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A Sedução e o Desespero Amoroso

O documento apresenta uma troca de cartas entre personagens que discutem sobre relacionamentos amorosos e a natureza das mulheres. Um dos personagens expressa sua frustração com a falta de ação do outro e revela seu desejo de conquistar uma mulher virtuosa, enquanto critica a superficialidade de outras. A correspondência revela tensões emocionais e a busca por poder e controle nas relações amorosas.

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A Sedução e o Desespero Amoroso

O documento apresenta uma troca de cartas entre personagens que discutem sobre relacionamentos amorosos e a natureza das mulheres. Um dos personagens expressa sua frustração com a falta de ação do outro e revela seu desejo de conquistar uma mulher virtuosa, enquanto critica a superficialidade de outras. A correspondência revela tensões emocionais e a busca por poder e controle nas relações amorosas.

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tivesse mais cedo conhecido essa mulher, talvez pudesse ter lhe

ensinado alguma coisa; mas ela está com vinte e dois anos, e

há quase dois está casada. Acredite, visconde, quando uma

mulher se acomodou a esse ponto, há que abandoná-la a sua

sorte: nunca passará de uma coitada.

E é por esse belo motivo que você se nega a me obedecer, que

vai se enterrar nesse mausoléu de sua tia, e renuncia à

aventura mais deliciosa e mais própria a honrar seus talentos.

Por que fatalidade tem sempre Gercourt de manter uma

vantagem em relação a você? Veja bem, digo isso sem

nenhuma irritação: nesse momento, estou tentada a acreditar

que você não merece a reputação que tem; estou sobretudo

tentada a retirar a confiança que lhe tenho. Jamais poderei me

habituar a contar meus segredos ao amante da sra. de Tourvel.

Saiba, no entanto, que a menina Volanges já virou a cabeça de

alguém. O jovem Danceny é louco por ela. Eles cantaram juntos,

e ela, de fato, canta melhor do que cabe a uma pensionista.

Eles devem ensaiar muitos duetos, e creio que de bom grado

ela se prestaria a um uníssono. Mas Danceny é um menino que

vai perder tempo a falar de amor sem nada concluir. A

mocinha, por sua vez, é um tanto arisca; e, seja como for, isso

tudo será bem menos divertido do você teria sabido torná-lo;

de modo que me sinto irritada, e vou decerto ralhar com o

cavaleiro quando ele chegar. Ele que saiba se manter calmo,

pois, no momento, não me custaria romper com ele. Tenho

certeza de que, tivesse eu o tino de abandoná-lo agora, seria

17

para ele um desespero; e nada me diverte tanto como um

desespero

amoroso. Ele me chamaria de pérfida, e essa palavra, pérfida,

sempre me agradou; é, depois de cruela, a palavra mais doce


aos ouvidos de uma mulher, e a menos difícil de merecer. É

sério, vou tratar desse rompimento. Veja só o que você causou!

De modo que deixo isso para sua consciência. Adeus.

Recomende-me às orações de sua presidenta.

Paris, neste 7 de agosto de 17**.

carta 6

do visconde de valmont à marquesa de merteuil

Com que então não há mulher que não abuse do poder que

soube conquistar! Mesmo você, a quem tantas vezes chamei de

minha indulgente amiga, deixa afinal de sê-lo e não hesita em

me atacar no próprio objeto de minhas afeições! Com que

cores se atreve a retratar a sra. de Tourvel!… Que homem não

pagaria com a vida tal insolente ousadia? Que outra mulher,

senão você, por tal ousadia não receberia em troca, no mínimo,

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algum gesto maldoso? Rogo-lhe que não mais me submeta a

tão duros testes; não garanto poder suportá-los. Em nome da

amizade, espere até eu possuir essa mulher antes de falar mal

dela. Então não sabe que somente à volúpia cabe desprender a

venda do amor?

