúde coletiva. Sendo
assim, a explotação inadequada de poços de abastecimento são vistos como os
principais fatores de risco para a contaminação das águas subterrâneas na área de
estudo.
Portanto, para que a exploração das águas subterrâneas seja realizada de
forma segura e sustentável é preciso avançar no conhecimento das características
do meio físico, nas potenciais fontes de contaminação e nas técnicas de proteção
dos aquíferos, com o objetivo de aprimorar a gestão dos recursos hídricos
subterrâneos e eliminar os riscos à saúde pública.
1.2. OBJETIVOS
Este trabalho teve como objetivo geral a avaliação da influência da
contaminação antrópica por fossas e sumidouros nas águas subterrâneas captadas
por poços rasos na região do distrito de Águas Claras no município de Viamão, RS.
Os objetivos específicos foram:
a) Caracterizar geoquimicamente as águas subterrâneas através das análises físico-
químicas, químicas e microbiológicas;
b) Reconhecer as características geológicas e hidrológicas do aquífero estudado;
c) Determinar a vulnerabilidade natural do aquífero à contaminação;
d) Gerar dados e informações que sirvam de subsídio para a gestão das águas
subterrâneas da região.
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2. LOCALIZAÇÃO, CONTEXTO GEOLÓGICO E HIDROGEOLÓGICO
2.1. Localização da Área de Estudo
O Município de Viamão pertence à área metropolitana de Porto Alegre.
Localizado na porção leste do Estado do Rio Grande do Sul entre os paralelos
29°57’00” S e 30°26’30” S e meridianos 51°02’00” W e 50°47’00” W, é delimitado ao
sul pela Lagoa dos Patos e a leste pela Lagoa do Casamento. A área urbana de
Viamão compreende aproximadamente 280 km2 e a área rural abrange 1.244 km2,
num total de 1.494 km2. Águas Claras encontra-se na porção leste do município,
tendo como principais vias de acesso para a área de estudo a RS-040 e a estrada
vicinal Boa Vista (Fig. 1). O distrito possui cerca de 24.000 habitantes e é dividido
em três loteamentos: Águas Claras, Morro Grande e Costa da Boa Vista.
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A porção emersa da Bacia de Pelotas corresponde a uma feição fisiográfica
conhecida como Planície Costeira do Rio Grande do Sul, onde estão expostos os
sedimentos depositados desde o Paleógeno sob a influência de oscilações glacio-
eustáticas acarretadas por acentuadas variações climáticas (Barboza et al., 2008).
Em termos de dimensões, a linha de costa da planície costeira se estende por
620 km, com direção NE-SW e área de aproximadamente 33.000 km², englobando
diversos corpos d’água como, por exemplo, a Laguna dos Patos, a Lagoa Mirim e a
Lagoa Mangueira.
A planície costeira está compartimentada em quatro sistemas deposicionais
laguna-barreira e um sistema deposicional de leques aluviais em decorrência das
variações do nível relativo do mar, sendo os três primeiros sistemas laguna-barreira
de idade pleistocênica e o último de idade holocênica, que foi formado há
aproximadamente 7ka e ainda está ativo (Fig. 3). A planície evoluiu no sentido leste,
sendo que cada um dos sistemas registra o pico de uma transgressão marinha,
seguido de um evento regressivo (Villwock et al., 1986) (Fig. 4).
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Figura 3 - Mapa de localização e sistemas deposicionais da Planície Costeira do Rio Grande
do Sul. Modificado de Tomazelli & Villwock (2000).
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Figura 4 - Perfil esquemático transversal aos sistemas deposicionais da Planície Costeira do
Rio Grande do Sul na latitude de Porto Alegre. As barreiras são correlacionadas aos últimos
picos da curva isotópica de oxigênio. Modificado de Tomazelli & Villwock (2000).
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O sistema laguna-barreira I possui uma idade absoluta de aproximadamente
400 ka de acordo com a curva isotópica do oxigênio e ocupa uma faixa com
orientação NE-SW com cerca de 250 km de extensão e uma largura média entre 5 e
10 km. Seu desenvolvimento se deu principalmente a partir da acumulação de
sedimentos eólicos que se ancoraram preferencialmente sobre altos do
embasamento. Em sua extremidade NE estes altos são representados pelas rochas
sedimentares e vulcânicas da Bacia do Paraná e, na parte central e SW, pré-
cambrianas do Batólito de Pelotas. Remanescentes de sedimentos correlativos à
barreira I ocorrem também a oeste da Lagoa Mirim.
As fácies sedimentares são predominantemente caracterizadas por areias
quartzo-feldspáticas avermelhadas, de granulação fina a média, muito bem
arredondadas, semi-consolidadas, podendo apresentar elevado conteúdo de matriz
síltico-argilosa de origem diagenética. Crostas e nódulos ferruginosos se encontram
disseminados nos sedimentos. Os intensos processos intempéricos acabaram por
promover a destruição quase que total das estruturas sedimentares primárias e em
consequência disso, a maioria dos afloramentos se apresentam maciços, sendo
raros os locais em que as estruturas eólicas ainda podem ser observadas.
O sistema laguna-barreira II corresponde a um segundo evento transgressivo-
regressivo com idade absoluta de aproximadamente 325 ka. Os depósitos praiais e
eólicos ficaram preservados como um grande pontal arenoso desenvolvido a leste
da Lagoa dos Barros e ao sul, como um antigo sistema de ilhas-barreira,
responsável pelo primeiro isolamento da Lagoa Mirim.
As fácies sedimentares correspondem a areias quartzo-feldspáticas,
castanho-amareladas, bem arredondadas e envoltas por uma matriz argilosa. Os
depósitos lagunares, instalados na região de retrobarreira são representados por
areias finas, siltico-argilosas, mal selecionadas, esbranquiçadas e com laminação
plano-paralela.
