Embargos de Terceiro na Execução Civil
Embargos de Terceiro na Execução Civil
Escola de Direito
UMinho 2008
Dezembro de 2008
Universidade do Minho
Escola de Direito
Tese de Mestrado
Mestrado em Direito Judiciário (Direitos Processuais e
Organização Judiciária)
Dezembro de 2008
É AUTORIZADA A REPRODUÇÃO PARCIAL DESTA TESE APENAS PARA
EFEITOS DE INVESTIFAÇÃO, MEDIANTE DECLARAÇÃO ESCRITA DO
INTERESSADO, QUE A TAL SE COMPROMETE
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
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Embargos de Terceiro na Acção Executiva
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Embargos de Terceiro na Acção Executiva
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Embargos de Terceiro na Acção Executiva
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Embargos de Terceiro na Acção Executiva
vii
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
viii
Índice
ÍNDICE
ix
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
SECÇÃO I — POSSE
1. Âmbito da posse ............................................................................................................ 77
1.1. Noção..................................................................................................................... 77
1.2. Exercício da posse através de um terceiro ............................................................... 79
1.3. Efeitos da posse: a presunção da titularidade do direito ........................................... 80
1.4. Manifestações da posse .......................................................................................... 82
1.4.1. Direitos reais de gozo....................................................................................... 82
1.4.2. Direito reais de garantia ................................................................................... 84
1.4.3. Direitos reais de aquisição ............................................................................... 86
1.4.4. Direitos pessoais de gozo................................................................................. 86
2. Meios de defesa da posse .............................................................................................. 87
2.1. Meios extrajudiciais ................................................................................................. 87
2.1.1. Acção directa................................................................................................... 87
2.1.2. Legítima defesa ............................................................................................... 88
2.2. Meios judiciais ........................................................................................................ 88
2.2.1. Acção de prevenção da posse .......................................................................... 88
2.2.2. Acção de manutenção ou de restituição da posse............................................. 89
2.2.3. Restituição provisória da posse em caso de esbulho violento ............................ 90
3. Modalidades da posse susceptíveis de tutela mediante embargos de terceiro .................. 91
3.1. Posse titulada e posse não titulada.......................................................................... 91
3.2. Posse efectiva ou material e posse jurídica ou legal ................................................. 92
3.3. Posse causal e posse formal ................................................................................... 95
3.4. Posse em nome próprio e posse em nome alheio .................................................... 97
3.5. Posse e mera detenção........................................................................................... 98
x
Índice
xi
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
xii
Índice
xiii
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
SECÇÃO I — LEGITIMIDADE
1. Legitimidade processual activa ..................................................................................... 271
1.1. Âmbito.................................................................................................................. 271
1.2. O princípio da legitimidade processual formal em sede executiva ........................... 276
1.3. Desvios ao princípio da legitimidade processual formal .......................................... 277
1.3.1. Sucessão no direito ou na obrigação .............................................................. 278
1.3.2. Execução de bens onerados com garantia real ............................................... 279
1.3.3. Execução contra o terceiro possuidor de bens pertencentes ao executado....... 281
1.3.4. Execução de sentença condenatória............................................................... 282
2. Legitimidade processual do cônjuge ............................................................................. 282
xiv
Índice
SECÇÃO II — COMPETÊNCIA
1. Determinação da competência pela estrutura incidental dos embargos ......................... 293
2. Competência dos tribunais de competência específica .................................................. 294
3. Competência dos tribunais e juízos de competência especializada ................................ 297
SECÇAO II — TEMPESTIVIDADE
1. Embargos de terceiro com finalidade repressiva............................................................ 311
1.1. Prazo para a dedução de embargos de terceiro ..................................................... 311
1.2. Natureza do prazo................................................................................................. 314
1.3. Intempestividade dos embargos: conhecimento oficioso ou dependente de
arguição? ..................................................................................................................... 316
1.4. Ónus da prova da verificação do prazo .................................................................. 319
2. Embargos de terceiro com finalidade preventiva............................................................ 322
xv
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
CONCLUSÕES...................................................................................................................... 353
xvi
Abreviaturas
ABREVIATURAS
Ac. Acórdão
ADSTA Acórdãos Doutrinais do Supremo Tribunal Administrativo
BGB Bürgerliches Gesetzbuch
BMJ Boletim do Ministério da Justiça
CC Código Civil
CC Es. Código Civil (España)
CC Fr. Code Civil (versão consolidada em 06 de Agosto de 2008)
CC It. Codice Civile
CIRE Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas
CJ Colectânea de Jurisprudência
CJSTJ Colectânea de Jurisprudência do Supremo Tribunal de Justiça
CPC Código de Processo Civil, com as alterações que lhe foram
introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 226/2008, de 20 de Novembro
CPC1876 Código de Processo Civil de 1876
CPC1939 Código de Processo Civil de 1939
CPC1961 Código de Processo Civil de 1961, na versão anterior à reforma
processual de 95/96
CPC Fr. Code de Procédure Civile
CPC It. Codice di Procedura Civile
CPPT Código de Procedimento e de Processo Tributário
CRP Constituição da República Portuguesa
CSC It. Corte Suprema di Cassazione
CVM Código dos Valores Mobiliários
DL Decreto-Lei
DR Diário da República
LEC Ley de Enjuiciamiento Civil
LOFTJ Lei de Organização e de Funcionamento dos Tribunais Judiciais
xvii
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
xviii
Abreviaturas
19
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
20
Introdução
INTRODUÇÃO
1
Nos termos do art. 601.º do CC, pelo cumprimento da obrigação respondem todos os bens do devedor
susceptíveis de penhora, sem prejuízo dos regimes especialmente estabelecidos em consequência da separação de
patrimónios. Por outro lado, não sendo a obrigação voluntariamente cumprida, tem o credor o direito de exigir
judicialmente o seu cumprimento e de executar o património do devedor (art. 817.º do CC).
21
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Não o fez, contudo, sem que antes, consciente das insuficiências desse sistema
adjectivo, se preocupasse em assegurar a tutela dos interesses de terceiros que não poderão, de
forma alguma, ser prejudicados por uma agressão patrimonial que se mostre subjectivamente
ilegal. Nessa exacta medida, consagrou, por um lado, no art. 1285.º do CC2, que o possuidor
cuja posse seja ofendida por penhora ou diligência judicialmente ordenada pode defender a sua
posse mediante embargos de terceiro. Por outro lado, e porque a todo o direito, excepto quando
a lei determine o contrário, corresponde a acção adequada a fazê-lo reconhecer em juízo, a
prevenir ou reparar a violação dele e a realizá-lo coercivamente (art. 2.º, n.º 2, do CPC), o
legislador veio consagrar diversos meios de reacção à penhora objectiva ou subjectivamente
ilegal, dispondo no art. 351.º do CPC que, se a penhora ou qualquer acto judicialmente
ordenado de apreensão ou entrega de bens3, ofender a posse ou qualquer direito incompatível
com a realização ou o âmbito da diligência, de que seja titular quem não é parte na causa, pode
o lesado fazê-lo valer, deduzindo embargos de terceiro. Deste modo, os embargos de terceiro
constituem um meio processual concebido para reagir ou evitar a realização de diligências que,
por implicarem a apreensão ou entrega de bens, lesem ou possam vir a lesar a posse ou
qualquer direito incompatível com essa actuação e cujo titular não seja parte na causa em que
essa diligência tenha sido ordenada.
Deste modo, com a presente investigação pretende-se, desde logo, delimitar qual o
âmbito objectivo dos embargos de terceiro, isto é, determinar quais as situações possessórias
e/ou direitos subjectivos que permitem o recurso aos embargos de terceiro enquanto meio de
reacção contra a penhora ilegal4. A este propósito impõe-se referir que, embora o seu âmbito não
se esgote enquanto meio de oposição à penhora, o certo é que é nesta finalidade que o
incidente5 de oposição mediante embargos de terceiro encontra maior expressão. Com efeito,
2
O Código Civil de 1867 dispunha no seu art. 484.º que “[O] possuidor tem o direito de ser mantido ou
restituído à sua posse, contra qualquer turbação ou esbulho”.
3
Será o caso da providência cautelar de arresto ou de restituição provisória da posse (cfr. o Ac. do TRL, de
21 de Fevereiro de 1991, proc. 0045152, in [Link]).
4
MENDES, João de Castro, Direito Processual Civil, vol. III, Edição da AAFDL, Lisboa, 1980; p. 121.
5
A este respeito importa salientar que, embora a reforma processual civil de 95/96 tenha sistematizado o
incidente de embargos de terceiro enquanto subespécie da intervenção de terceiros na modalidade de oposição, os
embargos de terceiro conservam a sua natureza de verdadeira acção judicial declarativa (cfr., neste sentido, COSTA,
Salvador da, Os Incidentes da Instância, 5.ª ed. actual., Almedina, 2008, p. 201), ainda que se encontre
intrinsecamente dependente do processo executivo ou declarativo do qual tenha emanado a penhora ou a diligência
22
Introdução
atendendo a que apenas estão sujeitos à execução os bens do devedor susceptíveis de penhora
que, nos termos da lei substantiva, respondam pela dívida exequenda (art. 821.º, n.º 1, CPC), os
embargos de terceiro surgem com um dos principais meios de oposição a essa apreensão de
bens sempre que estes se encontrem na posse ou ofendam um direito de um terceiro que se
revele incompatível com essa diligência, a não ser que a própria execução tenha sido movida
contra esse terceiro (art. 821.º, n.º 2, CPC).
Por outro lado, procuraremos ainda orientar a nossa investigação para a análise
processual dos embargos de terceiro. Neste ponto, concentraremos a nossa atenção na procura
de um critério que permita a construção de um conceito unitário de legitimação processual
activa e passiva em sede de embargos de terceiro.
Por último, analisaremos criticamente as questões processuais responsáveis pela
divergência doutrinal e jurisprudencial em torno desta figura processual que, ainda que
sistematizada no âmbito da oposição mediante intervenção de terceiros, assume a natureza de
uma acção judicial declarativa dotada de autonomia própria.
de apreensão ou entrega de bens (Cfr. nesse sentido o Ac do TRC, de 1 de Abril de 2008, proc. 5166/06.3TBLRA-
B.C1, in [Link]. bem como o Ac. do STJ, de 9 de Novembro de 1995, in BMJ, 451.º, p. 344. Cfr., também
REIS, Alberto dos, Processos Especiais, vol. I (reimpressão), Coimbra Editora, Coimbra, 1982, p. 438; NETO, Abílio,
Código de Processo Civil Anotado, 18.ª ed. actual., Ediforum, 2004, p. 473.
23
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
24
Introdução
PARTE I
25
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
26
Breves considerações sobre a evolução dos embargos de terceiro
CAPÍTULO I
BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A
EVOLUÇÃO DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
6
Já na Novíssima Reforma Judiciária — diploma legislativo que entrou em vigor em 21 de Maio de 1841,
em conformidade com a autorização concedida pela Carta de Lei de 28 de Novembro de 1840 — os embargos de
terceiro assumiam a configuração de um meio de tutela possessória, dispondo o seu art. 635.º que “[O]s embargos
de terceiro só têm logar, quando, o que pretender deduzil-os, allegar e provar effectiva posse na cousa penhorada,
ou na que se mandar entregar ao exequente, e não tiver sido ouvido, nem convencido na causa principal.”
A dedução do incidente de embargos de terceiro implicava a suspensão da execução sobre os bens
embargados, correndo por apenso em relação ao processo principal da execução (arts. 636.º e 637.º).
Caso os embargos de terceiro fossem aceites pelo “Juiz da Execução”, era passado um mandado de
manutenção até à decisão final, cabendo ao embargante o ónus de prestar uma fiança idónea quanto aos frutos dos
bens embargados, e o processo era apresentado ao exequente para contestar, podendo este, inclusive, requerer a
intimação do embargante para responder à matéria da sua contestação com a cominação de, não o fazendo, ser-lhe
dada ordem de prisão (art. 638.º). Do despacho de aceitação dos embargos de terceiro cabia recurso de agravo
para o Juiz de Direito da Comarca (quando o despacho fosse proferido pelo Juiz Ordinário), ou para a Relação do
Distrito (quando o despacho fosse proferido pelo Juiz de Direito).
No caso de os embargos de terceiro não serem recebidos, o embargante era condenado em multa
correspondente a cinco por cento do valor dos bens embargados, a qual revertia para a Fazenda Nacional, não
podendo essa multa exceder o valor global de quinhentos mil réis (art. 639.º).
Na eventualidade de o exequente, em consequência do recebimento dos embargos, optar por transferir a
penhora por nomeação sua para outros bens do executado, prescindindo, assim, dos bens objecto de embargos,
verificava-se a extinção dos embargos de terceiro por inutilidade superveniente da lide (art. 638.º §. 4).
27
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
“Pode deduzir embargos de terceiro quem alegar e provar posse na cousa penhorada,
ou que se mandar entregar ao exequente, e não tiver sido ouvido nem convencido na acção nem
representar quem foi condenado nela.
§ único. Nas execuções que se fundarem em sentença pode embargar de terceiro
aquele que, tendo posse nos bens penhorados, não interveio no acto jurídico que se executa,
nem representa quem nele interveio.”
Da sentença final, assim como do despacho de rejeição dos embargos de terceiro, podiam as partes opor
embargos fundados em Direito ou provados por documentos, sempre que o valor da acção não excedesse a alçada
do Juiz, ou interpor recurso de apelação, com subida nos próprios autos, para o Juiz de Direito (caso a decisão
tivesse sido proferida pelo Juiz Ordinário), ou para o Tribunal da Relação, com efeito devolutivo e subida em
separado, na eventualidade da decisão ter sido proferida pelo Juiz de Direito (art. 640.º).
7
Cfr. o Ac. do STJ, de 17 de Outubro de 1902: “Só pode deduzir embargos de terceiro, quem alega e
prova posse na cousa penhorada ” (GENTIL, Francisco, Dicionário do Supremo Tribunal de Justiça – Acórdãos de
1867 a 1933, Lisboa, 1933, p. 465).
8
Cfr. Ac. do STJ, de 9 de Março de 1893: “Os embargos de terceiro só teem logar no caso de execução
sobre cousa penhorada ou mandada entregar ao exequente, e nos de arrolamento e posse judicial” (GENTIL,
Francisco, Dicionário do Supremo Tribunal de Justiça, ob. cit., p. 458).
9
Cfr. REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 399.
10
CARDOSO, Eurico Lopes, Manual da Acção Executiva, 3.ª ed., reimpr., Almedina, Coimbra, 1992,
p. 387.
11
Cfr. o Ac. do STJ, de 10 de Maio de 1907: “Os embargos de terceiro são admissíveis em todos os casos
de posse, ou entrega de bens ordenada em processo de arrolamento ou em qualquer outro despacho proferido de
inventário.” (GENTIL, Francisco, Dicionário do Supremo Tribunal de Justiça, ob. cit., p. 464).
28
Breves considerações sobre a evolução dos embargos de terceiro
de 1892, bem como à diligência executiva de despejo, com os Decretos [Link] 21287 e 5411, de
17 de Abril de 191912.
No Código de Processo Civil de 1961 — diploma aprovado pelo Decreto-Lei n.º 44.129,
de 28 de Dezembro de 1961 — o regime jurídico dos embargos de terceiro vinha regulamentado
no art. 1037.º, o qual determinava o seguinte:
12
Vide, nesse sentido, RAMALHO, Maria do Rosário Palma, «Sobre o fundamento possessório dos
embargos de terceiro deduzidos pelo locatário, parceiro pensador, comodatário e depositário», in ROA, ano 51.º, vol.
III, 1991, p. 651.
13
Cfr. REIS, José Alberto dos, Código de Processo Civil Anotado, vol. I, 2.ª ed., Coimbra Editora, Coimbra,
1940, p. 720.
14
A este propósito importa salientar que os embargos de terceiro constituíam um meio exclusivo de defesa
da posse relativamente a um acto ofensivo de natureza judicial (vide, nesse sentido, RODRIGUES, Manuel, A Posse,
Almedina, Coimbra, 1981, p. 367). Com efeito, conforme salienta ANTUNES VARELA, o traço distintivo entre as
acções possessórias e os embargos de terceiro residia na circunstância das primeiras serem destinadas a remover
as ameaças ou perturbações da posse, provenientes de actos dos particulares ou da administração pública,
enquanto os embargos de terceiro tinham como alvo directo as providências emanadas dos órgãos judiciais (cfr.
VARELA, Antunes, «Parecer ao acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 20 de Outubro de 1988», in ROA, ano
53.º, Abril/Junho de 1993, p. 329).
29
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
2. Considera-se terceiro aquele que não tenha intervindo no processo ou no acto jurídico
de que emana a diligência judicial, nem represente quem foi condenado no processo ou quem
no acto se obrigou.
O próprio condenado ou obrigado pode deduzir embargos de terceiro quanto aos bens
que, pelo título da sua aquisição ou pela qualidade em que os possuir, não devam ser atingidos
pela diligência ordenada.”
15
Cfr. o Ac. do TRL, de 28 de Maio de 1991, proc. 0039871, in [Link], segundo o qual “[O]s
embargos de terceiro não são meio processual próprio para defesa de invocado direito de propriedade ofendido pela
penhora”.
16
Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º,
Coimbra Editora, 1999, p. 615.
30
Breves considerações sobre a evolução dos embargos de terceiro
meio de tutela possessória face à ameaça ou agressão efectiva da posse exercida sobre a coisa
por um terceiro. Contudo, com a eliminação das acções possessórias do elenco dos processos
especiais, o Decreto-Lei n.º 329-A/95, de 12 de Dezembro, passou a sistematizar os embargos
de terceiro no âmbito dos incidentes da instância, perspectivando-o como uma “verdadeira
subespécie da oposição espontânea, caracterizada por se inserir num processo que comporta
diligências de natureza executiva (penhora ou qualquer outro acto de apreensão de bens)
judicialmente ordenadas, opondo o terceiro embargante um direito próprio, incompatível com a
subsistência dos efeitos de tais diligencias”17.
Deste modo, o legislador considerou que a principal especificidade dos embargos de
terceiro residia, não numa particularidade da sua tramitação processual que justificasse, por si
só, a sua sistematização no domínio dos processos especiais, mas sim no facto de o pedido
deduzido pelo embargante consubstanciar a intervenção de um terceiro num processo pendente
com vista à defesa de um direito incompatível com um acto de agressão patrimonial ordenado
em função dos interesses de uma das partes principais da causa18. Nessa exacta medida, os
embargos de terceiro passaram a ser sistematizados, em termos processuais, como uma
subespécie da oposição espontânea, em que o terceiro opõe às partes primitivas um direito
incompatível com a posição jurídica daquelas. Na verdade, o incidente processual dos embargos
de terceiro traduz-se na possibilidade de um terceiro intervir numa causa em que não é parte
para aí fazer valer um direito próprio, que é total ou parcialmente incompatível com as
pretensões das partes primitivas19, sendo certo que o principal objectivo do terceiro consiste em
17
Preâmbulo do Decreto-Lei n.º 329-A/95, de 12 de Dezembro.
18
Vide, a este propósito, COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 201, segundo o qual
“[A] estrutura dos embargos de terceiro é essencialmente caracterizada (…) por a pretensão do embargante se
inserir num processo pendente entre outras partes e visar a efectivação de um direito incompatível com a
subsistência dos efeitos de algum acto judicial de afectação ilegal de um direito patrimonial do embargante.”
19
Embora os embargos de terceiro surjam sistematizados no domínio dos incidentes da instância, a
verdade é que esta diferente qualificação, associada à revogação, enquanto processos especiais, das acções de
prevenção, manutenção e restituição da posse, em nada altera a sua estrutura de verdadeira acção autónoma de
natureza declarativa, sendo certo que não é pelo legislador os sistematizar enquanto incidente processual que os
embargos ficam sujeitos ao regime processual dos incidentes da instância previsto nos arts. 303.º e 304.º do CPC,
normas que contêm disposições gerais em matéria de tramitação processual. Aliás, a evidência da sua autonomia
enquanto acção declarativa é reforçada pelo facto de os embargos de terceiro, uma vez recebidos, seguirem os
termos do processo ordinário ou sumário de declaração consoante o seu valor exceda ou não o valor da alçada do
tribunal da Relação, o qual se acha actualmente fixado em € 30.000,00 (art. 24.º da LOFTJ).
31
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
tutelar um direito que se revele incompatível com a subsistência dos efeitos de um acto judicial
de afectação ilegal daquele mesmo direito20.
No entanto, impõe-se salientar que a inserção dos embargos de terceiro no âmbito do
incidente de oposição de terceiro não representou nem implicou a eliminação da sua função de
tutela possessória, embora tenha contribuído para ampliar significativamente o seu âmbito de
actuação e de aplicação — que deixou de estar confinado apenas à tutela posse do embargante
—, dado que os embargos passaram a poder ser utilizados enquanto meio de defesa de qualquer
direito incompatível com a diligência judicialmente ordenada de penhora ou de apreensão de
bens21. Na verdade, com a reforma de 95/96 ,este incidente passou a poder ser deduzido, não
só para a defesa da posse, como também de qualquer direito incompatível com a subsistência
de uma diligência de cariz executório, seja ela a penhora ou qualquer outra diligência
judicialmente ordenada22. Desta forma, deixou de impender sobre o lesado o ónus de propositura
de uma acção de reivindicação paralela, dado que o seu direito passou a ser apreciado no
próprio processo em que se verificou a diligência ofensiva, sendo certo que, em caso de
procedência da oposição deduzida e atenta a impossibilidade de venda dos bens penhorados,
também deixava de ser necessária a propositura, em fase posterior, de uma acção de anulação
da venda.
Por outro lado, a circunstância de a sentença proferida em sede de embargos de terceiro produzir efeitos
de caso julgado material só contribui para acentuar a sua estrutura enquanto verdadeira acção de natureza
declarativa, não sendo de descurar que nenhum outro incidente processual apresenta uma tramitação tão complexa
quanto à que se encontra legalmente prevista para os embargos de terceiro.
20
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 30 de Novembro de 2000, proc. 0074228, in [Link].
21
Deste modo, os embargos de terceiro deixaram de se poder basear exclusivamente na posse para se
fundarem também na titularidade do direito de fundo, em conformidade com o que vinha sendo reivindicado. (Cfr.
FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º, ob. cit., p. 614).
22
Deste modo, tal como salienta LOPES DO REGO, em virtude da ampliação do âmbito objectivo dos
embargos de terceiro, “mesmo que se conclua que o terceiro-embargante não é, de um ponto de vista jurídico,
‘possuidor’ dos bens judicialmente apreendidos, nem por isso se poderá excluir liminarmente a sua legitimação
para deduzir os embargos, dependendo a resposta a tal questão de saber se, na concreta colisão ou conflito de
direitos em causa, o direito invocado pelo terceiro embargante é susceptível de ser oposto e prevalecer sobre o
direito acautelado através do acto de apreensão de bens – inviabilizando-o na sua totalidade ou circunscrevendo-o a
certo âmbito ou extensão, que não poderá ser excedido” (REGO, Lopes do, Comentários ao Código de Processo
Civil, vol. I, 2.ª ed., Almedina, 2004, p. 325).
32
Breves considerações sobre a evolução dos embargos de terceiro
Por outro lado, a ampliação dos fundamentos para a dedução de embargos de terceiro
implicou que a tramitação processual subsequente passasse a seguir os termos do processo
ordinário ou sumário de declaração em função do valor do incidente, circunstância que permitiu
que a decisão final proferida no âmbito dos embargos de terceiro passasse a produzir o efeito de
caso julgado material quanto à existência e à titularidade dos direitos invocados nesse
incidente23. O facto de os embargos de terceiro seguirem a tramitação própria do processo
ordinário ou sumário de declaração, bem como o efeito de caso julgado produzido pela sentença
neles proferida, permite qualificá-los como uma verdadeira acção declarativa, com estrutura e
autonomia próprias24.
No que concerne ao âmbito material dos embargos de terceiro, importa destacar que,
com a alteração legislativa operada pela reforma de 95/96, deixou de ser admissível ao próprio
executado — quando condenado em sentença declarativa ou obrigado em título executivo
extrajudicial — deduzir embargos de terceiro25, sendo certo que o legislador lhe reservou,
enquanto meio processual de tutela do seu direito, a faculdade de deduzir oposição à penhora
(art. 863.º-A do CPC)26.
Por último, impõe-se ainda salientar que, contrariamente ao que sucedia no domínio do
Código de Processo Civil de 1961, a reforma processual de 95/96 veio suprimir a regulação dos
fundamentos para a rejeição dos embargos de terceiro27, já que se passou a considerar que tal
regulação pertencia ao domínio da lei civil e não ao da lei processual adjectiva28.
23
Daqui resulta que, embora sistematizados e qualificados enquanto um incidente da instância, os
embargos de terceiro apresentam uma tramitação processual autónoma e própria (cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de,
«Apreciação de alguns aspectos da Revisão do Processo Civil - Projecto», in ROA, ano 55.º, vol. II, 1995, p. 383).
24
Por esse motivo, LEBRE DE FREITAS considera que são “incorrectas, à luz dos conceitos formados na
doutrina processual, a sua qualificação como incidente (art. 356.º), a referência «às partes primitivas» no art. 357.º
e a expressão «no processo» do art. 351.º-1 (FREITAS, José Lebre de, «Revisão do processo civil», in ROA, ano 55.º,
vol. II, 1995, p. 461).
25
Tal como sucedia no art. 1037.º, n.º 2, parágrafo único, do CPC .
1961
26
Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º, ob.
cit., p. 615.
27
Nos termos do art. 1041.º do CPC , a rejeição dos embargos de terceiro podia basear-se em qualquer
1961
motivo susceptível de comprometer o êxito dos embargos, e, designadamente, no facto de a posse do embargante
se fundar em transmissão feita por aquele contra quem foi promovida a diligência judicial, se fosse manifesto, pela
data em que o acto foi realizado ou por quaisquer outras circunstâncias, que essa transmissão fora efectuada com o
único propósito de o transmitente se subtrair à sua responsabilidade.
33
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
28
Cfr., a este propósito, COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 201, bem como o Ac.
do STJ, de 1 de Fevereiro de 2001, in CJ, tomo I, 2001, p. 95.
29
Cfr., quanto ao alcance da alteração legislativa do art. 819.º do CC, MENDES, Armindo Ribeiro,
«Reclamação de créditos no processo executivo», in Themis, ano IV, n.º 7, 2003.
34
Breves considerações sobre a evolução dos embargos de terceiro
redacção dada ao art. 819.º do CC, pondo termo a profundas divisões doutrinais e
jurisprudenciais, veio determinar a aplicação do regime previsto no art. 824.º, n.º 2, do CC ao
arrendamento constituído ou registado após a penhora, com a consequente impossibilidade de o
arrendatário poder deduzir embargos de terceiro30.
Por outro lado, importa salientar a alteração do art. 831.º do CPC, o qual, sendo relativo
à apreensão de bens em poder de terceiro, passou a consagrar a obrigatoriedade de averiguação
em relação à identidade do credor pignoratício ou do retentor que exerça a sua posse sobre bens
pertencentes ao executado com vista à sua posterior citação para efeito de reclamação de
créditos, circunstância que veio clarificar a impossibilidade destes credores, em regras, poderem
fazer uso de embargos de terceiro com vista à tutela do seu direito de crédito.
30
Cfr., a este propósito, GOMES, Manuel Januário, «Penhora de direitos de crédito – Breves notas», in
Themis, ano V, n.º 9, 2004, pp. 115 e 116.
35
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
36
Fundamento dos embargos de terceiro
CAPÍTULO II
FUNDAMENTO E FINALIDADES DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
SECÇÃO I
FUNDAMENTO DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
Nos termos do art. 817.º do CC, em caso de inadimplemento da obrigação31, isto é, não
sendo a obrigação voluntariamente cumprida32 33, tem o credor o direito de exigir judicialmente o
31
Quanto à noção de “obrigação”, determina o art. 397.º do CC que a obrigação “é o vínculo jurídico por
virtude do qual uma pessoa fica adstrita para com outra à realização de uma prestação”. Nos termos do art. 398.º,
n.º 2, do CC, essa obrigação não necessita de ter valor pecuniário, mas deve corresponder a um interesse do credor
digno de protecção legal. Estando em causa um direito de crédito, a obrigação caracteriza-se por assumir um
carácter relativo e com eficácia inter partes (cfr., nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das
Obrigações, 9.ª ed., Almedina, Coimbra, 2001, p. 79). No sentido de a obrigação se caracterizar pela “circunstância
de determinada pessoa se encontrar adstrita a realizar uma específica conduta, positiva ou negativa, no interesse de
outra, também determinada ou “determinável”, vide LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, 3.ª ed.,
Almedina, 2003, p. 15. Cfr., também, no mesmo sentido, VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em
Geral, vol. I, 10.ª ed., Almedina, Coimbra, 2000, p. 154, segundo o qual a obrigação se traduz no direito a um
comportamento pessoal do devedor, tendo por objecto a acção ou a omissão a que o devedor se encontra adstrito.
32
Nos termos do art. 762.º do CC, o devedor cumpre a obrigação quando realiza a prestação a que está
vinculado, sendo certo que a prestação pode ser efectuada tanto pelo devedor como por terceiro, interessado ou
não no cumprimento da obrigação (art. 767.º, n.º 1, do CC).
33
O não cumprimento, segundo ANTUNES VARELA, consiste na situação objectiva de não realização da
prestação debitória e de insatisfação do interesse do credor, independentemente da causa de onde a falta procede
(cfr. VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. II, reimpr. da 7.ª ed., Almedina, Coimbra,
2003, p. 60).
37
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
seu cumprimento e de executar o património do devedor34 35, sendo certo que o património do
devedor constitui a garantia geral36 do cumprimento das suas obrigações (art. 601.º do CC)37 38 39,
34
A este propósito dispõe o art. 2910 do CC It., sob a epígrafe «Oggetto dell'esproprazione» que, “[I]l
creditore, per conseguire quanto gli é dovuto, può fare espropriare i beni del debitore, secondo le regole stabilite dal
codice di procedura civile”. Por sua vez, dispõe o art. 2191 do CC Fr., na redacção que lhe foi dada pela
Ordonnance nº 2006-461 du 21 Avril 2006, que “[T]out créancier muni d'un titre exécutoire constatant une créance
liquide et exigible peut procéder à une saisie immobilière dans les conditions fixées par le présent chapitre et par les
dispositions qui ne lui sont pas contraires de la loi du 9 juillet 1991 portant réforme des procédures civiles
d'exécution.
35
Quanto à responsabilidade patrimonial do devedor, refere ANGEL FERNANDEZ o seguinte: “Producido el
incumplimiento, el Derecho desconfia del deudor —o, al menos, de su voluntad de pagar—, y vuelve los ojos a sua
patrimonio, que sigue siendo la garantía última y más sólida de la satisfacción de sus acreedores (…). En la
situación jurídica de responsabilidad —y esta es su nota característica — es el patrimonio del deudor el que está
sometido directa e inmediatamente —aunque com condiciones— a la actuación del Juez ejecutor” (cfr. ANGEL
FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, Editorial Centro de Estúdios Ramon Areces, S.A., Madrid, 1996,
p. 25).
36
Quanto à delimitação do âmbito deste conceito, vide VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. II,
ob. cit., p. 420.
37
Trata-se, com efeito, de uma responsabilidade ilimitada, porquanto o cumprimento da obrigação é
garantido pela totalidade dos bens que integrem o seu património ao tempo da execução, respondendo ainda os
bens que tenham sido adquiridos em momento posterior à constituição da obrigação (cfr., nesse sentido, COSTA,
Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., p. 784).
38
No direito italiano, o art. 2910. do CPC It. determina, quanto ao objecto da acção executiva, que “[I]l
creditore, per conseguire quanto gli é dovuto, può fare espropriare i beni del debitore, secondo le regole stabilite dal
codice di procedura civile”. Em conjugação com esta disposição legal, preceitua o art. 483. do CPC It. que “Il
creditore puo' valersi cumulativamente dei diversi mezzi di espropriazione forzata previsti dalla legge, ma, su
opposizione del debitore, il giudice dell'esecuzione, con ordinanza non impugnabile, può limitare l'espropriazione al
mezzo che il creditore sceglie o, in mancanza, a quello che il giudice stesso determina. Por sua vez, quanto à
garantia geral das obrigações, preceitua o art. 2740. do CC It. que “Il debitore risponde dell'adempimento delle
obbligazioni con tutti i suoi beni presenti e futuri”.
No âmbito do direito espanhol, vide o art. 1911. do Cc Es., o qual determina que “Del cumplimiento de las
obligaciones responde el deudor con todos sus bienes, presentes y futuros.
3939
Regra geral, todos os bens do devedor que integram o seu património respondem pelo cumprimento da
obrigação, verificando-se, deste modo, que esse património constitui uma garantia geral que se torna efectiva
através das diligências executivas (cfr. LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. I, 4.ª ed. rev. e
actual., Coimbra Editora, Coimbra, 1987, p. 617). No entanto, a regra da garantia geral das obrigações quanto ao
património do devedor não tem natureza absoluta, dado que existem determinados bens de devedor que, ainda que
38
Fundamento dos embargos de terceiro
integrem o seu património, são insusceptíveis de penhora. Na verdade, o legislador, tendo em conta a necessidade
de ponderação entre a tutela absoluta dos interesses do exequente e a necessidade de protecção de interesses
sociais, económicos e religiosos, optou pelos segundos, tendo previsto a existência de bens absolutamente
impenhoráveis, ou seja, insusceptíveis de penhora a qualquer título, nomeadamente quando se trate de bens que se
revelem imprescindíveis para a economia doméstica (art. 822.º do CPC), bem parcialmente penhoráveis, isto é,
bens que só respondem pelo património do executado em situações particulares (art. 823.º do CPC), e bens
parcialmente penhoráveis, ou seja, bens que só podem ser penhorados de forma fraccionada ou parcelar (art. 824.º
do CC).
40
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRC, de 5 de Março de 1996, in BMJ, 455.º, p. 577: “A regra
consagrada no art. 601.º, n.º 1, do Cód. Civil é de que constituem garantia comum dos credores todos os bens do
devedor que sejam exequíveis. Tal garantia só em casos excepcionais é que poderá ser afastada, havendo, por isso,
que equacionar ponderadamente, em concreto, se devem prevalecer as motivações de ordem pública que
determinaram a previsão da impreensibilidade relativa, ou antes o princípio da confiança e da boa-fé, postulado no
princípio geral de que o património penhorável é a garantia do cumprimento da obrigação.”
41
ANTUNES VARELA considera que, em rigor, a acção executiva não permite ao credor obter a soma
necessária ao “cumprimento da obrigação”, mas sim à “indemnização dos danos que a falta de cumprimento lhe
causou” (VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. II, ob. cit., p. 8).
42
Trata-se, na verdade, do princípio da proibição da auto-defesa, o qual confere ao titular do direito
ameaçado ou violado a possibilidade de recorrer aos tribunais com vista a fazê-lo reconhecer em juízo, a prevenir ou
reparar a violação dele e a realizá-lo coercivamente (arts. 1.º e 2.º do CPC).
43
A este propósito, refere CALAMANDREI que, embora o direito subjectivo represente a preferência dada
pela lei ao interesse individual, isso não significa que quem esteja investido nessa preferência possa empregar a
força própria para fazer valer o seu direito (PIERO CALAMANDREI, Instituzioni di Diritto Processuale Civile, 2.ª ed.
actual., CEDAM, Pádua, 1943, p. 222).
44
Cfr., quanto ao conceito e à estrutura do direito de crédito, LEITÃO, Luís Menezes, Direito das
Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 69.
39
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
executiva45, situação em que o tribunal se substitui ao devedor (art. 4.º, n.º 3, do CPC) 46 47. Trata-
se, com efeito, de uma verdadeira acção creditória já que permite ao credor socorrer-se de um
conjunto de providências destinadas a garantir a efectivação do seu direito de crédito48 49. Na
verdade, ao contrário do que sucede na acção declarativa, a qual visa, essencialmente, a
45
Embora o recurso à acção executiva seja o meio normalmente utilizado para a obtenção coactiva da
satisfação do direito do credor, tal circunstância não impede o recurso à acção directa como meio de o credor obter
o cumprimento da obrigação (art. 336.º do CC) — cfr., nesse sentido, LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil
Anotado, vol. II, ob. cit., p. 89.
46
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, 4.ª ed., Coimbra Editora, 2004, p. 16.
47
À luz do art. 45.º, n.º 2, do CPC, a acção executiva, em resultado da obrigação constante do título
executivo (art. 46.º do CPC) pode assumir uma de três finalidades: pagamento de uma quantia certa, entrega de
coisa certa e prestação de facto (positivo ou negativo).
A acção executiva para pagamento de quantia certa (arts. 810.º a 922.º-C do CPC) pressupõe a existência
de uma dívida pecuniária, pelo que o credor pretende obter coercivamente o cumprimento dessa obrigação à custa
da execução do património do devedor (art. 817.º do CC). Deste modo, a penhora desempenha um papel
fundamental nesta modalidade de acção executiva, porquanto, através da apreensão e posterior venda dos bens do
executado, o exequente consegue obter a satisfação patrimonial do seu crédito.
Por sua vez, na acção executiva para entrega de coisa certa (arts. 928.º a 931.º do CPC e 827.º do CC), o
exequente, sendo titular do direito à entrega de uma coisa determinada — com base numa obrigação ou num direito
real — que se encontra na posse do executado, requer ao tribunal que este a apreenda coercivamente para que
posteriormente a entrega lhe seja feita.
Por último, na acção executiva para prestação de facto (arts. 933.º a 942.º do CPC), estando em causa a
violação de um dever de acção, isto é, a prestação de um facto positivo e sendo este fungível (art. 828.º do CC), o
credor pode requerer, em execução, a sua prestação por outrem à custa dos bens do devedor, ou, em
contrapartida, estando em causa a prestação de um facto infungível, o pagamento (através da apreensão e posterior
venda dos bens do executado) de uma indemnização pelo dano sofrido com o incumprimento. Por outro lado, se
estiver em causa a violação de uma obrigação quando esta tenha por objecto a prestação de um facto negativo (art.
829.º, n.º 1, do CC), o exequente pode requerer a demolição da obra que tenha sido realizada (quando o devedor
estava obrigado a não praticar algum facto e o tenha vindo a praticar), ou o pagamento de uma indemnização pelo
prejuízo sofrido (art. 829.º, n.º 2, do CC) ou de uma quantia devida a título de sanção pecuniária compulsória a que
o devedor já tenha sido condenado (art. 941.º do CPC).
48
Cfr., nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., p. 134.
49
Quanto ao direito de crédito, MENEZES LEITÃO sustenta que este tem por objecto a prestação, negando
a existência de qualquer direito do credor sobre o património do devedor. Nesta medida, a obrigação não se traduz
num direito sobre os bens do devedor, sendo antes um “vínculo pessoal entre dois sujeitos, através do qual um
deles pode exigir que o outro adopte determinado comportamento em seu benefício” (cfr. LEITÃO, Luís Menezes,
Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 91).
40
Fundamento dos embargos de terceiro
50
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 9.
51
Vide, a este propósito, o § 803 do ZPO, segundo o qual a execução coactiva sobre o património do
devedor é realizada através da penhora dos seus bens.
52
Cfr. os arts. 822.º do CPC (bens absolutamente impenhoráveis), 823.º do CPC (bens relativamente
impenhoráveis) e 824.º do CPC (bens parcialmente penhoráveis). Vide, a este propósito, o § 811 do ZPO, o qual
determina quais os bens insusceptíveis de penhora no direito alemão.
53
No que concerne às dívidas próprias, comunicáveis ou comuns dos cônjuges, o legislador atende à
existência de patrimónios distintos — próprio e comum — para os fazer responder de forma distinta consoante o
regime de responsabilidade pela dívida.
54
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 206.
55
Cfr. FERREIRA, Fernando Amâncio, Curso de Processo de Execução, 5.ª ed. rev. e actual., Almedina,
p. 163.
56
Quanto à instrumentalidade da penhora e à sua função individualizadora, cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de,
Acção Executiva Singular, Lex, Lisboa, 1998, p. 197, segundo o qual “a penhora destina-se a individualizar os bens
e direitos que respondem pelo cumprimento da obrigação pecuniária através da acção executiva.”
41
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
ou alienados em prejuízo da execução”57. Trata-se, no fundo, de um acto que tem por finalidade
principal a afectação de determinados bens que integram o património do devedor com vista à
realização das finalidades da execução58.
Deste modo, a penhora constitui o acto central do processo executivo porquanto tem por
finalidade o cumprimento coactivo da obrigação através da oneração de bens que fazem parte
integrante do património do devedor59, constituindo a favor do exequente o direito de ser pago
com preferência em relação a qualquer outro credor que não tenha uma garantia real anterior
(art. 822.º do CC)60. Para esse efeito, a penhora implica, em regra, a apreensão efectiva do
bem61, assim como a limitação dos poderes de gozo do executado sobre o bem.
57
LIEBMAN, Enrico Tullio, Processo de Execução, 2.ª ed., S. Paulo, 1963, p. 88.
58
Neste sentido, cfr. ANGEL FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 80
59
A este propósito, o Tribunal Constitucional de Espanha, pela sentença 85/1991, de 22 de Abril, (apud
ANGEL FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 80), decidiu que “el embargo de los bienes del
deudor solo puede recaer sobre los que esta tenga realmente incorporados en su património en tal momento”
60
Tal como salientam PIRES DE LIMA E ANTUNES VARELA, não revestindo actualmente o processo
executivo a configuração de uma execução universal, ao contrário do que se verifica, e.g., no processo de
insolvência, e justo que o credor que se revelou mais diligente na execução do património do devedor adquira pela
penhora uma preferência de pagamento em relação aos demais credores, não deixando de ser relevante a
circunstância de a penhora obtida por um dos credores, ao determinar a inoponibilidade de qualquer acto de
disposição, oneração ou arrendamento dos bens penhorados, representar um benefício para os demais credores,
que, assim, vêem o património do devedor assegurado (LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol.
II, 4.ª ed. rev. e actual., Coimbra Editora, 1997, p. 95).
61
Na verdade, nos termos do art. 840.º do CPC, estando em causa a penhora de um bem imóvel, em
regra o depositário deve tomar posse efectiva desse bem, salvo quando se verifique alguma das situações previstas
no art. 839.º, n. 1 e 2, do CPC. De igual modo, a penhora de bens móveis não sujeitos a registo é realizada com a
os
apreensão efectiva dos bens e a sua imediata remoção para depósitos, assumindo o agente de execução que
efectuou a diligência a qualidade de fiel depositário — art. 848.º do CPC (cfr., quanto às funções de fiel depositário
no actual processo executivo, REGO, Carlos Lopes do, «As funções e o estatuto processual do agente de execução e
seu reflexo no papel dos demais intervenientes no processo executivo», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 53). Por
sua vez, estando em causa a penhora de bens móveis sujeitos a registo ― maxime, o caso mais frequente dos
veículos automóveis ―, o bem deve ser imobilizado e os respectivos documentos apreendidos, sem prejuízo de se
verificar ainda a remoção do veículo automóvel quando tal se afigure necessário ou, em caso de falta de oposição à
penhora, quando essa diligência se revele conveniente (art. 851.º, n.º 2, do CPC). De destacar ainda a situação
particular da penhora de títulos de crédito, caso em que essa diligência se realiza com a apreensão efectiva do título
(art. 857.º do CPC).
42
Fundamento dos embargos de terceiro
Em princípio, a penhora apenas pode recair sobre bens pertencentes ao devedor e que
se encontrem na sua posse (art. 821.º, n.º 1, do CPC). No entanto, pode suceder que a penhora
bens imóveis em que deve ser nomeado como fiel depositário o próprio executado, o arrendatário ou o retentor.
Cfr., no âmbito do direito processual civil alemão, o § 866 do ZPO, segundo o qual a penhora de um bem imóvel é
realizada por meio da sua inscrição no registo.
62
FREDERICO CARPI; MICHELE TARUFFO, Commentario Breve al Codice di Procedura Civile, Cedam,
Pádua, 2002, p. 1841.
43
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
venha recair sobre bens que se encontrem na posse de um terceiro não devedor63, quando a lei
assim o autorize de forma expressa. Para o efeito, é necessário que esses bens se encontrem
vinculados à garantia do crédito64, isto é, sobre eles deve incidir algum direito real para garantia
do crédito do exequente, e, por outro lado, é imprescindível que a execução tenha sido movida
contra esse terceiro (art. 821.º, n.º 2, do CPC). Além disso, é ainda legalmente admissível a
penhora de bens de terceiro quando tenha sido julgada procedente uma acção de impugnação
pauliana por se ter verificado a prática de um acto de disposição de bens pelo devedor a favor de
um terceiro com o único propósito de defraudar os interesses do credor (art. 818.º do CC)65 66.
Deste modo, a regra principal quanto à execução do património em sede executiva é a
de que nunca podem ser penhorados bens que não pertençam ao executado, seja este o
devedor principal, um devedor subsidiário ou solidário ou um terceiro67. Na verdade, tal como
salienta TEIXEIRA DE SOUSA, a responsabilidade patrimonial não pode ser efectivada sem a
demanda do titular do património responsável na acção executiva68.
63
Tal circunstância pode suceder, designadamente, quer quando sobre o bem que se encontra na posse
de um terceiro incide um direito real de garantia (art. 818.º, n.º 1, do CC), quer quando o bem pertence
efectivamente ao executado, mas, por algum motivo, se encontra na posse efectiva de um terceiro, o qual pode ser
o possuidor exclusivo ou um co-possuidor (ex. em regime de compropriedade ou no caso de cônjuges casados em
regime de comunhão de bens) — vide, nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de
terceiros», in ROA, ano 51.º, vol. I, 1991, pp. 71 e ss.
64
Cfr. LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. II, ob. cit., p. 90: “Os bens de terceiro
podem estar vinculados à garantia do crédito, não só no caso de ter sido prestada uma fiança, como no de ter sido
constituída uma garantia real”. Quanto à constituição de uma garantia real sobre os bens do devedor, cfr. os arts.
657.º, n.º 2, 666.º e 686.º, n.º 1, todos do CC. Quanto à prestação de fiança, vide o art. 627.º, n.º 1, do CC. Caso
o credor pretenda agredir o património de um terceiro que se encontre onerado com garantia real para a tutela do
seu crédito, a acção executiva deve ser movida contra o terceiro (art. 56.º, n.º 2, do CPC), sob pena de ser
admissível a dedução de embargos de terceiro em caso de penhora desses bens onerados sem que o terceiro tenha
sido demandado para a execução.
65
Nos termos do art. 616.º do CC, sendo julgada procedente a acção de impugnação pauliana (actio
Pauliana), o credor tem o direito à restituição dos bens e de os executar no património do terceiro adquirente. Na
verdade, a finalidade desta acção é a de assegurar a conservação da garantia patrimonial através da impugnação de
qualquer alienato in fraudem creditorem (cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 225).
66
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 21 de Novembro de 1979, in BMJ, 291.º, p. 429.
67
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 209.
68
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 222.
44
Fundamento dos embargos de terceiro
69
De todo o modo, ainda que o executado/devedor tenha transmitido os seus bens para terceiros com o
único propósito de defraudar os seus credores, estes apenas podem afectar pela penhora esses mesmos bens se
tiver sido deduzida com êxito uma acção de impugnação pauliana (cfr. o Ac. do TRP, de 3 de Outubro de 1996,
proc. 0632837, in [Link]).
70
Em oposição com a solução adoptada no processo civil português, dispõe o art. 593., n. 2, da LEC, que
“[C]uando, por percepción directa o por manifestaciones dele ejecutado e de otras personas, el tribunal tuviera
raciones para entender que los bienes que se propone trabar pueden pertenecer a un tercero, ordenará mediante
providencia que se le haga saber la inminencia de la traba. Si, en el plazo de cinco dias el tercero no compareciere
o no diere razones, el tribunal dictara providencia mandando trabar los bienes, a no ser que las partes, dentro del
mismo plazo concedido al tercero, hayan manifestado al tribunal su conformidad em qie no se realice el embargo.
Si ele tercero se opusiere razonadamente al embargo aportando, en su caso, los documentos que justifiquen su
derecho, el tribunal, oídas las partes, resolverá lo que proceda.”
71
Paralelamente aos embargos de terceiro, a tercería de domínio no sistema processual civil espanhol tem
por objectivo impedir a venda executiva de bens que não pertencem ao devedor (cfr. ANGEL FERNANDEZ, Miguel,
Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 372).
45
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
3. EFEITOS DA PENHORA
Nos termos do art. 819.º do CC, sem prejuízo das regras do registo72, são inoponíveis à
execução os actos de disposição, oneração ou arrendamento73 dos bens penhorados74 75 76. Visa-se
72
Cfr. a sentença da CSC It., proc. 9740/1992, segundo a qual, estando em causa a penhora de bens
imóveis ou de bens móveis sujeitos a registo, não produzem efeito, em prejuízo do credor exequente e dos credores
intervenientes na execução, os actos de alienação dos bens penhorados se não se encontrarem registados antes da
penhora. Deste modo, nessa sentença foi decidido que o adquirente de um bem imóvel, que registou o título de
aquisição em momento anterior à inscrição do registo da penhora, tem legitimidade para deduzir oposição de
terceiro de modo a poder fazer valer o seu direito sobre o bem objecto da acção executiva.
73
Vide, a este propósito, o Ac. do STJ, de 25 de Novembro de 1975, in BMJ, 251.º, p. 163, no qual se
decidiu que o arrendamento feito pelo executado após a penhora está sujeito ao regime da ineficácia relativa
estatuído para os negócios de alienação e oneração de bens penhorados. Por outro lado, importa referir ainda que,
no regime anterior à reforma da acção executiva de 2003, esta disposição preceituava a inoponibilidade apenas em
relação ao exequente e não relativamente à execução.
74
A este propósito, determina o art. 2913. do CC It., sob a epígrafe (Inefficacia delle alienazioni del bene
pignorato), que “[N]on hanno effetto in pregiudizio del creditore pignorante e dei creditori che intervengono
nell'esecuzione gli atti di alienazione dei beni sottoposti a pignoramento, salvi gli effetti del possesso di buona fede
per i mobili non iscritti in pubblici registri.”
75
Em termos de direito comparado, o regime substantivo francês é mais penoso para o devedor quanto
aos efeitos da penhora de bens imóveis, dado que, tal como determina o art. 2198 do CC Fr., “[L]a saisie rend
l'immeuble indisponible et restreint les droits de jouissance et d'administration du débiteur. Le bien ne peut être
aliéné ni grevé de droits réels par le débiteur sous réserve des dispositions de l'article 2201". Quanto ao
arrendamento de bens imóveis penhorados, o regime da ineficácia do arrendamento constituído em momento
46
Fundamento dos embargos de terceiro
com semelhante normativo legal impedir a disposição ou oneração dos bens penhorados através
da prática de um acto de que resulte a diminuição das garantias do credor77.
Com efeito, embora a penhora determine a perda dos poderes de gozo sobre a coisa
penhorada, o executado conserva, no entanto, os poderes de disposição ou de oneração78. Tal
circunstância resulta do facto de o legislador pretender assegurar que a coisa penhorada se
conserve na esfera jurídica do executado, procurando, contudo, impedir que o bem onerado seja
excluído da venda executiva em virtude de um acto dispositivo do devedor executado79. Nessa
exacta medida, embora o acto dispositivo subsequente à penhora seja válido80, este acto,
contudo, é ineficaz relativamente à execução81 82 83
, já que se lhe fosse conferida uma eficácia
plena, a finalidade principal da penhora, isto é, a apreensão dos bens do executado com vista à
posterior à penhora consagrado no art. 819.º do CC encontra o seu paralelo no art. 2199 do CC Fr., ao abrigo do
qual “[L]es baux consentis par le débiteur après la saisie sont, quelle que soit leur durée, inopposables au créancier
poursuivant comme à l'acquéreur. La preuve de l'antériorité du bail peut être faite par tout moyen."
76
Cfr. o Ac. do STJ, de 11 de Março de 2003, proc. 443/03 - 6.ª secção, in [Link]: “Qualquer acto
de disposição ou oneração do estabelecimento comercial penhorado, designadamente o seu arrendamento, é
ineficaz em relação à execução (art.º 819 do CC).”
77
A este propósito, ALMEIDA COSTA sustenta que a penhora não constitui, em rigor, um direito real de
garantia, mas tão só um acto processual que visa criar a indisponibilidade dos bens adstritos à execução (cfr.
COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., p. 919).
78
Vide, a este propósito, FERREIRA, Fernando Amâncio, Curso de Processo de Execução, ob. cit., p. 242.
79
Cfr., a este propósito, PINTO, Rui, Penhora, Venda e Pagamento, Lex, Lisboa, 2003, p. 49.
80
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 11 de Maio de 2000, proc. 357/2000 – 7.ª secção, in [Link].
81
Trata-se, na verdade, de uma inoponibilidade relativa, dado que a alienação ou oneração dos bens
penhorados é tratada, em relação à execução, como se não se tivesse verificado. Por outro lado, essa
inoponibilidade relativa verifica-se apenas na exacta medida em que seja necessária à prossecução dos fins da
execução (cfr., neste sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., pp. 240 e 241).
82
Ao contrário do que sucede no sistema processual português, no processo civil espanhol, se o bem
penhorado tiver sido alienado a um terceiro, esse acto de disposição do bem, ainda que válido, é apenas ineficaz
em relação ao exequente.
83
Tal como salienta VAZ SERRA, a alienação dos bens penhorados só deve considerar-se inadmissível
enquanto ofender os interesses da execução, pelo que se revela suficiente a ineficácia da disposição dos bens
penhorados para se garantir o fim da execução (SERRA, Adriano Vaz, «Realização coactiva da prestação», in BMJ,
73.º, p. 147).
47
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
84
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 266. Vide, a este propósito, o
Ac. do STJ, de 2 de Dezembro de 1975, in BMJ, 252.º, p. 123, no qual se decidiu que “a penhora de um prédio
provoca a inoponibilidade ao processo executivo do arrendamento celebrado pelo executado.”
85
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 13 de Maio de 2003, proc. 0322275, in [Link], segundo o
qual “Penhorado o quinhão do executado sobre um prédio em regime de compropriedade, a atribuição do direito de
propriedade desse prédio a outro comproprietário, em acção de divisão de coisa comum, sem o acordo do
exequente, é inoponível a este, devendo prosseguir a execução sem alteração da penhora efectuada.”
86
Nesta medida, tal como salientam PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA, deste princípio da
inoponibilidade em relação à execução resulta que o devedor pode alienar, onerar ou arrendar livremente os seus
bens penhorados, embora a execução prossiga os seus termos como se os bens pertencessem ao executado e na
situação jurídica reportada à data da penhora (LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. II, 4.ª ed.
rev. e actual., Coimbra Editora, 1997, p. 91).
87
Saliente-se que não é lícito ao terceiro invocar a sua boa-fé na aquisição, isto é, um desconhecimento
desculpável de que o bem em causa se encontrava penhorado, porquanto no nosso ordenamento jurídico a posse
não vale título (cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 243).
88
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 15 de Dezembro de 1998, proc. 98A880, in [Link],
segundo o qual “[O] executado pode livremente alienar os bens penhorados, embora a execução prossiga como se
esses bens pertencessem ao executado.”
89
Quanto aos efeitos da venda executiva da coisa no direito italiano, vide o art. 2919. do CC It., segundo o
qual “La vendita forzata trasferisce all'acquirente i diritti che sulla cosa spettavano a colui che ha subito
l'espropriazione, salvi gli effetti del possesso di buona fede. Non sono però opponibili all'acquirente diritti acquistati
da terzi sulla cosa, se i diritti stessi non hanno effetto in pregiudizio del creditore pignorante e dei creditori
intervenuti nell'esecuzione.”
90
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 2 de Novembro de 2004, proc. 2966/04 – 6.ª secção, in
[Link].
91
Vide, no mesmo sentido, o art. 2200.º do CC Fr., ao abrigo do qual “[L]es aliénations non publiées ou
publiées postérieurement sont inopposables au créancier poursuivant comme à l'acquéreur dans les conditions
48
Fundamento dos embargos de terceiro
prévues à l'article 2201, sauf consignation d'une somme suffisante pour acquitter en principal, intérêts et frais, ce
qui est dû aux créanciers inscrits ainsi qu'au créancier poursuivant ; la somme ainsi consignée leur est affectée
spécialement.”
92
Cfr., nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 243, bem como
COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 214.
94
Cfr. o Ac. do STJ, de 7 de Junho de 2001, proc. 1541/01 – 7.ª secção, segundo o qual a
indisponibilidade absoluta dos bens penhorados implica que, em embargos de terceiro, não há ofensa da posse se
esta se fundar numa alienação posterior à penhora do bem objecto da posse.
95
Ac. do STJ, de 15 de Dezembro de 1998, proc. 880/98 – 1.ª secção, in [Link].
96
Vide, nesse sentido, FREDERICO CARPI; MICHELE TARUFFO, Commentario Breve al Codice di
Procedura Civile, ob. cit., p. 1841.
49
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
A penhora implica a perda do poder de gozo sobre a coisa penhorada pelo executado,
verificando-se a sua transferência para o tribunal, o qual exercerá esse poder através de um
depositário. Na verdade, com a apreensão efectiva do bem penhorado (art. 848.º do CPC)
97
Cfr., a este propósito, o § 804 do ZPO relativamente ao direito de preferência adquirido pelo credor em
consequência da penhora dos bens do devedor, bem como o art. 2741. do CC It., o qual consagra o princípio par
conditio creditorum, a não ser que exista alguma causa legítima de preferência, ou seja, um privilégio, um penhor
ou uma hipoteca.
98
COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, 3.ª ed., Almedina, 2005, p. 26.
99
Cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 251.
50
Fundamento dos embargos de terceiro
verifica-se a cessação da posse pelo executado e o início de uma nova posse pelo tribunal,
embora seja efectivamente exercida pelo fiel depositário100.
Assim, em consequência da penhora, o executado vê afectado, quer o seu poder de
disposição da coisa, quer o poder de fruição que integra o direito de propriedade.
100
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 264. Vide, também, o
ensinamento de AMÂNCIO FERREIRA: “Mesmo que o executado fique depositário dos bens, o seu poder de fruição
já não é o que lhe pertencia como proprietário, por ficar sujeito às limitações e responsabilidades impostas aos
depositários (FERREIRA, Fernando Amâncio, Curso de Processo de Execução, ob. cit., p. 246).
51
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
52
Finalidades dos embargos de terceiro
SECÇÃO II
FINALIDADES DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
101
Cfr. o Ac. do STJ, de 5 de Fevereiro de 1991, proc. 079941, in [Link].
102
O uso dos embargos de terceiro previsto no art. 351.º do CPC não se restringe às diligências de
“apreensão ou entrega de bens”, podendo ter lugar quando outras medidas judiciais sejam ofensivas da posse e
propriedade ou de qualquer outro direito de terceiro (cfr. o Ac. do TRP, de 23 de Outubro de 2001, proc. 0121032,
in [Link]).
103
Para além do prazo peremptório de 30 dias para a dedução dos embargos de terceiro, este incidente
encontra-se ainda temporalmente limitado pelo facto de só poder ser deduzido até à venda judicial ou adjudicação
do bem objecto dos embargos (art. 353.º, n.º 1, do CPC).
53
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Os embargos de terceiro podem também ser deduzidos com uma finalidade preventiva.
Tal circunstância verifica-se quando este meio de oposição é deduzido para impedir que o
embargante seja esbulhado da sua posse ou veja o seu direito ofendido, antes de realizada, mas
depois de ordenada, a diligência de apreensão ou de entrega de bens que se revele ofensiva (art.
359.º, n.º 1, CPC)107. Neste caso, a diligência não pode ser realizada sem que antes seja
proferida uma decisão judicial na fase introdutória dos embargos, sendo certo que sua a
admissão, ainda que provisória, implica que a diligência judicial fique suspensa até ao
proferimento de uma decisão final108, embora o juiz possa determinar que o embargante preste
caução (art. 359.º, n.º 2, CPC)109. Nesta exacta medida, os embargos de terceiro com finalidade
104
“La tercería de domínio tiene por finalidad principal, no ya la recuperación del bien, que de ordinario
está poseído por el propio tercerista, sino el levantamiento del embargo trabado sobre el mismo (...), sustrayendo de
un procedimiento de apremio bienes no pertenecientes al patrimonio del apremiado por no ser aquellos los
llamados a responder de las deudas contraídas por el ejecutado (sentença de 16 de Fevereiro de 1990, do Tribunal
Supremo de Espanha). Por sua vez, por sentença de 10 de Maio de 2004, veio aquele tribunal determinar que “[L]a
finalidad específica de la acción de tercería de dominio es obtener el alzamiento de un embargo que se ha
constituido sobre los bienes del tercerista en un proceso de ejecución que se sigue contra otra persona”.
105
Essa restituição provisória da posse deve ser requerida pelo embargante, não podendo ser concedida
oficiosamente pelo tribunal (cfr. o Ac. do TRL, de 13 de Fevereiro de 2007, proc. 0007392, in [Link]). Caso
um terceiro se sinta prejudicado com a penhora de um bem em sede executiva e pretenda a restituição imediata
desse bem, deve deduzir embargos de terceiro e aí requerer a sua restituição provisória (cfr. o Ac. do TRP, de 31 de
Outubro de 2002, proc. 0231439, in [Link]).
106
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 301.
107
Neste caso, os embargos de terceiro apresentam-se sob a fisionomia de uma acção possessória de
prevenção (cfr. nesse sentido REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 400).
108
Cfr. o Ac. do STJ, de 20 de Janeiro de 2000, in CJ, tomo I, 2000, p. 43.
109
Cfr. o Ac. do TRP, de 15 de Junho de 1998, in BMJ, 478.º, p. 453.
54
Finalidades dos embargos de terceiro
preventiva, atenta a sua finalidade e configuração, devem ser deduzidos entre a data em que foi
proferida a decisão que permite a realização da diligência ofensiva da posse ou do direito
incompatível e o momento em que essa decisão será executada, sendo certo que a dedução de
embargos de terceiro a partir deste momento assumirá uma natureza repressiva110.
110
Cfr. o Ac. do TRL, de 17 de Abril de 2007, proc. 711/2007, in [Link].
55
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
56
Meios de reacção à penhora: Figuras afins aos embargos de terceiro
CAPÍTULO III
MEIOS DE REACÇÃO À PENHORA:
FIGURAS AFINS AOS EMBARGOS DE TERCEIRO
O art. 848.º do CPC determina, no seu n.º 1, que a penhora de coisas móveis não
sujeitas a registo é realizada com a apreensão efectiva dos bens e a sua imediata remoção para
depósitos. Nos termos do n.º 2 da aludida disposição legal, presume-se pertencerem ao
executado os bens móveis encontrados em seu poder111 112 113
, pelo que esta norma demonstra
claramente a adopção de um modelo executivo favor creditoris.
De todo o modo, embora exista a presunção de que os bens encontrados em poder do
executado lhe pertencem, uma vez realizada a penhora essa presunção pode ser ilidida perante
o juiz através da apresentação de prova documental inequívoca do direito de terceiro114, sem
prejuízo da possibilidade de recurso aos embargos de terceiro115.
111
De acordo com LEBRE DE FREITAS, os bens móveis encontram-se em poder do executado quando este
exerça sobre eles posse ou detenção, bem como nos casos em que esses bens se encontrem na sua esfera de
controlo (FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 276).
112
De acordo com o § 808 do ZPO, a penhora de coisas corpóreas que se encontrem na posse do
executado efectua-se de forma a que o oficial de justiça tome a posse efectiva delas, situação que implica um
desapossamento por parte do executado. No entanto, quando estejam em causa outros bens que não sejam
dinheiro, objectos preciosos ou títulos de valores, estes devem ficar na posse do executado, a não ser que a não
efectivação da apreensão coloque em perigo a satisfação do crédito exequendo. De todo o modo, ainda que as
coisas fiquem na posse do executado, deve ser assegurada a publicitação da realização da penhora, nomeadamente
pela colocação de selos ou através de outro modo que garanta essa publicidade.
113
Cfr., a este propósito, SILVA, Paula Costa e, «As garantias do executado», in Themis, ano IV, n.º 7,
2003, p. 209.
114
Nos termos do art. 621.º do CPC It, os bens que se encontrem em casa do executado ou no lugar onde
este desenvolva a sua actividade profissional ou comercial presumem-se pertencerem-lhe, sendo certo que o
57
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
terceiro não pode ilidir essa presunção através de prova testemunhal. Na verdade, essa restrição probatória visa
impedir qualquer possibilidade de conluio entre o devedor e o terceiro de forma a impedirem a realização do crédito
exequendo. Chamada a pronunciar-se sobre a constitucionalidade desta norma, a Corte Constitucional Italiana
decidiu que a norma em causa não viola o Princípio da Igualdade, já que, encontrando o seu fundamento na
garantia de efectividade dos actos executivos, permite tutelar o direito de crédito contra eventuais formas de
simulação fraudulenta (FREDERICO CARPI; MICHELE TARUFFO, Commentario Breve al Codice di Procedura Civile,
ob. cit., p. 1859). Contudo, esta norma admite excepcionalmente a possibilidade de recurso à prova testemunhal
sempre que a existência do direito do terceiro seja verosímil atenta a actividade profissional ou comercial exercida
pelo terceiro ou pelo devedor.
Por outro lado, importa salientar que, ao contrário do sistema processual português que vincula o meio
probatório admissível à “prova documental inequívoca”, o sistema processual italiano parte do inverso, dado que
apenas não admite a prova testemunhal, nada impedindo que o terceiro se possa servir de um outro meio de prova,
como será o caso da prova através de presunção ou com base em acto notório.
115
No seu regime anterior a lei previa a possibilidade de ser exercido o direito de protesto no próprio acto
da penhora (art. 832.º). Com efeito, em caso de dúvida quanto à propriedade dos bens encontrados em posse do
executado, o funcionário judicial não devia proceder à penhora dos bens, sendo certo que tal regime, como salienta
LEBRE DE FREIRAS, era contrário ao regime legal previsto nos arts. 1251.º e 1268.º, ambos do CC, o qual só podia
ser ilidido mediante prova em contrário, não sendo suficiente o mero estado de dúvida ou de incerteza (FREITAS,
Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 275). Caso o funcionário judicial ficasse convencido de
que os bens pertenciam efectivamente ao executado, nesse caso devia proceder à penhora dos mesmos, sendo
certo que, em tal caso, o terceiro poderia sempre deduzir embargos contra a penhora. Em contrapartida, se o
funcionário judicial entendesse que os bens não pertenciam efectivamente ao executado, devia abster-se de os
penhorar e mencionar esse facto no auto de diligência, o qual, por sua vez, era notificado ao exequente para que
este se pudesse pronunciar.
Quanto ao sentido desta norma, LOPES CARDOSO entendia que o legislador pretendia evitar que o terceiro
se visse forçado a passar por incómodos e despesas judiciais no caso de se mostrar evidente que os bens, não
obstante se encontrarem em poder do executado, não lhe pertenciam (CARDOSO, Eurico Lopes, Manual da Acção
Executiva, ob. cit., p. 379).
116
O direito de protesto apenas podia ser exercido pelo próprio executado ou por alguém em seu nome,
ficando pois vedada essa possibilidade ao terceiro que se arrogasse proprietário ou titular de um direito real menor
de gozo sobre os bens penhorados (criticando essa solução legal vide MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo
Executivo à Face do Código Revisto, Almedina, 2000, p. 303). Na verdade, tal entendimento era sufragado
58
Meios de reacção à penhora: Figuras afins aos embargos de terceiro
documental inequívoca118 de que esses bens pertencem a um terceiro119, isto é, a quem não seja
parte na execução, ou de que o terceiro tem sobre eles um direito real menor de gozo120.
No que concerne ao âmbito material deste meio de reacção à penhora, o terceiro vê-se
confrontado com um duplo thema probandum. Na verdade, se, por um lado, tem de provar que
adquiriu os bens penhorados em data anterior à da realização da penhora, por outro lado, o
terceiro deve ainda justificar o motivo pelo qual esses bens se encontravam na posse do
executado aquando da diligência executiva121.
maioritariamente pela doutrina (cfr., por todos, o Ac. do TRL, de 9 de Julho de 1991, proc. 0032866, in
[Link]: “I - Os terceiros lesados pela penhora e diligência subsequentes só poderão defender os seus direitos
pelos meios que a lei coloca ao seu dispor: os embargos de terceiro, como meio de defesa da sua posse (art. 1037
e seguintes do CPC); a acção de reivindicação de propriedade como meio de defesa do domínio ou da titularidade
do imóvel. II - Assim terceiros não podem defender no processo executivo a sua propriedade mediante simples
requerimento.”). Na doutrina actual esse entendimento é ainda sufragado por RUI PINTO, segundo o qual a ilisão
dessa presunção pode ser feita pelo executado (ou por alguém em seu nome) perante o juiz de execução, mediante
prova documental inequívoca do direito de terceiro. Quanto ao terceiro, este só poderá autonomamente embargar
de terceiro, nos termos do art. 351.º do CPC, porquanto só nesse incidente processual poderão ser acautelados os
interesses legítimos do exequente e dos demais interessados na manutenção da penhora (PINTO, Rui, Penhora,
Venda e Pagamento, ob. cit., p. 54). Em sentido contrário, vide SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva
Singular, ob. cit., p. 312, para quem, se o executado se podia substituir ao terceiro, haveria também que se admitir
a fortiori a possibilidade do próprio terceiro poder protestar contra a realização da penhora. Na jurisprudência tem
sido pacífico o entendimento de que este meio de oposição pode ser deduzido por um terceiro, quanto mais não
seja pelo facto de tal faculdade evitar a prática de actos que acabam por retardar o andamento dos processos,
como é o caso da dedução de embargos de terceiro (cfr., nesse sentido, o Ac. TRP, de 5 de Dezembro de 1996,
proc. 9631097, in [Link]).
