0% acharam este documento útil (0 voto)
5 visualizações199 páginas

Estudo de Mecânica Quântica UFMG

Este material de estudos para Mecânica Quântica, baseado no livro de Leslie E. Ballentine, visa oferecer uma abordagem moderna e clara da física quântica, desafiando os estudantes a reaprender os fundamentos sem preconceitos. O curso aborda desde pré-requisitos matemáticos até a formulação e aplicações da mecânica quântica, incluindo tópicos como operadores, estados quânticos e simetrias. O objetivo é proporcionar uma compreensão sólida da mecânica quântica e suas implicações, evitando confusões com a mecânica clássica.

Enviado por

gulhermehomsi
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
5 visualizações199 páginas

Estudo de Mecânica Quântica UFMG

Este material de estudos para Mecânica Quântica, baseado no livro de Leslie E. Ballentine, visa oferecer uma abordagem moderna e clara da física quântica, desafiando os estudantes a reaprender os fundamentos sem preconceitos. O curso aborda desde pré-requisitos matemáticos até a formulação e aplicações da mecânica quântica, incluindo tópicos como operadores, estados quânticos e simetrias. O objetivo é proporcionar uma compreensão sólida da mecânica quântica e suas implicações, evitando confusões com a mecânica clássica.

Enviado por

gulhermehomsi
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Material de Estudos para Mecânica Quântica

Programa de Pós-Graduação em Física, UFMG

Ado Jorio e João Vitor Frossard

Junho de 2019
ii
Prefácio

Estas notas de aula estão em desenvolvimento e têm como base principal o


livro “Quantum Mechanics: A Modern Development”, de Leslie E. Ballentine.
Este livro foi escolhido por trazer uma abordagem moderna da mecânica
quântica.
Note que a física quântica é aprendida no curso de graduação em física
seguindo, geralmente, um desenvolvimento histórico. Baseia-se nos conceitos
adquiridos, são apresentados os experimentos chave que demonstraram a insu-
ficiência das teorias clássicas, como os problemas da catástrofe do ultravioleta
em radiação térmica e o efeito fotoelétrico, e introduz-se uma nova teoria (a
quântica), que explica a realidade, ao menos aquela relacionada ao “mundo
quântico” das partículas elementares. Esta forma de aprendizado, entretanto,
vem comumente acompanhada do desconforto em relação às inconsistências,
às vezes aparentes, às vezes fundamentais, entre o “mundo quântico” e o
“mundo clássico”.
Neste contexto, o curso de Mecânica Quântica da Pós-Graduação que
trazemos aqui inverte a lógica. O estudante é convidado a apagar seus
(pré)conceitos e reaprender a física dos primórdios, fundamentada em postu-
lados, na álgebra linear e na teoria da probabilidade, e com isso compreender
o que realmente sabemos, e em que fundamentos este conhecimento está
assentado. No final, esperamos que o estudante saia com a clareza do que é a
mecânica quântica, suas aplicações e seus limites, sem nenhum sentimento de
desconforto em relação aos conceitos equivocados da mecânica clássica.
Agradecemos aos professores Carlos H. Monken e Reinaldo O. Vianna
pela leitura crítica e por importantes adições neste material. E também aos
alunos que já fizeram o curso e contribuíram direta ou indiretamente para o
desenvolvimento deste material.

iii
iv
Sumário

I Parte 1 - Fundamentos 3
1 Pré-requisitos matemáticos 7
1.1 Álgebra Linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.1.1 Espaços vetoriais lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
1.1.2 Produto interno (ou produto escalar) . . . . . . . . . . 9
1.1.3 Espaço Euclidiano e Espaço de Hilbert . . . . . . . . . 10
1.1.4 Desigualdades de Schwarz e do triângulo . . . . . . . . 10
1.1.5 Matrizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
1.1.6 Notação de Dirac . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
1.1.7 Kets e bras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12
1.1.8 Produto interno em notação de Dirac . . . . . . . . . . 13
1.2 Operadores Lineares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
1.2.1 Notação de Dirac para operadores . . . . . . . . . . . . 14
1.2.2 Identidades matemáticas úteis em notação de Dirac . . 15
1.2.3 Produto externo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
1.2.4 Produto tensorial e de Kronecker . . . . . . . . . . . . 16
1.2.5 Traço de matrizes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1.3 Operadores auto-adjuntos (hermitianos) . . . . . . . . . . . . 17
1.3.1 Propriedades e definição . . . . . . . . . . . . . . . . . 17
1.3.2 Base e Projetor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
1.3.3 Teorema espectral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
1.3.4 O teorema espectral e as soluções reais em física . . . . 23
1.3.5 Teoremas importantes sobre operadores hermitianos . . 23
1.4 Teoria de probabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
1.4.1 Definições iniciais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24
1.4.2 Axiomas da teoria da probabilidade . . . . . . . . . . . 25
1.4.3 Eventos independentes . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
1.5 Distribuições de probabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
1.5.1 Momentos de uma distribuição . . . . . . . . . . . . . 28
1.5.2 Distribuição binomial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29

v
vi SUMÁRIO

1.5.3 Distribuição gaussiana . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30


1.5.4 Lei dos grandes números . . . . . . . . . . . . . . . . . 31
1.6 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

2 A formulação da mecânica quântica 33


2.1 Postulados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33
2.2 Operadores de estado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34
2.3 Estados puros e estados não-puros . . . . . . . . . . . . . . . . 34
2.4 Distribuição de probabilidades . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
2.5 Algumas questões de interpretação . . . . . . . . . . . . . . . 36
2.6 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38

3 Cinemática e dinâmica quânticas 39


3.1 Transformações de estados e observáveis . . . . . . . . . . . . 39
3.2 Simetrias no espaço-tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
3.3 Geradores do grupo de Galileu . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42
3.4 Identificação dos operadores com as variáveis dinâmicas . . . . 44
3.4.1 Operador posição . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
3.4.2 Operador velocidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
3.4.3 Deslocamento temporal . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
3.4.4 Comutação canônica entre Q e H . . . . . . . . . . . . 45
3.4.5 Deslocamento espacial . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
3.4.6 Comutação canônica entre Q e P . . . . . . . . . . . . 46
3.4.7 Rotação de um ângulo infinitesimal e comutação canô-
nica entre Q e J . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46
3.4.8 Deslocamento no espaço de velocidades e comutação
canônica entre Q e G . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
3.5 Formas específicas dos geradores do grupo de Galileu . . . . . 47
3.5.1 Caso 1: Partícula livre sem graus de liberdade internos 47
3.5.2 Caso 2: Partícula com spin . . . . . . . . . . . . . . . . 50
3.5.3 Caso 3: Partícula interagindo com campos externos . . 51
3.6 Sistemas compostos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
3.7 Equações de movimento| . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
3.8 Comentários sobre mecânica quântica relativística . . . . . . . 55
3.9 Simetrias e leis de conservação . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
3.10 Quantização de um sistema clássico . . . . . . . . . . . . . . . 57
3.11 Comentários sobre mecânica quântica relativística . . . . . . . 58
3.12 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
SUMÁRIO vii

4 Representação das coordenadas e aplicações 61


4.1 Representação na Base dos Autovetores de Q . . . . . . . . . . 61
4.2 Equação de onda e sua interpretação . . . . . . . . . . . . . . 62
4.3 Transformações de Galileu na equação de Schrödinger . . . . . 65
4.4 Fluxo de probabilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 66
4.5 Condições de continuidade nas funções de onda . . . . . . . . 67
4.6 Autofunções de energia da partícula livre . . . . . . . . . . . . 67
4.7 Tunelamento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
4.8 Integrais de Caminho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
4.8.1 Propagador . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
4.8.2 Convergência da integração de caminho . . . . . . . . . 72
4.8.3 Limite clássico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 73
4.8.4 Tempo imaginário e física estatística . . . . . . . . . . 73
4.8.5 Exemplo de cálculo do propagador: partícula livre . . . 74
4.9 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 76

5 Representação de momento e aplicações 77


5.1 Representação de momento . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
5.1.1 Função de onda na representação de momento . . . . . 78
5.2 Distribuição de momento em um átomo . . . . . . . . . . . . . 79
5.3 Estruturas periódicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
5.3.1 O espaço recíproco . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81
5.3.2 O teorema de Bloch e a estrutura eletrônica dos sólidos 82
5.4 Estrutura eletrônica do trans-acetileno . . . . . . . . . . . . . 83
5.5 Considerações finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86
5.6 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87

6 O Oscilador Harmônico 89
6.1 Solução algébrica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 90
6.2 Soluções na representação das coordenadas . . . . . . . . . . . 94
6.3 Solução na representação de H . . . . . . . . . . . . . . . . . 94
6.4 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 95

7 Momento angular 97
7.1 Autovalores e elementos de matriz . . . . . . . . . . . . . . . . 97
7.2 Forma explícita dos operadores de momento angular . . . . . . 100
7.3 Momento angular orbital . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101
7.4 Spin . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102
7.5 Rotações finitas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
7.6 Rotações de 2π . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105
7.7 Adição de momento angular . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107
viii SUMÁRIO

7.8 Rotação de corpo rígido . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108


7.9 Teoria de grupos e momento angular . . . . . . . . . . . . . . 108
7.9.1 O grupo SU (2) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
7.9.2 O grupo SO(3) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
7.9.3 Grupos de Lie . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 109
7.9.4 Álgebras de Lie . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110
7.10 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 110

8 Preparação e determinação de estados 113


8.1 Preparação de estados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114
8.2 Determinação de estados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117
8.3 Estados de sistemas compostos . . . . . . . . . . . . . . . . . 120
8.4 Relações de indeterminação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
8.5 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127

9 Medidas e Interpretação de estados 129


9.1 Um exemplo de medição de spin (aparato de Stern-Gerlach) . 129
9.2 Teorema geral da teoria das medidas . . . . . . . . . . . . . . 130
9.3 Interpretação do vetor de estado . . . . . . . . . . . . . . . . . 131
9.3.1 O gato de Schrödinger . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
9.3.2 Consistência com a teoria da medida . . . . . . . . . . 132
9.3.3 Onde está a incerteza? . . . . . . . . . . . . . . . . . . 134
9.3.4 O “colapso” da função de onda . . . . . . . . . . . . . 135
9.3.5 Considerações finais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137
9.4 Decoerência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137
9.5 Probabilidades conjuntas e condicionais . . . . . . . . . . . . . 138
9.6 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143

10 Formação de estados ligados 145


10.1 Potencial esférico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
10.2 O átomo de hidrogênio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 148
10.3 Teoria de perturbação para estados estacionários . . . . . . . . 150
10.4 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 152

II Parte 2 - Aplicações 153


11 Partícula carregada em um campo magnético 155
11.1 Teoria clássica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 155
11.2 Teoria quântica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 157
11.3 Movimento em um campo magnético estático e uniforme . . . 159
SUMÁRIO 1

11.4 Efeito Aharonov-Bohm . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 159


11.5 Efeito Zeeman . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161
11.6 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162

12 Fenômenos dependentes do tempo 163


12.1 Teoria de perturbação dependente do tempo . . . . . . . . . . 164
12.2 Relação de incerteza energia-tempo . . . . . . . . . . . . . . . 168
12.3 Aproximação de dipolo elétrico para radiação atômica . . . . . 168
12.4 Aproximação adiabática . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 171
12.5 Exercícios . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 172

A Autovalores e autovetores de uma matriz 173

B Representação Irredutível e o Lema de Schur 177

C Teoria de Grupos de Espaço 181


2 SUMÁRIO
Parte I

Parte 1 - Fundamentos

3
Introdução

A Estrutura de uma Teoria


Como ponto de partida, vamos fazer um experimento imaginário, similar
ao proposto pelo Prof. Allan Adams, disponível no MIT Open Course1 .
Tomemos um objeto O com uma propriedade que chamaremos letra, que
pode ser A ou B, e outra que chamaremos número, que pode ser 1 ou 2.
Vamos definir que O tem 50 % de chance de ser A e 50 % de ser B; tem
também 50 % de chance de ser 1 e 50 % de ser 2; não há correlação estatística
na distribuição entre letra e número; por fim, o objeto está em estado
estacionário, ou seja, ele não evolui no tempo. Suponha que tenhamos vários
destes objetos O, todos respeitando as premissas estipuladas, para realizarmos
uma sequência de testes:

1) O → letra → A → letra → ? (1)


2) O → letra → A → número → ? (2)
3) O → letra → A → número → 1 → letra → ? (3)

O que podemos dizer sobre o resultado destes testes? No primeiro teste,


como A foi encontrado no primeiro procedimento e o sistema está em estado
estacionário, então o segundo procedimento tem 100 % de chance de encontrar
A. No segundo teste, A foi encontrado no primeiro procedimento e o segundo
procedimento questiona sobre a propriedade número. Pelas premissas, temos
50 % de chance de encontrar 1 e 50 % de chance de encontrar 2. No terceiro
teste, inicialmente A foi encontrado e, na sequência, este grupo foi questio-
nado segundo número, encontrando 1. Em seguida, o resultado novamente
questiona os objetos segundo letra. Qual a letra ao final? Segundo
a mecânica quântica, a resposta é: depende da natureza das propriedades
letra e número do objeto O e dos processos de questionamento, que se
forem bem estipulados, fornecerão valores de probabilidade bem determinados.
1
[Link]

1
2

Você pode protestar: “Mas já havíamos encontrado A, então temos 100%


de certeza de que teremos A ao final!” e você estaria errado. Os abstratos
letras e números aqui podem representar conceitos físicos que acreditamos
ter clareza, como energia, posição, velocidade, momento angular, mas para
dar fim aos protestos, é preciso reconstruir a teoria e os conceitos pela base.
Do início: toda teoria é fundamentada em proposições aceitas como verda-
deiras, sem demonstração, e que servem de base para o seu desenvolvimento.
Estas proposições são chamadas Postulados, ou Axiomas, o primeiro mais
utilizado em teorias físicas e o segundo em matemática. Nem na matemática,
considerada hoje por alguns a rainha das ciências2 , existe a fé3 em uma
completude e autoconsistência teórica. Esta fé foi demolida pelos teoremas
da incompletude demonstrados por Kurt Gödel em 1931, que trouxeram a
concepção de não ser possível encontrar um conjunto completo e consistente
de axiomas para toda a aritmética. Seu segundo teorema da incompletude
estipula que “Uma teoria, recursivamente enumerável e capaz de expressar
verdades básicas da aritmética e alguns enunciados da teoria da prova, pode
provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente”.
A Mecânica Quântica, como toda teoria, é construída fundamentada
em postulados. Diferentes livros texto trazem enunciados diferentes para os
postulados, e mesmo um número de postulados diferentes pois, com a evolução
do conhecimento, os postulados são revistos, demonstra-se que alguns estão
contidos em outros, outros podem ser fundidos em um mais forte. Como
exemplo, o livro Quantum Mechanics [1] (Cohen-Tannoudji, Diu e Laloë, 1977)
enumera 6 postulados para a construção da mecânica quântica, a Equação
de Schrödinger para evolução temporal dos sistemas físicos sendo um deles.
Na sua concepção mais moderna, como encontrado no livro de Ballentine (2a
Ed., 2015) [2], são necessários apenas dois postulados bastante básicos para
fundamentar toda a teoria:

1. Para cada variável dinâmica existe um operador hermitiano cujos auto-


valores representam os valores possíveis para a variável dinâmica.

2. Para cada estado existe um operador de estado único ρ, hermitiano,


não-negativo e de traço unitário. O valor médio do observável R no
estado ρ é dado por hRi = Tr(ρR).

Os conceitos citados nestes postulados pertencem a dois ramos da matemática,


a álgebra linear e a probabilidade, que são pré-requisitos para o desenvolvi-
mento da mecânica quântica. O primeiro postulado associa a cada atributo
2
Título que um dia já foi da teologia, amanhã... quem sabe?
3
Intrigante, mas a palavra correta é mesmo “fé”.
3

físico (aqui chamado de variável dinâmica) de um sistema, um objeto mate-


mático (aqui chamado de operador hermitiano). E, ainda, associa os possíveis
valores que podem ser medidos desse atributo físico com os autovalores desse
operador. Já o segundo postulado associa ao estado de um sistema (note a
sutil distinção entre estado e variável dinâmica aqui construída) um outro
operador, único, de características peculiares: ser hermitiano, não-negativo e
de traço unitário. Estes conceitos devem ser introduzidos e trabalhados para
se construir a física quântica. Isto será feito ao longo deste texto.
Como exemplo, a equação de Schrödinger emerge destes dois postulados
evocando-se condições de simetria do espaço-tempo, não precisa ser postulada.
Outro exemplo, considere a posição de uma partícula. Classicamente posição
é uma função do tempo (geralmente x(t)) que é solução da segunda lei de
Newton. Os valores possíveis dessa variável dinâmica são todos os valores nos
quais a função está definida. Quanticamente, entretanto, associado a esse ente
físico posição existe um operador, chamado de operador posição, cujos valores
que a posição da partícula poderão assumir serão apenas os autovalores desse
operador. A relação deste operador com outros, como o operador momento,
o operador energia, define o resultado dos experimentos.

Em Busca das Bases


No capítulo 1 relembraremos alguns aspectos e maquinário matemático
importantes para se trabalhar com mecânica quântica, ligados ao pilares
fundamentais da teoria moderna, que são a álgebra linear e a teoria da
probabilidade. Mas primeiro façamos um exercício para uma compreensão
mais profunda dos fundamentos da teoria. Sendo a álgebra linear um pilar,
podemos dar um passo atrás e nos perguntar “o que é álgebra?” A palavra
vem do árabe “al-jerb”, que significa “reunião de pedaços”, e denota o estudo
de símbolos e das regras para manipulá-los. Como exemplo de um campo de
aplicação da álgebra, vejamos a teoria de grupos [3], importante para lidar
com operações de simetria.

Grupos
Uma coleção de elementos A, B, C, . . . forma um grupo quando as seguintes
condições são satisfeitas:

• O produto de quaisquer dois elementos de um grupo é, ele próprio, um


elemento do grupo. Por exemplo, relações do tipo AB = C são válidas
se A, B e C forem membros do mesmo grupo.
4

• A lei assossiativa é válida, isto é, (AB)C = A(BC).

• Existe um elemento unidade E (também chamado identidade) tal que


o produto de E com qualquer elemento do grupo deixa o elemento
invariante: AE = EA = A.

• Para todo elemento A existe um elemento inverso A−1 tal que A−1 A =
AA−1 = E.
Em geral os elementos do grupo não comutam, isto é, a ordem do produto
dos elementos altera o resultado: AB 6= BA. Se todos os elementos do grupo
comutarem, o grupo é chamado de grupo Abeliano.
Um exemplo simples de grupo é o conjunto das operações de permutação
de três números, P (3). Abaixo estão listadas as 3!=6 possíveis formas de se
permutar estes três elementos. A linha de cima denota o estado inicial, e a
linha de baixo o estado dos números após a permutação. Cada permutação é
um elemento do grupo P (3).
! ! !
1 2 3 1 2 3 1 2 3
E= A= B=
1 2 3 1 3 2 3 2 1
! ! ! (4)
1 2 3 1 2 3 1 2 3
C= D= F =
2 1 3 3 1 2 2 3 1

Figura 1: As operações de simetria


em um triângulo equilátero são as
rotações por ±2π/3 sobre a origem
0 e as rotações por π sobre os três
eixos. Aqui os eixos são indicados
por números em círculos.

Podemos também pensar nos elementos da Eq. 4 em termos dos 3 pontos


de um triângulo equilátero (veja Fig. 1). Novamente, a linha superior indica
o estado inicial e a linha inferior denota a posição final de cada número como
5

o efeito das seis operações de simetria distintas que podem ser realizadas
nesses três pontos (veja a legenda da Fig. 1). Nós podemos chamar cada
operação de simetria de um elemento do grupo. Este grupo é, portanto,
idêntico ao grupo para as operações de simetria em um triângulo equilátero,
como mostrado na Fig. 1. O elemento D é uma rotação de −2π/3 (no sentido
anti-horário) e F é uma rotação de +2π/3 (no sentido horário).
O que chamamos de produtos dos elementos do grupo pode ser definido e
classificado:
(AB)C = DC = B
(5)
A(BC) = AD = B
verificando a validade da lei associativa (AB)C = A(BC) para estes elemen-
tos. Cada elemento do grupo de permutação P (3) tem correspondência um
para um com as operações de simetria de um triângulo e, portanto, dizemos
que estes dois grupos são isomórficos.
Para lidar com problemas físicos podemos associar grupos isomórficos e
trabalhar com o grupo mais simples. Se podemos associar cada elemento de
um grupo com uma matriz que obedece à mesma lógica de multiplicação dos
elementos do grupo de interesse, isto é, se os elementos obedecem a AB = D,
então as matrizes representando os elementos devem obedecer

M (A) M (B) = M (D). (6)

Se esta relação é satisfeita, então podemos realizar todas as operações do grupo


analiticamente em termos de operações aritméticas em matrizes, geralmente
mais fáceis de executar. A identificação um-para-um de uma operação genérica
de um grupo para uma operação com uma matriz é a ideia básica de uma
representação.
O conjunto de matrizes abaixo satisfazem todas as relações de multiplicação
para o grupo P (3):
! ! √ !
1
1 0 −1 0 2√
− 23
E= A= B=
0 1 0 1 − 3
− 12
2
√ ! √ ! √ ! (7)
1 3
√2 2
−√12 2
3

√2
1
− 23
C= 3
D= F =
2
− 12 − 23 − 12 2
3
− 12
Observamos que a matriz correspondente à operação de identidade é sempre
uma matriz unitária. As matrizes na Eq. 7 constituem uma representação
de matriz do grupo que é isomorfo a P (3) e às operações de simetria em um
triângulo equilátero. A matriz A representa uma rotação de ±π sobre o eixo
y enquanto as matrizes B e C, respectivamente, representam rotações de ±π
sobre os eixos 2 e 3 na Fig. 1, e assim por diante.
6

Campos
Campo é outro conceito comum em física, e em matemática é definido
como um conjunto de elementos que formam um grupo comutativo com
respeito a duas operações compatíveis, a adição e a multiplicação, onde
“compatível” é formalizado pelo conceito de “distributividade”, adicionando
o detalhe de que o elemento identidade da adição (o zero), não tem inversa
na multiplicação. A teoria para campos está fundamentada nos seguintes
axiomas:

• fechamento para a adição e a multiplicação: u + v = w, uv = w, onde


u, v, w pertencem ao campo;

• associatividade para a adição e a multiplicação: (u+v)+w = u+(v +w),


(uv)w = u(vw);

• comutatividade para a adição e a multiplicação: u + v = v + u, uv = vu;

• contém identidade para a adição (0) e a multiplicação (1);

• contém inversa para a adição (−a) e a multiplicação (a−1 ).

• distributividade da multiplicação sobre a adição: a · (a + b) = a · b + a · c

Considerações finais
Tal procedimento de buscar as bases pode ser feito até chegar-se nos
conceitos e definições básicas da teoria de números. Mas a mensagem que
deve ficar aqui é que os conceitos que utilizaremos na física (como um grupo,
operações de simetrias, campos... seguindo até energia, momento, posição)
têm sua fundamentação em postulados e lógica matemática.
Capítulo 1

Pré-requisitos matemáticos

As estruturas que comentamos na seção anterior, onde falamos sobre


operadores e estados, envolvem conceitos matemáticos que ainda precisamos
construir (ou relembrar). Um dos pilares fundamentais da mecânica quântica
moderna é a álgebra linear. O outro é a teoria da probabilidade, que
será vista na sequência.

1.1 Álgebra Linear


A álgebra linear especifica as propriedades das equações lineares, espaços
vetoriais e matrizes. Equações lineares são, por sua vez, equações algébricas
que possuem constantes, o produto de uma constante por uma variável em
primeira ordem de potência (sem expoente), e combinações de constantes
e variáveis. Os conceitos de espaços vetoriais e matrizes serão vistos mais
adiante.

1.1.1 Espaços vetoriais lineares


Um espaço vetorial linear V é qualquer conjunto de objetos matemáti-
cos (números, funções, matrizes, polinômios, etc.), munidos de duas operações
(soma de elementos e multiplicação por escalar), que obedece às seguintes
propriedades [4].

• Associatividade para a adição: (u + v) + w = u + (v + w),

• Comutatividade para a adição: u + v = v + u,

• Contém elemento identidade para adição: u + 0 = u,

• Contém elemento inverso para adição: u + (−u) = 0,

7
8 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

• Contém elemento identidade para multiplicação escalar: 1u = u,

• Compatibilidade entre multiplicação escalar e elementos: (ab)v = a(bv),

• Distributividade da multiplicação sobre a adição: u(v + w) = uv + uw,

• Distributividade da multiplicação escalar sobre a adição: a(u + v) =


au + av,

• Distributividade da soma de escalares com respeito aos elementos:


(a + b)v = av + bv,

em que u, v, w são os elementos de V, enquanto a e b representam escalares,


que podem ser números complexos. Os elementos de um espaço vetorial são
chamados vetores de forma ampla. Os exemplos mais comuns de espaços
vetoriais são o de vetores discretos Cn (cada vetor é composto por n números
complexos), o espaço de matrizes, o espaço de polinômios, o espaço de funções
diferenciáveis de uma variável e muitos outros.
Espaços vetoriais possuem conjuntos de vetores que podem ser usados
para gerar o espaço inteiro. Esses conjuntos são chamados de bases do espaço
vetorial e o número mínimo de vetores necessários para compor uma base é
chamado de dimensão do espaço vetorial.

Exemplo 1 Os seguintes vetores formam uma base no espaço R3 :


     
1 0 0
î = 0, ĵ = 1, k̂ = 0. (1.1)
     

0 0 1

Note que o espaço é infinito, mas sua dimensão é 3.


Além da hipótese de gerar o espaço inteiro, i.e. esse conjunto ser capaz de
gerar todos os outros elementos, há ainda uma hipótese adicional. Suponha
que φn são n elementos da base de um espaço vetorial. A combinação linear:
X
cn φn = 0 ⇔ cn = 0 ∀n, (1.2)
n

ou seja, se a soma só puder ser nula se, e somente se, todos os coeficientes forem
zero, então dizemos que os vetores φn são todos linearmente independentes
(L.I., abreviadamente).
1.1. ÁLGEBRA LINEAR 9

1.1.2 Produto interno (ou produto escalar)


O conceito de espaço vetorial é genérico e serve para descrever coisas diver-
sas. Qualquer conjunto de elementos abstratos que satisfaça as propriedades
de espaço vetorial, é considerado um espaço vetorial.
É possível, entretanto, incluir outras estruturas que restringem o conceito
de espaço, levando a estruturas que são importantes em física. Considere dois
vetores de entradas complexas num espaço vetorial de n dimensões:
   
a1 b1
 a2   b2 
   
ψ=
 .. ,
 φ=
 .. .
 (1.3)
 .  .
an bn
A operação chamada de produto interno ou produto escalar é definida
como sendo:
(ψ, φ) = a∗1 b1 + a∗2 b2 + · · · + a∗n bn , (1.4)
com o super-índice ∗ indicando o complexo conjugado.
Essa operação também está definida em espaços de funções usando o
processo de integração. Sejam duas funções ψ(x) e φ(x) mensuráveis e uma
função peso w(x). O produto interno de ψ com φ é dado por:
Z
(ψ, φ) = ψ ∗ (x)φ(x)w(x)dx, (1.5)
todo espaço

se (ψ, φ) = 0 dizemos que os vetores são ortogonais entre si.


A partir do produto interno define-se a norma de um vetor (no espaço
tridimensional essa norma está associada diretamente ao “comprimento” do
vetor. Em espaços abstratos ela dá uma ideia desse mesmo comprimento ou
da sua “magnitude”). Essa norma é definida como sendo:
q
|ψ| = (φ, φ). (1.6)

É comum vermos o uso da operação de norma com dois traços verticais


||ψ||.
Se, por acaso, um dado vetor possuir norma unitária, dizemos que ele é
normalizado. Veremos, mais adiante, que a normalização de vetores é de
grande importância em mecânica quântica.
Um conjunto de vetores que são todos ortogonais entre si e possuem norma
unitária são chamados de um conjunto ortonormal de vetores. Se, além
disso, eles formam uma base, essa base é dita base ortonormal.
Um resultado importante de vetores ortogonais está expresso pelo teorema
a seguir:
10 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

Teorema 1 Um conjunto de vetores não nulos ortogonais dois a dois, i.e.


(vi , vj ) = 0 se i 6= j. Então o conjunto formado por todos os elementos vi é
L.I.
Prova: Tomando o valor esperado da combinação linear da equação (1.2)
de ambos lados e usando a condição de ortogonalidade o resultaodo sai direta-
mente.

Em outras palavras esse teorema estabelece que se um conjunto de vetores


é ortogonal, eles são também L.I. Esse resultado é importante para se testar
a independência linear de conjuntos que são difíceis de se aplicar diretamente
a equação (1.2). Para mais detalhes, veja exercício 1.3.

1.1.3 Espaço Euclidiano e Espaço de Hilbert


Espaços vetoriais que possuem a estrutura adicional do produto interno
(ou produto escalar) são chamados genericamente de espaços vetoriais com
produto interno. O espaço euclidiano é um espaço vetorial de dimensão
finita munido de produto interno, que associa um escalar à operação (u,v),
tal que é um número complexo que segue os seguintes axiomas:

• Simetria hermitiana: (u,v) = (v,u)*

• Distributividade (ou linearidade): (u,v1 +v2 ) = (u,v1 ) +(u,v2 )

• Homogeneidade (ou associatividade): (cu,v) = c(u,v)

• Positividade: (u,u) > 0, com a igualdade apenas no caso de u = 0

O espaço de Hilbert é uma generalização do espaço euclidiano, que não


precisa estar restrito a um número finito de dimensões. Composto por todos os
vetores h = n cn φn , com a limitação de que a norma de h [(h, h) = n |cn |2 ]
P P

é finita. Na grande maioria dos casos, a mecânica quântica é descrita no


espaço de Hilbert, embora alguns vetores muito importantes, como o vetor
posição, não estejam limitados a ele por poderem ter norma infinita.

1.1.4 Desigualdades de Schwarz e do triângulo


Um resultado importante sobre norma de vetores é conhecida como desi-
gualdade de Schwarz:

|ψ, φ|2 ≤ (ψ, ψ)(φ, φ). (1.7)

A igualdade vale quando ψ e φ são colineares.


1.1. ÁLGEBRA LINEAR 11

Outro resultado útil sobre normas é a desigualdade triangular, ou do


triângulo:
|(ψ + φ)| ≤ |ψ| + |φ|. (1.8)

Novamente, a igualdade vale se ψ e φ são colineares. Como veremos mais


a frente, estas duas desigualdades estão relacionadas a alguns efeitos que
distinguem, de forma quantitativa, as predições da mecânica quântica das da
mecânica clássica.

1.1.5 Matrizes
Matrizes são arranjos retangulares de objetos matemáticos, para os quais
operações como adição e multiplicação estão definidos. Exemplo: matrizes em
um campo F são arranjos retangulares de escalares de F. Podem ser números
reais ou complexos. A convenção para se montar uma matriz A na base {ei },
tal que

Ae1 = a11 e1 + a12 e2 + . . . + a1n en (1.9)


Ae2 = a21 e1 + a22 e2 + . . . + a2n en (1.10)
..
. (1.11)
Aem = am1 e1 + am2 e2 + . . . + amn en (1.12)

é:  
a11 a12 a13 . . . a1n
 a21 a22 a23 . . . a2n
 

 
a a32 a33 . . . a3n
 31 .

(1.13)
 . .. .. .. ... ..
 .. . . . .
 
am1 am2 am3 . . . amn

É possível aplicar A em ei mas não mapeá-la nesta base, pois não é necessário
ficar no mesmo espaço. Entretanto, esta é a forma mais corriqueira.
Matrizes quadradas são obtidas quando o número de equações são iguais
ao número de variáveis (n = m). Um exemplo interessante (e importante!)
são as matrizes 2 × 2. Para esse caso, faz-se a pergunta: O conjunto de todas
as matrizes dois por dois possui qual dimensão? Como seria uma base nesse
espaço?
Um exemplo trivial é a chamada base canônica
! ! ! !
1 0 0 1 0 0 0 0
µ1 = , µ2 = , µ3 = , µ4 = ,
0 0 0 0 1 0 0 1
12 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

já que qualquer matriz M 2 × 2 pode ser escrita como

M = m11 µ1 + m12 µ2 + m21 µ3 + m22 µ4 .

Entretanto, a base mais importante no espaço das matrizes 2 × 2 é composta


pelas chamadas matrizes de Pauli:
!
1 0
σ0 = 1 = = µ1 + µ4 ,
0 1
!
0 1
σ1 = σx = = µ2 + µ3 ,
1 0
!
0 −i
σ2 = σy = = −i(µ2 − µ3 ),
i 0
!
1 0
σ3 = σz = = µ1 − µ4 . (1.14)
0 −1

É fácil verificar que Tr(σi σj ) = 2δij . Assim, qualquer matriz M 2 × 2 pode


ser escrita como
M = a0 1 + a1 σx + a2 σy + a3 σz ,
com ai = Tr(M σi )/2.
Veremos mais adiante que as matrizes de Pauli são de grande importância
para tratar sistemas de dois níveis na mecânica quântica, como o momento
angular de spin 12 ou a polarização de um fóton.

1.1.6 Notação de Dirac


Damos o nome de notação de Dirac ou notação bra-ket a uma célebre
forma, inventada por Paul Dirac, de se representar objetos matemáticos em
mecânica quântica e operá-los mais facilmente.

1.1.7 Kets e bras


Todos os vetores (relembrando: elementos de um espaço vetorial linear
que admitimos possuir produto interno) são representados da seguinte forma:
|φi. A essa representação damos o nome de kets.
Existem elementos, chamados de bras, associados aos kets por isomorfismo
(relação de um pra um, de acordo com o teorema da representação de
Riesz em espaços de Hilbert). Esses elementos existem em um espaço
diferente, chamado de espaço dual, que é o espaço de todos os funcionais
lineares. Como há uma correspondência de um pra um, o bra associado ao
1.2. OPERADORES LINEARES 13

ket |ψi é denotado utilizando-se o mesmo símbolo, hψ|. Existem casos onde
esta correspondência não está presente, e espaços mais gerais do que o espaço
de Hilbert devem ser considerados.
A correspondência entre kets e bras é anti-linear, isto é, se |ψi = a1 |u1 i +
a2 |u2 i, o bra correspondente é dado por hψ| = a∗1 hu1 | + a∗2 hu2 |

1.1.8 Produto interno em notação de Dirac


O produto interno definido anteriormente pode ser reescrito na notação
de Dirac consistindo do produto de um bra com um ket (nessa ordem):

hψ|φ i = (ψ, φ). (1.15)

Quando lidando com vetores discretos de dimensão n, a equação 1.15 resume-se


à equação 1.4. Entretanto, em muitos problemas os kets podem ser repre-
sentados por matrizes quadradas e seus bras equivalentes por operações de
transposição de conjugação complexa reduzindo o problema do cálculo de
produto interno a um simples cálculo de produto de matrizes. Ou podem
ser funções, e neste caso temos uma integral. Retornaremos a estes pontos
futuramente.

1.2 Operadores Lineares


Operadores são objetos matemáticos que mapeiam vetores (elementos
de algum espaço vetorial V ) em outros vetores (que podem ser elementos
tanto de V quanto de qualquer outro espaço vetorial W ). Os operadores são
definidos de acordo com a forma que eles atuam em vetores de algum espaço
vetorial:
φ = Aψ, (1.16)
sendo A o operador, φ e ψ elementos de dois espaços vetoriais lineares
arbitrários. Dois operadores A e B são iguais se Aφ = Bφ, para todo φ no
domínio comum de A e B.
Damos o nome de operador linear se ele satisfizer:

A(c1 ψ1 + c2 ψ2 ) = c1 (Aψ1 ) + c2 (Aψ2 ). (1.17)

Além disso, operadores também satisfazem às propriedades:

(A + B)ψ = Aψ + Bψ, (1.18)


AB(ψ) = A(Bψ), (1.19)
(AB)C = A(BC). (1.20)
14 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

OBS: A propriedade de comutação não é exigida para operadores, sendo


permitido que AB 6= BA. Em geral operadores que comutam possuem
características inexistentes em operadores que não comutam. Falaremos deles
mais adiante.

Exemplo 2 Qual o operador que leva o vetor ~v = 3î + 2ĵ + k̂ no vetor


~u = î + 2ĵ + 3k̂? Este é um exemplo de um problema de espaço vetorial
discreto V de dimensão finita n = 3. Os elementos (vetores) desse espaço
podem ser denotados por matrizes coluna com n entradas, e os operadores que
levam elementos de V em elementos do mesmo espaço podem ser descritos
por matrizes quadradas de dimensão n × n.
Além disso qualquer equação de operadores em espaços de dimensão finita
podem ser transformados em operações matriciais.

Exemplo 3 (Operadores tipo rotação em 3D) Sejam A uma matriz de


rotação de 180◦ em torno do eixo y cartesiano e B a matriz de rotação de
120◦ no plano xy. Essas rotações podem ser representadas por matrizes 3 × 3:
sen 120◦ cos 120◦ 0
   
−1 0 0
A= 0 1 0  B = cos 120◦ − sen 120◦ 0. (1.21)
   

0 0 −1 0 0 1
Veja a conexão entre estas matrizes e aquelas da Eq. 7 da Introdução.

De forma mais genérica, pode-se definir a chamada operação de simi-


laridade (ou equivalência, ou canônica), que equivale a uma transformação
da matriz M do tipo U M U −1 , onde U é uma matriz unitária e U −1 a sua
inversa (U U −1 = U −1 U = I, onde I = matriz identidade). Como exemplo, as
matrizes rotação do exemplo 3 podem ser utilizadas para rodar os eixos de
referências de um operador.

1.2.1 Notação de Dirac para operadores


A notação de Dirac faz-se novamente útil para escrever operadores. Uma
equação de operadores, em notação de Dirac, pode ser escrita como sendo:
M |ψi = |φi. (1.22)
Lê-se a atuação do operador M em um vetor |ψi (de algum espaço vetorial)
gerando um novo vetor |φi.
Podemos expandir os dois vetores em uma base comum ortonormal |ui i,
tal que: X X
|ψi = aj |uj i, |φi = ak |uk i, (1.23)
j k
1.2. OPERADORES LINEARES 15

substituindo na equação de antes encontramos:


X X X X
M aj |uj i = ak |uk i ⇒ aj M |uj i = ak |uk i, (1.24)
j k j k

multiplicando ambos lados pelo bra hui | encontramos:


X X
aj hui |M |uj i = ak hui | uk i, (1.25)
j k

mas, por hipótese:


hui |uk i = δik , (1.26)
então encontramos:
X X
aj hui |M |uj i = aj Mij = bi , (1.27)
j j

em que Mij = hui |M |uj i são chamados elementos de matriz que compõem
a notação matricial do operador M . Esse procedimento nos permite construir
representações matriciais de operadores em espaços de dimensão finita (a ideia
pode ser estendida para operadores em dimensão infinita, porém contável).

Exemplo 4 (Operadores em espaços de funções) Considere a operação:


∂ ∂
x=1+x , (1.28)
∂x ∂x
consiste num operador definido em um espaço de funções. Ou seja, esse ope-
rador (que transforma a derivada em relação a x de uma função multiplicada
por x em uma soma da própria função com a sua derivada em relação a x
multiplicada por x) existe se a equação a seguir valer para qualquer ψ:
∂ ∂ψ(x)
O≡ [xψ(x)] = ψ(x) + x , ∀ψ(x). (1.29)
∂x ∂x

1.2.2 Identidades matemáticas úteis em notação de Di-


rac
Considere a atuação de um operador A em um ket:

A|φi = |ψi, (1.30)

tomando a operação “adjunta” († ) de ambos os lados, que consiste na conju-


gação complexa e transposição, obtemos:

hφ|A† = hψ|, (1.31)


16 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

essa é uma consequência do teorema da representação de Riesz que comenta-


mos anteriormente. Outras identidades importantes são:

hψ|φi∗ = hφ|ψi, (1.32)



hφ|A† |ψi = hψ|A|φi. (1.33)

1.2.3 Produto externo


O produto interno, que comentamos anteriormente, gera um número
complexo a partir de dois vetores. Porém existe um outro tipo de produto,
conhecido como produto externo, cujo resultado da sua operação é um
operador. Vetorialmente pode ser denotado por u ⊗ v = uvT , e apresentamos
a seguir a operação na notação de Dirac:

φ1 ψ1∗ φ1 ψ2∗ · · · φ1 ψn∗


   
φ1
∗ ∗
 φ2  ∗
 
∗ ∗
  φ2 ψ1 φ2 ψ2

· · · φ2 ψn∗ 

|φihψ| =  ..  ψ1 ψ2 · · · ψn =  ..
   .. .. , (1.34)
 .   . . . ···  
φn φn ψ1 φn ψ2∗

· · · φn ψn∗

que satisfaz à propriedade:

(|ψihφ|)† = |φihψ|. (1.35)

1.2.4 Produto tensorial e de Kronecker


O produto tensorial, também denotado por ⊗, generaliza o produto externo
para espaços vetoriais, não apenas para aqueles representados por matrizes
mas também para operadores que não admitem representação matricial. Por
exemplo, sejam dois operadores A e B, ambos de dimensão 2 × 2. O operador
produto C = A ⊗ B possui dimensão 4 × 4.
Quando aplicado a matrizes, produto tensorial leva o nome de produto
de Kronecker, uma operação em duas matrizes de tamanhos arbitrários
resultando em uma matriz de blocos.1 Se A é uma matriz m × n e B é uma
matriz p × q, então o produto de Kronecker A ⊗ B é a matriz de blocos
mp × nq:
 
a11 B · · · a1n B
 . .. .. 
 ..
A⊗B= . . . (1.36)
am1 B · · · amn B
1
O produto de Kronecker não deve ser confundido com a multiplicação usual de matrizes,
que é uma operação totalmente diferente.
1.3. OPERADORES AUTO-ADJUNTOS (HERMITIANOS) 17

Sendo um caso especial do produto tensorial, o produto Kronecker é


bilinear e associativo:

A ⊗ (B + C) = A ⊗ B + A ⊗ C, (1.37)
(A + B) ⊗ C = A ⊗ C + B ⊗ C, (1.38)
(kA) ⊗ B = A ⊗ (kB) = k(A ⊗ B), (1.39)
(A ⊗ B) ⊗ C = A ⊗ (B ⊗ C), (1.40)

onde A, B e C são matrizes e k é um escalar.


O processo de fatorar, por exemplo, a matriz A da matriz A ⊗ B para se
obter B, é tratado em teoria de grupos na obtenção do grupo fator, ou grupo
quociente [3].
A construção baseada em produtos tensoriais é fundamental em mecânica
quântica, sobretudo na análise do momento angular (vide capítulo 7), na
análise das medições (vide capítulos 8 e 9) e especialmente em informação
quântica [5].

