Reflexões de um Adolescente em Crise
Reflexões de um Adolescente em Crise
ANGUSTIADO E ATORMENTADO ATÉ não poder mais, cansei da ideia de que analisar demais
minhas ansiedades me faria algum bem. Virei a cabeça para o céu como quem deseja
romper com esse espiral pessimista. Para minha surpresa, a vasta extensão azul acima era
tão clara e tranquila quanto a serenidade de espírito que eu almejava. Um milhafre solitário
desenhava figuras em forma de oito contra o firmamento, seu chamado melancólico
ecoando do alto enquanto escaneava a terra em busca de sua próxima refeição. Ao lado
dele, pendia a lua minguante, imóvel e plácida no céu matutino, como uma única gota de
leite derramado.
Inspirei uma lufada revigorante de ar fresco e costeiro, buscando fornecer ao meu cérebro
cansado um novo suprimento de oxigênio. Com as narinas agora umedecidas pelo toque
salgado da brisa, captei um leve aroma de flores de ameixeira, entremeado ao cheiro
habitual de sal marinho. Era a primavera antes do meu último ano no ensino médio. Eu
tinha dezessete anos.
Voltei meu olhar para a estrada à frente e retomei minha caminhada à beira-mar, enquanto
as ondas quebravam contra o paredão ao meu lado. Não era, nem de longe, o caminho mais
direto para casa, mas isso me parecia perfeito — precisava de um tempo a mais para pensar.
Pensei na noite passada — aquele evento fatídico que havia sido o catalisador de tudo isso,
mas também um tipo de desfecho, pelo menos para mim. A realidade dos fatos ainda não
havia se instalado por completo. Tudo que conseguia fazer era repassar os eventos daquela
noite repetidamente na minha cabeça, me perguntando infinitamente se aquilo era mesmo
o final que eu queria ou se havia algo mais que eu poderia ter feito; uma escolha diferente
que poderia ter tomado, um desfecho melhor. Quanto mais eu refletia, mais parecia que
minha mente estava sendo engolida por uma areia movediça, cada tentativa de escapar me
afundando ainda mais em um pântano de arrependimento.
Mal fechei as pálpebras e um fluxo de memórias começou a passar por elas em sucessão
rápida, como uma série de slides projetados em um telão — memórias da Akari e dos
últimos dias que passamos juntos. Em uma imagem, ela ria; na seguinte, chorava; e em
outra, corava intensamente. À medida que essas imagens se desenrolavam no fundo dos
meus olhos fechados, como quadros congelados no tempo e no espaço, percebi o quão
abençoado eu havia sido por compartilhar cada um desses preciosos e fugazes momentos
com ela. Apenas tê-la por perto — falando, ouvindo, existindo — era o suficiente para me
fazer sentir satisfeito com minha vida medíocre. E foi exatamente por isso que,
independentemente das escolhas que eu pudesse ter feito ou das que ainda faria, prometi a
mim mesmo que faria o que fosse necessário para—
Antes que pudesse terminar esse pensamento, minha mente finalmente cedeu às demandas
urgentes do meu corpo por sono, e perdi a consciência.
PELA PRIMEIRA VEZ EM QUASE DOIS ANOS, EU ESTAVA SENTADO A BORDO DE uma pequena, mas
familiar, balsa de passageiros, deixando as lentas ondulações das ondas me balançarem
suavemente de um lado para o outro. Do meu assento junto à janela, podia observar quase
toda a área interna de assentos. Havia algo em torno de cem lugares disponíveis nessa
embarcação, se minha memória não falhava, mas os passageiros eram tão poucos que
podiam ser contados nos dedos de uma mão. Olhei para o velho relógio de parede
pendurado e notei que eram exatamente 15h, o que significava que já haviam se passado
mais de seis horas desde que deixei Tóquio. Com o cotovelo apoiado no parapeito da janela,
encostei a cabeça na palma da mão e soltei um breve e melancólico suspiro.
Tinha fugido de casa, e por um motivo pateticamente clichê, nada menos. Por mais que
tentasse afastar os pensamentos desagradáveis, eles voltavam com força a cada tentativa.
Em parte, eu tinha culpa, para ser justo. Não foi certo ter faltado às aulas suplementares
das férias de primavera, e piorei ainda mais as coisas tentando encobrir isso com uma
desculpa esfarrapada quando meu pai me pegou matando aula em uma livraria local (tentei
fingir que o romance de ficção científica que folheava era, na verdade, material de estudo
recomendado pelo professor por suas aplicações práticas em conceitos de física).
Esses dois erros iniciais à parte, eu realmente acreditava que a maior parte da culpa recaía
sobre meu pai. Para mim, o modo como ele explodiu comigo assim que chegamos em casa
— chamando-me de desperdício de dinheiro, "futuro desistente do ensino médio", uma
decepção para a família e simplesmente um caso perdido — foi extremamente
desproporcional. Muito do que ele disse foi pura agressão verbal.
Eu sabia que era errado ter faltado às aulas. Admitia isso plenamente. Mas foi meu pai quem
insistiu para que eu fizesse esses cursos suplementares em primeiro lugar. Certamente não
fiquei empolgado com a ideia de passar as férias de primavera na escola, mas ele não
aceitou outra possibilidade. Sim, era verdade que ele estava pagando pela minha
mensalidade e minhas despesas, mas sempre foi ideia dele me convidar para morar com ele
em Tóquio. No entanto, fiquei ali parado, com os olhos baixos, deixando-o me atacar
verbalmente por algo que parecia durar horas, enquanto resistia à vontade de confrontá-lo
por quão irracional ele estava sendo. Aquela última observação casual — e duvido que ele
tenha pensado antes de dizê-la — foi o empurrão final.
— Eu sabia que foi um erro trazer você de volta para Tóquio comigo.
Essa única frase me atingiu tão forte que parecia ter levado uma tacada de beisebol na
cabeça. Depois de dois ou três segundos de silêncio perplexo (talvez tenha sido mais
tempo, difícil dizer), saí pisando duro em direção ao meu quarto e bati a porta com força.
Ignorando os gritos incessantes do meu pai, enfiei algumas trocas de roupa e itens básicos
em uma mochila e, assim que acordei na manhã seguinte, saí correndo pela porta da frente.
Já havia passado mais de meio dia desde a discussão, mas pensar nisso ainda fazia meus
dentes rangerem de frustração.
Eu sabia que não me faria nenhum bem continuar revivendo esses eventos em um ciclo
infinito na minha mente, então decidi abandonar esse pensamento e olhar para o oceano
aberto, cujas ondas brilhavam intensamente sob o sol da tarde. As águas azul-escuras
estavam relativamente agitadas hoje, fazendo a pequena balsa balançar de um lado para o
outro. Estava começando a sentir um pouco de enjoo, embora fosse possível que a
turbulência não tivesse nada a ver com isso. Talvez minha ansiedade sozinha fosse a causa
do mal-estar.
Ainda assim, levantei-me do assento e segui para a frente da embarcação para tomar um
pouco de ar fresco. No momento em que pisei no deque, um vento forte arrancou o capuz
do meu moletom e o fez bater furiosamente contra a nuca. O ar do início da primavera
estava um pouco gelado contra a minha pele, ainda mais com o vento, mas isso foi
exatamente o choque refrescante que eu precisava. A brisa fria me tirou do ciclo
depressivo; já me sentia mais vivo novamente.
Olhei ao redor, mas não havia outras pessoas no deque ventoso. Com passos medidos,
caminhei em direção à proa e me inclinei sobre o parapeito na frente do navio. Bem à nossa
frente, podia ver nosso destino: a pequena e remota ilha que um dia chamei de lar, mas que
não visitava havia dois anos inteiros. Sodeshima.
↺
Logo atracamos no Porto de Sodeshima. Joguei a mochila sobre o ombro e me preparei
para desembarcar. Assim que saí da balsa e deixei o porto, no entanto, avistei alguém
familiar caminhando pela calçada do outro lado da rua. Embora o cabelo dele estivesse um
pouco mais comprido do que dois anos atrás, eu reconheceria aquele corte rente e porte
imponente em qualquer lugar. Eu tinha avistado Akito Hoshina.
Na época em que morava em Sodeshima, ele era o mais próximo que a pequena ilha tinha
de um astro. Com seu talento atlético extraordinário e habilidades no beisebol, ele levou
sozinho o time da nossa escola de ensino médio — desconhecida e sem nome — ao
campeonato nacional em Koshien, um feito que o tornou o assunto da cidade por muito
tempo. Ele era o cara que todo garoto da ilha queria ser quando crescesse, eu incluído.
Considerando que era três anos mais velho do que eu... ele devia ter vinte anos agora.
Perguntei-me o que ele estava fazendo atualmente. Tivemos algumas interações muito
breves no passado, então considerei chamá-lo para cumprimentá-lo, mas, quando
finalmente decidi, ele já havia entrado no guichê de bilhetes para a balsa de saída. Eu tinha
perdido a chance.
Decidi que seria mais assertivo ao abordá-lo se outra oportunidade surgisse. Virei-me na
direção do único lugar onde sabia que poderia ficar por um tempo: a casa da minha avó.
Após passar pelos poucos quarteirões de empresas de turismo e pousadas tradicionais ao
redor do porto, segui para o interior pelas ruas residenciais íngremes e estreitas. Embora
tivesse nascido em Tóquio, passei a maior parte da minha vida em Sodeshima. Atualmente,
vivia uma vida indistinguível de qualquer adolescente de Tóquio, mas foi aqui, na humilde
Sodeshima, que frequentei o ensino fundamental e o ginásio, os anos mais formativos da
minha vida. Nesse sentido, Sodeshima era mais uma cidade natal para mim do que Tóquio
jamais seria. Praticamente se podia dizer que essa não era uma fuga de casa, mas uma
espécie de retorno ao lar... embora essa distinção não mudasse nada.
Falando em coisas que não mudaram, pensei enquanto olhava para as ruas de Sodeshima,
observando a surpreendente falta de desenvolvimento nos últimos dois anos. Tudo estava
praticamente do mesmo jeito que eu lembrava. Apenas casas antigas, no estilo japonês,
alinhavam as ruas desses bairros, sem um único prédio moderno à vista. Era um nível de
estagnação que ia além de evocar nostalgia, entrando no reino da estagnação entorpecente.
Depois de subir a colina a pé por cerca de dez minutos, parei em frente a uma casa de
madeira de dois andares com a placa FUNAMI fixada no portão. Eu estava em casa.
Enquanto lutava, como sempre, com a porta instável que não se encaixava direito no
batente, chamei para dentro da casa, e minha avó saiu rapidamente da sala de estar para
me cumprimentar.
— Bem-vinda de volta, Kanae — ela disse, as rugas profundas em seu rosto se esticando e
formando um sorriso largo e reconfortante. Ela já estava nos seus oitenta e tantos anos,
mas permanecia tão ereta quanto antes, com a postura firme como uma flecha. Por todos
os relatos, era extremamente vigorosa para a idade; sua excelente saúde era a única coisa
que eu estava grato por ver permanecer inalterada nos últimos dois anos.
Antes de me deixar envolver por uma longa conversa, subi para guardar minhas coisas.
Entrei no meu antigo quarto e percebi que tudo — minha cama, minhas estantes, minha
escrivaninha — estava quase exatamente como eu deixei dois anos atrás. A única diferença
perceptível era que alguém havia limpado regularmente, já que não havia um grão de
poeira. Minha cama também tinha sido arrumada com um edredom mais leve, adequado
para a primavera agora que o inverno havia acabado, presumivelmente obra da minha avó.
Deixei minha bolsa de viagem no chão e saí do quarto. Voltando para o andar de baixo, fiz
uma rápida parada na sala de estar de estilo tradicional japonês para prestar respeito ao
altar do meu falecido avô e avisá-lo que eu tinha voltado para casa antes de entrar na sala
principal. Sentei-me de pernas cruzadas em uma almofada no chão, à mesa baixa de jantar,
de frente para minha avó, e fui direto ao ponto.
— Então, é isso. Como eu te disse no telefone hoje de manhã, provavelmente vou ficar aqui
por um tempo — comecei.
— Por causa daquele pequeno desentendimento com seu pai, imagino? — ela respondeu.
— Não — ele me ligou pouco depois que desliguei com você. Disse que você poderia
aparecer por aqui e pediu para eu te manter fora de problemas, caso viesse.
— Seu velho parece que te conhece bem — ela provocou, rindo como uma bruxa travessa de
contos de fadas. O fato de meu pai ter previsto cada um dos meus movimentos me encheu
de uma mistura estranha de vergonha e indignação.
— Ah, por favor. Como se você tivesse para onde ir! Além disso, não é como se tivesse algo
melhor para fazer nas férias de primavera, não é? Relaxe um pouco aqui em Sodeshima. O
grande festival está chegando, sabia?
— Não vou a essa coisa idiota, vó. Você sabe que odeio multidões.
Claro, era minha irmãzinha Eri, que agora estava parada na entrada da sala, boquiaberta. Ela
havia crescido um pouco desde a última vez que a vi, há dois anos — o que a tornaria uma
adolescente de catorze anos agora, pensando bem. As tranças frisadas de antes tinham
evoluído para algo mais estiloso: um rabo de cavalo lateral baixo. O que mais chamou minha
atenção, porém, foi o uniforme escolar estilo marinheiro. Minha pequena Eri tinha deixado
para trás a mochila vermelha da escola primária e agora era uma adolescente de verdade.
Como irmão mais velho, foi uma sensação definitivamente estranha.
— Oi, Eri — eu disse. — Faz tempo, né? Voltou direto de alguma reunião de clube ou algo
assim?
— O que você está fazendo aqui? — Ela respondeu rispidamente, estreitando os olhos.
— Uau, ok. Essa é uma forma de cumprimentar seu irmão amoroso que você não vê há anos,
pelo jeito. A vó não te contou que eu vinha?
As palavras dela eram afiadas. Ficava claro que ela não estava feliz em me ver — o que eu
conseguia entender. Ela resistiu à ideia de eu me mudar para Tóquio até o último instante.
Nossa despedida, dois anos atrás, não foi das melhores, e eu não tentei entrar em contato
com ela desde então.
— Vamos lá, não me olhe assim — eu disse. — Isso é uma reunião digna de comemoração,
certo? Senta aqui e come uma dessas mexericas comigo.
— Da última vez que chequei, essas não são suas para oferecer, Kanae.
Essa doeu. Não era a primeira vez que ela me chamava pelo meu nome real, mas só fazia
isso quando estava extremamente irritada comigo. Todo o resto do tempo, era "Nii-san".
— De qualquer forma, você não respondeu à minha pergunta — ela insistiu. — O que te
trouxe de volta para Sodeshima? Diga o motivo.
— Não tenho nenhum motivo. Apenas fugi de casa, então vou ficar escondido aqui, vivendo
às suas custas por um tempo.
— Talvez uma semana ou algo assim. Hoje é 1º de abril, então... talvez até o dia 8?
— Entendi. E por que você fugiu de casa, exatamente? Brigou com aquele inútil?
Olhei para minha avó do outro lado da mesa, mas ela balançou a cabeça. Aparentemente,
Eri tinha adivinhado sozinha — ela era esperta. Não havia razão para mentir, então
confessei.
— Tá vendo, é exatamente por isso que tentei te impedir de ir com ele. Eu te disse que
aquele homem não batia bem da cabeça.
— Pois é, bem... Talvez você tenha razão. Definitivamente estou arrependido agora.
— Tá vendo? Você nunca deveria ter ido morar com aquele inútil—
— Eri — minha avó interrompeu. — Pare de chamar seu próprio pai de inútil.
Eu definitivamente conseguia entender o ponto de vista de Eri. No início, nós quatro — eu,
Eri, meu pai e minha mãe — vivíamos juntos em Tóquio. Quando eu tinha seis anos e Eri mal
completara três, nossos pais se divorciaram porque veio à tona que minha mãe estava
tendo um caso. Nunca soube todos os detalhes sórdidos, mas basta dizer que minha mãe
perdeu completamente qualquer vínculo que pudesse ter conosco. Ela ficou mais do que
feliz em transferir a custódia total para o meu pai.
Vale mencionar que eu não tinha certeza se meu pai realmente queria a custódia de nós
dois ou não. Preferia nem pensar muito nisso. O fato é que ele não perdeu tempo em nos
mandar para Sodeshima, para viver com nossa avó, enquanto ele permanecia em Tóquio,
nos negligenciando completamente por quase uma década. Eu entendia perfeitamente
porque Eri o considerava um pai ausente, já que ele não morava conosco desde que ela era
pequena demais para se lembrar. Para ela, ele era pouco mais que um estranho qualquer.
Eu, por outro lado, nunca me senti assim em relação a ele, pelo menos não durante os anos
do ensino fundamental. Quando ele me perguntou, no oitavo ano, se eu tinha interesse em
cursar o ensino médio em Tóquio, aceitei a oferta e me mudei para a cidade grande logo
após me formar no fundamental. Para ser claro, minha decisão tinha menos a ver com o
desejo de reacender algum tipo de relação pai e filho e mais com o fato de eu estar
simplesmente desiludido com Sodeshima como um todo.
— Venha, Eri. Sente-se com a gente — pediu minha avó gentilmente, e Eri obedeceu,
sentando-se ao lado dela. — Vou preparar um pouco de chá para nós; aproveitem para
conversar enquanto isso, está bem?
Eri assentiu em silêncio enquanto minha avó se levantava e seguia para a cozinha.
Sentei-me de frente para minha irmã, que agora mantinha a cabeça baixa, envergonhada.
Ela sempre foi muito apegada à avó, então provavelmente foi um choque ser repreendida
por ela. Para Eri, nossa avó e eu éramos os únicos membros da família que importavam,
então fazia sentido que ela tivesse sido tão contra minha mudança para Tóquio. Pensando
assim, até senti pena dela.
— Por que não mudamos de assunto? Você está no fundamental agora, né? Difícil de
acreditar. Está praticando algum esporte ou participando de atividades extracurriculares?
— Como se você se importasse. Por que nunca ligou ou veio visitar nesses dois anos, se está
tão curioso sobre minha vida?
— Bom, sabe como é… Parecia meio estranho, sabe? Especialmente depois que você lutou
com unhas e dentes para me impedir de ir para Tóquio. Não tinha certeza se você queria
ouvir o que eu tivesse a dizer.
— Uau, não sabia que você era tão covarde — zombou ela. — Sim, conversar com as pessoas
pode ser estranho às vezes, Kanae, mas isso não significa que você deve cortar um membro
da família da sua vida. Não acredito que você é tão cabeça dura. Isso não é nem questão de
cortesia, é bom senso.
— O quê? — ela retrucou, incrédula. — Tá maluco? Claro que não. Tá vendo? É exatamente
disso que estou falando: você tem um dom para dizer as piores coisas possíveis em
momentos difíceis. Aposto que você não tem muitos amigos lá em Tóquio, tem?
— Com licença? — retruquei, mais incomodado por ela estar certa do que qualquer outra
coisa. — Olha, vou admitir que deveria ter tentado manter contato. Certo. Mas o mesmo
vale pra você, sabia? Você sabia meu número. Poderia ter me ligado sempre que quisesse,
mas não ligou.
— Ah, é? E por que seria minha responsabilidade entrar em contato com você quando foi
você que fugiu e nos abandonou? Qualquer um com meio cérebro concordaria que era sua
responsabilidade fazer as pazes, Kanae. Você realmente não tem um pingo de sensibilidade,
tem?!
— Isso não tem nada a ver com sensibilidade, e você sabe disso. Aliás, pode parar de dizer
meu nome nesse tom condescendente? KA-NÁ-E. Você soa ridícula. É hora de superar essa
fase rebelde e voltar a me chamar de onii-san como uma boa irmãzinha. Ou seria chibi-nii?
— Eca, o quê?! Você quer dizer quando eu tinha, tipo, cinco anos?! Não me faça vomitar. Se
alguém está em uma fase rebelde aqui, é você. Não está meio velho para fugir de casa
porque papai te irritou?
— Ah, por favor. Você provavelmente só foi pego matando aula, e ele te chamou a atenção.
— E você, Kanae! Você é o irmão mais velho; deveria ser o maduro aqui! Não pode se deixar
provocar tão facilmente!
— Vou esfriar a cabeça um pouco — respondi sem nem olhar para trás e rapidamente calcei
meus sapatos antes de sair pela porta. — Bem, não perdi tempo em deixar as coisas
constrangedoras — Murmurei para mim mesmo enquanto descia a estrada inclinada fora de
nossa casa.
Que absurdo entrar em outra discussão menos de uma hora depois de chegar aqui. Eri
estava completamente certa sobre mim, e aquela era a prova. Incapaz de admitir isso para
ela, me exaltei e tentei negar.
Eu era meio solitário na minha escola em Tóquio. Isso já era verdade quando eu estava no
ensino fundamental aqui em Sodeshima, então não dava para culpar apenas o choque
cultural. Minha relativa falta de habilidades sociais significava que eu não tinha muitos
amigos, mas, no oitavo ano, houve um incidente em que defendi um colega que estava
sendo intimidado. Isso fez com que todos os populares começassem a me ignorar e a
espalhar rumores maldosos pelas minhas costas.
Eventualmente, até o garoto que defendi entrou na onda, com medo de que voltassem a
atormentá-lo. Foi nessa época que desenvolvi alguns (admito, bem leves) problemas de
confiança.
Ainda assim, não foi como se eu não tivesse aprendido nada com essa experiência infeliz. A
lição mais importante que meus anos no fundamental me ensinaram não estava no
currículo, mas sim que se isolar em uma câmara de eco de pessoas que têm medo de se
opor só gera mentalidades estreitas.
Foi por isso que fiquei tão animado para aceitar a oferta do meu pai de me mudar para a
cidade grande. Meu principal objetivo era escapar da mentalidade insular e fechada de
Sodeshima. Imaginei que, em um lugar tão diverso quanto Tóquio, a cidade onde nasci, eu
certamente encontraria um grupo onde me encaixaria, um lugar onde seria aceito.
Infelizmente, essas esperanças foram rapidamente frustradas.
No começo, as pessoas na minha nova escola estavam extremamente curiosas sobre mim, já
que a vida em uma ilha remota era algo que elas não conseguiam sequer imaginar. Mas a
curiosidade não durou muito. Minha falta de jeito natural logo se destacou, e minha
diferença de experiências de vida dificultava a conexão com meus colegas.
Aos poucos, tornei-me um excluído novamente. Depois que falhei em alguns testes
seguidos, alguns alunos começaram a me tratar como se eu fosse um caipira analfabeto.
Não houve nada de bom no meu tempo lá. Mesmo assim, persisti na esperança de que um
dia conheceria alguém disposto a me aceitar como eu era. Em vez disso, minha frustração
continuou crescendo, até que, com o incidente da noite passada, tudo veio à tona.
— Eu sabia que era um erro trazer você de volta para Tóquio comigo.
Quando aquelas palavras saíram da boca dele, parecia que toda a cidade de Tóquio estava
zombando de mim, ridicularizando-me por pensar que algum dia eu me encaixaria. Não
pude suportar ficar lá nem mais um momento, então corri para a casa da minha avó em
Sodeshima o mais rápido que pude. E agora lá estava eu, fugindo do lugar para o qual tinha
fugido.
Mas não para Tóquio, nem para Sodeshima — para algum conceito indefinido de lar, um
lugar onde eu pudesse me sentir pertencente. Onde seria esse lugar, eu não sabia.
Provavelmente, em algum lugar debaixo de lençóis frescos em uma manhã de primavera,
onde eu poderia dormir o dia todo, indiferente ao mundo. Embora soubesse bem que isso
era um sonho impossível, não estava com a menor vontade de voltar para a casa da minha
avó tão cedo. Felizmente, ainda havia bastante luz do dia, então decidi vagar pela ilha por
um tempo.
Andei por aí me lamentando por um bom tempo, até que cheguei ao caminho de concreto
que seguia ao longo da costa. Lá fui saudado por uma forte rajada de vento salgado que fez
os pelinhos da minha nuca e do meu nariz se arrepiarem.
Como acontece na maioria das ilhas pequenas, os ventos em Sodeshima eram bem intensos
o ano todo, principalmente devido à ausência de barreiras terrestres significativas para
bloqueá-los. O oceano aberto era o berço dos ventos fortes, afinal, o que fazia de
Sodeshima um alvo fácil no meio da tempestade.
Enquanto caminhava pela orla, resistindo à ventania, acabei me deparando com uma jovem
sentada no muro costeiro, com as pernas balançando sobre o oceano enquanto olhava para
o continente com uma expressão de anseio. Ela usava um suéter fino, ligeiramente largo, e
uma calça preta simples e confortável. Seu cabelo castanho desbotado estava em um corte
bob desgrenhado de comprimento médio, e dava para perceber pelo seu perfil que ela tinha
uma pele bronzeada e lisa.
Só que eu já sabia que o desbotamento do cabelo era causado pelo cloro da piscina e que a
cor da pele não era resultado de bronzeamento artificial, mas do pigmento natural com que
nascera.
O nome dela era Akari Hoshina. Ela era a irmã mais nova do atleta estrela da ilha e, também,
minha melhor amiga de infância.
— Aka— hã?
— Akari...? — perguntei. Ela se virou imediatamente, tão rápido que o movimento centrípeto
fez lágrimas voarem de suas bochechas.
— Cuidado aí!
Talvez por ter se levantado tão rápido, Akari perdeu o equilíbrio e quase caiu para trás no
oceano. Felizmente, meus reflexos de emergência entraram em ação. Avancei para envolver
meus braços ao redor de suas coxas (que estavam na altura dos meus olhos) e a puxei de
volta. Por um breve instante, senti o calor do corpo dela contra minha bochecha, mesmo
através do tecido grosso de algodão.
Assim que me certifiquei de que ela havia recuperado o equilíbrio, afastei-me rapidamente.
Aquilo foi um movimento impulsivo da minha parte — mesmo que fosse apenas para
garantir que ela não se machucasse. Enquanto eu estava ali, desesperado para não ter
tornado a situação dez vezes mais constrangedora, ela pulou do quebra-mar e limpou a
areia da parte de trás da calça.
— Sim. Um pouco atordoada, mas é melhor do que cair para a morte! Obrigada pela ajuda!
— ela disse, sorrindo de forma provocativa. Não parecia que ela iria guardar rancor por eu
ter enfiado meu rosto entre suas pernas. Enquanto soltava um suspiro de alívio,
lembrei-me do que queria perguntar quando a vi pela primeira vez.
— Ei, Akari? Não que seja da minha conta, mas... você estava chorando agora há pouco?
— Hã? Ahhh, é, uh... Minhas alergias ao pólen têm me incomodado bastante ultimamente,
sabe como é. Meio chato, mas o que dá pra fazer? Ahahaha...
Ela esfregou os cantos dos olhos com a ponta dos dedos enquanto tentava disfarçar com
uma risada, mas não parecia um caso de alergia ao pólen para mim. Estava convencido de
que devia haver outro motivo para ela estar chorando, talvez algo ruim que tenha
acontecido hoje. Mesmo que fosse isso, eu não tinha coragem de tentar arrancar a verdade
dela. Especialmente porque era a primeira vez que nos víamos em dois anos. Decidi que
talvez fosse melhor mudar de assunto.
— Bem, desde que você esteja bem, acho que tudo bem. De qualquer forma, é bom ver você
de novo!
— Sim, bom te ver também! A gente não se via desde a formatura, né? Você está de volta pra
aproveitar as férias de primavera?
— Sim, mais ou menos. Pretendo ficar na cidade por uma semana ou algo assim.
— Sim, é a ideia — respondi sem muito entusiasmo, depois olhei para as pernas da Akari. —
E você, o que tem de novo? Aposto que ainda está no time de natação?
— Ah, nada, eu só, uh... Consegui perceber pelas suas coxas, só isso. Não tem como elas
estarem tão firmes se você não estivesse se exercitando todo dia.
Akari me encarou com a expressão de um cervo diante dos faróis por uns bons cinco
segundos antes de explodir em risadas.
— Ahahahaha! Me desculpa, o quê?! Quem é você e o que fez com o Kanae-kun? Ou será
que todos os distritos da luz vermelha aí te transformaram em um pervertido?!
— O quê?! C-Cara, isso foi tão estranho assim?! Acho que entendo como você pode
interpretar... Ok, sim, pareceu bem ruim, né? Olha, esquece o que eu disse! Desculpa.
— Não, tarde demais! Vou te chamar de "Kanae, o Cara das Coxas" de agora em diante! Ou
que tal isso: "O Fetichista do Fêmur"? ...Espera, não! Tive uma ideia melhor! "O Connoisseur
Crural"! Hahahaha!
Nós dois nos sentamos no paredão, desta vez voltados para o interior, e aproveitamos a
brisa por um bom e longo tempo. Akari não era apenas minha amiga de infância mais
próxima, mas também minha primeira paixão. Não houve um momento específico que me
fez me apaixonar por ela — foi mais como uma daquelas coisas que você percebe com o
tempo. Infelizmente, minhas esperanças desmoronaram um dia, no ensino fundamental,
quando ouvi ela dizer algo para outra garota da classe.
— Eu e o Kanae-kun? Sem chance. Somos apenas amigos. Não tem nada a ver, pode
acreditar.
Tentei me convencer de que foi uma coisa boa descobrir isso antes de me confessar e
passar vergonha — ênfase no "tentei." Depois disso, mantivemos o status quo e nunca
ultrapassamos a amizade platônica, até que, eventualmente, seguimos caminhos separados
ao entrar no ensino médio. Não era incomum para amigos de infância como nós se
afastarem com o tempo — quantas pessoas podiam dizer que seu melhor amigo aos oito
ainda era seu melhor amigo aos dezoito? Não muitas, e eu não achava que havia nada de
errado nisso. Para mim, era suficiente podermos nos reunir e relembrar os velhos tempos
assim de vez em quando. Não podia desejar nada mais.
— Caramba, Kanae-kun — ela disse depois de um tempo. — Tenho que dizer, estou aliviada
em ver que a cidade grande não te mudou tanto assim. Eu estava meio esperando que você
voltasse com o cabelo tingido e um monte de piercings malucos.
— Por favor, me diga que você não acha que todo mundo em Tóquio é assim — eu gemi.
— Bom, não, obviamente. Mas é uma das capitais da moda do mundo, né? Aposto que você
encontrou um monte de garotas bonitas e modelos, não foi?
— É mesmo? Conta aí. Conseguiu uma namoradinha por lá? — ela perguntou, virando a
cabeça de lado para me olhar de baixo para cima, como se tentasse avaliar minha reação.
Uma parte de mim queria dizer que sim, só para se gabar, mas se ela descobrisse que eu
estava mentindo, só iria me fazer parecer ainda mais um perdedor do que já me sentia. Ela
nunca ia deixar isso barato. Decidi responder com sinceridade.
— Não, não tenho nenhuma. Desculpe decepcionar, mas minha vida social por lá tem sido
bem... sem graça até agora.
— É, já imaginava.
— Uau, ok. Não sabia que estava aqui para ser zombado — eu resmunguei sarcasticamente.
Akari deu uma risadinha. Decidi inverter os papéis e puxar o assunto sobre ela, mesmo
sabendo que isso não ia ser uma grande revanche. — Você não mudou nada também, sabia
disso?
— Sério? Eu sinto que mudei bastante — ela murmurou para si mesma antes de olhar para o
chão com um ar desanimado.
Se era realmente assim que ela se sentia, então certamente algo nela tinha mudado. Dei
uma olhada mais atenta; obviamente, a puberdade fez seu trabalho, mas algo me dizia que
não era isso que ela estava se referindo. E, caso fosse, eu não fazia ideia de como deveria
responder.
Levantei os olhos para o rosto dela e foi aí que finalmente notei algo em Akari agora que
não estava presente quando ela era do ensino fundamental, embora fosse um detalhe
pequeno: havia círculos escuros sob seus olhos. Enquanto eu observava, me perguntando se
talvez ela não estivesse dormindo direito ultimamente, ela levantou o olhar para me
encarar, e nossos olhares se cruzaram.
— Ok, pode parar de me encarar agora. Isso ficou oficialmente constrangedor — ela
anunciou.
— Hã? Ah, desculpa. Não era minha intenção — eu disse, envergonhado, virando o rosto.
Tentei espiar novamente pelo canto do olho e vi que o rosto dela também estava
vermelhíssimo. Alguns momentos se passaram, e então ela se levantou de um pulo com um
Hup! e se virou para me encarar. Depois ela colocou as mãos atrás das costas e se inclinou
para frente, aproximando o rosto do meu.
— O que foi?
A escola em que eu estava agora era uma escola preparatória especificamente para quem
queria entrar na U of I. Minha admissão estava garantida, desde que eu não fosse
reprovado.
— Sim, eu sei… Só pensei em confirmar já que não conversamos há um tempo, sabe? Enfim,
acho que eu já deveria estar indo para casa.
Akari me deu um sorriso rápido e então se afastou. Eu fiquei ali, sentado no muro de
contenção por um momento, alongando as costas. Fazia tempo que eu não conversava com
outra pessoa por tanto tempo, e foi bom. No fundo da minha mente, no entanto, o
pensamento daquela escuridão que eu percebera nos olhos dela continuava me
atormentando.
Tirei meu celular do bolso para ver as horas. Eram 17h. Ainda não estava pronto para voltar
e encarar a Eri, então decidi esperar um pouco mais. Guardei o celular no bolso e me
levantei, fazendo alguns alongamentos enquanto pensava para onde ir. Foi então que vi uma
árvore de ameixa no jardim de uma casa próxima. Suas flores vermelhas profundas
chamaram minha atenção e me fizeram perceber que ainda não tinha visto nenhuma
cerejeira neste início de primavera. Como hoje era 1º de abril, elas deveriam estar em plena
floração — e eu sabia que o melhor lugar da ilha para ver cerejeiras era o terreno do templo
fora do Sodeshima Shrine. Pensando que seria uma boa forma de matar mais uma hora ou
assim, decidi ir até lá.
— Olha quem apareceu — ele disse com um sorriso travesso. — Achei que te reconhecia.
Quanto tempo, hm?
Ele também não tinha mudado nem um pouco — continuava o brincalhão amigável de
sempre, desde quando ele chegou da terra firme, lá atrás, quando eu ainda estava no ensino
fundamental. Todos na ilha gostavam dele, crianças e adultos.
— Veio visitar nas férias de primavera? Cara, eu sinto falta de ser estudante.
— Claro que não! Tá de brincadeira? Trabalham o ano inteiro até não aguentar mais. É uma
vida difícil, pode acreditar — ele reclamou. Eu estava prestes a fazer uma piada sobre como
ele não devia estar tão ocupado se tinha tempo para parar e bater papo comigo, mas ele
continuou.
— É, nada sério. Uns velhos rabugentos brigaram lá no templo. Tive que ir lá separar.
— Uma quantidade razoável, sim. O Sodeshima Senior Society está fazendo um encontro lá
hoje. Acho que estão jogando croquet agora, se quiser ir lá participar.
Fiz uma careta. De repente, perdi totalmente o interesse em ver as flores de cerejeira.
— É, valeu, mas não, obrigado... Eu teria que estar bem desesperado para querer passar
minhas férias de primavera batendo bolas em arcos com pessoas cinco vezes mais velhas
que eu. Sem ofensa.
— Cara, não tem nenhum evento para a galera da minha idade por aqui? Se eles não
começarem a tentar atrair um público mais jovem, essa ilha vai virar uma cidade fantasma
antes que você perceba… com essa taxa de natalidade em queda.
— Êêê! Vejo que alguém andou estudando política social na grande cidade. Público, hm?
Essa é uma palavra e tanto para alguém da sua idade! — exclamou o policial, rindo com
vontade.
— Certo, é melhor eu ir embora — disse, me virando rapidamente para não ter que ouvir ele
me zoando mais um segundo. Segui em direção exatamente oposta ao santuário,
determinado a não deixar minha preciosa férias de primavera irem por água abaixo.
Depois de acenar para o policial, fiquei vagando sem rumo pela ilha por um tempo. Não
queria correr o risco de esbarrar com nenhum idoso, ou até com algum dos meus antigos
colegas de classe, então escolhi uma das ruas menos movimentadas e comecei a caminhar
por ela. Antes que percebesse, estava entrando em becos entre filas de casas antigas e
deterioradas. Essa parte da cidade estava praticamente em ruínas; nenhum dos moradores
que eu conhecia sequer passava por ali mais.
Quando eu era pequeno, todos os adultos que conhecia tentavam avisar as crianças para
não brincarem por aqui, às vezes dizendo que era perigoso, outras vezes afirmando que era
assombrado.
Eu sempre fui um bom garoto e fiz o que me pediram, então essa foi, na verdade, a primeira
vez que pisei nessas ruas. Quanto mais eu avançava, mais óbvio ficava que todas essas casas
haviam sido abandonadas. Havia ervas daninhas brotando do concreto, e dava para
perceber à primeira vista que a maioria dessas construções nem sequer tinha sido visitada
há décadas, quanto mais habitada. E, embora eu lamentasse pela população cada vez menor
da ilha, não podia deixar de apreciar a atmosfera estranhamente tranquila das ruas. Esse
tipo de paz absoluta sempre me acalmava, e mais ainda agora que morava em um lugar
onde eu tinha que esbarrar em pessoas todo dia só para andar pela avenida.
Vi que o sol já começava a se pôr, mas ainda assim continuei, indo cada vez mais fundo nas
ruas labirínticas. Depois de passar por um beco particularmente estreito, saí em um
pequeno pátio onde um parque abandonado ainda se encontrava.
Já devia fazer muitos anos desde que o riso das crianças brincando havia sido ouvido ali. Em
contraste com o estado lamentável dos brinquedos, o parque era cercado por cerejeiras
incrivelmente vivas — junto a uma árvore imensa bem no meio do parque — todas elas em
plena floração.
As flores majestosas eram tão deslumbrantes que pareciam magnetizar, e meus pés
começaram a se mover em direção à árvore central por conta própria. A cada passo, sua
grandeza majestosa e vitalidade radiante ficavam mais nítidas e claras, ao ponto de eu me
perguntar se essa única árvore poderia ser a verdadeira responsável por consumir toda a
vida dessa área — era algo de tirar o fôlego.
Uma camada fina de pétalas caídas formava um anel ao redor do tronco, que estalava sob os
meus pés a cada passo. Conforme me aproximava, uma rajada de vento fez uma chuva de
novas pétalas dançar e flutuar pelo céu dourado do entardecer. Por um breve momento, o
parque foi coberto por um véu de rosa suave, e o rico aroma das flores de cerejeira
preencheu minhas narinas. Era como se vários anos de paisagens primaveris tivessem sido
condensados e refinados em um único instante.
Cara, eu não fazia ideia de que esse lugar estava aqui. Que achado…
Hm?
Fiquei ali, maravilhado com toda a esplêndida visão, e enquanto isso, avistei uma pequena
estrutura de madeira escondida do outro lado da árvore. Dando uma volta para ver melhor,
percebi que se tratava de um antigo mini santuário, tão pequeno que o topo de seu telhado
mal chegava a um metro de altura.
Na frente, havia um pequeno conjunto de portas de treliça, uma das quais estava pendurada
aberta. Curioso, agachei-me para dar uma espiada dentro, mas o único objeto ali dentro era
uma pedra do tamanho de uma bola de rugby. Uma fenda profunda corria bem no meio
dela. Só poderia ser algum tipo de relicário sagrado: uma pedra considerada portadora de
poder espiritual, ou pelo menos de significância religiosa para quem construiu aquele
pequeno santuário para abrigá-la. Por algum motivo, senti uma estranha fascinação pela
pequena pedra. Estendi a mão para tocar a textura da fina e escura fissura no meio dela.
Nesse momento, um som inesperado irrompeu nos meus ouvidos, e meu coração quase
saltou do peito. Mesmo depois de retirar a mão reflexivamente, levou alguns momentos
para que eu me acalmasse o suficiente para perceber o que era. Uma melodia abafada por
estática. Greensleeves. Era a música das 18 horas tocando pelos alto-falantes de emergência
da ilha. Ainda assim, fiquei surpreso com a proximidade do som, então me endireitei e
comecei a olhar ao redor. Não demorou muito para encontrar a fonte da sirene: um dos
alto-falantes mencionados estava preso ao topo de um poste telefônico em um canto do
parque. Não era de se admirar que fosse tão ensurdecedor.
Sempre odiei essa melodia melancólica quando estava crescendo na ilha, e ainda a odiava
agora. Não gostava de como ela podia puxar minhas cordas do coração com tanta facilidade
e me colocar em um estado de nostalgia amarga, mesmo quando não tinha nada de triste
ou pelo qual ansiar.
Mistério resolvido, agachei-me novamente e estendi a mão para tocar a pedra dentro do
santuário mais uma vez. A música alta realmente me havia abalado, mas não o suficiente
para que eu perdesse o interesse na estranha pedra. Enquanto a melodia continuava a soar
nos meus ouvidos, lentamente levei minha mão mais perto e mais perto… até que,
finalmente, minhas pontas dos dedos tocaram a fissura irregular. No momento em que isso
aconteceu, algo elétrico percorreu meu corpo como um choque estático, e minha
consciência se desligou em um único estalo — como se minha mente fosse uma TV e
alguém tivesse puxado o plugue abruptamente.
(N/SLAG: Greensleeves é interpretada como uma referência a uma jovem dama que usava
"vestes verdes" (um vestido com mangas verdes), e que ignorava o homem apaixonado por
ela. Ele se dedicava a ela, mas sofria por não ser correspondido. A expressão "Greensleeves"
(que poderia se referir às mangas verdes de seu vestido) é simbólica, representando a
imagem da mulher que, apesar de ser objeto de adoração, rejeitava o amor do homem que
sofria em silêncio por sua indiferença. Embora a origem exata da música e das letras seja
incerta, muitos estudiosos acreditam que ela expressa o sentimento de um homem que,
apesar de sua dedicação e devoção, não conseguia conquistar o amor da senhora que ele
desejava. Isso, então, se encaixa no contexto de um amor não correspondido e de um
sofrimento emocional.)
INTERLÚDIO II
REFLETINDO SOBRE ISSO, percebi que Kanae e eu éramos amigos há mais de dez anos. Não
conseguia lembrar exatamente quando foi nossa primeira interação. Acho que nossa
amizade teve muito a ver com o fato de que meu sobrenome (Hoshina) vinha logo após o
dele (Funami) na ordem alfabética, então frequentemente éramos agrupados e colocados
um ao lado do outro no quadro de assentos da sala. Naturalmente, ao longo do tempo,
fomos nos acostumando a conversar mais um com o outro. Também ajudou o fato de que,
como havia tão poucas crianças na nossa escola, praticamente ficamos com a mesma turma
durante toda a escola primária e o ensino fundamental.
Sempre gostei de ouvir o que Kanae tinha a dizer. Porque ele morava em Tóquio antes de se
mudar para Sodeshima, ele sabia de muitas coisas que eu não sabia e contava essas
histórias incríveis que sempre soavam inacreditáveis para o meu eu mais jovem — como o
fato de que em Tóquio todo mundo anda rápido o tempo todo, ou como em Tóquio tem um
mini-mercado em cada esquina. Eu ficava hipnotizada sempre que ele falava sobre isso,
ouvindo atentamente cada palavra, nunca querendo perder nem um único detalhe
irrelevante.
Ainda assim, minha primeira impressão dele foi a de um garoto comum e inteligente, que
também era um ótimo contador de histórias. Só foi na segunda série que minha percepção
dele começou a mudar. Naquela época, eu era uma criança meio introvertida e uma
pessimista ranzinza, para ser sincera. Não mudei muito nesses aspectos, mas na época eu
não tinha praticamente nenhuma habilidade social — o que provavelmente foi o motivo pelo
qual as coisas aconteceram do jeito que aconteceram.
Era hora do almoço e eu já tinha terminado de comer. Estava virando a página do meu livro
escolar quando um dos meninos da sala se aproximou de mim e colocou o dedo bem na
minha cara. Eu ainda me lembro das palavras exatas dele.
— Ei, você. Por que sua pele está sempre tão suja?
Eu não consegui dizer uma palavra. Minha maior insegurança na época era a minha pele
naturalmente mais escura, e como eu não me parecia com as outras meninas. Eu fiquei ali,
sem conseguir pensar em uma resposta. Deve ter sido um choque para mim, para ser
honesta. O garoto percebeu isso, o que só o encorajou mais, e ele continuou, desferindo o
golpe final.
— Quer dizer, quando foi a última vez que você tomou banho? Nunca?
Senti meu rosto esquentar de vergonha. Para piorar, o garoto falou tão alto que sua voz
ecoou pela sala de aula, e agora todos ao redor estavam me olhando diretamente. Eu podia
ouvir risadinhas vindo de várias direções, interrompidas por sussurros como "Eca, que nojo"
e "Te desafio a cheirar ela." Lembro de uma menina dizendo para pararem, mas a maioria das
crianças já tinha decidido tirar sarro de mim. Enquanto isso, eu estava tão frustrada e
mortificada que tudo o que consegui fazer foi ficar ali, mordendo o lábio e olhando para
meus pés. Por mais que eu tentasse ficar forte, não conseguia bloquear as palavras cruéis
deles, e eventualmente as lágrimas começaram a brotar dos meus olhos. Quando a represa
estava prestes a estourar, senti alguém me puxar bruscamente pelo braço.
Eu estava incrédula — era o Kanae. Naquela época, eu nunca teria esperado que ele fosse
me defender assim.
— Ok, acho que não os ouço mais nos seguindo — ele disse, de forma prática.
— Ah, vai, quem liga para o que esses idiotas dizem? Eles estão tentando mexer com você,
só isso.
— Mas agora todo mundo acha que eu sou nojenta e que eu cheiro mal!
— Confia em mim: você não é nojenta, e com certeza não cheira mal.
— Você está dizendo isso! Não minta! — eu disse, levantando a voz tão alto que Kanae deu
um pequeno passo para trás. Ele não se deixou desanimar, no entanto. Balbuciou a cabeça e
tentou me acalmar.
— Está sim! Você provavelmente também acha que minha pele está suja, não acha?! Você
pensa que eu sou uma... uma menina nojenta que não sabe tomar banho!
Com isso, eu me deixei cair no chão, com a cabeça entre os joelhos, cobrindo meu rosto
com as duas mãos. À medida que as lágrimas escorriam, uma onda intensa de
arrependimento tomou conta de mim. Eu era racional o suficiente para saber que o Kanae
não estava mentindo, e ainda assim acabei descontando minha raiva nele, e por quê?
Porque eu não conseguia entender por que ele estava sendo tão gentil com uma pessoa
como eu. Essa confusão me impedia de aceitar sua bondade como verdadeira.
Quanto mais eu pensava sobre isso, mais culpada eu me sentia. Eu nunca deveria ter
descontado minha raiva na única pessoa que fez questão de me tirar daquela situação,
independentemente da minha lógica. Então eu chorei e chorei, até não conseguir mais
chorar, e a culpa deu lugar ao autodesprezo. Mas, quando levantei a cabeça novamente, vi
que Kanae ainda estava ali, na minha frente. Seu olhar encontrou o meu. Eu podia ver a
preocupação genuína nos olhos dele.
— Sim.
— Tá bom.
Tudo o que consegui dizer foram respostas monossilábicas e sem compromisso. Kanae
claramente não ficou satisfeito com isso, porque continuou gaguejando e se atrapalhando
com as palavras enquanto tentava, desesperadamente, embora em vão, me fazer sentir
melhor. Eventualmente, depois de um momento de silêncio, o rosto dele se iluminou como
se tivesse tido uma ideia brilhante.
— Hã…?
Eu não tinha ideia do que ele tinha em mente, mas estendi a mão direita, como me foi
pedido. Ele a pegou e, depois de uma pausa hesitante, enfiou meus dedos diretamente na
boca dele.
— Eca?! — eu gaspejei, puxando a mão de volta surpresa. No começo, fiquei totalmente sem
saber por que, raios, Kanae faria algo assim, mas então ele me olhou diretamente nos olhos
e disse algo que ficaria comigo pelo resto da minha vida.
— Viu? Você não está suja, de jeito nenhum — ele proclamou com confiança. Depois, com
um tom um pouco mais tímido, acrescentou, — pelo menos não consegui sentir nenhum
gosto de sujeira.
Minha mandíbula caiu. Houve uma pausa longa — e então eu comecei a rir
descontroladamente. Kanae me olhou como se eu fosse uma louca, mas eu não conseguia
me controlar. Bem, já tinha ouvido pessoas descreverem coisas como pisos de linóleo como
"tão limpos que você poderia comer em cima deles," mas colocar a mão de outra pessoa na
boca só para provar que não estava suja?! Era tão absurdo que eu não conseguia aguentar!
Eu ria tanto que as lágrimas começaram a sair dos meus olhos novamente — tão forte que
meu estômago começou a doer e eu esqueci completamente por que estava triste no
começo. A próxima coisa que eu soube, é que eu estava apaixonada.
QUANDO RECUPEREI A CONSCIÊNCIA, a primeira coisa que registrei em minha mente foi a
melodia sombria da campainha das seis horas se infiltrando em meus tímpanos. Então,
assim que a última nota, que soou por um longo tempo, de Greensleeves se calou, toda a
agitação e confusão voltaram à minha mente como uma dose de adrenalina.
Nunca desmaiei antes, mas esses sintomas certamente se encaixavam — todos os meus
processos mentais pararam abruptamente sem nenhum tipo de aviso prévio, e então, no
próximo momento, eu estava em algum lugar completamente diferente, tentando entender
como cheguei ali. Para ser mais preciso, eu não estava mais embaixo da grande árvore de
cerejeira no parque abandonado — estava de volta à beira-mar, sentado no muro de
contenção com as costas voltadas para o oceano. Bem à minha frente estava o policial da
ilha, segurando sua bicicleta ao lado e olhando para mim com uma expressão preocupada.
— Ei, tá tudo bem, garoto? — ele perguntou. — Vai, fala alguma coisa.
— Então… Tem algo em que eu possa te ajudar? — perguntei, tentando ser casual.
— Você tem certeza que tá bem, garoto? Estamos conversando há, tipo, uns cinco minutos.
Você teve um derrame ou algo assim?
Cinco minutos? Eu definitivamente não estava ali conversando com ele por tanto tempo...
Pelo menos, não que eu me lembrasse. Olhei ao redor para confirmar o que eu já sabia: este
não era o último lugar em que eu me lembrava de estar. Este era o muro de contenção de
Sodeshima, não o parque abandonado com as cerejeiras. Curiosamente, o céu ainda estava
no mesmo tom de laranja profundo que eu havia visto quando olhei para ele pela última vez
— então, não poderia ter ficado desacordado por muito tempo.
Procurei meu celular, querendo ver as horas, mas ele não estava no bolso direito como
deveria. Em pânico, tentei lembrar se eu simplesmente o tinha esquecido em casa, mas
então percebi tardiamente que já o estava segurando com a mão esquerda. Aliviado, ia
apertar o botão para acender a tela quando outra pergunta tomou minha mente: se eu
estava desmaiado, como consegui tirar o celular do bolso?
E isso não era a única coisa que não fazia sentido — as roupas que eu estava usando agora
eram completamente diferentes das que eu estava usando antes. Eu me lembrava
claramente de ter colocado o moletom com capô esta manhã, mas agora estava usando
uma camiseta de manga longa comum. Uma que definitivamente era minha, para constar,
mas eu não tinha nenhuma memória de ter trocado para ela. Ou seria possível que eu
estivesse usando a camiseta desde o começo e simplesmente confundido com o moletom
favorito essa manhã? Certamente não. Eles nem eram da mesma cor.
— Ei, garoto! Não fica assim de novo — o policial disse, me chamando a atenção por ter
ficado distraído. Eu rapidamente olhei para ele.
— Desculpa, oficial. Acho que estou um pouco confuso. Sobre a hora, as roupas que estou
usando… Esse tipo de coisa.
— Se você diz… Bem, não posso te ajudar com o seu guarda-roupa, mas pelo menos você
deveria saber que horas são. Pensa bem: não ouviu o badalar das seis?
