entre o mirto e os louros, ou melhor, há de juntar a ambos para
honrar meu triunfo.7 Você mesma, bela amiga, será tomada de
um santo respeito, e dirá, entusiasmada: “Aí está um homem a
meu gosto”.
Você conhece a presidenta Tourvel, sua devoção, seu amor
conjugal, seus princípios austeros. Eis aí o que vou atacar; eis aí
o inimigo a minha altura; eis aí o objetivo que pretendo
alcançar;
Et si de l’obtenir je n’emporte le prix,
J’aurai du moins l’honneur de l’avoir entrepris.f
É permitido citar versos ruins, quando são de um grande
poeta.8
Pois saiba que o presidente se encontra na Borgonha, por
conta de um processo de peso (espero fazê-lo perder outro,
mais importante). Sua inconsolável metade deverá passar aqui
todo o período dessa aflitiva viuvez. Uma missa diária, algumas
visitas aos pobres do cantão, orações de manhã e de tarde,
passeios solitários, piedosas conversas com minha velha tia e,
vez ou outra, um melancólico wisk, deveriam ser seu único
entretenimento. Preparo-lhe outros, mais eficazes. Meu anjo
bom me trouxe até aqui, para alegria dela e minha. Insensato,
lamentava as vinte e quatro horas que ia sacrificar em
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civilidades de praxe. Como me puniria agora quem me
obrigasse a voltar para Paris! Felizmente, são precisas quatro
pessoas para jogar wisk; e, como por aqui se encontra apenas
o pároco do lugar, minha imortal9 tia insistiu muito para que eu
lhe sacrificasse alguns dias. Imagine se não consenti. Você não
faz ideia de como tem me mimado desde então, de como, mais
que nada, sente-se enlevada ao ver-me assistir regularmente à
missa e a suas orações. Não desconfia de qual Divindade eu
adoro.
Cá estou, portanto, há quatro dias, entregue a uma forte
paixão. Você
sabe como desejo intensamente e como devoro os obstáculos:
mas desconhece o quanto a solidão aumenta o ardor do
desejo. Tenho apenas uma ideia; de dia penso nela, sonho com
ela à noite. Preciso possuir essa mulher, para evitar o ridículo
de apaixonar-me por ela: pois até onde não
nos leva um desejo contrariado? Ó delicioso gozo! Imploro-lhe
para minha felicidade e, sobretudo, para meu sossego. Que
sorte a nossa as mulheres se defenderem tão mal! Ou não
passaríamos, junto delas, de tímidos escravos. Sinto, neste
instante, um sentimento de gratidão pelas mulheres fáceis, que
naturalmente me traz a seus pés. Prosterno-me diante deles a
fim de obter meu perdão, e assim concluo esta carta
demasiado extensa. Adeus, belíssima amiga: sem rancor.
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Do castelo de…, 5 de agosto de 17**.
carta 5
da marquesa de merteuil ao visconde de valmont
Sabia, visconde, que sua carta é de uma rara insolência, e que
eu bem poderia zangar-me? Mostra-me, porém, claramente que
perdeu a cabeça, e só isso é que o salvou de minha indignação.
Amiga generosa e sensível, esqueço minha injúria para só
cuidar de seu perigo; e por mais tedioso que seja chamar
alguém à razão, cedo à necessidade que você tem disso neste
momento.
Você, possuir a presidenta Tourvel! Que capricho mais ridículo!
Reconheço aí sua cabeça-dura, que só sabe desejar o que julga
não poder conseguir. O que tem essa mulher, afinal? Feições
regulares, concedo, mas nenhuma expressividade; um corpo
sofrível, mas sem nenhum encanto: sempre vestida de forma
risível, com tantos fichus a cobrir-lhe o colo e o corpete a subir-
lhe até o queixo! É como amiga que lhe digo: basta-lhe uma
mulher como essa para perder todo o seu prestígio. Lembre-se
do dia em que ela fez a coleta na Saint-Roch, e você me
agradeceu por ter lhe proporcionado esse espetáculo. Ainda
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posso vê-la, dando a mão àquele varapau de cabelos
compridos, quase caindo a cada passo, suas anquinhas de
quatro arcos sempre a roçar a cabeça de alguém, e
enrubescendo a cada reverência. Quem teria imaginado, então,
que você um dia iria desejar essa mulher? Vamos, visconde,
enrubesça por sua vez e caia em si. Prometo guardar segredo.
Além disso, pense só nos dissabores que o esperam! Que rival
teria a combater? Um marido! Não se sente humilhado a essa
simples palavra?
Que vergonha, se fracassar! E que pouca glória haveria, aliás,
em ser bem- sucedido! Digo mais: não espere daí prazer algum.
Existe prazer com as virtuosas? Refiro-me àquelas de boa-fé:
reservadas mesmo no fundo do prazer, não proporcionam mais
que semigozos. Essa total entrega de si mesmo, esse delírio da
volúpia em que o prazer se depura pelo excesso, esses bens do
amor, elas desconhecem. Escute o que lhe digo: na mais feliz
das hipóteses, sua presidenta julgará já ter feito tudo por você
ao tratá-lo como marido, e mesmo no mais terno tête-à-tête
conjugal, sempre se continua sendo dois. Nesse caso, pior
ainda: sua virtuosa é uma devota, com essa devoção de
comadre que condena a uma infância eterna. Você talvez
ultrapasse esse obstáculo, mas não tenha a pretensão de
destruí-lo: vencedor do amor a Deus, não irá vencer o medo do
Diabo; e quando, com sua amante nos braços, sentir palpitar
seu coração, será de medo, e não de amor. Quem sabe, se