Florescer
Estevão e Dália compartilhavam um amor gentil e duradouro. Nascidos e criados na Vila
Angelya, conheceram-se durante um desfile da cidade. Entre todas as pessoas presentes,
era ela quem mais brilhava. O jovem, pequeno em estatura mas grande em sentimento,
lutou pelo que sentia: enfrentou os pais ricos e mesquinhos de Dália, que retribuiu seu amor
fugindo de casa para ficar ao seu lado.
No momento mais assustador de suas vidas, o casal apaixonado colheu zínias e começou a
vendê-las pelas ruas. Apesar de a atitude ter nascido de um gesto desajeitado e
desesperado, o empreendimento floresceu. Conseguiram um pedaço de terra afastado do
vilarejo, onde passaram a cultivar flores e a vendê-las para a nobreza.
Foi então que Estevão mudou o nome da família para Milezinia. Sempre que pode, ele
conta essa história com um sorriso no rosto.
Tempestade
Dália e Estevão sonhavam em conceber uma criança, mas, por mais que tentassem, o
desejo parecia sempre escapar por entre seus dedos. Os pais de Dália, ainda rancorosos
por sua fuga, diziam que aquilo era um sinal — que ela deveria abandonar o marido humilde
e retornar para o conforto da antiga casa. Mas Dália sabia, no fundo do coração, que não
havia verdade naquelas palavras. Seu amor por Estevão era firme como a raiz de um
carvalho.
Buscando esperança, ela viajou até o templo de Thyatis. O sacerdote, tomado por um raro
silêncio profundo, recebeu uma visão: uma criança de cabelos amarelos como pétalas de
tulipa, seguida por tantas outras pequenas luzes — como se várias vidas aguardassem sua
vez de florescer. Dália saiu dali com o coração leve. Bastava ter fé.
Dias depois, na primeira manhã tranquila após uma tempestade que varrera a vila, Dália
ouviu um choro suave vindo da porta da pequena casa florada. Quando abriu, encontrou
uma cesta envolta em panos quentes, e dentro dela uma menina de pele rosada e cabelos
dourados, cintilando como amanhecer entre flores. Nos dedos minúsculos, um raminho de
zínia amarela, como um sinal delicado do destino.
Sem hesitar, Dália a tomou nos braços — e naquele instante soube que a promessa da
visão havia começado a se cumprir. Ela e Estevão batizaram a criança de Achilea, em
homenagem à flor que simboliza proteção e cura. A presença da menina iluminou o lar dos
Milezinia, tornando-o ainda mais cheio de cor, perfume e esperança.
E assim, a família que nascera de coragem e amor ganhava agora seu primeiro broto.
Amanhecer
A infância de Achilea foi como a primavera eterna que os Milezinia nunca ousaram sonhar.
A menina crescia entre flores, brincando entre fileiras de zínias, tulipas e lírios, seus cabelos
dourados brilhando ao sol como se guardassem um pedaço do próprio amanhecer. Desde
muito pequena, possuía uma delicadeza que cativava a todos — e, ao mesmo tempo, uma
força interior que parecia irradiar de seus olhos curiosos.
Achilea era conhecida por toda a Vila Angelya. Corria pelos caminhos de terra distribuindo
pétalas que recolhia no campo, inventando histórias sobre cada flor. As crianças a seguiam
como quem segue a luz de um vaga-lume em noite escura. Os moradores sorriam ao vê-la
passar; a presença dela suavizava discussões, acalmava ânimos e alegrava corações
cansados. Alguns juravam que as flores pareciam florescer mais rápido quando ela estava
por perto — e ninguém duvidava.
Com o tempo, até mesmo os pais de Dália, que tanto haviam desprezado o amor da filha,
foram tocados pelo encanto gentil de Achilea. A menina, alheia a ressentimentos, os
presenteava com pequenos arranjos que fazia sozinha. Um dia, colocou nas mãos da antiga
avó um buquê de zínias brancas e disse, com a sinceridade desarmante de uma criança:
— As flores perdoam. A gente também pode.
Foi o suficiente. O coração endurecido da mulher se abriu como uma flor na chuva. Aos
poucos, com passos hesitantes mas verdadeiros, a família se reaproximou. A casa dos
Milezinia passou a receber visitas frequentes, cheias de risos e histórias. A menina dourada
selou, sem perceber, uma paz que anos de conversa jamais haviam alcançado.
Mas Achilea sempre fora diferente. Quando completou doze anos, algo nela começou a
mudar — uma serenidade profunda, quase sagrada, tomou forma em sua postura e em seu
olhar. Certa manhã, enquanto ajudava Estevão a colher tulipas, uma luz suave a envolveu,
tão clara que ele precisou cobrir os olhos. Achilea, entretanto, permanecia imóvel, como se
estivesse ouvindo algo além do vento.
— Pai… — sussurrou ela. — Ele está me chamando.