Isso só levantou mais perguntas na minha cabeça, mas decidi deixar pra lá e enfiei o celular
de volta no bolso para não parecer que eu não acreditava nele. E, para dar um crédito ao
cara, eu tinha ouvido a campainha das seis enquanto estava sentado ali — mas também a
tinha ouvido no parque abandonado. O que não deveria ser possível, a menos que eu tivesse
sido magicamente teleportado para cá num piscar de olhos… Não, mesmo assim, o policial
disse que eu estava sentado ali conversando com ele desde pelo menos 17h55. Então o que
diabos estava acontecendo? Não importava o quanto eu tentava pensar, não conseguia
encontrar uma explicação razoável para isso.
— Olha, garoto — o policial começou — se você não estiver se sentindo bem, eu posso te
dar uma carona até em casa. Ou te levar na clínica para se examinar, se preferir.
— Não, não—não precisa fazer isso… Eu consigo voltar sozinho. Mas valeu.
— Tem certeza? Bem, ok… Olha, sei que esses dias não foram fáceis, mas tenta não pensar
muito sobre isso, beleza? Não foi sua culpa, e você fez tudo o que pôde. De qualquer forma,
eu tenho que ir, mas nos vemos por aí.
— Ah, e mais uma coisa — ele disse, olhando por cima do ombro. — Nada de encontros
noturnos por um tempo, tá? Sei que você é jovem, mas tem que dar uma segurada.
E com isso, ele pedalou para longe. Eu fiquei ali, pensando por um bom tempo, tentando
entender o que ele quis dizer com "encontros noturnos" e por que ele disse que os últimos
dias tinham sido difíceis, mas honestamente não fazia ideia do que ele poderia estar se
referindo. Mesmo assim, parecia que ele estava genuinamente preocupado comigo, então
eu devia ter realmente aparentado estar no meu limite. O que não estava muito longe da
verdade, para ser sincero — faz muito tempo que não me sentia tão confuso e manipulado.
A luta para entender isso estava começando a embaçar minha visão. Eu sentia como se
estivesse sendo vítima de uma piada cruel.
Esse pensamento me fez parar por um momento. E se fosse realmente uma brincadeira?
Afinal, hoje era o Dia da Mentira. Talvez alguém tenha previsto que eu finalmente voltaria
neste feriado de primavera e bolado um plano super elaborado com a ilha inteira para me
fazer parecer um louco... Não, não tinha como. Afastei essa teoria de conspiração ridícula
da minha mente. Eu precisava parar de pensar demais — isso estava me dando dor de
cabeça. Além disso, já estava escurecendo. Era hora de ir para casa.
↺
Quando cheguei em casa, o sol já tinha se posto completamente no horizonte, e já não
havia quase mais luz lá fora. Ao abrir a porta da frente, Eri saiu da sala de estar com o
uniforme escolar, e nossos olhares se encontraram. Foi só nesse momento que me lembrei
de que tivemos uma briga mais cedo, e meu estômago afundou. Não sabia se deveria fingir
que nada tinha acontecido ou ser mais maduro e começar pedindo desculpas. Mas, no final,
foi ela quem quebrou o gelo antes mesmo de eu decidir o que fazer.
Ela estava agindo perfeitamente normal; não ouvi nenhum sinal de raiva em sua voz.
Sempre achei que ela fosse do tipo que nunca deixaria um rancor de lado, mas talvez eu
não tivesse dado a ela o devido crédito. Ainda assim, eu precisava pedir desculpas; parecia a
coisa certa a se fazer, especialmente por eu ser o irmão mais velho. Tirei os sapatos e entrei
no corredor, parando Eri enquanto ela se dirigia para o banheiro.
— O que foi?
— Escuta, me desculpa por tudo aquilo que eu falei antes. Foi muito imaturo da minha
parte.
Ela apertou os olhos e me olhou com desconfiança por um momento, depois soltou um
"Ahhh," como se eu tivesse refrescado a memória dela sobre algum fato irrelevante que ela
já tinha esquecido.
— É, não se preocupa com isso — ela disse. — Já superei. E, além disso, eu também falei
umas coisas que não devia.
Fiquei extremamente surpreso com essa resposta. Era a mesma garota que nunca sonharia
em pedir desculpas, ou mesmo recuar um milímetro, não importava o quanto você ficasse
bravo com ela. Isso, mais do que qualquer outra coisa, me fez perceber o quanto ela havia
amadurecido nos últimos dois anos. Enquanto eu admirava em silêncio sua nova
maturidade, Eri parecia estar ficando impaciente por algum motivo e mudou de assunto.
— Ah, é, claro. Desculpa, vou me apressar… Er, se preparar para o quê, exatamente?
Assim que essas palavras saíram da minha boca, ela apertou os olhos novamente. Só que
dessa vez não era um olhar de confusão, mas de reprovação.
— Não, sério, não faço a mínima ideia… Não era alguém próximo a mim, era? — perguntei.
Eri hesitou por um momento, então respondeu com uma voz frágil e suave.
— Foi o Akito. Akito Hoshina. Como você pode ter esquecido disso?
Levou alguns segundos para minha mente conectar o nome "Akito" à palavra "morto".
Quando finalmente fez isso, meu cérebro entrou em modo de negação.
— W-Whoa, whoa, whoa. Espera aí. Você está brincando comigo? Eu vi ele no cais da balsa
mais cedo hoje.
— Hã?
— Espera, já entendi. Isso é tudo uma grande piada do Dia da Mentira, não é? Muito
engraçado, pessoal. Mas não é legal mentir sobre a morte das pessoas, sabia? Podem parar
com isso agora.
A expressão dela estava mais séria do que eu já tinha visto. Ela me olhava como se
realmente achasse que eu tivesse sofrido algum tipo de dano cerebral. A próxima coisa que
ela disse quase me fez começar a considerar isso como uma possibilidade para mim
também.
— Já não é mais o Dia da Mentira, Kanae — hoje é dia 5. O Akito morreu há quatro dias. Não
sei se você está em negação ou o quê, mas precisa acordar pra realidade. Agora, você pode
se mover? Preciso arrumar meu cabelo.
Eri me lançou um olhar de lado enquanto passava por mim em direção ao banheiro. Eu
fiquei parado no meio do corredor, sem saber mais no que acreditar.
Será que o Akito realmente morreu? E não só isso, ele já estava morto há quatro dias...? Se isso
fosse verdade, quem foi que eu vi no porto quando cheguei aqui hoje à tarde? Um sósia? Ou o
espírito dele?
Como assim. Então eu me lembrei de algo mais que Eri tinha dito — que hoje era, de fato,
dia 5 de abril. Bem, eu sabia que estava no feriado de primavera, então até podia perder a
noção da data, mas não tinha como eu estar errando por quatro dias inteiros. Tirei o celular
do bolso na esperança de me defender, apertei um botão e a tela se acendeu. A tela do meu
celular confirmou que era, de fato, 5 de abril, exatamente como Eri tinha dito.
Corri para a sala de estar, verificando tudo o que poderia mostrar a data de hoje — TV,
jornal, o relógio eletrônico de mesa — mas todos eles diziam a mesma coisa: 5 de abril.
Ainda assim, me recusava a acreditar. Algo definitivamente não estava certo aqui. Isso
estava indo longe demais, até para uma brincadeira muito elaborada. Saí da sala e fui
procurar minha avó. Abri a porta de correr para a sala de estar no estilo japonês, onde a
encontrei mexendo nas gavetas.
— Ah, Kanae! — ela exclamou, se virando para me encarar. — Não sabia que você já tinha
voltado. Boa hora, aliás. Eu estava pensando que, para o velório, você poderia usar—
— Supondo que eu ainda não tenha ficado senil! Mas sim, tenho certeza. Posso jurar pela
sepultura do seu falecido avô, se isso for te convencer.
Ok. Eu sabia que minha avó nunca mentiria sobre o nome do falecido marido dela, então
isso queria dizer que, sem dúvida, era 5 de abril. Não encontrei nenhuma prova concreta
em contrário, e tanto minha irmã quanto minha avó pareciam bem firmes quanto a isso.
Talvez eu realmente fosse o louco aqui.
Era como se o mundo inteiro estivesse desabando sobre mim. Primeiro eu desmaio e
acordo em outro lugar completamente diferente, depois descubro que o Akito morreu, e
agora me dizem que eu estou com a data errada há vários dias...? Isso estava começando a
parecer menos uma brincadeira elaborada e mais um pesadelo sem sentido. Enquanto eu
ficava lá, segurando minha cabeça com as mãos, minha avó tirou um conjunto de roupas
pretas da gaveta e me entregou.
Minha avó me explicou que a vestimenta adequada para crianças da minha idade em
funerais era simplesmente o uniforme escolar. No entanto, eu tinha fugido de casa, então
não estava com o meu uniforme. Ela, então, gentilmente me ofereceu o uniforme antigo de
meu pai, dos tempos de escola no colégio Sodeshima.
Era um traje tradicional todo preto, com gola de pé, e, por acaso, me serviu perfeitamente,
para minha vergonha. Depois que todos nós trocamos de roupa e nos preparamos, minha
avó, Eri e eu começamos a caminhar em direção ao Centro Comunitário de Sodeshima,
onde o velório estava sendo realizado. O ar frio da noite era a temperatura perfeita para
esfriar meu cérebro superaquecido, e o tempo de viagem me deu uma chance de tentar
organizar alguns dos meus pensamentos confusos.
Segunda: eu não tinha a menor lembrança do período de quatro dias entre as 18h do dia 1º
de abril e as 18h do dia 5 de abril. Ou, em termos de eventos reais, havia uma lacuna enorme
nas minhas memórias entre o momento em que toquei aquela pedra no santuário no
parque abandonado e quando estava sentado no muro de contenção conversando com o
policial da ilha mais cedo. A única razão pela qual eu sabia que ambos os eventos
aconteceram quase exatamente às 18h foi porque, em ambos, eu podia ouvir o sino das seis
horas da ilha tocando ao fundo.
Isso significava que havia um período de noventa e seis horas do qual minha memória
estava completamente em branco. A primeira, e talvez mais racional, explicação que
consegui pensar foi que eu tinha sofrido algum tipo de lesão cerebral ou falha neural. Um
episódio amnésico, ou um caso de demência precoce. Claro, eu não sabia o quão raro era
para pessoas da minha idade desenvolverem a última, mas o primeiro caso era
extremamente possível — acontecia com crianças que sofriam concussões o tempo todo.
Eu tinha lido tantos livros com protagonistas amnésicos que considerava isso uma espécie
de dispositivo de enredo meio cansativo, mas agora que estava diante da possibilidade de
isso acontecer comigo na vida real? Era assustador pra caramba. A ideia de ter um possível
dano cerebral grave em uma idade tão jovem não era nada atraente.
A única outra explicação que consegui pensar foi que isso estava de alguma forma
relacionado àquela pedra no pequeno santuário esquecido, justamente porque parecia que
minha mente e meu corpo tinham sido transportados para um lugar e tempo diferentes no
momento em que coloquei os dedos nela. Talvez, ao simplesmente tocar na pedra, eu
tivesse irritado algum deus ou espírito ali venerado e caído sob algum tipo de maldição.
Isso parecia bem ridículo, o que pode ter sido o motivo de eu preferir essa explicação à de
um dano cerebral grave. De qualquer forma, independente do que causou minha perda de
memória, eu precisava descobrir o que aconteceu nesse intervalo de quatro dias — e a
melhor maneira de fazer isso era perguntar por aí. Corri um pouco para alcançar minha
irmã e acompanhei o ritmo dela.
— Então, eu sei que isso vai parecer uma pergunta estranha, mas eu tenho passado muito
tempo em casa ultimamente?
— Hã? — ela estranhou. — Que tipo de pergunta é essa? Você saberia melhor que eu.
— Não, não, eu sei. Eu, ah, queria saber se você acha que eu tenho passado tempo suficiente
em casa ou não. Se isso faz sentido.
Ela me olhou desconfiada, claramente não acreditando nessa explicação. Eu mesmo sabia
que parecia uma desculpa bem fraca, mas não queria admitir de cara que havia um buraco
de quatro dias na minha memória e correr o risco de ela me obrigar a ir ao médico. Por
enquanto, tudo o que eu podia fazer era tentar ligar uma desculpa na outra. Eventualmente,
Eri respondeu, mas não antes de virar a cabeça novamente e desviar o olhar.
— Na verdade, você tem saído bastante nos últimos dias. Uma ou duas noites, você nem
voltou pra casa. Ou pelo menos, não até eu já ter dormido…
Isso era uma informação valiosa. O fato de ela notar que eu estava fora "uma ou duas noites"
me disse que passei ao menos metade das noites na minha própria cama, então não era
como se eu estivesse levando uma vida totalmente diferente. Isso ainda deixava algumas
perguntas sem resposta, então eu precisava de mais informações.
— Você sabe pra onde eu estava indo? — insisti. — Ou se eu estava ficando em algum outro
lugar nessas uma ou duas noites que eu não voltei?
— Tem alguma coisa na água aí em Tóquio? Alguma bactéria que come o cérebro ou algo
assim?
— Eu estou dizendo que você tem agido estranho desde que chegou aqui — Eri disse,
virando-se para me olhar bem nos olhos novamente. — Pessoas normais não fazem
perguntas assim. Sem brincadeira, eu realmente acho que você devia ir ao hospital.
— Não, eu não estou. Tem algo definitivamente errado com você. Está óbvio, Kanae.
Eu desviei o olhar do dela, tentando encontrar alguma desculpa. Era exatamente isso que
eu queria evitar — mas agora que ela já estava desconfiada, talvez fosse melhor eu
confessar tudo e contar a verdade inteira: que eu tinha avançado quatro dias no tempo. O
problema era que, se eu fizesse isso, havia uma chance real de ela me levar ao hospital, ou
contar a alguém que pudesse fazer isso, e eu não queria preocupar minha avó… por mais
que talvez eu realmente precisasse me consultar.
— Silêncio, vocês dois — minha avó interveio. — Estamos quase lá. Sejam respeitosos.
Ufa. Salvo pelo gongo, pensei comigo mesmo enquanto nos aproximávamos do centro
comunitário onde o velório estava sendo realizado. Era um prédio grande e aberto, do
tamanho de uma pequena quadra de ginástica. Uma fila de adultos com roupas de luto se
formava no pátio geralmente vazio do prédio. Eu pude perceber que Eri ainda tinha muito
mais para me dizer, mas ela deixou a conversa de lado assim que entramos na fila.
Depois de assinar o livro de visitas, entramos. Assim que passamos pela porta e entramos
no espaçoso salão principal, avistei Akari, usando o uniforme do ensino médio Sodeshima,
pelo canto do olho. Eu sabia que ela estudava lá, obviamente, mas essa foi a primeira vez
que a vi usando o uniforme.
Ela parecia muito mais feminina e refinada comparada à última vez em que a vi no muro do
cais. Pensei em me aproximar e cumprimentá-la, mas ela estava conversando com um
grupo de adultos vestidos de preto; definitivamente não parecia o momento certo.
Sentei-me ao lado de Eri e da minha avó em uma das várias fileiras de cadeiras de metal, e
então olhei para o altar. Ver o rosto de Akito ali, na moldura da foto, me fez encarar a dura
realidade de sua morte de uma forma que ainda não havia processado completamente.
Afinal, ele foi o herói da minha infância — ele até correu para me salvar uma vez.
— Na próxima vez, não quero te ver tremendo nas suas botas assim — ele me repreendeu. —
Isso me irrita. Você sabe que não fez nada de errado, e eles também sabem, então não deixe
que te afetem. Mantenha a cabeça erguida.
— Então você pega uma pedra grande, joga na cabeça deles e corre como o diabo.
Na época, eu não conseguia acreditar na ousadia do que ele sugeria, mas com o tempo,
essas palavras se tornaram uma espécie de mantra pessoal para mim. Sempre que me
sentia inseguro ou com medo, dizia a mim mesmo que, se realmente fosse necessário, eu
sempre poderia jogar pedras na cabeça deles e sair correndo.
Era estranhamente reconfortante para mim. Obviamente, eu sabia que não era um conselho
realmente louvável, nem nunca cheguei a recorrer a isso, mas ainda assim dava a um
garotinho magro como eu a confiança necessária para não ter medo dos outros. Eu não
sabia como Akito se sentia sobre mim ou se ele sequer lembrava daquela pequena
interação... mas eu ainda sentia sua falta de uma forma bem profunda e desejava que ele
ainda estivesse conosco.
Após o acendimento do incenso e o canto dos sutras, a mãe de Akito se levantou diante do
altar para dizer algumas palavras à congregação. Mesmo de longe, eu conseguia ver que o
rosto dela estava cansado e emaciado. Seu cabelo havia perdido o brilho; seus olhos
pareciam vazios. Ela parecia que poderia desmaiar a qualquer momento, mas Akari estava
ao seu lado para oferecer apoio enquanto ela fazia seu discurso.
A cerimônia terminou oficialmente depois que ela terminou suas palavras, então todos nos
levantamos dos nossos assentos e começamos a sair em direção ao hall de entrada. Pelo
visto, a família imediata preparou pequenos presentes de agradecimento para os
participantes, então nós três nos colocamos na fila e começamos a avançar lentamente em
direção à mesa de recepção. Estávamos esperando nossa vez quando ouvi a conversa de
duas pessoas que estavam logo atrás de nós na fila, falando de maneira bem direta.
— Parece que não vão nos dar comida, né? Nenhuma bebida ou algo assim…
— Bem, o que você esperava? Aquela pobre mulher já tem o suficiente com ela agora,
especialmente sendo a única que sustenta a família. Aliás, ouviu o que causou a morte dele?
— Sim, envenenamento por álcool agudo, né? Ouvi dizer que pegaram a autópsia ontem...
Envenenamento por álcool, é? Ou seja, ele bebeu demais. Mas na verdade, eu lembrava que
aprendi na aula de saúde que, na maioria dos casos, não era o álcool no sangue da vítima
que a matava. Era o fato de asfixiar com o próprio vômito. Eu nem queria considerar isso
em mais detalhes; a imagem do atleta estrela de Sodeshima passando seus últimos
momentos assim era insuportável.
À medida que a fila avançava, finalmente chegou nossa vez. Akari e sua mãe estavam
entregando os presentes de agradecimento pessoalmente, então expressamos nossas
condolências e eu aceitei educadamente o pequeno saco de presentes da Akari.
— Uau, olha você — ela sussurrou baixinho, me observando de cima a baixo enquanto
entregava o saquinho de papel. — Espera, onde você arrumou um uniforme do colégio
Sodeshima...?
— O que, isso? É o uniforme antigo do meu pai. Mal posso esperar para chegar em casa e
tirar isso, sério. Está super apertado no pescoço.
Quando ela enfatizou aquela última palavra, seus olhos começaram a se encher de lágrimas.
Eu não sabia se estava lembrando ela de Akito no uniforme ou o quê — mas eu rapidamente
puxei o lenço de bolso e ofereci a ela. Ainda bem que minha avó me convenceu a levar um.
— Escuta, é... Eu sei que a gente não tem conversado nos últimos anos, mas se você precisar
de alguém para conversar, você sabe que estou aqui para você — eu disse, me sentindo
meio desconfortável com o quanto minhas palavras pareciam forçadas e previsíveis. Akari
parecia ter entendido aquilo como uma oferta genuína de consolo, pois ela fez um fraco
aceno de cabeça enquanto limpava os cantos dos olhos com o lenço.
Ainda havia outras pessoas na fila atrás de nós, então nos despedimos e saímos do prédio.
Lá fora, o céu da noite estava cristalino, e o ar estava frio o suficiente para sentir que o
inverno ainda não tinha ido embora por completo. Minha avó sugeriu que começássemos a
ir para casa, e então os três de nós começamos a caminhar rapidamente. Mal tínhamos
andado um quarteirão desde a instalação quando ouvi passos correndo atrás de nós. Me
virei — era Akari.
— Ei, o que foi? — perguntei. — Ah, você não precisa me devolver o lenço agora, está tudo
bem.
— Não, não é isso — ela disse, ofegante. — Escuta, é... Tem algo que eu preciso te contar,
Kanae-kun.
— Tem?
— Sim. Sobre o que aconteceu com você nos últimos quatro dias... Ou melhor, o que vai
acontecer, eu deveria dizer.
No começo, eu não fazia a menor ideia do que ela estava tentando me dizer. Um momento
depois, as implicações de ela saber algo sobre "os últimos quatro dias" me atingiram como
um caminhão. Eu praticamente pulei nela, colocando minhas mãos em seus ombros.
Ela deu um grito de surpresa, mas eu não liguei. Só quando senti os ombros dela tremendo
foi que percebi o quão inapropriado foi eu tê-la segurado assim. Imediatamente
arrependido de minhas ações, afastei minhas mãos.
— Ah, s-sinto muito. Não sei o que deu em mim. Eu só... não sei o que está acontecendo, e…
— tentei explicar.
— Não, tudo bem... Eu entendo. Não posso te explicar tudo aqui e agora, então — ela
hesitou, depois se aproximou de meu ouvido para sussurrar. — Me encontre no antigo
parque abandonado amanhã às cinco da tarde. Eu te conto tudo o que você quiser saber.
Ela afastou a cabeça, disse rapidamente "Ok, até amanhã" e virou-se, começando a
caminhar de volta para o centro comunitário. Eu a vi virar a esquina, já sentindo o olhar
suspeito de Eri queimando nas minhas costas.
— Não poderia te dizer, mesmo se quisesse — respondi. E era a verdade. Murmurei, quase
para mim mesmo. — Espero que eu descubra amanhã.
↺
Quando acordei na manhã seguinte, a primeira coisa que vi foi meu celular ao lado da
minha cabeça. Peguei-o rapidamente e verifiquei a data e a hora. Era 6 de abril, às 8 da
manhã. Enterrei o rosto no travesseiro. O tempo não tinha magicamente voltado ao normal
da noite para o dia. Começava a parecer que isso realmente não era um sonho, para meu
desgosto.
Se ela pudesse esclarecer esse fenômeno bizarro e aterrorizante que estava acontecendo
comigo, eu seria eternamente grata a ela. Dito isso, eu não fazia ideia de como ela poderia
saber sobre a lacuna de quatro dias na minha memória, já que eu não contei a ninguém
sobre isso — e essa não era a única dúvida.
Havia várias outras grandes interrogações, como por que ela me pediu para encontrá-la no
velho e abandonado parque — um lugar que eu nem sabia que existia até que o encontrei
depois da última vez que falei com ela, em 1º de abril. Era possível que ela tivesse
descoberto sozinha, claro, mas então, como ela poderia estar tão certa de que eu saberia
onde era?
As coisas não estavam se encaixando, e isso estava começando a me dar uma dor de cabeça.
Considerando que eu vinha forçando meu cérebro praticamente sem parar desde ontem,
isso não era surpresa. Talvez o cérebro pudesse se cansar ou se desgastar com o uso
excessivo, como qualquer outro músculo? Era uma boa razão para voltar a dormir um
pouco, para que meu cérebro pudesse descansar como precisava.
↺
Acordei de novo por volta do meio-dia e almocei algo leve com minha avó. Ela me disse que
Eri havia ido para a ilha principal com uma amiga para passar o dia, o que foi um alívio. Ela
estava visivelmente desconfiada de mim desde a noite passada, e eu não queria ser pego em
mais um interrogatório com ela. Eu reconhecia, porém, que toda a investigação dela era
porque ela se preocupava comigo. Eu fui quem a fez se preocupar em primeiro lugar.
Quando terminamos de comer, minha avó perguntou se eu poderia ajudá-la com algo.
— Eu estava pensando em reorganizar o sótão — ela explicou — mas tem tanta bagunça e
tantas caixas pesadas que venho adiando. Um jovem forte como você seria o ajudante
perfeito.
Eu ainda tinha bastante tempo antes de me encontrar com Akari, então aceitei ajudar. Usei
a pequena escada que tínhamos no depósito para subir no sótão. Graças à iluminação
proporcionada por uma única lâmpada nua, vi que havia várias caixas de papelão
espalhadas pelo espaço abafado, e cada uma parecia bem pesada.
Comecei a descer as caixas individuais que minha avó me pediu uma a uma. Não demorou
muito para eu começar a suar feito um porco; depois de um tempo, até derrubei uma caixa
inteira e espalhei seu conteúdo pelo chão do sótão. Estava cheia de livros didáticos e outros
materiais de referência.
— Deve ser do meu pai — falei para mim mesmo ao ver que todos eram relacionados à área
de TI. Meu pai trabalhava como programador em Tóquio, e com base na quantidade de
anotações nas margens, eu suponho que eram provavelmente de seus tempos de faculdade.
ROLLBACK
— Rollback, hmm…
Murmurei, deixando a palavra pairar em meus lábios por um instante. Tinha um som bem
maneiro — embora, a menos que eu decidisse seguir carreira em TI, suspeitava que nunca
teria a chance de usá-la de verdade. Fechei o caderno e o coloquei de volta na caixa.
↺
Quando atravessei a parte abandonada da cidade correndo, só me restavam alguns minutos
antes das cinco horas. Ajudar minha avó a reorganizar as coisas levou muito mais tempo do
que eu imaginava, e agora eu corria o risco de chegar atrasado ao meu encontro com Akari.
Corri o mais rápido que pude pelo distrito labiríntico, tropeçando ocasionalmente em
buracos e no solo irregular. Pouco depois das cinco, avistei a saída do beco estreito.
Finalmente diminuindo o ritmo para uma caminhada, tentei recuperar o fôlego ao entrar no
parque.
Sob a cerejeira em flor, uma garota de uniforme da colégio Sodeshima olhava para cima,
semicerrando os olhos enquanto observava a chuva de pétalas flutuando até o chão —
quase como se estivesse se banhando nelas. Soube na hora que era Akari Hoshina, a garota
com quem eu havia combinado de me encontrar ali, mas simplesmente não consegui
chamá-la. A cena era tão deslumbrante que me fez esquecer completamente o motivo de
estar ali. Só conseguia ficar parado, hipnotizado por sua beleza.
— Ei! Há quanto tempo você tá aí parado?! Me avisa que chegou, moou! — disse ela, rindo de
forma meio desajeitada.
Por pouco não deixei escapar a palavra você. Não tinha como eu soltar uma cantada dessas
sem parecer um completo idiota.
— Ah, não, eu… Eu estava me divertindo olhando uns álbuns de fotos antigos com a minha
avó e perdi a noção do tempo. Por isso cheguei um pouco atrasado… Foi mal.
Parabéns, Kanae. Essa foi, sem dúvida, a desculpa mais patética da história da humanidade.
— Ah. Entendi. Mas relaxa, você só se atrasou uns minutinhos — disse Akari com um sorriso
caloroso — mas percebi um leve tom de decepção em sua voz. Será que ela estava
esperando que eu dissesse que me diverti olhando para ela…? Pfft, até parece. Eu só podia
estar viajando.
Akari sugeriu que sentássemos, então me encostei no tronco da árvore. Segurando a saia,
ela se acomodou ao meu lado, tão perto que nossos joelhos quase se tocavam. Comecei a
ficar um pouco nervoso. Precisando me recompor rápido, tossi e fui direto ao ponto.
— Então, ontem à noite você disse que podia me contar tudo o que eu queria saber? Quer
explicar melhor? — perguntei.
— Sim, então, basicamente… Ugh, por onde eu começo? Talvez seja mais fácil se você fizer
algumas perguntas primeiro — ela sugeriu.
Eu tinha um milhão de perguntas na cabeça, mas agora que ela jogou a responsabilidade
para mim, parecia que nenhuma vinha à tona. Ainda queria saber por que ela escolheu esse
parque para nos encontrarmos e o que aconteceu nos últimos quatro dias, mas que outras
perguntas eu deveria fazer?
Vamos ver…
— Ahaha… Sério? Essa é a dúvida mais urgente na sua cabeça agora? Nossa, você deve amar
uniformes, hm? — brincou ela, puxando a gola da jaqueta para se exibir.
Se eu estivesse pensando com mais clareza, teria adivinhado isso. Era normal que o funeral
acontecesse no dia seguinte ao velório. Me xinguei mentalmente por não refletir melhor
antes de perguntar besteira e segui para a próxima dúvida da minha lista.
— Certo, isso explica isso. Agora, por que você achou que eu conhecia esse parque?
— Ué, porque foi você quem me mostrou esse lugar.
— É claro que não. Porque, para você, isso ainda não aconteceu. Mas vai acontecer.
— O que isso quer dizer? — perguntei, sem a menor ideia do que ela queria dizer. Seu rosto
ficou completamente sério.
Isso me pegou de surpresa. Ela tinha acabado de usar um termo tirado diretamente de um
dos meus romances de ficção científica favoritos.
— Certo.
— É isso que está acontecendo com você, Kanae-kun. Você saltou no tempo.
— Hã?
Eu não conseguia entender. Não que qualquer um na minha posição fosse capaz de ouvir
um "Ei, você acabou de viajar no tempo" e simplesmente responder "Ah, faz sentido!". Mas
pelo menos eu podia dizer que Akari não estava brincando comigo. A ideia de ela me trazer
para um parque deserto logo depois da morte do único irmão dela — apenas para me
contar uma mentira absurda — era ainda mais improvável do que aquilo ser verdade.
— Eu sei, parece loucura — ela continuou. — Acredite, foi difícil de aceitar para mim
também. Mas agora, eu preciso que você me escute.
Foi difícil para ela também? Será que Akari também tinha viajado no tempo?
Eu estava ficando cada vez mais confuso, mas precisava de todas as informações possíveis.
Não custava nada ouvi-la.
— Tudo bem. Vamos ouvir — concordei. Sua expressão séria finalmente suavizou um pouco.
— Ótimo. Mas já vou avisando: isso vai ficar bem complicado. Vou tentar explicar da forma
mais simples possível.
— Entendido. Obrigado.
— Ok, então só para garantir que estamos na mesma página: o que você mais quer saber
agora é por que não tem nenhuma lembrança do período entre às 18h do dia 1º de abril e às
18h do dia 5 de abril, certo?
— E-Exatamente!
Eu queria perguntar como diabos ela sabia disso, mas parecia que ainda havia muito mais
para ser dito, então guardei minhas perguntas para depois.
— Bom, o motivo disso — ela explicou — é que a sua consciência deu um salto quântico
entre esses dois momentos no tempo. Está acompanhando?
— Correto. Isso não é como naqueles desenhos antigos. Você não entrou acidentalmente
em uma máquina do tempo e foi enviado fisicamente para frente ou algo assim. Apenas sua
mente fez a viagem… ou pelo menos, foi o que me disseram.
Eu podia sentir uma dor de cabeça se formando. "Foi o que me disseram"? Como eu poderia
acreditar nela se ela mesma estava repetindo algo que ouviu de outra pessoa?
— Então, como eu estava dizendo antes… Na verdade, não. Vamos deixar isso para depois.
Primeiro, vou me manter na linha e explicar tudo direitinho.
Algo não parecia certo no jeito como ela evitava certos assuntos, mas resolvi ficar quieto e
deixar que continuasse.
— Então, eu já expliquei como você acabou nessa situação. Agora, vou te explicar o que vai
acontecer daqui para frente. Essa parte é muito importante, então preste atenção — ela
enfatizou, e eu assenti. — Certo. Aqui está o que vai acontecer: você vai reviver os últimos
quatro dias, um por um, mas em ordem reversa.
— Pense assim: a cada 24 horas, você será enviado de volta no tempo 48 horas. Tipo um
passo para frente, dois para trás. Ah, e isso sempre vai acontecer exatamente às 18h. Esse
processo vai continuar até que você tenha preenchido toda a lacuna de quatro dias na sua
memória.
— Desculpa, acho que me perdi. É muita coisa para assimilar…
Akari pegou um galho fino do chão e limpou um espaço grande na terra. Usando o galho
como um lápis, ela escreveu "01/04 (18h)" e desenhou uma longa seta apontando para baixo.
No final da seta, escreveu "05/04 (18h)" e depois apontou para a seta enquanto explicava.
— Vamos supor que isso representa o salto quântico inicial que você fez, certo? Você saltou
das seis da tarde do dia 1º direto para as seis da tarde do dia 5. Me acompanhando até aqui?
— Sim, e é por isso que não tenho nenhuma memória dos últimos quatro dias… Continue.
Em seguida, Akari desenhou uma seta para a direita, onde escreveu "06/04 (18h)", então
largou o galho e pegou o celular.
— Agora é dia 6 de abril e, em cerca de trinta minutos, serão seis da tarde… e, a partir desse
momento, você será enviado de volta para às seis da tarde do dia 4 de abril.
Ela pegou o galho de novo e desenhou uma seta diagonal para baixo e para a esquerda,
onde escreveu "04/04 (18h)". Segundo o diagrama, assim que eu chegasse ao fim do período
de 24 horas, entre a noite do dia 5 e a noite do dia 6, eu seria enviado 48 horas para trás,
para a noite do dia 4. Agora eu começava a entender por que ela explicou como "um passo
para frente, dois para trás". Com o auxílio visual, parecia que finalmente eu estava pegando
a ideia.
— E a partir daí — Akari continuou — você terá mais 24 horas até chegar novamente às seis
da tarde do dia 5, e então…
— Então, é isso — disse Akari, colocando o galho de volta no chão. — Era disso que eu estava
falando quando disse que você reviveria os últimos quatro dias em ordem reversa.
Chamamos isso de fenômeno Rollback.
— Espera. Rollback?
Eu já tinha uma noção razoável do processo nesse ponto, pelo menos em teoria, mas
quanto mais ouvia Akari explicar, mais difícil ficava de acreditar. Cada pergunta que ela
respondia só fazia surgir mais duas ou três na minha cabeça.
— Então, uh. Obviamente, tenho muitas perguntas — comecei. — Mas acho que, para
começar: porque seis horas? Não, mais importante, como eu fui parar nesse fenômeno
esquisito para começo de conversa?
— Não posso dizer com certeza... mas me disseram que pode ter algo a ver com o fato de
você ter tocado a pedra dentro daquele santuário. Aconteceu exatamente às seis horas —
mas acho que não há nenhum significado especial nesse horário.
Para ser honesto, eu tinha me esquecido completamente disso. Levantei-me e fui dar outra
olhada dentro do pequeno santuário do outro lado da grande cerejeira. A rocha pesada,
com uma fenda no meio, ainda estava lá, exatamente onde eu me lembrava. Não havia se
movido.
— Mas eu não entendo — eu disse. — Como tocar uma pedra idiota poderia fazer todas
essas coisas sobrenaturais começarem a acontecer? Mesmo que ela tivesse algum tipo de
poder mágico, por assim dizer... esse lance de reviver cada dia de trás para frente é
específico demais. Não faz sentido.
— Bem, essa é apenas a minha teoria pessoal — disse Akari, caminhando até ficar ao meu
lado. — Mas você se lembra daquela vez na escola primária, quando nos levaram em uma
excursão até o grande santuário da ilha para aprendermos mais sobre a história de
Sodeshima?
Foi em algum momento do quarto ou quinto ano. Levaram a turma inteira ao Santuário de
Sodeshima e deixaram o sacerdote xintoísta local nos ensinar por um dia. Ainda me
lembrava vividamente de como o piso de madeira em que nos fizeram sentar era frio.
— Ok, pode me chamar de louca, mas... não mencionaram algo sobre como monges
budistas costumavam fazer peregrinações até Sodeshima nos tempos antigos para passar
por algum tipo de provação?
— Eu não lembro disso, para ser sincero, mas... Você está dizendo que acha que eu
acidentalmente invoquei alguma provação antiga para mim mesmo?
— Digo, não seria mais absurdo do que qualquer outra explicação que já cogitamos, né...?
— E o que diabos eu estaria sendo testado, hm? Por quem? Isso não faz sentido. Além
disso... Como você sabe de tudo isso, Akari? Sobre o Rollback, sobre eu ter tocado a pedra
no santuário... Eu nunca contei isso para ninguém, então como você poderia saber?
Eu sentia meu tom ficando cada vez mais impaciente conforme as perguntas se
acumulavam uma atrás da outra. Diante da minha frustração, Akari simplesmente olhou
para mim — com gentileza, com um toque de verdadeira empatia no olhar — como se eu
fosse a pessoa que precisava de consolo ali.
— Isso mesmo. Tudo o que eu te contei aqui hoje, você me explicou antes. Em um passado
que você ainda não viveu.
As palavras dela saíram medidas e lentas, como se quisesse garantir que cada sílaba fosse
absorvida. Fechei os olhos, belisquei a ponte do nariz e soltei um longo e pesado suspiro.
Eu já conhecia o termo, é claro, desde que o vi mais cedo em um dos cadernos antigos do
meu pai. Obviamente, era um termo da computação, mas parecia estranhamente adequado
para o conceito de ser enviado de volta a momentos anteriores no tempo. Akari afirmou
que fui eu quem explicou tudo isso para ela, o que, presumivelmente, significava que eu
também inventei o nome do fenômeno. Havia muitos aspectos que eu ainda não conseguia
entender completamente, mas agora eu finalmente sentia que havia organizado meus
pensamentos o suficiente para liberar parte da capacidade de processamento do meu
cérebro.
— Desculpa — eu disse — mas, sendo honesto, estou tendo muita dificuldade em aceitar
essa ideia de salto temporal e o fato de que fui eu quem te contou tudo isso. Por outro lado,
eu sei que você nunca mentiria sobre algo assim, então vou tentar ao máximo confiar no
que você está dizendo.
— Cara, fala sério, que timing horrível, né? A única semana que eu volto para a cidade, e
acabamos presos nessa maluquice sobrenatural. Sem contar que você já deve estar ocupada
o suficiente com o funeral do seu irmão e—
O fenômeno Rollback.
A morte de Akito.
— Entre meia-noite e duas da manhã do dia 2 de abril — ela respondeu com naturalidade,
como se já estivesse esperando essa pergunta. — Pelo menos foi isso que a autópsia
indicou.
Akari disse que eu reviveria tudo das 18h do dia 1º até as 18h do dia 5 — e a morte de Akito
estava bem dentro deste período. Supondo que Akari não estivesse errada sobre nada disso,
isso apresentava uma possibilidade muito interessante.
— Sim, significa — ela respondeu. Então, baixou o olhar para os pés por um momento,
franzindo o rosto pensativa antes de voltar a me encarar diretamente nos olhos. —
Kanae-kun, eu... eu quero que você salve meu irmão.
Suas palavras foram tão cristalinas em sua convicção que me pegaram de surpresa, me
colocando em uma posição um tanto desconfortável. Vale lembrar que eu ainda estava
apenas meio convencido de que toda essa história de rollback era realmente possível... Na
verdade, talvez nem vinte por cento convencido.
Era difícil simplesmente pular e dizer "Claro, eu salvo a vida do seu irmão para você!"
quando ainda havia tantas perguntas sem resposta. Mas, ao mesmo tempo, também não
conseguia me forçar a dizer não. Independentemente de tudo isso ser real ou não, eu não
podia deixar Akari na mão em um momento de necessidade. Eu tinha que acreditar na
sinceridade que via em seu rosto.
— Tudo bem. Vou fazer o que puder — disse, por fim. Akari assentiu enfaticamente.
Havia apenas uma tabacaria em toda Sodeshima. Era um lugar pequeno e decadente,
localizado em uma viela estreita, e eu sabia exatamente onde ficava.
— A polícia achou que ele podia estar, hum... se aliviando no terreno baldio. Encontraram
alguns vestígios por perto que sustentavam essa teoria, acho...
Bom, essa deve ter sido uma pergunta desconfortável para ela responder. Fiquei meio mal
por ter perguntado. Ainda assim, se ela estivesse certa sobre essa coisa de rollback, salvar a
vida de Akito não deveria ser nada difícil. Tudo o que eu precisaria fazer era garantir que
ele não bebesse álcool naquele dia.
Ei, mesmo que eu não conseguisse fazer isso, eu sabia exatamente onde ele estaria e
quando. Pensando bem, eu nunca cheguei a retribuir o favor dele ter me salvado daqueles
valentões anos atrás... o que fazia desta a oportunidade perfeita para fazê-lo. No momento,
eu era a única pessoa que podia salvar Akito.
— Ok, Kanae-kun. Está quase na hora — Akari disse, olhando para o celular. Fiz o mesmo e
chequei o meu. Eram 5h57; se Akari estivesse certa, o próximo rollback ocorreria em apenas
três minutos.
— Vamos ver... Então, você disse que eu serei enviado de volta para as seis horas do dia 4 de
abril, certo?
— Quase certeza?!
— Eu não sei o que você quer que eu diga, Kanae-kun. Eu não tenho provas disso. Só sei o
que você mesmo me contou, como eu disse.
— Certo... Bom, justo — cedi. Percebi que pressioná-la sobre isso não faria bem para
nenhum de nós.
— Mas eu posso te dizer uma coisa com certeza: os rollbacks acontecem. Ou, pelo menos,
você já me deu razões mais do que suficientes para acreditar que acontecem — Akari disse.
Sua voz era a mais sincera possível.
Nesse instante, o vento ficou mais forte. Alguns momentos de ansiedade depois, ele
levantou uma nuvem de pétalas de cerejeira pelo céu, girando como um caleidoscópio de
pequenas borboletas. O padrão espiralado das pétalas rosa-pálido brilhava lindamente
contra o céu âmbar do entardecer. Não havia dúvidas — essas tinham que ser as flores mais
deslumbrantes de toda a ilha.
Fiquei parado por um tempo, olhando para cima em um estado de paz, até ouvir o som de
soluços ao meu lado. Me virei e vi Akari cobrindo o rosto com as mãos, os ombros
tremendo. O som abafado do choro escapava por entre seus dedos. Não era apenas um
soluço... Ela estava chorando. E, desta vez, era evidente que aquelas lágrimas não eram
causadas por alergia ao pólen.
E, antes que eu pudesse descobrir o motivo de suas lágrimas, fomos interrompidos pelo
sino das seis horas. As notas melancólicas de Greensleeves anunciaram para nós dois que a
hora havia chegado, e minha ansiedade disparou.
— Escuta, Kanae-kun — Akari disse, quase engasgando com as palavras enquanto erguia o
rosto desalinhado e encharcado de lágrimas para me encarar sem hesitação. — Eu confio
no seu julgamento. Então, por favor... Cuide da minha versão do passado, tá? O resto
depende de—
INTERLÚDIO III
TODAS AS MINHAS MEMÓRIAS DE Kanae nos tempos da escola primária ainda estavam vívidas
em minha mente, tão vívidas que, sempre que eu as revisitava, era como folhear as páginas
de um livro infantil lindamente ilustrado. Como, por exemplo, uma conversa que tivemos na
terceira série, a caminho de casa. Era uma tarde fresca de julho, e estávamos sentados no
quebra-mar, como sempre fazíamos, deixando as horas passarem.
Costumávamos ficar ali conversando até o sol se pôr, geralmente sobre coisas totalmente
triviais: um gato de rua que alguém encontrou perto do santuário, um colega de classe que
levou um console portátil escondido para a aula, um livro que um de nós pegou emprestado
da biblioteca. Mas, naquele dia em particular, eu me lembrava especificamente de Kanae me
contando, animado, algo realmente importante.
— Ei, adivinha só? — ele sorriu. — Um monte de garotos do fundamental tentou me cercar
outro dia, mas aí seu irmão apareceu do nada e espantou todos eles.
— Sério?!
— Sim! Ele foi incrível, tô te dizendo. Não acredito que ele sabe lutar e ainda joga beisebol
tão bem... Queria ser como ele um dia.
— É mesmo, hm...?
Eu nunca gostei muito do meu irmão mais velho, principalmente porque ele vivia
implicando comigo, mas até eu tive que admitir que o que Kanae contou foi bem legal. Na
verdade, fiquei genuinamente orgulhosa dele por ter defendido alguém indefeso daquela
forma.
— O quê? Sério? Sinto que pelo menos deveria encontrar algum esporte ou talento especial
para me destacar. Mas qual...? — Ele divagava em voz alta até que, de repente, se virou para
mim. — Você tem sorte, Akari. Quero dizer, já é uma nadadora incrível.
— Claro que é. Poxa, você não fez o melhor tempo da turma inteira outro dia? Isso requer
talento, né? Dá um pouco mais de crédito pra si mesma.
— É... talvez...
Era verdade que eu nadava bem, mas nunca gostei muito das aulas de natação, já que isso
significava mostrar mais da minha pele incomumente pigmentada do que eu já precisava.
Ainda assim, ouvir Kanae falar tão bem das minhas habilidades me deixou muito feliz, e foi
naquele momento que decidi levar a natação mais a sério.
Na verdade, eu sempre sonhei em ter aulas em um lugar assim. Um complexo tão grande
parecia essencial para quem queria nadar sem limites, e eu imaginava que deitar de costas
no meio de uma piscina imensa, com água cristalina ao redor, deveria ser uma sensação
sublime. Mas já tinha praticamente desistido dessa ideia, achando que seria impossível por
causa da nossa situação financeira. Eu já sabia, mesmo naquela idade, que a nossa família
não tinha condições.
Minha mãe sustentava meu irmão e eu sozinha, desde que meu pai morreu em um acidente
de carro quando eu tinha cinco anos. Durante o dia, ela trabalhava no caixa do
supermercado; à noite, servia bebidas em um bar hostess da cidade.
Quando eu era pequena, praticamente me convenci de que minha mãe era algum tipo de
super-humana que havia evoluído além da necessidade de dormir — de tanto que ela
trabalhava, dia após dia. Até hoje, eu não fazia ideia de como ou quando ela conseguia um
tempo para descansar. Naturalmente, eu não queria dar ainda mais preocupações a ela,
então decidi não perguntar nada sobre as aulas formais de natação. Ou pelo menos, esse
era o plano... até que meu instrutor resolveu tocar no assunto na noite da reunião de pais e
professores.
— Acho mesmo que sua filha tem talento, senhora — disse ele. — Seria um desperdício não
colocá-la em um treinamento mais formal.
Minha mãe era uma pessoa educada e que cedia facilmente sob pressão, então ela
concordou de imediato com a sugestão. Não demorou muito para que eu estivesse
matriculada em aulas de natação de verdade. Eu ainda poderia ter pisado no freio naquele
momento? Com certeza. Tudo o que precisava fazer era dizer que estava cansada de nadar
ou que não me sentia à vontade pegando a balsa até o continente sozinha. Mas eu não disse
nada, o que já dizia muito sobre o quanto eu realmente me importava em não
sobrecarregar minha mãe — assim que percebi que aquilo estava prestes a acontecer,
simplesmente me calei.
Para ser justa comigo mesma, me dediquei ao máximo assim que as aulas começaram,
treinando o mais duro que conseguia para não desperdiçar o dinheiro da mensalidade e o
custo das passagens da balsa. Como resultado, me tornei uma nadadora tão boa que, no
sexto ano, fiquei em primeiro lugar na grande competição distrital de natação. Fui
homenageada por essa conquista na assembleia escolar seguinte, e foi nesse momento que
os outros alunos da minha série começaram a prestar muito mais atenção em mim —
alguns até queriam ser meus amigos.
Essa sensação era tão boa que eu me esqueci completamente da culpa que sentia por
sobrecarregar minha mãe financeiramente e passei a viver minha vida ao máximo, sem
preocupações. Onde quer que eu fosse, as pessoas me elogiavam — mas as palavras que
mais significavam para mim, aquelas que me davam força para continuar me esforçando
ainda mais, vinham de Kanae.
— Cara, Akari. Você tá pegando fogo ultimamente — ele comentou certo dia, enquanto
voltávamos para casa da escola. — Viu só? Eu sempre soube que você tinha isso dentro de
você. Consegui perceber que você estava destinada à grandeza muito antes de qualquer um
perceber o quão boa nadadora você é!
— Isso mesmo! Acho que só tenho um olho bom pra essas coisas, heh-heh! — ele se gabou.
Ri baixinho; ele tinha me pegado no flagra. Mas, falando sério, eu realmente era muito grata
a Kanae. Se ele não tivesse falado tão bem das minhas habilidades naquele dia na terceira
série, talvez eu nunca tivesse levado a natação tão a sério.
— Você sempre prestou atenção em mim, mesmo quando ninguém mais fazia isso. Significa
muito para mim.
Nesse momento, Kanae abandonou a pose convencida e começou a minimizar a própria
importância, dizendo coisas como "Ah, não tive nada a ver com isso", enquanto seu rosto
ficava vermelho como um tomate. Naquele instante, senti que era a garota mais feliz do
mundo. Se eu pudesse vender minha alma para garantir que aqueles dias nunca
terminassem, teria feito isso sem hesitar.
Akari, que estava ao meu lado antes do salto, havia desaparecido. Era exatamente como
quando fui transportado do parque abandonado para o quebra-mar num piscar de olhos,
como se o projetor do mundo ao meu redor tivesse trocado de slide instantaneamente.
Desta vez, pelo menos, eu já estava preparado, graças à explicação da Akari, mas isso não
tornava a experiência menos desconcertante.
— Você só pode estar brincando — murmurei, incrédulo.
Apesar da minha surpresa, a imagem do rosto encharcado de lágrimas da Akari não saía da
minha mente. O que a deixou tão abalada naquele momento? Será que ela estava pensando na
morte do irmão? Eu teria dito algo sem perceber que a machucou? Ou havia outro motivo...?
Eu sabia que isso ficaria martelando na minha cabeça, mas, por ora, decidi ignorar e focar
em me situar. Se Akari estivesse certa, o Rollback deveria ter me enviado de volta para as
seis horas da tarde do dia 4 de abril.
Justo quando ia pegar o celular para conferir a hora, um homem desconhecido apareceu
repentinamente no meu campo de visão. Seu rosto estava vermelho, e ele parecia estar na
meia-idade. O que mais me assustou foi a brusquidão com que ele surgiu — ele não veio
correndo dos lados nem de trás. Era como se tivesse saltado do nada, como se estivesse
sentado bem aos meus pés e de repente tivesse se levantado direto na minha cara.
— Ei! O que diabos você pensa que tá fazendo, moleque?! — ele rosnou, os olhos faiscando
sob as veias saltadas da testa franzida. Estava claramente furioso comigo por algum
motivo... mas eu não fazia ideia de quem ele era. Nunca o tinha visto antes na vida.
— Hã?! — o homem gritou. Na mesma hora percebi que ele estava bêbado — seu hálito fedia
a álcool. — Quer levar uma surra, moleque?! Não se faça de idiota comigo!
— E-Espera aí, calma! — balbuciei, recuando alguns passos enquanto ele avançava. — Olha,
eu realmente não sei do que você tá falando...
O homem repetiu minhas palavras de forma exagerada e zombeteira. Algo me dizia que ele
não estava disposto a escutar a razão. Droga, o que foi que eu fiz para merecer isso?
Primeiro, fui pego de surpresa pelas lágrimas da Akari. Depois, minha mente foi jogada no
meio de uma multidão enorme. Agora, um bêbado aleatório estava me importunando. Era
coisa demais para lidar de uma só vez — eu sentia que ia enlouquecer.
Antes de mais nada, eu precisava pensar em uma forma de sair dessa encrenca. Sabia que o
sujeito estava bastante bêbado e, portanto, provavelmente não conseguiria me alcançar se
eu saísse correndo. Ao mesmo tempo, fugir sem nem entender o que eu supostamente
tinha feito me incomodava. Mas ele também não parecia disposto a uma conversa racional
— na verdade, parecia prestes a me dar um soco na cara. Eu não tinha tempo para ficar
ponderando. Dei mais alguns passos para trás. No instante em que me virei para correr,
uma jovem de cabelos loiros surgiu entre mim e o bêbado.
— Pode deixar que eu cuido disso — disse ela. — Agora vá para casa, tá bom?
— Sério, tá tudo bem. Considere isso meu jeito de te agradecer por toda a ajuda.
Ficava cada vez mais óbvio que continuar ali só dificultaria ainda mais as coisas para ela.
Mesmo sendo uma completa desconhecida, eu não queria atrapalhá-la mais do que já tinha
feito. E, já que de qualquer forma eu estava prestes a fugir, decidi aceitar sua generosa
oferta.