1.2.5 Traço de matrizes


Traço de uma matriz é definido como a soma dos elementos da diagonal
principal. Em notação de Dirac, escrevemos:
X
Tr A = huj |A|uj i. (1.41)
j

O traço satisfaz a importante propriedade de ser independente da base,


ou seja, ele é invariante sob qualquer mudança de base (vide exercício 1.9).

1.3 Operadores auto-adjuntos (hermitianos)


1.3.1 Propriedades e definição
A classe de operadores mais importante de mecânica quântica são os
chamados operadores auto-adjuntos (frequentemente chamados de operadores
hermitianos). Operadores auto-adjuntos satisfazem a relação:

hφ|A|ψi = hψ|A|φi∗ , (1.42)

ou, simplificadamente, A† = A. Se um dado operador hermitiano possuir


representação matricial, a sua matriz conjugada transposta é igual a ela
18 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

própria, ou seja, os elementos da matriz satisfazem: Mij = Mji∗ . Para


operadores hermitianos temos a importante definição:
Definição: Se um operador hermitiano A age em um vetor |φi e retorna
um múltiplo desse mesmo vetor, isto é, A|φi = a|φi, dizemos que |φi é um
autovetor de A e a é o autovalor de A associado a |φi. Pode acontecer que dois
ou mais autovetores linearmente independentes estejam associados ao mesmo
autovalor. Neste caso, dizemos que o autovalor é degenerado. O número de
autovetores linearmente independentes associados a um mesmo autovalor a
é chamado de índice de degenerescência de a. Neste caso, os autovetores
associados ao mesmo autovalor definem um subespaço cuja dimensão é o
índice de degenerescência.
Para mais detalhes sobre o que são autovalores e autovetores, estruturas
importantíssimas em mecânica quântica e que são oriundas da álgebra linear,
recomendamos consultar o apêndice A.
Operadores auto-adjuntos satisfazem três importantes teoremas que enun-
ciamos a seguir:
Teorema 2 Se hψ|A|ψi = hψ|A|ψi∗ ∀|ψi, então A = A† .
Teorema 3 Se A for hermitiano todos os seus autovalores são reais.
Teorema 4 Autovetores de um operador hermitiano com autovalores distin-
tos são ortogonais entre si.
Quando há degenerescência, qualquer vetor pertencente ao subespaço
associado a um mesmo autovalor é autovetor de A. Neste caso, é sempre
conveniente escolher bases ortogonais nos subespaços degenerados, de modo
que em conjunto com os demais autovetores não degenerados de A, formem
uma base ortogonal em todo o espaço V .

1.3.2 Base e Projetor


Todo ket |vi pode ser expandido em termos de uma base (conjunto
ortonormal completo {φi }) da seguinte forma:
X
|vi = vi |φi i. (1.43)
i

Multiplicando a esquerda pelo bra hφi | encontramos vi = hφi | vi, ou seja, as


componentes do ket |vi na base dos |φi i são os produtos escalares hφi |vi.
Se A|φi i = ai |φi i, então o operador A pode ser escrito em termos dos seus
autovalores e autovetores:
X
A= ai |φi ihφi |, (1.44)
i
1.3. OPERADORES AUTO-ADJUNTOS (HERMITIANOS) 19

e seus autovalores e autovetores podem ser encontrados por:

det|A − ai I|= 0. (1.45)

Diante disso podemos escrever o operador projeção (projetor) P , que


projeta o vetor |vi (ou qualquer outro vetor) na base {φi } como:
X
P = |φi ihφi | = I, (1.46)
i

de forma que X
|vi = P |vi = Pi |φi i. (1.47)
i

O termo Pi = |φi ihφi | pode ser entendido como um projetor que projeta o ket
|vi no vetor de base específico |φi i.
Como a soma de todos os projetores de uma base completa é igual a
identidade (eq. (1.46)), ela pode ser usada em uma expresão algébrica para
realizar uma mudança de base (um procedimento bastante comum na resolução
de problemas), como exemplificado abaixo:
X φ X φ XX φ X ψ
|vi = vi |φi i = vi I|φi i = vi |ψj ihψj |φi i = vj |ψj i, (1.48)
i i i j j

ou, para elementos de matrizes:


XX
Mkl = hφk |M |φl i = hφk |ψi ihψi |M |ψj ihψj | φl i = hψk |M |ψl i. (1.49)
i j

Operadores de projeção podem projetar também sobre subespaços. Por


exemplo, seja o subespaço que contém mais de um |φij i associado a um mesmo
autovalor degenerado ai de um operador hermitiano A. Podemos definir o
projetor
d
X
Pi = |φij ihφij |. (1.50)
j=1

Aqui d é o índice de degenerescência e {|φi1 i, ..., |φid i} é uma base ortogonal


nesse subespaço.
Um projetor P é um operador hermitiano que satisfaz a condição de
idempotência: P 2 = P .

1.3.3 Teorema espectral


Todo esse arcabouço matemático nos permite enunciar um dos teoremas
mais importantes para a mecânica quântica:
20 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

Teorema 5 (Teorema espectral - versão discreta) Considere um ope-


rador R hermitiano de espectro puramente discreto. Esse operador, então,
pode ser escrito em termos de seus autovalores rn e dos projetores sobre os
subespaços associados da seguinte forma:
X
R= rn Pn . (1.51)
n

No caso não degenerado, a equação acima pode ser escrita em termos dos
projetores sobre os autovetores |rn i de R:
X
R= rn |rn ihrn |. (1.52)
n

Para espaços de dimensão infinita (a versão contínua do teorema) devemos


ser cuidadosos na definição de operadores hermitianos, pois as condições de
contorno devem ser levadas em conta. Vejamos um exemplo:
d
Exemplo 5 Seja o operador D = −i dx definido no espaço de todas as funções
diferenciáveis de uma variável no intervalo a ≤ x ≤ b. Usando a definição de
adjunto:

hφ|D|ψi = hψ|D|φi∗
Z b "Z #∗
b
∗ † ∗
φ (x)D ψ(x)dx = ψ (x)Dφ(x)dx . (1.53)
a a

Porém φDψ = D[φψ] − (Dφ)ψ. Então, integrando por partes o termo do lado
direito encontramos:
Z b Z b b
φ∗ (x)D† ψ(x)dx = φ∗ (x)Dψ(x)dx + i [ψ(x)φ(x)∗ ] . (1.54)
a a a

O último termo do lado direito depende de condições de contorno (os


valores das funções nos extremos do intervalo). Se escolhemos condições de
contorno adequadas, por exemplo, φ(a) = φ(b) = ψ(a) = ψ(b) = 0, então
o último termo se anula e o operador D é hermitiano e, portanto, valerá o
teorema espectral.

Assim sendo, para a equação diferencial


d
−i φ(x) = λφ(x) (1.55)
dx
que tem como solução φ(x) = ceiλx , onde c é uma constante, se considerada
uma equação de autovalores para o operador D, as soluções válidas estarão
1.3. OPERADORES AUTO-ADJUNTOS (HERMITIANOS) 21

restritas a um certo espaço vetorial, que pode ser definido dependendo das
condições de contorno que são impostas. Um caso específico largamente
utilizado na física são as condições de contorno periódicas, φ(a) = φ(b).
Considerando a = −L/2 e b = +L/2, os autovalores formarão um conjunto
discreto λ = λn = 2πn/L, com n inteiro. Se nenhuma condição de contorno
for imposta, D não será hermitiana e não será de interesse para a mecânica
quântica.
Antes de apresentar a forma mais geral do teorema espectral, é conveniente
recordar ainda o conceito de integral de Stieltjes (de forma bem simplificada).
Seja um intervalo [a, b] sobre a reta real (eixo x) e duas funções reais f (x) e
g(x) limitadas, definidas sobre [a, b]. Seja p = {a = x0 < x1 < ... < xn = b}
uma partição de [a, b] e ∆xi = xi+1 − xi . A integral de Stieltjes é definida
como
Z b n−1
X
f (x)dg(x) = lim
n→∞
f (xi )[g(xi+1 ) − g(xi )]. (1.56)
a Max(∆xi )→0 i=0

Se g(x) = x, a integral de Stieltjes se reduz à integral de Riemann. Se g(x) é


diferenciável, Z b Z b
dg
f (x)dg(x) = f (x) dx. (1.57)
a a dx

Exemplo 6 Seja g(x) = Θ(x − xi ), onde Θ(x) é a função degrau de


P
i
Heaviside. Neste caso,
Z b Z b
dg
f (x)dg(x) = f (x) dx
a a dx
Z b X
= f (x) δ(x − xi )dx
a i
X
= f (xi ). (1.58)
i
xi ∈[a,b]

Vemos que dependendo de g(x), a integral de Stieltjes pode se transformar em


uma soma discreta.

Suponhamos agora que um certo operador hermitiano A tenha o espectro


contínuo, com autovalores λ. Seja E(λ1 ) um projetor sobre o subespaço
associado a todos os autovalores λ ≤ λ1 .

Teorema 6 (Teorema espectral - versão contínua) Para cada operador


auto adjunto A, existe uma família única de projetores E(λ) com as seguintes
22 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

propriedades:

• Se λ1 < λ2 , então E(λ1 )E(λ2 ) = E(λ2 )E(λ1 ) = E(λ1 ).


• Se  → 0+ , então E(λ + )|ψi → E(λ)|ψi.
• Se λ → −∞, então E(λ)|ψi → 0.
• Se λ → +∞, então E(λ)|ψi → |ψi.
Z ∞
• λ dE(λ) = A. (1.59)
−∞

Exemplo 7 O teorema espectral em sua versão contínua aplica-se também


ao caso discreto. Se a um operador hermitiano A está associada a família de
projetores E(λ) dada por
X
E(λ) = |φi ihφi |Θ(λ − ai ), (1.60)
i

o teorema espectral diz que


Z ∞
A= λ dE(λ)
−∞
Z ∞
dE
= λ dλ
−∞
Z ∞

X
= λ |φi ihφi |δ(λ − ai )dλ
−∞ i
X
= ai |φi ihφi |. (1.61)
i

Exemplo 8 Uma forma mais comum de se encontrar o teorema espectral


nos textos de mecânica quântica é a seguinte. Considere o operador posição
Q e seus autovetores |qi Embora os vetores |qi não sejam bem definidos no
espaço de Hilbert, por terem norma infinita, a família de projetores
Z λ
E(λ) = |qihq|dq (1.62)
−∞

é bem definida. Levando E(λ) no teorema espectral, chegamos a


Z ∞
Q= q|qihq|dq. (1.63)
−∞

Mencionamos as duas versões do teorema espectral, para espectro contínuo


e discreto, comentamos sobre as condições para que ele seja válido (operadores
hermitianos e condições de contorno adicionais para operadores em dimensão
infinita), mas omitimos a demonstração do teorema espectral devido a sua
complexidade.
1.3. OPERADORES AUTO-ADJUNTOS (HERMITIANOS) 23

1.3.4 O teorema espectral e as soluções reais em física


Em muitos livros e comentários sobre mecânica quântica existe uma certa
urgência em se usar operadores hermitianos por causa do teorema 3 que
garante os autovalores de um operador hermitiano como sendo números reais.
Embora o tratamento de mensuráveis físicos como números reais seja algo
intuitivo, ele é simplesmente uma convenção. Poderíamos, de igual forma e
sem alterar nada de fundamentalmente importante em M.Q., usar números
complexos para representar mensuráveis físicos. E, seguindo essa lógica,
poderíamos deixar de lado a condição de hermiticidade e usar classes mais
gerais de operadores, como por exemplo a dos operadores normais (AA† =
A† A), que admitem a decomposição espectral com autovalores complexos. De
fato, alguns autores já propuseram essa generalização [6, 7, 8]. Entretanto, a
associação de resultados de medições a números reais e o uso de operadores
hermitianos para representar as respectivas quantidades físicas prevalece na
grande maioria dos textos de mecânica quântica.

1.3.5 Teoremas importantes sobre operadores hermiti-


anos
Além da importância do teorema espectral que já mencionamos, exis-
tem outros dois teoremas importantes sobre operadores hermitianos que
gostaríamos de enunciar.

Teorema 7 Sejam A e B dois operadores hermitianos, cada um deles pos-


suindo um conjunto completo de autovetores (uma base). Se os operadores
comutam, ou seja, se AB = BA então existe um conjunto completo de
autovetores (uma base) para ambos A e B.

Teorema 8 Qualquer operador que comuta com todos os operadores de um


conjunto completo de operadores que comutam entre si é uma função de
operadores deste conjunto.

O teorema 7 é de grande importância em mecânica quântica e está nova-


mente associado a operadores hermitianos. Porém, ele possui uma condição
adicional: exige que dois operadores A e B, hermitianos, também comutem
entre si.
Caso esses dois operadores sejam os únicos que comutam entre si e que
possuem bases completas, então dizemos que esses operadores formam um
conjunto completo de operadores que comutam (C.C.O.C.). O te-
orema 7 garante que sempre é possível encontrar uma base comum que
24 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

diagonaliza todos os operadores de um C.C.O.C. Não necessariamente esse


conjunto consistirá de apenas dois operadores.
A título de curiosidade, o C.C.O.C. do átomo de hidrogênio, um dos
sistemas quânticos mais simples que existe, consiste nos operadores L2 , Lz ,
H, S 2 e Sz , consistindo-se de cinco operadores. Veremos isso em detalhes
mais tarde.
Exemplo 9 (Exemplo de função de operadores) Seja o operador A her-
mitiano A|ai i = ai |ai i com hai | aj i = δij . Pelo teorema espectral:
X
A= ai |ai ihai |, (1.64)
i

uma função f (A) de operadores é tal que:


X
f (A) = f (ai )|ai ihai |, (1.65)
i

um exemplo de função de operadores seria f (A) = An . Essa função satisfaz,


assim como os números reais,
An Am = An+m . (1.66)

1.4 Teoria de probabilidade


A teoria de probabilidade representa, junto com a álgebra linear, um
pilar da mecânica quântica. Enquanto na mecânica clássica valores definidos
são atribuídos aos mensuráveis físicos, na mecânica quântica calculam-se
as probabilidades de determinados mensuráveis físicos terem determinados
valores. Logo, similar ao que foi feito para a álgebra linear, começaremos com
as definições importantes da teoria da probabilidade.

1.4.1 Definições iniciais


Seja P (A|B) a probabilidade de encontrar o evento A sob condições
determinadas pelo evento B.
Exemplo 10 Qual é a probabilidade de se jogar um dado e tirar um número
par?
Evento A = jogar um dado
Evento B = obter número par
3 1
P (A|B) = = = 50 %. (1.67)
6 2
Definições:
1.4. TEORIA DE PROBABILIDADE 25

(a) Negação de A (b) Conjunção de A (c) Disjunção de A


(∼ A) com B (A &B) e B (A ∨ B)

(d) Conjunção de A (e) Conjunção de


e não B (A & ∼ B) não A e B (∼
A &B)

1.4.2 Axiomas da teoria da probabilidade


A teoria da probabilidade está fundamentada nos seguintes axiomas:

Axioma 1 0 ≤ P (A|B) ≤ 1 (a probabilidade é não negativa e menor ou


igual a 1)

Axioma 2 P (A|A) = 1 (a probabilidade de um evento condicionado a ele


mesmo é igual a 1)

Axioma 3 P (∼ A|B) = 1 − P (A|B) (probabilidade complementar)

Juntos, axiomas 2 e 3 implicam em P (∼ A|A) = 0

Axioma 4 P (A&B|C) = P (A|C)P (B|A&C)

Exemplo 11 Calcule a probabilidade de ao se jogar um dado obter um


número par e esse número par ser 6.
Evento A = Jogar um dado
Evento B = Sair um número par
Evento C = Sair o número 6
Logo teremos P (A/C) = 61 e também P (B|A&C) = 1 portanto:

1 1
P (A&B|C) = P (A|C)P (B|A&C) = 1 = . (1.68)
6 6
26 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

Note que não há necessidade de um axioma para a disjunção:

P (A ∨ B|C) = 1 − P (∼ A & ∼ B|C), (1.69)

pois A ∨ B = ∼ A & ∼ B. No lado direito da equação anterior, podemos usar


o axioma 4. Existe uma forma de calcular disjunção através de probabilidades
de eventos:

P (A ∨ B|C) = P (A|C) + P (B|C) − P (A&B|C). (1.70)

Note que num diagrama de conjuntos, o último termo corresponde à subtração


do termo de conjunção para que este não seja contado duas vezes. Este
resultado possui um caso especial para o qual os eventos A e B são ditos
mutuamente exclusivos de C. Nesse caso P (A&B|C) = 0 daí:

P (A ∨ B|C) = P (A|C) + P (B|C). (1.71)

Com essa condição de exclusividade mútua os eventos A e B são inter-


cambiáveis:
P (A|C)P (B|A&C) = P (B|C)P (A|B&C), (1.72)

disto podemos tirar o teorema de Bayes:

P (A|B&C)P (B|C)
P (B|A&C) = . (1.73)
P (A|C)

Exemplo 12 Calcule a probabilidade de ao se jogar um dado sair um número


6 sendo que o resultado foi um número par.
Evento A = Resultado foi um número par
Evento B = Sair 6
Evento C = Jogar um dado
Logo teremos:

1 3 1
P (A|B&C) = 1, P (B|C) = , P (A|C) = = , (1.74)
6 6 2

pelo teorema de Bayes teremos:


1
1× 6 1
P (B|A&C) = 1 = . (1.75)
2
3
1.4. TEORIA DE PROBABILIDADE 27

1.4.3 Eventos independentes


Dois eventos A e B são ditos estocasticamente (ou estatisticamente)
independentes quando for válido:

P (B|A&C) = P (B|C), (1.76)

o que implica em:


P (A&B|C) = P (A|C)P (B|C). (1.77)
Um exemplo simples de eventos independentes são as múltiplas jogadas
de uma moeda. Os resultados que podem ser obtidos em cada jogada (cara
ou coroa) são independentes entre si. A independência de resultados tam-
bém é importante na distribuição binomial, que veremos mais adiante. A
equação (1.77) pode ser estendida para n eventos, resultado na multiplicação
sucessiva das probabilidades independentes.

Exemplo 13 (Desigualdade de Bell) Considere um evento ξ, e a ele es-


tão ligados os eventos letra (com resultados A ou B), número (resultados 1
ou 2) e seta (resultados ↑ ou ↓), sendo letra, número e seta mutuamente
independentes entre si. Para sistemas desse tipo, vale a seguinte relação:

P (A&(∼ 1)|ξ) + P (1&(∼↑)|ξ) ≥ P (A&(∼↑)|ξ). (1.78)

Para demonstrar esta desigualdade, note que existem 8 possíveis combina-


ções de resultados {(A, 0, ↑), (A, 0, ↓), (A, 1, ↑), (A, 1, ↓), (B, 0, ↑), (B, 0, ↓),
(B, 1, ↑), (B, 1, ↓)}, e que P (A&(∼ 1)|ξ) = P (A&0& ↓ |ξ) + P (A&1& ↑ |ξ);
P (1&(∼↑)|ξ) = P (A&1& ↓ |ξ) + P (B&1& ↑ |ξ); P (A&(∼↑)|ξ) = P (A&1& ↑
|ξ) + P (A&1& ↓ |ξ).

Exemplo 14 (Desigualdade de Bell-Wigner) Sejam seis eventos A1 , B1 ,


C1 , A2 , B2 , C2 . Todos os eventos estão associados a valores + e −, mutua-
mente exclusivos, sendo que α1 e α2 (α = A, B, C) são anti correlacionados,
isto é, se α1 = +, então α2 = −, e assim por diante. Chamando de P (αj ) a
probabilidade de que αj = +, a desigualdade de Bell-Wigner [9] estabelece que

P (A1 &C2 ) ≤ P (A1 &B2 ) + P (B1 &C2 ). (1.79)

No seu artigo [9], Wigner usa esta desigualdade para provar a impossibilidade
de se atribuir valores objetivos (ainda que aleatórios) simultaneamente às três
componentes do spin de uma partícula de spin 12 .

Estas desigualdades são importantes em física (particularmente em infor-


mação quântica) e são adequações do que ficou conhecido como desigualdade
de Bell, demonstrado pela primeira vez por John Bell em 1964 [10].
28 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

1.5 Distribuições de probabilidade


Distribuição de probabilidade é uma forma de descrever as probabilidades
de ocorrência de um evento através de uma função matemática. O uso
de distribuições de probabilidade facilita a análise de diversos problemas
probabilísticos. Podemos entender, de certa forma, que a função de onda
(solução da equação de Schrödinger) é uma distribuição de probabilidade.
Comentaremos sobre isso mais adiante.
Discutiremos aqui dois tipos de distribuições que são comumente obser-
vadas, embora muitas outras existam na natureza [11]. Mas inicialmente,
definimos o conceito geral de momentos de uma distribuição.

1.5.1 Momentos de uma distribuição


Considere uma função p(x), diferenciável, que representa uma distribuição
de probabilidade associada aos possíveis valores x de uma variável aleatória
contínua X. Faremos uma discussão de momentos para variáveis contínuas,
mas o mesmo segue válido para variáveis discreta.
Definimos o primeiro momento (ou o momento de primeira ordem) da
distribuição de probabilidade de X como sendo a integral:
Z
hXi = xp(x)dx, (1.80)

sendo Ω o espaço onde a variável aleatória X apresenta valores. Para uma


variável discreta a expressão anterior se reduz a um somatório. Sendo assim,
o momento de n-ésima ordem é dado por:
Z
n
hX i = xn p(x)dx, (1.81)

e para uma função de uma variável aleatória, f (X), que também é uma
variável aleatória, segue valendo:
Z
hf (X)i = f (x)p(x)dx, (1.82)

dizemos que o momento existe se a integral converge (em algumas distribuições


mais complicadas pode acontecer dos momentos serem infinitos). Em alguns
problemas é costume calcular os chamados momentos centrais que são
deslocados. O n-ésimo momento central é dado por:
Z
n
µn = h(X − hXi) i = (x − hxi)n p(x)dx. (1.83)

1.5. DISTRIBUIÇÕES DE PROBABILIDADE 29

Em física geralmente chamamos os primeiros momentos de valor esperado


ou de valor médio. O momento central de segunda ordem é normalmente
conhecido como variância e é muito usado para caracterizar distribuições.
Através da variância define-se o desvio padrão:
rD E
σ= (∆x)2 . (1.84)

1.5.2 Distribuição binomial


Considere um experimento aleatório E que possui apenas dois resultados
A e ∼ A (note que essa é apenas uma notação, os resultados podem ser 0 ou 1,
pra cima ou pra baixo, sim ou não, etc). O resultado A possui probabilidade
p de ocorrer (P (A|E) = p) e o resultado ∼ A possui probabilidade 1 − p de
ocorrer (P (∼ A|E) = 1 − p).
Cada experimento aleatório E é independente dos outros. Repete-se esse
experimento um total de N vezes e obtêm-se n vezes o resultado A e N − n
vezes o resultado ∼ A. A probabilidade de se encontrar o resultado A um
número r de vezes (r < N ) é dado pela distribuição binomial:

  N!
P n = r|E N = pr (1 − p)N −r . (1.85)
r! (N − r)!

O primeiro termo é o número de permutações possíveis de N elementos (o


total de vezes que o experimento é repetido) tomados r a r vezes (o número
de vezes que obtemos A como resultado). O termo pr é a probabilidade de se
obter r vezes o resultado A. O último termo é a probabilidade de se medir
∼ A um número N − r de vezes.
O valor médio da distribuição binomial (primeiro momento) e a variância
(segundo momento central) são dados por:
D E
hni = N p, (∆n)2 = N p(1 − p). (1.86)

A título de ilustração, considere 10 jogadas sucessivas de uma moeda. A


probabilidade de sair cara ou coroa é de p = 1/2. A seguir apresentamos dois
gráficos com todos os resultados possíveis para a probabilidade de se obter de
1 até 10 caras e outro com todos os resultados possíveis para a probabilidade
de se obter de 1 até 30 caras:
30 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

(f) Gráfico com N = 10 (g) Gráfico com N = 30

Figura 1.1: Gráficos de distribuições binomiais de jogadas de moedas.

O gráfico da direita possui um pico mais estreito e mais concentrado que


o da esquerda. Na seção §1.5.4 comentaremos mais sobre isso.

1.5.3 Distribuição gaussiana


Outra distribuição de probabilidade de grande relevância em física é a
distribuição gaussiana ou distribuição normal. Considere uma variá-
vel aleatória contínua X. A função densidade de probabilidade (a função
matemática que descreve a distribuição de probabilidade) da distribuição
gaussiana é dada por:

1 1 x−µ 2
p(x) = √ e− 2 ( σ ) , (1.87)
σ 2π

cujos momentos são:


D E
hXi = µ, (∆X)2 = σ 2 . (1.88)

A partir dessa distribuição de probabilidade é possível calcular a pro-


babilidade de se medir X no intervalo de −∞ até um dado valor a como
sendo: Z a
P (X < a) = p(x)dx, (1.89)
−∞

note que essa integral é numérica e, portanto, é muito comum o uso de softwa-
res ou de tabelas para achar as probabilidades pedidas. Abaixo apresentamos
o gráfico de uma distribuição gaussiana de média nula:
1.6. EXERCÍCIOS 31

Figura 1.2: Gráfico de uma distribuição gaussiana com µ = 0 e σ = 1.

Note que a forma dessa distribuição (a menos de sua “espessura”, que


é regulada pelo desvio padrão σ) é muito similar à envoltória dos dados da
distribuição binomial, em especial aquela para N = 30. Veremos isso a seguir.

1.5.4 Lei dos grandes números


A probabilidade de se encontrar um resultado de uma distribuição binomial
se aproxima de zero quando N → ∞. Reparemos nos gráficos da figura 1.1:
a probabilidade para N = 30 é muito pequena.
Além disso, quando N é grande a distribuição binomial se comporta
como uma distribuição gaussiana. Se X é uma distribuição binomial com N
experimentos e probabilidade p, então a variável aleatória √X−N p é uma
N p(1−p)
variável aleatória gaussiana com média nula e variância unitária (conhecida
como distribuição normal padrão).
Em muitos problemas que envolvem distribuições binomiais com gran-
des números (valor de N muito grande) é mais adequado trabalhar com a
distribuição gaussiana (a aproximação é ainda melhor quando N cresce).

1.6 Exercícios
Exercício 1.1 Os números complexos poder ser considerados elementos (ve-
tores) de um espaço vetorial linear de 2 dimensões? Explique (veja a seção
§1.1.1).

Exercício 1.2 Prove que as funções sin x e sin(2x) são L.I. Utilize direta-
mente a equação (1.2).

Exercício 1.3 Prove que as funções do exercício 1.2 são ortogonais. Con-
firme o resultado do teorema 1.
32 CAPÍTULO 1. PRÉ-REQUISITOS MATEMÁTICOS

Exercício 1.4 Prove a desigualdade de Schwarz, equação (1.7).

Exercício 1.5 Prove a desigualdade do triângulo, equação (1.8).


   
3 1
Exercício 1.6 Qual é o operador que leva ψ = 2 em φ = 0 ambos
   

1 1
elementos de R3 ? Esse operador é linear?

Exercício 1.7 Mostre que ψ(x) = ex é solução da equação de operadores


(1.29). Nesse caso dizemos que ψ(x) é autofunção do operador O.

Exercício 1.8 Prove a propriedade de produto externo, equação (1.35).

Exercício 1.9 Prove a invariância do traço para mudanças de base. Use a


notação de Dirac.
 
0 1 0
Exercício 1.10 Encontre os autovalores e autovetores da matriz A = 1 0 1.
 

0 1 0

Exercício 1.11 Prove os teoremas (2)-(4) de operadores auto-adjuntos.

Exercício 1.12 Prove as propriedades de hermiticidade e idempotência2 do


operador projeção, equação (1.50).

Exercício 1.13 Prove a equação (1.66).

Exercício 1.14 Prove a desigualdade de Bell-Wigner (1.79).

Exercício 1.15 Prove os momentos da distribuição binomial, equação (1.86).

Exercício 1.16 Prove os momentos da distribuição gaussiana, equação (1.88).

Exercício 1.17 Calcule a probabilidade de se encontrar cara 5 vezes jogando


uma moeda 10 vezes. Calcule a probabilidade de encontrar cara 50 vezes
jogando uma moeda 100 vezes. Compare os resultados considerando o que foi
exposto na seção §1.5.4.

Exercício 1.18 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].

2
Idempotência é a propriedade dos operadores que poderem ser aplicados várias vezes
sem que o valor do resultado se altere após a aplicação inicial.
Capítulo 2

A formulação da mecânica
quântica

2.1 Postulados
A mecânica quântica é fundamentada em dois postulados (segundo o
formalismo construído por Ballentine [2]) que definem os aspectos mecânicos
e probabilísticos da teoria:

Postulado 1 (Aspecto mecânico) Para cada variável dinâmica R (conceito


físico) existe um operador hermitiano R (objeto matemático) cujos autovalores
representam os valores possíveis para a variável dinâmica.

Postulado 2 (Aspecto probabilístico) Para cada estado existe um operador de


estado único ρ, que deve ser hermitiano, não-negativo e de traço unitário. O
valor médio de uma variável dinâmica R, representada pelo operador R, obtido
em um conjunto (virtual) de eventos que podem resultar de um procedimento
de preparação e medida do estado representado pelo operador ρ é dado por:

hRi = Tr(ρR). (2.1)

É importante ter em mente que as expressões “valores possíveis para a


variável” e “valor médio de uma variável” referem-se a resultados de medições,
e não a realidades objetivas que precedem as medições. Retornaremos a este
ponto na seção 2.5.

33
34 CAPÍTULO 2. A FORMULAÇÃO DA MECÂNICA QUÂNTICA

2.2 Operadores de estado


O postulado 2 da M.Q. associa a cada estado físico um operador ρ, único,
que atua no espaço de Hilbert H que representa o sistema, com as seguintes
características:

Normalização: Tr(ρ) = 1, (2.2)


Não-negatividade: hu|ρ|ui ≥ 0, ∀|ui ∈ H, (2.3)
Hermiticidade: ρ = ρ† . (2.4)

Considere um operador de estado que possui a forma particular:

ρ = |ψihψ|, com hψ|ψ i = 1. (2.5)

Neste caso, segundo o postulado 2 o valor esperado de um operador R


hermitiano é:

hRi = Tr(ρR) = Tr(|ψihψ|R) = hψ |ψihψ|R|ψi = hψ|R|ψi. (2.6)

Se o espaço em questão tiver dimensão finita n escrevemos:


· · · ρ1n
   
ρ11 ρ12 u1
   ρ21 ρ22 · · · ρ2n 
  u2 
 
hRi = u∗1 u∗2 · · · u∗n · 

 .. .. .. . · . ,
 (2.7)
 . . . ..   .. 
ρn1 ρn2 · · · ρnn un

estando |ψi e ρ representados em uma base {|φi i}, com ui = hψ|φi i e ρij =
hφi |ρ|φj i.

2.3 Estados puros e estados não-puros


As condições de traço unitário, hermiticidade e não negatividade implicam,
respectivamente, que os autovalores λn de ρ satisfazem

λn = λ∗n ,
X
λn = 1, λn ≥ 0. (2.8)
n

Note que duas dessas propriedades refletem os axiomas 1 e 2 da teoria da


probabilidade (§1.4.2). A hermiticidade leva a representações para as quais
vale o teorema espectral - no caso discreto ρ = n λn |φn ihφn | (com {|φn i}
P

uma base ortonormal de autovetores de ρ). n o


Se dois ou mais operadores de estado ρ(i) satisfazem às três condições
para ρ, então o operador de estado ρ = i ai ρ(i) também satisfaz, desde que
P
2.4. DISTRIBUIÇÃO DE PROBABILIDADES 35

0 ≤ ai ≤ 1 e i ai = 1. A essa construção damos o nome de conjunto


P

convexo. Estados formados por um conjunto convexo podem ser puros ou


não puros:

• Estados puros: São estados que podem ser escritos na forma

ρ = |ψihψ|, (2.9)

que satisfaz automaticamente ρ = ρ2 . Usando a segunda condição


da equação (2.8), temos que λn = λ2n , implicando que ou λn = 0 ou
P
λn = 1. Como a condição n λn = 1 vale para um suposto conjunto
convexo, concluímos que neste caso o estado possui apenas um λn não
nulo. Como veremos no capítulo 4, em muitos casos os estados puros
podem ser representados também por funções, conhecidas como funções
de onda.

• Estados não-puros: Sejam ρu = |uihu| e ρv = |vihv| dois estados


puros. A partir deles podemos construir:

ρa = aρu + (1 − a)ρv = a|uihu| + (1 − a)|vihv|. (2.10)

Esta construção parece indicar que os estados puros são mais fundamen-
tais, e que os estados não puros são misturas estatísticas destes. Mas
deve-se tomar cuidado com esta concepção, pois a combinação convexa
nunca é única. Pode-se definir outros estados ρx e ρy em função de ρu
e ρv , e definir ρa como mistura daqueles. Ou seja, a princípio não há
nada de mais fundamental em ρx e ρy .

Como exemplo, um laser monocromático de polarização definida e bem


estabilizado em amplitude e fase prepara a luz em um estado muito próximo
de ser puro, denominado estado coerente. Já a luz emitida por um corpo
negro só pode ser representada por um estado não puro, conhecido como
estado térmico.

2.4 Distribuição de probabilidades


O postulado 2 nos permite escrever a probabilidade de se medir um certo
valor r para a variável dinâmica representada pelo operador R em um sistema
preparado no estado representado pelo operador ρ. De acordo com o postulado
1, os possíveis resultados da medição de R só podem ser os seus autovalores
36 CAPÍTULO 2. A FORMULAÇÃO DA MECÂNICA QUÂNTICA

rn . Assim, a probabilidade de se medir um particular autovalor rm é dada


pelo valor esperado do projetor |rm ihrm |:
X
Prob(R = rm |ρ) = Tr(ρ|rm ihrm |) = hrn |ρ|rm ihrm |rn i
n
= hrm |ρ|rm i. (2.11)

Caso o nível m seja degenerado, deve-se somar os valores de hrm |ρ|rm i para
todos |rm i de autovalor rm . Se o estado for puro ρ = |ψihψ|,

Prob(R = rm |ρ) = |hψ|rm i|2 , (2.12)

Caso contínuo: Se o observável R tiver espectro contínuo, temos que


calcular a probabilidade de se medir o valor de r no intervalo ∆ = [rm −
δr, rm + δr], onde δr é a resolução do aparelho de medida. Usando a equação
(1.62), podemos definir o projetor sobre o intervalo ∆ como
Z
P∆ = E(rm + δr) − E(rm − δr) = |rihr|dr. (2.13)

Assim, podemos calcular

Prob(r ∈ ∆|ρ) = Tr(ρP∆ )


Z ∞
= hr0 |ρP∆ |r0 idr0
−∞
Z ∞ Z 
= hr |ρ|rihr|r idr dr0
0 0
−∞ ∆
Z
= hr|ρ|ridr. (2.14)

No cálculo acima, usamos o fato de que a normalização dos autovetores no


caso de espectro contínuo é dada por hr|r0 i = δ(r − r0 ), onde δ(r) é a função
delta de Dirac. Desta forma, podemos interpretar g(r) = hr|ρ|ri como a
densidade de probabilidade associada à variável dinâmica R pelo estado ρ.
Se o estado for puro, ρ = |ψihψ| e g(r) = |hr|ψi|2 .

2.5 Algumas questões de interpretação


O significado físico atribuído ao termo estado varia de autor para autor.
Embora todos os autores sérios o utilizem corretamente do ponto de vista
matemático, há divergências de opinião sobre o que o estado representa de fato.
Alguns sustentam que o estado pode representar sistemas individuais, como
por exemplo, o spin de uma única partícula. Esta interpretação atribui uma
2.5. ALGUMAS QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO 37

certa realidade ao estado e traz consigo dificuldades conceituais relacionadas ao


processo de medição, como veremos a seguir. É importante ter em mente que
o fato de se atribuir realidade física ao estado, seja por meio de uma função de
onda ou por uma mistura estatística de funções de onda, não significa atribuir
realidade física a todas as suas variáveis dinâmicas simultaneamente. O
caráter probabilístico da M.Q. surgiria então como consequência do princípio
de incerteza, segundo o qual existem variáveis dinâmicas que são incompatíveis,
isto é, não podem coexistir como realidades objetivas. Devido a este fato,
o processo de medição, cujo resultado fornece um valor bem determinado
para uma variável dinâmica, produz um colapso do estado, de modo que os
possíveis valores das outras variáveis que são incompatíveis com a que foi
medida sejam completamente indeterminados. Em princípio, o colapso do
estado visto como um processo físico não traz dificuldades conceituais quando
estamos tratando de sistemas simples de uma única partícula. Mas a M.Q.
prevê situações em que certos sistemas de duas ou mais partículas separadas
espacialmente e submetidas a medições independentes produzem resultados
que requerem que o colapso do estado seja um processo com velocidades
fortemente superluminais, além de outras dificuldades [12].
Outros autores já afirmam que o estado representa um ensemble infinito
(portanto hipotético) de sistemas identicamente preparados e que não faz
sentido atribuir realidade física ao estado de um único sistema. Nesse contexto,
o estado é um objeto matemático que nos permite obter toda a informação
estatística possível sobre um determinado ensemble de sistemas identicamente
preparados. Em outras palavras, as predições da M.Q. são relacionadas dire-
tamente às probabilidades dos resultados possíveis de experimentos realizados
um certo ensemble de sistemas. Um exemplo mundano: jogar uma moeda
pode ser um destes procedimentos de preparação de um sistema. Posso fazer
isto uma infinidade de vezes e determinar a probabilidade de se encontrar
cara ou coroa. Mas não posso dizer se um lançamento em particular resultará
em cara ou coroa. Na mecânica clássica, pode-se sonhar em ter a informação
sobre a posição e o momento de todas as estruturas do universo (moeda,
moléculas de ar, solo...) e com isso ser capaz de prever o resultado de um
lançamento. Por trás dessa hipótese está o conceito de realidade objetiva do
microestado do sistema, isto é, todas as variáveis dinâmicas possuem valores
bem determinados. O caráter estatístico surge da impossibilidade prática de
se ter em conta todas essas variáveis e suas condições iniciais. A mecânica
quântica veio mostrar que o programa da mecânica estatística não se aplica
nem mesmo a sistemas isolados de duas partículas.
Aqui, adotamos esta segunda posição e identificamos o estado de um
sistema com o procedimento de preparação ao qual foi submetido. Nas palavras
de Einstein (1949):
38 CAPÍTULO 2. A FORMULAÇÃO DA MECÂNICA QUÂNTICA

“As tentativas de conceituar as discussões teóricas da M.Q. como descrição


completa de sistemas individuais levam a interpretações teóricas não naturais,
totalmente desnecessárias se você aceita a interpretação de que as discussões
se referem a um conjunto de dados.”
Assim sendo, adotaremos a visão de que os dois postulados da M.Q.
definem o que é um estado e o que se pode saber sobre ele, de um ponto de
vista puramente operacional. Discussões detalhadas e muito interessantes
sobre diversas interpretações da M.Q. podem ser encontradas nas referências
[13, 14, 15, 16, 17]

2.6 Exercícios
Exercício 2.1 Escreva a Eq.2.6 na forma matricial.
!
1 1
Exercício 2.2 Mostre que a matriz M = não serve como um opera-
0 1
dor de estado. Justifique.

Exercício 2.3 Mostre que Tr(|uihv|) = hv|ui.

Exercício 2.4 Dados os operadores de estado a seguir:


! !
1/4 3/4 9/25 12/25
ρ1 = , ρ2 = , (2.15)
3/4 3/4 12/25 16/25
quais deles podem representar um estado? Justifique sua resposta.
√ √
Exercício 2.5 O operador ρ3 = 13 |uihu|+ 23 |vihv|+ 32 |uihv|+ 32 |vihu| admite
qual representação matricial? Esse operador pode representar um estado? Por
quê?

Exercício 2.6 Dados os operadores de estado a seguir, qual(is) dele(s) re-


presenta(m) estado(s) não-puro(s)?
   
1/2 0 1/4 1/2 0 1/4
ρ4 =  0 1/2 0 , ρ5 =  0 1/4 0 . (2.16)
   

1/4 0 0 1/4 0 1/4

Exercício 2.7 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].


Capítulo 3

Cinemática e dinâmica
quânticas

Neste capítulo construiremos os conceitos da cinemática e da dinâmica


em M.Q. fundamentados em álgebra linear, teoria da probabilidade, nos
postulados (§2.1)), e na premissa de que as leis da natureza são invariantes
às operações de simetria específicas do espaço-tempo.
A importância da simetria do espaço-tempo está presente já em mecânica
clássica e constitui uma característica fundamental das teorias quânticas
de campos modernas. O primeiro teorema de Noether, publicado em 1918,
afirma que toda simetria diferenciável1 da função lagrangiana de um sistema
físico tem uma lei de conservação correspondente. Sob este aspecto, as leis
do movimento da mecânica clássica são uma formalização das propriedades
de conservação de energia e momento (linear e angular) e estas, por sua vez,
são consequências das simetrias do universo. Em M.Q. o mesmo acontece.
Por simplicidade, trabalharemos no limite não-relativístico (v << c) e toda
discussão desse capítulo será baseada em estados puros, o que nos permite
trabalhar diretamente com o vetor de estado |ψi sem a necessidade de se
trabalhar com operadores de estado.

3.1 Transformações de estados e observáveis


Comecemos essa seção com um importante teorema:

Teorema 9 (Teorema de Wigner) Um mapeamento de um espaço veto-


rial em outro, no mesmo espaço, deve preservar o valor de |hφ|ψi| e pode
1
Simetria diferenciável significa uma transformação de coordenadas (ou suas velocidades)
contínuas infinitesimais que deixa o sistema invariante.

39
40 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

ser implementado através de operadores unitários ou anti-unitários (também


chamados lineares e anti-lineares).

Em outras palavras, se há uma transformação de estados e de observáveis


entre dois sistemas de referência (nomeadamente os sistemas S e S0 ) então a
probabilidade deve ser invariante e a seguinte igualdade |hφ0 | ψ 0 i| = |hφ|ψi|
deve valer tanto no sistema S quanto no sistema S0 .
O teorema também estabelece que o operador U que implementa essa
transformação é um operador unitário ou anti-unitário, ou seja, satisfaz
U U † = U † U = ±1 (sendo 1 a operação de identidade).
Consideremos um operador hermitiano tal que A|φn i = an |φn i no sistema
S. No sistema S0 temos A0 |φ0n i = an |φ0n i. Note que temos o mesmo autovalor
pois transformações de base não alteram os autovalores (valores esperados)
de um operador. Pelo teorema de Wigner |φ0n i = U |φn i então:

A0 U |φn i = an U |φn i, (3.1)

multiplicando à esquerda por U −1 encontramos:

U −1 A0 U |φn i = U −1 an U |φn i, (3.2)

como an é um escalar, comuta com U e encontramos:

U −1 AU = A, ou ainda A = U AU −1 . (3.3)

Considere, agora, uma família de operadores unitários U (s), que dependem


de um parâmetro contínuo s. Além disso define-se U (0) = 1 e U (s1 + s2 ) =
U (s1 )U (s2 ). Consideremos que s é um parâmetro infinitesimal tal que valha
a expansão de Taylor:
dU  
U (s) = 1 + s + O s2 , (3.4)
ds s=0

o mesmo deve ser válido para U † :

† dU †  
U = (s) = 1 + s + O s2 , (3.5)
ds s=0

tal que:
dU †
" #
dU
UU† = 1 + s + = 1, (3.6)
ds ds s=0
logo:
dU dU †
+ = 0, (3.7)
ds ds
3.2. SIMETRIAS NO ESPAÇO-TEMPO 41

cuja solução é do tipo:


U (s) = eiKs , (3.8)
com K = K † . Em palavras: o operador que realiza a transformação de um
sistema S para um sistema S0 (seja lá qual for essa transformação) é uma
exponencial de um operador multiplicado por um parâmetro s. Esse operador
K é necessariamente hermitiano e está associado à natureza do parâmetro
s. Veremos mais adiante as características de K e de s e vislumbraremos a
crucial importância desse resultado em M.Q.