O sistema laguna-barreira III corresponde ao terceiro evento transgressivo-
regressivo com idade absoluta de aproximadamente 120 ka. De acordo com
Tomazelli e Dillenburg (2007), a barreira III corresponde a uma sequência costeira
tipicamente regressiva (progradante) que foi dividida, com base em dados
sedimentológicos e paleontológicos, em fácies distintas correlacionadas aos
sistemas eólico, praial (backshore e foreshore) e marinho raso.
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Os sedimentos da porção basal são compostos por fácies arenosas, fina a
muito fina com baixo teor de silte e argila, com estruturas cruzadas hummocky, e
com presença de grãos de glauconita. Os depósitos praiais são compostos por
areias quartzosas esbranquiçadas, finas e bem selecionadas, com estratificação
bem desenvolvida que incluem a laminação plano-paralela com truncamentos de
baixo ângulo e cruzadas planares e acanaladas. Também é notável a ocorrência de
uma grande quantidade de icnofósseis representados por tubos de Ophiomorfa além
de moldes de conchas de moluscos. A porção superior da sucessão de fácies, é
representada por uma cobertura de areias eólicas finas de coloração marrom-
avermelhada, de aspecto predominantemente maciço com alguns horizontes de
paleossolos. Algumas vezes apresentam-se bioturbados por vestígios de raízes e de
tocas de insetos.
Os depósitos que correspondem ao Sistema Lagunar III, são compostos por
areias finas, siltico-argilosas, mal selecionadas, de coloração creme e com
laminação plano-paralela e apresentam comumente concreções carbonáticas e
ferruginosas.
O sistema laguna-barreira IV teve sua formação iniciada há cerca de 7 ka e
continua ativo, corresponde à linha de costa atual e registra os estágios finais da
última transgressão marinha pós-glacial. Se estende ao longo dos 620 km da costa
do Rio Grande do Sul de maneira heterogênea, apresentando intercalações de
segmentos de barreira transgressivos e regressivos. Tal variação está associada
com o balanço sedimentar, controlado pela topografia antecedente, pelos tipos de
sedimentos disponíveis, por fatores climáticos e oceanográficos (Dillenburg et al.,
2009).
Dentro dos depósitos de barreira são identificados leques de sobrelavagem
e/ou deltas de maré enchente, constituídos basicamente por areias quartzosas finas,
de coloração variável entre bege, acinzentado e esverdeado, moderadamente
selecionados e podendo apresentar finas lâminas ricas em minerais pesados. Os
depósitos praiais são constituídos essencialmente por areias quartzosas finas a
muito finas de coloração cinza e bege esverdeada, moderadamente selecionadas.
Os eólicos caracterizam-se por areias finas, bem selecionadas, de coloração bege a
amarelada, com níveis milimétricos esparsos de coloração cinza, produzidos por
concentrações de minerais pesados.
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O sistema lagunar é constituído por um conjunto de ambientes e
subambientes deposicionais que incluem corpos aquosos costeiros, sistemas
aluviais, deltaicos e paludais (Tomazelli & Villwock, 1995). Os depósitos de margem
são constituídos por areias quartzosas finas, de coloração cinza a verde claro,
moderadamente a mal selecionadas, enquanto que os depósitos de fundo são
formados pela ocorrência de lamas ricas em matéria orgânica, de coloração
variando de cinza a preta, com biodetritos, podendo conter esparsas intercalações
de finos intervalos arenosos.
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bicarbonatadas mistas, com valores de pH entre 4,5 - 6,5 e assim, acabam por
obedecer os padrões de potabilidade para consumo.
O Sistema Aquífero Quaternário Costeiro II (qc2) compreende os aquíferos
relacionados com os sedimentos da planície costeira, desenvolvendo-se desde
Santa Vitória do Palmar até Torres, predominantemente na região lagunar interna e
junto aos contrafortes da Serra Geral. Compõe-se de uma sucessão de areias finas
inconsolidadas, esbranquiçadas e argila cinza. No topo, os primeiros metros são
pelíticos, bastante cimentados. As capacidades específicas variam de baixas a
médias, entre 0,5 e 1,5 m³/h/m. Os sólidos totais dissolvidos variam entre 600 e
2000 mg/L (CPRM, 2005).
Figura 6 – Diagrama de Piper para classificação das águas subterrâneas dos aquíferos
costeiros do RS. Modificado de Souza (2015).
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O estudo da composição química das águas subterrâneas da planície costeira
atribui as características pedológicas, como a composição quartzo-arenosa e a
carência em cátions alcalinos-terrosos (Ca2+ e Mg2+) dos solos, além das condições
climáticas da região como favoráveis na formação de águas subterrâneas doces,
onde o sódio e cloreto predominam como íons principais (Mirlean et al., 2005).
Segundo Evangelista (1989), considerando os principais cátions em águas
subterrâneas, o íon sódio é dominante em aquíferos costeiros com influência de
salinização e que está intimamente relacionado com processos de trocas iônicas,
principalmente com o Ca2+.
O trabalho realizado pela CPRM (2005) dividiu os aquíferos costeiros através
de características hidroquímicas em: a) Sistema Aquífero Quaternário Costeiro I,
onde os ânions variam entre bicarbonatos e cloretos sendo o cátion predominante o
sódio. No entanto, as águas foram categorizadas como bicarbonatadas a cloretadas
sódicas, além de eventualmente serem encontradas águas cloretadas com maior
teor salino; b) Sistema Aquífero Quaternário Costeiro II, com as mesmas
características do primeiro, variando apenas na quantidade maior de sólidos totais
dissolvidos e, altos teores de ferro na porção norte. Vale ressaltar ainda, a evidente
influência da água marinha nos aquíferos costeiros da pelos altos teores de Na+ e Cl-
principalmente nos poços mais próximos ao oceano.
3. CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA
3.1. Vulnerabilidade de Aquíferos
A premissa para a preservação dos recursos hídricos subterrâneos está
ligada ao estabelecimento de áreas ou atividades com maior risco de degradação
dos aquíferos, priorizando a aplicação de medidas de prevenção e proteção, em
locais de maior interesse socioeconômico e ambiental. Logo, os sistemas naturais e
sociais podem ser afetados por um conjunto de fatores condicionantes, designando-
se por vulnerabilidade a medida do grau em que os sistemas são afetados (Foster &
Hirata, 1993).