Inclinei levemente a cabeça para ela e então saí em uma caminhada leve. Enquanto me
esgueirava pela multidão, finalmente percebi onde estava e, consequentemente, por que
havia tanta gente ali. Aquele era o terreno do Santuário Sodeshima. Julgando pela enorme
multidão, além das várias barracas de comida e entretenimento alinhadas ao longo do
caminho principal que levava ao santuário, aparentemente eu tinha voltado no tempo
direto para o auge do maior evento anual de Sodeshima: o Festival da Dádiva do Oceano.
Isso, no entanto, não explicava o motivo de eu estar ali em primeiro lugar. Eu me sentia
extremamente desconfortável em grandes multidões, então geralmente evitava o festival
como se fosse uma praga.
Quem era aquela mulher loira, afinal? Parecia que eu poderia tê-la reconhecido de algum
lugar, se não estivesse tão ocupado lidando com o bêbado briguento para conseguir olhar
direito para seu rosto. Ainda assim, ela disse que aquilo era sua forma de me agradecer "por
toda a minha ajuda", então eu devia ter feito algo por ela nos últimos dias. Como sempre, eu
estava encontrando mais perguntas do que respostas, e isso estava começando a ficar
realmente irritante.
Achei que deveria pelo menos conferir as horas. Alcancei o bolso direito, onde
normalmente guardava o celular, e fiquei satisfeito ao perceber que ele realmente estava lá
desta vez. Apertei um botão, e a tela acendeu — era 4 de abril, 18h05. Então Akari estava
certa — eu realmente tinha voltado 48 horas no tempo a partir da noite do dia 6. Acho que o
Retorno é real, pensei comigo mesmo. Dessa vez, aceitar isso foi surpreendentemente fácil
— ou talvez meu cérebro simplesmente estivesse ficando insensível a todas as loucuras que
estavam acontecendo comigo. Bem, era bem melhor do que me sentir enlouquecendo.
Guardei o celular de volta no bolso e segui para casa.
↺
Quando finalmente cheguei, já havia decidido qual seria minha primeira prioridade —
coletar o máximo de informações possível. Ao entrar na sala de estar, encontrei Eri
estudando na mesa, como a boa aluna que era. Aquela era a oportunidade perfeita para
fazer algumas perguntas.
— Ótimo, obrigado. Indo direto ao ponto: onde você acha que eu fui hoje?
— Ding ding ding. Garota esperta. Ok, próxima pergunta: você sabe por que eu fui ao
festival?
— Você ia ajudar em uma das barracas, certo? Foi o que você disse ontem, de qualquer
forma…
Aha. Então eu estava ajudando na organização ou algo assim. Isso explicaria por que aquela
mulher loira se sentia em dívida comigo — ela devia fazer parte do comitê organizador. O
motivo de eu ter concordado em ajudar ainda era um mistério, mas pelo menos agora eu
sabia por que estava lá. Eu tinha receio de que Eri ficasse desconfiada se perguntasse
diretamente, então disfarcei como se fosse um joguinho de perguntas. Pelo visto,
funcionou. Eri não parecia suspeitar de nada.
— Parabéns, jovem dama! Você acertou todas as respostas! …Ok, só foram duas perguntas,
mas ainda assim. Obrigado por participar, e até a próxima!
Enquanto eu fazia uma saída dramática da sala, ouvi Eri murmurar uma única palavra.
— Esquisito.
↺
De volta ao meu quarto, sentei-me à mesa e peguei uma caneta e um caderno da gaveta.
Abri em uma página em branco e tentei recriar o diagrama que Akari desenhou na terra
quando me explicou o Rollback. O incidente no festival me deixou um pouco desnorteado,
então eu queria refrescar a memória e garantir que não tinha esquecido nada do que ela me
disse. Desenhei as datas e setas uma por uma, avançando um dia, depois retrocedendo dois.
Quando tracei a última seta até o dia 2 de abril, larguei a caneta. Ok, certo. Ainda me lembro
direitinho. Estamos bem.
Enquanto olhava para o diagrama, uma dúvida antiga voltou à minha mente. Era algo que
tentei perguntar a Eri na noite em que caminhávamos para o velório de Akito.
Se apenas minha mente estava saltando no tempo, isso significava que meu corpo ainda
havia vivido aqueles quatro dias na ordem natural. Em outras palavras, o corpo em que eu
estava agora já havia passado por todos os eventos que eu estava prestes a reviver, mas
minha mente não se lembrava porque estava experimentando tudo na ordem inversa.
Peguei meu celular, pensando que talvez houvesse algo registrado nele que pudesse me dar
pistas sobre o que fiz nos últimos dias. Eu já esperava que fosse um tiro no escuro, mas
quando toquei no aplicativo de Notas, ele abriu direto em um conjunto de anotações que eu
não me lembrava de ter feito.
02/04: Encontrei o corpo de Akito às 18h30 no terreno baldio atrás da tabacaria e chamei a
polícia.
Estava bebendo bastante naquela noite no Asuka Tavern, das 21h à meia-noite.
Tudo ali eram detalhes relacionados à morte de Akito. O segundo ponto eu já tinha ouvido
da Akari, mas os outros dois eram informações totalmente novas para mim. Franzi a testa e
reli cada palavra com cuidado, até que, de repente, tudo fez sentido.
— Oh, claro! — exclamei, enquanto a lâmpada de ideias acendia na minha cabeça.
Eu devia ter digitado essas anotações em algum momento entre seis horas da tarde de 1º de
abril e seis horas da tarde de 4 de abril. Para simplificar, essas eram informações que meu
futuro eu havia deixado para mim no passado. Isso explicava porque havia detalhes ali que
eu ainda não sabia. Mas, se fosse esse o caso, não pude deixar de me perguntar o quão
precisas essas informações realmente eram… exceto, é claro, pelas coisas que Akari já me
contou.
Por exemplo, o primeiro ponto parecia sugerir que eu tinha encontrado o corpo de Akito no
terreno vazio atrás da loja de tabaco e o havia reportado às autoridades. Akari me disse que
o corpo foi encontrado exatamente naquele local, mas não mencionou quem o encontrou.
Parecia um detalhe relevante se fosse eu. Ainda assim, o fato de estar escrito ali, no meu
próprio celular, me inclinava a acreditar que fosse verdade. Nesse caso, provavelmente
havia um registro da minha ligação para o número de emergência naquele horário. Ao
perceber isso, rapidamente abri o histórico de chamadas recentes.
CHAMADAS RECENTES
No entanto, achei um pouco peculiar que eu tivesse feito tantas ligações para Akari nos
últimos dias — especialmente ontem, quando aparentemente tivemos três chamadas em
questão de horas. Vamos ver… Ontem foi dia 3, então… Talvez tivéssemos combinado de nos
encontrar ou algo assim?
De qualquer forma, agora eu tinha uma compreensão muito melhor dos detalhes da morte
de Akito. Só restava agora descobrir o que eu tinha feito nos últimos dias, mas
provavelmente conseguiria descobrir isso facilmente com algumas perguntas bem
formuladas para Eri ou minha avó. Como se tivesse lido minha mente, Eri gritou de baixo
para me avisar que o jantar estava pronto.
Quando me levantei da cadeira, ouvi algo amassando no meu bolso esquerdo. Coloquei a
mão e descobri uma misteriosa nota de mil ienes dobrada. Talvez eu tivesse planejado
usá-la para comprar um lanche no festival ou algo assim. Desdobrei a nota e a coloquei na
minha carteira, então desci para a cozinha.
↺
— Oi, vovó, posso te perguntar uma coisa? — perguntei depois que terminamos de comer e
ela estava lavando os pratos na cozinha.
— O que foi, querido? — ela respondeu sem sequer se virar, continuando a esfregar o prato
que estava lavando.
— Você lembra o que eu tenho feito desde que voltei para Sodeshima?
Eu tinha planejado falar com Eri primeiro, mas depois achei que ela provavelmente ficaria
desconfiada sobre o motivo de eu estar perguntando isso e decidi perguntar para minha
avó em vez disso. Minha avó não era uma pessoa muito cética, geralmente respondia
qualquer pergunta de maneira direta, sem questionar a intenção de quem perguntava.
Infelizmente, parecia que eu tinha cometido um pequeno erro de cálculo desta vez.
— Como é que é? — ela perguntou, surpresa, virando-se para me encarar. — Nossa, que
pergunta vaga.
— Er, sim, desculpa. Vamos começar com o dia em que cheguei aqui? 1º de abril. O que mais
te marcou sobre mim naquele dia?
— Foi há vários dias já, Kanae… Bem, você brigou um pouco com sua irmã — ela lembrou,
mas isso eu já sabia. O que eu realmente queria saber era o que eu fiz depois das seis da
tarde naquele dia.
— Certo, Eri e eu brigamos e eu saí de casa. Mas o que eu fiz depois disso? — insisti.
— Querido, por que está me fazendo essas perguntas estranhas? Você não deveria saber a
resposta para isso?
— Claro, claro que eu sei… Eu só estava curioso para saber o quanto você se lembra ou
sabe.
— Como eu poderia saber o que você fez depois disso? Você não voltou para casa naquela
noite.
— Eu não voltei?
— Não, não lembra? Você ligou aqui para dizer que passaria a noite na casa de uma amiga.
Sério, querido — como é que minha memória é melhor que a sua?
Aha. Isso explicava o registro no meu histórico de chamadas, de quando liguei para casa
naquela noite. Para deixar claro, ainda tinha a casa da minha avó registrada como "Casa" na
minha lista de contatos, mesmo depois de me mudar para Tóquio, porque meu pai não
tinha telefone fixo. Mas o que era isso de eu ter passado a noite na casa de uma amiga? Não
tinha amigos aqui em Sodeshima que me oferecessem para ficar na casa deles — nem em
Tóquio, para ser honesto. Claro, tinha a Akari, com quem eu era relativamente próxima, mas
não havia a menor chance de eu ter passado a noite na casa de uma amiga. Então, onde foi
que eu dormi naquela noite?
— De quem era a casa, afinal? — minha avó perguntou antes mesmo que eu tivesse a chance
de fazer a pergunta. — Eri também estava curiosa sobre isso.
— Como é? — ela perguntou, surpresa, virando-se para me encarar. — Não me diga que
você passou a noite na casa de algum vagabundo que seu pai e eu não aprovaríamos.
— Você não parece muito certo de si. Não foi se meter em nenhum negócio suspeito, foi?
Se estiver em perigo, precisa nos contar. Se não for a mim, então ao seu pai, pelo menos...
— Er, sim. Não, entendo isso. Mas é sério — eu te conto assim que eu puder, tá? Tchau.
— A água do banho está pronta, então fique à vontade para se lavar! — ela gritou enquanto
eu saía apressado da cozinha. Enquanto caminhava para o banheiro, senti uma onda
repentina de ansiedade cobrir minha mente, como nuvens negras de tempestade se
aproximando.
↺
Depois de um banho rápido, voltei para o meu quarto. Passei todo o tempo na banheira
tentando descobrir onde poderia ter passado a noite de 1º de abril, mas ainda não
conseguia chegar a uma conclusão. Eu nunca tinha passado a noite na casa de um amigo,
por mais triste que fosse — então para eu fazer isso enquanto já estava fugindo de casa
parecia quase impensável. Deveria ter havido uma razão muito convincente para eu não
poder voltar para a casa da minha avó naquela noite, e o fato de que no dia 1º foi também a
noite em que Akito morreu me fez pensar que talvez as duas coisas estivessem
relacionadas.
Não, isso não poderia estar certo. Não se o corpo só foi encontrado na noite seguinte.
Ainda assim, eu precisava descobrir onde tinha passado a noite. Não queria deixar nenhuma
pergunta sem resposta antes de voltar para o dia 1º, pois assim poderia dar toda a minha
atenção para salvar a vida de Akito. Não que eu tivesse qualquer prova concreta de que o
Rollback me levaria tão longe, mas queria estar preparado caso isso acontecesse. Eu
precisaria fazer uma investigação pela cidade assim que amanhã chegasse.
Estava prestes a pular na cama quando avistei o caderno que tinha deixado sobre a minha
mesa. Abri-o por impulso e dei outra olhada no diagrama do Rollback que eu tinha
desenhado mais cedo. Então, uma ideia me ocorreu: Quando exatamente o Rollback deveria
acabar? O diagrama da Akari terminava às 18h do dia 2 de abril — e sim, foi quando eu
terminei de preencher o vazio de quatro dias nas minhas memórias — mas o que
aconteceria depois disso?
Decidi que provavelmente não deveria pensar muito sobre isso, não ia encontrar respostas
desse jeito. Por enquanto, precisava de descanso. Meu corpo inteiro estava extremamente
dolorido — talvez de ter ajudado no festival, se o que Eri disse fosse verdade. Obviamente
minha mente não se lembrava de ter feito nenhum trabalho pesado, mas meu corpo
certamente lembrava. Fechei o caderno e me aninhei sob as cobertas. Em questão de
minutos, já estava dormindo profundamente.
↺
Fui acordado pelo som do meu celular vibrando. Peguei-o com uma mão, esfregando os
olhos com a outra. Depois que minha visão se ajustou, olhei para a tela e vi o nome Akari
Hoshina.
— Oh, você atendeu! Ei, Kanae-kun! Desculpa por te ligar a essa hora. Você provavelmente
já estava dormindo, né?
— Por que você está ligando tão tarde? — perguntei, abafando um bocejo. — Precisa de
alguma coisa?
— Bem, eu não diria que preciso de algo. Só estava me perguntando se talvez, sei lá — ela
murmurou, sua voz ficando cada vez mais baixa. Coloquei o celular bem perto do ouvido,
mas mesmo assim estava difícil entender.
— Mm-hmm… — ela respondeu com uma voz fraca. Eu podia praticamente ver os olhinhos
de cachorro implorando do outro lado da linha. Isso também era bem incomum; a Akari que
eu conhecia jamais ligaria tão tarde da noite, muito menos pediria para se encontrar. O fato
de ela estar fazendo isso agora me fez pensar que algo devia estar errado. Preocupado com
ela, concordei de imediato.
— Espera, sério? Você quer dizer mesmo? …Ok, me encontra no Central Park em, tipo, vinte
minutos.
O Central Park era um parque pequeno, mas popular, que ficava um pouco mais para dentro
da ilha. Geralmente, quando alguém de Sodeshima dizia "me encontra no parque", era esse
que estavam se referindo. Achei que Akari tivesse especificado para eu saber que ela não
estava falando do parque antigo e abandonado que eu havia descoberto outro dia.
Depois de desligar o telefone, saí da cama e troquei o pijama por uma calça de moletom e
um hoodie. Sabia que levaria uns dez minutos para chegar lá, mas decidi sair mais cedo
mesmo assim. Desci as escadas com cuidado para não acordar o resto da família,
esgueirando-me pela porta dos fundos e fechando-a silenciosamente atrás de mim.
Quando o ar gelado da noite tocou minhas bochechas, qualquer vestígio de sonolência que
eu ainda sentia desapareceu instantaneamente. O vento gelado varria as ruas desertas do
bairro, me congelando até os ossos.
O som dos meus tênis arrastando no asfalto ecoava alto pelas ruas em um ritmo staccato.
Sodeshima estava incrivelmente silenciosa à noite nessa época do ano. Enquanto em
Tóquio você nunca escapava do constante zumbido dos motores de carros passando, aqui o
mundo parecia parar assim que o sol se punha. Claro, de vez em quando passava algum
idiota roncando na moto, mas esses caras eram iguais em qualquer lugar.
Cheguei no parque antes que eu percebesse, mas Akari não estava lá. Olhei para o grande
relógio de rua, com seu mostrador iluminado pela luz de um poste, e vi que eu havia
chegado quase dez minutos mais cedo. Sentei em um banco de parque para esperar, e o
metal gelado logo começou a drenar todo o calor que eu tinha acumulado na pele quente
durante a corrida.
Brrr, eu tremi, percebendo tarde demais que deveria ter colocado mais uma camada de
roupa.
Nada faz a imaginação correr tanto quanto a expectativa de esperar alguém chegar. Se eu
soubesse que chegaria tão cedo, talvez fosse uma boa ideia passar na casa da Akari e pegar
ela no caminho. Mesmo morando aqui na área afastada, ainda era perigoso para uma jovem
como ela andar sozinha à noite.
Você nunca sabia quem poderia estar escondido nas sombras, e a falta de luz tornava mais
difícil ver para onde estava indo. Eu nunca tinha feito um encontro noturno com uma
garota como aquele antes, então acho que acabei esquecendo de considerar esse aspecto.
Talvez fosse uma boa ideia ligar para ela e sugerir de encontrá-la em um lugar mais perto,
mesmo que ela provavelmente já tivesse saído.
Justo quando eu estava prestes a tirar o celular do bolso, notei uma figura sombria na
entrada do parque, e soube imediatamente pela silhueta que era a Akari. Levantei-me
rapidamente e chamei o nome dela. Ela veio correndo assim que identificou onde eu estava.
Agora, sob a luz do poste, eu realmente pude ver como Akari estava. Ela usava um cardigan
grosso e largo, com os dedos aparecendo pelas mangas longas enquanto segurava o tecido
com força. Uma sensação estranha se formou dentro de mim — havia algo excitante em nos
encontrarmos no meio da noite, ainda mais porque nunca havíamos feito algo remotamente
parecido antes.
— Ah, ok. Enfim, desculpa por te tirar da cama tão tarde — ela disse.
Eu estava prestes a perguntar por que ela me chamou para nos encontrarmos, quando de
repente a imagem dela chorando sob a árvore de cerejeira no parque abandonado veio à
minha mente. O rosto dela, encharcado de lágrimas, se sobrepôs perfeitamente ao da Akari
à minha frente agora. Não conseguia tirar da cabeça o som dela chorando suavemente
enquanto Greensleeves começava a tocar, e pétalas voavam pelo céu. Eu ainda queria
entender a razão por trás das lágrimas, então decidi mudar de pergunta.
— Hã...? Chorando? Quando foi isso? — ela respondeu, me encarando com uma expressão
de confusão.
Então me dei conta. Nos encontramos no parque abandonado no dia 6, e agora era apenas
o dia 5. Claro que essa Akari não saberia do que eu estava falando.
— Er, n-não importa. Esquece o que eu falei. Desculpa, acho que ainda estou me
acostumando com essa coisa de Rollback…
— Nem me fala. Se você não tivesse me explicado tudo, eu provavelmente estaria encolhido
em posição fetal em algum lugar agora.
— Espera. Quando foi que eu te expliquei alguma coisa? — ela perguntou, inclinando a
cabeça para o lado.
— Ah, certo. Isso também foi ontem... Ou melhor, amanhã. 6 de abril. Você me passou o
resumo no parque abandonado.
— Eu fiz...? Hmm. Que estranho — disse ela, sua expressão claramente indicando que ainda
estava confusa, mas já tinha desistido de tentar decifrar meu discurso lunático. E eu não
podia culpá-la por isso — imagine ser informada sobre algo que você fez em um dia que
nem sequer aconteceu ainda. Depois dos últimos dias, eu entendia bem essa sensação.
— De qualquer forma, por que você queria tanto se encontrar comigo? Aconteceu alguma
coisa? — perguntei.
— Não sei — ela disse, desviando o olhar. Levou um punho cerrado até o peito. — Sempre
que eu fechava os olhos, ficava tendo esses pensamentos sombrios... Tipo, de alguém que
eu amo indo para bem longe ou, um dia, decidindo que não gosta mais de mim... coisas
assim. Eu não conseguia suportar.
Pareciam ansiedades vagas e abstratas, ainda mais vindo da Akari. Mesmo assim, eu não me
sentia à vontade para insistir no assunto, especialmente vendo sua expressão vulnerável.
Não sabia se era sempre a mesma pessoa que ela imaginava nesses momentos — talvez seu
irmão ou alguma figura sem rosto representando o mundo ao seu redor. De qualquer forma,
estava claro que a morte de Akito tinha abalado completamente seu estado mental. E,
mesmo sem saber todos os detalhes, era evidente que ela estava tão abalada que não
conseguia dormir e acabou me ligando no meio da noite, só para ter alguém ao lado dela.
No mínimo, eu lhe devia isso, como seu amigo de longa data.
— Certo. Então, vamos conversar um pouco, que tal? — Sorri, e a expressão da Akari
suavizou imediatamente, transparecendo alívio.
— Obrigada, Kanae-kun.
— Não precisa agradecer. Às vezes é bom sair de casa — respondi e, em seguida, mudei o
assunto para algo mais leve. — E então, o que você fez hoje?
— Hoje...? Para ser honesta, não fiz muita coisa. Minha mãe ficou no telefone praticamente
o dia todo, fazendo ligações sobre o meu irmão.
— Acho que ela estava ligando para vários médicos de um hospital universitário. Tentando
conseguir mais informações sobre ele, imagino.
— Entendi... Que curioso — murmurei, sem saber o que dizer.
Se Akito já estava morto quando o encontrei, então não havia como tê-lo transferido para
tratamento. O que significava que... provavelmente estavam fazendo a autópsia dele. Mordi
o lábio, percebendo que talvez tivesse acabado de trazer mais pensamentos desagradáveis
para a cabeça dela. E, enquanto tentava desesperadamente pensar em um assunto mais
animador, uma rajada de vento gelado passou zunindo por nós. Agora, oficialmente
congelando, esfreguei os braços numa tentativa inútil de gerar calor por fricção.
— Caramba, tá frio pra caramba aqui — resmunguei. — A gente pode ir para outro lugar?
Em Tóquio, havia lanchonetes e restaurantes 24 horas espalhados por toda parte, mas aqui
em Sodeshima não existia nada disso. As únicas opções abertas a essa hora eram alguns
bares e pubs pequenos — e, infelizmente, ainda éramos menores de idade.
— Bem, não é aquecido, mas eu conheço um lugar onde podemos nos abrigar do frio —
disse Akari.
— O colégio Sodeshima.
↺
Depois de escalarmos o portão da frente, nós dois aterrissamos do outro lado e seguimos
direto pelo centro do campo de esportes vazio. À minha frente, Akari caminhava com um
pulinho confiante no passo, sem sequer tentar ser discreta.
— Ei! — sussurrei, apreensivo. — Tem certeza de que não vamos nos meter em encrenca
com isso?
— Relaxaaa — disse ela, dando de ombros. — O único segurança vai embora às dez da noite.
Não tem a menor chance de sermos pegos. Confia em mim.
— Espera, sério? Eles simplesmente não se importam com invasores ou...? Quer saber,
esquece. Mas, mesmo que a gente não seja pego, isso ainda é super ilegal, né?
— Não pense nisso como algo ilegal, pense como uma aventura! Você não quer viver uma
aventura comigo, Kanae-kun...? — ela murmurou, fazendo beicinho.
O rosto de Akari se iluminou de alegria enquanto ela girava nos calcanhares e corria para o
prédio da escola. Não havia mais volta — eu teria que acompanhá-la nessa.
↺
Depois de cruzarmos o campo, começamos a contornar o perímetro do edifício principal.
Quando chegamos mais ou menos na metade do caminho, Akari parou de repente diante de
uma janela de vidro fosco deslizante.
Eu nem queria imaginar como ela pretendia entrar, mas, sem hesitar, ela agarrou as laterais
da janela e começou a sacudi-la no batente.
— Ei, não me olha assim — ela fez bico. — Se você parar pra pensar, a culpa é deles por
nunca consertarem essa fechadura.
Agora eu estava completamente perdido. Como eu poderia saber? Nunca estudei aqui.
— Ah, pera — Akari exclamou, batendo na própria testa como se tivesse tido uma epifania.
— Desculpa, que burrice a minha — claro que você ainda não saberia disso. Dã.
Por um momento, um enorme ponto de interrogação surgiu na minha cabeça, mas logo
entendi. Pelo tom dela, parecia que, em algum momento nos últimos dias, ela havia me
falado sobre a trava quebrada da janela, mas era algo que eu ainda não tinha vivenciado.
Nesse caso, fazia sentido ela achar que já tinha me contado, enquanto eu não fazia ideia do
que ela estava falando. Percebendo o engano, Akari começou a explicar.
— Então, basicamente, todas essas janelas têm trincos, mas essa aqui tá meio esquisita. A
alavanca não gira completamente e a trava não encaixa. Se você mexer um pouco assim e
aplicar um pouco de pressão horizontal… — Ela disse enquanto demonstrava. Dito e feito, a
janela se abriu com facilidade, e ela me lançou um sorriso convencido. — E voilà! Viu?
Moleza.
— Uau, estou impressionado. Você realmente conhece esse lugar como a palma da mão.
— Bom, eu espero que sim! Já faz dois anos que estudo aqui.
Akari se impulsionou para cima do parapeito da janela e pulou para dentro. Ainda parecia
um pouco invasivo demais para o meu gosto, mas a segui mesmo assim. Assim que entrei,
percebi que estávamos no banheiro feminino. O lugar estava completamente vazio, mas
mesmo assim me senti um intruso ali, então saí rapidamente para o corredor principal.
— Uau… Isso é bem legal — murmurei para mim mesmo — embora até isso tenha ecoado
pelo corredor vazio.
O luar suave entrando pelas janelas oferecia alguma iluminação, mas a escola ainda estava
bem escura. Olhei para o final do corredor, onde a única coisa visível era o brilho
fantasmagórico da lâmpada vermelha do alarme de incêndio. Mesmo sendo alguém que não
se importava em vagar por partes abandonadas da cidade, tive que admitir que o ambiente
era um pouco assustador. Por outro lado, também era emocionante — essa era a primeira
vez que eu invadia uma escola à noite. Comecei a caminhar hesitante pelo corredor, até que
um pensamento preocupante me atingiu.
— Não se preocupa com isso — disse Akari, saindo do banheiro feminino no momento em
que eu me ajoelhava para desamarrar os tênis. — Aqui a gente pode usar calçado de rua,
não tem problema.
Akari seguiu pelo corredor, e eu fui atrás. Ela não demonstrava nem um pingo de hesitação
— pelo contrário, parecia até confortável ali.
— Ei, Akari. Vai com calma — falei, alcançando-a. — Você não tá com medo, não?
— Ah, por favor. Isso aqui é fichinha comparado a ontem. Além do mais, você tá comigo, não
tá? O que eu teria pra temer?
Não soube o que responder. Só queria que ela parasse de dizer coisas que soavam como
flerte, porque eu nunca sabia como reagir. E o que era isso sobre ontem? Será que realmente
tínhamos feito algo ainda mais assustador do que invadir a escola à noite? Nem conseguia
imaginar o que poderia ser.
— Por quê? Você tá com medo, Kanae-kun?
— Então tá apavorado. Entendi — ela debochou, parando diante de um par de portas duplas.
— Ah, olha só, aqui é a biblioteca. Quer dar uma olhada?
— Vamos descobrir — disse ela, puxando as maçanetas com força. Mas as portas não se
moveram. — Bom, droga. Tá trancado.
— É, sem surpresa — comentei com um sorriso torto, enquanto Akari coçava a bochecha e
ria sem jeito. Passamos pela biblioteca e logo chegamos à escada principal.
Só depois de falar percebi que estava basicamente desabafando. Me senti mal. Akari não era
minha terapeuta, e ouvir minhas reclamações não devia ser muito divertido pra ela.
— Que nada. Todo mundo tem seus problemas. Bom saber que não sou a única… Ah, olha
só. Chegamos — ela disse, parando em frente a uma sala com uma placa enorme indicando
o SEGUNDO ANO. — É aí que eu sentava até um mês atrás! Meio louco pensar nisso.
Ela apontou com orgulho para a janela da sala, enquanto eu encostava a testa no vidro para
tentar enxergar melhor. Para o tamanho da sala, não havia tantas carteiras — talvez umas
trinta no máximo.
—Você não tá errado. Mas olha só — deixaram a janelinha acima da porta bem aberta pra
gente.
Enquanto eu balançava a cabeça em descrença, ouvi um "Hup!" animado e me virei para ver
Akari já escalando o peitoril da janela ao lado, tentando se enfiar pela pequena abertura
acima da porta. Quando estava quase passando, soltou um grito súbito de dor.
— Ei, você está bem? — perguntei quando ela voltou a se abaixar no corredor.
— Sim, desculpa… — Ela fez uma careta enquanto massageava um dos lados da parte
inferior das costas e da cintura. — Achei que já estaria completamente curada, mas ainda
dói de vez em quando.
— Ah, hm… Mais ou menos. Mas já estou tipo noventa e nove por cento boa, então não se
preocupa. Não é nada demais.
— Tem certeza…?
Akari assentiu, mas com uma expressão um tanto melancólica. Fosse o que fosse, estava
claro que ela não queria falar sobre o assunto, então resolvi deixar pra lá e mudar de
assunto.
— Certo, que tal eu entrar primeiro e destrancar a porta pra você por dentro? — sugeri.
Subi no parapeito da janela ao lado, assim como Akari havia feito, e me esgueirei para
dentro da sala de aula pela janela mais alta, acima da porta. Lá dentro, o ambiente parecia
ainda mais espaçoso do que do lado de fora. O cheiro de madeira e cera fresca encheu
meus pulmões enquanto eu observava as fileiras organizadas de carteiras vazias. O pálido
brilho azul da lua, filtrado pelas vidraças, banhava os tampos das mesas com uma luz suave.
Destranquei a porta para Akari, e ela entrou, passando por mim. Depois de dar uma boa
olhada no local, caminhou até uma carteira perto da janela e se sentou.
— Sim, esse era o meu lugar. Senta aí, Kanae-kun — disse, indicando a carteira à sua frente
enquanto deslizava a mão sobre a superfície lisa de madeira.
Agora que ela mencionou, percebi que quase não tinha boas lembranças dos anos do ensino
fundamental. Eu sempre era tratado como um pária pelos colegas, sofria provocações e,
quando achava que tinha feito amigos, acabava traído. Foi um período horrível. Ainda assim,
eu valorizava todo o tempo que passei com Akari naquela época.
— Se pudesse voltar pro primário, o que faria diferente? — Akari perguntou, apoiando o
cotovelo na carteira.
— Boa pergunta — respondi. — Provavelmente estudaria pra valer desde o primeiro dia e
tentaria entrar na Universidade de Tóquio.
— Eu? Hm… — Ela cruzou os braços, pensativa. Não achei que fosse uma pergunta tão
profunda, mas esperei pacientemente pela resposta, até que ela teve um estalo. — Eu queria
ter ido a mais excursões!
— Sim, mas a gente tinha muito mais passeios naquela época, lembra? Só que sempre
acabavam cancelados por causa da chuva ou algo assim.
— Ah, é verdade. Parecia até que o clima tinha alguma rixa com a nossa turma — sempre
esperava até a manhã do passeio pra virar um temporal.
(N/SLAG: A lei de Murphy diz que se algo pode dar errado, vai dar errado.)
— Quinta série? Você tá falando daquela vez em que caiu de cara numa poça de lama
gigante?
— Essa mesma!
Isso trouxe uma enxurrada de memórias. Nossa turma tinha feito uma excursão para subir
uma pequena montanha no continente. Fazia tempo que não saíamos juntos, então todos
estavam animados, Akari incluída — pelo menos até escorregar e cair direto na lama. Jamais
esquecerei a mudança repentina na expressão dela, de pura empolgação para completo
desespero.
— Mas aí você caiu logo em seguida também, lembra? Como foi isso mesmo? — Akari
perguntou, e só então percebi que tinha esquecido desse detalhe. Depois que ela
escorregou, eu praticamente mergulhei na lama logo atrás.
Na verdade, eu tinha me jogado de propósito. Não queria ficar parado vendo todo mundo
rindo da Akari coberta de lama, então decidi cair junto para tentar desviar um pouco da
atenção dela. Mas meu plano saiu pela culatra — em vez de parar de rir, a turma achou
ainda mais engraçado ver nós dois naquela situação. Ainda assim, depois de todos esses
anos, eu não me sentia confortável em contar a verdade, então tentei disfarçar com uma
desculpa fraca.
— Ah, é meeesmo…? Bom, tudo bem. Ei, isso me lembrou — falando em excursões…
— Ah... Nem tanto — menti, decidido a ficar aqui e conversar com ela só mais um pouco. A
verdade é que eu estava extremamente cansado, e nossa conversa estava morrendo —
então forcei minha mente em busca de outro assunto antes que ela sugerisse que talvez
devêssemos encerrar a noite.
— É sobre a noite em que Akito morreu. Você tem ideia do que eu estava fazendo ou onde
eu estava depois que me despedi de você lá no quebra-mar?
Assim que a pergunta saiu da minha boca, os olhos da Akari se arregalaram, como se eu a
tivesse pego em uma situação comprometedora. Ela parecia genuinamente chocada; sua
boca se abriu levemente, mas nenhuma palavra saiu. Tudo o que ouvi foi uma respiração
longa e superficial. Preocupado, chamei seu nome de novo, e desta vez ela saiu do transe.
Então, sua expressão se transformou em um sorriso descaradamente forçado.
— Sim. Minha avó disse que eu passei a noite na casa de um amigo, mas eu não conseguia
pensar em nenhum amigo que faria isso por mim. Fiquei me perguntando se você sabia de
algo.
— Ahm... Não, desculpa. Eu só te vi aquela vez no quebra-mar naquele dia, então não faço
ideia do que você fez depois disso...
Isso não levou a nada. Se Akari não sabia, então eu não fazia ideia de quem mais perguntar.
Nem Eri nem minha avó pareciam saber também. Eu tentava pensar em outras formas de
investigar quando ouvi Akari soltar um pequeno suspiro ao meu lado. Me virei para ela e vi
que cobria a boca com uma das mãos, o que dificultava ver sua expressão.
— O que foi? — perguntei, e ela se virou para mim lentamente, com um olhar temeroso. Sua
testa estava franzida, como se tivesse percebido um erro grave. Depois de alguns
momentos de silêncio, ela abaixou a mão e forçou um sorriso fraco, tentando me
tranquilizar.
— Não é nada, desculpa — disse. — Só tive um mau pressentimento porque não lembro se
tranquei a porta ao sair.
— Ah, entendi... Sim, isso acontece comigo o tempo todo — concordei, embora achasse sua
reação um tanto exagerada. Reforcei. — Então, tem certeza de que está tudo bem?
— Sim. Pensei melhor e agora tenho uns noventa e nove por cento de certeza de que
tranquei a porta, na verdade. Então tá tudo certo.
Ela me deu um sorriso descontraído, que finalmente me convenceu de que não era nada
demais — mesmo que sua reação inicial ainda me parecesse estranha. Provavelmente era só
coisa da minha cabeça. Akari se levantou da cadeira e se espreguiçou.
— Certo, já tá bem tarde. Ou cedo, eu acho. Que tal irmos pra casa?
Mesmo sem querer me despedir, eu sabia que não podíamos ficar ali para sempre.
Levantei-me também. Deixei Akari sair da sala primeiro para que eu pudesse trancar a
porta por dentro e depois saí pela janela alta, do mesmo jeito que entrei.
— Bom, acho que esse é o fim do tour, né? — brinquei enquanto caminhávamos pelo
corredor.
— É, não tem muito mais pra ver — Akari assentiu. — Além disso, todas as outras salas já
devem estar trancadas... Ah, mas na verdade tem um lugar que eu ainda quero te mostrar
antes de irmos. Vem cá rapidinho.
Segui Akari escada acima, passando pelo terceiro andar, até a área de acesso ao telhado. Lá,
só havia algumas pilhas de carteiras estudantis fora de uso e a porta que levava ao lado de
fora, trancada com um cadeado comum — o que significava que não podíamos sair.
— Claro que não. Me dá um pouco mais de crédito, vai? Tá do outro lado dessa porta.
Akari puxou dois fios pequenos de dentro de uma carteira próxima. Pareciam grampos de
cabelo que haviam sido entortados até ficarem relativamente retos. Antes que eu pudesse
processar o que ela estava prestes a fazer, ela já tinha enfiado os fios no cadeado e
começado a mexer neles. Em questão de segundos, o cadeado foi destrancado.
— Aí está! — ela exclamou. — E então? Bem legal, né?
— Eu costumava vir aqui sempre que queria um tempo sozinha. E, bom… sempre via esse
cadeado aqui, e eventualmente comecei a me perguntar o quão difícil seria quebrá-lo,
sabe? Então comecei a praticar só por tédio, basicamente, mas acabei pegando o jeito
rapidinho.
— O que posso dizer? Sou uma mulher simples. Vejo uma porta, quero abrir.
Akari fez exatamente isso, e uma rajada de vento gelado entrou pela porta recém-aberta.
Atravessei a entrada e parei por um momento para recuperar o fôlego. Uma lua cheia
brilhava no céu noturno sem nuvens. Abaixo dela, pontos de luz esporádicos dos barcos de
pesca espalhavam-se pelo oceano e, no horizonte distante, as luzes da cidade podiam ser
vistas. A vista era deslumbrante. Parecia que estávamos no centro de uma pintura
impressionista panorâmica.
— É, uau… É a minha primeira vez aqui à noite, mas nem eu esperava que fosse tão incrível
— Akari concordou. Então, ainda olhando para o céu, começou a andar lentamente em
direção à borda do telhado. A cerca de proteção ao redor tinha apenas a altura da cintura, o
que não ajudava muito a aliviar minha preocupação. A escola ficava em um ponto tão
elevado da ilha que nada ao redor bloqueava os ventos fortes. Mas Akari não parecia se
importar. Ela segurou o corrimão e inclinou o corpo para frente, ultrapassando a borda.
— Ah, eu vou ficar beeem — ela respondeu. — Ei, vem cá, Kanae-kun — insistiu, mas eu já
estava indo. Tomei meu lugar ao lado dela, apoiando-me no corrimão e deixando meus
olhos absorverem a paisagem noturna à nossa frente. Por mais linda que fosse, eu hesitava
toda vez que olhava para baixo daquela altura. Estava tão escuro que eu nem conseguia ver
o chão. Tudo que via era um abismo negro e profundo. Estremeci.
— Ah, é meeesmo — ela murmurou, me olhando com suspeita. Um instante depois, abriu
um sorriso travesso, como se tivesse acabado de bolar um novo jeito de me provocar. Sem
dizer nada, se inclinou e encostou o ombro no meu. Por um segundo, fiquei completamente
desconcertado. Mas então decidi bancar o indiferente e agir como se aquilo não me
afetasse. Eu não ia dar esse gostinho a ela. O cheiro do shampoo dela flutuou no ar entre
nós, fazendo cócegas no meu nariz.
— Sabe, este é o meu lugar favorito em toda Sodeshima — ela sussurrou no meu ouvido. —
Durante o dia também é lindo. Dá pra ver o oceano, a ilha inteira e até o continente ao
longe.
— Não é? …Olha, ali está o Grande Carro — ela disse, apontando para o céu e traçando as
estrelas com o dedo.
— Você ficaria surpresa, na verdade. A poluição luminosa não atrapalha tanto quanto as
pessoas acham.
— Sério?
— Sim. E a paisagem noturna também é linda, claro. De certa forma, é como se o céu
estrelado e as luzes da cidade se juntassem para formar um grande e harmonioso degradê.
— Nossa… Você falando assim faz parecer ainda mais legal — ela disse e, em seguida,
abaixou o olhar de volta para o oceano. Estendeu a mão na direção do continente distante e
sussurrou para si mesma
— Então vá.
— Claro que conseguiria. Só precisa se arriscar — eu disse. — E, se não der certo, você
sempre pode morar comigo, sabe.
Akari me olhou, surpresa. E eu não podia culpá-la — nem eu acreditava no que acabara de
dizer. Basicamente, eu tinha acabado de pedir ela em casamento. Levou alguns segundos
até a ficha cair completamente, mas quando caiu, meu rosto inteiro ficou vermelho. Tentei
me retratar.
— E-Er, foi mal. Não quis dizer de um jeito estranho nem nada…
Akari me abraçou. Sem aviso, sem hesitação. Fiquei tão surpreso que congelei no lugar,
incapaz até de retribuir o abraço. Com as mãos agarradas na parte de trás do meu
moletom, ela apoiou a cabeça no meu ombro. A combinação do toque suave e do perfume
doce deve ter fritado meu cérebro, porque, por um momento, esqueci até de respirar.
Fiquei ali, sem pensar em nada, apenas deixando-me ser envolvido por Akari — incapaz de
surtar e estragar o momento.
Então, depois de um tempo, senti sua respiração quente atravessando o tecido do meu
moletom. Ela tentava dizer algo.
Sua voz era frágil e assustada, como a de uma criança perdida que foi deixada para trás
pelos pais. Eu não conseguia entender exatamente o significado dessas palavras, nem se
havia algo mais por trás delas. Mas sabia que só havia uma resposta possível.
Finalmente consegui envolver minhas mãos trêmulas ao redor das costas de Akari. A tensão
ainda prendia cada centímetro do meu corpo, mas, de alguma forma, consegui forçar meus
braços a abraçá-la. Eu sabia que era a coisa certa a fazer. Ficamos ali assim por alguns
segundos – ou talvez minutos – até que, por fim, Akari se afastou delicadamente. Agora,
suas bochechas levemente coradas estavam a meros centímetros do meu rosto, e eu pude
ver seus olhos enevoados brilhando sob a suave luz da lua.
↺
No caminho de volta para a casa de Akari, continuamos conversando sobre coisas triviais,
como se o abraço no terraço não tivesse passado de um delírio febril. Falávamos com a
mesma naturalidade de antes, como na sala de aula, cerca de uma hora atrás,
revezando-nos ao relembrar memórias que nos faziam rir ou nos deixavam surpresos. Era
tudo tão espontâneo que, por um momento, comecei a me perguntar se o que aconteceu
no terraço não teria sido apenas fruto da minha imaginação.
Ainda assim, não consegui parar de me questionar sobre o motivo de ela ter sido tão
assertiva ao me abraçar daquele jeito. Obviamente, foi uma demonstração de afeto — o que
eu não conseguia entender era que tipo de afeto. Pelo que sabia, aquilo poderia significar
qualquer coisa, desde um simples gesto de gratidão momentânea até uma declaração de
amor. Sem saber onde exatamente essa demonstração se encaixava nesse espectro, não
fazia ideia do nível adequado de carinho para retribuir.
— Obrigada por sair comigo hoje à noite. Algo me diz que agora vou conseguir dormir bem.
Akari sorriu para mim — e só isso foi suficiente para uma onda de euforia percorrer meu
corpo. Foi então que percebi que não importava se eu não conseguia entender o que se
passava na cabeça dela; eu estava grato por receber qualquer demonstração de afeto dela,
independentemente da forma.
Decidi, naquele momento, parar de analisar demais seus sentimentos. A partir de agora, eu
apenas aceitaria o carinho que ela achasse que eu merecia. Porém, nossa noite de sonho
estava chegando ao fim. Logo, o prédio onde Akari morava surgiu diante de nós.
— Quer se encontrar amanhã também? — sugeri, metade por preocupação com ela, metade
por querer passar mais tempo ao seu lado.
— Desculpa, acho que não vou ter tempo. Tenho que me preparar para o velório e tudo
mais.
O velório de Akito aconteceu na noite do dia 5. Como eu estava passando pelos dias ao
contrário, já o havia vivenciado, mas, para Akari, isso ainda não tinha acontecido.
— Sim, desculpa. Estamos nos desdobrando nos últimos dias para organizar tudo para o
funeral... E não posso deixar minha mãe lidar com isso sozinha, sabe?
— Ei, não precisa se desculpar. Você já tem muita coisa na cabeça, eu entendo.
— Ei, não fica assim! Eu vou voltar no tempo e salvar o Akito, lembra? Assim, tudo voltará ao
normal.
— É, eu sei.
— Eu sei que consigo. Só preciso garantir que ele não saia para beber naquela noite.
— Certo.
Isso não pareceu animá-la muito — na verdade, ela ficou ainda mais abatida. De alguma
forma, minha tentativa de animá-la saiu pela culatra, e comecei a entrar em pânico
internamente. O único irmão dela tinha morrido há poucos dias. Eu deveria ter evitado falar
sobre ele a todo custo.
Eu estava me repreendendo mentalmente por essa falha crítica de julgamento quando Akari
me surpreendeu ao continuar deliberadamente a conversa sobre ele.
— Qual era sua opinião sobre o meu irmão, Kanae-kun? — perguntou, ainda olhando para o
chão. — Você ainda o admira, mesmo agora?
— Essa é difícil... Obviamente, ele foi meu herói quando eu era criança, mas hoje em dia?
Não sei se eu ainda o 'idolatro', para ser sincero. Não que eu tenha perdido o respeito por
ele! Pelo contrário. Como eu poderia, depois que ele me salvou daqueles valentões na
escola?
— Sobre minha impressão dele... Bem, ele sempre me pareceu meio desajeitado quando se
tratava de expressar sentimentos.
— Bom, lembro que uma vez, acho que foi na terceira série... Ele veio falar comigo naquela
lojinha de doces da cidade e disse algo tipo: "Ei, você é amigo da Akari, né? Me faz um favor,
pode ser?"
— Que favor?
— Ele basicamente pediu para eu cuidar de você, ser um bom amigo para você e tal. Porque
ele achava que não estava sendo um irmão mais velho muito bom... E que a única coisa em
que era realmente bom era no beisebol.
— Bom, talvez não com essas palavras exatamente, mas sim. Eu lembro especificamente
dele me pedindo para ficar de olho no seu equilíbrio, porque ele disse que você costumava
tropeçar e cair muito. Ele definitivamente se importava com você, à maneira dele.
Eu me lembrava bem desse encontro. Akito já era conhecido por suas habilidades no
beisebol naquela época — ele treinava com o time da escola secundária mesmo ainda
estando no ensino fundamental e até jogava como rebatedor reserva no time amador de
adultos da ilha. Um ídolo local como ele me abordar do nada para pedir esse tipo de favor
foi uma surpresa marcante.
— Mas acho que é assim que os irmãos mais velhos são, né? Sempre cuidando dos mais
novos, mas orgulhosos demais para admitir. Eu e a Eri somos assim também. Às vezes
parece que tudo o que fazemos é implicar um com o outro! Cara, a gente brigou feio
poucos minutos depois que cheguei em casa outro dia — comentei, rindo da minha própria
infantilidade. Mas então percebi algo: Akari não estava rindo junto. Pelo contrário, sua
expressão parecia incrivelmente séria.
— Meu irmão realmente disse isso sobre mim...? — ela perguntou, a voz trêmula. Algo estava
claramente errado ali, mas antes que eu pudesse perguntar o que havia de errado, ela saiu
correndo em direção ao prédio de apartamentos o mais rápido que pôde.
— Ei, espera! Para onde você tá indo?! — gritei, correndo atrás dela em desespero. Consegui
alcançá-la bem antes de ela chegar às escadas, segurei seu braço e a virei para me encarar.
— Qual é o seu problema, Akari?! Por que saiu correndo assim do na...
Minhas palavras ficaram presas na garganta quando vi que ela estava chorando
copiosamente.
Um calafrio percorreu meu corpo inteiro, e soltei seu braço imediatamente. Akari disparou
escada acima e entrou no apartamento com uma velocidade quase instintiva, como se
estivesse apavorada com a ideia de ser vista naquele estado e quisesse escapar do meu
olhar a qualquer custo. Mesmo depois de ouvir a porta bater no andar de cima, permaneci
parado na base da escada por um tempo, completamente congelado.
↺
Depois de entrar pela porta dos fundos, subi as escadas em silêncio e me enfiei no meu
quarto, desabando na cama sem nem trocar de roupa. Puxei as cobertas até cobrir minha
cabeça, tentando me desligar do mundo. Eu deveria estar exausto o suficiente para dormir
sem esforço, mas o sono simplesmente não vinha. A imagem do rosto encharcado de
lágrimas da Akari queimava no fundo da minha mente; por mais que tentasse, não
conseguia afastá-la.
É claro que eu tinha meus palpites sobre o motivo de ela ter desabado daquele jeito.
Estávamos falando sobre o irmão dela, que havia falecido recentemente, e eu acabei
revelando uma lembrança que mostrava um lado carinhoso dele que talvez ela não tivesse
visto com frequência. Fazia sentido que ela ficasse emotiva com isso — e provavelmente só
fugiu porque não queria que eu a visse chorar. Eu sabia, racionalmente, que provavelmente
não tinha sido nada do que eu disse ou fiz… mas ainda assim parecia que eu tinha
machucado seus sentimentos.
Eu não devia ter mencionado o Akito de jeito nenhum. Akari pode até ter continuado o
assunto, mas fui eu quem trouxe ele à tona primeiro. Decidi que ligaria para ela no dia
seguinte para pedir desculpas.
↺
Dormi profundamente até o meio-dia. Depois de me arrastar para fora da cama, desci para
almoçar com a Eri e minha avó, e depois voltei para o quarto. Meu despertador marcava
mais de 13h, e a data continuava sendo 5 de abril, como esperado. Sentei-me na cama,
peguei o celular do bolso e liguei para Akari, como havia prometido a mim mesmo na noite
anterior. Depois de rediscá-la duas, três vezes, ela finalmente atendeu na quarta tentativa.
— Alô?
— Uhh… Claro, o que foi? Mas não posso falar por muito tempo. Estamos correndo para
organizar as coisas para o velório de hoje à noite.
— Ah, tranquilo. Vai ser rápido — garanti, fazendo uma pausa para reunir coragem. — Eu só
queria me desculpar por ontem à noite. Eu… sei que falei algumas coisas que talvez tenham
sido insensíveis, considerando tudo o que você já tá passando.
— O quê? Não, não — você não fez nada de errado, Kanae-kun. Se alguém tem que pedir
desculpas, sou eu… Relembrar meu irmão daquele jeito foi um pouco… demais para mim
ontem à noite, só isso.
— Só que o quê?
Fiquei sem palavras — era como se a dor dela atravessasse o telefone e me atingisse
diretamente. Nenhuma das frases vazias de consolo que passaram pela minha mente
pareciam suficientes para preencher aquele vazio. Eu precisava pensar em algo mais
significativo, mais pessoal do que meras palavras… mas antes que pudesse dizer qualquer
coisa, Akari se apressou em arranjar uma desculpa para encerrar a ligação e esconder sua
tristeza.
— Ei, espera um segundo! — Eu soltei sem nem pensar no que diria em seguida; não
suportava deixá-la tão abatida. Depois de um momento de hesitação, reuni a voz mais firme
que consegui e disse.
— Não se torture com isso, tá bom? Eu prometo que vou encontrar uma solução. Vou dar
um jeito de usar o Rollback para que você nunca tenha que passar por toda essa dor. Deixa
comigo… e tenta aguentar firme por enquanto, certo?
Por mais que eu tentasse, minhas palavras soavam apenas como promessas vazias. Mas era
tudo o que eu podia oferecer a ela naquele momento. Tudo o que eu queria era dar-lhe
algum tipo de esperança, uma luz no fim do túnel. Não sabia se esse sentimento havia
chegado até ela, mas, depois de um tempo, ouvi do outro lado da linha um som que parecia
um riso fraco e desanimado, abafado e levemente nasal.
Mas eu queria. Queria entender o quão fundo ia sua dor, para então mergulhar e resgatá-la
— custasse o que custasse. Então, o que eu deveria fazer? A resposta era óbvia: eu precisava
voltar ainda mais no passado e salvar a vida de Akito.
Tudo o que eu precisava fazer era desfazer a causa de todo o seu sofrimento, e assim ela
voltaria a ser a garota feliz de antes. Ou melhor, nunca teria que passar pela dor de perder o
irmão. De repente, senti algo quente e borbulhante crescer dentro do meu peito — um
senso de dever, um propósito. Agora, eu tinha uma chama de motivação queimando dentro
de mim, me impulsionando a salvar o irmão dela a qualquer custo.
Certo, eu ainda precisava fazer uma boa e velha investigação. Eu ainda não tinha
descoberto onde estava e o que estava fazendo na noite de 1º de abril, quando Akito morreu
— minha noite anterior havia apagado completamente meu plano de investigar isso hoje.
Mas como eu deveria procurar essa informação?
Já tinha perguntado para minha avó e para Akari, mas nenhuma das duas sabia de nada. Eri
era uma opção, mas, pelo que minha avó me contou, era improvável que ela soubesse algo
também. Não conseguia pensar em mais ninguém que pudesse me ajudar — minha rede de
contatos era, admitidamente, bem pequena.