3.2 Simetrias no espaço-tempo


Considerando o limite não-relativístico (v << c), as simetrias do espaço-
tempo são descritas pelo grupo de Galileu (quando v ≈ c as simetrias são
descritas pelo grupo de Lorentz). O ponto mais importante das simetrias é que
as leis da física tem que ser invariante para transformações de coordenadas.
Em M.Q. essa assertiva é assegurada pelo teorema de Wigner.
A transformação de coordenadas mais geral possível é:

~x → ~x0 = R~x + ~a + ~v t, (3.9)


t → t0 = t + s, (3.10)

sobre a equação (3.9) o seu primeiro termo corresponde às rotações, o segundo


às translações e o terceiro aos movimentos com velocidade relativa entre
referenciais. Já a equação (3.10) corresponde a translações temporais.
Podemos pensar em transformações sucessivas. Seja τ1 = τ1 (R1 , ~a1 , ~v1 , s1 )
e τ2 = τ2 (R2 , ~a2 , ~v2 , s2 ). Queremos calcular τ3 = τ1 τ2 . Usando as relações de
teoria de grupos temos2 :

R3 = R2 R1 , ~a3 = ~a2 + R2~a1 + ~v2 s1 , (3.11)


~v3 = ~v2 + R2~v1 , s3 = s2 + s1 , (3.12)

ou seja

~x00 = R2 (R1~x + ~a1 + ~v1 t) + ~a2 + ~v2 (t + s1 ), t00 = t + s1 + s2 , (3.13)

que corresponde às transformações de τ1 e em seguida de τ2 . Como as


transformações são garantidas por operadores unitários então U (τ2 )U (τ1 )|ψi
e U (τ3 )|ψi devem ser iguais a menos de um fator de fase, logo:

U (τ2 τ1 ) = eiω(τ2 ,τ1 ) U (τ2 )U (τ1 ). (3.14)


2
O tratamento de teoria de grupos para simetrias de espaço encontra-se no apêndice C.
42 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

Importante ressaltar que quando representamos um vetor arbitrário |ψi


em coordenadas (comumente chamado de função de onda ψ(x), ver capí-
tulo 5), existe uma relação inversa na atuação do operador unitário quando
comparamos a atuação no vetor ou nas suas coordenadas:
 
U (τ )ψ(x) = ψ τ −1 x . (3.15)

3.3 Geradores do grupo de Galileu


Qualquer operador unitário de 1 parâmetro único (uniparamétrico) pode
ser expresso como a exponencial de um “gerador hermitiano”. Como o grupo
de Galileu envolve 3 rotações espaciais, 3 translações espaciais, 3 velocidades
relativas e uma translação temporal temos 10 geradores no caso geral, e
escrevemos:
10
eisµ Kµ , com Kµ = Kµ† ,
Y
U= (3.16)
µ=1

consideremos o parâmetro sµ infinitesimal3 , de tal forma que:


10
X
U =1+i sµ Kµ . (3.17)
µ=1

Consideremos, agora, a aplicação de 2 operadores infinitesimais do grupo


de Galileu seguido de suas inversas:
U = eiKµ eiKν e−iKµ e−iKν , (3.18)
expandindo até primeira ordem encontramos:
 
U = 1 + 2 (Kν Kµ − Kµ Kν ) + O 3 , (3.19)
lembrando sempre que a equivalência entre dois operadores é única a menos
de uma fase, ou seja:
10

X
e U =1+i sµ Kµ + iω1. (3.20)
µ=1

A equivalência entre as equações (3.20) e (3.19) para os 11 parâmetros


(os 10 parâmetros sµ e o parâmetro ω da fase) deve ser tal que o comutador
[Kµ , Kν ] seja uma combinação linear dos geradores e do operador identidade:
10
cλµν Kλ + ibµν 1,
X
[Kµ , Kν ] = i (3.21)
λ=1
3
Veja a equação (3.99) e considere apenas o primeiro termo.
3.3. GERADORES DO GRUPO DE GALILEU 43

Transformações espaço-temporais Operador Unitário


Rotação em torno de um eixo α
e−iθα Jα
x → Rα (θα )x
Translações em torno de um eixo α
e−iaα Pα
x α → x α + aα
Velocidade ao longo do eixo α
e−ivα Gα
x0α = xα + vα t
Translações temporais
e−isH
t0 → t + s

Tabela 3.1: Transformações de Galileu e seus geradores.

a forma específica de cλµν depende das relações de transformações de coorde-


nadas dadas pelas equações (3.12), já a forma de bµν depende do fator de
fase.
Na tabela 3.1 listamos as operações de simetria possíveis ao grupo de
Galileu. Note que o operador associados às translações espaciais é o ope-
rador momento linear (Pα ), associado às rotações é o operador momento
angular (Jα ), associado às velocidades relativas é o operador velocidade (Gα )
e associado à translações temporais é o operador hamiltoniano (H). Estas
associações serão formalizadas mais adiante, mas já adotamos essa notação
por praticidade.
Podemos, agora, avaliar os comutadores (Eq.(3.21)) escolhendo pares
de geradores e substituindo na Eq.(3.18), considerando as operações da Eq.
(3.12), com as formas escalares, vetoriais e matriciais adequadas a estas
operações4 . Finalmente teremos as relações de comutação entre todos os
geradores de transformações de simetria:

[Pα , Pβ ] = 0, [Gα , Gβ ] = 0, [Pα , H] = 0, (3.22)


[Jα , Jβ ] = iαβγ Jγ , [Jα , Pβ ] = iαβγ Pγ , [Jα , Gβ ] = iαβγ Gγ , (3.23)
[Gα , Pβ ] = iδαβ M 1, [Gα , H] = iPα , [Jα , H] = 0. (3.24)

As equações acima5 dependem de um parâmetro M que, até o momento,


não pode ser definido pelas equações que temos a disposição, a menos de ser
uma constante, resultado que pode ser obtido através do Lema de Schur:

Lema 1 (Lema de Schur) Se as representações de um determinado grupo


são irredutíveis, um operador que comuta com os operadores desse grupo só
pode ser uma matriz constante (múltiplo da identidade).
4
Por exemplo, para rotação, ver Eqs.(1.21).
5
123 = 231 = 312 = 1; 213 = 132 = 321 = −1; αβγ = 0 se α = β.
44 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

Geralmente os operadores de interesse em M.Q. formam uma representação


irredutível do grupo de Galileu, valendo o lema de Schur. A definição de
representações redutíveis e irredutíveis, e uma prova do Lema de Schur podem
ser encontrada no Apêndice B, seguindo [3].

3.4 Identificação dos operadores com as va-


riáveis dinâmicas
3.4.1 Operador posição
Podemos definir o operador posição de uma partícula Q = (Q1 , Q2 , Q3 )
como sendo:
Qα |~xi = xα |~xi, α = 1, 2, 3, (3.25)

cujos autovalores dão a posição da partícula. Note que Q é um operador


hermitiano. Esse operador exige que o espaço seja tratado como contínuo,
o que é verdade nas escalas atômicas e nuclear e pode falhar na escala
astronômica (por conta de efeitos de Relatividade Geral) ou na escala de
Plank (10−34 m). O subgrupo formado por todos os operadores posição é
abeliano, ou seja, todos os operadores são mutuamente comutantes.

3.4.2 Operador velocidade


Vamos introduzir agora um operador que chamaremos de “operador velo-
cidade”, definido por:
dhQi
= hV i, (3.26)
dt
para qualquer estado. Note que para uma partícula clássica as variâncias de
hQi e hV i são nulas e teríamos a definição clássica de velocidade. Mas por
enquanto podemos supor que estamos apenas usando a mesma palavra.
Para o caso particular de um estado puro descrito pelo vetor de estado
|ψi, o valor esperado do operador velocidade hψ|V |ψi pode ser escrito da
seguinte forma:

d
hψ|V |ψi = hψ(t)|Q|ψ(t)i (3.27)
dt ! !
d d
= hψ(t)| Q|ψ(t)i + hψ(t)|Q |ψ(t)i .
dt dt
3.4. IDENTIFICAÇÃO DOS OPERADORES COM AS VARIÁVEIS DINÂMICAS45

3.4.3 Deslocamento temporal


Aplicando um deslocamento temporal t → t0 = t + s, e lembrando que
os operadores de translação obedecem a U (τ )ψ(x) = ψ(τ −1 x), temos que tal
translação gera:
|ψ(t)i → eisH |ψ(t)i = |ψ(t − s)i, (3.28)
ou simplesmente
|ψ(t)i = e−isH |ψ(t − s)i, (3.29)
fazendo s = t encontramos a forma de aplicação do operador U = e−itH em
um vetor de estado:
|ψ(t)i = e−itH |ψ(0)i, (3.30)
que é solução de:
d
|ψ(t)i = −iH|ψ(t)i. (3.31)
dt
Note a semelhança com a Equação de Schrödinger dependente do tempo.
Falta, apenas, identificar o operador gerador de translação temporal H com
o Hamiltoniano do sistema.

3.4.4 Comutação canônica entre Q e H


Jogando os resultados da seção §3.4.3 em (3.28) encontramos:
V = i[H, Q]. (3.32)
Temos aqui uma definição para o operador velocidade em função da relação de
comutação entre o operador gerador de translação temporal H e o operador
que extrai a posição da partícula Q, advinda diretamente da definição dos
valores esperados de V (Eq.(3.26)).

3.4.5 Deslocamento espacial


Consideremos a transformação de coordenadas: ~x → ~x0 = ~x + ~a. O
operador que implementa essa transformação de coordenadas é o operador
momento linear:
|~xi0 = e−ia·P |~xi = |~x + ~ai, (3.33)
mas para o operador Q0 = e−ia·P Qeia·P vem:
Q0α |~xi0 = xα |~xi0 , (3.34)
porém, por outro lado, Qα |~xi = xα |~xi e também |~xi0 = |~x + ~ai e comparando
encontramos:
Q0 = Q − a1, (3.35)
46 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

que corresponde a uma medida de posição em relação a uma origem deslocada


espacialmente.

3.4.6 Comutação canônica entre Q e P


Usando a expansão de Taylor: e−iaα Pα = 1 + iaα Pα + O(a2 ), considerando-
se deslocamentos infinitesimais, encontramos:

e−iaα Pα Qeiaα Pα = (1 − iaα Pα )Q(1 + iaα Pα ) (3.36)


 
= Q + Qiaα Pα − iaα Pα Q + O a2 ,

simplificando e usando Q0 = e−iaα Pα Qeiaα Pα = Q − a1 encontramos:

i[Qaα Pα − aα Pα Q] = Q − aα I, (3.37)

então:
[Qα , Pβ ] = iδαβ 1, (3.38)

que é a relação canônica de comutação entre as componentes dos operadores


Q e P.

3.4.7 Rotação de um ângulo infinitesimal e comutação


canônica entre Q e J
A transformação correspondente a uma rotação de um ângulo infinitesimal
θ em torno de um vetor unitário n̂, que leva ~x → ~x0 = ~x + θn̂ × ~x, corresponde
à seguinte operação nos autovetores do operador posição:

~
|xi → |xi0 = e−iθn̂·J |xi = |x0 i, (3.39)

cuja atuação no operador posição é:

~ ~
Q0α = e−iθn̂·J Qα eiθn̂·J . (3.40)

Repetindo os mesmos cálculos de antes somos capazes de demonstrar:

[Jα , Qβ ] = iαβγ Qγ . (3.41)


3.5. FORMAS ESPECÍFICAS DOS GERADORES DO GRUPO DE GALILEU47

3.4.8 Deslocamento no espaço de velocidades e comu-


tação canônica entre Q e G
Por fim, precisamos descrever a transformação de velocidades, implemen-
tada pelo operador G:
~ ~
ei~v·G V e−i~v·G = V − v1, (3.42)

que tem forma exatamente análoga ao vetor Q. Repetindo os cálculos de


antes encontramos:
[Gα , Qβ ] = 0. (3.43)

3.5 Formas específicas dos geradores do grupo


de Galileu
Estamos interessados, agora, em obter a forma específica dos geradores de
simetria do grupo de Galileu e tornar explícita a semelhança destes operadores
com as grandezas de momento linear, momento angular e energia, através de
suas relações com o operador posição Q. Os resultados dependem, entretanto,
da partícula ter ou não graus de liberdade internos. Para desenvolvermos
essas ideias consideramos separadamente três casos:

3.5.1 Caso 1: Partícula livre sem graus de liberdade


internos
Consideremos as relações de comutação, em especial:

[Gα , Pβ ] = iδαβ M 1, (3.44)

e também:
[Qα , Pβ ] = iδαβ 1, (3.45)
por comparação podemos supor que a solução para G é Gα = M Qα , porém
não sabemos se ela é única.
Construímos G − M Q que, obviamente, comuta tanto com P quanto
com G. Mas como P e Q formam uma representação irredutível, pelo lema
de Schur, os operadores que comutam com ele têm que ser um múltiplo da
identidade, logo:

Gα − M Qα = cα 1, ⇒ Gα = M Qα + cα 1, (3.46)
48 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

que é a relação mais genérica possível que podemos obter para Gα . Além
disso, as seguintes relações de comutação:
[Jα , Gβ ] = iαβγ Gγ , [Jα , Qβ ] = iαβγ Qγ , (3.47)
mostram que tanto G quanto Q se comportam como vetores no sentido usual
(satisfazem às mesmas relações de comutação de vetores 3D). Porém, cα 1
não é um vetor e, portanto, devemos exigir cα = 0, o que torna a solução
Gα = M Qα única.
Continuando, podemos fazer algo análogo para J. Consideremos as
seguintes relações de comutação:
[Qα , Pβ ] = iδαβ 1, [Jα , Jβ ] = iαβγ Jγ , [Jα , Pβ ] = iαβγ Pγ , (3.48)
[Jα , Gβ ] = iαβγ Gγ , [Jα , Qβ ] = iαβγ Qγ . (3.49)
Temos que J = Q × P é uma solução. Construímos J − Q × P que comuta
com Q e P e, pelo lema de Schur, J − Q × P tem que ser um múltiplo da
identidade. Como antes J também se transforma como vetor, logo a constante
multiplicativa da identidade tem que ser nula, assim:
J = Q × P. (3.50)
Para o caso do operador H temos que:
[Gα , H] = iPα , Gα = M Qα , (3.51)
tal que podemos obter:
iPα
[Qα , H] =
. (3.52)
M
Uma solução possível é construir: H = P·P2M
. Como fizemos antes, cons-
truímos H − P·P
2M
, que comuta com Q e P e, pelo lema de Schur, deve ser um
múltiplo da identidade. Aqui não temos argumento para fazer igual a zero a
constante multiplicativa da identidade, então ficamos com:
P·P
H= + E0 , (3.53)
2M
onde E0 é alguma “energia” de referência.
Por fim, para o operador V , encontramos:
P·P
 
V = i[H, Q] = i + E0 , Q , (3.54)
2M
usando as relações de comutação encontramos:
P P P
 
V =i (−i1 + QP ) − (i1 + P Q) = . (3.55)
2M 2M M
3.5. FORMAS ESPECÍFICAS DOS GERADORES DO GRUPO DE GALILEU49

Podemos, então, resumir as relações obtidas como sendo:


1
P = M V, H = M V · V + E0 , J = Q × M V. (3.56)
2
É digno de nota que a constante M que aparece nas relações acima
ainda não possui dimensão, é apenas um parâmetro real que obtivemos
algebricamente nas relações de comutação dos geradores do grupo de Galileu.
Em outras palavras, a constante M surge de forma natural quando estamos
considerando as relações de comutação do grupo de Galileu.
É possível determinar experimentalmente a razão (M/massa), assim como
as razões entre (P/momento linear) e todos os outros operadores mencionados
com as respectivas grandezas clássicas análogas. Importante frisarmos aqui
que, até o momento, não explicitamos que os operadores explorados são ligados
aos conceitos clássicos cujos nomes eles remetem. Apenas reservamos a mesma
nomenclatura para identificá-los. Essa razão entre todos os operadores não é
senão h̄−1 :
M P H J 1
= = = = cte fundamental = .
massa mom. linear energia mom. angular h̄

É surpreendente perceber que a mesma constante física fundamental serve


para dar sentido físico a todos os geradores do grupo de Galileu. Com a
razão 1/h̄ podemos interpretar M como massa, P como momento linear,
H como energia e J como momento angular. A operação de translação
espacial é regida, de fato (não apenas por semelhança de notação), pelo
operador momento linear e é dado pela expressão e−ia·P/h̄ . Similarmente
para rotação e translação temporal. Podemos, então, substituir M → M/h̄,
P → P/h̄, J → J/h̄ e H → H/h̄ nos resultados das equações da seção §3.3,
ou simplesmente pensar neles sob a condição h̄ = 1.
Voltamos, assim, ao que foi escrito no início deste capítulo: O bem
estabelecido teorema de Noether da mecânica clássica assegura que simetrias
do sistema físico levam a leis de conservação. Com o arcabouço da M.Q.,
que em muitos aspectos é análogo ao arcabouço clássico, podemos importar
boa parte das análises e conclusões que foram construídas antes da M.Q.,
guardadas as devidas semelhanças de estarmos falando de operadores e não
mais de funções.
O valor da constante de Plank (h = 6.62607015 × 10−43 J.s, com h̄ =
h/2π) foi fixado na 26a Convenção Geral de Pesos e Medidas6 , em Versalhes,
novembro de 2018, quando foi internacionalmente acordada a nova definição
do kilograma. As unidades do sistema internacional, que no passado foram
6
[Link] acesso em 11/02/2019,
50 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

definidas com base em um protótipos físicos que eram mantidos no Escritório


Internacional de Pesos e Medidas (França), hoje estão todas atreladas a
experimentos físicos que podem ser repetidos em qualquer parte do planeta,
tendo as constantes físicas fundamentais como referência (ver Fig. 3.1). Estes
acordos têm a função de balizar todas as transações comerciais no planeta
(porque não dizer: no universo).

Figura 3.1: As unidades do sistema internacional são definidas a partir das


constantes fundamentais da natureza.

3.5.2 Caso 2: Partícula com spin


O spin de uma partícula pode ser considerado como um grau de liberdade
interno, independente de Q e P . Pelo lema de Schur, como existe um operador
que comuta com ambos Q e P , estes não formam mais uma representação
irredutível e é necessário redefinir operadores para incluir este novo grau
de liberdade. Como o spin é, por definição, uma contribuição interna ao
momento angular total de uma partícula, temos:

J = Q × P + S, (3.57)

onde S é o operador de spin, com [Q, S] = [P, S] = 0. Como J deve respeitar


a primeira relação de comutação em (3.23), e Q × P respeita esta relação,
então:
[Sα , Sβ ] = iαβγ Sγ . (3.58)
E como [J, H] = 0, devemos ter [S, E0 ] = 0, o que implica que termo E0
do hamiltoniano dependerá de S.
3.5. FORMAS ESPECÍFICAS DOS GERADORES DO GRUPO DE GALILEU51

Fisicamente, se não há interação de campos externos com os graus de


liberdade internos, estes não afetarão as propriedades do centro de massa
da partícula. Consistentemente, utilizando as regras de comutação pode-se
mostrar que as relações G = M Q e P = M V permanecem válidas.

3.5.3 Caso 3: Partícula interagindo com campos exter-


nos
Por simplicidade, consideremos a ausência de graus de liberdade internos.
No caso de partículas interagindo com campos externos, a interação modifica
a evolução temporal do estado, e consequentemente das probabilidades de
distribuição dos observáveis. Neste caso, H deve ser visto de forma mais
ampla, como o gerador da evolução dinâmica dependente do tempo H(t), e
não mais um simples gerador de translação no tempo. H deve ser redefinido
para que a equação do movimento (3.31):

d
|ψ(t)i = −iH(t)|ψ(t)i, (3.59)
dt
continue válida e as condições de comutação com os outros operadores da
cinemática devem ser reavaliadas. Além disso a solução V = P/M não é mais
única, uma vez que sua definição leva a V = i[H, Q], que envolve H. Para
generalizá-la,considerando o teorema 8, precisamos incluir algo que, pelas
relações de comutação, tem que ser uma função de Q:

P − A(Q)
V= , (3.60)
M
e a solução mais geral possível para o hamiltoniano fica sendo:

(P − A(Q))2
H= + W (Q). (3.61)
2M
As formas possíveis de H, para que sejam invariantes ante as transformações
do grupo de Galileu, incluem um potencial vetor A(Q) e um potencial escalar
W (Q) que podem ambos variar no tempo, porém têm que ser independentes
de P , uma vez que P significa uma operação geométrica pura de translação
consistente do sistema no espaço. Essas mudanças são necessárias para que
sigam valendo as relações de comutação entre os geradores do grupo de
Galileu.
Finalmente, agora podemos identificar H como sendo o operador Hamil-
toniano do sistema.
52 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

3.6 Sistemas compostos


Vamos agora generalizar os resultados sobre as variáveis dinâmicas de
partículas simples para sistemas compostos. Se duas componentes de um
sistema não influenciarem de nenhuma forma um ao outro, deve ser possível
descrever uma componente sem fazer qualquer menção à outra. Se:

A(1) |am i = am |am i(1) , (3.62)


B (2) |bn i = bn |bn i(2) , (3.63)

onde os índices “(1)” ou “(2)” indicam que a operação atua unicamente nas
partículas 1 ou 2, respectivamente. No sistema composto teremos:

A(1) |am , bn i = am |am , bn i, (3.64)


B (2) |am , bn i = bn |am , bn i, (3.65)

em que usamos o produto de Kronecker:

|am , bn i = |am i(1) ⊗ |bn i(2) . (3.66)


! !
a a b b
Exemplo 15 Considere A = 11 12 e B = 11 12 teremos que:
a21 a22 b21 b22

a11 b11 a11 b12 a12 b11 a12 b12


 
a b a11 b22 a12 b21 a12 b22 
A ⊗ B =  11 21 . (3.67)
 
a21 b11 a21 b12 a22 b11 a22 b12 
a21 b21 a21 b22 a22 b21 a22 b22

O produto de Kronecker nos permite entender que os operadores A e B


atuam apenas na parte do sistema em que estão definidos:
 
(1) (1)
Ai |am , bn i = Ai |am i(1) ⊗ |bn i(2) (3.68)
 
(2) (2)
Bj |am , bn i = |am i(1) ⊗ Bj |bn i(2) , (3.69)

além disso:
   
(1) (2)
(Ai ⊗ Bj )|am , bm i = Ai |am i(1) ⊗ Bj |bn i(2) , (3.70)

assim temos que:


(1) (2)
Ai = Ai ⊗ 1, Bj = 1 ⊗ Bj , (3.71)
e também vale que: h i
(1) (2)
Ai , Bj = 0, ∀i, j. (3.72)
3.7. EQUAÇÕES DE MOVIMENTO| 53

Como componentes independentes elas devem satisfazer (veja Eq. (1.77)):

P (A&B|C) = P (A|C)P (B|C), (3.73)

daí teremos:

Pab {(A = am )&(B = bn )|ψ} = |ham , bn |ψi|2 = |ham | ϕi|2 |hbn |φi|2 . (3.74)

Esta fatorização vale sempre que o estado (não necessariamente puro) satisfaz
|ψi = |ϕi(1) ⊗ |φi(2) . Estes tipo de fatorização indica que os estados são não
correlacionados, classificação que será discutida no capítulo 8.

3.7 Equações de movimento|


Considerando operadores unitários de deslocamento temporal t → t0 = t+s
escritos na forma U = eisH , a equação de evolução temporal para o estado
|ψ(t)i (3.31) é dada por:

d i
 
|ψ(t)i = − H(t)|ψ(t)i. (3.75)
dt h̄
Considerando que o sistema está no estado inicial t = t0 , a solução escrita
em termos dos operadores de evolução temporal é:

|ψ(t)i = U (t, t0 )|ψ(t0 )i, (3.76)

em que U (t, t0 ) deve satisfazer a equação diferencial:

∂ i
U (t, t0 ) = − H(t)U (t, t0 ), (3.77)
∂t h̄
sujeita à condição inicial: U (t0 , t0 ) = 1. Se H é hermitiano, U (t, t0 ) é unitário,
∀t.
A equação admite solução se H independe do tempo:

U (t, t0 ) = e−i(t−t0 )H/h̄ , (3.78)

caso contrário, U (t, t0 ) depende H e a equação só pode ser resolvida iterati-


vamente (através de uma série conhecida como série de Dyson).
Para um operador de estado puro ρ temos que:

ρ(t) = |ψ(t)ihψ(t)| = U (t, t0 )|ψ(t0 )ihψ(t0 )|U † (t, t0 ) = U (t, t0 )ρ(t0 )U † (t, t0 ).
(3.79)
54 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

Queremos calcular a derivada de ρ em relação ao tempo:

dρ(t) d
= [U (t, t0 )ρ(t0 )U (t, t0 )]
dt "dt
dU †
#
dU (t, t0 )
= ρ(t0 )U † (t, t0 ) + U (t, t0 )ρ(t0 ) (t, t0 )
dt dt
i i †
   
† †
= − H(t)U (t, t0 ) ρ(t0 )U (t, t0 ) + U (t, t0 )ρ(t0 ) U (t, t0 )H (t)
h̄ h̄
ih i
= − H(t)ρ(t) − ρ(t)H † (t)

i
= − [H(t), ρ(t)], (3.80)

pois H é hermitiano. Essa é a equação de movimento para o operador de
estado ρ.
Pelos postulados da M.Q., os observáveis físicos estão atrelados às distri-
buições de probabilidade dos observáveis, em especial dos seus valores médios.
A evolução temporal de um observável R é dada por:

P rob(R = r|ρ) = hRit = T r{ρ(t)R}


n h i o
= T r U † (t, t0 ) U (t, t0 )ρ(t0 )U † (t, t0 )R U (t, t0 )
n o
= T r ρ(t0 )U † (t, t0 )RU (t, t0 ) , (3.81)

onde usamos o fato de


n o traço
o de uma matriz ser invariante a uma operação
de similaridade (T r U M U = T r{M }) e U † U = 1. Com esta operação,

podemos definir o operador RH , que é o observável R no chamado cenário


de Heisenberg:
RH (t) = U † (t, t0 )RU (t, t0 ). (3.82)
E neste cenário temos:

hRit = T r{ρ(t0 )RH (t)}. (3.83)

Aqui é importante fazer a distinção entre dois possíveis cenários em


mecânica quântica: o cenário de Schrödinger e o cenário de Heisenberg7 .
No cenário de Schrödinger (mais usual) a evolução temporal do sistema é
carregada pelo operador de estado ρ (Eq.(3.80)). No cenário de Heisenberg
a evolução temporal do sistema é carregada pelos observáveis (ver Eq.(3.84)
abaixo).
7
Preferimos utilizar “cenário” em vez de “representação” para não causar confusão com
outras utilizações desta.
3.8. COMENTÁRIOS SOBRE MECÂNICA QUÂNTICA RELATIVÍSTICA55

Ambos cenários são equivalentes na descrição quanto-mecânica da evolução


temporal do sistema e, em princípio, podem ser usados para resolver o
mesmo problema (embora não possamos, jamais, misturá-los em uma mesma
descrição). Dependendo do problema que queremos resolver, um dos cenários
será preferível sobre o outro.
Analogamente ao desenvolvimento realizado no cenário de Schrödinger,
no cenário de Heisenberg temos:
!
dRH (t) i ∂R
= [HH (t), RH (t)] + , (3.84)
dt h̄ ∂t H

lembrando sempre que HH = U † HU . Note que, para um tratamento con-


sistente, se no cenário de Schrödinger ρ “se move” pra frente no tempo, no
cenário de Heisenberg os operadores R “se movem” para trás. Por isso o sinal
“−” ou “+” nas equações (3.80) e (3.84), respectivamente.
A dependência temporal dos valores médios pode ser obtida nos dois
cenários considerando-se:
( )
dhRi ∂ρ ∂R
= Tr R+ρ , (3.85)
dt ∂t ∂t

que leva aos dois cenários:


( )
dhRi i ∂R
= T r ρ(t)[H, R] + ρ(t) , (3.86)
dt h̄ ∂t
e ( ! )
dhRi i ∂R
= T r ρ0 [H, RH (t)] + ρ0 . (3.87)
dt h̄ ∂t H
Para estados puros
hRi = hψ(t)|R|ψ(t)i (3.88)
ou
hRi = hψ0 |RH (t)|ψ0 i. (3.89)

3.8 Comentários sobre mecânica quântica re-


lativística
Na construção que fizemos até aqui exigimos que as leis da mecânica
quântica são invariantes perante a ação do grupo de Galileu. Isso é equi-
valente a dizer que as probabilidades são as mesmas em dois sistemas de
referência diferentes se, e somente se, essas transformações de referenciais
56 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

forem implementadas por operadores unitários ou anti-unitários (devido ao


teorema de Wigner).
Uma outra forma de perceber esse cenário é notar que todos os geradores
do grupo de Galileu comutam com H, o hamiltoniano. Conforme comentamos
ele é o gerador das translações temporais e todos os demais geradores do
grupo de Galileu comutam com ele. Isso é uma manifestação do caráter
não-relativístico da teoria que construímos.
Suponha, então, que estejamos interessados em construir uma teoria quân-
tica que seja invariante perante o grupo de Lorentz, o grupo que implementa
as transformações de coordenadas que são estabelecidas pela relatividade
restrita.
Sabemos que as transformações de Lorentz misturam componentes espaço-
temporais e também misturam energia e momento (como podemos facilmente
perceber na relação pra energia relativística). Essa mistura de componentes
impede que os geradores do grupo de Lorentz comutem com H, uma diferença
bastante notável para o caso clássico.
Esse é um problema a ser contornado e, portanto, não se pode estabelecer
H e os demais geradores de forma “independente” mas, sim, temos que
estabelecê-los todos de uma vez só.
Por conta dessas sutilezas a construção matematicamente rigorosa da
mecânica quântica relativística é bem mais complexa e envolve o conhecimento
do grupo de Lorentz (em vez do grupo de Galileu) e de suas estruturas (mais
especificamente, envolve a representação do grupo de Lorentz).
Por outro lado é graças a teoria quântica relativística que podemos conhecer
bastante coisa acerca da natureza como, por exemplo, o spin e a anti-matéria.
A construção de uma equação relativística para o elétron, a famosa equação
de Dirac, leva ao surgimento natural do spin. Para maiores detalhes sobre
esses assuntos sugerimos consultar [18].

3.9 Simetrias e leis de conservação


Considere uma transformação unitária (ou seja, conduzida por um opera-
dor unitário), contínua e uniparamétrica:

U (s) = eisK , (3.90)

se o operador hamiltoniano que descreve o sistema é invariante perante essa


transformação:

U (s)HU −1 (s) = H, ⇒ [H, U (s)] = 0. (3.91)


3.10. QUANTIZAÇÃO DE UM SISTEMA CLÁSSICO 57

Se s é infinitesimal, podemos escrever:


 
U (s) = 1 + isK + O s2 , (3.92)

e temos que:
[H, U ] = [1 + isK]H − H[1 + isK] = 0. (3.93)
Rearranjando os termos chegamos em:

[H, K] = 0. (3.94)

Da Eq.(3.86), temos
( )
dhKi i ∂K
= T r ρ(t)[H, K] + ρ(t) . (3.95)
dt h̄ ∂t
Já demonstramos que o comutador é nulo. Se, adicionalmente, K não depende
explicitamente do tempo, temos:
dhKi
= 0, (3.96)
dt
ou seja, hKi é constante de movimento.
Se o operador hamiltoniano for invariante perante uma transformação
unitária e o gerador da transformação não depender explicitamente do tempo,
então esse gerador é uma quantidade conservada do sistema e a transformação
unitária é uma transformação de simetria. Esse é um resultado análogo ao
teorema de Noether da mecânica clássica.
Com essa observação vemos que, de fato, P pode ser interpretado como
momento linear, J como momento angular e H como energia, conforme já
comentamos exaustivamente nesse capítulo. Se H for invariante a translações
espaciais, então o momento linear é conservado; se H for invariante a rotações,
então o momento angular é conservado; e se H for invariante a translações
temporais, então a energia é conservada. Como na mecânica clássica.

3.10 Quantização de um sistema clássico


Dada uma função clássica r(q, p), deve existir uma regra de substituição
por um operador O(r) de forma que a relação de comutação:

[O(r), O(s)] = ih̄O({r, s}), (3.97)

é satisfeita. A regra de substituição r(q, p) → O(r) é chamada quantização


de sistemas clássicos.
58 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

Exemplo 16 Um exemplo de quantização de sistemas clássicos (que veremos


no capítulo ??) é a quantização do campo elétrico escrito através de operadores:
Xq h i
E(~x, t) = 2πh̄ωm a†m (t) + am (t) ~um (~x). (3.98)
m

Note, entretanto, que não foi isto que fizemos ao longo deste capítulo. A
substituição r(q, p) → O(r) não pode ser vista como uma chave de seleção
entre a mecânica clássica e a mecânica quântica. A correlação é muitas
vezes útil para conectarmo-nos aos conceitos da mecânica clássica ou do
eletromagnetismo. Entretanto, matematicamente este “chaveamento” não
é completamente consistente, e do ponto de vista epistemológico, diversos
resultados e conclusões da mecânica quântica não têm paralelo clássico. A
mecânica quântica é mais geral que a clássica, e não o contrário. Abordaremos
diversos destes aspectos ao longo deste material.

3.11 Comentários sobre mecânica quântica re-


lativística
Na construção que fizemos até aqui exigimos que as leis da mecânica
quântica são invariantes perante a ação do grupo de Galileu. Isso é equi-
valente a dizer que as probabilidades são as mesmas em dois sistemas de
referência diferentes se, e somente se, essas transformações de referenciais
forem implementadas por operadores unitários ou anti-unitários (devido ao
teorema de Wigner).
Uma outra forma de perceber esse cenário é notar que todos os geradores
do grupo de Galileu comutam com H, o hamiltoniano. Conforme comentamos
ele é o gerador das translações temporais e todos os demais geradores do
grupo de Galileu comutam com ele. Isso é uma manifestação do caráter
não-relativístico da teoria que construímos.
Suponha, então, que estejamos interessados em construir uma teoria quân-
tica que seja invariante perante o grupo de Lorentz, o grupo que implementa
as transformações de coordenadas que são estabelecidas pela relatividade
restrita.
Sabemos que as transformações de Lorentz misturam componentes espaço-
temporais e também misturam energia e momento (como podemos facilmente
perceber na relação pra energia relativística). Essa mistura de componentes
impede que os geradores do grupo de Lorentz comutem com H, uma diferença
bastante notável para o caso clássico.
3.12. EXERCÍCIOS 59

Esse é um problema a ser contornado e, portanto, não se pode estabelecer


H e os demais geradores de forma “independente” mas, sim, temos que
estabelecê-los todos de uma vez só.
Por conta dessas sutilezas a construção matematicamente rigorosa da
mecânica quântica relativística é bem mais complexa e envolve o conhecimento
do grupo de Lorentz (em vez do grupo de Galileu) e de suas estruturas (mais
especificamente, envolve a representação do grupo de Lorentz).
Por outro lado é graças a teoria quântica relativística que podemos conhecer
bastante coisa acerca da natureza como, por exemplo, o spin e a anti-matéria.
A construção de uma equação relativística para o elétron, a famosa equação
de Dirac, leva ao surgimento natural do spin 1/2 e do pósitron, que na teoria
não relativística devem ser postulados. Para maiores detalhes sobre esses
assuntos sugerimos consultar [18].

3.12 Exercícios
Exercício 3.1 Prove as propriedades de multiplicação do grupo de espaço,
equações (3.11) e (3.12). Veja o apêndice B, e demonstre também a equação
de inversa C.5.
Exercício 3.2 Prove todas as relações de comutação dos geradores do grupo
de Galileu, equações (3.22), (3.23) e (3.24).
Exercício 3.3 Seja A uma matriz n × n cuja potência An existe ∀n. A
exponencial dessa matriz é definida por:

A
X An
e = . (3.99)
n=0 n!

Se A é hermitiano com A|ψi = λ|ψi, mostre que eA |ψi = eλ |ψi.


Exercício 3.4 Prove o lema de Schur.
Exercício 3.5 Prove que os operadores Q = x e P = −ih̄(∂/∂x) formam
uma representação irredutível (por simplicidade, demonstre em uma dimensão).
Note que Q e P estão escritos na representação de coordenadas, assunto do
próximo capítulo.
Exercício 3.6 Considere uma partícula com spin angular interno S na au-
sência de campo externo (§3.5.2)). Demonstre que [S, E0 ] = 0 e que, con-
sequentemente, o termo E0 do hamiltoniano dependerá de S. Utilizando as
regras de comutação, mostre que as relações G = M Q e P = M V permanecem
válidas.
60 CAPÍTULO 3. CINEMÁTICA E DINÂMICA QUÂNTICAS

Exercício 3.7 Prove que o operador de evolução temporal conduzido pelo


gerador hamiltoniano H é unitário se H for hermitiano.

Exercício 3.8 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].


Capítulo 4

Representação das coordenadas


e aplicações

4.1 Representação na Base dos Autovetores


de Q
Uma representação em M.Q. consiste em escolher uma base {|ui i} (con-
junto completo ortonormal) e representar o vetor de estado |ψi nessa base,
com os coeficientes de expansão ci dados por ci = hui |ψi e o vetor de estado
dado por: X
|ψi = ci |ui i. (4.1)
i

Se a base escolhida for a base dos autovetores de Q (base dos autovetores


do operador posição), então estamos diante de uma representação das
coordenadas. Denotaremos essa base por {|xi}. Projetando |ψi nessa base
obtemos: X
|ψi = |xα ihxα |ψi. (4.2)
α

Os coeficientes da expansão h~x| ψi = ψ(~x) definem uma função contínua


que não é outra senão a função de onda da mecânica quântica ondulatória
(aquela função que estamos acostumados a calcular em problemas clássicos
de potencial quadrado, potencial degrau, etc.).
Nessa representação a operação de operador é definida por:

Aψ(~r) = h~x|A|ψi. (4.3)

A operação do operador posição possui uma característica particular:

Qα ψ(~x) = h~x|Qα |ψi = xα h~x|ψi = xα ψ(~x), (4.4)

61
62CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

ou seja, não é senão a multiplicação da função de onda pela própria variável


xα , dado que este é o autovalor da representação nos autovetores de Q.
Estamos agora interessados em calcular a atuação do operador momento
nas funções de onda da representação das coordenadas. Calculemos a
Eq. (3.33):
~
e−i~a·P /h̄ |~xi = |~x + ~ai. (4.5)
Tomando o bra e expandindo o operador para translações infinitesimais:
i
 
h~x + ~a|ψi = ~x 1 + ~a · P~ ψ , (4.6)

usando a definição de função de onda e calculando termo a termo vem:
i
ψ(~x + ~a) = ψ(~x) + ~a · P~ ψ(~x), (4.7)

comparando esse resultado com a expansão em série de Taylor em torno de
x = a para uma função f (x):
df (x)
f (x) = f (x + a) + (x + a) + ··· (4.8)
dx x=a

isso nos permite identificar:


i d
~a · P~ = a . (4.9)
h̄ dx
Logo, na representação de coordenadas, o operador momento pode ser descrito,
em 3 dimensões, por:
P = −ih̄∇, (4.10)
como aparece usualmente na Eq. de Schrödinger em diversos livros texto
e artigos, que geralmente aparece escrita na representação de coordenadas,
como veremos a seguir.

4.2 Equação de onda e sua interpretação


Partimos da equação de Schrödinger
d
ih̄ |ψi = H|ψi, (4.11)
dt
e lembremos da equação (3.53) que define a energia cinética como sendo
(P · P)/2M , tal que na representação das coordenadas deve valer:
P·P h̄2 2
=− ∇. (4.12)
2M 2M
4.2. EQUAÇÃO DE ONDA E SUA INTERPRETAÇÃO 63

Projetando a equação de Schrödinger na representação das coordenadas, e


supondo que existe um potencial escalar W (~x) que dá conta de todas as
interações do sistema, chegamos em:

h̄2 2
" #

− ∇ + W (~x) ψ(~x, t) = ih̄ ψ(~x, t), (4.13)
2M ∂t

que é a equação normalmente conhecida como equação de Schrödinger de-


pendente do tempo.1 Note que esta forma da equação de Schrödinger não
é a forma mais geral, pois está em uma representação específica, que é a de
coordenadas. A forma “livre” de representações é a Eq. (4.11).
Muito se debateu sobre o que significa a função de onda ψ(~x, t), sendo
comum perguntas como: Se uma função de onda descrever um elétron, o
elétron descrito é uma onda ou uma partícula? Na verdade, a mecânica
quântica é uma teoria fundamentada na teoria da probabilidade, e ψ(~x, t)
deve ser visto como a densidade de probabilidade de se encontrar o sistema
em estudo (o elétron por exemplo) na posição espacial determinada por ~x, no
instante de tempo t. Para mais detalhes sobre a forma de se interpretar a
função de onda veja o capítulo 9.
Vejamos o caso de N partículas descritas na representação das coordenadas.
Necessitamos de uma base de vetores do tipo:
E E E E
x(1) , x(2) , · · · , x(N ) = x(1) ⊗ x(2) ⊗ · · · ⊗ x(N ) . (4.14)

A cada um destes vetores vai estar associado uma função de onda multivariável:
D E  
x(1) , x(2) , · · · , x(N ) |ψ = ψ x(1) , x(2) , · · · , x(N ) , (4.15)

de forma tal que a equação de Schrödinger se torna uma equação diferencial


parcial (EDP) de N variáveis:

h̄2 2 X
" N N
#
     
Wn ~x(n) + V x(1) , x(2) , · · · , x(N ) ψ x(1) , x(2) , · · · , x(N )
X
− ∇n +
n=1 2Mn n=1
∂  (1) (2) 
= ih̄ ψ x , x , · · · , x(N ) , (4.16)
∂t
 
sendo V x(1) , x(2) , · · · , x(N ) o potencial de interação entre as partículas.
A Eq.(4.16) demonstra a inadequação de se pensar na solução ψ da
equação de Schrödinger como um campo associado a uma partícula. No caso
de apenas uma partícula, o espaço ordinário e o espaço das configurações são
1
Note que aqui não aparece nenhum potencial vetor. Portanto, esta equação não pode
ser utilizada na presença de campo magnético.
64CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

isomórficos. Entretanto, se a Eq. (4.13) representasse uma partícula, para N


partículas deveríamos ter N equações de onda, e não apenas uma. Entretanto,
a função de onda ψ deve ser interpretada como uma função de estatística do
estado,

de onde podemos
2
calcular probabilidades de distribuição, utilizando
2
(1) (2) (N )
ψ x ,x ,···,x . Em outras palavras ψ x(1) , x(2) , · · · , x(N ) deve
ser visto como a densidade de probabilidade de se encontrar a partícula 1 em
x(1) , a partícula 2 em x(2) e assim por diante.