De um modo geral, a vulnerabilidade de um sistema aquífero se refere à sua
capacidade ser afetado pela contaminação antrópica, podendo ser representada na
forma de mapas, permitindo aos órgãos gestores, uma melhor avaliação das
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propostas de desenvolvimento aliada ao controle da poluição e monitoramento da
qualidade da água subterrânea.
No caso de áreas costeiras que são notadamente ambientes frágeis, onde os
recursos hídricos subterrâneos podem ser facilmente contaminados, inclusive pela
salinidade marinha gerando um problema ambiental que pode vir a ser irreversível.
As águas subterrâneas dos aquíferos costeiros são geralmente afetadas por
complexos processos geoquímicos e múltiplas fontes de contaminação. O aumento
populacional, as intensas atividades de irrigação, as drenagens industriais e os
sistemas de esgoto domésticos causam danos severos à qualidade da água
subterrânea nas áreas costeiras (Rajmohan et al., 2009).
Os contaminantes superficiais de origem antrópica desempenham um papel
importante na contaminação dos aquíferos costeiros, que podem ser comumente
contaminados também por processos naturais, onde há intrusão de água marinha
nos aquíferos em regiões próximas ao oceano (Karanth, 1987).
Para mensurar a vulnerabilidade de um aquífero devem ser levadas em conta
as suas características físicas, químicas e hidrogeológicas, que refletem sua
susceptibilidade à ação de fatores naturais e antrópicos. A concepção da
vulnerabilidade baseia-se no fato de que as propriedades dos aquíferos oferecem
um determinado grau de proteção natural às águas subterrâneas contra agentes
externos, especialmente no que diz respeito à contaminantes de diversas origens.
Neste sentido, o risco de contaminação se define como a probabilidade de que a
água subterrânea na parte superior do aquífero seja contaminada em um nível
crítico por atividades que se desenvolvem na superfície do terreno (Adams & Foster,
1992; Hirata & Fernandes, 2008)
Dentre as metodologias mais utilizadas nas pesquisas que envolvem a
avaliação da vulnerabilidade das águas subterrâneas à contaminação podem ser
citadas Método DRASTIC (Aller et al., 1987) e o Método GOD (Foster & Hirata,
1988). Os estudos que envolvem esta temática servem para identificar quais dos
aquíferos, ou parte deles, são mais vulneráveis (frágeis à contaminação), bem como
quais as atividades são responsáveis pelos maiores riscos de contaminação na área
estudada.
O Método DRASTIC é um dos mais utilizados atualmente, e serve para
avaliar o risco de poluição das águas subterrâneas usando variáveis
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hidrogeológicas, descritas por um acrônimo cujo significado consta na quadro
abaixo.
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Quadro 2 – Variáveis hidrogeológicas utilizadas no Método GOD.
23
As fossas sépticas devem ficar num nível mais baixo do terreno e longe
de poços, cisternas ou de qualquer outra fonte de captação de água (no mínimo
trinta metros de distância), para evitar contaminações, no caso de eventual
vazamento. Contudo, as fossas sépticas não são suficientes para a destinação
adequada do esgoto. O efluente da fossa ainda contém poluentes que precisam ser
removidos. Por este motivo, após a fossa séptica, é recomendado a instalação de
sumidouro, vala de infiltração, vala de filtração ou filtro anaeróbico. A escolha mais
adequada depende das características locais, como tipo de solo, nível do lençol
freático, área disponível para implantação da unidade, e localização da fonte de
água para consumo.
O sumidouro (Fig. 7) é um poço sem laje de fundo que permite
a infiltração (penetração) do efluente da fossa séptica no solo. O diâmetro e a
profundidade dos sumidouros dependem da quantidade de efluentes e do tipo de
solo. Mas, não deve ter menos de 1m de diâmetro e mais de 3 m de profundidade,
para simplificar a construção. Os sumidouros podem ser feitos com tijolo maciço ou
blocos de concreto ou ainda com anéis pré-moldados de concreto. A construção de
um sumidouro começa pela escavação do buraco, a cerca de 3 m da fossa séptica e
num nível um pouco mais baixo, para facilitar o escoamento dos efluentes por
gravidade. A profundidade do buraco deve ser 70 cm maior que a altura final do
sumidouro. Isso permite a colocação de uma camada de pedra, no fundo do
sumidouro, para infiltração mais rápida no solo, e de uma camada de terra, de
20 cm, sobre a tampa do sumidouro. A laje ou tampa do sumidouro pode ser feita
com uma ou mais placas pré-moldadas de concreto, ou executada no próprio local,
tendo o cuidado de armar em forma de tela.
24
Figura 7 - Aspectos gerais e disposição espacial de um sumidouro.
25
Figura 8 - Aspectos gerais e disposição espacial de uma vala de infiltração simples.
26
Figura 9 - Aspectos gerais e disposição espacial de um vala de infiltração composta.
27
Figura 10 - Aspectos gerais e disposição espacial de um filtro anaeróbico.
3.3.1. pH
O parâmetro pH (potencial hidrogeniônico) é a medida da concentração
hidrogeniônica, ou seja, íons H+ presentes na água. Calculado como o logaritmo
negativo da concentração de H+, é resultante inicialmente da dissociação das
próprias moléculas da água e posteriormente acrescida pelos íons hidrogênio
provenientes de outras fontes. O pH é essencialmente função do gás carbônico
dissolvido e da alcalinidade da água. Assim, pode indicar condição de acidez,
alcalinidade ou neutralidade da água e pode ser resultante de fatores naturais e
antrópicos (Rocha, 2008).