— Bem, não se esqueça de que o velório do menino Hoshina é hoje à noite. Certifique-se de
estar em casa para o jantar, está bem?
Eu sabia que andar por aí sem um objetivo definido seria perda de tempo, então meu plano
era visitar dois lugares diretamente ligados à morte de Akito: o bar onde ele estava bebendo
naquela noite e o terreno baldio atrás da tabacaria onde seu corpo foi encontrado. Eu sabia
exatamente onde ambos ficavam, então fazia sentido começar dando uma olhada com meus
próprios olhos.
Segui pela rota que levava ao porto até finalmente chegar à Taverna Asuka — apenas para
encontrar uma placa na porta deslizante anunciando que estavam
FECHADO HOJE.
Achei que ainda poderia haver alguém trabalhando lá dentro (fazendo inventário ou
limpeza, por exemplo), então parecia uma boa ideia ao menos verificar se tinha alguém a
quem eu pudesse perguntar sobre aquela noite. Infelizmente, a porta estava trancada,
então fiquei sem sorte. Olhei para a placa ao lado da porta e vi que as únicas folgas do bar
eram às quintas-feiras — nos outros dias, abriam às 17h. Eu teria que tentar novamente
amanhã.
Sem outra opção, deixei o bar para trás e segui para o terreno baldio onde encontraram o
corpo de Akito.
↺
Demorei cerca de quinze minutos para chegar. Flores e outras oferendas haviam sido
deixadas em homenagem ao falecido: alguns buquês, algumas garrafas de suco. Agora não
restavam dúvidas — aquele era o local da morte de Akito. Mas, para um homem que já foi a
pessoa mais famosa da ilha inteira, essas homenagens me pareciam um tanto escassas.
O terreno em si estava tão coberto de ervas daninhas que mal dava para ver o chão. Se você
se aventurasse um pouco mais para dentro, no entanto, veria um pequeno espaço onde a
vegetação tinha sido afastada — provavelmente o local exato onde o corpo foi encontrado.
Não, esqueça o "provavelmente". Tinha que ser ali. O lugar onde Akito caiu, intoxicado pelo
álcool, e encontrou seu fim.
Imaginei seus últimos momentos — seu coração parando, toda a cor esvaindo-se de sua
pele — e um calafrio percorreu minha espinha.
Por um instante, pensei se deveria comprar algo para deixar ali como oferenda, mas
descartei a ideia tão rápido quanto surgiu. Isso seria o mesmo que aceitar sua morte, e eu
não tinha a menor intenção de fazer isso. Na verdade, senti que seria um mau presságio.
Além disso, uma perda de tempo. Meu foco agora precisava ser reunir mais informações
sobre a noite de 1º de abril.
— Bom, vamos ver. Se hoje é dia 5... então isso significa que só tenho mais três rollbacks
antes de chegar ao dia 1º de abril, certo?
Isso queria dizer que eu tinha apenas mais dois dias para reunir informações antes de
reviver a noite da morte de Akito — e precisava aproveitá-los ao máximo.
Fiquei olhando distraidamente o sol se pôr no horizonte, tentando decidir como usar
melhor o tempo que me restava, quando, de repente, um pensamento me ocorreu.
— Espera um segundo.
Não tinha nada a ver com impedir a morte de Akito, mas ainda assim era uma ideia
interessante — uma maneira de tirar proveito do fenômeno do rollback no tempo que
parecia tão óbvia que eu não conseguia acreditar que ainda não tinha pensado nisso. Se eu
estava voltando ao passado, poderia levar comigo todo tipo de informação — eu poderia até
"prever" o futuro, de certa forma. E como eu poderia usar essa informação?
Bem, uma das respostas mais óbvias era ganhar muito dinheiro.
É uma das primeiras coisas que a maioria das pessoas diria se perguntadas o que fariam se
pudessem voltar no tempo. Apostariam tudo em corridas de cavalos ou comprariam um
monte de ações de uma empresa antes dela ficar famosa. Havia muitas oportunidades de
apostas de alto risco assim. O único problema era que eu não fazia ideia de como comprar
ações ou fazer apostas.
Havia apenas uma opção viável para alguém da minha idade: a loteria.
Eu sabia jogar na loteria, pelo menos, já tinha comprado alguns bilhetes antes. O rollback
tornaria ganhar o prêmio principal algo ridiculamente fácil: tudo o que eu precisava fazer
era ver os números vencedores mais recentes agora e então apostar nesses mesmos
números depois de mais um ou dois rollbacks. Pronto, dinheiro garantido.
Engoli em seco. Só a ideia já fez meu coração disparar. Peguei meu celular para conferir os
diferentes tipos de loteria disponíveis, só para referência. Eu precisava encontrar uma em
que a data limite para apostas e a data do anúncio dos números vencedores estivessem
dentro do período do rollback — caso contrário, o plano não funcionaria. Por sorte,
encontrei uma que anunciaria os números vencedores hoje — e a data limite para apostas
havia sido há apenas três dias, dentro do alcance do rollback.
Era um jogo simples: bastava escolher cinco números diferentes, e se acertasse todos, o
prêmio era de três milhões de ienes. Dinheiro suficiente para comprar um carro bem
bacana, e certamente mais do que suficiente para um estudante como eu viver por alguns
anos.
Rolei a tela ansioso para ver os números sorteados. Tudo o que eu precisava era memorizar
cinco pequenos números, e então poderia garantir uma pequena fortuna para mim. Era
mais dinheiro do que eu conseguia imaginar; minhas mãos tremiam enquanto eu lia os
números em voz alta várias vezes, tentando fixá-los na memória. Então, de repente, parei.
Olhei novamente para os números sorteados, mas a culpa já era tão forte que eles nem
sequer se registraram na minha mente. E foi exatamente nesse momento, enquanto meus
desejos mais egoístas travavam uma luta contra minha consciência, que ouvi uma voz me
chamar por trás.
Mesmo que eu não estivesse fazendo nada ilegal, aquilo me assustou tanto que quase deixei
meu celular cair no oceano. Virei-me num pulo — era o policial da ilha.
— Uau, que reação exagerada, garoto. Não me diga que tava vendo vídeo impróprio nesse
celular, hm? — ele brincou, apoiando o pé no chão e descendo da bicicleta antes de se
aproximar.
— Meu Deus, você me deu um susto — reclamei, girando o corpo para que minhas pernas
ficassem de volta sobre o chão firme, viradas para a ilha. — Qual é a sua?
— Hahaha... Foi mal, garoto. Não queria te assustar nem nada. Só te vi sentado aí e achei
que seria bom bater um papo.
Estalei a língua, frustrado. Como alguém podia ter um timing tão perfeitamente ruim? Era
até impressionante.
— Ah, qual é. Conversar com os moradores pra saber como estão faz parte do meu trabalho.
Tem certeza de que não tá ressentido por causa do outro dia?
— Sabe sim. O jeito que aquele detetive do continente ficou te pressionando. Aposto que
não foi nada agradável ser tratado como suspeito. Eu queria ter falado algo em sua defesa,
mas você sabe como é.
— Como assim "quando foi"? Foi no dia em que você encontrou o corpo, lembra?
Pelo que constava nas anotações que deixei para mim mesmo no celular, isso devia ter
acontecido... na noite do dia 2, certo?
Ou seja, era algo que eu ainda não tinha vivido — faltavam alguns dias para acontecer. Mas
eu não queria levantar suspeitas, então fingi que sabia do que ele estava falando e tentei
mudar de assunto.
— Certo, claro. Desculpa, tem sido uma semana infernal, sabe? Tudo meio que se mistura —
ri, tentando disfarçar. O policial ergueu uma sobrancelha, desconfiado, mas logo aceitou
minha desculpa e assentiu.
— Com certeza. Imagino que aquele dia em especial deve ter sido bem traumático pra você,
né? Encontrar o corpo dele daquele jeito e ainda ser massacrado com perguntas depois —
comentou com um pequeno suspiro. — Ah, e você ficou sabendo que já saíram os
resultados da autópsia?
— Isso mesmo. Então, a lição aqui, garoto, é sempre conhecer seus limites. Se você for
beber até desmaiar e cair na rua nessa época do ano, o frio vai te matar, mesmo que o
álcool não mate.
— Ainda bem que eu não bebo, então... Ainda sou menor de idade, caso tenha esquecido —
rebati, enquanto olhava casualmente para o celular. Já estava quase dando seis da tarde.
Precisava encerrar essa conversa logo e me preparar para o próximo rollback.
— Ah, e mais uma coisa que eu queria te dizer, garoto: faça um favor pra mim e não fique
encontrando a irmã do Akito depois que escurecer, tá? Dessa vez eu deixei passar, mas não
quero pegar vocês dois quebrando o toque de recolher de novo. Entendido?
— Er... sim, desculpa por isso. Ela precisava muito conversar ontem à noite...
— Pera aí — vocês se encontraram de novo ontem? Ah, qual é, garoto. Agora você tá
querendo causar escândalo.
— Vocês também estavam juntos até tarde no domingo à noite, não estavam? — Por um
instante, achei que tinha escutado errado.
— Sim. Vi vocês dois juntos enquanto fazia a ronda, mas resolvi ignorar. Era por volta da
uma da manhã, acho.
Isso não fazia sentido. A própria Akari me disse que não me viu naquela noite depois que
nos despedimos no quebra-mar.
— Bom, não tenho uma foto pra provar, se é isso que quer saber... Mas por quê? Tá
querendo me dizer que não era você?
Ele devia estar enganado. Se eu aceitasse o depoimento dele como verdade, isso significaria
que a Akari mentiu para mim — e eu sabia que ela jamais faria isso. O mais provável era que
o policial tivesse confundido as coisas... e ainda assim, por algum motivo, eu não conseguia
dizer isso a ele com total certeza.
Lembrei de como, na noite anterior, perguntei à Akari se ela sabia onde eu estava na noite
do dia 1º e de como ela ficou visivelmente abalada com a pergunta. Isso não era uma prova
incontestável de que ela estava mentindo, mas me deixou em dúvida sobre em quem
acreditar. Antes que pudesse organizar meus pensamentos, o sino das seis horas começou a
tocar.
Greensleeves.
Isso era ruim. Perdi a noção do tempo e deixei a conversa se estender até o limite — e
agora, estava prestes a sofrer um Rollback bem na frente de alguém.
Desesperado, tentei me preparar para o que estava por vir — se hoje era dia 5, então eu
estava prestes a ser enviado de volta para a noite do dia 3, certo?
— Ei, qual é o problema, garoto? Por que esse pânico todo de repente? — perguntou o
policial.
INTERLÚDIO IV
ASSIM QUE ME FORMEI NO ENSINO fundamental, parei de fazer aulas de natação no
continente, pois sabia que, assim que entrasse na Sodeshima Junior High, poderia
simplesmente entrar para o time de natação da escola… e foi exatamente o que fiz. Não
demorou nada para eu me enturmar com os outros membros do time, possivelmente
porque a maioria deles já tinha ouvido falar dos tempos absurdos que eu fazia nas piscinas
quando ainda estava no fundamental.
Parecia que todos os olhares estavam voltados para mim; os alunos do oitavo e nono ano
tinham grandes expectativas, assim como os treinadores, e os outros alunos do sétimo ano
me olhavam como se eu fosse invencível.
Fazer parte de um time competitivo aprimorou minhas habilidades na natação mais do que
eu poderia ter imaginado. A única grande desvantagem era que agora eu precisava ficar até
tarde para os treinos, o que significava muito menos tempo para passar com Kanae depois
da escola. Na verdade, o único motivo pelo qual ainda conseguíamos passar algum tempo
juntos era porque ele esperava por mim na biblioteca até eu terminar.
Assim que o treino acabava, eu sempre era a mais rápida a trocar de roupa para sair
correndo do vestiário e encontrá-lo na biblioteca, para que pudéssemos voltar para casa
juntos. Geralmente, já estava tão tarde que íamos direto para casa, mas de vez em quando
parávamos na pequena loja de doces da cidade no caminho.
Lembro-me de uma dessas ocasiões em que estávamos sentados lado a lado no banco bem
em frente à loja de doces, cada um bebendo sua garrafa de Cheerio, enquanto o sol poente
lançava seus últimos raios quentes contra minha bochecha direita.
— Ei, por que parece que refrigerante sempre tem um gosto melhor quando vem em garrafa
de vidro? — murmurei, quase na metade da minha bebida com sabor de melão.
— Espera, sério? Então eu nem estou sentindo o gosto do refrigerante, mas sim do vidro?
Isso é loucura!
— Hã…? Ah, você estava só brincando comigo. Entendi — disse eu, minha voz ecoando na
garrafa enquanto a levava de volta aos lábios para mais um gole. Então, olhei para Kanae,
que parecia insatisfeito com minha reação.
— Eu não?
— Tipo, quase nunca. A maioria das pessoas ficaria pelo menos um pouco chateada ao cair
numa pegadinha dessas. Digo, quando foi a última vez que você ficou realmente brava com
algo? Você se lembra?
Pensei um pouco, mas não consegui me lembrar de nenhum episódio recente. Havia várias
situações em que eu provavelmente deveria ter ficado com raiva, mas eu era do tipo que
preferia se lamentar e sentir pena de si mesma em vez de perder a paciência.
— É, acho que eu nunca fico realmente brava — respondi. — Não gosto de confrontos…
— Bom, você provavelmente precisa trabalhar nisso. As pessoas não vão te levar a sério se
você nunca impuser respeito. Por enquanto, talvez esteja tudo bem, mas quando chegar ao
oitavo ano, vai ter que mostrar autoridade para os alunos do sétimo ano — Kanae declarou,
assentindo como se concordasse consigo mesmo. — Ei, já sei! Por que você não tenta ficar
brava comigo agora, só para treinar?
— O quê? Tipo, gritar com você e tal? Sem chance. Não quero fazer isso.
— Ah, qual é! Pensa nisso como um exercício! Dá o seu pior! — Ele se virou completamente
para mim, cheio de expectativa. Eu ainda não estava nem um pouco confortável com aquilo,
mas decidi tentar e levantei um pouco a voz para ele.
— E-Ei, você…!
— Nossa, que grosso. Quero ver se eu vou fazer algo por você de novo…
Meu rosto ficou vermelho de vergonha por ter tentado algo novo — mas, no fundo, eu não
tinha odiado a experiência. E, enquanto Kanae estivesse rindo, eu sabia que estava tudo
bem no mundo. Esse era um dos motivos pelos quais eu prezava até mesmo interações
casuais como aquela. Como fotografias em um álbum, eu fazia questão de guardar cada
lembrança que tinha com ele.
Depois dos primeiros meses no ensino fundamental II, comecei a notar algumas mudanças
no ambiente da minha turma. Para começar, os alunos se dividiram em dois grupos bem
distintos: aqueles que eram bons em esportes ou socialização e aqueles que não eram.
Havia uma enorme barreira entre os dois grupos; a que lado você pertencia determinava
com quem podia almoçar e com quem podia conversar nos intervalos entre as aulas.
Embora eu não tivesse nada a oferecer além das minhas habilidades na natação, acabei
sendo puxada para o grupo dos populares pela simples pressão dos colegas. Como
resultado, passei a passar os intervalos rodeada por um grupo de colegas de classe em volta
da minha mesa. Eu me lembrava vividamente da inquietação que sentia naquele ambiente —
principalmente porque isso me deixava praticamente sem chances de conversar com
Kanae, por mais que eu quisesse. Afinal, ele pertencia à "facção dos impopulares". Por mais
estúpido e mesquinho que isso parecesse agora, naquela idade tudo realmente parecia um
concurso de popularidade, então ignorar os alunos "descolados" para falar com Kanae seria
como cometer suicídio social.
Ainda assim, eu continuava voltando para casa com ele depois dos treinos todos os dias.
Isso nunca mudou. Obviamente, eu queria muito mais do que isso, mas me faltava coragem
para romper os papéis sociais que nos haviam sido designados — sem falar na dinâmica da
nossa relação até então. E, olhando para trás, talvez tenha sido isso que acabou levando
Kanae pelo caminho que seguiu. Foi a partir desse momento que começou a surgir uma
distância entre nós.
Certa manhã, no outono do nosso segundo ano, entrei na sala de aula e encontrei o
quadro-negro coberto de insultos dirigidos a Kanae. Seu nome estava escrito bem no
centro, cercado por frases como "Perdedor", "Todo mundo te odeia" e até mesmo "Se mata".
— O quê… Quem fez isso…? — murmurei, incrédula, parada na frente da sala com a boca
entreaberta.
Um instante depois, Kanae entrou atrás de mim e, sem dizer uma única palavra, começou a
apagar todas as ofensas escritas no quadro. Me apressei para ajudá-lo, mas ele
praticamente gritou para que eu parasse.
— Tá tudo bem. Eu faço isso sozinho — disse ele.
Mas o verdadeiro significado daquelas palavras era "fica longe de mim agora".
Eu estava em choque. Não me lembrava de ele ter me afastado assim antes. Até aquele dia,
eu nem fazia ideia de que os garotos da turma estavam fazendo de Kanae seu novo alvo.
Mais tarde, perguntei a um dos meus amigos sobre isso, e ele me contou que Kanae havia
defendido outro aluno que estava sendo intimidado. Sim, isso soava exatamente como o
Kanae que eu conhecia.
Por mais frustrada que eu estivesse, sem poder ajudá-lo, cheguei a contar para nosso
professor sobre o que estava acontecendo. Ele garantiu que a escola tomaria providências
— mas, é claro, nada foi feito. No fim, eu não pude fazer nada além de fingir que não via
meu melhor amigo sendo assediado diariamente. Que tipo de amiga eu era?
A única forma que encontrei para tentar compensar minha impotência foi sendo o mais
animada e positiva possível quando voltávamos para casa juntos. Queria que ele tivesse pelo
menos um momento agradável no dia.
O inverno chegou logo, mas nada mudou. Meu time de natação ainda treinava durante o
inverno também. Uma vez por semana, íamos nadar em uma piscina coberta no continente,
e, nos outros dias, fazíamos diversos exercícios e treinos físicos. Nos faziam correr voltas
até ficarmos exaustos, e, quando o treino terminava, já estava completamente escuro lá
fora. Kanae me esperava na biblioteca, sem se importar com o horário, e então
caminhávamos juntos no frio cortante.
Não importava o quanto eu estivesse cansada depois do treino, sempre tentava ser o mais
animada e falante possível por ele.
— Ei, eu li um mangá outro dia, sabe? E é, tipo, incrivelmente bom — falei empolgada.
Esperei por uma reação, mas como Kanae não disse nada, continuei.
— Ah, e no posfácio, a autora conta que a história foi baseada num quadrinho amador que
ela fez no ensino médio. Dá pra acreditar? Imagina ter tanto talento tão jovem. É muito
legal ver cada vez mais autoras ganhando espaço—
Foi como se eu tivesse levado um tiro no peito. Por que ele diria algo assim? Será que era
tão óbvio que eu estava forçando a barra? Engoli a vontade de perguntar e fingi não
entender.
— Bom, tá. Desculpa por tirar conclusões precipitadas. Vamos pra casa — disse, voltando a
caminhar.
Fiquei parada no escuro por um instante, observando sua silhueta solitária se afastar cada
vez mais antes de correr para alcançá-lo. Não demorei a chegar ao seu lado, mas, a partir
daquele dia, comecei a sentir que havia uma distância entre nós que eu nunca conseguiria
encurtar. Como se o verdadeiro Kanae já tivesse ido para um lugar distante, onde minhas
mãos jamais conseguiriam alcançá-lo.
Foi só depois que as palavras saíram que percebi meu erro. Torcendo para que Kanae não
tivesse ouvido nada, olhei rapidamente para sua mesa, mas ele não estava lá. Examinei a
sala discretamente e, para meu alívio, ele não estava em lugar nenhum. Soltei um suspiro.
— Sério? Mas vocês voltam juntos da escola todo dia, né?
— Sei não… Parece bem coisa de casal. Mas vou dizer uma coisa: você tem um gosto bem
peculiar, Akari. O que você vê naquele cara, afinal? — perguntou, com um sorriso de orelha
a orelha.
Mesmo naquela época, eu já sabia que existiam diferentes tipos de sorriso, cada um para
uma ocasião. Sorrisos de felicidade, de alívio… Às vezes, as pessoas sorriam apenas para
demonstrar que não eram uma ameaça. Mas aquele sorriso eu reconheci de imediato: era
um sorrisinho debochado de que se diverte zombando dos outros.
— Vai, conta a verdade — ela insistiu. — Vocês já se beijaram? Ou foram ainda além?
Meu rosto ficou vermelho como um pimentão ao visualizar aquilo em minha mente. E
então, fiquei com raiva. Não era como se eu nunca tivesse imaginado esse tipo de coisa com
Kanae antes, mas o fato de ela falar daquilo com tanta leviandade, como se fôssemos
apenas bonecos dançando para o seu entretenimento, me encheu de fúria.
Como ela ousava reduzir nossa amizade de infância a isso? Ainda assim, não queria causar
uma cena, então mantive a calma e respondi firme.
— Olha bem para mim: eu e o Kanae-kun? Nem pensar. Somos só amigos. Não tem nada
entre nós, acredite.
No segundo em que terminei de falar, ouvi passos se aproximando por trás. O som dos
sapatos rangendo contra o piso de linóleo me fez gelar. Quando me virei, Kanae estava
parado logo atrás de mim.
Fiquei tão horrorizada que não consegui dizer nada. Quando foi que ele voltou para a sala?
Será que tinha escutado toda a conversa? Seu desconforto era evidente; ele desviou o olhar
de mim no mesmo instante e coçou a nuca. Então, abriu a boca, e meus piores temores se
confirmaram.
— É, vocês ouviram. Somos só amigos. Não tirem conclusões erradas — disse, antes de
voltar para sua mesa e se sentar.
A garota que estava me cutucando revirou os olhos e murmurou apenas uma palavra.
— Chatooo…
Perdeu o interesse e voltou a comer. Peguei meus hashis de novo, mas, de repente, tudo
parecia sem gosto.
Quando a escola terminou naquele dia e eu terminei o treino, finalmente chegou a hora de
ir para casa. Kanae e eu conversamos sobre trivialidades como sempre fazíamos no
caminho de volta, mas, dessa vez, nossa conversa parecia ainda mais vazia que o normal.
Era como se eu estivesse apenas jogando palavras ao vento para preencher o silêncio, e eu
sabia que Kanae devia perceber isso. Ainda assim, continuei falando, tentando
desesperadamente manter minha boca ocupada.
Mas e se ele dissesse não? Só de pensar nisso, meu coração parecia que ia se partir ao meio.
Não haveria como voltar atrás; mesmo que eu conseguisse esclarecer tudo, se ele me
rejeitasse, a sombra desse momento pairaria sobre nossa amizade para sempre. Eu não
suportaria isso.
Ugh. O que foi que eu fiz para merecer essa situação? Queria tanto poder voltar aos tempos
despreocupados do ensino fundamental, antes de toda essa besteira de drama social.
— Akari, escuta… — disse ele, com um peso na voz que me fez entender que aquilo era
sério.
Meu coração disparou. O que poderia ser? Era sobre o que aconteceu no almoço? Espera… e
se ele fosse confessar seus sentimentos para mim? Algo como "Preciso voltar atrás no que
disse antes" ou algo assim. Meu Deus, eu ia surtar de felicidade! Provavelmente o beijaria ali
mesmo. Claro, eu sabia que não devia criar esperanças… mas o que ele disse a seguir foi
algo que eu jamais poderia ter imaginado.
— Estou pensando em me mudar para Tóquio — ele disse. — Não antes do fim do ano que
vem, mas queria te avisar com antecedência.
Minha mente ficou completamente em branco. Tão em branco que demorei um tempo para
sequer processar a palavra Tóquio. Essa era… a capital do Japão, certo? Pensando bem, acho
que minha confusão inicial foi só meu cérebro tentando se desconectar da realidade. Fiquei
ali, atônita, enquanto Kanae continuava explicando.
— Resumindo, meu pai me ofereceu a chance de morar com ele lá faz um tempo. E, bom,
você sabe como eu sempre quis voltar para a cidade grande, né? Então, obviamente, eu
disse que sim. Mas não é como se já estivesse tudo decidido. Ainda preciso ver em qual
colégio vou estudar e essas coisas…
Então, Kanae me olhou como se quisesse dizer: "O que você acha que eu devo fazer, Akari?"
Mas… isso importava? Se eu dissesse que não queria que ele fosse, será que ele ficaria
comigo aqui em Sodeshima? Provavelmente. Kanae era bom demais para simplesmente
abandonar alguém assim. Para ser sincera, eu não queria que ele fosse. Queria que ele
continuasse ao meu lado para sempre. Queria que pudéssemos sentar, conversar, tomar
Cheerio e assistir ao pôr do sol juntos até ficarmos velhos e enrugados. Mas, por mais que
eu desejasse tudo isso, eu não podia pedir que ele desistisse dos seus sonhos por mim.
— Se é isso que você quer, então vá em frente. Você tem o meu apoio.
— Tá falando sério?
— Claro! Além disso, um cara esperto como você merece estar em Tóquio. Seria um
desperdício ficar preso aqui em Sodeshima para sempre.
— Bom, se é assim que você se sente, então acho que vou ter que estudar bastante — ele
disse com um sorriso levemente culpado.
Tentei animá-lo com um bombardeio de palavras encorajadoras: "Ah, vai dar tudo certo", "Eu
sei que você consegue" e "Se precisar de qualquer coisa, é só falar". Mas, na verdade, eu só
continuava falando porque sabia que, no momento em que parasse, iria desabar e chorar.
Pouco depois de nos despedirmos, o sino das seis horas soou pela ilha — as notas
melancólicas de Greensleeves ecoando em perfeita harmonia com a tristeza que agora
preenchia meu coração.
DROGA, ESTOU SEM TEMPO!, pensei comigo mesmo — mas o Rollback já havia ocorrido, e o
policial com quem eu estava conversando um instante atrás não estava mais em lugar
nenhum. No lugar dele, vi um grupo de crianças brincando, balançando nos balanços e
construindo grandes montes em uma caixa de areia enorme. Isso era claramente um
parque — e não o da parte abandonada da cidade, mas sim o Central Park, onde eu tinha me
encontrado com Akari na noite anterior.
Eu estava sentado em um banco ao lado do caminho principal. Atrás de mim, ainda dava
para ouvir Greensleeves, mas a melodia estava bem mais alta do que antes do Rollback. Se o
fenômeno estivesse seguindo o mesmo padrão, então aquilo era terça-feira, 3 de abril, às
18h. Eu tinha voltado ainda mais no passado, mas uma frase dita pelo policial ainda ecoava
nos meus ouvidos:
— Vocês estavam por aí até tarde no domingo à noite também, não estavam?
Domingo teria sido 1º de abril, mas eu não tinha visto Akari naquela noite — ela mesma me
disse isso — o que contradiz diretamente o testemunho do policial. Talvez ele tenha se
confundido naquela noite… ou talvez Akari tenha se enganado. Eu precisava desvendar esse
mistério, mas antes de qualquer coisa, tinha que me situar. Depois de confirmar minha
localização, estendi a mão para pegar o celular e conferir a hora…
— Pois é, como eu disse, eu realmente não sei o que aconteceu com ele…
…Foi então que notei a mulher sentada ao meu lado. Era uma jovem magra, com uns vinte
anos, cabelo longo tingido de loiro e alguns piercings na orelha. Ela segurava uma guia
presa à coleira de um Shiba Inu que descansava aos pés do banco. Devia ter parado ali para
descansar enquanto passeava com o cachorro.
Eu a reconheci de algum lugar — era a mesma mulher que me resgatou daquele bêbado
furioso no Festival Ocean’s Bounty. Mas o estranho era que eu sentia que a conhecia de
muito antes disso. Quem era ela? Continuei encarando seu perfil, tentando lembrar, até
que, finalmente, um nome me veio à cabeça.
Agora que eu pude ver seu rosto de frente, tinha certeza. Ela era Saki Hayase, a namorada
de Akito no ensino médio e gerente do time de beisebol. A mudança na cor do cabelo tinha
me confundido no começo, mas não havia dúvida.
A questão era: por que, diabos, nós dois estávamos sentados juntos em um banco no
parque? Sobre o que estávamos conversando? Nós nunca tínhamos interagido antes.
— Hum, oi? Você queria me perguntar alguma coisa, ou…? — ela disse, impaciente,
franzindo a testa.
— Por que ficou tão esquisito de repente? Se tem algo na sua cabeça, manda logo.
Ela estava sendo bem amigável — e, pelo jeito como me salvou no festival, eu já sabia que
provavelmente era uma boa pessoa, mesmo que agora parecesse uma roqueira rebelde.
Como eu já estava cansado de ficar andando em círculos tentando evitar suspeitas, resolvi
perguntar direto.
— Quê? Sério? Você fez a pergunta e nem prestou atenção na resposta? Estávamos falando
sobre o Akito, lembra?
Estávamos? Será que estávamos relembrando histórias sobre ele? Era difícil acreditar que
eu teria procurado uma ex-namorada dele para conversar sobre isso, mas eu não fazia ideia
do que eu mesmo tinha em mente. Mais do que tudo, eu queria saber o que exatamente ela
tinha acabado de me contar.
Não achei que perguntar isso seria um problema, mas, para minha surpresa, a expressão da
Hayase mudou instantaneamente. Todo o sentimento esvaiu-se de seu rosto, e seu olhar
ficou afiado como lâminas.
— Você vai mesmo me fazer repetir tudo aquilo? — Ela falou com uma irritação contida na
voz. Seu tom firme foi o suficiente para eu recuar rapidamente.
— N-Não, tudo bem. Acho que entendi o essencial. Desculpa por ser irritante… — Inclinei a
cabeça em um pedido de desculpas.
Felizmente, a expressão dela suavizou um pouco depois disso. Ela se recostou no banco
como se tivesse acabado de correr uma maratona.
— É que… não é um assunto muito agradável, sabe? Preferia não falar mais sobre isso.
Agora eu estava realmente curioso. Por que os Rollbacks sempre aconteciam no meio de
momentos e conversas importantes? Eu queria que meu eu do futuro tivesse me deixado
uma nota avisando para tentar estar sozinho em um lugar tranquilo sempre que desse seis
horas. Com sorte, pelo menos dessa vez eu lembraria de fazer isso no futuro.
— Mmnngh! — Hayase gemeu, alongando os braços acima da cabeça. — Certo, acho que já
falamos o suficiente por hoje. E não se esqueça, tá? Vou esperar você amanhã cedinho!
— Ué, sim? — ela assentiu. Estava claro que começava a questionar minha memória de curto
prazo, mas, felizmente, resolveu me refrescar a memória mesmo assim. — Você se ofereceu
para ajudar no festival, lembra? A loja de bebidas da minha família sempre monta um
estande grande por lá, do nascer ao pôr do sol. O problema é que estamos com pouca gente
este ano… mas você disse que já sabia disso, e por isso se ofereceu para ajudar. É o único
motivo pelo qual estou aqui conversando com você agora. Pronto, refrescou sua memória?
Espera aí… Eeeespera aí. As peças começaram a se encaixar. Eri mencionou que eu estava
ajudando em um estande no festival no último Rollback. Deve ser disso que ela estava
falando.
Mas por que, exatamente, eu tinha me oferecido para ajudar no festival? Isso parecia
extremamente fora do meu perfil, ainda mais considerando que eu já estava atolado em um
fenômeno sobrenatural.
— Desculpa, só para confirmar: eu me ofereci para ajudar vocês?
Ela parecia bem desconfiada do meu comportamento a essa altura, mas, para mim, não
parecia que ela estava mentindo sobre nada do que disse. Só podia supor que eu realmente
tinha me oferecido para ajudá-la, o que parecia algo irresponsável da minha parte,
considerando que a vida de Akito estava em jogo... mas agora não tinha muito o que fazer.
Talvez eu até conseguisse descobrir algo sobre o que conversamos aqui no parque
enquanto a ajudava amanhã.
— Ah, que alívio! Por um momento, comecei a achar que você tinha batido a cabeça e
esquecido tudo! Ahahaha!
Hayase me deu um tapa nas costas com força, e eu realmente senti a dor. O cachorrinho
aos pés dela latiu, se levantou e começou a balançar o rabo impaciente, pronto para
continuar o passeio. Hayase entendeu o recado e se levantou do banco, virando-se para
mim.
— Certo! Te vejo no terreno do templo amanhã de manhã, às seis em ponto! Vista algo que
não se importe de sujar, e não se atrase!
Espera, ela disse seis da manhã?! Cara, talvez eu devesse ter fingido Alzheimer para escapar
dessa…
↺
Depois de me despedir da Hayase, voltei para casa e me joguei na cama no andar de cima.
Já eram seis e meia — 18h30 do dia 3 de abril. Eu precisava descobrir logo o que aconteceu
na noite do dia 1º de abril. O policial afirmou que me viu com Akari, enquanto Akari disse
que não fazia ideia de onde eu estava depois que nos despedimos no quebra-mar.
Obviamente, essas histórias não batiam, o que significava que ou o policial ou Akari não
estava dizendo a verdade. Seria mais fácil assumir que o policial se enganou se Akari não
tivesse agido de forma estranha quando perguntei sobre isso pela primeira vez, o que
plantou uma semente de dúvida na minha mente. Neste ponto, eu não sabia em quem
acreditar — e a única forma de ter certeza era descobrir se Akari estava falando a verdade
ou não.
Falar era fácil, mas como eu faria isso? Não podia simplesmente perguntar de novo, porque
ela provavelmente daria a mesma resposta. Será que eu deveria tentar induzi-la a revelar de
outra forma? Se eu conseguisse conduzir a conversa até aquela noite sem que Akari
entrasse em contradição com o que já disse, então eu poderia ter certeza de que o policial
simplesmente viu dois outros adolescentes que não éramos nós.
Eu não gostava de ser ardiloso desse jeito, mas essa era provavelmente a opção menos
confrontativa, então decidi seguir com o plano.
Bem quando tomei essa decisão, senti meu celular vibrando no bolso. Era Akari. Perfeito,
pensei enquanto atendia.
— Alô?
— Ah, oi, Kanae-kun. Desculpa, estava ocupada e não consegui atender antes. O que foi?
— O quê? Não... Foi você que me ligou, tipo, uma hora atrás, não foi?
— Eu...?
Eu não tinha lembrança disso, mas pensei um pouco e percebi que uma hora atrás seriam
17h30 — antes do ponto onde eu havia parado no último Rollback, ou seja, algo que ainda
não tinha acontecido para mim. Eu não sabia por que liguei para ela, e não tinha como
descobrir, mas isso não importava muito agora, porque essa era a oportunidade que eu
estava esperando.
— Ah, sim, então... Tem uma coisa que eu queria conversar com você, Akari. Pode falar
agora?
Foi aí que percebi que ainda não tinha pensado em uma forma de trazer o assunto da noite
de 1º de abril para a conversa. Droga.
— S-Sim, desculpa. Então, olha… — Eu precisava pensar em algo, e rápido. — Você gostaria
de fazer um piquenique algum dia? Eu tava pensando que seria legal, já que as cerejeiras
estão em plena floração e tudo mais.
— Hã? Um piquenique?
— D-Desculpa, acho que não pensei direito. Finge que eu nunca disse nada.
— Espera. Sério?
— Beleza, então… Só precisamos decidir o horário. Deixa eu ver, amanhã eu vou estar
ocupado o dia todo, então…
— Funciona pra mim. Passo na sua casa por volta das oito, então.
Desliguei o telefone. Isso definitivamente não tinha acontecido como eu esperava, mas um
piquenique parecia o cenário perfeito para uma conversa descontraída sobre o assunto.
Aposto que as cerejeiras ficariam incríveis à noite também.
Abaixei-me para pegá-lo, mas notei que o impacto com o chão fez a tela acender. Quando o
peguei direito, lembrei que havia algo que eu queria conferir no meu celular. Deslizei a tela
e abri o aplicativo de Notas, onde encontrei um memorando contendo as mesmas três
informações sobre a morte de Akito que eu já tinha visto antes.
02/04: Encontrei o corpo de Akito às 18h30 no terreno baldio atrás da tabacaria e chamei a
polícia.
Estava bebendo muito naquela noite na Taverna Asuka, das 21h à meia-noite.
O fato de a nota já estar ali significava que eu devia ter deixado essa mensagem para mim
mesmo em um dos próximos Rollbacks. Precisaria lembrar de fazer isso em algum
momento — quem sabe o que poderia acontecer se eu esquecesse? Mas antes que eu
começasse a me estressar com paradoxos temporais e afins, ouvi minha avó me chamando
lá de baixo. Provavelmente era hora do jantar. Guardei o celular no bolso e desci para a sala
de estar. Por ora, deixaria essa questão do memorando no fundo da minha mente.
↺
Saí de casa pouco depois de terminar a refeição. O frio lá fora era de rachar, mas, depois de
me arrepender profundamente por não ter colocado mais roupas na noite anterior, desta
vez lembrei de usar uma camisa térmica, então não estava tão ruim quanto poderia estar. Já
tinha avisado minha avó e a Eri sobre onde eu estaria naquela noite, além do meu plano de
acordar cedo para ajudar no festival pela manhã. As duas pareceram surpresas —
provavelmente porque eu nunca tinha saído para encontrar amigos à noite em toda a minha
vida. Eri até perguntou com quem eu ia fazer o piquenique, mas só de pensar em responder
aquilo, fiquei envergonhado demais. Então, acabei desviando da pergunta sem dar uma
resposta direta.
Depois de caminhar por algumas ruas ao entardecer, cheguei ao condomínio da Akari. Não
tive coragem suficiente para subir e tocar a campainha, então resolvi ligar para o celular
dela e avisar que já estava lá fora. Em menos de um minuto, ela apareceu no segundo andar
do prédio e desceu as escadas apressada, carregando uma grande bolsa a tiracolo.
— Oi, Kanae-kun. Que surpresa te encontrar por aqui hoje à noite — disse ela, me
cumprimentando com um sorriso animado. Era surreal pensar que, na noite anterior, ela
estava exatamente naquele mesmo lugar, mas com lágrimas escorrendo pelo rosto. Só que,
do ponto de vista dela, aquilo ainda não tinha acontecido — só aconteceria na noite
seguinte. Então, suponho que esse contraste era esperado. A garota radiante que estava
diante de mim agora não tinha como saber que, dali a cerca de trinta horas, estaria
invadindo a escola comigo, me abraçando no telhado ou chorando na frente do seu
apartamento. Tudo o que eu podia fazer era agir naturalmente e evitar cometer o erro de
mencionar Akito novamente.
— Oi, bom te ver também — respondi. — E desculpa por te chamar assim, de última hora.
— Imagina, não tem problema. Eu estava querendo sair de casa para ver as cerejeiras de
qualquer jeito. Agradeço muito pelo convite — disse ela, sorrindo outra vez — mas, de
algum jeito, eu conseguia sentir que aquele sorriso era forçado. Fazia apenas dois dias que
seu irmão havia morrido, então não tinha como ela já ter superado o luto. Ou ela estava se
esforçando para parecer bem, ou estava apenas usando esse passeio como uma distração
para não pensar na dor. De qualquer forma, ela provavelmente não gostaria que eu tocasse
no assunto, então decidi continuar agindo de maneira casual, tratando-a do mesmo jeito de
sempre.
— Que bom, fico feliz em ouvir isso — respondi. — Bem, então... vamos?
↺
Seguimos em direção ao templo. As vielas de Sodeshima precisavam desesperadamente de
mais postes de luz, mas, apesar da iluminação fraca e da atmosfera meio sombria, Akari
caminhava quase saltitando pelo bairro, com um passo leve e animado.
— E aí, o que tem nessa bolsa? — perguntei, apontando para a grande sacola de tecido
pendurada em seu ombro.
— Ah, sabe como é. Só o básico. Um cobertor para piquenique, alguns cobertores menores
caso faça frio e um pouco de comida, caso a gente fique com fome.
— Ah, droga, foi mal! — me desculpei. — Eu devia ter trago algo também. Vamos passar no
supermercado rapidinho.
— Valeu... Espero que você não tenha se esforçado demais só para isso.
— De jeito nenhum. Só juntei alguns bolinhos de arroz, nada demais. Não crie muitas
expectativas.
— Ah, tarde demais. Minhas expectativas já estão altíssimas. Acho que nunca tive a chance
de provar sua comida caseira antes, né?
— Ah, para com isso — ela corou, desviando o olhar para o chão. — Bolinhos de arroz nem
contam como comida caseira. Você tá fazendo um drama por nada.
↺
Não demorou para chegarmos ao templo. Fiquei surpreso ao ver que, na verdade, havia
bastante gente por lá — principalmente adultos de meia-idade, bebendo e se divertindo.
Não era exatamente o ambiente tranquilo e isolado que eu esperava.
— Tem bastante gente aqui, né? — comentou Akari, claramente um pouco decepcionada.
— É... Acho que devem estar fazendo um esquenta para o festival de amanhã.
— Ah, é mesmo. Meio que esqueci que era amanhã... Bom, já estamos aqui — ela deu de
ombros. Era óbvio que todo o entusiasmo dela tinha acabado de morrer.
— Sabe... A gente pode ir para aquele parque abandonado. Lá ninguém vai nos incomodar.
— Isso mesmo. Por que essa cara de quem nunca esteve lá?
— Hã? Mas foi você que me chamou para ir lá outro dia, quando a gente — comecei a falar,
mas me interrompi no meio da frase. Eu estava confundindo a ordem em que vivi os
eventos com a linha do tempo real. Akari só viveria aquilo dali a alguns dias — eu realmente
precisava colocar minha cabeça no lugar com essas coisas. — Desculpa, agora entendi.
Claro que você ainda não foi. Mas, olha, essa é uma ótima oportunidade pra te levar lá.
Vamos.
Virei nos calcanhares e segui em direção ao parque abandonado. Akari, ainda um pouco
confusa com minha impulsividade, me seguiu de perto.
↺
Enquanto atravessávamos a cidade, eu não conseguia evitar resmungar internamente sobre
o quão confuso tudo isso era. Como eu deveria explicar as regras do fenômeno do Rollback
para Akari em algum momento, de modo que ela pudesse me explicar isso no dia 6, se eu
mesmo ainda não tinha um entendimento muito claro? E quando foi que eu expliquei isso
para ela, afinal? Pelo fato de ela já saber sobre o Rollback agora, eu devia ter contado a ela
antes das 18h do dia 3 de abril. Talvez fosse mais fácil perguntar diretamente.
— Ei, Akari?
— Sim?
— Você lembra quando eu te expliquei sobre o fenômeno do Rollback e tudo mais? Que dia
foi isso? — perguntei, olhando para ela pelo canto do olho.
— Uhhh, deixa eu pensar... Acho que foi há duas noites — respondeu ela.
Ok, pera aí. Como isso faz sentido? Duas noites atrás seria 1º de abril — mas Akari já tinha me
dito que nós não nos encontramos naquela noite. Será que ela se confundiu com a data?
Porque, do contrário, eu simplesmente não via como eu poderia ter explicado isso para ela
naquela noite específica.
Espera, acho que entendi. Isso não necessariamente era uma contradição; eu poderia ter
explicado tudo por telefone. Se eu me lembrava bem, meu histórico de chamadas mostrava
que liguei para ela naquela noite. Peguei meu celular discretamente para conferir e, com
certeza, o nome dela estava lá: duas ligações consecutivas, logo depois das 21h do dia 1º de
abril. Essa era uma maneira plausível de eu ter explicado o Rollback para ela, sem dúvidas.
Mas foi isso que aconteceu?
Toquei nas chamadas para obter mais informações, tentando encontrar alguma pista pela
duração delas. Para minha surpresa, uma das ligações nem chegou a ser completada, e a
outra durou apenas três segundos. Isso basicamente descartava a teoria da ligação. Não
havia como eu ter explicado todas as complexidades do Rollback em apenas três segundos,
e também não havia registros de mensagens de texto.
Ou seja, estávamos de volta à estaca zero. Eu realmente precisava ter explicado isso para
ela pessoalmente. Claro, teoricamente, eu poderia ter usado o telefone fixo da minha avó
ou pedido para alguém passar a mensagem, mas essas possibilidades pareciam tão mínimas
que era seguro descartá-las. Além disso, a forma mais rápida de confirmar qualquer coisa
era simplesmente perguntar para ela.
— Duas noites atrás... Isso teria sido em 1º de abril, certo? — confirmei. — Eu te expliquei
isso pessoalmente ou só pelo telefone?
Comecei a sentir uma leve tontura. Agora não havia mais dúvidas — ela afirmou, sem
rodeios, que nos encontramos na noite do dia 1º, o que contradizia diretamente o que havia
me dito antes.
Por que Akari mentiria sobre algo assim...? Ou melhor, por que a Akari do futuro sentiria a
necessidade de mentir sobre esse assunto em particular? Eu não fazia ideia, nem uma pista
sequer. O que ela tinha a ganhar ou a perder com isso? O que estava escondendo de mim?
— Ei!
Minhas divagações frenéticas foram interrompidas por uma dor aguda na minha traseira.
Pelo visto, meu pé ficou preso em uma grelha de esgoto, e acabei caindo de costas no chão.
Estava tão escuro que nem percebi o obstáculo. Cara, que desastre. Bom, pelo menos foi
uma maneira de aliviar o impacto dessa descoberta perturbadora.
— Não, tô bem, valeu — garanti com um sorriso enquanto me erguia. Ainda sentia uma dor
latejante, mas sabia que ia passar logo. Pelo menos não quebrei nada. Tirei a sujeira da
roupa e já ia seguir em frente quando Akari me interrompeu.
Ela se agachou ao meu lado e começou a bater na minha calça para limpar a sujeira, como
se fosse minha mãe ou algo assim. Sem jeito, tentei dizer que não precisava se preocupar e
me afastei, mas ela segurou a barra da minha calça e mandou que eu ficasse parado. Agora
que tinha me visto cair, não havia escapatória... e eu podia sentir o suor grudando minha
camisa no corpo de tanta vergonha.
— Pronto, acho que agora foi — disse ela, se levantando com um sorriso.
— O-Obrigado — respondi, apressando o passo em direção à parte abandonada da cidade.
Quanto mais nos aproximávamos, mais sentia meus dedos se cravando nas palmas das
mãos. Droga... eu não queria ter que desconfiar da Akari.
Invadir a escola ontem já tinha sido uma experiência intensa por si só, mas andar por essas
ruas abandonadas à noite era incomparável. Embora houvesse postes de luz ao longo das
calçadas, nenhum estava aceso, mergulhando tudo em uma escuridão absoluta. O silêncio
também era quase total, quebrado apenas pelo miado distante de um gato ou pelo som de
pequenos animais correndo ao notarem nossa presença. Essa quietude sufocante só
tornava a atmosfera ainda mais arrepiante.
Seguimos em frente, usando a lanterna do meu celular como nossa única fonte de luz. Eu
estava apavorado, admito. E, dessa vez, Akari parecia sentir o mesmo. Se na escola ela
manteve a calma, agora segurava firme na minha manga, como se sua vida dependesse
disso.
— Acho que sim... — respondi, embora a escuridão não me permitisse ter certeza absoluta.
Se estivéssemos no caminho certo, deveríamos chegar ao destino a qualquer momento... e,
de fato, logo avistamos a saída do beco estreito. Isso deve ser, pensei, acelerando o passo
até emergirmos em um espaço aberto. Bingo.
Diante de nós, o parque abandonado se revelava, suas cerejeiras em plena floração, mesmo
na total ausência de luz. Uma brisa suave arrancava pétalas dos galhos, fazendo-as flutuar
através do feixe da lanterna do celular, cintilando momentaneamente contra o céu noturno.
— Nossa... — Akari suspirou, maravilhada. Seu aperto em meu braço afrouxou enquanto ela
caminhava até a árvore majestosa no centro do parque, como se estivesse hipnotizada. A
beleza do lugar parecia ter apagado completamente seu medo. — Isso é incrível,
Kanae-kun... Saber que isso sempre esteve aqui, bem debaixo dos nossos narizes...
— Pois é. Eu mesmo só descobri há poucos dias, mas ainda não consigo acreditar.
Deixei a lanterna ligada e apoiei o celular contra o trepa-trepa para iluminar a árvore e
clarear a área ao redor.
— Viu? O que eu te disse? Ninguém vai atrapalhar nosso piquenique aqui — brinquei.
— É... Você não tava brincando... — Akari respondeu distraída, ainda encantada com a visão.
Decidi deixá-la aproveitar o momento.
Enquanto isso, dei a volta na árvore e espiando dentro do pequeno santuário de madeira, vi
que a grande rocha rachada ainda estava no mesmo lugar. Será que algo mudaria se eu a
tocasse de novo? Minha mão chegou a se estender para ela, mas parei no meio do caminho.
A última coisa que eu precisava era tornar essa situação ainda mais complicada. Se
soubesse que viríamos aqui, teria trazido uma pequena oferenda para deixar aos pés do
santuário, pensei enquanto voltava para perto de Akari. Mas então, quando a vi, parei no
meio do caminho.
Ela estendia a mão direita na altura dos olhos, deixando as pétalas caírem suavemente
sobre sua palma. Depois, baixou um pouco a mão, franziu os lábios e soprou delicadamente
as pétalas, espalhando-as no ar. Quando tocaram o chão, um sorriso sereno — e levemente
travesso — surgiu em seu rosto. A cena era estranhamente hipnotizante, ao mesmo tempo
graciosa e encantadora. Fiquei tão fascinado que decidi esperar um pouco antes de
interromper aquele instante.
Fiquei ali, apenas observando Akari de longe, até que, por fim, ela me notou.
Cara, que déjà vu. Tivemos essa exata conversa há alguns dias.
Da última vez, improvisei uma desculpa qualquer e falei algo sobre olhar álbuns de fotos
antigos com minha avó — e lembro que Akari pareceu estranhamente desapontada com
essa resposta. Será que eu deveria inventar outra desculpa para esconder o que realmente
sentia? …Não.
Dessa vez, eu tentaria ser corajoso e assumir o que realmente queria dizer. Era o mínimo
que eu podia fazer para retribuir o carinho inabalável que ela demonstrou ontem à noite, lá
no terraço.
— Eu só estava… aproveitando a bela vista — falei, meu tom firme e sem hesitação.
— Pois é, né?! — Akari exclamou, os olhos brilhando. — Essa árvore é linda, não é?! Dá até
um tempo pra absorver tudo.
Meus ombros caíram ao perceber que ela achou que eu estava falando especificamente da
árvore, e não dela. Mas eu não podia recuar agora — isso sim seria covardia. Juntei coragem
e dei um passo à frente.
Mesmo depois de uma dica tão óbvia, Akari ainda pareceu confusa no começo. Demorou
alguns segundos para ela entender. Mas, quando finalmente engrenou, seu rosto foi ficando
cada vez mais vermelho. Ela abaixou um pouco a cabeça, mexendo nas franjas enquanto
desviava o olhar.
— S-Sim, de nada.
Isso foi dez vezes mais constrangedor do que eu estava preparado para enfrentar. Comecei
a me xingar internamente.
Mandou bem, idiota. Será que precisava exagerar tanto assim? Como pretende sair dessa
agora, gênio?
Ficamos ali em silêncio por um tempo. Akari evitava me encarar enquanto eu revirava meu
cérebro desesperadamente por qualquer coisa decente para dizer. Então, uma brisa gelada
roçou a parte de trás do meu pescoço, enviando um arrepio elétrico pela minha espinha e,
enfim, quebrando o momento.
— V-Vamos estender o cobertor logo, que tal? — soltei de repente, após uma pausa longa
demais. — Não dá pra chamar isso de piquenique se ficarmos de pé o tempo todo.
— Beleza, está pronto para experimentar um dos bolinhos de arroz? — ela perguntou.
— Ahaha, obrigada… Fazia um tempo que eu não fazia, mas, depois que comecei, não
consegui parar.
