tivesse mais cedo conhecido essa mulher, talvez pudesse ter lhe
ensinado alguma coisa; mas ela está com vinte e dois anos, e
há quase dois está casada. Acredite, visconde, quando uma
mulher se acomodou a esse ponto, há que abandoná-la a sua
sorte: nunca passará de uma coitada.
E é por esse belo motivo que você se nega a me obedecer, que
vai se enterrar nesse mausoléu de sua tia, e renuncia à
aventura mais deliciosa e mais própria a honrar seus talentos.
Por que fatalidade tem sempre Gercourt de manter uma
vantagem em relação a você? Veja bem, digo isso sem
nenhuma irritação: nesse momento, estou tentada a acreditar
que você não merece a reputação que tem; estou sobretudo
tentada a retirar a confiança que lhe tenho. Jamais poderei me
habituar a contar meus segredos ao amante da sra. de Tourvel.
Saiba, no entanto, que a menina Volanges já virou a cabeça de
alguém. O jovem Danceny é louco por ela. Eles cantaram juntos,
e ela, de fato, canta melhor do que cabe a uma pensionista.
Eles devem ensaiar muitos duetos, e creio que de bom grado
ela se prestaria a um uníssono. Mas Danceny é um menino que
vai perder tempo a falar de amor sem nada concluir. A
mocinha, por sua vez, é um tanto arisca; e, seja como for, isso
tudo será bem menos divertido do você teria sabido torná-lo;
de modo que me sinto irritada, e vou decerto ralhar com o
cavaleiro quando ele chegar. Ele que saiba se manter calmo,
pois, no momento, não me custaria romper com ele. Tenho
certeza de que, tivesse eu o tino de abandoná-lo agora, seria
17
para ele um desespero; e nada me diverte tanto como um
desespero
amoroso. Ele me chamaria de pérfida, e essa palavra, pérfida,
sempre me agradou; é, depois de cruela, a palavra mais doce
aos ouvidos de uma mulher, e a menos difícil de merecer. É
sério, vou tratar desse rompimento. Veja só o que você causou!
De modo que deixo isso para sua consciência. Adeus.
Recomende-me às orações de sua presidenta.
Paris, neste 7 de agosto de 17**.
carta 6
do visconde de valmont à marquesa de merteuil
Com que então não há mulher que não abuse do poder que
soube conquistar! Mesmo você, a quem tantas vezes chamei de
minha indulgente amiga, deixa afinal de sê-lo e não hesita em
me atacar no próprio objeto de minhas afeições! Com que
cores se atreve a retratar a sra. de Tourvel!… Que homem não
pagaria com a vida tal insolente ousadia? Que outra mulher,
senão você, por tal ousadia não receberia em troca, no mínimo,
18
algum gesto maldoso? Rogo-lhe que não mais me submeta a
tão duros testes; não garanto poder suportá-los. Em nome da
amizade, espere até eu possuir essa mulher antes de falar mal
dela. Então não sabe que somente à volúpia cabe desprender a
venda do amor?
Mas que digo? A sra. de Tourvel acaso precisa de ilusão? Não;
para ser adorável, basta-lhe ser ela mesma. Você a critica por
mal se vestir; acredito: qualquer adorno atua em seu desfavor;
tudo o que a dissimula a enfeia. É no abandono do traje casual
que ela se mostra realmente deslumbrante. Graças ao calor
sufocante que temos enfrentado, um mero négligé de tecido
me deixa entrever sua silhueta cheia e elegante. Uma simples
musselina cobre-lhe o colo; e meus olhares furtivos, mas
penetrantes, já captaram suas formas sedutoras. Você diz que
seu semblante não tem expressão alguma. E o que poderia
expressar, quando nada lhe fala ao coração? Não, ela decerto
não tem, como têm nossas mulheres coquetes, o olhar
mentiroso que às vezes seduz e sempre nos engana. Não sabe
encobrir o vazio de uma frase com um sorriso estudado; e,
embora possua os mais lindos dentes do mundo, ri tão somente
daquilo que a diverte. Há que ver, no entanto, como nas
brincadeiras ligeiras
oferece a imagem de uma alegria inocente e franca! Como,
junto de um infeliz que se apressa em acudir, seu olhar
demonstra a pura alegria e a bondade compassiva! Há que ver,
19
antes de mais nada, à menor palavra de elogio ou lisonja,
desenhar-se em seu celeste semblante o comovente embaraço
de uma modéstia em nada fingida!… Porque é pudica e devota,
você a julga fria e sem vida? Minha opinião é bem diferente.
Que espantosa sensibilidade não deve ter, para estendê-la ao
marido, e continuar amando uma criatura sempre ausente?
Que prova mais concludente poderia desejar? Consegui mais
uma, no entanto.
Conduzi-a, durante o passeio, de maneira que deparássemos
com um fosso a ser transposto e, embora seja muito ágil, é,
mais que tudo, tímida: você bem pode imaginar que uma
virtuosa teme dar o salto.g Foi preciso que confiasse em mim.
Segurei em meus braços essa mulher recatada. Enquanto nos
preparávamos e minha velha era atravessada, a alegre devota
rira às gargalhadas; mas assim que a peguei no colo, num hábil
desjeito nossos braços se enlaçaram mutuamente. Apertei seu
peito contra o meu e, nesse breve ínterim, senti seu coração
bater mais depressa. Um amável rubor veio colorir-lhe o rosto e
seu casto embaraço bastou para me indicar que seu coração
palpitara de amor, e não de receio. Minha tia, porém, tal como
você, deixou-se enganar, dizendo: “A menina se assustou”; mas
a encantadora candura da menina não permitiu que mentisse,
e ela respondeu ingenuamente: “Não, é que…”. Essas simples
palavras bastaram para esclarecer-me. Daquele momento em
diante, a doce esperança tomou o lugar da cruel apreensão.
Hei de ter essa mulher; hei de arrebatá-la ao marido que a
20
profana; ousarei furtá-la ao próprio Deus que ela adora. Que
delícia é ser alternadamente o causador e o vencedor de seus
remorsos! Longe de mim a ideia de derrubar os preconceitos
que a cerceiam! Só virão aumentar minha alegria e minha
glória. Que ela acredite na virtude, mas que a mim a sacrifique;
que suas faltas a apavorem, mas não logrem detê-la; e que,
agitada por mil terrores, não consiga abstraí-los, vencê-los,
senão em meus braços. E que então, concedo, ela me diga: “Eu
o adoro”; somente ela, entre as mulheres, será digna de
pronunciar essa palavra. Serei realmente o Deus que ela terá
preferido.
Sejamos sinceros: em nossos arranjos, tão frios quanto fáceis, o
que chamamos de felicidade não passa de mero prazer. Quer
saber? Julgava estar murcho meu coração, e encontrando em
mim mesmo tão somente
sentidos, lamentava minha velhice prematura. A sra. de Tourvel
devolveu- me as graciosas ilusões da mocidade. Com ela, não
preciso gozar para ser feliz. Só o que me assusta é o tempo que
irá me tomar esta aventura; pois não me atrevo a deixar nada
ao acaso. Embora relembre minhas bem- sucedidas
temeridades, não me arrisco a pô-las em prática. Para que eu
seja realmente feliz, ela precisa entregar-se, o que não será