O pH afeta o processo da tratamento da água com cloro e está relacionado a
fenômenos de incrustação e corrosão em instalações hidráulicas e sistemas de
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distribuição, adicionando constituintes para a água, tais como: ferro, cobre, chumbo,
zinco e cádmio. É importante no controle da corrosão e de incrustações, visto que a
solubilidade de muitos materiais presentes na água varia com o pH do meio. Nas
condições padrão (25°C e 1 atm), o pH igual a 7 corresponde à neutralidade, valores
inferiores a 7 correspondem à faixa ácida, e valores superiores a 7, à faixa básica
(alcalina).
A Portaria 2.914/2011 do Ministério da Saúde (Brasil, 2011) recomenda que
no sistema de distribuição o pH da água seja mantido na faixa de 6,0 a 9,5.
29
permeabilidade através da membrana celular dos peixes e pequenos vertebrados
presentes nos cursos hídricos, e de sua solubilidade em lipídios, que nestes
ocasionam efeitos letais em rios. A amônia pode ser acumulada nos tecidos dos
peixes, podendo causar efeitos secundários como alteração do metabolismo. Seu
efeito pode estar relacionado com a perda de equilíbrio, hiper-excitabilidade,
aumento da atividade respiratória, aumentos de batimentos cardíacos, danos ao
fígado e rins, etc. (Bellido, 2003).
O equilíbrio entre as diferentes espécies de amônia depende das
características físicas e químicas dos corpos d'água. Elevações do pH ou da
temperatura deslocam o equilíbrio químico no sentido da amônia não-ionizada.
Adicionalmente, as forças iônicas são importantes para a definição do equilíbrio
entre as espécies de amônia em águas com salinidades elevadas. O comportamento
tóxico das diferentes parcelas de amônia, particularmente da forma não ionizada,
também depende das condições do meio aquático. Embora as concentrações da
espécie NH3 cresçam com aumentos de pH e temperatura, sua toxicidade diminui
(Broderius,1985).
Segundo Assunção (2009), o lançamento de formas reduzidas de nitrogênio
nos mananciais implica no consumo de oxigênio dissolvido (OD) no meio aquático
devido principalmente ao processo de nitrificação bacteriana, que demanda um
consumo de aproximadamente 4 kg de oxigênio para cada 1 kg de amônia
descarregada no corpo receptor. O consumo do oxigênio dissolvido do meio
aquático para oxidação da matéria orgânica, além da demanda para nitrificação,
pode levar a concentrações prejudiciais à sobrevivência das espécies de peixes.
Além da restrição inerente às concentrações de OD para sobrevivência das
diversas espécies de peixes, as formas de nitrogênio apresentam diferentes níveis
de toxicidade, levando a tolerâncias variadas para as diferentes espécies de peixes.
Em geral os níveis letais são: amônia entre 0,6 e 2,0 mg/L, nitrito > 0,5 mg/L e nitrato
> 5,0 mg/L (Bastos, 2003).
Há uma grande variedade de atividades humanas que geram efluentes com
elevadas quantidades de nitrogênio amoniacal: petroquímica, farmacêutica,
fertilizantes e indústria de alimentos, lixiviado proveniente de resíduos sólidos
urbanos e resíduos sólidos de suinocultura. A disposição deste tipo de resíduo gera
um sério problema ambiental porque a amônia livre, diluída em água, é um dos
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piores meios de contaminação da vida aquática (Effler, 1990). A produção de
nitrogênio por fontes tróficas vem aumentando significativamente desde a década de
1950, excedendo em cerca de 30% o nitrogênio fixado naturalmente.
A ANVISA determina para consumo humano uma concentração máxima de
1,5 mg/L de N-NH3.
3.3.3. Cloretos
A origem natural dos cloretos pode estar relacionada à dissolução de minerais
ou à intrusão de águas salinas. Além disso, altos valores de Cl- podem indicar
poluição por esgoto doméstico. Segundo Varnier e Hirata (2002), em trabalhos com
poços de monitoramento, observaram elevadas concentrações de Cl - em poços
locados próximos à tanques sépticos, reduzindo essa concentração com o
distanciamento, sendo os valores encontrados de 62 mg/L e 11,8 mg/L no poço mais
próximo e mais distante dos tanques sépticos, respectivamente.
Altas concentrações de íons cloreto na água podem trazer restrições ao
sabor, porém, sem nenhum efeito fisiológico, a não ser o efeito laxativo em pessoas
acostumadas a baixas concentrações (Batalha & Parlatore, 1977).
O Ministério da Saúde, através da Portaria 1469 de 29 de dezembro de 2000
recomenda teores máximos de 250 mg/L, em função ao gosto forte, salgado, que
impõe nas águas.
O cloreto é muito corrosivo para a maioria dos metais em sistemas de alta
pressão e temperatura, tais como caldeiras e equipamentos de extração de petróleo.
Concentrações de cloretos, acima do normal, em águas potáveis costeiras, podem
ser indicação de infiltração de água do mar no suprimento de água potável, ou da
presença de efluentes industriais. Altas concentrações de cloretos podem causar
corrosão em concreto, ferro e argamassas. Esta propriedade está diretamente
correlacionada com a dureza da água, pode-se esperar este tipo de corrosão em
águas com dureza menor que 200 ppm de CaCO3 e mais de 200 ppm de cloretos.
3.3.4. Nitrato
Das diversas formas de nitrogênio presentes na natureza, a amônia (NH 3) e,
em especial, o nitrato (NO3-) podem ser causas da perda de qualidade da água.
Embora a amônia, quando presente na água em altas concentrações, possa ser letal
aos peixes pela toxicidade que representa para esse grupo da fauna, a amônia
31
originada no solo ou aplicada via fertilizantes tende a ser rapidamente convertida em
amônio (NH4+) e esse, por sua vez, é convertido em nitrato pelo processo microbiano
da nitrificação.
