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A Paixão e o Desdém na Correspondência

O documento apresenta uma correspondência entre personagens que discutem sobre a paixão e o desejo, especialmente em relação à presidenta Tourvel. O autor expressa sua determinação em conquistar a mulher, apesar de reconhecer os desafios e a ridicularização que isso pode trazer. A amiga do autor critica sua escolha, destacando as desvantagens de se envolver com uma mulher virtuosa e casada.

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A Paixão e o Desdém na Correspondência

O documento apresenta uma correspondência entre personagens que discutem sobre a paixão e o desejo, especialmente em relação à presidenta Tourvel. O autor expressa sua determinação em conquistar a mulher, apesar de reconhecer os desafios e a ridicularização que isso pode trazer. A amiga do autor critica sua escolha, destacando as desvantagens de se envolver com uma mulher virtuosa e casada.

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entre o mirto e os louros, ou melhor, há de juntar a ambos para

honrar meu triunfo.7 Você mesma, bela amiga, será tomada de

um santo respeito, e dirá, entusiasmada: “Aí está um homem a

meu gosto”.

Você conhece a presidenta Tourvel, sua devoção, seu amor

conjugal, seus princípios austeros. Eis aí o que vou atacar; eis aí

o inimigo a minha altura; eis aí o objetivo que pretendo

alcançar;

Et si de l’obtenir je n’emporte le prix,

J’aurai du moins l’honneur de l’avoir entrepris.f

É permitido citar versos ruins, quando são de um grande

poeta.8

Pois saiba que o presidente se encontra na Borgonha, por

conta de um processo de peso (espero fazê-lo perder outro,

mais importante). Sua inconsolável metade deverá passar aqui

todo o período dessa aflitiva viuvez. Uma missa diária, algumas

visitas aos pobres do cantão, orações de manhã e de tarde,

passeios solitários, piedosas conversas com minha velha tia e,

vez ou outra, um melancólico wisk, deveriam ser seu único

entretenimento. Preparo-lhe outros, mais eficazes. Meu anjo

bom me trouxe até aqui, para alegria dela e minha. Insensato,

lamentava as vinte e quatro horas que ia sacrificar em

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civilidades de praxe. Como me puniria agora quem me

obrigasse a voltar para Paris! Felizmente, são precisas quatro

pessoas para jogar wisk; e, como por aqui se encontra apenas

o pároco do lugar, minha imortal9 tia insistiu muito para que eu

lhe sacrificasse alguns dias. Imagine se não consenti. Você não

faz ideia de como tem me mimado desde então, de como, mais

que nada, sente-se enlevada ao ver-me assistir regularmente à

missa e a suas orações. Não desconfia de qual Divindade eu


adoro.

Cá estou, portanto, há quatro dias, entregue a uma forte

paixão. Você

sabe como desejo intensamente e como devoro os obstáculos:

mas desconhece o quanto a solidão aumenta o ardor do

desejo. Tenho apenas uma ideia; de dia penso nela, sonho com

ela à noite. Preciso possuir essa mulher, para evitar o ridículo

de apaixonar-me por ela: pois até onde não

nos leva um desejo contrariado? Ó delicioso gozo! Imploro-lhe

para minha felicidade e, sobretudo, para meu sossego. Que

sorte a nossa as mulheres se defenderem tão mal! Ou não

passaríamos, junto delas, de tímidos escravos. Sinto, neste

instante, um sentimento de gratidão pelas mulheres fáceis, que

naturalmente me traz a seus pés. Prosterno-me diante deles a

fim de obter meu perdão, e assim concluo esta carta

demasiado extensa. Adeus, belíssima amiga: sem rancor.

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Do castelo de…, 5 de agosto de 17**.

carta 5

da marquesa de merteuil ao visconde de valmont

Sabia, visconde, que sua carta é de uma rara insolência, e que

eu bem poderia zangar-me? Mostra-me, porém, claramente que

perdeu a cabeça, e só isso é que o salvou de minha indignação.

Amiga generosa e sensível, esqueço minha injúria para só

cuidar de seu perigo; e por mais tedioso que seja chamar

alguém à razão, cedo à necessidade que você tem disso neste

momento.

Você, possuir a presidenta Tourvel! Que capricho mais ridículo!

Reconheço aí sua cabeça-dura, que só sabe desejar o que julga

não poder conseguir. O que tem essa mulher, afinal? Feições

regulares, concedo, mas nenhuma expressividade; um corpo


sofrível, mas sem nenhum encanto: sempre vestida de forma

risível, com tantos fichus a cobrir-lhe o colo e o corpete a subir-

lhe até o queixo! É como amiga que lhe digo: basta-lhe uma

mulher como essa para perder todo o seu prestígio. Lembre-se

do dia em que ela fez a coleta na Saint-Roch, e você me

agradeceu por ter lhe proporcionado esse espetáculo. Ainda

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posso vê-la, dando a mão àquele varapau de cabelos

compridos, quase caindo a cada passo, suas anquinhas de

quatro arcos sempre a roçar a cabeça de alguém, e

enrubescendo a cada reverência. Quem teria imaginado, então,

que você um dia iria desejar essa mulher? Vamos, visconde,

enrubesça por sua vez e caia em si. Prometo guardar segredo.

Além disso, pense só nos dissabores que o esperam! Que rival

teria a combater? Um marido! Não se sente humilhado a essa

simples palavra?

Que vergonha, se fracassar! E que pouca glória haveria, aliás,

em ser bem- sucedido! Digo mais: não espere daí prazer algum.

Existe prazer com as virtuosas? Refiro-me àquelas de boa-fé:

reservadas mesmo no fundo do prazer, não proporcionam mais

que semigozos. Essa total entrega de si mesmo, esse delírio da

volúpia em que o prazer se depura pelo excesso, esses bens do

amor, elas desconhecem. Escute o que lhe digo: na mais feliz

das hipóteses, sua presidenta julgará já ter feito tudo por você

ao tratá-lo como marido, e mesmo no mais terno tête-à-tête

conjugal, sempre se continua sendo dois. Nesse caso, pior

ainda: sua virtuosa é uma devota, com essa devoção de

comadre que condena a uma infância eterna. Você talvez

ultrapasse esse obstáculo, mas não tenha a pretensão de

destruí-lo: vencedor do amor a Deus, não irá vencer o medo do

Diabo; e quando, com sua amante nos braços, sentir palpitar


seu coração, será de medo, e não de amor. Quem sabe, se

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