117
Trata-se, na verdade, de um incidente de natureza declarativa enxertado no processo executivo (cfr.,
nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 302).
118
ABÍLIO NETO insurge-se contra este conceito indeterminado de “prova documental inequívoca” atento o
facto de se tratar de uma norma “impossível de definir com um mínimo de certeza” (Código de Processo Civil
Anotado, ob. cit., p. 1176).
119
Não possuindo o terceiro prova documental inequívoca de que lhe pertencem os bens atingidos pela
penhora, não lhe restará outra alternativa que não seja o recurso aos embargos de terceiro (REGO, Lopes do,
Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 80).
120
FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 276.
121
Vide, nesse sentido, FREDERICO CARPI; MICHELE TARUFFO, Commentario Breve al Codice di
Procedura Civile, ob. cit., p. 1861.
59
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Acresce a isto que este meio processual não pode ser utilizado para se pôr em crise a
penhora que se venha a revelar objectivamente ilegal. Assim, se o agente de execução, ao invés
de penhorar a expectativa de aquisição de um veículo automóvel adquirido com reserva de
propriedade a favor do alienante, penhorar desde logo o próprio veículo automóvel, nem por isso
o executado ou o terceiro poderão socorrer-se desta figura processual para, desta forma,
impugnarem a validade desse acto122.
Quanto à oportunidade para a dedução da oposição por simples requerimento, impõe-se
salientar que, enquanto no regime processual anterior à reforma da acção executiva o direito de
protesto apenas podia ser exercido perante o respectivo funcionário judicial e no próprio acto da
penhora, isto é, enquanto essa diligência não terminasse (art. 832.º, n.º 2, do CPC) 123, já no
regime processual actual permite-se que esse direito seja exercido depois da realização da
penhora e perante o juiz de execução (art. 848.º, n.º 2, do CPC). Mas nada obsta a que o
executado ou o próprio terceiro possa ilidir essa presunção no próprio acto da penhora perante o
agente de execução, pelo que não restará outra alternativa ao terceiro que não seja a
instauração de embargos de terceiro com fundamento na violação de um direito incompatível
com a finalidade da penhora. Ao executado fica ainda reservada a possibilidade de se socorrer
da oposição à penhora, incidente a ser deduzido no prazo de 10 ou 20 dias a contar,
respectivamente, da notificação da penhora ou da citação para a dedução de oposição à
execução e/ou à penhora no âmbito do processo executivo que contra ele tenha sido instaurado
(art. 863.º-A do CPC)124.
No que concerne aos meios de prova admissíveis relativamente a este incidente
processual, importa referir que, enquanto os embargos de terceiro permitem a apresentação das
provas admitidas em geral no processo civil (art. 353.º, n.º 2, do CPC), já a oposição por
simples requerimento vê o seu âmbito probatório especialmente restringido porquanto apenas é
admissível a apresentação de “prova documental inequívoca”. Quanto ao que se deva entender
por semelhante conceito legal, RUI PINTO sustenta que “o carácter inequívoco só pode derivar
122
Cfr., nesse sentido, PINTO, Rui, «A Execução e terceiros – Em especial na penhora e na venda», in
Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 253.
123
Cfr. MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 303.
124
Pense-se, e.g., no caso de execução movida contra um dos cônjuges casado em separação de bens e
em que o outro cônjuge apresenta prova documental inequívoca de que um determinado bem móvel existente na
casa de morada de família lhe pertence.
60
Meios de reacção à penhora: Figuras afins aos embargos de terceiro
2. OPOSIÇÃO À PENHORA
O incidente de oposição à penhora130 vem regulado nos arts. 863.º-A e 863.º-B do CPC131.
Contrariamente ao que sucede no incidente de embargos de terceiro, o qual apenas confere
125
PINTO, Rui, «A Execução e terceiros – Em especial na penhora e na venda», ob. cit., p. 255.
126
Vide, a este propósito, REGO, Lopes do, Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 80.
Cfr., no mesmo sentido, FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 277.
127
Vide, neste sentido, GOUVEIA, Mariana França, «Penhora e alienação de bens móveis na reforma da
acção executiva», in Themis, ano IV, n.º 7, 2003, p. 178.
128
Conforme salienta MARIANA FRANÇA GOUVEIA, embora seja certo que o terceiro pode recorrer a
qualquer um destes meios em alternativa, não é menos verdade que a opção pelos embargos de terceiro apresenta
vantagens inegáveis, nomeadamente no que concerne ao efeito de caso julgado que resulta desse incidente
(GOUVEIA, Mariana França, «Penhora e alienação de bens móveis na reforma da acção executiva», in Themis, ano
IV, n.º 7, p. 179).
129
Cfr. o Ac. do TRP, de 21 de Janeiro de 2003, proc. 0222487, in [Link].
130
Contrariamente ao que sucede nos embargos de terceiro, em que se verifica uma verdadeira acção de
natureza declarativa com autonomia processual, a oposição à penhora apenas configura um incidente de natureza
processual, não se autonomizando em relação à acção principal (vide, nesse sentido, FREITAS, José Lebre de,
61
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
legitimidade processual activa a um terceiro, isto é, a quem não seja parte na causa, a oposição
à penhora constitui um meio processual privativo do executado132 (art. 863.º-A, proémio, do CPC)
e do seu cônjuge, logo após a citação para a acção executiva [art. 864.º, n.º 3, a) e 864.º-A do
CPC].
A oposição à penhora pode ser deduzida quando tenham sido penhorados bens
pertencentes ao próprio executado133, isto é, quando esteja em causa uma situação de
impenhorabilidade objectiva, com os seguintes fundamentos:
a) a penhora não podia recair sobre os bens concretamente apreendidos (bens absoluta
ou relativamente impenhoráveis) ou na extensão com que foi realizada (bens parcialmente
impenhoráveis ou quando a penhora tenha recaída sobre mais bens do que aqueles que seriam
suficientes para garantir o pagamento da dívida exequenda e das demais despesas com a
execução);
b) a penhora incidiu imediatamente sobre bens que só responderiam pela dívida
exequenda a título subsidiário134;
c) a penhora incidiu sobre bens que, não respondendo, nos termos do direito
substantivo, pela dívida exequenda, não deviam ter sido atingidos por essa diligência135;
«Enxertos declarativos no processo executivo», in Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, Coimbra Editora,
2002, p. 651).
131
No regime processual anterior à reforma de 95/96, o executado podia deduzir embargos de terceiro ao
abrigo do disposto no art. 1037.º, n.º 2, do CPC . Na verdade, de acordo com esta disposição legal, o próprio
1961
condenado ou obrigado no acto podia deduzir embargos de terceiro quanto aos bens que, pelo título da sua
aquisição ou pela qualidade em que os possuísse, não devessem ser atingidos pela diligência ordenada.
132
FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 279.
133
Trata-se, na verdade, de um incidente de reacção contra a impenhorabilidade objectiva, dado que os
bens penhorados pertencerão ao executado (art. 863.º-A, do CPC) – cfr., nesse sentido, FREITAS, Lebre de, A Acção
Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 279.
134
Está aqui em causa a impenhorabilidade subsidiária objectiva – isto é, de uma situação em que os bens
próprios do executado só deviam ser atingidos na falta ou insuficiência de outros bens –, dado que no caso da
impenhorabilidade subsidiária subjectiva cabe ao devedor subsidiário a tutela do seu direito através da invocação do
benefício da excussão prévia (cfr., nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit.,
p. 296).
135
Será o caso das situações de indisponibilidade objectiva em resultado de um regime de direito
substantivo (cfr., a este propósito, FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 280).
62
Meios de reacção à penhora: Figuras afins aos embargos de terceiro
136
Tal circunstância verifica-se, nomeadamente, em caso de penhora de bens pertencentes a uma
sociedade unipessoal por quotas em execução movida contra o respectivo sócio a título pessoal, caso em que o
próprio executado deve indicar, no próprio incidente de oposição à penhora, quais os bens que tenha em seu poder
e que devem responder pela dívida exequenda. Veja-se, ainda, o caso da execução de uma dívida provida de
garantia real, circunstância em que o património geral do executado só poderá responder depois da execução do
bem onerado com a garantia (art. 835.º do CPC).
137
Não tendo havido lugar a citação prévia do executado, este deve cumular a oposição à execução com a
oposição à penhora, atento o regime previsto no art. 813.º, n.º 2, do CPC.
138
No regime anterior à reforma da acção executiva de 2003, a oposição à penhora surgia era
processualmente caracterizada como um incidente da execução, determinando o legislador que lhe fosse aplicado,
quanto à sua tramitação, o regime previsto nos arts. 302.º a 304.º do CPC, sem prejuízo das regras especiais
previstas no art. 863.º-B, n. 2 e 4 do CPC.
os
139
Cfr. o Ac. do TRL, de 2 de Fevereiro de 1994, proc. 0072891, in [Link]: “Recebidos embargos de
terceiro, só se suspendem os termos da execução em relação aos bens a que os embargos dizem respeito.”
63
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
3. ACÇÃO DE REIVINDICAÇÃO
140
A este propósito, TEIXEIRA DE SOUSA sustenta que a acção de reivindicação constitui um meio
alternativo relativamente aos embargos de terceiro, pelo que o terceiro pode socorrer-se indistintamente de qualquer
um desses meios processuais para tutelar o seu direito (cfr., no mesmo sentido, FREITAS, Lebre de, A Acção
Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 301). Contudo, tal alternatividade já não se verificará em caso de
caducidade do prazo para a dedução dos embargos de terceiro ou se os embargos vierem a ser rejeitados na sua
fase introdutória, bem como nos casos em que o terceiro tenha fundado os embargos exclusivamente na sua posse
e não na titularidade do direito de fundo (cfr., nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo
Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 345, bem como o Ac. do STJ, de 18 de Janeiro de 2007, proc,
4580/06 – 2.ª secção, in [Link]). Ademais impõe-se referir que o recurso indistinto a qualquer um desses
meios não é indiferente, já que, enquanto nos embargos de terceiro o embargante consegue obstar ao
prosseguimento da penhora e obter a restituição provisória da posse, da propositura da acção de reivindicação
(antes da entrega dos bens móveis ou do levantamento do produto da venda) apenas resulta que os bens móveis
não podem ser entregues ao comprador senão mediante as cautelas estabelecidas no art. 1384.º, n.º 1, b) e c), do
CPC, e que o produto da venda só possa ser levantado através da prestação de caução (arts. 910.º e 911.º do CPC)
— cfr., nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 318.
Por outro lado importa salientar que, caso o terceiro proponha acção de reivindicação contra o executado
e o exequente com base na titularidade do direito de propriedade ou de outro direito real menor, e estando já
pendente um incidente de embargos de terceiro com a mesma causa petendi, tal situação implica a verificação de
uma excepção dilatória por litispendência (cfr., nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo
Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 345). Contudo, já não haverá lugar a litispendência caso se verifique
uma cumulação entre os embargos de terceiro e a acção de reivindicação, sendo ambos fundados na posse (vide, a
este propósito, FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 301).
141
Cfr. ASCENSÃO, José Oliveira, «Acção de reivindicação», in ROA, ano 57.º, vol. II, 1997, p. 513.
64
Meios de reacção à penhora: Figuras afins aos embargos de terceiro
exteriorização do direito de sequela142, sendo certo, por outro lado, que esta acção compreende
dois pedidos intercalados mas distintos: o reconhecimento de um direito e o pedido de entrega
da coisa objecto desse direito143.
Em termos processuais, impõe-se referir que a acção de reivindicação segue os termos
de uma acção declarativa comum, pelo que, em caso de procedência da acção e se o réu não
cumprir ex voluntate a obrigação de entrega da coisa reivindicada, o autor ver-se-á obrigado a
exigir a entrega da coisa pela via executiva. No que respeita ao tipo de acção, uma primeira
leitura do art. 1311.º, n.º 1, do CC indicia que se tratará de uma acção declarativa de simples
apreciação porquanto a acção de reivindicação tem por finalidade, a título principal, “o
reconhecimento do seu direito de propriedade”, e, a título acessório, “a consequente restituição
do que lhe pertence”. Porém, a finalidade principal do autor desta acção traduz-se na entrega da
coisa que se encontra indevidamente na posse de um terceiro. Deste modo, a acção de
reivindicação configura, em termos processuais, uma verdadeira acção declarativa de
condenação, uma vez que tem por finalidade exigir a prestação de uma coisa ou de um facto,
pressupondo ou prevendo a violação de um direito [art. 4.º, n.º 2, b), do CPC]144. Assim, ao autor
caberá, desde logo, o ónus de alegar e provar a titularidade do seu direito sobre a coisa. Com
efeito, adoptando o nosso sistema processual, em relação à causa de pedir, a teoria da
substanciação, o facto aquisitivo da propriedade compõem a causa de pedir145, pelo que o autor
deve alegar a propriedade sobre a coisa146. Para além disso, deve ainda invocar a violação do seu
142
Caracterizando a sequela como “a manifestação dinâmica da inerência, nos termos da qual o titular do
direito real pode sempre, onde quer que a coisa se encontre, usar de meios jurídicos para reaver a coisa”, vide
CORDEIRO, António Menezes, «Da Natureza do Direito do Locatário», in ROA, ano 40.º, vol. I, 1980, p. 78. Cfr.,
também, LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 107, segundo o qual “[O] direito real
persegue a coisa onde quer que ela se encontre e pode sempre ser exercido.”
143
Cfr., nesse sentido, CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 591. No sentido da acção de
reivindicação ter apenas por objecto coisas corpóreas, por só estas poderem ser objecto de direitos reais, vide
ASCENSÃO, José Oliveira, «Acção de reivindicação», ob. cit., p. 514.
144
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 24 de Abril de 1997, in CJ , tomo II, 1997, p. 128: “[O] pedido de
reconhecimento da qualidade de proprietário pode considerar-se implícito no pedido de restituição do bem.”
145
Contrariamente, se o nosso sistema processual tivesse adoptado a teoria da individualização, bastaria
ao autor invocar a propriedade, sem necessidade de fazer qualquer referência em relação à causa da sua aquisição.
146
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 19 de Fevereiro de 1971, in BMJ, 204.º, p. 193, segundo o qual
“[A] petição inicial em acção de reivindicação que não indique expressamente a causa de pedir não será inepta se
os documentos autênticos que a acompanham mostrarem o facto jurídico de que adveio o invocado direito real.” Se
65
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
direito pelo réu, e pedir ao tribunal que, em função desse reconhecimento prévio e prejudicial,
condene o réu na entrega da coisa reivindicada por violação do direito do autor147 148 149
. Na
verdade, para o exercício e procedência da acção de reivindicação, torna-se necessário o
preenchimento de um duplo requisito subjectivo: por um lado, o autor ser proprietário ou titular
de outro direito real menor sobre a coisa reivindicada e o réu ser o seu detentor ilegítimo, e, por
outro lado, verificar-se objectivamente a identidade da coisa que se reclama com a que é
possuída pelo réu150.
Relativamente à legitimidade processual passiva, a acção de reivindicação, em regra,
deve ser proposta contra o possuidor ou o detentor actual da coisa reivindicada, dado que a
causa de pedir assenta na detenção ou posse abusiva da coisa (art. 1311.º do CC)151 152
. Por
a causa de pedir se basear na ofensa do direito de propriedade sobre a coisa, sobre o autor recai o ónus de provar
o direito de propriedade sobre a coisa reivindicada, sendo necessário que, além da aquisição derivada, prove
também a aquisição originária, isto é, que o direito já existia no transmitente (cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de
06 de Julho de 1977, in CJ, tomo IV, 1977, p. 926). Vide, ainda, o Ac. do TRE, de 12 de Junho de 1986, in BMJ,
360.º, p. 677, segundo o qual “[O] autor, em acção de reivindicação, terá sempre de alegar (e provar) uma forma
de aquisição originária do direito de propriedade invocado, para além do título translativo, a não ser que invoque (e
prove) a inscrição do prédio, objecto da lide, a seu favor.
147
Cfr. MACHADO, António Montalvão; PIMENTA, Paulo, O Novo Processo Civil , 10.ª ed., Almedina,
p. 33. Cfr., no mesmo sentido, ASCENSÃO, José Oliveira, «Acção de reivindicação», in ROA, ob. cit., p. 520. Vide,
na jurisprudência, o Ac. do TRL, de 15 de Maio de 1974, in BMJ, 237.º, p. 298: “O autor de uma acção de
reivindicação não deve limitar-se a pedir a restituição da coisa, mas também, como antecedente desse, o
reconhecimento do domínio.”
148
Na verdade, a causa de pedir na acção de reivindicação apresenta uma estrutura complexa, dado que
compreende tanto o acto ou o facto jurídico de que resulta o direito de propriedade do autor, como a violação ilícita
desse direito por parte do réu. Quanto à estrutura da causa de pedir na acção de reivindicação, vide o Ac. do TRL,
de 14 de Julho de 1981, in BMJ, 315.º, p. 307.
149
Ainda que os dois pedidos que integram e caracterizam a acção de reivindicação consistirem no
reconhecimento do direito de propriedade e na entrega da coisa reivindicada, nada impede que a estes pedidos se
acrescentem outros pedidos acessórios, tais como, o pedido de indemnização por danos causados pelo
demandado, na propriedade ou do valor que dela fez, e o pedido de demolição de obra indevidamente feita na coisa
reivindicada (cfr. o Ac. do TRC, de 10 de Maio de 1988, in CJ, tomo III, 1988, p. 63).
150
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 08 de Julho de 1982, in CJ, tomo IV, 1982, p. 202.
151
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 20 de Março de 1973, in BMJ, 225.º, p. 196: “A acção de
reivindicação só tem de ser proposta contra o possuidor ou o detentor actual da coisa e não também contra os
anteriores.”
66
Meios de reacção à penhora: Figuras afins aos embargos de terceiro
outro lado, para o reivindicante, é irrelevante a pessoa do detentor ou o motivo pelo qual a coisa
reivindicada se encontra em seu poder153. No entanto, se a coisa objecto da acção de
reivindicação tiver sido penhorada como se pertencesse ao executado e por nomeação do credor
exequente, nesse caso a acção deve ser proposta, antes da venda executiva, contra o exequente
e o executado, verificando-se, deste modo, uma situação de litisconsórcio necessário natural
porquanto só assim poderá a acção produzir o seu efeito útil normal (art. 28.º, n.º 2, do CPC)154.
Em contrapartida, se a acção de reivindicação for intentada depois de já se ter verificado a venda
judicial do bem penhorado, nesse caso a legitimidade passiva caberá apenas ao adquirente da
coisa em sede executiva.
Se a acção de reivindicação for julgada procedente, o tribunal deve ordenar a restituição
da coisa ao autor reivindicante com base no reconhecimento do seu direito sobre a coisa.
Porém, ainda que o tribunal reconheça a titularidade do direito real do reivindicante, poderá não
determinar a restituição da coisa se o réu tiver sobre ela um direito de retenção155, ou se, por
outro título, lhe for conferida a posse ou a retenção da coisa156. De facto, na acção de
reivindicação, é admissível ao réu contestar o dever de entrega, sem negar o direito de
propriedade, com fundamento em qualquer relação obrigacional ou real que confira a posse ou a
detenção da coisa157. Nessa medida, e.g., a acção de reivindicação deverá ser julgada
improcedente se existir um contrato de arrendamento tácito, pelo facto de os réus se
152
De todo o modo, nada impede que a acção de reivindicação possa ser intentada contra incertos,
independentemente da força de caso julgado ou da exequibilidade da sentença que resultar dessa acção (cfr. o Ac.
do TRL, de 1 de Março de 1983, in CJ, tomo II, 1983, p. 83).
153
ASCENSÃO, José Oliveira, «Acção de reivindicação», ob. cit., p. 514.
154
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRL, de 27 de Junho de 2000, in CJ, tomo III, 2000, p. 126, bem como
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 345.
155
“Tendo os Autores prometido vender um andar dum prédio seu aos Réus, os quais, entretanto, pagaram
integralmente o seu preço e passaram a ocupá-lo, improcede o pedido de reivindicação, visto os demandados
gozarem, dado o incumprimento do contrato, do direito de retenção.” (Ac. do TRC, de 8 de Outubro de 1983, in CJ,
tomo V, 1983, p. 36). Cfr., ainda, o Ac. do STJ, de 21 de Novembro de 1985, in BMJ, 351.º, p. 332, segundo o
qual “[T]endo sido celebrado um contrato-promessa de compra e venda de um andar, no qual ficou estabelecida a
possibilidade de o promitente-comprador fazer uso dele até à conclusão do contrato prometido, ou ate à caducidade
ou resolução do contrato-promessa, não pode o proprietário e promitente-vendedor vir a reivindicar a entrega do
andar, enquanto não se provar que houve incumprimento do contrato devido a culpa do promitente-comprador.”
156
Vide, a este propósito, o Ac. do TRP, de 27 de Março de 1974, in BMJ, 235.º, p. 356.
157
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 04 de Julho de 1980, in BMJ, 299.º, p. 320.
67
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
comportarem, com a aquiescência do autor, como verdadeiros arrendatários158. Por outro lado, o
réu pode também peticionar, em sede reconvencional, o reconhecimento do seu direito de
propriedade sobre a coisa e a consequente legitimidade quanto à posse da mesma, com
fundamento, por exemplo, na aquisição originária por usucapião159.
Tendo a coisa reivindicada sido objecto de uma diligência de penhora, a procedência da
acção de reivindicação implica o levantamento da penhora e, sendo caso disso, a anulação da
venda judicial da coisa, nos termos do disposto no art. 909.º, n.º 1, d), do CPC.
Importa ainda salientar que, ao contrário dos embargos de terceiro, incidente que
apenas pode ser deduzido até à venda judicial ou adjudicação dos bens penhorados160, a acção
de reivindicação, tratando-se de uma acção verdadeiramente autónoma em relação ao processo
executivo161, não se encontra sujeita a essa restrição temporal162, pelo que, caso venha a ser
julgada procedente, daí resulta a restituição dos bens ao adjudicatário, ainda que já tenham sido
vendidos ou adjudicados163. Nesta medida, uma vez que a reforma de 95/96 veio admitir a
possibilidade de tutela do direito de fundo em sede de embargos de terceiro, rapidamente a
acção de reivindicação passou para um segundo plano, circunscrevendo-se o recurso a esta
providência as casos em que já não é possível a dedução de embargos de terceiro em virtude da
158
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 26 de Outubro de 1977, in CJ, tomo V, 1977, p. 1199. Vide, a
este propósito, o Ac. do STJ, de 18 de Dezembro de 1984, segundo o qual “[E]m acção de reivindicação pode
conhecer-se da validade e subsistência do contrato de arrendamento invocado pelos réus a legitimar a sua
ocupação e como facto impeditivo do direito do proprietário de pedir a restituição. Em tal caso, a autora só poderá
obter a restituição do arrendado através da competente acção de despejo.”
159
Cfr., quanto à admissibilidade de formulação de um pedido reconvencional na acção de reivindicação, o
Ac. do TRC, de 24 de Abril de 1997, in BMJ, 467.º, p. 637.
160
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 21 de Maio de 1991, proc. 080694, in [Link]: “Os embargos
de terceiro nunca podem ser deduzidos depois de os respectivos bens terem sido judicialmente vendidos ou
adjudicados.”
161
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 300.
162
“Para além de poder usar os embargos de terceiro para defender a sua posse, pode o proprietário de
coisa penhorada reivindicá-la, independentemente de qualquer prazo.” (Ac. do TRC, de 31 de Março de 1987, in
BMJ, 365.º, p. 699).
163
Neste caso, o comprador ou o adjudicatário apenas terá direito à restituição do preço que tiver pago –
gozando do direito de retenção sobre a coisa comprada enquanto não lhe for restituído o preço, ao abrigo do
disposto no art. 910.º, n.º 2, do CPC – e a ser indemnizado pelas eventuais perdas e danos que tiver sofrido (vide, a
este propósito, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 346).
68
Meios de reacção à penhora: Figuras afins aos embargos de terceiro
verificação da venda executiva dos bens164 ou de ter já decorrido o prazo legalmente previsto para
a sua dedução165.
A título cautelar, enquanto não for proposta a acção de reivindicação, pode o terceiro
optar por recorrer ao protesto pela reivindicação da coisa, antes que a venda seja efectuada,
invocando, para o efeito, a titularidade de um direito próprio incompatível com a transmissão166
167
. Contudo, o recurso a essa providência encontra-se vedado ao próprio executado168, dado que
o direito de protestar pela reivindicação da coisa penhorada pertence somente ao terceiro169.
No que concerne aos efeitos da sentença da acção de reivindicação, esta tem apenas
uma eficácia inter partes, isto é, o caso julgado não tem efeitos em relação a terceiros, pelo que
nada impede que um terceiro em relação à acção faça uso de todos os meios processualmente
admissíveis quanto à invocação de um direito de propriedade ou de outro direito real menor em
relação à coisa170. Por esse motivo, se o autor demandar o detentor como possuidor em nome de
outrem, deve também chamar à acção a pessoa em nome de quem o demando possui, de
forma a evitar a frustração da acção e a formação de caso julgado quanto a ele171.
164
Cfr. FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da Reforma, ob. cit., p. 301, bem como CARDOSO,
Eurico Lopes, Manual da Acção Executiva, ob. cit., p. 386.
165
Cfr. o Ac. do TRP, de 20 de Janeiro de 1998, proc. 9721213, in [Link]: “A acção de reivindicação
é o meio próprio, ao dispor do proprietário, para reagir contra aquele que, antes da arrematação, ofenda o direito de
propriedade do reivindicante, com a promoção da venda, se na altura da penhora não pôde utilizar os embargos de
terceiro, no prazo que a lei estipula.”
166
No caso de recorrer ao protesto pela reivindicação, o seu autor deve intentar a acção de reivindicação
no prazo de 30 dias, sob pena de se verificar a caducidade das garantias destinadas a assegurar a restituição dos
bens e o embolso do preço. Deste modo, o “protesto, lavrado nos termos do art. 910.º do Código de Processo Civil,
tem a sua eficácia subordinada à instauração de acção de reivindicação no prazo de 30 dias” (cfr. o Ac. do TRP, de
17 de Julho de 1980, in BMJ, 299.º, p. 416).
167
“O protesto pela reivindicação da coisa vendida, quando haja lugar a ele, é uma providência cautelar
que não dispensa a acção respectiva” (Ac. do STJ, de 19 de Janeiro de 1973, in BMJ, 223.º, p. 170).
168
Nessa exacta medida, também não poderá recorrer a esta providência cautelar o cônjuge do executado
que tenha sido citado nos termos e para os efeitos do disposto no art. 825.º do CPC (cfr., nesse sentido, o Ac. do
TRP, de 11 de Maio de 1998, in BMJ, 477.º, p. 566, bem como o Ac. do STJ, de 9 de Fevereiro de 1999, in CJ,
tomo I, 1999, p. 91).
169
Cfr. o Ac. do TRP, de 20 de Fevereiro de 1992, in CJ, tomo I, 1992, p. 235).
170
ASCENSÃO, José Oliveira, «Acção de reivindicação», ob. cit., p. 521.
171
Idem, p. 530.
69
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
70
Âmbito objectivo dos embargos de terceiro
CAPÍTULO IV
ÂMBITO OBJECTIVO DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
RAZÃO DE ORDEM
172
Cfr. o Ac. do TRP, de 16 de Dezembro de 2004, proc. 0436633, in [Link].
173
Quanto à concepção de posse como a exteriorização de um direito, vide, por todos, ASCENSÃO, José de
Oliveira, Direito Civil – Reais, 4.ª ed., Coimbra Editora, 1983, p. 69.
174
“Sendo decretada a restituição provisória da posse que os terceiros considerem ofensiva do seu direito
de propriedade, só por embargos de terceiro, e não por meio de providência cautelar autónoma, podem aqueles
terceiros anular ou substituir os efeitos daquela” (cfr. o Ac. do TRL, de 15 de Dezembro de 1993, proc.
0065336, in [Link]).
175
No Código de Processo Civil Italiano, dispõe o art. 619., a respeito da opposizioni di terzi, que “il terzo
che pretende avere la proprietà o altro diritto reale sui beni pignorati puo proporre opposizione com ricorso al giudice
dell’esecuzione, prima che sai disposta la vendita o l’asegnazione dei beni.”
Este instituto jurídico, ao invés da opposizioni di debitore, visa tutelar a posição de um terceiro que vê a
sua esfera jurídico-patrimonial ser ilicitamente atingida por um acto de natureza executiva. Deste modo, a dedução
de embargos de terceiro tem por fundamento principal a violação do regime substantivo previsto no art. 2740 do CC
It. ao abrigo do qual “[I]l debitore risponde dell'adempimento delle obbligazioni con tutti i suoi beni presenti e futuri.
Le limitazioni della responsabilità non sono ammesse se non nei casi stabiliti dalla legge.”. Vale isto por dizer que o
terceiro faz valer a sua propriedade sobre os bens contra a pretensão executiva do credor (cfr. SALVATORE SATTA;
CARMINE PUNZI, Diritto Processuale Civile, Tredicesima Edizione, Cedam, 2000, p. 727).
Ao contrário do regime previsto no processo civil português, o qual permite a tutela da posse ou de outro
direito incompatível com a finalidade ou o âmbito da diligência, o sistema processual italiano apenas permite — pelo
menos aparentemente — a tutela do direito de propriedade ou de outro direito real sobre o bem penhorado, sendo
71
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
isto por dizer que os embargos de terceiro encontram o seu fundamento não só na ofensa da
posse176 de um terceiro sobre os bens penhorados (tal como vinha sucedendo exclusivamente até
à reforma de 95/96), como também num direito de um terceiro que se revele incompatível com
a finalidade da diligência177.
certo, porém, que a doutrina tem vindo a entender ser também admissível a dedução de embargos de terceiro
relativamente à defesa de direitos pessoais de gozo (cfr. ELIO FAZZALARI, Lezione di diritto processuale civile, vol. II,
Pádua, Cedam, 1989, pp. 150 e 152).
No processo civil espanhol, o regime jurídico dos embargos de terceiro (tercería de domínio) vem regulado
nos arts. 595. e ss da LEC e visa permitir a reacção de um terceiro contra a penhora de um bem que lhe pertença
no âmbito de um processo executivo em que não seja parte. Com efeito, através da tercería de domínio, o terceiro
deduz oposição a um acto concreto de penhora, pedindo que se levante a apreensão decretada sobre um bem
determinado. Deste modo, o terceiro tem que invocar que é proprietário do bem penhorado, ou que é titular de um
direito que, por força de disposição legal, lhe permite opor-se à penhora ou à execução coactiva do bem penhorado
como pertencente ao executado. Todavia, nos termos do art. 601. da LEC, a dedução de oposição de terceiro não
visa a declaração da titularidade do direito, mas tão só o levantamento da penhora sobre o bem por ela
indevidamente atingido, ainda que para esse efeito possa ser necessário que o tribunal aprecie a titularidade do
bem, sem que, contudo, essa apreciação produza efeitos de caso julgado (cfr. MONTERO AROCA, Juan, El Nuevo
Proceso Civil, Tirant lo blanch, Valência, 2001, p. 763).
No âmbito do Zivilprozeβordnung (ZPO) dispõe o § 771 (Drittwidersprunchsklage) que, se um terceiro
afirmar que lhe pertence um direito sobre o bem atingido pela diligência executiva, poderá intentar uma oposição de
terceiro contra a execução judicial desse bem junto do tribunal onde se encontre a decorrer a acção executiva.
Quanto à natureza do direito do terceiro que seja impeditivo da alienação judicial, enquadram-se neste domínio quer
o direito de propriedade, quer outros direitos reais menores (CFR. MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em
Processo Executivo e Oposição de Terceiro, 2.ª ed. rev. e actual., Almedina, 2001, p. 98).
176
A formulação legal adoptada parece demonstrar que o legislador veio adoptar uma concepção real da
posse, no sentido de que esta terá por objecto a coisa e não o direito referente à coisa. Caso contrário, bastaria ao
legislador referir-se tão só à ofensa de um direito, porquanto o mesmo já pressuporia o exercício da posse inerente a
esse direito.
No processo civil italiano, a oposição de terceiro (opposizioni di terzi) surge definida no art. 619 do CPC It.
como o meio pelo qual o terceiro pretende fazer valer o seu direito de propriedade ou outro direito real sobre os
bens penhorados (cfr. SALVATORE SATTA; CARMINE PUNZI, Diritto Processuale Civile, ob. cit., p. 727).
177
No art. 1037.º do CPC 1961 o legislador enumerava a tipologia de diligências judiciais que permitiam a
dedução de embargos de terceiro: penhora, arresto, arrolamento, posse judicial, despejo ou qualquer outra
diligência judicial que não seja a apreensão de bens em processo de falência ou de insolvência.
72
Âmbito objectivo dos embargos de terceiro
178
A “ofensa” tanto pode resultar de um acto puramente material, como de um acto de natureza jurídica
(cfr. o Ac. do STJ, de 7 de Maio de 1992, proc. 082172, in [Link]).
179
De todo o modo, a jurisprudência tem vindo a entender que, conjugando os arts. 351.º do CPC e 1285.º
do CC, a defesa da posse continua a constituir o fundamento nuclear para a dedução de embargos de terceiro, não
obstante ser também admissível a utilização deste meio para a tutela de qualquer direito que se venha a revelar
incompatível com a realização ou o âmbito da diligência (cfr. o Ac. do STJ, de 6 de Junho de 2000, proc. 0000721,
in [Link]). Quanto à ampliação do âmbito objectivo dos embargos de terceiro vide, por todos, o Ac. do TRP, de
3 de Fevereiro de 1998, proc. 9721085, in [Link].
180
Cfr. o Ac. do STJ, de 19 de Setembro de 2002, proc. 2011/02-7, in SASTJ, 9/2002.
181
A ultima ratio da tutela da posse em sede de embargos de terceiro reside na presunção da titularidade
do direito de fundo sustentada pela posse da coisa (arts. 1251.º e 1268.º, n.º 1, do CC), sem prejuízo de a lei
facultar semelhante tutela aos possuidores em nome alheio, como é o caso do locatário, do parceiro pensador, do
comodatário e do depositário, nos termos, respectivamente, dos arts. 1037.º, n.º 2, 1125.º, n.º 2, 1133.º, n.º 2 e
1188.º, n.º 2, todos do CC – Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil
Anotado, vol. 1.º, ob. cit., p. 615.
182
Nessa exacta medida, não se afigura admissível, v.g., a dedução de embargos de terceiro contra uma
acção executiva para prestação de facto, consistente na demolição de parte de um edifício, cujo título executivo é
uma decisão judicial transitada em julgado, uma vez que, nesse caso, não está em causa qualquer acto de
apreensão ou entrega de bens ou penhora, mas o cumprimento de uma decisão judicial transitada em julgado (cfr.,
nesse sentido, o Ac. do TRL, de 17 de Fevereiro de 2004, proc. 8594/2003-7, in [Link], bem como o Ac. do
TRL, de 28 de Setembro de 2006, proc. 0634615, in [Link]).
73
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
efeitos normais dessas diligências183, impendendo sobre si o ónus da prova da lesão ou ofensa
da posse ou do seu direito, ao abrigo do disposto no art. 342.º, n.º 1, do CC184.
No que concerne ao fundamento para a dedução dos embargos, o art. 824.º, n.º 2, do
CC, determina que os bens são transmitidos livres dos direitos de garantia que os onerarem bem
como dos demais direitos reais que não tenham registo anterior ao de qualquer arresto, penhora
ou garantia, com excepção dos que, constituídos em data anterior, produzam efeitos em relação
a terceiros independentemente de registo185. Ora, a tutela concedida à posse do terceiro sobre o
bem penhorado depende do destino dessa posse após a venda executiva da coisa penhorada,
sendo certo que a defesa da posse, nomeadamente em sede de embargos de terceiro,
pressupõe que esta se manterá após a venda executiva186. De qualquer modo, ainda que o direito
se extinga com a venda executiva, nem por isso o legislador deixou de salvaguardar os direitos
de terceiros. Na verdade, os direitos de terceiro que caducarem por força da venda executiva
transferem-se para o produto da venda dos respectivos bens (art. 824.º, n.º 3, do CC)187.
Os embargos de terceiro devem fundamentar-se na existência de uma penhora ou
diligência judicial, que já tenha sido efectuada ou apenas ordenada, e que se revele ofensiva da
posse ou de outro direito incompatível com a sua realização, para tanto não bastando, de forma
a caracterizar aquele fundamento, a possibilidade teórica, abstracta ou eventual de aquela
diligência vir a efectivar-se188. A este propósito impõe-se referir que, constituindo os embargos um
meio de reacção contra qualquer acto de apreensão ou de entrega de bens que ofenda a posse
ou um direito de terceiro incompatível com essa diligência, não constitui fundamento para a
183
REGO, Lopes do, Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 324.
184
Cfr. quanto ao critério legal da repartição do ónus da prova, RANGEL, Rui Manuel de Freitas, O Ónus da
Prova no Processo Civil, Almedina, Coimbra, 2000, p. 133.
185
OLIVEIRA ASCENSÃO que estes direitos se reportam exclusivamente aos direitos reais de garantia, quer
atendendo à unidade do sistema, já que se se admitisse a subsistência de direitos reais de garantia não sujeitos a
registo, desde que constituídos anteriormente (ex. privilégio creditório), seria possível a transmissão de bens
onerados por direitos reais de garantia, quer por força do disposto no n.º 3, o qual preceitua que os direitos que
caducarem nos termos do n.º 2 transferem-se para o produto da venda (ASCENSÃO, José Oliveira, «Locação de
bens dados em garantia – Natureza jurídica da locação», in ROA, n.º 45, vol. II, 1985, p. 353).
186
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 79.
187
Cfr. o Ac. do STJ, de 25 de Novembro de 1999, in CJ, tomo III, 1999, p. 118: “Não há
incompatibilidade, legitimadora da dedução de embargos, entre o acto de penhora e a invocação de garantias reais,
efectiváveis de pleno no âmbito da própria acção executiva.”
188
Cfr. o Ac. do TRP, de 16 de Dezembro de 2004, proc. 0436633, in [Link].
74
Âmbito objectivo dos embargos de terceiro
dedução dos embargos o facto de se ter dado como provado numa acção de simples apreciação
que um determinado bem pertence a uma das partes189.
Por outro lado, não constitui fundamento para a dedução de embargos de terceiro o
conhecimento da diligência de venda executiva dos bens penhorados, dado que não se trata de
uma diligência de penhora nem de apreensão ou entrega de bens190.
189
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 09 de Maio de 2000, proc. 862/00, in [Link].
190
Ac. do STJ, de 11 de Março de 2003, proc. 443/03 – 6.ª secção, in [Link].
75
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
76
Posse
SECÇÃO I
POSSE
1. ÂMBITO DA POSSE
1.1. NOÇÃO
191
Pelo contrário, no sistema processual civil espanhol, a tercería de domínio não tem por objecto a
recuperação da posse perdida — pelo que não assume, consequentemente, a natureza de uma acção reivindicatória
—, dado que a sua finalidade última se traduz no levantamento da penhora judicial a fim de se evitar a venda
executiva do bem. Assim, o embargante não precisa de ter perdido a posse sobre o bem para poder recorrer a este
incidente processual (cfr. ANGEL FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 376).
77
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Partindo da qualificação jurídica da posse prevista no art. 1251.º do CC, esta traduz-se
no poder que se manifesta quando alguém actua por forma correspondente ao exercício do
direito de propriedade ou de outro direito real192 193 194
. Deste modo, a posse consiste na
“afectação material de uma coisa corpórea aos fins de pessoas individualmente consideradas”195.
Com efeito, da noção de posse resulta que é possuidor quem exerce ou quem tem a
possibilidade de exercer poderes de facto sobre uma coisa (corpus)196 197, com intenção de ser
proprietário (animus dominii), possuidor (animus possidendi) ou de ter a coisa para si (animus
sibi habendi) 198 199 200
. A jurisprudência tem-se dividido quanto a questão de saber se a posse
192
Criticando a noção legal de posse, vide CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 341.
193
O Código Civil de 1867 definia a posse no seu art. 474.º nos seguintes termos: “Diz-se posse a retenção
ou fruição de qualquer cousa ou direito. § 1.º Os actos facultativos ou de mera tolerância não constituem posse. §
2.º A posse conserva-se emquanto dura a retenção ou fruição da cousa ou direito, ou a possibilidade de a
continuar.” (vide, a este propósito, FERREIRA, José Dias, Código Civil Portuguez, vol. II, Imprensa Nacional, Lisboa,
1870, p. 6).
194
Partindo da mesma definição legal, vide o art. 1140 do CC It: “Il possesso è il potere sulla cosa che si
manifesta in un'attività corrispondente all'esercizio della proprietà o di altro diritto reale.” Na legislação civil francesa,
o art. 2225. do CC. Fr. define a posse como “la détention ou la jouissance d'une chose ou d'un droit que nous
tenons ou que nous exerçons par nous-mêmes, ou par un autre qui la tient ou qui l'exerce en notre nom.”
195
CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 602.
196
A doutrina tem-se dividido quanto à questão de saber se a posse terá por objecto coisas ou, ao invés, os
direitos a que essas coisas se referem. A este propósito, OLIVEIRA ASCENSÃO considera que a posse tem por
objecto uma coisa, porquanto não podem ser exercidos poderes de facto sobre um direito (ASCENSÃO, José de
Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 71). Vide, no mesmo sentido, CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais,
reprint, Lisboa, 1979, p. 341.
197
Esse poder de facto não tem, necessariamente, que corresponder a um poder exercido fisicamente
sobre a coisa (vide, nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código
Revisto, ob. cit., p. 314).
198
Vide o Ac. do STJ, de 16 de Julho de 1971, in BMJ, 209.º, 1971, p. 124: “Ao lado do corpus aparece-
nos como elemento integrador do facto possessório e, por certo, o mais importante, o animus sibi abendi, que se
traduz na intenção de exercer em nome próprio o direito de propriedade e que, por isso, costuma designar-se por
animus domini.”
199
Quanto à distinção entre a concepção objectivista (JHERING) e subjectivista (SAVIGNY) da posse, vide,
por todos, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit. p. 408.
200
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 13 de Março de 1999, in BMJ¸485.º, p. 409, segundo o qual a
posse “é o exercício de poderes de facto sobre uma coisa”. Cfr., também, o Ac. do STJ, de 29 de Novembro de
2006, proc. 06A3808, in [Link]: “A posse é um conceito normativo que integra uma conduta concreta -
78
Posse
constitui um direito, o qual deverá ser enquadrado no domínio dos direitos reais, ou se, ao invés,
ela integrará apenas matéria de facto201.
Assim, para que o terceiro possa ser reconhecido como possuidor para efeitos dos
embargos de terceiro, deve invocar e provar os elementos constitutivos da sua posse, isto é, o
exercício de poderes materiais sobre a coisa (corpus), bem como a intenção de se comportar
como titular efectivo do direito real correspondente aos actos praticados (animus)202, embora a
titularidade desse direito seja presumida ao abrigo do disposto no art. 1268.º do Cc.
No contexto dos embargos de terceiro, a tutela concedida à posse do terceiro sobre o
bem penhorado depende do destino dessa posse após a venda executiva do bem, sendo certo
que a tutela da posse através deste incidente processual pressupõe que esta se manterá após a
venda executiva203.
A noção legal de posse prevista no art. 1251.º do CC carece de ser conjugada com o
disposto no art. 1252.º do CC a propósito do exercício da posse através de um intermediário.
Com efeito, à luz da citada disposição legal, a posse pode ser exercida pessoalmente ou por
intermédio de outrem, presumindo-se a posse naquele que exerce efectivamente um poder de
facto sobre a coisa204.
A posse exercida por um terceiro sobre um bem penhorado ou judicialmente apreendido
poderá ser ou não judicialmente relevante consoante o momento em que se tiver verificado o
detenção e fruição — ("corpus") e uma atitude do foro interno — convicção de domínio; de exercer um direito próprio
("animus"), não assimilada univocamente na linguagem comum, em termos de poder quesitar-se como facto.”
201
Vide, quanto a esta divisão doutrinal, ALMEIDA, L. P Moitinho, Restituição de Posse e Ocupação de
Imóveis, ob. cit., p. 19.
202
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 4 de Outubro de 2007, proc. 2370/07 – 7.ª secção, in
[Link].
203
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 79.
204
A este propósito determina o art. 1140 do CC It. que “[S]i può possedere direttamente o per mezzo di
altra persona, che ha la detenzione della cosa.”
79
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
início da posse sobre esse bem205. Com efeito, se essa posse tiver sido constituída e registada
(quando a natureza do bem assim o imponha) antes da constituição ou registo da penhora,
arresto ou garantia, esse direito não poderá ser afectado pela diligência judicial, circunstância
que faculta ao terceiro possuidor o direito de defender a sua posse mediante o incidente de
embargos de terceiro206.
Em contrapartida, ao abrigo do disposto no art. 819.º do CC, se a posse do terceiro tiver
sido constituída ou registada em momento posterior à penhora, arresto ou garantia, o terceiro
não poderá invocar procedentemente a ofensa da sua posse em sede de embargos de terceiro,
já que este é inoponível à execução. Nessa exacta medida, se o embargante, à data da penhora,
não era possuidor do bem, tendo em conta que a posse só começou a ser exercida em
momento posterior a essa diligência, não lhe é lícito deduzir embargos de terceiro com
fundamento na ofensa da sua posse porquanto tal acto de disposição é inoponível em relação à
execução207.
Tal distinção carece de grande relevância, dado que o art. 831.º do CPC dispõe que os
bens do executado são apreendidos ainda que, por qualquer título, se encontrem em poder de
terceiro, sem prejuízo, porém, dos direitos que a este seja lícito opor ao exequente208.
No que concerne aos efeitos da posse e tendo em conta o âmbito do presente estudo,
importa destacar o efeito da presunção da titularidade do direito correspondente (art. 1268.º do
205
Na vigência do Código Civil de 1867 sustentava-se que “quem possue em nome de outrem não pode
usar de remédio algum jurídico para manter a sua posse” (cfr. FERREIRA, José Dias, Código Civil Portuguez, vol. II,
p. 6).
206
REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 406.
207
Cfr. o Ac. do STJ de 29 de Janeiro de 2008, proc. 4489/07 – 6.ª secção, in [Link].
208
Já não poderá, contudo, o terceiro utilizar da faculdade de tutelar a sua posse através do incidente de
embargos de terceiro no caso de o exequente nomear à penhora, não o próprio bem possuído pelo terceiro, mas
sim o direito à restituição desse bem na posse do terceiro, porquanto, nesse caso, o terceiro não perde o direito de
gozo sobre o bem, sendo aplicado o regime da penhora de direitos (cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de
bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 77).
80
Posse
CC)209, salvo quando exista a favor de outrem uma presunção da titularidade do direito fundada
num registo anterior ao início da posse210.
Quanto ao fundamento para este efeito da posse, impõe-se realçar que o legislador foi
sensível ao critério da publicidade da posse211, ou seja, se uma determinada situação possessória
se mantém durante um certo período de tempo, deve presumir-se que o possuidor é titular do
direito real correspondente212. Trata-se, na verdade, da expressão do princípio “en fait de
meubles possession vaut titre”.
Ora, o que justifica o direito de o possuidor, cuja posse tenha sido ofendida por penhora
ou por diligência judicialmente ordenada de apreensão ou entrega de bens, de deduzir embargos
de terceiro com vista à defesa dessa posse, é a presunção resultante do art. 1268.º do Cc, de
ser o titular do direito correspondente à sua actuação213.
Em resultado dessa presunção214, o possuidor fica dispensado de fazer a prova da
titularidade do direito respectivo, motivo pelo qual compete ao terceiro a impugnação com êxito
dessa presunção215. Deste modo, se for penhorado em sede executiva um bem que se encontra
na posse de um terceiro, este pode opor-se a essa diligência através de embargos de terceiro
com fundamento na ofensa da sua posse, sendo certo que, para a lei, é suficiente a ofensa
dessa posse, sem que o embargante se veja confrontado com a necessidade de invocar e/ou
provar o seu direito de propriedade sobre a coisa216. Assim, para que os embargos possam ser
209
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRP, de 9 de Outubro de 1979, in CJ, tomo IV, 1979, p. 1283, segundo
o qual “[E]m caso de dúvida, a lei faz presumir a posse naquele que exerce o poder de facto”.
210
Vide, nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, p. 413.
211
Trata-se, na verdade, de uma “publicidade espontânea”, a qual resulta fundamentalmente “do mero
funcionamento social do direito real, nos termos em que os membros da sociedade tomam naturalmente
conhecimento da situação jurídica em causa” (CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 264).
212
Quanto ao fundamento “publicitário” da situação possessória, cfr. DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos
Reais, ob. cit., p. 281.
213
Ac. do STJ, de 15 de Dezembro de 2008, proc. 1047/98 – 2.ª secção, in [Link].
214
No sentido de se tratar de uma presunção iuris tantum, isto é, de uma presunção ilidível, cfr.
CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., 1979, p. 288.
215
Deste modo, numa acção de reivindicação intentada pelo proprietário contra o possuidor, o ónus da
prova quanto à titularidade do direito de propriedade recai sobre o proprietário reivindicante (cfr., nesse sentido,
FRAGA, Álvaro Moreira Carlos, Direitos Reais – Segundo as prelecções do Prof. Doutor C. A. da Mota Pinto ao 4.º
Ano Jurídico de 1970-71, Almedina, Coimbra, 1971, p. 205).
216
Cfr., nesse sentido, FRAGA, Álvaro Moreira Carlos, Direitos Reais…, ob. cit., p. 212.
81
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
admitidos, pelo menos na sua fase liminar, basta tão só ao embargante alegar a sua posse
sobre os bens penhorados, quer se trate de um possuidor causal ou formal, e
independentemente de se encontrar a exercer poderes de facto sobre a coisa217, embora, como é
evidente, o terceiro possuidor fique vulnerável à discussão do direito de fundo em sede de
embargos de terceiro caso venha a ser suscitada pelos embargados a exceptio dominii.
Deste modo, a invocação pelo terceiro da sua qualidade de possuidor e da ofensa da sua
posse justifica, por si só, a admissibilidade da dedução de embargos de terceiro, uma vez que o
art. 1268.º do CC estabelece a presunção de que o terceiro embargante é o titular do direito
correspondente à sua actuação218. Aliás, o legislador foi sensível à especial dificuldade em sede
probatória quanto à demonstração da existência de uma posse em nome próprio que não seja
coincidente com a presunção da titularidade de direito (probatio diabolica), pelo que, em termos
probatórios, o embargante está dispensado de fazer prova de que possui com a intenção de agir
como se fosse titular do direito real correspondente. Ora, nesse caso, não invocando o
embargado a exceptio dominii em sede de contestação aos embargos, a penhora deverá ser
levantada por força da presunção da titularidade do direito a favor do embargante. No entanto,
importa salientar que nem toda a posse é susceptível de fundamentar a dedução de embargos
de terceiro. Na verdade, só é relevante a posse que permita presumir a existência do direito de
propriedade a favor do embargante219.
Tal como refere MANUEL RODRIGUES, a posse traduz-se num “poder directo e imediato
sobre as coisas e o seu titular tem a faculdade de exigir de todos os indivíduos uma abstenção
217
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 314.
218
Cfr., quanto à legitimação do terceiro para os embargos em função da presunção da titularidade do
direito pela sua posse, o Ac. do STJ, de 15 de Dezembro de 1998, proc. 1047/98 – 2.ª secção, in [Link].
219
Ac. do STJ, de 15 de Dezembro de 1998, proc. 1047/98 – 2.ª secção, in [Link]: “A posse do
embargante não é susceptível de justificar a procedência dos embargos de terceiro no caso de este, logo na petição
de embargos, ao justificar a aquisição da posse, alegar que o direito de propriedade da coisa penhorada é do
executado, justificando isto mesmo com junção de pertinente certidão do registo predial.”
82
Posse
220
RODRIGUES, Manuel, A Posse, Estudo de Direito Civil Português, ob. cit., p. 39.
221
Quanto à configuração da posse como um direito real, vide RODRIGUES, Manuel, A Posse, Estudo de
Direito Civil Português, 3.ª ed., Lisboa, 1980, p. 38.
222
Relativamente à qualificação jurídica da posse enquanto direito real de gozo, vide CORDEIRO, A.
Menezes, Direitos Reais, ob. cit., pp. 615 e 616.
223
Nesta perspectiva, a compropriedade traduz-se no exercício de “direitos da mesma natureza em
simultâneo sobre a mesma coisa ou direito, dominando-o completamente.” (RODRIGUES, Manuel, A Posse, Estudo
de Direito Civil Português, ob. cit., p. 14).
224
Quanto às diversas teorias sobre a natureza da compropriedade, vide RODRIGUES, Manuel, A Posse,
Estudo de Direito Civil Português, ob. cit., p. 142.
83
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
o direito de fazer na coisa usufruída as benfeitorias úteis e voluntárias que bem lhe parecer,
contanto que não altere a sua forma ou substância, nem o seu destino económico. Deste modo,
o direito de usufruto implica que o respectivo beneficiário exerça a sua posse sobre a coisa,
sendo certo que o Código Civil faculta os meios necessários à tutela possessória deste direito.
Atento o âmbito material deste direito, o usufrutuário é possuidor em nome próprio do
usufruto e possuidor em nome alheio da propriedade225.
Também no direito de servidão se verifica o exercício da posse. Na verdade, pelo direito
de servidão constitui-se um poder a favor do prédio dominante sobre o prédio serviente, isto é,
permite-se o exercício de poderes materiais sobre uma coisa alheia.
Nos termos do art. 601.º do CC, o património do devedor constitui a garantia quanto ao
cumprimento da sua obrigação, sendo certo que são susceptíveis de execução coerciva todos os
bens do devedor que, nos termos da lei substantiva, respondam pela dívida exequenda, a não
ser que a lei processual imponha limitações a essa agressão patrimonial (arts. 822.º a 824.º do
CC).
Tendo em vista uma maior segurança quanto ao cumprimento das suas obrigações, o
credor pode socorrer-se dos direitos reais de garantia, os quais lhe atribuem, designadamente, o
“direito de adquirir sobre o valor de um ou mais objectos que façam parte do património do
devedor, a faculdade de se fazer pagar do seu crédito, de preferência a qualquer outro credor.
Ter esta faculdade é ter um direito real de garantia.”226 Ora, de entre estes direitos, alguns deles
não implicam a posse efectiva da coisa ou do direito para que possam operar na sua máxima
eficácia. Tal é o caso da hipoteca e do privilégio creditório, já que, em ambos os casos, o direito
225
Nessa exacta medida, de acordo com MANUEL RODRIGUES, “porque é possuidor em nome próprio do
usufruto ele pode defender a sua posse de usufrutuário contra qualquer que o esbulha ou turba, mesmo contra o
proprietário; mas porque é possuidor em nome alheio da propriedade, ele nem pode invocar a sua posse contra o
proprietário quando o usufruto termina, nem adquirir por prescrição o objecto que possui, salvo se em um e outro
caso houver invertido o título por que possui.” (RODRIGUES, Manuel, A Posse, Estudo de Direito Civil Português, ob.
cit., pp. 146 e 147)
226
Cfr. RODRIGUES, Manuel, A Posse, Estudo de Direito Civil Português, ob. cit., p. 158.
84
Posse
se acha validamente constituído e tutelado sem que seja necessário o exercício efectivo da posse
pelo respectivo credor227.
Por sua vez, a maioria dos direitos reais de garantia implicam o exercício da posse sobre
a coisa pelo respectivo titular, sob pena da garantia não se constituir de forma válida e plena. É o
que se verifica, nomeadamente, no caso da consignação de rendimentos, do penhor, do direito
de retenção, da penhora e do arresto, situação em que se estabelece uma relação processual de
natureza possessória entre o credor e a coisa onerada em garantia de cumprimento.
Na verdade, a consignação de rendimentos pode implicar que o credor se torne detentor
da coisa no seu próprio interesse. Com efeito, ao abrigo do disposto no art. 661.º, n.º 1, do CC,
é possível estipular, quanto à posse dos bens, que estes passem para o poder do credor, o qual
fica, na parte aplicável, equiparado ao locatário, sem bem que com a faculdade de poder locar o
bem sobre o qual incide a consignação [art. 661.º, n.º 1, b), do CC].
No que concerne ao penhor, a constituição deste direito implica, em regra, a entrega da
coisa ao respectivo credor — embora, como verá infra, a coisa possa permanecer na posse do
respectivo devedor ou possa ser entregue a um terceiro — pelo que, vendo-se o devedor
desapossado da coisa, adquire o credor a qualidade de detentor da coisa pignoratícia. Nessa
exacta medida, o credor pignoratício passa a poder fazer uso, em relação, à coisa empenhada,
das acções destinadas à defesa da posse, ainda que seja contra o próprio dono [art. 670.º, a),
do CC]228.
Do mesmo modo, também o titular do direito de retenção tem a faculdade de exercer
um poder directo e imediato sobre a coisa enquanto garantia para o pagamento de um crédito
resultante de despesas feitas por causa dela ou de danos por ela causados (art. 754.º do CC).
Com efeito, o retentor exerce uma mera detenção sobre a coisa enquanto não for pago pelo seu
crédito (corpus), embora passe a assumir a qualidade de verdadeiro possuidor a partir do
227
Na verdade, recaindo a hipoteca sobre bens imóveis ou móveis sujeitos a registo, este direito real de
garantia fica plenamente protegido através da inscrição do direito no registo, sendo certo que, neste caso, o registo
tem natureza constitutiva atendendo à obrigatoriedade desse acto.
228
A este propósito, dispunha o Código Civil de 1867, no seu art. 860.º, n.º 2, que “o credor adquire pelo
penhor o direito de usar de todos os meios conservatórios da sua posse, até de requerer procedimento criminal
contra quem lhe furtar a coisa empenhada, ainda que seja o próprio dono.”
85
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
momento em que se veja obrigado a realizar despesas com vista à conservação e manutenção
da coisa229.
Por último, tanto no caso do arresto como da penhora, recaindo estas diligências de
natureza judicial sobre bens móveis do executado ou do requerido, tal circunstância implica a
apreensão efectiva dos bens objecto da diligência, ficando os mesmo depositados à ordem e sob
a responsabilidade de um fiel depositário230.
229
Cfr., nesse sentido, RODRIGUES, Manuel, A Posse, Estudo de Direito Civil Português, ob. cit., p. 163.
230
A este respeito, tal como refere MANUEL RODRIGUES, “[C]om o desapossamento surge uma nova
posse ao lado da posse do proprietário em favor daquele que o depositário representa a [sic] que subsiste enquanto
a penhora ou o arresto subsistirem.” (A Posse, Estudo de Direito Civil Português, ob. cit., p. 165).
231
Cfr. MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, Almedina, Coimbra, 1990, p. 78.
232
A este propósito, MENEZES LEITÃO destaca o facto de os direitos pessoais de gozo apresentarem
diversas características que os aproximam aos direitos de crédito, nomeadamente pelo facto de a lei permitir o
recurso a acções possessórias contra terceiros que privem o titular do direito pessoal de gozo da coisa ou o
perturbem no exercício do seu direito. Por outro lado, essa qualificação resulta da circunstância do respectivo titular
86
Posse
Nos termos do art. 336.º ex vi art. 1277.º, ambos do CC, é lícito o recurso à força com o
fim de realizar ou assegurar o próprio direito, quando a acção directa for indispensável, pela
impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais, para evitar a inutilização
prática desse direito, contanto que o agente não exceda o que for necessário para evitar o
prejuízo. Trata-se, com efeito, de uma excepção ao princípio da tutela pública dos direitos
subjectivos e que se justifica pela necessidade de evitar a inutilização da protecção do direito235.
Essa acção directa tanto pode traduzir-se na apropriação, destruição ou deterioração de
uma coisa, como na eliminação da resistência irregularmente oposta ao exercício do direito, ou
noutro acto análogo.
Deste modo, o legislador assegura ao possuidor o recurso à acção directa para a tutela
da sua posse sempre que a urgência dessa tutela não seja compatível com o recurso, em tempo
útil, aos tribunais judiciais. De todo o modo, uma vez que essa tutela tem natureza subsidiária
relativamente ao recurso à força pública, a validade de actuação do particular, pressuposta a
adquirir o direito a uma prestação do devedor (cfr. LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit.,
p. 110).
233
Quanto aos fundamentos para a defesa da posse — protecção da paz pública, valor da continuidade e
protecção da confiança, vide DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 269.
234
CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 579.
235
Cfr., a este propósito, SOUSA, Miguel Teixeira de, Sobre a Teoria do Processo Declarativo, Coimbra
Editora, Lisboa, 1980, pp. 61 e 62.
87
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
índole excepcional do recurso à acção directa, implica a apreciação jurisdicional dos respectivos
requisitos236.
De acordo com o art. 1276.º do CC, se o possuidor tiver justo receio de ser perturbado
ou esbulhado por outrem, será o autor da ameaça, a requerimento do ameaçado, intimado para
se abster de lhe fazer agravo, sob pena de multa e responsabilidade pelo prejuízo que causar.
Trata-se, com efeito, de uma acção judicial que tem como principal objectivo a
manutenção da posse (retinendae possessionis) quando exista algum fundado receio de que
possa vir a ocorrer uma perturbação ou esbulho da posse237.
236
Idem, p. 62.
237
Quanto aos requisitos para se poder recorrer a uma acção de prevenção da posse, é necessário, por um
lado, que a posse não tenha sido lesada, e, por outro, que exista um fundado receio pelo possuidor de vir a ser
perturbado ou esbulhado na sua posse (cfr. CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 583).
88
Posse
Deste modo, para que o possuidor possa recorrer a este meio processual torna-se
necessário que, por um lado, a sua posse não tenha ainda sido lesada, e ainda que tenham
ocorrido factos de que seja legítimo inferir estar o possuidor sob ameaça séria de ser perturbado
ou esbulhado238.
Este meio de defesa judicial visa reagir contra um acto de perturbação ou de esbulho
efectivo da posse, isto é, tem como objectivo a manutenção ou a restituição da posse perdida
(recuperandae possessionis). Através desta acção, o possuidor pretende ver mantida (em caso
de perturbação) ou restituída (em caso de esbulho) a sua posse enquanto não ficar definida a
questão da titularidade do direito239. Deste modo, a diferença entre a acção de manutenção e a
de restituição (recuperandae possessionis) reside no facto de, na primeira, não chegar a haver
um desapossamento efectivo, ao contrário do que se verifica na segunda.
Quanto aos requisitos para que possa ser intentada uma acção de restituição da posse,
torna-se necessário que exista uma posse sobre a coisa e que esta tenha sido esbulhada240.
Todavia o legislador estabelece uma limitação quanto ao recurso a esta acção porquanto se a
posse do autor não tiver mais que um ano, este só pode ser restituído ou mantido na sua posse
contra quem não tiver melhor posse, sendo certo que a melhor posse é aquela que é titulada, na
falta de título, a mais antiga e, em caso de igual antiguidade, a posse actual. Trata-se, na
verdade, de uma forma encontrada para impedir que as defesas possessórias funcionem a favor
do esbulhador e contra o esbulhado241.
O pedido do autor no sentido de ver mantida ou restituída a sua posse não é vinculativo
para o tribunal. Na verdade, nos termos do art. 661.º, n.º 3, do CPC, se tiver sido requerida a
manutenção em lugar da restituição da posse, ou esta em vez daquela, o juiz deve conhecer do
pedido correspondente à situação realmente verificada.
238
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, A Posse: Perspectivas Dogmáticas Actuais, Almedina, 1997, p. 145.
239
Vide, quanto ao regime da acção de manutenção ou de reintegração da posse no domínio do código civil
italiano, o regime previsto nos arts. 1168 (Azione di reintegrazione) e 1170 (Azione di manutenzione) do CC It.
240
Cfr., nesse sentido, ALMEIDA, L. P Moitinho, Restituição de Posse e Ocupação de Imóveis, 5.ª ed.,
Coimbra Editora, 2002, p. 19.
241
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, A Posse: Perspectivas Dogmáticas Actuais, ob. cit., p. 147.
89
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Dispõe o art. 1279.º do CC que o possuidor que for esbulhado com violência243 tem o
direito de ser restituído provisoriamente à sua posse, sem audiência do esbulhador. Em termos
adjectivos, uma vez que a todo o direito corresponde a acção adequada destinada a fazê-lo valer
em juízo, esta norma é concretizada pela providência cautelar de restituição provisória da posse
prevista nos arts. 393.º e 394.º do CPC, providência essa que tem por objectivo permitir que o
possuidor seja restituído provisoriamente à sua posse quando dela tenha sido privado por um
esbulho violento, devendo, para esse efeito, alegar os factos que constituem a posse, o esbulho
e a violência244. Nesse caso, se o juiz, uma vez produzida a prova, concluir que o requerente
tinha efectivamente a posse e que foi dela esbulhado com violência, deve ordenar a restituição
provisória da posse sem a audição prévia do esbulhador. Trata-se, a verdade, de uma excepção
relativamente ao princípio do contraditório previsto no art. 3.º do CPC, mas que se justifica
plenamente atenta a necessidade de se garantir o efeito útil dessa diligência,
De todo o modo, ainda que o esbulho não revista carácter violento, nada obsta a que o
possuidor possa recorrer à tutela cautelar a fim de ser restituído à sua posse, sendo certo que
nessa circunstância deve intentar uma providência cautelar comum (arts. 381.º e 395.º do
CPC).
242
No sentido da legitimidade processual passiva pertencer ao esbulhador, vide o Ac. do STJ, de 07 de
Maio de 1985, in BMJ, 347.º, p. 331.
243
Nos termos do disposto no art. 1261.º do CC, considera-se violenta a posse quando, para obtê-la, o
possuidor usou de coacção física ou coacção moral.
244
Quanto aos pressupostos necessários para o recurso à providência cautelar de restituição provisória da
posse — posse, esbulho e violência —, vide o Ac. do STJ, de 13 de Novembro de 1984, in BMJ, 341.º, p. 401.
90
Posse
245
CARVALHO, Orlando de, «Introdução à posse», ob. cit., p. 265.
246
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 9 de Outubro de 2003, proc. 03B1415, in [Link].
247
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 16 de Março de 1999, proc. 99B082, in [Link].
248
ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 101.
91
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
contrato de compra e venda celebrado verbalmente dado que a compra e venda de imóveis é
um contrato formal249 250.
Sendo a posse titulada, importa distinguir as situações em que o terceiro é possuidor de
um bem penhorado em sede executiva ou em que o terceiro é possuidor de um bem onerado
com uma garantia real constituída antes da acção executiva ser intentada em juízo.
No primeiro caso, isto é, nas situações em que o terceiro é possuidor de um bem
penhorado em sede executiva e sobre o qual não incide qualquer ónus ou encargo, o possuidor
só poderá embargar de terceiro se essa posse não puder ser extinta a qualquer momento pelo
titular do direito de fundo251.
Não sendo a posse titulada, o terceiro possuidor de um bem penhorado ou atingido por
um acto judicialmente ordenado de apreensão ou entrega de bens não pode, em regra, defender
a sua posse através do incidente de embargos de terceiro, dado que carece de legitimidade
substantiva para esse efeito252. Por este motivo, o cônjuge casado em regime de separação de
bens e possuidor de um bem próprio pertencente ao outro cônjuge (executado ou requerido da
diligência judicial) não pode defender a sua posse sobre esse bem em sede de embargos de
terceiro.
249
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 9 de Outubro de 2003, proc. 03B1415, in [Link].
250
Ainda que o promitente-comprador obtenha a entrega da coisa antes da celebração do negócio
translativo, nesse caso apenas adquire o corpus possessório, mas não assume o animus possidendi, ficando,
assim, numa situação de mero detentor ou de possuidor precário (Ac. do STJ, de 20 de Março de 2001, proc.
00A4063, in [Link]).
251
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 78.
252
Cfr., em sentido contrário, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de bens na posse de terceiros», in
Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, Coimbra Editora, 2002, pp. 619 e 620, segundo o qual “no âmbito da
defesa da posse, o título é apenas um factor de prevalência em caso de concorrências de posses (art. 1278-3 CC)
pelo que também o possuidor não titulado pode embargar de terceiro.”
92
Posse
coisa253, enquanto a posse jurídica ou legal resulta de uma determinação legal, sem necessidade
de qualquer actuação física e efectiva sobre a coisa possuída254.
A jurisprudência divide-se quanto à questão de saber se os embargos de terceiro só
podem ser deduzidos com fundamento em posse efectiva material ou se será suficiente uma
posse meramente jurídica255. Com efeito, no regime dos embargos de terceiro anterior à reforma
de 95/96, entendia-se que, por estar em causa um meio processual de defesa exclusiva da
posse, o terceiro devia invocar e provar que tinha a posse efectiva da coisa atingida pela
diligencia judicia, e que essa posse era anterior à diligência256. Deste modo, de acordo com esta
orientação jurisprudencial, só a posse real e efectiva tinha a eficácia necessária para ser
protegida por embargos de terceiro257, pelo que, ao proprietário dos bens que não tivesse a
respectiva posse, não era permitido embargar, apenas lhe sendo lícito recorrer à acção de
253
A posse efectiva exige o exercício do poder de facto sobre a coisa, o qual pressupõe uma relação
material com a coisa, não bastando um contacto fugaz e precário (cfr. o Ac. do TRP, de 11 de Dezembro de 1997,
proc. 9731166, in [Link]).
