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Impacto da Fragmentação em Formigas

O estudo analisa a resposta das formigas à fragmentação florestal na Amazônia, destacando sua importância como indicadores biológicos da degradação ambiental. A pesquisa revela que a perturbação do habitat afeta negativamente a riqueza e a composição das espécies de formigas, com diferentes práticas de uso da terra influenciando a recuperação da fauna. Além disso, a composição das espécies varia com o tamanho do fragmento florestal e a localização geográfica, sugerindo a necessidade de reservas em diversas regiões.
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Impacto da Fragmentação em Formigas

O estudo analisa a resposta das formigas à fragmentação florestal na Amazônia, destacando sua importância como indicadores biológicos da degradação ambiental. A pesquisa revela que a perturbação do habitat afeta negativamente a riqueza e a composição das espécies de formigas, com diferentes práticas de uso da terra influenciando a recuperação da fauna. Além disso, a composição das espécies varia com o tamanho do fragmento florestal e a localização geográfica, sugerindo a necessidade de reservas em diversas regiões.
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S ÉRIE T ÉCNICA IPEF

v. 12, n. 32, p. 95-98, dez. 1998

Respostas das formigas à fragmentação florestal

Heraldo L. Vasconcelos
INPA / Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

Geralmente quando falamos de formigas nos vem a idéia daquelas pragas que invadem
nossas cozinhas ou que destróem nossas roseiras e laranjeiras do jardim, e portanto, a idéia de
como se livrar das formigas.
De fato, as formigas são importantes pragas urbanas e também em muitos cultivos e planta-
ções, o que estimulou muita pesquisa aplicada as quais culminaram, por exemplo, no advento
de iscas para o controle de formigas cortadeiras. A complexa organização social das formigas
também estimulou pesquisas em várias áreas, como a sociobiologia.
Um exemplo são as saúvas, que são consideradas um dos insetos mais evoluídos. Elas
praticam a agricultura há muitos milhares de anos antes da espécie humana ter surgido na
terra. Esta agricultura é baseada na criação de uma espécie de fungo, que é o alimento das
formigas, fungo este que cresce sobre as folhas que as formigas cortam e transportam para o
ninho. No processo de cultivo do fungo há uma divisão de trabalho e para isto formigas com
tamanhos diferentes têm funções específicas.
Mais recentemente, várias pesquisas, incluindo a que irei apresentar aqui, estão sendo dirigidas
para o uso de formigas como indicadores biológicos do estado de degradação ou de recupera-
ção dos ecossistemas terrestres e em estudos de conservação da biodiversidade. Isto em parte
deve-se ao fato de que as formigas são fáceis de coletar, relativamente fáceis de separar ao nível
de espécie, e também por serem geralmente sensíveis a mudanças no ambiente.
De outro lado, elas têm uma extrema importância ecológica na maioria dos ecossistemas
tropicais e subtropicais. Nas florestas neotropicais, por exemplo, as formigas são um dos gru-
pos dominantes, tanto em número de espécies quanto em biomassa. Nas florestas próximas a
Manaus, estima-se que a biomassa de formigas seja quatro vezes maior que a biomassa de
todos os vertebrados, incluindo pássaros, mamíferos, anfíbios e répteis, juntos (Fittkau e Klinge,
1973). As formigas afetam a estrutura e a fertilidade do solo, e geralmente têm um grande
96 n Formigas e Fragmentação