Uma suposta troca de lugar de duas partículas idênticas (por exemplo, o


elétron 1 vai para x(2) e o elétron 2 vai para x(1) ), que faria sentido no raciocínio
clássico (partícula como entidade rígida), não altera o estado quântico, e as
propriedades destes “sistemas de muitos corpos” dá origem a diversos estados
sem análogos clássicos, como o estado supercondutor da matéria. Além disto,
como as propriedades mensuráveis estão atreladas ao quadrado da função de
onda, uma troca de duas partículas pode levar à mesma função ou ao seu
negativo, sem alterar a realidade. Isso dá origem à diferenciação entre bósons
e férmions. O tratamento dos sistemas de muitos corpos dá origem também
aos procedimentos chamados “segunda quantização”, que descrevem sistemas
ondulatórios, como um oscilador harmônico ou um campo eletromagnético,
como conjunto de partículas. Todos estes problemas de muitos corpos serão
tratados em diferentes capítulos deste material.

Note que aqui utilizamos bastante a palavra “partícula”. Afinal de contas,


o elétron, o fóton... é uma onda ou uma partícula? Imagine-se na praia,
boiando na água do mar. Se você estiver depois da área de quebração das
ondas, na parte mais profunda, uma onda do mar virá, passará por você e
seguirá em frente sem perturbar muito você. Como você está boiando, seu
corpo será levado para cima e para baixo com o passar da onda, só isso. Agora
imagine-se antes da área de quebração da onda, na parte mais rasa. A onda
baterá em você, e se for uma onda grande, você será jogado longe e pode até
afogar. Você não acha que isso se parece mais com uma colisão de partículas?

Os conceitos de onda e partícula, que na mecânica clássica são muito


distintos, na mecânica quântica se confundem e estão atrelados aos conceitos de
coerência, análogo, de certa forma, ao exemplo acima da onda do mar. Neste
material utilizaremos com frequência a palavra “partícula” para descrever
o sistema em estudo, para evitar o uso de palavras abstratas como sistema,
“ente”, “coisa”... mas que fique estabelecido que devemos abandonar a rigidez
conceitual clássica a respeito de onda e partícula, e pensar na descrição
probabilística dos eventos.
4.3. TRANSFORMAÇÕES DE GALILEU NA EQUAÇÃO DE SCHRÖDINGER65

4.3 Transformações de Galileu na equação de


Schrödinger
A equação de Schrödinger (4.13) foi obtida considerando as simetrias
do espaço-tempo na geometria Euclidiana e, logicamente, é invariante às
transformações de Galileu (~x = ~x0 + ~v t0 , t = t0 ).
Já a função de onda deve refletir a necessidade de que a densidade de
probabilidade em uma região do espaço-tempo deve ser a mesma para os dois
sistemas de referência S e S 0 :
2
|ψ(x, t)|2 = |ψ 0 (x0 , t0 )| , (4.17)
o que será válido sempre que as funções de onda diferirem por uma fase:
ψ(x, t) = eif (x,t) ψ 0 (x0 , t0 ), (4.18)
onde f é uma função real das coordenadas. As transformações de Galileu,
neste caso, restringem f a:
M vx − 12 M v 2 t
f (x, t) = (4.19)

Este resultado leva a uma consideração importante sobre a função de onda.
Considere, por simplicidade, uma partícula livre (potencial W (x) = 0). A
solução da equação de Schrödinger é do tipo:
0 0
ψ 0 (x0 , t0 ) = ei(kx −ωt ) , (4.20)
que possui a forma de uma onda com comprimento de onda λ = 2π/k, que
é uma autofunção do operador momento com autovalor P = h̄k e energia
E = h̄ω = h̄2 k 2 /2M , dando origem à relação de de Broglie entre momento de
uma partícula e comprimento de onda da onda (P = 2πh̄/λ), que vale nos
dois sistemas de referência.
Quando a Eq.(4.18) é substituída pela forma da Eq.(4.20), temos

ψ(x, t) = eif (x,t) ψ 0 (x − vt, t)


" #
i i (h̄k + M v)2
= exp (h̄k + M v)x − t , (4.21)
h̄ h̄ 2M
compatível com a transformação de Galileu h̄k → h̄k 0 = h̄k + M v. Veja,
portanto, que na transformação de Galileu, o momento da partícula muda
como esperado, embora o comprimento de onda de de Broglie de ψ (P =
2πh̄/λ) se preserva. A solução deste pequeno paradoxo está no fato de que a
função de onda ψ não descreve uma onda no sentido clássico de amplitude de
onda.
66CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

4.4 Fluxo de probabilidade


A probabilidade de se encontrar uma partícula numa região Ω é dada por:
Z
|ψ(x, t)|2 d3 x . (4.22)

Calculando a derivada dessa expressão em relação ao tempo temos:

∂ψ ∗ 3
!
∂ Z ∗ 3 Z
∂ψ
ψ ψd x = ψ∗ +ψ d x, (4.23)
∂t Ω Ω ∂t ∂t

e usando a equação de Schrödinger (4.13) para substituir o termo da derivada


temporal de ψ encontramos:

∂ ~ t) = 0,
|ψ(~x, t)|2 + divJ(x, (4.24)
∂t

~ t) é o vetor fluxo de probabilidade,


que é a equação de continuidade, onde J(x,
dado por2 :

~ x, t) = − ih̄ (ψ ∗ ∇ψ − ψ∇ψ ∗ ) = h̄ Im(ψ ∗ ∇ψ).


J(~ (4.25)
2M M

Supondo que a função de onda é da forma ψ(~x, t) = A(~x, t)eiS(~x,t)/h̄ , o


vetor fluxo de probabilidade pode ser escrito como:

2
~ x, t) = A ∇S .
J(~ (4.26)
M

Por fim, o operador fluxo de probabilidades pode ser escrito também como

função do operador velocidade (ver (3.56)) considerando V = P/M = −i M ∇.
Temos então:
~ x, t) = Re[ψ ∗ (~x, t)V ψ(~x, t)].
J(~ (4.27)

~ x, t) no espaço das configurações


Se |ψ|2 d3 x = hψ| ψi = 1, a integral de J(~
R

dá a velocidade média do estado.


2
Como na Eq. de Schrödinger utilizada neste desenvolvimento não aparece nenhum
potencial vetor, esta definição do vetor fluxo de probabilidade não se aplica na presença de
campo magnético.
4.5. CONDIÇÕES DE CONTINUIDADE NAS FUNÇÕES DE ONDA 67

4.5 Condições de continuidade nas funções


de onda
A equação de continuidade, equação (4.24), requer que J~ seja contínuo
quando atravessamos superfícies de uma região para outra. Aplicando o
teorema da divergência na equação (4.24) encontramos:

∂ Z ZZ
~ x, t)d2 x,
|ψ(~x, t)|2 d3 x = − J(~ (4.28)
∂t Ω σ

σ é a superfície que delimita Ω. Para a continuidade de J~ em geral tanto ψ


quando ∇ψ tem que ser contínuos ao atravessarmos uma superfície, mudando
de regiões. Essa continuidade só não vale em potenciais infinitos ou divergentes
(como a delta de Dirac, por exemplo).

4.6 Autofunções de energia da partícula livre


Nessa seção, que comentamos brevemente aqui, o autor Ballentine discute
sobre autofunções que não pertencem ao espaço de Hilbert. Essas funções,
como por exemplo as autofunções do operador hamiltoniano para a partícula
livre, não são normalizáveis (a integral de |ψ|2 diverge) e, por isso, é necessário
construir o espaço de Hilbert estendido (rigged Hilbert space) que inclui
funções dessa natureza, permitindo a descrição quântica de problemas cujas
autofunções são não-normalizáveis.

4.7 Tunelamento
Considere a equação de Schrödinger independente do tempo em apenas
uma dimensão:
−h̄2 d2 ψ
+ W (x)ψ = Eψ. (4.29)
2M dx2
Omitimos a dependência em x da função de onda, por simplicidade, e consi-
deramos apenas a parte espacial da equação de Schrödinger original, supondo
que H não depende do tempo para fazer isso.
Definamos agora uma barreira de potencial W (x) descrita por:


 0, x < 0,
W (x) = V0 , 0 < x < a , (4.30)


0, x > a.
68CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

tal que as soluções para a função de onda nas três regiões são:

A1 eikx + B1 e−ikx ,


 x < 0,
βx −βx
ψ(x) = Ce + De , 0 < x < a, (4.31)
A2 eikx + B2 e−ikx ,


x > a,
com:
h̄2 k 2 h̄2 β 2
E= , V0 − E = . (4.32)
2M 2M
As relações de continuidade para ψ e para dψ/dx em x = 0 são dadas por:
! ! ! !
1 1 A1 1 1 C
= , (4.33)
ik −ik B1 β −β D

e em x = a são dadas por:


! ! ! !
eβa e−βa C eika e−ika A2
= . (4.34)
βeβa −βe−βa D ikeika −ike−ika B2

Define-se a matriz de transferência:

[P ] = [M1 ]−1 [M2 ][M3 ]−1 [M4 ], (4.35)

com:
! !
1 1 1 1
M1 = , M2 = (4.36)
ik −ik β −β
! !
eβa e−βa eika e−ika
M3 = , M4 = , (4.37)
βe βa
−βe−βa ike ika
−ike−ika

de tal forma que as propriedades de transmissão e reflexão da barreira de


potencial são dadas por:
! !
A1 A
= [P ] 2 . (4.38)
B1 B2

Vamos considerar, agora, o caso de uma partícula que se propaga da


esquerda para a direita, passando neste sentido pela barreira de potencial.
Neste caso podemos impor B2 = 0, ou seja, a inexistência de uma função que
representa uma partícula viajando para a esquerda na região de x > a. Neste
caso, podemos definir os coeficientes de reflexão R e de transmissão T como:
2
B1 P21 2 A2 1 2
R= = , T = = , (4.39)
A1 P11 A1 P11
4.7. TUNELAMENTO 69

onde Pij são os elementos da matriz de transferência [P ] (4.35). Os coeficientes


satisfazem: R + T = 1. O coeficiente de transmissão para esse problema é
dado por:

)−1
V 2 [sinh(βa)]2
(
T = 1+ 0 , (4.40)
4E(V0 − E)

e se βa >> 1 podemos aproximar para:

" #
4E(V0 − E) −2βa
T ≈ e . (4.41)
E2

Nessa aproximação vemos que o coeficiente de transmissão (associado à


probabilidade da partícula atravessar a barreira de potencial) decai exponen-
cialmente com o comprimento a da barreira, e também do parâmetro β que
depende da massa M da partícula, e da diferença entre a altura potencial
da barreira e a energia da partícula (V0 − E), quantidade conhecida como
função trabalho (ver (4.32)). Essa penetração de barreiras de potencial (aqui
apresentada pelo coeficiente de transmissão) corresponde a um fenômeno
puramente quântico chamado de tunelamento.
Um tipo de dispositivo eletrônico conhecido como junção Josephson usa
o princípio do tunelamento de barreira para fazer elétrons de um material
condutor tunelarem uma região estreita de material isolante. Essa junção
é usada para fabricação de dispositivos eletrônicos (como os transistores) e
para magnetômetros de alta sensibilidade.
A dependência exponencial com o comprimento da barreira é o fenômeno
por trás do funcionamento dos chamados microscópios de varredura por tune-
lamento (STM, do inglês scanning tunneling microspe). Nestes microscópios,
uma sonda metálica varre uma superfície condutora, medindo a corrente de
tunelamento entre o último átomo da sonda e os átomos da superfície do
material. Devido à sensibilidade do valor de corrente ditado pela dependência
exponencial da probabilidade de tunelamento, imagens atômicas são formadas
imageando o valor da corrente de tunelamento (ver Figura 4.1). As aplicações
desse fenômeno são inúmeras em física e engenharia.
70CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

Figura 4.1: Imagem de STM de uma folha de grafeno. Imagem realizada no


Inmetro, publicada em [19], artigo que conta com mais de 1000 citações.

O vetor fluxo de probabilidade em x > a (fluxo transmitido) e em x < 0


pode ser calculado utilizando-se (4.25) e (4.31) (com B2 = 0), e temos,
respectivamente:
h̄k h̄k  
J(x > a) = |A2 |2 , J(x < 0) = |A1 |2 − |B1 |2 . (4.42)
M M

4.8 Integrais de Caminho


4.8.1 Propagador
A técnica de integrais de caminho se baseia numa ferramenta muito útil
em mecânica quântica que é o propagador. Para construí-lo consideremos a
evolução temporal do vetor de estado:

|ψ(t)i = U (t, t0 )|ψ(t0 )i, (4.43)

de tal forma que, na representação das coordenadas, teremos:

hx|ψ(t)i = hx|U (t, t0 )|ψ(t0 )i, (4.44)

sendo que ψ(x, t) pode ser escrito em termos da função de Green:


Z
ψ(x, t) = hx|U (t, t0 )|x0 ihx0 | ψ(t0 )idx0 , (4.45)

com
G(x, t; x0 , t0 ) = hx|U (t, t0 )|x0 i. (4.46)
4.8. INTEGRAIS DE CAMINHO 71

Se em t0 o sistema está em x0 , a probabilidade de ele estar ao redor de x em t


é proprocional a |G(x, t; x0 , t0 )|2 . O caminho percorrido entre t0 e t pode ser
dividido em N intervalos de tempo, e podemos escrever:

U (tN , t0 ) = U (tN , tN −1 )U (tN −1 , tN −2 ) · · · U (t2 , t1 )U (t1 , t0 ), (4.47)

com: tN < tN −1 < · · · < t2 < t1 < t0 , com ti−1 − ti = ∆t = (tN − t0 )/N .
Com isso a função de Green pode ser decomposta em N integrais:
Z Z
G(x, t; x0 , t0 ) = ··· G(x, t; xN , tN ) · · · G(x2 , t2 ; x1 , t1 )G(x1 , t1 ; x0 , t0 )dx1 · · · dxN ,
(4.48)
representamos essa função de Green como evoluções temporais sucessivas de
x0 até xN através de N tempos t0 até tN como na figura 4.2.

Figura 4.2: Figura indicando dois caminhos traçados para a evolução temporal
de um sistema de x0 até x nos tempos t0 até t. Extraído de [2].

Para continuar nossa discussão e fazer exato o argumento da equação


(4.48), precisamos tomar o limite de partições do intervalo (x0 , x) até o infinito
(N → ∞ ou ∆t → 0):
Z N
Z Y
G(x, t; x0 , t0 ) = lim ··· G(xj+1 , tj+1 ; xj , tj )dx1 · · · dxN , (4.49)
N →∞
j=0

que define o propagador como uma integral (ou soma em um caso discreto)
sobre todos os caminhos possíveis entre x e x0 .
Note que em mecânica quântica existe a possibilidade de interferência entre
caminhos. Imagine a figura 4.2 com a partícula saindo de (x0 , t0 ) e chegando
em (x, t) passando apenas por (x1 oux01 , t1 ), ou seja, com duas possibilidade
de caminho em t1 . Este seria o experimento de interferência como o da fenda
72CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

dupla. Entretanto, em um caso mais geral, uma partícula pode ir de (x0 , t0 )


a (x, t) por infinitos caminhos diferentes que podem interferir entre si.
Considerando as equações (4.46) e (3.78) , temos que:
D E
G(x, ti ; x0 , ti−1 ) = hx|U (ti , ti−1 )|x0 i = x e−iH∆t/h̄ x0 , (4.50)

Note que o termo a direita da equação (4.49) é uma produtória infinita de


integrais de exponenciais. Feynman [20] foi o primeiro a perceber que essa
produtória infinita de integrais, chamada de integral de caminho, possuía
como “peso” a ação clássica definida por:
Z
S[x(τ )] = L(x, ẋ)dτ, (4.51)
x(τ )

com L(x, ẋ) a lagrangiana clássica de tal forma que o propagador (ou a
função de Green) são dados por:
Z
G(x, t; x0 , t0 ) = eiS[x(τ )]/h̄ d[x(τ )], (4.52)

o elemento de integração sintetiza a produtória infinita de integrais e significa


que o processo de integração tem que ser tomado por todas as trajetórias
possíveis da partícula que ligam os pontos x e x0 nos instantes de tempo t e
t0 .

4.8.2 Convergência da integração de caminho


Existem muitas críticas quanto à validade da integração de caminho
de Feynman. Matematicamente diz-se que esses são cálculos de integrais
funcionais, cujo domínio de integração são funções (e não números como
no caso da integração à Riemann). Porém existem diversos resultados que
garantem a validade da integração de Feynman no espaço euclidiano plano de
N dimensões. Até o momento não existem resultados formais que garantam
a validade da integração de Feynman para espaços não-euclidianos.
À parte disso a integração de trajetória desenvolvida por Feynman é uma
das mais importantes (se não for a mais) técnicas que existem em física teórica,
permitindo o acordo entre experimentos e previsões teóricas até quatorze
algarismos significativos. Em nenhuma outra área do conhecimento consegue-
se tamanho acordo entre teoria e experimento. Para maiores detalhes e alguns
exemplos calculados exatamente (como partícula livre e oscilador harmônico)
consultar o excelente livro do próprio Feynman e Hibbs [20, 21].
4.8. INTEGRAIS DE CAMINHO 73

4.8.3 Limite clássico


Uma diferença básica entre a mecânica clássica e a mecânica quântica
fica evidente no tratamento de integrais de caminho. Enquanto na mecânica
clássica a partícula é concebida como percorrendo uma trajetória definida
que minimiza a ação (princípio de Hamilton), em mecânica quântica todos
os caminhos (e suas interferências) devem ser considerados no cálculo das
probabilidades de eventos. Podemos buscar, então, o limite de validade da
mecânica clássica.
Quando S >> h̄, a função eiS/h̄ varia muito rapidamente fazendo com que
quase todas as contribuições se cancelam sobrando apenas a contribuição se
S[x(τ )] for estacionária para uma variação infinitesimal x0 (τ ) = x(τ ) + δx(τ )
que é exatamente equivalente ao princípio de Hamilton da mecânica clássica.
Esse método, nas referências de integração de caminho, geralmente é cha-
mado de método da fase estacionária. Ele permite calcular o propagador
para alguns exemplos bem conhecidos através do cálculo da ação clássica do
sistema e posterior integração gaussiana. Para mais detalhes desse método
sugerimos [20].

4.8.4 Tempo imaginário e física estatística


Considere que o hamiltoniano independa do tempo e t0 = 0, por simplici-
dade. Nesse caso teremos:
D E
G(x, t; x0 , 0) = x e−itH/h̄ x0 = e−itEn /h̄ ψn (x)ψn∗ (x),
X
(4.53)
n

com: Hψn (x) = En ψn (x). Substituindo o tempo real pelo tempo imaginário
t = −ih̄β encontramos:

G(x, −ih̄β; x0 , 0) = e−βEn ψn (x)ψn∗ (x) = ρβ (x, x0 ),


X
(4.54)
n

com ρβ (x, x0 ) a matriz densidade térmica na representação das coordenadas.


Essa matriz descreve um ensemble canônico para um sistema em equilíbrio
termodinâmico com um reservatório térmico a temperatura T .
Aqui apresentamos outra característica importante das integrais de ca-
minho: a partir delas é possível recuperar toda a mecânica estatística e se
calcular grandezas a partir do propagador da teoria. Esse é o ponto central
da utilidade das integrais de caminho em teoria quântica de campos.
74CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

4.8.5 Exemplo de cálculo do propagador: partícula li-


vre
O cálculo do propagador, conforme apresentado anteriormente, pode ser
bastante confuso de ser entendido, principalmente por envolver ideias de
mecânica clássica. Para simplificar iremos apresentar um exemplo do cálculo
do propagador exato para a partícula livre.
Considere uma partícula de massa m com lagrangiana:
m 2
L= ẋ , (4.55)
2
a lagrangiana de uma partícula livre em uma dimensão. Estamos interessados
em encontrar o propagador para a partícula livre. A expressão que apresenta-
mos no texto, (??), serve para o cálculo do propagador desde que seja possível
calcular a ação clássica, S[x(τ )] e depois realizar as integrações funcionais.
Esse método é muito poderoso porém é difícil de ser feito no caso geral,
quando a ação clássica é complicada ou mesmo impossível de ser obtida.
Feynman [20] desenvolveu um método usualmente conhecido como time-
slicing path integral (uma espécie de integral de caminho “discretizada”
no tempo) que simplifica o cálculo do propagador.
Seguindo fielmente a notação de Feynman em [20] e usando o princípio
de partição do tempo (tornando a integral de caminho numa produtória de
integrais) ele obtém a seguinte expressão geral para o propagador de uma
partícula:
1Z Z
dx1 dxN −1
K(b, a) = lim · · · eiS(b,a)/h̄ ··· , (4.56)
→0 A A A
aqui S(b, a) não é nada senão a ação clássica:
Z tb
S(b, a) = L(ẋ, x, t)dt, (4.57)
ta

e N é o número de partições do tempo, todas de comprimento . Quando o


comprimento  tender a zero, temos um produto infinito de integrais que é
exatamente igual à integral de caminho. O termo A são medidas de integração
que tornam a integral finita. Feynman calcula esse fator A e ele é dado por:
!1/2
2πih̄
A= , (4.58)
m

com isso o propagador ficará dado por:


N/2 Z
m
 Z
K(b, a) = lim ··· eiS(b,a)/h̄ dx1 · · · dxN −1 , (4.59)
→0 2πih̄
4.8. INTEGRAIS DE CAMINHO 75

portanto nosso trabalho consiste em calcular a ação clássica para a partícula


livre e depois calcular as integrais que aparecem (que serão gaussianas).
A ação clássica é dada por:
!2
m Z tb dx
S(b, a) = dt, (4.60)
2 ta dt

integrando por partes:


Z tb
m
 
tb
S(b, a) = [xẋ]ta − xẍdt , (4.61)
2 ta

porém, para a partícula livre, vale que ẍ = 0. Como ẋ(tb ) = vb e ẋ(ta ) = va


teremos:
m m
S(b, a) = {x(tb )vb − x(ta )va } = {xb vb − xa va }, (4.62)
2 2
como x é solução que minimiza S, não é senão a solução da equação de
movimento da partícula livre:

x(t) = x0 + vt, (4.63)

logo xa = x0 + va ta . Podemos isolar va e vb para eliminá-los da equação:

xa − x0 xb − x0
va = , vb = , (4.64)
ta tb

como a velocidade é constante vb = va = v daí temos v(tb − ta ) = xb − xa


então:
mv m (xb − xa )2
S(b, a) = (xb − xa ) = , (4.65)
2 2 tb − ta
é a ação clássica entre dois pontos a e b. Pra ficar coerente com a notação
de time-slicing, usaremos xa = x0 e xb = xN com o intervalo entre tempos
sucessivos igual a . Assim a ação se escreve:
m
S(xi , xi−1 ) = (xi − xi−1 )2 , (4.66)
2
e o propagador será:
N
N/2 Z " #
m im X
 Z
K(b, a) = lim ··· exp (xi − xi−1 )2 dx1 · · · dxN −1 .
→0 2πih̄ 2h̄ i=1
76CAPÍTULO 4. REPRESENTAÇÃO DAS COORDENADAS E APLICAÇÕES

Note que o propagador é composto apenas de integrais gaussianas que


podem ser todas elas integradas separadamente. Ou seja, primeiro integramos,
por exemplo, em x1 :
s
Z ∞
im 2πh̄
 
exp (x1 − x0 )2 dx1 = , (4.67)
−∞ 2h̄ im
esse resultado pode ser repetido N − 1 vezes, até o último termo de time-
slicing, e obteremos um fator elevado a (N − 1)/2 no expoente. Nesse processo
de integração os termos extremos, xa e xb não são afetados, logo teremos
finalmente após tomar o limite:
!1/2
im(xb − xa )2
" #
m
K(b, a) = exp , (4.68)
2πih̄(tb − ta ) 2h̄(tb − ta )
é o propagador da partícula livre.

4.9 Exercícios
Exercício 4.1 Prove que a equação de Schrödinger (4.13) é invariante pe-
rante as transformações de Galileu, e demonstre a Eq.(4.21).
Exercício 4.2 Considere as duas funções de onda abaixo:
~ ~ ~
ψ(~x, t) = Ceik·~x , ψ(~x, t) = C1 eik1 ·~x1 + C2 eik2 ·~x2 , (4.69)
mostre que ambas funções, respectivamente, levam aos vetores de fluxo de
probabilidade:

~ |C|2 h̄~k
J(~x, t) = (4.70)
M
~ x, t) = h̄ |C1 |2~k1 + |C2 |2~k2 + ~k1 + ~k2 Re(C1 C2∗ ) cos ~k1 − ~k2 · ~x
h  n h  i
J(~
M h  ioi
−Im(C1 C2∗ ) sin ~k1 − ~k2 · ~x . (4.71)
Exercício 4.3 Obtenha a forma explícita da matriz de transferência, equação
(4.35), para o problema da seção 4.7. Obtenha os coeficientes de reflexão e de
transmissão apresentados nessa seção.
Exercício 4.4 Mostre que os vetores fluxos de probabilidade para o problema
da seção 4.7 são, de fato, dados pela equação (4.42).
Exercício 4.5 Usando o propagador do exercício 4.12 (propagador para uma
partícula livre) mostre que ele satisfaz a equação de Schrödinger sendo, por-
tanto, um método alternativo para resolver os problemas de M.Q.
Exercício 4.6 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].
Capítulo 5

Representação de momento e
aplicações

5.1 Representação de momento


Similar ao que fizemos no capítulo 4 com a representação das coordenadas,
vamos tratar agora da representação de estados na base de momento. Para isso
teremos que descrever um estado |ψi na base dos autovetores |~pi do operador
momento P, com suas componentes dadas segundo o teorema espectral:

Pα |~pi = pα |~pi, α = 1, 2, 3. (5.1)

Para a base de autovetores, vale a relação de ortogonalidade:

h~p| p~ 0 i = δ(~p − p~ 0 ). (5.2)

Para explorar esta representação, calculemos a relação entre os autovetores


posição e momento escrevendo o autovetor como:

hx|P |h̄ki = h̄khx|h̄ki = −ih̄∇hx|h̄ki, (5.3)

pois |h̄ki é autovetor de P e, na representação das coordenadas, P = −ih̄∇


(veja seções §4.1 e 4.3). Comparando as duas últimas partes da igualdade
concluímos que:
~
hx|h̄ki = c(k)eik·~x . (5.4)
O valor de c(k) pode ser obtido considerando que:
Z Z
0 0 0 ∗ 0
δ(h̄k − h̄k ) = hh̄k| h̄k i = 3
hh̄k|xihx|h̄k id x = c (k)c(k) ei(k −k)x d3 x
= c∗ (k)c(k)(2π)3 δ(k − k 0 ), (5.5)

77
78 CAPÍTULO 5. REPRESENTAÇÃO DE MOMENTO E APLICAÇÕES

e usando a propriedade da função delta:


1
c(k) = √ 3 . (5.6)
2πh̄

5.1.1 Função de onda na representação de momento


Calculemos agora a função de onda |ψi na representação de momento:
Z Z
hh̄k| ψi = hh̄k| xihx| ψid3 x = (2πh̄)−3/2 e−ikx ψ(x)d3 x
= h̄−3/2 φ(k), (5.7)

onde:
1 Z
φ(k) = √ 3 e−ikx ψ(x)d3 x. (5.8)

ou seja, a representação de momento de ψ não é senão a transformada de
Fourier da representação das coordenadas da função.
Agora calculemos o valor esperado do operador posição:
Z
hh̄k|Qα |ψi = hh̄k|Qα |xihx|ψid3 x
Z
= hh̄k|xixα hx|ψid3 x
Z
= (2πh̄)−3/2 e−ikx xα ψ(x)d3 x
1 ∂φ
= √ 3 i , (5.9)
h̄ ∂k

que nos permite concluir que o operador posição, na representação de momento,


tem a forma análoga à Eq.(4.10):
∂ ∂
Qα = i = ih̄ . (5.10)
∂kα ∂pα
Como o momento é uma grandeza contínua, os seus autovetores têm
norma infinita (não são normalizáveis). Para contornar o problema supomos
que os autovetores de P são diferentes de zero dentro de um cubo de lado L
(ou alguma outra região do espaço). Assumindo que (5.4) deve obedecer às
condições de contorno periódicas (eikα 0 = eikα L ), somos levados à quantização
dos números de onda permitidos:

 
kα = N , (5.11)
L
5.2. DISTRIBUIÇÃO DE MOMENTO EM UM ÁTOMO 79

com N inteiro. Isto significa que dentro de um volume (2π/L) existe apenas
um valor permitido de k. Nesta configuração, a normalização (5.5) fica:

0 1
L hh̄k|h̄k iL = δk,k0 , ⇒ hx|h̄kiL = √ 3 eikx . (5.12)
L

Note que hx|h̄kiL , eq. (5.12), não concorda com hx|h̄ki, eq. (5.4), (ck da eq.
(5.6)) no limite de L → ∞, mas isto não é um problema. O que é necessário
é que os valores esperados dos observáveis coincidam neste limite. Dado um
estado determinado por |ψi, a probabilidade de o momento assumir o valor
discreto h̄k é dado por |hh̄k|ψi|2 , e o valor esperado do observável f (h̄k) será
dado por

f (h̄k)|hh̄k|ψi|2 .
X
hf (h̄k)i = (5.13)
k

À medida que L fica grande, os valores permitidos de k ficam muito densos,


tendendo a um contínuo. Considerando que cada valor permitido de k ocupa
um volume de (2π/L)3 , quando L → ∞ podemos trocar:
3 Z
L

d3 k,
X
→ (5.14)
k 2π

e daí teremos: !3
2 2πh̄
|L hh̄k|ψi| = |hh̄k|ψi|2 , (5.15)
L
que é um tipo de aproximação muito utilizada em física do estado sólido, em
que L é tido como o tamanho do sólido, nos quais existem as funções de onda
do material. Essa expressão garante que os valores médios tomados para o
vetor de estado |ψi na representação de momento tenham os mesmos valores
consistentes e não divergentes.

5.2 Distribuição de momento em um átomo


Um exemplo simples da utilização do formalismo da representação de
momentos é a predição da distribuição de momentos do elétron no átomo
de hidrogênio. De acordo com a Eq.(5.7), a distribuição de probabilidade de
momento no estado representado por |ψi é:
Z 2
2 −3 ~
|h~p|ψi| = (2πh̄) e−ik·~x ψ(~x)d3 x . (5.16)
80 CAPÍTULO 5. REPRESENTAÇÃO DE MOMENTO E APLICAÇÕES

Considerando que a função de onda do elétron no átomo de hidrogênio


é conhecida (veremos mais sobre ela no capítulo 10) e dada por ψ(~r) =
Ce−r/a0 , com a0 = h̄2 /M e2 (raio de Bohr), podemos utilizar a Eq.(5.16) para
demonstrar que
 −4
|h~pe |ψi|2 = c0 1 + a20 k 2 . (5.17)
Este resultado pode ser checado num experimento de colisão (ionização) onde
um feixe de elétrons de alta energia atinge átomos de hidrogênio e estuda-se
a deflexão (momento) do feixe incidente e do elétron emitido. A troca de
momento acontece entre os elétrons do feixe incidente e os elétrons no material,
de forma que a dispersão em ângulo do feixe incidente pode ser utilizada para
testar a Eq.(5.17), e o resultado experimental está em grande acordo com a
teoria [22, 23].

5.3 Estruturas periódicas


Sempre que um sistema for invariante a deslocamentos no espaço, a repre-
sentação de momentos pode apresentar vantagens em relação à representação
de coordenadas. Uma área de grande relevância é a física do estado sólido, que
descreve as propriedades de estruturas (cristais) que apresentam periodicidade
em relação à posição dos átomos. Nestes sistemas existe um vetor translação
da seguinte forma:
~ n = n1~a1 + n2~a2 + n3~a3 ,
R (5.18)
onde os vetores ~a1 , ~a2 e ~a3 descrevem a chamada célula unitária da rede
periódica, que se repete no espaço para montar o sólido, sendo n1 , n2 e n3
números inteiros. Todas as propriedades das redes periódicas devem, então,
ser invariantes perante a aplicação do vetor (5.18).
De forma geral, o operador unitário de translação na rede dado por (seção
§3.4.5):
~ n = e−i~p·R~ n /h̄ ,
 
U R (5.19)
deixa invariante o hamiltoniano de sistemas periódicos. Esses operadores de
translação comutam entre si ([Pα , Pβ ] = 0 → [U (R~ n ), U (R
~ m )] = 0) e com o
hamiltoniano ([Pα , H] = 0 → [U (R ~ n ), H] = 0). Portanto, pelo teorema 7,
existe uma base comum de autovetores para eles:
   
H|ψi = E|ψi, ~ n |ψi = c R
U R ~ n |ψi. (5.20)

Por outro lado,      


~n U R
U R ~m = U R
~n + R
~m , (5.21)
5.3. ESTRUTURAS PERIÓDICAS 81

o que nos leva a:      


~n c R
c R ~m = c R
~n + R
~m , (5.22)
que só é satisfeita se:
~ n = e−i~k·R~ n .
 
c R (5.23)
 
Como U é unitário, temos que c R ~ n = 1, de forma que ~k tem que ser real.
Por fim, pela definição (seção §3.4.5) temos:

~ n = e−i~k·R~ n ψ(~x).
   
~ n ψ(~x) = ψ ~x − R
U R (5.24)

5.3.1 O espaço recíproco


Expandindo a função de onda ψ(~x) em série de ondas planas:
X   ~0
ψ(~x) = ~ 0 ik ·~x
a k e . (5.25)
k0
 
Aplicando U R~ n em (5.25), e igualando ao lado direito de (5.24) com ψ(~x)
dado pela expansão em série (5.25), encontramos:
X   ~0 ~ ~0 ~ ~ ~0
a ~k 0 e−ik ·Rn eik ·~x = e−ik·Rn a(k 0 )eik ·~x
X

k0 k0
~ ~ n −i~k0 ·R
~ n i~k0 ·R ~n ~0
 
−ik·R
a ~k 0 eik ·~x
X
= e e e
k0
X i ~k0 −~k ·R
e( ) ~ n a ~k 0 e−i~k0 ·R~ n ei~k0 ·~x ,
 
= (5.26)
k0

onde a igualdade só vale se:


~0 ~ ~
ei(k −k)·Rn = 1, (5.27)
 
ou seja, os vetores ~k 0 − ~k que satisfazem essa relação são discretos, pois R~n
o são. Considerando que R ~ n define a rede cristalina no espaço real (chamada
rede de Bravais), os vetores G ~ m definidos por

~ m = ~k 0 − ~k
G (5.28)

definem uma rede periódica no chamado espaço recíproco, que determina


os valores de vetores de onda permitidos para autoestados de um sistema
cristalino. Isso nos permite reescrever a função de onda de (5.25) como:

~ m ei(~k+G~ m )·~x .
X  
ψ(~x) = a ~k + G (5.29)
Gm
82 CAPÍTULO 5. REPRESENTAÇÃO DE MOMENTO E APLICAÇÕES

5.3.2 O teorema de Bloch e a estrutura eletrônica dos


sólidos
As equações (5.24) e (5.29) são formalizações matemáticas possíveis do
teorema de Bloch, que estipula que as soluções da equação de Schrödinger
com um potencial invariante sobre translações de R~ n (V (~x) = V (~x + R
~ n ))
podem ser escritos na forma:

~
ψ~k (~x) = eik·~x u~k (~x), (5.30)

onde
~ n ).
u~k (~x) = u~k (~x + R (5.31)

Funções de onda deste tipo são chamadas funções de onda de Bloch. A


figura 5.1 ilustra a formação de estados de Bloch para uma cadeia linear
de átomos, sendo os estados de Bloch definidos por uma função da célula
unitária u~k , que aqui são representadas pelos níveis orbitais atômicos do tipo
s (esquerda) e do tipo p (direita)1 , mais o termo eikr , que modifica o sinal e
amplitude dos orbitais atômicos com um fator de fase. O módulo de ~k dá o
vetor de onda da modulação:

k = 2π/λ, (5.32)

onde λ é o comprimento de onda da função de onda. Como ~k é um bom


número quântico (isto é, uma variável que é conservada sob translação por
R~ n ), a estrutura eletrônica de cristais são exibidas em um gráfico da energia
do elétron E~k versus seu vetor de onda ~k, chamada relação de dispersão
de elétrons, que consiste em estados quase contínuos dentro de uma região
finita de energia, chamadas bandas de energia.
Em resumo, o espaço real de coordenadas é o espaço (x, y, z) onde os
átomos são exibidos, e onde a probabilidade de encontrar um elétron descrito
pela função de onda ψ é dada, tomando o quadrado de ψ(~x), que é mostrado
na Fig. 5.1. O chamado espaço recíproco (kx , ky , kz ) é o espaço dos vetores
de onda, sendo as relações de dispersão eletrônica um gráfico das energias
dos estados eletrônicos no espaço recíproco.

1
Ainda está por ser demonstrado que os citados níveis s e p são soluções da estrutura
eletrônica de um átomo (mesmo que o estudante já tenha visto isto em cursos introdutórios),
e que servem de base para a construção dos estados eletrônicos de um sólido, utilizada na
aproximação da teoria de perturbação.
5.4. ESTRUTURA ELETRÔNICA DO TRANS-ACETILENO 83

s states p states
us up
ik r ik r
Re[e ] Re[e ]

kr kr

+ + - - + + -
- - + + - - +
Figura 5.1: Desenhos esquemáticos para orbitais de Bloch unidimensionais
formados por orbitais atômicos tipo s (esquerda) e tipo pz (direita). O topo
mostra a função de onda de cada átomo, o meio mostra a fase de Bloch do
orbital eikr , e a parte inferior mostra as amplitudes dos orbitais de Bloch.
Aqui λ = 4a, sendo a a distância entre átomos.

5.4 Estrutura eletrônica do trans-acetileno

Um exemplo prático da utilização do teorema de Bloch é a descrição da


estrutura eletrônica do poliacetileno, formado por uma cadeia de átomos de
carbono e hidrogênio, como ilustrado na Fig.5.2 em sua forma “trans” [24].
Antes de passar para a solução, é importante esclarecer que, embora os átomos
de C e H tenham 6 e 1 elétrons, respectivamente, a solução para o problema é
bastante simplificada pelo fato de apenas 1 elétron do átomo de carbono estar
envolvido, efetivamente, nas propriedades eletrônica da molécula. Isto deve-se
ao fato de que, no carbono, dois elétrons ocupam o nível 1s, sendo muito
internos e formando os chamados elétrons do caroço. Outros 3 dos 4 elétrons
da segunda camada são utilizados para formar as ligações covalentes com 3
vizinhos no plano, e o mesmo vale para o elétron do H. Portanto, apenas um
elétron do carbono, que apresenta-se no orbital 2pz , perpendicular ao plano
xy da estrutura atômica, fica disponível para formar a estrutura eletrônica
da molécula, ditando suas propriedades ópticas e de transporte eletrônico e
térmico. A solução que procuramos será, portanto, uma combinação linear
de elétrons 2pz , satisfazendo o teorema de Bloch.
84 CAPÍTULO 5. REPRESENTAÇÃO DE MOMENTO E APLICAÇÕES

Figura 5.2: Estrutura do trans-poliacetileno. A célula unitária é composta


por dois átomos de carbono vizinhos, chamados aqui de (A) e (B), e seus
hidrogênios.

Consideramos duas funções Bloch Φα (α = A, B), construídas como


uma combinação linear de orbitais atômicos 2pz dos átomos (α), que são
equivalentes por operações de translação da rede Rα = na, onde a o tamanho
da célula unitária e n é um número inteiro. Chamando os orbitais atômicos
2pz de ϕ, temos
1 X ik·Rα
Φα = √ e ϕ(r − Rα ), (5.33)
N Rα

onde N é o número de átomos da molécula, que pode ser muito grande (da
ordem de 1023 ). Estas funções Φα fornecem as funções básicas para descrever
a estrutura eletrônica desta estrutura quase-unidimensional, cuja função de
onda geral é uma combinação linear

X
ψ~k (~x) = cα Φ α . (5.34)
α

Os coeficientes cα e a energia do sistema podem ser encontrados resolvendo-


se a equação secular derivada de uma matriz hamiltoniana 2 × 2, Hαα0 =
hΦα |H|Φα0 i, contendo quatro elementos de matriz acoplando ΦA e ΦB . Busca-
se a solução para det|H − ES|= 0, onde a matrix de overlap é Sαα0 =
hΦα |Φalpha0 i.
Para o cálculo dos elementos de matriz, podemos considerar a aproximação
de primeiros vizinhos, que assume que os termos nos somatórios em Hαα0 e Sαα0
para vizinhos mais distantes do que um parâmetro de rede a são nulos. Temos
que HAA = HBB = 2pz (energia do orbital 2pz ) e SAA = SBB = 1. Como os

sítios (A) e (B) contém átomos idênticos, temos ainda que HBA = HAB e

SAB = SBA .
5.4. ESTRUTURA ELETRÔNICA DO TRANS-ACETILENO 85

A forma explícita para HAB pode ser obtida de:


1 X ik(Rα −Rα0 )
HAB = e hϕ(r − Rα )|H|ϕ(r − Rα0 )i (5.35)
N Rα ,R 0
α

1 X ik(a/2)
= e hϕ(r − Rα )|H|ϕ(r − Rα − (a/2))i
N Rα
1 X ik(−a/2)
+ e hϕ(r − Rα )|H|ϕ(r − Rα + (a/2))i
N Rα
= 2t cos (ka/2), (5.36)

onde no primeiro passo foi considerada a aproximação de primeiros vi-


zinhos, e no último passo substituímos a integral de transferência t =
hϕ(r − Rα )|H|ϕ(r − Rα − (a/2))i. Analogamente, temos
1 X ik(Rα −Rα0 )
SAB = e hϕ(r − Rα )|ϕ(r − Rα0 )i (5.37)
N Rα ,R 0
α

1 X ik(a/2)
= e hϕ(r − Rα )|ϕ(r − Rα − (a/2))i
N Rα
1 X ik(−a/2)
+ e hϕ(r − Rα )|ϕ(r − Rα + (a/2))i
N Rα
= 2s cos (ka/2), (5.38)

onde s = hϕ(r − Rα )|ϕ(r − Rα − (a/2))i é a integral de superposição. Note


que HAB e SAB são reais, ou seja, H e S são hermitianas.
Resolvendo agora a equação secular, obtém-se

2pz ± 2t cos (ka/2)


E± (k) = , (5.39)
1 ± 2s cos (ka/2)

que são funções degeneradas em ka = ±π, e periódicas fora dos limites


(−π/a) e (+π/a). É comum em problemas de física que os valores da integral
de transferência t e a integral de superposição s sejam determinados expe-
rimentalmente, ou ajustados para que a curva teórica da Fig.5.3 coincida
com o resultado de cálculos de primeiros princípios, onde estas integrais são
calculadas com base em princípios variacionais (assunto do capítulo 10).
Na Fig. 5.3 estão representadas as relações de dispersão eletrônica para
as bandas π do trans-poliacetileno (autoestados eletrônicos formados pelos
orbitais 2pz ) na região −π/a ≤ k ≤ +π/a, que é a região do espaço recíproco
chamada de primeira zona de Brillouin. Note que apesar de a equação
(5.39) e sua representação gráfica na Fig. 5.3 serem representadas de formas
86 CAPÍTULO 5. REPRESENTAÇÃO DE MOMENTO E APLICAÇÕES

Figura 5.3: Relações de dispersão de energia para para o trans-poliacetileno.