254
Vide, e.g., o regime previsto no art. 1255.º do CC, ao abrigo do qual, por morte do possuidor, a posse
continua nos seus sucessores desde o momento da morte, independentemente da apreensão material da coisa.
255
O art. 635.º da Novíssima Reforma Judiciária só permitia a dedução de embargos de terceiro para a
defesa da posse efectiva. Na verdade, esta norma determinava que “[O]s embargos de terceiro só têm lugar,
quando o que pretender deduzi-los alegar e provar efectiva posse na coisa penhorada, ou na que se mandar
entregar ao exequente, e não tiver sido ouvido, nem convencido na causa principal.”
Por sua vez, no Código de Processo Civil de 1876 era discutível se bastava a posse jurídica ou civil, ou se
seria exigível uma posse real e efectiva ― sendo certo que o art. 922.º do Código de Processo Civil de 1876
suprimiu a referência à posse “efectiva”. ALBERTO DOS REIS sustentava, quanto a esta questão, que só
aparentemente existia uma dissociação entre a posse jurídica e a posse efectiva, já que, na realidade, as duas
espécies coincidem, isto é, o fundamento seria sempre a posse efectiva, embora pudesse suceder que, por virtude
da lei, essa posse efectiva aproveitasse a pessoa diferente daquela que a exerceu ou exerce (REIS, José Alberto dos,
Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 404 a 406).
256
Cfr. o Ac. do TRE, de 16 de Março de 1989, in BMJ, 385.º, p. 627, o Ac. do STJ, de 27 de Janeiro de
1993, proc. 082800, in [Link]., o Ac. do TRP, de 15 de Abril de 1993, proc. 9350013, in [Link], o Ac.
do TRP, de 4 de Julho de 1995, proc. 9420911, in [Link] e o Ac. do TRL, de 29 de Fevereiro de 1996, proc.
0101252, in [Link].
257
Cfr. o Ac. do TRE, de 14 de Dezembro de 1989, in BMJ, 392.º, p. 530: “A posse necessária para
justificar embargos de terceiro é a posse real e efectiva, não bastando apenas a posse jurídica ou cível, nem a
invocação de um contrato de arrendamento que o embargante diz ter sido celebrado com simulação”. Vide, no
mesmo sentido, o Ac. do TRE, de 28 de Abril de 1992, in BMJ, 416.º, 738.º
93
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
reivindicação258. Assim, sendo exigida a posse efectiva para a dedução de embargos de terceiro,
o promitente-comprador, por exemplo, que tivesse obtido a entrega da coisa, era considerado
como um mero detentor ou possuidor precário, motivo pelo qual, não tendo a posse efectiva da
coisa, não podia deduzir embargos de terceiro259.
Contudo, ainda na vigência do regime anterior à reforma de 95/96, alguma
jurisprudência sustentava, nomeadamente com base no regime legal previsto no art. 1252.º do
CC260, que a posse jurídica era tão relevante como a posse material para a dedução de embargos
de terceiro261. Assim passou a defender-se a tese de que nos embargos de terceiro o fundamento
de direito, em regra, é a posse efectiva da coisa, embora, em certos casos, ela possa aproveitar
a pessoa diferente daquela que a exerceu ou exerce, como nos casos de depósito, locação,
comodato, herança e aquisição262.
Com a reforma processual de 95/96, o legislador passou a determinar que os embargos
de terceiro permitem tutelar “a posse ou um direito incompatível”, deixando, pois, de fazer
qualquer exigência quanto à efectividade da posse. Deste modo, a jurisprudência passou a
considerar que, à luz da actual redacção do art. 351.º do CPC, são equiparadas a posse efectiva
e a posse meramente jurídica para efeitos de embargos de terceiro263. Com efeito, só
258
Cfr. o Ac. do TRC, de 16 de Junho de 1987, in CJ, tomo III, 1987, p. 39, bem como o Ac. do TRP, de 5
de Maio de 1997, proc. 9750414, in [Link]: “Não tendo os embargantes alegado factos concretos que
revelem a posse real e efectiva sobre os bens, há insuficiência da causa de pedir que leva à ineptidão da petição
inicial e à absolvição da instância. O que importa para o êxito da providência é concluir-se pela posse real e efectiva
e não pela simples posse jurídica ou civil que dimana da qualidade de proprietário dos bens.”
259
Cfr. o Ac do TRP, de 20 de Dezembro de 1988, in BMJ, 382.º, p. 532, e o Ac. do TRP, de 13 de Janeiro
de 2000, proc. 9950777, in [Link].
260
De acordo com esta disposição legal, a posse tanto pode ser exercida pessoalmente, como por
intermédio de outrem.
261
Vide, entre outros, o Ac. do STJ, de 24 de Junho de 1982, in BMJ, 318.º, p. 394, o Ac. do STJ, de 1 de
Abril de 1992, in BMJ, 416.º, p. 690, e o Ac. do TRC, de 9 de Maio de 1995, in CJ, tomo III, 1995, p. 33.
262
Cfr. o Ac. do TRP, de 16 de Janeiro de 1997, proc. 9631401, in [Link].
263
Cfr. o Ac. do STJ, de 7 de Fevereiro de 1995, proc. 086299, in [Link]. Vide, também, o Ac. do
TRC, de 9 de Maio de 1995, in CJ, tomo III, 1995, p. 22: “Para efeitos de embargos de terceiro é relevante tanto a
posse material como a jurídica.” Vide, em sentido contrário, o Ac. do STJ, de 23 de Abril de 1998, proc. 62/98 –
1.ª secção, in [Link]: “Os embargos de terceiro contra arresto ou penhora pressupõem a posse real, efectiva e
actual do embargante sobre os respectivos bens (art.º 1037, do CPC). O contrato-promessa de compra e venda não
é susceptível, só por si, de conferir aquela posse ao promitente-comprador (arts. 1263 e seguintes, do CC).”
94
Posse
aparentemente existe uma dissociação entre a posse efectiva e a posse jurídica, dado que, na
realidade, as duas posses coincidem, pelo que a dedução de embargos de terceiro tanto se pode
fundamentar na posse efectiva como na posse jurídica264.
Na verdade, atendendo à concepção actual da posse prevista no art. 351.º do CPC, não
se afigura que o legislador tenha pretendido vedar ao possuidor jurídico ou legal a possibilidade
de deduzir embargos de terceiro contra uma penhora ou um acto judicialmente ordenado de
apreensão ou de entrega de bens, motivo pelo qual os embargos de terceiro podem ser
deduzidos, quer com fundamento na ofensa da posse efectiva, quer com base na ofensa da
posse jurídica265. Nesta exacta medida, o alienante que tenha reservado a propriedade da coisa
até ao seu integral pagamento pode deduzir embargos de terceiro contra a penhora da coisa em
execução movida contra o adquirente, dado que, embora não tenha a posse efectiva, detém, no
entanto, a posse jurídica da mesma até à realização integral do preço.
Tendo em conta o critério da relação jurídica estabelecida entre o titular do direito real
sobre o bem e o exercício dos poderes materiais correspondentes ao título, a posse diz causal
(ius possidendi) quando é o próprio titular do direito que exerce sobre a coisa os poderes
materiais correspondentes à sua posse. O mesmo é dizer que, na posse causal, existe uma
coincidência entre a exteriorização e a titularidade substantiva do direito266, ou seja, um
verdadeiro ius possidendi porquanto o possuidor, além da posse, detém ainda o direito
264
Vide o Ac. do TRP, de 12 de Outubro de 1992, proc. 9240205, in [Link]., bem como o Ac. do
TRP, de 10 de Março de 1994, proc. 9340815, in [Link], e o Ac. do TRP, de 5 de Dezembro de 1996, in
BMJ, 462.º, p. 490: “Não só a posse material mas também a posse jurídica releva para efeitos de embargos de
terceiro (…) A posse pode ser exercida pessoalmente ou por intermédio de outrem.” Em sentido contrário, cfr. o Ac.
do STJ, de 5 de Dezembro de 2000, proc. 3361/00 – 6.ª secção, in [Link]. “A posse necessária para
justificar embargos de terceiro é a posse real e efectiva, não bastando a mera posse jurídica ou civil.”
265
Vide, nesse sentido, FERREIRA, Durval, Posse e Usucapião, Almedina, 2002, p. 388. Cfr. o Ac. do STJ,
de 14 de Maio de 2002, proc. 1125/02 – 6.ª secção, in [Link]: “A posse susceptível de fundamentar os
embargos de terceiro, no regime anterior à reforma de 1995/96, é a posse real e efectiva, e não a simples posse
jurídica ou civil.”
266
ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 82.
95
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
substantivo correspondente a essa posse (por exemplo, a posse exercida pelo proprietário nos
exactos termos do seu direito).
Por sua vez, a posse diz-se formal (ius possessionis) quando a pessoa que exerce sobre
a coisa os poderes materiais correspondentes à sua posse não é titular do direito real
correspondente sobre essa coisa267 268. Com efeito, neste caso verifica-se uma dissociação entre a
afectação jurídica e a afectação material da coisa269. Significa isto que, ainda que não seja titular
de qualquer direito sobre a coisa, o possuidor comporta-se materialmente como se o fosse,
exercendo sobre a coisa os poderes do conteúdo respectivo270.
A jurisprudência tem vindo a entender que, para efeitos de embargos de terceiro, são
equiparadas a posse causal e a posse formal271. De acordo com a posição sustentada por
REMÉDIO MARQUES, só o possuidor causal, isto é, o titular do direito de fundo, o possuidor
formal em nome próprio e o possuidor formal em nome alheio (desde que nesse caso a coisa
penhorada ou apreendida pertença a um outro terceiro que não seja parte na causa)272, poderá
deduzir embargos de terceiro, ainda que fiquem eventualmente sujeitos à invocação procedente
da exceptio dominii273.
Se o possuidor formal em nome alheio avisar o possuidor em nome próprio da penhora
que incidiu sobre o bem (tal como lhe impõe o disposto nos arts. 1038.º, al. h), 1135.º, al. g),
1187.º, b) e 1188.º, n.º 1, todos do CC) e se este não deduzir embargos de terceiro perante tal
ofensa, o detentor tem legitimidade para deduzir embargos de terceiro para defender a sua
posse sobre a coisa, sendo certo que, caso venha a ser invocada pelas partes primitivas a
267
RAMALHO, Maria do Rosário Palma, «Sobre o fundamento possessório dos embargos de terceiro
deduzidos pelo locatário, parceiro pensador, comodatário e depositário», ob. cit., p. 656.
268
Pode verificar-se a coexistência da posse causal e da posse formal no domínio da mesma relação
jurídica estabelecida entre o titular do direito e a coisa. Nesta exacta medida, e.g., o usufrutuário será possuidor
formal, em nome alheio, relativamente ao proprietário, e possuidor causal em nome próprio, em resultado do seu
direito de usufruto.
269
Cfr., a este propósito, CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 602.
270
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 15 de Janeiro de 1991, proc. 079089, in [Link].
271
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 7 de Fevereiro de 1995, proc. 086299, in [Link].
272
Isto é, aquele que exerce poderes de facto sem intenção de agir como beneficiário (art. 1253.º do CC).
273
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 316. Vide,
no mesmo sentido, MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit.,
p. 110, segundo o qual o possuidor causal pode deduzir embargos de terceiro, embora fique sujeito à sua
improcedência em caso de invocação da exceptio dominii.
96
Posse
exceptio dominii, o possuidor em nome próprio deve ser chamado à causa através de um
incidente de intervenção principal provocada (art. 325.º do CPC) sob pena da decisão que vier a
ser proferida não o vincular em sede de caso julgado274.
A posse diz-se em nome próprio quando o possuidor que exerce a sua posse sobre a
coisa se baseia num direito real próprio ou ainda nos casos em que, ainda que o bem seja
detido de forma abusiva atento o facto de não deter qualquer direito sobre ele, o possuidor actua
como se tivesse tal direito, não o reconhecendo, consequentemente, a mais ninguém275. É o caso
paradigmático da posse do proprietário sobre o bem objecto desse direito de propriedade.
Em contrapartida, a posse diz-se em nome alheio quando a pessoa que exerce os
poderes materiais sobre a coisa reconhece que o direito real correspondente pertence a outrem,
pelo que possui em nome dele. Trata-se, assim, de um possuidor in nomine alieno. Enquadram-
se nas situações de posse em nome alheio os casos do comodatário, do depositário, do locatário
e do parceiro pensador276. Por tal motivo, nas situações em que o possuidor em nome alheio
pretenda deduzir embargos de terceiro contra uma diligência ofensiva da sua posse, deve
assentar a sua causa de pedir não só nessa posse como também no respectivo direito
incompatível em que se sustenta essa posse.
Embora, em regra, apenas seja apenas susceptível de permitir a dedução de embargos
de terceiro a posse exercida em nome próprio (a qual permite presumir a titularidade do
respectivo direito de fundo), a verdade é que a posse exercida em nome de outrem pode
também facultar a dedução de embargos de terceiro em situações excepcionais, desde que o
titular do direito real não seja executado, e que a posse se fundamente em direito pessoal de
274
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 316.
RAMALHO, Maria do Rosário Palma, «Sobre o fundamento possessório dos embargos de terceiro
deduzidos pelo locatário, parceiro pensador, comodatário e depositário», ob. cit., p. 657.
276
Cfr. o Ac. do STJ, de 22 de Outubro de 1991, in BMJ, 410.º, p. 703, do qual resulta que o locatário, o
comodatário, o depositário e o parceiro pensador são possuidores em nome alheio porquanto não exercem sobre a
coisa poderes a título de direito real, mas com base num direito pessoal de gozo. Vide, no mesmo sentido, COSTA,
Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 206.
97
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
gozo ou de aquisição277. Será o caso, nomeadamente, do locatário (art. 1037.º, n.º 2, do CC), do
parceiro pensador (art. 1125.º, n.º 2, do CC), do comodatário (art. 1133.º, n.º 2, do CC) e do
depositário (art. 1188.º do CC).
A jurisprudência tem vindo a adoptar uma interpretação ampla quanto à qualidade da
posse susceptível de permitir a dedução de embargos de terceiro, sustentando-se que no regime
actual resultante da reforma de 95/96, é admissível o recurso ao incidente de embargos de
terceiro por todo o possuidor, seja ele em nome próprio ou em nome alheio278. Na verdade, uma
vez que o art. 351.º, n.º 1, do CPC veio determinar que os embargos de terceiro podem ser
deduzidos, quer pelo possuidor, quer pelo titular de um direito incompatível com a realização ou
o âmbito da diligência, os embargos de terceiro, em determinadas situações específicas, podem
ser deduzidos pelo possuidor em nome próprio ou em nome alheio279.
277
Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º,
pp. 616 e 617. Vide, no mesmo sentido, CARDOSO, Eurico Lopes, Manual da Acção Executiva, pp. 384 e 385. Em
sentido contrário, SALVADOR DA COSTA, segundo o qual não é admissível a dedução de embargos de terceiro
quando este seja um mero possuidor precário ou detentor, pelo que só o possuidor em nome próprio, que tenha a
posição de terceiro, poderá deduzir embargos de terceiro contra as diligências que ofendam a sua posse (COSTA,
Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 207). No mesmo sentido CASTRO MENDES sufraga a tese de
que o possuidor em nome alheio não poderá deduzir embargos de terceiro in nomine alieno, isto é, para defender a
posse em nome próprio daquele em cujo nome possui, porquanto a lei civil apenas lhe impõe o dever de avisar o
possuidor em nome próprio relativamente a qualquer acto de perturbação da posse (MENDES, João de Castro,
Direito Processual Civil, ob. cit., p. 132). Colocando entraves a essa possibilidade, vide CASTRO, Anselmo de, A
Acção Executiva Singular, Comum e Especial¸3.ª ed., Coimbra Editora, 1977, p. 350.
278
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 21 de Novembro de 2006, proc. 3740/06 – 6.ª secção, in
[Link].
279
Cfr., a este propósito, FREITAS, José Lebre de, «Revisão do processo civil», in ROA, ano 55.º, vol. II,
1995, p. 462.
98
Posse
280
Cfr. o Ac. do STJ, de 29 de Outubro de 1986, in BMJ, 356.º, p. 584, segundo o qual a essência da
distinção entre posse e detenção radica mais no elemento objectivo (conduta ut dominus) do que no elemento
subjectivo (animus dominii).
281
Quanto à distinção entre posse precária e mera detenção, vide ALMEIDA, L. P Moitinho, Restituição de
Posse e Ocupação de Imóveis, ob. cit., p. 59, segundo o qual “a simples detenção confunde-se, praticamente, com
a mera posse, porquanto não é titulada, enquanto a posse precária é sempre titulada.”
282
Encontram-se abrangidas por esta disposição legal as situações de posse em nome alheio e em que o
poder de facto exercido pelo beneficiário não reveste a aparência do exercício do direito (LIMA, Pires de; VARELA,
Antunes, Código Civil Anotado, vol. III, 2.ª ed. rev. e actual., Coimbra Editora, Coimbra, 1987, pp. 9 e 10).
283
Tratam-se, na verdade, de actos de desfrute de coisa alheia em virtude da condescendência do titular do
direito e que são praticados normalmente no âmbito de uma relação de vizinhança e tendo em vista um
relacionamento pacífico e cortês (cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 95).
284
No âmbito do Código Civil de 1867, o art. 474.º determinava que os actos facultativos ou de mera
tolerância não constituíam posse (cfr. FERREIRA, José Dias, Código Civil Portuguez, vol. II, ob. cit., p. 6).
285
Encontram-se abrangidas por esta previsão legal as situações em que a posse é exercida por uma
pessoa, mas que é juridicamente imputável a outra (cfr. CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p.
400).
286
Cfr. MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit., p.
50. Com efeito, tal como refere OLIVEIRA ASCENSÃO, há mera detenção sempre que exista corpus, mas se verifica
uma situação que denuncia a existência de animus, tal como sucede quando existe uma intenção declarada de
desvalorização da actuação do sujeito sobre a coisa (ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit.,
p. 95).
99
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
287
. Nessa exacta medida, o animus constitui o elemento diferenciador entre as situações de
posse e as de mera detenção, sendo certo, além do mais, que é em função do animus que se
verifica a delimitação do direito possuído288.
Ora, sendo o principal fundamento dos embargos de terceiro a ofensa ou a ameaça de
ofensa da posse, enquanto direito real, de um terceiro que não é parte na causa, e tendo em
conta a configuração jurídica da posse precária ou mera detenção, em regra não é admissível a
dedução de embargos de terceiro quando este assuma a posição de possuidor precário ou de
mero detentor289 290
. Na verdade, ao abrigo do art. 831.º do CPC, os bens do executado são
apreendidos ainda que, por qualquer título, se encontrem em poder de terceiro, sem prejuízo,
porém, dos direitos a que este seja lícito opor ao exequente. Deste modo, embora a lei
reconheça a possibilidade de o terceiro poder opor-se à penhora quando a mesma seja ofensiva
da sua posse ou de um direito de fundo incompatível com tal diligência, a situação de mera
detenção do bem penhorado não poderá consubstanciar um impedimento à realização da
penhora, nem tão pouco poderá fundamentar uma oposição a esse acto291.
De todo o modo, uma vez que o detentor exerce um poder de facto sobre a coisa,
situação que lhe confere a presunção da titularidade do direito correspondente (art. 1268.º do
Cc), o detentor está dispensado de fazer a prova de que possui a coisa com a intenção de agir
como se fosse o titular do direito real correspondente. Assim, sendo deduzidos embargos de
terceiro pelo mero detentor com fundamento na ofensa da sua posse, cabe ao embargado
287
De acordo com MANUEL RODRIGUES, “[A] posse é a exterioridade de um direito real que se define por
dois elementos: — o corpus elemento material; e o animus, intenção de exercer um determinado direito real, como
se fora o seu titular. Toda e qualquer outra relação material é detenção” (RODRIGUES, Manuel, A Posse, Estudo de
Direito Civil Português, ob. cit., p. 10).
288
Cfr. o Ac. do STJ, de 3 de Dezembro de 1998, proc. 1121/98 – 1.ª secção, in [Link].
289
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 29 de Junho de 1995, in BMJ, 448.º, p. 314.
290
A este propósito, TEIXEIRA DE SOUSA sustenta que, estando em causa uma situação de mera detenção
ou de posse precária – situação que consubstancia uma posse formal porquanto se encontra desligada de qualquer
outro direito real –, esta não é susceptível de fundamentar a dedução do incidente processual de embargos de
terceiro (SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 312).
291
Nessa exacta medida, tal como sustenta LOPES DO REGO, a mera titularidade de um direito pessoal de
gozo, fundando em comodato ou depósito, não será oponível ao credor exequente, não inviabilizando a penhora
integral dos bens (REGO, Lopes do, Comentários do Código de Processo Civil, vol. II, 2.ª ed., Almedina, 2004,
p. 61).
100
Posse
provar que os actos integradores do corpus do embargante não são reveladores da posse,
configurando, ao invés, actos delimitadores de uma simples tolerância ou mera detenção292.
Embora, em regra, a posse precária não permita a dedução de embargos de terceiro,
uma vez que este incidente pode ser deduzido com fundamento num direito incompatível com a
realização ou o âmbito da diligência, verificam-se determinadas situações excepcionais em que
um possuidor precário ou um mero detentor pode embargar de terceiro. Tal é o caso,
nomeadamente, do comodatário (art. 1133.º, n.º 2, do CC), do parceiro pensador (art. 1125.º,
n.º 2, do CC), do depositário (art. 1188.º, n.º 2, do CC), do locatário (art. 1037.º, n.º 2, do CC)293
294
, e do promitente-comprador295, sendo certo, no entanto, que em todas essas situações a lei só
permite a tutela em sede de embargos de terceiro se a posse do detentor for anterior à diligência
judicial contra a qual pretende reagir, já que é irrelevante a posse constituída em momento
posterior296 (art. 819.º do Cc).
292
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 3 de Dezembro de 1998, proc. 1121/98 – 1.ª secção, in
[Link].
293
RAMALHO, Maria do Rosário Palma, «Sobre o fundamento possessório dos embargos de terceiro
deduzidos pelo locatário, parceiro pensador, comodatário e depositário», p. 651. Vide, no mesmo sentido, CASTRO,
Anselmo de, A Acção Executiva Singular, Comum e Especial, ob. cit., p. 349.
294
Cfr., quanto à precariedade da posse do arrendatário, o Ac. do STJ, de 9 de Outubro de 2006, proc.
2868/06 – 1.ª secção, in [Link].
295
Cfr. o Ac. do TRP, de 23 de Janeiro de 1996, in BMJ, 453.º, p. 554: “I - Os embargos de terceiro
podem, em certos casos, ser utilizados para defender situações que configuram mera detenção. II - Assim, a
promitente compradora de um apartamento pode usar tais embargos se por força de contrato promessa de compra
e venda de 10 de Janeiro de 1985 e com total consentimento do promitente vendedor passou a habitar o
apartamento em Abril de 1985, aí ficando a residir até hoje”. Vide, em sentido contrário, o Ac. do STJ, de 28 de
Novembro de 1975, proc. 065884, in [Link], segundo o qual “[A] posse precária, exercida em nome alheio,
assente num contrato-promessa de compra e venda, não constitui fundamento para embargos de terceiro, os quais
se destinam a defender a posse real e efectiva.”
296
Cfr. o Ac. do STJ, de 28 de Outubro de 1992, proc. 003190, in [Link].
101
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
102
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
SECÇÃO II
DIREITO INCOMPATÍVEL COM A REALIZAÇÃO OU O ÂMBITO DA DILIGÊNCIA
103
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
104
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
1. DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA
297
REGO, Lopes do, Comentários do Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 325.
105
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
O art. 824.º do CC, conjugado com o art. 888.º do CPC, regula os efeitos da venda
executiva em relação à caducidade dos direitos reais de garantia e dos demais direitos reais que
incidam sobre a coisa alienada298.
298
O art. 824.º do CC encontra na sua origem a Lei Hipotecária de 1 de Julho de 1863, a qual, a respeito
da execução hipotecária, preceituava no seu art. 169.º, o seguinte:
“Os ónus que tiverem sido registados em data posterior à da transmissão não acompanham o prédio.
§ único. Os mesmos ónus registados em número posterior ao da hypotheca, somente acompanham o
prédio e determinam a deducção de que tracta o artigo antecedente, quando depois de pagos todos os créditos
hypothecarios anteriores, houver excedente no valor do prédio; e n’este caso determinam a deducção até á
concorrência d’esse valor.”
Por sua vez, o art. 1021.º do CC de 1867 determinava o seguinte: “A arrematação, adjudicação ou
transmissão de algum predio, por qualquer modo feita, não prejudica os privilégios imobiliarios especiaes, que a
esse tempo se achem constituídos sobre fructos, rendas ou moveis do predio arrematado, adjuicado ou
transmitido.”
O art. 1022.º do mesmo diploma legal preceituava que “[O]s ónus reaes, com registo anterior ao da
hipotheca de que resultou a expropriação, ou ao da transmissao mencionada no artigo antecedente, acompanham o
predio alienado, e do seu valor é deduzida a importância dos ónus referidos.”
O art. 1023.º dispunha o seguinte:
“Os ónus reaes, com registo posterior ao da hypotheca ou da transmissão, não acompanham o predio.
§ único. Exceptuam-se da disposição d’este artigo os onus reaes constituídos antes da promulgação d’este
codigo, que forem registados dentro do prazo de um anno, contado desde a mesma promulgação.
No âmbito da lei adjectiva, o Código de Processo Civil de 1876 veio estipular no seu art. 856.º que “[O]s
bens serão arrematados livres dos onus reaes que não tiverem registo anterior ao de qualquer penhora, arresto ou
hypoteca, salvos contudo os onus reaes que, tendo sido constituídos em data anterior, subsistirem sem registo.”
O art. 949.º do CC de 1867, na redacção que lhe foi dada pelo Decreto n.º 19.126, de 16 de Dezembro
de 1930, passou a determinar que, constituíam onus reaes, a hipoteca, a penhora e o arresto sobre bens
imobiliários ou créditos hipotecários, o penhor em créditos hipotecários, o dote, o arrendamento por mais de um
ano, havendo adiantamento de renda, ou por mais de quatro, não o havendo, a consignação de rendimentos para
pagamento de quantia determinada ou por determinado número de anos e a adjudicação de rendimentos.
Por sua vez, o Código de Processo Civil de 1939 veio dispor sobre esta matéria no art. 907.º, preceito que
apresentava a seguinte redacção:
“1. Os bens são transmitidos livres dos direitos reais que não tenham registo anterior ao de qualquer
arresto, penhora ou hipoteca, salvos os que, tendo sido constituídos em data anterior, produzam efeito em relação a
terceiros independentemente de registo.
106
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Com efeito, dispõe o art. 824.º, n.º 1, do CC, que a venda em execução transfere para o
adquirente os direitos do executado sobre a coisa vendida299 300 301.
Por sua vez, determina o n.º 2 da referida disposição legal que “os bens são
transmitidos livres dos direitos de garantia que os onerarem, bem como dos demais direitos
2. Em seguida ao pagamento do preço e da sisa são mandados cancelar os registos dos direitos reais que
devam caducar, assim como os registos de quaisquer direitos reais de garantia, transferindo-se para o produto da
venda os direitos dos respectivos credores.”
Face a esta formulação legal, ALBERTO DOS REIS defendia que caducavam com a venda executiva, não
só os direitos reais de garantia (a hipoteca, a penhora, o arresto, o penhor, a consignação e a adjudicação de
rendimentos), como também os direitos reais de gozo (direito de domínio), os direitos que constituem as
propriedades imperfeitas (usufruto, uso e habitação, enfiteuse e subenfiteuse, censo, quinhão, compáscuo,
servidões) a mera posse e os ónus reais, ou seja, o dote e o arrendamento, desde que tivessem sido constituídos ou
registados posteriormente a qualquer arresto, penhora ou hipoteca (REIS, José Aberto dos, Processo de Execução,
vol. 2.º, 3.ª ed. (reimpr.), Coimbra Editora, Coimbra, 1985, p. 399).
299
Determina, a este respeito, o art. 2919. (1.ª parte) do CC It., que “[L]a vendita forzata trasferisce
all'acquirente i diritti che sulla cosa spettavano a colui che ha subito l'espropriazione, salvi gli effetti del possesso di
buona fede.”
300
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 21 de Março de 2003, proc. 03A4098, in [Link]: “A
transferência para o adquirente dos direitos do executado sobre a coisa vendida nos termos do art. 824º, n.º 1, do
[Link], é uma aquisição derivada, tal como sucede na venda voluntária, a que se aplica o disposto no art. 1057º do
mesmo Código.”
301
A jurisprudência tem-se dividido quanto à qualificação jurídica da natureza da venda executiva. Com
efeito, por um lado tem sido sustentado que a venda executiva constitui um contrato de direito público, dado que se
trata de uma venda judicial no âmbito dos poderes públicos atribuídos aos tribunais. Ainda que essa venda seja
efectuada pelo solicitador de execução, ele fá-lo, contudo, imbuído de funções de natureza pública, já que a venda
constitui uma das etapas do iter executivo que tem no seu início a apreensão de bens do devedor com vista à sua
execução forçada (cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 6 de Março de 2007, proc. 85047/2006-7, in
[Link]).
Em sentido contrário, tem vindo a ser sufragado maioritamente o entendimento de que a venda executiva
deve ser qualificada como um contrato de natureza mista, uma vez que, ainda que se trate de um contrato de
direito público, a venda executiva produz os mesmos efeitos que o contrato de compra e venda de natureza privada,
sendo-lhe aplicável, a título subsidiário, o regime previsto no art. 879.º do CC (Cfr. o Ac. do STJ, de 1 de Março de
2007, proc. 4768/06 – 1.ª secção, in [Link]). Cfr., quanto à aplicação subsidiária das normas do contrato de
compra e venda de natureza privada à venda executiva, designadamente no que respeita à obrigação de pagamento
do preço e à ineficácia da venda, LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. II, ob. cit., pp. 96
e 97.
107
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
reais que não tenham registo anterior ao de qualquer arresto, penhora ou garantia302, com
excepção do que, constituídos em data anterior, produzam efeitos em relação a terceiros
independentemente de registo”303. O efeito extintivo previsto no art. 824.º, n.º 2, do CC, e que
constitui a principal diferença entre a venda negocial e a executiva, visa não só favorecer a
alienação de bens em sede executiva relativamente ao exequente e ao executado ― o primeiro
porque consegue obter mais facilmente o pagamento da quantia exequenda, e o segundo porque
consegue amortizar a dívida com um menor número de bens necessários para esse efeito ―,
como também garantir que o terceiro não seja confrontado com um ónus que diminua a
utilidade económica da coisa adquirida em sede executiva304. De todo o modo, o legislador
protege os titulares dos direitos que caducarem por efeito dessa venda, dado que esses direitos
“transferem-se para o produto da venda dos respectivos bens” (n.º 3), ou seja, o titular desse
direito irá receber o respectivo crédito através do produto da venda executiva, tendo em
consideração, naturalmente, a ordem de graduação dos créditos dos respectivos credores.
α) “Os bens são transmitidos livres dos direitos reais de garantia que os onerarem…”
Atenta a formulação legal do art. 824.º, n.º 2, do CC, verifica-se que a venda executiva,
além dos efeitos previstos no art. 879.º do CC — transferência da propriedade, obrigação de
entrega da coisa e obrigação de pagamento do preço — produz desde logo um efeito extintivo
quanto aos direitos reais305 de garantia que onerarem o bem (quer tenham sido constituídos em
momento anterior ou posterior à penhora)306.
302
Em caso de registo provisório do direito, a conversão desse registo provisório em registo definitivo
retroage à data daquele e prevalece sobre os registos realizados posteriormente à data da inscrição provisória (cfr.,
nesse sentido, o Ac. do STJ, de 29 de Novembro de 2006, proc. 3808/06 – 1.ª secção, in [Link]).
303
No mesmo sentido, determina o art. 2213 do CC Fr. que “[L]a consignation du prix et le paiement des
frais de la vente purgent de plein droit l'immeuble de toute hypothèque et de tout privilège du chef du débiteur.”
304
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 23 de Setembro de 2008, proc. 465-A/2002.C1, in [Link].
Vide, na doutrina, COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, 3.ª ed., Almedina, 2005, p. 7.
305
O direito real traduz-se numa “relação jurídica entre o titular e a coisa, subordinando esta directa e
imediatamente ao poder ou domínio daquele” (cfr. MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais,
Almedina, Coimbra, 1990, p. 99).
306
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 6 de Fevereiro de 2001, proc. 3581-2000, in [Link]: “os
direitos de garantia caducam todos após a venda judicial.” Em sentido contrário, ANSELMO DE CASTRO sustenta
108
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
que o art. 824.º do CC só abrange os direitos reais de garantia que tenham sido constituídos antes da penhora
porquanto os direitos reais de garantia constituídos em momento posterior “caem sob o princípio da ineficácia
relativa tendo-se, por isso, pura e simplesmente como inexistentes em relação à execução, salvo no caso de
penhora posterior nos mesmos bens por outra execução” (cfr. CASTRO, Anselmo de, A Acção Executiva Singular,
Comum e Especial, ob. cit., p. 228). Cfr., no mesmo sentido, o Ac. do STJ, de 25 de Novembro de 1999, in CJ ,
tomo III, 1999, p. 118. Tal entendimento não se afigura o mais correcto. Na verdade, podendo recair sobre o
mesmo bem mais do que uma penhora, é evidente que a venda executiva desse bem implica a caducidade das
penhoras registadas em momento posterior, sem que, contudo, os respectivos credores exequentes se vejam
impedidos de reclamar os respectivos créditos no âmbito do processo executivo onde foi efectuada a venda.
307
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRC, de 4 de Março de 2008, proc. 948/05.6TBCBR, in [Link]: “I
– O concurso de credores, rectius a fase concursal do processo executivo singular, está ligado(a) à circunstância de
a venda executiva libertar os bens transmitidos dos direitos de garantia que os onerarem [artigo 824º, nº 2 do
Código Civil (CC)]. II - Neste específico concurso, respeitante a uma execução singular, contrariamente ao que
sucede com o processo de insolvência, não está em causa uma “execução universal” do património de um devedor,
mas a liquidação de bens concretos desse património, em função de um crédito específico, sendo que só a
circunstância de esses bens serem transmitidos, nessa execução, livres dos direitos de garantia que os onerarem,
justifica a consideração de outros créditos, para além do do exequente.”
308
Será o caso do titular de um direito de retenção sobre a coisa penhorada que se tenha tornado
conhecido pelo solicitador de execução nos termos do art. 831.º do CPC, o qual deve ser citado para reclamar o seu
crédito em sede executiva, sob pena de, não o fazendo, se verificar a extinção do seu direito por força da venda.
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRC, de 9 de Fevereiro de 1999, in [Link], segundo o qual “[O] artº 824º, nº 2
do Código civil, estabelece que os bens (cuja venda tenha sido efectuada em execusão) são transmitidos livres de
direitos de garantias que os oneram. Ora, sendo o direito de retenção um direito real de garantia, caduca quando a
coisa sobre que incide é vendida em execução. Este direito de retenção não pode ser englobado "nos demais
direitos reais" a que alude a última parte da mesma disposição, precisamente porque é um direito real de garantia.”
309
Atento o sentido da formulação legal, o solicitador de execução deve citar os credores que constam da
certidão de ónus e encargos referente ao bem penhorado (e a que se refere o art. 838.º, n.º 2, do CPC), bem como
os credores que se tenham tornado conhecidos no processo, quer em consequência do regime previsto no art.
831.º, n.º 2, do CPC — ou seja, credor titular de um direito de retenção ou de penhor sobre o bem penhorado e que
se tenha tornado conhecido do agente de execução aquando da diligência de penhora e apreensão efectiva da coisa
—, quer em virtude da indicação realizada pelo próprio executado ao abrigo do n.º 6 da mesma disposição legal.
109
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
sendo certo que só os credores que sejam titulares de garantia real sobre os bens penhorados
podem reclamar, pelo produto destes, o pagamento dos respectivos créditos (art. 865.º do
CPC)310 311. Com efeito, a citação de credores do executado que sejam titulares de direitos reais
de garantia sobre bens penhorados em sede executiva visa garantir, fundamentalmente, o
cumprimento do disposto no art. 822.º do CC — disposição que consagra o princípio geral
segundo o qual o exequente adquire pela penhora o direito de ser pago com preferência em
relação a qualquer outro credor que não tenha garantia real anterior — pelo que a citação dos
credores permitirá graduar os diferentes créditos assegurados pelos direitos reais de garantia a
eles inerentes de acordo com as diferentes ordens de preferência estabelecidas na lei.
Assim, o titular do direito de retenção sobre o bem penhorado que tiver caducado por
força da venda executiva não pode opor-se à entrega do bem ao respectivo adquirente já que o
seu direito se extinguiu por força da venda312.
Nos termos do disposto no art. 888.º do CPC, após o pagamento do preço e do imposto
devido pela transmissão, o agente de execução promove o cancelamento dos registos dos
De todo o modo, os credores do executado que sejam titulares de um direito real de garantia, mas que
não tenham sido citados para reclamar os respectivos créditos — seja porque o respectivo direito não se encontra
registado e, consequentemente, não consta da certidão de ónus e encargos referente ao bem penhorado, seja
porque não são conhecidos do processo (nas condições em que o poderiam vir a ser e que se encontram previstas
no art. 831.º do CPC) — têm sempre a possibilidade de virem ao processo reclamar espontaneamente os
respectivos créditos ao abrigo do disposto no art. 865.º, n.º 3, do CPC.
Por outro lado, importa salientar que, ao contrário do que se verificava no regime processual anterior à
reforma da acção executiva concretizada pelo Decreto-Lei n.º 38/2003, de 8 de Março, deixaram de ser citados
editalmente os credores do executado que fossem desconhecidos.
310
“Daí que o legislador processual se tenha preocupado, antes de mais, em chamar ao processo todos os
credores beneficiários de direitos reais sobre os bens que nele foram penhorados, para que possam fazer valer
atempadamente os seus direitos, dado o facto de a venda deles só ser possível uma vez e de para o seu produto
serem transferidos todos os direitos reais” (cfr. o Ac. do TRC, de 4 de Outubro de 2005, proc. 1595/05, in
[Link]).
311
Refere ANTUNES VARELA, a propósito da caducidade dos direitos reais de garantia, que “[O]s direitos
reais de garantia que recaíam sobre os bens vendidos, como o comprador já realizou, em benefício dos credores,
através do preço pago, o valor que estes legitimamente podiam esperar deles, deixam de onerar esses bens (que
ficam livres deles, e transferem-se para o produto da sua venda.” (VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, vol.
II, ob. cit., pp. 154 e 155).
312
Cfr. o Ac. do TRL, de 21 de Fevereiro de 2000, proc. 0005318, in [Link].
110
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
direitos reais que caducam nos termos do art. 824.º, n.º 2, do CC e não sejam de cancelamento
oficioso pela conservatória.
ß) “…bem como dos demais direitos reais313 que não tenham registo anterior ao de
qualquer arresto, penhora ou garantia…”
313
Quanto à contraposição entre os direitos reais e os direitos de crédito, vide LEITÃO, Luís Menezes,
Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 98. Na verdade, conforme salienta MENEZES LEITÃO, enquanto os direitos
de crédito possuem as características da mediação do devedor, da relatividade, de uma oponibilidade a terceiros
limitada, ausência de inerência e não hierarquização entre si, por sua vez, os direitos reais caracterizam-se por
serem direitos imediatos, absolutos, plenamente oponíveis a terceiros, inerentes a uma coisa, dotados de sequela e
hierarquizáveis entre si.
314
A este propósito impõe-se referir que a doutrina e a jurisprudência têm-se dividido quanto à questão de
saber se o contrato de arrendamento constituído depois do proprietário do imóvel o ter hipotecado voluntariamente
a favor de um credor, deve ser incluído na expressão “direitos reais” e, consequentemente, ser englobado no
conjunto dos direitos que se extinguem com a venda executiva. Esta problemática, pela sua complexidade, será
abordada infra em sede de apreciação da susceptibilidade do arrendamento poder ser tutelado em sede de
embargos de terceiro.
315
Cfr., nesse sentido, COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, 3.ª ed., Almedina, 2005, p. 233.
111
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Com efeito, estando em causa direitos reais de gozo que tenham sido constituídos em
data anterior à penhora, arresto ou garantia, e se tais direitos produzirem efeitos em relação a
terceiros independentemente de registo, então estes direitos não caducam com a venda
executiva316 317.
Na verdade, este segmento normativo refere-se aos direitos que produzem efeitos em
relação a terceiros, ainda que não tenham sido registados, e que se encontram previstos,
nomeadamente, no art. 5.º, n.º 2, do CRPred. Nesta medida, embora, em regra, os factos
sujeitos a registo só produzam efeitos contra terceiros depois da data do respectivo registo,
exceptuam-se desta regra a aquisição, fundada na usucapião, dos direitos referidos no art. 2.º,
n.º 1, a), do CRPred., as servidões aparentes e os factos relativos a bens indeterminados,
enquanto estes não forem devidamente especificados e determinados.
Deste modo, independentemente da data da sua constituição ou registo, uma vez que
estes direitos produzem efeitos em relação a terceiros independentemente de registo, a não
observação desta formalidade não implica a extinção destes direitos por mera força da venda
executiva.
Quanto ao critério que deve ser seguido para a delimitação deste conceito, TEIXEIRA DE
SOUSA defende que se deve entender por direitos incompatíveis “aqueles que impedem que os
bens penhorados possam ser incluídos naqueles que, por pertencerem ao património do
executado, devem responder pela dívida exequenda”. Nessa exacta medida, serão incompatíveis
316
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 6 de Fevereiro de 2001, proc. 3581-2000, in [Link].
317
Será o caso, nomeadamente, do direito de usufruto que tiver sido constituído sobre bens móveis, antes
do arresto, penhora ou garantia, dado que esse usufruto, não estando sujeito a registo, produz efeitos em relação a
terceiros cujo direito incompatível com o usufruto tenha sido constituído em momento posterior (cfr., nesse sentido,
LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. II, 4.ª ed. rev. e actual., Coimbra Editora, 1997, p. 97).
112
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
com a finalidade da diligência “os direitos de terceiros sobre bens penhorados que não se
devam extinguir com a sua venda executiva”318 319.
Vale isto por dizer que, se o direito do terceiro se extingue com a venda executiva, o
interesse do exequente deve prevalecer sobre o interesse do terceiro. Por sua vez, se o direito do
terceiro subsiste após a venda executiva, então o direito do terceiro prevalece sobre o direito do
credor, sendo admissível a dedução de embargos de terceiro320.
Propondo semelhante critério, REMÉDIO MARQUES sustenta que o direito diz-se
incompatível quando seja oponível e prevalente sobre a coisa penhorada, isto é, quando esse
direito deva subsistir após a venda executiva, atenta a formulação do art. 824.º do CC. Assim, o
direito será incompatível quando, face ao âmbito e extensão da penhora, esse direito não
caduque com a venda321.
318
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 303.
319
Do mesmo modo, se o terceiro pretender deduzir embargos de terceiro com base na ofensa de uma
posse que assente num direito que caduque com a venda executiva, essa posse não será susceptível de tutela
através desses embargos.
320
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 80.
321
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 320.
322
Cfr. FREITAS, José Lebre de, «Enxertos declarativos no processo executivo», in Estudos sobre Direito
Civil e Processo Civil, Coimbra Editora, 2002, p. 646.
323
Vide, nesse sentido, FERREIRA, Durval, Posse e Usucapião, ob. cit., p. 398.
113
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
324
Cfr. o Ac. do STJ, de 30 de Novembro de 2006, proc. 4244/06, in [Link], segundo o qual “o
direito de terceiro envolvente da posse, da propriedade ou de outra relação jurídica idónea, impeditivo da venda do
objecto no processo de execução, é incompatível com o acto de penhora.”
325
A este propósito, o § 771 do ZPO determina que podem recorrer à Widerspruchsklage os terceiros que
sejam titulares de um direito impeditivo da venda.
326
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 9 de Maio de 2000, proc. 862/00, in [Link].
327
Cfr. o Ac. do TRC, de 28 de Março de 2007, proc. 208-A/2002C1, in [Link]. Atenta a noção de
“direito incompatível”, se um terceiro invocar um direito de crédito por benfeitorias sobre um bem penhorado, tal
direito não se revela incompatível com a finalidade ou o âmbito da penhora e subsequente venda executiva
porquanto o terceiro tem a faculdade de reclamar o seu crédito e de ser ressarcido através do produto da venda.
328
Cfr., a este propósito, a sentença da CSC It., proc. 1444/1964, segundo a qual, só a titularidade do
direito de propriedade ou de outro direito real sobre o bem penhorado concede ao respectivo titular o poder jurídico
de intentar uma oposição de terceiro com vista a obter a tutela do seu direito.
329
Nos termos do art. 691. do CPC It., a oposição de terceiro à execução pode fundamentar-se no direito
de propriedade ou em outro direito real sobre os bens penhorados. A doutrina italiana tem procurado determinar
quais os direitos que permite o recurso à oposição de terceiro, destacando-se, entre outros, o direito de propriedade
plena (aqui se incluindo a compropriedade e a comunhão), a nua propriedade, o usufruto, o penhor e o direito de
superfície.
114
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
terceiro seja titular de um direito de crédito330, bem como quando se trate de um direito real de
aquisição, dado que este, à semelhança do que se verifica com os direitos reais de garantia,
encontra a sua satisfação no esquema da execução331.
No entanto, pode suceder que, ainda que o terceiro tenha fundamento legal e
legitimidade para deduzir embargos de terceiro, careça, no entanto, de interesse processual em
[Link] efeito, uma vez que a penhora implica, em última instância, a afectação do património
do devedor com vista à sua venda executiva, existem determinados direitos que, não obstante
não caducarem com a venda executiva, poderão não justificar o recurso aos embargos de
terceiro. O caso paradigmático prende-se com a tutela do direito do arrendatário de um imóvel
penhorado ao executado que tenha sido constituído em momento anterior a essa penhora.
Nesse caso em concreto, ao abrigo do princípio emptio non tollit locatio (art. 1057.º, n.º 1, do
CC), o direito do arrendatário deve acompanhar o destino da coisa, não caducando,
consequentemente, com a venda executiva. Ora, ainda que esse direito não se extinga com a
execução, mesmo assim o arrendatário não terá interesse processual em deduzir embargos de
terceiro contra a penhora do imóvel arrendado se o tribunal reconhecer a sua posição jurídica332
e ressalvar nos anúncios de venda executiva a oneração do imóvel com esse arrendamento333, ou
se o terceiro adquirente que desconhecia esse ónus se conformar e reconhecer a situação
jurídica do arrendatário e não peticionar, consequentemente, a entrega da coisa em sede
executiva. Nessa exacta medida, o arrendatário, sendo titular de um direito que não caduca com
a venda executiva, só terá interesse em deduzir embargos de terceiro com vista ao
330
Cfr. COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 205. Vide, no mesmo sentido,
SALVATORE SATTA; CARMINE PUNZI, Diritto Processuale Civile, ob. cit., p. 728, segundo o qual os direitos de
crédito não podem fundamentar a oposição de terceiro porquanto serão satisfeitos com a venda executiva dos
património do devedor.
331
Cfr. o Ac. do TRC, de 28 de Março de 2007, proc. 208-A/2002C1, in [Link].
332
Designadamente através da constituição do arrendatário como fiel depositário do bem arrendado [art.
839.º, n.º 1, b), do CPC].
333
Os terceiros interessados na aquisição do imóvel poderão ter conhecimento da sua oneração com um
arrendamento a favor de um terceiro, quer pela menção desse facto nos anúncios e editais de venda (art. 890.º do
CPC) — sendo certo que a falta de menção desse ónus nos anúncios de venda permite ao terceiro adquirente
requerer a anulação da venda nos termos do art. 908.º do CPC —, quer através da obrigação de o arrendatário que
tenha sido constituído fiel depositário do imóvel mostrar o bem a potenciais interessados, caso em que o terceiro
que se proponha a adquirir o imóvel poderá tomar conhecimento da existência de um arrendamento sobre esse
bem (art. 891.º do CPC).
115
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
reconhecimento do seu direito de gozo caso o tribunal pretenda alienar a coisa como se esta não
se encontrasse onerada com qualquer ónus ou encargo334.
Deste modo, o critério da incompatibilidade do direito com a realização ou o âmbito da
diligência deve ser conjugado com o interesse processual do terceiro quanto ao reconhecimento
do seu direito, ou seja, um terceiro pode ter fundamento legal para embargar de terceiro, mas
carecer de interesse processual em agir. Vale isto por dizer que um terceiro, ainda que reúna as
condições necessárias para deduzir embargos, só tem interesse processual em fazê-lo quando
seja titular de um direito que, por ser incompatível com a realização ou o âmbito da diligência,
não se extinga com a venda e se afigure imprescindível impor o reconhecimento da existência do
seu direito em sede executiva.
334
Cfr., a este propósito, CARMINE PUNZI, La tutela del terzo nel processo esecutivo, Guiffrè, Milão, 1971,
p. 81, segundo o qual o interesse em agir em sede de oposição de terceiro relaciona-se com o dano resultante da
actuação executiva, ou seja, um dano actual e potenciador da transmissão da propriedade do bem do terceiro.
335
ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 180.
336
COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 230.
337
Quanto ao especial reforço concedido pelos direitos reais de garantia com vista a atingir um direito de
crédito, vide CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 407.
338
Assim, a particularidade dos direitos reais de garantia traduz-se no facto de atribuírem ao respectivo
titular, não o direito de praticar actos de uso e de fruição sobre a res, mas, ao invés, o direito de realizar, de forma
directa ou indirecta, à custa da disposição da coisa, um valor necessário para a satisfação do crédito do titular do
direito (cfr. neste sentido, MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, Almedina, Coimbra, 1990,
p. 76).
116
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
certo que, em tal circunstância, o exequente deve mover a execução contra o terceiro se
pretender fazer valer essa garantia para o pagamento coercivo da obrigação. Portanto, os direitos
reais de garantia são aqueles que se destinam a assegurar a garantia dos direitos de crédito
através da afectação de bens pertencentes ao devedor ou a um terceiro339.
Nos termos do art. 824.º, n.º 2, do CC, os bens penhorados são transmitidos livres dos
direitos reais de garantia que os onerarem, os quais são transferidos para o produto da venda
dos respectivos bens. Este regime jurídico encontra o seu fundamento na circunstância de recair
sobre o terceiro titular de um direito real de garantia340 o ónus de reclamar o seu direito na fase
executiva da reclamação de créditos (art. 864.º do CPC)341. Na verdade, o facto de incidir um ou
mais direitos reais de garantia sobre o bem penhorado não impede a sua venda executiva, a
qual será efectuada livre de quaisquer ónus garantísticos, dado que os direitos reais de garantia
caducam com a venda do bem, transferindo-se para o produto obtido com essa venda342. Abre-
se, então, um concurso entre os diversos credores do executado que sejam titulares de direitos
reais de garantia sobre bens que integram o património do devedor, e, em caso de insuficiência
patrimonial, os credores têm o direito de ser pagos proporcionalmente pelo preço dos bens do
devedor — princípio par conditio creditorum (art. 604.º, n.º 1, do CC)343.
Assim, o direito real de garantia que incida sobre um bem penhorado não é, em regra,
um direito incompatível com essa diligência porquanto “a penhora não é afectada pela garantia
339
Cfr., nesse sentido, MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento,
2.ª ed., Almedina, Coimbra, 1997, p. 97.
340
Contrariamente ao que sucedia no regime processual anterior à reforma da acção executiva de 2003,
segundo o qual eram citados para a execução não só os credores com garantia real sobre os bens penhorados,
como também os credores desconhecidos [cfr. art. 864.º, n.º 1, c), do CPC ], circunstância que determinava que
1961
a acção executiva se configurasse como uma execução de carácter universal, actualmente apenas devem ser
citados os credores que sejam titulares de direitos reais de garantia, registados ou conhecidos, sobre os bens
penhorados na execução, bem como as entidades referidas nas leis fiscais e o Instituto da Segurança Social, I.P.
341
Quanto às finalidades da fase de reclamação de créditos na acção executiva, vide SANTOS, Elsa
Sequeira, «Reclamação, verificação e graduação de créditos», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 89.
342
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 8 de Março de 2006, proc. 112/06, in [Link].
343
No que concerne ao regime actual do concurso de credores, SALVADOR DA COSTA salienta o facto de
que esse âmbito é “mais limitado do que o referido naquela disposição (art. 604.º do CC), visto que só a titularidade
de uma causa legítima de preferência de pagamento constitui pressuposto necessário da intervenção concursal.”
(COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, 3.ª ed., Almedina, 2005, p. 7).
117
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
invocada pelo credor reclamante e continua a justificar a eventual venda do bem”344 345
. Na
verdade, destinando-se o direito real de garantia a acautelar a satisfação de um direito de crédito
sobre o devedor, esse direito não contende com a execução, penhora e venda do bem onerado
com a garantia, verificando-se, ao invés, uma compatibilidade com as finalidades da acção
executiva346.
Deste modo, se for penhorado um bem sobre o qual um terceiro tenha um direito real
de garantia, em regra não lhe é lícito deduzir embargos de terceiro para defender esse direito, já
que o mesmo não é incompatível com a finalidade dessa diligência347. Isto pela simples razão de
que o direito real de garantia eventualmente invocado em sede executiva visa apenas realizar à
custa da venda do bem penhorado o valor do crédito garantido por tal direito348. Vale isto por
dizer que os embargos de terceiro não são um meio processual adequado para que o credor
possa fazer valer o seu direito de crédito sobre o devedor executado349.
Entre os principais direitos reais de garantia destacam-se a consignação de rendimentos
(art. 656.º e ss do CC), o penhor (art. 666.º e ss do CC), a hipoteca (art. 686.º e ss do CC), os
privilégios creditórios (art. 733.º e ss do CC) e o direito de retenção (art. 754.º e ss do CC),
sendo certo que estes direitos constituem causas legítimas de preferência em sede de concurso
344
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 303.
345
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 23 de Setembro de 2008, proc. 465-A/2002.C1, segundo o qual
“a justificação da intervenção na execução, singular ou colectiva, de credores que são titulares de garantias reais
sobre os bens penhorados ou apreendidos, encontra-se na extinção destas garantias através de venda executiva
(artº 824º, nº 2, do C. Civ.)”. Com efeito, tratando-se de um direito (real) que caduca com a venda executiva, o
credor tem o ónus de reclamar o seu crédito no competente processo executivo, sob pena de ver prejudicada a
garantia do seu crédito em virtude do disposto no art. 824.º, n.º 2, do CC.
346
No sentido de os direitos reais de garantia não permitirem o recurso à oposição de terceiro por apenas
visarem assegurar um direito de crédito sobre o devedor, cfr. SALVATORE SATTA; CARMINE PUNZI, Diritto
Processuale Civile, ob. cit., p. 728.
347
Deste modo, se o credor titular de um direito real de garantia deduzir embargos de terceiro como forma
de reacção contra a penhora e com fundamento na violação do seu direito, deve o tribunal indeferir liminarmente a
petição de embargos por falta de preenchimento dos pressupostos previstos no art. 351.º do CPC, em conjugação
com o regime previsto no art. 824.º, n.º 2, do CC (cfr., neste sentido, o Ac. do TRP, de 26 de Setembro de 1996, in
CJ, tomo IV, 1996, p. 201.
348
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, pp. 321 e 322.
349
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 17 de Janeiro de 2008, proc. 4239/07 – 7.ª secção, in
[Link].
118
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
de credores, sem prejuízo da consagração legal de outras causas legítimas de preferência, tal
como sucede, e.g., com a penhora (art. 604.º, n.º 2, do CC). Por causa legítima de preferência
deve entender-se o direito que assiste ao credor de ser pago antes dos restantes credores
debitoris, relativamente ao valor de algum ou de todos os bens do seu património . 350
350
VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. II, ob. cit., p. 431.
351
Historicamente a consignação de rendimentos era designada pela expressão grega anticrese (a qual
significa “contrafruição”). Só após o Código Civil de 1867 passou a ser designada no nosso direito por consignação
de rendimentos. No entanto, essa designação continua ainda a ser utilizada, por exemplo, no direito civil francês
(art. 2387 do CC Fr.).
352
Vide, no mesmo sentido, o art. 2189 do CC Fr.: “Le créancier perçoit les fruits de l'immeuble affecté en
garantie à charge de les imputer sur les intérêts, s'il en est dû, et subsidiairement sur le capital de la dette.”
353
Ainda que a considere como sendo um direito real de garantia, MENEZES CORDEIRO sustenta que a
consignação de rendimentos, em termos estruturais, configura um verdadeiro direito real de gozo (cfr. CORDEIRO,
A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 768).
119
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
testamento354 — ou judicial — se resultar de uma decisão proferida pelo tribunal (art. 658.º do
CC). No que concerne à consignação de rendimentos de natureza judicial, o art. 879.º do CPC
permite ao exequente requerer ao agente de execução que lhe sejam consignados os
rendimentos de bens imóveis ou móveis sujeitos a registo com vista ao pagamento do seu
crédito355 356, sendo certo que esta via constitui um “meio alternativo à venda dos bens na acção
executiva, evitando o risco de alienação por um valor muito inferior ao real”357.
De acordo com o art. 661.º, n.º 1, do CC, é possível estipular, quanto à posse dos bens,
três modalidades de consignação de rendimentos:
a) que os bens continuem em poder do concedente, caso em que o credor tem o direito
de exigir do devedor a prestação anual de contas, se não houver de receber em cada período
uma importância fixa [arts. 661.º, n.º 1, a) e 662.º, n.º 1, ambos do CC]358; ou
b) que os bens passem para o poder do credor, o qual fica, na parte aplicável,
equiparado ao locatário, se bem que com a faculdade de poder locar o bem sobre o qual incide
a consignação [art. 661.º, n.º 1, b), do CC]. Nesse caso, o concedente tem o direito de exigir do
credor a prestação anual de contas quanto aos rendimentos daí resultantes; ou
c) que os bens passem para o poder de um terceiro, por título de locação ou por outro,
cabendo nesse caso ao credor o direito de receber os respectivos frutos [art. 661.º, n.º 1, c), do
CC].
354
Versando sobre bens imóveis, a consignação de rendimentos deve ser formalizada através de escritura
pública, sendo suficiente a sua redução a escrito quando esteja em causa a consignação de rendimentos sobre
bens móveis (art. 660.º do CPC). Por outro lado, importa referir que a consignação está sujeita a registo, salvo nos
casos em que tenha por objecto os rendimentos de títulos de crédito nominativos.
355
Ainda que seja uma figura processual pouco utilizada, a consignação de rendimentos apresenta
inúmeras vantagens para o credor, maxime no que concerne ao facto de poder ser gradualmente ressarcido do seu
crédito sem ter que recorrer à venda executiva do bem onerado com essa garantia (cfr. MARTINEZ, Pedro Romano;
PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento, ob. cit., p. 48).
356
No regime processual civil espanhol, a consignação de rendimentos de natureza judicial (administración
forzosa) implica a entrega de alguns ou todos os bens penhorados ao credor exequente a fim de que este possa ser
gradualmente ressarcido do seu crédito através dos frutos que venham a ser produzidos por esses bens (cfr. ANGEL
FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 80).
357
Cfr. COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, 3.ª ed., Almedina, 2005, p. 31.
358
No direito civil francês, a consignação de rendimentos implica um desapossamento efectivo por parte do
devedor (art. 2387 do CC Fr.). O credor tem a faculdade de poder arrendar o bem imóvel sobre o qual incida a sua
garantia a um terceiro ou ao próprio devedor (art. 2390 do CC Fr.).
120
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
359
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 4 de Julho de 1991, in CJ, tomo IV, 1991, p. 162.
121
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
rendimentos com a venda executiva, o credor deve ser pago, com preferência aos demais
credores comuns, através do produto da venda do bem alienado (art. 824.º, n.º 3, do CPC)360 361.
Quanto à segunda posição, sustenta-se que, na consignação de rendimentos, o credor
apenas adquire em relação aos demais credores um direito de preferência sobre os rendimentos
consignados e não sobre os bens que os produzem, isto é, a consignação não incide
directamente sobre o bem, mas sim sobre os rendimentos que por ele são produzidos. Nessa
exacta medida, em caso de alienação — ainda que judicial — dos bens sobre os quais incide o
direito real de consignação de rendimentos, este direito do credor, desde que devidamente
registado, mantém-se sobre os bens alienados, podendo ser oposto ao terceiro adquirente nos
termos gerais e à caducidade dos direitos reais na execução (art. 824.º, n.º 2, do CC)362. Deste
modo, de acordo com esta posição, sendo penhorado um bem pertencente ao executado, mas
que se encontre onerado com um direito real de consignação de rendimentos a favor de terceiro,
tal direito não se extingue com a venda executiva, devendo antes subsistir até que se verifique o
ressarcimento integral do credor garantido.
Face a esta divisão, coloca-se o problema de saber qual das duas posições deve ser
seguida. A primeira posição sai particularmente reforçada em consequência da aplicação
analógica do regime previsto nos arts. 879.º e ss do CPC. Na verdade, determina esta
disposição legal que o exequente pode requerer, que enquanto os bens (imóveis ou móveis
sujeitos a registo) que tenham sido penhorados não sejam judicialmente vendidos, lhe sejam
consignados os respectivos rendimentos em pagamento do seu crédito. Assim, se A, em
execução movida contra B, penhorar um bem imóvel que se encontre arrendado a C, pode
requerer a consignação judicial do rendimento desse imóvel para pagamento do seu crédito
exequendo, passando as rendas a ser recebidas pelo consignatário — uma vez liquidadas as
custas de execução, porquanto saem precípuas — até que esteja embolsado da importância do
360
Cfr., nesse sentido, COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, 3.ª ed., Almedina, 2005, p. 29;
SERRA, Adriano Paes da Silva Vaz, «Consignação de rendimentos», in BMJ, 65.º, p. 263.
361
A este propósito RUI PINTO DUARTE coloca alguns entraves quanto à questão de saber se a
consignação de rendimentos se extingue com a venda executiva, por força do art. 824.º, n.º 2, do CC. Com efeito,
este autor sustenta que, embora o direito aos rendimentos pelo titular da consignação seja oponível a terceiros, é,
no entanto, duvidoso que esse direito subsista em virtude da venda executiva do bem onerado (DUARTE, Rui Pinto,
Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 228).
362
Vide, nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit.,
p. 233.
122
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
seu crédito (art. 880.º, n.º 3, do CPC). Ora, se esse bem consignado a favor do exequente vier a
ser vendido ou adjudicado em outra acção executiva movida contra o mesmo executado,
determina o legislador que o bem é vendido livre do ónus de consignação, motivo pelo qual o
exequente consignatário deve ser pago do saldo do seu crédito pelo produto da venda ou
adjudicação, com prioridade da penhora a cujo registo a consignação foi averbada (art. 881.º,
n.º 2, do CPC).
Assim, atenta a lógica da unidade de sistema e devido à necessidade de articulação
entre o regime adjectivo e o substantivo, não nos parece que a segunda posição — isto é, a de
que a consignação de rendimentos não se extingue com a venda executiva — possa ser
defensável363. É certo que a consignação de rendimentos tem um regime particularmente
específico. Na verdade, esta incide sobre os rendimentos e não sobre a coisa, pelo que atribui ao
credor o direito de se pagar através dos respectivos rendimentos e não pela venda judicial do
bem364. De todo o modo, importa salientar que o art. 824.º, n.º 2, do CC pretende assegurar que
os bens sejam vendidos livres dos ónus e encargos que os onerarem. Nessa exacta medida, se a
consignação de rendimentos subsistisse após a venda executiva, seria particularmente
dificultada a venda judicial do bem penhorado, dado que o terceiro adquirente veria diminuídos
os seus direitos de gozo sobre a coisa. Ademais, importa salientar que o legislador, prevendo a
caducidade deste direito em sede de venda executiva, veio regulamentar expressamente a ordem
de graduação do direito de consignação de rendimentos relativamente aos demais direitos reais
de garantia que com ele concorram em sede de concurso de credores (cfr., e.g., o art. 751.º do
CC).
Quid iuris, porém, se o bem penhorado ou atingido pela diligência judicial se encontrar
na posse do credor titular do direito real de consignação de rendimentos, ao abrigo do disposto
no art. 661º, n.º 1, b), do CC? Poderá tal circunstância legitimar a dedução de embargos de
terceiro?
363
MIGUEL MESQUITA entende que a aplicação analógica do art. 881.º, n.º 3, do CPC não será um
argumento decisivo para a resolução deste diferendo doutrinal quanto à questão de saber se a consignação de
rendimentos permite ou não a dedução de embargos de terceiro porquanto o exequente consignatário vê o seu
crédito garantido pela penhora que incidiu sobre o bem (MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo
Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit., p. 209).
364
Cfr. MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit.,
p. 207.
123
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Esta questão encontra a sua resposta no regime previsto no art. 831.º do CPC. Com
efeito, de acordo com esta disposição legal, os bens do executado são apreendidos ainda que,
por qualquer título, se encontrem em poder de terceiro, embora esta apreensão não faça
precludir os direitos que terceiro possa legitimamente opor ao exequente. Acresce ainda que, do
n.º 2 dessa disposição legal resulta que, no acto de apreensão, o agente de execução deve
verificar se o terceiro tem os bens em seu poder por via de penhor ou de direito de retenção (já
que se trata de direitos que não constam do registo, embora possam ser conhecidos365) e, em
caso afirmativo, deve proceder imediatamente à sua citação para reclamar o seu crédito. Na
verdade, devem ser citados para reclamar os seus créditos os credores que constam da certidão
dos ónus (referente ao bem penhorado) remetida nos termos do art. 838.º, n.º 2, do CPC, bem
como os credores que sejam conhecidos no processo, nomeadamente em consequência da
indagação efectuada pelo agente de execução aquando do acto de penhora, ao abrigo do regime
previsto no art. 831.º do CPC366. Ora, uma vez que a consignação de rendimentos incide sobre
os rendimentos produzidos por bens imóveis ou móveis sujeitos a registo, caso tal ónus tenha
sido observado, no momento da apreensão o agente de execução poderá confirmar se o credor
que se encontra na posse dos bens é o mesmo que consta do registo para efeito de citação com
vista à reclamação do seu crédito nos termos previstos no art. 864.º do CPC.
Deste modo, o credor que for titular de uma consignação de rendimentos não pode
deduzir embargos de terceiro porque deve reclamar o respectivo crédito na acção executiva em
que tenha sido penhorado o bem objecto da consignação367.
3.2. PENHOR
À luz do art. 666.º do CC, o penhor confere ao respectivo credor o direito à satisfação do
365
Cfr. REGO, Lopes do, Comentários do Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 62.
366
Idem, p. 105.
367
Ainda que o credor titular da consignação de rendimentos pretendesse opor-se ao arresto do bem sobre
o qual incide a sua garantia, nunca o poderia fazer através de um simples requerimento dirigido à providência
cautelar de arresto, sendo os embargos de terceiro o meio processual adequado para esse efeito (cfr., nesse
sentido, o Ac. do TRP, de 16 de Outubro de 2006, proc. 0655543, in [Link].
124
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
seu crédito, bem como dos juros, se os houver, com preferência sobre os demais credores368,
pelo valor de certa coisa móvel369, ou pelo valor de créditos ou outros direitos não susceptíveis de
hipoteca, pertencentes ao devedor ou a terceiro370 371
. Deste modo, o penhor, implicando a
afectação jurídica da coisa com vista à satisfação de um determinado direito de crédito. constitui
um direito real de garantia que tanto pode incidir sobre coisas móveis372, como sobre direitos,
desde que estes tenham por objecto coisas móveis e sejam susceptíveis de transmissão (art.
680.º do CC)373.
Ao abrigo do disposto no art. 667.º, n.º 1, do CC, só tem legitimidade para dar bens em
penhor quem os puder alienar. Na verdade, o objecto empenhado fica sujeito à execução no
368
Quanto à prevalência dos direitos reais sobre os direitos de crédito, cfr. LEITÃO, Luís Menezes, Direito
das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 107. Na verdade, não existindo causas legítimas de preferência, os direitos de
crédito encontram-se numa posição equivalente em relação ao património do devedor, pelo que todos os credores
têm o direito de ser pagos proporcionalmente pelo preço dos bens do devedor, quando ele não chegue para integral
satisfação do débito (art. 604.º, n.º 1, do CC). Todavia, se o direito de crédito for acompanhado por um direito real
de garantia, maxime, consignação de rendimentos, penhor, hipoteca, privilégio creditório ou direito de retenção, tal
circunstância implica que esse direito de crédito seja pago com preferência sobre os demais credores.
369
Quanto à susceptibilidade de o penhor poder incidir sobre um estabelecimento comercial, ainda que se
trate de uma universalidade, vide MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento,
ob. cit., p. 169. Cfr., no mesmo sentido, o Ac. do TRE, de 18 de Junho de 1991, in CJ, tomo III, 1991, p. 308, o
qual se pronunciou favoravelmente quanto à possibilidade de constituição de um penhor sobre um estabelecimento
comercial.
370
No âmbito do direito francês, o penhor surge qualificado como o contrato pelo qual o devedor outorga
ao credor o direito de se fazer pagar com preferência sobre os demais credores em relação a um bem móvel ou a
um conjunto de bens móveis corpóreos, presentes ou futuros (art. 2333 do CC Fr.).