Portanto, o nitrato é a principal forma de nitrogênio associada à contaminação
da água pelas atividades agropecuárias. Isso ocorre pelo fato de que o ânion nitrato,
caracterizado por ser fracamente retido nas cargas positivas dos colóides, tende a
permanecer mais em solução, principalmente, nas camadas superficiais do solo, nas
quais a matéria orgânica acentua o caráter eletronegativo da fase sólida (repelindo o
nitrato), e os fosfatos aplicados na adubação ocupam as cargas positivas
disponíveis. Na solução do solo, o nitrato fica muito propenso ao processo de
lixiviação e ao longo do tempo pode haver considerável incremento nos teores de
nitrato nas águas profundas.
Além do uso de fertilizantes agrícolas e criação de animais, os sistemas de
saneamento in situ, quer por tanques sépticos ou fossas rudimentares, constituem
outra importante fonte de nitrato nas águas subterrâneas.
A intensidade do processo de contaminação depende principalmente das
quantidades de nitrato presentes ou adicionadas ao solo, da permeabilidade do solo,
das condições climáticas (pluviosidade) e de manejo da irrigação e da profundidade
do lençol freático ou aquífero (Bhumbla, 2001).
O enriquecimento excessivo das águas superficiais com nitrato leva à
eutrofização dos mananciais. Uma vez que as relações tróficas nos ambientes
aquáticos são moduladas pela disponibilidade de N e P, o excesso de um desses
nutrientes ocasiona o fenômeno chamado eutrofização (enriquecimento da água em
nutrientes), o que favorece a proliferação exagerada de algas e plantas aquáticas.
Como consequência, pode haver redução da penetração de luz na água, alterando o
ambiente subaquático. Além disso, a própria respiração e os restos de plantas e
algas mortas depositados no fundo provocam a redução na disponibilidade de
oxigênio, culminando com a mortandade de peixes e outros organismos.
Pessoas adultas podem ingerir quantidades relativamente altas de nitrato, por
meio de alimentos e da água, e excretá-lo pela urina sem maiores prejuízos à saúde.
Contudo, bebês menores de seis meses de idade possuem bactérias no trato
digestivo que reduzem o nitrato a nitrito, podendo haver envenenamento. Quando o
nitrito alcança a corrente sangüínea, ocorre reação com a hemoglobina, formando o
32
composto metahemoglobina o qual diminui a capacidade de o sangue transportar
oxigênio. Nessa situação, a criança pode sofrer asfixia ficando com a pele azulada,
especialmente, ao redor dos olhos e da boca, sintomas típicos da
metahemoglobinemia ou síndrome do bebê azul. A doença é letal quando 70% da
hemoglobina do corpo é convertida em metahemoglobina (Zublena & Cook, 1997).
Recentemente, embora sem dados confirmados para o organismo humano
(baseado apenas em estudos com uso de cobaias), altas concentrações de nitrato
têm sido associadas à ocorrência de câncer estomacal ou de esôfago pela formação
N-nitrosaminas, um potente agente carcinogênico derivado da interação do nitrito
com aminas secundárias (Nugent et al., 2001; Leifert et al., 1999).
Em face do risco que representa, a concentração de nitrato na água para
consumo humano não deve exceder 10 mg L -1 de N-NO3- ou 44 mg L-1 de NO3-, de
acordo com os limites adotados pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente –
CONAMA (Brasil, 1986) e pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2001).
3.3.5. Ortofosfato
O fósforo presente nas águas residuárias, na forma iônica, encontra-se
geralmente como íon fosfato. Em esgotos sanitários, o fósforo aparece,
principalmente, como fósforo orgânico, polifosfato e ortofosfato (forma inorgânica do
fósforo advindo de decomposição biológica). O fósforo orgânico provém das
excreções humanas e de animais, como também de restos de alimentos. Quando os
compostos orgânicos sofrem decomposição biológica, dão origem a ortofosfatos.
Os ortofosfatos são biodisponíveis e uma vez assimilados, são convertidos
em fosfato orgânico e em fosfatos condensados. Após a morte de um organismo, os
fosfatos condensados são liberados na água; entretanto, não estão disponíveis para
absorção biológica até que sejam hidrolizados por bactérias para ortofosfatos. Essa
reação de hidrolização (decomposição biológica) somente ocorre na presença de
matéria orgânica.
O fósforo também é considerado um grande poluente de cursos de água,
especialmente as águas superficiais, já que ocorre pouca percolação deste
elemento. O fósforo em excesso no ambiente pode provocar diversos impactos
negativos. A eutrofização é o enriquecimento excessivo da água e é causada por
drenagem de fertilizantes agrícolas, águas pluviais de cidades, detergentes, rejeitos
de minas e drenagem de dejetos (humanos e animais). Quando estes resíduos
33
aumentam a concentração de nutrientes (fosfatos, principalmente) de rios e lagos,
podem causar eutrofização excessiva. Os nutrientes estimulam o crescimento de
algas e plantas, que interferem com a utilização da água para beber ou recreação;
estas entradas, geralmente irregulares, causam ondas de crescimento, seguidas por
períodos de consumo excessivo que podem utilizar todo o oxigênio e exterminar os
peixes.
O ciclo do fósforo no solo envolve as plantas, os animais e os
microorganismos. Incluem-se nesse sistema processos de absorção pelas plantas,
reciclagem pelos resíduos de plantas e animais, reciclagem biológica pelos
processos de mineralização-imobilização, reações de sorção pelas argilas e óxidos e
hidróxidos do solo, e solubilização de fosfatos pela atividade de microorganismos e
plantas. Quando os solos são cultivados o ciclo é alterado, pois há adição de
elementos com as adubações, e remoção quando da colheita ou ocorrência de
erosão ou percolação (Stevenson, 1994).
O fósforo é um dos elementos essenciais para as plantas e animais. Em solos
altamente intemperizados, a disponibilidade de fósforo pode ser muito baixa,
necessitando aplicação de fertilizantes (Novais & Smyth, 1999).