Aqui assumimos os valores de 2p = 0, t = −1 eV e s = 0, 2.

contínuas, efetivamente os níveis estão quantizados em N valores possíveis.


Entretanto, para uma molécula muito grande (N ∼ 1023 ) temos efetivamente
um quase-contínuo.
Importante esclarecer, entretanto, que como mostrado na Fig. 5.2, a
molécula de trans-poliacetileno na natureza sofre uma deformação onde
metade de suas ligações se encurtam, e a outra metade se alonga, no que é
chamado distorção de Peierls. Este efeito está representado na Fig.5.2 pelas
ligações simples e duplas entre átomos de carbono. O que este efeito acarreta,
efetivamente, é na quebra de simetria entre os primeiros vizinhos em +a/2 e
−a/2. Esta quebra de simetria é responsável pela quebra de degenerescência
nos pontos ka = ±π e a consequente estabilização da molécula deformada.

5.5 Considerações finais


Como vimos, a representação de momentos é valiosa sempre que existe a
simetria de translação. Este é o aspecto mais fundamental da física do estado
sólido e por isto este ramo da física usa exaustivamente esta representação. No
espaço tridimensional, só existem 14 redes periódicas (de Bravais) possíveis:
3 cúbicas, 2 tetragonais, 4 ortorrômbicas, 1 hexagonal, 2 monoclínicas, 1
triclínica e 1 trigonal, fundamentando o conceito que limitava a periodicidade
espacial a estas 14 estruturas. O estudo das estruturas de cristais são realizados
geralmente com experimentos de difração de raios X, uma vez que o fenômeno
de difração de raios X mapeia diretamente a estrutura do espaço recíproco
5.6. EXERCÍCIOS 87

de cristais. Importante frisar, entretanto, que o estado da arte desta técnica


hoje está relacionados a simetrias muito mais complexas, como a estrutura
de proteínas.
Descobertos em 1982, os quase-cristais colocaram fim ao conceito de
que sólidos periódicos estão limitados às 14 redes de Bravais. Os quase-
cristais podem ser descritos como estruturas periódicas em 6 dimensões.
Existem também os chamados cristais incomensuráveis, que podem apresentar
modulações de suas funções de onda incompatíveis com a rede cristalina básica
em n = 1, 2 ou 3 dimensões, representando estruturas periódicas em 3 + n
dimensões. Estas estruturas são explicadas por forças competitivas dentro
da estrutura cristalina que geram uma periodicidade frustrada. Em 1992,
a União Internacional de Cristalografia mudou a definição de cristal para
englobar a de quase-cristal, não mantendo o requerimento de que o critério de
difração fosse discreto. A Academia Real Sueca de Ciências decidiu atribuir
o Prêmio Nobel de Química em 2011 para Dan Shechtman Technion, do
Instituto de Tecnologia de Israel, “Pela descoberta dos quasicristais”.

5.6 Exercícios
Exercício 5.1 Demonstre a equação (5.17).

Exercício 5.2 Demonstre que a probabilidade de distribuição de momentos


em um experimento de difração de raios X por um cristal é um mapa do
espaço recíproco do cristal.

Exercício 5.3 Demonstre a equação (5.39).

Exercício 5.4 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].


88 CAPÍTULO 5. REPRESENTAÇÃO DE MOMENTO E APLICAÇÕES
Capítulo 6

O Oscilador Harmônico

Um oscilador harmônico, de forma geral, é um objeto sujeito a uma


força que depende linearmente do deslocamento em relação ao seu ponto de
equilíbrio. O hamiltoniano quântico desse problema é da forma:

P2 M ω2 2
H= + Q, (6.1)
2M 2
sendo que ω é uma constante característica do oscilador, P o operador
momento e Q o operador posição. Antes de prosseguir para a solução quântica
do oscilador harmônico, iremos tecer alguns comentários sobre seu análogo
clássico.
Oscilador harmônico clássico: O oscilador harmônico clássico (em uma
dimensão, por simplicidade) é geralmente descrito pela função lagrangiana:
1 1
L = mẋ2 + mω 2 x2 , (6.2)
2 2
o método variacional (ou a solução da equação de Newton) nos dá a seguinte
solução:
x(t) = A cos(ωt − ϕ), (6.3)
para duas constantes de integração A e ϕ. É digno de nota que, dado um
tempo t, é possível calcular o valor associado de x(t). Considerando-se que A
e ϕ são conhecidos em t = 0, a equação (6.3) nos permite calcular a posição
do oscilador, sua velocidade e aceleração para qualquer tempo t > 0, com
precisão absoluta. Veremos que isso não acontece em mecânica quântica.
Outra forma de analisar o oscilador harmônico é fazer considerações de
energia. Dada uma energia inicial E para o oscilador, a partícula se moverá
num poço de potencial V de forma parabólica restrito aos pontos nos quais
E = V (ou seja, onde a energia cinética é zero):

89
90 CAPÍTULO 6. O OSCILADOR HARMÔNICO

Figura 6.1: Diagrama de energia


de um potencial quadrático V e a
E energia E de uma partícula. O mo-
vimento da partícula é periódico e
restrito aos pontos xmin e xmax para
os quais E = V e K = 0.

x m in 0 x m a x

O problema do potencial harmônico é de grande relevância em física, dado


que qualquer mínimo de potencial local pode ser descrito por ele, desde que
as perturbações no sistema impliquem sempre em valores suficientemente
pequenos do deslocamento das partículas de sua condição de equilíbrio. Isto
fica evidente descrevendo um mínimo de potencial genérico como expansão
em série de Taylor e considerando o limite de x → 0.

6.1 Solução algébrica


Para resolver o problema do oscilador harmônico quântico, é comum
usarmos novas definições dos operadores de interesse. Para isso definimos os
operadores adimensionais:
s s
Mω 1
q= Q, p= P. (6.4)
h̄ M h̄ω

Pela relação canônica de comutação, [Q, P ] = ih̄, encontramos:

[q, p] = i, (6.5)

de forma que o hamiltoniano (6.1) pode ser reescrito como sendo:


1  
H = h̄ω q 2 + p2 . (6.6)
2
Agora introduzimos os operadores a e a† :
q + ip q − ip
a= √ , a† = √ . (6.7)
2 2
6.1. SOLUÇÃO ALGÉBRICA 91

Calculemos:
h i 1 1 h 2   i
a, a† = [(q + ip), (q − ip)] = q − iqp + ipq + p2 − q 2 + iqp − ipq + p2
2 2
1
= i(2pq − 2qp) = i[p, q] = 1. (6.8)
2
A equação (6.6) pode ser invertida para encontramos:
i   1  
p = √ a† − a , q = √ a† + a . (6.9)
2 2

Com as definições de p e q em função de a e a† , podemos reescrever o


hamiltoniano (6.6) em termos desses novos operadores:
1  
H = h̄ω aa† + a† a . (6.10)
2
E usando a relação de comutação (6.8):
h i
a, a† = 1 ⇒ a† a = aa† − 1, (6.11)

temos que:
1 1
   
= h̄ω a† a +
H = h̄ω aa† − , (6.12)
2 2
sendo que o último termo dessa expressão é a forma mais usual do hamiltoniano
do operador harmônico em termos de a e a† . Definindo o operador N = a† a
podemos escrever:
1
 
H = h̄ω N + . (6.13)
2
Note que encontrar o espectro do hamiltoniano do oscilador harmônico (e,
portanto, resolver o problema quântico) é matematicamente equivalente a
encontrar o espectro do operador N . Esse operador satisfaz às seguintes
relações de comutação1 :
h i
[N, a] = −a, N, a† = a† . (6.14)

Consideremos que:

N |νi = ν|νi, com hν| νi =


6 0, (6.15)

calculemos:
[N, a]|νi = N a|νi − aN |νi = −a|νi (6.16)
1
Veja o exercício 6.1
92 CAPÍTULO 6. O OSCILADOR HARMÔNICO

em que usamos a relação de comutação (6.14). Com isso encontramos:

N a|νi = aN |νi − a|νi = a(N − 1)|νi, (6.17)

com isso, vemos que (a|νi) é autovetor de N com autovalor (ν − 1):

N (a|νi) = (ν − 1)a|νi. (6.18)

Calculemos, agora:
D E
|a|νi|2 = ν a† a ν = hν|N |νi = νhν|νi. (6.19)

Como a norma do vetor deve ser não-negativa, e hν|νi 6= 0, temos que ν ≥ 0,


ou seja, o autovalor de N não pode ser negativo.

a|0i ≡ 0. (6.20)
Ou seja, neste caso, a operação do operador a não gera um vetor.
Repetiremos o mesmo procedimento usando o operador a† :
h i
N, a† |νi = N a† |νi − a† N |νi = a† |νi, (6.21)

onde utilizamos a relação de comutação (6.14). Com isso encontramos:

N a† |νi = a† N |νi + a† |νi = a† (N + 1)|νi. (6.22)

Com isso vemos que (a† |νi) é autovetor de N com autovalor (ν + 1):
 
N a† |νi = (ν + 1)a† |νi. (6.23)

Calculemos, agora:
2 D E
a† |νi = ν aa† ν = hν|N + 1|νi = (ν + 1)hν| νi, (6.24)

essa sequência não zera nunca pois ν ≥ 0. Isso significa que podemos aplicar
a† sucessivamente para gerarmos os autovalores ν + 1, ν + 2, etc. Por isso
podemos concluir que o espectro de N corresponde a inteiros não-negativos:

N |ni = n|ni. (6.25)

Estamos, agora, interessados em descobrir como a e a† atuam em |ni. As


equações (6.18) e (6.23) mostram que as atuações de a e a† em |ni levam a
autovetores de N com autovalores (n−1) e (n+1), respectivamente. Podemos,
então, escrever:
a† |ni = cn |n + 1i, (6.26)
6.1. SOLUÇÃO ALGÉBRICA 93

e a condição de normalização exige:


 
|cn |2 = (hn|a) a† |ni = hn|N + 1|ni = n + 1, (6.27)

logo, exigimos que cn = n + 1, de forma que:

a† |ni = n + 1|n + 1i. (6.28)
Note que utilizando a† recursivamente a partir do estado |0i, podemos gerar
qualquer estado |ni da seguinte forma:
 n
a†
|0i. |ni = (6.29)
n!
Repetindo um procedimento semelhante para a, encontramos:

a|ni = n|n − 1i, (6.30)
que vale para n > 0. Para n = 0, vale a equação (6.20).
Na base dos autoestados de N , os elementos de matrizes de a e a† são
dados por2 :
   
0 0 0 0 ... 0 1 √0 0 ...
1 0 0 0 . . . 0 0 2 √0 . . .
   
 √   
a† =  0
 2 √0 0 . . .
, 0
a= 0 0 3 . . .. (6.31)
0 0 3 0 . . . 0 0 0 0 . . .
   

.. .. .. .. ...
 
.. .. .. .. . . 
. . . . . . . . .
Retornando ao operador hamiltoniano (6.13) e buscando a solução da
equação de Schrödinger utilizando o autovetor de N , |ni, temos:
1 1
   
H|ni = En |ni = h̄ω N + |ni = h̄ω n + |ni, (6.32)
2 2
e encontramos:
1
 
En = h̄ω n + . (6.33)
2
Como n = 0, 1, 2..., as varições de energia em um oscilador harmônico são
quantizadas. O estado de menor energia não corresponde a um oscilador
parado, com energia nula, mas sim um estado fundamental com energia de
ponto zero E0 = 12 h̄ω.
Por ter a característica de aumentar a energia, levando |ni → |n + 1i,
chamamos a† de operador criação, e seu adjunto, a, de operador destrui-
ção. Em outras palavras, estes operadores criam e destroem um quantum de
energia h̄ω.

2
Basta calcular hn0 |a† |ni = n + 1δn0 ,n+1 e o equivalente para a.
94 CAPÍTULO 6. O OSCILADOR HARMÔNICO

6.2 Soluções na representação das coordena-


das
Na representação das coordenadas, a equação de Schrödinger para o
oscilador harmônico unidimensional é dada por:

h̄2 d2 M ω2 2
− ψ(x) + x ψ(x) = Eψ(x). (6.34)
2M dx2 2

A resolução dessa equação diferencial nos levará à solução do problema do


oscilador harmônico na representação de coordenadas. Para uma solução
bastante detalhada desse problema, com a resolução da equação pelo método
de soluções em séries de potências, indicamos a referência [25].
A solução do oscilador harmônico envolve uma função especial chamada
polinômios de Hermite, designando o polinômio de n-ésima ordem por
Hn (x). Com isso, a solução completa fica:
" #1/2
α 2 x2 /2
ψ(x) = √ n Hn (αx)e−α , (6.35)
π2 n!
q
com α = M ω/h̄, que leva à energia:

1
 
En = h̄ω n + , (6.36)
2

que é consistente com (6.33).

6.3 Solução na representação de H


Na seção anterior usamos a representação de coordenadas:

ψn (x) = hx| ni, (6.37)

que é uma função de x para um valor n fixo. Queremos, agora, o contrário,


ou seja hn|xi. De (6.7) e (6.9) temos
!
h̄  
Q= a + a† . (6.38)
2M ω
6.4. EXERCÍCIOS 95

De (6.31) podemos construir a matriz que representa Q na base dos


autovetores de H:
 √ 
0 1 0 0 0 . . .
√ √ 
 1 0 2 0 0 . . .
√ √

s  
0 h̄ 

 0 2 √0 3 √0 . . . 

hn |Q|ni =  0 0 3 √0 4 . . .
, (6.39)
2M ω  
 0 0 0 4 0 . . .
 
 . . . . .. . . 
.. .. .. .. . .

daí a equação de autovalores para Q, Q|xi = x|xi toma a seguinte forma


nessa representação:

hn0 |Q|nihn|xi = xhn0 | xi,


X
(6.40)
n

tal que usando a matriz da equação (6.39) encontramos:


s
h̄ h√ 0 0 √ i
n hn − 1|xi + n0 + 1hn0 + 1|xi = xhn0 |xi. (6.41)
2M ω
Essa equação pode ser usada recursivamente para obter, a partir do estado
fundamental h0| xi, todos os estados excitados: h1|xi, h2|xi, etc. Portanto,
conhecendo a função de onda do estado fundamental, é possível reproduzir os
demais estados excitados. A consistência entre as soluções nas representações
de coordenadas e de H pode ser demonstrada substituindo-se (6.35) em (6.41).
O resultado será uma identidade sabidamente satisfeita pelos polinômios de
Hermite.

6.4 Exercícios
Exercício 6.1 Prove que o hamiltoniano dado pela equação (6.6) usando a
transformação (6.7) pode ser posto na forma da equação (6.10).

Exercício 6.2 Prove que [A, BC] = [A, B]C + B[A, C] e demonstre as equa-
ções (6.14).

Exercício 6.3 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].


96 CAPÍTULO 6. O OSCILADOR HARMÔNICO
Capítulo 7

Momento angular

7.1 Autovalores e elementos de matriz


Relembrando o capítulo 3 temos as relações de comutação para o momento
angular:
[Ji , Jk ] = ih̄ikl Jl , (7.1)
com: Ji† = Ji .
Essas relações são suficientes para definir o espectro de autovalores para
esses operadores. Através de uma analogia clássica somos motivados a seguinte
definição:
Definição: J 2 = J · J = Jx2 + Jy2 + Jz2 .
É possível mostrar que J 2 comuta com as componentes de J:
h i
J 2 , J = 0. (7.2)

Pelo teorema 7 é possível construir uma base de autovetores que diagonaliza


uma das componentes de J e J 2 simultaneamente. Escolhemos a componente
Jz (poderia ser qualquer outra) e supomos que esse autovetor pode ser
representado por |β, mi. Então supomos que:

J 2 |β, mi = h̄2 β|β, mi, Jz |β, mi = h̄m|β, mi, (7.3)

mas, por outro lado,


D E D E D E D E
β, m J 2 β, m = β, m Jx2 β, m + β, m Jy2 β, m + β, m Jz2 β, m , (7.4)

o produto interno de um vetor com ele mesmo não pode ser negativo, logo:
D E
β, m Ji2 β, m ≥ 0, (7.5)

97
98 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR

e como hβ, m|Jz2 |β, mi ≥ h̄2 m2 a equação (7.4) se torna a desigualdade

h̄2 β ≥ 0 + 0 + h̄2 m2 ⇒ β ≥ m2 , (7.6)

para um dado β existe um valor mínimo e máximo para m. Nesse momento in-
troduzimos dois operadores (similarmente aos operadores criação e destruição
do capítulo 6) para facilitar os cálculos:

J+ = Jx + iJy , J− = Jx − iJy , (7.7)

que satisfazem as relações de comutação:

[Jz , J+ ] = h̄J+ , [Jz , J− ] = −h̄J− , [J+ , J− ] = 2h̄Jz . (7.8)

Queremos calcular quem é β e explicitar a relação (7.6). Para isso calcule-


mos:

Jz J+ |β, mi = (J+ Jz + h̄J+ )|β, mi = J+ Jz |β, mi + h̄J+ |β, mi


= J+ h̄m|β, mi + h̄J+ |β, mi = h̄(m + 1)J+ |β, mi, (7.9)

logo J+ |β, mi é autovetor de Jz com autovalor h̄(m + 1). Como existe um


valor máximo para m vamos supor que esse valor máximo é j de tal forma
que:
J+ |β, ji = 0, (7.10)
pois não pode existir o autovalor h̄(j + 1). Com esse resultado podemos
escrever:
J− J+ |β, ji = 0, (7.11)
mas
J− J+ = (Jx − iJy )(Jx + iJy ) = J 2 − Jz2 − h̄Jz , (7.12)
em que usamos as relações de comutação para Jx e Jy . Com esse resultado e
a equação (7.11) encontramos:

J− J+ |β, ji = J 2 |β, ji − Jz2 |β, ji − h̄Jz |β, ji, (7.13)

daí encontramos:

0 = h̄2 β − h̄2 j − h̄2 j ⇒ β = j(j + 1). (7.14)

Podemos repetir o mesmo processo de antes, usando Jz J− |β, ji, para mos-
trar que J− |β, ji é autovetor de Jz com autovalor h̄(m − 1). Adicionalmente
deve valer que J− |β, ki = 0 pois k é o menor valor admissível para m.
7.1. AUTOVALORES E ELEMENTOS DE MATRIZ 99

A partir de J+ J− |β, ki = 0 de forma similar ao que fizemos antes é possível


mostrar que:

k = −j, (7.15)

daí encontramos o importante resultado:

− j ≥ m ≥ j. (7.16)

Como m cresce como um número inteiro então j deve ser um número semi-
inteiro. A tabela abaixo mostra os valores permitidos de m para cada um dos
possíveis valores de j:

j m
0 0
1/2 −1/2 e 1/2
1 −1, 0 e 1
3/2 −3/2, −1/2, 1/2 e 3/2

Tabela 7.1: Tabela com os possíveis valores de m associado aos valores de j.

A partir de agora, por uma questão de tradição de notação em mecânica


quântica, abandonaremos a notação |β, mi para representar o autovetor
comum de J 2 e Jz e usaremos a notação usual |j, mi. As relações de autovalores
para J 2 , J+ e J− agora podem ser reescritas como sendo:

J 2 |j, mi = h̄2 j(j + 1)|j, mi, (7.17)


q
J+ |j, mi = h̄ j(j + 1) − m(m + 1)|j, m + 1i (7.18)
q
J− |j, mi = h̄ j(j + 1) − m(m − 1)|j, m − 1i (7.19)

É possível construir representações matriciais para os operadores momento


angular. Jz é diagonal, pois hj 0 , m0 |Jz |j, mi = h̄mδjj 0 δmm0 . Já hj 0 , m0 |J|j, mi
tem que ser nulo para qualquer j 0 6= j, logo também é diagonal. A partir da
equação (7.18) podemos obter a representação matricial de hj 0 , m0 |J+ |j, mi
que apresentamos a seguir:
100 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR

Figura 7.1: Elementos de matriz do operador momento angular para valores


de m e j. Extraído de [2].

De forma análoga podemos proceder para J− . As representações matriciais


de Jx e Jy podem ser obtidas a partir de:

J+ + J− J+ − J−
Jx = , Jy = . (7.20)
2 2i

7.2 Forma explícita dos operadores de mo-


mento angular
Conforme vimos no capítulo 3 o operador momento angular está associado
a rotações de um ângulo θ na direção n̂:

Rn (θ) = eiθn̂·J/h̄ . (7.21)

Caso 1) Função de estado de uma componente


Suponha que exista uma função de estado que depende apenas de uma
componente. A atuação de R nessa função ψ(x) é dada por:
 
Rψ(x) = ψ R−1 x , (7.22)

considerando rotações infinitesimais em torno de z:


  
cos  − sin  0 x
Rz ()ψ(x, y, z) =  sin  cos  0y , (7.23)
  

0 0 1 z
7.3. MOMENTO ANGULAR ORBITAL 101

vai nos dar a função ψ(x cos  + y sin , −x sin  + y cos , z). Expandindo essa
função em séries de potências:
!
∂ψ ∂ψ
Rz ()ψ(x, y, z) = ψ(x, y, z) +  y −x , (7.24)
∂x ∂y
também expandindo o operador:
iJz
Rz () = 1 + , (7.25)

e como ψ é uma função arbitrária encontramos:
! !
iJz ∂ ∂ ∂ ∂
= y −x ⇒ Jz = −ih̄ y −x , (7.26)
h̄ ∂x ∂y ∂x ∂y
que não é senão a componente z de um produto vetorial. Repetindo esse
procedimento para Jx e Jy podemos mostrar que:

L = Q × P, (7.27)

exatamente como na mecânica clássica. Num sistema cuja função de estado


possui apenas 1 componente estamos desconsiderando qualquer outra forma
de momento angular e, portanto, nossa discussão para J é idêntica para L.
Para sistemas mais complicados, como veremos a seguir, J 6= L.
Caso 2) Função de estado de múltiplas componentes
Para estados multicomponentes não vale mais a identificação J = L pois
existem outras formas de momento angular. Pode existir um grau de liberdade
interno chamado de momento angular de spin, denotado pelo operador
S, que possui as mesmas características do operador L e, portanto, deve ser
adicionado a este para compor J. Por essa razão damos o nome para J de
momento angular total e para L o nome de momento angular orbital. Assim,
nesse caso
J=L+S (7.28)
Veremos em mais detalhes o momento angular orbital, momento angular
de spin e a forma como somar essas grandezas nas seções que seguem.

7.3 Momento angular orbital


Conforme comentamos na seção anterior o momento angular quântico se
escreve igualmente ao momento angular clássico com a substituição da função
posição pelo operador posição e substituindo a função momento linear pelo
operador momento linear.
102 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR

Em coordenadas esféricas podemos representar P na representação das


coordenadas de modo a poder escrever:
" #
∂ 1 ∂
L = −ih̄ êϕ − êθ . (7.29)
∂θ sin θ ∂ϕ
Assim sendo, na representação das coordenadas, escrevemos:

Lz = êz · L = −ih̄ (7.30)
∂ϕ
" ! #
2 1 ∂ ∂ 1 ∂2
L = h̄ sin θ + . (7.31)
sin θ ∂θ ∂θ sin2 θ ∂θ2

A equação de autovalores para Lz e L2 na representação das coordenadas


envolve uma função especial conhecida como harmônicos esféricos (geral-
mente construídos como uma solução da parte angular da equação de Laplace
em coordenadas esféricas). Sobre mais detalhes dessas funções especiais
recomendamos [26, 27].
As funções harmônicos esféricos são denotados por Ylm (θ, ϕ) e para o
operador momento angular orbital satisfazem:

Lz Ylm (θ, ϕ) = h̄mYlm (θ, ϕ), L2 Ylm (θ, ϕ) = h̄2 l(l + 1)Ylm (θ, ϕ), (7.32)

note que Ylm (θ, ϕ) são autofunções (autovetores num espaço de dimensão
infinita) do operador momento angular e da sua projeção no eixo z.
No tratamento de representação das coordenadas as restrições que impu-
semos anteriormente para os possíveis valores de β são obtidas a partir de
condições de contorno para a solução da equação de autovalores em coorde-
nadas esféricas. Essas condições de contorno em geral oriundas da mecânica
clássica e assumidas como importantes são desnecessárias na mecânica quân-
tica. Isto porque não faz sentido falar de condições de contorno para ψ mas
sim para seus valores médios.

7.4 Spin
Spin é um operador, denotado por S, que satisfaz as mesmas relações de
comutação do operador momento angular:

[Si , Sj ] = ih̄ijk Sk , (7.33)

e assim como anteriormente:

S 2 |s, mi = h̄2 s(s + 1)|s, mi, Sz |s, mi = h̄m|s, mi, (7.34)


7.4. SPIN 103

com a condição −s ≥ m ≥ s.
Caso 1) s = 1/2
Consideremos partículas de spin semi-inteiro chamadas de férmions (mais
pra frente veremos o por quê do nome). Nesse caso a representação do
operador de spin é de matrizes 2x2 conhecidas como matrizes de Pauli.
Essas matrizes são:
! !
1 0 0 1
1= , σx = , (7.35)
0 1 1 0
! !
0 −i 1 0
σy = , σz = . (7.36)
i 0 0 −1

Essas matrizes possuem autovalores iguais a ±1, traço nulo, determinante


unitário e satisfazem as mesmas relações de comutação do operador momento
angular. Por isso definimos:

Si = σi , (7.37)
2
geralmente define-se σ0 = 1, a matriz identidade, para que o conjunto das
quatro matrizes σi , de i = 1 até 4, formem uma base completa ortonormal
para o espaço de matrizes 2x2 (mais especificamente, são os geradores do
grupo SU(2), o grupo das rotações unitárias em duas dimensões).
Um sistema de spin-1/2 tem como operador densidade a seguinte expressão:

1 1
ρ = (1 + a · σ) = (1 + ax σx + ay σy + az σz ), (7.38)
2 2
o fator 1/2 é necessário para que T r(ρ) = 1 e o termo a tem que ser real para
que possamos garantir hermiticidade. Para entendermos melhor o significado
de a calculemos:
1
hσx i = T r(ρσx ) = T r(σx + ax σx σx + ay σy σx + az σz σx ) = ax , (7.39)
2
em que usamos relações de comutação para as matrizes de Pauli e o traço
nulo. Esse resultado é válido para qualquer uma das componentes, logo:

hσi = a, (7.40)

o vetor a é usualmente chamado de vetor de polarização. Como os auto-


valores de σ os autovalores de ρ são conhecidos e dados por:
1
λρ = (1 ± |a|), (7.41)
2
104 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR

em que usamos λρ para denotar os autovalores do operador ρ. Como ρ não


pode ser negativo, temos que: 0 ≥ |a| ≥ 1. O estado |a| = 1 é conhecido
como estado polarizado, correspondendo a polarização máxima dos sistema.
O estado |a| = 0 é não-polarizado.
Uma única partícula de spin-1/2 (um elétron, por exemplo) é um exemplo
simples de um qubit, a unidade básica de computação quântica. Um bit
clássico possui 2 estados possíveis, zero ou um. Um bit quântico (qubit) possui
3 estados possíveis; zero, um e uma superposição destes. Já dois qubits tem
15 estados possíveis; |00i, |01i, |10i, |11i, |00i + |01i, |00i + |10i, |00i + |11i,
|01i + |10i, |10i + |11i, |01i + |11i, |00i + |01i + |10i, |00i + |01i + |11i,
|01i + |10i + |11i, |00i + |10i + |11i, |00i + |01i + |10i + |11i.
Esse pequeno exemplo mostra o poder da computação quântica frente a
computação clássica. Veremos mais detalhes sobre isso no último capítulo do
livro ou, para os mais curiosos, em [5].
Caso 2) s = 1
Nesse caso temos partículas de spin inteiro, chamadas de bósons (como
antes, veremos mais a frente o por quê deste nome).
Agora as matrizes de spin não podem mais ser representadas pelas matrizes
de Pauli. Inclusive, nesse caso, as matrizes são 3x3:
s 0 1 0
 s 0 −i 0
 
1 0 0

1 1
Sx = h̄ 1 0 1
, Sy = h̄ 1 0 −i, Sx = h̄0 0 0 ,
 
2 2
0 1 0 0 i 0 0 0 −1
(7.42)
nesse caso não podemos mais dizer que o vetor polarização é um autovetor
da componente do spin na mesma direção. Com a restrição T r(ρ) = 1 o
operador de estado ρ possui oito componentes enquanto hSi garante apenas
três. Veremos mais sobre isso e como resolver esse problema no próximo
capítulo.
Por fim sistemas de spin maiores s = 3/2, s = 2 etc necessitarão de
matrizes maiores (4x4, 5x5 e assim sucessivamente) aumentando o número
de parâmetros necessários para descrever o operador de sistema. Outra
complicação adicional é que as componentes de S 2 não comutam mais, de
forma a não existir uma base comum entre eles. Essas são dificuldades
adicionais quando estamos tratando sistemas de spin diferente de 1 ou de 1/2,
que são os casos mais simples.

7.5 Rotações finitas


A teoria de grupos tem um forte resultado matemático conhecido como
teorema da ortogonalidade de representações que diz que o produto
7.6. ROTAÇÕES DE 2π 105

de representações pertencentes a representações irredutíveis distintas é nulo.


Esse teorema pode ser transportado para a discussão de momento angular
(afinal de contas, o que está por trás da teoria de momento angular da M.Q.
é teoria de grupos e teoria de representação de grupos) para entendermos
que rotações não misturam os números quânticos j diferentes. Sobre esse
teorema e diversos assuntos de teoria de grupos referenciamos o livro de
teoria de grupos do prof. Filardo Bassalo [28] enquanto que para aplicações
interessantes de teoria de grupos referenciamos [3].
Denotando as rotações finitas por R(α, β, γ) temos que a aplicação desse
operador no ket |j, mi resulta em:
(j)
|j 0 , m0 iDm,m0 (α, β, γ),
X
R(α, β, γ)|j, mi = (7.43)
m0

com:
0
D E
(j)
Dm,m0 (α, β, γ) = e−i(αm +γm) j, m0 e−iβJy j, m , (7.44)
o operador de rotação pode ser descrito em três rotações sucessivas através
dos ângulos de Euler:

R(α, β, γ)|j, mi = Rz (α)Ry (β)Rz (γ) = e−iαJz e−iβJy e−iγJz , (7.45)

se estamos considerando spin semi-inteiro, j = 1/2, então Ji = 12 σi daí:


!
D
0 −iβσy /2
E cos(β/2) − sin(β/2)
1/2, m e j, m = , (7.46)
sin(β/2) cos(β/2)

que possui período 4π. No caso de spin inteiro j = 1 teremos período 2π.
(1/2)
Note que a expressão acima corresponde à representação Dm,m0 (0, β, 0). É
possível usar essa notação para escrever os harmônicos esféricos em termos
dessa representação:
!1/2
m 2l + 1 h
(l)
i∗
Yl (θ, ϕ) = Dm,0 (θ, ϕ, 0) . (7.47)

7.6 Rotações de 2π
Estamos interessados em analisar rotações finitas de 2π. O operador de
rotações de um ângulo θ na direção n̂, como já comentamos, é: Rn (θ) =
e−iθn̂·J/h̄ . A atuação desse operador num ket de momento angular é:

Rn (2π)|j, mi = (−1)2j |j, mi, (7.48)


106 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR

como os valores esperados são independentes da escolha do referencial (do


contrário teríamos uma física diferente em cada referencial) e também da
consideração que rotações não misturam j encontramos:
Rn (2π) = R(2π), (7.49)
em geral a maioria dos observáveis físicos, denotados genericamente por A,
são invariantes para rotações de 2π. Isso significa que:
R(2π)AR(2π)−1 = A, ⇒ [R(2π), A] = 0. (7.50)
Genericamente um operador unitário U que deixa um observável A inva-
riante [U, A] = 0 implica que os valores esperados em referenciais diferentes
conduzidos pelo operador U são idênticos. Para mostrar isso, note que:
|ψ 0 i = U |ψi =
6 |ψi, (7.51)
mas: D E
hAi0 = hψ 0 |A|ψ 0 i = ψ U † AU ψ = hψ|A|ψi = hAi. (7.52)
O mesmo resultado vale para um operador de estado geral ρ que é invariante
por U :
ρ0 = U ρU † ⇒ hAi0 = hAi, (7.53)
a única diferença do caso anterior é que teremos que usar o traço hAi = T r(ρA)
para provar isso.
O operador R(2π) divide o espaço vetorial em 2 subespaços:
|+i → R(2π)|+i = |+i, j inteiro, (7.54)
|−i → R(2π)|−i = −|−i, j semi-inteiro. (7.55)
Consideremos um observável A invariante por R(2π) e com isso podemos
escrever:
h+|R(2π)A|−i = h+|AR(2π)|−i, (7.56)
pois A comuta com R(2π). Isso implica em:
h+|A|−i = −h+|A|−i, (7.57)
o que é válido se, e somente se,
h+|A|−i = 0, (7.58)
esse pequeno cálculo que fizemos nos mostra um importante resultado:
Super regra de seleção: Nenhum estado físico pode ter termos que
misturam j inteiro com j semi-inteiro.
Disso podemos tirar a importante conclusão que toda operação de simetria
leva a uma regra de seleção com a conservação do número quântico associado.
7.7. ADIÇÃO DE MOMENTO ANGULAR 107

7.7 Adição de momento angular


Considere um sistema de duas componentes com momento angular. Deno-
taremos a partícula 1 com momento angular J (1) e a partícula 2 com momento
angular J (2) . Poderíamos pensar, também, em adição de L com S de uma
mesma partícula (num fenômeno chamado acoplamento spin-órbita, que será
visto mais adiante).
O ket que é autovetor de ambos operadores é denotado por:

|j1 , j2 ; m1 , m2 i = |j1 , m1 i(1) ⊗ |j2 , m2 i(2) , (7.59)

tais que:
h i2
J (1) |j1 , m1 i = h̄2 j1 (j1 + 1)|j1 , m1 i, Jz(1) |j1 , m1 i = h̄m1 |j1 , m1 i, (7.60)
h i2
J (2) |j2 , m2 i = h̄2 j2 (j2 + 1)|j2 , m2 i, Jz(2) |j2 , m2 i = h̄m2 |j2 , m2 i. (7.61)

Quando o sistema como um todo é invariante a rotações as constantes de


movimento não são J (1) ou J (2) mas, sim:

J = J (1) ⊗ 1 + 1 ⊗ J (2) , (7.62)

os autovetores de J (o operador resultado da soma de dois momentos angulares)


é denotado por |j1 , j2 , J, M i, também chamados de autovetores do operador
momento angular total.
Assim, fica a importante pergunta: como conectar os autovetores dos ope-
radores individuais |j1 , j2 ; m1 , m2 i com os autovetores do operador momento
angular total |j1 , j2 ; J, M i?
A resposta é através dos coeficientes de Clebsh-Gordon. É possível
expressar a base |j1 , j2 ; m1 , m2 i em termos de |j1 , j2 ; J, M i usando:
X
|j1 , j2 ; J, M i = |j1 , j2 ; m1 , m2 ihj1 , j2 ; m1 , m2 |J, M i, (7.63)
m1 ,m2

os coeficientes dessa transformação são os chamados coeficientes de Clebsh-


Gordon:

hj1 , j2 ; m1 , m2 |J, M i = hj1 , j2 ; m1 , m2 | j1 , j2 ; J, M i. (7.64)

Esses coeficientes, com a escolha apropriada de uma fase, são únicos e a


transformação conduzida por eles é unitária de tal forma que eles satisfazem
relações de ortogonalidade. Além disso eles não são nulos exceto nos casos:
• m1 + m2 = M
108 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR

• |j1 − j2 | ≥ J ≥ j1 + j2

• j1 + j2 = J = um inteiro

Em geral obtêm-se os coeficientes de Clebsh-Gordon fixando-se o maior


valor possível para M no sistema em estudo e ir baixando os números quânticos
através do operador J− . Para a maioria dos sistemas de interesse físico esses
coeficientes são tabelados.

7.8 Rotação de corpo rígido


O hamiltoniano de um corpo rígido em rotação (rotor rígido) é dado por:
" #
1 Ja2 Jb2 Jc2
H= + + , (7.65)
2 Ia Ib Ic

sendo Ia o momento de inércia do rotor rígido em relação ao eixo principal a


e temos Jα = J · α
~ , com α
~ uma variável dinâmica do rotor rígido equivalente
ao operador posição para partículas.
Nesse caso a relação de comutação é ligeiramente diferente da usual:

[Ja , Jb ] = −ih̄Jc , (7.66)

se o momento de inércia de todos os eixos for igual Ia = Ib = Ic = I damos o


nome de rotor rígido esférico e temos que:
J·J
H= , (7.67)
2I

cujos autovalores são Ej = h̄j(j+1)


2I
. Nesse caso a degenerescência passa a ser
2
de (2j + 1) e não mais (2j + 1).

7.9 Teoria de grupos e momento angular


O leitor atento deve ter percebido que a teoria de momento angular é
baseada em uma álgebra um pouco diferente da que estamos acostumados.
Para citar um exemplo, a operação Lx Ly num dado estado físico |ψi é diferente
da operação Ly Lx atuando no mesmo estado físico.
Claro que isso é devido às relações de comutação satisfeitas pelo operador L.
Porém note que as componentes de L não comutam entre si, embora comutem
7.9. TEORIA DE GRUPOS E MOMENTO ANGULAR 109

com L2 . Essa estranheza do operador momento angular é consequência desse


operador estar inserido em um contexto mais geral de teoria de grupos.
A matemática por trás da teoria de momento angular é muito bem
sedimentada e está cada vez mais presente em física, principalmente em
modelos sofisticados de física de partículas. Por conta da beleza dessa teoria
dedicaremos essa seção para apresentar novos conceitos em teoria de grupos
e estabelecer a relação desses conceitos com as ideias de momento angular
em mecânica quântica.

7.9.1 O grupo SU (2)


Conforme comentamos no apêndice C um grupo é definido como um con-
junto de objetos dotado de uma operação de multiplicação entre os elementos
desse grupo que satisfazem certas propriedades (citar algum livro).
Considere o conjunto de todas as matrizes de entradas complexas, unitárias,
de dimensão 2 e determinante 1. Ou seja, são matrizes que satisfazem:
( ! )
α −β ∗
SU (2) = , α, β ∈ C, |α| + |β| = 1. (7.68)
β α∗

Por conta de sua estrutura, esse grupo é chamado grupo especial uni-
tário. Esse grupo é de tamanha importância em física pois serve para
representar sistemas de dois níveis de spin. Note que todas as matrizes de
Pauli, σi , pertencem a esse grupo.
Isso significa, então, que é possível descrever operações de spin através de
operações em um grupo, algo que é fácil de ser feito e é bem estabelecido na
literatura matemática (citar livro de novo).

7.9.2 O grupo SO(3)


O próximo grupo que gostaríamos de comentar consiste no grupo SO(3),
também chamado de grupo das rotações do espaço tridimensional.
Já comentamos dele no cap 3: não é nada mais que o grupo que corresponde
a todas as rotações no espaço tridimensional. O gerador dessas rotações é o
momento angular, conforme já comentamos.

7.9.3 Grupos de Lie


Os dois grupos anteriores que comentamos são grupos que pertencem a
uma classe especial, chamados de grupos de Lie.
110 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR

Esses grupos possuem uma estrutura de continuidade para todas as opera-


ções de multiplicação do grupo. Em outras palavras, é um grupo contínuo em
que um de seus elementos é descrito por um conjunto de parâmetros reais.
Relembrando o grupo de Galileu que estudamos no capítulo 3 vemos que
todos os elementos ali estão associados a parâmetros reais (tempo, posição,
ângulos) consistindo, portanto, em grupos de Lie.
A importância dos grupos de Lie em física é simplesmente vasta e não se
restringe apenas à mecânica quântica (citar fonte).

7.9.4 Álgebras de Lie


A grande vantagem de se conhecer que uma dada teoria física é descrita
por um grupo de Lie consiste em que eles satisfazem uma álgebra própria,
chamada álgebra de Lie.
Para todo grupo de Lie há uma álgebra de Lie associada e ela permite
simplificar a análise de sistemas físicos através das relações satisfeitas pelos
geradores de simetrias do grupo de Lie subjacente. Em termos práticos uma
álgebra de Lie é uma álgebra de comutadores.

7.10 Exercícios
Exercício 7.1 Prove a relação de comutação entre J 2 e J, equação (7.2).

Exercício 7.2 Prove as relações de comutação da equação (7.8).

Exercício 7.3 Prove a relação da equação (7.15).

Exercício 7.4 Resolva todos os exercícios 7.4, 7.5 e 7.6 do livro do Ballen-
tine, [2].