371
O Código Civil Italiano determina no seu art. 2784. que o penhor, quanto à sua finalidade, “è costituito a
garanzia dell'obbligazione dal debitore o da un terzo per il debitore”. Ademais, como forma de garantia dessa
obrigação, determina essa disposição legal que podem ser dados em penhor “i beni mobili, le universalità di mobili,
i crediti e altri diritti aventi per oggetto beni mobili.”
372
Quanto à distinção entre “coisas móveis” e “coisas imóveis”, vide o regime previsto nos arts. 204.º e
205.º do CC. Em princípio, tal como refere ALMEIDA COSTA, todas as coisas móveis podem constituir objecto de
penhor, sejam elas fungíveis ou não fungíveis, consumíveis ou não consumíveis (cfr. COSTA, Mário Júlio de Almeida,
Direito das Obrigações, ob. cit., p. 860).
373
Segundo MENEZES CORDEIRO, a coisa objecto de penhor deve ser certa ou determinada, não pode ser
susceptível de hipoteca e tem de ser apta ao comércio privado (cfr. CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit.,
p. 626. CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 749).
125
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
374
COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 239.
375
A este respeito, o Código Civil Francês sanciona com o vício da nulidade a entrega em penhor de uma
coisa alheia, podendo o devedor ser responsabilizado no pagamento de uma indemnização pelos danos sofridos,
desde que o credor não conhecesse que a coisa pertencia a um terceiro (art. 2335 do CC Fr.).
376
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRC, de 13 de Maio de 1986,in CJ, tomo III, 1986, p. 46, segundo o
qual, não tendo o devedor sido desapossado de duas máquinas dadas em penhor, e uma vez que a situação não se
incluía nas excepções do penhor mercantil, não se chegara a constituir um contrato de penhor.
377
Vide, no mesmo sentido, o art. 2786.º do CC. It., segundo o qual “[I]l pegno si costituisce con la
consegna al creditore della cosa o del documento che conferisce l'esclusiva disponibilità della cosa. La cosa o il
documento possono essere anche consegnati a un terzo designato dalle parti o possono essere posti in custodia di
entrambe, in modo che il costituente sia nell'impossibilità di disporne senza la cooperazione del creditore.”
378
MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, Almedina, Coimbra, 1990, p. 48.
379
Cfr., neste sentido, VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. II, ob. cit., p. 532.
380
Sobre a inadmissibilidade do solicitador de execução poder duvidar da existência do direito invocado
pelo terceiro ou de recusar a anotação do respectivo domicílio para posterior citação, vide GONÇALVES, Gabriel
Órfão, «Temas da Acção Executiva», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 271.
126
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
381
Cfr., neste sentido, MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento,
ob. cit., pp. 175 e 176.
382
De todo o modo, o credor pignoratício não é um possuidor em nome próprio relativamente à coisa
empenhada (art. 1253.º do CC) – cfr., nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob.
cit., p. 865.
383
Quanto à execução forçosa da coisa empenhada no domínio do Código Civil Italiano, vide os arts. 2796.
e ss.
127
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
constitutiva ―, pela extinção da dívida garantida, pelo perecimento da coisa empenhada ou pela
renúncia do credor.
A questão de saber se o credor pignoratício pode fazer uso dos embargos de terceiro
não é consensual. Com efeito, atenta a formulação legal do art. 351.º do CPC, importa desde
logo determinar se o penhor confere ao credor pignoratício a posse da coisa sobre a qual incide
tal direito. Na verdade, conforme resulta do art. 669.º, n.º 1, do CC, o penhor de coisas só
produz os seus efeitos pela entrega da coisa empenhada ou de documento que confira a
exclusiva disponibilidade dela, ao credor ou a terceiro384. Todavia, ao abrigo do n.º 2 da citada
disposição legal, essa entrega pode consistir na simples atribuição da composse ao credor, se
essa atribuição privar o autor do penhor da possibilidade de dispor materialmente da coisa.
Nessa medida a lei confere ao credor a posse sobre a coisa empenhada385, sendo que a
titularidade deste direito real de garantia implica que o respectivo titular tenha posse sobre a
coisa objecto do direito386.
Ora, do art. 670.º, a), do CC decorre que, em consequência do penhor, o credor
pignoratício adquire o direito de usar, em relação à coisa empenhada, das acções destinadas à
defesa da posse, ainda que seja contra o próprio dono.
384
Tal como salientam PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA, com a entrega da coisa empenhada visa-se
garantir a publicidade da relação pignoratícia (LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. I, ob. cit.,
p. 691).
385
Cfr. MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit.,
p. 48.
386
De acordo com ALMEIDA COSTA, a constituição do penhor só se verifica com a entrega efectiva da
coisa, sendo que esse acto é condição bastante para que o penhor tenha eficácia em relação às partes e a
terceiros. Deste modo, até que se verifique a entrega da coisa empenhada haverá, quanto muito, um simples
contrato-promessa de penhor (COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p.
241). Vide, no mesmo sentido, o Ac. do TRP, de 17 de Fevereiro de 1992, proc. 9110836, in [Link], segundo
o qual “[N]ão estando o caso abrangido pelo regime especial (a que se referem os artigos 668 do Código Civil e
398, parágrafo único, do Código Comercial) em que se dispensa a entrega da coisa empenhada ao credor
pignoratício, o penhor (incluindo o penhor mercantil) só produz efeitos por essa entrega ou pela entrega, ao credor
ou a terceiro, de documento que confira àquele (credor) a exclusiva disponibilidade da coisa (artigo 669, número 1,
do Código Civil).”
128
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
387
Vide, em sentido contrário, o Ac. do STJ, de 13 de Fevereiro de 1966, in BMJ, 154.º, p. 322, bem como
o Ac. do STJ, de 24 de Janeiro de 1984, proc. 071345, in [Link]: “O credor pignoratício não pode deduzir
embargos de terceiro à penhora, da coisa empenhada em garantia do seu crédito, efectuada em execução movida
por outro credor do mesmo devedor que a dera àquele em penhor, uma vez que não pode dizer-se que tal penhora
ofenda a posse do seu direito.”
388
REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., pp. 418 e 419. Em sentido contrário, vide o
Ac. do TRE, de 7 de Dezembro de 1995, in BMJ, 452.º, p. 508: “O credor pignoratício não é possuidor em nome
próprio da coisa empenhada. Daí que, não tendo havido acordo relativamente ao exercício por parte do credor
pignoratício de quaisquer direitos sociais, a constituição do penhor não ultrapassa a função de mera garantia.” Vide,
numa posição moderada, o Ac. do TRL, de 23 de Abril de 1979, in CJ, tomo II, 1979, p. 672, segundo o qual “[E]m
relação ao direito de propriedade sobre a coisa, o credor pignoratício é possuidor em nome alheio e, quanto ao
próprio direito de penhor, é possuidor em nome próprio.”
389
Contra a concepção do credor pignoratício ser um possuidor em nome próprio, tratando-se apenas de
um mero detentor, cfr. MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento, ob. cit., p.
171, e PIRES, Miguel Lucas, Dos Privilégios Creditórios: Regime Jurídico e sua Influência no Concurso de Credores,
ob. cit., p. 147).
390
Cfr. o Ac. STJ, de 28 de Janeiro de 1983, proc. 000408, in [Link], segundo o qual “[O] credor
pignoratício não pode deduzir embargos de terceiro contra o arresto dos bens dados de penhor deixados em poder
do proprietário contra o qual o arresto é dirigido.”, bem como o Ac. do TRP, de 17 de Fevereiro de 1992, proc.
9110836, in [Link]: “(…) II - O artigo 670, alínea a), do Código Civil (aplicável ao penhor mercantil - artigo 3,
do Código Comercial) pressupõe que houve entrega real ou material do objecto do penhor ao credor pignoratício. III
129
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Por último, em total oposição a esta corrente doutrinal, defende-se que ao credor
pignoratício se encontra vedada a possibilidade de defender a sua posse mediante embargos de
terceiro391. Com efeito, uma vez que a sua posse sobre o bem resulta do próprio direito real de
garantia, o credor pignoratício deve reclamar o respectivo crédito na execução pendente, não
podendo, consequentemente, embargar de terceiro com fundamento em tal direito porquanto o
mesmo caduca com a venda executiva392.
Atenta a configuração deste direito real de garantia, deve ser seguida a tese de que, em
regra, o penhor não confere ao credor pignoratício o direito de embargar de terceiro. Na verdade,
uma vez que a entrega do bem ao credor visa apenas a constituição de uma garantia real sobre
o bem como garantia do pagamento do crédito, nada impede que possa vir a incidir sobre o
mesmo bem uma penhora movida por outro credor do devedor393. Na verdade, o penhor não
confere ao credor pignoratício o direito à execução exclusiva da coisa empenhada, porquanto
esta continua a pertencer ao património do autor do penhor, respondendo, consequentemente,
pelas suas dívidas (art. 817.º do CC)394.
Por outro lado, sendo a acção executiva movida contra o respectivo proprietário da coisa
empenhada, o credor pignoratício não pode embargar contra o arresto ou a penhora bem, dado
- Assim, continuando a coisa dada em penhor a ser detida pelo devedor, o credor pignoratício não pode deduzir
embargos de terceiro contra o arrolamento que abranja a coisa empenhada.”
391
De acordo com o Ac. do STJ, de 5 de Janeiro de 1951, in RLJ, 84.º, p. 204, o credor pignoratício, não
obstante a lei lhe reconhecer o direito de usar dos meios conservatórios da sua posse, não pode intentar acções
possessórias em seu nome, mas pode intentá-las contra terceiros em nome do devedor. Seguindo ainda a mesma
linha de orientação, o Supremo Tribunal de Justiça sustentou que o credor pignoratício não pode deduzir embargos
de terceiro, dado que a sua posse sobre a coisa empenhada não é em nome próprio (Cfr. o Ac. do STJ, de 18 de
Fevereiro de 1966, in BMJ, 154.º, p. 322). Nessa exacta medida, o credor pignoratício não pode deduzir embargos
de terceiro contra o arresto dos bens dados em penhor e deixados em poder do proprietário contra quem o arresto é
deduzido (cfr. o Ac. do STJ, de 28 de Janeiro de 1983, in BMJ, 323.º, p. 310).
Por outro lado, o credor pignoratício não pode também deduzir embargos de terceiro face ao arrolamento
dos bens empenhados, já que o seu direito não é ofendido em consequência dessa providência cautelar (Cfr. o Ac.
do TRP, de 17 de Fevereiro de 1992, in BMJ, 414.º, p. 636).
392
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 84. Cfr. o Ac. do
STJ, de 26 de Janeiro de 1983, in CJ, 1983, p. 291, ao abrigo do qual os embargos de terceiro deduzidos pelo
credor pignoratício devem improceder porquanto o penhor não é prejudicado pela penhora.
393
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 2 de Junho de 1980, in CJ, tomo III, 1980, p. 249.
394
Cfr., nesse sentido, o Ac. STJ, de 14 de Janeiro de 1993, proc. 083081, in [Link].
130
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
395
Cfr. COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, 3.ª ed., Almedina, 2005, p. 45.
396
Cfr. o Ac. do TRE, de 26 de Janeiro de 1983, in BMJ, 325.º, p. 618.
397
No mesmo sentido, cfr. MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do
Cumprimento, ob. cit., p. 172.
398
No sentido de não ser possível ao devedor opor ao credor pignoratício a exceptio excessionis realis, vide
o Ac. do TRP, de 16 de Maio de 1978, in CJ, tomo III, 1978, p. 847 e MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro
Fuzeta da, Garantias do Cumprimento, ob. cit., pp. 172 e 173.
399
Cfr., nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto,
ob. cit., p. 333.
131
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Por outro lado, importa acrescentar que, estando em causa uma acção executiva para
entrega de coisa certa, o penhor será incompatível com essa diligência, determinando,
consequentemente, a possibilidade de dedução de embargos de terceiro, já que em tal
circunstância este direito real de garantia pressupõe a posse efectiva da coisa401.
3.3. HIPOTECA
Nos termos do art. 686.º, n.º 1, do CC, a hipoteca (conventio pignoris) confere ao credor
o direito de ser pago pelo valor de certas coisas402 imóveis, ou equiparadas (automóveis, navios e
aeronaves)403, pertencentes ao devedor ou a um terceiro, com preferência sobre os demais
credores que não gozem de privilégio especial ou de prioridade de registo, podendo a obrigação
garantida ser futura ou condicional (art. 686.º, n.º 2, do CC)404 405.
400
MENDES, João de Castro, Direito Processual Civil, vol. III, ob. cit., p. 135.
401
Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º,
ob. cit., p. 616. Em sentido contrário vide a posição de CASTRO MENDES, segundo o qual a entrega da coisa não
implica a extinção do direito de penhor que sobre ela incida, dado que a disposição do art. 761.º do CC, à luz do
qual a entrega da coisa implica a extinção do direito que sobre ela incida, apenas se aplica às situações em que
essa entrega ocorra de forma voluntária (MENDES, Castro, Direito Processual Civil, vol. III, ob. cit., p. 366).
402
No sentido de a hipoteca não poder recair sobre direitos, vide CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais,
ob. cit., p. 759. Contrariamente, o Código Civil Italiano permite que a hipoteca possa incidir, além dos bens imóveis,
sobre o usufruto (art. 2814.º do CC. It.), o direito de superfície (art. 2816.º do CC. It.) e o direito de enfiteuse (art.
2815.º do CC. It.).
403
Desde logo a hipoteca diferencia-se do penhor em função do respectivo objecto, já que enquanto a
hipoteca só pode incidir sobre bens imóveis ou móveis sujeitos a registo, o penhor, por sua vez, e a título
subsidiário, só pode incidir sobre coisas corpóreas móveis, créditos ou outros direitos não susceptíveis de hipoteca.
Cfr., a este propósito, CAMPOS, Maria Isabel Helbing Meneres de Campos, Da Hipoteca – Caracterização,
Constituição e Efeitos, Coimbra, 1999, p. 18, segundo a qual a distinção que era feita entre o penhor e a hipoteca
com base no carácter mobiliário ou imobiliário do respectivo objecto foi superada com a possibilidade da hipoteca
passar a incidir não só sobre imóveis, como também em relação a móveis sujeitos a registo.
404
Tal como salienta ALMEIDA COSTA, enquanto direito real de garantia, a hipoteca distingue-se do penhor
em três elementos essenciais: incide sobre coisas imóveis ou móveis sujeitas a registo, por contraposição ao penhor
que incide sobre móveis e direitos não hipotecáveis; tem de ser registada, sob pena de ineficácia (art. 687.º do CC),
enquanto o penhor, em regra, não está sujeito a registo; os bens hipotecados conservam-se na posse do devedor,
132
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Deste modo, tal como resulta do art. 2393 do CC Fr., a hipoteca consiste num direito
real que incide sobre um bem imóvel com vista a garantir o cumprimento de uma obrigação406.
Ao abrigo do art. 687.º do CC, a hipoteca deve ser registada sob pena de não produzir
efeitos, mesmo em relação às partes407. Trata-se, na verdade, de uma situação em que o registo
produz um verdadeiro efeito constitutivo, assim se justificando o facto de o legislador ter
admitido a possibilidade de constituição da hipoteca relativamente a bens móveis sujeitos a
registo408.
Ao contrário do que se verifica com o penhor, a hipoteca não pressupõe o exercício de
um poder material, directo e imediato sobre a coisa, porquanto a constituição deste direito real
de garantia não implica o desapossamento do bem em relação ao devedor, pelo que não se
pode possuir com base em semelhante direito409.
No que concerne ao conteúdo da hipoteca, importa referir que este direito atribui ao
respectivo titular a possibilidade de executar o bem objecto de hipoteca em caso de
incumprimento da obrigação por ela garantida410. De todo o modo, o Código Civil proíbe a
ao passo que, no penhor, a traditio da coisa empenhada é condição essencial para a constituição desse direito real
de garantia (COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 247).
405
Dispõe o art. 2808. do CC. It. que “[L]'ipoteca attribuisce al creditore il diritto di espropriare anche in
confronto del terzo acquirente, i beni vincolati a garanzia del suo credito e di essere soddisfatto con preferenza sul
prezzo ricavato dall'espropriazione. L'ipoteca può avere per oggetto beni del debitore o di un terzo e si costituisce
mediante iscrizione nei registri immobiliari.”
406
Nesta perspectiva, a hipoteca constitui um “direito real combinado”, na medida em que o credor
hipotecário é titular, respectivamente, de um direito real (hipoteca) combinado com o direito de crédito sobre o
devedor (cfr. CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 351).
407
Cfr. o art. 2.º, n.º 1, h) e 4.º do CRPred.
408
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRC, de 23 de Setembro de 2008, proc. 465-A/2002.C1, in
[Link], segundo o qual a hipoteca constitui um direito real sujeito a publicidade registral constitutiva.
409
Cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 66.
410
Nesse caso, ao abrigo do disposto no art. 835.º do CPC, a penhora deve começar pelo bem onerado
com a hipoteca, só podendo atingir outros bens do devedor quando se reconheça a insuficiência do bem onerado
para garantir o pagamento da dívida e das demais despesas da execução. Nessa exacta medida, nos termos do art.
697.º do CC, o devedor que for dono da coisa hipotecada tem o direito de se opor não só a que outros bens sejam
penhorados na execução enquanto não se reconhecer a insuficiência da garantia, mas ainda a que, relativamente
aos bens onerados, a execução se estenda além do necessário à satisfação do direito do credor.
133
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
constituição de pactos comissórios, isto é, veda ao credor hipotecário o direito de fazer sua a
coisa hipotecada em caso de incumprimento da obrigação.
Por outro lado, não é admissível a constituição de cláusulas de inalienabilidade dos bens
hipotecados, embora seja possível a estipulação de vencimento imediato do crédito hipotecário
em caso de alienação ou oneração do bem garantido (art. 695.º do CC).
Relativamente às causas de extinção da hipoteca, dispõe o art. 730.º do CC que este
direito real de garantia se extingue pela prescrição da hipoteca a favor de terceiro adquirente do
prédio em que recaia a garantia, pelo perecimento da coisa hipotecada ou pela renúncia do
credor.
411
Vide, nesse sentido, o Ac. STJ, de 5 de Junho de 1997, proc. 97B348, in [Link], bem como o Ac.
do TRC, de 8 de Março de 2006, proc. 112/06, in [Link]: “O direito hipotecário não se mostra incompatível
com a penhora dos bens hipotecados, pelo que o credor hipotecário não pode lançar mão do incidente de embargos
de terceiro, sendo parte ilegítima para o efeito.”
412
Configurando os embargos de terceiro como um meio de tutela possessória, o TRP, por acórdão de 16
de Janeiro de 1997, proc. 9631401, in [Link], veio defender que o titular de direito real de garantia
134
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Por outro lado, o credor hipotecário não poderá sustentar os embargos de terceiro com
fundamento da ofensa da sua posse, dado que este direito real de garantia não implica a entrega
da coisa ao credor.
Contudo, em determinadas situações é possível deduzir embargos de terceiro quando
esteja em causa uma execução movida contra bens hipotecados. Tal sucederá, nomeadamente,
se o credor titular de uma hipoteca sobre um bem imóvel penhorado entender que o bem não
pertence ao executado, maxime quando a hipoteca tenha sido constituída por um sujeito diverso
do executado que se apresentou como proprietário do imóvel. Com efeito, como nesta hipótese o
credor tem o interesse em manter a sua garantia sobre o bem penhorado e não pode reclamar o
seu crédito, dado que o seu devedor não é executado, deve admitir-se a possibilidade do credor
hipotecário poder embargar de terceiro413.
Além disso, é ainda lícito ao credor hipotecário deduzir embargos de terceiro quando,
não sendo o executado o devedor do credor hipotecário, a penhora tenha incidido sobre bens
incorporados no imóvel hipotecado, ou ainda nas situações em que o bem tenha sido penhorado
como se pertencesse ao executado, quando tal não corresponde à realidade414.
Por outro lado, se o credor hipotecário tiver registado a hipoteca aquando da sua
constituição e se o devedor tiver alienado, em momento posterior, o bem hipotecado a um
terceiro, não é lícita a dedução de embargos de terceiro contra a penhora desse bem na
execução movida pelo credor hipotecário, já que o registo anterior da hipoteca é impeditivo da
procedência dos embargos415.
constituído por hipoteca sobre bem imóvel não tem a posse desse bem nem pode recorrer a embargos de terceiro
no caso de penhora desse imóvel em acção executiva, dado que, nos embargos de terceiro, o fundamento de direito
é a posse efectiva da coisa.
413
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 308.
414
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 333. Vide,
no mesmo sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 308. Cfr., na jurisprudência, o
Ac. do STJ, de 5 de Junho de 1997, proc. 97B348, in [Link].
415
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ; de 19 de Junho de 2007, proc. 1624/07 – 1.ª secção, in
[Link].
135
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Entende-se por privilégio creditório (privilegium exigendi) a faculdade que a lei concede a
certos credores, atendendo à causa do crédito, de serem pagos com preferência a outros
independentemente de registo (art. 733.º do CC)416 417.
Trata-se, com efeito, de um verdadeiro direito real de garantia resultante da lei418.
Traduzindo-se numa afectação jurídica da coisa aos interesses do credor, o privilégio creditório
“visa assegurar dívidas que, atenta a sua natureza, se encontrem especialmente relacionadas
com certos bens do devedor, justificando-se, portanto, que sejam pagas de preferência a
quaisquer outras, até ao valor dos mesmos bens”419 420.
Por outro lado, a relevância concedida pelo legislador a este direito real de garantia
implica que, em obediência à estatuição legal, a simples constituição do crédito implica o
416
Na vigência do Código Civil de 1867, o art. 878.º definia o privilégio creditório como a faculdade que a
lei concede a certos credores, de serem pagos com preferência a outros, independentemente do registo dos seus
créditos.
417
Dispõe o art. 2745. do CC It. que “Il privilegio è accordato dalla legge in considerazione della causa del
credito. La costituzione del privilegio può tuttavia dalla legge essere subordinata alla convenzione delle parti; può
anche essere subordinata a particolari forme di pubblicità”. Por sua vez, determina o art. 1926 do CC Es., quanto
aos priviégios creditórios sobre bens móveis, que “Los créditos que gozan de preferencia con relación a
determinados bienes muebles, excluyen a todos los demás hasta donde alcance el valor del mueble a que la
preferência se refiere.”, e o art. 1927., quanto aos privilégios sobre bens imóveis, que “Los créditos que gozan de
preferencia con relación a determinados bienes inmuebles o derechos reales, excluyen a todos los demás por su
importe hasta donde alcance el valor del inmueble o derecho real a que la preferencia se refiera.”
418
Quanto à insusceptibilidade de constituição de privilégios creditórios por convenção ou negócio jurídico,
vide COSTA, Salvador da, O Concurso de Credores, ob. cit., p. 164.
419
COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 254.
420
Com efeito, o privilégio creditório, enquanto direito real de garantia, visa assegurar o cumprimento de
“certos créditos que, na óptica da lei, são dignos de protecção (cfr. PIRES, Miguel Lucas, Dos Privilégios Creditórios:
Regime Jurídico e sua Influência no Concurso de Credores, Almedina, Coimbra, 2004, p. 31). Quanto à
constitucionalidade das normas referentes à concessão de privilégios creditórios, cfr. o Ac. do TC n.º 688/98, de 15
de Dezembro de 1998, in DR, II Série, n.º 54, de 5 de Março de 1999.
136
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
carácter privilegiado do mesmo, sem que o credor tenha que adoptar qualquer comportamento
nesse sentido421.
Nos termos do art. 735.º do CC, os privilégios creditórios podem ser mobiliários ou
imobiliários, consoante incidam, respectivamente, sobre bens móveis ou imóveis, e podem ser
especiais ou gerais, se incidem sobre parte ou a totalidade dos bens do devedor422. De todo o
modo, ao contrário do que se verifica com a hipoteca, os privilégios creditórios sobre bens
imóveis não estão sujeitos à publicidade constitutiva derivada do registo, configurando, ao invés,
um verdadeiro direito “omisso” relativamente a terceiros (e, inclusive, em relação ao credor
exequente que penhora um bem imóvel do executado que se encontra livre, em sede de registo,
de qualquer ónus ou encargo) e que pode ser invocado pelo respectivo titular,
independentemente de registo, em sede de concurso de credores. Aliás, importa referir a este
propósito que o art. 751.º do CC determina que os privilégios creditórios imobiliários especiais
são oponíveis a terceiros que adquiram o prédio ou um direito real sobre ele, e preferem à
consignação de rendimentos, à hipoteca ou ao direito de retenção, ainda que estas garantias
sejam anteriores.
Dos artigos 745.º a 751.º do CC resulta claramente que os privilégios creditórios são
direitos reais de garantia, gozando, aliás, de especial protecção face aos demais direitos reais.
421
PIRES, Miguel Lucas, Dos Privilégios Creditórios: Regime Jurídico e sua Influência no Concurso de
Credores, ob. cit., p. 31.
422
Quanto aos privilégios creditórios mobiliários e imobiliários previstos no Código Civil Francês, vide os
arts. 2331 e 2332. No âmbito do Código Civil Espanhol, vide, respectivamente, os arts. 1925 e 1924.
423
Cfr. MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 323.
137
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
por estes direitos fica plenamente assegurado em sede de reclamação de créditos e com a
consequente venda executiva. Nessa exacta medida, o art. 864.º do CPC determina que o
solicitador de execução, além de citar os credores que sejam titulares de direito real de garantia,
registado ou conhecido, sobre os bens penhorados, deve ainda citar os credores privilegiados
que sejam desconhecidos, isto é, tanto a Fazenda Nacional como a Segurança Social para que
possam reclamar os créditos de que eventualmente sejam titulares em relação aos bens
penhorados ao executado424 425.
Por outro lado, não implicando este direito real de garantia a entrega da coisa ao
respectivo credor, também não lhe será lícito sustentar os embargos de terceiro que pretenda
deduzir com fundamento na ofensa da posse que pudesse incidir sobre a coisa onerada com
semelhante direito.
424
Note-se que, nos termos do art. 865.º, n.º 1, do CPC, a reclamação de créditos só é admissível em
relação ao credor que goze de garantia real sobre os bens penhorados. Por outro lado, a reclamação deve ter por
base um título exequível e deve ser deduzida no prazo de 15 dias, a contar da citação do credor reclamante (n.º 2).
Todavia, ainda que o credor reclamante não esteja munido de um título executivo que lhe permita reclamar o seu
crédito no prazo previsto para esse efeito, nem por isso fica precludida a possibilidade de reclamar o seu crédito. Na
verdade, o credor que não esteja munido de título executivo pode requerer, dentro do prazo fixado para a
reclamação do respectivo crédito, que a graduação dos créditos, relativamente aos bens abrangidos pela sua
garantia, aguarde a obtenção de um título executivo (art. 869.º do CPC).
425
De todo o modo, em determinadas situações encontra-se vedada ao credor titular de um privilégio
creditório a possibilidade de obter a satisfação do seu crédito em sede executiva. Na verdade, nos termos do art.
865.º, n.º 4, do CPC, com excepção dos privilégios creditórios dos trabalhadores, o credor titular de um privilégio
creditório geral não pode reclamar o seu crédito em sede executiva quando a penhora tenha incidido sobre um bem
só parcialmente penhorável (art. 824.º do CPC), renda, outro rendimento periódico ou veículo automóvel; quando a
penhora tenha incidido sobre moeda corrente, nacional ou estrangeira, depósito bancário em dinheiro, e o crédito
do exequente seja inferior a 190 UC; bem como nos casos em que, sendo o crédito do exequente inferior a 190 UC,
este venha a requerer de forma procedente a consignação de rendimentos, ou a adjudicação, em dação em
cumprimento, do direito de crédito no qual a penhora tenha incidido, antes de convocados os credores.
138
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
O devedor que disponha de um crédito contra o seu credor goza do direito de retenção
se, estando obrigado a entregar coisa, o seu crédito resultar de despesas feitas por causa dela
ou de danos por ela causados (art. 754.º do CC)426. Deste modo, o direito de retenção traduz-se
num direito real de garantia, mediante o qual o respectivo credor adquire o direito de reter a
coisa de que detém a posse até que se verifique o pagamento integral do crédito.
Por outro lado, o titular do direito de retenção tem o direito de exercer e de manter o seu
poder de facto sobre a coisa até que seja integralmente ressarcido do seu crédito427. Assim, e.g.,
uma sociedade que tenha procedido à reparação do veículo, mas que não detenha a posse do
veículo reparado, não pode invocar o direito de retenção enquanto meio para tutelar o seu
direito428.
Além da possibilidade de reter a coisa, este direito real de garantia confere ainda ao
respectivo titular a faculdade de obter o pagamento coercivo do seu crédito pelo valor da coisa
retida, com preferência sobre os demais credores comuns hipotecários (arts. 758.º e 759.º do
CC).
Assim, a configuração jurídica deste direito implica que o seu titular tenha a posse da
coisa em nome próprio429 relativamente ao seu direito430, sendo certo que a existência do direito
de retenção, enquanto direito real de garantia431, depende de três requisitos essenciais: que o
426
Cfr. o Ac. do STJ, de 22 de Junho de 2005, proc. 04B1471, in [Link], segundo o qual “o direito
de retenção consiste na faculdade que tem o detentor de uma coisa de a não entregar a quem lha pode exigir,
enquanto este não cumprir uma obrigação a que está adstrito para com aquele.”
427
Cfr. o Ac. do STJ, de 13 de Dezembro de 2007, proc. 4787/06, in [Link].
428
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 4 de Outubro de 2007, proc. 3868/06 – 2ª secção, in
[Link].
429
Cfr. o Ac. do STJ, de 29 de Junho de 1995, in BMJ, 448.º, p. 314, segundo o qual “o direito de
retenção não confere qualquer direito de posse aos seus titulares, mas tão só mera detenção, uso ou fruição,
conferindo o direito de retenção ao seu titular um direito real de garantia.”
430
COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 206.
431
Cfr. VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. II, reimp. da 7.ª ed., Almedina, pp. 577 e 578.
139
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
devedor esteja obrigado a entregar uma coisa432 ao seu credor; que o devedor goze,
simultaneamente, de um crédito sobre o respectivo credor; que esse crédito tenha resultado de
despesas feitas por causa da coisa ou de danos por ela causados433 434.
Quanto à sua eficácia, o direito de retenção, enquanto direito real, é oponível erga
omnes , isto é, traduz-se numa iura excluendi omnes alios, quer em relação a terceiros, quer
435
432
No sentido de apenas ser admissível o exercício do direito de retenção sobre coisas, e não sobre
direitos, vide MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento, ob. cit., p. 215.
Quanto a esta questão, os aludidos autores criticam a posição adoptada pelo Supremo Tribunal de Justiça, no seu
acórdão de 18 de Abril de 1996, in CJ, tomo II, 1996, p. 31, ao admitir a possibilidade de o direito de retenção
poder ser exercido sobre direitos.
433
Cfr., quanto aos requisitos do direito de retenção, o Ac. do STJ, de 23 de Setembro de 2004, proc.
04B2093, in [Link].
434
Nos termos do art. 756.º do CC, não existe o direito de retenção a favor de quem tenha obtido por
meios ilícitos a coisa que deva entregar, desde que, no momento da aquisição conhecesse a ilicitude desta; a favor
de quem tenha realizado de má-fé as despesas de que proveio o seu crédito; relativamente a coisas impenhoráveis;
quando a outra parte preste caução suficiente.
435
Na verdade, ao contrário do que sucede com o direito de crédito, o qual se estrutura a partir de uma
relação entre pessoas, o direito real pressupõe uma estrutura absoluta, dado que tem por objecto uma coisa,
resultando dessa relação a sua eficácia erga omnes (cfr., a este propósito, LEITÃO, Luís Menezes, Direito das
Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 98). A eficácia erga omnes dos direitos reais, tal como salienta MOTA PINTO, traduz-se
na atribuição ao seu titular do poder de exercer os direitos reais contra todos os outros, bem como na imposição a
estes de restrições devido à imperatividade de respeitarem o direito que se lhes apresenta (FRAGA, Álvaro Moreira
Carlos, Direitos Reais …, ob. cit., pp. 43 e 44).
436
Cfr., a este propósito, DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 239.
140
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Além do mais, até se verificar a entrega da coisa retida, são aplicáveis ao titular do
direito de retenção, com as necessárias adaptações, os direitos e obrigações referentes ao
regime do penhor. Aliás, tal como sucede no penhor, também o direito de retenção pressupõe a
detenção da coisa e, consequentemente, a publicitação da existência desse direito, embora a
retenção possa revestir a forma de uma “garantia oculta” quando recaia sobre bens imóveis ou
móveis sujeitos a registo437.
No que concerne às causas de extinção do direito de retenção, o art. 761.º do CC
determina que este direito real de garantia se extingue pela entrega da coisa, pela extinção da
dívida garantida, pela prescrição do direito caso a retenção incida sobre bem imóvel, pelo
perecimento da coisa onerada, e pela renúncia do credor.
437
PIRES, Miguel Lucas, Dos Privilégios Creditórios: Regime Jurídico e sua Influência no Concurso de
Credores, ob. cit., p. 154).
438
Cfr. o Ac. do STJ, de 13 de Dezembro de 2007, proc. 4787/06, in [Link].
141
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
diligência ordenada judicialmente pode defender a sua posse mediante embargos de terceiro,
nos termos definidos na lei de processo”439.
No entanto, ainda que o direito de retenção permita ao respectivo beneficiário recorrer
às acções possessórias para proteger a coisa retida, esta posse não permite a dedução de
embargos de terceiro contra a penhora do bem objecto do direito, porquanto, tendo essa
diligência por finalidade a venda judicial do bem penhorado com vista à satisfação do crédito
exequendo, o direito de retenção, enquanto direito real de garantia, caduca com a venda
executiva440.
Nessa exacta medida, considere-se a hipótese em que A invoca o direito de retenção
sobre uma coisa pertencente a B e que esse bem é penhorado numa acção executiva movida
por C contra B. Poderá o A deduzir embargos de terceiro contra a penhora da coisa retida?
Ora, pelas dívidas do devedor responde apenas o seu património, ainda que os bens se
encontrem na posse de terceiro (arts. 601.º e 817.º do CC e 831.º do CPC)441. Vale isto por dizer
que o facto de A ser titular de um direito de retenção sobre um bem pertencente a B não impede
439
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 19 de Novembro de 1996, proc. 362/96 – 1.ª Secção, in
[Link], segundo o qual “[O] titular do direito de retenção tem o direito de usar, em relação à coisa retida, das
acções destinadas à defesa da posse, ainda que seja contra o próprio dono, portanto, também, dos embargos de
terceiro.”
440
Cfr. o Ac. do TRE, de 29 de Março de 1990, in CJ, tomo II, p. 285, o Ac. do STJ, de 31 de Março de
1993, de 13 de Outubro de 1993, in CJ, tomo II, 1993, p. 44, o Ac. do TRL, de 17 de Novembro de 1994, in CJ,
tomo V, 1994, p. 110, o Ac. do STJ, de 25 de Novembro de 1999, proc. 99B800, in [Link] e o Ac. do TRL, de
21 de Fevereiro de 2000, proc. 0005318, in [Link], segundo o qual: “1 - O direito de retenção consiste num
direito real de garantia - artigo 754º e seguintes, Código Civil. 2 - Segundo o artigo 824º, nº2, CPC, os bens
vendidos em execução são transmitidos livres dos direitos de garantia que os oneravam, bem como dos demais
direitos reais que não tenham registo anterior. 3 - Tendo-se extinguido, assim, com a arrematação em hasta pública,
o direito de retenção, não pode tal direito ser invocado como fundamento da não entrega do bem vendido.”
441
Porém, tal como salientam PEDRO ROMANO MARTINEZ e PEDRO FUZETA DA PONTE, pode suceder
que certos bens do património do devedor não possam ser afectos ao cumprimento da obrigação. Tal sucederá,
nomeadamente, quando se tenha verificado, ao abrigo do art. 602.º do CC, um acordo de delimitação da
responsabilidade, bem como nos casos em que se verifiquem proibições à disposição de certos bens do património
do devedor. Por outro lado, importa ainda verificar “a que título o devedor detém os bens no seu património”, já
que, se for titular de um usufruto sobre o bem, a execução apenas poderá incidir sobre esse direito de usufruto e
não sobre o direito de propriedade do bem (caso em que será lícito ao titular da propriedade deduzir embargos de
terceiro contra a penhora da propriedade do bem) — cfr. MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da,
Garantias do Cumprimento, ob. cit., p. 14).
142
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
que C o penhore como causa de preferência para a satisfação coerciva do seu crédito442. Além
disso, o direito de retenção visa garantir o cumprimento de uma obrigação enquanto direito
especial de garantia. Deste modo, ao efectuar a penhora da coisa sobre a qual incide um direito
de retenção, o agente de execução, no próprio acto da penhora, deve verificar a que título é que
o terceiro não executado detém efectivamente o bem.
Nessa exacta medida, o titular de um direito de retenção não pode embargar de terceiro
se alegar como causa de pedir a ofensa de um direito incompatível, dado que se trata de um
direito que se extingue com a venda executiva443 e o credor pode sempre fazer valer o seu direito
em sede de concurso de credores444. Aliás, sobre o credor titular de um direito de retenção incide
verdadeiramente o ónus de reclamar o seu crédito na acção executiva, sob pena de se verificar a
caducidade do seu direito em consequência da venda445 446.
Deste modo, a posse de terceiro baseada em direito de retenção não confere direito a
deduzir embargos de terceiro contra a penhora do objecto da posse, porque aquele direito real
de garantia, quando não reclamado, caduca com a venda executiva447.
442
Vide, a este propósito, o § 805 do ZPO segundo o qual um terceiro que não se encontre na posse da
coisa não pode opor-se à sua penhora em virtude da existência de um direito de preferência. De todo o modo, o
terceiro pode intentar uma acção com vista ao reconhecimento da satisfação prioritária do seu crédito em função do
produto da venda dos bens do devedor, sendo certo que essa acção deve correr no tribunal da execução e ser
intentada contra o credor e o devedor em situação de litisconsórcio necessário.
443
Cfr. o Ac. do TRC, de 20 de Fevereiro de 1999, in BMJ, 484.º, p. 446, bem como o Ac. do STJ, de 25
de Novembro de 1999, proc. 800/99 – 7.ª secção, in [Link], segundo o qual “O facto de existir, a favor de
pessoa estranha à execução, um direito de garantia não implica nem o afastamento da coisa do património do
devedor, nem, de outro modo, a impossibilidade de a coisa vir a ser alienada ou sujeita a novas onerações. O titular
do direito de retenção, embora veja extinguir-se esse direito, tem a possibilidade de se pagar, preferentemente aos
demais credores (com excepção dos créditos privilegiados - art.º 759 do CC), à custa do produto obtido pela venda
da coisa, desde que reclame o seu crédito nos termos do art.º 865, n.º 1, do CPC.”
444
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 333. Vide,
no mesmo sentido, o Ac. do TRL, de 17 de Novembro de 1994, in CJ, tomo V, 1994, p. 110, bem com o Ac. do
TRL, de 7 de Março de 1996, in BMJ, 455.º, p. 558.
445
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 21 de Outubro de 1993, in CJ, tomo V, 1993, p. 103: “O titular do
direito de retenção que não reclama o seu crédito na respectiva acção executiva perde a garantia real.”
446
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 22 de Setembro de 2005, proc. 1488/05 – 7.ª secção, in
[Link].
447
Cfr. o Ac. STJ, de 25 de Novembro de 1999, in CJ, tomo III, 1999, p. 118, bem como o Ac. do STJ, de
4 de Dezembro de 2007, proc. 07A4060, in [Link]: “O direito de retenção não é incompatível com a penhora
143
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
do imóvel, porque o seu titular encontra amparo para o seu direito de crédito, no esquema da acção executiva”.
Vide, também, o Ac. do TRL, de 31 de Maio de 1990, proc. 0013232, in [Link]: “I - Tal como o penhor o
direito de retenção é um direito real de garantia; e como tal é condicionado pelas vicissitudes do crédito que
garante. Visa assegurar, mais vincadamente, a realização do crédito. II - A penhora sobre imóveis não viola o direito
de retenção sobre o mesmo. III - Face a uma execução onde se penhorou um bem sujeito a direito de retenção, o
titular desta garantia, terá de fazer valer em concurso com os demais credores com garantia real relativamente ao
bem penhorado. IV - Todos os direitos de garantia caducam com a venda judicial; por isso também os eventuais
direitos de retenção se extinguem.”
448
Vide, a este propósito, o Ac. do TRP, de 6 de Março de 2006, proc. 0556921, in [Link]. Cfr., no
entanto, o Ac. do TRL, de 3 de Julho de 2007, proc. 4638/2007-7, in [Link], onde se considerou que “não
pode o garagista onde o veículo foi entregue para reparação invocar direito de retenção contra o proprietário do
veículo, que o alienou com reserva de propriedade, quando o crédito do garagista foi contraído pelo adquirente não
proprietário do veículo pois nesse caso não existe a reciprocidade de créditos a que alude o artigo 754.º do Código
Civil, improcedendo, assim, os embargos de terceiro deduzidos em ordem a obstar à apreensão do veículo
requerida pelo proprietário nos termos do Decreto-Lei n.º 54/75, de 12 de Fevereiro.”
144
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
449
Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º,
ob. cit., p. 616.
450
A este propósito, MENEZES LEITÃO qualifica o contrato-promessa como um contrato preliminar que tem
por objecto a celebração de um outro contrato, o contrato prometido (LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações,
vol. I, ob. cit., p. 219).
451
Nesta medida, a relação obrigacional resultante do contrato-promessa com eficácia obrigacional implica
que o direito à prestação seja concretizado através da actuação de um intermediário, ou seja, o credor carece da
actuação do devedor, através do cumprimento da obrigação, para que essa prestação possa ser efectivada. Assim,
no contrato-promessa assiste-se à criação de uma obrigação de contratar, ou seja, de emitir uma declaração de
vontade correspondente ao contrato prometido (VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I,
ob. cit., p. 309).
145
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
452
LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 28.
453
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 23 de Junho de 1994, in CJ, tomo III, 1994, p. 132.
454
O sinal consiste numa cláusula acessória aposta nos contratos onerosos, segundo a qual uma das
partes entrega à outra, por ocasião da celebração do contrato, uma coisa fungível (cfr. LEITÃO, Luís Menezes,
Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 233). Quanto à distinção entre sinal confirmatório (enquanto prova da
seriedade por parte do promitente-comprador quanto ao seu propósito negocial) e sinal penitencial (enquanto
antecipação da indemnização devida ao outro contraente pelo não cumprimento do contrato-promessa), vide
VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., p. 312).
455
Em contrapartida, não tendo sido entregue qualquer sinal, o contraente não faltoso apenas tem a
possibilidade de resolver o contrato e peticionar o pagamento de uma indemnização nos termos gerais em sede de
responsabilidade contratual.
456
O exercício deste direito tem a sua origem no Decreto-Lei n.º 236/80, de 16 de Julho, o qual veio
estabelecer, entre outras medidas, a possibilidade de o promitente-comprador optar por exigir ao promitente-
vendedor o pagamento de uma indemnização equivalente ao valor da coisa, dado que a sanção clássica da
restituição do sinal em dobro deixara de cumprir com êxito a sua finalidade em consequência da subida acentuada
do valor da propriedade e a frequência com que os promitentes-vendedores optavam por não cumprir os contratos-
146
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
promessa anteriormente celebrados — restituindo o sinal em dobro aos promitentes-compradores — para depois
venderem os imóveis a terceiros com preços actualizados e com maiores margens de lucro (cfr., a este propósito,
CORDEIRO, Menezes, «Da Retenção do Promitente na Venda Executiva», in ROA, ano 57.º, vol. II, 1997, pp. 547 e
548).
457
Quanto ao carácter supletivo do recurso à execução específica do contrato-promessa, vide VARELA,
Antunes, Sobre o Contrato-Promessa, 2.ª ed., Coimbra Editora, 1989, p. 130.
458
No sentido de se tratar de uma disposição legal de natureza supletiva, vide FREITAS, José Lebre de, «O
contrato-promessa e a execução específica», in Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, Coimbra Editora, 2002,
pp. 815 e 816.
459
De todo o modo, a jurisprudência tem vindo a sufragar o entendimento de que, para que este direito de
retenção se constitua, não basta a simples mora do devedor, sendo necessária a verificação de um incumprimento
definitivo do contrato (cfr. o Ac. do TRL, de 6 de Julho de 1989, in CJ, tomo IV, 1989, p. 113, bem como o Ac. do
STJ, de 8 de Outubro de 2002, proc. 2624/02 – 1.ª secção, in [Link].
147
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
460
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 20 de Janeiro de 1999, proc. 1062/98 – 2.ª secção, in
[Link]. Cfr., em sentido contrário, o Ac. do STJ, de 19 de Setembro de 2002, proc. 1839/02 – 2.ª secção, in
[Link], segundo o qual “[N]ão beneficia de qualquer crédito resultante do não cumprimento do contrato-
promessa, não podendo, consequentemente, invocar o direito de retenção, o embargante, promitente comprador,
que haja optado por requerer a execução específica da promessa de venda.”
461
Tal como refere MENEZES CORDEIRO, “[T]radicionalmente, a promessa obrigacional, mesmo com
entrega antecipada da coisa ao promitente adquirente, não assumia qualquer traço da realidade: a posse do
promitente adquirente seria precária, por falta de título bastante (…). A reforma de 1980, consolidada pela de 1986,
veio, contudo, alterar qualitativamente a situação do promitente-adquirente: este, tendo havido tradição da coisa, é
tido como possuidor legítimo. Desde logo, há que lhe reconhecer as defesas possessórias mesmo contra o próprio
dono; o promitente pode recusar a entrega da coisa ao dono, paralisando o pedido da entrega; pode usar de
restituição provisória contra o esbulho violento; pode recorrer aos embargos de terceiro.” (CORDEIRO, Menezes,
«Da Retenção do Promitente na Venda Executiva», ob. cit., p. 552).
462
Quanto aos pressupostos para o exercício do direito de retenção sobre o bem imóvel objecto de
contrato-promessa de compra e venda, vide o Ac. do TRC, de 9 de Fevereiro de 1999, proc.1706/98, in
[Link]: “No contrato-promessa de compra e venda para que o beneficiário da promessa possa gozar do direito
de retenção sobre a coisa a que alude o artº 755º, nº1, al. f) do código Civil, é necessário que tenha existido
tradição do bem objecto do contrato, que ocorra o incumprimento imputável à outra parte e que desse
incumprimento resulte um crédito para o beneficiário de tal promessa.”
463
Com a entrega da coisa objecto do contrato-promessa de compra e venda ao promitente-comprador, o
accipiens passa a exercer sobre ela poderes de facto a título de parte num contrato-promessa, sendo certo que o
conteúdo do direito do accipiens depende da própria natureza do contrato prometido (MESQUITA, Manuel Henrique,
Obrigações Reais e Ónus Reais, ob. cit., pp. 76 e 77).
148
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
464
Cfr. o Ac. do STJ, de 23 de Janeiro de 1996, in CJ, tomo I, 1996, p. 71; Ac. do TRL, de 11 de Outubro
de 1990, in CJ, tomo IV, 1990, p. 147; Ac. do TRL, de 23 de Outubro de 1990, in BMJ, 400.º, p. 719.
465
Cfr. o Ac. do TRL, de 19 de Janeiro de 1995, in BMJ, 443.º, p. 431, bem como o Ac. do STJ, de 3 de
Março de 1998, proc. 23/98 – 1.ª secção, in [Link]: “I - A tradição da coisa, móvel ou imóvel, realizada a
favor do promitente-comprador, no caso de compra e venda sinalizada, não investe o accipiens na qualidade de
possuidor da coisa. Não estando provado qualquer facto praticado pelo embargante que leve à inversão do título de
posse, isto é, que de possuidores precários ou meros detentores passassem a possuidores em nome próprio, não
ocorre a posse, fundadora dos embargos de terceiro”. Vide também COSTA, Salvador da, Os Incidentes da
Instância, ob. cit., p. 211, segundo o qual o promitente comprador não é um possuidor em nome próprio, já que da
traditio da coisa resulta tão só um direito pessoal de gozo, que não comporta o animus dominii.
466
Cfr., a este propósito, VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., p. 364.
467
Cfr. o Ac. do STJ, de 6 de Março de 1997, in BMJ, 465.º, p. 570. Vide, na doutrina, PINTO, Rui, «A
Execução e terceiros – Em especial na penhora e na venda», ob. cit., p. 243, segundo o qual o contrato-promessa
149
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
com eficácia obrigacional não é, pela sua natureza, oponível à execução, pelo que ao respectivo proprietário não
restará outra alternativa que não seja a de procurar adquirir o bem em sede de venda executiva, em igualdade de
circunstâncias com qualquer outro terceiro, sem prejuízo do exercício de eventual responsabilidade contratual contra
o executado. Cfr., também, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 629.
468
Vide, a este propósito, o Ac. do TRL, de 17 de Fevereiro de 2004, proc. 8629/2002 – 7, in
[Link]: “Constituído direito de retenção a favor do promitente-comprador de uma fracção autónoma, a
aquisição da mesma em processo de execução fiscal determina a extinção daquele direito real de garantia, nos
termos do art. 824º, nº 2, do CC. Todavia, ainda que a aquisição seja feita pelo promitente-comprador, a garantia
real do seu crédito decorrente do extinto direito de retenção transfere-se para o produto da venda, a fim de que a
preferência será considerada na sentença de graduação de créditos.” Vide, também, o Ac. do STJ, de 13 de
Novembro de 2007, proc. 3615/07 – 1.ª secção, in [Link]: “É exactamente através da via executiva que o
direito de retenção exerce a sua função de garantia, não podendo a sua existência impedir ou inutilizar a penhora,
prejudicando assim os demais credores do promitente-vendedor, sem benefício útil para o promitente-comprador,
que tem o seu direito de crédito (emergente do incumprimento do contrato-promessa) acautelado no âmbito da
acção executiva.
469
Cfr., em sentido contrário, CORDEIRO, Menezes, «Da Retenção do Promitente na Venda Executiva», in
ROA, ano 57.º, vol. II, 1997, p. 562, segundo o qual “[O] direito do promitente-adquirente onera fortemente a coisa.
Sendo anterior à penhora, não parece razoável que a coisa possa ser vendida em hasta pública como se estivesse
livre: seja como garantia dispensada de registo, seja como direito de gozo anterior e também dispensado de registo,
o direito de retenção do promitente-adquirente sobrevive à venda executiva.”
470
Cfr. o Ac. do STJ, de 11 de Março de 1999, in CJ, tomo I, 1999, p. 136. Vide, no mesmo sentido, o Ac.
do STJ, de 29 de Junho de 1995, in BMJ, 448.º, p. 314: “A posse do promitente-comprador não passa de uma
simples detenção ou posse precária. Logo, está-lhe vedado o direito a dedução de embargos de terceiro. Este
promitente está em situação idêntica à do credor pignoratício, não colidindo o seu direito de retenção – porque
direito real de garantia que é – com a penhora decretada em execução”; Ac. do TRP, de 29 de Maio de 1995, in
BMJ, 447.º, p. 565: “O promitente-comprador de um andar, que sinalizou o respectivo contrato e obteve a entrega
daquele andar, não pode deduzir, com fundamento em direito pessoal de gozo, embargos de terceiro contra a
penhora requerida pelo credor do promitente vendedor”. Vide, na doutrina, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de
bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 629, segundo o qual “a posse do promitente adquirente é exercida na
expectativa de uma aquisição futura (…). Baseada num direito de crédito, a posse do promitente adquirente é
exercida em nome do promitente alienante e, assim sendo, só poderá fundar embargos de terceiro quando este não
for o executado, cedendo de outro modo perante a garantia constituída pela penhora.”
150
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
471
Cfr. o Ac. do STJ, de 11 de Setembro de 2007, proc. 2241/07 – 1.ª secção, in [Link]: “o
contrato-promessa, sendo um negócio meramente obrigacional não transmite, só por si, a posse ao promitente-
comprador. Mesmo que ocorra a tradição da coisa antes da celebração da escritura, o promitente-comprador,
adquirindo embora o corpus possessório, não adquire o animus possessório, ficando, pois, investido na qualidade
de mero detentor ou possuidor precário.”
472
Cfr. o Ac. do TRP, de 27 de Junho de 1995, proc. 9421188, in [Link], bem como o Ac. do TRL,
de 16 de Junho de1992, proc. 0051191, in [Link], e o Ac. do TRP de 1 de Outubro de 1996, in BMJ, 460.º,
p. 805.
473
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 18 de Janeiro de 1996, proc. 87411 – 2.ª Secção, in
[Link]: “Embora não tenha a posse, a tradição da coisa, ou seja a passagem da coisa objecto mediato do
contrato promessa das mãos do promitente-vendedor para o promitente comprador confere a este, no entanto, o
direito de retenção sobre ela pelo crédito que ele eventualmente possa vir a ter contra o promitente vendedor em
caso de incumprimento por parte deste”. Vide, em sentido contrário, o Ac. do STJ, de 19 de Novembro de 1996,
proc. 362/96 – 1.ª Secção, in [Link]: “O promitente-comprador, tendo havido tradição da coisa, é um
verdadeiro possuidor e não um mero detentor, pelo que, como titular do direito de retenção, goza de tutela
possessória e por isso pode embargar de terceiro.”
474
Cfr., nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 310, bem como
CORDEIRO, Menezes, «Da Retenção do Promitente na Venda Executiva», ob. cit., p. 553. Vide, no mesmo sentido, o
Ac. do TRL, de 21 de Novembro de 1991, in CJ, tomo V, 1991, p. 135: “O promitente comprador, que obteve a
entrega de uma fracção habitacional, em consequência da celebração de um contrato-promessa de compra e
venda, pode lançar mão de embargos de terceiro para defesa da sua posse, ofendida por penhora”, o Ac. do TRP,
de 27 de Abril de 1993, in CJ, tomo II, 1993, p. 225: “O promitente-comprador, em contrato promessa de compra
151
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
e venda de um prédio, que tenha entrado na posse dele, beneficia da tutela de embargos de terceiro.”, e o Ac. do
STJ, de 28 de Outubro de 2004, proc. 2573/04 – 2.ª secção, in [Link]: “A tradição da coisa, por via do
contrato-promessa de compra e venda, para o promitente-comprador, confere a este o acesso à tutela possessória
desde que aquela tradição seja seguida da prática, por aquele, de actos próprios de quem age em nome próprio.”
475
Cfr. o Ac. do STJ, de 3 de Março de 1998, proc. 49/98 – 1.ª secção, in [Link], o Ac. do STJ, de
11 de Março de 1999, proc. 113/99 – 2.ª secção, in [Link], e o Ac. do STJ, de 07 de Fevereiro de 2002,
proc. 1888/01 – 2.ª secção, in [Link]: “Concluindo-se que, entregue aos promitentes compradores uma
fracção autónoma após a outorga de contrato-promessa de compra e venda, estes actuaram uti dominus, exercendo
sobre tal fracção uma posse real e efectiva, não há qualquer razão para se lhes negar o acesso aos meios de tutela
da posse, designadamente, aos embargos de terceiro, para reagir ao arresto dessa fracção.”
476
Vide, nesse sentido, LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. III, 4.ª ed., p. 6. Com
efeito, estes autores sustentam que, no caso do promitente-comprador ter já pago a totalidade do preço, goza a
coisa como se a mesma já fosse sua, pelo que, nesse estado de espírito, pratica sobre a coisa diversos actos
materiais correspondentes ao exercício do direito de propriedade.
477
Cfr. os Acs. do STJ, de 19 de Novembro de 1996, in CJ, tomo III, 1996, p. 109, e de 11 de Setembro
de 2007, proc. 2241/07, in [Link]. Vide também o Ac. do TRE, de 7 de Junho de 1990, in CJ, tomo III, 1990,
p. 285: “O promitente-comprador que passe a habitar no andar prometido vender, como se dele fosse, é terceiro
relativamente ao exequente em acção executiva movida contra o promitente vendedor, e pode, para defender a sai
posse, embargar de terceiro aquela execução.”
478
“O promitente-comprador, a quem foi entregue a coisa prometida vender, é, em regra, mero detentor ou
possuidor precário, sendo titular apenas de um direito pessoal de gozo sobre a coisa; só em circunstâncias
excepcionais, como a de ter havido o pagamento da totalidade do preço ou o propósito de manter a situação como
definitiva, é que haverá posse efectiva” (Ac. do TRP, de 13 de Janeiro de 2000, proc. 9950777, in [Link]).
479
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 19 de Novembro de 1996, proc. 362/96 – 1.ª Secção, in
[Link].
480
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 21 de Setembro de 2006, proc. 1972/06 – 2.ª secção, in
[Link]: “O facto de viver na fracção, tendo pago a totalidade do seu preço de compra, conjugado com o
152
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Não podendo o promitente faltoso ser compelido pela força a cumprir a obrigação a que
se vinculou, a lei permite que o credor obtenha a declaração negocial em falta pela via judicial,
caso em que o tribunal deve emitir uma sentença que produza os mesmos efeitos jurídicos da
declaração negocial com vista à constituição do contrato definitivo485. Assim, tudo se passa como
se o contrato prometido tivesse sido efectivamente realizado486.
exercício dos poderes do condómino e do cumprimento dos deveres a este inerentes, como é próprio do dono,
demonstra que a embargante tem agido como se a coisa fosse já sua, praticando actos de quem age em nome
próprio. Não se trata apenas de morar na fracção, mas dessa residência se encontrar factualmente justificada, pela
sua compra, de ordem igualmente factual - o pagamento do preço - e pela assunção da posição de condómino, ou
seja, de titular do correspondente direito real de gozo.”
481
Com efeito, nesta situação “o promitente adquirente é desde logo investido num controlo material
semelhante ao do proprietário, podendo falar-se em posse em termos de propriedade” (cfr. CORDEIRO, António
Menezes, A Posse: Perspectivas Dogmáticas Actuais, ob. cit., p. 77).
482
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 28 de Outubro de 1997, proc. 619/97 – 1.ª Secção, in
[Link].
483
Cfr. MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações Reais e Ónus Reais, ob. cit., p. 75.
484
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 10 de Janeiro de 2002, proc. 3295/01 – 2.ª secção, in
[Link].
485
LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., pp. 229 e 246.
486
De todo o modo, a execução específica do contrato deixa de ser uma alternativa viável se se verificar
uma situação de incumprimento definitivo do contrato-promessa em virtude da coisa ter sido alienada a um terceiro,
153
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
dado que, nesse caso, tendo o contrato-promessa efeitos meramente obrigacionais, a sentença não poderia produzir
os seus efeitos em relação ao terceiro adquirente.
487
Entende-se por execução específica o direito que assiste ao promitente-comprador de obter
judicialmente uma decisão que produza os efeitos da declaração do promitente-vendedor em mora, ou vice-versa,
envolvendo um mero direito de crédito (COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 212).
488
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 20 de Janeiro de 1999, in BMJ, 483.º, p. 195, bem como o Ac. do
TRP, de 15 de Abril de 2008, proc. 0820536, in [Link].
489
A acção de execução específica de contrato-promessa de compra e venda de bem imóvel encontra-se
sujeita a registo nos termos do disposto no art. 3.º, n.º 1, a) do CRPred.
490
Cfr. o Ac. do STJ, de 11 de Março de 1999, in CJ, 1999, p. 139, bem como o Ac. do STJ, de 29 de
Abril de 2008, proc. 745/2008, in [Link].
491
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., pp. 329 a
331. Vide, no mesmo sentido, o Ac. do STJ, de 11 de Março de 1999, in BMJ, 485.º, p. 411.
492
Cfr. MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit.,
pp. 182 e 183.
493
Idem, p. 185.
154
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Se, tendo havido tradição da coisa, é discutível que ao promitente-comprador seja lícito
fazer uso dos embargos de terceiro, já o mesmo não se poderá dizer nas situações em que não
tenha havido qualquer traditio. Na verdade, nesse caso em concreto falta ao promitente-
comprador o corpus ou animus possidendi sobre a coisa, motivo pelo qual se encontra
automaticamente precludida qualquer possibilidade de invocação de posse ou de detenção
qualificada, bem como do direito de retenção sobre a coisa enquanto requisito essencial para a
dedução de embargos de terceiro.
3.6. ARRESTO
494
“O justo receio, como pressuposto de um arresto, desdobra-se em dois elementos: a) um que existe — o
próprio receio; e b) outro que, provavelmente, virá a existir sem a medida cautelar — o facto receado (Ac. do TRE, de
26 de Fevereiro de 1987, in BMJ, 366.º, p. 587).
495
Cfr. o art. 2905, § 1, do CC It.: “Il creditore può chiedere il sequestro conservativo dei beni del debitore,
secondo le regole stabilite dal codice di procedura civile.”
155
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
496
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 21 de Abril de 1998, in BMJ, 476.º, p. 493. Vide, também, o Ac.
do STJ, de 20 de Dezembro de 1977, in BMJ, 272.º, p. 169, segundo o qual “[O] mero facto da obrigação ainda
não estar vencida não obsta ao decretamento do arresto, mas o direito de crédito em causa deve ser actual e não
meramente futuro.”
497
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRE, de 25 de Março de 1993, in BMJ, 425.º, p. 641: “A lei exige
apenas a «provável existência do crédito» e não a «certeza do crédito» que se traduz na exigência de «uma mera
apreciação do direito de crédito». Neste sentido, basta alegar factos que, comprovados, apontem para a aparência
da existência do direito de crédito, factos que são conhecidos pelo tribunal em termos rápidos e sumários de modo
a que a sua existência possa ser dada como assente baseada em juízo de mera probabilidade ou verosimilhança.”
498
Cfr. o Ac. do TRL, de 27 de Maio de 1999, in BMJ, 487.º, p. 352.
499
Seguindo o arresto o regime jurídico da penhora, no caso de recair sobre bens móveis não sujeitos a
registo, o arresto é efectuado através da apreensão efectiva dos bens e com a sua imediata remoção para
depósitos, assumindo o agente de execução que tiver procedido à realização da diligência a qualidade de fiel
depositário (art. 848.º, n.º 1, do CPC). Por sua vez, recaindo o arresto sobre bens imóveis ou móveis sujeitos a
registo, a providência é efectuada através de comunicação electrónica à conservatória do registo respectivo, a qual
vale como apresentação para efeito de inscrição no registo. Uma vez efectuada a inscrição, o arresto é efectuado
através da elaboração do respectivo auto, sendo constituído como fiel depositário, em regra, o próprio solicitador de
execução, salvo quando se verifique alguma das situações previstas no art. 839.º do CPC.
500
Embora reportando-se à penhora, vide o § 803 do ZPO segundo qual a execução forçosa do património
do devedor não deve exceder o que for necessário para a satisfação do credor, bem como para o pagamento das
demais despesas com a execução.
156
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
adquirente dos bens do devedor, se tiver sido judicialmente impugnada a transmissão desses
bens501. Com efeito, caso a impugnação pauliana venha a ser julgada procedente, o credor terá o
direito de executar os bens objecto de impugnação no próprio do obrigado à restituição,
justificando-se, assim, que se permita o arresto dos bens do terceiro que se encontrem na sua
posse ou que tenham integrado o seu património por via da transmissão oportunamente
impugnada.
Tratando-se de um direito real de garantia, o credor arrestante deve promover e
converter o arresto em penhora de modo a poder obter a satisfação coactiva do seu crédito,
sendo certo que, ao abrigo do disposto no art. 822.º, n.º 2, do CC, tendo os bens do executado
sido previamente arrestados, a anterioridade da penhora reporta-se à data do arresto502.
No que concerne aos efeitos do arresto, os actos de disposição dos bens arrestados são
ineficazes em relação ao requerente (art. 622.º, n.º 1, do CC). Por outro lado, são insusceptíveis
de arresto os bens impenhoráveis tal como vêm definidos nos arts. 822.º a 824.º do CC503.
501
Cfr., a este propósito, o art. 2905., § 2, do CC It., segundo o qual “[I]l sequestro può essere chiesto
anche nei confronti del terzo acquirente dei beni del debitore, qualora sia stata proposta l'azione per far dichiarare
l'inefficacia dell'alienazione.”
502
Com efeito, tal como refere LUCAS PIRES, “o arresto, uma vez convertido em penhora, confere um [sic]
ao respectivo requerente um direito de preferência em tudo análogo ao da penhora — com a vantagem de os efeitos
retroagirem à data do arresto — devendo ser qualificado, tal como esta, como uma causa legal de preferência”
(PIRES, Miguel Lucas, Dos Privilégios Creditórios: Regime Jurídico e sua Influência no Concurso de Credores, ob.
cit., p. 142).
503
Nessa exacta medida, não é susceptível de arresto, designadamente, o direito a alimentos (art. 2008.º,
n.º 2, do CC) e o direito de uso e habitação (art. 1488.º do CC). Cfr., a este propósito, o Ac. do TRE, de 28 de
Fevereiro de 1985, in BMJ, 346,º, p. 325: “Só podem ser objecto de arresto bens que possam ser penhoráveis.”
157
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
integrem o património do arrestado, sendo certo que o ónus da prova de que os bens pertencem
ao devedor cabe ao requerente504.
Por outro lado, se o credor tiver arrestado bens do seu devedor como forma de garantir
o pagamento do seu crédito, e se esses bens vierem a ser objecto de novo arresto ou penhora
em momento posterior, não é lícito ao credor arrestante deduzir embargos de terceiro contra
essa diligência. Na verdade, sendo o arresto um direito de natureza real que visa garantir ao
credor a satisfação do seu crédito em caso de receio fundado de perda da sua garantia,
facilmente se constata que tal direito não se revela incompatível com a penhora que venha a
incidir sobre o bem arrestado atentas as finalidades que se visam atingir com essa diligência.
Assim, o credor que tiver arrestado um imóvel carece de legitimidade para deduzir
embargos de terceiro contra a penhora desse bem já que encontrará naturalmente a satisfação
do seu crédito no esquema concursal da acção executiva505.
Os direitos reais de gozo integram as cinco categorias previstas no Livro III do Código
Civil, a saber: propriedade; usufruto, uso e habitação; direito de superfície; servidões prediais; e
o direito real de habitação periódica506. Os direitos reais de gozo alicerçam-se no ius utendi, ius
fruendi e ius abutendi, ou seja, no direito de uso, fruição e disposição da coisa . Deste modo, os 507
direitos reais de gozo caracterizam-se por atribuir ao respectivo titular “a faculdade de fruir as
utilidades ou vantagens económicas da coisa que é objecto do direito”508, ou seja, o conteúdo
504
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 9 de Fevereiro de 1982, in BMJ, 314.º, p. 260.
505
Cfr. o Ac. do TRP, de 4 de Novembro de 2004, proc. 0435504, in [Link], bem como o Ac. do STJ,
de 17 de Março de 2005, proc. 438/05 - 7.ª secção, in [Link].
506
Cfr. ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 12.
507
Por uso entende-se a faculdade de utilização da coisa objecto do direito com vista à satisfação de
necessidades. Por sua vez, a fruição traduz-se no poder de gozar e de retirar da coisa frutos civis ou naturais. Por
fim, o direito de disposição da coisa “abrange poderes materiais que se reconduzem ao poder de transformação, e
poderes jurídicos, como os de alienar, onerar ou renunciar” (ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob.
cit., p. 174).
508
COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 392.
158
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
deste direito traduz-se no “desfrute por parte do seu titular, das qualidades proporcionadas pela
coisa”509.
Em termos genéricos, ao abrigo do disposto no n.º 2 do art. 824.º do CC, os direitos
reais de gozo cuja constituição ou registo se verifique em momento posterior à constituição ou
registo de qualquer arresto, penhora ou garantia, não admitem a dedução de embargos de
terceiro, dado que esses direitos se extinguem automaticamente por mera força da venda
executiva. Exceptuam-se, no entanto, os direitos reais de gozo constituídos em data anterior à
penhora dos bens e os que produzam efeitos em relação a terceiros independentemente de
registo.
Nesta medida, os direitos reais de gozo que caducarem ipso facto com a venda
executiva — direitos reais de gozo sujeitos a registo e registados em momento posterior ao
arresto, penhora ou garantia, ou direitos reais de gozo que, ainda que oponíveis a terceiros
independentemente de registo, só foram constituídos em momento posterior ao arresto, penhora
ou garantia — não permitem ao seu titular a dedução de embargos de terceiro. Contudo, importa
salientar que o direito caducado se transfere para o produto da venda do respectivo bem ao
abrigo do disposto no art. 824.º, n.º 3, do CC, pelo que o respectivo possuidor pode ser
indemnizado pelo prejuízo sofrido com a extinção da sua posse510.
Em contrapartida, estando em causa uma acção executiva para entrega de coisa certa, o
direito real de gozo será incompatível com semelhante diligência se implicar a usufruição da
coisa511.
4.1. PROPRIEDADE
O direito de propriedade é o principal direito real de gozo512 513. Na verdade, dispõe o art.
1305.º do CC que o proprietário goza de modo pleno e exclusivo dos direitos de uso, fruição e
509
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., 1979, p. 286.
510
Cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 82.
511
FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º, ob.
cit., p. 616.
159
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
disposição das coisas que lhe pertencem, dentro dos limites da lei e com observância das
restrições por ela impostas514.