Peguei um bolinho. Ele tinha um formato impecável e ainda estava levemente quente. Dei
uma mordida e fiquei satisfeito ao sentir pedacinhos suculentos de salmão dentro. Não
sabia se ela realmente lembrava que salmão era um dos meus alimentos favoritos ou se foi
pura coincidência, mas, de qualquer forma, aquilo me deixou bem feliz.
— Sério?! — Ela sorriu, radiante. — Que alívio! Pode comer quantos quiser, tá?
Eu me joguei nos bolinhos, mas fiz questão de mastigar direito e de boca fechada. Não
queria desperdiçar o carinho que ela colocou neles. Akari apenas me observava devorar a
comida, com um sorriso contente no rosto.
— Você não está com fome? — perguntei entre uma mordida e outra.
— Ah, pode deixar que eu vou comer, sim — disse ela, pegando um bolinho de arroz. Deu
uma mordidinha delicada, mastigou e engoliu. Quando terminou o primeiro, eu já estava
pegando o terceiro.
— Meio que lembra a comida da cantina na época da escola primária, né? — comentei.
— É que eu era bem pequena naquela época, com um estômago minúsculo, sabe? Comia
bem devagar, tinha que fazer várias pausas.
— É, mas também não é como se alguém te obrigasse a comer tudo. Eu lembro que ficava
preocupado com você — metade do tempo, parecia um esquilo com as bochechas cheias,
quase engasgando. Não vale a pena limpar o prato se no final isso significa chorar de tanto
esforço.
— Ei, você sabe que eu odeio desperdiçar comida! Mas teve aquela vez em que acabei
vomitando tudo. Aquilo foi um pesadelo.
— Sério? Isso me surpreende, considerando que você ficou comigo pra ajudar a limpar
depois.
— Ufa! — soltei um suspiro pesado. — Isso estava muito bom. Mas acho que não consigo
comer mais nada.
— Com certeza.
Ela pegou sua garrafa térmica e despejou um pouco de chá em um copinho; dava pra ver
que ainda estava bem quente. Agradeci e estendi a mão para pegar o copo — nossos dedos
se tocaram por uma fração de segundo.
Tomei o chá rapidamente e devolvi o copo para Akari. Ela o colocou de lado e, em seguida,
estendeu as mãos, mexendo os dedos em um gesto de me dá.
— O quê, vai ler minha sorte na palma da mão ou algo assim? — brinquei, mas estendi a mão
mesmo assim. Akari a segurou firme com as duas mãos e a puxou para mais perto, a poucos
centímetros do rosto dela. A maciez da pele e os movimentos suaves, quase como uma
massagem, fizeram meu coração acelerar.
Joguei uma resposta pronta, mas ela levou a sério. Enquanto isso, eu fiquei ali, sem saber
para onde olhar, desviando o olhar sem encará-la diretamente — sabia que, por mais
desconfortável que fosse, puxar minha mão de volta só tornaria a situação dez vezes mais
estranha. Mas de uma coisa eu tinha certeza: esse método dela estava deixando meu rosto
quente muito mais rápido do que minhas mãos.
Nos últimos dias, algo que eu havia percebido, mas não tinha parado para pensar direito,
era o quanto Akari estava sendo assertiva comigo, a ponto de alguém facilmente interpretar
errado — especialmente depois do que aconteceu ontem à noite no telhado da escola.
Talvez algo tenha acontecido entre nós no período que eu ainda não vivi, algo que nos
aproximou. Se foi o caso, deve ter sido algo bem repentino, já que restavam apenas dois
dias de Rollback.
— Ei, Kanae-kun. Você ainda lembra daquela vez na segunda série quando veio me
resgatar? — Akari perguntou, me tirando dos meus pensamentos.
— Sabe, quando todo mundo estava zoando a minha pele. Você chegou, pegou na minha
mão e me arrastou pra fora da sala.
De repente, aquela memória vaga, que eu tentava alcançar no fundo da minha mente, ficou
clara como cristal — e a espessa camada de vergonha e arrependimento que a cobria veio à
tona de uma vez.
— Meu Deus, por que você tinha que me lembrar disso? — gemi. — E olha que eu tentei
tanto apagar essa memória horrível da minha mente…
— Horrível?! Como assim?! Tá, foi meio vergonhoso… Mas, na época, significou muito pra
mim!
— Meio?! Você não sai por aí colocando os dedos dos outros na boca, Akari. Até uma criança
de sete anos deveria saber disso…
Akari olhou para a minha mão por um instante, fixada nela, e então a puxou ainda mais para
perto do rosto. Depois, abriu a boca, e meu coração disparou.
Será que ela realmente ia fazer a mesma coisa comigo só para provar que não tinha nada de
mais? Por um segundo, entrei em pânico, mas não. Ela apenas franziu os lábios e soltou
algumas lufadas lentas de ar quente, envolvendo minha mão com seu hálito quente e
úmido.
Tive que me segurar para não soltar um longo suspiro nostálgico. Eu estava completamente
à vontade naquele momento. Estar assim com Akari parecia tão confortável, tão natural,
que quase esqueci o motivo de ter trazido ela aqui — descobrir se estava escondendo algo
de mim. Se eu me permitisse esquecer esse detalhe, poderia simplesmente me perder na
felicidade que estava sentindo agora. Mas isso não era uma opção. Eu precisava esclarecer
todas as incertezas restantes se quisesse evitar a morte de Akito. Não havia desculpa para
deixar qualquer ponta solta quando a vida de alguém estava em jogo.
— Akari, espero que não leve isso para o lado errado, mas...
Pude quase ouvir o coração de Akari perder uma batida. Ou, pelo menos, foi assim que me
pareceu. Pelo jeito que suas mãos tremiam, minha pergunta claramente havia sido um
choque. Lentamente, ela afastou as mãos das minhas, e vi a vivacidade desaparecer de seu
rosto à medida que o fazia. Dessa vez, não era apenas minha mão direita que se expunha ao
frio da noite — meu coração também.
— Kanae-kun, eu — ela começou, sua voz frágil como um sussurro. Mas não terminou a
frase, então esperei. Estava disposto a aguardar o tempo que fosse necessário para que ela
completasse aquele pensamento. Depois do que pareceu um minuto inteiro, ela enfim falou,
em um tom suave, mas devastador.
— Eu não posso falar sobre isso.
— O que você quer dizer com não pode falar sobre isso...? Você só pode estar brincando
comigo.
Insisti impacientemente, relutando em aceitar que ela estivesse me escondendo algo esse
tempo todo.
— Ótimo, agora estou ainda mais preocupado. Se aconteceu algo tão terrível, você não acha
que eu deveria saber com antecedência?
— Não, você precisa me contar. Ou será que simplesmente não confia em mim? É isso?
— O-Ó, claro que confio! — ela implorou, elevando a voz. — Escuta, você vai descobrir logo,
tá bem? Acredite, não é algo que você precisa saber agora. Então, por favor, não diga esse
tipo de coisa...
Sua voz estava trêmula e rachada, e seu rosto transbordava tristeza. Isso fez com que eu me
sentisse péssimo, como um dono cruel que abandona um filhote indefeso na estrada e vai
embora.
— Certo. Desculpa por ter tocado nesse assunto — murmurei. Era uma pergunta que
precisava ser feita, mas reconheci que deveria ter encontrado uma abordagem melhor.
Akari baixou o olhar para o chão e balançou a cabeça, fraca.
Peguei meu celular do chão e conferi as horas. Já passava das dez — estávamos oficialmente
fora do horário permitido.
↺
Quase não trocamos palavras no caminho de volta, e as poucas interações que tivemos
foram tão superficiais que, no momento em que nos despedimos em frente ao prédio dela,
eu já havia esquecido tudo o que dissemos.
Assim que cheguei ao meu apartamento, mergulhei na banheira, deixando a água quente
cobrir meus ombros enquanto soltava um longo suspiro cansado. Eu estava exausto. Talvez,
se eu não tivesse agido feito um idiota acusando Akari daquele jeito, ainda estaria curtindo
a euforia da noite incrível que tivemos. Mas esse barco já havia zarpado há muito tempo.
Essa sensação pegajosa e incômoda dentro de mim poderia ter sido evitada. Sabia que, por
mais que esfregasse, a culpa não iria embora.
É claro que ainda estava curioso para entender o que aconteceu naquela noite, no dia da
morte de Akito, mas insistir nisso agora só pioraria as coisas entre nós.
↺
Por volta das 5h30 da manhã do dia seguinte, quarta-feira, 4 de abril, saí de casa e segui
rumo ao grande festival, ainda esfregando o sono dos olhos. O céu ainda estava escuro o
suficiente para revelar as estrelas, embora o sol começasse a despontar no horizonte leste.
Fiz um bom tempo de caminhada e cheguei aos terrenos do templo um pouco antes das
seis. Já havia bastante gente por lá montando as estruturas, além de alguns organizadores
do evento correndo de um lado para o outro, vestidos com trajes tradicionais de festival.
Fiquei parado na entrada por um instante, tentando absorver a cena, até ouvir uma voz me
chamar. Ao me virar, vi que era Hayase, cercada por um grupo de adultos que pareciam ter
o dobro da idade dela. Corri até lá para encontrá-la.
— Bom dia, Funami — ela acenou. — Desculpa te tirar da cama tão cedo.
— Ah, tudo bem. Mas, hum — minha voz sumiu quando olhei ao redor, observando os
adultos ao lado da Hayase. Eram quatro homens e mulheres, alguns aparentando estar no
final dos vinte anos, enquanto os outros eram claramente mais velhos, provavelmente na
casa dos quarenta.
— Ah, eles? São os outros ajudantes que você vai estar auxiliando — ela explicou.
— Certo, entendi.
Para uma única barraca, parecia gente demais. Será que minha ajuda era realmente
necessária? Apesar da dúvida, me apresentei ao grupo, como Hayase pediu. Depois que
terminei, eles se apresentaram de volta.
— Ok, agora que já se conhecem, podem começar montando as tendas. Aqui, coloquem isso
— Hayase disse, entregando um par de luvas de trabalho para mim enquanto já se afastava.
Coloquei-as o mais rápido que pude, tentando acompanhar seu ritmo.
Ela nos levou até um grande galpão de armazenamento no templo, de onde começamos a
carregar as longas peças de metal que formariam a estrutura da barraca. Foram necessárias
várias idas e vindas para transportar tudo, mas, em menos de uma hora, conseguimos
erguer três tendas lado a lado, cada uma coberta com um toldo branco triangular de
poliéster. Depois disso, começamos a descarregar mesas dobráveis, utensílios de cozinha e
placas de sinalização de uma van estacionada ali perto. Por volta das 7h30, a barraca estava
praticamente pronta. Afastei-me um pouco para admirar nosso trabalho.
Não era nada parecido com o que se imaginaria ao pensar em uma simples barraca de
comida de festival. Estava mais para o quartel-general do evento inteiro. Hayase
aparentemente ouviu meu comentário e veio até onde eu estava.
— É, minha família sempre faz tudo em grande estilo. Você não sabia? — ela perguntou.
— O quê?! Pois devia! Quero ver você aqui todo ano a partir de agora, entendeu? Mas, por
hoje, preciso que trabalhe duro!
Ela deu um tapa forte nas minhas costas e saiu andando. Eu começava a sentir que tinha me
metido em algo um pouco além do que esperava.
Logo depois, Hayase reuniu todos novamente para distribuir as tarefas. Alguns ficariam
encarregados do preparo da comida, enquanto outros atenderiam os clientes e cuidariam
do caixa. Fiquei responsável pela retaguarda, garantindo que os ingredientes estivessem
sempre abastecidos, montando os pratos, embalando pedidos e cuidando de outras tarefas
secundárias.
Definitivamente, não era assim que eu imaginava passar minhas preciosas férias de
primavera... especialmente quando deveria estar focado em salvar Akito.
Por volta das nove da manhã, os clientes começaram a aparecer, e a correria só aumentou.
Agora já era quase meio-dia, e os terrenos do templo estavam lotados. O Festival das
Riquezas do Oceano era o maior evento anual de Sodeshima, tão famoso que até pessoas de
fora da ilha vinham de balsa para participar.
A principal atração era o grande desfile de barcos, que saía do porto no início da tarde e
circulava as águas ao redor da ilha. No centro da procissão estava uma réplica magnífica de
um navio mítico, que, segundo a lenda, era guiado dos céus até o mundo humano pelos
Sete Deuses da Fortuna. O barco concedia bênçãos simbólicas ao mar e orações por
colheitas fartas e viagens seguras aos pescadores locais.
Nunca achei nada disso muito impressionante, pessoalmente, mas, para os visitantes,
parecia ter um certo apelo especial.
Mais do que tudo, eu só queria me livrar logo desse enorme favor em que me meti.
Idealmente, queria estar em casa antes das seis, para que o próximo Rollback não
acontecesse de novo no meio de uma confusão... Espera aí. Me lembrei do Rollback
anterior, quando percebi que estava aqui no festival e entendi exatamente o que ia
acontecer.
Aquele bêbado tentaria arrumar briga comigo, e então Hayase surgiria para me salvar.
Ainda não fazia ideia do motivo daquele cara ter ficado tão irritado comigo, mas
provavelmente descobriria em breve. Nunca me considerei do tipo que irrita estranhos sem
motivo, mas...
— Peraí.
Uma nova hipótese surgiu na minha mente. E se eu me certificasse de estar bem longe do
festival quando o próximo Rollback acontecesse? Não tinha como aquele bêbado careca me
abordar se eu nem estivesse lá. Por outro lado, isso mudaria o futuro e, consequentemente,
tudo que já tinha experimentado nos Rollbacks anteriores. Basicamente, criaria um
paradoxo temporal.
Será que eu queria mesmo tentar algo assim? Existem vários livros e desenhos onde as
pessoas mudam o passado sem pensar nas consequências, mas as regras desses universos
fictícios nem sempre se aplicam à realidade. De certo modo, era exatamente isso que eu
estava tentando fazer. Meu objetivo era alterar o passado para impedir a morte de Akito,
criando um futuro onde nunca houve a necessidade de voltar e tentar evitar isso. Assim,
acabaria gerando um mundo em que eu nunca o impedira, e por aí vai. Esse ciclo infinito de
contradições era a própria definição de um paradoxo temporal, mas já estava envolvido
demais para hesitar agora. Só me restava dar o meu melhor e torcer para que fosse o
suficiente.
Decidi testar minha hipótese e ver o que aconteceria se saísse do festival antes das seis. Até
lá, ainda tinha trabalho a fazer
↺
Às 17h30, minhas pernas já estavam dormentes. Eu estava oficialmente exausto. As pausas
que nos deram não ajudaram muito; aquele trabalho era bem mais pesado do que eu
esperava. Ainda não sabia se ia ser pago por aquilo, mas definitivamente deveria. Saí à
procura da Hayase para perguntar se podia sair uns minutos antes das seis. Foi então que
senti algo quente e metálico encostar na minha bochecha. Era Hayase, me surpreendendo
com uma lata de café quente.
— Valeu — agradeci, pegando a bebida quente. — Então, eu... desculpa sair assim, mas
preciso ir pra casa logo...
— Sem problema. Na verdade, eu já ia te liberar mesmo. Mas antes, me acompanha ali atrás
por uns minutos e toma esse café comigo. Quero te dar um pequeno agradecimento antes
de você ir.
Curioso, segui Hayase para a parte de trás da barraca e me joguei no chão, aliviando minhas
pernas cansadas. Abri a lata de café e dei um gole generoso. Tinha a quantidade perfeita de
açúcar e, para minha garganta seca, parecia o néctar dos deuses. Depois de quase metade
da lata em um único gole, Hayase se sentou ao meu lado.
— Você ajudou pra caramba hoje, Funami — disse ela. — Quase não cometeu erros e
aprendeu rápido demais. Não estaria interessado em trabalhar na loja de bebidas da minha
família depois de se formar, estaria?
— Heh. Esse é um não se eu já ouvi um — ela riu. — Mas relaxa, eu tava brincando.
— Ufa... Parece que tivemos outro ano de sucesso, né? Difícil se animar muito quando todo
o dinheiro vai direto para o santuário, mas fazer o quê... Ah, pera. Você não se incomoda se
eu fumar, né?
Depois disso, um silêncio meio estranho se instalou, então tomei mais um gole do café.
Enquanto bebia, olhei para Hayase pelo canto do olho. Agora que reparava bem, ela era bem
bonita, apesar da aparência meio punk. Dava pra entender como uma garota naturalmente
atraente como ela tinha sido namorada do Akito no ensino médio — ser a gerente do time
de beisebol provavelmente também ajudava.
Eu me perguntava como era a relação deles quando Hayase virou o rosto para mim de novo.
— Bom, valeu pela ajuda hoje — disse ela. — Você realmente quebrou um galho e fez um
ótimo trabalho substituindo o Akito.
— Ah, eu não te falei? — Hayase fez uma cara surpresa. — Ele ia ajudar a gente na barraca de
novo este ano, mas, por motivos óbvios, não pôde... Íamos ficar desfalcados até você
aparecer e se oferecer pra ajudar.
— Uau, isso é... É, eu não fazia ideia — admiti. Essa revelação me encheu de uma mistura de
emoções complexas. — Vocês dois devem ter continuado bem próximos ao longo dos anos,
né?
— Nah, nem tanto. Nada como o quão inseparáveis éramos no colégio, pelo menos.
— Ah, cara. Ele era o garoto mais legal da escola. Tipo, praticamente uma celebridade. Todo
mundo admirava ele, mesmo que não admitisse.
— Ah, desculpa, você queria saber mais sobre como ele era nos bastidores? Bom, acho que
ele era o típico adolescente egocêntrico. Muito cheio de si, extremamente competitivo e
um péssimo perdedor ao mesmo tempo. Mas, pra ser justa, ele fazia por merecer. Não sei se
já conheci alguém mais esforçado do que ele.
— Hm. Interessante...
— Hã? Por que você tá agindo como se nunca tivesse ouvido falar disso antes?
— Estou falando sério. Acho que nunca ouvi isso...
— Cara, você é estranho. A gente literalmente falou sobre isso ontem. Foi você quem trouxe
o assunto.
Seja lá do que ela estava falando, devia ser algo que eu ainda não tinha vivido. Esperei
enquanto ela terminava de jogar a bituca do cigarro no cinzeiro portátil antes de continuar
investigando.
— De novo, eu já te expliquei tudo isso. E como eu te disse ontem, esse tipo de assunto não
é nada agradável pra mim, então eu preferiria não ter que repetir — ela disse. Então, se
levantou, tirou uma nota de mil ienes da carteira e me entregou. — Aqui. Sei que não é
muito, mas considere um pequeno sinal da minha gratidão. Não gaste tudo de uma vez, tá?
— M-Muito obrigado — respondi. Mil ienes por um dia inteiro de trabalho? Sério...? Isso mal
dava pra pagar um jantar. Resisti à vontade de soltar um suspiro pesado e apenas dobrei a
nota ao meio antes de enfiá-la no bolso da calça.
— Enfim, valeu de novo por toda a ajuda hoje. Você realmente salvou minha pele. Se quiser
dar uma força de novo no ano que vem, seríamos gratos.
Dito isso, Hayase se afastou e entrou de volta na barraca. Eu não tinha a menor intenção de
fazer todo aquele trabalho de novo no próximo ano sem uma remuneração decente, mas
pelo menos tinha conseguido algumas informações novas sobre Akito. Nunca tinha ouvido
nada sobre uma lesão grave no ombro.
Quando isso aconteceu? Foi depois que me mudei para Tóquio? Para um arremessador
como Akito, uma lesão séria no ombro poderia significar o fim de toda a sua carreira
esportiva. O que realmente despertou meu interesse, no entanto, foi a maneira como
Hayase mencionou isso.
"Não sei se já conheci alguém mais esforçado do que ele... Bom, até a lesão no ombro, pelo
menos."
Isso me fez pensar que sua personalidade inteira poderia ter mudado depois do incidente.
Fiquei sentado no chão por um tempo, resmungando enquanto tentava entender tudo
aquilo. Então, me dei conta de que estava ali há bem mais tempo do que pretendia. Peguei o
celular, e, como esperado, faltavam apenas cinco minutos para o próximo Rollback.
Isso era ruim. Eu precisava sair do festival rápido se quisesse testar minha hipótese.
Levantei num pulo, engoli o resto do meu café em um único gole, joguei a lata vazia em uma
lixeira próxima e saí correndo em direção à saída, tomando cuidado para não esbarrar em
ninguém. Estava quase lá, e com tempo de sobra, quando ouvi uma voz mencionando o
nome Akito a poucos centímetros do meu ouvido.
Parei no mesmo instante. Eu sabia que precisava continuar, mas minha curiosidade foi mais
forte. Virei e vi dois jovens na fila para comprar espetinhos de yakitori, conversando sobre
Akito. Eu podia perder um ou dois minutos, então entrei discretamente na fila atrás deles e
comecei a escutar.
— É, ele ainda me devia uma boa grana também — disse um deles. — Acho que nunca mais
vou ver esse dinheiro.
— Ah, sério? Ele te passou a perna também? — respondeu o outro. — Quer dizer, eu sabia
que ele tinha acumulado umas contas absurdas em vários bares, mas... caramba.
— Peraí, você tá de brincadeira? Foi pra isso que ele usou meu dinheiro? Puta merda, Akito.
— Bom, na real, eu não sei. O que dizem por aí é que ele se meteu com umas organizações
bem suspeitas lá no continente, se é que você me entende. Não me surpreenderia se ele
estivesse com uma dívida gigantesca ou até sendo extorquido.
— Caramba, mano. Como um cara desses passa de herói a fracassado tão rápido? Que
horror.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Akito, endividado e envolvido com a máfia?
Nem ferrando. O Akito que eu conhecia jamais se rebaixaria a esse nível.
Me vi preso no lugar, incapaz de parar de ouvir, por mais absurdo que parecesse. Se o que
estavam dizendo era verdade, não pude deixar de me perguntar se isso tinha alguma
relação com a lesão no ombro dele.
Decidi continuar ouvindo por mais um tempo, mas, exatamente nesse momento, ouvi o
sino das seis horas começar a tocar.
Esperando, em vão, que ainda pudesse sair do festival a tempo, dei alguns passos para trás
para me virar — e acabei tropeçando na perna de um cliente que tinha acabado de entrar na
fila atrás de mim.
INTERLÚDIO V
ERA O OUTONO do nosso segundo ano do ensino fundamental II. Naquela noite, caminhei
para casa com passos pesados e arrastados, ainda abalada pela revelação angustiante de
que Kanae deixaria Sodeshima para se mudar para Tóquio no final do nono ano. Subindo as
escadas, destranquei a porta do apartamento da minha família e entrei. Meu irmão ainda
estava no treino de beisebol, e minha mãe trabalhava em seu emprego noturno no bar de
hostess, então, como de costume, eu estava sozinha em casa àquela hora. Tirei os sapatos e
segui pelo corredor mal iluminado, ouvindo o rangido das tábuas sob meus pés. Joguei
minha mochila no chão da sala e fui cambaleando até o banheiro para me olhar no espelho.
Meu rosto estava abatido e pálido, e até dava para notar algumas leves rugas na testa. De
repente, senti um alívio imenso pelo fato de já estar escuro lá fora. Eu não queria que Kanae
me visse assim.
— Haha…
Minha expressão estava tão ridícula que não consegui evitar uma risada. Mas, assim que ri,
todas as lágrimas que eu vinha segurando finalmente se libertaram e começaram a escorrer
pelo meu rosto. Meu riso aos poucos se transformou em choro, e então caí de joelhos ali
mesmo, no banheiro. Não conseguia mais suportar aquilo. Quando finalmente não restavam
mais lágrimas para derramar, me levantei, fui até o quarto e desabei de bruços na cama.
Nem tive ânimo para tirar o uniforme da escola.
— Tóquio, né…
Peguei o celular e pesquisei: "custo de vida estudante transferido Tóquio." Algumas leituras
rápidas indicaram que as despesas mensais ficariam em pelo menos algumas dezenas de
milhares de ienes, além de algumas centenas de milhares para a mudança inicial, sem
contar possíveis taxas de matrícula, livros didáticos e mensalidades. Tentei somar tudo
mentalmente, mas logo percebi que era inútil. Era ridículo pensar que eu poderia bancar
uma vida em Tóquio, e tentar calcular os custos só me dava dor de cabeça. O fato era que,
depois da formatura, eu talvez nunca mais visse Kanae. E só de pensar nisso, comecei a
chorar de novo, mesmo achando que já não restavam lágrimas.
A inevitabilidade de perder meu melhor amigo pairou sobre mim durante todo o inverno e,
quando a primavera chegou, Kanae e eu começamos nosso último ano na Escola
Fundamental II de Sodeshima. Nosso relacionamento permaneceu em um estado de
inércia, onde tudo o que fazíamos era continuar voltando juntos para casa, sem nos
aproximarmos nem nos afastarmos. Então, a primavera deu lugar ao verão e, no meio dos
meses mais quentes do ano, me aposentei do time de natação, o que me deixou com muito
mais tempo livre para passar com Kanae.
— Então, eu finalmente escolhi para qual colégio vou tentar entrar — ele me disse um dia,
enquanto voltávamos para casa depois da aula. — Você conhece a U of I, né? Pois é, decidi
tentar a prova para a escola afiliada deles. A nota de corte é um pouco alta, mas, se eu
entrar, posso só seguir o fluxo pelo sistema de admissão automática e entrar direto na
universidade.
Escola afiliada. Sistema de admissão automática. Eu conhecia esses termos, é claro, mas
eram conceitos tão distantes da minha realidade financeira e das minhas ambições
educacionais que nunca registravam de verdade na minha mente — entravam por um
ouvido e saíam pelo outro. Tudo o que consegui oferecer foram incentivos vazios como
"Nossa, que legal!" ou "Não se preocupa, você consegue", e isso me fez sentir como uma amiga
patética.
Quando cheguei em casa naquela noite, pesquisei sobre o colégio para o qual Kanae
tentaria entrar. Ele havia dito que a barreira de entrada era "um pouco alta", mas isso era
um baita eufemismo. O que me deixou ainda mais de queixo caído do que a nota de corte
foram os custos da mensalidade. Eu jamais poderia pagar para estudar lá com a renda da
minha família. A realidade inescapável de que nunca conseguiria morar em Tóquio com ele
se tornava cada vez mais evidente, como se paredes estivessem se fechando ao meu redor,
ansiosas para esmagar o pouco de esperança que ainda me restava.
E, ainda assim, continuei torcendo por Kanae, mantendo o máximo de apoio possível por
fora, enquanto por dentro eu me consumia em sofrimento. Não importava quanto tempo
passasse, aquilo era uma verdade que eu simplesmente não conseguia engolir. E antes que
eu percebesse, o outono havia chegado novamente. Sob os céus nublados da estação, com
o vento começando a ficar mais frio, meu irmão mais velho quebrou o ombro.
Não soube de imediato como aquilo aconteceu. Eu estava sentada sozinha em casa numa
noite quando, de repente, minha mãe e meu irmão entraram juntos pela porta — algo raro,
por si só. O rosto do meu irmão estava branco como papel. Minha mãe parecia
simplesmente arrasada. Só mais tarde fui descobrir que ele havia tido uma inflamação grave
no ombro, que estava lhe causando uma dor insuportável.
— Parece que ele vai precisar passar por uma cirurgia — explicou minha mãe. — Talvez
nunca mais possa jogar beisebol. Ele está levando isso muito mal, então, por favor, tente
não tocar no assunto, tá bom?
Assenti. Ela não precisava me dizer duas vezes; eu sabia muito bem que era melhor não
cutucar um vespeiro com um assunto tão delicado. Meu irmão, aliás, já havia me procurado
antes e me proibido de contar a qualquer um sobre sua lesão. Mas, para falar a verdade,
aquilo não me afetou muito na época. Minha mente estava ocupada demais com a iminente
partida de Kanae para Tóquio para que eu pudesse dedicar mais do que um pensamento
passageiro ao meu irmão. Isto é, até uma noite em particular, quando eu estava sentada à
mesa fazendo lição de casa e ouvi ele xingando furiosamente do outro lado da parede do
meu quarto.
— Droga... Droga! O que foi que eu fiz pra merecer isso?! Isso é uma grande merda! Eu me
esforcei mais do que qualquer um, caramba...! O beisebol era tudo que eu tinha... A única
coisa em que o papai disse que eu era bom... Urgh, por que justo eu...?
Aquilo me abalou profundamente. Depois disso, não pude evitar sentir pena dele. Não me
surpreendeu saber que ele baseava toda a sua autoestima no beisebol, afinal, era a única
coisa que ele amava de verdade e pela qual sempre se dedicou. E não falo apenas dos anos
escolares — lembro-me dele e do meu pai jogando bola do lado de fora do nosso
apartamento todos os dias, antes mesmo de ele entrar no jardim de infância.
Nunca gostei muito do meu irmão mais velho. Desde pequeno, ele não fazia nada além de
implicar comigo. Gostava de me mandar fazer coisas e sempre descontava a raiva em mim
toda vez que se sentia frustrado. Por isso, sempre tentei manter o máximo de distância
possível dele, tanto física quanto emocionalmente. Mas, naquele momento, senti apenas
compaixão. Infelizmente, foi a partir dali que a vida dele começou a desandar, aos poucos,
mas de forma irreversível.
No fim, não fui capaz de impedir Kanae de se mudar para Tóquio. Ele passou na prova de
admissão e entrou para a escola afiliada da U of I. Arranjaram para que ele fosse morar com
o pai na cidade grande na primavera seguinte. Eu, por outro lado, não dava a mínima para
qual colégio entraria, desde que não fosse o mesmo que o dele. Acabei me matriculando na
Escola de Ensino Médio de Sodeshima, a opção mais barata e próxima de casa. Quando
divulgaram os resultados dos exames de admissão, não fiquei nem feliz nem triste. Não
senti nada.
Então veio o dia da cerimônia de formatura e, com ele, o último dia em que eu teria a
chance de voltar para casa da escola com Kanae.
— Tem certeza de que não quer ir pra festa de fim de ano? — ele me perguntou enquanto
caminhávamos de volta. — Seus colegas de classe e o pessoal do time de natação
provavelmente estavam contando com sua presença.
— Ah, eu não sou muito fã de festas grandes assim. — Dei de ombros. — Além disso, achei
que seria bom ter pelo menos uma última chance de conversar com você antes de ir.
— É... E daí?
Passamos na lojinha de doces pela primeira vez em meses, apenas para fazer uma
descoberta decepcionante: a velha máquina de vendas que ficava do lado de fora — aquela
com as garrafinhas de vidro de Cheerio que a gente tanto adorava — havia sido removida e
substituída por um modelo novo e moderno. Senti uma tristeza profunda e nostálgica,
embora não conseguisse entender exatamente o motivo. Talvez porque eu nunca mais teria
a chance de sentir o gosto das moléculas de vidro dissolvidas outra vez.
— Hã? O que você qu — comecei a perguntar, mas então entendi. Minha voz estava nasalada
e falha; eu tinha começado a chorar sem nem perceber.
— Ah… desculpa. Tentei ao máximo não chorar durante a cerimônia, mas acho que não
consegui segurar por mais tempo… ou algo assim…
Ficamos ali por um tempo — não sabia dizer quanto — aproveitando juntos o início da
tarde. O céu acima era límpido e azul, o vento em meus cabelos era fresco e cortante, e
enquanto nos sentávamos lado a lado, meus ouvidos eram delicadamente acariciados pelo
som tranquilizante das ondas quebrando ao longe. O momento era perfeito, e eu sabia que
talvez fosse minha última chance.
Não me deixe.
— SINTO MUITO POR ISSO! — me desculpei em um tom atrapalhado, mas já era tarde
demais.
O Rollback já havia acontecido, e agora o bêbado de rosto avermelhado que derrubei
segundos atrás não estava mais em lugar nenhum. Minha consciência havia sido arrancada
do festival num piscar de olhos. Olhei ao redor e logo percebi que estava em um lugar
muito familiar — de pé, perto da janela do meu próprio quarto. Do outro lado do vidro,
pude distinguir vagamente o som de Greensleeves.
Quase por reflexo, alcancei o celular no bolso para checar a data. A tela se acendeu,
mostrando que era segunda-feira, 2 de abril, às 18h. Sentindo-me um tanto derrotado,
sentei-me na cama e apertei a ponte do nariz entre os dedos.
A outra possibilidade era que paradoxos temporais simplesmente não existiam no mundo
real. Em outras palavras, o passado já estava gravado em pedra. Talvez nossas vidas inteiras
estivessem predestinadas, e não houvesse nada que eu pudesse fazer para escapar do que o
destino havia decidido para mim. Mas, se fosse esse o caso, então eu poderia dar adeus a
qualquer esperança de salvar a vida de Akito.
Cerrei os punhos, como se tentasse sufocar qualquer dúvida antes que ela pudesse criar
raízes. Eu não tinha tempo nem clareza mental para ficar filosofando sobre a verdadeira
natureza do tempo e do destino. Tudo o que eu sabia era que o fenômeno do Rollback
acontecia quase exatamente no mesmo momento da morte de Akito, e isso não podia ser
coincidência. Havia um motivo para eu estar sendo enviado de volta. Eu me recusava a
acreditar que alguma força superior poderia ser cruel o suficiente para me mandar ao
passado sem me dar uma chance de mudar as coisas. Só eu tinha o poder de impedir a
morte de Akito. Eu precisava acreditar firmemente nisso, ou perderia completamente a
vontade de continuar.
Ainda assim, aquela conversa que escutei no festival não saía da minha cabeça. Tudo aquilo
sobre Akito estar afundado em dívidas ou envolvido com organizações criminosas... Eu não
queria acreditar que ele chegaria a esse ponto, mas aqueles dois caras não pareciam estar
brincando. Eu já não sabia mais em que acreditar.
Independentemente do que ele estivesse envolvido, eu ainda precisava fazer tudo ao meu
alcance para salvar sua vida. Depois, poderia descobrir se aquelas acusações eram
verdadeiras confrontando o próprio Akito.
Levantei-me da cama para fechar as cortinas, e meu estômago roncou alto de repente.
Nossa, eu preciso comer alguma coisa, pensei. Mas, ao mesmo tempo, percebi que aquilo ia
além da fome normal; eu estava absolutamente faminto. Como deixei chegar a esse ponto
sem me alimentar? Estranho, refleti, enquanto fechava as cortinas e acendia a luz. Um
momento depois, ouvi batidas na porta.
— O que foi?
— Ahm... Só queria avisar que já está quase na hora do jantar — disse ela, meio hesitante.
— Ah, beleza. Valeu por avisar — respondi, me levantando da cama para descer. Mas Eri não
fez menção de sair, permanecendo parada no mesmo lugar.
Ela me encarou por um instante, pensativa, até finalmente reunir coragem para perguntar.
—- Bom, sei lá... Você meio que saiu furioso de casa depois da nossa briga ontem... Aí não
voltou pra casa até hoje de manhã e, mesmo assim, só ficou trancado no quarto. Achei que
ainda estivesse chateado...
Ah, certo. Ela devia estar se referindo à discussão que tivemos quando cheguei aqui no dia
1º de abril.
— Hm...? — A voz dela vacilou. — Viu só? Eu sabia. Você ainda tá bravo, né?
— Não, você está pensando demais. Relaxa. Na verdade, eu queria me desculpar com você.
Não foi nada legal da minha parte explodir daquele jeito.
A tensão visivelmente se dissipou dos ombros de Eri, e ela soltou um suspiro de alívio.
— Bom, tudo bem então. Era só isso que eu queria dizer — disse ela, virando-se para sair
pela porta.
— Não? Por que eu saberia? — Eri respondeu, erguendo uma sobrancelha com
desconfiança.
Com isso, saímos juntos para o corredor, e Eri seguiu na minha frente. Mas, quando eu
estava prestes a descer para a sala de estar atrás dela, fui atingido por uma súbita onda de
ansiedade. Era como se eu estivesse esquecendo algo importante. Mas o quê? Peguei meu
celular e conferi a data novamente. Era segunda-feira, 2 de abril, e o relógio marcava
18h20…
— Ah, merda!
Desci as escadas correndo feito um louco e calcei meus sapatos o mais rápido que pude.
— Ei, qual é a pressa? — Eri perguntou, colocando a cabeça para fora da sala.
— Desculpa, não posso falar agora! E preciso pegar sua bicicleta emprestada! — gritei de
volta enquanto batia a porta atrás de mim.
Montado na bicicleta de Eri — que eu já sabia que ela não costumava trancar — pedalei o
mais rápido possível em direção à antiga tabacaria. Com tudo o que tinha acontecido nos
últimos dias, quase esqueci do bilhete que deixei para mim mesmo sobre como deveria
encontrar o corpo de Akito naquele terreno baldio esta noite. Obviamente, ele já estaria
morto, já que a autópsia estimava que ele havia falecido logo após a meia-noite, mas eu não
ia simplesmente deixar o corpo dele apodrecer ali ao relento, mesmo que não pudesse
salvá-lo até o próximo Rollback. Além disso, as autoridades precisavam saber.
Após cerca de dez minutos de pedalada, cheguei ao terreno baldio. A grama alta e as ervas
daninhas encobriam tudo, fazendo parecer que não havia nada de anormal ali à primeira
vista. Mas, ao descer da bicicleta e começar a caminhar pelo matagal, logo avistei uma
grande massa escura caída no chão mais adiante. Era o cadáver de um homem, caído de
bruços.
— Akito — murmurei. Nenhuma resposta, é claro. Seu corpo imóvel parecia quase um
manequim descartado. Mas sua pele pálida e sem vida foi o que, no fim, me fez aceitar que
não havia mais ninguém vivendo dentro daquela casca de carne. Desviei o olhar, sentindo
como se tivesse visto algo que não deveria.
Peguei o celular e disquei 119 para relatar a situação, seguindo as instruções da atendente.
Assim que desliguei, abri o aplicativo de notas. Como esperado, o bilhete sobre onde e
quando eu havia encontrado o corpo de Akito ainda não estava escrito, então anotei ali na
hora, pensando no meu eu do passado (ou do futuro).
02/04: Encontrei o corpo de Akito às 18h30 no terreno baldio atrás da tabacaria e chamei a
polícia.
Poucos minutos depois da minha ligação, os paramédicos chegaram. A partir desse ponto,
tudo pareceu acontecer em velocidade acelerada. Eles me fizeram várias perguntas e
verificaram os sinais vitais de Akito. Algum tempo depois, um dos paramédicos se
aproximou de mim.
— Bom, sinto muito dizer isso, senhor, mas não há nada que possamos fazer. A polícia
precisará examinar a cena, então, por favor, não vá a lugar nenhum por enquanto —
explicou o paramédico educadamente antes de ligar para o departamento policial.
O sargento me pediu para aguardar e seguiu para examinar o corpo. Pouco tempo depois,
meu patrulheiro favorito apareceu em uma bicicleta. Era a primeira vez que o via sem seu
sorriso habitual — dessa vez, ele tinha uma expressão séria e preocupada. Depois de
conversar um pouco com o superior, ele veio até mim.
— Bom, eu diria que é bom te ver de novo, Funami, mas lamento que seja nessas
circunstâncias — disse ele, com um olhar de pesar. — Logo vai ter uma multidão aqui.
Vamos até a subdelegacia para conversarmos em particular, certo?
— Certo, vou ter que te fazer várias perguntas, mas é só o protocolo policial. Precisamos
cobrir todas as possibilidades, sabe? Então, não leve para o lado pessoal — explicou ele,
sentando-se em uma cadeira giratória à minha frente.
Ele então começou a me fazer várias perguntas muito específicas sobre como encontrei o
corpo de Akito e como estava a cena quando cheguei lá. Respondi a cada uma delas com
total honestidade e o máximo de detalhes possível. A única mentira que contei foi quando
ele me perguntou por que eu estava passando por aquela área perto do terreno baldio —
disse que foi pura coincidência. Em minha defesa, algo me dizia que dizer "Eu voltei do
futuro e sabia onde o corpo estaria" seria pedir por problemas.
Quando ele terminou de me questionar sobre a descoberta, pediu que eu confirmasse meu
endereço atual, número de telefone e em qual escola eu estudava.
— Infelizmente, não. Temos um detetive vindo da cidade agora. Ele provavelmente vai
querer te interrogar também. Pode te pressionar mais do que eu fiz, então pode demorar
um pouco, só pra avisar.
— Nesse caso, você se importa se eu ligar para casa rapidinho e avisar onde estou?
Com a permissão dele, liguei para casa, e minha avó atendeu. Expliquei rapidamente a
situação e disse que provavelmente só voltaria tarde. No começo, ela parecia bem
preocupada, mas se acalmou um pouco quando pedi para fazer bastante comida no jantar,
porque eu estaria com muita fome quando voltasse.
Trocamos perguntas e respostas por um tempo, até que ele fez uma que me fez travar.
— E se me permite perguntar, por que exatamente você estava passando por aquela parte
da cidade?
Eu sabia que não podia falar sobre o Rollback, então minha única opção era repetir a
mesma mentira que contei ao policial.
— Só senti vontade de dar uma volta de bicicleta por aquela rua, senhor — respondi. —
Acabei encontrando o corpo por pura coincidência.
— Mas o corpo estava bem lá no fundo, escondido atrás de um monte de mato, não? Você
deve ter uma visão excelente para ter conseguido notar algo assim enquanto passava de
bicicleta.
— Ah, entendi. Pedalando devagar, né? Certo — disse o detetive, estreitando os olhos. —
Então, você mencionou ao meu colega que conhecia o Sr. Hoshina. Isso está correto? Ele
era seu amigo? Qual era sua opinião geral sobre ele?
— Bom, não sei se diria que éramos amigos, mas… sempre tive uma opinião muito alta sobre
ele. Quando criança, eu o admirava muito.
— E, no entanto, você não parece muito abalado com a morte dele. Por quê?
— Então você está me dizendo que saiu aleatoriamente de bicicleta, passou aleatoriamente
por aquele terreno baldio e, por acaso, notou o corpo do Sr. Hoshina — estou certo?
Seus olhos negros e minúsculos me analisavam com suspeita. Senti um suor frio
começando a escorrer pelas minhas costas. Por dentro, eu estava tremendo, mas, de
alguma forma, consegui me controlar e assenti.
Apesar de estar morrendo de fome algumas horas atrás, agora que estava em casa, com um
prato de comida quente na minha frente, eu simplesmente não conseguia ter apetite.
Provavelmente porque a imagem do corpo sem vida de Akito não saía da minha cabeça.
Tanto Eri quanto minha avó evitaram me perguntar qualquer coisa sobre o ocorrido, mas
dava para ver pela expressão e pelo tom de voz que estavam morrendo de curiosidade. E,
para ser justo, elas tinham o direito de saber. Mas eu não estava no clima para falar, então
tomei um banho rápido e me tranquei no quarto.
Me senti mal ao perceber que praticamente não passei tempo com minha família essa
semana. Ou eu estava fora, ou trancado no quarto o tempo todo. Mas, se elas soubessem o
que eu estava passando, tenho certeza de que entenderiam.
Me enfiei debaixo das cobertas e fiquei olhando para o teto, onde quase conseguia ver uma
imagem fraca do rosto da Akari. A essa altura, ela provavelmente já tinha ouvido a notícia
sobre a morte de Akito. Provavelmente estava em choque, com as mãos no rosto, tremendo
de incredulidade.
Eu estava preocupado com ela, obviamente, mas decidi deixá-la quieta por enquanto. Em
situações como essa, as pessoas geralmente precisam de um tempo para processar tudo
antes de conseguirem falar sobre o assunto com alguém.
Eu bocejei. Ainda era um pouco cedo, mas já me sentia pronto para me deitar.
Então, meu celular tocou. Era meu pai. Minha mente voltou ao dia em que saí correndo de
casa depois de discutir com ele, e essa lembrança negativa me deixou hesitante em atender.
Ainda assim, eu sabia que ignorá-lo só me causaria mais problemas a longo prazo, então
atendi com relutância.
— Alô?
— Fiquei sabendo que você se envolveu em um incidente. Isso é verdade?
Sem introdução, sem rodeios — ele foi direto ao ponto. Imaginei que minha avó devia ter
contado a ele sobre o que aconteceu com Akito.
— Então você realmente encontrou um corpo, né...? — Meu pai suspirou cansado. — Triste
ver como Sodeshima se tornou um lugar tão perigoso e decadente. Corpos simplesmente
jogados pelas ruas…
Isso me irritou um pouco. Eu concordava que Sodeshima tinha decaído nos últimos anos,
mas dava para perceber que meu pai estava apenas procurando um pretexto para falar mal
da ilha e de seus moradores. Ele adorava agir como se todos ali fossem um bando de
caipiras atrasados.
— Isso não tem nada a ver com o tipo de lugar que é, pai. Foi só uma sucessão de eventos
infelizes, simples assim.
— Tóquio também não é tão segura assim, sabia? Em cidades grandes como essa, tem
muitas áreas que estão longe de serem ideais.
Isso me pegou de surpresa. Meu pai quase nunca reconhecia valor no que eu dizia sobre
questões sociais e afins. Achei que talvez ele estivesse se sentindo um pouco culpado pelas
coisas que gritou comigo antes de eu sair de casa, mas logo percebi que, na verdade, ele só
queria mudar de assunto.
— Enfim, chega disso. Agora escuta. Quero você de volta aqui em Tóquio o mais rápido
possível.
Eu gemi. Claro que essa era a verdadeira razão pela qual ele ligou.
— Sim, pai. Eu volto antes do fim das férias de primavera, não se preocupe.
— É bom mesmo. Aliás, espero que você esteja fazendo sua lição de casa das férias.
Meu coração afundou. Quando fugi, quis esquecer completamente qualquer coisa
relacionada à escola, então nem coloquei os deveres na minha mochila. Eu teria que
terminar tudo correndo quando voltasse para Tóquio ou entregar com um pouco de atraso.
Mas não podia dizer isso para ele.
Eu senti que uma bronca estava vindo, então desliguei o telefone. Provavelmente foi a
melhor decisão. Ainda assim, a ideia de ter que fazer dever de casa quando voltasse para
Tóquio não era nada animadora. Depois, o ano letivo começaria de novo, e eu teria que
estudar para matérias mais difíceis, com provas mais complicadas... Só de pensar nessa
sequência interminável de trabalho árduo, já me sentia exausto. Mergulhei de cara no
travesseiro, tentando afastar esses pensamentos antes que me deixassem deprimido
demais.
↺
3 de abril, 10h da manhã.
Saí da cama e abri as cortinas. Outro dia lindo. Pensando bem, não tinha havido um único
dia nublado desde que cheguei à ilha. Um tempo assim me dava vontade de sair para uma
caminhada na montanha ou algo do tipo, mas eu sabia que tinha trabalho a fazer. Este era
meu último dia para entender o que aconteceu e decidir o que fazer na noite de 1º de abril
— porque, em apenas oito horas, às seis da noite, eu finalmente voltaria para lá. Para a noite
da morte de Akito.
De certa forma, essas próximas oito horas seriam como a última etapa de preparação antes
do grande dia. Eu queria estar o mais preparado possível para salvar Akito. Dito isso, eu já
sabia o horário aproximado da morte dele, onde aconteceu e o que ele estava fazendo antes
disso. Precisava pensar em outras coisas que ainda precisava resolver... Ah, certo. Eu tinha
que anotar o restante das informações no meu aplicativo de notas. Não porque eu fosse
esquecê-las, mas para que meu eu do futuro pudesse consultá-las depois. Peguei o celular e
abri a nota em questão, adicionando os dois últimos tópicos abaixo do que já havia escrito
ontem.
Estava bebendo bastante naquela noite na Taverna Asuka, das 21h à meia-noite.
Pronto — isso deveria bastar. Eu não tinha certeza se escrevi exatamente da mesma forma
que tinha visto originalmente, mas devia estar perto o suficiente.
Eu já tinha tentado ir lá no dia 5 para ver o que podiam me dizer sobre Akito, mas o lugar
estava fechado. Precisava resolver isso antes do próximo Rollback, ou não teria como saber
se as anotações que fiz agora estavam corretas.
Lembrei que a Taverna Asuka costumava abrir às cinco da tarde na maioria dos dias, o que
me deixaria com uma hora antes do próximo Rollback acontecer. Tempo de sobra para
fazer algumas perguntas; nada de pressa.
Decidi tirar o dia para relaxar um pouco e me preparar mentalmente para o 1º de abril.
↺
Olhei para o meu celular — eram 16h30 — e o guardei de volta no bolso. Peguei a maçaneta
da porta deslizante da Taverna Asuka, puxei para o lado, e ela se abriu com um rangido. O
bar só abriria dali a trinta minutos, mas imaginei que poderia haver alguém por lá mais cedo
para preparar tudo para a noite.
Entrei. Era um lugar aconchegante, com apenas umas cinco mesas além dos assentos no
balcão. Ao ouvir minha entrada, um senhor mais velho, vestindo uma blusa estilo kimono
leve e calças largas, saiu apressado da cozinha para me receber. Presumindo que ele fosse o
dono do estabelecimento, pedi desculpas pela intromissão e expliquei o motivo da minha
visita.
— Perguntas? — ele repetiu. — Olha, garoto, eu preciso me preparar para abrir às cinco.
— Não vai demorar, eu prometo. Por favor, me escute — implorei, inclinando a cabeça em
sinal de respeito.
— Tá bom, tá bom. Mas seja rápido — respondeu impaciente, então fui direto ao ponto.
Na mesma hora, o homem franziu o cenho e sua voz ficou mais grave e sombria.
O homem se recusou a me ouvir e desapareceu de volta na cozinha. O que foi essa mudança
repentina de atitude? No momento em que mencionei o nome de Akito, parecia que ele se
fechou completamente. Talvez ainda estivesse abalado com a morte de um cliente
frequente como Akito, e por isso ficou irritado ao ver um estranho fazendo perguntas sobre
ele. Se esse fosse o caso, eu não iria desistir agora. Eu não era apenas um curioso qualquer;
a morte de Akito me afetara tanto quanto o afetou.
Saí do bar temporariamente, esperei do lado de fora até que o horário oficial de
funcionamento começasse e, assim que deu cinco horas, entrei novamente.
— Ei, entre e... Ah, é você de novo. Você não tem nada melhor para fazer, garoto? — disse o
dono, já visivelmente irritado ao me ver de novo.
Mantive a compostura e fui direto até o balcão, sentando-me bem à sua frente.
— Nada de falar sobre o Akito desta vez, senhor — afirmei. — Estou aqui como cliente. Um
chá oolong gelado, por favor.
Fiquei feliz por ter trazido minha carteira — a única questão agora era por quanto tempo eu
conseguiria manter essa farsa. O homem suspirou e silenciosamente serviu meu chá gelado
em uma caneca de cerveja, colocando-a com um baque no balcão à minha frente. Peguei a
caneca pela alça e bebi tudo de uma só vez, tão rápido que nem consegui sentir o gosto. O
líquido apenas desceu direto para o meu estômago. Eu nem estava com sede para começo
de conversa.
— Me dá outra — pedi.
O homem franziu o cenho, mas me serviu um refil do mesmo jeito, embora me observasse
com desconfiança. Ele colocou a nova caneca à minha frente, e eu virei tudo de uma vez de
novo. Dessa vez, foi bem mais difícil e demorei quase o dobro do tempo para engolir tudo.
Bati a caneca no balcão mais uma vez.
Ufa, ele cedeu. Agradeci mentalmente por não ter entornado duas canecas inteiras à toa.
Segurei outro arroto enquanto meu estômago ameaçava rejeitar todo o líquido e, enfim, fiz
a pergunta que me trouxera ali.
— Sim, estava. Chegou por volta das nove e ficou até meia-noite. Passou a noite toda
bebendo sozinho. Não sei dizer se eram exatamente nove horas quando ele chegou, mas
tenho certeza de que saiu à meia-noite, porque é quando sempre fechamos. Tive que
mandá-lo embora para poder ir para casa — explicou o homem.
— Provavelmente teria tentado falar com ele se soubesse que as coisas iam terminar
assim… Mas acho que é fácil falar depois que já aconteceu, né?
Agora entendi por que ele estava tão relutante em falar comigo. Ele provavelmente se sentia
culpado por ter servido tanta bebida ao Akito.