impacto sobre outros componentes da fauna e da flora, já que são predadoras de outros
artrópodos e também predadoras de sementes e desfolhadoras de plantas.
O estudo que vou apresentar aqui, desenvolvido nas proximidades de Manaus e como
parte integrante do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (INPA / Smithsonian
Institution), enfoca as formigas que forrageiam no chão da floresta. Ali estão incluídas espécies
que nidificam no solo ou na copa das árvores, mas que procuram alimento no chão da flo-
resta assim como, em geral, espécies crípticas que nidificam e forrageiam na serrapilheira.
Para a coleta das formigas, emprego vários métodos, incluindo armadilhas de solo (pitfall
traps), iscas de sardinha, amostras de solo e amostras de serrapilheira. As formigas são depois
montadas sobre triângulos de cartolina, separadas em gênero e depois em morfo-espécies.
Num primeiro estudo avaliei a resposta das formigas a diferentes níveis de perturbação antó-
pica sobre a floresta, os quais resultaram na destruição do ambiente nativo destas espécies de
formigas. Para isto, comparei a estrutura da comunidade de formigas do solo em quatro habitats
que representavam um gradiente de perturbação, associado a diferenças no uso da terra. Coletei
formigas na floresta madura não perturbada e em três áreas onde a floresta havia sido derruba-
da 11-13 anos antes. Duas áreas foram utilizadas como pastagem (uma utilizada por 10 e a outra
por 2 anos) antes de serem abandonadas, enquanto a terceira não foi utilizada como pastagem,
tendo sido abandonada logo após a derrubada da floresta. O nível de perturbação do habitat
afetou significativamente todas as variáveis medidas: a abundância de formigas, a riqueza de
espécies e a composição de espécies.
Níveis mais elevados de perturbação resultaram em uma diminuição na riqueza de espé-
cies e num aumento na abundância de formigas.
Tanto a pastagem como a capoeira jovem (estabelecida numa antiga pastagem) apresenta-
ram uma composição de espécies de formigas distinta daquela encontrada na floresta madura. Já
a composição de espécies na capoeira velha (estabelecida na área não usada como pastagem) foi
similar à da floresta madura.
Apesar de diferenças no tempo de pousio entre as áreas utilizadas como pastagem ou não, há
evidência de que diferentes práticas de uso da terra resultam em diferentes taxas de recuperação
da fauna de formigas da floresta assim que a terra é abandonada.
Num segundo estudo analisei a resposta das formigas à diminuição da área de floresta e
ao isolamento da floresta, como conseqüência do desmatamento descrito anteriormente.
Para isto foram coletadas formigas em fragmentos florestais, variando entre 1 e 100 ha, e na
floresta contínua. Em cada um destas áreas (9 em total) estabeleci uma parcela amostral de
1 ha. Entre 78 e 111 espécies de formigas foram registradas em cada parcela de 1 ha, e
estima-se que entre 106 e 151 espécies podem potencialmente ser encontradas nestas mesmas
parcelas.
Não houve relação significativa entre o tamanho do fragmento florestal e o número de
espécies de formigas por ha (densidade de espécies). Já a composição de espécies variou signi-
ficativamente com o tamanho da área do fragmento, assim como com o local (fazenda Dimona,
Esteio ou Porto Alegre) onde o fragmento está situado. Este efeito de localidade sugere que
diferentes regiões geográficas na Amazônia Central, mesmo que relativamente próximas umas
das outras (10-25 km como no caso das fazendas aqui estudadas), possuem diferenças na com-
posição de espécies.
Vasconcelos n 97

Portanto, dada a heterogeneidade na distribuição espacial das espécies de formigas da


floresta, é desejável haver reservas em diferentes regiões geográficas, e não só em uma ou
poucas regiões.
Análises posteriores sugerem que as mudanças na composição de espécies de formigas com
o tamanho do fragmento florestal, são na verdade decorrentes dos efeitos de borda, os quais
atingem proporcionalmente mais os fragmentos pequenos do que os fragmentos grandes. Pró-
ximo à borda dos fragmentos as árvores são menores (em função da maior mortalidade) e a
camada de serrapilheira é mais espessa, fatores estes que aparentemente causam mudanças na
composição de espécies de formigas e talvez também de outros invertebrados da floresta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FITTKAU, E.J.; KLINGE, H. “On biomass and trophic structure


of the Central Amazonian rain forest ecosystem”.
Biotropica, v. 5, p. 2-14, 1973.

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