Deste modo, o direito de propriedade traduz-se numa verdadeira plena in re potestas,
sendo certo que uma das suas principais características consiste na sua plenitude, isto é, no
facto deste direito abraçar todos os poderes que são susceptíveis de serem exercidos sobre uma
coisa515. Citando MENEZES CORDEIRO, a plenitude traduz-se na “característica pela qual a
permissão normativa de aproveitamento da coisa, na ausência de limitações ou restrições, se
estende até aos confins das possibilidades jurídicas permitidas pela coisa”516. Assim, o
proprietário, dentro dos limites que lhe são impostos pela ordem jurídica, é titular do “monopólio
das vantagens que a coisa é susceptível de proporcionar.”517
Por outro lado, o direito de propriedade permite o gozo exclusivo da coisa, isto é,
estabelece uma relação intrínseca e umbilical entre o proprietário e a coisa, embora tal não
signifique que não possam coexistir outros direitos em relação à coisa paralelamente ao direito
de propriedade — será o caso, e.g., da oneração de um imóvel com um direito de usufruto,
situação que não se revela incompatível com a coexistência do direito de propriedade sobre a
coisa. Vale isto por dizer que a exclusividade do direito de propriedade não significa um ius
excluendi omnes alios.
512
De acordo com o art. 2169.º do Código Civil de 1867, o direito de propriedade abrangia os direitos de
fruição, transformação, exclusão e defesa, restituição e indemnização em caso de violação, dano ou usurpação, e
de alienação. Por sua vez, determinava o art. 2167.º que o direito de propriedade se traduzia na faculdade que o
homem tinha, de aplicar à conservação da sua existência, e ao melhoramento da sua condição, tudo quanto para
esse fim legitimamente tivesse adquirido e de que, portanto, podia dispor livremente.
513
Quanto à formulação do conceito de propriedade, dividindo-o em duas teorias — teoria da pertença e
teoria do senhorio —, vide CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., pp. 621 a 625.
514
Em termos de direito comparado, o Código Civil Francês determina que a propriedade consiste no
direito de gozar e de dispor uma coisa de forma plena, desde que dela não seja feito um uso proibido por lei ou
pelos regulamentos (art. 544 do CC Fr.). Em sentido semelhante estabelece o Código Civil Italiano que o proprietário
tem o direito de gozar e de dispor da coisa de forma plena e exclusiva, dentro dos limites e com a observância das
obrigações impostas pelo ordenamento jurídico (art. 832 do CC It.).
515
DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 19.
516
CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 626.
517
MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 74.
160
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
518
Cfr., nesse sentido, VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., pp. 169
– 171. Vide, também, FRAGA, Álvaro Moreira Carlos, Direitos Reais…, ob. cit., p. 48.
519
Contudo, não é lícito ao terceiro proprietário deduzir embargos de terceiro contra a penhora dos seus
bens quando a alienação efectuada a seu favor pelo executado tenha sido declarada ineficaz em consequência da
procedência de uma acção de impugnação pauliana (cfr. o Ac. do TRP, de 23 de Abril de 2001, in CJ, tomo II,
2001, p. 205.
161
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
e.g., se o senhorio que no contrato de arrendamento para habitação incluiu bens móveis, vê
estes bens serem penhorados ao arrendatário/executado, pode deduzir embargos de terceiro e
obter ganho da causa desde que demonstre a propriedade desses mesmos bens520. De igual
modo, se o terceiro pretende reagir contra a penhora com base na aquisição originária da
propriedade de um bem imóvel por usucapião, os seus embargos deverão ser julgados
procedentes, ainda que esteja em causa uma penhora registada em momento posterior521.
Assim, se numa execução movida contra o devedor for penhorado um bem que
pertence, na realidade, a um terceiro, uma vez que essa penhora não é inválida e dado que a
execução poderá prosseguir sobre esse bem, deve o terceiro proprietário deduzir embargos de
terceiro, uma vez que não se converteu em executado por mero efeito da penhora522.
Na verdade, em todos estes casos, o proprietário pode reagir contra qualquer acto de
ingerência ou de afectação da coisa por parte de terceiros, ainda que essa agressão assuma
uma natureza judicial. Trata-se, com efeito, de um verdadeiro poder de sequela por parte do
proprietário da coisa, podendo, consequentemente, seguir a coisa independentemente de onde
ela se encontrar tendo em vista a protecção exclusiva do seu direito (ubi rem mea invenio, ibi
vindico) .
523
Ainda que o terceiro proprietário do bem penhorado ou apreendido não seja o seu
possuidor, mesmo assim pode deduzir embargos de terceiro com fundamento na
incompatibilidade do seu direito relativamente ao âmbito ou à finalidade da diligência (ao
contrário do que sucedia no anterior regime jurídico dos embargos de terceiro enquanto meio
exclusivo de tutela possessória), a não ser que esteja em causa, por exemplo, uma alienação
posterior à penhora, a qual é ineficaz em relação à execução e, como tal, compatível com as
finalidades da penhora (art. 819.º do CC)524.
520
Cfr. o Ac. do TRP, de 31 de Janeiro de 2000, proc. 9951416, in [Link].
521
Cfr. o Ac. do TRL, de 27 de Maio de 2004, proc. 1794/2004-2, in [Link].
522
Cfr. ANGEL FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 72.
523
No direito de propriedade a possibilidade de recurso ao direito de sequela implica que a coisa se
encontre ilegitimamente em poder de um terceiro e visa defender o direito contra a agressão por este cometida
(MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, Almedina, Coimbra, 1990, p. 80).
524
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRC, de 22 de Janeiro de 2008, proc. 116-C/2002.C1, in [Link]:
“Nos termos do art. 819º do CC, sem prejuízo das regras do registo, são ineficazes em relação ao exequente os
actos de disposição ou oneração dos bens penhorados. Tais actos não são, pois, nulos ou anuláveis, apenas não
162
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
No que concerne aos seus fins, o registo predial destina-se essencialmente a dar
publicidade à situação jurídica dos prédios526 527, tendo em vista a segurança do comércio jurídico
imobiliário (art. 1.º do CRPred.). Ora, a publicidade garantida pelo registo predial é realizada de
forma indirecta, porquanto divulga quais os actos que, tendo eficácia em relação a terceiros,
interferem na configuração da situação jurídica dos prédios.
Regra geral, a tutela do direito de propriedade relativamente a bens sujeitos a registo em
sede de embargos de terceiro depende da efectividade do registo desse bem. Na verdade,
conforme resulta do art. 5.º, n.º 1, do CRPred., os factos sujeitos a registo só produzem efeitos
em relação a terceiros após a data do registo. Note-se, contudo, que este efeito não reveste um
carácter constitutivo porquanto o registo inscrito constitui presunção iuris tantum de que o direito
existe e que pertence ao titular inscrito nos exactos termos em que o registo assim o define (art.
podendo afectar a finalidade da acção executiva. Está vedado ao adquirente de bem penhorado embargar de
terceiro, porque a penhora não ofende o seu direito, sendo este compatível com a realização daquela diligência.”
525
Cfr. o Ac. do TRL, de 14 de Março de 2000, proc. 0080641, in [Link].
526
Trata-se, com efeito, de uma “publicidade racionalizada” porquanto “deriva da intenção deliberada de
dar a conhecer ao público determinada situação jurídica, sendo, normalmente, instituída ou imposta pelo Estado
(cfr. CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 264).
527
Quanto às características e finalidades da publicidade registral, vide MENDES, Isabel Pereira, Estudos
sobre Registo Predial, Almedina, Coimbra, 2003, p. 48: “O registo jurídico de bens imobiliários, nos moldes em que
é organizado na maioria dos países (…) tem por objectivo a protecção da aparência jurídica, ou seja, uma segurança
dinâmica que radica e se apoia na segurança estática, e consiste em que o subadquirente que, de boa fé, adquira
um direito inscrito no registo, e que por sua vez o inscreva seu favor, deve ficar imunizado contra qualquer forma de
impugnação do registo anterior a favor do transmitente.”
163
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
7.º do CRPred.)528. Assim, pela sua finalidade específica de publicitar a situação jurídica dos
imóveis ou móveis sujeitos a registo e garantir a segurança das relações jurídicas, o titular do
direito devidamente inscrito no registo não carece de provar a factualidade que por si só resulta
dessa presunção, antes cabendo ao terceiro que não se conforme com a natureza do acto
jurídico registado a demonstração de que tal direito não existe (art. 350.º do CC).
Ora, a questão que se coloca para efeitos do presente estudo é a de saber se um
terceiro que tenha adquirido um bem sujeito a registo antes da penhora, mas que não tenha
registado a sua aquisição, poderá fazer valer o seu direito contra as partes primitivas em sede de
embargos de terceiro.
Partindo dos princípios da eficácia e da prioridade temporal (prior in tempore, potior in
iure), a jurisprudência e a doutrina sufragavam maioritariamente o entendimento amplo de que o
direito real de garantia (devidamente registado) do exequente devia prevalecer sobre o direito de
propriedade do terceiro que não tivesse sido registado em data anterior529. Assim, se um terceiro
adquirisse um imóvel por aquisição derivada em momento anterior à penhora, mas não tivesse
procedido ao registo da sua aquisição, não poderia embargar com sucesso para defender o seu
direito de propriedade530.
No entanto, alguma jurisprudência, em oposição a semelhante doutrina, sustentava que
o registo predial tinha apenas um valor declarativo e não constitutivo531, motivo pelo qual o registo
528
Cfr., quanto aos efeitos do registo, FERNANDES, Luís A. Carvalho, «Terceiros para efeitos de registo
predial», in ROA, ano 57.º, vol. III, 1997, p. 1307. Com efeito, este autor refere que “(…) sendo, sem dúvida, em
certos casos, a eficácia do registo declarativa ou enunciativa, se algum efeito normal nele se pode identificar este é
consolidativo; e se, em regra, o registo predial, no Direito português, não tem efeito constitutivo, a sua relevância
consolidativa desenvolve-se, por vezes, num outro efeito que qualificamos de aquisitivo”.
529
Cfr., nesse sentido, SERRA, Vaz, «Anotação ao Ac. do STJ, de 11 de Fevereiro de 1969, in RLJ, 103.º,
p. 165, segundo o qual “[A] noção de terceiro em registo predial e a que resulta da função do registo, do fim tido
em vista pela lei ao sujeitar o acto a registo: e, pretendendo a lei assegurar a terceiros que o mesmo autor não
dispôs da coisa ou não a onerou senão nos termos que constarem do registo, esta intenção legal é aplicável
também ao caso da penhora, já que o credor que fez penhorar a coisa carece de saber se esta se encontra, ou não,
livre e na propriedade do executado.”
530
Cfr. o Ac. do TRL, de 24 de Janeiro de 1989, in BMJ, 383.º, p. 601. Vide, no mesmo sentido, o Ac. do
TRP, de 4 de Novembro de 1997, proc. 9720515, in [Link]: “Não podem proceder os embargos de terceiro
em que os embargantes afirmam que o prédio lhes pertence e está inscrito em seu nome no registo, mas não
comprovaram a sua posse sobre o mesmo prédio.”
531
Vide, quanto a esta questão, DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 133.
164
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
constituía uma presunção iuris tantum de que o direito existia e que pertencia ao titular inscrito
no registo. Nesta medida, não deviam ser liminarmente indeferidos os embargos de terceiro que
fossem deduzidos contra a penhora de um bem só pelo facto de o registo de penhora ser
anterior ao registo de aquisição desse bem, ainda que esta tivesse lugar em momento anterior532.
Com o propósito de harmonizar a jurisprudência em torno desta questão533, o Supremo
Tribunal de Justiça, através do acórdão uniformizador de jurisprudência n.º 15/97, de 20 de
Maio534, veio sufragar o conceito amplo de que são terceiros para efeitos de registo todos aqueles
que, tendo obtido registo de um direito sobre determinado prédio, veriam esse direito ser
arredado por qualquer facto jurídico anterior não registado ou registado posteriormente535 536.
Nessa exacta medida, de acordo com este entendimento jurisprudencial, deviam ser
julgados improcedentes os embargos de terceiro deduzidos pelo adquirente que não registara a
sua aquisição ou que apenas tivesse procedido ao registo em momento posterior ao do registo
do acto ofensivo da sua propriedade, porquanto a falta de registo da aquisição implicava que
esse acto fosse ineficaz em relação à penhora537. Com efeito, nesse caso, o exequente e o
532
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 23 de Junho de 1994, proc. 0073176, in [Link].
533
Cfr. o Ac. do STJ, de 17 de Fevereiro de 1994, in CJ, tomo I, 1994, p. 105, segundo o qual “[T]erceiro
é aquele que tenha a seu favor um direito e, por isso, não possa ser afectado pela produção dos efeitos dum acto
que esteja fora do registo e com ele seja incompatível”. Por sua vez, o Ac. do STJ, de 18 de Maio de 1994, in CJ,
tomo II, 1994, p. 111 determinou que “Para efeitos de registo predial, são terceiros todos aqueles, e apenas esses,
que adquirirem negocialmente e a título oneroso, do mesmo transmitente direitos incompatíveis sobre o mesmo
predito.”
534
Publicado no DR, I.ª Série-A, n.º 152, de 4 de Julho de 1997.
535
Em justificação desta solução, verteu-se nesse acórdão que “[S]ó este conceito amplo de terceiros tem
em devida conta os fins do registo e a eficácia dos actos que devam ser registados. Na verdade, se o registo predial
se destina essencialmente a dar publicidade à situação jurídica dos prédios, tendo em vista a segurança do
comércio jurídico imobiliário (…), tão digno de tutela é aquele que adquire um direito com a intervenção do titular
inscrito (compra e venda, troca, doação, etc.) como aquele a quem a lei permite obter um registo sobre o mesmo
prédio sem essa intervenção (credor que regista uma penhora, hipoteca judicial, etc.).”
536
No sentido do entendimento sufragado neste acórdão não ser inconstitucional por violação do princípio
da igualdade, vide, por todos, o Ac do TRP, de 6 de Maio de 1999, proc. 9930661, in [Link].
537
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 8 de Julho de 1997, proc. 432 – 1.ª Secção, in [Link]. Vide,
também, o Ac. do STJ, de 18 de Fevereiro de 1999, proc. 46/99 – 2.ª secção, in [Link], cujo sumário, pela
sua relevância, se transcreve: “A aquisição da propriedade não registada, pelo que aos seus outorgantes respeita,
não é posta em crise pela posterior penhora registada do seu objecto. Apenas acontece que uma das potestas
contida ou integrante do direito de propriedade alegado, o poder de livre disponibilidade, é afectada pelo
165
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
adquirente eram terceiros para efeitos de registo: o exequente era terceiro em relação à
aquisição efectuada pelo comprador, e este era terceiro em relação à penhora, pois os direitos
do exequente e do comprador eram incompatíveis entre si e derivavam do mesmo autor538.
Contudo, a estabilidade que se pretendia obter com esta orientação uniformizadora de
jurisprudência foi rapidamente abalada com o acórdão uniformizador de jurisprudência do
Supremo Tribunal de Justiça n.º 4/98, de 18 de Dezembro539, o qual veio sufragar a tese,
diametralmente oposta à vertida no acórdão 15/97, de que o registo da acção de execução
específica instaurada pelo promitente-comprador não é oponível ao terceiro adquirente da coisa
prometida vender que não tenha procedido ao registo da sua aquisição540.
Face ao conflito entre estas duas orientações jurisprudenciais, a posição ampla de
terceiros para efeitos de registo adoptada pelo Supremo Tribunal de Justiça no acórdão 15/97
acabou por ser alterada com o acórdão uniformizador de jurisprudência n.º 3/99, de 18 de
Maio541. Na verdade, de acordo com a tese restrita de terceiros para efeitos de registo que foi
acolhida neste acórdão, passou a considerar-se que, para efeitos do disposto no art. 5.º do
CRPred., terceiros para efeitos de registo são os terceiros adquirentes de boa-fé542 relativamente
cerceamento coercitivo da penhora. É o preço a pagar pelo adquirente não diligente; aquele que, tendo ao seu
alcance a possibilidade de, oportunamente, afastar o objecto da sua aquisição da aparente massa patrimonial do
vendedor, garantia comum dos credores deste — art.º 601 do CC — não o faz. Com essa sua falta de diligência, o
adquirente induz o credor em erro sobre as garantias do seu crédito. É justo que sofra as consequências relativas.
Foi prevenindo situações como estas que o direito registral estabeleceu que, relativamente a terceiros, os efeitos dos
factos sujeitos a registo só se produzem depois de registados. É ainda protegendo harmonicamente estes mesmos
interesses de terceiro que o art.º 821, n.º 1, do CPC de 1997, estabelece a sujeição a penhora dos bens do devedor
que respondam pela dívida exequenda, nos termos da lei substantiva. Relativamente a terceiros, não produzindo
efeitos a disposição patrimonial do devedor, cuja correspectiva aquisição não seja registada, o bem seu objecto
permanece adstrito ao cumprimento das suas obrigações, e assim se afirmará se sobre ele recair penhora registada
(anteriormente a registo de qualquer aquisição do bem em causa).”
538
Cfr. o Ac. do STJ, de 15 de Dezembro de 1998, proc. 880/98 – 1.ª secção, in [Link].
539
Publicado na RLJ, 131.º, 1997/1998, p. 240.
540
Cfr., a este propósito, SOUSA, Miguel Teixeira de, «Sobre o conceito de terceiros para efeitos de
registo», in ROA, ano 59.º, vol. I, 1999, p. 30.
541
Publicado no DR, Iª Série-A, de 10 de Julho de 1999.
542
O requisito da boa-fé para a determinação de terceiros para efeitos de registo vem impor que, se A
vende o bem x a B e este não regista a aquisição, e se posteriormente o vende a C, que conhece a alienação
anterior a B, e regista a aquisição, mesmo assim o direito de B será oponível ao de C, dado que este não é
considerado terceiro para efeitos de registo. Cfr., a propósito do requisito da boa-fé, o Ac. do STJ, de 7 de Julho de
166
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
a um mesmo transmitente comum de direitos incompatíveis sobre a mesma coisa543 544 545
. Em
virtude do sentido adoptado nesse acórdão uniformizador de jurisprudência, o Decreto-Lei n.º
1999, proc. 976/98 – 2.ª secção, in [Link], segundo o qual “[T]erceiros para efeitos do disposto no artigo 5
do CRP são os adquirentes, de boa fé, de um mesmo transmitente comum, de direitos incompatíveis sobre a
mesma coisa. Assim se a parte arrematou em hasta pública uma determinada fracção urbana, aquisição que
oportunamente registou, mas se a mesma aquisição se operou depois de previamente informado que a fracção em
causa já não pertencia então ao executado, mesmo que pudesse considerar-se "terceiro" carecia o mesmo de boa-
fé.”
543
Como fundamento desta orientação, e com relevância para o tema objecto de estudo, verteu-se neste
acórdão o seguinte: “Por força do condicionamento da eficácia, em relação a terceiros, dos factos sujeitos a registo,
é evidente que, se alguém vende, sucessivamente, a duas pessoas diferentes a mesma coisa, e é o segundo
adquirente quem, desconhecendo a primeira alienação, procede ao registo respectivo, prevalece esta segunda
aquisição, por ser esse o efeito essencial do registo. Estão em causa direitos reais da mesma natureza. Aqui, a
negligência, ignorância ou ingenuidade do primeiro deve soçobrar perante a agilidade do segundo, cônscio, não só
dos seus direitos como dos ónus inerentes. É sob este prisma que a primeira venda leva à constituição de um
direito resolúvel (…) cuja resolução ocorre perante a verificação do facto complexo de aquisição posterior, de boa-fé,
seguida de registo. Isto, conforme já resulta do que acima ficou exarado em nota, quer a alienação seja voluntária,
isto é, livremente negociada, quer coerciva, ou seja, obtida por via executiva. Efectuada a compra, por via de
arrematação em hasta pública, ou por qualquer outro modo de venda judicial, este modo de alienação, na
perspectiva em causa, tem, pelo menos, a mesma eficácia daqueloutra. Também aqui a prioridade do registo
ultrapassa a incompatibilidade. Situação diferente é a resultante do confronto do direito real de garantia resultante
da penhora registada quando o imóvel penhorado já havia sido alienado, mas sem o subsequente registo. Aqui, o
direito real de propriedade, obtido por efeito próprio da celebração da competente escritura pública, confronta-se
com um direito de crédito, embora sob a protecção de um direito real (somente de garantia). Nesta situação,
mesmo que o credor esteja originariamente de boa fé, isto é, ignorante de que o bem já tinha saído da esfera
jurídica do devedor, manter a viabilidade executiva, quando, por via de embargos de terceiro, se denuncia a
veracidade da situação, seria colocar o Estado, por via do aparelho judicial, a, deliberadamente, ratificar algo que vai
necessariamente desembocar numa situação intrinsecamente ilícita, que se aproxima de subsunção criminal, ao
menos se for o próprio executado a indicar os bens à penhora. Assim, poderia servir-se a lex, mas não seguramente
o jus. (…) Com efeito, «o direito de execução pode incidir sobre bens de terceiro, quando estejam vinculados à
garantia do crédito, ou quando sejam objecto de acto praticado em prejuízo do credor, que este haja
procedentemente impugnado». E tão-só. Como já se verificou, o imóvel penhorado, no caso dos autos, já havia
saído do património do devedor. Portanto, não podia garantir nenhuma das suas dívidas. Como bem alheio que é,
pode o seu titular embargar de terceiro. A venda em execução transfere para o adquirente os direitos do executado
sobre a coisa vendida. Portanto, efectuada a venda, é que os bens são transmitidos livres dos direitos de garantia
que os onerem, bem como os demais direitos reais que não tenham registo anterior ao de qualquer arresto,
penhora ou garantia, com excepção dos que, constituídos em data anterior, produzam efeitos em relação a terceiros
167
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
independentemente de registo. In casu ainda se não efectivou a venda. Nesta perspectiva, poderia dizer-se que, a
conceder-se eficácia ao registo, de alguma maneira estaria a emprestar-se-lhe capacidade impeditiva de o
embargante conservar o seu direito de propriedade. No entanto, é certo que ninguém pode ser privado, no todo em
ou parte, daquele direito senão por via de expropriações ou requisições, mediante pagamento de indemnização, sob
pena de inconstitucionalidade. De certo modo, estaríamos perante a figura do confisco, facto susceptível de ferir
profundamente o senso comum e, portanto, de gerar grande sobressalto social. Resta acrescentar que, em casos
como o presente, o exequente, perante o conteúdo do requerimento inicial de embargos e a sua eventual
procedência, passa a saber que o prédio já não é do executado, cessando a sua boa fé. A má fé - conhecimento da
situação jurídica de certo prédio - neutraliza o requisito da publicidade registral, tornando-o irrelevante, mesmo
quando estão em causa actos da mesma natureza, por exemplo, duas alienações. Com efeito, a publicidade
destina-se a dar conhecimento. Se este já existe, inútil se torna aquela. Por isso e por todos os valores acima
expostos, torna-se evidente que, mesmo no caso de duas compras/vendas consumadas, com registo da segunda,
esta não deve prevalecer se o segundo comprador conhecia a alienação anterior”.
544
Criticando este conceito de terceiro em sentido restrito, vide MENDES, Isabel Pereira, ob. cit., pp. 11 e
140. Na verdade, salienta ISABEL MENDES que “(o Supremo Tribunal de Justiça) optou agora pela instabilidade,
sem se aperceber de que com as suas decisões liquida o Registo Predial como sistema de garantia da segurança e
certeza do comércio jurídico. (…) Em face da nova jurisprudência e filosofia e da filosofia que lhe está subjacente, o
registo pouco ou nada garante, apesar dos rígidos princípios que o norteiam (instância, prioridade, especialidade,
legalidade, trato sucessivo, legitimação, fé pública registral (…)”.
545
Adoptando o conceito restritivo de terceiro, vide o Ac. do STJ, de 18 de Maio de 1994, in CJ, tomo II,
1994, p. 11: “para efeitos de registo predial, são terceiros todos aqueles, e apenas esses, que adquirirem,
negocialmente e a título oneroso, do mesmo transmitente direitos incompatíveis sobre o mesmo prédio.”
546
No sentido de a redacção dada ao art. 5.º, n.º 4, do CRPred. assumir um carácter interpretativo para os
efeitos do disposto no art. 13.º, n.º 1, do CC, vide o Ac. do STJ, de 18 de Dezembro de 2003, proc. 2518/03 – 2.ª
secção, in [Link], bem como o Ac. do STJ, de 1 de Março de 2007, proc. 4768/06 – 1.ª secção, in
[Link]. Por outro lado, no sentido da norma não ser inconstitucional, nomeadamente pelo facto de o bem
penhorado ter deixado de pertencer ao património do executado muito antes da penhora do bem (art. 817.º do CC),
vide o Ac. do STJ, de 23 de Outubro de 2007, proc. 2380/07 – 6.ª secção, in [Link].
547
Criticando o entendimento sufragado pelo ac. 3/99, TEXEIRA DE SOUSA sustenta que essa orientação
não pode ser aplicada aos casos de dupla alienação, seguida de transmissão efectuada pelo segundo adquirente,
dado que, caso contrário, se verificaria uma violação expressa do direito positivo. Na verdade, se A vende o bem x a
B e posteriormente o vende a C, que, por sua vez, o aliena a D, o qual, de boa-fé, regista em seu nome a aquisição,
e se E instaura uma execução contra D e nomeia à penhora o imóvel que este adquiriu de C, B só pode embargar
de terceiro de forma procedente se a acção de embargos for deduzida e registada no prazo de três anos a contar da
168
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Assim, a adopção desta tese veio permitir tutelar determinadas situações em que o
direito não registado pode ser oponível a terceiros, tudo dependendo dos terceiros que são
considerados549. Com efeito, de acordo com esta orientação, verificando-se um conflito entre o
direito de propriedade resultante de uma aquisição por compra e venda anterior à penhora, mas
não levada a registo, e uma penhora posterior a essa aquisição e devidamente registada, a
aquisição anterior prevalece sobre a penhora, dado que o exequente não é um terceiro para
efeitos de registo, motivo pelo qual é lícito ao terceiro deduzir procedentemente embargos de
terceiro contra a penhora desse imóvel550. Isto pelo simples facto de que o credor exequente e o
proprietário embargante não são legalmente considerados terceiros para efeitos de registo
porquanto não adquiriram de um mesmo transmitente comum e de boa-fé direitos incompatíveis
sobre a mesma coisa551. No entanto, já assim não sucederá se o bem penhorado tiver sido
aquisição por D, por força do disposto no art. 291.º do CC. Todavia, a tese sufragada pelo acórdão 3/99 vem
contrariar o art. 291.º do CC porque B e D não são terceiros para efeitos de registo (dado que B e D não adquiram
do mesmo transmitente comum), prevalecendo, consequentemente, o direito de B em relação ao de D (cfr. SOUSA,
Miguel Teixeira de, «Sobre o conceito de terceiros para efeitos de registo», ob. cit., p. 38).
548
Vide o Ac. do STJ, de 6 de Dezembro de 2001, proc. 3426/01 – 7.ª secção, de acordo com o qual “O
n.º 4 do art.º 5 do CRgP, aditado a este artigo pelo DL n.º 533/99, de 11-12, adoptando o conceito restrito de
“terceiros” para efeitos de registo predial, é incompatível com a doutrina do acórdão uniformizador n.º 15/97, e não
deixa dúvidas sobre a revogação deste. Em embargos de terceiro instaurados na vigência do acórdão uniformizador
n.º 15/97, sendo proferida a decisão já na vigência do acórdão uniformizador n.º 3/99, de 18-05-99, é este último
acórdão que deve ser aplicado.”
549
Cfr., a este propósito, SOUSA, Miguel Teixeira de, «Sobre o conceito de terceiros para efeitos de
registo», ob. cit., p. 30. Assim, se A vende o bem x a B, o qual não regista a sua aquisição, e se, posteriormente,
vende o mesmo bem a C, que regista essa aquisição, o direito de propriedade de B é inoponível a C.
550
No domínio do processo civil espanhol, o legislador concede uma especial protecção ao terceiro
adquirente do bem que não registou a sua aquisição quando esteja em causa a casa de morada de família. Na
verdade, dispõe o art. 593., 3. que “(…) cuando el bien (sujeito a registo e cuja aquisição não tenha sido registada)
de cuyo embargo se trate sea la vivienda familiar del tercero y éste presentare al tribunal el documento privado que
justifique su adquisición, se dará traslado a las partes y, si éstas, en el plazo de cinco dias, manifestaren su
conformidad en que no se realice el embargo, el tribunal se abstendrá de acordarlo.”
551
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 29 de Setembro de 1993, in CJ, tomo III, 1993, p. 29, bem como
o Ac. do STJ, de 7 de Julho de 1999, proc. 99B576, in [Link]: “Procedem assim os embargos de terceiro
contra a penhora, de um prédio urbano efectivada e registada em data posterior a uma doação não registada do
mesmo prédio feita anteriormente com "traditio" para a embargante.”
169
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
alienado em sede executiva, pois que, nesse caso, o adquirente do bem em sede judicial será
terceiro em relação ao titular do direito de propriedade não registado552.
Deste modo, a concepção actual de “terceiros para efeitos de registo” implica que, no
conflito entre a presunção derivada de registo e a derivada da posse da coisa pelo adquirente, é
esta última que deve prevalecer553.
No entanto, importa referir que, para que o terceiro adquirente que não registou o seu
direito possa ver julgada procedente a sua pretensão reivindicatória, não lhe basta invocar a
aquisição derivada por efeito do contrato de compra e venda. Na verdade, a aquisição derivada
não é constitutiva do direito de propriedade, mas tão só translativa desse direito. Deste modo, o
terceiro embargante terá apenas como alternativa a invocação da aquisição originária por
usucapião ou a demonstração de que esse direito de propriedade já existia a favor do
transmitente, sendo suficiente, para esse efeito, que a coisa transmitida já se encontrasse
inscrita a favor do transmitente à data em que o embargante dele a adquiriu de forma derivada554
555
.
552
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 4 de Abril de 2002, in CJ, tomo I, 2002, p. 154: “Na venda
executiva gera-se uma aquisição derivada em que o executado é o transmitente. Assim, o anterior adquirente do
direito de propriedade não registado e o adquirente em venda executiva do direito de propriedade registado são
terceiros para efeitos de registo, nos termos do art. 5.º, n.º 4, do CRP. Aquele que adquiriu um direito de
propriedade e omitiu o registo do negócio aquisitivo pode invocar a posse do prédio transmitido perante terceiro
para efeitos de afastar a prevalência do direito deste.
553
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 8 de Abril de 1997, proc. 96A826, in [Link]. Vide, também, o
Ac. do STJ, de 2 de Novembro de 2004, proc. 2966/04 – 6.ª secção, in [Link]: “O conceito de terceiros para
efeitos de registo pressupõe que tenham adquirido de um mesmo autor direitos incompatíveis entre si. São
terceiros, entre si, um embargante comprador de imóvel e um embargado titular de arresto convertido em penhora
sobre o mesmo imóvel. Nestas circunstâncias, improcedem os embargos se o arresto foi decretado antes da
compra do imóvel pelo embargante e foi igualmente registado antes do registo de tal aquisição.”
554
Cfr., nesse sentido, o Ac. o TRC, de 3 de Junho de 2008, proc. 245-B/2002C.1, in [Link].
555
A este propósito, o ac. 3/99 veio determinar que “a posse susceptível de prevalecer contra registo
anterior ao início da posse, a que o mencionado artigo 1268.º se refere, não será a que já produziu usucapione,
pois que esta é uma forma concreta de aquisição originária. Por isso, porque é originária, mesmo que haja registo
anterior ao início dessa posse, ele cede perante aquela forma de aquisição. Assim, a posse a que se reporta o
mencionado artigo só pode ser a que, revestindo-se dos requisitos inerentes ao seu conceito, entre os quais
interessa, neste momento, realçar o da publicidade, ainda lhe falta capacidade aquisitiva por carência do decurso de
tempo necessário.
170
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
556
SOUSA, Miguel Teixeira de, «Sobre o conceito de terceiros para efeitos de registo», ob. cit., pp. 43 a 45.
557
Quanto à finalidade do art. 838.º, n.º 4, do CPC, vide SILVA, Paula Costa e, «Exequente e terceiro
adquirente de bens nomeados à penhora», in ROA, ano 59.º, 1999, p. 330, a qual sustenta que “[P]erante as
divergências na interpretação do art. 5.º/1 do CRgP, o legislador pretendeu afirmar expressamente que o exequente
vê a sua situação ordenada com a de terceiros tendo em atenção a data de realização do registo de penhora. Se se
entender que a ordenação do exequente e do terceiro não está coberta pelo art. 5.º/1 do CRgP, como, aliás, nos
parece não estar, ela estará regulada pelo art. 838./4 do CPC.”
558
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 5 de Junho de 1979, in CJ, tomo III, 1979, p. 796, segundo o
qual “[A]inda que não registada a aquisição por terceiro do bem penhorado, a penhora não subsiste quando o
exequente no acto sabe que o terceiro adquiriu de boa fé aquele objecto. Vide, também, o Ac. do STJ, de 8 de Abril
de 1997, proc. 826/96 – 1.ª secção, in [Link]: “Se o embargo-exequente sabe que determinado bem imóvel
pertence a terceiro, age em abuso de direito se o indica à penhora, só porque o registo predial o declara do
executado.”
171
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
execução movida contra A implica a extinção, por caducidade, do direito real de B, pois que,
embora tenha sido constituído em momento anterior à penhora, foi registado em data posterior.
Nesta medida, tal como salienta TEIXEIRA DE SOUSA559, a desconformidade da orientação
perfilhada pelo Supremo Tribunal de Justiça com a lei torna-se mais gritante, porquanto o direito
do terceiro, ainda que não registado, é oponível à penhora registada (e enquanto acto
preparatório da venda), mas já não será oponível à própria venda, pois que esta determina a
caducidade dos direitos reais de gozo que não tenham sido registados antes da penhora, por
força do disposto no art. 824.º, n.º 2, do CC.
Por último, se o terceiro, em vez de recorrer aos embargos de terceiro, intentar um
acção de reivindicação, uma vez que esta acção não implica suspensão do processo executivo, a
venda judicial do bem penhorado determina a extinção, por caducidade, do direito real de gozo
que não se encontre registado entes do registo da penhora, circunstância que implica a extinção
da acção de reivindicação por inutilidade superveniente da lide.
Assim, o STJ, de forma a garantir a segurança jurídica e a estabilidade das decisões,
devia apenas ter fixado jurisprudência, em conformidade com o acórdão uniformizador de
jurisprudência n.º 15/97, de 20 de Maio, no sentido de que “o exequente que nomeia bens à
penhora e o anterior adquirente desses bens não são terceiros para efeitos de registo predial.”
α) COMPROPRIEDADE
À luz do art. 1403.º do CC, existe compropriedade quando duas ou mais pessoas são
simultaneamente titulares do direito de propriedade sobre a mesma coisa560, sendo certo que os
direitos dos comproprietários sobre a coisa comum são qualitativamente iguais, embora possam
ser quantitativamente diferentes (art. 1403.º, n.º 2, do CC). Deste modo, verifica-se uma
“situação de pluralidade de direitos reais numa relação de comunhão” dado que sobre o mesmo
bem incidem dois ou mais direitos reais de propriedade pertencentes a titulares distintos561.
559
SOUSA, Miguel Teixeira de, «Sobre o conceito de terceiros para efeitos de registo», ob. cit., p. 45.
560
No sentido de a compropriedade se inserir no domínio da contitularidade ou comunhão de direitos, vide
DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 58.
561
Cfr., nesse sentido, PINTO, Rui, «A Execução e terceiros – Em especial na penhora e na venda», ob. cit.,
p. 236.
172
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
562
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRC, de 7 de Março de 1989, in BMJ, 383.º, p. 622: “Procedem, na
totalidade, os embargos de terceiro deduzidos por comproprietário do imóvel penhorado, uma vez que só podia ter
sido penhorado o direito do executado a metade indivisa do bem imóvel”. Cfr., também, no mesmo sentido o Ac. do
TRP, de 9 de Abril de 1992, in BMJ, 416.º, p. 712, bem como o Ac. do TRL, de 26 de Outubro de 1995, proc.
0083146, in [Link].
563
FREDERICO CARPI; MICHELE TARUFFO, Commentario Breve al Codice di Procedura Civile, ob. cit.,
p. 1847. Cfr., no mesmo sentido, VINCENZO CORSARO; SILVIO BOZZI, Manuale dell'esecuzione forzata, Giuffrè,
Milão, 1996, p. 489.
564
Cfr. o Ac. do TRE, de 24 de Julho de 1980, in BMJ, 302.º, p. 330.
173
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
invés do próprio bem comum antes da divisão, porquanto, em tal circunstância, não se verifica
qualquer ofensa da posse efectiva que esteja a ser exercida sobre o bem comum. Assim, em tal
caso não podem ser recebidos embargos de terceiro propostos por quem esteja a ser exercer
posse efectiva sobre um bem comum dado que o direito à quota-parte de uma coisa comum é
insusceptível de posse565.
Fica igualmente prejudicado o recurso aos embargos de terceiro se os contitulares do
executado requererem a venda de todo o bem indiviso, nos termos do art. 862.º, n.º 2, do CPC.
Na verdade, tendo em conta a necessidade de se garantir a eficácia da acção executiva bem
como a possibilidade de o adquirente poder obter a totalidade do bem alienado em sede de
execução, o legislador veio permitir a venda da totalidade do bem desde que para esse efeito
seja obtido o consentimento de todos os contitulares, em vez de ser apenas vendida a respectiva
quota-parte do executado sobre esse bem.
β) RESERVA DE PROPRIEDADE
β.1) ÂMBITO
Nos contratos que tenham por objecto a constituição ou transferência de direitos reais
sobre coisa determinada vigora o princípio da transferência imediata do direito real por mero
efeito do contrato (art. 408.º, n.º 1, do Cc).
No entanto, conforme resulta do disposto no art. 409.º do CC, é lícito ao alienante, no
âmbito de um contrato de alienação, reservar para si a propriedade da coisa até ao momento
em que se verifique o cumprimento total ou parcial das obrigações da outra parte ou até à
verificação de qualquer outro evento (pactum reservati dominii). Trata-se, na verdade, de uma
excepção à regra da transferência da propriedade por mero efeito do contrato, porquanto o
direito de propriedade permanece na esfera jurídica do vendedor, só se transmitindo para o
comprador com o pagamento da totalidade do preço da coisa566, assistindo-se, assim, a um
565
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRL, de 17 de Janeiro de 1995, proc. 00836901, in [Link].
566
Vide, a este propósito, o art. 1524.º do CC It. quanto ao regime jurídico da vendita com patto di
riservato domínio.
174
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
567
LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. III, ob. cit., p. 58.
568
VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., p. 304.
569
Reportando-se a esta questão, ALMEIDA COSTA destaca as vantagens para o desenvolvimento da vida
económica em virtude da susceptibilidade de se assegurar a reserva da propriedade como factor de
desenvolvimento do consumo com recurso ao crédito (cfr. COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações,
ob. cit., p. 267).
570
Cfr., a este propósito, PINHEIRO, Luís Lima, A Cláusula de Reserva de Propriedade, Almedina, Coimbra,
1988, p. 23, segundo o qual “Com a reserva de propriedade visa o vendedor precaver-se de uma eventual
inexecução do contrato ou insolvência por parte do comprador, caso em que o vendedor deseja obter a restituição
da coisa, fazendo valer os seus direitos quer em face do comprador, quer de terceiros, credores do comprador, ou
que por ele tenham sido investidos em direitos sobre a coisa. Consegue-o convencionando que a titularidade do
direito de propriedade permaneça na sua esfera jurídica até ao integral pagamento do preço.”
571
Vide, neste sentido, o Ac. do STJ, de 1 de Março de 1979, in BMJ, 285.º, p. 179, segundo o qual “[O]
princípio de que a transferência da propriedade da coisa determinada se opera por mero efeito do contrato pode ser
afastado por vontade das partes, mediante o chamado «pactum reservati dominii», previsto no art. 409.º”.
175
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
tutela dos interesses do vendedor, dado que garante a permanência do direito de propriedade na
sua esfera jurídica até que se verifique o pagamento da totalidade do preço pelo devedor.
De todo o modo, estando em causa um contrato referente à transmissão da propriedade
sobre um bem imóvel ou móvel sujeito a registo, a eficácia da imposição dessa cláusula e a sua
oponibilidade em relação as terceiros depende do respectivo registo (art. 409.º, n.º 2, do CC)572.
572
Cfr., a este propósito, o artigo 5.º, n.º 1, b), do Decreto-Lei n.º 54/75, de 12 de Fevereiro, segundo o
qual se encontra sujeito a registo a reserva de propriedade estipulada em contrato de alienação de veículos
automóveis. No sentido de não ser admissível a interpretação actualista desta norma com vista a estender ao
financiador, com reserva de propriedade, os direitos do vendedor no contrato de compra e venda, vide o Ac. do STJ,
de 2 de Outubro de 2007, proc. 07A2680, in [Link].
Por sua vez, determina o art. 46.º do Regulamento do Registo de Automóveis (na redacção introduzida
pelo artigo 16.º do Decreto-Lei n.º 178-A/2005, de 28 de Outubro, que aprovou o projecto do Documento Único
Automóvel), que a reserva de propriedade estipulada nos contratos de alienação de veículos constitui menção
especial do registo de propriedade.
573
Cfr. DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 251.
574
Nos termos do art. 271.º do CC, as partes podem subordinar a um acontecimento futuro e incerto a
produção dos efeitos do negócio jurídico ou a sua resolução: no primeiro caso, diz-se suspensiva a condição; no
segundo, resolutiva.
575
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 22 de Fevereiro de 1983, in BMJ, 324.º, p. 578, o Ac. do STJ, de 1
de Fevereiro de 1995, in BMJ, 444.º, p. 609, e o Ac. TRP, de 15 de Janeiro de 2007, proc. 0651966, in
[Link], segundo o qual “[A] cláusula de reserva da propriedade, prevista e regulada no art. 409º, do Código
176
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
exacta medida, de acordo com esta tese, embora o direito de propriedade se radique na pessoa
do vendedor, assistem ao comprador poderes de detenção e de gozo que não configuram,
contudo, a posse, mas a mera detenção ou posse precária576, ficando o comprador com uma
mera expectativa jurídica de vir a adquirir a coisa alienada. Vale isto por dizer que os efeitos
jurídicos do contrato de compra e venda ficam “suspensos” até que se verifique o pagamento
integral do preço, ou seja, a ocorrência efectiva da condição a que as partes subordinaram a
eficácia do contrato. Nessa exacta medida, verificando-se esse acontecimento futuro e incerto, o
direito de propriedade transfere-se definitivamente para o adquirente da coisa, retroagindo-se os
seus efeitos à data da conclusão do contrato, ao abrigo do disposto nos arts. 276.º, 408.º, n.º 1
e 879.º, a) do CC.
Em sentido contrário, CUNHA GONÇALVES sustenta que a reserva de propriedade
constitui uma condição resolutiva, dado que, pela celebração do contrato, a propriedade se
transmite imediatamente para o comprador, embora se verifique a resolução dos efeitos do
negócio jurídico e a recuperação da propriedade pelo vendedor em consequência do
incumprimento do contrato577.
Por sua vez, uma outra corrente doutrinaria vem sufragando a teoria segunda a qual a
reserva de propriedade atribui ao comprador uma expectativa real de aquisição, conservando,
consequentemente, o vendedor a propriedade do bem, ainda que a mesma se encontre onerada
Civil para os contratos de alienação, traduz-se na sujeição do efeito translativo desses negócios a uma condição
suspensiva ou termo inicial, sendo a propriedade sobre o bem alienado, utilizada como garantia do cumprimento
das prestações do adquirente.”
Na doutrina, vide LIMA, Pires de; VARELA, Antunes, Código Civil Anotado, vol. I, ob. cit., p. 376, BRAGA,
Armando, Contrato de Compra e Venda, 3.ª ed., Porto, 1994, p. 69, e MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro
Fuzeta da, Garantias do Cumprimento, ob. cit., p. 221, sustentando estes autores que “(…) nos negócios de compra
e venda a prestações com cláusula de reserva de propriedade, não havendo outros elementos que permitam
determinar a vontade real das partes relativamente ao alcance dessa cláusula, o negócio é realizado com uma
condição suspensiva quanto à transferência da propriedade, pelo que a propriedade do bem se mantém na
titularidade do vendedor, sendo o comprador um mero detentor em nome alheio.”, e MARTINEZ, Pedro Romano,
Direito das Obrigações, 2.ª ed., Almedina, Coimbra, 2001, p. 36.
576
Ac. do STJ, de 14 de Abril de 1994, in BMJ, 436.º, 1994, p. 440.
577
GONÇALVES, Cunha, Tratado de Direito Civil em comentário ao Código Civil Português, VIII, Coimbra
Editora, 1934, p. 349, apud LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 203.
177
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
face à posição jurídica do comprador578. Deste modo, de acordo com esta teoria de que a reserva
de propriedade atribui ao comprador uma expectativa real de aquisição, o adquirente é um
possuidor efectivo em nome próprio579.
A reserva de propriedade foi também já qualificada como uma cláusula de natureza
atípica, dado que se trata de uma determinação acessória que, funcionando como garantia do
alienante, se destina a regular os efeitos do contrato, limitando-os quantitativamente, e não de
condição suspensiva ou resolutiva580.
578
Cfr., neste sentido, LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. III, ob. cit., p. 65, bem como o
Ac. do TRP, de 30 de Março de 1993, in BMJ, 1993, p. 651.
579
Cfr., nesse sentido, LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. III, ob. cit., pp. 67 e 68, bem
como VENTURA, Raul, «Contrato de compra e venda no Código Civil», in ROA, nº 43, 1983, p. 610.
580
Cfr. o Ac. do TRP, de 24 de Fevereiro de 1971, in BMJ, 204.º, p. 196.
581
Cfr., nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 308.
582
Tal como salienta RUI PINTO, esta penhora incide, prima facie, sobre determinadas situações jurídicas
activas que, afectando em termos reais um bem, permitem que o titular possa no futuro adquiri-lo para si, já não o
próprio direito de propriedade, ou outro direito real de gozo, pois este esta na titularidade de terceiro, contraparte no
contrato (PINTO, Rui, «Penhora e alienação de outros direitos – Execução especializada sobre créditos e execução
especializada sobre direitos não creditícios na reforma da acção executiva», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 150).
178
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
aquisição fica à disposição do agente de execução, devendo o alienante, por sua vez, declarar se
esse direito existe, quais as garantias que o acompanham, em que data se verificará o
cumprimento integral da obrigação e quaisquer outras informações que possam interessar à
execução (art. 856.º, [Link] 1 e 2 do CPC)583.
583
Cfr., a este propósito, o Ac. Uniformizador de Jurisprudência do STJ n.º 10/2008, de 9 de Outubro de
2008, proc. 3965/07 – 1.ª secção, com a Declaração de Rectificação n.º 70/2008, in DR, I.ª série, n.º 230, de 26
de Novembro de 2008, segundo o qual a expectativa de aquisição “pode ser penhorada, nos termos do artigo 860.º
-A, n.º 1, do CPC, mas a penhora não incide sobre o bem em causa. Tal penhora só passa a incidir sobre o próprio
bem, quando se consumar a aquisição, e ela só pode ter lugar se a exequente cancelar o registo da reserva. Só
então o veículo passa a integrar o património do executado e pode, como tal, responder pelas suas dívidas — artigos
601.º do CC e 821.º do CPC.”
584
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 14 de Novembro de 2006, proc. 7988/2006-7, in [Link],
segundo o qual “[A] reserva de propriedade não surge na lei tipificada como direito real de garantia sendo certo que,
se o fosse, por ela se iniciaria a penhora do bem sobre a qual incidia a garantia, só podendo recair noutros uma vez
reconhecida a sua insuficiência para conseguir o fim da execução (artigo 835.º, n.º1 do Código de Processo Civil).
Ora, assim sendo, porque não estamos face a direito real de garantia, o Tribunal não pode determinar o seu
cancelamento nos termos do artigo 824.º,nº2 do Código Civil, pois só caducam com a venda os direitos reais de
garantia e os demais direitos reais que não tenham registo anterior ao de qualquer arresto, penhora ou garantia.”
Em sentido contrário, cfr. a declaração de voto do Sr. Juiz Conselheiro SEBASTIÃO PÓVOAS, in Ac.
Uniformizador de Jurisprudência do STJ n.º 10/2008, de 9 de Outubro de 2008, proc. 3965/07 – 1.ª secção, com
a Declaração de Rectificação n.º 70/2008, in DR, I.ª série, n.º 230, de 26 de Novembro de 2008, segundo o qual o
art. 824.º, n.º 2, do CC deve ser aplicado à reserva de propriedade quando esta assuma uma natureza “atípica”
enquanto mera garantia do crédito e conste do registo a reserva de propriedade de um bem penhorado a favor do
exequente, não tendo sido este o vendedor do bem, e declarando expressamente renunciar à reserva.”
179
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Por outro lado, mesmo que se viesse a admitir a sua qualificação enquanto direito real
de gozo, sendo a reserva de propriedade constituída ou registada antes de qualquer arresto,
penhora ou garantia, da venda executiva não decorre a sua caducidade por força do disposto no
art. 824.º, n.º 2, 2.ª parte, do CC585 586.
Assim, se em execução movida contra o comprador do bem adquirido com reserva de
propriedade vier a ser penhorada a propriedade do bem, o alienante pode deduzir oposição à
penhora mediante embargos de terceiro587 588, dado que, não obstante ter-se verificado a entrega
dos bens ao comprador, o vendedor reservatário conserva a propriedade ou mantém a posse
jurídica589 sobre os bens até integral pagamento do preço590 591. Não será, assim, de acolher a tese
585
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 11 de Abril de 2002, proc. 0024567, in [Link], segundo o
qual “[A] reserva de propriedade constitui um direito real de gozo que, tendo registo anterior à penhora, não caduca
com a respectiva venda judicial, nos termos do artigo 824º nº2 do CCIV. Por isso, estando registada a reserva de
propriedade sobre veículo penhorado, a favor da exequente, registo esse anterior ao registo da penhora, não pode a
execução prosseguir para a venda do mesmo veículo.” Vide, ainda, o Ac. do TRL, de 6 de Fevereiro de 2007, proc.
10411/2006-7, in [Link], segundo o qual “A propriedade reservada, enquanto direito real de gozo, não cabe
no rol dos direitos reais que, nos termos do art. 824º, nº 2 do C. Civil, caducam com a venda em execução e são
mandados cancelar oficiosamente, ao abrigo do disposto no art. 888º do C. P. Civil.”
586
No sentido do regime previsto no art. 824.º, n.º 2, do CC, apenas se reportar aos direitos reais de
terceiros que incidam sobre o bem, não se aplicando nas situações em que esse direito pertence ao próprio
exequente, vide o Ac. do TRL, de 16 de Dezembro de 2003, proc. 9916/2003-1, in [Link].
587
Vide, nesse sentido, REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 420; Ac. do STA, de
19 de Fevereiro de 1986, in ADSTA, 300.º, p. 1521, o Ac. do STA, de 13 de Janeiro de 1987, in ADSTA, 324.º, p.
1535; Ac. do STA, de 16 de Dezembro de 1987, in ADSTA, 314.º, p. 221; Ac. do STA, de 1 de Abril de 1992, in
BMJ, 416.º, p. 690; Ac. do TRP, de 14 de Abril de 1994, in BMJ, 436.º, p. 440. Na doutrina, cfr. LEITÃO, Luís
Menezes, Direito das Obrigações, vol. III, ob. cit., p. 62.
Em sentido contrário, se bem que referente ao regime dos embargos de terceiro anterior à reforma de
95/96, vide o Ac. do STJ, de 29 de Novembro de 1989, proc. 077972: “I - A posse real e efectiva é a que serve
sempre de fundamento aos embargos de terceiro. II - No contrato de compra e venda com reserva de propriedade
da coisa vendida, havendo tradição material desta para o comprador, este adquire a posse real e efectiva sobre a
coisa. III - Na execução movida contra o comprador em que foi penhorada a coisa assim vendida e transmitida a
este, o vendedor não pode deduzir embargos de terceiro.”
588
Cfr., a este propósito, a sentença da CSC It., proc. 2240/1976, segundo a qual a reserva de
propriedade pode ser invocada pelo vendedor ao credor do comprador desde que resulte de um documento escrito
e com data certa (art. 1524. do CC It.).
589
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 11 de Outubro de 1988, in BMJ, 380.º, p. 547, segundo o qual
“[N]a venda com reserva de propriedade o alienante continua a ser o proprietário da coisa até ao integral
180
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
cumprimento das obrigações do comprador e, assim, possui-a em nome próprio e pode, se essa posse for ofendida,
deduzir embargos de terceiro.”
590
Cfr., nesse sentido, a sentença do TS Es., de 19 de Abril de 1975, apud ANGEL FERNANDEZ, Miguel,
Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 382.
591
Com efeito, nesse caso, tal como refere RUI PINTO, incidindo a penhora sobre um carro do executado
adquirido com reserva de propriedade a favor do alienante, o que se penhora efectivamente não é o carro, mas, tão
só, o direito do executado sobre esse carro (cfr. PINTO, Rui, «A Execução e terceiros – Em especial na penhora e na
venda», ob. cit., p. 241).
592
Publicado no Boletim do Ministério da Justiça, n.º 382.º, p. 532.
593
Na verdade, tal como salienta ANA PERALTA, “o gozo da coisa pelo comprador durante o tempo que
medeia entre a celebração do contrato e o pagamento completo do preço é um elemento típico essencial da compra
e venda com reserva acompanhada da tradição da coisa. Não se fundando na propriedade que ainda não detém, o
gozo do comprador deriva da sua posse em nome próprio, resultante da entrega do bem em execução do contrato
(…) ao vendedor continua a pertencer a posse nos termos do direito de propriedade, direito de que ainda é titular.”
(PERALTA, Ana Maria, A Posição Jurídica do Comprador na Compra e Venda com Reserva de Propriedade,
Almedina, 1990, p. 97).
594
Nos termos do art. 860.º-A do CPC, a penhora da expectativa da aquisição é feita através da notificação
ao titular da coisa a transmitir de que o direito de aquisição da coisa pelo adquirente com reserva de propriedade
fica à ordem do agente de execução. Caso a aquisição da coisa venha a ser consumada, a penhora passa a incidir,
não sobre o direito de aquisição, mas sim sobre a própria coisa entretanto adquirida (art. 863.º-A, n.º 3, do CPC).
Além da notificação do titular do bem a transmitir, a efectivação da penhora implica ainda a apreensão material da
coisa móvel caso a mesma se encontre na posse ou na detenção do executado, ou a sua entrega a um fiel
depositário se se tratar de um bem imóvel.
595
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 308.
181
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
596
Cfr., nesse sentido, GRAVATO MORAIS, segundo o qual “[A] finalidade do legislador, ainda que
interpretada actualisticamente, não terá sido a de permitir a quem não aliena um bem, mas tão só o financia, a
constituição a seu favor de uma reserva de domínio sobre um objecto que não produziu nem forneceu” (MORAIS,
Fernando Gravato, «Reserva de propriedade a favor do financiador (Ac. do TRL de 21.2.2002, Rec. 789)», in
Cadernos de Direito Privado, n.º 6, p. 49). Cfr., no mesmo sentido, o Ac. do TRL, de 14 de Dezembro de 2004,
proc. 9857/2004-7, in [Link], segundo o qual “A reserva de propriedade apenas pode ser convencionada e
registada a favor do transmitente, nos termos do art. 409º do CC, não existindo no ordenamento jurídico nacional
base legal para que a reserva seja feita a favor da entidade que financiou a aquisição do bem.”
Vide, em sentido contrário, o Ac. do TRL, de 6 de Fevereiro de 2007, proc. 10411/2006-7, in
[Link], segundo o qual “[A]pesar de originariamente pensada para contratos de alienação, nada obsta, tendo
em conta o princípio da liberdade contratual, à aplicação desta figura a contratos diferentes, nomeadamente ao de
mútuo a prestações que com o de compra e venda de veículo automóvel apresente uma relação de estreita
conexão, consubstanciada no facto de o objecto do primeiro – quantia mutuada – representar o preço do segundo.”
597
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 15 de Janeiro de 2007, proc. 0651966, in [Link].
598
Cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 82; SOUSA,
Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 309; LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. III,
ob. cit., p. 72.
182
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
4.2. USUFRUTO
599
Conforme resulta do art. 1443.º do CC, o usufruto, em regra, não pode exceder a vida do usufrutuário,
sendo certo que, no caso de ser constituído a favor de uma pessoa colectiva, de direito público ou privado, a
duração máxima do usufruto é de trinta anos.
600
A doutrina tem-se dividido quanto à natureza jurídica do usufruto. Na verdade, têm vindo a ser
defendidas, essencialmente, três teses distintas: para uma primeira tese, o usufruto seria um desmembramento da
propriedade, sendo certo que esta concepção foi adoptada pelo art. 2187.º do Código de Seabra e defende que o
usufruto seria um direito real que representa uma parcela de domínio ou uma fracção da propriedade; para uma
segunda tese, o usufruto seria uma propriedade temporária, isto é, tanto o usufrutuário como o proprietário da raiz
ou nu proprietário seriam proprietários da coisa, embora o usufrutuário apenas o fosse a título temporário e de
forma limitada; para uma terceira tese, o usufruto seria um direito real autónomo que onera a propriedade, já que,
carecendo de plenitude e de exclusividade, constitui um direito que, coexistindo com a propriedade, a onera (cfr.
CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 659).
601
Esta definição legal segue de perto a fórmula adoptada por Paulo, Digesto [Link] apud CORDEIRO, A.
Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 645: “Usus fructus est ius alienis rebus utendi fruendi salva rerum substantia.”
602
O Código Civil Francês determina que o usufruto atribui ao seu titular o direito de desfrutar de um bem
alheio, como se dele fosse o seu proprietário, ficando obrigado a conservar a sua substância (art. 578.º do CC Fr.).
Por sua vez estabelece o Código Civil Italiano que o usufrutuário tem o direito de gozo da coisa, mas deve respeitar
o seu destino económico (art. 981. do CC It.).
603
Nesse sentido vide DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 155.
183
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
604
Cfr., nesse sentido, CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 657.
605
MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 78.
184
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
606
Quanto ao direito de sequela, HENRIQUE MESQUITA ressalva que esta expressão não se afigura
correcta, já que não se trata de um direito, mas sim de um atributo ou de um efeito decorrente da titularidade de
um direito real, quer o mesmo seja qualificado como um poder directo e imediato (teoria clássica), quer seja
concebido como uma relação de subordinação directa de uma coisa à soberania de uma pessoa (teoria
personalista) — MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 79.
607
Cfr. o Ac. do TRP, de 11 de Junho de 1987, in CJ, tomo III, 1987, p. 193.
608
Vide, nesse sentido, FERREIRA, Durval, Posse e Usucapião, ob. cit., p. 400.
609
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, p. 309; MARQUES, J. P. Remédio, Curso de
Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 329; Ac. do TRC, de 11 de Junho de 1987, in CJ, tomo III,
1987, p. 193.
185
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
610
Com efeito, se o autor da hipoteca for o usufrutuário de um bem imóvel, a hipoteca apenas onera o
direito de usufruto sobre o imóvel e não o próprio imóvel (cfr. MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da,
Garantias do Cumprimento, ob. cit., p. 189).
611
Cfr. o Ac. do TRP, de 11 de Junho de 1987, in CJ, tomo III, 1987, p. 193. Vide, na doutrina, MENDES,
João de Castro, Direito Processual Civil,, ob. cit., p. 135, e MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo
Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit., p. 150.
186
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
respectiva família612 613 (art. 1484.º, n.º 1, do CC)614. Quanto ao direito de habitação, este consiste
no direito de uso quando reportado a uma casa de morada (art. 1484.º, n.º 2, do CC)615. Trata-
se, pois, de um direito similar ao direito de uso, embora dele se distancie quanto ao seu objecto.
No que concerne ao respectivo regime jurídico, o legislador segue de perto as normas
previstas para o regime do usufruto, porquanto os direitos de uso e de habitação constituem
“usufrutos diminuídos”616 atento o facto de o respectivo direito de gozo se limitar às necessidades
do respectivo titular e da sua família. Nessa medida, e.g., o titular do direito de uso e de
habitação não pode onerar o imóvel com um arrendamento, uma vez que o direito de uso e
habitação se reconduz ao gozo do imóvel, sem que daí resulte para o respectivo titular o direito
ao gozo dos produtos civis resultantes da coisa617.
A constituição do direito de uso e habitação sobre um bem imóvel encontra-se sujeita a
registo [art. 2.º, n.º 1, a), do CRPred.].
612
Ao abrigo do art. 1486.º do CC, as necessidades pessoais do usuário ou do morador usuário são fixadas
em conformidade com a sua condição social.
613
Para todos os efeitos legais, a composição da família compreende apenas o cônjuge, não separado
judicialmente de pessoas e bens, os filhos solteiros, outros parentes a quem sejam devidos alimentos e as pessoas
que, convivendo com o respectivo titular, se encontrem ao seu serviço ou ao serviço das pessoas designadas.
614
Comparativamente com o direito de usufruto, a diferença fundamental decorre da circunstância de o
direito de uso e habitação se limitar às necessidades do respectivo titular e da sua família (cfr., nesse sentido,
COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 438).
615
Do mesmo modo, no domínio do código civil italiano o direito de habitação vem definido como um
direito de gozo limitado sobre uma habitação, o qual é constituído em benefício do respectivo titular e da sua família
(art. 1022 do CC It.).
616
Cfr., nesse sentido, DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 167.
617
Cfr., nesse sentido, FRAGA, Álvaro Moreira Carlos, Direitos Reais…, ob. cit., 1971, p. 418.
187
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
mesma coisa, o titular deste direito pode fazê-lo valer contra o adquirente da coisa através do
seu poder de sequela.
Deste modo, sendo penhorado um bem imóvel pertencente ao executado, mas que se
encontra onerado com um direito de uso e habitação a favor de outrem, é lícito ao terceiro titular
deste direito deduzir embargos de terceiro em relação à penhora quando tal se revele necessário
para que o tribunal reconheça que o bem se encontra onerado com esse direito, já que, sendo
incompatível com a penhora, a existência de um direito de uso e de habitação não se extingue
com a venda executiva.
De igual maneira, se o imóvel penhorado em acção executiva movida contra um dos
cônjuges constituir a casa de morada do seu cônjuge, este pode deduzir embargos de terceiro
com vista à protecção do seu direito de habitação que onera esse imóvel quando não tenha sido
citado nos termos e para os efeitos do disposto nos arts 825.º e 864.º-A do CPC. Ora, tal direito
fica devidamente protegido e salvaguardado se for reconhecido ao cônjuge do executado o direito
de permanecer no imóvel penhorado enquanto precisar dele para morar. Na verdade, do art.
1682.º-A do CC emerge um verdadeiro direito de habitação a favor do cônjuge do executado,
pelo que nada obsta à manutenção da penhora que reconheça a existência desse ónus, ou seja,
desde que seja reduzida à propriedade da raiz ou à nua propriedade, garantindo-se, assim, uma
conciliação justa e equitativa entre os interesses conflituantes.
É lícito ao cônjuge do executado deduzir embargos de terceiro contra a penhora da casa
de morada de família situada em prédio pertencente exclusivamente ao marido executado, dado
que do art. 1682.º-A, n.º 2, do CC resulta um verdadeiro direito de uso e habitação a favor do
cônjuge, pelo que a penhora apenas poderia incidir sobre a propriedade da raiz desse imóvel618.
De igual modo, uma vez que o direito real de habitação não se extingue com o divórcio dos seus
titulares, e dado que nem a posse da casa de morada de família por parte de cada um dos
cônjuges se torna insubsistente a partir do respectivo divórcio, é lícito ao ex-cônjuge deduzir
618
Cfr. o Ac. do STJ, de 13 de Março de 1997, in BMJ, 465.º, p. 498. LOPES DO REGO insurge-se contra
tal direito de embargar de terceiro, já que ao cônjuge do executado apenas será facultado o exercício do
contraditório que ao executado seria lícito deduzir em sede executiva (art. 864.º-A, do CPC), não lhe sendo, pois,
lícito embargar de terceiro para fazer valer a titularidade de um direito de uso e habitação sobre a casa de morada
de família (REGO, Lopes do, Comentários do Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 326).
188
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
embargos de terceiro contra uma acção de reivindicação da casa de morada de família que
tenha sido movida contra o ex-cônjuge619.
4.4. SUPERFÍCIE
619
Ac. do STJ, de 10 de Fevereiro de 1994, proc. 084346, in [Link].
620
Propondo uma definição mais completa do direito de superfície, MENEZES CORDEIRO sustenta que este
direito traduz-se na “afectação jurídica de um prédio alheio em termos de nele se efectuar, ou simplesmente
manter, edifícios ou plantações, com o subsequente aproveitamento das coisas assim mantidas” (cfr. CORDEIRO, A.
Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 707).
621
Esta noção legal de direito de superfície contraria a visão romana da propriedade, já que todo o
elemento imobilizado que se encontrasse dentro dos limites verticais de um prédio apenas podia pertencer a um só
proprietário, não se admitindo, assim, que uma coisa implantada pudesse pertencer a uma pessoa diversa do titular
do solo (ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 457).
622
Em termos muito semelhantes, determina o art. 952 do CC It. que “[I]l proprietario può costituire il
diritto di fare e mantenere al disopra del suolo una costruzione a favore di altri, che ne acquista la proprietà.”
623
Cfr., nesse sentido, DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 173.
624
Vide, nesse sentido, MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações Reais e Ónus Reais, ob. cit., p. 58.
189
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Assim como no caso do usufruto, também quando seja penhorada a propriedade plena
pode o titular do direito de superfície deduzir embargos de terceiro com fundamento na
titularidade de um direito incompatível com a penhora625 626. Na verdade, a constituição de um
direito de superfície sobre a coisa contende com o exercício em absoluto do direito de
propriedade sobre a coisa, passando a existir entre o superficiário e o proprietário do solo uma
relação de coexistência intrínseca, o que implica que cada um desses direitos se veja
proporcionalmente limitado em função da medida do direito correlativo. Ora, o direito do
superficiário em relação à coisa não é suficientemente forte para impedir que o respectivo
proprietário possa alienar a coisa a um terceiro, ou que a mesma possa ser coactivamente
alienada em sede de execução forçada. Porém, este direito não se extingue por força dessa
venda, isto é, não é incompatível com a venda executiva, pelo que o superficiário poderá
embargar de terceiro se, tendo o seu direito sido constituído e registado em momento anterior à
penhora, arresto ou outra garantia, o interesse processual assim o impuser por força da
necessidade de impor o reconhecimento do seu direito na venda executiva.
Saliente-se, ainda, que tem legitimidade para deduzir embargos o terceiro em benefício
do qual tenha sido constituído pelo superficiário um direito real de gozo627 em caso de acção
625
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 329.
626
No regime anterior à reforma de 95/96 a jurisprudência entendia que o direito de superfície não
permitia a dedução de embargos de terceiro, porquanto tal direito não era susceptível de posse (cfr., nesse sentido,
o Ac. do TRL, de 7 de Julho de 1994, proc. 0083541, in [Link]).
627
Já igual legitimidade não lhe será concedida se este for titular de um direito real de garantia, salvo nos
casos particulares em que este direito admita a dedução de embargos de terceiro. Quanto à extinção dos direitos
190
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
executiva movida contra o proprietário do bem e em que tenha sido penhorada a propriedade
plena, bem como nos casos em que tenha sido penhorado o direito de superfície do superficiário
em execução contra ele movida.
reais de gozo e de garantia constituídos pelo superficiário a favor de um terceiro, vide o regime previsto no art.
1539.º do CC.
628
Vide, no mesmo sentido, a noção de servidão predial ínsita no art. 1027 do CC It.
191
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
629
Ao contrário da servidão predial, a qual se traduz na imposição de um encargo sobre um prédio em
benefício de outro prédio pertencente a dono diferente, a servidão pessoal consiste num direito pessoal de gozo com
mera eficácia obrigacional que é constituído em benefício de uma pessoa e não de um prédio (vide, quanto a esta
distinção, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 444).
630
Na verdade, tal como salienta HENRIQUE MESQUITA, o proprietário do prédio dominante tem um direito
de gozo ou de desfrute de vantagens sobre o prédio serviente (MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus
Reais, ob. cit., p. 85).
192
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
631
A Directiva 94/47/CE, de 26 de Outubro veio regular esta matéria, reportando-se a um “direito real ou
qualquer outro direito relativo à utilização de um ou mais imóveis durante um período determinado ou determinável
de ano, que não pode ser inferior a uma semana.”
632
Nessa exacta medida, o direito real de habitação periódica, segundo ISABEL PEREIRA MENDES,
caracteriza-se por ser um direito novo, com natureza real, oponível “erga omnes”, constituído por escritura pública e
sujeito a registo (cfr. MENDES, Isabel Pereira, Direito Real de Habitação Periódica, Almedina, Coimbra, 1993,
p. 18).
633
ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 475.
634
Cfr., nesse sentido, DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 192.
193
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Nos termos do disposto no art. 862.º, n.º 5, do CPC, a penhora do direito real de
habitação periódica realiza-se através de notificação à contraparte da respectiva relação
contratual, a qual deve comunicar ao tribunal se esse direito existe, sem prejuízo de poder
também contestar a existência do direito (art. 862.º, n.º 1, do CPC).
O direito real de habitação periódica, sendo um direito real menor de gozo, implica a
limitação do exercício do direito de propriedade do titular do imóvel onerado com esse direito,
pelo que se verifica uma relação concomitante entre ambos os direitos.
Por outro lado, o poder, ainda que limitado, de gozo da coisa pelo titular do direito real
de habitação, embora não lhe permita impedir a alienação da coisa pelo respectivo proprietário,
atribui-lhe, no entanto, o poder de impor o reconhecimento do seu direito real de gozo ao
adquirente da coisa.