No mesmo instante, Dália surgiu à porta, sentindo o coração pulsar de um modo estranho,
familiar. Não era medo. Era reconhecimento. A visão do sacerdote de Thyatis, tantos anos
antes, finalmente se completava.
Achilea caiu de joelhos entre as flores, as mãos sobre o peito. Uma voz — doce como
amanhecer, firme como sol do meio-dia — ecoou apenas para ela.
“Caminhe comigo, pequena flor. A luz precisa de você.”
Quando abriu os olhos, eles brilhavam como ouro líquido.
Aquele era o chamado.
Achilea, filha das flores e da fé, estava destinada a se tornar paladina de Thyatis.
Desabrochar
O dia em que Achilea foi escolhida pelo sacerdote da cidade para se tornar paladina de
Thyatis ficou gravado para sempre na memória da Vila Angelya. A cerimônia era simples,
mas o templo parecia mais iluminado naquela manhã. As flores no altar desabrocharam
cedo demais, como se aguardassem a menina dourada.
O sacerdote pousou as mãos nos ombros dela e anunciou:
— Thyatis a escolheu. Sua luz pertence ao mundo.
A vila explodiu em alegria. Para Dália e Estevão, aquele era o florescer mais brilhante de
seu jardim.
Floreio
Ser escolhida significava entrar em um mundo novo — e árduo. Achilea enfrentou longos
dias de treino, repetição e exaustão. Aprendeu sobre disciplina, fé, canalização divina… e
combate. Foi durante este processo que ela descobriu que era terrível no manejo da
espada.
Mas, quando pegou uma lança pela primeira vez, algo clicou. A arma parecia uma extensão
de seu braço, leve e precisa. O sacerdote notou, mas Achilea tinha outra motivação secreta:
vencer Ranon.
O rival
Ranon, dois anos mais velho, era o prodígio da guarnição local. Forte, habilidoso e
disciplinado, ele parecia intocável no treinamento. Achilea o enxergava como rival absoluto.
Ele, por outro lado, só a via como uma amiga divertida — o que só piorava tudo para ela.
Nos confrontos simulados, Achilea sempre perdia para Ranon. Sempre. A espada não
obedecia seus comandos, e o escudo leve que usava não aguentava a força dele.
Até que, um dia, ela decidiu mudar.
Pediu um escudo pesado, grande o suficiente para barrar investidas diretas, e uma lança
longa. Com isso, ela podia manter distância, impedir aproximações, controlar o ritmo do
combate. Era perfeito para neutralizar a força bruta de Ranon.
Ranon ficou impressionado… e um pouco assustado.
— Achei que você ia escolher a espada… — comentou ele, rindo, sem perceber que ela o
estudava como a um inimigo.
— Gosto de desafios — respondeu Achilea, com o brilho competitivo nos olhos.
Com lança e escudo, ela começou a arrancar empates. Depois, vitórias. Pela primeira vez,
Ranon realmente a viu como o que ela sempre fora: alguém que podia alcançá-lo.
E, sem saber, ele a ajudou a se tornar uma paladina ainda mais forte.
O buquê
O treinamento era duro. Havia noites em que Achilea dormia sentada, tão cansada que mal
conseguia tirar as botas. Mas ela nunca andou sozinha. Dália preparava ervas calmantes e
banhos quentes. Estevão praticava defesas com ela usando escudos improvisados no
quintal. Seus avós traziam refeições e histórias.
A família Milezinia foi seu alicerce.
E assim, Achilea cresceu — em corpo, em fé e em habilidade.
Dez anos depois
O tempo passou como vento sobre um campo em flor.
Aos vinte e dois anos, Achilea era uma paladina formada, respeitada e querida pela vila. Foi
então que a convocação chegou: Thyatis tinha uma missão para ela fora de Angelya.
Na véspera da partida, Dália organizou uma grande festa. Todos compareceram: vizinhos,
amigos de infância, crianças que aprenderam a andar seguindo Achilea pelos jardins, até
nobres fascinados pelas flores dos Milezinia. Ela riu, dançou e chorou — sabendo que
aquela noite seria uma lembrança eterna.
Quando a festa se acalmou, Dália chamou a filha num canto. Seus olhos brilhavam com
emoção… e com um segredo.
— Minha flor… a família vai crescer. Você terá um irmãozinho… ou uma irmãzinha.
Achilea sentiu o peito apertar de ternura. Queria ficar. Queria ajudar. Queria proteger. Mas
também sabia: a luz que a chamava era maior do que apenas um lar.
Na manhã seguinte, com sua lança presa nas costas e o escudo pesado no braço, Achilea
se despediu dos pais no portão. Estevão colocou uma zínia amarela nas mãos dela.
— Onde quer que vá, lembre-se: você é uma Milezinia. E sempre poderá voltar.
Com um último sorriso, Achilea seguiu estrada afora — o cabelo dourado brilhando ao sol
como a promessa de um novo dia.