Exercício 7.5 O estado geral de um sistema com operador momento angular


total J é |j, mi, sendo j o número quântico azimutal associado ao operador J 2
e m o número quântico associado ao operador Jz . Seja, também, os operadores
“escada”: q
J± |s, mi = j(j + 1) − m(m ± 1)h̄|j, m ± 1i, (7.69)
sendo que J pode significar qualquer combinação linear de momentos angulares,
inclusive de spin.
a) Opere a soma de momento angular para spin: S = S (1) + S (2) para
achar todos os estados possíveis ao sistema de duas partículas de spin-1/2.
b) Opere a soma de momento angular de spin-órbita: J = L+S para achar
todos os estados possíveis ao sistema de duas partículas, uma de momento
7.10. EXERCÍCIOS 111

angular L e outra de momento angular de spin S. Comente as diferenças


entre ambos sistemas.
112 CAPÍTULO 7. MOMENTO ANGULAR
Capítulo 8

Preparação e determinação de
estados

Como discutido em §2.5, para testar as previsões da mecânica quântica,


precisamos de um ensamble infinito de sistemas identicamente preparados
para submeter a procedimentos de medida e obter suas propriedades probabi-
lísticas. Embora “infinito” seja ideal, diversos sistemas não ficam longe disto.
Considere, por exemplo, um laser de comprimento de onda λ = 600 nm, com
potência de 10 mW. Este é um estado de aproximadamente 1016 fótons de
energia Elaser = hc/λ = 2, 06 eV sendo emitidos por segundo. Se este laser
incide em um cristal que tem um modo vibracional de 0,20 eV, dos fótons
incidentes, existe a probabilidade de que um em cada 106 fótons sofra um
espalhamento inelástico, perdendo energia na criação de um quantum de
vibração da rede (fônon), saindo com energia EStokes = (2, 06 − 0, 20) eV.
Assim, teríamos da ordem de 1010 fótons de energia EStokes = 1, 86 eV sendo
emitidos pela amostra. A mecânica quântica poder ser aplicada aqui, seja nos
fenômenos de emissão por um laser, seja na interação da luz com a matéria.
Voltando aos aspectos fundamentais da Mecânica Quântica vamos agora
nos ater ao problema de preparação e determinação de estados que descrevem
sistemas físicos. Dividimos o problema em duas perguntas:
Pergunta 1: Qual o procedimento para preparar um estado representado
por um operador ρ específico?
O que vimos até agora é que o operador ρ satisfaz às propriedades (§2.2):

T r(ρ) = 1, ρ = ρ† , hu|ρ|ui. (8.1)

Em outras palavras, o operador de estado, para um estado específico, não pode


ser qualquer operador. Ele tem que ser hermitiano, positivo semi-definido e
de traço igual a um. Sendo um operador auto-adjunto (hermitiano), vale a

113
114 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

representação espectral ρ = n ρn |φn ihφn | e os seus autovalores ρn são reais


P

e não-negativos (0 ≤ ρn ≤ 1).
Sabemos ainda que a equação de evolução do estado é:

dρ(t) i
= − [H(t), ρ(t)], (8.2)
dt h̄
no cenário de Schrödinger (3.80) ou de Heisenberg (3.84). Se o estado for
puro (ρ = ρ2 ) temos (3.75):

d i
|ψ(t)i = − H(t)|ψ(t)i. (8.3)
dt h̄
Outra pergunta relevante é:
Pergunta 2: Como determinar o operador de estado?
Neste sentido, sabemos que o valor esperado de obseráveis físicos R são
dados por (§3.7):
hRi = Tr {ρR}, (8.4)
onde R = R† . Para um estado puro temos

hRi = Tr{|ψihψ|R} = hψ|R|ψi. (8.5)

Estes são os aspectos teóricos da construção dos estados e dos observáveis


físicos em Mecânica Quântica, respeitando os postulados, a álgebra linear e a
teoria da probabilidade, nos quais devemos agora nos debruçar. Em outras
palavras, essas duas perguntas estabelecem a parte principal deste capítulo,
que consiste em resolver:

1. O problema da preparação de estados (pergunta 1);

2. O problema da determinação de estados (pergunta 2).

8.1 Preparação de estados


Genericamente, a forma mais simples de se preparar um estado é partindo
de um estado puro conhecido no tempo inicial t = t0 e, utilizando um operador
evolução temporal U (t, t0 ), chegar a um estado qualquer |ψ(t)i em t > t0 , a
partir de |ψ(t0 )i. Já foi demostrado por Reck et al. [?] que, para espaços de
dimensão finita, é sempre possível construir um U (t, t0 ) para gerar um estado
qualquer a partir de um estado puro conhecido.
8.1. PREPARAÇÃO DE ESTADOS 115

Outro problema é como obter um estado desejado a partir de um estado


inicial desconhecido, ou arbitrário. Consideremos um estado, na representação
das coordenadas, descrito pela função de onda:

ψ(x) = R(x)eiS(x) , (8.6)

com R e S sendo funções reais. O primeiro passo consiste em construir um


potencial W1 (x), tal que a solução do estado fundamental da equação de
Schrödinger independente do tempo (no instante inicial) seja ψ0 (x) = R(x).
Pela equação de Schrödinger independente do tempo pode-se demonstrar que
o potencial que realiza tal preparação de estado é dado por:

h̄2 ∇2 R(x)
W1 (x) = E + , (8.7)
2M R(x)

e o procedimento consiste em esperar até que a probabilidade do sistema


decair para o estado fundamental seja suficientemente próxima de 1. Na
sequência aplica-se um pulso de potencial:

W2 (x, t) = −hS(x)δ (t), (8.8)

com δ = 1/ no intervalo 0 < t <  e zero fora deste intervalo. No limite
 → 0 a interação W2 é mais forte que qualquer outra no sistema. Integrando
a equação de Schrödinger dependente do tempo e considerando a condição
inicial ψ0 (x) = R(x), encontramos ψ(x, t + ) = R(x)eiS(x) , que é o estado
desejado ∀ t > 0.
Filtragem: Outro método de preparação de estados consiste na chamada
filtragem. O princípio da filtragem pode ser exemplificado considerando a
montagem de um aparato de Stern-Gerlach, tal que feixes de partículas com
spins distintos sejam separados espacialmente devido à interação com o campo
magnético inomogêneo. Em seguida, bloqueamos os feixes que não são de
interesse, eliminando-os para selecionar um estado de spin em particular.
Um processo similar de filtragem pode ser realizado para preparar um
estado de luz polarizada, utilizando uma fonte de luz não polarizada e um
polarizador.
Teorema da não-clonagem: Um procedimento comum de preparação
de estados no mundo clássico que não é possível em mecânica quântica
é o que podemos chamar de clonagem. Nos domínios da física clássica
isso é comum: copiar um arquivo de computador, duplicar uma chave, etc.
Surpreendentemente, a linearidade das equações quânticas de movimento
tornam impossível a construção de um procedimento de duplicação de estados
quânticos genéricos. Esse é o teorema da não-clonagem, discutido a seguir.
116 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

Considere um estado quântico |φi que desejamos clonar. Aplicamos um


operador unitário de evolução de estado U em um dispositivo no estado
|φi ⊗ |ψi, de tal forma que:

U |φi ⊗ |ψi = |φi ⊗ |φi ⊗ |ψ 0 i. (8.9)

Note que precisamos do estado inicial |ψi de onde será tirado o necessário
para a clonagem de |φi, levando |ψi em |ψ 0 i, o segundo pertencendo a um
espaço de dimensão menor que o primeiro. Provaremos que tal dispositivo
não pode existir por contradição. Assumiremos que existem dois estados tal
que a equação (8.9) seja válida:

U |φ1 i ⊗ |ψi = |φ1 i ⊗ |φ1 i ⊗ |ψ 0 i, (8.10)


U |φ2 i ⊗ |ψi = |φ2 i ⊗ |φ2 i ⊗ |ψ 0 i. (8.11)

q Vamos aplicar este procedimento agora no estado superposto |φs i =


1
2
(|φ1 i
+ |φ2 i). A natureza linear de U implica que obteremos:
s
1
U |φs i ⊗ |ψi = (|φ1 i ⊗ |φ1 i ⊗ |ψ 0 i + |φ2 i ⊗ |φ2 i ⊗ |ψ 00 i), (8.12)
2
que está em contradição com a equação (8.9), pois de acordo com esta última
deveríamos obter:

U |φs i ⊗ |ψi = |φs i ⊗ |φs i ⊗ |ψ 000 i. (8.13)

Isso demonstra que é impossível construir tal dispositivo que sirva para clonar
um estado quântico desconhecido, arbitrário.
O teorema da não clonagem poderia levar à impressão de que a mecânica
quântica está em descordo com os procedimentos e observações no domínio
clássico, mas isto não é verdade. Note que fazendo o produto interno da
equação (8.11) pela anterior, dos dois lados, obtemos

hψ| ⊗ hφ1 |U † U |φ2 i ⊗ |ψi = hψ 0 | ⊗ hφ1 | ⊗ hφ1 |φ2 i ⊗ |φ2 i ⊗ |ψ 00 i


hφ1 |φ2 ihψ|ψi = hφ1 |φ2 i2 hψ 0 |ψ 00 i. (8.14)

Esta igualdade só é válida se hφ1 |φ2 i = 0. Efetivamente, podemos afirmar


que estado clássicos (que permitem a clonagem) são sempre ortogonais, ou
seja, que o teorema da clonagem não está em conflito com os resultados da
mecânica clássica.
Por simplicidade, trabalhamos até aqui com a preparação de estados puros.
A preparação de estados não puros consiste em construir combinações de
8.2. DETERMINAÇÃO DE ESTADOS 117

estados puros com pesos wi , tal que possamos preparar um operador de estado
ρ = i wi |ψi ihψi |. Tudo o que foi discutido nesta seção continua válido, não
P

havendo adição de novos princípios, apenas um aumento da complexidade


do tratamento do problema. De fato, a natureza geralmente nos fornece
estados não puros, e para o desenvolvimento de tecnologias que utilizam as
propriedades quânticas da natureza, o desafio é purificar estes estados.

8.2 Determinação de estados


Considere um estado representado por um operador de estados ρ. Quais
procedimentos são necessários e suficientes para se determinar ρ completa-
mente?
Uma medida em um estado de uma variável dinâmica, R|rn i = rn |rn i,
não fornece informação suficiente para a determinação do estado, significa
apenas que o resultado obtido rn é possível, isto é, nos diz que |rn i é um
estado possível do operador de estados desconhecido ρ. Diversas medidas
de R em diversos estados preparados de forma idêntica poderiam levar a
uma distribuição de probabilidade conhecida, P rob(R = rn |ρ) = hrn |ρ|rn i,
que equivale à determinação dos elementos de matriz da diagonal de ρ na
base dos autoestados de R. Mas não forneceria os elementos fora da diagonal
e, portanto, não determina ρ integralmente.
Para medir elementos não-diagonais precisamos medir uma variável dinâ-
mica (ou mais de uma) que não comute com R. Com isto garantimos estar
acessando informação (autovalores e valores esperados) de ρ em uma base
de autovetores que não é a mesma base do operador R, acessando, assim, os
elementos fora da diagonal de ρ na base de R.
Para exemplificar, considere os dois operadores hermitianos abaixo:

|rm ihrn | + |rn ihrm | |rm ihrn | − |rn ihrm |


Amn = , Bmn = , (8.15)
2 2i

tal que:

Tr(ρAmn ) = Re{hrm |ρ|rn i}, Tr(ρBmn ) = −Im{hrm |ρ|rn i}. (8.16)

Os operadores Amn e Bmn nos possibilita medir os elementos não-diagonais


de ρ, obtendo todos os seus elementos de matriz. O que não está claro é se
esses operadores são observáveis físicos e, se são, como implementar medidas
apropriadas. Neste sentido vejamos alguns casos particulares onde a natureza
das medidas que precisamos fazer é conhecida.
118 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

Estado de spin s = 1/2 Já mostramos (ver Eq.(7.38)) que o operador


de estado geral para esse caso é:
1
ρ = (1 + a · σ), (8.17)
2
que depende de três parâmetros reais: ax , ay e az , que têm que ser deduzidos
de medidas apropriadas. A média da i-ésima componente do spin é dada por:
1 1
 
hSi i = Tr ρ h̄ai = h̄ai , (8.18)
2 2
onde i = x, y, z. Para determinar o estado completamente, basta medir os
três valores médios das três componentes do operador de spin e isso pode ser
feito, por exemplo, com um aparato de Stern-Gerlach.
Aqui podemos nos perguntar quantos parâmetros independentes pode ter
uma matriz de estado representado por uma matrix 2 × 2? Embora sejam
4 elementos de matriz, os elementos fora da diagonal podem ser complexos,
somando ao todos 6 valores. Entretanto, os elementos da diagonal não são
independentes, uma vez sua soma deve resultar na unidade. E os elementos
fora da diagonal também não são independentes, pois a matriz deve ser
Hermitiana. Com estas considerações, nota-se que existem apenas 3 elementos
independentes, o que é consistente com a necessidade da medida de três
quantidades independentes.
O problema de spin 1/2 é bastante genérico e aplica-se a diversos sistemas
de dois níveis. Um problema que pode ser tratado de forma similar é a
determinação do estado de polarização de um feixe de laser. Neste caso,
os estados de polarização independentes são a polarização linear vertical ou
horizontal, polarização linear +45 ou –45, polarização circularmente polarizada
para a direita ou para a esquerda. Para tratar este problema utiliza-se
as chamadas matrizes de Poincaré, que são análogas às matrizes de Pauli,
mudando apenas seus nomes: σz → σ1 , σx → σ2 , σy → σ3 . Os estados de
polarização puras são dados por:
• ρ = 12 (1 + σ1 ): luz linearmente polarizada segundo x;

• ρ = 12 (1 − σ1 ): luz linearmente polarizada segundo y;

• ρ = 12 (1 + σ2 ): luz linearmente polarizada segundo +45;

• ρ = 12 (1 − σ2 ): luz linearmente polarizada segundo –45;

• ρ = 12 (1 + σ3 ): luz circularmente polarizada para a direita;

• ρ = 12 (1 − σ3 ): luz circularmente polarizada para a esquerda.


8.2. DETERMINAÇÃO DE ESTADOS 119

Estado de spin s = 1
Agora ρ é uma matriz 3 × 3. Precisamos conhecer 2 elementos diagonais
(o terceiro sendo determinado por T rρ = 1.) e também as partes real
e imaginária de seis elementos não diagonais (pois ρ é hermitiano). Isso
significa que precisamos conhecer oito elementos, sendo três destes obtidos a
partir de valores médios das componentes do operador de spin.
Os cinco elementos restantes podemos determinar com os operadores
quadrupolares, que são quadráticos no spin: (Sα Sβ + Sβ Sα ) com α, β = x, y, z.
Somente cinco destes operadores são independentes, pois Sx2 + Sy2 + Sz2 = 2h̄2 .
Usando uma representação matricial para ρ, os oito parâmetros necessários
para descrevê-lo são {ax , ay , az , qxx , qyy , qxy , qyx , qzx }. Essas quantidades são
determinadas por:
1
aα = Tr(ρSα ), α = x, y, z (8.19)
h̄2
1  
qαα = 2 Tr ρSα2 , α = x, y (8.20)

1
qαβ = Tr[ρ(Sα Sβ + Sβ Sα )], αβ = xy, yz, zx (8.21)
h̄2
gerando o operador ρ com a seguinte representação matricial:
  √  
1 1 1 1
1+ 2 (az −qxx −qyy ) 2 2
[ax +qzx −i(ay +qyx )] 2
(qxx −qyy −iqxy )
 √   √1 
ρ=
 1 1 [a +q +i(a +q )] −1+qxx +qyy 1
[ax −qzx −i(ay −qyz )] .

x zx y yz
 2 2  √1
2 2

1 1
(q −qyy +iqxy )
2 xx 2 2
[ax −qzx +i(ay −qyz )] 1− 21 (az +qxx +qyy )

A pergunta que resta é: como medir?


Podemos usar um aparato de Stern-Gerlach, com um campo inomogêneo
na direção x, tal que separe o feixe em três, um para cada componente do
spin. Em cada feixe podemos medir o valor esperado do operador de spin
daquela componente (x, y ou z). Em cada feixe também podemos medir o
valor esperado do operador de spin ao quadrado, resultando em cinco medidas
(lembre-se que uma medida dos operadores ao quadrado não é independente).
Para medir as três que faltam, qxy , qyz e qzx precisamos fazer uma evolução
dinâmica do nosso estado ρ desconhecido em um campo magnético uniforme
B. Adicionamos um hamiltoniano de interação H = −~µ · B. Colocando B na
direção z o hamiltoniano fica H = cSz com a constante c incluindo a força
do campo e o fator de proporcionalidade entre o momento magnético e o
spin. Suponha que ligamos o campo num instante t após termos medido hSx2 i.
Fazendo isto diversas vezes podemos medir (ver §3.7):
d D 2E i n h io
Sx = Tr ρ cSz , Sx2 = −ch̄2 qxy , (8.22)
dt t=0

120 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

ou seja, qxy pode ser obtido da evolução temporal de Sx2 . Similarmente, estes
procedimento pode ser repetido para obtermos as outras duas componentes,
determinando todos os elementos de ρ.
Estado de spin s = 3/2
O caso do spin s = 3/2 é trazido aqui apenas para exemplificar o aumento
no número de elementos de matriz a serem determinados. No caso, serão 15.
Para isto, para descrever ρ adequadamente será necessário medir três dipolos,
cinco quadrupolos e sete octopolos. Seguindo a mesma lógica de número de
elementos de matriz independentes, descreva porque não são necessários, ao
todo, 15 medidas para se determinar ρ.

8.3 Estados de sistemas compostos


Consideremos um sistema composto, por exemplo, por duas partículas.
É possível determinar este estado de múltiplas componentes? O estado do
sistema como um todo fica determinado ao se determinar os estados dos
componentes individualmente? Essas são perguntas importantes que iremos
responder nessa seção.
Consideremos um estado de um sistema composto por duas partículas:
|am bn i = |am i ⊗ |bn i sendo que {|am i} denota a partícula 1 e {|bn i} denota a
partícula 2. Calculemos o valor esperado do observável R:

ham bn |ρ|a0m b0n iha0m b0n |R|am bn i,


X X
hRi = Tr(ρR) = (8.23)
m,m0 n,n0

consideremos R = R(1) , um operador que opera apenas na partícula 1, ou


seja:
D E D E
R(1) = ham bn |ρ|am0 bn0 i am0 R(1) am hbn0 |bn i,
X X
(8.24)
m,m0 n,n0

como hbn0 |bn i = δn,n0 encontramos:


D E D E
R(1) = ham bn |ρ|am0 bn i am0 R(1) am = Tr(1) (ρ(1) R(1) ),
X X
(8.25)
m,m0 n

onde para a última passagem definimos o chamado operador de estado


reduzido (também chamado operador de estado parcial):

ρ(1) = Tr(2) (ρ) =


X
ham bn |ρ|am0 bn i, (8.26)
n
8.3. ESTADOS DE SISTEMAS COMPOSTOS 121

baseado na operação Tr(i) que é denominada traço parcial, consistindo de


uma operação de traço no espaço fator i = 1 ou 2 de ρ, que é a operação de
fatoração da informação da partícula i. Analogamente define-se:

ρ(2) = Tr(1) (ρ), (8.27)

o operador de estado parcial da partícula 2.


  h i†
Pode-se demonstrar que Tr(1) ρ(1) = 1 e ρ(1) = ρ(1) , enfim que opera-
dores de estados parciais ρ(1) (8.26) e ρ(2) (8.27) apresentam as propriedades
básicas de estados ((2.2),(2.3),(2.4)) e são suficientes para o cálculo de médias
de qualquer variável dinâmica que pertença exclusivamente à componente 1 ou
à componente 2. Entretanto, em geral estes dois operadores de estado parciais
não são suficientes para determinar o estado composto de forma completa,
porque não fornecem informação sobre correlação entre as componentes 1 e 2.
Se for verdade que
D E D ED E
R(1) R(2) = R(1) R(2) . (8.28)

D E D E
para todo R(1) e R(2) , então o estado é dito descorrelacionado, e terá a
forma:

ρ = ρ(1) ⊗ ρ(2) . (8.29)

A equação (8.29) não é sempre válida. Se um sistema quântico for cor-


relacionado não é possível descrever ρ a partir do produto tensorial de suas
partes. Essa definição de correlação quântica pela negação de uma forma
de descrever o sistema pode parecer inadequada, mas é a melhor forma de
fazê-lo. O emaranhamento é um exemplo de correlação quântica que viola a
equação (8.29). É digno de nota que mesmo a mais forte correlação clássica
ainda é muito pequena se comparada com as correlações quânticas. Para mais
detalhes a respeito, indicamos [5].
Classificação de estados:
De acordo com as possibilidades dos estados parciais de um sistema
composto serem puros ou não, temos as distintas possibilidades sobre a
pureza do estado composto como um todo. E, através da pureza dos estados
componentes e do estado total, podemos ver se o sistema é correlacionado ou
não. Todas essas possibilidades estão sintetizadas nas duas tabelas a seguir:
122 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

Estado total
Estados parciais ρ(1) , ρ(2)
puro não-puro
puro, puro sim1 não6a
puro, não-puro não6b sim2
não-puro, não-puro sim3 sim4,5

Tabela 8.1: Pureza do estado total do sistema composto de acordo com as


distintas possibilidades dos componentes do sistema. Os números sobrescritos
junto aos sim e não indicam o número do item que demonstra sua validade
(ver texto).

ρ(1) , ρ(2) , ρ Correlacionado Não-Correlacionado


puro, puro, puro não6c sim1
puro, não-puro, não-puro não6c sim2
não-puro, não-puro, puro sim3 não7
não-puro, não-puro, não-puro sim5 sim4

Tabela 8.2: Correlação do sistema de acordo com as possibilidades para os


estados componentes e o estado total do sistema. Os números sobrescritos
entre parênteses junto aos sim e não indicam o número do item que demonstra
sua validade (ver texto).

Pode parecer estranho duas linhas das tabelas anteriores terem “sim”
em ambas colunas. De fato, no caso de termos, por exemplo, todos os
componentes e o estado total não-puros, existe a possibilidade de o sistema
ser correlacionado, assim como existe a possibilidade de o sistema não ser
correlacionado. Apenas essa informação não é suficiente para decidir a esse
respeito.
Antes de provar cada uma das entradas nas tabelas acima, é importante
enunciar um teorema:

Teorema 10 (Teorema do fator de estado puro) Se um dos estados par-


ciais for puro, seu operador de estado deve ser um fator do operador do
estado total. De outra forma: considere um operador de estado ρ válido
( (2.2),(2.3),(2.4)) e sejam ρ(1) = Tr(2) (ρ) e ρ(2) = Tr(1) (ρ). Se o estado
parcial ρ(1) descreve um estado puro, então ρ = ρ(1) ⊗ ρ(2) .

A prova deste teorema pode ser encontrada no livro do Ballentine [2].


Podemos agora justificar todos os sim e não encontrados nas duas tabelas
anteriores, começando pelos sim:
8.3. ESTADOS DE SISTEMAS COMPOSTOS 123

1. Podemos ter ρ(1) = |φihφ| (puro, (2.9)), ρ(2) = |ψihψ| (puro) e ρ =


|ΨihΨ|, com |Ψi = |φi ⊗ |ψi um estado puro multicomponente não
correlacionado;
 2 
2. Podemos ter ρ(1) puro, de forma que Tr(1) ρ(1) = 1 e ρ(2) não puro,
 2 
(1) (1)
de forma que Tr ρ < 1. Pela identidade

Tr(σ ⊗ τ ) = Tr(1) (σ) Tr(2) (τ ), (8.30)

temosquepara
 um
estado não correlacionado ρ = ρ(1) ⊗ ρ(2) , Tr(ρ2 ) =
2 2 
Tr(1) ρ(1) Tr(1) ρ(1) < 1, ou seja, ρ é não puro.

3. Podemos ter ρ(1) = 12 (|+ih+| + |−ih−|) = ρ(2) , que representam duas


partículas despolarizadas, ou seja, estados não puros (+ e − aqui
podem indicar direção de spin, polarização, ou outro estado de dois
níveis). Podemos ter um estado puro representado por ρ = |ΨihΨ|, onde
|Ψi = √12 (|+, −i − |−, +i). Este é um estado correlacionado pois se
uma partícula é encontrada no estado +, a outra fica automaticamente
determinada como estando no estado −;
 2 
(1) (1) (1)
4. Podemos ter ρ não puro, de forma que Tr ρ < 1 e ρ(2) não
 2 
puro, de forma que Tr(1) ρ(1) < 1. Para um estado não correla-
(1)
 ρ = ρ ⊗
cionado ρ(2) , pela identidade (8.30) temos que Tr(ρ2 ) =
2  2
Tr(1) ρ(1) Tr(1) ρ(1) < 1, ou seja, ρ é não puro.

5. Podemos ter ρ(1) = 12 (|+ih+| + |−ih−|) = ρ(2) , que representam dois


estados não puros. Podemos ter um estado não puro representado por
ρ = 12 (|+, +ih+, +| + |−, −ih−, −|). Este é um estado correlacionado.
Existe 50% de chance de que as duas partículas estejam no estado +,
e 50% de que ambas estejam no estado −, e a definição do estado de
uma partícula implica na definição da outra.
Justificamos agora os não:

6. Considere que um dos estados do sistema composto não é puro. Pelo


(1) (2)
teorema
  ρ = ρ ⊗ ρ . Sendo assim,
do fatorde estado puro, tome que
2  2  2
Tr ρ(1) ⊗ ρ(2) = Tr(1) ρ(1) Tr(1) ρ(1) , e podemos fazer três
 2   2 
(1) (1) (1) (1)
considerações: (a) se ambos os termos Tr ρ e Tr ρ
124 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

forem 1, o produto será um; (b) se ambos os termos forem menor


que um, o produto será um; sendo ρ = ρ(1) ⊗ ρ(2) , este é um estado
necessariamente não correlacionado;
 2 
(1) (1)
7. Podemos ter dois estados não puros, valendo Tr ρ < 1 e
 2  h i
Tr(2) ρ(2) < 1. Neste caso, só é possível obter Tr (ρ)2 = 1 se
houverem elementos de correlação em ρ.

Correlação de estados emaranhados:


Estados emaranhados (um exemplo de estados correlacionados) são res-
ponsáveis por grande parte de diversos fenômenos peculiares em mecânica
quântica. Uma forma de se produzir tais estados está ilustrada na figura 8.1.
Considere uma caixa que contém um material que emite partículas em
direções aleatórias, porém sempre com momentos opostos (kb = −ka ).

Figura 8.1: Aparato experimental para se gerar estados emaranhados. Ex-


traído de [2].

A caixa restringe as partículas a duas direções possíveis, de tal forma que


o estado das partículas que emergem da caixa é:
s
1
|Ψ12 i = (|ka i|kb i + |ka0 i|kb0 i). (8.31)
2

Nesse sistema os momentos de cada partícula emitida são emaranhados, ou


seja, se a partícula 1 da direita tiver momento h̄ka , então a partícula 2 da
esquerda obrigatoriamente terá momento h̄kb . Se a partícula 1 da direita
tiver momento h̄ka0 , então a partícula 2 da esquerda obrigatoriamente terá
momento h̄kb0 . Colocando um sistema de espelhos, como na figura, é possível
direcionar os feixes de partículas de forma que um detector da partícula 1,
colocado na região de superposição dos feixes, não distingue se a partícula
8.4. RELAÇÕES DE INDETERMINAÇÃO 125

passou pelo caminho a ou a0 . O mesmo vale para um detector da partícula 2,


que não distinguirá b ou b0 .
Considerando que de cada lado temos um sistema do tipo fenda dupla,
pode-se imaginar que seriam medidos um padrão de interferência de um lado
e outro padrão de interferência do outro lado, ou seja, o número de eventos
esperados oscilaria com a posição de um detector em x1 , e o mesmo valeria
para um detector em x2 . Entretanto, o resultado previsto pela mecânica
quântica e observado experimentalmente não é este. Padrões de interferência
na intensidade do feixe em 1 ou 2 só seriam observáveis se o sistema fosse
descorrelacionado. A existência de emaranhamento faz com que só seja
possível obter o padrão de interferência se fizermos medidas simultâneas em
ambos feixes, ou seja, posicionando o detector 1 em um ponto x1 fixo, e
mudando a posição x2 do detector 2, e considerando apenas medidas em
coincidência (partículas chegando em x1 e x2 simultaneamente).
Este problema pode ser formalizado matematicamente considerando fun-
ções do tipo onda plana e dois detectores em x1 e x2 . Teríamos:
Ψ12 (x1 , x2 ) ∝ expi(ka x1 +kb x2 ) expi(ka0 x1 +kb0 x2 ) , (8.32)
de forma que
|Ψ12 (x1 , x2 )|2 ∝ 1 + cos[(ka − ka0 )x1 + (kb − kb0 )x2 ]. (8.33)
Uma medida de número de eventos de medição da partícula 1 em função
da posição x1 do detector, independente da medida partícula 2, é obtida
pelo cálculo de |Ψ12 (x1 , x2 )|2 integrado em dx2 , que dá um valor constante.
Entretanto, uma medida correlacionada do número de eventos de medição da
partícula 1 em função da posição x1 do detector, condicionado à medição da
partícula 2, por exemplo em x2 = 0, oscilaria com o termo cos[(ka − ka0 )x1 ],
gerando um típico padrão de interferência.
O padrão de interferência tipo fenda dupla seria observado se o sistema não
fosse emaranhado, de forma que |Ψ12 i = |Ψ1 i ⊗ |Ψ2 i, que seria representado
por uma função de onda diferente da Eq.(8.32).

8.4 Relações de indeterminação


Numa forma elementar, um estado pode ser identificado como uma especi-
ficação sobre a distribuição de probabilidades de cada observável. Entretanto
essas distribuições de probabilidade das variáveis dinâmicas podem estar
inter-relacionadas. Em outras palavras, as definições das distribuições de
probabilidades de duas variáveis dinâmicas não são, necessariamente, inde-
pendentes.
126 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

Sejam três variáveis dinâmicas A e B tais que:

[A, B] = iC, C † = C, (8.34)

para um estado arbitrário ρ. Definindo dois operadores A0 = A − hAi e


B0 = B − hBi temos que as variâncias de A e de B (1.84) serão dadas por
(2.1):    
∆2A = Tr ρA20 , ∆2B = T r ρB02 . (8.35)
Fazendo uso da desigualdade:
 
Tr ρT T † ≥ 0, (8.36)

e definindo T = A0 + iωB0 encontramos:


     
Tr ρT T † = Tr ρA20 − iωTr(ρ[A0 , B0 ]) + ω 2 Tr ρB02 ≥ 0. (8.37)

Esta é uma equação de segundo grau para ω que se anula quando:

T r(ρC)
ω=− , (8.38)
2Tr(ρB02 )

o que nos permite reescrever:




     {Tr(ρC)}2
Tr ρT T = Tr ρA20 Tr ρB02 − ≥ 0, (8.39)
4
e então, finalmente:
{Tr(ρC)}2
∆2A ∆2B ≥ , (8.40)
4
a chamada relação de incerteza generalizada. De forma mais compacta
ela pode ser escrita como sendo:
1
∆2A ∆2B ≥ |hCi|, (8.41)
2
válida para todo A,B que tem [A, B] = iC.

Exemplo 17 Para os operadores posição e momento, em que [Q, P ] = ih̄,


temos:

∆A ∆B ≥ , (8.42)
2
a conhecida relação de incerteza de Heisenberg.
8.5. EXERCÍCIOS 127

Esta relação impõe condições no estado de incerteza mínima (igualdade


em (8.42)). Consideremos um estado puro ρ = |ψihψ| e seja T = Q + iωP .
Na representação das coordenadas:

h̄2 ∂
T =x+ , (8.43)
2∆2P ∂x

pois estamos assumindo que ω = − 2∆h̄2 para que seja válida a igualdade na
 P
equação (8.42). A partir de Tr ρT T † = 0, temos que T † |ψi = 0, e daí:

h̄2 ∂
!

T |ψi = x + ψ(x) = 0, (8.44)
2∆2P ∂x

chamando α = h̄2 /2∆2P e fazendo transformações unitárias de volta para que


hQi = x0 e hP i = h̄k0 temos que a solução da equação anterior é da forma:
(x−x0 )2
− +ik0 x
4∆2
ψ(x) = ce Q , (8.45)

que tem a forma de uma Gaussiana.


O mínimo de incerteza só é possívelD para estados
E puros. Isto pode
 servisto
considerando um estado misto ρ = φn T T φn . Temos que Tr ρT T † = 0

admite a solução da forma (8.45) para todo valor de n. Porém, é possível


mostrar que duas soluções da forma da equação (8.45) não são ortogonais,
portanto não é possível construir uma base de autofunções ortogonais a partir
dessa construção. Isso, então, significa que o estado misto possui apenas um
componente, ρ = |φn ihφn |, ou seja, é um estado puro.

Exemplo 18 Para as componentes do momento angular temos que [Jx , Jy ] =


ih̄Jz então:
h̄2
∆2Jx ∆2Jy ≥ hJz i2 , (8.46)
4
a relação de incerteza é mínima (a desigualdade se torna uma igualdade) para
o estado puro ρ = |j, mihj, m| quando |m| = j.

8.5 Exercícios
Exercício 8.1 A partir das equações (8.15), demonstre as equações (8.16).
Dica: considere ρ = ij rij |ri ihrj |.
P

Exercício 8.2 Utilizando as matrizes de Pauli, demonstre a equação (8.18).


128 CAPÍTULO 8. PREPARAÇÃO E DETERMINAÇÃO DE ESTADOS

Exercício 8.3 Escreva as formas matriciais dos 6 operadores de estados


de polarização puros descriminados na §8.2. Faça um desenho da esfera de
Poincaré e localize nela estes 6 estados.

Exercício 8.4 Demonstre que a Eq. (8.28) vale para estados não correlacio-
nados.

Exercício 8.5 Demonstre que a Eq.(8.33) não gera padrão de interferência


para medidas descorrelacionadas. Proponha a forma da função de onda
Ψ12 (x1 , x2 ) para estados descorrelacionados e demonstre que, neste caso, uma
medida descorrelacionada leva ao padrão de interferência.

Exercício 8.6 Escreva os estados parciais e totais das justificativas 3 e 5 em


§8.3 na forma matricial e justifique a identificação dos estados totais como
puros ou não puros com base no Tr(ρ2 ).

Exercício 8.7 A relação de incerteza em posição e momento é dada por:



∆A ∆B ≥ , (8.47)
2
sabemos que a constante reduzida de Planck é da escala de 10−34 J.s. Suponha,
hipoteticamente, que ela é da ordem de grandeza de 10 J.s (equivalente a
energia potencial gravitacional de uma massa de 1 kg elevado a uma altura de
1 m na Terra). Quais as consequências para a mecânica quântica isso teria?
Discuta as possíveis mudanças.

Exercício 8.8 Baseando-se no exercício anterior em que supomos que a


constante de Planck é muito grande agora vamos pensar o contrário. Suponha
que a constante de Planck é zero. Quais as consequências para a mecânica
quântica isso teria? Discuta as possíveis mudanças.

Exercício 8.9 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].


Capítulo 9

Medidas e Interpretação de
estados

No capítulo anterior falamos sobre a preparação e determinação de estados.


Neste capítulo vamos discutir a inclusão no formalismo do aparato de medida.
Iniciamos com um exemplo simples, de como a medida de uma variável
fundamental do sistema (exemplo, o spin de uma partícula) é medido através
de uma propriedade microscópica que surge da interação do aparato de
medida (exemplo, aparato de Stern-Gerlach) com aquela variável. Colocado
este exemplo passamos para a formalização de o que este tipo de interação
pode causar no sistema. Este desenvolvimento é chamado teoria das medidas,
construída respeitando a álgebra linear e teoria da probabilidade, e fornece
argumentos técnicos para a discussão de questões relacionadas à interpretação
da função de onda, em particular sobre a especulação do seu “colapso” no
processo de medida.

9.1 Um exemplo de medição de spin (aparato


de Stern-Gerlach)
Considere uma partícula (ou um feixe) com momento magnético que passa
por um campo magnético inomogêneo em um aparato de Stern-Gerlach. A
energia potencial associada ao momento magnético é −B · µ ~ . O gradiente
de sinal negativo dessa energia é a força magnética sobre a partícula que,
portanto, é função de B. Como µ ~ depende de S, o spin da partícula, então
esse é um método que permite determinar a componente do spin a partir da
deflexão da partícula.
Consideremos que o campo magnético atua apenas na região dos ímãs e
está na direção z. Escolheremos um sistema de referência que se move com

129
130 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS

a partícula, ou seja, para o qual ela está em repouso. A partícula sentirá


um campo magnético variável no tempo apenas num intervalo de tempo
0 < t < T em que ela se move na região de campo magnético. Nessa região o
hamiltoniano da partícula é dado por:

H(t) = −czσz , 0 < t < T. (9.1)

com c uma constante que envolve o gradiente de campo e a magnitude do


momento magnético. Partindo-se do estado inicial:

|ψ0 i = a|+i + b|−i, (9.2)

onde |+i e |−i representam o spin para cima e para baixo, respectivamente,
a solução da equação de Schrödinger nos dará como estado para t > T :

|ψt i = aeiT cz/h̄ |+i + be−iT cz/h̄ |−i. (9.3)

Esse exemplo serve para apresentar o conceito mais importante desse


capítulo: o aparato de medida estabelece uma correlação entre variáveis
dinâmicas do sistema em estudo e variáveis mensuráveis através do aparato
experimental. No caso do aparato de Stern-Gerlach estamos criando uma
correlação entre o momento da partícula na direção z, Pz = T c, que pode ser
medido macroscopicamente através do deslocamento da partícula, e o spin da
mesma: se σz = +1 temos Pz = +T c, e se σz = −1 temos Pz = −T c. É essa
correlação que permite a medida e a identificação da medida com a grandeza
física de relevância.

9.2 Teorema geral da teoria das medidas


Os ingredientes essenciais para se estabelecer medidas em mecânica quân-
tica consistem no objeto de estudo (I) a ser medido, num aparato de medida
(II), e no procedimento que produz a correlação entre as variáveis de (I) com
as variáveis indicadoras de (II).
Considere uma variável dinâmica R, assumida discreta por simplicidade.
O operador R possui um conjunto completo de autovetores

R|ri(I) = r|ri(I) . (9.4)

O aparato (II) tem uma variável indicadora A que também possui um


conjunto completo de autovetores:

A|α, mi(II) = α|α, mi(II) , (9.5)


9.3. INTERPRETAÇÃO DO VETOR DE ESTADO 131

em que α é autovalor de A e m identifica todos os outros números quânticos


necessários para especificar um autovetor único.
O aparato, então, é preparado num estado inicial pré-medida, |0, mi(II)
com α = 0. Introduzimos, então, uma interação entre (I) e (II) que produz
uma correspondência única entre os valores r e α. Essa interação é conduzida
por um operador unitário U . Suponha que o estado inicial de (I) seja um
autovetor de R. Logo o estado inicial de (I) + (II) será |ri(I) ⊗ |0, mi(II) .
Se, adicionalmente, requeremos que a medida não deve mudar o valor da
quantidade a ser medida, então teremos:
U |ri(I) ⊗ |0, mi(II) = |ri(I) ⊗ |αr , mi(II) . (9.6)
Aqui supomos que os valores de r e de m não são mudados pela interação.
Podemos tornar, entretanto, esse argumento mais geral ao perceber que não
é necessário supor que (I) e (II) continuem inalterados após a medição. Uma
medição fidedigna apenas requer que haja uma relação unívoca entre o estado
inicial r e o indicador final αr . Logo, a possibilidade mais geral é:
0 0 (I) (II)
U |ri(I) ⊗ |0, mi(II) = urr,m
,m
|r0 i ⊗ |αr , m0 i
X
= |αr ; (r, m)i. (9.7)
r0 ,m0

onde (r, m) denota o estado inicial que deve estar atrelado ao resultado final
por uma transformação unitária.
Consideremos, agora, que o estado inicial do objeto de estudo (I) não é
um autoestado específico de R, mas é dado por:
|ψi(I) = cr |ri(I) .
X
(9.8)
r

Pela equação (9.7) e pela linearidade do operador U temos:


E
U |ψi(I) ⊗ |0, mi(II) = cr |αr ; (r, m)i = Ψfm ,
X
(9.9)
r

sendo o sobre-índice f uma forma de denotar o estado final. Note que o


estado final não é um autoestado específico de A, mas uma superposição
coerente de autovetores macroscopicamente distintos. Coerentemente, a
probabilidade de uma medida de A resultar no autovalor αr é dada por |cr |2 ,
consistente com a probabilidade de se encontrar o autoestado |ri no estado
inicial do objeto em estudo, de acordo com (9.8).

9.3 Interpretação do vetor de estado


E
O estado final Ψfm não é um autoestado do operador indicador A, ou seja,
indicador não tem um estado definido. Essa característica de superposição
132 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS

coerente para o estado final pode ser discutida de duas formas diferentes,
dependendo de como interpretamos o estado final:

A. Um estado puro produz uma descrição completa e exaustiva de um


sistema individual.

B. Um estado puro descreve uma propriedade estatística de um ensemble


de sistemas igualmente preparados.

A interpretação A é muito comum em diversos textos de mecânica quântica,


principalmente nos mais antigos. Essa interpretação, porém, encontra sérios
problemas quando confrontada com o teorema das medidas (§9.2).

9.3.1 O gato de Schrödinger


E
Como o estado final Ψfm não é um autoestado da variável indicadora,
então podemos concluir, de acordo com a interpretação A, que o indicador
não tem valor definido. Isso não é uma indefinição microscópica palatável,
mas sim uma indefinição macroscópica, que não é observável! Um exemplo é o
experimento mental conhecido como paradoxo do gatoE de Schödinger.
√ Neste
(I)
experimento, o estado microscópico é dado por Ψ = (1/ 2)[|di + |ndi],
onde |di e |ndi representam o átomo nos seus estados decaído e não decaído,
sendo que no estado decaído a radiaçãoE libera√
um veneno que mata o gato. O
(I,II)
estado final é, então, dado por Ψ = (1/ 2)(|di|mortoi + |ndi|vivoi), e
o gato encontra-se no estado indefinido, vivo ou morto.