O fósforo contido no material de origem encontra-se na forma mineral, sendo
que as apatitas (fosfatos de cálcio) são os minerais primários mais comuns
(Frossard et al., 1995). As formas e a distribuição do fósforo no solo sob ambientes
naturais estão intimamente ligados ao seu intemperismo em formas inorgânicas e
orgânicas, sendo que a orgânica aumenta com o aumento da matéria orgânica e
com a diminuição do pH.
A legislação brasileira não reconhece o fósforo como contaminante de solo.
No Brasil a legislação do CONAMA (2005) estabelece que o nível crítico de fósforo
total na água é de 0,020 – 0,025; 0,030 – 0,050 e 0,050 – 0,075 mg L-1, nas Classes
1, 2 e 3 respectivamente.
3.3.7. Sódio
É liberado durante o intemperismo dos silicatos e dissolução de rochas
sedimentares de origem marinha, geralmente presente em águas doces como íons
Na+, sendo que em soluções concentradas podem ocorrer como NaCO 3, NaHCO- e
Na SO4. As mais altas concentrações de sódio ocorrem em associação com os íons
Cl-.
Outra importante fonte de sódio é a contribuição da água do mar nas regiões
costeiras, tanto pela intrusão de aquíferos costeiros como por infiltração de água da
chuva incorporado do mar. Os sais de sódio são altamente solúveis e tendem a
permanecer em solução, uma vez que não produzem reações de precipitação entre
eles como ocorre no caso do cálcio.
A presença de sódio em grandes quantidades é muito prejudicial para a
agricultura e tende a impermeabilizar os solos, especialmente em áreas de
drenagem deficiente. A concentração de sódio em águas naturais é muito variável,
podendo alcançar até 120.000 mg/L em zonas evaporíticas, no entanto, raramente
excede 100 ou 150 mg/L em água doce normal.
35
3.3.8. Condutividade Elétrica
Segundo Fenzel (1986), a Condutividade Elétrica é o valor recíproco da
resistividade elétrica. A condutividade da água é determinada pela presença de
substâncias dissolvidas que se dissociam em ânions e cátions. É a capacidade de a
água transmitir a corrente elétrica. Os sais dissolvidos e ionizados presentes na
água transformam-na num eletrólito capaz de conduzir a corrente elétrica. Como há
uma relação de proporcionalidade entre o teor de sais dissolvidos e a condutividade
elétrica, pode-se estimar o teor de sais pela medida da condutividade de uma água.
Os valores de condutividade elétrica da água são utilizados há décadas como
indicativos da qualidade da água e a sua medida é feita através de um
condutivímetro ou uma sonda multiparâmetro e sua representação é dada em
unidades milisiemens por cm2 (mS/cm2) ou microsiemens por cm2 (µS/cm2). Como
a condutividade aumenta com a temperatura, usa-se 25ºC como temperatura
padrão, sendo necessário fazer a correção da medida em função da temperatura se
o condutivímetro não o fizer automaticamente.
3.3.9. Temperatura
A temperatura da água é uma variável importante de ser analisada pois é
influenciada por diversos fatores ambientais tais como composição química,
presença de contaminantes e profundidade do aquífero. Em aquíferos freáticos
rasos as águas subterrâneas possuem uma amplitude térmica pequena, isto é, sua
temperatura não possui grandes variações e não sofre influência das mudanças da
temperatura atmosférica. Nos aquíferos freáticos profundos ou até nos confinados
profundos, a temperatura da água é influenciada pelo grau geotérmico local, sendo
que de modo geral aumento em média 1ºC a cada 30 m. No Aquífero Guarani por
exemplo, que está compreendido dentro da Formação Botucatu da Bacia do Paraná,
são comuns temperaturas de 40 a 50ºC em suas partes mais profundas. Essas
águas aquecidas ascendem em zonas de falhas através das rochas vulcânicas da
Formação Serra Geral e podem aflorar na superfície.
4. METOLOGIA UTILIZADA
4.1. Levantamento Bibliográfico
O levantamento bibliográfico foi realizado durante todo o andamento da
pesquisa, tendo como base artigos científicos, teses, dissertações e relatórios
36
técnicos com o objetivo de gerar um conhecimento básico sobre a geologia e
hidrogeologia da região de Águas Claras. Também foram analisados os temas de
vulnerabilidade e contaminação de aquíferos, além dos parâmetros químicos, físico-
químicos e bacteriológicos indicadores de contaminação utilizados no estudo.
A pesquisa no banco de dados do SIAGAS (Sistema de Informação de Águas
Subterrâneas) revelou 143 poços no município de Viamão, sendo que na área de
Águas Claras existem 21 poços cadastrados no sistema, porém se tratam de poços
profundos e que não estão relacionados com o aquífero freático abordado no
estudo.
37
Figura 11 – Localização dos poços onde foram coletadas as amostras.
38
Tabela 1 – Metodologias utilizadas nas análises laboratoriais de cada parâmetro.
Parâmetro Metodologia
pH Potenciométrico
Nitrogênio Amoniacal Nesslerização
Nitrato Espectrofotometria UV
Escherichia coli Substrato Enzimático
Cloretos Volumetria de Precipitação
Absorciometria c/ Redução do Ácido
Ortofosfato
Ascórbico
Sódio Espectrometria de Emissão Atômica
Condutividade Elétrica Eletrométrico
Temperatura Eletrométrico
39
Figura 12 – Metodologia GOD utilizada na avaliação da vulnerabilidade do aquífero.