Me senti mal por perguntar, mas pelo menos agora eu tinha certeza de onde ele esteve e a
que horas. Com isso, já deveria ter informações suficientes para salvar a vida dele. Decidi
não insistir com mais perguntas.
Olhei para o cardápio pendurado na parede e vi que o chá oolong custava trezentos ienes,
impostos inclusos. Um preço salgado, mas, mesmo assim, fui até o caixa e entreguei
seiscentos ienes ao homem.
— Trezentos ienes já está bom — ele disse. — Eu sei que você não queria beber aquele
segundo.
— Espera, mas — eu protestei, mas o homem já havia registrado apenas um copo. Ele era
uma boa pessoa, dava para perceber. Eu também não estava exatamente nadando em
dinheiro, então aceitei sua gentileza e agradeci de verdade.
— Não mencione isso — ele disse. — Digo, o que são trezentos ienes a mais, né? Isso não é
nada comparado à enorme conta que seu amigo Akito acumulou aqui.
— Desculpa, só uma coisa... Você disse que o Akito tinha uma conta pendente no bar?
— Ah, pode apostar que sim. Odeio falar mal dos falecidos, mas, rapaz, aquele cara adorava
me enrolar. A mesma coisa aconteceu na noite em que ele morreu, na verdade; disse que
era hora de pagar, e ele meio que me ignorou. Então insisti, dessa vez com mais firmeza, e
ele simplesmente explodiu, agindo como se eu estivesse dizendo que ele não tinha como
pagar, etc. Tive que me esforçar para acalmá-lo.
— Sério...?
Isso foi um choque para mim. Eu nunca imaginaria Akito agindo assim, nem nos meus
sonhos mais loucos. Se ele realmente tinha contas pendentes desse jeito, como aqueles
caras no festival estavam fofocando, talvez os boatos sobre ele estar envolvido com
organizações duvidosas não fossem apenas especulação.
— Ah, ei! Seja bem-vindo! — o dono chamou por cima do meu ombro. Virei-me e vi que um
novo cliente havia entrado. Percebendo que era minha deixa para sair de cena, agradeci
educadamente pela ajuda e deixei o estabelecimento.
O sol já começava a se pôr no céu ocidental. Dentro de uma hora, provavelmente já estaria
escuro. Agora faltavam apenas trinta minutos para o próximo Rollback, mas eu já tinha
praticamente todas as informações necessárias para salvar Akito. Quando eu voltasse para
às 18h do dia 1º de abril, saberia exatamente o que fazer.
Era bem simples, na verdade: eu me posicionaria do lado de fora da Taverna Asuka antes
das nove e esperaria Akito chegar, depois o convenceria a não beber naquela noite de
qualquer forma possível. Isso era tudo. Não via espaço para erro... exceto pelas novas e um
tanto preocupantes revelações sobre seu caráter.
Akito sempre foi muito orgulhoso e competitivo, mas, no fundo, eu o via como uma boa
pessoa. Pelo menos até ouvir o que o dono do bar disse. Talvez minha impressão dele
estivesse desatualizada há muito tempo.
Eu até poderia descartar isso como um exagero se não fosse pelo que Hayase me contou no
Festival da Fortuna do Oceano: que a mudança de personalidade dele coincidiu com uma
lesão séria no ombro. Essa era uma das coisas que ainda permaneciam um completo
mistério para mim. Como ele se machucou? E como isso o afetou? Eu precisava descobrir a
verdade.
Se ao menos eu pudesse falar com Hayase rapidamente... então percebi que poderia
conseguir uma explicação igualmente boa com a irmã mais nova de Akito. Peguei o celular e
liguei para Akari... mas ela não atendeu. Talvez estivesse ocupada ajudando a mãe com os
preparativos do funeral ou algo assim.
Infelizmente, eu não tinha seu número de telefone e restavam menos de trinta minutos
para o próximo Rollback. Eu sabia onde ficava a loja de bebidas da família dela, mas chegar
lá a tempo era outra história. Talvez eu pudesse procurar o telefone da loja na internet e...
Lembrei-me do Rollback anterior. Hayase provavelmente não estaria na loja agora. Ela
estaria passeando com seu cachorro no Parque Central. E eu sabia disso porque acordei lá
no meio de uma conversa com ela.
Se eu corresse o mais rápido possível, levaria no máximo dez minutos para chegar ao
parque. Embora isso significasse seguir exatamente o que o destino queria de mim de novo,
era crucial que eu conseguisse falar com Hayase. Então, disparei em direção ao parque.
↺
Como previsto, cheguei ao Parque Central em menos de dez minutos. Olhei ao redor e vi
uma jovem passeando com um Shiba Inu logo na entrada. Como esperado, era Hayase.
Chamei seu nome do outro lado do parque, e ela se virou para me olhar. Corri até ela, tomei
um momento para recuperar o fôlego e fui direto ao ponto.
— Ok? Tudo bem, mas... Você tá bem aí, cara? — ela perguntou, recuando alguns passos.
Não a culpei. Imagine ser abordada do nada por um cara esbaforido e com cara de
desespero. Tentei me recompor um pouco mais antes de continuar.
— Sim. Você poderia me contar como ele mudou depois da lesão no ombro?
— Espera, mas — eu tentei insistir, mas Hayase já tinha virado as costas e continuado seu
passeio com o cachorro.
Eu não tinha tempo para encontrar outra pessoa a quem perguntar, não com o Rollback se
aproximando rapidamente. Então corri para a frente dela, bloqueando seu caminho, e me
curvei.
— Você não está com um problema agora mesmo? — perguntei, em tom sugestivo. — Ouvi
dizer que tá sem gente para ajudar no seu estande este ano.
— Como você sabe disso? — ela respondeu, seus olhos arregalados de surpresa genuína.
— Apenas algo que ouvi por aí. De qualquer forma, aqui está minha oferta: você responde
algumas perguntas sobre Akito para mim, e eu ajudo no seu estande amanhã. Posso ser seu
faz-tudo ou fazer o que precisar. Feliz em trabalhar do amanhecer até... bem, pelo menos o
começo da noite.
— Ele era... meu herói antigamente. Uma vez, até me salvou de um grupo de garotos mais
velhos que estavam me intimidando.
— Sim, senhora.
— Vai ser um trabalho pesado, sabe. E eu não posso te pagar nada por isso.
— Certo, então. Parece que temos um acordo. Vamos sentar — ela disse, caminhando até
um banco próximo no parque. Finalmente, parecia disposta a conversar. Agradeci
imensamente e a segui. Sentei-me ao lado dela e fui direto ao ponto.
— Acho que foi em setembro do nosso último ano — ela recordou. — Foi bem no final do
verão, logo depois que voltamos do campeonato nacional em Koshien.
Se Akito estava no último ano, então... eu devia estar no nono ano. Provavelmente estava
muito ocupado me preparando para o vestibular do ensino médio em Tóquio para prestar
atenção em qualquer outra coisa, o que explicaria por que nunca ouvi falar disso na época.
— De qualquer forma, lembro que ele caiu durante um treino um dia, segurando o ombro de
dor. No dia seguinte, descobrimos que ele tinha causado um dano permanente. Disseram
que foi provavelmente por uso excessivo e que a inflamação estava tão grave que ele
provavelmente teria que parar de jogar beisebol de vez... O time inteiro ficou devastado
com a notícia, pode acreditar.
— Sim, ninguém conseguia acreditar. Mas, obviamente, foi o Akito quem recebeu a notícia
da pior forma. Ele sempre foi extremamente cuidadoso, sempre se alongava antes dos
treinos e tudo mais, porque realmente queria chegar às grandes ligas. Ele até estava sendo
sondado por alguns times e adorava falar sem parar sobre qual escolheria se pudesse
escolher qualquer um. Então acho que isso o atingiu muito, muito forte. E, bem... o fato de
que ele dedicou tantos anos para aprimorar seu jogo só tornou tudo ainda mais cruel.
— No começo, ele tentou fingir que não ligava. Foi difícil de assistir. Mas quando o inverno
chegou... foi aí que ele realmente começou a perder o controle. Ele sempre foi meio
esquentado, mas agora estava completamente violento. Se ouvisse que alguém estava
falando mal dele, simplesmente ia até a pessoa e socava o rosto dela, sem nem pensar duas
vezes. As pessoas tinham medo dele. Ninguém queria nem mencionar seu nome, com medo
de que ele interpretasse errado.
— Também ouvi rumores de que o Akito se envolveu com gente duvidosa no continente. Há
alguma verdade nisso?
— Ah, sim... Já ouvi esses rumores também. Honestamente, não sei se são verdadeiros ou
não, mas digamos que eu não ficaria surpresa. Mesmo no colégio, ele tinha o péssimo
hábito de pegar dinheiro emprestado dos colegas e nunca devolver.
— Sim, eu realmente não sei o que aconteceu com ele — disse ela. — Ele começou a tomar
uma decisão estúpida atrás da outra, até que, eventualmente... isso o matou.
Havia um forte tom de arrependimento na voz dela, e eu não sabia o que dizer. Talvez isso
fosse algo bom, pois ela continuou falando para preencher o silêncio. Era como se estivesse
em um confessionário ou algo assim.
— Eu também sempre admirei o Akito, sabia? — ela continuou. — Desde que estávamos no
fundamental. Lembro que costumava levar bebidas esportivas e fatias de limão para ele no
banco de reservas, só para chamar sua atenção. Isso foi muito antes de eu ser a gerente do
time, aliás. Sempre o acompanhava quando ele viajava para grandes torneios, mesmo
naquela época. E aí, no ensino médio, finalmente tive coragem de me declarar para ele. Nos
tornamos namorados, e as coisas foram ótimas... por um tempo.
— Mas no momento em que ele machucou o ombro e não pôde mais jogar, eu não sabia
mais como interagir com ele. Era como se ele tivesse se tornado uma pessoa totalmente
diferente, e comecei a ter medo... No fim, tive que me afastar dele, como todo mundo.
Tudo o que eu podia fazer era sentar e ouvi-la. Sabia que o Rollback aconteceria a qualquer
momento, mas não conseguia interrompê-la no meio desse desabafo sincero, não
importavam as circunstâncias.
— Eu também não conseguia simplesmente virar as costas para ele, sabe? Mesmo naquela
época. Quer dizer, era muito difícil ver o cara que eu sempre admirei e por quem tive uma
queda crescer e acabar reduzido a um desastre miserável... Então, outro dia, tomei coragem
e perguntei se ele queria ajudar na barraca do festival da minha família este ano. No
começo, ele resmungou e reclamou um pouco, mas não consigo descrever a felicidade que
senti quando ele finalmente disse sim. Quero dizer, eu não esperava que ele voltasse a ser o
velho Akito de antes, mas isso me fez pensar que ainda poderia haver alguma esperança
para ele... Então, o fato de ele ter morrido bem antes do festival? Parecia que o universo
estava pregando uma peça cruel em mim. Mas, pensando bem, não havia garantia de que
ele realmente mudaria, certo? Algumas pessoas podem até dizer que foi melhor ele ter
partido antes de fazer algo verdadeiramente imperdoável. Pelo menos, não tivemos que
vê-lo se tornar um criminoso de verdade, entende?
— Ei, não diga isso — interrompi, balançando a cabeça. Não importava o quanto Akito
tivesse se desviado do caminho certo, ele não merecia morrer por isso. Hayase me lançou
um olhar sombrio por um instante antes de virar o rosto bruscamente para encarar o vazio
à sua frente.
— É, acho que você tem razão — ela admitiu. — Ninguém merece morrer tão jovem. Mas,
cara, com todos os boatos horríveis que ouvi sobre ele... é difícil sentir muita pena,
entende? Quer dizer, além das coisas que já conversamos. Ele estava cheio de dívidas, se
envolvendo com organizações criminosas e tudo mais. Mas alguns dos outros rumores são
ainda mais perturbadores. Tipo, por exemplo… Ouvi dizer que ele estava abusando
fisicamente da irmãzinha dele, a Akari-chan.
— O quê?
As palavras dela quase passaram direto por mim. Elas ecoavam na minha mente, mas eu não
conseguia compreendê-las. Meu cérebro entendia o significado de cada palavra
individualmente, mas se recusava a aceitar o que elas significavam juntas, naquela ordem
específica.
...batendo na irmã? Tentei perguntar, mas antes que pudesse terminar a frase, fui
interrompido pela melodia estática e distorcida de Greensleeves saindo de um alto-falante
próximo. Isso só amplificou minha ansiedade. Akito não poderia estar machucando Akari,
certo...? Eu me recusava a acreditar. Tinha que ser um boato, alguma piada doentia
inventada por alguém que nunca gostou dele. Mas, se por acaso fosse verdade, eu...
INTERLÚDIO VI
NOS PRIMEIROS MESES DO ENSINO MÉDIO, eu vagava pela vida apaticamente, sem qualquer
senso de direção. Por insistência de meus professores e senpais, entrei para a equipe de
natação, mas, naquele momento, eu estava apenas seguindo o fluxo, sem energia. Não
alcancei nenhum recorde notável como fazia no fundamental. Na sala de aula, também
tinha dificuldade em me manter presente mentalmente, e, por isso, frequentemente levava
broncas dos professores por ficar no mundo da lua. Sem Kanae para me cumprimentar
todas as manhãs, ir à escola parecia vazio e sem sentido.
Havia um buraco em meu coração, e sua ausência era como um vento gelado que soprava
por ele todos os dias. Se ao menos eu pudesse vê-lo novamente... ou até mesmo ouvir sua
voz ao telefone, receber uma mensagem sua... talvez isso não preenchesse o vazio, mas ao
menos poderia acalmar esse vento por um tempo.
Pena que isso nunca aconteceu. Ele nunca entrou em contato comigo.
No início, tentei dar o benefício da dúvida, pensando que ele apenas precisava de um tempo
para se ajustar ao novo ambiente. Mas um mês virou dois, e ainda assim, nada. Claro que
comecei a me preocupar. Várias vezes pensei em tomar a iniciativa e mandar uma
mensagem, mas nunca tive coragem de apertar o botão de chamada ou enviar um simples
texto.
As palavras de Kanae naquele dia fatídico no fundamental não saíam da minha cabeça. Eu
sabia que ele só queria afastar aquela outra garota de mim, mas suas palavras se
enroscaram no meu coração como uma serpente que se recusava a soltar. Sempre que
pensava em entrar em contato, essa frase ressurgia, mostrando suas presas e me
paralisando com seu veneno. O efeito era avassalador, e eu nunca conseguia fazer nada.
Depois de uma hora, eu já tinha percorrido metade do perímetro da ilha, e meu corpo
inteiro estava encharcado de suor. Parei para recuperar o fôlego, sentando-me no muro à
beira-mar, deixando a brisa fresca da noite resfriar minha pele. Ao longe, do outro lado do
mar, as luzes brilhantes do continente tremulavam como vaga-lumes, e então, um
pensamento me atingiu como um relâmpago.
Era como se uma chama tivesse sido acesa dentro do meu peito. Meu corpo voltou a
queimar de novo, e eu não conseguia mais ficar parada. Corri de volta para casa o mais
rápido que pude e, assim que cheguei, comecei a procurar informações sobre como me
mudar para Tóquio.
↺
No dia seguinte, depois da escola, fui direto ao meu professor e perguntei sem rodeios.
Naquele momento, parecia a única opção que me restava. Como Kanae já estava estudando
na escola preparatória oficial da universidade, sua escolha de faculdade estava
praticamente definida. Se eu conseguisse me formar com notas altas o suficiente para ser
aceita na mesma universidade, poderíamos ficar juntos novamente. Era por isso que eu
estava perguntando, mesmo sabendo que estava subestimando o quão difícil seria. Mas não
importava. Eu não podia ignorar essa nova vontade que ardia dentro de mim, e também não
queria ignorá-la. Sabia que, se não começasse a agir imediatamente, havia uma grande
chance de nunca mais ver Kanae.
— Para ser sincero… talvez seja melhor baixar um pouco suas expectativas, considerando
suas notas atuais. E mesmo que você consiga passar na prova, essa ainda é uma
universidade cara. Você já conversou com sua mãe sobre isso?
— Desculpe, mas minha decisão está tomada. Eu quero ir para a U of I — declarei, firme.
Meu professor hesitou por um momento, mas finalmente suspirou e disse com um olhar
compreensivo.
— Tudo bem. Se você está realmente decidida quanto a isso, farei o que puder para
ajudá-la. Mas o máximo que posso oferecer é orientação.
Então, ele me deu um resumo básico do que eu precisava fazer para transformar meu
sonho universitário em realidade. Prestei atenção em cada palavra e, no final, já tinha uma
ideia clara do que meu plano de ação precisava incluir. Era bem simples, na verdade. Tudo
se resumia a três coisas: meus estudos, minhas atividades extracurriculares e minha
situação financeira.
A parte acadêmica era óbvia. Se eu não fosse aceita, todo o resto seria em vão. Meu
professor também me disse que eu deveria me esforçar para conquistar prêmios
importantes na minha carreira no time de natação do ensino médio, já que as universidades
levavam esse tipo de coisa em consideração. Conquistas desse tipo poderiam até me ajudar
a conseguir algum auxílio financeiro. Ainda assim, mesmo que, por um milagre, eu
conseguisse uma bolsa integral para cobrir a mensalidade, isso não pagaria minha mudança
nem minhas despesas diárias. Então, decidi que precisaria começar a trabalhar meio
período o quanto antes.
Seria um caminho longo e árduo, sem dúvida, mas agora que eu sabia exatamente o que
precisava fazer para chegar lá, comecei a me sentir muito mais confiante. Agradeci ao meu
professor pelo conselho e saí da sala de aula. Se eu conseguisse nadar melhor do que
qualquer outra pessoa no time, conseguir um patrocínio esportivo e talvez até uma bolsa
seria moleza. Ainda bem que eu nunca abandonei esse esporte. É verdade que eu tinha
relaxado um pouco desde que entrei no Colégio Sodeshima, mas, a partir de agora,
precisaria dar o meu máximo.
↺
Quando cheguei em casa depois do treino naquele dia, encontrei meu irmão assistindo a TV
no sofá da sala, com os pés apoiados na mesa. Eu sabia que a mamãe já tinha pedido para
ele parar de fazer isso. Escolhi ignorá-lo e passei direto em direção ao banheiro. Mas, ele
me chamou, me fazendo parar no meio do caminho.
Sua voz era monótona; ele nem sequer fez contato visual comigo. Para falar a verdade, meu
irmão sempre me mandou fazer coisas, desde que éramos pequenos. Mas, depois da lesão
no ombro, ele ficou cada vez mais mandão. Antes, eram coisas pequenas, como "pega o
controle remoto" ou "enche a banheira pra mim". Mas, ultimamente, ele começou a me tratar
como se eu fosse sua empregada particular, mandando eu "fazer o jantar" ou "passar suas
roupas", entre outras tarefas.
Que fique claro: eu realmente sentia empatia pelo que ele devia estar passando depois de
ter que desistir do beisebol. Mas também o desprezava profundamente pelo tipo de pessoa
desprezível em que ele havia se tornado. Desde que se formou no ensino médio, tudo o que
ele fazia era ficar jogado no sofá assistindo a TV o dia inteiro ou sair para fazer sabe-se lá o
quê com seus amigos inúteis, só voltando para casa quando lhe convinha. Ele não
demonstrava o menor interesse em arrumar um emprego ou entrar na faculdade, mas,
ainda assim, tinha a cara de pau de pedir dinheiro para nossa mãe o tempo todo. No meu
ponto de vista, ele não tinha um único osso — ou sequer uma molécula — de respeito em
seu corpo.
Normalmente, nesse momento, eu cederia e faria o que ele mandou, ainda que a
contragosto. Mas isso não ia mais acontecer. Não quando eu precisava estudar o máximo
possível em casa para realizar meu sonho de me mudar para Tóquio. Se continuasse
perdendo tempo com cada pequena tarefa que ele me empurrava, desperdiçaria horas
preciosas. Decidi que era hora de impor limites, então tentei dizer não de um jeito que não
o irritasse.
— Desculpa, não vai dar. Tenho um monte de lição de casa para fazer hoje à noite —
expliquei.
Os olhos dele se arregalaram. Então, ele pegou o controle remoto em cima da mesa de café
e o atirou na minha cabeça sem hesitar. Eu gritei quando o controle bateu na parede, a
poucos centímetros do meu rosto, fazendo a tampa da bateria sair voando pelo ar.
— Faz o que eu mandei, sua pirralha. Não pense que está abafando só porque é a mais
rápida no nado de cachorro na piscina infantil — ele cuspiu, pegou o copo de bebida e
ameaçou jogar isso também. Eu levantei as mãos sobre a cabeça como reflexo defensivo.
— T-Tá bom, caramba... Vou comprar seu maldito refrigerante — falei, praticamente
correndo de volta pela sala de estar.
Sem nem mesmo ter tempo de trocar de uniforme, saí correndo do apartamento. Meu
corpo inteiro estava tremendo. Nunca imaginei que ele realmente começaria a me atacar
com objetos por eu me recusar a ser sua criada. Ele nunca tinha feito nada disso antes; o
irmão que eu tanto desprezava estava começando a me aterrorizar de verdade. Fui
lentamente até as escadas em direção à máquina de refrigerante mais próxima, com as
lágrimas de medo e desespero começando a se formar nos cantos dos meus olhos.
↺
Na manhã seguinte, contei à minha mãe que queria fazer faculdade na capital. Expliquei
que sabia que nossas finanças estavam apertadas, mas garanti que ela não precisaria se
preocupar, pois eu ia cobrir meus custos de matrícula, seja com bolsas de estudo ou
empréstimos estudantis. Também disse que planejava arrumar um trabalho meio período
em breve para cobrir os custos de morar sozinha. Ela me deu seu apoio e disse que veria se
conseguia me arrumar um emprego em uma pousada local, tradicional, que ela sabia que
pagava um salário razoável por hora. Seus olhos estavam cheios de vergonha enquanto se
desculpava por não poder me ajudar mais, mas eu disse que isso já era mais do que
suficiente.
Agora que eu já havia decidido qual faculdade queria, finalmente tinha uma desculpa para
entrar em contato com a Kanae. Com as borboletas no estômago, redigi uma longa
mensagem para contar a novidade a ele… mas, no fim, não a enviei. Meu bom senso me
disse que talvez fosse um pouco estranho e exagerado dizer que eu já estava planejando ir
para a mesma faculdade que ele, quando nem tínhamos chegado à metade do nosso
primeiro ano. Decidi esperar até a primavera do nosso último ano, um momento muito mais
natural para as pessoas já terem decidido seu caminho no ensino superior. Mas, fosse
Kanae saber ou não, eu acabava de dar meus primeiros passos rumo à minha mudança para
Tóquio.
↺
O ano e meio seguinte, até o presente momento, foram, sem dúvida, os meses mais
exaustivos de toda a minha vida.
↺
Quando o verão do meu primeiro ano foi chegando ao fim e o outono se instalou de vez,
tudo começou a ficar embaçado. Minhas únicas lembranças reais desse período eram de
estar completamente e totalmente exausta com o ciclo de trabalho, estudo, natação, dia
após dia. Eu não podia relaxar em nenhum desses três pilares da minha vida, então foi meu
horário de sono que acabou sendo prejudicado. Comecei a cochilar no meio das aulas,
frequentemente perdendo muito conteúdo importante. Eu até me saía bem pela manhã,
mas, depois do almoço, era uma luta ficar acordada o suficiente para copiar as anotações
do quadro. Mesmo assim, persistia, lutando desesperadamente contra a vontade de dormir
para não afetar minhas notas.
Quando o dia escolar terminava, finalmente eu podia dar um descanso ao meu cérebro. Não
era muito alívio, admito, porque eu tinha que correr direto da sala de aula para o treino de
natação. O formato não havia mudado muito desde o meu tempo no ensino fundamental.
Continuávamos nadando na piscina externa da escola durante o verão e fazendo
treinamento físico nos meses mais frios, com um dia por semana reservado para nadar em
uma piscina coberta na ilha principal. A única coisa que tinha mudado era a dificuldade.
Nosso novo treinador de natação era um verdadeiro disciplinador e nos fazia trabalhar até
o limite todos os dias. Nunca houve um único dia em que eu não saísse do treino me
sentindo como um saco de batatas amassado.
Mesmo depois disso, ainda tinha que ir trabalhar no meu emprego meio período. Eu tinha
que espremer até a última gota de energia dos meus músculos, como se fosse um pano de
prato velho, para continuar sorrindo enquanto cumprimentava e atendia os hóspedes da
pousada. Ainda era um ambiente de trabalho desconhecido para mim, apesar dos meus
esforços, e como eu estava sempre no auge da exaustão física e mental nesse ponto do dia,
cometi mais erros no trabalho do que gostaria de admitir. Às vezes, eu recebia sermões dos
meus colegas de trabalho mais velhos, e outras vezes até era xingada por hóspedes
irritados em algum tipo de viagem de poder com o famoso "o cliente sempre tem razão". Em
noites assim, eu me trancava no banheiro por um tempo e chorava muito, onde ninguém
pudesse me ouvir.
Normalmente, eu estava tão exausta quando saía do trabalho que poderia dormir em pé. E
ainda assim, mesmo assim, meu dia não estava totalmente acabado. Eu tinha que voltar
para casa e estudar no meu tempo livre para me preparar para o exame de entrada para a
universidade. Assim que chegava em casa, comia alguma coisa, tomava um banho rápido e
tentava estudar por pelo menos duas horas todas as noites. Estudar fora do horário escolar
era essencial para mim, pois o currículo básico da Escola Sodeshima não era suficiente para
passar em uma escola de prestígio por si só. Depois dessas duas horas, eu reunia a última
gota de energia que me restava para me arrastar até a cama e me jogar nela, onde
imediatamente desmaiava de tanto cansaço. Se o dia seguinte fosse dia de aula, eu fazia
tudo de novo, e se fosse fim de semana, eu ia direto para o trabalho ou para o treino de
natação. Nunca me dava folga.
Você poderia pensar que eu me acostumaria com essa rotina rígida depois de um tempo,
mas não. Cada novo dia era como um novo inferno. Mesmo assim, eu continuava vivendo
dessa forma, sem me dar tempo para duvidar da minha decisão ou me lamentar sobre o
quão péssima era minha situação. Minha mente e meu corpo estavam igualmente exaustos.
Nunca, nem em um milhão de anos, eu teria imaginado que isso poderia ficar ainda pior.
↺
Eu me lembrei de um sonho que tive uma vez. Nesse sonho, eu caminhava até a escola,
subia para a sala de aula, e Kanae estava lá… no colégio Sodeshima.
— Ah, é. A escola em que eu estava fechou, na verdade. Então, decidi voltar para cá.
— Uau, isso é loucura — falei. Então, toda a força saiu do meu corpo de uma vez. Caí de
joelhos ali mesmo, no meio da sala de aula.
— Você não vai precisar se esforçar tanto assim, Akari — ele disse, estendendo a mão para
me ajudar a levantar. — Podemos simplesmente ir devagar e aproveitar como nos velhos
tempos.
— Sim… Eu gostaria disso — falei, pegando a mão dele e deixando ele me puxar para me
levantar. Então fomos até o telhado da escola e almoçamos juntos. Eu estava tão feliz, tão
aliviada e tão empolgada que não conseguia parar de falar. Kanae sentava ali, com um
sorriso no rosto, ouvindo cada palavra.
— Ooh, é só isso? Puxa! Me avisa antes de vir com tudo da próxima vez! Ahahaha —
brinquei, rindo disso. A risada logo se transformou em lágrimas. Porque eu já sabia, naquele
ponto, que tudo aquilo era apenas um sonho. Que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que
abrir os olhos e encarar mais um dia do meu pesadelo acordada. E, ainda assim, eu não
queria deixar esse momento ir embora. Eu queria ficar ali com Kanae e segurar cada
segundo que eu pudesse. Mesmo que fosse tudo uma mentira.
— Não chore, Akari — ele implorou.
E eu tentei. Naquele momento, eu faria qualquer coisa por Kanae. O problema é que ele me
pediu a única coisa que eu não poderia dar.
↺
— Ei, Hoshina-senpai! Acorda!
Cansada, comecei a perceber que alguém estava me balançando pelos ombros. Abri os
olhos com dificuldade e vi uma das garotas mais novas da equipe de natação me encarando
como se eu estivesse causando uma grande confusão pública para envergonhá-la.
Agora eu estava no segundo ano do ensino médio. Avançar um nível escolar, infelizmente,
não significava que minha rotina caótica tivesse ficado mais fácil. Todo dia continuava
sendo um perigoso ato de equilíbrio entre escola, natação e trabalho... mas eu sentia que
estava começando a progredir. Aos poucos, minhas notas estavam melhorando, e eu já
tinha economizado uma quantia razoável de dinheiro. Minha carreira na natação também
estava em ascensão.
Meu professor disse que eu talvez pudesse me candidatar a uma recomendação esportiva
da Universidade de Illinois, explicando que era uma forma alternativa para estudantes que
alcançassem grandes feitos em determinados esportes terem prioridade na admissão, sem
precisar enfrentar a corrida tradicional dos vestibulares e recomendações públicas. No meu
caso, tudo o que eu realmente precisava para me qualificar era chegar ao campeonato
nacional de natação.
A boa notícia era que havia muito menos concorrência para aqueles que se candidatavam a
uma recomendação esportiva em comparação com a admissão geral. Além disso,
geralmente vinha acompanhada de uma bolsa de estudos bem generosa. Para alguém como
eu, cuja família já tinha dificuldades financeiras, essa era uma opção muito atraente. Por
isso, redirecionei parte do meu tempo e esforço mental dos estudos para a natação.
Eu me esforcei até os ossos, tentando reduzir o máximo possível o meu tempo no estilo
crawl. Vi os números diminuírem cada vez mais, junto com as horas de sono que eu
conseguia ter a cada noite. Para ser justa comigo mesma, isso não era inteiramente culpa
dos meus treinos constantes. A maior parte da culpa era do meu irmão. Ultimamente, ele
vinha trazendo os amigos para o apartamento mais ou menos a cada três dias. Como minha
mãe trabalhava até tarde da noite, ele e dois ou três de seus amigos ficavam no quarto dele,
bebendo e fazendo piadas até de madrugada.
A noite inteira, eu era obrigada a ouvir risadas vulgares, gritos infantis e passos pesados
sem o menor arrependimento. Era tão barulhento que não havia como escapar. Eu tentava
puxar o cobertor até cobrir completamente minha cabeça para abafar o som, mas as
paredes do nosso apartamento eram tão finas que as vozes estrondosas e as gargalhadas
altas ainda faziam meus tímpanos latejarem dolorosamente a noite toda. Não conseguir
dormir o descanso de que eu tanto precisava, mesmo nas poucas horas que minha rotina
exaustiva me permitia, era uma verdadeira tortura. Conforme a madrugada avançava e a
privação de sono piorava, eu ficava tão agitada e inquieta que parecia que eu ia
enlouquecer.
Me encolhi debaixo das cobertas e tentei ao máximo pensar em algo mais agradável. Como,
por exemplo, quando eu me mudasse para Tóquio e visse Kanae de novo… Seria legal irmos
juntos a algum lugar divertido. Talvez um aquário ou um parque de diversões. Para ser
sincera, não me importava muito com o destino, desde que estivesse com ele. Havia tantas
coisas que eu queria conversar com ele… Queria saber se ele entrou para algum clube na
escola nova, que tipo de amigos ele fez e… se já tinha arrumado uma namorada. O que eu
faria se ele tivesse? Só de imaginar ele com uma namorada muito mais bonita e engraçada
do que eu, meu estômago embrulhava. Mas isso explicaria por que ele não tinha entrado
mais em contato comigo. Ugh, odeio isso. Acho que eu devia simplesmente mandar uma
mensagem e perguntar de uma vez. É, vou fazer isso. Mas espera… E se ele disser que sim?
Como eu vou reagir? Gah, não, chega! Preciso parar de deixar minha imaginação pessimista
fugir do controle. Me obriguei a desligar o cérebro para conseguir dormir pelo menos um
pouco.
↺
Alguns meses se passaram. Antes que eu percebesse, já era junho e as eliminatórias
nacionais estavam se aproximando. Me lembro de ter chegado em casa um dia depois das
onze da noite, completamente exausta do treino e do trabalho. Mas antes de ir tomar
banho, peguei meu caderninho do banco na gaveta da escrivaninha e o abri. Percorri a lista
de depósitos e vi que minhas economias estavam realmente aumentando. Assim que eu
depositasse o pagamento do dia, minha conta ultrapassaria a tão esperada marca de um
milhão de ienes. Isso já era mais de um ano de despesas pagas!
Me senti um pouco mesquinha, parada ali, refletindo (mentalmente) sobre quanto dinheiro
eu tinha, mas ver os números crescerem me dava ânimo para continuar. Fiz alguns cálculos
de cabeça, tentando descobrir quantos meses mais eu precisaria trabalhar para atingir
minha meta original, quando, de repente, a porta do meu quarto se escancarou.
— Ei, Akari. Meus amigos vão vir aqui mais tarde — disse meu irmão. — Preciso que você
saia e compre uns petiscos para a gente.
Eu não podia acreditar. A audácia — o puro descaramento. Ele tinha invadido meu quarto
sem permissão — sem sequer bater na porta — e agora estava me mandando sair para fazer
mais um favor para ele. Eu queria gritar. Quem ele achava que era?
Apesar de tudo, não consegui responder. O medo de que ele começasse a jogar coisas em
mim de novo me impediu de retrucar. Mordi o lábio, me ajoelhei e peguei meu caderninho
do chão. Depois de guardá-lo de volta na gaveta da escrivaninha, peguei minha carteira e
saí pisando firme de casa, sem dizer uma palavra.
Eu estava fervendo de raiva. Aquele último comentário quase me fez explodir. Ainda assim,
fiz o que me foi mandado: saí, comprei os malditos petiscos que meu irmão sempre me
mandava buscar e voltei para o apartamento. No instante em que atravessei a porta, ele
arrancou as sacolas das minhas mãos e voltou para o quarto sem nem ao menos me
agradecer.
Tarde da noite, assim que terminei de estudar e estava prestes a me enfiar na cama, os
amigos do meu irmão apareceram — quase como se tivessem planejado aquilo apenas para
me impedir de dormir com suas palhaçadas barulhentas e irritantes. Só que, dessa vez, eles
foram um pouco além.
— Ei, você tem uma irmã mais nova, não tem, Akito? A Akari-chan, certo? — perguntou um
dos amigos do meu irmão. De novo, as paredes eram tão finas que eu conseguia ouvir cada
palavra com clareza.
— Sim, e daí?
— Ah, é que acho que a vi pela cidade outro dia. Ela ficou bem bonitinha, cara. Ela tá aí no
quarto ao lado agora?
Meu sangue gelou. Meu corpo travou em puro terror. Uma sensação sombria e sufocante
rastejou para dentro do meu peito, percorrendo sua língua gélida ao longo do meu coração.
— Quer chamar ela pra curtir um pouco com a gente? — disse outro amigo.
— Ei, ótima ideia. Vai lá e chama ela pra vir beber com a gente, Akito. Pelo amor de Deus,
precisamos de umas garotas por aqui.
— Ah, qual é, cara! Beleza, então eu mesmo chamo. Ei, Akari-chaaaan! Você ainda tá
acordada aí?!
Uma explosão de risadas estrondosas atravessou as paredes do quarto ao lado. Até meu
irmão estava rindo agora. Enquanto isso, tudo que eu conseguia fazer era me encolher
debaixo das cobertas, tremendo de medo. Eu nem sabia o que faria se meu irmão realmente
entrasse ali naquele momento. Só a ideia era tão assustadora que comecei a chorar em
silêncio no travesseiro. Nunca na minha vida eu tinha me sentido tão aterrorizada pela
ausência de uma fechadura na porta do meu quarto.
↺
Não preguei o olho naquela noite. Meu irmão e os amigos dele não fizeram nada, mas ainda
assim, foi a experiência mais angustiante que já vivi. Eu havia chegado ao meu limite. Assim
que os amigos dele foram embora de manhã cedo, fui direto para a sala e o confrontei de
frente.
— Hã? O que você quer? Na verdade, esquece, tô cansado agora — ele bocejou, se afastando
em direção ao quarto. Aquele ar arrogante foi a gota d’água para mim.
— Ah, não! Eu já tive o suficiente de você! — gritei, e ele se virou surpreso na hora. — Você
só me trata como sua escrava pessoal e me mantém acordada a noite toda com essas suas
festas ridículas… Por favor, Akito. Isso precisa parar. Eu não aguento mais.
— Ah, é? Engraçado ouvir isso de um vagabundo aproveitador que nem sequer tenta
arrumar um emprego. Até quando você vai continuar usando esse ombro machucado como
desculpa, hã? Até a nossa mãe se matar de tanto trabalhar?
Os olhos do meu irmão se arregalaram, e seu rosto ficou vermelho como um tomate.
Ele me empurrou com tanta força que, por um momento, achei que ele tivesse quebrado o
meu esterno. Minhas pernas cederam, e caí para trás direto na mesa de centro — onde um
de seus cantos pontiagudos se cravou fundo na lateral da minha lombar.
— Agh, hngh…
Uma dor aguda percorreu meu quadril. Eu não conseguia me mover. Fiquei ali, gemendo
impotente no chão, enquanto meu corpo inteiro era tomado por um suor frio. Tentei me
levantar algumas vezes, mas isso só tornava a dor ainda mais insuportável. Meu irmão
estalou a língua com impaciência e saiu de casa. Algum tempo depois, minha mãe
finalmente chegou do trabalho.
— Akari! Você está bem?! O que aconteceu?! — ela gritou, deixando a bolsa cair no chão
enquanto corria para me socorrer. Ela me levou às pressas para a pequena clínica de saúde
aqui em Sodeshima, de onde fui transferida para um hospital de verdade no continente.
↺
Fui diagnosticada com uma suspeita de "fratura do processo transverso" em uma das
vértebras lombares. Basicamente, eu tinha trincado a pequena protuberância óssea que se
estende para o lado de um dos segmentos da parte inferior da minha coluna. Quando me
mostraram a região da cintura no espelho, vi um grande hematoma roxo-escuro, como se
alguém tivesse esmagado um punhado de amoras contra minhas costas. O médico disse
que uma cirurgia não seria necessária e que não haveria complicações futuras, desde que
eu usasse um colete ortopédico por um tempo e tirasse um período de repouso para me
recuperar. A conta do hospital não foi absurda, e me deram alta no mesmo dia.
O problema era que eu realmente não podia me dar ao luxo de tirar esse tempo de folga
agora. Levaria três semanas até que eu pudesse voltar ao meu trabalho de meio período, e
dois meses inteiros antes que eu estivesse autorizada a nadar novamente. Isso significava
que eu tinha que abandonar completamente a ideia de competir no campeonato nacional
este ano, tudo enquanto era forçada a ficar deitada na cama como um cadáver.
Tudo que eu podia fazer para lidar com o desespero de desperdiçar uma das minhas duas
últimas chances era chorar baixinho no travesseiro. O que eu realmente queria era gritar e
soluçar até perder a voz, mas sempre que eu fazia mais do que apenas soluçar suavemente,
as contrações do meu diafragma faziam parecer que pregos longos e enferrujados estavam
sendo martelados na minha coluna. Minha única opção real era tentar ao máximo reprimir
minhas emoções. Parar de sentir qualquer coisa. Se um estranho olhasse para mim, deitada
imóvel naquela cama, provavelmente pensaria que eu estava apenas distraída, mas por
dentro, eu gritava de agonia desde a manhã até tarde da noite.
Como todos os meus esforços atléticos podiam simplesmente ir para o lixo?! Sacrifiquei todas
aquelas horas de trabalho e estudo por nada! O que eu fiz para merecer isso?! O que eu tenho
para mostrar por todas aquelas horas exaustivas de treino agora?! Nada!
Eu ainda tinha mais uma chance de chegar ao nacional, mas isso só aconteceria daqui a um
ano inteiro. O pensamento sozinho já fazia meu estômago se revirar. Para piorar, parecia
que apenas uma única pessoa realmente se importava com o inferno que eu estava
passando: minha mãe. Ela até tirou um tempo precioso do trabalho para cuidar de mim e
ficou ao meu lado quando eu estava com tanta dor que mal conseguia andar pelo
apartamento.
— Me diga uma coisa, Akari — ela perguntou um dia, enquanto eu ainda estava de cama. —
O que realmente aconteceu naquela manhã?
Pensei por um longo tempo se deveria contar toda a verdade ou não, porque sabia que isso
provavelmente partiria seu coração. Minha mãe trabalhava tão duro quanto eu, mas pelo
bem da família, e por muito mais tempo do que eu. Ela não merecia mais esse peso sobre os
ombros. Mas percebi que essa era uma daquelas coisas que eu realmente não deveria
esconder.
— Entendo — disse minha mãe. — Eu já imaginava que fosse algo assim. Certo. Obrigada por
ser honesta comigo. E me desculpe por ter permitido que algo assim acontecesse com
você, por ser uma mãe ausente. Sou uma péssima mãe...
— Não, mãe! Isso não é culpa sua, de jeito nenhum. Por favor, não diga isso.
— Bem, pode ter certeza de que eu vou falar com o Akito sobre isso. Vou deixar bem claro
que, se algo assim acontecer de novo, ele vai parar na rua.
Ela parecia realmente determinada. Eu sabia que podia contar com ela. Ou pelo menos, era
assim que eu me sentia naquele momento.
Naquela noite, enquanto tentava dormir, ouvi minha mãe gritando na sala, em um tom que
raramente — ou nunca — usava. Curiosa, decidi dar uma olhada no que estava acontecendo.
Com cuidado para não forçar a parte inferior das minhas costas, me ergui da cama e saí
para o corredor. Então, me aproximei da porta da sala, que estava ligeiramente entreaberta,
e espiando pelo vão, vi meu irmão sentado no sofá enquanto minha mãe o repreendia sem
piedade.
Dava para perceber pelo tom frenético da sua voz o quanto ela não tinha experiência em
punir os próprios filhos, e ainda assim, meu irmão permanecia completamente impassível
diante de tudo que ela dizia. Na verdade, ele parecia mais irritado pelo barulho que ela
fazia, como se mal pudesse esperar para que ela se calasse. Então, de repente, nossos
olhares se cruzaram.
Foi por apenas um segundo, mas aquele único instante foi suficiente para que ele deixasse
claro: ele ia me fazer pagar por isso. Só espere. Aterrorizada, voltei para o meu quarto às
pressas para fugir daquele olhar de desprezo, já me arrependendo de ter contado a verdade
para minha mãe.
↺
Quando finalmente me recuperei o suficiente para voltar aos treinos de natação, o nosso
time já havia sido eliminado das preliminares do distrito, e todos os veteranos haviam se
aposentado. Mesmo assim, meus colegas me receberam de braços abertos, perguntando se
eu estava bem e dizendo o quanto sentiram minha falta.
O carinho deles durante aquele que foi, sem dúvida, o pior ano da minha vida significava o
mundo para mim, e eu não pude evitar derramar algumas lágrimas de tanta emoção. Ao
mesmo tempo, senti um aperto no peito, porque percebi o quanto havia me fechado até
então, focando apenas em melhorar meus tempos e deixando de lado a oportunidade de
criar laços com meus companheiros de equipe. Decidi, então, que dali em diante faria um
esforço para interagir mais com eles.
Passei a conversar mais com meus colegas, dar dicas para os novatos do primeiro ano e
bater papo com as outras garotas nos intervalos dos treinos. Elas sempre eram muito
simpáticas, e sempre que estávamos rindo juntas, por um breve momento, eu conseguia
esquecer de todos os aspectos dolorosos da minha vida. Foram os momentos mais felizes
que tive desde que entrei no ensino médio.
— Então, o que você acha que tem de errado com a Hoshina-san? — disse uma delas. — Não
sei o que passa pela cabeça dela, mas o jeito como ela está agindo agora é simplesmente
ridículo, se quer saber.
— Pois é, né? Tipo, será que ela não percebe que foi a lesão estúpida dela que fez a gente
perder a chance de ir para o nacional? E agora ela tem a cara de pau de voltar sorrindo
como se nada tivesse acontecido? É inacreditável.
— Ei, quer saber de uma coisa que ouvi por aí? Estão dizendo que foi o irmão dela que
machucou ela daquele jeito.
— É, parece que aquele cara virou um lixo completo ultimamente. Ego super frágil, vive
pedindo dinheiro pros amigos e nunca paga de volta, bate na irmã... Um escroto.
— Nossa, que lixo de pessoa. E aposto que ele gasta tudo com bebida. Que família mais
podre, né? Tá, pelo menos a Akari tá ralando pra juntar dinheiro pra faculdade, eu acho,
mas sério?
— Ah, não fala tão cedo. Vai que ela também começa a pedir dinheiro pra gente um dia
desses. E o ciclo da pobreza continua!
Fiquei ali sentada, paralisada, mesmo depois que as duas saíram do banheiro. Eu não
conseguia sentir nem raiva. Tudo o que senti foi um ódio profundo por mim mesma.
Era humilhante pensar que acreditei nas palavras gentis delas, que aceitei os votos de
melhoras como se fossem sinceros. Eu realmente achei que sentiam minha falta? Que
piada. Eu fui uma tola por achar que elas realmente se importavam.
Pensando nisso agora, foi provavelmente nesse momento que meus profundos problemas
de confiança começaram. Sempre que eu ouvia alguém rindo à beira da piscina,
automaticamente assumia que era às minhas custas. E sempre que alguma das outras
garotas tentava falar comigo, eu entrava no modo de defesa, me convencendo de que
tinham algum motivo oculto. Logo, elas pararam de tentar interagir comigo por completo, e
eu me tornei uma solitária na equipe de natação mais uma vez. Esses problemas de
confiança logo começaram a se manifestar também na sala de aula. Enquanto eu
geralmente passava os intervalos do almoço com a cabeça abaixada sobre a mesa, tentando
tirar um cochilo, antes desse episódio eu ainda tentava socializar um pouco com meus
colegas. Depois disso, parei de falar com praticamente todo mundo e passei a almoçar
sozinha em silêncio.
Não importava onde eu estivesse, sentia que não era bem-vinda. Como se eu não
pertencesse a lugar nenhum.
O único lugar onde encontrei um pouco de paz foi no telhado da escola. Sempre que sentia
que não aguentava mais ficar cercada por aquelas pessoas durante o almoço, saía da sala e
ia matar o tempo na escada que levava à porta de acesso ao telhado. Quando aprendi o
truque para abrir aquela porta, passei a almoçar lá cada vez mais frequentemente. Não sei
explicar o porquê, mas estar ali me acalmava completamente. Era o único lugar onde sentia
que conseguia respirar. Como se toda a ilha de Sodeshima fosse uma cidade submersa e
aquele fosse o único ponto alto o suficiente para eu emergir e encher os pulmões com ar
fresco. Sempre que olhava para baixo daquele lugar, sentia a mesma coisa: preciso sair
dessa ilha, e rápido. Então, sem falha, o sinal para a quinta aula tocava, e eu voltava a
afundar nas águas outra vez. Forçada a prender a respiração por mais um dia.
↺
Após minha lesão na lombar, meu irmão deu uma trégua em seu comportamento exigente e
perturbador por um tempo. Parou de trazer os amigos para casa e deixou de me tratar
como sua empregada. Infelizmente, essa fase não durou muito. No outono do meu segundo
ano do ensino médio, seus piores hábitos voltaram com força total. Ele estava ainda mais
agressivo e insuportável: festejando até mais tarde da noite, acordando constantemente de
ressaca e de mau humor, gritando insultos e atirando coisas em mim de novo. Nos dias
particularmente ruins, chegava a me dar socos no ombro ou a levantar a perna e chutar
minhas costas. Parecia não sentir o menor remorso por ter fraturado um dos meus ossos —
se é que sentia algo, era apenas mais confiança de que podia fazer o que quisesse sem
consequências.
Eu já não tinha mais forças para reagir. Sempre pedia desculpas e fingia que nada acontecia.
Minha mãe gritava com ele quase sempre que estavam no mesmo cômodo, mas isso só
piorava as coisas, pois ele descontava a frustração em mim, intensificando os abusos físicos.
Minha vida era um inferno. E, ainda assim, por mais difícil que fosse, eu sabia que não podia
me dar ao luxo de descansar nem por um minuto. Precisava investir todo o meu tempo e
energia nos estudos, na natação e no trabalho, para que, quando me formasse, pudesse
fugir desse lugar amaldiçoado de uma vez por todas. Esse pensamento era a única coisa
que me confortava: tudo isso terminaria assim que eu saísse do ensino médio. Mudar-me
para Tóquio para ficar com a Kanae novamente era minha única esperança durante os dias
mais sombrios da minha vida. Ainda assim, ao eliminar qualquer resquício de autoestima
que eu pudesse ter, mal conseguia suportar cada dia que passava. Cheguei ao ponto de não
me importar em reduzir alguns anos da minha vida se isso significasse ter um futuro
melhor em Tóquio.
Então, trabalhei até me esgotar, rezando para que o pior passasse logo. Decidi que não
deixaria mais nenhum obstáculo ou sofrimento me derrubar, por mais esmagador que
fosse. Mas hoje, 1º de abril, em pleno recesso de primavera antes do meu último ano, no
mesmo dia em que Kanae voltou para Sodeshima pela primeira vez em anos… Hoje foi o dia
em que o mundo encontrou uma maneira de partir meu coração em dois… e destruir
completamente meu espírito.
Hoje, trabalhei até às três da tarde. Normalmente, fazia um turno completo nos fins de
semana, mas a pousada estaria fechada no dia seguinte, então saí mais cedo. Fui para casa,
destranquei a porta e entrei no apartamento. Caminhei pelo corredor até meu quarto, mas
percebi que algo estava errado assim que entrei: minha gaveta da escrivaninha estava
ligeiramente aberta. Eu sempre fui muito cuidadosa em fechá-la, então isso me pareceu
bem estranho. Dei de ombros e me aproximei para fechá-la, mesmo assim. Mas, no
momento em que olhei para dentro, minhas mãos congelaram.
— O quê…?
Fiquei ali parada por um tempo, imóvel. Pensando nisso agora, era como a calmaria antes
da tempestade.
— Espera, mas…
Então, finalmente, veio o estrondo do trovão. Puxei todas as gavetas da minha escrivaninha,
depois as bati de volta com força. Não encontrando nada ali, passei a vasculhar minha
cômoda, olhar debaixo da cama e revirar minha bolsa como uma ladra enlouquecida. Meu
talão bancário não estava em lugar nenhum. O que eu deveria fazer agora? Se alguém
tivesse invadido e roubado, e estivesse com meu carimbo de assinatura, poderia esvaziar
minha conta inteira, e então eu não teria dinheiro suficiente para… para…
Quis começar a chorar alto ali mesmo. De alguma forma, contive o impulso e forcei meu
cérebro a pensar o mais rápido possível. Se um ladrão realmente tivesse levado, deveria
haver sinais de arrombamento, certo? Mas o apartamento estava intacto, e a porta da
frente definitivamente estava trancada. O que significava que só poderia ter sido minha
mãe ou meu irmão… e eu tinha um péssimo pressentimento sobre quem dos dois era o
culpado.
Peguei meu celular para ligar para Akito, minhas mãos tremendo. Meu dedo parou a
milímetros do botão de discagem.
E se — e esse era um grande e se — mas e se eu estivesse errada e não tivesse sido meu
irmão? Eu estava preparada para a fúria que poderia vir de uma acusação dessas? Ele faria
algo muito pior do que simplesmente me chutar. Não havia dúvida disso. Esse pensamento
me assustou tanto que acabei desistindo da ligação. Enquanto estava ali, sem saber o que
fazer, um pensamento me ocorreu.
E se não tivesse sido roubada? E se minha mãe só precisasse pegar um pouco de dinheiro
emprestado ou precisasse das informações da minha conta para algum assunto no banco?