9.3.2 Consistência com a teoria da medida


Vamos analisar a consistência desta interpretação com o teorema da
medida. Um primeiro conceito que deve ser questionadoE é como o estado final
indefinido dá origem a um estado único medido, Ψfm → |αr ; (r, m)i? Este
é o conceito de colapso da função de onda. Entretanto, se a mecânica
quântica representa uma descrição completa da natureza, a princípio qualquer
procedimento responsável por essa evolução de estados deveria ser passível
de representação na teoria da medida. Seja uma perturbação do objeto pelo
aparato de medida, seja o processo de tomada de consciência por parte do
experimentador (“o gato está vivo!”), seja uma interação com todo o universo,
qualquer destes processos podem ser pensados como incluídos em U .
Resta analisar então se esta incapacidade de definição da teoria da medida
poderia estar atrelada a indefinição do estado inicial. Considere um estado
9.3. INTERPRETAÇÃO DO VETOR DE ESTADO 133

geral descrito pelo operador de estado para o sistema (I) + (II):


ED
ρi = wm Ψim Ψim ,
X
(9.10)
m

onde o somatório inclui todas as possibilidade de estados relacionadas aos


números quânticos m que são indefinidos no experimento. Aqui wm denota a
probabilidade associada a cada estado possível do aparato de medida. Esse
número pode indicar uma quantidade muito maior de números quânticos do
que o indicador α, pode incluir todo o universo e a nossa consciência. A
interpretação A requer que o estado final seja uma mistura de autovetores de
indicadores com a forma diagonal com respeito a αr :

ρd = |cr |2
X X
wm |αr ; (r, m)ihαr ; (r, m)|, (9.11)
r m

o sobrescrito d em ρd denota um operador diagonal. Qualquer termo não-


diagonal representaria uma superposição coerente que deve ser evitada para
sustentar a tese de que a indefinição do estado inicial é que gera a impossibili-
dade de a teoria da medida descrever o processo de medidas apropriadamente.
Entretanto, a conjectura de a equação (9.11) só ter termos na diagonal não é
compatível com a álgebra linear. O estado final após o processo de medição é:
ED
ρf = U ρi U † = wm Ψfm Ψfm ,
X
(9.12)
m
E
em que Ψfm = U |Ψim i. Portanto, de acordo com a álgebra linear, encontra-se:

ρf = c∗r1 cr2
XX X
wm |αr1 ; (r1 , m)ihαr2 ; (r2 , m)|. (9.13)
r1 r2 m

Essa construção permite αr1 6= αr2 , que indica uma superposição coerente
de autovetores macroscopicamente distintos do operador indicador. Desta
forma, concluímos que a interpretação A leva ao conceito do colapso da
função de onda, que é inconsistente com a teoria da medida. Como esta teoria
fundamenta-se nas mesmas bases da teoria quântica, que são a álgebra linear
e a teoria da probabilidade (veremos mais sobre isso a frente), a interpretação
A não se sustenta.
Todos estes problemas desaparecem quando consideramos a interpretação
B: o operador de estado é uma quantidade que deve ser utilizada para
calcular a distribuição de probabilidade de variáveis dinâmicas, como descrito
pelo postulado 2 da mecânica quântica (§2.1). Este operado descreve as
propriedades dos resultados possíveis em um ensemble de sistemas igualmente
preparados.
134 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS

9.3.3 Onde está a incerteza?


Considere um feixe de elétrons (vários elétrons igualmente preparados)
onde existe uma incerteza na definição da energia dos elétrons do feixe.
Supondo que o vetor de estado descreve um elétron individual (interpretação
A), devemos considerar que cada elétron tem uma energia bem definida, e
a incerteza no feixe está na comparação entre dois elétrons, ou devemos
considerar que cada elétron carrega ele próprio a incerteza?
Para analisar esta questão consideremos um feixe de elétrons que se move
da esquerda pra direita em uma dimensão espacial. Suponhamos, primeiro,
que cada elétron é descrito por uma onda plana, ψk (x, t) = ei(kx−ωt) , com
energia h̄ω = h̄2 k 2 /2M bem definida, e a distribuição de energia observada
nos permite inferir a densidade de probabilidade de distribuição de frequências
no feixe, W (ω). O operador de estado para o feixe neste caso é:
Z
ρ= |ψk ihψk |W (ω)dω, (9.14)

que na representação das coordenadas fica:


Z Z
0 0
ρ(x, x ) = ψk (x, t)ψk∗ (x, t)W (ω)dω = eik(x−x ) W (ω)dω. (9.15)

A partir desse resultado podemos calcular o padrão de interferência e qualquer


outra quantidade física de interesse.
Suponhamos, agora, que cada elétron é descrito como um pacote de onda
com uma distribuição de energia:
Z
ψt0 (x, t) = A(ω)ei[kx−ω(t−t0 )] dω, (9.16)

com pacotes de ondas diferentes sendo distinguidos devido ao tempo inicial t0


em que são emitidos. Supondo que o tempo de emissão segue uma distribuição
uniforme estamos interessados em calcular os elementos de matriz do operador
de estado através de um valor esperado temporal:

0 1 Z T /2
hx|ρ|x i = lim ψt0 (x, t)ψt∗0 (x0 , t)dt0
T →∞ T −T /2

1 Z T /2 Z Z
0 0 0
= lim A(ω)e i[kx−ω(t−t0 )]
dω A∗ (ω 0 )e−i[k x −ω (t−t0 )] dω 0 dt0 .
T →∞ T −T /2
(9.17)
Essa integral é não-nula, após tomar o limite, exceto para ω = ω 0 e então a
função de estado será:
Z
0
ρ(x, x0 ) = eik(x−x ) |A(ω)|2 dω. (9.18)
9.3. INTERPRETAÇÃO DO VETOR DE ESTADO 135

Note que as equações (9.18) e (9.15), têm a mesma forma, distintas apenas
pelo uso do |A(ω)|2 ou W (ω), que foi introduzido por nós diferenciando as
duas possibilidades. Isto mostra que a natureza da incerteza em energia do
elétron neste caso não leva a uma consequência observável, e sua discussão é,
efetivamente, inócua, colocando em cheque a interpretação A.
Por outro lado, considerando a interpretação B, podemos entender que o
operador ρ descreve o estado gerado pelo processo de preparação, que gera
um ensemble de sistemas, sem qualquer necessidade de especular a respeito
de uma função de onda de um elétron individualmente. Consideremos, por
exemplo, um feixe de elétrons gerados por emissão térmica. Podemos obter o
operador de estado para o sistema considerando que, no cenário de Schrödinger,

dt
= 0 pois [H, ρ] = 0 para estados estacionários. E, como vale a equação de
autovalores, H|ψω i = h̄ω|ψω i teremos que:
Z
ρ= |ψω ihψω |W (ω)dω, (9.19)

cuja representação das coordenadas é o mesmo resultado que já tínhamos


obtido.

9.3.4 O “colapso” da função de onda


Como visto em §9.3.1, o dito colapso da função de onda é um fenômeno
necessário quando adotamos a interpretação A, sem nenhuma clareza do que
gera este colapso, e ainda inconsistente com a teoria da medida (§9.3.2). Um
experimento tipo recombinação de spins pode ser explorado para abordar o
tema.
O experimento consiste em um feixe de nêutrons com spins polarizados
na direção +z que incide em um cristal e é transmitido através do feixe AC
e sofre uma reflexão de Bragg no feixe AB. O mesmo ocorre em B e em C,
porém os feixes que saem do aparato nesses pontos não têm importância para
o experimento e não estão representados (veja Fig.9.1).

Figura 9.1: Figura do experimento de recombinação de spins. Extraído de [2].


136 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS

Um dispositivo que inverte o spin (inversor) é inserido no feixe CD, e os


spin para cima e spin para baixo são recombinados no ponto D. O estado de
spins dos feixes que emerge à direita do experimento são então determinados.
Seja |+i e |−i os autoestados spin para cima e spin para baixo, respecti-
vamente, do operador σz . É razoável supor que os nêutrons no ponto B estão
no estado de spin |+i e os nêutrons que emergem do lado direito do conversor
estão no estado |−i. A pergunta importante é: qual será o estado de spin
após a recombinação do feixe em D?
Se considerarmos que o processo de separação dos feixes em A é um
processo de medida, similar ao processo utilizado na separação de spins com
o aparado de Stern-Gerlach (§9.1), podemos nos questionar se em A acontece
o colapso da função de onda. Neste caso, o estado de spin em D deve ser:

1
ρinc = (|+ih+| + |−ih−|), (9.20)
2

que corresponde uma mistura incoerente de spins para cima e para baixo.
Se, por outro lado, não há um colapso da função de onda em A, nem em
B, nem em C, nem no inversos de spin, só no detector colocado em D, então
a coerência é mentida e o estado de spins medido será da forma:

ρcoe = |uihu|, (9.21)

eiα |+i+e iβ |−i


com: |ui = √
2
.
Estes dois resultados, ρcoe e ρinc têm, entretanto, consequências mensurá-
veis. Pode-se mostrar que, no caso incoerente, não existe valor esperado do
operador de spin na direção x e na direção z: hσx i = hσz i = 0. Já no caso
coerente, temos que hσz i = 0 e hσx i = cos(α − β).
Em um experimento realizado por Summhammer et al. [29] foi obser-
vado uma dependência periódica em hσx i, demonstrando que a superposição
coerente é, de fato, a descrição correta do estado.
Resultados desta natureza implicam em uma grande subjetividade no
conceito de colapso da função de onda. Quando ele ocorre? Que tipo de
“medida” faz com que ele aconteça? A regra que parece prevalecer é que o
colapso só teria lugar quando o experimentador puder “tomar consciência”,
for capaz de distinguir os estados. Em outras palavras, dividir um feixe é
um colapso de função de onda, se eles não forem juntados depois. Mas se
forem, não é... toda esta subjetividade, mais uma vez, desaparece sem deixar
vestígios quando se adota a interpretação B.
9.4. DECOERÊNCIA 137

9.3.5 Considerações finais


Toda essa discussão dá base ao argumento de que a interpretação A leva,
necessariamente, a conjecturas e conclusões, primeiro, desnecessárias, pois não
têm utilidade prática, segundo, que não fazem sentido considerando o caráter
probabilístico da mecânica quântica, advindo de seus postulados constitutivos.
Entendemos, portanto, que a interpretação A deve ser abandonada e a
interpretação B deve ser adotada.

9.4 Decoerência
A discussão feita em §9.3 não nega o fato de que existe o fenômeno de perda
de coerência, que acontece pela interação das partículas com o “ambiente”,
conceito que pode incluir o aparelho de medida e tudo o que não pode ser
controlado no caminho por onde passam as partículas. Podemos abordar
este conceito generalizando o exemplo da seção anterior (§9.3.4). Se ambas
posição e operador de spin forem levados em conta, temos que:

|Ψi = ψ+ (x)|+i + ψ− (x)|−i. (9.22)

Ao longo de AB, AC e BD, os nêutrons têm spin para cima, e temos que
ψ− (x) = 0. Ao longo de CD temos ψ+ (x) = 0. Ambas componentes são
não-nulas à direita de D e, assim, teremos o caso geral

|ψ+ |2 ψ+ ψ−
!

ρcoe = . (9.23)
ψ− ψ+∗
|ψ− |2

Vamos assumir que flutuações induzidas pelo ambiente (o que inclui o


aparato de medida) ao longo dos caminhos (ABD e ACD) podem fazer com
∗ ∗
que os termos de interferência (ψ+ ψ− e ψ− ψ+ ) vão a zero, e ρcoe → ρinc . Isto
acontece no caso de estas flutuações gerarem variações na diferença de fase

(α − β) de forma que ψ+ ψ− se torne igualmente distribuído em um ciclo no
plano complexo. Neste caso estamos pensando em um efeito que não foi
descrito no sistema. Podemos, entretanto, representar o estado completo
como:
|Ψi = ψ+ (x)|+i|a1 i + ψ− (x)|−i|a2 i, (9.24)
onde os vetores |a1 i e |a2 i descrevem os estados do ambiente nos caminhos
ABD e ACD, respectivamente, e o operador de estados em D tem a forma:

|ψ+ |2
!

ψ+ ψ− ha2 |a1 i
ρ= . (9.25)

ψ− ψ+ ha1 |a2 i |ψ− |2
138 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS

No caso em que |a1 i = |a2 i, temos ρ → ρcoe . Se |a1 i e |a2 i são ortogonais,
temos ρ → ρinc .
Efetivamente, não há diferença se consideramos o ambiente como parte
do sistema ou não.

9.5 Probabilidades conjuntas e condicionais


Até aqui, nesse capítulo, descrevemos as medidas de uma quantidade
única. A partir de agora iremos analisar uma sequência de medidas de duas
ou mais variáveis dinâmicas e as correlações entre os valores desses várias
quantidades. A forma de entender isso é utilizando a teoria da probabilidade,
através das distribuições de probabilidade conjuntas.
Recapitulado o axioma 4 da seção 1.4.2:

P rob(A&B|C) = P rob(A|C)P rob(B|A&C), (9.26)

em que já identificamos o evento C como sendo a preparação do sistema, ρ.


Denotaremos os eventos A e B como os operadores R e S, de duas variáveis
dinâmicas, tais que:

R|rn i = rn |rn i, S|sm i = sm |sm i. (9.27)

Associados a R e S temos os projetores:


X X
MR (∆) = |rn ihrn |, MS (∆) = |sm ihsm |, (9.28)
rn ∈∆ sm ∈∆

que projetam nos subespaços expandidos pelos autovetores cujos autovalores


estão dentro do intervalo ∆. Denotaremos A como sendo evento de medir
na operação R um valor rn no intervalo ∆a (R ∈ ∆a ) e B como o evento de
medir na operação S um valor sm no intervalo ∆b (S ∈ ∆b ). O primeiro evento
desses é medido em ta e o segundo em tb . Vamos, agora, avaliar cada termo
do axioma 4 da teoria da teoria da probabilidade, equação (9.26).
O primeiro termo do lado direito da equação (9.26) é o mais simples por
não apresentar condições conjuntas, e é dado por:

P rob(A|C) ≡ P rob(R ∈ ∆a |ρ) = T r{ρMR (∆a )}. (9.29)

Já o termo da esquerda da equação (9.26) só pode ser avaliado utilizando


o formalismo da mecânica quântica se houver um operador de projeção que
corresponde ao evento composto A&B. O produto MR (∆a )MS (∆b ) é um
operador projeção que projeta no subespaço expandido pelos autovetores
9.5. PROBABILIDADES CONJUNTAS E CONDICIONAIS 139

comuns a R e S se, e somente se, R e S apresentam uma base em comum, ou


seja, se eles comutam. Neste caso a probabilidade conjunta será:

P rob(A&B|C) = P rob{(R ∈ ∆a )&(S ∈ ∆b )|ρ}


= T r{ρMR (∆a )MS (∆b )}. (9.30)

A interpretação desse resultado é a probabilidade do resultado da medida


de R, no tempo ta , estar no intervalo ∆a e o resultado da medida de S, no
tempo tb , estar no intervalo ∆b , seguindo a preparação do estado dada por ρ.
Esse cálculo é possível, no caso geral para ∆a e ∆b arbitrários se, e somente
se, R e S comutam.
O último fator da equação (9.26) é:

P rob(B|A&C) ≡ P rob{(S ∈ ∆b )|(R ∈ ∆a )&ρ}. (9.31)

Até aqui só havíamos considerado probabilidades condicionadas a uma prepa-


ração de estado. Para lidar com esta nova situação, temos duas possibilidade:
a primeira é considerar que conhecemos os dois outros termos na equação
(9.26), e utilizamos esta equação para determinar P rob(B|A&C); outra possi-
bilidade é considerar que o estado inicial ρ submetido à medida de R gera um
novo estado ρ0 . Medidas tipo filtragem são um exemplo, como discutiremos a
seguir.
Considerarmos que a medida S será realizada apenas no subespaço de ρ
para o qual R ∈ ∆a . Um exemplo seriam medidas de spin em apenas um dos
feixes filtrados por um aparato de Stern-Gerlach. Isso equivale a medir S em
um novo estado representado por:
MR (∆a )ρMR (∆a )
ρ0 = , (9.32)
T r{MR (∆a )ρMR (∆a )}
e a probabilidade condicional pode ser calculada da seguinte forma:

P rob(B|A&ρ) ≡ P rob{(S ∈ ∆b )|(R ∈ ∆a )&ρ} (9.33)


= P rob{(S ∈ ∆b )|ρ0 } = T r{ρ0 MS (∆b )}. (9.34)

Agora estamos em condições de calcular a probabilidade conjunta de duas


medidas de filtragem. Para isso substituímos as equações (9.29) e (9.34) em
(9.26) para obter:

P rob(A&B|C) = P rob(A|C)P rob(B|A&C)


= T r{ρMR (∆a )}T r{ρ0 MS (∆b )}
= T r{ρMR (∆a )MS (∆b )MR (∆a )}. (9.35)
140 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS

O último passo da equação (9.35) é dado considerando que T r(λA) = λT r(A),


T r(ABC) = T r(BCA) e que para projetores P = P 2 .
Se, adicionalmente, MS (∆b ) e MR (∆a ) comutam, encontramos:

P rob(A&B|C) = T r{ρMR (∆a )MS (∆b )}, (9.36)

que é um resultado já conhecido para operadores comutantes e comprova a


consistência da teoria da probabilidade na mecânica quântica. Apesar de
ser um resultado trivial, reforçamos que ele só vale se, e somente se, R e S
comutam.

Exemplo 19 (Aplicação à medidas/filtragens sucessivas de spins)

Considere que um sistema de spin s = 1/2 representado por |ψi é preparado


(ver §7.4). Ele é submetido a três medidas sucessivas de filtragem: uma medida
de σz no tempo t1 , uma medida de σu no tempo t2 e uma medida de σx no
tempo t3 . As medidas dividirão o feixe original em 8 feixes separados.
Cada um dos resultados do experimento corresponde a combinações parti-
culares dos resultados +1 ou −1 para as três medidas e a probabilidade desses
vários resultados é a probabilidade conjunta dos resultados das três medi-
das. A notação para essa probabilidade será P rob(σz = a, σu = b, σx = c|ψ&X).
Temos a = b = c = ±1, e a probabilidade é condicional em relação tanto à
preparação do estado ψ quanto à estruturação do experimento (denotado por
X), que neste caso são os sete aparatos de Stern-Gerlach utilizados nas medi-
das. Os feixes não se combinam e, por simplicidade, podemos desconsiderar
fases relativas e coerência entre eles.
O estado inicial é |ψi = α|z+i + β|z−i em termos da base formada pelos
autovetores de σz . Fazendo a medida de σz no tempo t1 encontramos:

|a|2 , para a = +1,


(
2
Pz (a|ψ&X) = |Mz (a)|ψi| = hψ|Mz (a)|ψi = (9.37)
|β|2 , para a = −1.

Os operadores projeção são dados por: Mz (+1) = |z+ihz+| e Mz (−1) =


|z−ihz−|. Após a medida de σu no tempo t2 teremos:

Pzu (a, b|ψ&X) = |Mu (b)Mz (a)|ψi|2 = hψ|Mz (a)Mu (b)Mz (a)|ψi, (9.38)

onde Mu (b) é um projetor no autovetor de σu :

Mu (+1) = |u+ihu+|, Mu (−1) = |u−ihu−|, (9.39)


9.5. PROBABILIDADES CONJUNTAS E CONDICIONAIS 141

cujos autovetores são dados por:


! !
θ θ
|u+i = cos |z+i + sin |z−i, (9.40)
2 2
! !
θ θ
|u+i = − sin |z+i + cos |z−i. (9.41)
2 2
Por fim, após a medida de σx no tempo t3 teremos:

P rob(a, b, c|ψ&X) = |Mx (c)Mu (b)Mz (a)|ψi|2


= hψ|Mz (a)Mu (b)Mu (b)Mz (a)|ψi, (9.42)

sendo que Mx (c) é um operador projeção no autovetor de σx .


Notemos que medidas de σz e de σu não são afetadas por possíveis medidas
futuras de σx . Formalmente Mx (+1) + Mx (−1) = 1 e teremos:
X
Pzu (a, b|ψ&X) = P (a, b, c|ψ&X)
c=±1
X
= hψ|Mz (a)Mu (b)Mx (c)Mu (b)Mz (a)|ψi
c=±1
= hψ|Mz (a)Mu (b)Mz (a)|ψi = Pzu (a, b|ψ). (9.43)

Similarmente teremos que σz não depende de σu e σx :


X X
Pz (a|ψ&X) = hψ|Mz (a)Mu (b)Mx (c)Mu (b)Mz (a)|ψi
b=±1 c=±1
= hψ|Mz (a)|ψi = Pz (a|ψ). (9.44)

Diversas probabilidades condicionais podem ser calculadas a partir dessas


distribuições de probabilidade conjuntas e usando a fórmula geral P rob(B|A&C) =
P rob(A&B|C)
P rob(A|C)
, equação (9.26). Vejamos mais alguns exemplos a seguir.

Exemplo 20 (Condicionando a uma medida anterior)

Seja C a preparação de um estado ψ, A o resultado σz = +1 para a


primeira medida e B o resultado de uma medida de σu . A probabilidade da
segunda medida fornecer σu = +1, condicionada à preparação do estado ψ e
ao resultado σz = +1 na primeira medida será:
Pzu (+1, +1|ψ)
P rob{σu = +1|(σz = +1)&ψ} =
Pz (+1|ψ)
|α cos (θ/2)|2
!
θ
= = cos . (9.45)
|α|2 2
142 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS

Exemplo 21 (Distribuição de probabilidade para σx independente)

A probabilidade de obter o resultado σx = +1 na medida final, indepen-


dentemente de resultados das medidas anteriores, é:
XX
Px (+1|ψ&X) = P (a, b, +1|ψ&X). (9.46)
a b

Usando a Eq.(9.42) encontramos:


" !#2
2 θ 1
P (+1, +1, +1|ψ&X) = |α| cos (1 + sin θ), (9.47)
2 2
" !#2
2 θ 1
P (−1, +1, +1|ψ&X) = |β| sin (1 + sin θ), (9.48)
2 2
" !#2
2 θ 1
P (+1, −1, +1|ψ&X) = |α| sin (1 − sin θ), (9.49)
2 2
" !#2
2 θ 1
P (−1, −1, +1|ψ&X) = |β| cos (1 − sin θ). (9.50)
2 2

Somando tudo temos:


1h   i
Px (+1|ψ&X) = 1 + |α|2 − |β|2 sin θ cos θ . (9.51)
2
Essa é a probabilidade de se obter o resultado σx = +1 com os filtros de
σz e σu no seu lugar, mas ignorando os resultados de suas medidas. Isso é
diferente de obter σx = +1 na ausência dos dois filtros, que é dada por:
1
Px (+1|ψ) = hψ|Mx (+1)|ψi = |α + β|2 . (9.52)
2

Exemplo 22 (Condicionamento anterior e posterior)

Podemos calcular a probabilidade de um resultado particular de uma


medida intermediária σu , condicionada em resultados específicos de medi-
das anteriores (uma medida de σz ) e posteriores (uma medida de σx ). A
probabilidade será:

P (+1, +1, +1|ψ&X)


P rob{(σu = +1)|(σz = +1)&(σx = +1)&ψ&X} = ,
Pzx (+1, +1|ψ&X)
(9.53)
9.6. EXERCÍCIOS 143

que pode ser reescrita como:


" !#2
θ 1 + sin θ
P rob{(σu = +1)|(σz = +1)&(σx = +1)&ψ&X} = cos ,
2 1 + sin θ cos θ
(9.54)
que está em franco desacordo com o exemplo 20. A dependência dos ângulos,
que pode gerar probabilidades irreais (iguais a 1 tanto para θ = 0 quanto para
θ = π/2), ocorre por causa da necessidade de se considerar apropriadamente
a preparação dos estados implementada aqui pelo aparato de medição X.

9.6 Exercícios
Exercício 9.1 No exemplo discutido em §9.3.4, demonstre que para ρinc ,
hσx i = hσz i = 0, e que para ρcoe , hσz i = 0 e hσx i = cos(α − β).

Exercício 9.2 Demonstre a equação (9.35).

Exercício 9.3 Resolva os exercícios do livro do Ballentine [2].


144 CAPÍTULO 9. MEDIDAS E INTERPRETAÇÃO DE ESTADOS
Capítulo 10

Formação de estados ligados

Relembrando os capítulos 3 e 4 temos que a equação de movimento da


mecânica quântica (no cenário de Schrödinger) é gerada para translações
temporais t → t0 = t + s e é dada por:

d i
|ψ(t)i = − H|ψ(t)i, (10.1)
dt h̄
que na representação de coordenadas e se assumimos que H independe do
tempo encontramos:

h̄2 2
− ∇ ψ(r) + W (r)ψ(r) = Eψ(r), (10.2)
2M
a chamada equação de Schrödinger independente do tempo. Nesse capítulo
iremos investigar essa equação para determinados tipos de potenciais W (r) e
também obteremos um método que permite tratar interações que são possuem
soluções analíticas, o chamado método da teoria de perturbação.

10.1 Potencial esférico


Considere que o potencial que a partícula está sujeita é um potencial com
simetria esférica: W (r) = W (r), sendo r o módulo, em coordenadas esféricas,
do vetor posição r.
Nessa situação é necessário descrever o problema em coordenadas esféricas
e, para tal, temos que usar o laplaciano nesse sistema de coordenadas. Ele é
dado por:
! !
2 1 ∂ ∂ 1 ∂ ∂ 1 ∂2
∇ = 2 r2 + 2 sin θ + , (10.3)
r ∂r ∂r r sin θ ∂θ ∂θ (r sin θ)2 ∂ϕ2

145
146 CAPÍTULO 10. FORMAÇÃO DE ESTADOS LIGADOS

e a equação de Schrödinger será:


h̄2 1 ∂
!
∂ψ L2
− 2
r2 + ψ + W (r)ψ = Eψ, (10.4)
2M r ∂r ∂r 2M r2
em que omitimos os argumentos das funções por simplicidade. Aqui L2 é o
operador momento angular ao quadrado. Ele surge naturalmente da parte
angular do operador laplaciano. A solução dessa equação de autovalores é
dada por uma função u(r)/r multiplicada pelos harmônicos esféricos:
u(r)
ψ(r, θ, ϕ) = Ylm (θ, ϕ) , (10.5)
r
com Ylm (θ, ϕ) é uma autofunção de L2 e satisfaz:
L2 Ylm (θ, ϕ) = h̄2 l(l + 1)Ylm (θ, ϕ), Lz Ylm (θ, ϕ) = h̄mYlm (θ, ϕ). (10.6)
A função u(r)/r satisfaz a equação radial:
h̄2 d2 u(r) h̄2 l(l + 1)
" #
− + + W (r) u(r) = Eu(r), (10.7)
2M dr2 2M r2
e deve satisfazer a condição de contorno u(0) = 0.
Antes de considerarmos a solução completa para potenciais esféricos iremos
discutir as ideias gerais através de um caso analítico mais simples: o potencial
quadrado. Considere o seguinte potencial:
(
−V0 , r < a,
W (r) = (10.8)
0, r > a.
Para esse potencial a única solução aceitável que satisfaz a condição de
contorno é sin(kr) com: h̄2 k 2 /2M = E − V0 com E a energia do sistema.
Assim a solução ficará:
sin(kr)
u(r) = N , r ≥ a. (10.9)
sin(ka)
Para a região fora do potencial (onde a função W (r) é nula) temos uma
função decrescente:
u(r) = N e−α(r−a) , r ≤ a, E < 0, (10.10)
com −E = h̄2 α2 /2M . A solução L.I. a essa, eαr , é inaceitável pois diverge no
infinito. Pela condição de continuidade para a função de onda encontramos:
k
α=− , (10.11)
tan(ka)
10.1. POTENCIAL ESFÉRICO 147

por outro lado os parâmetros k e α são relacionados por:


s
2M V0
α= − k2, (10.12)
h̄2

podemos plotar ambas funções num gráfico para poder resolver para k encon-
trar a energia do estado ligado, E = h̄2 k 2 /2M − V0 :

Figura 10.1: Gráficos das equações (10.11) e (10.12). Os pontos onde as


duas curvas se encontram correspondem às energias de estados ligados para o
potencial quadrado em coordenadas esféricas.
148 CAPÍTULO 10. FORMAÇÃO DE ESTADOS LIGADOS

Note que, nesse caso, só existe um conjunto discreto de energias de


estados ligados. Dependendo do valor de V0 , entretanto, pode ser que não
exista nenhuma energia de estado ligado e a partícula não fique confinada na
região de potencial. Por outro lado, se V0 é muito grande, a partícula ficará
praticamente confinada na região de potencial pois as caudas das funções de
onda são muito pequenas na regiões fora do potencial.

10.2 O átomo de hidrogênio


O átomo de hidrogênio consiste de um próton e um elétron num problema
de dois corpos. Dos sistemas quânticos é o único que pode ser resolvido
analiticamente. O potencial entre o próton e o elétron (numa aproximação
não-relativística) é o potencial coulombiano e o hamiltoniano para o átomo
será:
P2 P2 e2
H= e + p − , (10.13)
2Me 2Mp |Qe − Qp |
sendo que os subíndices indicam elétron (e) e prótons (p). O problema é
simplificado se usamos a massa reduzida e trabalhamos no centro de massa
do sistema:
Me Qe + Mp Qp
Qc = , Qr = Qe − Qp . (10.14)
Me + Mp
Definindo, também, a massa reduzida: µ1 = M1e + M1p temos que o hamilto-
niano se torna:
P2c P2 e2
H= + r− . (10.15)
2(Me + Mp ) 2µ |Qr |
No problema do átomo de hidrogênio é interessante olhar para os graus
de liberdade internos, dados pelo termo P2r /2µ − e2 /|Qr | tal que o problema
de autovalores na representação das coordenadas será:
h̄2 2 e2
− ∇ ψ(r) − ψ(r) = Eψ(r), (10.16)
2µ r
em que r é a posição do elétron relativa ao centro de massa do problema.
Usando a discussão do início a seção §10.1 queremos resolver o problema
em coordenadas esféricas (pois o potencial coulombiano é esfericamente
simétrico). Definindo um parâmetro adimensional de distância ρ = αr
com α2 = 8µ|E|/h̄2 e definindo um parâmetro adimensional de carga λ =
 1/2
2µe2 /αh̄2 = µe4 /2h̄2 |E| encontramos:
! " #
1 d d λ 1 l(l + 1)
2
ρ2 R + − − R = 0, (10.17)
ρ dρ dρ ρ 4 ρ2
10.2. O ÁTOMO DE HIDROGÊNIO 149

sendo que a parte angular já foi separada e é resolvida pelos harmônicos


esféricos Ylm (θ, ϕ). A equação é resolvida com a condição de que λ é inteiro e
dado por:
λ = n = n0 + l + 1, (10.18)
de forma que a energia do sistema será:
µe4
En = − , (n = 1, 2, 3, · · ·), (10.19)
2h̄2 n2
n é conhecido como o número quântico principal. Nesse sistema há um
número infinito (porém contável) de estados ligados, diferentemente do sistema
de potencial quadrado. O ponto limite existe pois o potencial coulombiano
é de alcance infinito. As autofunções que resolvem a equação radial são os
polinômios associados de Laguerre:
ds dr 
" #

Lsr (ρ) = s eρ r ρr e−ρ , (10.20)
dρ dρ
o termo dentro de colchetes é normalmente chamado de polinômio de
Laguerre. Com isso a solução completa para o átomo de hidrogênio será:
" #1/2
4(n − l − 1)! −ρ/2 m
ψnlm (r, θ, ϕ) = − ρl L2l+1
n+l (ρ)e Yl (θ, ϕ), (10.21)
(na0 )3 n[(n + l)! ]3
com ρ = αr = 2r/na0 em que a0 = h̄2 /µe2 é um comprimento característico
dos átomos conhecido como raio de Bohr. A função de onda para o estado
fundamental do átomo de hidrogênio é dada por:
 −1/2
ψ100 = πa30 e−r/a0 . (10.22)
Pra finalizar a seção medidas da extensão espacial dos estados ligados do
átomo de hidrogênio podem ser dadas pelos valores esperados das potências
da distância r:
( " #)
2 1 l(l + 1)
hri = hψnlm |r|ψnlm i = n ao 1 + 1 − , (10.23)
2 n2
" ( )#
D E
2
D
2
E
4 2 3 l(l + 1) − 1/3
r = ψnlm r ψnlm = n a0 1 + 1− , (10.24)
2 n2
D E D E 1
r−1 = hri = ψnlm r−1 ψnlm = 2 . (10.25)
n a0
Essas soluções podem ser generalizadas para átomos hidrogenoides que
possuem um elétron e carga nuclear Ze. Para isso basta substituir e2 por
Ze2 .
150 CAPÍTULO 10. FORMAÇÃO DE ESTADOS LIGADOS

10.3 Teoria de perturbação para estados es-


tacionários
Teoria de perturbação é um método que permite calcular autoenergia e
autoestados de hamiltonianos que não podem ser resolvidos analiticamente.
Os hamiltonianos que são solúveis pelo método perturbativo são da forma:

H = H0 + λH1 , (10.26)

sendo que H0 é o hamiltoniano de um problema que sabemos resolver analiti-


camente e λ é um parâmetro pequeno tal que λH1 possa ser tratado como
uma perturbação ao estado original. A teoria de perturbação é dita inde-
pendente do tempo pois nem H0 nem H1 dependem do tempo. O estado
não-perturbado satisfaz:
H0 |ni = n |ni, (10.27)
queremos encontrar a solução para o problema de autovalores:

(H0 + λH1 )|ψn i = En |ψn i, (10.28)

com:
|n0 ihn0 | ψn i,
X
|ψn i = (10.29)
n0

a teoria de perturbação (de forma análoga à perturbação canônica da mecânica


clássica) supõe que ambos energia e estados admitem uma solução em série
de potências de λ:

En = En(0) + λEn(1) + λ2 En(2) + · · · (10.30)


E E E
|ψn i = ψn(0) + λ ψn(1) + λ2 ψn(2) + · · · (10.31)

substituindo essas expansões na equação (10.28) e equacionando termos de


mesma potência de λ encontramos:
  E
H0 − En(0) ψn(0) = 0, (10.32)
  E   E
H0 − En(0) ψn(1) = En(1) − H1 ψn(0) , (10.33)
  E   E E
H0 − En(0) ψn(2) = En(1) − H1 ψn(1) + En(2) ψn(0) , (10.34)
(10.35)

e assim sucessivamente.
Caso não-degenerado Nesse caso n 6= n0 e teremos:
E
En(0) = n , ψn(0) = |ni, (10.36)
10.3. TEORIA DE PERTURBAÇÃO PARA ESTADOS ESTACIONÁRIOS151

ou seja, os termos de ordem zero de perturbação são iguais às soluções do


problema não-perturbado. Já o termo de ordem um será:
E
(1)
ψn(1) = an0 |n0 i,
X
(10.37)
n0 6=n

usando a relação (10.33) e tomando produto interno com hm| encontramos:


XD   E
(0)
D   E
m H0 − En(0) n0 an0 = m En(1) − H1 ψn(0) , (10.38)
n0 6=n

como |n0 i é autovetor de H0 encontramos:

(m − n )a(1) (1)


n = En δnn0 − hm|H1 |ni, (10.39)

disso tiramos dois casos:

Para m = n En(1) = hm|H1 |ni, (10.40)


hm|H1 |ni
Para m 6= n a(1)
m = , (10.41)
n − m
por fim a correção nos autoestados será dada por:
E
(1) hm|H1 |ni
λ ψn(1) = λ an0 |n0 i =
X X
|mi . (10.42)
n0 6=n m6=n n − m

Note que se o estado for degenerado a teoria de perturbação que desen-


volvemos tem que ser modificada pois n − m = 0. Além disso a teoria de
perturbação é uma boa aproximação se hm|λH1 |ni << n − m . Em geral ela
é muito usada em diversos problemas, como por exemplo nas teorias de física
do estado sólido e em teoria quântica de campos.
Porém essa teoria não é infalível e para diversos sistemas ela simplesmente
não funciona. Citamos como exemplo os sistemas fortemente correlacionados
onde todos os componentes do sistema formam interações muito fortes im-
pedindo a identificação de uma perturbação. Exemplos dessa natureza são,
por exemplo, os sistemas de elétrons fortemente interagentes, sistemas que
apresentam emaranhamento e também a cromodinâmica quântica.
Caso degenerado: Consideremos, agora, que o estado de energia com
índice n é r vezes degenerado, ou seja:

H0 |n, ri = n |n, ri, (10.43)

agora definimos: E
(0)
X
ψn,r = Crr0 |n, ri, (10.44)
r0
152 CAPÍTULO 10. FORMAÇÃO DE ESTADOS LIGADOS

e teremos: D E   E
(1) (0)
n, s|(H0 − n )|ψn,r = En(1) − H1 ψn,r0 , (10.45)
fazendo o produto interno com hn, r| vem:
D E XD   E
(1)
n, s|(H0 − n )|ψn,r0 = n, s En(1) − H1 n, r0 Crr0 , (10.46)
r0

como o primeiro termo da esquerda é nulo (por conta da degenerescência)


teremos:
hn, s|H1 |n, r0 iCr,r0 = En(1) Cr,s ,
X
(10.47)
r0

a soma é sobre os estados degenerados do nível n.

10.4 Exercícios
Exercício 10.1 Resolva os exercícios 10.2, 10.3, 10.4, 10.8, 10.10 e 10.14
do livro do Ballentine, [2].
Parte II

Parte 2 - Aplicações

153
Capítulo 11

Partícula carregada em um
campo magnético

11.1 Teoria clássica


Nesse capítulo estamos interessados em discutir como podemos tratar uma
partícula carregada sujeita a um campo magnético no contexto da mecânica
quântica. Para dar início a essa discussão comecemos considerando uma
teoria clássica.
Classicamente podemos obter os campos elétrico e magnético através
de duas grandezas, chamados potenciais. Uma delas é o potencial escalar,
denotado por ϕ, e a outra é o potencial vetor, denotado por A. A partir
destes potenciais podemos calcular os campos elétrico e magnético:

1 ∂A
E = −∇ϕ − , B = ∇ × A. (11.1)
c ∂t

Note, aqui, que há algo de estranho. Para especificar E e B simul-


taneamente precisamos fornecer seis números (ou funções) reais: as três
componentes do vetor campo elétrico e as três componentes do vetor campo
magnético. Porém, por outro lado, quando especificamos os potenciais escalar
e vetor fornecemos apenas quatro números, o próprio potencial escalar e as
três componentes do potencial vetor.
Como podemos gerar os campos elétrico e magnético verdadeiros se dispo-
mos de informação a menos? Isso é devido à chamada liberdade de calibre.
Essa liberdade de calibre permite que eliminemos graus de liberdade espúrios
no tratamento do eletromagnetismo, simplificando o problema.
Considere a seguinte transformação (chamada transformação de cali-

155
156CAPÍTULO 11. PARTÍCULA CARREGADA EM UM CAMPO MAGNÉTICO

bre):

A → A0 = A + ∇χ, (11.2)
1 ∂χ
ϕ → ϕ0 = ϕ − , (11.3)
c ∂t
com χ uma função arbitrária. Essa mudança nos potenciais não altera os
campos elétrico e magnético. Isso serve de argumento para identificar os
campos elétrico e magnético como sendo as quantidades físicas do sistema,
considerando os potenciais apenas como construções matemáticas (mais tarde
veremos que há certas sutilezas aqui).
Sabemos, do eletromagnetismo clássico, que a força que uma partícula de
carga q e massa M sofre numa região de campo magnético e campo elétrico é
dada pela expressão da força de Lorentz:

dv
F=M = q(E + v × B/c), (11.4)
dt
que pode ser obtida a partir da função lagrangiana:

M v2 q
L= − qϕ + v · A. (11.5)
2 c
∂L
A partir da lagrangiana podemos calcular o momento canônico pα = ∂vα
que para o caso clássico fornece o seguinte momento:
q
p = M v + A, (11.6)
c
note que, no caso eletromagnético, o momento deixa de ser apenas M v. Com
esse momento podemos calcular a função hamiltoniana, H = v · p − L que
será dada, em termos do momento, por:
2
1 q

H= p− A + qϕ, (11.7)
2M c

note que não há mais a separação de energia cinética + energia potencial


para a hamiltoniana. Aparecerão termos cruzados de momento e de potencial
vetor.
Fizemos todo esse esforço para um único propósito: muitos dos resultados
clássicos permanecem válidos na versão quântica que queremos construir.
Usaremos a receita de quantização canônica (grosso modo, substituir funções
por operadores hermitianos) e prosseguiremos dessa forma na seção seguinte.
11.2. TEORIA QUÂNTICA 157

11.2 Teoria quântica


Do que construímos na seção anterior duas equações permanecem válidas
(mantendo em mente que agora estamos falando de operadores): as equações
(11.6) e (11.7).
Isso significa, então, que os potenciais escalar e vetor (quânticos) são
funções do operador posição e do tempo. O momento que calculamos anteri-
ormente agora é interpretado como o operador momento e é uma função do
operador velocidade e do potencial vetor.
O operador velocidade, por outro lado, definido na equação (??) é dado
por:
i 1 q
 
Vα = [H, Qα ] = Pα − Aα . (11.8)
h̄ M c
Porém a presença dos campos elétrico e magnético tornam as relações de
comutação bem mais difíceis:

[Qβ , Vα ] = i δαβ , (11.9)
M
[Px , Py ] q 2 q
 
[Vx , Vy ] = 2
+ [Ax , Ay ] − 2 {[Ax , Py ] + [Px , Ay ]}. (11.10)
M Mc M c
Os dois primeiros termos se anulam (as componentes de P e de A comutam
entre si). Os dois últimos termos podem ser avaliados na representação de
coordenadas ao calcularmos a atuação desse comutador em uma função de
onda ψ(x, tyz). Com isso, encontramos:
h̄q
[Vx , Vy ]ψ = i Bz ψ, (11.11)
M 2c
como ψ é arbitrário esse resultado vale no caso geral:
h̄q
[Vα , Vβ ] = i αβγ Bγ . (11.12)
M 2c
Podemos calcular, agora, o operador força, definido como sendo o produto
da massa pelo operador aceleração. A forma de fazer isso é considerar a
equação de movimento de Heisenberg para Vα :
dVα iM ∂Vα
M = [H, Vα ] + M , (11.13)
dt h̄ ∂t
M
usando a forma do hamiltoniano como sendo H = 2
V · V + qϕ encontramos:

dV q
M = (V × B − B × V) + qE, (11.14)
dt 2c
158CAPÍTULO 11. PARTÍCULA CARREGADA EM UM CAMPO MAGNÉTICO

o termo entre parênteses não pode ser simplificado mais, pois, como B é
função do operador posição ele não comuta com V.
Podemos considerar o hamiltoniano (11.7) após realizar a expansão dos
termos do quadrado. Com isso chegamos em:

P · P − (q/c)(P · A + A · P) + (q 2 /c2 )A · A
H= + qϕ, (11.15)
2M
note que não podemos usar a expansão do quadrado perfeito pois, no caso
geral, A não comuta com P. Podemos usar a representação de coordenadas e
calcular os produtos dentro do segundo parênteses em relação a uma função
arbitrária ψ(x) para encontrarmos:

P · A − A · P = −ih̄∇ · A, (11.16)

note que, com essa expressão, teremos a comutatividade de A e P garantida


se, por exemplo, fixarmos ∇ · A = 0. Essa escolha para o divergente do
potencial vetor, conhecida no eletromagnetismo como calibre de Coulomb,
consiste numa fixação (ou numa escolha) do calibre que iremos usar para
tratar o problema e simplificar os cálculos.
Para simplificar a notação é comum escrevermos o hamiltoniano da equação
(11.7), na representação de coordenadas, da seguinte forma:
!2
1 h̄ q
H= ∇− A + qϕ. (11.17)
2M i c

Para encerrar a discussão dessa seção estamos interessados em entender


como funcionam as transformações de calibre em mecânica quântica.
Conforme comentamos no capítulo 3 qualquer simetria do sistema deve
ser tal que deixa invariante a densidade de probabilidade em dois sistemas
de referência diferentes. A simetria de calibre é um exemplo de simetria
(similarmente àquelas implementadas pelo grupo de Galileu) e, portanto, deve
deixar invariante as probabilidades medidas em M.Q. Para isso ser verdade
as transformações de calibre devem ser tais que:

A → A0 = A + ∇χ, (11.18)
1 ∂χ
ϕ → ϕ0 = ϕ − , (11.19)
c ∂t
ψ → ψ 0 = ψei(q/h̄c)χ , (11.20)

ou seja, em M.Q., a função de onda ganha uma fase quando ocorre uma
transformação de calibre.
11.3. MOVIMENTO EM UM CAMPO MAGNÉTICO ESTÁTICO E UNIFORME159

11.3 Movimento em um campo magnético es-


tático e uniforme
Para essa seção consideremos que há numa região do espaço um campo
magnético uniforme e estático na direção z: B = B ẑ. Para tratar esse
problema é comum escrevermos o hamiltoniano da equação (11.7) em termos
das velocidades nas direções cartesianas:
H = Hxy + Hz , (11.21)
com:
1   1
Hxy = M Vx2 + Vy2 , Hz = M Vz2 , (11.22)
2 2
essa definição de H é possível pois Vz comuta com as outras componentes
para as quais Bx = By = 0 e, então, os autovetores de H serão autovetores
simultâneos de Hxy e Hz . Introduzindo as definições:
s
h̄|q|B
γ= 2
, Vx = γQ0 , Vy = γP 0 , (11.23)
M c
obtemos, então:
h̄|q|B  0 2 0

Hxy = Q + P 2 , com Q0 P 0 − P 0 Q0 = i, (11.24)
2M c
que é formalmente equivalente à solução
 do oscilador harmônico quântico,
1 h̄|q|B
logo os autovalores de Hxy serão: n + 2 M c . Os autovalores de Hz são
mais fáceis de ser exibidos e são os mesmos de Vz . Assim chegamos em:
1 h̄|q|B 1
 
En = n + + M vz2 . (11.25)
2 Mc 2
A primeira consequência importante desse resultado é que o movimento
em xy é desacoplado do movimento em z. No plano xy o movimento clássico
análogo é uma órbita circular com frequência angular ωc = qB/M c (chamada
de frequência cíclotron) e esse movimento periódico é quantizado em energias
discretas cuja separação é de |h̄ωc |.
FALAREMOS SOBRE EFEITO HALL?