Mas que digo? A sra. de Tourvel acaso precisa de ilusão? Não;

para ser adorável, basta-lhe ser ela mesma. Você a critica por

mal se vestir; acredito: qualquer adorno atua em seu desfavor;

tudo o que a dissimula a enfeia. É no abandono do traje casual

que ela se mostra realmente deslumbrante. Graças ao calor

sufocante que temos enfrentado, um mero négligé de tecido

me deixa entrever sua silhueta cheia e elegante. Uma simples

musselina cobre-lhe o colo; e meus olhares furtivos, mas

penetrantes, já captaram suas formas sedutoras. Você diz que

seu semblante não tem expressão alguma. E o que poderia

expressar, quando nada lhe fala ao coração? Não, ela decerto


não tem, como têm nossas mulheres coquetes, o olhar

mentiroso que às vezes seduz e sempre nos engana. Não sabe

encobrir o vazio de uma frase com um sorriso estudado; e,

embora possua os mais lindos dentes do mundo, ri tão somente

daquilo que a diverte. Há que ver, no entanto, como nas

brincadeiras ligeiras

oferece a imagem de uma alegria inocente e franca! Como,

junto de um infeliz que se apressa em acudir, seu olhar

demonstra a pura alegria e a bondade compassiva! Há que ver,

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antes de mais nada, à menor palavra de elogio ou lisonja,

desenhar-se em seu celeste semblante o comovente embaraço

de uma modéstia em nada fingida!… Porque é pudica e devota,

você a julga fria e sem vida? Minha opinião é bem diferente.

Que espantosa sensibilidade não deve ter, para estendê-la ao

marido, e continuar amando uma criatura sempre ausente?

Que prova mais concludente poderia desejar? Consegui mais

uma, no entanto.

Conduzi-a, durante o passeio, de maneira que deparássemos

com um fosso a ser transposto e, embora seja muito ágil, é,

mais que tudo, tímida: você bem pode imaginar que uma

virtuosa teme dar o salto.g Foi preciso que confiasse em mim.

Segurei em meus braços essa mulher recatada. Enquanto nos

preparávamos e minha velha era atravessada, a alegre devota

rira às gargalhadas; mas assim que a peguei no colo, num hábil

desjeito nossos braços se enlaçaram mutuamente. Apertei seu

peito contra o meu e, nesse breve ínterim, senti seu coração

bater mais depressa. Um amável rubor veio colorir-lhe o rosto e

seu casto embaraço bastou para me indicar que seu coração

palpitara de amor, e não de receio. Minha tia, porém, tal como

você, deixou-se enganar, dizendo: “A menina se assustou”; mas


a encantadora candura da menina não permitiu que mentisse,

e ela respondeu ingenuamente: “Não, é que…”. Essas simples

palavras bastaram para esclarecer-me. Daquele momento em

diante, a doce esperança tomou o lugar da cruel apreensão.

Hei de ter essa mulher; hei de arrebatá-la ao marido que a

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profana; ousarei furtá-la ao próprio Deus que ela adora. Que

delícia é ser alternadamente o causador e o vencedor de seus

remorsos! Longe de mim a ideia de derrubar os preconceitos

que a cerceiam! Só virão aumentar minha alegria e minha

glória. Que ela acredite na virtude, mas que a mim a sacrifique;

que suas faltas a apavorem, mas não logrem detê-la; e que,

agitada por mil terrores, não consiga abstraí-los, vencê-los,

senão em meus braços. E que então, concedo, ela me diga: “Eu

o adoro”; somente ela, entre as mulheres, será digna de

pronunciar essa palavra. Serei realmente o Deus que ela terá

preferido.

Sejamos sinceros: em nossos arranjos, tão frios quanto fáceis, o

que chamamos de felicidade não passa de mero prazer. Quer

saber? Julgava estar murcho meu coração, e encontrando em

mim mesmo tão somente

sentidos, lamentava minha velhice prematura. A sra. de Tourvel

devolveu- me as graciosas ilusões da mocidade. Com ela, não

preciso gozar para ser feliz. Só o que me assusta é o tempo que

irá me tomar esta aventura; pois não me atrevo a deixar nada

ao acaso. Embora relembre minhas bem- sucedidas

temeridades, não me arrisco a pô-las em prática. Para que eu

seja realmente feliz, ela precisa entregar-se, o que não será

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