Havia várias explicações possíveis que não envolviam perder até o último centavo das
minhas economias, e esse pensamento me acalmou um pouco. Talvez eu estivesse apenas
me iludindo, mas precisava me apegar a essas pequenas possibilidades para não vomitar ali
mesmo. Estava determinada a não encarar a realidade de frente.
Eu sabia que provavelmente não conseguiria estudar enquanto essa dúvida continuasse
martelando na minha cabeça, mas também não suportava ficar sentada sem fazer nada. Saí
de casa correndo. Corri freneticamente pela cidade, o mais rápido que pude, na esperança
de que a adrenalina dissipasse minha ansiedade. Menos de trinta minutos depois, eu já
estava exausta, minhas pernas estavam bambas, então me sentei no quebra-mar para
recuperar o fôlego. Virei-me e olhei para o oceano enquanto esperava meu coração
desacelerar. A silhueta enevoada do continente parecia mais distante do que nunca.
Talvez eu tenha acabado de perder minha única chance de me mudar para Tóquio, pensei
comigo mesma… e então as lágrimas começaram a escorrer. Mas, algo mágico aconteceu.
Ouvi uma voz me chamar e me virei. Lá estava ele. Kanae estava bem na minha frente. Não
era um sonho, era real. Ele estava ali, em carne e osso, a apenas um braço de distância.
— Akari…?
— K-Kanae-kun?!
Esse reencontro inesperado me pegou tão desprevenida que, ao me levantar, quase caí para
trás no oceano. Felizmente, não caí, porque Kanae estava ali para me segurar. Nós dois
então começamos a conversar, e eu me esforcei ao máximo para agir como se nada
estivesse errado. Não queria arruinar nosso reencontro tão esperado falando sobre meu
talão bancário perdido, sobre meu irmão abusivo ou sobre qualquer coisa remotamente
deprimente.
Curiosamente, quanto mais eu falava com ele, menos parecia que eu estava fingindo.
Depois de um tempo, comecei a me sentir genuinamente feliz de novo. Era como se ouvir
sua voz estivesse lentamente preenchendo meu coração frio, vazio e ressecado com águas
mornas que acalmavam minha alma. Quando ele revelou que, na verdade, não tinha
namorada em Tóquio no momento, soltei um suspiro de alívio tão grande que quase caí de
joelhos bem na frente dele.
Era exatamente a resposta que eu esperava, mas foi bom ter a confirmação de que eu
precisaria me mudar para Tóquio se quisesse estar com ele novamente. Isso resolveu tudo.
Era hora de parar de me lamentar e enfrentar meus problemas de frente. Me despedi de
Kanae e voltei para casa. Assim que cheguei, peguei meu celular e liguei para meu irmão
naquele instante. Temia que, se esperasse mais, pudesse perder a coragem de novo. Eu
precisava saber onde estava meu talão bancário.
Ele não atendeu, o que fez minha determinação vacilar um pouco. Mas eu não iria desistir
tão facilmente, então me sentei no sofá da sala e fiquei ali, esperando até que meu irmão
voltasse para casa.
Quando ele finalmente chegou ao apartamento, já eram nove da noite. Reunindo toda a
coragem que pude, me levantei e o confrontei.
— E-Ei, Akito? Você, por acaso, pegou meu talão bancário? — perguntei, tentando não soar
acusatória demais. Ele me lançou um olhar sujo, depois tirou tanto meu talão bancário
quanto meu carimbo de autorização do bolso do casaco e os entregou para mim.
Então foi ele, pensei, sentindo um breve alívio por ele ter admitido tão facilmente e
devolvido. Mas então, abri o talão bancário… e não pude acreditar no que vi. Depois de um
único saque, meu saldo havia despencado de mais de 1.000.000 de ienes para meros 1.200.
Fiquei ali parada, olhando para aqueles números com absoluto horror, enquanto todo o
sangue fugia do meu rosto.
— Pfft — meu irmão cuspiu, como se tivesse engolido uma mosca por acidente. — Só peguei
um dinheirinho emprestado, só isso. Amassei o carro de um cara outro dia, e ele me
obrigou a pagar o conserto. Acontece que o cara é um figurão do submundo, então eu
realmente não tive escolha.
Minha boca ficou escancarada. Eu estava completamente sem palavras, e ainda assim, de
alguma forma, o pior ainda estava por vir.
— Ah, qual é, não faz essa cara — ele continuou. — Você e eu sabemos que, no fim das
contas, você provavelmente nem ia passar nessa faculdade. Além disso, se você tá tão
desesperada pra se mudar pra Tóquio, por que não arranja um emprego num clube de strip
ou algo assim? Tem vários por lá.
— É, ou num bar de hostess, sei lá. Enfim, eu tava indo ali no bar rapidinho. Pode me
emprestar quinhentos? Sei que você tem pelo menos isso na carteira.
Nunca antes na minha vida eu soube que, quando a raiva ultrapassa certo limite, seu sangue
literalmente esfria. Era como se um daqueles experimentos científicos que eu via na TV
estivesse sendo recriado dentro da minha cabeça. Aquele em que mergulham uma pétala de
rosa em nitrogênio líquido, tiram, apertam, e ela se despedaça em mil pedaços. Foi
exatamente isso que aconteceu com o meu senso de razão naquele instante.
— Graaaaaaagh! — eu gritei, agarrando meu irmão pela gola com as duas mãos. — Como?!
Como você pôde fazer uma coisa dessas?! Por que você tem que arruinar a minha vida em
todas as oportunidades possíveis?!
— Ei! Me solta!
— Você tem ideia do quanto eu tive que trabalhar pra juntar todo esse dinheiro?! Eu me
matei de trabalhar! Mas você não sabe nada sobre isso, não é?! Você não sabe nada sobre
mim!
Meu irmão arrancou minhas mãos da sua gola e me empurrou para longe. Caí de costas,
batendo forte no chão. Uma dor aguda percorreu minha coluna.
— Não é como se você soubesse alguma coisa sobre mim também! — meu irmão gritou
enquanto eu me contorcia de dor. — O mundo já tirou tudo de mim! Meu pai, o beisebol…
tudo o que eu amava! Eu nunca fiz nada pra merecer isso! Então por que eu não teria o
direito de pegar algumas coisas de volta?! Não seria justo?!
— Por que você tá perguntando isso pra mim…?! Você não é o único que perdeu o pai aqui,
sabia?! Só porque você não pode mais jogar beisebol, isso não te dá o direito de roubar o
dinheiro suado dos outros…!
— Ei! Quem disse que você podia atender isso?! Me dá aqui! — meu irmão rosnou,
arrancando o telefone das minhas mãos e encerrando a chamada. — Maldita. Tentando me
meter em encrenca…
— Você nunca vai sair dessa ilha, entendeu? Então cala a boca e faz o que eu mando como
uma boa garota — ele sibilou, cuspindo no meu rosto. Saiu do apartamento sem dizer mais
nada. Assim que ele se foi, comecei a chorar descontroladamente, ali mesmo no chão, como
se finalmente tivesse sido quebrada além do conserto.
ME ENCONTREI PARADO em frente ao pequeno santuário de madeira, olhando para a pedra
rachada dentro dele, enquanto Greensleeves tocava no alto-falante atrás de mim. Dei um
passo para trás para olhar para a resplandecente árvore de cerejeira acima e o céu
escurecendo atrás dela. Perto dali, estavam alguns brinquedos de playground antigos e
enferrujados. Não havia dúvida — eu estava de volta ao parque abandonado, exatamente
onde tudo começou.
Peguei meu celular e olhei a data. Domingo, 1º de abril, 18h. Eu havia voltado para o dia em
que cheguei a Sodeshima, o mesmo dia em que Akito perdeu a vida. Depois de cinco longos
e confusos dias, eu veria como o restante do 1º de abril se desenrolaria. Eu sabia
exatamente o que precisava fazer a seguir. Iria até a Taverna Asuka, impediria Akito de
beber a qualquer custo e isso seria tudo. Não deveria ser difícil e eu tinha bastante tempo
para chegar lá.
No entanto, não conseguia tirar da cabeça o que Hayase me disse antes do Rollback. Isso
ficava me corroendo no peito como uma espinha de peixe afiada presa na minha garganta.
Se isso fosse verdade, destruiria qualquer respeito que eu já tivesse por Akito… mas, no
final das contas, era só um rumor. Não conseguia imaginar o mesmo cara que se levantou
por mim contra aqueles valentões há muito tempo, batendo na própria irmã, não
importando o quão baixo ele tivesse caído. Eu não queria nem considerar essa
possibilidade. Por ora, porém, meu objetivo não tinha mudado; eu precisava focar em evitar
a morte de Akito. Depois eu poderia investigar a veracidade desses rumores.
Corri pelas ruas vazias e abandonadas em direção à Taverna Asuka. Eu sabia que ele não
chegaria até o bar antes das 21h, o que ainda estava a três horas de distância, mas mesmo
assim, sentia a necessidade de ir logo. Demorei cerca de 20 minutos para chegar ao meu
destino. Achei um lugar discreto um pouco mais à frente, do outro lado da rua, onde eu
poderia vigiar a entrada do bar sem chamar a atenção dos outros clientes. Agora, tudo o
que eu precisava fazer era esperar ele chegar… mas como ainda era por volta das 18h30, eu
ficaria ali esperando por mais duas horas e meia. Me encostei em um poste de telefone e
me preparei para a longa espera. Foi então que senti meu celular vibrando no bolso. Tirei
ele e vi que era minha avó ligando, então atendi.
— Alô?
— Querido, para onde você foi? Já quase é hora do jantar. Por favor, venha para casa.
Ah, claro — esse era o dia em que eu tinha saído de casa para esfriar a cabeça.
— Desculpa, vó. Estou um pouco ocupado agora… Talvez não chegue em casa até mais
tarde.
Eu não sabia o que dizer. Obviamente não queria voltar para casa agora e correr o risco de
não poder voltar para cá depois, mas também não fazia ideia de quando eu terminaria o que
tinha que fazer aqui. Então, decidi ser honesto com ela.
— Desculpa, ainda não sei. Prometo que te ligo assim que tiver uma ideia melhor de quando
vou chegar. Como eu disse, provavelmente será bem tarde.
— Você ainda não está chateado com a Eri, está? — ela perguntou, reprobatória.
— Bom, tá bom.
— Ok. Mas tente voltar o mais rápido possível, querido. Posso perceber que a Eri está bem
preocupada com você, mesmo que nunca admita.
— Enfim, não nos faça esperar demais. Falo com você em breve — Disse minha avó, e
desligou o telefone. Lembrei-me aleatoriamente de que foi ela quem originalmente me
disse que eu havia ficado na casa de um amigo na noite do 1º de abril. Mas aqui estava eu,
definitivamente não na casa de um amigo, e não via isso mudando, a não ser que algo muito
bizarro e drástico acontecesse. Era uma das poucas coisas que ainda me deixava confuso…
mas tanto faz. Por agora, o plano era terminar isso para poder dormir na minha própria
cama. Não importava onde eu tinha ficado da última vez, porque desta vez eu iria mudar o
futuro.
— Espera aí.
Eu poderia pegar o número dele com a Akari, né? Me senti um idiota. Por que não pensei
nisso antes? Imediatamente tirei o celular e disquei o número dela. Três toques depois, ela
atendeu.
— Ei! Quem disse que você podia atender isso?! Me dá aqui! — A chamada foi desligada do
outro lado.
De repente, uma sensação ruim tomou conta de mim. Era a Akari quem tinha atendido o
telefone, disso eu tinha certeza. Mas quem era aquela outra pessoa gritando com ela? A voz
parecia vir de mais longe, então eu não conseguia entender direito. Um suor frio escorreu
pela minha testa. Algo ruim estava prestes a acontecer. Ela não teria atendido ao telefone
pedindo minha ajuda de outra forma. Tentei ligar novamente, só para garantir… mas sem
sucesso.
Eu saí correndo. Meu destino: o complexo de apartamentos da Akari. Não sabia com
certeza se seria lá que ela estaria, mas parecia o lugar mais provável. Se ela não estivesse lá,
eu teria que tentar em outro lugar. Corri o mais rápido que consegui pela rua, tropeçando
várias vezes pela falta de iluminação, e cheguei ao complexo de apartamentos em tempo
recorde. Ofegante, subi as escadas e toquei a campainha. Nenhuma resposta. Bati forte na
porta. Ainda nada. Por fim, tentei girar a maçaneta como último recurso, e a porta me
surpreendeu ao abrir sozinha. Chamei lá de dentro para saber se havia alguém em casa, e
entrei sem esperar resposta. Era uma possível emergência; não tinha tempo para seguir a
etiqueta. Caminhei pelo corredor principal e entrei na sala de estar, que estava com a porta
aberta. Ali, no meio do chão, estava uma jovem encolhida na posição fetal.
— Akari! Você está bem?! — perguntei, correndo até ela. Me agachei ao seu lado e coloquei a
mão suavemente nas suas costas, tentando ajudá-la a se levantar. No momento em que
meus dedos tocaram nela, ela se levantou abruptamente e empurrou minha mão para
longe.
— Pare com isso! — ela gritou. — Não toque em m—
Nossos olhares se encontraram, e ela congelou no lugar, com a boca aberta. Então, aos
poucos, a expressão dela se transformou em uma mistura de tristeza e desespero. Seus
olhos começaram a se encher de lágrimas, que logo começaram a sair em torrentes, como
pequenas cachoeiras.
Dessa vez, fui eu quem congelei, mas logo percebi o que tinha que fazer. Envolvi os braços
ao redor dela e comecei a acariciar suas costas, como minha avó sempre fazia para me
confortar quando eu era pequeno. Depois de a embalar assim por um tempo, seus soluços
eventualmente diminuíram, e ela afastou o rosto do meu peito. Longos fios de muco se
esticaram como teias de aranha de suas narinas até minha camisa. Peguei uma caixa de
lenços no centro da mesa e a estendi para ela. Ela pegou um sem dizer uma palavra e
assoou o nariz.
— Mmn — ela resmungou, com a voz nasal. Fiquei em dúvida se isso significava sim ou não.
Ela ainda estava sentada, com os ombros caídos, olhando desanimada para o chão. O que
diabos aconteceu com ela? Não conseguia imaginar algo que a fizesse desmoronar daquele
jeito, a não ser que fosse algo realmente terrível. Dei uma olhada rápida nela, mas não vi
sinais de uma luta intensa ou algo assim. Nenhuma roupa rasgada ou ferimentos visíveis,
pelo menos.
— Meu din— ele... ele pegou meu...meu — ela disse, fungando inconsolável entre uma
palavra e outra. Estava cada vez mais difícil de entender. Decidi que a explicação podia
esperar por agora.
— Tudo bem, podemos conversar sobre isso depois — disse, acariciando suas costas para
confortá-la novamente. — Você está bem. Está tudo bem agora...
— Ei, Akari, hum... Não quero ser um idiota, mas... tem um lugar onde eu preciso estar em
um tempo curto — confessei. Ela levantou a cabeça rapidamente para me olhar. Então, ela
agarrou meu braço direito e apertou forte.
Ver ela me implorando para não ir, com os olhos cheios de lágrimas, apertou meu coração.
Pensando bem, eu não podia fazer isso. Não podia simplesmente deixá-la aqui.
— Tá bom. Então você pode vir comigo — disse, levantando-me. Akari também se levantou
aos poucos, ainda me segurando pelo braço enquanto começávamos a atravessar a sala de
estar.
Akari parou de repente, ainda puxando com força a manga do meu casaco.
— Por que... temos que ir lá? — ela perguntou com os olhos embaçados.
— Porque senão o Akito pode morrer hoje à noite. Se eu não for lá e fizer ele parar de beber,
é isso.
Akari teimosamente se recusava a sair de onde estava. Pela determinação que eu via em
seus olhos, estava claro que ela não ia se mexer até conseguir as respostas que queria. Eu
entendi querer uma explicação depois de eu ter dito que o irmão dela poderia morrer, mas
ela precisava ser tão insistente assim...? Não dava mais para pensar nisso. A única maneira
de eu conseguir que ela fosse comigo era explicando tudo.
— Tá bom, mas já vou avisando, isso vai ser bem complicado — avisei.
↺
Eu contei tudo sobre o fenômeno do Rollback com o máximo de detalhes que consegui.
Akari gemeu, segurando a cabeça com as mãos como se tivesse uma enxaqueca. Eu
realmente não podia culpá-la; lembro de ter tido dificuldade para entender a explicação
dela sobre como o Rollback funcionava no começo. Só depois de vivenciar o fenômeno eu
comecei a acreditar em tudo o que ela me dizia. Como eu deveria explicar tudo isso de uma
forma que fizesse a Akari acreditar em mim, se ela nunca experimentaria o fenômeno?
Talvez fazendo alguma previsão sobre o futuro? O único evento importante que eu tinha
para prever era a morte do Akito, e eu estava tentando evitar isso. Nos últimos dias, eu
assisti um pouco de TV e vi algumas notícias no meu celular, mas não lembrava de nada
substancial o suficiente para causar um impacto. Olhei o relógio de novo. Agora eram
22h30. Precisávamos sair logo.
— Vamos logo — disse. — Eu te conto mais no caminho. Talvez assim você comece a
acreditar em mim.
— Mas — ela protestou, segurando as mangas de seu suéter gigante enquanto baixava a
cabeça. Não parecia que eu conseguiria convencê-la tão cedo. Eu não tinha muito o que
fazer – teria que arrastá-la comigo, por mais grosso que fosse. Estendi a mão para pegar a
dela, mas isso claramente a assustou, já que ela recuou instintivamente e tropeçou no
pequeno desnível da porta, onde o chão se elevava. Ela perdeu o equilíbrio e caiu de costas,
sentando-se no chão.
— Ai, ai...
— É, você machucou a parte baixa das costas recentemente, não foi? Você mencionou isso
outro dia. Disse que ainda dói de vez em quando.
— Espera, quando foi isso? — ela piscou, sua confusão agora se transformando em surpresa
genuína.
— Claro que fizemos. Foi ideia sua! Você me ensinou a como entrar pela janela quebrada do
banheiro feminino e tudo. É só dar um pouco de força, e a fechadura abre na hora.
— W-Whoa, como você sabe disso? Isso é algo que só eu e algumas das outras garotas da
escola deveriam saber fazer...
— Como eu disse, aprendi com uma profissional. Ou melhor, com a sua versão do futuro.
Akari pensou um pouco, olhando para baixo; pelo que eu pude perceber, ela ainda tinha
suas dúvidas, mas estava começando a acreditar um pouco mais em mim. Talvez agora ela
estivesse mais disposta a ouvir o que eu tinha a dizer sobre o Akito.
— Escuta, Akari. Como eu estava tentando te dizer antes, eu voltei aqui de alguns dias no
futuro. Sei o que vai acontecer nos próximos dias e quando — eu expliquei. Ela olhou para
mim e, depois de uma longa pausa, assentiu levemente, então continuei. — Por isso, preciso
que você acredite em mim quando eu te disser que, em algum momento dessa noite, entre
meia-noite e 2 da manhã, o Akito vai morrer de envenenamento alcoólico agudo. A não ser
que eu vá até o bar agora e faça ele parar, claro.
— Isso mesmo.
O fato de o Akito estar em perigo grave finalmente pareceu atingir Akari, pois sua
expressão se transformou em uma mistura de confusão e horror. Seus lábios tremiam,
como se ela quisesse muito dizer algo, mas não conseguia forçar as palavras a saírem.
— Enfim, desculpa, mas eu realmente não posso perder mais tempo. Você ainda quer vir
comigo ou não?
O objetivo que eu busquei ao longo desses últimos dias estava quase ao alcance. Assim que
chegássemos ao bar, eu entraria lá e arrastaria o Akito para fora, se fosse necessário. Se ele
tentasse resistir ou já estivesse dando sinais de envenenamento alcoólico, eu poderia
simplesmente chamar a polícia ou uma ambulância. Desde que eu conseguisse chegar lá e
confrontá-lo, eu deveria ser capaz de mudar o futuro e evitar que a morte dele
acontecesse.
Ainda havia algumas coisas sobre esse processo do Rollback que eu não entendia
completamente... mas provavelmente não valia a pena pensar muito nisso agora. Desde que
eu conseguisse salvar o Akito, era só isso que...
De repente, senti um puxão urgente na minha manga. Akari estava me segurando pelo
braço. Eu parei de andar e virei para ela; estávamos bem embaixo de um dos poucos postes
de luz da rua, então eu conseguia ver perfeitamente o rosto de Akari. Então, eu ofeguei. Ela
estava olhando pensativamente para a calçada, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
— Eu não consigo — ela soluçou, apertando meu braço tão forte que eu senti suas unhas
atravessando minha pele através do casaco. — Desculpa, Kanae-kun... Eu simplesmente não
consigo...
— O que você quer dizer com isso? Não consegue fazer o quê? — eu perguntei,
desesperado. Eu não fazia ideia do porquê ela tinha me parado ou por que estava chorando,
o que começou a me deixar um pouco em pânico. Ela olhou para mim e, com os olhos
cheios de lágrimas, fez um apelo que partiu meu coração.
Demorou alguns momentos para que as implicações das palavras dela se assentassem em
minha mente. Se me dessem um milhão de suposições sobre o que ela diria, eu jamais teria
chegado perto do que realmente saiu da sua boca. Minha boca ficou aberta, sem acreditar
no que acabara de ouvir, enquanto tentava, sem sucesso, formar palavras. Eventualmente,
comecei a me sentir um pouco tonto. Já não conseguia dizer com certeza se meus pés
ainda estavam tocando o chão.
— O que você está dizendo? — eu gaguejei. — Claro que temos, não temos…?
— Mas — ela resmungou, segurando o colarinho do seu suéter com a outra mão. Estava se
comportando quase como uma criança mimada.
— O que aconteceu com você, Akari? Esse é o seu único irmão, estamos falando dele…
— Eu sei, mas… eu simplesmente não consigo fazer isso… Eu não quero salvar ele,
Kanae-kun. Eu nem quero estar na mesma sala que ele de novo…
— Bom, faz sentido, mas isso é uma questão de vida ou morte. Se não fizermos nada, ele
literalmente vai morrer. Você não entende isso?
Akari continuou balançando a cabeça, se recusando a olhar nos meus olhos. Ela parecia
frágil, até paranoica. Como se estivesse convencida de que algo ou alguém estivesse
tentando pegá-la, e estava me implorando para resgatá-la do seu perigo. Do meu ponto de
vista, eu não entendia o que ela temia. Akari ainda não tinha expressado suas emoções de
maneira clara o suficiente para eu entender.
— Como assim?
— Sim — ela acenou com a cabeça e começou a elaborar lentamente, com uma voz trêmula.
Ela me contou tudo sobre como ele estava constantemente jogando coisas nela, puxando
seus cabelos e até quebrando um osso do quadril dela. Como ele a usava como sua
assistente pessoal, dia após dia. Como ele roubava todo o dinheiro que ela havia
economizado enquanto trabalhava duro no seu emprego de meio período. Como ele chegou
a sugerir que ela trabalhasse em um clube de striptease para ganhar o dinheiro de volta…
A cada palavra que saia da boca da Akari, meu sangue fervia de ódio por Akito, e minha
empatia por Akari só aumentava. Essas duas emoções conflituosas se sobrepuseram como
uma enorme tesoura, cortando meu coração. Akari estava fazendo um apelo por ajuda, e,
por mais que eu quisesse apenas tampar meus ouvidos e ignorar o que ela dizia, eu jamais
poderia fazer isso com ela. Quanto mais ela explicava o que vinha acontecendo, mais uma
terceira emoção começava a se formar dentro de mim: arrependimento. Arrependimento
por dois anos atrás, quando fiz as malas e deixei Akari sozinha em Sodeshima sem pensar
duas vezes. Por que eu não percebi antes que algo estava errado? Por que nunca liguei para
saber como ela estava? Eu me martelava com perguntas como essas, mas não havia boas
desculpas. Se eu tivesse ficado ao lado da Akari, poderia ter estado lá para ela quando…
— Agora você entende? — Akari interrompeu meus pensamentos. — Por favor, Kanae-kun…
Não podemos… apenas esperar para ver o que o universo decide sobre meu irmão?
Eu não tinha o que dizer em resposta a isso. Depois de ter chegado até aqui, eu agora
estava começando a ter dúvidas de última hora. Devo salvar Akito ou não? Quando o
Rollback começou, não havia dúvida na minha mente sobre qual deveria ser a resposta a
essa pergunta. Mas naquela época, eu não sabia sobre todas as coisas que ele estava
fazendo com a Akari. Todas as coisas horríveis e repulsivas. Não podemos esquecer que
Akari era minha melhor amiga aqui, não Akito, e ela mesma estava essencialmente me
dizendo que seu irmão merecia morrer.
E ainda assim… certamente havia espaço no coração de Akito para mudança, se lhe
déssemos uma chance de uma segunda vida, não havia? Se o deixássemos morrer, ele
nunca teria a oportunidade de se redimir. Havia um número infinito de maneiras de a vida
dele mudar a partir deste ponto, tanto para melhor quanto para pior, e deixá-lo morrer
agora significaria apagar todas essas possibilidades. Eu estava realmente preparado para
ser seu juiz, júri e executor aqui? Eu não sabia.
Então, o que eu deveria fazer? Minhas escolhas eram agir contra a vontade da minha melhor
amiga, que era uma vítima de abuso, ou deixar um homem profundamente falho morrer.
Nesse exato momento, admito que as balanças não estavam inclinadas para nenhum dos
lados. Eu estava perdido, e a pressão da decisão iminente estava começando a me deixar
angustiado.
De repente, do nada, uma memória antiga surgiu na superfície da minha mente. Era
daquela viagem de campo da quinta série, a mesma que Akari e eu tínhamos relembrado
depois de invadirmos a escola naquela noite. Uma memória da Akari caindo de cara na lama
e eu, de propósito, caindo logo em seguida. Naquele momento, meu raciocínio era que,
quando você se encontra até o pescoço na lama, preso numa situação horrível da qual não
consegue escapar, seus verdadeiros amigos são aqueles que se atiram na lama junto com
você, se sujando em solidariedade para te ajudar a sair. E agora? Eu realmente estava
disposto a carregar essa lama, essa mancha na minha consciência, e compartilhá-la com ela
pelo resto da minha vida?
— Tudo bem — murmurei com um pequeno suspiro, assentindo para mim mesmo. Eu tinha
tomado minha decisão. — Vamos adiar a decisão de salvar o Akito, então.
No momento em que disse essas palavras, Akari soltou meu braço e vacilou, como se
estivesse prestes a desmaiar. Eu a segurei pelos ombros e a apoiei, temendo que ela
desmaiasse.
— Desculpa… acho que só estou… me sentindo meio tonta — ela disse. Sua palidez não
parecia boa; ela parecia tão exausta que poderia cair de joelhos a qualquer momento.
Voltamos pelo mesmo caminho, afastando-nos do bar onde Akito estava bebendo. Nenhum
de nós disse uma palavra. Acho que ambos precisávamos de um tempo para processar a
gravidade da decisão que acabávamos de tomar juntos. Caminhamos em silêncio o caminho
todo para casa, enquanto eu a sustentava.
Chegamos ao apartamento da Akari depois do que pareceu uma eternidade. Ela destrancou
a porta, e ambos entramos. Ela parecia não ter forças nem para andar sozinha. No
momento em que pensei em encontrar um lugar para deitá-la, ela apontou fraca para uma
porta à esquerda no corredor. Seguindo suas instruções, abri a porta e a ajudei a entrar.
Acendi a luz, e o cômodo ganhou vida. Era um espaço bem apertado — cerca de oito metros
quadrados, mais ou menos — mas havia uma fragrância levemente doce no ar.
Presumi que aquele fosse o quarto da Akari (eu nunca tinha estado dentro dele antes). Do
outro lado da porta havia uma cama de estrutura simples de madeira e, quando olhei para a
minha direita, vi o uniforme da escola de Sodeshima pendurado na parede. Dei uma olhada
rápida no quarto e vi uma estante cheia principalmente de volumes de mangás, uma
cômoda plástica e uma escrivaninha velha, cheia de trabalhos escolares e livros didáticos.
Cada livro tinha milhares de marcadores de página coloridos saindo de capa a capa.
— Por favor, não me julgue… Sei que está uma bagunça — Akari reclamou.
— Ah, não! Desculpa, eu não estava tentando ser rude — pedi desculpas.
Parei de olhar ao redor e a ajudei a caminhar até a cama para se deitar, puxei o cobertor até
seu pescoço e a cobri.
— Você devia tentar descansar essa noite — falei. — Podemos conversar mais amanhã.
— Você pode… segurar minha mão? — ela pediu timidamente, estendendo-a até mim. Fiquei
um pouco surpreso com isso no começo, mas fiquei feliz em atender ao pedido.
Me virei de modo a ficar de frente para a cama e entrelacei os dedos com os dela. Akari
apertou com força. Sua mão era menor que a minha, e tão suave, quente e delicada quanto
quando éramos crianças. Tão delicada, que eu tive medo de apertar forte demais e acabar
machucando.
Ficamos assim, com sua mão na minha, enquanto as primeiras horas da noite passavam
tranquilamente sob nossos pés. Olhar para Akari com os olhos fechados me fez sentir um
pouco sonolento também. Ainda segurando firme, encostei minha testa no canto da
estrutura da cama e fechei os olhos. O chão estava um pouco frio para conforto, mas
provavelmente eu adormeceria assim eventualmente… Espera. Lembrei que deveria
retornar a ligação para minha avó assim que soubesse que horas voltaria para casa.
— Espera um pouco, Akari. Preciso fazer uma ligação rápida — disse, me levantando e
soltando sua mão.
— Pode deixar.
Saí do quarto e peguei o celular. Já eram onze horas. Liguei para casa, esperando que minha
avó estivesse irritada. E claro, ela estava. Assim que me identifiquei, ela começou um
discurso maravilhoso sobre como eu era irresponsável e o quanto ela estava preocupada.
Ela não me deixou falar uma palavra sequer, e eu não vi ela parando tão cedo, então, de
repente, disse que ia passar a noite na casa de um amigo e desliguei o telefone. Um
momento depois, percebi o que tinha feito. As implicações bateram tão forte que perdi o
equilíbrio e bati minhas costas na parede.
Claro.
Senti a maior pergunta pendente, aquela que permanecia congelada na minha mente todo
esse tempo, começar a derreter, drenando de mim como a neve derretendo. Eu acabara de
cumprir minha própria profecia. Esta era a casa do amigo onde passei o dia 1º de abril, e em
algumas horas, Akito morreria novamente. Então amanhã, eu encontraria o corpo e ligaria
para relatar. Agora eu entendia porque Akari se recusava a me contar o que aconteceu na
noite de 1º de abril. Ela não podia me dizer que ela e eu deixamos Akito morrer de
propósito, não enquanto eu ainda estava determinado a salvar a vida dele. O passado e o
futuro se conectaram novamente. Tudo aconteceu exatamente como o destino havia
ordenado. No final, eu era impotente para mudar o destino de Akito.
Sem aviso, a porta do quarto da Akari rangeu um pouquinho. Olhei e a vi espiando pela
fresta, nossos olhares se encontrando.
— Ah, foi mal. É que acabei de sair da ligação. Disse que vou ficar aqui essa noite.
— Espera, você vai passar a noite? ...Certo, tudo bem. Faz sentido. Idiota.
Ela falou como se tivesse demorado um pouco para digerir a ideia, mas eu não consegui ver
sua expressão com as luzes ainda apagadas. Voltei para o quarto, e nós dois voltamos às
nossas posições de antes, tanto de sentar quanto de dormir. Nesse exato momento, meu
nariz resolveu começar a coçar, e eu espirrei. Passei a mão pelo nariz.
— Bem, você até poderia... mas eu tenho uma ideia melhor — ela declarou, então se afastou
um pouco para o fim da cama, fazendo espaço para mim. — Por que você não vem para cá...
tem bastante espaço debaixo das cobertas.
— Hã?! Espera, mas isso... Quer dizer, v-você acha que isso é uma boa ideia?
— Claro, por que não? Eu confio em você. Agora, vem logo — ela insistiu, batendo várias
vezes no espaço vazio das cobertas, como um convite para eu me juntar a ela. Não queria
que ela pensasse que minha hesitação significava algo negativo, então acenei com a cabeça
e me deslizei para debaixo das cobertas ao lado dela... mas assim que senti o calor do corpo
dela ainda persistindo nas cobertas, meu coração disparou.
— Você não está meio que pendurado na beirada ainda? — ela perguntou. — Aqui, vem mais
para perto.
— O-Ok — eu disse. Me movi para o centro da cama, como ela pediu. Agora o rosto da Akari
estava a poucos centímetros do meu, perto o suficiente para eu ver cada cílio. Suas grandes
íris escuras estavam fixamente olhando para as minhas.
— Sim? O que é?
— Não quero parecer estranha, mas... Eu tenho pensado muito em tentar entrar na mesma
faculdade que você e me mudar para Tóquio depois de me formar. Tenho trabalhado muito,
muito mesmo para isso... Você não tem ideia de quanto eu senti sua falta nesses últimos
anos.
— Espera. Era para isso que você estava juntando todo aquele dinheiro?
— Entendi... Bem, me desculpe se fiz você sentir que isso era a única forma. Se eu soubesse
que era assim que você se sentia, eu teria ficado aqui com você.
— Não, não! Desculpa, não era para soar como um golpe de culpa. Além disso, agora tudo
vai ficar bem — ela me tranquilizou, sorrindo suavemente do outro lado do travesseiro. —
Vamos guardar isso como nosso segredo, e esquecer tudo isso, ok?
Então, ela levantou a mão direita entre nossos rostos e levantou o dedo mindinho.
— Sim. Eu prometo.
Entrelaçamos os mindinhos. Quando finalmente soltamos, ela deu uma risadinha satisfeita
e depois soltou um longo suspiro de contentamento.
— Kanae-kun...
— O que foi?
— Ah, nada, só... Obrigada — ela disse, fechando os olhos. Quando os abriu novamente, uma
única lágrima perolada escorreu pela têmpora. — Agora não me deixe mais assim, ouviu?
Então, ela se aninhou ainda mais perto, tão perto quanto duas pessoas poderiam ficar, e
pressionou a testa contra o meu peito. Quando olhei para baixo e vi sua cabeça ali, abaixo
do meu queixo, fui tomado por uma vontade estranha e irresistível de passar os dedos pelos
seus cabelos. E eu fiz. Passei os dedos pelo couro cabeludo dela, subindo e descendo,
repetidamente, de maneira lenta e metódica.
— Mmmnn — ela gemeu, um pouco hesitante no começo, mas logo se relaxou e deixou-se
aproveitar a sensação da massagem. Continuei traçando meus dedos de maneira suave,
como se quisesse memorizar os contornos do crânio dela. Lentamente, Akari foi
adormecendo profundamente. Momentos depois, parei de acariciar seus cabelos e fechei
meus olhos também. Eu só queria aproveitar esse momento perfeito e esquecer o mundo.
Outro eu — outro aspecto de mim mesmo — estava fazendo um apelo desesperado à minha
consciência.
INTERLÚDIO VII
FOI COMO SE O CÉU E O INFERNO tivessem descido sobre mim no espaço de um único dia. O
inferno veio primeiro. Quando descobri que meu irmão havia roubado toda a minha
poupança, eu realmente pensei que minha vida havia acabado. Meu mundo inteiro ficou
escuro; pela primeira vez na minha vida, eu soube o verdadeiro significado de desolação e
desespero. Não consegui nem mesmo encontrar forças para chorar. Mas Kanae apareceu e
me resgatou.
Para ser sincera, ainda não entendia completamente todas as coisas que ele me contou
sobre esse fenômeno de Rollback, mas essa não era a parte que importava para mim. O que
realmente importava era o fato de ele ter me escolhido em vez do meu irmão. Só isso me
fez mais feliz do que eu poderia expressar em palavras. Obrigada, Kanae. Obrigada por
ouvir meu desejo egoísta. Por ter feito aquela promessa comigo. Isso realmente significou o
mundo para mim.
Quantos anos se passaram desde a última vez que ele passou os dedos pelos meus cabelos
assim? Naquela época, ele só bagunçava os meus cabelos de forma brincalhona aqui e ali,
mas agora suas mãos cresceram o suficiente para que ele pudesse facilmente sustentar
minha cabeça. Era tão bom, que eu teria deixado ele continuar massageando a parte de trás
da minha cabeça para sempre, se quisesse. Na verdade, eu queria que esse momento inteiro
durasse para sempre. Se o céu realmente existisse, imagino que provavelmente fosse assim.
Felicidade completa e absoluta.
Uma voz sombria no fundo da minha mente me disse que eu nunca esqueceria o fato de ter
trocado a vida do meu irmão por essa felicidade.
TUDO O QUE EU CONSEGUIA OUVIR era o som da respiração tranquila da Akari. Enquanto isso,
eu não conseguia dormir nem um minuto, por vários motivos. Primeiro, eu estava em uma
cama desconhecida. Segundo, Akari estava dormindo sobre o meu peito. Mas o que mais
me impedia de dormir era a morte de Akito. Era como se a imagem do seu corpo estivesse
gravada nas pálpebras dos meus olhos. Toda vez que eu tentava fechar os olhos, via seu
corpo ali, deitado no terreno baldio, sua pele tão pálida quanto um lençol, sem nenhum
vestígio do garoto que um dia esteve no montinho em Koshien dentro daqueles olhos
vidrados. Aquilo era o ponto final de um homem que me dera coragem para enfrentar os
valentões, o cara que havia liderado a nossa fraca equipe de beisebol da escola até os
nacionais, depois se machucou e perdeu tudo. O mesmo homem que, nos últimos anos de
sua vida curta, havia chegado tão baixo a ponto de bater e roubar dinheiro da própria irmã.
Eu já não sabia mais se tínhamos feito a coisa certa. Me perguntava se Akari já tinha
repensado sua decisão ou se ela se arrependeria no futuro próximo. Graças ao fenômeno
de Rollback, eu já tinha memórias de tudo o que aconteceria nos próximos cinco dias, até às
18h do dia 6 de abril. Como se estivesse seguindo uma trilha de migalhas, eu refazia minhas
memórias em busca de qualquer indício de que Akari se arrependeria dessa decisão nos
próximos dias.
Na quinta-feira, achei que estava enlouquecendo até falar com ela no velório de Akito.
Então eu me lembrei de algo mais. Algo que o futuro dela me disse naquele dia, antes de o
primeiro Rollback ocorrer:
Será que ela realmente quis dizer isso, ou estava apenas dizendo para acompanhar a farsa?
Não podia afirmar com certeza, mas me lembrei de ela ter dito algo logo depois: "Eu confio
no seu julgamento. Então, por favor... cuide de mim do passado, tá?" Isso me fez pensar que
Akari poderia estar repensando a decisão naquele momento, como se sentisse que
havíamos feito a escolha errada. Isso explicaria por que ela disse que o resto estava em
minhas mãos e que me confiava a decisão.
Eu me sentei lentamente na cama e olhei para o lado, onde Akari ainda dormia
tranquilamente, como uma criança. Me perdoe, Akari, sussurrei enquanto saia
silenciosamente debaixo do cobertor. Quando me levantei, vi que o relógio de cabeceira ao
lado dela marcava 1h da manhã. Virei-me, andei na ponta dos pés até a porta, girei a
maçaneta e dei uma última olhada para Akari antes de sair do quarto. Colocando meus
sapatos na entrada, deixei o apartamento, desci as escadas e corri em direção ao terreno
baldio, a toda velocidade. As chances eram altas de que Akito já estivesse lá, deitado de
bruços no chão.
Pedia desculpas a ela repetidamente enquanto corria pelas ruas. Eu sabia que estava
gritando sem sentido no vazio, mas me sentia tão mal por traí-la que não conseguia
controlar. Me perdoe, Akari. Eu simplesmente não posso fazer isso. Não consigo ficar parado
e deixar um homem morrer. Akito era uma pessoa ruim, com certeza, e eu nunca
conseguiria perdoá-lo por tudo o que fez à irmã. Eu o achava totalmente detestável no
estado em que estava. Mesmo assim, isso não significava que ele merecia morrer. Eu não
podia ficar parado e ver um homem com toda uma vida pela frente morrer e justificar isso
com grandes erros que ele cometeu.
Eu nunca deveria ter deixado minha determinação de salvá-lo vacilar. Então, eu não teria
quebrado nenhuma promessa. Eu fui um completo idiota. Um covarde sem coragem, que
sempre optava pela saída mais fácil. As coisas nunca teriam chegado a esse ponto se não
fosse por mim e pelas minhas escolhas estúpidas.
Me sinto péssimo por ter que fazer isso com ela, mas eu precisava salvar Akito. Eu precisava
acreditar que ainda havia uma forma de encontrarmos um final feliz para tudo isso, um final
onde ninguém precisasse morrer.
Cheguei ao terreno baldio e atravessei a grama alta em tempo recorde. Não demorou muito
para eu avistar a silhueta dele deitado de bruços no chão.
— Akito!
Seu rosto já estava pálido como a morte, e eu percebi que sua chama estava se apagando
rapidamente. Me ajoelhei ao lado dele e observei seu peito. Os movimentos eram
extremamente fracos, mas ele ainda estava respirando. Liguei para o 119 e expliquei a
situação de forma desesperada para o operador. Os paramédicos do corpo de bombeiros da
ilha chegariam a qualquer momento, então agora só precisava esperar.
— Você está brincando comigo! — gritei enquanto sacudia o corpo de Akito. — Ei, acorda!
Não morre agora, caramba!
Nenhuma resposta. Virei-o de costas para fazer a ressuscitação, ou pelo menos o que
lembrava de como nos ensinaram a fazer isso nas aulas de educação física. Não tinha
certeza se estava fazendo todos os passos corretamente. Comecei a comprimir seu peito de
forma constante e rezei para que desse certo.
— Vamos! Vive, caramba! Acorda e responde pelo que fez! Você ainda pode mudar a sua
vida, eu sei que pode! Eu juro, se você morrer agora, vou te espancar!
Xinguei-o enquanto continuava a apertar seu peito até que a ambulância pequena chegou e
dois paramédicos saíram. Um assumiu o meu lugar enquanto o outro me fazia várias
perguntas.
— Sim, somos amigos — menti, pensando que seria mais simples assim. — Akito… Desculpa,
meu amigo aqui estava bebendo até umas duas horas atrás. Ele parou de respirar uns
minutos antes de vocês chegarem.
— Ok, entendi — ele assentiu. — Gostaríamos de fazer mais algumas perguntas sobre o que
aconteceu. Você se importaria de ir conosco?
Entrei na ambulância depois que eles colocaram Akito nela e partimos em direção ao porto.
A clínica médica da ilha não poderia tratá-lo naquele horário, então tivemos que levar a
ambulância para uma embarcação de transporte de emergência e cruzar até o continente, o
que levou cerca de vinte minutos. De lá, ainda foram mais vinte minutos de carro até o
hospital mais próximo. Felizmente, conseguiram fazer Akito voltar a respirar durante o
trajeto, usando procedimentos básicos de primeiros socorros. Ele ainda não havia
recobrado a consciência, mas parecia que ele iria sobreviver.
Quando chegamos ao hospital, Akito foi rapidamente levado para a sala de emergência. Tive
que contar para a equipe médica tudo o que já tinha dito para os paramédicos, mas aí
minhas obrigações como amigo da vítima estavam cumpridas. Me sentei em um dos sofás
na recepção e olhei para o teto. Consegui evitar a morte de Akito, o que significava que eu
tinha mudado tanto o passado quanto o futuro para melhor.
Senti uma dor nas costas dos meus olhos quando fechei os olhos; provavelmente o
resultado de toda a fadiga acumulada. Pena que não podia descansar ainda. Havia coisas
que eu precisava fazer. Primeiramente, eu precisava entrar em contato com Akari. Ela
provavelmente ainda estava dormindo, então decidi que mandar uma mensagem seria o
melhor. Abri o aplicativo de mensagens no celular, desci até o nome dela, então congelei.
Não conseguia me convencer a escrever nada. Não fazia ideia de como contar para ela que
eu tinha mudado de ideia e ido salvar a vida de Akito, então meus dedos ficaram flutuando
inutilmente sobre o teclado por um tempo. Quando finalmente consegui escrever algo,
apaguei, recomecei e repeti o processo várias vezes. Passei cerca de duas horas sentado na
recepção, tentando achar a melhor forma de dizer a mesma coisa, até que, no fim, mandei
uma simples mensagem: "Ei, precisamos conversar. Me avisa quando estiver acordada." E
mandei antes que eu pudesse pensar duas vezes. Algo me dizia que essa era uma conversa
que não deveríamos ter por mensagem.
Acabei tirando um cochilo na sala de espera do hospital até umas 6 da manhã. A equipe não
iria me deixar voltar para a ilha na ambulância ou no barco de emergência, então eu tive
que caminhar até um caixa eletrônico de uma loja de conveniência próxima e usar meu
celular para sacar algum dinheiro, depois peguei um táxi até o porto. Foi uma corrida um
pouco cara para um estudante desempregado como eu, mas teria levado mais de uma hora
para chegar lá a pé. Isso não seria possível, considerando a pouca energia que ainda tinha.
Quando chegamos ao porto, paguei a corrida e saí do carro.
Felizmente, cheguei bem na hora em que a balsa de Sodeshima estava chegando aos cais.
Fiquei na ponta do cais, esperando pacientemente enquanto todos os passageiros da ilha
desembarcavam, quando percebi que a mãe da Akari estava entre eles. Ela provavelmente
tinha recebido uma ligação do hospital e estava a caminho. Ela não parecia me notar, pois
passou apressada até o primeiro táxi que estava parado na estrada e entrou. Eu só a vi de
longe, mas ela parecia aflita. Não sabia como ela se sentiria sobre as recentes mudanças na
personalidade de Akito, mas, no final das contas, ele era seu filho. Que mãe conseguiria
manter a compostura ao ouvir que seu filho estava no hospital? O táxi dela virou a esquina
e eu me virei em direção à bilheteira.
Logo depois de embarcar na balsa, ele partiu de volta para Sodeshima. Me sentei na área
principal de passageiros e verifiquei meu celular. Era meia hora para às 6 e ainda nada de
resposta da Akari. Ela provavelmente ainda estava dormindo ou estava deliberadamente não
respondendo… De qualquer forma, provavelmente seria mais rápido ir direto para a casa
dela assim que chegasse em Sodeshima. Eu não sabia como dar a notícia, mas tinha que
admitir que quebrei minha promessa com ela, de uma forma ou de outra. Me preparei
mentalmente para isso enquanto a balsa atracava no porto.
— Tá tranquilo. Não precisa pedir desculpas. Quer dizer, não foi como se você tivesse feito
algo de errado, né?
— Ah, é isso que tá te preocupando? Não precisa. Eu que não estava pensando direito — ela
disse, rindo de si mesma de forma irônica. — Querer que você fosse cúmplice da morte do
meu próprio irmão? O que eu sou, uma psicopata? Não consigo acreditar que falei isso. Eu
devo ser mais fria do que eu pensava...
O sorriso divertido não sumiu do rosto dela, mas, do nada, lágrimas gordas começaram a
escorrer pelos cantos dos seus olhos.
—Akari...! — eu gritei, estendendo a mão em sua direção desesperadamente — mas ela bateu
a porta na minha cara. Um momento depois, ouvi o som da chave girando no trinco.
— Desculpa, eu só... preciso ficar sozinha agora — eu ouvi ela sussurrar de dentro do
apartamento. Eu encostei a orelha na porta e tentei falar com ela.
— Não, escuta, Akari! Eu sei que talvez você não acredite agora, mas no futuro, foi você
quem me disse para—
Eu parei. E se ela acreditasse em mim? Saber que ela se arrependeria de suas ações na linha
do tempo onde Akito tivesse morrido não era um consolo. Além disso, aquele
arrependimento era uma suposição minha. Fiquei ali, incapaz de formar sequer uma frase
de consolo, enquanto Akari chorava suavemente do outro lado da porta.
Eu mordi com força o lábio inferior. Uma única porta nos separava, e parecia que podia ser
tão impenetrável quanto um muro de concreto.
— Tá bom, eu vou. Mas pode ter certeza que vou voltar. Vou fazer isso por você de qualquer
jeito, eu juro. Nunca mais vou quebrar uma promessa com você.
↺
Tomei um banho quente assim que cheguei na casa da minha avó. O calor abrasante
permeou todo o meu corpo, até os dedos congelados. Lavei o cabelo e o resto do corpo,
depois fiquei embaixo da água quente por um tempo, até me sentir aquecido por dentro. Só
então saí do banheiro, vesti uma roupa nova e desci para a sala. Encontrei a Eri lá, de
pijama, assistindo a TV em uma almofada no chão enquanto comia uma fatia de torrada.
Imagino que ela tenha acordado enquanto eu tomava banho.
Pensando um pouco sobre onde estava cronologicamente, seria justo que a Eri ainda
estivesse incomodada pela nossa briga do dia anterior. Parecia ser isso quando voltei para o
dia 2 de abril na última vez. Mas agora que mudei o futuro, ela provavelmente teria uma
visão diferente. Na última vez, foi ela quem se aproximou primeiro, mas agora eu decidi
quebrar o gelo.
— Ei, desculpa pelo que aconteceu ontem — eu pedi desculpas. — Eu cometi alguns erros e
disse coisas que não devia. Foi bem imaturo da minha parte.
Eri deu uma grande mordida na torrada, mastigou bem e engoliu antes de me responder.
Seus olhos não saíram da TV, claro.
— Eu acho.
Não foi o momento mais emocional de todos, mas pelo menos enterramos o machado de
guerra. Eu me sentei em outra almofada no chão, apoiei o cotovelo na mesa de jantar
baixinha e, casualmente, mudei de assunto.
— Então, o que você diria se eu te contasse que vou sair da escola e voltar para cá, para
Sodeshima? — eu perguntei.
Eri largou a torrada no prato — com a manteiga virada para cima, felizmente — e então se
virou para me encarar. Seus olhos estavam arregalados de surpresa.
— Não é por causa daquelas coisas horríveis que eu disse ontem, né? — A expressão dela
ficou tão séria que quase dei uma risada.
Meus motivos eram bem mais egoístas do que isso; essa era a única maneira que eu
encontrava de compensar a Akari. Se o Akito voltasse a ser como antes depois de sair do
hospital, o que era bem possível, eu não poderia arriscar deixá-la sozinha com ele de novo.
Eu fui quem quebrou a promessa e salvou a vida dele, e embora eu não me arrependesse da
escolha, ainda precisava assumir a responsabilidade por isso. Então, eu largaria a escola de
Tóquio e ficaria aqui com ela, em Sodeshima. Sacrificar uma parte da minha carreira escolar
era um pequeno preço a pagar para ver ela sorrir de novo.
— Se você diz — Eri disse, obviamente ainda um pouco preocupada. — Bem, para responder
sua pergunta, acho que o nosso pai vagabundo vai ficar furioso... mas aposto que a vovó vai
adorar ter você de volta aqui com a gente.
— E você?
— Eu... não sei. Mas... ter alguém por aqui para limpar a banheira, para não ser sempre eu,
pode ser meio legal, acho.
É, eu acho que era. Ela sempre reclamava se sobrava até um cabelo solto na hora de tomar
banho.
— Bem, se limpar a banheira é tudo o que eu preciso fazer para ganhar o meu sustento,
acho que não é um trabalho tão ruim assim.
— Estou sim.
Eu não poderia contar para a Eri sobre tudo o que passei essa última semana. Em vez disso,
me levantei para deixar claro que a conversa havia terminado. Me virei para subir de volta
para o meu quarto, foi quando a Eri me chamou.
— E-Espere, oni-chan!
Me virei rápido, surpreso. Ela sempre me chamava assim quando eu morava aqui, mas não
usava esse termo nem uma vez essa semana. Claro, agora que ela estava no ensino
fundamental, soava meio infantil, mas era bom ouvir. Como se ela finalmente estivesse
começando a se abrir comigo novamente.
— Hum — ela gaguejou — se você precisar de alguém para conversar ou algo assim, eu tô
sempre aqui. Não quero ser curiosa, mas... não é saudável ficar engolindo tudo, e..