194
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
635
Cfr., nesse sentido, DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 196.
636
Tratando-se de um direito real “em sobreposição” e de “titularidade singular”, a penhora do bem sobre
o qual incide o direito real de habitação periódica não implica a apreensão efectiva do bem com a consequente
retirada da coisa ao gozo do executado (cfr. PINTO, Rui, Penhora, Venda e Pagamento, ob. cit., p. 79).
637
Cfr. MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 329.
195
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
638
Do mesmo modo, o art. 1376.º do CC. It. prevê a possibilidade de serem celebrados contratos com
eficácia real: “Nei contratti che hanno per oggetto il trasferimento della proprietà di una cosa determinata, la
costituzione o il trasferimento di un diritto reale ovvero il trasferimento di un altro diritto, la proprietà o il diritto si
trasmettono e si acquistano per effetto del consenso delle parti legittimamente manifestato.”
639
Cfr., nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., p. 262.
640
ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 183. Vide também a este propósito,
DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 255, segundo o qual os direitos reais de aquisição são
aqueles “cujo exercício redunda da aquisição de um direito real, seja ele de gozo ou de garantia.”
641
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 772.
642
Vide, nesse sentido, MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 10.
643
A este propósito, RUI PINTO DUARTE sustenta que os direitos reais de aquisição não caducam com a
venda executiva atento o disposto nos arts. 824.º e 422.º, segunda parte, a contrario, ambos do Código Civil.
644
O STJ, por acórdão datado de 29 de Novembro de 2001, veio sustentar que os direitos reais de
aquisição se extinguem com a venda executiva, motivo pelo qual não permitiriam a dedução de embargos de
terceiro.
196
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Ora, em regra os titulares de direitos reais de aquisição não podem deduzir embargos de
terceiro quando a respectiva causa de pedir se alicerça apenas na ofensa desse direito. Na
verdade, o promitente-comprador tem o direito de adquirir directamente o bem penhorado em
sede executiva através de venda directa (art. 909.º do CPC). Por sua vez, o preferente legal ou
convencional com eficácia real tem o direito de exercer o seu direito em sede executiva aquando
da diligência de venda por propostas em carta fechada (arts. 892.º e 896.º do CPC)645.
Porém, importa ter em consideração algumas situações particulares em que tal questão
apresenta um carácter mais controvertido.
5.1.1. ÂMBITO
645
Vide, nesse sentido, COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 209, segundo o qual o
direito real de aquisição não é incompatível com a penhora porquanto o seu titular pode realizar o respectivo direito
no âmbito da própria acção executiva, ao abrigo do disposto no art. 886.º, n.º 1, c), do CPC.
646
Nos termos do disposto no art. 2.º, n.º 1, f), do CRPred., encontra-se sujeita a registo a promessa de
alienação ou oneração de bens imóveis. Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 12 de Março de 1991, in BMJ, 17.º, p.
17.
647
Traduzindo-se o direito real no poder de exigir de todos os outros indivíduos uma atitude de respeito pelo
exercício de determinados poderes sobre uma coisa, a eficácia real atribuída no contrato-promessa de compra e
venda de imóvel confere ao promissário um direito real de garantia (cfr. o Ac. do STJ, de 2 de Julho de 1996, proc.
195/96 – 1.ª Secção, in [Link].
197
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
648
. Deste modo, à semelhança do que sucede em relação ao contrato de arrendamento, também
no caso do contrato-promessa de compra e venda com eficácia real, o legislador veio prever
expressamente a possibilidade de uma relação de natureza meramente obrigacional poder
produzir efeitos oponíveis erga omnes649. A eficácia real do contrato-promessa traduz-se, assim,
na faculdade atribuída “a qualquer terceiro que adquira do promitente-vendedor, sobre o objecto
do contrato-prometido, um direito que inviabilize, no todo ou em parte, o cumprimento do
contrato-promessa650 651. Isto pela simples razão de que a promessa com eficácia real prevalece
sobre todos os direitos, sejam eles de natureza pessoal ou real, que tenham sido constituídos
sobre a coisa prometida, pelo que é lícito ao promitente opor procedentemente o seu direito a
um terceiro que tenha adquirido sobre a coisa um direito incompatível com o do promitente.
Para que o contrato-promessa referente à constituição ou transmissão de direitos reais
sobre bens imóveis produza efeitos em relação a terceiros, é necessário, desde logo, que o
contrato seja celebrado por escritura pública, que as partes atribuam expressamente eficácia
real ao contrato e que o mesmo seja levado a registo com vista à sua publicidade em relação a
terceiros.
Vale isto por dizer que o direito à celebração do contrato-promessa com eficácia real
prevalece, nos termos do art. 824.º, n.º 2, do CC, sobre os direitos reais que não tenham sido
constituídos ou registados em momento anterior ao registo do contrato-promessa com eficácia
real.
Ao contrário do que sucede no contrato-promessa celebrado com eficácia meramente
obrigacional, em que a venda da coisa prometida a um terceiro não permite ao credor recorrer à
execução específica desse contrato — dado que a emissão de uma declaração de natureza
constitutiva pelo tribunal implicaria a transmissão de um bem que já não pertence ao património
648
Quanto aos seus pressupostos, a celebração de um contrato-promessa com eficácia real depende da
verificação de três requisitos: existir uma declaração expressa das partes quanto à atribuição de eficácia real ao
contrato; a promessa deve constar de escritura pública ou de documento particular assinado pelos promitentes,
consoante o contrato prometido esteja ou não sujeito a essa forma; a promessa deve ser inscrita no registo (cfr.
COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., pp. 372 e 373).
649
VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., p. 173.
650
MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações Reais e Ónus Reais, ob. cit., p. 235.
651
Cfr., quanto à distinção entre contrato-promessa com eficácia real (art. 821.º CPC) e direito emergente
de contrato-promessa, GONÇALVES, Gabriel Órfão, «Temas da Acção Executiva», in Themis, ano V, n.º 9, 2004,
p. 290.
198
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
652
Assim, nesse caso o promitente-comprador apenas poderá exigir o pagamento de uma indemnização
pelos danos resultantes do incumprimento do contrato (cujo valor será determinado em função do sinal entregue ou
de uma eventual cláusula penal que tenha sido estabelecida para esse efeito), sem prejuízo do direito de poder
recorrer às sanções previstas no art. 442.º, n.º 2, do CC, se tiver havido traditio da coisa.
653
Cfr., a este propósito, VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., p. 173.
654
Quanto à natureza obrigacional do direito de execução específica do contrato-promessa, cfr. MESQUITA,
Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 223.
655
Quanto ao exercício da eficácia real do contrato-promessa de compra e venda, MENEZES LEITÃO
sustenta que se trata de uma acção declarativa constitutiva, a instaurar em litisconsórcio necessário contra o
promitente e o terceiro adquirente (LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 251).
199
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
sido prestado sinal ou fixada uma cláusula penal para o caso de incumprimento do contrato-
promessa656.
Deste modo, o direito do promitente-comprador que se encontre devidamente registado
é oponível à penhora registada em momento posterior, uma vez que o contrato-promessa que
seja celebrado com eficácia real produz efeitos em relação a terceiros, ou seja, tem eficácia erga
omnes.
Nessa exacta medida, o problema que se coloca é o de saber se o promitente-
comprador pode deduzir embargos de terceiro contra a penhora do bem prometido vender em
execução movida contra o promitente-vendedor.
Alguma doutrina tem vindo a sustentar que, estando em causa um contrato-promessa
com eficácia real, é lícito ao promitente-comprador deduzir embargos de terceiro contra a
penhora ou a apreensão da coisa prometida dado que é titular de um direito incompatível com a
finalidade ou o âmbito da diligência. Isto pela simples razão de que a eficácia real do contrato-
promessa permite ao promitente-comprador recorrer à acção de execução específica de forma a
obter a aquisição judicial do bem com base nesse contrato, sendo, consequentemente, titular de
um direito oponível relativamente a terceiros657 658.
Em sentido contrário, TEIXEIRA DE SOUSA preconiza que o promitente-comprador ao
qual tenha sido atribuído um direito real de aquisição não pode deduzir, em regra, embargos de
terceiro659. Na verdade, neste caso apenas restará ao promitente-comprador a faculdade de
656
Cfr., nesse sentido, TELLES, Galvão, Direito das Obrigações, p. 132, apud MESQUITA, Manuel
Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 240.
657
Vide, nesse sentido, MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de
Terceiro, pp. 187 e 188. Cfr., também, MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 240,
segundo o qual “pelo que respeita à promessa de alienação ou oneração dotada de “eficácia real”, o entendimento
dominante na doutrina portuguesa é o de que tal figura jurídica coenvolve um direito real de aquisição, por isso que
o promissário pode sempre, pela via da execução específica, sem a cooperação do promitente ou mesmo contra a
sua vontade, obter o direito real que este se obrigou a transmitir ou constituir.”
658
Quanto a esta questão, o STJ, por acórdão de 19 de Setembro de 1992, proc. 1839/02-2, in SASTJ,
9/2002, veio sustentar que, se o promitente-comprador recorrer à execução específica do contrato-promessa de
compra e venda, não poderá deduzir embargos de terceiro com base no seu direito de retenção resultante do não
cumprimento do contrato.
659
Cfr. o Ac. do TRL, de 23 de Fevereiro de 1995, in CJ, tomo I, 1995, p. 138: “O promitente-comprador
que goza de imóvel por a seu favor se ter verificado traditio rei, sendo embora titular de direito de retenção,
200
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
adquirir esse bem em sede de venda executiva através de venda directa, sem prejuízo de poder
invocar e reclamar o seu crédito com fundamento no direito de retenção sobre o bem
penhorado, podendo, aliás, obter a sustação da execução até conseguir um título exequível em
acção própria (arts. 864.º e 869.º do CPC)660. Em contrapartida, não pretendendo o promitente-
comprador adquirir esse bem em sede de venda directa, deve entender-se que o seu direito real
de aquisição caduca tendo em conta o desinteresse manifestado quanto ao exercício desse
direito, pelo que o promitente-comprador apenas poderá reclamar o pagamento do seu crédito
pelo produto do bem penhorado661.
Esta segunda tese afigura-se como sendo a mais correcta, sendo certo, aliás, que foi
perfilhada pelo actual Código de Processo Civil no seu art. 903.º. Com efeito, é certo que o
contrato-promessa celebrado com eficácia real torna o direito do promitente-comprador oponível
em relação a terceiros. Contudo, admitir-se a possibilidade de dedução de embargos de terceiro
face à penhora do bem prometido vender significaria, na prática, esvaziar de conteúdo o regime
previsto no art. 903.º do CPC. Com efeito, determina este preceito legal que “se os bens (…)
tiverem sido prometidos vender, com eficácia real, a quem queira exercer o direito de execução
específica, a venda ser-lhe-á feita directamente”. Deste modo, o legislador veio consagrar uma
modalidade particular de venda do bem penhorado que se encontre onerado com uma
promessa de compra e venda com eficácia real, a qual permite tutelar directamente os
interesses do promitente-comprador, vedando-lhe, consequentemente, a dedução de embargos
de terceiro porquanto o seu direito (de execução específica do contrato-promessa) não é
incompatível com a venda judicial do bem. Na verdade, a única particularidade residirá no facto
de a venda lhe ser feita directamente pelo solicitador de execução, sendo certo que os credores
reclamantes do executado serão pagos (por ordem de graduação) em função do produto dessa
venda.
enquanto direito real de garantia, não pode opor-se à penhora desse mesmo imóvel realizada em acção executiva
desencadeada por credor do promitente-vendedor, contra este.”
660
Cfr. o Ac. do TRL, de 23 de Fevereiro de 1995, in CJ, tomo I, 1995, p. 138, bem como o Ac. do STJ, de
11 de Março de 1999, in BMJ, 458.º, p. 404, segundo o qual “o direito de retenção do promitente comprador só é
susceptível de se reportar ao direito de crédito indemnizatório, concretizável no âmbito do concurso de credores, e
porque o seu direito em relação ao direito de propriedade é o de mero possuidor em nome alheio”. Vide, no mesmo
sentido, o Ac. do TRL, de 12 de Abril de 1988, in BMJ, 376.º, p. 646.
661
Cfr., nesse sentido, PINTO, Rui, Penhora, Venda e Pagamento, ob. cit., p. 93.
201
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
662
Cfr. PINTO, Rui, «A Execução e terceiros – Em especial na penhora e na venda», ob. cit., p. 250.
663
A este propósito, o Ac. do STJ, n.º 4/98, de 18 de Dezembro, in RLJ, 131.º, 1997/1998, p. 240, veio
uniformizar a jurisprudência no sentido de “[A] execução específica do contrato-promessa sem eficácia real, nos
termos do art. 830.º do Código Civil, não é admitida no caso de impossibilidade de cumprimento por o promitente-
vendedor haver transmitido o seu direito real sobre a coisa objecto do contrato prometido antes de registada a acção
de execução específica, ainda que o terceiro adquirente não haja obtido o registo da aquisição antes do registo da
acção; o registo da acção não confere eficácia real à promessa.” A orientação vertida neste acórdão veio pôr em
crise, como salienta TEIXEIRA DE SOUSA, o sentido do acórdão uniformizador de jurisprudência do Supremo
Tribunal de Justiça n.º 15/97, de 20 de Maio, o qual veio adoptar uma concepção ampla de terceiros para efeitos
de registo (cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, «Sobre o conceito de terceiros para efeitos de registo», ob. cit., p. 30).
664
VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., pp. 132, 336 e 337.
665
Cfr., nesse sentido, MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., pp. 262 e 263.
202
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
5.2.1. ÂMBITO
666
Quanto à liberdade de celebração do negócio jurídico e de possibilidade de determinação dos seus
efeitos jurídico, cfr. LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 23.
667
DUARTE, Rui Pinto, Curso de Direitos Reais, ob. cit., p. 259.
668
Cfr., nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., pp. 403 e 404.
669
Nesta medida, como refere MENEZES LEITÃO, o direito de preferência só surge caso o obrigado venha a
tomar a decisão de celebrar o contrato em relação ao qual tenha concedido a preferência (cfr. LEITÃO, Luís
Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 258). Cfr., no mesmo sentido, VARELA, João de Matos Antunes,
Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., p. 377.
670
A este respeito, conforme refere ANTUNES VARELA, se o pacto de preferência for dotado de eficácia
meramente obrigacional, tal significa que, ainda que o terceiro seja conhecedor da existência da relação jurídica de
preferência, não é lícito ao preferente opor-lhe esse conhecimento a título de má-fé nem a violação do seu direito de
preferência porquanto o direito do preferente se reconduz a um direito de crédito sobre o obrigado com eficácia inter
partes.
203
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
certo, por outro lado, que essa preferência deverá constar de escritura pública ou de documento
particular quando a lei não exija que o contrato definitivo seja celebrado com essa forma, e deve
ser inscrita no registo de modo a adquirir eficácia erga omnes (art. 413.º ex vi art. 421.º, ambos
do CC)671. Com efeito, a preferência real traduz-se na afectação jurídica de uma coisa corpórea
em termos de poder ser adquirida por uma pessoa individualmente considerada em detrimento
do projectado adquirente e pelo preço com este ajustado672. Trata-se, na verdade, de um direito
potestativo de aquisição, com eficácia erga omnes673, o qual pode ter origem convencional674 ou
legal675. Deste modo, tendo sido violado o direito de preferência com eficácia real que incidia
sobre o objecto de um contrato e compra e venda, o respectivo titular desse direito pode
substituir-se ao adquirente da coisa no âmbito do contrato celebrado com violação de
semelhante pacto676, através do recurso a uma acção de preferência677. Isto pelo simples motivo
de que, sendo o pacto de preferência dotado de eficácia erga omnes, é inoponível ao preferente
qualquer outro direito real de gozo ou de garantia ou qualquer direito pessoal de gozo que o
adquirente da coisa sujeita a preferência tenha constituído sobre ela ou em relação a ela678.
No entanto, uma vez que a lei não permite às partes derrogar os direitos de preferência
legalmente previstos através de convenção, o art. 422.º do CC preceitua que o direito
671
Nos termos do disposto no art. 2.º, n.º 1, f), do CRPred., os pactos de preferência referentes a bens
imóveis encontram-se sujeitos a registo se lhes tiver sido atribuída eficácia real.
672
CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 776.
673
Cfr. FREITAS, José Lebre de; MENDES, Armindo Ribeiro, Código de Processo Civil Anotado, vol. 3.º,
Coimbra Editora, 2003, p. 577.
674
De todo o modo, para que o direito de preferência de origem convencional tenha eficácia real, é
necessário que as partes lhe tenham atribuído essa eficácia através de escritura pública, estando em causa,
naturalmente, bens imóveis ou móveis sujeitos a registo (art. 421.º do CC).
675
Será o caso, nomeadamente, do direito de preferência do arrendatário (art. 1091.º do CC), do
comproprietário (art. 1409.º do CC), do proprietário do solo (art. 1535.º do CC) e do proprietário do prédio serviente
(art. 1555.º do CC).
676
Se o pacto de preferência ter sido celebrado com eficácia meramente obrigacional, apenas assiste ao
preferente o direito de obter do contraente faltoso o pagamento de uma indemnização pelos danos emergentes do
incumprimento (cfr., nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., p. 415).
677
Cfr., quanto aos efeitos do pacto de preferência com eficácia real, MESQUITA, Manuel Henrique,
Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 199.
678
Cfr. o Ac. do STJ, de 27 de Fevereiro de 1996, proc. 88071 – 1.ª Secção, in [Link].
204
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
convencional de preferência deve ceder perante direitos legais de preferência que com ele se
encontrem em conflito.
679
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «Enxertos declarativos no processo executivo», in Estudos
sobre Direito Civil e Processo Civil, ob. cit., p. 648.
680
Com efeito, se o notificado nada disser dentro do prazo em que lhe é lícito exercer o direito de
preferência, essa omissão de pronúncia implica a extinção do direito real de preferência por caducidade, nos termos
do disposto nos arts. 298.º e 331.º do CC.
681
Cfr., a este propósito, MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 220.
205
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
O direito pessoal de gozo caracteriza-se por atribuir ao seu titular “o direito de usar, fruir
ou transformar a coisa, sem necessidade da intermediação de outrem”, sendo estruturalmente
diferente dos direitos reais e dos creditórios682 683.
6.1. LOCAÇÃO
6.1.1. ÂMBITO
Entende-se por locação o contrato pelo qual uma das partes se obriga a proporcionar à
outra o gozo temporário de uma coisa, mediante retribuição (art. 1022.º do CC)684 685
. Deste
modo, a locação é um contrato de natureza bilateral, que se caracteriza por três elementos
essenciais: uma obrigação de proporcionar o gozo de uma coisa, um prazo e uma retribuição686.
682
Cfr. MESQUITA, José Andrade de, Direitos Pessoais de Gozo, Livraria Almedina, Coimbra, 1999, p. 25.
683
A doutrina tem-se dividido quanto à questão de saber se os direitos pessoais de gozo constituem direitos
de crédito ou verdadeiros direitos reais. Com efeito, em defesa da primeira qualificação, destacam-se, entre outros,
ANTUNES VARELA (Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., p. 173) e MENEZES LEITÃO (Direito das Obrigações,
vol. I, ob. cit., p. 110), enquanto a segunda tese, embora restringida ao direito do arrendatário, é sufragada por
OLIVEIRA ASCENSÃO (As Relações Jurídicas Reais, Morais Editora, Lisboa, 1962, p. 214). HENRIQUE MESQUITA
sustenta que os direitos pessoais de gozo constituem um tertius genus entre os direitos de crédito e os direitos
reais, dado que, embora se estruturem numa relação entre o credor e o devedor, constituem, no entanto, direitos
imediatos sobre uma coisa corpórea, não necessitando da colaboração do devedor para poderem ser exercidos (cfr.
MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, Almedina, Coimbra, 1990, p. 175).
684
No Código Civil de 1867, a locação vinha definida no art. 1595.º nos seguintes termos: “Dá-se contrato
de locação quando alguém trespassa a outrem, por certo tempo, e mediante certa retribuição, o uso e fruição de
uma coisa.”
685
No Código Civil Francês o contrato de locação surge definido como o contrato pelo qual uma das partes
entrega a outra uma coisa para seu desfrute durante um certo período de tempo e mediante o pagamento de um
preço (art. 1709. do CC Fr.). De igual modo, no ordenamento jurídico italiano, a locação surge definida como “il
contratto col quale una parte si obbliga a far godere all'altra una cosa mobile o immobile per un dato tempo, verso
un determinato corrispettivo” (art. 1571. do CC. It.).
686
CORDEIRO, António Menezes, «Da Natureza do Direito do Locatário», in ROA, ano 40.º, vol. I, 1980, pp.
61 e 62.
206
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Conforme o seu objecto seja um bem móvel ou imóvel, a locação designa-se por
“aluguer” ou por “arrendamento” (art. 1023.º do CC). Por sua vez, o arrendamento pode
revestir as modalidades de arrendamento urbano (arts. 1064.º e ss do CC) ou rústico, sendo
certo que o arrendamento urbano pode ter um fim habitacional ou não habitacional (art. 1067.º,
n.º 1, do CC).
Quanto à sua natureza, a doutrina, embora seja unânime em caracterizar a locação
como sendo um contrato de direito subjectivo privado, patrimonial e referente a bens materiais,
divide-se quanto à questão de saber se a locação constitui um direito de natureza obrigacional
(pessoal) ou real687. Com efeito, enquanto MENEZES CORDEIRO, entre outros, sustenta que o
direito do arrendatário constitui um direito de natureza real688, a doutrina maioritária sufraga o
entendimento de que o arrendamento constitui um contrato de natureza obrigacional, isto é, um
verdadeiro contrato intuitu personae689, embora a lei reconheça ao locatário, ainda que seja um
detentor precário, a possibilidade de fazer uso das acções possessórias690.
No que concerne à sua configuração jurídica, a locação implica a afectação jurídica da
coisa, bem como a sua coexistência com um direito que lhe serve de base, o qual, em regra, é o
direito de propriedade.
Entre as obrigações do locador emergentes do contrato de locação destaca-se a de
entregar ao locatário a coisa locada objecto do contrato [art. 1031.º, n.º1, a), do CC], bem como
o dever de lhe assegurar o gozo da coisa quanto aos fins a que esta se destina [art. 1031.º,
687
Quanto à natureza obrigacional ou pessoal do direito do locatário, vide COSTA, Mário Júlio de Almeida,
Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 359.
688
CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., pp. 671 a 673. Defendendo, também, a natureza
real do contrato de locação, vide CUNHA, Paulo, Direitos Reais, Lisboa, 1950, p.227 e COELHO, Luís Pinto, Direitos
Reais, Lisboa, 1954.
689
Como critérios determinantes para a qualificação da locação como um direito de natureza obrigacional,
destaca-se o facto de o seu regime jurídico se encontrar sistematizado no capítulo das obrigações e da existência de
um vínculo creditício entre o locador e o locatário.
690
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 30 de Junho de 1987, proc. 075080, in [Link], bem como o
Ac. do TRP, de 16 de Junho de 1994, proc. 618/92, in BMJ, 438.º, 1994, p. 575. Cfr., ainda, o Ac. do STJ, de 27
de Novembro de 1997, proc. 597/97 – 2.ª Secção, in [Link], segundo o qual “[O] arrendatário não é
possuidor, mas mero detentor, possuidor precário ou possuidor em nome de outrem, relativamente ao prédio
arrendado.”
207
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
n.º1, b), do CC]. Além do mais, nos termos do art. 1037.º do CC, o locador não pode praticar
actos que impeçam ou diminuam o gozo da coisa pelo locatário.
Por sua vez, de entre as obrigações que recaem sobre o locatário, salienta-se, para além
do dever de pagar a renda e o de restituir a coisa uma vez terminado o contrato, a obrigação de
avisar imediatamente o locador sempre que tenha conhecimento de que terceiros se arrogam
direitos em relação à coisa locada, desde que o facto seja desconhecido pelo locador [art.
1038.º, h), do CC]691.
691
Quanto à posição jurídica do locatário, esta traduz-se, fundamentalmente, no exercício de um “direito de
gozo sobre coisa alheia, acompanhado da obrigação de pagar uma renda” (cfr. CORDEIRO, António Menezes, «Da
Natureza do Direito do Locatário», ob. cit., p. 66.
692
Cfr. o Ac. do STJ, de 9 de Outubro de 2006, proc. 2868/06 – 1.ª secção, in [Link].
693
Quanto à tutela possessória que tem vindo a ser tradicionalmente adoptada relativamente à locação,
vide CORDEIRO, António Menezes, A Posse: Perspectivas Dogmáticas Actuais, ob. cit., p. 73.
694
Cfr. o Ac. STJ, de 30 de Junho de 1987, proc. 075080, in [Link]. Vide, na doutrina, ALMEIDA, L.
P Moitinho, Restituição de Posse e Ocupação de Imóveis, ob. cit., p. 63.
695
Cfr. CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 689.
208
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
De acordo com esta tese, a expressão “direitos reais” ínsita no art. 824.º, n.º 2, do CC
não abrange o contrato de arrendamento696. Nessa exacta medida, de acordo com esta
orientação, o direito de arrendamento não caduca com a venda executiva, já que não se
encontra abrangido pela previsão legal do art. 824.º, n.º 2, do CC, a qual apenas se refere aos
direitos reais697.
Em defesa desta tese esgrimem-se dois argumentos essenciais. Por um lado, a venda
executiva do bem locado não consta no art. 1051.º do CC como causa de caducidade do
contrato de arrendamento, sendo certo que a enumeração prevista nessa disposição legal
apresenta uma natureza taxativa.
696
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 21 de Novembro de 2006, proc, 0523508, in [Link].
697
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 19 de Abril de 1988, in BMJ, 376.º, p. 646: “ O contrato de
arrendamento é de ordem obrigacional e por isso não caduca nos termos do art. 824.º, n.º 2, do Cód. Civil, em
caso de venda do prédio, por via de arrematação, em processo de execução.”, o Ac. do TRL, de 2 de Novembro de
2000; o Ac. do STJ, de 19 de Janeiro de 2004, in [Link]; o Ac. do TRL, de 17 de Outubro de 2006, proc.
4866/2006-7, in [Link]: “O arrendamento de prédio onerado com hipoteca não caduca com a venda judicial
do imóvel, não comportando integração analógica a expressão “ direitos reais” que consta do artigo 824.º/2 do
Código Civil por forma a abranger o contrato de arrendamento cuja natureza é obrigacional.” Vide, também, no
mesmo sentido, o Ac. do STJ, de 20 de Setembro de 2005, in CJ¸ tomo III, 2005, p. 29: “O disposto no artigo
824º, nº 2 do CC, sobre a transmissão dos bens na venda em execução, não pode aplicar-se directamente ao
arrendamento, porque não previsto na sua letra; e não pode aplicar-se-lhe por analogia, por o não recomendar o
regime fortemente vinculístico da específica legislação que regula este instituto, designadamente no que toca à
estabilidade da posição do arrendatário. A hipoteca não gera, por si só, qualquer indisponibilidade para onerar ou
dar de arrendamento os bens hipotecados; o que gera indisponibilidade (para dispor ou dar de arrendamento) é a
penhora. A inoponibilidade do arrendamento à execução só existe se ele foi constituído depois da penhora e não
quando foi constituído depois da hipoteca mas antes da penhora.”
209
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Por outro lado, o contrato de arrendamento não caduca com a venda executiva por força
do disposto no art. 1057.º do CC698. Com efeito, de acordo com esta disposição legal, a locação
não se extingue em virtude da alienação da coisa locada,699 dado que, em caso de transmissão
da posição contratual do locador, a locação acompanha a transmissão do direito com base no
qual foi celebrado o contrato (princípio emptio non tollit locatio)700 701
, sendo certo que o art.
1057.º do CC não estabelece qualquer excepção em relação à venda executiva. O mesmo é
dizer que “o adquirente do direito com base no qual foi celebrado o contrato de locação ou de
arrendamento sucede nos direitos e obrigações do locador, sem prejuízo das regras de registo”702
703 704
, pelo que o adquirente sucede na qualidade de senhorio relativamente ao contrato de
arrendamento que incide sobre o bem alienado705.
698
MENEZES CORDEIRO considera que este é o argumento mais importante na defesa da teoria da
natureza real do contrato de locação, dado que o poder do locatário incide directamente sobre a coisa, a locação é
oponível erga omnes, o direito do locatário, por mero efeito da antiguidade, prevalece sobre o direito de propriedade
e existe um direito de sequela (CORDEIRO, António Menezes, «Da Natureza do Direito do Locatário», in ROA, ano
40.º, vol. I, 1980, p. 123).
699
No domínio do Código Civil de 1867, o art. 619.º determinava que “O contrato de arrendamento, cuja
data foi declarada em título autêntico ou autenticado, não se rescinde por morte do senhorio nem do arrendatário,
nem por transmissão da propriedade, quer por título universal, quer por título singular, salvo o que vai disposto nos
artigos subsequentes.” Vide, a este propósito, o § 572 do BGB, o qual consagra o princípio Kauft bricht nicht Miete.
700
No direito romano, tal como salienta MENEZES CORDEIRO, vigorava o princípio emptio tollit locatum, ao
abrigo do qual, em caso de venda da coisa locada, o adquirente não ficava de forma alguma obrigado pelo contrato
anteriormente celebrado, podendo expulsar o locatário, já que o direito deste não incidia sobre a coisa, mas tão só
sobre uma prestação do titular alienante (cfr. CORDEIRO, António Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 677).
701
Relativamente ao art. 1057.º do CC, HENRIQUE MESQUITA sustenta que esta norma deve ser
interpretada de forma restritiva, limitando-se a sua aplicação aos casos em que, à data da alienação do direito do
locador sobre a coisa locada, o locatário tenha iniciado já o gozo desta (MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e
Ónus Reais, Almedina, Coimbra, 1990, p. 141).
702
Este princípio foi adoptado de forma plena no art. 1743. do CC. Fr., segundo o qual “Si le bailleur vend
la chose louée, l'acquéreur ne peut expulser le fermier, le colon partiaire ou le locataire qui a un bail authentique ou
dont la date est certaine.”
703
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 311. Vide, no mesmo sentido, o Ac. do
TRL, de 2 de Novembro de 2000, in CJ, tomo V, 2000, p. 78: “A penhora do prédio arrendado não ofende o seu
gozo pelo arrendatário. Tanto a penhora, como a venda, em processo executivo do prédio arrendado são feitas na
situação de arrendado, mantendo-se o arrendamento. O contrato de arrendamento do imóvel penhorado, celebrado
em data anterior à penhora, e de que é arrendatário um terceiro, não frustra a expectativa dos credores e não cessa
com a sua venda em execução”. Vide, no mesmo sentido, RUI PINTO DUARTE, segundo o qual “quer se entenda
210
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
De acordo com esta orientação, o art. 824.º, n.º 2 do CC deve ser aplicado ao contrato
de arrendamento por analogia. Na verdade, como esta disposição legal apenas se refere a
“direitos reais”, esta tese defenda que esta norma deve abranger, por analogia, o contrato de
arrendamento708 709, situação que implica que o mesmo caduque com a venda executiva quando
(…) que o direito do arrendatário não tem carácter real, quer se entenda que o tem, o direito do arrendatário, à
primeira vista, sobrevive à venda judicial.”
704
Quanto a esta questão, o art. 1599. do CC. It. dispõe que “Il contratto di locazione è opponibile al terzo
acquirente, se ha data certa anteriore all'alienazione della cosa”. Porém, o Código Civil Italiano distingue duas
situações em que a locação não é oponível a terceiros. Na verdade, dispõe o segundo parágrafo desta disposição
legal, relativamente aos bens móveis, que “[L]a disposizione del comma precedente non si applica alla locazione di
beni mobili non iscritti in pubblici registri, se l'acquirente ne ha conseguito il possesso in buona fede”, e o terceiro
parágrafo, no que concerne aos bens imóveis, determina que “[L]e locazioni di beni immobili non trascritte non sono
opponibili al terzo acquirente, se non nei limiti di un novennio dall'inizio della locazione.”
705
Cfr., a este propósito, MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., p. 137, segundo
o qual, “em caso de transmissão da posição jurídica do locador sobre a coisa locada, a relação locativa subsiste,
sucedendo o adquirente daquela posição nos direitos e obrigações decorrentes, para o transmitente, do contrato de
locação.”
706
Cfr. o Ac. do STJ, de 19 de Janeiro de 2004, proc. 03A4098, in [Link].
707
Cfr., neste sentido, o Ac. do TRL, de 19 de Abril de 1988, in BMJ, 376.º, p. 646, bem como o Ac. do
TRL, de 15 de Maio de 1997, in CJ, tomo III, 1997, p. 87.
708
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 18 de Dezembro de 1997, proc. 98B863, in [Link], segundo
o qual “[O] artigo 1057, do Código Civil, não se aplica aos casos de venda judicial de imóvel hipotecado que foi
211
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
objecto de arrendamento por contrato, não registado, celebrado após o registo da hipoteca.
Tal arrendamento caduca, em tais circunstâncias, por força do n. 2, do artigo 824, do mesmo código, aplicável
analogicamente”. Cfr., no mesmo sentido, o Ac. do TRL, de 6 de Março de 2007, proc. 85047/2006 – 7, in
[Link].
709
Cfr. o Ac. do STJ, de 9 de Outubro de 2003, proc. 03B2762, in [Link]., segundo o qual “[N]a
expressão “direitos reais” constante do artigo 824º, nº 2 do CC, inclui-se, por analogia, o arrendamento, registado
ou não; assim, a venda judicial, em processo executivo, de um imóvel hipotecado faz caducar o arrendamento, não
registado, dessa coisa celebrado posteriormente, à constituição daquela garantia real.”
710
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 3 de Dezembro de 1998, in BMJ, 482.º, p. 219, o qual se
pronunciou-se no sentido do art. 1057.º do CC não ser aplicável ao regime previsto no art. 824.º do CC quanto à
venda judicial (vide, a este propósito, FERREIRA, Durval, Posse e Usucapião, ob. cit., p. 411).
212
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Todavia, o art. 824.º, n.º 2, do CC já não será aplicável ao arrendamento que tenha sido
constituído ou registado anteriormente a qualquer arresto, penhora ou garantia, caso em que
continuará a aplicar-se a regra geral prevista no art. 1057.º do CC711.
γ) POSIÇÃO ADOPTADA
711
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 19 de Janeiro de 2004, proc. 03A4098, in [Link], segundo o
qual a regra do art. 1057.º do CC é aplicável à locação quando tenha sido registada ou constituída antes da
penhora.
712
Esta disposição legal, tendo tido como seu mentor INOCÊNCIO GALVAO TELLES, autor do anteprojecto
do Código Civil, veio consagrar uma concepção obrigacional da locação, ao determinar que, com a transmissão da
coisa locada, transmite-se também a posição contratual do locador, ficando, assim, o locatário com o direito à
prestação pelo adquirente dos direitos sobre a coisa do mesmo modo em que se encontrava obrigado o anterior
locador. Deste modo, a manutenção da posição contratual do locatário deriva da transmissão da obrigação
contratual do senhorio para o adquirente em consequência da transferência do direito de propriedade sobre a coisa.
213
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
713
A este propósito, HENRIQUE MESQUITA destaca que, no arrendamento, existem normas que atribuem
ao locatário uma posição jurídica semelhante à que é conferida pela titularidade de um direito real. Com efeito,
assim que o arrendatário se acha investido no uso ou fruição da coisa, pode opor licitamente a sua posição jurídica,
não só a todo aquele que adquira um direito que com ela seja conflituante, como também em relação aos actos de
terceiro que perturbem ou ameacem a sua posição jurídica (MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus
Reais, ob. cit., pp. 175 e 176). Por sua vez, ANTUNES VARELA destaca o facto de que a relação locatícia, pese
embora constitua uma relação de natureza essencialmente obrigacional, não deixa de ser oponível ao terceiro
adquirente do direito de propriedade sobre a coisa arrendada. Na verdade, se é certo que, em regra, a relação
obrigacional apenas produz efeitos inter partes, porquanto se traduz no poder de exigir uma prestação em relação
ao devedor, a verdade é que, no caso do arrendamento, a lei considera excepcionalmente oponível a terceiros essa
relação de natureza obrigacional (VARELA, João de Matos Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. I, ob. cit., pp. 172
e 173).
714
A este propósito, determina o art. 2923. do CC. It., quanto à oponibilidade da locação em relação ao
adquirente em acção executiva, que “[L]e locazioni consentite da chi ha subito l'espropriazione sono opponibili
all'acquirente se hanno data certa anteriore al pignoramento, salvo che, trattandosi di beni mobili, l'acquirente ne
abbia conseguito il possesso in buona fede”. Por sua vez, relativamente aos bens imóveis, dispõe o segundo
parágrafo desta disposição legal que “[L]e locazioni immobiliari eccedenti i nove anni che non sono state trascritte
214
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Deste modo, importa verificar, caso a caso, em que condições poderá ou não o
arrendatário fazer uso dos embargos de terceiro com vista à tutela do seu direito.
Conforme resulta do disposto no art. 819.º do CC, são inoponíveis à execução os actos
de disposição, oneração ou arrendamento dos bens penhorados715.
Assim, estando em causa um contrato de arrendamento que tenha sido constituído ou
registado716 717 em momento posterior à constituição ou registo de arresto, penhora ou garantia, o
locatário não poderá deduzir procedentemente embargos de terceiro, dado que esse contrato é
inoponível em relação à execução718. Contudo, ainda que esse direito não seja oponível à
anteriormente al pignoramento non sono opponibili all'acquirente, se non nei limiti di un novennio dall'inizio della
locazione.”
715
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 16 de Setembro de 1998, proc. 5151/2008-7, in [Link]:
716
Nos termos do art. 2.º, n.º 1, m), do CRPred., encontra-se sujeito a registo o arrendamento celebrado
por mais de seis anos e as suas transmissões ou sublocações, exceptuado o arrendamento rural. No âmbito do
Código de Seabra, dispunha o art. 1622.º que estavam sujeitos a registo os arrendamentos excedentes a um ano,
se houvesse antecipação da renda, e os excedentes a quatro, se não a houvesse. Por sua vez, o arrendamento
sujeito a registo era qualificado como um “ónus real” pelo art. 949.º
717
Dispunha o art. 26.º do Decreto n.º 5411, de 17 de Abril, que os arrendamentos sujeitos a registo
subsistiam à transmissão do prédio por venda executiva desde que o respectivo registo tivesse sido efectuado
anteriormente ao registo do acto ou facto de que a transmissão resultou. Posteriormente, o art. 907.º do CPC 1939
passou a determinar que os bens alienados em execução eram transmitidos livres dos direitos reais que não
tivessem registo anterior ao de qualquer hipoteca, penhora ou arresto.
718
Deste modo, se um imóvel tiver sido vendido em sede executiva e se o adquirente tiver registado essa
aquisição, devem ser rejeitados os embargos de terceiro deduzidos por um pretenso arrendatário do imóvel em
sede de execução para entrega de coisa certa se esse arrendamento tiver sido constituído ou registado após a
penhora do imóvel. Na verdade, se é certo que o art. 819.º do CC passou a prever expressamente, com a redacção
que lhe foi dada pelo Decreto-Lei n.º 38/2003, de 8 de Março, que o arrendamento de bem penhorado é inoponível
215
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
penhora, nem por isso o arrendatário verá afastada a sua posse719 sobre a coisa penhorada (pelo
menos até à venda judicial), uma vez que o art. 839.º, n.º 1, b) do CPC, determina que se o
bem imóvel penhorado se encontrar arrendado, será nomeado fiel depositário o próprio
arrendatário.
Por sua vez, estando em causa um contrato de arrendamento sujeito a registo, mas que
não tenha sido registado, o direito do arrendatário, ainda que tenha sido constituído em
momento anterior à penhora, arresto ou garantia, será inoponível aos credores ou ao adquirente
do bem vendido em sede executiva, caducando, consequentemente, com a venda720.
Nos termos do art. 1057.º do CC, a locação é oponível ao adquirente da coisa locada ao
abrigo do princípio emptio non tollit locatio, motivo pelo qual quem adquire a coisa onerada com
o contrato de arrendamento deve suportar a existência desse direito.
Vale isto por dizer que, se o contrato de arrendamento tiver sido constituído ou registado
anteriormente à constituição ou registo de penhora, arresto ou garantia, esse direito é oponível à
execução e ao futuro adquirente do imóvel já que não se extingue com a venda executiva721.
Deste modo, sendo penhorado um bem imóvel sobre o qual incida um contrato de
arrendamento em execução movida apenas contra o proprietário, é lícito ao arrendatário deduzir
à execução, sempre se entendeu que essa ineficácia em relação à execução abrange os actos de disposição, de
constituição ou de oneração de bens penhorados, quer estejam em causa direitos reais de garantia ou de gozo,
quer se tratem de direitos pessoais de gozo (cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 18 de Dezembro de 2003, proc.
3906/03 – 6.ª secção, in [Link]).
719
No âmbito do arrendamento exige-se a verificação de uma posse causal, ou seja, deve fundar-se num
direito que lhe serve de base e respeitar a amplitude e o âmbito desse direito (vide, a este propósito, FERREIRA,
Durval, Posse e Usucapião, ob. cit., p. 394).
720
Cfr., nesse sentido, ASCENSÃO, José Oliveira, «Locação de bens dados em garantia», ob. cit., p. 350,
bem como GONÇALVES, Gabriel Órfão, «Temas da Acção Executiva», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 292, e
MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit., p. 190.
721
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 19 de Janeiro de 2004, proc. 03A4098, in [Link], segundo o
qual a regra do art. 1057.º do CC é aplicável à locação quando tenha sido registada ou constituída antes da
penhora.
216
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
embargos de terceiro a fim de proteger o seu direito de arrendamento, desde que este tenha
sido constituído ou registado (se sujeito a registo) antes da penhora, de forma a impedir a
consequente obrigação de desocupação do locado722.
Aliás, importa referir a este propósito que, existindo uma relação locatícia devidamente
publicitada — quer pela posse exercida pelo arrendatário, quer pelo inscrição do respectivo
registo — esse ónus encontra-se em condições de ser devidamente conhecido e publicitado em
sede executiva, motivo pelo qual o adquirente não pode invocar o desconhecimento da existência
do arrendamento e a consequente inoponibilidade em relação à aquisição em sede executiva723.
Nesta medida, se o arrendamento tiver sido constituído antes da penhora, é lícito ao
arrendatário, nos termos do art. 1057.º do CC, opor-se a tal acto mediante embargos de
terceiro724. De todo o modo, o arrendatário só tem interesse processual em deduzir embargos de
terceiro quando seja necessário impor o reconhecimento do seu direito tendo em vista a venda
executiva do bem725 726 727 ou quando esteja em causa um acto judicial em que se pretenda o seu
desapossamento efectivo da coisa arrendada728.
722
Cfr., nesse sentido, PALMA, Augusta Ferreira, Embargos de Terceiro, ob. cit., p. 68.
723
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 19 de Janeiro de 2004, proc. 03A4098, in [Link].
724
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 311: “(...) se a locação não dever ser
registada, releva a data da sua constituição e extingue-se a que for constituída após o arresto, a penhora ou
garantia, que por isso é oponível à execução - art. 819.º do CC”. Vide, no mesmo sentido, o Ac. do TRL, de 2 de
Novembro de 2000, in CJ, tomo V, 2000, p. 78: “A penhora do prédio arrendado não ofende o seu gozo pelo
arrendatário. Tanto a penhora, como a venda, em processo executivo do prédio arrendado são feitas na situação de
arrendado, mantendo-se o arrendamento. O contrato de arrendamento do imóvel penhorado, celebrado em data
anterior à penhora, e de que é arrendatário um terceiro, não frustra a expectativa dos credores e não cessa com a
sua venda em execução”. Vide, no mesmo sentido, RUI PINTO DUARTE, segundo o qual “quer se entenda (…) que
o direito do arrendatário não tem carácter real, quer se entenda que o tem, o direito do arrendatário, à primeira
vista, sobrevive à venda judicial.”
725
A este propósito, determina o art. 2923. do CC. It. quanto à oponibilidade da locação em relação ao
adquirente em acção executiva que “[L]e locazioni consentite da chi ha subito l'espropriazione sono opponibili
all'acquirente se hanno data certa anteriore al pignoramento, salvo che, trattandosi di beni mobili, l'acquirente ne
abbia conseguito il possesso in buona fede”. Por sua vez, relativamente aos bens imóveis, dispõe o segundo
parágrafo desta disposição legal que “[L]e locazioni immobiliari eccedenti i nove anni che non sono state trascritte
anteriormente al pignoramento non sono opponibili all'acquirente, se non nei limiti di un novennio dall'inizio della
locazione.”
726
Cfr., a este propósito, GONÇALVES, Gabriel Órfão, «Temas da Acção Executiva», in Themis, ano V, n.º 9,
2004, p. 299.
217
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Assim, se dos editais de venda do bem imóvel penhorado for ressalvada a menção de
que o bem se encontra arrendado, não poderá o adquirente opor o seu direito ao arrendatário ao
abrigo do princípio emptio non tollit locatio, pelo que o arrendatário, nesse caso, carecerá de
interesse processual para deduzir embargos de terceiro atento o facto da relação de
arrendamento não se extinguir com a venda executiva.
Dispõe o art. 824.º, n.º 2, do CC que os bens são transmitidos livres dos direitos reais
de garantia que os onerarem, bem como dos demais direitos que não tenham registo anterior ao
de qualquer arresto, penhora ou garantia, com excepção dos que, constituídos em data anterior,
produzam efeitos em relação a terceiros, independentemente de registo.
Deste modo, se o contrato de arrendamento tiver sido constituído ou registado depois da
oneração do bem imóvel com uma hipoteca, não pode ser aplicado o princípio emptio non tollit
locatio. Na verdade, se é certo que o art. 1057.º do CC determina que “o adquirente do direito
com base no qual foi celebrado o contrato sucede nos direitos e obrigações do locador”, não é
menos verdade que a parte final ressalva, expressamente, as situações derivadas do registo.
Assim, existindo um direito de hipoteca registado anteriormente ao arrendamento, e
independentemente da consideração da sua natureza obrigacional ou real — sendo certo que
não se afigura necessário recorrer a uma interpretação por analogia do art. 824.º, n.º 2, do CC
se se considerar a natureza real do contrato de arrendamento729 —, este direito caduca com a
727
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora do direito ao arrendamento e ao trespasse», in
Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, ob. cit., 2002, p. 599.
728
Vide, a este propósito, FERREIRA, Durval, Posse e Usucapião, ob. cit., p. 411.
729
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 26 de Junho de 2008, proc. 5180/2008-6, in [Link]: “ Em
processo executivo, a venda judicial de imóvel hipotecado faz caducar o arrendamento de tal bem, não registado,
celebrado após a constituição e registo da hipoteca, por na expressão «direitos reais» a que se reporta o art. 824º
do CC se dever incluir, por recurso à analogia, o aludido arrendamento.”
218
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
venda executiva por força do disposto nos arts. 824.º, n.º 2, e 1057.º, in fine, do CC730.
Ademais, importa salientar a necessidade de tutelar os interesses do credor hipotecário
porquanto a existência de um arrendamento sobre o bem hipotecado desvaloriza o seu valor em
caso de venda, diminuindo, consequentemente, a garantia do credor em resultado da hipoteca731.
Na verdade, a oneração do bem imóvel com a celebração posterior de um contrato de
arrendamento dificulta sobremaneira o ressarcimento do credor com garantia real sobre esse
bem. Além disso, a existência de um contrato de arrendamento implica a desvalorização
substancial do bem imóvel, não só pela possibilidade de renovação periódica sucessiva do
730
A este propósito importa referir que o Decreto n.º 5411, de 17-04-1919 (diploma que disciplinava, em
termos genéricos, o arrendamento, determinava no § 1º do art.º 36º que “os arrendamentos sujeitos a registo
subsistirão, se estiverem registados anteriormente ao registo do acto ou do facto de que a execução resultou.”
731
Cfr., neste sentido, o Ac. do TRC, de 30 de Março de 1993, in BMJ, 425.º, p. 634: “O arrendamento de
imóvel hipotecado constituído depois do registo da hipoteca caduca nos termos do art. 824.º, n.º 2, do Cód. Civil”, e
o Ac. do STJ, de 6 de Julho de 2000, in CJ, tomo II, 2000, p. 150: “A venda judicial, em processo executivo, de
fracção hipotecada faz caducar o seu arrendamento, não registado, quando posteriormente celebrado à constituição
e registo daquela hipoteca, por na expressão direitos reais mencionado no artigo 824º, nº 2 do CC se incluir, por
analogia, aquele arrendamento.” Vide, no mesmo sentido, o Ac. do STJ, de 27 de Maio de 2002, proc. 02A4264, in
[Link]: “Apesar de um manifesto intuito de proteger o bem da estabilidade da habitação, não pode entender-
se que o legislador houvesse querido deixar sem protecção os direitos dos credores titulares de garantias reais
registadas com anterioridade relativamente à celebração da invocada relação locatícia, pelo que os bens
arrematados em hasta pública por credor com garantia real anterior se transmitirão para o adquirente novo
proprietário livres e desembaraçados do ónus locatário, nos termos e para os efeitos do nº2 do artº 824º do Cód.
Civil vigente. Só por esta via interpretativa se obviará a que a oneração do prédio urbano através de celebração
posterior de contrato de arrendamento impossibilite ou pelo menos dificulte o ressarcimento completo do credor
com garantia real.”, bem como o Ac. do TRC, de 14 de Março de 2006, proc. 75/06, in [Link].
Em sentido contrário, cfr. o Ac do TRL, de 15 de Maio de 1997, in CJ, tomo III, 1997, p. 129: “O
arrendamento de prédio hipotecado celebrado pelo devedor/proprietário não caduca em caso de venda do referido
prédio, em execução. Nem o recurso ao princípio da adequação justifica, nem a via da interpretação teleológica ou
da interpretação analógica permitem que se faça valer para o arrendamento a solução legal prevista para os direitos
reais no art. 824.º, n.º 2, do CC.”, bem como o Ac. do TRL, de 16 de Setembro de 2008, proc. 5151/2008 – 7, in
[Link]: “Atento o disposto no art. 819º do CC, a celebração de um contrato de arrendamento depois de
efectuada e registada a penhora sobre um prédio, é ineficaz em relação à venda que venha a ser realizada no
âmbito da acção executiva. Já em face do disposto no art. 824º, nº 2, do CC, o simples facto de o bem vendido na
acção executiva estar onerado com hipoteca não determina a caducidade do arrendamento que tenha sido
celebrado depois do registo da hipoteca e antes do registo da penhora.”
219
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
732
Vide, a este propósito, o Ac. do STJ, de 6 de Julho de 2000, in CJ, tomo II, 2000, p. 150: “Embora o
legislador tivesse tido a preocupação, no âmbito do regime jurídico do arrendamento, de proteger o arrendatário no
que concerne à finalidade essencial de garantia da estabilidade da habitação, tal objectivo não pode porém
sobrepor-se a ponto de deixar sem protecção os direitos dos credores titulares de garantias reais registadas com
anterioridade relativamente à celebração da invocada relação locatária. De outro modo, estaria descoberto o
caminho para, através da celebração de tais contratos de arrendamento posteriores ao registo das hipotecas, de
impossibilitar ou dificultar o ressarcimento completo do credor com garantia real anteriormente registada, frustrando
não só a própria essência do crédito hipotecário, tal como é definido no art. 686° CC, como também prejudicando,
de forma drástica, a integridade do direito do novo proprietário. Solução que não foi, decerto, a querida pelo
legislador.” Vide, ainda, o Ac. do TRC, de 11 de Novembro de 2003, proc. 2380/03, in [Link]: “Estando em
causa a venda de coisa lacada em processo executivo, deve entender-se como inoponível ao comprador a relação
locativa constituída posteriormente à data de registo de qualquer arresto, penhora ou garantia real sobre esse bem.
A oneração de bem hipotecado é válida, mas semelhante desvalorização do prédio, em fase executiva e atenta a sua
finalidade, vai frustrar a posição do credor hipotecário – o art. 695.º do CC completa-se com o disposto no art.
824.º n.º 2 do mesmo diploma.”
733
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 3 de Dezembro de 1998, in BMJ, 482.º, p. 219: “A situação
inversa, ou seja, a manutenção do arrendamento acompanhando o imóvel vendido em execução, que a apelante
defende, desvirtuaria a garantia resultante da hipoteca, já que permitiria ao proprietário/executado o conluio com
terceiros e sem qualquer possibilidade de conhecimento do credor hipotecário, mormente nos casos em que, como
aqui sucede, o arrendamento não está sujeito a registo.”
734
A este propósito, LEBRE DE FREITAS sustenta que se o direito tiver sido constituído em momento
posterior à constituição (ou registo) da penhora ou em momento anterior à constituição (ou registo) da penhora mas
depois da constituição (ou registo) dum direito real precedente (hipoteca voluntária ou judicial, arresto, etc.) do
exequente, os bens devem ser transmitidos livres daquele direito real de gozo (FREITAS, Lebre de, A Acção
Executiva, ob. cit., p. 337).
220
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Nos termos do art. 28.º-A, n.º 3, do CPC, devem ser propostas contra ambos os
cônjuges as acções que tenham por objecto a casa de morada de família. Trata-se, com efeito,
de uma situação de litisconsórcio necessário legal, já que a lei impõe a presença de ambas as
partes na causa tendo em vista o interesse social da protecção da casa de família. Pode, no
entanto, suceder que a acção declarativa de despejo do arrendado tenha sido apenas intentada,
ainda que de forma indevida, contra apenas o cônjuge arrendatário. Ora, nessa situação em
concreto, coloca-se a questão controvertida de saber se o cônjuge do arrendatário que não tenha
735
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 30 de Março de 1993, in BMJ, 425º, p. 634: “O arrendamento de
imóvel hipotecado constituído depois da hipoteca caduca nos termos do art.º 824º nº2 do Código Civil”; o Ac. do
STJ, de 2 de Dezembro de 1998, in BMJ, 482.º, p. 219; o Ac. do STJ, de 6 de Julho de 2000, in CJ, tomo II, 2000,
p. 150: “A venda judicial em processo executivo da fracção hipotecada faz caducar o seu arrendamento, não
registado, quando posteriormente celebrado à constituição e registo daquela hipoteca, por na expressão «direitos
reais» constante do art. 824.º, n.º 2, do Código Civil se incluir, por analogia, aquele arrendamento”; e o Ac. do TRP,
de 22 de Janeiro de 2004, proc. 0336811, in [Link]., segundo o qual: “o arrendamento de imóvel hipotecado
constituído depois da hipoteca caduca nos termos do art. 824º nº 2 do CC”.
736
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 19 de Abril de 2007, proc. 8982/2006-8, in [Link]: “A
compra na venda judicial de um imóvel prevalece sobre qualquer venda anterior do mesmo bem, qualquer ónus ou
direito que a limite, como o invocado arrendamento, nos termos em que aparentemente se mostra alegado, mas
que não tenha sido registado ou, tendo-o, o registo seja posterior ao registo da respectiva penhora. Assim,
caducando o arrendamento invocado com a venda judicial, nos termos do art. 824, n.º 2 do Cód. Civil, e alegando o
exequente que o detentor da fracção vendida se recusa a entregá-la, deve ser ordenado o prosseguimento da
execução (cfr. art.º 901 do CPC) com a sua real e concreta entrega.”
221
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
737
Nos termos do art. 67.º, n.º 1, da CRP, a família tem direito à protecção da sociedade e do estado e à
efectivação de todas as condições que permitam a realização pessoal dos seus membros.
738
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 27 de Abril de 2004, proc. 992/04 – 6.ª secção, in [Link],
cujo sumário, pela sua relevância, se transcreve: “I - Em execução de mandado de despejo, o cônjuge não
arrendatário, que não foi demandado na acção declarativa, onde foi decretada a resolução do contrato de
arrendamento habitacional e ordenado o despejo, pode usar de embargos de terceiro contra tal execução. II - A
especial protecção da casa de morada de família impõe que se considere tão relevante a posição do cônjuge
arrendatário como a do não arrendatário. III - Trata-se da integração de uma lacuna da lei, exigida pelo espírito,
coerência e unidade do sistema jurídico, por não fazer sentido que este, depois de impor o dever de demandar
ambos os cônjuges vede uma reacção posterior do cônjuge não demandado contra a violação desse dever.” Vide,
no mesmo sentido, o Ac. do STJ, de 28 de Janeiro de 1997, proc. 737/96, in BMJ, 463 (1997), p. 508: “Não
havendo disposição legal que expressamente consagre ou repudie a defesa por embargos de terceiro ao cônjuge do
arrendatário, existe uma lacuna, a integrar de acordo com a norma que o intérprete criaria se tivesse que legislar no
espírito do sistema. Tratando-se, no caso, da especial protecção da casa de morada de família no âmbito do direito
(constitucional) à habitação — artigo 65.º da Constituição, e de protecção da família — artigo 67.º; são admissíveis
222
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
embargos de terceiro deduzidos na execução de despejo pelo cônjuge do arrendatário que não teve intervenção na
respectiva acção de despejo.”
739
Cfr. o Ac. do TRL, de 14 de Novembro de 1980, in CJ, tomo V, 1980, p. 10, o Ac. do TRL, de 14 de
Julho de 1987, proc. 024775, in [Link], o Ac. do TRL, de 20 de Outubro de 1987, in BMJ, 370.º, p. 605, o
Ac. do STJ, de 28 de Janeiro de 1997, in CJ, tomo V, 1997, p. 74, o Ac. do STJ, de 16 de Junho de 1997, in BMJ,
463.º, Ac. STJ, de 28 de Janeiro de 1997, proc. 96A737, in [Link] , o Ac. do TRP, de 03 de Dezembro de
2001, proc. 0151709, in [Link] e o Ac. do TRL, de 12 de Julho de 2004, proc. 2559/2004-7, in [Link],
segundo o qual sendo “deduzidos embargos de terceiro, por apenso à execução de mandado de despejo decorrente
de acção em que apenas foi demandado o cônjuge arrendatário e sendo invocado pela embargante que o locado
constitui casa de morada de família, não se justifica o indeferimento liminar da petição”. Vide, na doutrina, PALMA
RAMALHO, a qual sufraga a possibilidade de extensão da tutela possessória do arrendatário ao seu cônjuge ou a
outras pessoas que tenham um direito legal à transmissão do arrendamento (RAMALHO, Maria do Rosário Palma,
«Sobre o fundamento possessório dos embargos de terceiro deduzidos pelo locatário, parceiro pensador,
comodatário e depositário», ob. cit., p. 695). Em sentido contrário vide o Ac. do TRC, de 6 de Outubro de 1993, in
CJ, tomo IV, 1993, p. 52, o qual sustentou que o cônjuge do executado, não sendo proprietário do imóvel
penhorado — ainda que o mesmo seja a casa de morada de família — não pode deduzir embargos de terceiro.
740
A este propósito, TEIXEIRA DE SOUSA entendia que o cônjuge do arrendatário, sendo possuidor precário
ou um simples titular de um direito pessoal de gozo, não gozava de um direito incompatível com o direito do
senhorio à desocupação do locado, motivo pelo qual lhe estava vedada a possibilidade de dedução de embargos de
terceiro (SOUSA, Miguel Teixeira de, A Acção de Despejo, Lisboa, 1991, ob. cit., p. 81). Na jurisprudência, vide o
Ac. do TRC, de 6 de Outubro de 1993, in CJ, tomo IV, 1993, p. 53, o Ac. do TRL, de 14 de Dezembro de 1993,
proc. 0077281, in [Link], bem como o Ac. do TRL, de 5 de Junho de 1996, proc. 241/96, in BMJ, 458.º,
1996) p. 381, segundo o qual “[Q]uando o contrato de arrendamento tenha sido celebrado apenas por um dos
cônjuges, não é lícito ao outro cônjuge deduzir embargos de terceiro à execução duma acção de despejo antes
proposta apenas contra o cônjuge arrendatário. É que nos termos do n. 1 do art. 1110 do CC (e art. 83 do RAU ora
em vigor) a posição de arrendatário não se comunica ao cônjuge seja qual for o regime matrimonial.”
741
Cfr. o Ac. do STJ, de 30 de Outubro de 2001, proc. 750/01 – 2.ª secção, in [Link]: “A
circunstância de se viver em união de facto há mais de dois anos com o arrendatário não confere legitimidade para
deduzir embargos de terceiro com vista à defesa do locado.”
223
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Dispõe o art. 1060.º do CC que a locação diz-se sublocação, quando o locador a celebra
com base no direito de locatário que lhe advém de um precedente contrato locativo. Deste
modo, o contrato de sublocação consiste num contrato subordinado mediante o qual o
sublocador, protegido pela sua qualidade de locatário, proporciona a um terceiro o gozo da coisa
locada, mediante uma retribuição744.
No âmbito do subarrendamento importa referir que, nos termos do art. 1037.º do CC,
tal como sucede em relação ao arrendatário, também o subarrendatário tem o direito de recorrer
às acções possessórias se for privado da coisa ou perturbado no exercício dos seus direitos.
Todavia, o regime do subarrendamento não beneficia em igualdade de circunstâncias da mesma
protecção que é concedida ao arrendamento, dado que o subarrendamento caduca com a
extinção, por qualquer causa, do contrato de arrendamento, sem prejuízo da responsabilidade
742
Aplicável apenas aos contratos de arrendamento para habitação celebrados após 28 de Julho de 2006.
743
Cfr. o Ac. do TRL, de 14 de Julho de 1987, in CJ, tomo IV, 1987, p. 134. Contudo, devem ser julgados
improcedentes os embargos de terceiro instaurados por um dos membros da união de facto, já extinta, no confronto
da penhora do imóvel pertencente ao outro membro dessa união, com fundamento em se tratar da casa de morada
de família (Ac. do TRL, de 23 de Outubro de 2007, proc. 4103/2007, in [Link]).
744
MARTINEZ, Pedro Romano, Direito das Obrigações, 2.ª ed., Almedina, Coimbra, 2001, p. 212.
224
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
do sublocador para com o sublocatário, quando o motivo da extinção lhe seja imputável (art.
1089.º do CC).
A sublocação só produz efeitos em relação ao locador ou a terceiros a partir do seu
reconhecimento pelo locador ou da comunicação do locatário ao locador quanto à cedência do
gozo da coisa a outrem por contrato de sublocação, quando permitida ou autorizada, de acordo
com o regime que se encontra previsto no art. 1038.º do CC. Deste modo, mesmo que o
contrato de locação admita a possibilidade de celebração de um contrato de sublocação, o
locatário é obrigado a comunicar ao senhorio a constituição de uma relação jurídica de
sublocação, bem como os seus respectivos termos, no prazo de 15 dias. Se o locatário não tiver
observado a obrigação de comunicação da relação de sublocação no prazo supra referido, ainda
assim deve considerar-se o subarrendamento ratificado pelo senhorio se este reconhecer o
subarrendatário com tal qualidade, sendo certo que o reconhecimento permite suprir a falta de
autorização e de comunicação do contrato. Assim, só no caso de subarrendamento eficaz em
relação ao senhorio, é que o subarrendatário poderá recorrer a embargos de terceiro para
defender a sua posição745.
PALMA RAMALHO defende a possibilidade de extensão ao sublocatário da tutela
possessória por embargos de terceiro desde que a detenção corresponda a um interesse
tutelável, admitindo-se, consequentemente, a tutela possessória por analogia com as disposições
tutelares dos possuidores em nome alheio. O sublocatário terá uma tutela possessória
semelhante à do locatário, “desde que o título revele um interesse atendível do sujeito em
recorrer à tutela possessória”746. Assim, o sublocatário pode embargar de terceiro quando veja
sua posse em perigo na sequência da execução de um mandado de despejo, desde que, mesmo
que extinto o contrato de arrendamento, a sua resolução não tenha causa legítima, isto é, não
seja reconhecida pelo sistema jurídico747.
Por sua vez, de acordo com REMÉDIO MARQUES, em regra o sublocatário não pode
embargar de terceiro quando os embargos se fundarem exclusivamente na ofensa de um direito
incompatível, já que este é apenas titular do direito pessoal de gozo resultante da sua posição
745
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 3 de Junho de 1997 – 1.ª secção, in [Link].
746
RAMALHO, Maria do Rosário Palma, «Sobre o fundamento possessório dos embargos de terceiro
deduzidos pelo locatário, parceiro pensador, comodatário e depositário», ob. cit., p. 695.
747
Cfr. o Ac. do TRL, de 3 de Dezembro de 1987, in CJ, tomo V, 1987, p. 134.
225
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
jurídica. Contudo, o sublocatário poderá embargar de terceiro desde que alegue a ofensa da
posse da pessoa em nome de quem possui e desde que esta não seja executada748.
Quanto à questão de saber se o subarrendatário pode deduzir embargos de terceiro
contra a execução do despejo em caso de resolução do contrato de arrendamento, a
jurisprudência não apresenta uma posição unânime, sendo certo que não se afigura que ao
subarrendatário possa ser reconhecida semelhante possibilidade. Na verdade, ainda que o
subarrendatário venha deduzir embargos de terceiro, o senhorio poderá condená-los facilmente à
improcedência com base na invocação da extinção da relação de arrendamento ou na
inexistência de relações jurídicas estabelecidas entre o subarrendatário e o senhorio749.
Deste modo, se o subarrendamento tiver sido válida e eficazmente constituído e
reconhecido, é lícito ao subarrendatário recorrer aos embargos de terceiro nas mesmas
condições em que tal lhe é permitido relativamente ao arrendatário750. Em contrapartida, não
tendo o subarrendamento sido autorizado ou notificado ao senhorio, ou não se demonstrando
que este reconheceu a situação de subarrendamento ou o subarrendatário, devem os embargos
de terceiro ser julgados improcedentes751.
748
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., pp. 329 a
331.
749
Cfr. o Ac. do TRP, de 18 de Janeiro de 2000, in CJ, tomo I, 2000, p. 190.
750
Vide, nesse sentido, FERREIRA, Durval, Posse e Usucapião, ob. cit., p. 412, bem como o Ac. do TRL, de
27 de Maio de 1982, in CJ, tomo III, 1982, p. 110 e o Ac. do TRP, de 18 de Outubro de 1988, in BMJ, 380.º,
p. 537.
751
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 29 de Novembro de 1990, proc. 0014866, in [Link], bem
como o Ac. do STJ, de 27 de Novembro de 1997, proc. 97B597, in [Link]: “O subarrendatário ou cessionário
do local arrendado, que não foi reconhecido como tal pelo senhorio, ou cujo subarrendamento ou cessão não foram
comunicados ao senhorio e por este autorizados, não pode opor embargos de terceiro à execução do despejo desse
local.”
226
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
752
Diploma que veio alterar o regime jurídico do contrato de locação financeira.
753
Recaindo o contrato de locação financeira sobre coisas móveis, esse acto encontra-se sujeito a registo
nos termos do disposto no art. 2.º, n.º 1, l), do CRPred.
754
Relativamente à sua natureza jurídica, a doutrina e a jurisprudência têm vindo a preconizar quatro teses
distintas: a locação financeira enquanto contrato de locação, contrato de compra e venda a prestações com reserva
de propriedade, contrato misto de locação, compra e venda e mútuo, ou contrato atípico ou sui generis.
De acordo com a primeira tese, o contrato de leasing mais não é do que um contrato de locação. Ora, se
é certo que do contrato de leasing resulta um regime jurídico que o aproxima da locação, maxime em relação ao
dever de proporcionar o gozo da coisa locada mediante o pagamento de uma retribuição, não é menos verdade que
este contrato se afasta do regime da locação por prever, nomeadamente, a possibilidade de aquisição da coisa no
final do contrato.
No que concerne à segunda tese, o contrato de leasing será um contrato de compra e venda a prestações
com reserva de propriedade, dado que o locatário tem o dever de pagar periodicamente as rendas devidas pelo
financiamento, e pode adquirir a propriedade no final do contrato. No entanto, é precisamente nesta última
característica que as duas figuras se afastam. Na verdade, enquanto na reserva de propriedade o comprador
adquire a propriedade efectiva da coisa com o pagamento da totalidade do preço, por sua vez na locação existe
apenas um direito unilateral do locatário financeiro no sentido de poder adquirir, se assim o pretender, a coisa
locada no final do contrato,
Para a tese da natureza mista, o contrato de locação financeira caracteriza-se por reunir numa só figura
contratual elementos típicos do contrato de compra e venda, do contrato de mútuo e do contrato de locação. Na
verdade, no contrato de leasing existem elementos típicos do contrato de compra e venda (ou de empreitada) — o
locador obriga-se a adquirir ou a produzir a coisa solicitada de forme especificada pelo locatário —, do contrato de
locação — o locador obriga-se a conceder ao locatário o gozo do bem para os fins a que se destina mediante o
pagamento pelo locatário das rendas correspondentes —, e do contrato de mútuo — o locador financia ao locatário
os meios próprios para vir a adquirir a coisa, pelo que, sobre este, passará a recair a obrigação de restituir outro
tanto do mesmo género e qualidade.
227
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Em relação à tese da natureza atípica ou sui generis, o contrato de locação financeira, embora partilhe
elementos de cada um dos contratos referidos supra, apresenta uma estrutura autónoma própria (quanto à noção e
caracterização dos contratos atípicos, vide LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 210).
Nesta medida, seguindo de perto PESTANA DE VASCONCELOS, o contrato de locação financeira deve ser
qualificado como “um contrato «sui generis», de natureza complexa e original onde sobressai a função
financiamento, estruturada em uma locação do bem acompanha de uma promessa unilateral de venda (…) e onde
a manutenção da propriedade jurídica do bem pela sociedade locadora, é resultante da máxima garantia em função
do financiamento prestado.” (VASCONCELOS, Duarte Vieira Pestana de, «A locação financeira», ob. cit., p. 272).