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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43
6. ARTIGO SUBMETIDO
RESUMO
A exploração das águas subterrâneas no município de Viamão (RS), especificamente na
região de Águas Claras é generalizada devido à falta de abastecimento e tratamento de
esgoto, e o alto potencial hídrico do Aquífero Coxilha das Lombas. A população capta água
através de poços rasos construídos de maneira irregular, além de possuir fossas e
sumidouros instalados nas imediações das residências, que podem contaminar o aquífero e
colocar em risco a qualidade das águas subterrâneas consumidas. O objetivo geral deste
trabalho consiste em avaliar a influência dos efluentes domésticos lançados livremente no
solo na contaminação do aquífero freático. Foram coletadas amostras de água subterrânea
e analisadas os parâmetros físico-químicos, químicos e bacteriológicos, tais como pH,
nitrogênio amoniacal, cloretos, nitrato, ortofosfato, sódio, condutividade elétrica, temperatura
e coliformes (Escherichia coli) em 10 poços já existentes na localidade de Águas Claras. A
caracterização geológica e hidrodinâmica do aquífero possibilitou avaliar sua vulnerabilidade
à contaminação através da aplicação do Método GOD. Dentre os parâmetros analisados
apenas o nitrato apresentou valores acima do permitido para consumo humano (>10 mg/L)
em 4 amostras, evidenciando a influência antrópica na contaminação das águas
subterrâneas. No cálculo integrado do índice G-O-D foram obtidos valores entre 0,192 e
0,216, que indicam que o aquífero possui baixa vulnerabilidade à contaminação. Apesar dos
grandes volumes de efluentes domésticos lançados através das fossas e sumidouros na
região, a contaminação antrópica das águas subterrâneas é entendida como local e pouco
expressiva, possivelmente por causa da baixa vulnerabilidade do aquífero. A baixa
vulnerabilidade natural do aquífero pode ser explicada por sua condição de
semiconfinamento e suas características hidrodinâmicas podem contribuir na diluição dos
contaminantes. Como se trata de uma região hidricamente rica, cabe ressaltar a importância
de um maior controle e fiscalização dos poços, além da realização periódica de análises
químicas e bacteriológicas naqueles utilizados para abastecimento residencial.
44
ABSTRACT
The exploration of groundwater in the municipality of Viamão (RS), specifically in the region
of Águas Claras, is intense due to the lack of water supply and sewage treatment and the
good water potential of the Coimbra do Lombas Aquifer. The population take out
groundwater from irregular shallow wells and provides sewage directly into septic tank and
sinks installed in the vicinity of the residences, which can contaminate the aquifer and
endanger the quality of consumed groundwater. The general objective of this study is to
evaluate the influence of domestic effluents released freely in the soil in the contamination of
the groundwater aquifer. Samples of groundwater were collected in 10 wells in the locality of
Águas Claras and it was analyzed physicochemical, chemical and bacteriological
parameters, such as pH, ammoniacal nitrogen, chlorides, nitrate, orthophosphate, sodium,
electrical conductivity, temperature and Escherichia coli. The geological and hydrodynamic
characterization of the aquifer allowed to evaluate its vulnerability to contamination through
the application of the GOD Method. Among the parameters analyzed, only nitrate levels were
higher than those allowed for human consumption (> 10 mg / L-N) in 4 samples evidencing
the anthropogenic influence on groundwater contamination. The integrated calculation of the
G-O-D index generated values between 0.192 and 0.216, indicating low vulnerability of the
aquifer to anthropogenic contamination. Despite the large volumes of domestic effluents
discharged directly into septic tanks and sinks in the region, anthropogenic contamination of
groundwater is understood as local and not very expressive, possibly because of the low
vulnerability of the aquifer. The low natural vulnerability of the aquifer can be explained by its
condition of semi confinement and the hydrogeological characteristics that contribute to the
dilution of the contaminants. Considering that the region has a high potential for
groundwater, it is necessary to emphasize the need for a greater control and inspection of
the wells as well as the periodical execution of chemical and bacteriological analyzes in
those used for residential supply.
45
1. INTRODUÇÃO
Como os cursos d’água superficiais são afetados por fatores climáticos e estão mais
suscetíveis à contaminação antrópica, se tem nas águas subterrâneas uma ótima
opção para o abastecimento da população, pois por se encontrarem em
subsuperfície apresentam menor incidência de contaminação antrópica, possuem
melhor qualidade e sua captação não exige investimento muito elevado.
Segundo dados gerais do Brasil, 34,8% das pessoas não tem acesso à rede coletora
de esgoto e saneamento básico (IBGE, 2016). Portanto, nos locais onde não se tem
acesso à água tratada a explotação das águas subterrâneas torna-se uma ótima
alternativa para o abastecimento populacional. O desconhecimento sobre a
potabilidade das águas subterrâneas captadas por poços construídos de maneira
clandestina, que não atendem as normas construtivas e ambientas, bem como o
destino final de dejetos domésticos e industriais descart ados livremente no solo
através de fossas e sumidouros, colocam em risco a população que utiliza esse
46
recurso (Amaral et al., 2003; Zavoudakis, 2007). Cabe destacar, ainda, que são
inúmeros os casos de águas subterrâneas com fortes restrições de potabilidade
registrados em todo o mundo por conta de contaminação natural decorrente as
características mineralógicas e texturais dos aquíferos. Nestes casos podem ser
destacadas as águas subterrâneas com excesso de flúor (Frank et al., 2007; Nanni,
2006, Viero et al.; 2009), arsênio (Borba et al., 2003; Pimentel et al., 2003),
elementos radioativos (Bonotto & Bueno, 2008; Lauria & Godoi, 2000), entre outros.
47
O Método GOD avalia três fatores principais, sendo G = Grau de confinamento
hidráulico do aquífero; O = Ocorrência de extratos de cobertura; D = Profundidade
até o lençol freático. Este método aplica constantes arbitradas entre 0 e 1 para cada
fator e o produto entre essas variáveis determina o índice da vulnerabilidade que
pode variar entre desprezível e extrema (Fig. 1).
1.3. Objetivos
Este estudo tem como objetivo geral avaliar a influência da atividade antrópica na
contaminação das águas subterrâneas por disposição de efluente de esgoto
doméstico em fossas e sumidouros na região do distrito de Águas Claras, no
município de Viamão, RS. Através da análise de parâmetros químicos, físicos e
microbiológicos de amostras de água coletadas em 10 poços tipo ponteira, foi
caracterizada a qualidade das águas subterrâneas e partir de dados geológicos e
hidrogeológicos foi estimada a vulnerabilidade do aquífero freático da região
estudada.
