Às vezes o dia começa com a sensação de que algo invisível foi rearranjado durante a noite.
As
cadeiras continuam no mesmo lugar, o relógio marca as horas de sempre, o café tem o mesmo gosto
levemente amargo, mas existe um deslocamento sutil, como se o mundo tivesse dado um passo para
o lado e ninguém tivesse sido avisado. É nesse tipo de manhã que pensamentos aleatórios ganham
peso de teoria, e teorias ganham a leveza de um boato contado no ônibus.
Não se trata exatamente de uma história, tampouco de um manual ou de um desabafo. Talvez seja
apenas um amontoado de observações que decidiram caminhar juntas por algum motivo
desconhecido. Por exemplo: é curioso como objetos esquecidos parecem mais importantes do que
aqueles que usamos todos os dias. Uma chave antiga, sem porta definida, guarda mais mistério do
que a chave atual que abre a casa com eficiência burocrática. O mistério, afinal, tem valor próprio,
mesmo quando não serve para nada.
Em algum lugar entre uma ideia e outra, surge a vontade de listar coisas que não precisam ser
listadas. O som de passos em um corredor vazio. A poeira dançando em um feixe de luz. A sensação
estranha de lembrar de algo que nunca aconteceu, mas que poderia ter acontecido se a tarde tivesse
tomado outro rumo. Essas pequenas quase-memórias formam um território instável, onde a
imaginação se sente confortável e a lógica aceita ficar em silêncio por alguns minutos.
Há quem diga que todo texto precisa de um objetivo claro. Ensinar, convencer, vender, emocionar.
Mas e se a finalidade for apenas existir por um tempo limitado, como uma nuvem que não sabe que
está sendo observada? Nesse caso, cada frase se permite um pequeno luxo: não chegar a lugar
nenhum. O caminho vira mais importante que o destino, e até mesmo a ideia de caminho começa a
se dissolver.
Pense em uma cidade inventada, construída com retalhos de outras cidades reais. Ela tem uma praça
que lembra uma fotografia antiga, postes de luz que nunca funcionam direito e uma padaria onde o
atendente sabe exatamente o que você vai pedir, mesmo quando você muda de ideia. Nessa cidade,
as pessoas conversam sobre assuntos profundos enquanto falam de trivialidades, e ninguém percebe
a contradição. Talvez porque não haja contradição alguma.
O tempo ali não passa de maneira uniforme. Algumas horas escorrem rápido demais, enquanto
outras se arrastam como se estivessem presas em areia molhada. Relógios existem, mas são tratados
mais como decoração do que como instrumento. As pessoas chegam atrasadas sem culpa e
adiantadas sem vantagem. O agora é elástico, e isso resolve muitos problemas que em outros
lugares parecem insolúveis.
Em determinado momento, alguém decide escrever um texto sem saber exatamente por quê. Não há
público definido, nem expectativa clara. Existe apenas o gesto de escrever, que por si só já cria
sentido suficiente para continuar. Cada palavra puxa outra, não por necessidade, mas por
curiosidade. O texto cresce como uma planta que não foi informada sobre as regras do jardim.
Se houver uma mensagem escondida aqui, ela provavelmente não quer ser encontrada. Mensagens
tímidas preferem se camuflar em parágrafos longos, frases que dão voltas e imagens que não se
explicam. Quem lê pode até tentar decifrar, mas logo percebe que a experiência é mais interessante
quando se abandona o esforço e apenas acompanha o fluxo.
No fim — se é que existe um fim — resta uma sensação semelhante à de acordar de um sonho
estranho: algumas imagens permanecem nítidas, outras desaparecem quase imediatamente, e a
maioria não faz sentido quando contada em voz alta. Ainda assim, algo ficou. Não um aprendizado
específico, nem uma conclusão elegante, mas um resíduo leve, difícil de nomear.
Talvez esse resíduo seja apenas a prova de que nem tudo precisa ser útil, direto ou eficiente.
Algumas coisas existem para ocupar espaço, preencher silêncio, ou simplesmente para lembrar que
a aleatoriedade também tem seu próprio tipo de ordem. E enquanto esse texto se encerra sem grande
cerimônia, ele cumpre exatamente a finalidade que nunca teve certeza de possuir.