755
Em termos nucleares, o contrato de locação financeira é “integrado pela obrigação de o locador ceder o
uso da coisa, durante um certo período; com o correlativo direito de exigir a entrega de uma contraprestação; e pelo
direito de o locatário exigir a entrega da coisa, usando-a de acordo com o fim a que se destina durante o período do
contrato; e o correlativo dever de entregar as rendas” (CAMPOS, Diogo Leite de, A Locação Financeira, Lex, Lisboa,
1994, p. 142).
756
Quanto às diversas modalidades de locação financeira, vide MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro
Fuzeta da, Garantias do Cumprimento, ob. cit., pp. 227 e 228. Vide, também, VASCONCELOS, Duarte Vieira
Pestana de, «A locação financeira», in ROA, ano 45.º, vol. I, 1985, segundo o qual o contrato de locação financeira
pode revestir duas modalidades essenciais: o operating leasing, o qual constitui um contrato pelo qual uma das
partes coloca o bem à disposição do locatário por um determinado período de tempo, prevendo ou não a opção de
compra no final, e que é normalmente acompanhado da prestação de serviços colaterais; e o financial lease, o qual
representa a modalidade do leasing regulado na ordem jurídica portuguesa, consistindo no contrato de natureza
eminentemente financeira pelo qual um bem é adquirido pela entidade locadora de acordo com as indicações e
solicitações expressas do locador – intervindo, consequentemente, neste contrato como financiadora –, ficando
estabelecida nesse contrato a possibilidade de aquisição do bem no termo do período contratual e em função do
seu valor residual.
757
VASCONCELOS, Duarte Vieira Pestana de, «A locação financeira», ob. cit., p. 268.
758
Cfr. MESQUITA, José Andrade de, Direitos Pessoais de Gozo, ob. cit., p. 39.
759
Nos termos do art. 1.º do Decreto-Lei n.º 149/95, de 24 de Julho, pertence ao locatário o direito de
escolher o bem em função das suas necessidades. No que concerne à responsabilidade contratual pelo
228
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
fornecimento do bem, impõe-se salientar que, se o bem for fornecido pelo locador, é sobre ele que recai a
responsabilidade perante o locatário pelo próprio bem. Por sua vez, se o bem tiver sido fornecido por um terceiro,
existe uma única vinculação jurídica entre o terceiro e o locatário, pelo que não pode ser assacada qualquer
responsabilidade em relação ao locador relativamente aos vícios de que a coisa enferme (cfr., nesse sentido,
CAMPOS, Diogo Leite de, «Locação Financeira (Leasing) e Locação», in ROA, ano 62.º, vol. III, 2002).
760
Cfr., nesse sentido, VASCONCELOS, Duarte Vieira Pestana de, «A locação financeira», in ROA, ano 45.º,
vol. I, 1985, p. 269.
229
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
uma opção de compra da coisa pelo seu valor residual (promessa unilateral de compra e venda)
a favor do locatário no final do contrato761 762.
761
CAMPOS, Diogo Leite de, «Locação Financeira (Leasing) e Locação», in ROA, Ano 62.º, vol. III, 2002.
Cfr., a este propósito, o Ac, do TRL, de 24 de Junho de 1999, in [Link], segundo o qual “[N]a
762
locação financeira o locador obriga-se a adquirir ou a mandar construir o bem a locar; no aluguer de longa duração
o locador só se obriga a proporcionar o gozo da coisa. Na locação financeira o locatário, no fim do contrato, tem o
direito potestativo de adquirir o bem locado pelo preço previamente estipulado; no aluguer tal não se verifica.”
763
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., pp. 329 a
331.
764
Cfr. o Ac. do TRC, de 15 de Outubro de 1996, in BMJ, 460.º, p. 819.
765
Cfr. o Ac. do TRP, de 4 de Dezembro de 2007, proc. 0724967, in [Link], o Ac. do STA, de 8 de
Novembro de 1995, proc. 19714, in BMJ, 451.º, 1995, p. 196, o Ac. do TRC, de 15 de Outubro de 1996, in CJ,
tomo IV, 1996, p. 39 e o Ac. do STA, de 12 de Abril de 2000, proc. 24848, in BMJ, 496.º, 2000, p. 299.
766
Cfr. o Ac. do TRP, de 7 de Outubro de 1996, proc. 965247, in [Link].
230
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Estando em causa uma locação financeira de natureza restitutiva (lease back) — caso
em que o proprietário de um bem transfere a propriedade para uma sociedade de locação
financeira, a qual, por sua vez, cede esse bem em regime de leasing ao anterior proprietário767
— é admissível a dedução de embargos de terceiro pela sociedade de locação financeira contra
a penhora desse bem em acção executiva movida contra o locatário, dado que se trata de um
direito que não se extingue com a venda executiva do bem, assumindo, consequentemente, uma
natureza incompatível e impeditiva quanto à realização dessa diligência.
6.3. COMODATO
Diz-se comodato768 o contrato gratuito pelo qual uma das partes entrega à outra certa
coisa, móvel ou imóvel, para que se sirva dela, com a obrigação de a restituir (art. 1129.º do
CC)769. Deste modo, com a celebração desse contrato, o comodatário adquire um direito pessoal
de gozo sobre a coisa comodatada, sendo certo que se trata de um contrato real e gratuito: real
porque a entrega da coisa é determinante para que o contrato se tenha por constituído; gratuito
já que, ao contrário do que se verifica no caso da locação, o comodatário não está obrigado ao
pagamento de qualquer retribuição pelo pagamento do uso da coisa.
Nos termos do art. 1133.º do CC, o comodante deve abster-se de praticar actos que
impeçam ou restrinjam o uso da coisa pelo comodatário, sendo certo que ao abrigo do disposto
no art. 1133.º, n.º 2, do CC, se o comodatário for privado dos seus direitos ou perturbado no
exercício deles, pode usar, mesmo contra o comodante, dos meios facultados ao possuidor nos
arts. 1276.º e seguintes do Código Civil. De todo o modo, não é lícito ao comodatário opor o seu
767
A este propósito cfr. MARTINEZ, Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento,
ob. cit., pp. 227 e 228.
768
Tal como salienta ALMEIDA COSTA, no domínio do Código Civil de 1867 o comodato surgia como uma
subespécie do contrato de empréstimo, então regulado no art. 1506.º, que adoptava a designação de comodato, se
o objecto emprestado não tivesse natureza fungível, ou mútuo, se tivesse por objecto uma coisa fungível COSTA,
Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 366).
769
No domínio do Código Civil Francês, o comodato surge configurado como o contrato pelo qual uma das
partes entrega uma coisa à outra para que esta se sirva dela, ficando o comodatário responsável pela sua devolução
depois de a utilizar (art. 1874 do CC Fr).
231
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
direito a um terceiro a quem o comodante tenha alienado a coisa comodatada antes do final do
contrato, já que a solução prevista no art. 1057.º do CC quanto à locação — emptio non tollit
locatio — apresenta um carácter excepcional que não permite a sua aplicação, ainda que
analógica, aos demais direitos pessoais de gozo770.
Quanto aos deveres que impendem sobre o comodatário, destaca-se a obrigação de
avisar imediatamente o comodante quando tiver conhecimento de que algum terceiro se arroga
direitos em relação à coisa, desde que tal facto não seja conhecido pelo comodante (art. 1135.º
do CC).
No que concerne aos direitos que resultam para o comodatário em consequência da
celebração do contrato de comodato, destacam-se o direito de gozar a coisa quando exista
convenção expressa nesse sentido (arts. 1129.º, 1131.º, 1132.º e 1135.º, todos do CC), o de
proporcionar o uso da coisa a um terceiro desde que o comodante assim o autorize (art. 1135.º
do CC) e o de possuir a coisa (art. 1133.º, n.º 2, do CC).
770
MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações e Ónus Reais, ob. cit., pp. 50 e 51.
771
Na vigência do Código Civil de 1867 entendia-se que estava vedada ao comodatário a possibilidade de
deduzir embargos de terceiro, dado que não possuía em nome próprio, pelo que não podia fazer valer-se de
qualquer um dos meios previstos na lei para defender a sua posse (cfr. FERREIRA, José Dias, Código Civil
Portuguez, vol. II, ob. cit., p. 6).
772
Cfr. o Ac. do TRC, de 1 de Março de 1994, in CJ, tomo II, 1994, p. 8.
232
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Porém, actualmente o art. 831.º, n.º 1, do CPC preceitua que “os bens do executado
são apreendidos ainda que, por qualquer título, se encontrem em poder de terceiro, sem
prejuízo, porém, dos direitos a que este seja lícito opor ao exequente”773.
Ora, a este propósito, REMÉDIO MARQUES sustenta que, tendo em conta a natureza do
vínculo obrigacional do qual resulta o direito do comodatário, este não pode opor com sucesso o
seu direito em sede de embargos de terceiro ao direito real de garantia constituído pela penhora,
salvo nos casos em que invoque uma posse em nome alheio relativamente a uma pessoa
diversa do executado774 775.
Por sua vez, de acordo com TEIXEIRA DE SOUSA, o comodatário não pode, em regra,
embargar de terceiro contra a diligência de penhora que atinja o bem possuído, mesmo que tal
direito tenha sido constituído antes da realização da penhora, porquanto ainda que o venha a
fazer, a exceptio dominii invocada pelo embargado prevalece forçosamente sobre a posse do
comodatário embargante776. Deste modo, se A comodata o bem a B e se C penhora esse bem
773
A este propósito sustenta LOPES DO REGO que “a mera detenção material dos bens a penhorar por
terceiro não obsta à realização da penhora. Porém, a admissibilidade ou o âmbito desta poderá ser afectada pela
invocação pelo terceiro de um direito que — sendo oponível ao exequente, segundo as regras do direito material —
prevalece sobre o direito deste a efectivar a garantia geral do crédito de que é titular” (REGO, Lopes do,
Comentários do Código de Processo Civil, vol. II, ob. cit., p. 62).
774
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, pp. 321 e 322.
775
A este propósito, SALVADOR DA COSTA sustenta que tendo em conta a posição jurídica do comodatário
bem como a configuração da acção executiva, não lhe é lícito deduzir embargos de terceiro, dado que a lei não
estabelece qualquer distinção quanto à qualidade em que o comodatário exerce a sua posse e fundamentalmente
porque se trata de um possuidor em nome precário (cfr. COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p.
207). Por sua vez, LOPES DO REGO defende que o comodatário, sendo tão só titular de um direito pessoal de gozo,
não possui um direito oponível ao exequente e susceptível de inviabilizar a penhora integral do bem, pelo que carece
de legitimidade para deduzir embargos de terceiro (REGO, Lopes do, Comentários do Código de Processo Civil, vol.
II, 2.ª ed., Almedina, 2004, p. 62). Do mesmo modo, RUI PINTO sustenta que o comodato, constituindo um direito
de crédito que confere o gozo da coisa, não é oponível a terceiros adquirentes, motivo pelo qual não permite a
dedução de embargos de terceiro (PINTO, Rui, «A Execução e terceiros – Em especial na penhora e na venda», ob.
cit., p. 261). Cfr., no mesmo sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora do direito ao arrendamento e ao
trespasse», ob. cit., p. 599.
776
Cfr., nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit.,
p. 83.
233
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
em execução movida contra A, B não poderá deduzir embargos de terceiro contra essa penhora
porquanto A e C poderão invocar procedentemente a exceptio dominii do bem penhorado777.
Ademais, B não poderá sustentar os embargos de terceiro com base na ofensa da sua
posse porquanto a lei processual determina que os bens do executado podem ser penhorados
ainda que se encontrem na posse de um terceiro.
O comodatário também não poderá deduzir embargos de terceiro para defesa da sua
posse quando esta puder ser extinta a qualquer momento pelo titular do direito de fundo, ou
seja, quando estiver em causa uma obrigação pura (art. 1137.º, n.º 2, do CC). Deste modo, se A
comodata x a B e fica convencionado que este deverá restituir a coisa logo que tal lhe seja
solicitado, B carece de legitimidade para deduzir embargos de terceiro contra a penhora da coisa
ou contra a acção executiva para entrega de coisa certa778.
Além disso, mesmo que tenha sido convencionado no contrato de comodato um dever
de restituição da coisa comodatada em determinado prazo certo, também em tal circunstância
não será lícito ao comodatário deduzir embargos de terceiro. Com efeito, conservando o
comodante a propriedade da coisa, este mantém o poder de disposição da coisa penhorada ou
apreendida judicialmente, mesmo que esta se encontre na posse de um terceiro, sendo certo
que o comodatário é tão só titular de um direito pessoal de gozo que não se revela, por si só,
suficientemente forte para obstar à venda executiva do bem comodatado.
Todavia, em determinadas situações específicas poderá vir a admitir-se a possibilidade
de o comodatário deduzir embargos de terceiro. Suponha-se, por exemplo, que A vem deduzir
embargos contra a penhora de um bem que comodatou ao executado B e que foi apreendido
pelo facto de se encontrar na posse do executado aquando da realização dessa diligência de
penhora. Nessa situação em concreto, o comodante (A) assume a qualidade de possuidor em
nome próprio enquanto o executado (B) é tão só um mero detentor ou um possuidor em nome
alheio dado que possui em nome do próprio embargante (art. 1252.º, n.º 1, do CC). Ora,
provando o embargante que celebrou com o executado um contrato de comodato e que esse
contrato é anterior à diligência de penhora da qual resultou a agressão do bem comodatado,
devem os embargos ser julgados procedentes com o consequente levantamento da penhora
777
Cfr. o Ac. do TRC, de 1 de Março de 1994, in CJ, tomo II, 1994, p. 8.
778
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 78.
234
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
dado que apenas estão sujeitos à penhora os bens do executado, independentemente da sua
qualidade perante o exequente779.
A dedução de embargos de terceiro será ainda de admitir se a diligência ofensiva da
posse não se destinar a preparar a venda executiva do bem sobre o qual recai tal direito, já que
em tal circunstância não se verifica o desapossamento do bem que se encontrar na posse do
comodatário (ex. arrolamento do bem)780.
Ademais, o comodatário poderá ainda deduzir embargos de terceiro quando o faça, não
em seu nome, mas em nome de um terceiro proprietário do bem que não intervenha como parte
na acção principal, assumindo, consequentemente, a posição de substituto processual em
relação a esse terceiro781. Assim, se A comodata um bem a B, e se C penhora esse bem em
execução movida contra D, B poderá deduzir embargos de terceiro com base na ofensa da sua
posse (sendo certo que no caso em concreto não poderá ser invocada a exceptio dominii sobre o
bem penhorado), ou, em sub-rogação de A, com fundamento da violação do direito de
propriedade em relação ao bem objecto de execução.
Por último, importa referir a possibilidade de o credor comodatário poder deduzir
embargos de terceiro em sede de acção executiva para entrega de coisa certa se, estando
obrigado a entregar a coisa, gozar do direito de retenção em virtude da realização de benfeitorias
no bem imóvel comodatado se estas não forem passíveis de levantamento sem detrimento delas
ou da fracção predial782.
779
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 30 de Outubro de 2003, proc. 0334119, in [Link]
780
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 312.
781
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit.,
p. 627.
782
Cfr. o Ac. do STJ, de 9 de Fevereiro de 2006, proc. 14/06 – 7.ª secção, in [Link]: “A entrega da
fracção predial à respectiva proprietária, a quem foi adjudicada em inventário de partilha de bens do casal,
ordenada em acção executiva para entrega de coisa certa, é incompatível com o direito de retenção da comodatária,
o que constitui fundamento da procedência dos embargos de terceiro em causa.”
235
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
6.4. DEPÓSITO
Conforme resulta do art. 1185.º do CC, depósito é o contrato pelo qual uma das partes
entrega à outra uma coisa, móvel ou imóvel, para que esta a guarde e a restitua quando for
exigida783. Para que este contrato se torne eficaz é necessário que a coisa seja entregue
efectivamente ao depositário.
Atenta a sua configuração jurídica, as obrigações do depositário reconduzem-se
fundamentalmente à de guardar a coisa depositada784 e de a restituir quando lhe for exigido, pelo
que, a não ser que o proprietário da coisa o autorize a fazer uso dela, o depositário carece de
um direito de gozo efectivo785. Tal como se verifica no domínio do contrato de comodato, o
depositário tem a obrigação de avisar imediatamente o depositante quando saiba de algum
perigo que a ameaça ou de que um terceiro se arroga direitos em relação a ela, desde que esse
facto seja ignorado pelo depositante (art. 1187.º do CC).
783
No mesmo sentido, os arts. 1915. e 1917. do CC Fr. determinam que o depósito é um contrato gratuito
pelo qual alguém recebe uma coisa móvel com a obrigação de a guardar e de a restituir em espécie.
784
Tal como salienta o legislador francês, o depositário tem a obrigação de guardar a coisa depositada com
o mesmo cuidado com que guarda as suas próprias coisas (art. 1927. do CC Fr.).
785
MESQUITA, José Andrade de, Direitos Pessoais de Gozo, Livraria Almedina, Coimbra, 1999, p. 21.
786
No domínio do Código de Seabra sustentava-se que o depositário não podia fazer valer-se de qualquer
um dos meios previstos na lei para defender a sua posse porque não possuía em seu nome (cfr. FERREIRA, José
Dias, Código Civil Portuguez, vol. II, ob. cit., p. 6).
236
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
coisa ou perturbado no exercício dos seus direitos, pode usar, mesmo contra o depositante, dos
meios possessórios previstos nos arts. 1276.º e seguintes do Código Civil787
Todavia, o depositário, além de ser possuidor em nome alheio, é apenas titular de um
direito de crédito, direito esse que deve ceder face ao direito real de garantia emergente da
penhora788. Nessa exacta medida, não sendo o depositário titular de um direito incompatível com
a penhora ou com a realização ou o âmbito da diligência, isto é, susceptível de obstar à venda
executiva da coisa comodatada, não lhe é lícito deduzir embargos de terceiro com vista à tutela
da sua posse ou do seu direito.
A este propósito, TEXEIRA DE SOUSA propõe a adopção do critério do interesse na
posse. Deste modo, se a posse não for interessada, ou seja, se não satisfaz qualquer
necessidade ou interesse do possuidor, não é admissível a sua defesa em sede de embargos de
terceiro porquanto a ordem jurídica não pode tutelar uma posse à qual não corresponde
qualquer interesse por parte do respectivo titular. Acresce ainda que, ao abrigo do disposto nos
arts. 1185.º e 1187.º, c), do CC, o depositário tem o dever de restituir a coisa depositada logo
que tal lhe seja exigido, quer pelo depositante, quer pelo tribunal (em sede de sub-rogação)789.
Todavia, se o depositário tiver uma posse interessada sobre a coisa depositada — e.g. porque
pode utilizar a coisa depositada mediante autorização do depositante (art. 1189.º do CC) —
então, nesse caso, a sua posse já merecerá a tutela do direito em sede de defesa mediante
embargos de terceiro790.
787
Quanto a esta questão, MENEZES CORDEIRO sustenta que o depositário só pode socorrer-se das
acções possessórias, não em nome próprio, mas em representação do próprio depositante. Na verdade, não tendo
o depositário a posse da coisa, este será tão só um mero detentor ao abrigo do disposto no art. 1252.º, c), do CC,
pelo que lhe estará vedada a possibilidade de socorrer-se desses meios de tutela possessória (cfr. CORDEIRO, A.
Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 705).
788
No mesmo sentido, REMÉDIO MARQUES sustenta que o depositário não pode embargar de terceiro se
fundar os embargos apenas no seu direito porquanto o direito real de garantia constituído a favor do exequente em
resultado da penhora do bem prevalece sobre o vínculo obrigacional do qual emerge o direito do depositário
(MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, pp. 321 e 322). Vide, também,
em defesa da mesma tese, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 626.
789
Cfr. PALMA, Augusta Ferreira, Embargos de Terceiro, ob. cit., p. 71.
790
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., pp. 78 e 79. Vide, no
mesmo sentido, CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 706.
237
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
791
Considerando que o depositário é titular de um direito pessoal de gozo, já que o depositário “não é
destinatário de uma permissão normativa de aproveitamento das qualidades de coisa corpórea, mas antes
destinatário de uma norma de obrigação que lhe impõe a conservação da coisa”, vide CORDEIRO, A. Menezes,
Direitos Reais, ob. cit., p. 704.
792
Cfr., no mesmo sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora do direito ao arrendamento e ao
trespasse», ob. cit., p. 599.
793
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit.,
p. 627.
238
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
Ao abrigo do disposto no art. 1121.º do CC, entende-se por parceira pecuária o contrato
pelo qual uma ou mais pessoas entregam a outra ou a outras um animal ou certo número deles,
para estes os criarem, pensarem e vigiarem, com o ajuste de repartirem entre si os lucros
futuros em certa proporção794 795. Trata-se, na verdade, de um contrato real porquanto só se torna
perfeito com a entrega dos animais pelo parceiro proprietário ao parceiro pensador796 797 798.
Deste modo, atenta a sua configuração jurídica, o parceiro pensador é titular de um
verdadeiro direito pessoal de gozo799 porquanto “acede imediatamente, pela sua actividade, a
determinada proporção das utilidades das coisas objecto do contrato”800.
Quanto aos direitos que resultam para o parceiro pensador deste contrato, destacam-se
o direito de gozo do animal — tanto no que se refere ao direito de uso da coisa (art. 1125.º, n.º
794
Na vigência do Código Civil de 1867, a parceria pecuária, de acordo com o disposto no art. 1304.º,
constituía uma subdivisão do contrato de parceria rural.
795
Vide, em sentido idêntico, o regime previsto no art. 2171.º do CC It.
796
Cfr. COSTA, Mário Júlio de Almeida, Noções Fundamentais de Direito Civil, ob. cit., p. 364.
797
A doutrina tem-se dividido quanto à caracterização do contrato de parceria pecuária, destacando-se,
fundamentalmente, três teses distintas: a parceria de pecuária seria um contrato de sociedade, uma vez que tanto o
proprietário dos animais como o parceiro pensador contribuiriam de igual forma e em sociedade com vista à
repartição dos lucros; a parceria pecuária seria um contrato de prestação de serviços, na medida em que o parceiro
pensador ficaria encarregue de pensar e cuidar os animais em troca de uma retribuição pelo serviço prestado; a
parceria pecuária seria uma modalidade do contrato de locação, já que o parceiro pensador teria o gozo da coisa e
ficaria onerado com a obrigação de pagar uma renda e de restituir a coisa no final desse contrato (cfr. CORDEIRO,
A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., pp. 627 e 628).
798
Trata-se, assim, de um contrato real quoad constitutionem, porquanto a sua formação depende da
entrega da coisa de que são objecto. Quanto à distinção entre contratos reais quoad constitutionem e contratos
consensuais, vide LEITÃO, Luís Menezes, Direito das Obrigações, vol. I, ob. cit., p. 193.
799
Configurando o direito do parceiro pensador como um verdadeiro direito real de gozo pelo facto de o
parceiro pensador ter a posse do animal, verificando-se, consequentemente, uma afectação jurídica de uma coisa
corpórea, vide CORDEIRO, A. Menezes, Direitos Reais, ob. cit., p. 699.
800
MESQUITA, Manuel Henrique, Obrigações Reais e Ónus Reais, ob. cit., p. 73.
239
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
1, do CC), como em relação ao direito de fruição, ainda que em certa proporção (art. 1121.º do
CC) — assim como a posse sobre o animal (art. 1125.º, n.º 2, do CC).
No que concerne às obrigações emergentes deste contrato, destaca-se o dever do
parceiro pensador empregar na guarda e tratamento dos animais o cuidado de um pensador
diligente (art. 1124.º do CC).
Por sua vez, sobre o parceiro proprietário incide a obrigação de assegurar a utilização
dos animais ao parceiro pensador (art. 1125.º, n.º 1, do CC).
801
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., pp. 321
e 322.
802
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit.,
p. 626.
240
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
diligência judicialmente ordenada porquanto o seu direito não se revela incompatível com a
finalidade ou a realização dessa diligência803.
Acresce a isto que ainda que o parceiro pensador seja titular de um direito de crédito
sobre o parceiro proprietário, não poderá fazê-lo valer como fundamento para obstar à penhora
ou à efectivação da diligência (art. 831.º, n.º 1, do CPC), não lhe restando outra alternativa que
não seja a de reclamar o respectivo crédito.
De todo o modo, será admissível a dedução de embargos de terceiro pelo parceiro
proprietário quando actue em substituição processual do proprietário dos animais que não seja
executado no processo principal de que resultou a diligência de penhora804.
7. SITUAÇÕES PARTICULARES
803
Cfr., no mesmo sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora do direito ao arrendamento e ao
trespasse», ob. cit., p. 599.
804
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «A penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit.,
p. 627.
805
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 25 de Maio de 1994, in BMJ, 437.º, p. 471: “A penhora de
créditos considera-se efectuada no momento em que o devedor é notificado de que o credito fica à ordem do
tribunal e não depois de produzir as declarações que tiver por convenientes e ter procedido ao depósito a que se
refere o art. 860.º do CPC.”
806
Cfr., nesse sentido, MARQUES, João Paulo Remédio, «A penhora de créditos na reforma processual de
2003, referência à penhora de depósitos bancários», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 143.
241
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
mesmo fica à ordem da execução, o terceiro passa a intervir no processo, ainda que não
assuma processualmente a posição de parte na causa807.
No regime anterior à reforma de 95/96 — em que os embargos de terceiro eram
juridicamente enquadrados como meio de reacção contra a penhora de um bem susceptível de
posse real e efectiva — a jurisprudência era maioritária em sufragar o entendimento segundo o
qual o direito de crédito era insusceptível de ser defendido em sede de embargos de terceiro808.
Sendo assim, não podia reagir-se através de embargos de terceiro contra, por exemplo, a
penhora de uma renda — enquanto direito de crédito, insusceptível de posse809 —, mas apenas
através da adequada acção declarativa810.
Actualmente, uma vez que o art. 351.º do CPC permite a dedução de embargos de
terceiro como meio de defesa da posse (seja ela jurídica ou efectiva) ou de qualquer direito
incompatível com o âmbito ou a finalidade da diligência, não restam dúvidas de que a lei permite
a dedução de embargos de terceiro contra a penhora de créditos. Assim, se A, em execução
movida contra B, penhora o crédito de que este é titular sobre C, este, uma vez notificado na
qualidade de devedor para vir declarar se o crédito existe, pode deduzir embargos de terceiro
contra essa penhora no caso de se arrogar ele próprio (e não o executado) verdadeiro credor do
crédito penhorado. Em contrapartida, se C negar a existência desse crédito já não poderá
deduzir embargos de terceiro porquanto não é possível defender por essa via um crédito cuja
existência não é reconhecida811.
Quid iuris, porém, se esse crédito tiver sido cedido a um terceiro antes da sua penhora?
Nesse caso, é conferida legitimidade ao terceiro para deduzir embargos de terceiro contra esse
807
Cfr., a este propósito, o art. 543. do CPC It., segundo o qual “[I]l pignoramento di crediti del debitore
verso terzi o di cose del debitore che sono in possesso di terzi, si esegue mediante atto notificato personalmente al
terzo e al debitore a norma degli articoli 137 e seguenti.” Deste modo, na legislação italiana, a penhora de créditos
abrange duas modalidades distintas, ou seja, a penhora de créditos do executado sobre o devedor e a penhora de
coisas moveis do devedor que se encontrem na posse de um terceiro.
808
Cfr. o Ac. do TRL, de 6 de Março de 1996, proc. 0000532, in [Link]: “Os direitos de crédito não
são defensáveis através das acções possessórias, nomeadamente por via de embargos de terceiro.”
809
Cfr. o Ac. do TRP, de 20 de Novembro de 1995, in BMJ, 451.º, p. 510: “Não pode haver posse de um
direito de crédito pois que, aqui, inexiste a actuação do seu titular «por forma correspondente ao exercício do direito
de propriedade ou de outro direito real», nos termos do preceituado no art. 1251.º do CC.”
810
Cfr. o Ac. do TRC, de 10 de Janeiro de 1989, in BMJ, 383.º, p. 622.
811
Cfr. o Ac. do TRL, de 3 de Julho de 2001, proc. 0013711, in [Link].
242
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
acto ofensivo do seu direito812, embora o embargado possa invocar em sede de contestação
qualquer causa de nulidade ou de anulabilidade da cessão do crédito, ou intentar uma acção de
impugnação pauliana813.
Dispõe o art. 857.º do CPC que a penhora de direitos incorporados em títulos de crédito
e valores mobiliários titulados814 não abrangidos pelo n.º 14 do artigo 861.º-A realiza-se mediante
a apreensão do título815, ordenando-se ainda, sempre que possível, o averbamento do ónus
resultante dessa penhora. Aplica-se, consequentemente, o princípio “posse vale título”
porquanto a apreensão é condição essencial para a efectivação da penhora816. Deste modo,
encontrando-se o título na posse do devedor ou de terceiro, o solicitador de execução deve
proceder à sua apreensão material efectiva, sem prejuízo dos direitos que o executado ou o
terceiro possam vir a opor à execução.
Os títulos de créditos que forem efectivamente apreendidos devem ser depositados em
instituições de crédito à ordem do agente de execução ou, nos casos em que as diligências de
execução são realizadas por oficial de justiça, na secretaria.
No que concerne à tutela dos interesses de terceiros que possam vir a ficar prejudicados
em consequência dessa penhora, na verdade nada impede que um terceiro venha opor
812
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRC, de 13 de Maio de 1999, in CJ, tomo III, 1999, p. 65, ao abrigo do
qual “[É] possível deduzir embargos de terceiro contra o arresto de créditos quando estes já tenham sido cedidos
pelo credor a uma outra sociedade, através do contrato de factoring.”
813
Cfr. MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., pp. 326
e 327.
814
Nos termos do art. 46.º, n.º 1, do CVM, os valores mobiliários, quanto à forma de representação,
podem ser titulados ou escriturais. Enquanto os valores mobiliários titulados são representados documentalmente
em suporte de papel, pelo contrário os escriturais são representados através de um registo em conta aberta num
intermediário financeiro
815
A este propósito, RUI PINTO salienta que a penhora, ao implicar a apreensão do título, traduz-se na
transferência efectiva do exercício dos poderes de facto para o agente de execução (PINTO, Rui, «Penhora e
alienação de outros direitos – Execução especializada sobre créditos e execução especializada sobre direitos não
creditícios na reforma da acção executiva», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 137).
816
Cfr. FREITAS, José Lebre de; MENDES, Armindo Ribeiro, Código de Processo Civil Anotado, vol. 3.º, ob.
cit., p. 453.
243
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Nos termos do art. 834.º, n.º 1, do CPC, a penhora deve começar pelos bens cujo valor
pecuniário seja de mais fácil realização (gradus executionis), sendo certo que os depósitos
bancários e os valores mobiliários constituem os dois tipos de bens que têm um valor mais
facilmente realizável818.
No que concerne ao regime jurídico da penhora de conta bancária, determina o art.
861.º-A do CPC que esta diligência deve ser efectuada, preferencialmente, através de
comunicação electrónica e mediante um despacho judicial prévio (art. 809.º do CPC), devendo
ser aplicadas as regras previstas para a penhora de créditos, isto é, a penhora deve ser
efectuada através de notificação directa às instituições de crédito819, com a menção expressa de
que o saldo existente na conta bancária, ou, estando em causa uma conta com mais do que um
817
Cfr. CORDEIRO, António Menezes, A Posse: Perspectivas Dogmáticas Actuais, ob. cit., p. 73, bem como
o Ac. do TRL, de 21 de Dezembro de 1982, in CJ, tomo VII, 1982, p. 143 e o Ac. do STJ, de 22 de Fevereiro de
1984, in BMJ, 334.º, 1984, p. 430.
818
Cfr., a este propósito, FREITAS, José Lebre de; MENDES, Armindo Ribeiro, Código de Processo Civil
Anotado, vol. 3.º, ob. cit., p. 394.
819
Cfr. o Ac. do TRE, de 4 de Novembro de 1997, in CJ, tomo V, 1997, p. 258: “(…) II – A penhora de
créditos deve considerar-se efectuada quando o devedor é dela notificado. III – As declarações a prestar pelo
devedor integram-se no formalismo da penhora de créditos, constituindo uma consequência necessária. IV – Sendo
o devedor um Banco, não se verifica uma derrogação ao segredo bancário quando são prestadas as declarações.”
244
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
titular, de que a quota-parte do executado nesse saldo fica cativa desde a data da notificação da
penhora e à ordem do solicitador de execução (art. 861.º-A, n.º 2, do CPC).
Sendo penhorada uma conta bancária com mais do que um titular, preceitua o art.
861.º-A, n.º 2, do CPC, que a penhora deve incidir sobre a respectiva quota-parte do executado
nessa conta comum, presumindo-se, iuris tantum, que as quotas dos diversos contitulares são
iguais.
A partir do momento em que ocorre a notificação da penhora, o saldo da conta bancária
fica cativo (art. 861.º-A, n.º 6, do CPC), sendo certo, no entanto, que esse saldo pode ser
afectado, quer por operações de crédito resultantes do lançamento de valores que tenham sido
entregues anteriormente, mas que ainda não se encontrem creditados na conta, quer por
operações de débito decorrentes da apresentação a pagamento, em data anterior à penhora, de
cheques ou realização de pagamentos cujas importâncias hajam sido efectivamente creditadas
aos respectivos beneficiários em data anterior à penhora (art. 861.º-A, n.º 10, do CPC).
Note-se, por outro lado, que qualquer acto que venha a afectar o saldo penhorado e que
não resulte das operações previstas no n.º 10 do art. 861.º-A do CPC é inoponível à execução
(e.g. levantamento de dinheiro cujo montante afecte o saldo cativo ou a realização de uma
transferência bancária para a conta de um terceiro em relação à execução).
Estando em causa a penhora de uma conta bancária em regime de contitularidade,
embora o legislador presuma que as quotas-partes dos respectivos titulares são iguais (pense-se,
e.g., na conta bancária detida em comum pelo casal), a verdade é que esse presunção pode ser
ilidida perante o tribunal, quer pelo executado em sede de oposição à penhora, quer pelo
terceiro através de embargos de terceiro caso alegue e prove que a sua quota-parte na conta é
superior, sendo dois os titulares, a metade do saldo nela existente820.
820
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 13 de Novembro de 2000, in CJ, tomo V, 2000, p. 188, bem
como MARQUES, João Paulo Remédio, «A penhora de créditos na reforma processual de 2003, referência à
penhora de depósitos bancários», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, pp. 146 e 147.
245
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
notificação desse facto à entidade responsável pela administração dos bens e com a advertência
expressa de que o direito do executado fica à ordem do solicitador de execução (art. 862.º, n.º 1,
do CPC).
A herança jacente representa um património autónomo, já que tem activo e passivo
próprio. Na verdade, caracterizando-se a herança pela sua autonomia patrimonial, os respectivos
bens que a compõem estão afectos ao cumprimento das obrigações da herança num duplo
sentido: os bens que compõem a herança só respondem pelo seu passivo, e pelas dívidas da
herança só reponde a massa patrimonial que a compõe821.
Por outro lado, até que se verifique a partilha pelos respectivos sucessores dos bens que
integram o acervo patrimonial da herança, estes bens conservam a sua unidade e autonomia,
constituindo parte integrante de um todo que não pode ser concretamente especificado a não
ser em termos jurídicos ou ideais.
Deste modo, sendo movida uma acção executiva contra algum dos contitulares de um
património autónomo, só pode ser penhorada a quota-parte “jurídica” do executado em relação
a esse património. Assim, se a penhora vier a recair sobre um bem especificado de uma
herança jacente em execução movida contra um dos herdeiros, é lícito à herança jacente (art.
6.º do CPC), ainda que representada pela cabeça-de-casal, deduzir embargos de terceiro contra
a penhora de um bem especificado da herança822, dado que a mesma veio ofender um
património que não responde na sua plenitude pelo pagamento da dívida exequenda823.
821
Cfr. COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., p. 785.
822
“Sendo penhorado o direito de acção a uma herança indivisa, o qual fora anteriormente alienado pelo
executado, não pode o adquirente deduzir embargos de terceiro por aquele direito ser insusceptível de posse” (Cfr.
o Ac. do TRP, de 4 de Fevereiro de 1988, in BMJ, 374.º, p. 537).
823
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 10 de Julho de 1908: “Nos embargos de terceiro não se pode
discutir se o embargante tinha ou não direito a herdar os bens penhorados” (GENTIL, Francisco, Dicionário do
Supremo Tribunal de Justiça, ob. cit., Lisboa, 1933, p. 461).
246
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
CPC)824. Assim, sendo penhorada uma quota social como se pertencesse ao executado e
pertencendo a mesma a um terceiro, este titular da quota pode deduzir embargos de terceiro
contra a diligência de penhora que a tenha ofendido, dado que, embora não tenha a posse física
da quota, detém, no entanto, a sua fruição825, além de ser titular de um direito incompatível com
a penhora. Sendo assim, é lícita a dedução de embargos de terceiro contra a penhora de uma
quota social826.
824
No mesmo sentido, vide FERREIRA, Durval, Posse e Usucapião, ob. cit., p. 25. Em sentido contrário,
vide a posição de ANSELMO DE CASTRO, segundo o qual não é admissível a dedução de embargos de terceiro em
relação à penhora de quotas de sociedade, já que se tratam de direitos imateriais, pelo que a sua usufruição não é
equivalente ao corpus exigido para a posse (CASTRO, Artur Anselmo de, A Acção Executiva Singular, Comum e
Especial, ob. cit., p. 350). Vide também quanto à inadmissibilidade da posse em relação a quotas societárias o Ac.
do STJ, de 10 de Novembro de 1992, in BMJ, 421.º, 1992, p. 456, bem como ALMEIDA, L. P Moitinho, Restituição
de Posse e Ocupação de Imóveis, ob. cit., p. 38.
825
Cfr. o Ac. do STJ, de 6 de Maio de 1998, proc. 395/08 – 1.ª secção, in [Link].
826
Cfr. o Ac. do TRP, de 19 de Fevereiro de 1987, in CJ, tomo I, 1987, p. 239, bem como o Ac. do STJ, de
14 de Janeiro de 1998, in CJ, 1998, p. 62.
827
DOMINGUES, Paulo Tarso, in “Revista de Direito e Economia”, Anos XVI a XIX, 1990 a 1993, p. 547.
828
Quanto à configuração do estabelecimento comercial enquanto unidade jurídica, vide cfr. COELHO,
Pinto, O Trespasse do Estabelecimento e a Transmissão das Letras, Coimbra, 1946, pp. 11 e 12.
247
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
829
ABREU, Jorge Manuel Coutinho de, Curso de Direito Comercial, vol. I, 3.ª ed., Almedina, 2002, p. 123.
830
Ac. do TRP, de 7 de Julho de 2003, proc. 0353598, in [Link].
831
Cfr. CARVALHO, Orlando de, «Introdução à Posse», in RLJ, 122.º, p. 107: “Passíveis de posse são todos
os bens passíveis de domínio, ou seja, e genericamente, todas as coisas. Na possessio rei, como sabemos, só o
eram as coisas corpóreas e simples – as unitae corporales – mas a sensibilidade dominial evoluiu, e hoje, salvo nos
direitos alemão e suíço, o conceito de coisa estende-se às coisas incorpóreas e complexas (mormente às coisas
compostas funcionais, em que se inclui o estabelecimento mercantil)”. Em sentido contrário, MOITINHO DE
ALMEIDA sustenta que o estabelecimento comercial não é susceptível de posse, já que esta não pode ser exercida
sobre coisas imateriais, embora admita a possibilidade da posse ser exercida sobre os bens, considerados concreta
e autonomamente, que constituem o estabelecimento comercial. No mesmo sentido, vide o Ac. do STJ, de 25 de
Junho de 1985, in BMJ, 348.º, p. 384, segundo o qual “consistindo o estabelecimento comercial numa unidade
jurídica que aglutina elementos corpóreos e incorpóreos afectos ao exercício da actividade mercantil, não sendo, por
isso, possível dissociar uma parte do todo, não pode o local onde se exerce essa actividade ser objecto de posse tal
como a define o art. 1251.º do CC.”
832
Cfr. FREITAS, José Lebre de, «A penhora do direito ao arrendamento e ao trespasse», ob. cit., p. 597.
248
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
arrendamento. Por outro lado, face à sua natureza, o legislador determina que a penhora do
estabelecimento comercial, enquanto universalidade, não afecta a penhora que anteriormente
tenha sido realizada sobre bens que o integrem, mas impede a penhora posterior desses bens
(art. 862.º-A, n.º 5, do CPC).
No que concerne aos efeitos da penhora do estabelecimento comercial, importa
considerar três situações distintas:
— Se não for deduzida qualquer oposição pelo exequente, o estabelecimento comercial
pode prosseguir o seu normal funcionamento, sob a gestão do próprio executado, podendo ser
nomeado um terceiro que ficará incumbido de fiscalizar a gestão do estabelecimento comercial;
— Caso o exequente se oponha a que a exploração do estabelecimento comercial
continue a ser efectuada pelo executado — nomeadamente por não oferecer a confiança
necessária para desempenhar diligentemente essa função —, então será designado um terceiro
que ficará incumbido de administrar o estabelecimento comercial com vista a permitir que a
empresa possa prosseguir com a sua normal actividade;
— Se à data da penhora já se encontrar paralisada ou dever ser suspensa a actividade
do estabelecimento comercial, deve ser designado um depositário para proceder à
administração dos bens que integram o integram.
833
A noção legal de “centro comercial” consta da Portaria n.º 424/85, de 5 de Julho. Por sua vez, o
Decreto-Lei n.º 190/89, de 6 de Junho, veio estabelecer a necessidade de autorização prévia quanto à localização
de grandes superfícies comerciais.
834
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 26 de Abril de 1984, in BMJ, 336.º, p. 406: “O arrendamento,
para comercio, de um local urbano nu, desprovido de instalações, utensílios e mercadorias, sem actividade
mercantil e clientela, isto e desprovido de quaisquer elementos integradores duma existente unidade económica
249
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
VARELA, a prestação que é realizada pela entidade organizadora do centro comercial extravasa
em muito o âmbito do contrato de arrendamento dado que o senhorio não se limita nessa sua
actividade a proporcionar ao arrendatário o gozo da coisa de forma temporária835.
Actualmente a jurisprudência e a doutrina têm sufragado de forma praticamente
unânime o entendimento de que o contrato celebrado entre uma sociedade gestora de um
centro comercial e um lojista que nele se instala não constitui um simples contrato de
arrendamento para o exercício do comércio nem tão pouco um simples contrato de locação de
estabelecimento comercial836. Na verdade, face à ausência de um regulamentação legal sobre
essa relação contratual, tem-se entendido que se trata um contrato inominado ou atípico837, que
se poderá designar por contrato de lojista em centro comercial, o qual é livremente regulado
pelas partes no domínio do exercício da sua autonomia contratual, não se encontrando,
consequentemente, vinculado ao regime do contrato de arrendamento838 839. Deste modo, o direito
à utilização da loja instalada no centro comercial não acompanha o direito de trespasse sem o
necessário consentimento da entidade gestora do centro comercial840 841.
250
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
empresarial; forma», in ROA, ano 54.º, vol. III, 1994, p. 836, o qual, embora apresentando algumas reservas, vem
propor que esta figura jurídica seja qualificada como se tratando de um “contrato de integração empresarial”, não
só em virtude da existência de uma relação eminentemente inter-empresarial, como também pelo facto de o
contrato pressupor “um todo mais vasto que a empresa singular que se localiza na loja, todo em que essa empresa
se vai integrar”.
841
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 27 de Outubro de 1998, proc. 834/98 - 1.ª secção, in
[Link]: “Este contrato rege-se, em princípio, pelo estipulado pelas partes, face ao princípio da liberdade
contratual e, depois, pelas regras dos contratos típicos afins onde houver analogia. É assim válida a cláusula
contratual na qual o lojista se obriga a não ceder, no todo ou em parte, os poderes que lhe foram concedidos nesse
contrato, sem autorização escrita da embargante, designadamente a cláusula que impede o trespasse do
estabelecimento a instalar pelo lojista no espaço sem que o organizador e contraparte o tenha autorizado. Também,
por isso, não é possível a penhora do estabelecimento por ele instalado na loja do centro comercial, uma vez que tal
penhora ofende a posse da embargante e proprietária da loja onde está instalado o estabelecimento da executada.”
842
Cfr. o Ac. do TRP, de 13 de Maio de 2003, proc. 883/2003-7, in [Link].
251
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
843
Nos termos do disposto no art. 424.º, n.º 1, do CC, no contrato com prestações recíprocas, qualquer
das partes tem a faculdade de transmitir a um terceiro a sua posição contratual, desde que o outro contraente,
antes ou depois da celebração do contrato, consinta na transmissão.
844
A este propósito importa não esquecer que, nos termos do disposto no art. 821.º, n.º 1, do CPC, só
estão sujeitos à execução os bens do executado que, nos termos da lei substantiva, respondam pela dívida
exequenda.
845
No sentido de não ser admissível a penhora de um estabelecimento comercial que se encontre
integrado num centro comercial ao abrigo de um contrato atípico ou inominado, vide o Ac. do STJ, de 20 de Janeiro
de 1998, proc. 97A949, in [Link]: “O contrato inominado de instalação de lojista tem expressão por si próprio
enquanto integrado no centro comercial mas, por não ser possível impor o seu trespasse sem autorização da outra
parte, não constitui só por si garantia de pagamento dos seus credores mediante execução do respectivo
património, o que inviabiliza o acto da penhora.”
846
Cfr. o Ac. do TRP, de 28 de Abril de 1987, in BMJ, 366.º, p. 567. Quanto ao facto de o estabelecimento
comercial ser susceptível de posse, vide o Ac. do TRL, de 30 de Outubro de 1990, in CJ, 1990, p. 162 e o Ac. do
mesmo tribunal, de 9 de Junho de 1994, in CJ, 1994, p. 115. A este propósito, o Tribunal da Relação do Porto, por
252
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
acórdão de 1 de Fevereiro de 1990, sustentou que sendo o estabelecimento comercial susceptível de tutela
possessória, é admissível a dedução de embargos de terceiro contra uma diligência judicial ofensiva (Ac. do TRP, de
1 de Fevereiro de 1990, in CJ, tomo I, 1990, p. 238. Vide, no mesmo sentido, o Ac. do TRL, de 8 de Junho de
1994, in CJ, tomo III, 1994, p. 115, e o Ac. do TRL, de 3 de Outubro de 1996, in CJ, tomo IV, 1996, p. 122).
Contudo, nem sempre a jurisprudência admitiu a tutela possessória do estabelecimento comercial. No sentido de
não ser admissível a dedução de embargos de terceiro face à penhora do estabelecimento comercial pelo facto de o
mesmo não ser susceptível de posse, vide o Ac. do STJ, de 6 de Julho de 1993, proc. 084042, in [Link]: “O
estabelecimento comercial é uma unidade jurídica e, como tal, insusceptível de posse; por isso que não têm
viabilidade os embargos de terceiro, quando baseados na pretensa posse do mesmo”, bem como o Ac. STJ, de 8
de Março de 1994, proc. 084886, in [Link]: “I – Constituindo o estabelecimento comercial uma unidade
jurídica que aglutina elementos corpóreos e incorpóreos afectos ao exercício da actividade mercantil e que, por isso,
não é possível dissociar de todo, não pode o respectivo local onde se exerce essa actividade ser objecto de posse tal
como a define o artigo 1251 do Código Civil. II – Assim, é vedado o recurso aos meios possessórios para obter a
restituição da posse.”
Quanto à variação das correntes jurisprudenciais sobre esta temática, vide, por todos, CORDEIRO, António
Menezes, A Posse: Perspectivas Dogmáticas Actuais, ob. cit., p. 80.
847
Cfr. o Ac. do TRL, de 8 de Março de 1994, proc. 0070021, in [Link], o Ac. do TRL, de 3 de
Outubro de 1996, proc. 0013162, in [Link], e o Ac. do TRP, de 7 de Julho de 2003, proc. 0353598, in
[Link]: “Aquele que vê a sua posse ameaçada pode, preventivamente, lançar mão de embargos de terceiros.”
848
Cfr. COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 208.
849
Cfr. o Ac. do TRC, de 6 de Novembro de 1990, in CJ, tomo V, 1990, p. 38.
253
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
850
O trespasse compreende todos os móveis e utensílios que compõem o estabelecimento comercial, o
alvará e demais licenças e o direito ao respectivo contrato de arrendamento (cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 11
de Maio de 1995, proc. 086186, in [Link]).
851
Cfr. o Ac. do STJ, de 3 de Junho de 1992, proc. 080762, in [Link]: “São de rejeitar os embargos
de terceiro intentados pelo senhorio contra a penhora do direito ao trespasse e arrendamento, por, além do mais,
não ter sido ofendida a posse do senhorio.” Vide, no mesmo sentido, o Ac. do TRP, de 12 de Janeiro de 1999, proc.
9821196, in [Link]: “I - A penhora do direito ao trespasse e arrendamento em execução movida contra o
inquilino, deixa invocada a posição do senhorio, em nada a afectando. II - Por isso, são de indeferir liminarmente os
embargos de terceiro deduzidos pelo senhorio de local arrendado que faz parte do estabelecimento comercial
pertencente ao inquilino, entretanto penhorado.”
852
Vide, nesse sentido, MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de
Terceiro, ob. cit., p. 248, bem como o parecer da PGR, n.º 110/84, de 25 de Julho de 1985, in BMJ, 352.º, p. 95.
Quanto ao facto da penhora do estabelecimento comercial como unidade jurídica conter o direito ao trespasse do
estabelecimento e pode conter o direito ao arrendamento do local onde está instalado, caso se trate de
estabelecimento em prédio arrendado, vide ainda o Ac. do STJ, de 3 de Junho de 1992, proc. 080762, in
[Link].
853
A notificação ao senhorio da penhora do direito ao arrendamento apresenta um verdadeiro efeito
constitutivo quanto à penhora da posição jurídica do arrendatário do local onde funciona o estabelecimento
comercial (Ac. do TRC, de 14 de Outubro de 2008, proc. 5174/03.6, in [Link]).
254
Direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência
255
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
256
Actos que não admitem a dedução de embargos de terceiro
SECÇÃO III
ACTOS QUE NÃO ADMITEM A DEDUÇÃO DE EMBARGOS DE TERCEIRO
854
Quanto à natureza mista do processo de falência, o qual reúne caracteres próprios do processo
declarativo e do processo executivo, vide FREITAS, José Lebre de, «Apreensão, restituição, separação e venda de
bens no processo de falência», in Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, ob. cit., p. 656. Na verdade, se e certo
que o processo de falência se inicia com uma fase declarativa destinada a apreciar o requerimento de falência e a
eventual oposição que contra ele venha a ser deduzida, não é menos verdade que este processo, uma vez
decretada a falência, encerra diligências de natureza executiva destinadas à apreensão dos bens que integrarão a
massa falida com vista à venda posterior e respectivo pagamento dos créditos dos credores reclamantes em
execução universal.
257
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
insolvente, ainda que estes tenham sido arrestados, penhorados, ou por qualquer forma
apreendidos ou detidos, ou o produto da venda se os bens já tiverem sido vendidos.
A questão que se coloca é, assim, a de saber se o terceiro que vê um bem que lhe
pertence ser indevidamente integrado na massa falida poderá recorrer ao incidente de embargos
de terceiro para tutelar o seu direito e obstar à inclusão desse bem naquele património.
Embora, em princípio, a resposta devesse ser afirmativa, já que se trata de uma
diligência judicial de apreensão de bens que se revela ofensiva da sua posse e/ou do seu direito
de propriedade, a verdade é que, como vimos supra, o legislador consagrou expressamente a
impossibilidade de recurso a tal incidente (art. 351.º, n.º 2, do CPC)855. Deste modo, se um
terceiro se sentir lesado na sua posse ou propriedade em consequência da apreensão de bens
efectivada pelo administrador de insolvência na sequência de uma sentença declaratória de
insolvência que tenha decretado a apreensão dos bens do insolvente [art. 36.º, n.º 1, g), do
CIRE], deverá recorrer aos procedimentos destinados à restituição e separação de bens que se
encontram previstos no art. 141.º e ss do CIRE856. Na verdade, esta disposição legal prevê a
possibilidade de ser deduzida:
a) Reclamação e verificação do direito de restituição, a seus donos, dos bens
apreendidos para a massa insolvente, mas de que o insolvente fosse mero possuidor em nome
alheio;
b) Reclamação e verificação do direito que tenha o cônjuge a separar da massa
insolvente os seus bens próprios e a sua meação nos bens comuns;
c) Reclamação destinada a separar da massa os bens de terceiro indevidamente
apreendidos e quaisquer outros bens, dos quais o insolvente não tenha a plena e exclusiva
propriedade, ou sejam estranhos à insolvência ou insusceptíveis de apreensão para a massa.
Deste modo, o art. 351.º, n.º 2, do CPC configura uma norma de natureza especial, e
não excepcional, já que ela “deixa a porta aberta para a defesa de terceiros ser regulada em
diploma próprio do instituto falimentar. Pretendeu-se com ela acautelar a especificidade daquele
instituto e que a restituição e separação de bens tivesse lugar em sede própria e a sua
855
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 21 de Maio de 2007, proc. 0752000, in [Link].
856
Cfr. o Ac. do TRL, de 19 de Outubro de 2006, proc. 7566/2006-8, in [Link].
258
Actos que não admitem a dedução de embargos de terceiro
857
Ac. do STJ, de 23 de Abril de 2002, proc. 02A818, in [Link]: “A reclamação e a reivindicação são
os meios próprios para se fazer valer o direito real de gozo sobre os bens apreendidos em processo de falência e a
lei não prevê — porque não quis concedê-la — qualquer providência cautelar a instaurar por quem se arroga ou virá
a arrogar-se como reclamante ou reivindicante. Nem tinha a lei que tratar como igual aquilo que é desigual nem
devia descurar quer o carácter do processo de falência quer o equilíbrio entre os vários interesses que aí se
debatem. Desnecessária é qualquer outra fundamentação pois a expendida pela embargante não o exige.”
858
A questão colocou-se recentemente num Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 21 de Maio de
2007. Uma sociedade comercial veio intentar contra a massa falida de uma outra sociedade comercial embargos de
terceiro preventivos face ao receio de o administrador de insolência da requerida apreender as máquinas
pertencentes à insolvente, mas que se encontravam na posse da requerente, inibindo-a, consequentemente, de
continuar o seu processo produtivo. Face ao indeferimento liminar de tal providência com fundamento no art. 351.º,
n.º 2, do CPC, a requerente interpôs recurso de tal despacho, sustentando, fundamentalmente, que os embargos de
terceiro com finalidade preventiva e repressiva têm regimes distintos, razão pela qual o disposto no art. 351.º, n.º 2,
do CPC, atenta a sua sistematização e o facto de prever a apreensão efectiva dos bens, apenas seria aplicável aos
embargos com finalidade repressiva.
259
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Ora, o art. 351º, n.º 2, do CPC não distingue entre embargos de terceiro com função
repressiva e preventiva, sendo certo que certamente o legislador o saberia dizer, caso assim o
entendesse. Assim, carece por completo de fundamento o argumento de que o regime do art.
351.º, n.º 2, do CPC apenas se aplicaria aos embargos de terceiro com finalidade repressiva, já
que, para além de não existir qualquer fundamento legal para tal interpretação, a unidade do
sistema jurídico impõe a necessidade de rejeição de semelhante raciocínio859 860.
Deste modo, o art. 351.º, n.º 2, do CPC aplica-se tanto aos embargos de natureza
repressiva, como aos de natureza preventiva861.
Nos termos do art. 109.º do Código Penal, são declarados perdidos a favor do Estado os
objectos que tiverem servido ou estivessem destinados a servir para a prática de um facto ilícito
típico, ou que por este tiverem sido produzidos, quando, pela sua natureza ou pelas
circunstâncias do caso, puserem em perigo a segurança das pessoas, a moral ou a ordem
públicas, ou oferecerem sério risco de ser utilizados para o cometimento de novos factos ilícitos
típicos.
Ora, verificando-se a apreensão de bens que tenham sido instrumento, produto ou
objecto de crimes, não é lícito ao terceiro proprietário desses bens ou titular de outro direito real
ou pessoal de gozo deduzir embargos de terceiro, dado que tal incidente se mostra incompatível
859
A este propósito, o Tribunal Constitucional considerou não ser inconstitucional a norma constante do
art. 359.º do CPC (relativamente aos embargos preventivos), conjugada com o art. 351.º, n.º 2, do CPC, quando
interpretada no sentido de não ser admissível a dedução de embargos de terceiro, com natureza preventiva, no
processo de recuperação de empresa e de falência (Ac. do TC n.º 63/03, in DR, 2ª Série, de 22 de Abril de 2003).
860
Vide, a este propósito, o Ac. do TRP, de 20 de Fevereiro de 2003, proc. 0330461, in [Link]: “Em
processo de recuperação de empresa e de falência no qual seja decretada a falência e ordenada a apreensão de
bens e eventual decisão do encerramento do estabelecimento da falida, a reacção contra tal apreensão e fecho do
estabelecimento aludido não pode efectivar-se através de embargos de terceiro, ainda que com força preventiva,
antes deve recorrer-se aos meios previstos no Código dos Processos Especiais de Recuperação de Empresas e de
Falência.”
861
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 23 de Abril de 2002, proc. 02A818, in [Link], o Ac. do TRP,
de 16 de Dezembro de 2004, proc. 0436633, in [Link], e o Ac. do TRP, de 21 de Maio de 2007, proc.
0000721, in [Link].
260
Actos que não admitem a dedução de embargos de terceiro
com os princípios do processo penal e com os fins por ele visados, nomeadamente no que
concerne às finalidades e aos objectivos da tutela penal862.
862
Cfr. COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 214. Vide também o Ac. do TRC, de 16
de Fevereiro de 1993, in CJ, tomo I, 1993, p. 45.
261
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
262
Meios conservatórios de garantia patrimonial contra embargos de terceiro com finalidade ilícita
SECÇAO IV
MEIOS CONSERVATÓRIOS DE GARANTIA PATRIMONIAL
CONTRA EMBARGOS DE TERCEIRO COM FINALIDADE ILÍCITA
1. RAZÃO DE ORDEM
863
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 24 de Setembro de 2002, proc. 2182/02 – 1.ª secção, in
[Link], onde se julgou que actuou com abuso de direito (venire contra factum proprium) um credor que, em
execução, adquiriu bens do executado, a pedido deste, não para satisfazer o seu crédito mas para impedir que um
outro credor, exequente noutro processo, pudesse ver liquidado o respectivo crédito, e que na execução instaurada
por este outro credor vem deduzir embargos de terceiro contra a penhora dos bens que adquiriu. A ilegitimidade do
263
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Ora, face a essa circunstância, o legislador veio estabelecer mecanismos legais com
vista à conservação da garantia patrimonial do crédito e à protecção dos interesses patrimoniais
dos credores face a actos de disposição fraudulenta de bens do devedor. Reportando-nos ao
objecto do presente estudo, importa fazer uma breve referência aos regimes da declaração de
nulidade e da impugnação pauliana.
2. DECLARAÇÃO DE NULIDADE
Dispõe o art. 605.º, n.º 1, do CC, que os credores têm legitimidade para invocar a
nulidade dos actos praticados pelo devedor, quer estes sejam anteriores, quer posteriores à
constituição do crédito. Para o efeito, é imprescindível que os credores tenham interesse na
declaração de nulidade, não sendo necessário que o acto produza ou agrave a insolvência do
devedor. Deste modo, é suficiente que o credor tenha um interesse efectivo na declaração de
nulidade desse negócio jurídico, sendo bastante a prova de que esse acto de disposição ou
oneração de bens representou uma maior dificuldade quanto às condições de solvabilidade da
empresa. Além disso, ao contrário do que sucede no regime jurídico da impugnação pauliana,
em que um dos seus requisitos assenta na anterioridade do crédito, no caso da nulidade por
simulação, o crédito sobre o devedor pode ser anterior ou posterior a esse acto de alienação.
Por outro lado, resulta do n.º 2 da referida disposição legal que essa declaração de
nulidade tem um efeito universal, porquanto aproveita não só ao credor que tenha invocado a
nulidade, como também aos demais credores do devedor.
Deste modo, se o devedor realizar um acto de disposição de bens que se encontre
viciado por nulidade (e.g., por violação da forma legalmente prevista para o acto jurídico ou por
falta da vontade), o credor tem o direito de arguir judicialmente a nulidade desse acto. O caso
paradigmático e com maior relevância em sede de embargos de terceiro prende-se com a
exercício do direito a embargar impede-o, in casu, de ver proceder o seu pedido de tutela do direito de propriedade,
consequência que se assemelha à eficácia de uma impugnação pauliana. Vide, também, o Ac. do STJ, de 12 de
Novembro de 2002, proc. 3337/02 – 6.ª secção, in [Link], no qual se considerou que a circunstância de a
executada e a autora dos embargos de terceiro, ambas sociedades por quotas, terem a mesma gerente, acrescido
do decaimento na prova em relação à propriedade exclusiva sobre os bens por parte da embargante, são suficientes
para concluir que esta deduziu pretensão cuja falta de fundamento não ignorava, recaindo sobre a gerente a
responsabilidade pela condenação como litigante de má fé.”
264
Meios conservatórios de garantia patrimonial contra embargos de terceiro com finalidade ilícita
simulação de um negócio jurídico de disposição de bens do devedor com vista a ocultar o seu
património face à iminência da sua execução coactiva por incumprimento voluntário da
obrigação. Com efeito, nos termos do art. 240.º, n.º 1, do CC, um negócio diz-se simulado
quando, por acordo entre declarante e declaratário, e no intuito de enganar terceiros, houver
divergência entre a declaração negocial e a vontade real do declaratário. Sendo o negócio
simulado nulo (art. 240.º, n.º 2, do CC), a nulidade pode ser invocada a todo o tempo e por
qualquer interessado, designadamente qualquer credor, podendo ser ainda declarada
oficiosamente pelo próprio tribunal (art. 286.º do CC).
Deste modo, se A, com o intuito de enganar o seu credor B, simular a venda de um
imóvel a C ou a existência de uma dívida fictícia em relação a D, criando, desse modo, um
credor concorrente com B, é lícito ao credor vir invocar a nulidade desses negócios com base
em simulação contratual.
Nessa exacta medida, se em execução movida por B contra A vier a ser penhorado o
imóvel (ainda registado em nome de A) alienado ficticiamente a C, e se este, por sua vez, vier
deduzir embargos de terceiro contra a penhora com fundamento na ofensa do seu direito de
propriedade sobre o bem penhorado, nada obsta a que o embargado B venha invocar em sede
de contestação aos embargos de terceiro a nulidade, por simulação, do negócio jurídico de
transmissão patrimonial do imóvel a favor de C. Nessa hipótese, caso venha a ser julgada
procedente a invocação da simulação contratual, os embargos de terceiro devem improceder,
regressando o bem imóvel ao património do executado a fim de ser satisfeito o crédito
exequendo.
3. IMPUGNAÇÃO PAULIANA
Para além dos actos jurídicos viciados de nulidade, pode ainda suceder que o devedor
venha a realizar negócios válidos, mas com o único propósito de lesar os interesses patrimoniais
dos seus credores. Ora, sempre que o acto dispositivo tenha em vista a lesão dos interesses
patrimoniais dos credores, o legislador faculta a possibilidade de impugnar esse acto através da
impugnação pauliana864. Com efeito, dispõe o art. 610.º do CC que os actos que envolvam
864
A acção de impugnação pauliana, enquanto meio conservatório da garantia patrimonial, consiste num
meio destinado a “evitar a sonegação ou dissipação de bens do património do devedor”. Por outro lado, a lei
permite ao credor recorrer alternativamente à acção de nulidade por simulação ou à acção de impugnação pauliana,
265
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
diminuição da garantia patrimonial do crédito e não sejam de natureza pessoal podem ser
impugnados pelo credor, desde que se verifiquem dois requisitos cumulativos865:
a) Ser o crédito anterior ao acto866 ou, sendo posterior, ter sido o acto realizado
dolosamente com o fim de impedir a satisfação do direito do futuro credor;
b) Resultar desse acto a impossibilidade, para o credor, de obter a satisfação integral do
seu crédito, ou agravamento dessa impossibilidade.
Estando em causa um acto de natureza onerosa, a impugnação pauliana só poderá ser
julgada procedente se o devedor e o terceiro tiverem agido de má-fé (art. 612.º, n.º 1, 1.ª parte,
do CC), entendendo-se por má-fé a consciência do prejuízo que o acto causa ao credor, sendo
bastante a mera representação da possibilidade de produção do facto danoso em consequência
da conduta do agente (art. 612.º, n.º 2, do CC)867 868. Em contrapartida, sendo impugnado um
acto de natureza gratuita, a impugnação pauliana deve ser julgada procedente mesmo que o
alienante e o adquirente se encontrem de boa fé (art. 612.º, n.º 1, 2.ª parte, do CC).
sendo certo que a primeira se revela de especial dificuldade em sede probatória (cfr., nesse sentido, MARTINEZ,
Pedro Romano; PONTE, Pedro Fuzeta da, Garantias do Cumprimento, ob. cit., pp. 14 e 19).
Sobre o instituto jurídico da impugnação pauliana (accíon revocatória o pauliana) e quanto à sua função
reconvencional no direito espanhol, vide ANGEL FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 95. Vide,
a este propósito, o art. 1276. do CC Es., segundo o qual “La expresión de una causa falsa en los contratos dará
lugar a la nulidad, si no se probase que estaban fundados en otra verdadera y lícita.”
865
Quanto aos requisitos da impugnação pauliana, cfr. o Ac. do STJ, de 3 de Dezembro de 1999, proc.
1178/98, in [Link].
866
Compreende-se que assim o seja, já que o credor apenas poderá ter uma expectativa juridicamente
atendível em relação aos bens que compunham o património do devedor à data da constituição da obrigação (cfr.,
nesse sentido, COSTA, Mário Júlio de Almeida, Direito das Obrigações, ob. cit., p. 800).
867
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ Br., de 12 de Agosto de 2008, in [Link], segundo o qual
“Evidencia-se a boa-fé do adquirente se não provado o dolo do devedor ou o conluio entre os interessados pelo
exeqüente. Ocorrida a alienação do bem antes da citação do devedor é incabível falar em fraude à execução.”
868
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 9 de Abril de 2002, proc. 747/02 – 6.ª secção, in [Link],
bem como o Ac. do STJ, de 20 de Junho de 2006 proc. 922/06 – 1.ª secção, in [Link]: “Provando-se que o
embargante e o executado e mulher (que não é parte) acordaram na venda para evitarem a execução do prédio
para pagamento de dívida do mesmo executado a terceiros, com o que a embargada-exequente tem mais
dificuldades em cobrar o seu crédito, o que aqueles pretenderam, pode qualificar-se a actuação dos recorridos
intervenientes no negócio como dolosa.”
266
Meios conservatórios de garantia patrimonial contra embargos de terceiro com finalidade ilícita
Deste modo, o credor poderá recorrer à impugnação pauliana quando esteja em causa
um acto de afectação do património do devedor, sendo certo que a impugnação não é atingida
pela eventual nulidade do acto realizado pelo devedor (art. 615.º, n.º 1, do CC)869.
Por outro lado, importa referir que recai sobre o credor uma verdadeira prova diabólica
quanto à prova, por um lado, da má-fé do adquirente do bem, assim como da impossibilidade de
satisfação integral do crédito em consequência do acto dispositivo de bens do devedor.
Sendo julgada procedente a impugnação pauliana, o credor obtém o direito à restituição
dos bens objecto do contrato impugnado na medida do seu interesse870, podendo ainda executá-
los no património do obrigado à restituição, bem como praticar os actos de conservação da
garantia patrimonial autorizados por lei (art. 616.º, n.º 1, do CC)871. Por outro lado, nesse caso o
embargante deve ser condenado como litigante de má-fé pelo facto de fazer do processo um uso
manifestamente reprovável, deduzindo uma oposição cuja falta de fundamento não podia
ignorar872.
Nessa exacta medida, reportando-nos ao tema objecto do nosso estudo, se o terceiro
adquirente do bem vier deduzir embargos de terceiro contra a penhora do bem em acção
executiva movida contra o devedor alienante, pode o credor embargado deduzir contestação aos
embargos de terceiro quando sustente que a alienação do bem ao terceiro embargante teve tão
só como único propósito a ocultação dolosa do património do executado e que essa actuação foi
facilitada pela atitude do terceiro ora embargante873 874.
869
Pondo termo a divergências doutrinais quanto à sujeição da acção de impugnação pauliana a registo, o
art. 3.º, n.º 1, a) do CRPred. passou a determinar que esta acção se encontra sujeita a registo.
870
Cfr., a este propósito, VARELA, Antunes, Das Obrigações em Geral, vol. II, ob. cit., p. 457.
871
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRP, de 4 de Janeiro de 1994, in BMJ, 433.º, p. 618: “Os bens cuja
alienação foi impugnada, não regressam, por força da procedência da impugnação, ao património do alienante,
perdurando o direito real transmitido a terceiro; o exequente é que, na exacta medida do seu interesse, poderá
executá-lo ao abrigo do art. 818.º do Cód. Civil.”
872
Cfr. quanto à litigância de má-fé pelo oponente em sede de embargos de terceiro, o Ac. do STJ, de 20
de Junho de 2006, proc. 922/06 – 1.ª secção, in [Link].