O rosto dela estava o mais sério possível enquanto ela me olhava do chão. Que garota doce,
pensei. A oferta gentil dela me deu um pequeno alívio.
— Obrigado pela oferta, mas acho que isso é algo que eu tenho que resolver sozinho.
Desculpa — me desculpei, antes de virar e sair da sala.
Caí na cama, exausto. Quase não dormi na noite passada, mas não me sentia
particularmente cansado. Talvez o banho quente tenha me despertado um pouco, ou talvez
eu estivesse só preocupado demais com a Akari. Sim, provavelmente a segunda opção. Toda
vez que lembrava da expressão arrasada dela pela fresta da porta do apartamento, era
como se alguém estivesse cravando uma estaca no meu peito. Comecei a me questionar se
tinha feito a escolha certa depois de tudo.
Lá estava eu, lutando com o mesmo dilema novamente. Teria sido melhor se eu não tivesse
salvo o Akito? Soltei um suspiro profundo e pesado de arrependimento.
— Cara, preciso colocar a minha cabeça no lugar — falei para mim mesmo, batendo as mãos
nas bochechas para tentar tirar aquele pessimismo da minha cabeça. Já era tarde demais
para ter dúvidas agora; o estrago já estava feito, e agora era minha responsabilidade
consertar as coisas para que a Akari fosse feliz de novo. Simples assim, não precisava
complicar. Daqui em diante, eu iria priorizar o que fosse melhor para ela.
↺
A calma manhã de primavera passou rápido, como uma chuva leve que some antes de você
perceber que chegou. No instante seguinte, já era meio da tarde. Eu já tinha tentado
procurar a Akari, mas ela ainda se recusava a me ver. Ouvi as palavras "vai embora" vindo do
outro lado da porta, e depois disso, só silêncio. Liguei e mandei mensagens também, mas
sem sucesso. Comecei a me perguntar se eu teria que tomar medidas mais drásticas, tipo
acampar na frente do apartamento dela ou tentar invadir… mas nenhuma das duas parecia
uma boa ideia. Era mais provável que isso só a magoasse ainda mais e prolongasse a
recuperação dela desnecessariamente. Mesmo assim, me sentia desconfortável deixando
ela sozinha com os próprios pensamentos agora…
Olhei para o relógio da parede. Eram 3 da tarde. O ideal seria tentar melhorar a minha
relação com a Akari um pouco antes do próximo Rollback, que aconteceria em três horas.
Eu achava que aquele seria o último, já que daí eu teria preenchido todo o espaço de
noventa e seis horas que havia ficado em branco na minha memória. Perguntei-me então se
eu voltaria para às 18h do dia 6 de abril, quando a Akari me explicou sobre o Rollback, já que
aquele era o ponto mais distante da linha do tempo que eu já tinha vivenciado. Mas,
pensando bem, essa linha do tempo também estava quebrada agora que eu salvei a vida do
Akito… então talvez todas as apostas estivessem perdidas. Talvez não houvesse outro
Rollback. Ou talvez minha consciência ficasse repetindo esses quatro dias para sempre,
meu corpo nunca envelhecendo mais que dezessete anos enquanto eu enlouquecia aos
poucos. Isso sim era uma ideia aterrorizante.
Depois de dar calafrios a mim mesmo, achei que era melhor não ficar me aprofundando em
questões para as quais não tinha respostas. Daqui a pouco seriam 6 horas, e então eu
descobriria por mim mesmo… gostando ou não. Mesmo assim, como eu não fazia ideia do
que poderia acontecer, estava ainda mais claro que eu deveria conversar com a Akari
enquanto tivesse a chance. Decidi ir tentar falar com ela mais uma vez — mas teria que ser
rápido.
Assim que me levantei da cama para me apressar, senti meu celular vibrar perto do
travesseiro. Alguém tinha me mandado uma mensagem. Peguei o celular e olhei para a tela.
Era da Akari. As palavras que ela escreveu, no entanto, fizeram meu coração afundar até o
estômago. Um momento depois, minha boca ficou seca como um deserto e comecei a suar
frio. Tentei ligar para ela, as mãos tremendo, mas não consegui. A voz robótica da caixa
postal dizia que ela estava fora de área ou com o telefone desligado. Me levantei e desci as
escadas tão rápido que foi um milagre eu não ter tropeçado e caído, então saí pela porta da
frente como uma bala disparada. Não havia tempo para explicar a situação, então peguei a
bicicleta da Eri sem permissão e pedalei na direção do prédio da Akari, indo o mais rápido
que minhas pernas conseguiam. Eu tinha um pressentimento muito ruim sobre isso; se eu
tivesse interpretado corretamente a mensagem dela, então era vital que eu chegasse até ela
o mais rápido possível.
Como pude ser tão estúpido e inútil? Passei várias horas jogado na cama, falando um monte
de bobagens sobre como eu ia consertar tudo com ela, enquanto ela já estava afundando na
pior depressão de toda a sua vida. Sozinha, e eu nem sequer estava por perto. Quem diabos
eu pensei que era?
Pedalei com tanta força que os pedais quase saíram voando, e a corrente fazia um barulho
metálico, como se fosse se romper a qualquer momento. Continuei, mesmo assim, girando
os raios da bicicleta o mais rápido que pude até o complexo de apartamentos da Akari, onde
freiei bruscamente e larguei a bicicleta no estacionamento. Corri escada acima e toquei a
campainha dela. Nada. Tentei girar a maçaneta e percebi que a porta estava destrancada.
Entrei no corredor e abri a primeira porta à esquerda. Akari não estava lá. O quarto dela
parecia muito mais arrumado do que me lembrava da noite anterior. Todos os livros que
estavam espalhados sobre sua mesa agora estavam organizados na estante.
Uma única folha dobrada de papel de caderno estava em cima da mesa. Peguei e a abri. Era
uma carta manuscrita na qual Akari agradecia à mãe por tudo o que ela tinha feito por ela.
Não havia assinatura no final, apenas as palavras "Espero que um dia você possa me perdoar".
Meu pressentimento estava quase confirmado neste momento.
— Merda, não...!
Deixei a carta de volta no lugar e gritei o nome de Akari enquanto procurava pelo restante
do apartamento. Verifiquei a sala, a cozinha, o banheiro e até a varanda dos fundos, mas ela
não estava em nenhum lugar. Claramente, ela havia saído de casa, mas para onde teria ido?
Engoli em seco, finalmente não tendo outra escolha senão enfrentar a palavra que vinha
tentando evitar o tempo todo: suicídio. Se Akari fosse tentar suicídio de verdade, onde ela
faria isso? Acho que dependeria do método escolhido. Afogamento seria provavelmente a
opção mais fácil, já que o mar estava bem ali perto, mas ela também poderia planejar pular
de um prédio alto, se jogar na frente de um trem ou se enforcar... embora nenhuma dessas
opções ajudasse muito a diminuir suas possíveis localizações. Merda, eu não tenho nada. Ela
pode nem estar mais na ilha, por que eu não sei.
Pensei se deveria chamar as autoridades. O que eu diria? Que eu suspeitava que uma amiga
estava prestes a cometer suicídio, mas não sabia onde ou como? Eles poderiam fazer algo
com essa informação? Eu não sabia, mas valia a pena tentar. Tirei o celular do bolso e
comecei a pressionar os botões, enquanto tentava lembrar de algum indício dos últimos
dias que passei com Akari. Tentei desfazer cada nó que restava na minha mente.
De repente, vi algo brilhando no fundo do meu abismo mental, como uma pepita de ouro
enterrada na lama. Meu instinto me dizia que essa pista não podia ser ignorada, então
coloquei o celular de lado e tentei me concentrar nela. Fechei os olhos e concentrei minha
energia mental em trazer à tona o que quer que estivesse nas profundezas do meu cérebro.
O tempo parecia se arrastar... e então ouvi um eco da voz da Akari.
Meus olhos se abriram de repente. Pode ser lá que ela esteja? Atendia aos critérios;
teoricamente, ela poderia tentar se matar lá. Não tinha tempo para pensar duas vezes. Sai
correndo do apartamento, peguei a bicicleta da Eri do chão e pedalei em direção ao colégio
Sodeshima. Pedalei o mais rápido que pude, ofegante e subindo as ruas íngremes. Senti o
suor escorrendo do meu queixo nas manoplas da bicicleta. Quando cheguei na última
subida até o campus, troquei para a marcha mais baixa e tentei subir, mas então ouvi um
estalo alto, e os pedais começaram a girar sem resistência enquanto a bicicleta perdia toda
a tração. Sem conseguir manter o equilíbrio, caí com tudo no asfalto.
— Ahhh...
Fiz uma careta de dor ao olhar para a bicicleta caída. A corrente tinha se rompido.
Comecei a subir a colina a pé, deixando a bicicleta onde ela havia caído. Minha garganta
estava tão dolorida que eu temia que fosse se abrir, e meu coração batia tão forte que eu
podia ouvir o som dele nos meus ouvidos. Mas eu não tinha tempo nem direito de
desacelerar. Eu suportaria qualquer dano físico, permanente ou não, se isso significasse a
diferença entre Akari cometer suicídio ou não.
Finalmente, cheguei à colégio Sodeshima. Os portões estavam abertos, mas não vi ninguém
no campo de esportes. Quanto a saber se havia alguém no telhado... era impossível dizer de
onde eu estava. Corri até a pista de atletismo e entrei pela entrada principal. Eu sabia que,
se algum membro do colégio me visse, seria expulso, mas não havia tempo para tentar me
misturar e passar despercebido.
Corri pelas escadas, rezando internamente para que meu pressentimento estivesse certo.
E, de fato, quando cheguei ao último andar, encontrei o cadeado da porta jogado no chão,
junto com dois grampos de cabelo achatados. Meu pressentimento agora era certeza. Ela
estava ali.
Eu abri a porta com força e saí para o terraço. Um vento forte tentou me derrubar, e eu
precisei apertar os olhos por causa do brilho do sol poente. Então eu vi. Uma figura estava
além da cerca protetora que percorria o perímetro do telhado, inclinando-se para fora da
borda. A pessoa usava o uniforme da escola Sodeshima, com a saia balançando ao vento.
Era ela.
Cheguei no último minuto, mas ainda estava muito cedo para respirar aliviado. As mãos
dela ainda estavam agarradas no corrimão de metal atrás dela, mas parecia que ela poderia
soltá-las e pular a qualquer momento. Eu não queria assustá-la ou provocá-la de forma
alguma, então chamei seu nome com uma voz calma e controlada.
— Akari.
— K-Kanae-kun? Mas... como você sabia que eu estaria aqui...? — Eu respirei fundo antes de
responder.
— Nada disso. É o seu lugar favorito na ilha, não é? Você até fez questão de me trazer aqui
uma noite para me mostrar.
— Deixa eu ver... Foi na noite do dia 4, então... dois dias a partir de agora, eu acho?
Eu senti um arrepio. A dor na voz dela me atingiu como uma faca no peito. Engoli em seco e
então fiz a pergunta para a qual eu tinha vindo até aqui.
— Estou.
— A culpa é minha?
Ela deu um leve sorriso. Não confirmou nem negou minha suposição.
— Estou... cansada, Kanae-kun. Cansada de tudo — ela disse, sua voz calma e lenta. — Quero
dizer, eu trabalhei tanto para tentar entrar na mesma faculdade que você. Cada dia, eu me
esforço mais do que no anterior. Fico acordada até tarde todas as noites, estudando até
literalmente não conseguir mais manter os olhos abertos. Nado tantas voltas até ficar tão
exausta que vomito. Continuo trabalhando no mesmo emprego, mesmo que meus
supervisores me façam chorar praticamente todos os dias... É como se eu estivesse vivendo
no inferno, Kanae-kun. E, além de tudo, meu irmão tem me assediado e me tratado como
uma escrava. A única vez que tentei me defender, ele me empurrou e quebrou um osso da
minha lombar, para que eu não pudesse nadar. E quando ele roubou todo o dinheiro que eu
estava economizando há tanto tempo, eu pensei que minha vida tinha acabado para
sempre. Não havia como eu me recuperar disso. Mas mesmo assim, eu não queria morrer,
porque você voltou para mim. Porque, quando eu te chamei no meu momento de
necessidade, você correu para me salvar. E... porque, mesmo quando fiz o pedido mais
egoísta possível, você ainda me ouviu. Mas, no final, você quebrou essa promessa e
escolheu meu irmão ao invés de mim.
A dor na voz da Akari era palpável, mas eu não tinha uma resposta para ela. Tudo o que eu
podia fazer era ficar ali, cerrando os punhos, até que ela terminasse de falar. Então,
finalmente, ofereci algumas palavras em resposta.
— Você não está errada — eu disse, escolhendo as palavras com muito cuidado. — Eu
quebrei minha promessa com você, e eu salvei o Akito contra a sua vontade. Mas... isso não
significa que eu escolhi ele em vez de você, ou que fiz isso especificamente para te magoar
ou algo assim. Eu não te odeio, Akari. Na verdade, se tem algo... eu—
— Sabe o que mais me machucou, porém? — ela me interrompeu — embora com certeza
não tenha parecido uma interrupção do ponto de vista dela. Eu estava certo de que ela nem
sequer estava me ouvindo mais. — Não foi ter o meu dinheiro roubado, ou você ter
quebrado a sua promessa, ou algo assim.
— Foi a realização... de quão horrível eu realmente sou, lá no fundo. Quero dizer, eu escolhi
deliberadamente ficar parada e não fazer nada enquanto meu irmão estava morrendo, para
depois virar de volta, ir para casa e me enroscar na cama com o garoto de quem eu gosto.
Se isso não me faz uma psicopata, eu não sei o que faz.
— Sou sim — ela respondeu, sua voz trêmula. — Você fez a escolha certa, Kanae-kun. Não
posso te culpar por isso. Sou eu quem está louca. Por isso... eu deveria simplesmente me
matar e poupar todo mundo da miséria de ter que viver comigo.
Ela olhou para mim novamente. Seus olhos agora refletiam um brilho inconfundível de
desespero.
— Akari…! — eu gritei, dando um passo à frente para correr até ela.
— Não chegue mais perto! — ela gritou, e eu congelei no lugar. — Me diga uma última coisa,
Kanae-kun: Por que você fez isso? Por que mudou de ideia e me traiu?
Eu parei. Minha boca secou, e o suor frio escorreu pela minha testa. Eu sabia que, se
errasse uma única palavra, Akari correria o risco real de tirar sua própria vida. Umedeceu
minha língua seca com um pouco de saliva fresca e então falei.
— Porque o seu eu do futuro me pediu. Ela me disse explicitamente para salvar o Akito. Ela
até me contou onde e quando ele morreria. Eu não consigo te imaginar fazendo isso, a
menos que você tenha se arrependido de sua decisão de verdade… E, acredite, você não é a
única, Akari. Eu também fiquei decidido a deixá-lo morrer por um tempo, até me lembrar
do que você me disse no futuro. Eu pensei mais profundamente sobre as consequências de
longo prazo disso tudo. Só depois disso eu repensei e decidi que precisava salvar a vida do
Akito, afinal.
Akari não disse uma palavra. Ela ficou em silêncio, me ouvindo enquanto eu continuava.
— Um minuto atrás, você se chamou de pessoa horrível… uma psicopata. Eu discordo. Você
tem um bom coração, Akari, um coração melhor do que qualquer pessoa que eu conheça.
Por isso, eu sabia que você acabaria se arrependendo disso mais cedo ou mais tarde. O fato
de você deixar seu irmão morrer consumiria você pelo resto da sua vida… Mesmo depois
que você se casasse, tivesse filhos e vivesse feliz para sempre com qualquer cara sortudo
que tivesse o prazer de estar com você, isso sempre estaria lá — assombrando um canto
escuro da sua mente. Eu não queria isso para você. Você pode recuperar o dinheiro perdido
e a confiança das pessoas, mas nunca poderá devolver uma vida. Eu não queria que isso
fosse uma sombra no seu futuro.
— Que futuro? — Akari zombou, seu rosto se contorcendo de angústia. — Para de tentar me
convencer como se fosse meu pai... Tudo o que você está fazendo é juntar um monte de
palavras vazias e suposições para tentar me convencer a não pular. Você só está tentando
me impedir de morrer para não se sentir culpado.
— Não é suposição — retruquei. — Akari, eu estive lá. Você literalmente se arrependeu disso
em menos de uma semana.
— Ah é? Cadê a sua prova? Me mostre uma evidência para apoiar essa sua teoria de que eu
não sou podre até o fundo.
Minhas palavras ficaram presas na garganta. Obviamente, eu não tinha como provar algo
que aconteceu em uma linha do tempo agora rompida. Percebendo isso, a expressão da
Akari se fechou, como se ela tivesse perdido a última esperança de que eu pudesse provar
que ela estava errada.
— Viu? Nada além de palavras vazias. Aposto que você nem acredita totalmente no que está
saindo da sua boca. Tipo, você pode honestamente dizer com cem por cento de certeza que
fez a coisa certa?
Ela me conhecia completamente. Eu não sabia mais no que acreditar; fiquei indeciso desde
a noite passada. Será que foi realmente certo salvar o Akito? Eu estava mesmo agindo no
melhor interesse da Akari, ou só estava jogando sal nas feridas dela sem motivo? Será que o eu
do futuro dela realmente se arrependeu do que aconteceu, ou eu só salvei a vida do Akito
porque isso faria eu me sentir melhor? Quanto mais eu refletia, mais eu me consumia com
minhas próprias dúvidas e arrependimentos. Eu não conseguia mais ver nada claramente.
Eu sabia, porém, bem lá no fundo, o que eu precisava fazer. Eu precisava acreditar no
caminho que escolhi, sem deixar que minhas dúvidas me fizessem desistir. Não havia mais
volta.
— Você está certa — admiti. — Tem muitas coisas das quais não tenho certeza... mas uma
coisa eu posso afirmar com certeza: você não deveria morrer aqui. Akari, se você der um
passo para trás dessa borda agora, eu farei qualquer coisa que você pedir. Eu vou sair do
ensino médio e voltar para Sodeshima. Vou encontrar uma forma de recuperar o dinheiro
que o Akito roubou de você. Eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para garantir que
você nunca precise passar por algo assim de novo. Por favor, não acabe com tudo aqui. Eu
preciso de você, Akari.
As palavras dela foram duras e frias, e eu não sabia como contestá-las. O desespero da
Akari estava tão profundo que ela já havia praticamente tomado sua decisão, e nada que eu
dissesse iria convencê-la a mudar de ideia. Ela estava determinada a pular. O impacto de
uma queda dessa altura a mataria. Eu só podia ficar ali, olhando, impotente, enquanto
minha melhor amiga tirava a própria vida. Essa era minha punição por quebrar minha
promessa a ela.
...Não, que se dane isso. Eu não ia desistir ainda. Eu vim até aqui preparado para arriscar
tudo para salvar a Akari. Agora eu precisava provar que não estava falando besteira.
Lentamente, com calma, me aproximei da Akari. Era hora de fazer minha última tentativa.
— Hã?!
Eu pulei sobre a grade para ficar ao lado da Akari na beirada, me posicionando
imediatamente à sua direita. Akari me olhou com um olhar desconfiado, que deixava claro
que ela estava pronta para pular assim que eu fizesse qualquer movimento suspeito. Eu
tomei o cuidado de não fazer movimentos bruscos que pudessem alarmá-la, deixando claro
que não tinha intenção de recuar. Meus pés já estavam praticamente sobre a borda. Um
passo à frente me faria despencar até a morte. Olhar para baixo foi o suficiente para me dar
vertigem; uma onda de adrenalina e medo percorreu todo o meu corpo. Minhas mãos já
estavam suadas contra a fria grade de metal.
— Você sabe, quando chega no fim das contas — comecei, olhando para o céu profundo e
magenta — isso tudo é realmente minha culpa. Quer dizer, tudo isso poderia ter sido
evitado se eu não tivesse te contado sobre a morte do Akito ou sobre o Rollback. Aí você
não teria ficado cúmplice, não importando a escolha que eu fizesse. Você poderia ter
permanecido ignorante e feliz.
— Nada. Só que eu preciso ser responsabilizado por toda a dor e sofrimento que você está
passando agora, e que só posso me redimir tentando fazer as coisas darem certo de novo.
Se você morrer agora, eu vou ter que viver com essa culpa para sempre.
— Isso mesmo.
Uma rajada de vento passou, fazendo meus cabelos voarem. O cheiro de sal marinho
invadiu minhas narinas. Meu equilíbrio vacilou um pouco; eu segurei a grade ainda mais
forte.
— Você é um verdadeiro idiota, sabia? — ela zombou. Talvez fosse a primeira vez que ela me
insultava e realmente queria dizer isso.
— Pode acreditar, eu sei. Essa última semana deixou bem claro o quão inútil eu realmente
sou.
— Tá tentando me assustar ou algo assim? Só para saber, eu realmente vou pular. Agora. Se
você também for, isso não vai mudar nada.
— Beleza. O que eu estou dizendo é que, se eu não conseguir te convencer de outra forma,
eu prefiro ir junto e acabar com tudo também.
— Só para checar, Kanae-kun: Você realmente acha que ameaçar se matar vai convencer
alguém a desistir de fazer o mesmo?
— Provavelmente não. Como você disse, sou um idiota. Acho que foi o melhor que consegui
pensar.
— Você acha que eu vou acreditar que você vai pular de verdade?
Ela me pegou. Eu estava literalmente tremendo de medo. Eu esperava que ela não notasse.
— N-Não, é... É porque minhas pernas estão cansadas de andar de bicicleta até aqui,
subindo aquela ladeira.
— Ah, é por isso? Então por que sua voz está tremendo também?
— Quer dizer, está frio aqui fora. Você sentiu aquela brisa que passou?
— As pessoas suam quando estão com calor, Akari. Isso se chama homeostase.
Não dava para negar. O pensamento de realmente dar aquele passo e cair até a morte me
aterrorizava. Claro, pode ser uma morte instantânea e sem dor, mas o pensamento de ver
meu sangue e tripas espalhados pelo asfalto me dava náuseas, e imaginar como o mundo
seguiria sem mim me fazia querer chorar. O medo da minha própria morte me consumia.
Não era isso o mais natural?
— Acontece que tem algo que eu tenho ainda mais medo — continuei, ajustando minha
pegada na grade. — E isso é o pensamento de perder você, Akari. Isso sim me assusta, muito
mais do que minha própria morte poderia. Eu sei muito bem que não conseguiria continuar
vivendo num mundo sem você. Eu não sou forte o suficiente para isso.
Fiz uma pausa breve após essa leve reprimenda a mim mesmo.
— Você sabe, eu nunca te contei isso, Akari, mas o verdadeiro motivo de eu estar de volta
aqui em Sodeshima agora é porque eu fugi de casa. Meu pai me pegou faltando às aulas de
reforço das férias de primavera e me deu a maior bronca da minha vida. Disse que desejava
nunca ter me trazido de volta para Tóquio. Então eu fui embora. E sim, eu sei que isso
provavelmente parece uma bobagem perto de toda a dor e sofrimento que você está
passando, mas acho que só mostra o quão fraco e covarde eu sou. Quero dizer, se eu fui
capaz de fugir de casa por algo tão trivial assim, o que te faz pensar que eu não iria querer
fugir da vida depois de te perder? Mesmo que você tirasse a minha culpa da equação, eu
não acho que conseguiria lidar com isso.
— Sem ponto. Só estou explicando o quão sério eu sou sobre isso. Se você morrer aqui,
então eu morro também. Simples assim.
Eu não estava blefando. Era exatamente assim que eu estava pensando naquele momento.
Se eu pudesse ter total confiança em alguma coisa, seria na minha habilidade de fugir
quando a situação apertasse. Eu precisava ser honesto com Akari, independentemente de
como ela estava se afundando em sua própria dor e sofrimento. Era a única maneira de
mostrar a ela que isso não era um ato.
— Se você quer tanto que eu viva, por que não me arrasta à força?
— Bem, você acha que isso ia mudar alguma coisa na sua cabeça?
Ela realmente já havia tomado sua decisão. Quais opções eu tinha agora? Como poderia
fazer Akari querer continuar vivendo? Eu tentei com todas as forças fazer a minha mente
funcionar, mas nada veio. Estávamos em um beco sem saída. Pior ainda, quanto mais eu
pensava nisso, morrer começou a parecer a resposta certa para o nosso dilema. Convencer
ela a viver não resolveria magicamente todas as suas dificuldades. Muitos obstáculos ainda
estariam à sua frente. De fato, de uma perspectiva geral, havia muito mais para se lamentar
no mundo do que para se alegrar, e nossa sociedade distorcida costumava recompensar o
mal mais facilmente do que o bem. Como aprendemos no ensino médio, tentar lutar por
seus princípios só colocava um alvo nas suas costas. A vida... não era justa. Akari sabia disso
muito melhor do que eu. A vontade de viver desapareceu de mim de uma só vez. Eu me
virei para encará-la.
— Sim. Pelo menos eu estou — ela respondeu rapidamente, com os olhos firmes e
confiantes.
— Certo então.
Eu peguei a mão direita de Akari.
— Ei, o que...?
— Sim, eu sei.
— Quer saber, seria mentira se eu dissesse que não tenho — Eu admiti depois de pensar um
pouco. — Mas tudo o que eu sempre quis foi envelhecer e morrer com você, então uma de
duas já está boa o suficiente pra mim.
— Entendi — ela disse, então entrelaçou seus dedos frios e delicados com os meus. — Acho
que estamos na mesma página então... Porque eu também não tenho medo de morrer,
desde que seja com você.
Eu não disse uma palavra. Assenti para Akari, e ela assentiu de volta para mim, como se
ambos já tivéssemos feito as pazes e estávamos prontos para dizer adeus ao mundo.
Eu exalei todo o ar dos meus pulmões lentamente. O vento forte que passava sentia-se
agradavelmente revigorante, como se estivesse limpando todo o meu corpo. Respirei
profundamente pelo nariz, e pude sentir o cheiro do mar, junto com o leve aroma de flores
de ameixa. No fundo, eu estava tão assustado de morrer quanto sempre estive. Em algum
lugar lá no fundo, senti uma calma contrastante; eu atribuí isso ao fato de estar segurando a
mão da Akari. Com ela ao meu lado, eu poderia encarar meus medos sem medo. Eu queria
ter a chance de usar essa coragem recém-descoberta para algo que não fosse terminar com
tudo... mas tudo bem. Logo tudo acabaria. Saber que eu não teria mais que me preocupar
com o futuro era, de certa forma, reconfortante. Sentindo-me tão perto de encontrar a paz
quanto podia, fechei os olhos e esperei.
Eu esperei por um bom tempo. Nada aconteceu. A mãozinha da Akari ainda estava
firmemente entrelaçada com a minha. Eu abri os olhos e virei para o lado, só para encontrar
ela com a cabeça baixa, seus ombros tremendo.
— Akari...?
Um som finalmente ficou claro. Chorando. Akari estava chorando e eu nem percebi.
— Não é justo — ela soluçou através das lágrimas. — Por que você teve que fazer isso
comigo, Kanae-kun...? Como é que eu vou morrer quando você fala essas coisas...? Eu não
consigo... eu não consigo...
Eu quase caí de joelhos naquele momento. As palavras eu não consigo me atingiram como
uma onda de alívio. Toda a tensão que estava acumulada dentro de mim começou a
desaparecer, e minhas pernas ficaram bambas. Graças a Deus. Akari escolheu viver. Eu
fiquei tão feliz que quase comecei a chorar também.
Akari obedeceu, jogando a perna sobre a grade enquanto chorava. Quando ambos os pés
dela estavam de volta no chão firme, eu virei e também subi na grade. Justo nesse
momento, uma rajada de vento forte me derrubou. Merda. Eu tentei desesperadamente me
agarrar a tudo o que estava ao meu alcance, mas minhas mãos estavam escorregadias de
tanto suor. Meu corpo balançou para trás, e meu estômago afundou.
Eu vou cair.
Tudo parecia acontecer em câmera lenta. O corrimão se afastava diante de mim, enquanto
os céus acima se expandiam diante dos meus olhos com um tremendo sopro. Meu corpo se
curvava ainda mais para trás, selando a realização de que eu estava prestes a morrer,
enquanto isso acontecia. Estranhamente, não senti nem um pingo de medo. Talvez fosse
porque eu já tinha me preparado mentalmente para morrer há pouco, ou talvez porque me
sentisse satisfeito por ter alcançado meu objetivo de salvar a vida da Akari. De qualquer
forma, tudo o que senti naquele momento foi que, se o universo decidisse me matar ali, que
assim fosse. Eu fiz o que vim fazer, então o destino poderia levar minha vida estúpida.
— Kanae-kun!
Antes que eu tivesse qualquer chance de agradecê-la, ela me envolveu com os braços por
baixo e me puxou para perto. Eu estava agora, literalmente, em cima dela. Sentia o
batimento do coração dela pulsando contra o meu peito.
— Oh, graças a Deus... Eu estava com tanto medo de você cair… — ela soluçou entre
lágrimas, com a respiração quente contra minha orelha.
Graças a Deus estava certo. Ambos ainda estávamos ali, respirando, depois de um
quase-suicídio e um quase-acidente fatal. Para mim, isso era nada menos que um milagre.
Como eu não poderia ficar radiante com isso?
— Ei, Kanae-kun...? — ela sussurrou em meu ouvido. — Lembra o que você me disse mais
cedo? Sobre como você nunca mais vai quebrar uma promessa para mim... Você realmente
quis dizer isso?
— Cem por cento. Nunca mais vou trair sua confiança. Eu juro.
— Então... Veja, tem uma coisinha que eu quero que você me prometa.
Akari se afastou de mim. Ambos nos sentamos, olhando diretamente um para o outro. Eu
desci o olhar dos seus olhos ensopados de lágrimas para seus lábios trêmulos.
— Oh, pode deixar — eu disse, e a envolvi apertado em meus braços. Akari me abraçou de
volta, e ficamos ali, nos abraçando, enquanto a melodia suave de Greensleeves ecoava pela
ilha. Já eram seis horas. Me preparei para o pior — mas mesmo depois que o som se foi, o
Rollback não ocorreu. O tempo voltou à sua ordem correta, e pela primeira vez em muito
tempo, eu estava vivendo no presente novamente. O futuro que aguardava Akari e eu era
um total enigma, mas um que enfrentaríamos juntos, de mãos dadas.
↺
Agora era 3 de abril, o dia seguinte à tentativa de suicídio da Akari na colégio Sodeshima.
Naquela tarde ensolarada, eu segui para o Porto de Sodeshima. Os raios de sol no meu
rosto anunciavam o início da primavera, prometendo que o espectro do inverno logo
desapareceria dos últimos cantos sombrios que ainda lhe davam abrigo.
Na verdade, este era o segundo dia 3 de abril do meu décimo sétimo ano de vida. Desta vez,
eu pretendia ir mais devagar do que da última vez. Nada aconteceu às 18h ontem, o que me
fez acreditar que o Rollback havia acabado. Embora eu nunca tenha entendido
completamente seus mecanismos ou o que o disparava, o horário das 18h era uma regra
rígida ao longo do fenômeno. Eu me sentia seguro em supor que o fenômeno realmente
tinha terminado.
Isso não significava que eu estava totalmente livre de suas garras. Eu sabia disso. Mesmo
assim, achei que não era saudável viver com medo constante de falhas temporais
sobrenaturais; eu cruzaria a próxima ponte se e quando chegasse a ela. Não era como se eu
pudesse fazer muito para impedi-la, então por que me estressar enquanto isso?
— Uau, você chegou cedo — eu disse ao me aproximar. Ela olhou para cima, me encarando.
— É, desculpa. Eu fiquei inquieta a manhã inteira — ela disse, mexendo os dedos perto do
umbigo. Um fragmento de escuridão ainda persistia em sua expressão, mas não senti
aquela instabilidade de quando estávamos no telhado ontem.
— Bom, não se force — eu disse. — Se ficar demais para você, podemos sempre desistir e
voltar para casa.
— Eu acho que vou ficar bem. Principalmente porque você está vindo comigo... E eu vou ter
que enfrentá-lo mais cedo ou mais tarde.
A voz da Akari estava tensa, misturando medo e receio, ou talvez uma combinação dos dois.
Estávamos indo visitar Akito no hospital em que ele estava internado no continente. Foi
ideia da Akari. Ela me ligou esta manhã e disse que não poderia evitar isso para sempre se
quisesse continuar vivendo. Achei que essa fosse uma maneira madura de ver as coisas e
aceitei ir como seu acompanhante. Admito que tinha minhas reservas sobre esse encontro
entre uma vítima e seu abusador, mas eles eram irmãos. Não era como se realmente
pudessem viver o resto de suas vidas sem se falar, pelo menos até Akari se formar no ensino
médio. Suponho que algum tipo de reconciliação fosse necessária.
Deixamos a balsa e pegamos um ônibus que nos levou até o hospital. Depois de fazer o
check-in na recepção, nos deram o número do quarto de Akito. Subimos as escadas,
seguimos pelo corredor, viramos a esquina e, eventualmente, chegamos ao quarto dele.
Enquanto estávamos em frente à porta, olhei de soslaio para Akari. Ela estava pálida e
mordendo o lábio com uma expressão de preocupação. Suas mãos tremiam ligeiramente.
Quando percebeu o meu olhar, no entanto, ela se virou para mim com um sorriso forçado.
— Ah, ah, ah... Desculpa, acho que estou mais nervosa do que pensei.
Segurei a mão dela com firmeza. Akari se assustou momentaneamente, mas logo apertou
minha mão de volta. Ela respirou fundo, bateu levemente na porta e a abriu sem esperar
resposta; era um quarto compartilhado, com outros pacientes, então ela não deve ter
achado necessário esperar. A cama de Akito estava do lado direito, perto da janela.
Continuando de mãos dadas, entramos e atravessamos o quarto até a cortina de
privacidade que separava sua cama dos outros pacientes.
Nenhuma resposta veio, mas claramente havia alguém lá dentro. Akari puxou a cortina e
entrou, e eu a segui. Com certeza, Akito estava ali na cama, bem acordado. Ele estava com
uma sonda intravenosa no braço.
— Eu não falei que podiam entrar — Akito zombou, encarando Akari. Ele percebeu que eu
entrei logo após ela, e seus olhos se arregalaram um pouco, surpresos.
— Sou eu — respondi.
— Ouvi da minha velha que foi você quem me encontrou e chamou a ambulância. Valeu
mesmo, cara.
— Não tem problema... Não se preocupe comigo. É dela que você deveria se preocupar.
Fiz um sinal para Akari com os olhos. Ela respirou fundo.
— Sobre o que você fez dois dias atrás... Não, sobre o que você tem feito nos últimos anos.
Todo o assédio, as festas até tarde da noite, o trabalho braçal que me obrigou a fazer, o
dinheiro que roubou... Tudo isso precisa parar. Não quero mais te ver fazendo nenhuma
dessas coisas — ela declarou. Akito parecia visivelmente desconfortável, mas Akari
persistiu. — Eu já contei tudo para o Kanae-kun também.
— Hmph. O que, vocês agora estão namorando? Isso explica por que estão de mãos dadas.
O hospital não é o lugar para ficar exibindo o status de relacionamento de vocês — ele
resmungou com desdém.
Esse foi o ponto de ruptura. A imagem de Akito que eu lutei para manter na minha mente, o
conceito dele como um cara decente, um jogador dedicado, desmoronou de vez. Eu sabia
muito bem que não era possível ele ter esquecido todas as coisas horríveis que fez com
Akari — e, ainda assim, aqui estava ele, não apenas ignorando tudo, mas fazendo piadinhas
às custas dela. Meu sangue começou a ferver. Soltei a mão da Akari, caminhei até a cama de
Akito e olhei para ele de cima.
— Mano, você virou um verdadeiro idiota — eu disse. — O que aconteceu com você?
— Você ouviu o que eu disse. Você é um idiota. Toda essa merda que você fez para
machucar sua irmãzinha e nem um pedido de desculpas? Você realmente se acha no direito
de agir como um completo idiota porque perdeu sua chance de ser um atleta de sucesso?
— Sim, tô, na real. Presta atenção: tenta mexer com a Akari de novo e a coisa não vai acabar
bem pra você, meu chapa. Vou correr até você com uma pedra gigante e atirar na sua
cabeça — igualzinho como você me ensinou a lidar com os valentões.
— Não, quem tem que ouvir é você, babaca... Acho que você não faz ideia de quem está
lidando.
Os olhos de Akito brilharam de raiva. Ele se levantou e tentou agarrar meu colar... mas, por
conta da intoxicação alcoólica ou o fato de que ele não era mais um atleta há anos, o aperto
dele estava fraco. Eu o empurrei sem problemas, fazendo com que ele perdesse o equilíbrio
e caísse da cama do hospital.
— Grgh — ele grunhiu ao cair no chão.
O tubo da sonda intravenosa caiu, e um fio de sangue começou a escorrer pelo braço dele.
Eu não tinha intenção de bater em um paciente de hospital enquanto ele estava caído,
então estendi a mão para ajudá-lo a se levantar. Ele a afastou.
— Não me toca — ele rosnou, ainda de mãos e joelhos, com as unhas arranhando o chão. —
Você e todo mundo estão sempre procurando uma desculpa pra me humilhar... Desde que
tive que largar o beisebol, parece que sou uma grande decepção. É uma merda... Não é
justo, caramba...
Ele levantou a cabeça e olhou para mim com angústia. A expressão dele estava cheia de
ódio, mas eu encontrei algo estranhamente digno de pena nela.
— Você tem ideia de como é? — Ele exigiu. — Ter a única coisa pela qual você dedicou sua
vida arrancada debaixo dos seus pés? Tem ideia?!
— Não, não tenho. Mas tem mais na vida do que beisebol, cara. Nem todo mundo que você
conhece vai te julgar pelo quão bom você era como arremessador.
Estendi a mão de novo, mas ele ignorou e se sentou direito sem ajuda. Não muito depois,
ouvi uma voz feminina na porta anunciando sua chegada. Era uma voz que eu achava
reconhecer. Minha suspeita se confirmou assim que ela abriu a cortina de privacidade.
Com certeza, era a Hayase, segurando duas latas de café precariamente na mão direita. Ela
devia ter chegado antes de nós para visitá-lo.
Ela colocou as latas de café na cama e se agachou para ajudar Akito a se levantar, colocando
o braço dele sobre seus ombros.
— Ah, não fique assim. Você ainda está se recuperando, tudo bem — ela disse, ajudando-o a
voltar para a cama antes de se virar para olhar para nós. — Oi, Akari-chan! Que bom te ver!
E quem é esse seu amigo...?
Ai, eu senti uma fisgada. Já me esqueceu? Então percebi que eu e ela ainda não tínhamos nos
encontrado nessa linha do tempo revisada. Claro. Justo quando eu ia me apresentar, Hayase
soltou um grito curto e agudo.
— Ah, não vai fazer isso não, seu idiota. Temos que dar uma olhada nisso, já — ela disse. Ela
apertou o botão de chamada da enfermeira ao lado do travesseiro dele, enquanto a olhava
desaprovadora. — Eu juro, você sempre foi assim. Teimoso com as coisas mais idiotas. É por
isso que todo mundo acaba se afastando de você mais cedo ou mais tarde.
— Eu me importo. Você precisa aprender a ouvir um bom conselho quando ele é dado, pelo
amor de Deus. Se abre um pouco mais, por que não? Você só está tornando as coisas mais
difíceis para si mesmo se afastando dos outros. O que você acha que teria acontecido se
não tivesse sido sorte de alguém ter te encontrado na outra noite? Isso sequer passou pela
sua cabeça?!
De repente, lágrimas começaram a aparecer nos olhos dela. Akito ficou um pouco
envergonhado com isso.
— Puxa, p-pára… Não é grande coisa. Quer dizer, olha pra mim. Eu tô bem, não tô?
Akito se encolheu. Seus olhos vacilaram desconfortavelmente por um momento, sem saber
o que fazer, mas eventualmente levantou as mãos e coçou a cabeça.
Foi quase imperceptível, mas ele pediu desculpas. Ficamos em silêncio, em choque, ao
redor da cama dele por um tempo, até que a enfermeira que havíamos chamado apareceu
para perguntar como ele estava se sentindo. Ele murmurou algumas respostas relutantes
no começo, até que Hayase deu um tapinha nas costas dele e pediu para ele explicar com
mais detalhes. Incrivelmente, isso foi o suficiente para ele começar a colaborar mais. Eu
estava ali, observando a troca de palavras deles, quando senti Akari me cutucar suavemente
na lateral com os dedos indicadores.
Pelo menos ele estará em boas mãos com a Hayase, pensei comigo mesmo. Akari e eu nos
despedimos brevemente dos dois antes de nos retirarmos do quarto do hospital.
↺
A viagem de volta de barco para Sodeshima estava praticamente vazia; atribuí isso ao fato
de ser no meio de um dia útil. Provavelmente, dava para contar o número de passageiros
com uma mão. Akari e eu sentamos lado a lado bem no meio da área de assentos.
— Por ter ido comigo ao hospital, bobo. E… por ter enfrentado meu irmão.
— Ah, é… Não precisa agradecer. Pena que não consegui arrancar um pedido de desculpas
dele…
O objetivo principal do dia era traçar um limite, afinal — e eu não estava tão confiante de
que havíamos alcançado esse objetivo.
— Bem, isso me deixou feliz, com certeza. Eu nunca conseguiria fazer isso sozinha — ela
disse. Os cantos da boca dela se mexeram ligeiramente para cima. Era apenas uma pequena
pista de um sorriso, mas eu aceitava. Ver ela feliz novamente já era o suficiente de
recompensa para mim.
— Fique à vontade para me avisar se ele te der mais trabalho. Felizmente para você, agora
vou estar bem aqui na esquina.
— Espera, o quê? — ela disse, olhando para mim, confusa. — Você não vai voltar para
Tóquio?
— Não. Eu estou desistindo para poder ficar aqui com você em Sodeshima… Eu já não tinha
te contado isso no telhado, na outra noite?
— Nah, ainda não. Acho que posso ligar para a escola e resolver isso por telefone.
Eu sabia que não seria tão simples na prática. Esperava uma forte resistência, não só do
meu pai, mas também dos meus professores. Ainda assim, estava totalmente preparado
para lutar pelo meu direito de sair da escola.
— Quer dizer, isso só ia dificultar as coisas para você no longo prazo, né? Tipo, o que você
faria depois de voltar para cá?
— Você já está no caminho rápido para uma boa faculdade, Kanae-kun. Não deveria
desperdiçar essa oportunidade. Quer dizer, não me entenda mal, eu realmente aprecio o
gesto, mas eu ficaria péssima se você abrisse mão disso por minha causa.
— Urgh…
Pensando bem, ela tinha razão. Talvez desistir do Ensino Médio fosse muito drástico. Eu
tinha minhas reservas sobre a ideia, claro, mas as dúvidas da Akari me fizeram questionar
se eu deveria simplesmente abandonar isso de vez. Parte de mim se sentia como um
covarde, por fugir de volta para Tóquio sozinho, depois de ter falado tanto no telhado na
outra noite. Como eu ia compensar isso? Enquanto eu ficava ali, me estressando com isso,
Akari me deu um sorriso suave e simples.
— Tá tudo bem, Kanae-kun — ela disse. — Você fica tranquilo e espera por mim em Tóquio,
ok? Eu vou te encontrar assim que me formar.
— Mas e quanto a…
— Eu vou ficar bem. Se alguma coisa ruim acontecer, você será o primeiro a saber. Eu
prometo — ela disse, estendendo a mão e segurando a minha, como uma mãe tentando
tranquilizar uma criança ansiosa. Essa virada na conversa, para preocupação com minhas
necessidades emocionais, fez eu me sentir um perdedor patético. Mas Akari estava certa.
Talvez eu não tenha pensado muito bem no meu plano. Só faltava um ano para ambos nos
formarmos. Se conseguíssemos passar esse próximo ano separados, poderíamos ficar
juntos de novo, mesmo que depois de tanto tempo distantes. Esse pensamento sozinho me
deu força para apertar a mão da Akari de volta.
— Ok — eu disse. — Ainda assim… tenta manter contato, mesmo que tudo esteja indo bem,
ok? Vou te ligar de vez em quando também.
— Claro.
— Não exagera também. Não importa se a sua vida escolar não der certo. Você pode vir
morar comigo mesmo assim, sabe.
Eu sabia muito bem as implicações das palavras que tinham saído da minha boca. Eu
poderia muito bem ter feito uma proposta de casamento. Mas eu não me senti
envergonhado, e não só porque essa era a segunda vez que eu usava exatamente a mesma
frase com ela — mas porque nem era exagero. Eu realmente nos via compartilhando nossas
vidas juntos no futuro.
— Bem, acho que é melhor eu começar a juntar dinheiro de novo, se um dia eu quiser me
mudar para lá — ela disse desanimada.
— Ah, você não precisa se preocupar com a parte financeira disso. Eu já resolvo isso.
— O quê? Não, não, não. Eu não poderia te pedir esse tipo de dinheiro, Kanae.
— Eu não estava oferecendo para te emprestar. Você vai ganhar isso sozinha, e vai ser fácil.
Eu prometo.
↺
O próximo ano passou rapidamente.
Acordei de meu sono tranquilo com o som de passos animados ecoando no piso de madeira
do outro cômodo. Abri os olhos com dificuldade e olhei para o teto branco acima de mim.
Não estava na casa da minha avó em Sodeshima, nem no condomínio do meu pai. Era o
nosso novo apartamento, bem no centro de Tóquio.
Levantei da cama e saí para a sala de estar. Na cozinha, uma figura esbelta com cabelo
castanho até os ombros corria de um lado para o outro, vestida com um cardigã
confortável. Era a Akari, de dezoito anos. Foi só quando ela parou na frente do fogão para
colocar óleo na frigideira que percebeu minha presença e virou-se para me encarar com
um sorriso acolhedor.
— Olha só, você acordou sozinho hoje, oh? Não é sempre assim, né?
— É, acho que sim. Não posso ficar te usando como despertador para sempre.
Fui até a cozinha e ofereci minha ajuda para preparar o café da manhã. Arrumei a mesa com
os hashis, chá e uma pequena tigela de arroz para cada um de nós. Um pouco depois, ela
saiu para se juntar a mim no tapete com dois ovos fritos em uma bandeja pequena.
Sentamos um em frente ao outro e colocamos nosso simples café da manhã sobre nossa
simples mesa de jantar. Juntamos as mãos e, com os respectivos hashis, começamos a
comer.
Já haviam se passado duas semanas desde que Akari e eu começamos a morar juntos.
Enquanto saboreava meu café da manhã, pensei em tudo o que aconteceu no último ano,
desde o fim do fenômeno Rollback. Havia muito a dizer, mas o evento mais marcante tinha
que ser a Akari ganhando na loteria — embora não tenha sido por pura sorte. Eu havia
memorizado aqueles números premiados que procurei durante o Rollback e contei para ela
quais seriam. No início, ela foi bem contra a ideia, comparando com trapaça, mas eu me
esforcei para convencê-la de que não estávamos fazendo nada ilegal, que provavelmente
merecíamos alguma forma de reparação por tudo o que passamos e que, pelo menos assim,
o dinheiro iria para um bom propósito e não seria desperdiçado com luxos desnecessários.
Consegui convencê-la, então, ela relutantemente foi até comprar o bilhete da loteria. Com
isso, todas as nossas necessidades financeiras estavam resolvidas por um bom tempo.
Quanto aos estudos, Akari foi aceita na universidade com base apenas em seu mérito. Ela se
dedicou muito e venceu as preliminares distritais no verão passado, depois fez uma
apresentação admirável nas nacionais e garantiu os requisitos para uma bolsa atlética. Ela
passou pelo processo de inscrição com grande facilidade e foi admitida na universidade dos
seus sonhos com status de prioridade. Ainda me lembro da ligação emocional que ela me
deu quando recebeu a notícia. Agora, alguns meses depois, estávamos finalmente reunidos
em Tóquio e começamos a morar juntos. Até agora, estava tudo indo muito bem — éramos
muito mais compatíveis do que eu jamais imaginaria. Quase assustadoramente compatíveis.
— Ufa. Isso foi bom, obrigado — disse, terminando minha refeição e levando os pratos até a
pia. Quando voltei para a sala, Akari já tinha colocado os hashis de lado e estava olhando
fixamente para seu celular. — O que houve? Aconteceu alguma coisa?
— Sim, minha mãe acabou de me mandar uma mensagem. Dá uma olhada nisso — Akari
disse, me mostrando o celular. Na pequena tela LCD, havia uma foto de Akito e Hayase
sorrindo um para o outro nos braços um do outro, com a legenda: "Adivinha quem vai se
casar!"
— Bom, isso sim foi uma surpresa — eu disse, embora não estivesse tão surpreso assim.
Akari me contou que Hayase havia se interessado em ajudar Akito a se reerguer depois do
incidente com a intoxicação alcoólica. Pelo pouco que eu soube, não diria que ele havia
mudado completamente, mas parecia que seu comportamento tinha melhorado bastante.
Agora, ele tinha um trabalho em tempo integral na loja de bebidas da família da Hayase e
estava trabalhando para pagar de volta os milhões de ienes que roubou de Akari.
— É, esses dois não perderam tempo... Eles estão juntos há o quê, um ano?
— Nem tanto. Mas, olha… tem algo que me surpreende ainda mais — ela disse, olhando nos
meus olhos como se tivesse tido uma grande epifania. — Veja bem… se eu for sincera
comigo mesma, ainda não perdoei completamente meu irmão por tudo o que ele fez, né?
Mas quando eu li essa mensagem agora, teve um momento em que… por um segundo… eu
realmente me senti feliz por ele, de coração.
Da onde eu estava, Akari parecia um pouco confusa, como se não soubesse como
interpretar essas emoções desconhecidas. Como ela poderia se sentir feliz pelo mesmo
homem que a abusou, por quem ela sentiu tanto ódio que quase o condenou à morte? Eu
pensei que isso era uma prova emocionante de como ela havia amadurecido.
— Ei, que bom para você! Fica feliz por ele, não tem problema nisso. Acho que isso é bem
maduro da sua parte, na verdade. Estou orgulhoso de você.
Sorri largamente para Akari, que me sorriu de volta — com o tipo de sorriso renovado de
alguém que acabara de superar obstáculos impossíveis.
Akari e eu limpamos a bagunça do café da manhã juntos, depois nos arrumamos para a
faculdade e saímos do nosso apartamento. Estava um dia bonito e quente, sem uma nuvem
no céu. Caminhamos até o ponto de ônibus mais próximo e embarcamos. Cerca de vinte
minutos depois, o ônibus nos deixou bem na entrada principal da Universidade de Tóquio.
Quando dei um passo para fora do ônibus, uma única pétala de flor de cerejeira flutuou
pastando diante de mim, passando bem na minha frente. Virei a cabeça e tentei segui-la
com os olhos, mas logo a brisa a pegou e a fez subir para o céu, onde perdi a pista dela.
— Vamos, Kanae-kun! Vamos lá! — Akari me chamou, estendendo a mão para mim.
Com a mão de Akari na minha, demos nossos primeiros passos no campus — juntos. O
caminho de tijolos que levava até lá não era particularmente largo, ladeado de ambos os
lados por fileiras de magníficas árvores de cerejeira. Olhei para cima e vi um belo dossel de
um rosa suave; uma chuva interminável de pétalas caía suavemente no chão, como flocos
de neve. Li em um folheto que esse caminho, que ia da entrada principal até o prédio
central da universidade, era carinhosamente chamado pelos alunos e professores de "Túnel
das Cerejeiras". Já tinham passado do pico da florada, mas ainda era uma visão
deslumbrante.
Akari parou sem avisar. Me perguntando o motivo, virei-me para ela, e nossos olhares se
encontraram. Havia lágrimas em seus olhos, e um sorriso caloroso, natural, completamente
desinibido se espalhou por seu rosto.
— Nada, eu... estou só muito feliz agora. Sabe? — Senti sua mão ficar mais quente na minha.
— É mesmo? Bem, espera só um pouco — declarei. — Porque o melhor ainda está por vir.
(FIM)