11.4 Efeito Aharonov-Bohm


Conforme comentamos na seção 11.1, na teoria clássica, é bastante comum
assumir que os potenciais escalar e vetor não possuem significado físico, quem
os possui são os campos elétrico e magnético.
160CAPÍTULO 11. PARTÍCULA CARREGADA EM UM CAMPO MAGNÉTICO

Em mecânica quântica a função de onda de um sistema que sofre uma


transformação de calibre é alterada por uma fase e esse fator de fase pode
servir de manifestação de fenômenos de interferência. Essa é uma primeira
evidência que torna difícil sustentar a ideia da falta de significado físico para
os potenciais.
Os primeiros a perceberem esse “problema” foram Aharonov e Bohm,
num efeito que hoje leva o seu nome [30]. Para analisar melhor o fenômeno
consideremos a imagem abaixo:

Figura 11.1: Montagem do efeito Aharonov-Bohm. Extraído de [2].

No ponto a existe uma fonte de partículas carregadas que são atiradas


numa fenda dupla e após sofrerem interferência atingem o ponto b. Um
solenoide cilíndrico é colocado atrás da fenda dupla, perpendicularmente ao
plano do experimento, em uma região que não é atingida pelas partículas e
com uma blindagem impenetrável para partículas carregadas. Dentro desse
solenoide é possível criar um campo magnético enquanto que a região do lado
de fora possui campo nulo.
Seja Ψ(x, t)( 0) a solução da equação de Schrödinger para o caso de campo
nulo. No caso onde o campo é não nulo, o potencial vetor A, que serve
para achar B na região interna ao cilindro, será diferente de zero em todo
o espaço. Trabalhando as duas regiões (esquerda e direita, L e R na figura)
separadamente e devido ao acréscimo de uma fase na função de onda por
causa de transformações de calibre teremos, no ponto b:
( (
Ψ(b) = ΨL 0)ei(q/h̄c)Λ1 + ΨR 0)ei(q/h̄c)Λ2 , (11.26)
com Λ1 = A · dx sendo o ganho de fase devido ao caminho na região L. Λ2
R

é o mesmo só que para a região R. Então o padrão de interferência percebido


11.5. EFEITO ZEEMAN 161

em b dependerá da diferença de fase Λ1 − Λ2 que, por sua vez, dependerá do


campo magnético no interior do cilindro.
Note a estranheza desse resultado, que posteriormente foi confirmado
experimentalmente: o padrão de interferência depende do campo magné-
tico em uma região do espaço na qual não passa nenhuma partícula! Esse
resultado estranho foi explicado por Aharonov e Bohm ao sugerir que, em me-
cânica quântica, os potenciais possuem realidade física e podem interferir nos
resultados dos experimentos, como acontece nesse exemplo que apresentamos.

11.5 Efeito Zeeman


O efeito Zeeman, descoberto originalmente em 1896, consiste na separação
de níveis de energia de estados atômicos através da aplicação de um campo
magnético. Nessa discussão desconsideraremos a possibilidade de spin dos
átomos.
Consideremos o campo magnético estático e uniforme da seção 11.3.
Como estamos tratando de átomos devemos incluir o potencial esfericamente
simétrico W (r) do átomo e assim o hamiltoniano da equação (11.7) fica sendo:
1 e 2 P2 e e2 A2
 
H= P + A + W (r) = + A·P+ + W (r), (11.27)
2M c 2M Mc 2M c2
em que se adotou o calibre de Coulomb. Para continuar precisamos escolher
uma forma para A (que não é única) que gere o campo de interesse: A =
1
2
(B × x) e disto obtemos que A · P = 12 B · L, sendo L o momento angular
orbital. Com isso obtemos:
P2 e e2
H= + B·L+ 2
(B × x)2 + W (r), (11.28)
2M 2M c 8M c
que para situações de campo fraco o hamiltoniano pode ser reescrito como
sendo:
e e2
H = Ha + B·L+ (B × x)2 , (11.29)
2M c 8M c2
P2
em que Ha = 2M + W (r) é o hamiltoniano do átomo livre, cuja solução já nos
é conhecida e é dada pela função de onda ψnlm através da solução analítica
da equação de Schrödinger para o átomo de hidrogênio.
Se o campo for fraco o suficiente (ao menos numa aproximação de primeira
ordem) para desprezarmos ordens iguais ou superior a B 2 então podemos
desprezar o último termo e teremos que ψnlm também será solução de H. Isso
nos dará a seguinte energia:
(1) eh̄B
Enlm = m, (11.30)
2M c
162CAPÍTULO 11. PARTÍCULA CARREGADA EM UM CAMPO MAGNÉTICO

(1)
sendo m o número quântico azimutal. A linearidade de Enlm em m é uma
evidência da separação dos níveis de energia através da presença do campo
magnético B. A degenerescência dos (2l + 1) níveis de energia é quebrada
pela presença do campo magnético externo.
Desprezar termos de ordem superiores em B, mesmo para campo fraco,
é uma aproximação perigosa para ser feita. As funções de onda podem cair
muito rápido para zero mesmo em situação de campo fraco. Por causa dessas
sutilezas é comum trabalhar com as situações assintóticas (campo fraco ou
campo muito forte) evitando a situação intermediária por sua dificuldade de
análise. Essa é uma área de pesquisa até hoje e para mais detalhes sugerimos
[31].

11.6 Exercícios
Exercício 11.1 Prove que as transformações de calibre equações (11.2) e
(11.3) deixam invariantes as expressões para os campos elétrico e magnético,
equação (11.1).

Exercício 11.2 Use as equações de Euler-Lagrange para provar que a lagran-


giana clássica da equação (11.5) gera a equação da força de Lorentz, equação
(11.4).

Exercício 11.3 Prove a relação para o momento canônico, (11.6).

Exercício 11.4 Obtenha a hamiltoniana, equação (11.7), a partir da lagran-


giana, equação (11.5).

Exercício 11.5 Prove a expressão da velocidade, equação (11.8).

Exercício 11.6 Resolva os exercícios do livro do Ballentine, [2].


Capítulo 12

Fenômenos dependentes do
tempo

Até agora vimos apenas situações onde estamos interessados em estados


estacionários sem nos importarmos com a evolução temporal do sistema
em estudo. A forma mais simples de tratar um sistema quântico que está
evoluindo no tempo consiste em considerar um hamiltoniano independente
do tempo. Nesse caso, a equação de evolução será:
!
d i
|ψ(t)i = − H|ψ(t)i, (12.1)
dt h̄
se os autovalores e autovetores de H são conhecidos:

H|En i = En |En i, (12.2)

e se podemos expandir o vetor de estado inicial como uma série desses


autovetores: X
|ψ(0)i = an |En i, an = hEn | ψ(0)i, (12.3)
n
então o vetor de estado dependente do tempo será:

an e−iEn t|En i ,
X
|ψ(t)i = (12.4)
n

No livro do Ballentine, logo no início do capítulo, ele escreve essa equação


acima, com o termo do ket no expoente. Isso está correto?
embora seja um método poderoso, por nos fornecer |ψ(t)i de forma direta
é uma solução extremamente restritiva: exige que H independa de t, seja
diagonalizável e que o estado inicial possa ser escrito como uma combinação
linear de autovetores de H. Isso é tudo o que somos capazes de fazer até
agora com as ferramentas que dispomos.

163
164 CAPÍTULO 12. FENÔMENOS DEPENDENTES DO TEMPO

Nesse capítulo iremos dar ênfase a fenômenos dependentes do tempo e


fornecer maneiras de estudar sistemas quânticos que estão evoluindo no tempo,
cobrindo a lacuna da nossa carência de técnicas nesse assunto. Começaremos
o capítulo com a mais famosa técnica de análise de sistemas que evoluem no
tempo: a teoria de perturbação.

12.1 Teoria de perturbação dependente do tempo


Seja um sistema cujo hamiltoniano pode ser escrito da seguinte forma:

H = H0 + λH1 (t), (12.5)

em que H0 é possível ser diagonalizado de forma exata (isto é, conseguimos


encontrar os autovetores |ni e os autovalores n de H0 ):

H0 |ni = n |ni, (12.6)

e, além disso, toda dependência temporal de H (o hamiltoniano total) está


no termo λH1 (t) que será tratado como uma perturbação. A equação de
evolução temporal será dada simplesmente por:
!
d i
|ψ(t)i = − |ψ(t)i, (12.7)
dt h̄

e de forma análoga à equação (12.4) teremos que:

an (t)e−iEn t|En i ,
X
|ψ(t)i = (12.8)
n

a essência do método de teoria de perturbação consiste que se λ é pequeno a


perturbação λH1 é pequena de tal forma que a dependência temporal de an (t)
é fraca. Em outras palavras, para λ pequeno, devemos esperar dadtn pequeno.
Nessas condições a teoria de perturbação fornecerá uma boa aproximação.
Substituindo a equação (12.8) em (12.7) e usando a equação de autovalores
encontramos:
( )
dan Xn o
+ n an (t) e−in t/h̄ |ni = n an (t) + λH1 (t)e−in t/h̄ |ni ,
X
ih̄
n dt n

cancelando os termos iguais e tomando, do lado esquerdo, o bra hm| e através


da ortogonalidade da base hm|ni = δmn teremos:
dan
= λ hm|H1 (t)|nieiωmn t an (t),
X
ih̄ (12.9)
dt m
12.1. TEORIA DE PERTURBAÇÃO DEPENDENTE DO TEMPO 165

com ωmn = (m − n )/h̄. A aproximação que a teoria de perturbação de-


pendente do tempo nos fornece consiste em expandir os coeficientes an em
potências de λ:
an (t) = a(0) (1) 2 (2)
n + λan + λ an + · · · , (12.10)
substituindo esse resultado na equação (12.9) e calculando em potências de λ
encontramos:
da(0)
n
= 0, (12.11)
dt
da(1) X
ih̄ m = hm|H1 (t)|nieiωmn t a(0)
n , (12.12)
dt n
..
.
da(r+1)
m
= hm|H1 (t)|nieiωmn t an(r) .
X
ih̄ (12.13)
dt n

Os coeficientes de ordem zero, a(0)n , são obtidos a partir do estado inicial


P (0)
|ψ(0)i = n an |ni, que precisa ser conhecido para um dado problema poder
ser resolvido via teoria de perturbação dependente do tempo. Com o coefi-
ciente de ordem zero, podemos integrar a equação (12.12) para encontrar o
coeficiente a(1)
n e assim sucessivamente.
Problema típico: um problema bastante comum que esse método é
útil consiste na aplicação de uma perturbação λH1 durante um intervalo de
tempo 0 ≤ t ≤ T . No intervalo t < 0 teremos um sistema no estado de H0 ,
|ψ(t)i = e−ii t/h̄ |ii.
No intervalo t > T a perturbação é desligada e os coeficientes an (t) passam
a ser constantes an (t) = an (T ). O efeito da mudança dos coeficientes a medida
que o tempo passa só acontece no intervalo 0 ≤ t ≤ T .
Em problemas desse tipo estamos interessados em calcular a probabilidade
de transição entre os estados nos instantes de tempo antes e depois de ligarmos
a perturbação. Essa probabilidade de transição, para um estado de energia
f (assumimos, por simplicidade, que não há degenerescência) é conduzida
por |af (T )|2 . Até primeira ordem em teoria de perturbação vale que:
Z T
−1
af (T ) ≈ λa(1)
n = (ih̄) hf |λH1 (t)|iieiωf i t dt, (12.14)
0

com ωf i = (f − i )/h̄. O estado final do sistema (pelo menos em primeira


ordem de perturbação) será dado por:

an (T )ein t/h̄ |ni,


X
|ψ(t)i = (12.15)
n
166 CAPÍTULO 12. FENÔMENOS DEPENDENTES DO TEMPO

que é uma superposição coerente de autoestados de H0 (não é um estado


estacionário). A probabilidade de interesse, então, será dada por:

P rob(E = f |ψ) = |af |2 . (12.16)

Perturbação harmônica: A título de exemplificar melhor a aplicação da


teoria de perturbação dependente do tempo para o cálculo das probabilidades
de transição consideremos a interação:

0
(
H 0 e−iωt + H † eiωt , 0 ≤ t ≤ T,
H1 (t) = (12.17)
0, caso contrário.

em primeira ordem da teoria de perturbação temos que:

Z T Z T
i(ωf i −w)t
ei(ωf i +w)t dt
(1) −1 0 −1 0†
af (T ) = (ih̄) hf |H |ii e dt + (ih̄) hf |H |ii
0 0
0 i(ωf i −ω )T 0† i(ωf i +ω )T
hf |H |ii 1 − e hf |H |ii 1 − e
= + , (12.18)
h̄ ωf i − ω h̄ ωf i + ω

o módulo quadrado dessa expressão é a probabilidade de que a energia final


do sistema seja f na condição de que a energia inicial é i . Vamos considerar,
agora, apenas o caso f − i > 0 ficando somente com o termo ressonante:

2 1 1 − ei(ωf i −ω)T
(1) 2
af (T ) = |hf |H 0 |ii|
h̄2 (ωf i − ω)2
 h i 2
1  sen 1 (ω − ωf i )T 
0 2 2
= 2 |hf |H |ii|  1 , (12.19)
h̄ 2
(ω − ωf i ) 

no limite T → ∞ a função entre parênteses se torna 2πT δ(ω − ωf i ).


12.1. TEORIA DE PERTURBAÇÃO DEPENDENTE DO TEMPO 167

 2
sen[ 12 (ω−ωf i )T ]
Figura 12.1: Gráfico da função f (ω − ωf i ) = 1 . Extraído de
2 (ω−ωf i )
[2].

Calculando esse limite encontramos:

1 (1) 2 1 2
lim af (T ) = 2 |hf |H 0 |ii| 2πδ(ω − ωf i )
T →∞ T h̄
2π 2
= |hf |H 0 |ii| δ(h̄ω − f + i ), (12.20)

suponha que estamos interessados em calcular a probabilidade de transição


entre um estado de energia i e outro estado de f contínua, com densidade
de estados dada por η(). Nesse caso o estado será altamente degenerado e
teremos que integrar sobre todos os estados.
A taxa total de transição entre um estado de energia discreta i e outro
de energia f pela absorção um quantum de energia h̄ω será:


Z
2 2π 2
R= |hf |H 0 |ii| δ(h̄ω − f + i )η(f )df = |hf |H 0 |ii| η(i + h̄ω),
h̄ h̄
(12.21)
essa é a conhecida regra de ouro de Fermi.
A parte sobre o exemplo de absorção óptica me pareceu muito interessante,
mas não entendi direito.
168 CAPÍTULO 12. FENÔMENOS DEPENDENTES DO TEMPO

12.2 Relação de incerteza energia-tempo


Da seção 8.4 temos que, se vale [A, B] = iC, é possível provar que:
1
∆A ∆B ≥ |hCi|, (12.22)
2
tal que, para os operadores momento e posição, temos [Q, P ] ≥ ih̄, a conhecida
relação de incerteza de Heisenberg.
Estaremos interessados em obter uma relação de incerteza que envolva
tempo e energia, porém [t, H] não faz sentido pois o tempo é um parâmetro
em M.Q. e não uma variável dinâmica.
Para chegar nessa relação de incerteza considere uma variável dinâmica R
que não comuta com H. Usando a relação de incerteza generalizada:
1
∆R ∆E ≥ |h[R, H]i|, (12.23)
2
em que ∆R é o desvio padrão da variável dinâmica arbitrária R e ∆E é o
desvio padrão da energia, ambos calculados em um estado qualquer. Usando
a equação (3.86) e considerando que R não depende explicitamente do tempo
chegamos em:
1 dhRi
∆R ∆E ≥ h̄ , (12.24)
2 dt
definimos o chamado tempo característico para uma variação de R:
!−1
dhRi
τR = ∆R , (12.25)
dt

disto podemos escrever:


1
τR ∆E ≥ h̄, (12.26)
2
a relação de incerteza energia-tempo. Aqui ∆E pode ser entendido como uma
medida da incerteza da energia enquanto que τR não admite essa interpretação.
Aqui τR dá uma ideia de variabilidade do fenômeno descrito pela variável
dinâmica R à medida que o tempo passa.

12.3 Aproximação de dipolo elétrico para ra-


diação atômica
Uma das aplicações mais antigas da teoria de perturbação dependente do
tempo consiste no cálculo da emissão (ou absorção) de radiação pela matéria.
12.3. APROXIMAÇÃO DE DIPOLO ELÉTRICO PARA RADIAÇÃO ATÔMICA169

Nessa seção, desconsiderando a possibilidade de interação entre elétrons e sem


quantizar o campo eletromagnético, faremos uma descrição desse fenômeno.
Consideremos o hamiltoniano de uma partícula carregada em um campo
eletromagnético:
n o2
P − qc A
H= + qφ + W, (12.27)
2M
em que W é a energia potencial do núcleo do átomo sobre o elétron. Via
teoria de perturbação definimos:

P2
H = H0 + H1 , H0 = + W, (12.28)
2M
q q2
H1 = (P · A + A · P) + (A · A) + qφ, (12.29)
2M c 2M c2
o hamiltoniano H1 define a interação entre o átomo e o campo de radiação.
Devido à liberdade de calibre da teoria eletromagnética a expansão |ψ(t)i =
P
n cn (t)|ni não é única, pois os coeficientes cn podem diferir de uma fase que
depende do calibre escolhido. Essa escolha de calibre é bastante delicada num
problema perturbativo, pois a invariância de calibre pode ser perdida para
ordens superiores da teoria de perturbação. Para mais detalhes sobre isso
indicamos [32].
Emissão/absorção induzida
Para tornar o problema tratável de forma analítica assumimos a hipó-
tese, chamada aproximação de dipolo elétrico, de que o comprimento de
onda da luz incidente é pequeno em comparação ao tamanho da amostra,
desprezando os efeitos de variação do campo no volume do material.
Nessa condição o campo magnético é desprezível, B = 0, e isso nos dará
os potenciais: Z x
A = 0, φ=− E(x0 , t) · dx0 . (12.30)
0

Essa integral independe do caminho pois ∇ × E = − 1c ∂B


∂t
= 0. Se a
variação espacial puder ser desprezada teremos:

A = 0, φ = −x · E(0, t). (12.31)

Escolhe-se a posição do núcleo como sendo a origem. Essa escolha para os


campos é válida sempre que a aproximação de dipolo elétrico for válida e é
geralmente a escolha mais conveniente. Se o campo for pequeno ele pode ser
tratado como uma perturbação:

H1 = −qx · E(0, t), (12.32)


170 CAPÍTULO 12. FENÔMENOS DEPENDENTES DO TEMPO

usando a perturbação harmônica da seção 12.1 supomos que a dependência


temporal do campo elétrico é da forma harmônica tal que a perturbação será
dada por:
(
−qx · E0 (e−iωt + eiωt ), 0 < t < T,
H1 = (12.33)
0, caso contrário.

Aqui E0 é a amplitude de polarização do campo elétrico. Na notação da


0
seção 12.1 temos H 0 = H † = −qx · E0 e se o estado inicial do sistema for
um autovetor do hamiltoniano atômico H0 então a probabilidade do átomo,
(1) 2
no instante t > T , possuir energia final f é igual a af (T ) dada pela
teoria de perturbação dependente do tempo. Se f > i o átomo absorveu
radiação, se f < i o átomo emitiu radiação. Usando resultados da seção
12.1 encontramos:
 h i 2
2e2  sin 1 (ω − ωf i )T 
(1) 2 2
af (T ) = 2 |hf |x · E0 |ii| 1 , (12.34)
h̄ 
2
(ω − ωf i ) 

que consiste na probabilidade de absorção de um único fóton de frequência


ω. Porém a radiação incidente está distribuída para vários valores de ω num
intervalo dω. Tomando o limite para T grande e integrando a expressão
encontramos a probabilidade de absorção:

1 Z (1) 4π 2 e 2
 
2
Ra = af (T ) = u(ωf i )|hf |x|ii|2 , (12.35)
T 3 c
aqui u(ωf i ) é a densidade de energia eletromagnética na frequência angular
ωf i . Cálculos semelhantes levam ao mesmo resultado para a emissão induzida.
Emissão/absorção espontânea
É um fato conhecido em M.Q. de que um átomo em um estado excitado
emitirá energia na forma de radiação espontaneamente. Esse fenômeno não
pode ser tratado cabalmente com o ferramental que se dispõe até agora pois
seria necessário de uma teoria quântica do campo eletromagnético e, até
agora, apenas tratamos de forma quântica a matéria deixando os campos em
sua forma clássica.
Porém, Einstein, em 1917, deduziu muitas das propriedades importantes
da emissão induzida sem qualquer necessidade de quantização do campo
eletromagnético, que veio bastante tempo depois. É sobre a versão da teoria
de Einstein que veremos agora.
Considere que o número de átomos no estado n é N (n), e considere
transições entre estados i e f envolvendo a emissão ou absorção de radiação
na frequência ωf i = (f − i )/h̄ > 0.
12.4. APROXIMAÇÃO ADIABÁTICA 171

Calculamos a probabilidade por unidade de tempo para absorver radiação


que é dada por Bif u(ωf i ), em que u(ωf i ) é a densidade de energia da radiação
para uma dada frequência angular ωf i . Einstein assumiu que a taxa de
de-excitação de átomos ao emitir radiação é da forma:

Bf i u(ωf i )N (f ) + Af i N (f ), (12.36)

o primeiro termo corresponde a emissão induzida, o segundo termo que


independe da radiação incidente, corresponde à emissão espontânea. No
equilíbrio vale que:

Bf i u(ωf i )N (f ) + Af i N (f ) = Bif u(ωf i )N (i), (12.37)

Einstein também usou o princípio de equilíbrio para assumir que Bf i = Bif ,


ou seja, as probabilidade de emissão e absorção induzidas são iguais. Disto
podemos tirar:
Af i N (f )
u(ωf i ) = , (12.38)
Bf i [N (i) − N (f )]
mas, no equilíbrio termodinâmico, a ocupação relativa dos diversos estados
atômicos e descrita pela distribuição de Stefan-Boltzmann, então:

N (i)
= e(f −i )/kB T , (12.39)
N (f )

daí:
Af i /Bf i
u(ωf i ) = , (12.40)
e f i /kB T −
h̄ω 1
que, exceto pelo numerador, é idêntico a distribuição de energia de um corpo
negro. Usando a aproximação de Rayleigh-Jeans para baixas energias:

h̄ωf3i
Af i = Bf i , (12.41)
π 2 c3
é a relação entre as taxas de emissão. Essa relação é muito importante por
duas razões: ela foi demonstrada em um contexto puramente clássico, sem
recorrer à M.Q.; ela nos permite calcular a emissão espontânea através de
medições de emissão induzida.

12.4 Aproximação adiabática


Na teoria de perturbação dependente do tempo assumimos que a perturba-
ção H1 (t) é pequena em magnitude se comparada com o termo não-perturbado.
172 CAPÍTULO 12. FENÔMENOS DEPENDENTES DO TEMPO

Na chamada aproximação adiabática consideramos que a perturbação,


embora possa ser bastante intensa em magnitude, ela é demasiado lenta.
Essa aproximação permite resolver um certo conjunto que problemas cuja
perturbação externa varia lentamente.
Um exemplo bastante usual dessa aproximação é o espalhamento de
elétrons e fônons num experimento de espectroscopia Raman.

12.5 Exercícios
Exercício 12.1 Resolva os exercícios do livro do Ballentine, [2].
Apêndice A

Autovalores e autovetores de
uma matriz

Considere uma transformação linear T : V → V , sendo V um espaço


vetorial. Essa transformação admite uma representação como uma matriz
quadrada. Em outras palavras, T denota tanto a transformação linear em si
quanto a sua matriz. Seja v ∈ V , um elemento do espaço vetorial V .
Podemos nos perguntar: existe um escalar λ tal que a seguinte equação:
T v = λv (A.1)
é válida?
A equação acima é chamada de equação de autovalores. O conjunto
dos vetores v que satisfazem essa equação, para um dado λ, são chamados de
autovetores. Já as constantes λ são chamadas de autovalores.
Em MQ normalmente estamos interessados em obter os autovalores de
um operador de interesse. A esse procedimento damos o nome de “obtenção
do espectro do operador”. Em linguagem matemática, um operador é uma
transformação linear entre dois espaços idênticos, com o caso particular de
estarmos tratando de espaços de Hilbert que podem envolver estruturas mais
complexas do que aquelas que vemos em álgebra linear.
Como v é um vetor e λ é um escalar, podemos usar que v = Iv e aí
encontramos a seguinte equação:
(T − λI)v = 0, (A.2)
e a resolução desse sistema linear nos dará todos os autovalores da matriz T .
Existe, porém, uma forma ainda mais simples de se obter os autovalores de
uma matriz.
Proposição: ρ = det(T − λI) é um polinômio de mesmo grau da dimen-
são de T . Ele é chamado polinômio característico.

173
174APÊNDICE A. AUTOVALORES E AUTOVETORES DE UMA MATRIZ

Desta proposição podemos tirar um importante teorema:

Teorema 11 As raízes do polinômio característico de uma matriz de trans-


formação T são os autovalores de T .

Este teorema tem a impotância prática de nos permitir construir os


autovalores de uma matriz de forma direta apenas calculando-se as raízes do
polinômio característico.
Após calcularmos as raízes do polinômio característico calculamos, para
cada uma dessas raízes, as possíveis soluções para v da equação (A.2). Vejamos
o exemplo a seguir:
!
2 1
Exemplo 23 Calcule os autovalores e autovetores de A = .
1 2
Resolução:
Conforme comentamos, primeiro precisamos achar as raízes do polinômio
característico: !
2−λ 1
det(A − λI) = det = 0, (A.3)
1 2−λ
calculando o determinante encontramos:
(2 − λ)2 − 1 = 0 ⇒ λ = 1, λ = 3. (A.4)
Agora calculamos os autovetores. Começando com λ = 1:
! ! !
2−1 1 a 0
· = , (A.5)
1 2−1 b 0
!
a
em que colocamos um autovetor genérico v = associado ao autovalor
b
λ = 1.
Resolvendo o sistema acima encontramos: a = −b. Como eles são arbitrá-
rios, podemos colocar, por simplicidade, a = 1, logo:
!
1
v= , (A.6)
−1
é o primeiro autovetor. Não podemos colocar a = 0 pois teríamos b = 0 e
não se pode admitir autovetores nulos (pois o sistema homogêneo da equação
(A.2) não terá solução).
Agora calculamos o segundo autovetor para λ = 3:
! ! !
2−3 1 c 0
· = , (A.7)
1 2−3 d 0
175
!
c
em que colocamos um autovetor genérico w = associado ao autovalor
d
λ = 3.
Resolvendo o sistema acima encontramos: c = d. Como eles são arbitrários,
podemos colocar, por simplicidade, a = 1, logo:
!
1
w= , (A.8)
1

que é o último autovetor. Em MQ é necessário que os autovetores sejam


normalizados e, para isso, calculamos:
q √ √ √
||v|| = 12 + (−1)2 = 2, ||w|| = 12 + 12 = 2, (A.9)

e dividimos os autovetores por estes números, ficando com:


! !
1 1 1 1
v=√ , w=√ . (A.10)
2 −1 2 1

Procedimentos como esse serão comuns em MQ. É através desse método


que podemos obter o espectro de operadores lineares em dimensão finita, que
possuem interesse físico.
176APÊNDICE A. AUTOVALORES E AUTOVETORES DE UMA MATRIZ
Apêndice B

Representação Irredutível e o
Lema de Schur

Como discutido no capítulo introdutório, as matrizes (7) compõe um grupo


isomórfico às operações de simetria de um triângulo equilátero, formando
uma representação para este grupo. O conjunto de matrizes abaixo têm as
duas primeiras linhas e colunas idênticas às matrizes (7), mas é acrescido de
uma terceira linha e coluna que têm como diferente de zero apenas o elemento
M33 :
 √ 
1
− 23 0 
   
1 0 0 −1 0 0  2√
E= 0 1 0  A= 0 1 0  B=
 − 2
3
− 12 0 
   

0 0 1 0 0 −1 0 0 −1
 √   √   √ 
1 3
 √2 2
0  
−√12 2
3
0  − 1 − 23 0 
 √2
C=  2
3
− 12   3 1
0  D =  − 2 −2 0   F =  2
3
− 12 0  .
0 0 −1 0 0 1 0 0 1
(B.1)
Note que M33 = 1 para as matrizes E, D e F , e M33 = −1 para as matrizes A,
B e C. Desta forma, enquanto as duas primeiras linhas e colunas descrevem as
transformações do triângulo equilátero no plano xy, o elemento M33 descreve
o que acontece com o eixo z, que fica invariante para E, D e F e inverte para
A, B e C.
Os conjuntos de matrizes (7) e (B.1) exemplificam o que chamamos,
respectivamente, de matrizes irredutíveis e redutíveis.
Definição: Se todos os elementos da representação de um grupo podem
ser apresentados em uma forma diagonal por blocos, através de uma única
operação de similaridade (ver §1.2), esta representação é dita redutível. Caso
contrário, ela é dita irredutível.

177
178APÊNDICE B. REPRESENTAÇÃO IRREDUTÍVEL E O LEMA DE SCHUR

Analisando o grupo das operações de simetria do triângulo podemos ter


uma intuição física do que significa ser redutível e irredutível. Uma operação
de rotação dos eixos cartesianos é uma operação de similaridade, e pode
misturar os eixos xyz, de forma que as matrizes (B.1) não terão a forma de
blocos apresentada. Entretanto, uma rotação inversa trás as matrizes de volta
a forma (B.1), que é uma forma redutível em uma matriz 2 × 2 que representa
as transformações no plano xy, e uma matriz unidimensional que representa
as transformações do eixo z. Isto acontece porque, efetivamente, não há
nenhuma operação de simetria de um triângulo equilátero que conecte o plano
xy com o eixo z. Como consequência, se você imaginar uma molécula que
tem a forma de um triângulo equilátero, a estrutura eletrônica, vibrational,
ou qualquer propriedade que seja consequência de sua forma geométrica terá
características distintas no plano xy e fora dele.
Lema de Schur: Se as representações de um determinado grupo são
irredutíveis, um operador que comuta com os operadores desse grupo só pode
ser uma matriz constante (múltiplo da identidade).
Prova: Seja M uma matriz que comuta com todas as matrizes de uma
representação A1 , A2 , . . . , Ah

M Ax = Ax M. (B.2)
Tome a adjunta em ambos os lados da Eq. B.2 para obter
A†x M † = M † A†x . (B.3)
Como Ax pode, de forma genérica, ser considerada uma matriz unitária,
multiplicando à direita e à esquerda da Eq. B.3 por Ax leva a
M † Ax = Ax M † (B.4)
de forma que se M comuta com Ax , M † também comuta, assim como as
matrizes Hermitianas H1 e H2 definidas por
H1 =M + M †
(B.5)

H2 =i(M − M ),
Hj Ax = Ax Hj onde j = 1, 2. (B.6)
Agora vamos mostrar que uma matriz Hermitian comutante é uma matriz
constante, de onde segue que M = H1 − iH2 é também uma matriz constante.
Como Hj (j = 1, 2) é uma matriz Hermitiana, ela pode ser diagonalizada.
Seja U a matriz que diagonaliza Hj (por examplo H1 ) gerando a matriz
diagonal d
d = U −1 Hj U. (B.7)
179

Realizemos agora uma tansformação unitária nas matrizes Ax da representa-


ção, Âx = U −1 Ax U . Das relações de comuntação Eqs. B.2, B.3 e B.6, uma
transformação unitária em todas as matrizes Hj Ax = Ax Hj leva a

(U −1 Hj U ) (U −1 Ax U ) = (U −1 Ax U ) (U −1 Hj U ) . (B.8)
| {z }| {z } | {z }| {z }
d Âx Âx d

Então agora nós temos uma matriz diagonal d que comuta com todas as
matrizes da representação. Na sequência, vamos mostrar que esta matriz
diagonal d é uma matriz constante, se as matrizes Âx (e assim também
as matrizes Ax ) formam uma representação irredutível. Começando com a
Eq. B.8
dÂx = Âx d (B.9)
pegamos os elementos ij em ambos os lados da Eq. B.9

dii (Âx )ij = (Âx )ij djj (B.10)

de forma que
(Âx )ij (dii − djj ) = 0 (B.11)
para todas as matrizes Ax .
Se dii 6= djj , para que a matriz d não seja uma matriz diagonal constante,
então (Âx )ij deve ser 0 para todos os Âx . Isto significa que a transformação
unitária ou de similaridade U −1 Ax U trouxe todas as matrizes da representação
Âx na mesma forma de bloco, já que sempre que dii 6= djj todas as matrizes
(Âx )ij são matrizes nulas. Assim, por definição a representação Ax é redutível.
Mas assumimos que o Ax é uma representação irredutível. Portanto (Âx )ij 6= 0
para todo Âx , de modo que seja necessário que dii = djj , e o lema de Schur
está provados.
180APÊNDICE B. REPRESENTAÇÃO IRREDUTÍVEL E O LEMA DE SCHUR
Apêndice C

Teoria de Grupos de Espaço

Operações de simetria (rotações, espelhamentos e translações) que deixam


o espaço tridimensional invariante compõe o chamado grupo de espaço [3].
Considere que essa operação é descrita por {Γα , τ } tal que temos as seguintes
operações:

{ε|0} = identidade
{α|0} = rotações puras ou mais geral operações de grupo de ponto
{ε|τ } = translações puras por um vetor ~τ .

Podemos relacionar o operador {α|τ } para o grupo de espaço com uma


transformação de coordenadas

{α|τ }~r = r~0 = α ·~r + ~τ (C.1)

onde α denota a matriz transformação para rotações e ~τ denota uma trans-
formação de translação.

Definição: O resultado da multiplicação de dois elementod do grupo de


espaço é:
{β|τ 0 }{α|τ } = {βα|βτ + τ 0 } (C.2)
onde {α|τ } é o primeiro operador do grupo de espaço e {β|τ 0 } é o
segundo.

Prova: A multiplicação de dois operadores do grupo de espaço é dada por:


↔ h↔ i
{β|τ 0 }{α|τ } = β · α ·~r + ~τ + τ~0
↔ ↔ ↔
= β · α ·~r + β ·~τ + τ~0
= {βα|βτ + τ 0 }

181
182 APÊNDICE C. TEORIA DE GRUPOS DE ESPAÇO

Usando os resultados desta definição de multiplicação de operadores do


grupos de espaço podemos escrever:
↔ ↔ ↔
{α|τ }{β|τ 0 } = α · β ·~r+ α ·τ~0 + ~τ (C.3)

de modo que a comutação destes operadores implica em:


↔ ↔ ↔ ↔ ↔ ↔
α · β =β · α and β ·~τ + τ~0 = α ·τ~0 + ~τ (C.4)

o que não é geralmente válido. Concluímos, por tanto, que embora simples
translações comutem umas com as outras, geralmente operações de grupo de
espaço não comutam.

Definição: A inversa de {α|τ } é dada por:

{α|τ }−1 = {α−1 |−α−1 τ } (C.5)

Prova: Usando a definição proposta acima podemos realizar a seguinte


operação:

{α|τ }{α|τ }−1 = {αα−1 |α(−α−1 τ ) + τ } = {ε|0} (C.6)

que prova a definição para {α|τ }−1 .

Uma vez especificada a operação {ε|0}, as regras de multiplicação, e as


regras para a operação inversa, e verificando que a lei da associatividade se
aplica, vemos que os elementos {α|τ } formam um grupo como definido na
Introdução.

Definição: A representação matricial para o operador do grupo de espaço é


!
1 0
{α|τ } = ↔ (C.7)
~τ α

onde 1 é um número, 0 denota uma linha de três zeros, ~τ é um vetor



coluna, e α e uma matriz de rotação (3 × 3). Introduzindo a base:
!
1
~r

onde 1 é um número e ~r é um vetor coluna consistindo, por exemplo, de


 
x
 y ,
 

z
183

a ação de um operador de grupo de espaço no sistema de coordenadas


pode ser escrito como
! ! ! !
1 0 1 1 1
↔ = ↔ = ~ . (C.8)
~τ α ~r ~τ + α ·~r r0

Teorema: A matriz da Eq. C.7 forma uma representação para o operador


do grupo de espaço {α|τ }.

Prova: Para provar que a matriz da Eq. C.7 é uma represntação do operador
do grupo de estado {α|τ }, escrevemos as transformações de multiplicação
e inversa. A multiplicação das duas matrizes leva a
! ! !
1 0 1 0 1 0
↔ ↔ = ↔ ↔ ↔ (C.9)
τ~0 β ~τ α τ~0 + β ·~τ β·α
que produz outra operação de simetria do grupo espacial

{β|τ 0 }{α|τ } = {βα|βτ + τ 0 }. (C.10)

Usando a Eq. C.9 podemos escrever o produto das matrizes representação de


{α|τ } com a do operador inversa {α|τ }−1 para se obter
! ! !
1 0 1 0 1 0
↔−1 ↔−1 ↔ = , (C.11)
−α ·~τ α ~τ α 0 ε

mostrando assim que


{α|τ }−1 {α|τ } = {ε|0}. (C.12)
184 APÊNDICE C. TEORIA DE GRUPOS DE ESPAÇO
Referências Bibliográficas

[1] C. COHEN-TANNOUDJI, B. DIU, and F. LALOË. Quantum Mechanics,


volume 1. New York, 1977.

[2] L.E. BALLENTINE. Quantum Mechanics: A Modern Development -


Second Edition, volume 2a Ed. World Scientific Publishing Company,
2015.

[3] G.; JORIO A. DRESSELHAUS, M. S.; DRESSELHAUS. Group Theory:


Application to the Physics of Condensed Matter. Springer-Verlag Berlin,
2008.

[4] J. L. BOLDRINI, S. I.R. COSTA, V. L. FIGUEREDO, and H. G.


WETZLER. Álgebra linear. Harper & Row, 1980.

[5] I. NIELSEN, M. A.; CHUANG. Quantum computation and quantum


information. AAPT, 2002.

[6] J.-M. LEVY-LEBLOND. Who is afraid of nonhermitian operators? a


quantum description of angle and phase. Annals of Physics, 101(1):319–
341, 1976.

[7] R. PENROSE and P. E. T. JORGENSEN. The road to reality: A com-


plete guide to the laws of the universe. The Mathematical Intelligencer,
28(3):59–61, 2006.

[8] N. MOISEYEV. Non-Hermitian quantum mechanics. Cambridge Uni-


versity Press, 2011.

[9] E. P. WIGNER. On hidden variables and quantum mechanical probabi-


lities. American Journal of Physics, 38(8):1005–1009, 1970.

[10] J. S. BELL. On the einstein-podolsky-rosen paradox. Physics, 1(3):195,


1964.

185
186 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[11] D. C. MONTGOMERY and G. C. RUNGER. Applied statistics and


probability for engineers. John Wiley & Sons, 2010.

[12] M. F. PUSEY, J. BARRETT, and T. RUDOLF. On the reality of the


quantum state. Nature Physics, 8:475, 1970.

[13] M. JAMMER. The Philosophy of Quantum Mechanics. Wiley, 1974.

[14] B. D’ESPAGNAT. Conceptual Foundations of Quantum Mechanics.


Addison Wesley, 1989.

[15] P. GIBBINS. Particles and Paradoxes - The Limits of Quantum Logic.


Cambridge, 1987.

[16] R. I. G. HUGHES. The Structure and Interpretations of Quantum


Mechanics. Harvard, 1989.

[17] A. PERES. Quantum Theory: Concepts and Methods. Kluwer, 1995.

[18] J. J. SAKURAI. Advanced quantum mechanics. Pearson Education India,


1967.

[19] M. M. LUCCHESE, F. STAVALE, E.H. M. FERREIRA, C. VILNI,


M.V.O. MOUTINHO, R. B. CAPAZ, C.A. ACHETE, and A. JORIO.
Quantifying ion-induced defects and raman relaxation length in graphene.
Carbon, 48(5):1592–1597, 2010.

[20] R. P. FEYNMAN, A. R. HIBBS, and D. F. STYER. Quantum mechanics


and path integrals. Courier Corporation, 2010.

[21] R. P. FEYNMANN and F.L. VERNON JR. The theory of a general


quantum system interacting with a linear dissipative system. Annals of
physics, 281(1-2):547–607, 2000.

[22] B. LOHMAN, L. FROST, and E. WEIGOLD. Electron impact excitation


of atomic hydrogen-ratios of 2s and 2p differential cross sections. In
Physics of electronic and atomic collisions. 1981.

[23] E. WEIGOLD. Electron coincidence spectroscopy: An introduction to


momentum space chemistry. Australian Journal of Physics, 35(5):571–
592, 1982.

[24] G. et al SAITO, R.; DRESSELHAUS. Physical properties of carbon


nanotubes. World scientific, 1998.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 187

[25] M. LEVINE and A. HEATH. Quantum chemistry. 1991.

[26] H. J. ARFKEN, G. B.; WEBER. Mathematical methods for physicists,


1999.

[27] J. C. A. BARATA. Curso de física-matemática. Departamento


de Física-Matemática da Universidade de São Paulo, Disponível em:
[Link] jbarata/Notas_de_aula/[Link], 27,
2013.

[28] M. S. D. BASSALO, J. M. F.; CATTANI. Teoria de grupos para físicos.


1661, 2011.

[29] J. SUMMHAMMER, , G. BADUREK, H. RAUCH, and U. KISCHKO.


Explicit experimental verification of quantum spin-state superposition.
Physics Letters A, 90(3):110–112, 1982.

[30] D. AHARONOV, Y.; BOHM. Significance of electromagnetic potentials


in the quantum theory. Physical Review, 115(3):485, 1959.

[31] H. FRIEDRICH, H.; WINTGEN. The hydrogen atom in a uniform


magnetic field—an example of chaos. Physics Reports, 183(2):37–79,
1989.

[32] A. L. KOBE, D. H.; SMIRL. Gauge invariant formulation of the inte-


raction of electromagnetic radiation and matter. American Journal of
Physics, 46(6):624–633, 1978.

Você também pode gostar