48
2. GEOLOGIA E HIDROGEOLOGIA DA ÁREA
A área de estudo está localizada no distrito de Águas Claras, zona rural do município
de Viamão, a cerca de 40 km de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do
Sul (Fig. 2). O contexto geológico envolve os depósitos da porção emersa da Bacia
de Pelotas (Asmus & Porto, 1972; Tomazelli & Villwock, 2000; Villwock & Tomazelli,
1995) denominada Planície Costeira do Rio Grande do Sul, sendo caracterizada por
quatro sistemas deposicionais laguna-barreira que registram ciclos de transgressão
e regressão marinha (Villwock et al., 1986).
49
apresentar elevado conteúdo de matriz argilosa de origem diagenética (Villwock et
al., 1980).
50
As características hidrodinâmicas do Aquífero Quaternário Barreira Marinha, também
conhecido como Aquífero Coxilha das Lombas, obtidas através de ensaios de
bombeamento com duração de 24 horas, revelam valores de transmissividade (T),
coeficiente de armazenamento (S) e condutividade hidráulica (K), calculados pelo
método de Theis, da ordem de 4,0 m3/h.m, 0,007 e 1,2*10-3cm/s, respectivamente
(Freitas et al., 2002). Os parâmetros hidráulicos calculados indicam um alto potencial
hídrico deste aquífero, o qual tem a maior representatividade na área estudada pois
engloba a totalidade dos pontos de coleta.
3. MATERIAL E MÉTODOS
52
gelo e enviadas para o laboratório de análises físico-químicas do Centro de Ecologia
da UFRGS (CENECO).
53
(O) e a distância até o lençol freático (D). Logo, para o cálculo do índice GOD foram
consideradas as características hidrogeológicas observadas no campo e as
características referentes a cada poço onde foram coletadas as amostras.
4. RESULTADOS
54
A potenciometria da área, estimada com base nos 10 poços estudados (Tab. 2), é
caracterizada por baixo gradiente hidráulico, com superfície potenciométrica quase
horizontalizada e fluxo geral de norte-nordeste para sul-sudoeste (Fig. 6).
Tabela 2 - Dados de localização e altimétricos dos poços estudados. NE: nível estático.
Através do cálculo integrado do índice GOD foram obtidos valores entre 0,192 e
0,216, os quais indicam que o aquífero possui baixa vulnerabilidade natural à
contaminação (Tab. 2). Os resultados de vulnerabilidade obtidos são corroborados
pelos resultados das análises química e bacteriológicas das águas subterrâneas,
apresentados no item 4.1, que revelam baixa intensidade na contaminação apesar
da presença de grande número de fossas e sumidouros no local.
Tabela 2 – Valores atribuídos/obtidos com a aplicação do método GOD nos poços do distrito
de Águas Claras.
56
4.3 Análises físico-químicas, químicas e bacteriológicas
Os valores obtidos de pH variam entre 4,4 e 5,6, apresentando pouca variação com
média de 4,89, o que imprime características levemente ácidas às águas e valores
menores que os ideais para consumo humano segundo IQA da CETESB (pH entre 6
a 9). No entanto, elas estão dentro da faixa de pH característica do aquífero
(Machado & Freitas, 2005).
O nitrato registra concentrações entre 0,989 e 11,8 mg/L de NO3--N, o que equivale
a valores entre 4,38 a 52,26 mg/L de NO3-. O nitrato pode ter origem antrópica ou
natural, esta resultante da decomposição de matéria orgânica no solo.
Concentrações de nitrato em águas subterrâneas menores do que 10 mg/L são
atribuídos a fontes naturais por diversos autores (AESRD, 2011; Dejwalkh, 2006;
McMahon & Bohlke, 2006; Mueller & Helser, 2002). Na região de Porto Alegre, o
57
conteúdo natural de nitrato nas águas subterrâneas alcança teores de até 12 mg/L,
conforme definido por Roisenberg et al., (2003). Com base nestas premissas, fica
evidente que os poços PM 01, PM 02, PM 03, PM 04, PM 05, PM 06, PM 07 e PM
08 apresentam contaminação com nitrato, sendo que as águas dos poços PM 02,
PM 03, PM 05 e PM 07 são impróprias para o consumo humano porque registram
valores maiores que o limite de potabilidade definido pelo Ministério da Saúde que é
igual a 10 mg/L de NO3--N. Merece ser destacado que os níveis de contaminação
são relativamente baixos em função da grande quantidade de fossas e sumidouros
existentes no local, o que provavelmente está relacionado à baixa vulnerabilidade do
aquífero.
O ortofosfato não foi detectado nas amostras, indicando que o fósforo não ocorre
como contaminante nas águas subterrâneas analisadas.
58
CE >200 µs/cm, o que não está associado a qualquer parâmetro analisado neste
estudo.
35
30
25
20
Cl (mg/L)
15
10
0
0 2 4 6 8 10 12 14
NO3-N (mg/L)
59
20
15
Na (mg/L)
10
0
0 2 4 6 8 10 12 14
NO3-N (mg/L)
60
25
20
Na (mg/L)
15
10
0
0 10 20 30 40 50 60
Cl (mg/L)
5. CONCLUSÕES
Apesar dos grandes volumes de efluentes domésticos lançados através das fossas e
sumidouros na região, os níveis de contaminação antrópica são baixos e de um
modo geral ocorrem pela contaminação por nitrato nos poços PM 02, PM 03, PM 05
e PM 07. Logo, as águas subterrâneas estudadas estão impróprias para consumo
humano.
Por fim, vale ressaltar que a região possui alto potencial para águas subterrâneas e
que, portanto, se faz necessária a implantação de um projeto de saneamento básico,
bem como a intensificação no controle e fiscalização de poços existentes na região,
com aplicação de medidas protetivas e análises químicas e bacteriológicas
periódicas.
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7. ANEXO
7.1. Comprovante de Submissão de Artigo
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