873
Cfr. o Ac. do TRC, de 28 de Março de 2007, proc. 208-A/2002, in [Link].
874
Deste modo, se o terceiro vier deduzir embargos pelo facto da penhora ter recaído sobre um bem que
adquirira ao executado, é lícito ao exequente embargado invocar a impugnação pauliana contra esse acto de
disposição patrimonial se essa venda implicar, na prática, a impossibilidade do credor exequente obter a satisfação
do seu crédito (cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 28 de Março de 2006, proc. 442/05 – 6.ª secção, in
[Link]).
267
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
A este respeito impõe-se referir que o art. 1041.º do CPC1961 previa a possibilidade de
rejeição liminar dos embargos de terceiro com fundamento na aplicação de um regime
semelhante ao da impugnação pauliana, se bem que menos rigoroso no que concerne aos
pressupostos necessários para a impugnação eficaz do acto875. Na verdade, preceituava a
referida disposição legal que a rejeição dos embargos podia fundamentar-se em qualquer facto
susceptível de comprometer o êxito dos embargos, designadamente no caso da posse do
embargante se fundar em transmissão feita por aquele contra quem fosse promovida a diligência
judicial, se fosse manifesto, pela data em que o acto foi realizado ou por quaisquer outras
circunstâncias, que essa transmissão havia sido efectuada com o propósito do transmitente se
poder subtrair à sua responsabilidade876.
Por outro lado, importa salientar que, em sede de embargos de terceiro, para que
impugnação pauliana da venda ao embargante venha a ser julgada procedente, não se exige o
dolo por parte do devedor alienante. Na verdade, sendo o crédito do exequente anterior ao acto
de disposição patrimonial, para a procedência da impugnação é suficiente a onerosidade do acto
associada ao conhecimento da inexistência de outros bens no património do devedor executado
que garantam a satisfação do crédito exequendo877.
875
Cfr., nesse sentido, REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 444.
876
A este propósito escreveu ALBERTO DOS REIS: “(na base desta disposição) não está a ideia de se
frustrar um acto simulado; a transmissão pode deixar de ser fictícia, pode constituir um acto verdadeiro; mas
porque foi praticado com o propósito manifesto de ludibriar o credor, rejeitam-se os embargos que nele se apoiam”
(REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 444).
877
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 28 de Março de 2006, proc. 442/05 – 6.ª secção, in [Link].
268
Meios conservatórios de garantia patrimonial contra embargos de terceiro com finalidade ilícita
PARTE II
269
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
270
Legitimidade
CAPÍTULO I
PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS
SECÇÃO I
LEGITIMIDADE
1.1. ÂMBITO
878
AMARAL, José Augusto Pais do, Direito Processual Civil, 6.ª ed., Almedina, 2006, p. 87.
879
Ac. do STJ, de 9 de Maio de 2006, proc. 1537/2006 – 7, in [Link].
271
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Nos termos do art. 351.º, n.º 1, do CPC, os embargos de terceiro podem ser deduzidos
por qualquer terceiro que não seja parte na causa em que tal meio de defesa é deduzido880.
Deste modo, para que alguém possa desencadear semelhante incidente, este tem de assumir no
processo a posição de terceiro, isto é, não pode intervir na causa na qualidade de parte
processual881 882.
880
Nos termos do art. 595. da LEC, “[P]odrá interponer teceria de domínio, en forma de demanda, quien,
sin ser parte en la ejecución, afirme ser dueño de un bien embargado como perteneciente al ejecutado y que no há
adquirido de este una vez trabado el embargo.”
881
O Código de Processo Civil de 1876 determinava no seu art. 922.º que tinha legitimidade para deduzir
embargos de terceiro quem não tivesse sido ouvido ou convencido na acção, nem representasse quem nela fora
condenado.
Posteriormente, o Código de Processo Civil de 1939 veio determinar que o terceiro é aquele que não
interveio no processo ou no acto jurídico de que emana a diligência judicial, nem representa quem foi condenado
nele ou quem nele se obrigou (arts. 1036.º, § 1.º, do CPC ). Nessa exacta medida, se a diligência de penhora
1939
resultasse, e.g., da execução de uma sentença condenatória, o embargante teria a posição de terceiro se a
sentença não constituísse caso julgado quanto a si, pois, em tal caso, ao terceiro seria lícito subtrair-se aos efeitos
da sentença condenatória. No mesmo sentido, estando em causa a execução de um título executivo extrajudicial, o
terceiro teria legitimidade para embargar se não tivesse assumido qualquer obrigação jurídica perante o título que
sustentasse a execução. Significa isto que, no domínio da acção executiva, o critério relevante era que o terceiro,
independentemente de se encontrar nomeado no processo executivo como participante processual (maxime como
credor ou devedor do executado), não figurasse no processo com o estatuto processual de executado . Podia, no
881
entanto, suceder que o condenado em acção judicial ou o obrigado em acto jurídico do qual resultasse a diligência
de ofensa da posse ou de um direito incompatível com a sua finalidade, conservasse a posição de terceiro com a
inerente faculdade de deduzir embargos de terceiro. Pense-se, e.g., no caso do herdeiro, executado por dívidas do
autor da herança, nas situações em que a penhora atinja os seus bens próprios . 881
Por outro lado, importa referir que o § 1 do art. 1036.º do CPC 1939 previa a possibilidade de dedução de
embargos de terceiro pelo próprio condenado ou obrigado relativamente aos bens que não devessem ser atingidos
pela diligência ordenada em virtude do título da sua aquisição ou da qualidade em que os possuísse.
O Código de Processo Civil de 1961 manteve a mesma configuração jurídica de legitimidade para efeitos
de dedução do processo especial de embargos de terceiro, conforme melhor resulta do art. 1037.º, n.º 2, do
CPC . Com efeito, ao abrigo dessa disposição legal, o embargante tinha a posição de terceiro se a sentença
1961
declarativa não constituísse caso julgado contra ele, ou, estando em causa um título executivo extrajudicial, não
tivesse assumido qualquer obrigação perante o título (cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 29 de Abril de 1992,
proc. 0075194, [Link], segundo o qual “considera-se terceiro aquele que não tenha intervindo no processo ou
no acto jurídico de que emana a diligência judicial, nem represente quem foi condenado no processo ou quem no
acto se obrigou”; cfr. ainda o Ac. do STJ, de 6 de Maio de 1993, proc. 083764, in [Link], segundo o qual “[O]
embargante tem posição de terceiro desde que nem a sentença nem o acto jurídico constituam para ele fonte de
272
Legitimidade
obrigação.”). Deste modo, a legitimidade processual activa para a dedução de embargos de terceiro implicava o
preenchimento cumulativo de dois pressupostos ou requisitos processuais, a saber: por um lado, de acordo com o
disposto no art. 1037.º, n.º 2, primeira parte, do CPC 1961, que o embargante fosse “terceiro”, isto é, que não tivesse
intervindo no processo ou no acto jurídico de que emanasse a diligência judicial, nem representasse quem fosse
condenado no processo ou quem no acto se tivesse obrigado ― embora, os embargos de terceiro pudessem ser
deduzidos pelo próprio executado no caso especial previsto no art. 1037.º, n.º 2, in fine, do CPC , ou seja, quanto
1961
aos bens que, pelo título da sua aquisição ou pela qualidade em que os possuísse, não devessem ser atingidos pela
diligência ordenada ― ; e, por outro lado, que o embargante tivesse a posse dos bens penhorados e que essa
posse tivesse sido indevidamente atingida pela diligência judicial.
881
Conforme denota LOPES CARDOSO, o art. 1037.º, n.º 2, atento o seu elemento literal, permitia a
formulação de duas conclusões:
- por um lado, quem fosse condenado pela sentença exequenda ou se tivesse obrigado no título executivo,
se este for diverso de sentença, não podia deduzir embargos de terceiro, ainda que a execução não tivesse sido
movida contra ele;
- por outro lado, quem não tivesse sido condenado na sentença ou não se tivesse obrigado no título
executivo, mas tivesse sido executado, podia deduzir embargos de terceiro em vez de deduzir embargos de
executado.
Com efeito, esta interpretação resultava do facto de a legitimidade para embargar de terceiro ser aferida
em função do título e não da execução, situação que levava a resultados indesejáveis. Deste modo, na primeira
situação devia entender-se que, se a acção executiva não tivesse sido movida contra o obrigado no título, este
conservava a posição de terceiro, pelo que podia deduzir embargos contra a penhora dos seus bens. Quanto à
segunda situação, se a execução tivesse sido movida contra quem não se tivesse obrigado no título, sendo este
parte na acção, estava-lhe vedada a possibilidade de deduzir embargos de terceiro, só lhe restando os embargos de
executado (cfr. CARDOSO, Eurico Lopes, Manual da Acção Executiva, ob. cit., pp. 383 e 384).
882
Cfr. o Ac. do TRP, de 26 de Maio de 1994, proc. 9351201, in [Link], bem como o Ac. do TRP, de
6 de Dezembro de 2001, proc. 0131642, in [Link]: “É terceiro quem não é parte na causa, isto é, quem não
tiver sido accionado ou requerido em qualquer processo, abrangendo os procedimentos cautelares.”
883
Cfr., neste sentido, o Ac. do STJ, de 19 de Setembro de 2002, proc. 2011/02 – 7.ª secção, in
[Link].
273
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
884
Do mesmo modo, no âmbito da LEC espanhola, a oposição de terceiro só pode ser deduzida por quem
não seja parte na causa. Nessa exacta medida, uma vez que a legitimidade é definida em função da acção executiva
e não do respectivo título, quem não apareça no título executivo, mas apesar disso venha a ser demandado para a
acção executiva, passa a assumir a posição de parte na acção, motivo pelo qual só poderá deduzir oposição na
qualidade de executado e não de terceiro – art. 538.2 da LEC (MONTERO AROCA, Juan, El Nuevo Proceso Civil –
Ley 1/2000, ob. cit., p. 764).
885
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 27 de Janeiro de 2005, proc. 4364/04 – 6.ª secção, in
[Link]: “Não tem a qualidade de terceiro para efeitos de dedução dos embargos correspondentes, sendo pois
parte ilegítima, a associação que foi constituída para ser a proprietária da associação executada, tendo-lhe sucedido
nos respectivos direitos e obrigações. Vindo a nova associação a absorver a associação executada, ficando com todo
o seu património e tendo os mesmo representantes legais, impõe o princípio da boa fé que se faça o levantamento
da personalidade de modo a atender aos valores fundamentais do sistema jurídico”.
886
Será o caso, e.g., do cônjuge do executado condenado em acção declarativa de condenação, mas que
não viu ser movida contra ele a respectiva acção executiva, ou o terceiro que tendo onerado um bem próprio para
garantir o cumprimento da obrigação do devedor vê o exequente mover apenas a execução contra o devedor pelo
facto de prescindir dessa garantia. Deste modo, enquanto o regime processual anterior à reforma de 95/96
configurava a legitimidade processual do terceiro em função da vinculação em relação ao título executivo e
independentemente de quem fosse parte na acção executiva, já o novo regime processual veio aferir a legitimidade
do terceiro em conformidade com as partes demandadas na causa e independentemente da sujeição do sujeito ao
título (cfr., a este propósito, CASTRO, Artur Anselmo de, A Acção Executiva Singular, Comum e Especial, ob. cit.,
p. 356).
887
A este propósito, não podemos concordar com o Ac. do STJ, de 21 de Novembro de 2006, proc.
3740/06 – 6.ª secção, in [Link], o qual veio determinar que “Terceiro - agora quem não é parte na causa - é
o mesmo que antes: é aquele que não interveio no processo ou no acto jurídico de que emana a diligência judicial
nem representa quem foi condenado no processo ou no acto se obrigou”. Na verdade, o critério actualmente
adoptado para se aferir da legitimidade processual activa é diametralmente oposto do que se verificava no regime
anterior à reforma de 95/96, já que, actualmente, a qualidade de terceiro resulta do simples facto de não ser parte
na causa principal da qual resultou a penhora ou a diligência ofensiva, independentemente de o terceiro ter ou não
274
Legitimidade
intervindo no processo do qual resultou a diligência judicial ou do facto de representar ou não quem foi condenado
no processo ou de se ter obrigado no acto.
888
Em sentido contrário, cfr., a propósito do ordenamento jurídico italiano, FREDERICO CARPI; MICHELE
TARUFFO, Commentario Breve al Codice di Procedura Civile, ob. cit., p. 1842, segundo os quais a legitimidade em
sede de oposição de terceiro implica que não exista qualquer vínculo jurídico ou obrigação entre o terceiro e o
credor exequente.
889
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 6 de Outubro de 1997, proc. 9750647, in [Link], bem como
o Ac. do TRL, de 1 de Março de 2007, proc. 5651/06-2, in [Link]. “O executado carece de legitimidade activa
para intervir em embargos de terceiro a fim de defender a posse (quer em nome e agindo no interesse dos
proprietários, quer invocando a qualidade de possuidor precário) relativamente a acto de penhora, atenta a sua
qualidade de parte no processo executivo. Para tal efeito a lei criou um novo meio de tutela da posição do executado
– a oposição à penhora regulada no art.º 863º-A, do CPC.”
890
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 301.
891
Vide, a este propósito, COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 205.
892
Cfr. o Ac. do STJ, de 22 de Junho de 2005, in CJ, tomo II, 2005, p. 141.
893
Cfr. o Ac. do STJ, de 4 de Novembro de 1952, in BMJ, 33.º, p. 296: «terceiro, em relação penhora, é
todo aquele que não é exequente nem executado».
275
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
embargos de terceiro deve ser determinada em função do momento em que foi realizada a
diligência ofensiva894.
Não é lícito ao próprio executado vir deduzir embargos de terceiro com o fundamento de
que os bens penhorados pertencem a um terceiro ou para defender a sua posse em nome de
um terceiro proprietário ou na qualidade de possuidor precário, dado que assume a posição
processual de parte na acção judicial de que resultou esse acto ofensivo895.
Saliente-se, por último, a possibilidade de um credor deduzir embargos de terceiro em
sub-rogação e em nome de um devedor. Na verdade, sendo a sub-rogação um instituto jurídico
que permite ao credor substituir-se ao devedor que não age, com vista à salvaguarda do seu
crédito sobre terceiros, nesse caso o credor age na qualidade de representante ou substituto
legal do devedor, pelo que tem legitimidade para deduzir embargos de terceiro contra uma
penhora ou um acto judicialmente ordenado que tenha ofendido a posse ou um direito
incompatível do seu devedor896.
894
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 14 de Janeiro de 2003, in CJ, tomo I, 2003, p. 5.
895
Vide, nesse sentido, COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 205.
896
Cfr. o Ac. do TRP, de 22 de Junho de 1996, proc. 0633118, in [Link].
897
Do mesmo modo, no ordenamento jurídico espanhol, “(las) partes en ele proceso de ejecucíon son
quienes aparecen legitimidas activa y pasivamente en el título ejecutivo” (cfr. ANGEL FERNANDEZ, Miguel, Derecho
Procesal Civil III, ob. cit., p. 69).
276
Legitimidade
898
Cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 222, segundo o qual “as regras
sobre a legitimidade da parte na acção executiva garantem a presença em juízo do sujeito cujo património é
responsável pelo pagamento da dívida, ou seja, elas preparam a necessária coincidência entre o sujeito responsável
e a parte demandada.”
899
Cfr., a este propósito, SILVA, João Azevedo da, Lições de Processo de Execução Civil, Editora Rei dos
Livros, Lisboa, 1995, p. 77.
900
Cfr. quanto ao conceito de “terceiro”, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p.
223: “Terceiro, neste sentido, é alguém que é estranho à obrigação exequenda e não aquele que não é parte na
execução.”
277
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Nos termos do n.º 1 dessa citada disposição legal, em caso de sucessão no direito ou na
obrigação, a acção executiva deve correr entre os sucessores das pessoas que no título figuram
como credor ou devedor da obrigação exequenda.
Ocorrendo a sucessão901 (inter vivos ou mortis causa) antes da instauração da acção
executiva, incumbe ao exequente invocar no título executivo os factos constitutivos da sucessão.
Se a sucessão se verificar na pendência da causa902, o sucessor poderá intervir na demanda
através de um incidente de habilitação.
Podem, no entanto, verificar-se inversões a esta regra da determinação da legitimidade
ínsita no art. 56.º, n.º 1, do CPC. Pense-se, por exemplo, numa acção emergente de acidente de
viação intentada contra o Fundo de Garantia Automóvel e o lesante (por este não ter seguro), em
que, havendo lugar a uma condenação solidária dos réus, o Fundo de Garantia Automóvel paga
a indemnização. Deste modo, ficando sub-rogado nos direitos do lesado, por sucessão nos
direitos deste, nada obsta a que o Fundo de Garantia Automóvel possa demandar em sede
executiva o lesante903.
Em caso de sucessão subjectiva da instância, o terceiro passa a ser parte na causa, pelo
que, perdendo semelhante qualidade, deixa de ter legitimidade para poder deduzir embargos de
terceiro. Deste modo, se o executado vem a falecer na pendência da acção executiva e se for
promovida a habilitação dos herdeiros para, como sucessores daquele, prosseguirem na
execução inicialmente intentada contra o de cujus, fica vedada aos herdeiros a possibilidade de
deduzirem embargos de terceiro contra uma diligência realizada nessa execução904.
901
Cfr. o Ac. do STJ, de 19 de Setembro de 2002, proc. 2145/02-2, in [Link]: “O termo sucessão
constante do art. 56.º, n.º 1, do CPC, deve ser interpretado não no sentido estrito de sucessão por morte, mas
como abrangendo todos os casos em que o direito tenha sido transmitido. É esta a interpretação ampla que
corresponde à finalidade da disposição em causa, que assenta no princípio da economia processual.”
902
Vide, quanto à sucessão mortis causa, os arts. 371.º a 375.º do CPC, e quanto há sucessão inter vivos
os arts. 271.º e 376.º do CPC.
903
Cfr. o Ac. do TRP, de 21 de Maio de 1998, in CJ, tomo III, 1998, p. 183.
904
Cfr. o Ac. do TRL, de 26 de Outubro de 2006, proc. 3630/2005-2, in [Link].
278
Legitimidade
O art. 56.º, n.º 2, do CPC determina que a execução por dívida provida de garantia real
sobre bens de terceiro905 deve ser intentada directamente contra este906 (caso o exequente
pretenda fazer valer a garantia907), sem prejuízo de poder ser também demandado desde logo o
devedor principal. Nessa exacta medida, determina o art. 56.º, n.º 2, do CPC, que podem ser
penhorados bens de terceiro, desde que a execução tenha sido movida contra ele908 909.
Tal como resulta do preâmbulo do Decreto-Lei n.º 329-A/95, de 12 de Dezembro, o
legislador pretendeu solucionar a problemática da legitimidade processual executiva quando o
seu objecto seja uma dívida provida de garantia real, procurando-se “tomar posição clara sobre a
questão da legitimação do terceiro, possuidor ou proprietário dos bens onerados com tal
garantia”. Ora, perante tal problemática, optou-se por se conceder “tanto a um como a outro
legitimidade passiva para a execução910, quando o exequente pretenda efectivar tal garantia,
incidente sobre bens pertencentes ou na posse de terceiro”.
Trata-se, assim, da consagração adjectiva do direito de execução de bens sobre terceiro
ínsito no art. 818.º do CC, ao abrigo do qual a execução pode incidir sobre bens de terceiro
905
Tal circunstância pode suceder, quer porque a garantia real foi constituída ab initio sobre bens de um
terceiro, quer porque o terceiro adquiriu os bens onerados com essa garantia (cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção
Executiva Singular, ob. cit., p. 138).
906
Trata-se, na verdade, de uma situação de penhorabilidade irrestrita (cfr., nesse sentido, SOUSA, Miguel
Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 224).
907
Ao abrigo do art. 835.º do CPC, sendo executada uma dívida com garantia real sobre bens de terceiro, a
penhora deve iniciar-se pelos bens sobre que incida a garantia, só podendo recair sobre outros quando se
reconheça a insuficiência dos bens dados em garantia para se conseguir o fim da execução (benificium excessionis
realis).
908
Cfr. o Ac. do STJ, de 27 de Março de 1984, in BMJ, 335.º, p. 259: “A acção executiva através da qual
se pretende fazer valer uma garantia hipotecária deve ser proposta contra o possuidor dos bens hipotecados.”
909
Quanto a esta questão, refere CALVAO DA SILVA: “A investidura da pessoa do possuidor ― possuidor
em nome próprio ― na qualidade de parte legítima na execução para cobrança de crédito garantido por hipoteca
afigura-se natural, sendo mesmo a consequência lógica do chamado direito de sequela” [SILVA, João Calvão da,
Estudos de Direito Civil e Processo Civil (Pareceres), Almedina, Coimbra, 1999, p. 280].
910
Vide, quanto a essa problemática, o Ac. do TRP, de 27 de Setembro de 1988, in CJ, tomo IV, 1988, p.
177, ao abrigo do qual seria necessária a intervenção processual do devedor e do possuidor do bem onerado, sob
pena de ilegitimidade processual do devedor.
279
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
911
Vide, no mesmo sentido, o art. 2910.º do CC It., segundo o qual “[P]ossono essere espropriati anche i
beni di un terzo quando sono vincolati a garanzia del credito o quando sono oggetto di un atto che è stato revocato
perché compiuto in pregiudizio del creditore.”
912
De acordo com LEBRE DE FREITAS, à penhora só estão sujeitos os bens do executado, seja este o
devedor principal, um devedor subsidiário ou um terceiro (FREITAS, Lebre de, A Acção Executiva Depois da
Reforma, ob. cit., p. 209).
280
Legitimidade
913
Cfr. MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit.,
p. 30.
914
A este propósito, o legislador esclareceu no preâmbulo do Decreto-Lei n.º 329-A/95, de 12 de
Dezembro, que “considera-se, na verdade, que cumpre ao exequente avaliar, em termos concretos, quais as
vantagens e inconvenientes que emergem de efectivar o seu direito no confronto de todos aqueles interessados
passivos, ou de apenas algum ou alguns deles, bem sabendo que se poderá confrontar com a possível dedução de
embargos de terceiro por parte do possuidor que não haja curado de demandar.”
281
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
em que a acção executiva poderá também ser proposta contra esse possuidor, sob pena deste
poder deduzir embargos de terceiro face à diligência de penhora que seja ofensiva da sua
posse915.
Por último, importa fazer uma breve referência ao regime previsto no art. 57.º do CPC.
Ao abrigo desta disposição legal, a execução fundada em sentença condenatória pode ser
promovida, não só contra o devedor, mas ainda contra as pessoas em relação às quais a
sentença tenha força de caso julgado. Com efeito, de acordo com o art. 671.º do CPC, a decisão
condenatória produz efeitos dentro e fora do processo, vinculando directamente as partes por ela
condenadas.
Contudo, existem situações em que a sentença pode também vincular pessoas que por
ela não tenham sido directamente atingidas. Será o caso, entre outros, do adquirente da coisa
ou direito litigioso na pendência da causa, sem a sua subsequente intervenção no processo916.
Deste modo, a sentença é susceptível de ser executada contra todos aqueles que se
encontrem vinculados pelo efeito de caso julgado, ainda que não tenham sido directamente
condenados na sentença917.
Nos termos do art. 352.º do CPC, o cônjuge que tenha a posição de terceiro pode, sem
autorização do outro, defender por meio de embargos os direitos relativamente aos bens
próprios e aos bens comuns que hajam sido indevidamente atingidos pela diligência de
penhora918 919 ou por qualquer acto judicialmente ordenado de apreensão ou entrega de bens920.
915
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 139.
916
Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º,
ob. cit., p. 116.
917
Cfr. MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit.,
p. 34.
918
Nos termos do § 774 do ZPO (Drittwiderspruchsklage des Ehegatten), se a diligência executiva incidir
sobre o património comum do casal (em execução movida contra apenas um dos cônjuges), então o cônjuge não
282
Legitimidade
Deste modo, sendo o cônjuge do executado terceiro perante essa diligência921, este pode
deduzir o incidente processual de embargos de terceiro para defender os direitos relativos aos
seus bens próprios e aos bens comuns922, bem como nos casos em que esteja em causa a casa
de morada de família923. Trata-se, na verdade, de um verdadeiro meio de defesa do direito do
cônjuge do executado e não de uma simples acção possessória924.
executado pode formular oposição ao abrigo do § 771 caso a sentença condenatório do cônjuge executado não
produza qualquer efeito relativamente ao cônjuge oponente.
919
Com efeito, o art. 601.º do CC estabelece limitações em relação à responsabilidade patrimonial pelo
cumprimento das obrigações quando estejam em causa regimes especialmente estabelecidos em consequência da
separação de patrimónios. Ora, um dos casos paradigmáticos quanto à separação patrimonial e à existência de
regimes específicos quanto à responsabilidade pelas dívidas prende-se com o património próprio e comum do casal
nos regimes de comunhão de bens.
920
Dispunha o art. 1038.º do CPC 1961 a propósito da possibilidade de dedução de embargos de terceiro pelo
cônjuge, o seguinte:
“1. A mulher casada, que tenha a posição de terceiro, pode, sem autorização do marido, defender por
meio de embargos a sua posse quanto aos bens dotais ou próprios e quanto aos bens comuns.
2. A nenhum dos cônjuges é permitido deduzir embargos de terceiro relativamente aos bens comuns:
a) Quando a diligência judicial incida somente no direito e acção do outro cônjuge aos bens do casal;
b) Quando a diligência tenha por origem dívida anterior ao casamento e respeite a bens levados para o
casal pelo cônjuge demandado por essa dívida;
c) Quando a diligência tenha origem em dívida comercial ou em responsabilidade por acidente de viação e
o credor haja pedido a citação do cônjuge, não responsável, para requerer a separação de bens.”
Verifica-se, assim, que enquanto o regime processual anterior à reforma de 95/96 apenas permitia a
tutela da posse por parte do cônjuge, o actual regime processual permite a dedução de embargos de terceiro por
parte do cônjuge relativamente à tutela de um direito incompatível com a diligência ofensiva.
921
De acordo com o Ac. do STJ, de 12 de Abril de 2005, o cônjuge será “terceiro” se “não tiver sido parte
no processo em que a sentença foi proferida nem representa a parte que nesse processo foi condenada” (proc.
4802/04 – 6.ª secção, in [Link]). Não podemos, contudo, concordar com semelhante interpretação. Na
verdade, ainda que o cônjuge tenha sido parte no processo declarativo, a legitimidade, para efeito de dedução de
embargos de terceiro, deve ser aferida em função da circunstância de o cônjuge ser ou não parte efectiva no
processo do qual emanou a penhora ou a diligência judicialmente ordenada de preensão ou entrega de bens (art.
351.º do CPC).
922
Cfr. o Ac. do TRC, de 5 de Janeiro de 1982, in CJ, tomo I, 1982, p. 73, bem como o Ac. do STJ, de 12
de Março de 2005, proc. 1204/2005, in [Link].
923
Cfr. o Ac. do TRL, de 14 de Novembro de 1980, in CJ, tomo V, 1980, p. 10: “O cônjuge mulher, não
arrendatária, pode embargar de terceiro para defesa do seu direito à casa de morada de família, se a procedente
acção de despejo, à mesma respeitante, foi dirigida apenas contra o arrendatário seu marido.” De todo o modo,
283
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Para se aferir quais as situações em que o cônjuge do executado pode deduzir embargos
de terceiro, importa ter presente o regime da responsabilidade dos cônjuges pelas suas dívidas e
em que casos é que a penhora pode recair sobre bens comuns ou bens próprios de cada um
dos cônjuges.
Com efeito, o nosso ordenamento jurídico consagra a regra geral de que tanto o marido
como a mulher têm legitimidade para contrair dívidas sem o consentimento do outro cônjuge.
Assim, uma vez que a dívida pode assumir uma natureza comum, comunicável ou própria, a
responsabilidade tanto pode pertencer a ambos os cônjuges, quer tenham sido os dois a contrair
a dívida, quer a mesma apenas tenha sido contraída por um deles, estendendo-se a
responsabilidade ao outro cônjuge, como apenas em relação ao que assumiu a obrigação.
São da responsabilidade de ambos os cônjuges as dívidas constantes dos arts. 1691.º,
1692.º, b), segunda parte, 1693.º, n.º 2 e 1694.º, n.º 1, todos do CC925. Nesse caso, estando
em causa um regime de comunhão de bens, pelas dívidas da responsabilidade de ambos os
cônjuges respondem os bens comuns e, subsidiariamente (na falta ou insuficiência deles), os
bens próprios de cada um dos cônjuges, sendo esta responsabilidade entre ambos de natureza
solidária (art. 1695.º do CC). Por sua vez, são da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges
as dívidas enunciadas nos arts. 1692.º, a) e b), segunda parte, 1693.º, n.º 1 e 1694.º, n.º 2,
todos do CC.
Ora, estando em causa uma dívida da responsabilidade exclusiva de um dos cônjuges
(art. 1692.º do CC), respondem os bens próprios do cônjuge devedor e, subsidiariamente, a sua
meação nos bens comuns (art. 1696.º, n.º 1, do CC). No entanto, tratando-se de uma dívida
própria do cônjuge devedor, podem ainda ser penhorados, ao mesmo tempo que os seus bens
próprios, os bens por ele levados para o casal ou posteriormente adquiridos a título gratuito,
bem como os respectivos rendimentos, assim como os bens sub-rogados no lugar daqueles, e o
produto do trabalho e os direitos de autor do cônjuge devedor (art. 1969.º, n.º 2, do CC).
ainda que o cônjuge do executado possa deduzir embargos de terceiro com vista à defesa da casa de morada de
família, não lhe é lícito recorrer a este meio processual em sede de acção executiva para prestação de facto se, e.g.,
a sentença condenatória não manda demolir a casa de morada de família, mas tão só um muro construído ex novo
(cfr. o Ac. do STJ, de 12 de Abril de 2005, proc. 4802/04 – 6.ª secção, in [Link]).
924
Cfr. MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 334.
925
Cfr., quanto às dívidas da responsabilidade de ambos os cônjuges, COELHO, Francisco Pereira;
OLIVEIRA, Guilherme de, Curso de Direito da Família, vol. I, 2.ª ed., Coimbra Editora, 2001, p. 409.
284
Legitimidade
Feita esta análise prévia, importa considerar essencialmente três situações em que se
afigura admissível a dedução de embargos de terceiro pelo cônjuge do executado no regime de
comunhão de bens (geral ou de adquiridos).
A primeira diz respeito às situações em que a acção executiva é movida somente contra
um dos cônjuges por uma dívida própria desse cônjuge. Com efeito, estando em causa uma
dívida da exclusiva responsabilidade de um dos cônjuges, e atento o regime da responsabilidade
das dívidas (art. 1696.º, n.º 1, do CC), a penhora deve incidir primeiramente sobre os bens
próprios do cônjuge executado e, subsidiariamente, sobre a sua meação nos bens comuns do
casal (art. 169.º, n.º 1, do CC)926. Deste modo, se nessa acção executiva a penhora vier a recair
926
Em termos práticos, a penhora da meação do executado nos bens comuns do casal implica que o
exequente, ao requerer a penhora desses bens, formule um pedido de citação do cônjuge do executado nos termos
e para os efeitos do disposto no art. 825.º, n.º 1, do CPC, ou seja, para que este venha requerer a separação de
285
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
bens ou juntar o documento comprovativo de que essa separação já foi decretada ou que se encontra ainda em
curso a acção judicial para esse efeito (cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 20 de Outubro de 2005, proc.
7914/2005-8, in [Link].
927
Condição, pois, essencial, é a de que o cônjuge não seja parte na acção da qual resulta a diligência
ofensiva dos seus bens. Não tendo sido citado nos termos do art. 825.º, n.º 1, do CPC, é lícito ao cônjuge do
executado deduzir embargos de terceiro de forma a proteger o direito à sua meação sobre os bens comuns — cfr., a
este propósito, o Ac. do STJ, de 17 de Abril de 1980, proc. 068680, in BMJ, 296.º, 1980, p. 229, bem como o Ac.
do STJ, de 6 de Julho de 2000, in BMJ, 499.º, p. 211, e o Ac. do TRL, de 28 de Junho de 2007, proc. 2927/2007-
6, in [Link].
928
Quanto ao regime jurídico do art. 825.º, n.º 1, do CPC, vide CAPELO, Maria José, «Pressupostos
processuais na acção executiva», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, pp. 83 a 86.
929
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRP, de 19 de Outubro de 2006, proc. 0634635, in [Link],
segundo o qual “[A] actual redacção do artº 825º permite que, sejam penhorados bens comuns do casal com a
única ressalva de que não sejam conhecidos bens do executado suficientes para satisfazer a dívida, o que redunda
numa total inversão da posição do legislador relativamente à preservação dos bens comuns do casal face aos
interesses do credor em ver satisfeito o seu crédito sobre um dos membros desse casal.”
930
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 17 de Abril de 1980, proc. 068680, in BMJ, 296.º, 1980, p. 229,
o Ac. do TRP, de 30 de Maio de 2000, proc. 0020582, in [Link]., e o Ac. do STJ, de 13 de Dezembro de
2005, proc. 3321/05-1, in [Link].
931
Quanto à qualidade de terceiro em relação ao cônjuge citado nos termos e para os efeitos do disposto
no art. 825.º do CC, o Ac. do TRP, de 28 de Maio de 1992, proc. 9250098, in CJ, tomo III, 1992, p. 297, veio
considerar que “[O] facto de o cônjuge de um executado ser citado nos termos do artigo 825 do Código de Processo
Civil não afasta a qualidade de terceiro, pois a execução não é mais do que o processo que dá satisfação ao
processo declarativo em que se estabeleceu o direito a que a execução visa dar satisfação, sendo, pois, no processo
declarativo, que se exigia a intervenção do referido cônjuge para se considerar afastada essa qualificação de
terceiro”. Ora, semelhante interpretação não se afigura a mais correcta, porquanto a qualidade de terceiro resulta
da circunstância do cônjuge do executado ter ou não sido citado para os autos da acção executiva,
independentemente do facto de constar como obrigado no título que serve de fundamento a essa execução.
286
Legitimidade
executado, o cônjuge não executado pode deduzir embargos de terceiro com fundamento na
violação do regime da penhorabilidade subsidiária em relação aos bens comuns do casal932.
932
Cfr., no mesmo sentido, CAPELO, Maria José, «Pressupostos processuais na acção executiva», in
Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 89.
933
Vide, nesse sentido, MENDES, João de Castro, Direito Processual Civil III, ob. cit., p. 125.
934
Com efeito, estando em causa um título executivo judicial ou extrajudicial contra ambos os cônjuges,
não se encontra na disponibilidade do exequente poder optar por intentar a acção executiva contra apenas um dos
cônjuges, dado que tal circunstância colide com a aplicação do disposto no art. 1695.º do CC (cfr., nesse sentido,
PINTO, Rui, Penhora, Venda e Pagamento, p. 30). Acresce a isto que, estando em causa uma dívida contraída por
ambos os cônjuges (art. 28.º-A, n.º 3, 1.ª parte, do CPC), uma dívida contraída por um dos cônjuges, mas que seja
comunicável ao outro cônjuge (art. 28.º-A, n.º 3, 2.ª parte), bem como a entrega de uma coisa que só possa ser
disposta por ambos os cônjuges (art. 28.º-A, n.º 3, 3.ª parte, do CPC), verifica-se uma situação de litisconsórcio
necessário entre ambos os cônjuges, pelo que não é lícito ao credor exequente optar por demandar apenas um dos
cônjuges para essa execução – e ainda que tenha conhecimento prévio da inexistência de bens comuns do casal,
tendo em conta o disposto no art. 28.º.-A, n.º 3, do CPC (vide, a este propósito, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção
Executiva Singular, ob. cit., p. 146). Em sentido contrário, cfr. FREITAS, José Lebre de; MENDES, Armindo Ribeiro,
Código de Processo Civil Anotado, vol. 3.º, ob. cit., pp. 364 e 365, segundo os quais o art. 825.º do CPC é
aplicável, não só aos casos de responsabilidade exclusiva de um dos cônjuges, como também nos casos em que,
de acordo com a lei substantiva, a responsabilidade dos cônjuges é comum, mas a execução foi movida contra
apenas um dos responsáveis, quer quando exista um título executivo contra ambos os cônjuges e o exequente optou
287
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
próprios do cônjuge não executado. Com efeito, ainda que a dívida seja da responsabilidade do
casal, não tendo sido a execução promovida contra os dois cônjuges, só podem ser penhorados
os bens próprios do cônjuge executado, pressupondo-se, pois, a falta de bens comuns do casal
que responderiam, em primeira linha, pela dívida exequenda (art. 1685.º do CC)935. Por isso,
incidindo a penhora sobre um bem próprio do cônjuge do executado e não sendo aplicável o
disposto no art. 825.º, n.º 1, do CPC, o único meio ao seu alcance para reagir contra essa
agressão traduz-se na dedução de embargos de terceiro, em conformidade com o disposto no
art. 352.º do CPC936. Para o efeito, o cônjuge do executado deve alegar e provar a natureza
própria (ou comum) dos bens atingidos pela penhora ou pela diligência judicial937.
por demandar apenas um deles, quer nos casos em que só existe título executivo a favor de um dos cônjuges.
935
Cfr. o Ac. do TRP, de 28 de Maio de 1992, in CJ, tomo III, 1992, p. 299.
936
Vide, a este propósito, o Ac. do TRL, de 20 de Outubro de 2005, proc. 7914/2005-8, in [Link].
Com efeito, neste acórdão suscitava-se a questão de saber se o cônjuge do executado podia deduzir oposição à
penhora de um bem próprio indevidamente atingido por essa diligência, ou se, ao invés, tal incidente deveria ser
indeferido por apenas lhe ser lícito recorrer aos embargos de terceiro. A Relação veio entender que, não assumindo
o proprietário do bem a posição de executado nessa acção, estava-lhe vedada a possibilidade de deduzir oposição à
penhora, só lhe restando, consequentemente, a possibilidade de deduzir embargos de terceiro. De facto, tal decisão
afigura-se como a mais acertada. Na verdade, a oposição à penhora (e à execução) constitui um meio de defesa
privativo do executado, pelo que se encontra vedada a possibilidade de utilização deste meio por parte de um
terceiro. Por outro lado, tratando-se de um bem próprio do cônjuge do executado, não poderia ser aplicado o regime
jurídico previsto no art. 825.º, n.º 1, do CPC (quanto à penhora de bens comuns do casal em execução movida
contra um dos cônjuges), nem tão pouco o previsto no art. 864.º-A do CPC (quanto à penhora de bens imóveis ou
estabelecimento comercial que o executado não possa alienar livremente, ou quando esteja em causa a casa de
morada de família).
937
Cfr. o Ac. do STJ, de 28 de Fevereiro de 2008, proc. 4683/07 – 6.ª secção, in [Link]: “O facto de
os executados serem casados no regime da comunhão geral de bens e de terem sido ambos condenados no
mesmo documento que agora constitui título executivo, não torna dispensável o cumprimento do disposto no art.
825.º do CPC. (…) Ante as penhoras e a omissão do exequente, poderiam os executados reagir mediante embargos
de terceiro - art. 352.° do CPC - já que são terceiros em relação aos bens próprios e aos bens comuns, no caso
destes não deverem ser atingidos pela penhora.”
288
Legitimidade
938
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 14 de Junho de 2002, proc. 0230916, in [Link].
939
Os poderes processuais que são concedidos ao cônjuge do executado nos termos do art. 864.º-A do
CPC não se encontram isentos de criticas, dado que o cônjuge do executado é chamado a exercer todo um conjunto
de direitos processuais próprios do executado, ainda que não reúna legitimidade processual para poder intervir na
qualidade de executada em sede executiva (cfr., a este propósito, CAPELO, Maria José, «Pressupostos processuais
na acção executiva», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, pp. 92 e 93).
940
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRP, de 13 de Novembro de 2007, proc. 0720762, in [Link].
941
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 4 de Junho de 1998, proc. 98B272, in [Link].
289
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Uma vez que o executado carece de legitimidade activa para a dedução de embargos de
terceiro, a lei processual prescinde de exigência de um litisconsórcio activo necessário entre os
cônjuges para a dedução do incidente de embargos de terceiro, ainda que esteja em causa a
penhora de bens comuns do casal ou a penhora de bens que só possam ser alienados ou
onerados com o consentimento de ambos os cônjuges (arts. 1682.º e 1682.º-A do CPC)945.
942
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRE, de 15 de Janeiro de 1998, in CJ, tomo I, 1998, p. 257.
943
Vide, nesse sentido, REGO, Lopes do, Comentários do Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 326.
944
No domínio do Código de Processo Civil de 1876, o Assento de 9 de Abril de 1935, publicado no Diário
do Governo, de 7 de Maio de 1935, veio determinar que “os embargos de terceiro eram meio competente para a
mulher casada com marido comerciante, executado por dívida comercial, poder ilidir a presunção do art. 15.º do
Código Comercial, com o fundamento de que a dívida não foi aplicada em proveito comum do casal.”
945
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 301.
290
Legitimidade
946
Cfr. o Ac. do TRL, de 13 de Julho de 1995, proc. 0092651, in [Link]: “Os embargos de terceiro
desenvolvem-se entre terceiro e exequente, pelo que devem ser desentranhadas as contra-alegações apresentadas
pelo executado.”
947
Esta regra quanto à determinação da legitimidade passiva para os embargos de terceiro é aplicável
actualmente no processo civil espanhol, embora com a particularidade de que a oposição deve ser sempre deduzida
contra o exequente, embora possa também ser formulada contra o executado, em regime litisconsorcial, se tiver
sido este o responsável pela nomeação à penhora do bem pertencente ao terceiro e atingido por essa diligência
(cfr., a este propósito, MONTERO AROCA, Juan, El Nuevo Proceso Civil – Ley 1/2000, ob. cit., p. 765).
948
De acordo com o disposto no § 7771, II, do ZPO, sendo a oposição de terceiro intentada contra o credor
e o devedor enquanto partes na acção executiva, verifica-se uma situação de litisconsórcio entre os demandados.
949
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 302. Vide, no mesmo sentido,
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 312.
950
Cfr., a este propósito, REDENTI, VELLANI, Diritto Processuale Civile, vol. I, 3.ª ed., Giuffrè, Milão, 1999,
p. 426, segundo os quais a oposição de terceiro deve ser intentada, tanto contra o credor exequente, como contra o
devedor executado, verificando-se uma situação de litisconsórcio necessário, dado que a decisão definitiva quanto à
291
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
exercício simultâneo de duas pretensões diversas: uma dirigida contra o credor exequente e
outra contra o devedor executado, sendo certo que a reunião processual destas duas pretensões
marca o núcleo fundamental dos embargos de terceiro951.
Deste modo, no sistema processual civil actual, o incidente de embargos de terceiro dá
origem a uma instância pluri-subjectiva, a qual implica a presença obrigatória das partes
primitivas, pelo que a falta de uma delas nesse incidente implica a nulidade do processo após a
apresentação da petição de embargos, ao abrigo do disposto nos arts. 194.º e 195.º do CPC.
Importa salientar que esse litisconsórcio necessário passivo se impunha já em diversas
situações em que os embargos de terceiro eram deduzidos somente contra o exequente,
maxime nos casos em que o exequente pretendia alegar em sede de contestação que o
executado vendera os bens a um terceiro com o único propósito de frustrar a execução ou ainda
quando pretendesse invocar que a propriedade dos bens apreendidos lhe pertencia
(nomeadamente em sede de execução para entrega de coisa certa) ou ao executado (exceptio
dominii), o que o obrigava a chamar o terceiro à execução através de um incidente de
intervenção principal provocada952.
propriedade do bem penhorado deve estabilizar-se na ordem jurídica através do confronto entre todas as partes.
Segundo PASQUALE CASTORO, Il processo di esecuzione nel suo aspetto pratico, Giuffrè, Milão, 2002, p. 815, a
falta de citação do devedor executado para os termos do processo de embargos de terceiro implica a nulidade de
todo o processo. De todo o modo, de acordo com a sentença da CSC It., proc. 5674/1997, a nulidade do processo
de oposição de terceiro por falta de citação do devedor executado é sanável mediante a intervenção do devedor no
processo declarando aceitar sem reserva a decisão proferida nesse processo.
951
Cfr. ANGEL FERNANDEZ, Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 377.
952
Cfr., nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do Código Revisto,
ob. cit., p. 313.
292
Competência
SECÇÃO II
COMPETÊNCIA953
Nos termos do art. 353.º, n.º 1, do CPC, a petição de embargos de terceiro não está
sujeita a distribuição, dado que corre por apenso relativamente ao processo de onde tenha
emanado a penhora ou o acto judicia ofensivo do direito do embargante954 955 956.
Na verdade, revestindo os embargos de terceiro a natureza de uma acção incidental
relativamente ao processo principal, a competência957 para o conhecimento do fundamento dos
953
Apesar de a Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro (LOFTJ) ter sido revogada pelo art. 186.º, d), da Lei
n.º 52/2008, de 28 de Agosto (diploma que aprovou a nova Lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais
Judiciais), optou-se por se manter na redacção do presente capítulo a referência à Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro,
porquanto a Lei n.º 52/2008, de 28 de Agosto, apenas será aplicável a todo o território nacional em 1 de Setembro
de 2010.
954
No mesmo sentido, vide o art. 599 da LEC ao abrigo do qual a oposição de terceiro deve ser intentada
no tribunal onde se encontra a correr a acção executiva, pelo que este tribunal tem competência funcional para a
apreciação dos seus termos.
955
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 28 de Abril de 1998, proc. 9820240, in [Link]: “os
embargos de terceiro devem correr por apenso à causa onde haja sido ordenado o acto ofensivo do direito do
embargante e no tribunal onde essa causa pende”, bem como o Ac. do TRP, de 15 de Novembro de 1999, proc.
9950991, in [Link].
956
Na vigência do Código de Processo Civil de 1876 não se verificava a apensação do processo de
embargos ao processo executivo. Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 19 de Junho de 1909: “O processo de
embargos de terceiro é distinto do da execução em que estes foram opostos, e, assim, não pode ordenar-se a sua
apensação.” (GENTIL, Francisco, Dicionário do Supremo Tribunal de Justiça, ob. cit., Lisboa, 1933, p. 456).
957
Quanto à configuração da competência enquanto medida do poder jurisdicional de um tribunal, aferindo-
se, consequentemente, pela medida da função jurisdicional que cabe a um tribunal, cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de,
A Competência Declarativa dos Tribunais Comuns, Lex, Lisboa, 1994, p. 31.
293
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
embargos deduzidos pelo terceiro é atribuída, em primeira linha, ao juiz desse processo958. Na
verdade, o juiz do processo principal é quem reúne as melhores condições para apreciar do
mérito da causa porquanto a diligência ofensiva da posse ou do direito incompatível do terceiro
resultou da acção principal por si dirigida959.
958
Quanto ao princípio da reserva de jurisdição e ao exercício do poder jurisdicional nos incidentes de
pendor declarativo na acção executiva, vide GERALDES, António Santos Abrantes Geraldes, «O Juiz e a Execução»,
in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 25.
959
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ Br., de 19 de Agosto de 2008, in [Link], segundo o qual
“Em princípio, o juízo que determinou a prática de um ato executivo é o competente para conhecer dos
inconformismos daí decorrentes, tal como ocorre nos embargos à execução por carta (art. 747 do CPC) e nos
embargos de terceiro (art. 1.049 do CPC). De fato, em tese, seria descabido atribuir tal competência para outro
juízo, que não ergueu os fundamentos jurídicos do ato executivo impugnado.”
960
Ao abrigo do disposto no art. 96.º da LOFTJ, podem ser criadas, em matéria cível, varas cíveis, juízos
cíveis, juízos de pequena instância cível e juízos de execução. Por outro lado, e em casos justificados, podem ainda
ser criadas varas com competência mista, cível e criminal.
961
De acordo com o art. 24.º da LOFTJ, na sua redacção anterior à que lhe foi dada pelo Decreto-Lei
n.º 303/2007, de 24 de Agosto, a alçada do tribunal da Relação era de € 14.963,94.
294
Competência
termos de acordo com a tramitação prevista para o processo ordinário, o juiz de execução962
declarou-se incompetente para conhecer esse incidente963 e remeteu os seus termos para a vara
cível, ao abrigo do disposto nos arts. 357.º, n.º 1, do CPC, e 97.º, [Link] 1, a) e 4 da LOFTJ.
Por sua vez, o juiz da vara cível declarou-se incompetente para o conhecimento desse
incidente uma vez que as partes não tinham requerido a intervenção do tribunal colectivo e por
entender que o juízo de execução era o tribunal competente ao abrigo do disposto nos arts. 64.º
n.º 1, 97.º, n.º 1, a) e 102-A, todos da LOFTJ, originando-se, assim, um incidente de conflito
negativo de competência.
O Tribunal da Relação do Porto considerou que, embora o juízo de execução fosse
competente para processar os autos do incidente de embargos de terceiro, já o julgamento
desse incidente e a consequente elaboração da sentença teria que ter lugar perante a vara cível.
Deste modo, embora o juízo de execução fosse o tribunal competente para processar os termos
do incidente de embargos de terceiro, por força do disposto no art. 353.º, n.º 1, do CPC, devia,
contudo, ser remetido à vara cível para julgamento, com posterior devolução da sentença ao
juízo de execução964.
962
Relativamente ao poder actual do juiz de execução e às funções que lhe são acometidas em sede de
acção executiva, cfr. FREITAS, Lebre de, «Agente de execução e poder jurisdicional”, in Themis, ano IV, n.º 7, 2003,
p. 19.
963
A este respeito e a propósito do princípio da auto-suficiência do processo, refere TEIXEIRA DE SOUSA
que “[O] tribunal incompetente para se pronunciar sobre o mérito de uma acção tem competência para apreciar a
sua incompetência: é o que se designa habitualmente por Kompetenz-Kompetenz do tribunal (…) Isso significa que
o tribunal não é coadjuvado por nenhum outro tribunal na apreciação da sua competência, nem determina, em
regra, quando não se julga competente, qual o tribunal que considera competente para apreciar o objecto que lhe
foi apresentado. É por isso que a decisão de um tribunal sobre a sua competência ou incompetência não é
normalmente vinculativa para os outros tribunais.” (SOUSA, Miguel Teixeira de, A Competência Declarativa dos
Tribunais Comuns, ob. cit., p. 37).
964
Cfr. o Ac. do TRP, de 1 de Outubro de 2007, proc. 0752637, in [Link], no qual se decidiu que é
competente para os embargos de terceiro deduzidos por apenso a processo executivo o Tribunal que, segundo o
valor da causa, for o legalmente competente, bem como o Ac. do TRL, de 12 de Julho de 2006, proc. 1588/2006-
2, in [Link]: “Apensados à respectiva execução, a correr termos pelos juízos de execução de Lisboa, os autos
de embargos de terceiro, em consonância com o disposto no art.º 353, n.º 1, do CPC, recebidos que foram,
seguindo esses embargos a forma ordinária por força do disposto no art.º 357, n.º 1 do CPC, a tramitação dos
embargos cabe ao juízo de execução sendo remetido às varas cíveis de Lisboa no momento e com vista ao
julgamento de facto.”
295
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Quanto a esta questão, afigura-se que o Tribunal da Relação não decidiu bem a causa.
Na verdade, os tribunais de competência específica conhecem de matérias determinadas pela
espécie de acção ou pela forma de processo aplicável, sendo ainda competentes para
conhecerem dos recursos das decisões das autoridades administrativas em processo de contra-
ordenação, nos termos do disposto no art. 102.º, n.º 2, da LOFTJ965.
Ora, à luz do art. 97.º, n.º 1, a), da LOFTJ, as varas cíveis têm competência para a
preparação e o julgamento das acções declarativas cíveis de valor superior à alçada do tribunal
da relação em que a lei preveja a intervenção do tribunal colectivo. Por sua vez, determina o art.
106.º, b), da LOFTJ, que compete ao tribunal colectivo julgar as questões de facto nas acções de
valor superior à alçada dos tribunais da Relação e nos incidentes e execuções que sigam os
termos do processo sumário de declaração e excedam a referida alçada.
Por outro lado, o art. 102.º-A da LOFTJ estipula que os juízos de execução têm
competência para exercer, no âmbito do processo de execução, as competências previstas no
Código de Processo Civil. Deste modo, os juízos de execução têm competência, no domínio da
respectiva circunscrição territorial, para praticar todos os actos que se inserem no âmbito do
processo de execução e de todas as acções que, nos termos legais, hajam de correr por apenso
à execução. Assim, só se as partes tiverem requerido atempadamente a intervenção do tribunal
colectivo (art. 646.º do CPC) é que o processo terá que ser remetido para o tribunal de estrutura
colectiva com competência na respectiva área territorial. Isto porque, nos termos do art. 106.º,
b), da LOFTJ, compete ao tribunal colectivo julgar as questões de facto nas acções de valor
superior à alçada dos tribunais da relação e nos incidentes e execuções que sigam os termos do
processo de declaração e excedam a referida alçada, sem prejuízo dos casos em que a lei de
processo exclua a sua intervenção. Contudo, a intervenção do tribunal colectivo foi
substancialmente limitada pela redacção que foi dada ao art. 646.º, n.º 1, do CPC pelo Decreto-
Lei n.º 183/00, de 10 de Agosto, porquanto este tribunal só intervém quando ambas as partes
assim o tiverem requerido, e desde que não se verifique nenhuma das circunstâncias previstas
965
Nos termos dos arts. 68.º e 69.º do CPC, compete às leis da organização judiciária determinar quais as
causas que, pelo seu valor ou pela forma de processo aplicável, se inserem na competência dos tribunais singulares
e dos tribunais colectivos e ainda quais as causas que, em razão da forma de processo aplicável, competem aos
tribunais de competência específica.
296
Competência
no n.º 2 dessa disposição legal. Deste modo, atenta a sua configuração actual, o tribunal
colectivo intervém de forma residual e excepcional966.
Assim, não tendo sido requerida pelas partes a intervenção do tribunal colectivo e
correndo os embargos de terceiro por apenso à acção principal em que tenha sido ordenada a
penhora ou a diligência judicial ofensiva, no caso em concreto seria competente para o
conhecimento dos embargos de terceiro o juízo de execução e não a vara cível967.
Por último impõe-se referir que esta solução não merece hoje qualquer censura face à
alteração legislativa que foi introduzida no art. 97.º, n.º 1, b), da LOFTJ, pela Lei n.º 42/2005,
de 29 de Agosto. Na verdade, esta disposição determina actualmente que as varas cíveis têm
competência para exercer, nas acções executivas fundadas em título executivo extrajudicial, de
valor superior à alçada dos tribunais da Relação, as competências previstas no Código de
Processo Civil, desde que a circunscrição em causa não se encontre abrangida pela
competência de outro tribunal. Assim, existindo na mesma circunscrição um juízo de execução
enquanto tribunal de competência específica, este tribunal terá competência para o
conhecimento dos incidentes declarativos — maxime, dos embargos de terceiro — que venham
a ser suscitados nas acções executivas, ainda que o respectivo valor exceda a alçada do tribunal
da Relação. Deste modo, a vara cível terá competência, a título residual, para o conhecimento
dos incidentes suscitados nos processos executivos, cujo valor exceda a alçada do tribunal da
Relação, mas apenas se nessa circunscrição não existirem juízos de execução.
966
Cfr., quanto à limitação da intervenção do tribunal colectivo, SOUSA, Miguel Teixeira de, «As recentes
alterações na legislação processual civil», in ROA, ano 61, vol. I, 2001, p. 76.
967
Cfr. o Ac. do TRP, de 29 de Novembro de 2005, proc. 0524452, in [Link], bem como o Ac. do
TRP, de 31 de Outubro de 2006, proc. 0625180, in [Link].
297
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Por sua vez, os tribunais de competência especializada são aqueles cuja competência se
encontra delimitada em função do âmbito material da causa968, isto é, conhecem de matérias
determinadas, independentemente da forma de processo aplicável (art. 64.º, n.º 2, da LOFTJ),
sendo certo que a lei permite a criação, em casos justificados, de tribunais de competência
especializada mista (art. 64.º, n.º 3, da LOFTJ).
Estando em causa a dedução de embargos de terceiro relativamente a uma diligência
judicial ofensiva da posse ou de um direito incompatível do embargado que tenha sido decretada
no âmbito de um processo que se encontre a ser tramitado por um tribunal de competência
especializada, cabe a esse tribunal a competência para o conhecimento do incidente processual
dos embargos de terceiro. Nessa exacta medida, e.g., o tribunal de família será materialmente
competente para o conhecimento dos embargos de terceiro opostos ao arrolamento decretado
no âmbito de um processo de divórcio969.
968
Nos termos do art. 78.º da LOFTJ, podem ser criados os seguintes tribunais de competência
especializada: instrução criminal, família, menores, trabalho, comércio, marítimos e de execução de penas.
969
Cfr. o Ac. do TRL, de 9 de Janeiro de 1986, in CJ, tomo I, 1986, p. 83, bem como o Ac. do STJ, de 28
de Outubro de 1986, in BMJ, 360.º, p. 551.
298
Formalismos da acção de embargos de terceiro
CAPÍTULO II
TRAMITAÇÃO DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
SECÇÃO I
FORMALISMOS DA ACÇÃO DE EMBARGOS DE TERCEIRO
1. FORMALIDADES DA PETIÇÃO
Tal como sucede nas demais acções judiciais, a instância dos embargos de terceiro
inicia-se com a apresentação da petição inicial em juízo mediante impulso do embargante, ao
abrigo do princípio nullum judex sine actore (art. 267.º, n.º 1, do CPC). Trata-se, na verdade, de
uma imposição do princípio do dispositivo e de uma consequência da concepção privatística do
processo, em que “a resolução do pleito depende fundamentalmente da vontade das partes,
sendo o juiz um simples árbitro passivo, controlando a observância das normas e proclamando o
resultado final.”970
O Código de Processo Civil actual, prevê no seu art. 353.º, n.º 2, que o embargante
deve deduzir a sua pretensão mediante petição971. Tratando-se de um incidente processual
deduzido a título de oposição, a petição deve obedecer aos requisitos processuais previstos no
art. 467.º do CPC, embora com as necessárias adaptações face à natureza deste incidente. Na
petição inicial deve ainda o embargante oferecer de imediato a prova quanto à factualidade
970
Cfr. BAPTISTA, José João, Processo Civil I – Parte Geral e Processo Declarativo, 8.ª ed., Coimbra
Editora, 2006, p. 73.
971
De acordo com o disposto no art. 1040.º, n.º 2, do CPC , o embargante devia oferecer com a petição
1961
inicial de embargos de terceiro prova sumária da sua posse e da sua qualidade de terceiro, podendo, para esse
efeito, juntar documentos e indicar testemunhas até ao número de cinco.
299
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
alegada, sob pena de, não o fazendo, ficar precludida a possibilidade de apresentar a prova em
momento posterior972.
Na formulação da petição inicial de embargos de terceiro, deve ainda o embargante
indicar o valor desse incidente, sem prejuízo de ser ao juiz quem compete fixar o valor da causa
(art. 315.º, n.º 1, do CPC). Com efeito, tal ónus resulta claramente do art. 357.º, n.º 1, do CPC,
o qual faz depender a tramitação subsequente dos embargos de terceiro das normas previstas
para o processo ordinário ou sumário de declaração consoante o valor que lhe tenha sido
atribuído. Na verdade, embora os embargos de terceiro se encontrem actualmente configurados
como um incidente de intervenção de terceiros, não perderam, contudo, a estrutura de acção,
conforme resulta, aliás, da formação de caso julgado material quanto à sentença neles
proferida973.
No que concerne à determinação do valor dos embargos de terceiro, os arts. 305.º a
319.º não apresentam qualquer critério especificamente previsto para os embargos de terceiro.
Contudo, sendo os embargos de terceiro um incidente da instância na modalidade de
intervenção de terceiros, o art. 313.º, n.º 1, do CPC determina que o valor dos incidentes é o da
causa a que respeitam, salvo se o incidente tiver realmente valor diverso do da causa.
Em função deste critério geral, sucede, não raras vezes, que o valor atribuído ao
incidente dos embargos de terceiro segue o valor atribuído à causa principal974. Contudo, tal
entendimento não se apresenta como sendo o mais correcto. Na verdade, atento o critério
definido pelo art. 313.º, n.º 1, do CPC, afigura-se que sempre que o valor do incidente seja
diverso do valor da causa principal (por exemplo, numa execução para pagamento de quantia
certa com o valor de € 25.000,00, foi penhorado um bem no valor de € 5.000,00), a
972
Nos termos do art. 595.3 da LEC, o terceiro deve apresentar na petição o fundamento que sustenta a
sua pretensão e apresentar um princípio de prova por escrito — documento de natureza pública ou privada — sem o
qual o tribunal deverá indeferir liminarmente a pretensão deduzida, embora possa convidar no terceiro a sanar esse
vício (cfr. MONTERO AROCA, Juan, El Nuevo Proceso Civil – Ley 1/2000, ob. cit., p. 765).
973
Cfr. o Ac. do TRP, de 17 de Abril de 2008, proc. 0735309, in [Link].
974
Contudo, o valor do incidente dos embargos de terceiro não tem que ser necessariamente igual ao valor
da causa principal, porquanto o valor da acção principal é determinado em função do pedido e não em resultado do
valor dos bens penhorados (cfr. SAMPAIO, J. M. Gonçalves, A Acção Executiva e a Problemática das Execuções
Injustas, 2.ª ed., Almedina, 2008, p. 292).
300
Formalismos da acção de embargos de terceiro
determinação do valor deve ser feita em função do critério do valor da coisa, previsto no art.
311.º do CPC975.
Assim, se pelos embargos de terceiro o embargante pretende fazer valer o seu direito de
propriedade sobre a coisa indevidamente penhorada ou apreendida judicialmente, o valor do
incidente corresponderá ao valor da coisa. Se, em contrapartida, o terceiro pretender tutelar
outro direito real, na determinação do valor da causa deverá atender-se quer ao seu conteúdo,
quer à sua duração provável. Deste modo, se o usufrutuário, e.g., pretender embargar de
terceiro contra a penhora da propriedade plena de um bem, a determinação do valor dos
embargos deverá ter em consideração, não só o conteúdo desse direito (nomeadamente em
função dos direitos que lhe são atribuídos no respectivo título constitutivo do usufruto – art.
1445.º do CC), como também o prazo previsto para a sua duração (art. 1443.º do CC).
Importa ainda salientar que, tratando-se de uma verdadeira acção autónoma, ainda que
corra por apenso976 em relação à causa principal, o valor relevante para efeito de interposição de
recurso ordinário (por referência à alçada do tribunal a quo) é o do incidente de embargos de
terceiro e não o do valor da causa principal relativamente à qual os embargos correm por
apenso977.
2. NATUREZA DA ACÇÃO
975
Cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 316; MARQUES, J. P. Remédio,
Curso de Processo Executivo Comum à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 339 e CARDOSO, Eurico Lopes, Manual
da Acção Executiva, ob. cit., p. 389.
976
De acordo com LEBRE DE FREITAS, entre as diversas modificações introduzidas ao regime anterior,
passou a frisar-se que os embargos de terceiro se processam por apenso, quando anteriormente se afirmava tão-só
que eram deduzidos "como dependência do processo", sendo certo que esta modificação, por si só acentua a
natureza estruturalmente autónoma da acção de embargos de terceiro (FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui;
REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º, ob. cit., p. 620). Por outro lado, tal como salienta
SALVADOR DA COSTA, o facto de os embargos de terceiro correrem por apenso relativamente à causa principal
permite a marcha paralela de ambos os procedimentos e a consequente celeridade processual (cfr. COSTA,
Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 222).
977
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRE, de 13 de Novembro de 2003, proc. 2531/03-2, in [Link].
301
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
que a dedução de embargos de terceiro representa uma verdadeira acção judicial de natureza
declarativa978, com estrutura e autonomia próprias relativamente ao processo de execução em
relação ao qual corre por apenso979 980.
Na verdade, tal qualificação resulta, desde logo, de três características essenciais:
- da tramitação dos embargos de terceiro de acordo com a estrutura complexa prevista
para o processo ordinário ou sumário de declaração, consoante o valor da causa (art. 357.º, n.º
1, do CPC);
- na possibilidade de dedução de um pedido reconvencional para o reconhecimento da
exceptio dominii do embargado (art. 357.º, n.º 2, do CPC); e
- no efeito de caso julgado material quanto à sentença que se venha a pronunciar sobre
o mérito dos embargos de terceiro, circunstância que revela a autonomia do objecto dos
embargos de terceiro em relação à acção principal relativamente à qual são processados por
apenso (art. 358.º do CPC).
Ademais, uma vez alcançada a fase contraditória dos embargos de terceiro, a acção
segue os termos próprios do processo declarativo com vista à obtenção de uma sentença final
que decida do mérito da causa, guiando-se, designadamente, pelas regras impostas pelos
princípios processuais do dispositivo, do contraditório e do inquisitório, circunstância que marca
a sua autonomia própria face à acção executiva principal de onde tenha resultado a diligência
ofensiva da posse ou do direito incompatível do embargante.
Atenta a finalidade e o âmbito dos embargos de terceiro, importa aferir qual a natureza
da acção judicial por via da qual o embargante se opõe à penhora que tenha atingido
ilicitamente os bens que integram o seu património.
A este propósito, dispõe o art. 4.º, n.º 1, do CPC que as acções judiciais podem ser
declarativas ou executivas. Enquanto as primeiras visam obter a declaração do direito, isto é,
978
Relativamente à concepção do incidente de embargos de terceiro enquanto verdadeira acção judicial
com estrutura declarativa autónoma que não se confunde com a da execução, vide PIMENTA, Paulo, «Acções e
incidentes declarativos na pendência da execução», in Themis, ano V, n.º 9, 2004, p. 55.
979
Cfr., a este propósito, FREITAS, José Lebre de, «Enxertos declarativos no processo executivo», in
Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, ob. cit., p. 642.
980
Cfr. o Ac. do TRC, de 3 de Junho de 2008, proc. 245-B/2002C.1, in [Link]: “Os embargos de
terceiro apresentam a estrutura de uma acção declarativa autónoma, antecedida por uma fase introdutória de
carácter preventiva ou cautelar, podendo pedir-se o reconhecimento do direito de propriedade e a entrega da coisa
apreendida judicialmente.”
302
Formalismos da acção de embargos de terceiro
que o tribunal se “pronuncie sobre a solução jurídica concreta aplicável ao caso submetido a
julgamento”981, em contrapartida as acções executivas, pressupondo a existência de um título
executivo do qual resulta de forma inequívoca um direito já reconhecido, são aquelas pelas quais
a parte requer ao tribunal as providências adequadas à reparação efectiva do direito violado.
Por sua vez, as acções declarativas podem ser de simples apreciação, de condenação
ou constitutivas.
O incidente de embargos de terceiro não configura uma acção declarativa de
condenação, porquanto o embargante não pode requerer que os embargados sejam condenados
na prestação de uma coisa ou de um facto pressupondo ou prevendo a violação do seu direito.
Em contrapartida, as finalidades deste incidente ficam plenamente asseguradas através
da propositura de uma acção judicial de simples apreciação (positiva), por via da qual o
embargante requer ao tribunal que seja judicialmente reconhecido de que é titular da posse ou
de um direito sobre o bem penhorado que se afigura incompatível com a penhora ou com a
realização ou o âmbito dessa diligência. Nessa exacta medida, sendo reconhecida a titularidade
do direito (através da acção de simples apreciação) e decretada, consequentemente, a extinção
da penhora que incidiu sobre o bem, esta consequência assume um carácter acessório
relativamente à pretensão principal, pelo que é a finalidade desta (simples apreciação do direito
invocado) que determina a natureza da acção judicial subjacente.
Todavia, tendo em conta a ampliação do âmbito objectivo dos embargos de terceiro em
consequência da reforma processual de 95/96 e a consequente possibilidade de discussão
quanto à titularidade do direito de fundo, em determinadas circunstâncias o incidente processual
dos embargos de terceiro pode assumir a natureza de uma verdadeira acção constitutiva. Tal
será o caso, e.g., em que tanto o embargante como o embargado (em sede de exceptio dominii)
se arrogam simultaneamente proprietários do bem penhorado e requerem ao tribunal o
reconhecimento do direito de propriedade sobre esse bem — o primeiro com base na aquisição
originária do bem com fundamento em usucapião pela posse, pedindo, consequentemente, que
o tribunal decrete a aquisição da propriedade sobre o bem penhorado, e o segundo com
fundamento na propriedade do bem com base na presunção resultante da inscrição do direito no
registo predial — caso em que a decisão a ser proferida pelo tribunal poderá implicar a produção
981
Cfr. VARELA, Antunes; BEZERRA, J. Miguel; NORA, Sampaio e, Manual de Processo Civil, 2.ª ed.
(reimpr.), Coimbra Editora, 2004, p. 73.
303
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
982
Vide, a este propósito, o Ac. do TRL, de 14 de Abril de 2005, proc. 425/2005-2, in [Link].
983
Quanto à configuração da causa de pedir de acordo com a tese da individualização e da substanciação,
vide SOUSA, Miguel Teixeira de, Sobre a Teoria do Processo Declarativo, ob. cit., pp. 156 e 157.
984
Vide, a este propósito, COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 223.
985
Cfr. o Ac. do TRP, de 16 de Julho de 1997, in CJ, tomo III, 1997, p. 203.
986
Nos termos do art. 193.º do CPC, a petição inicial será inepta quando falte ou seja ininteligível a
indicação do pedido ou da causa de pedir, quando o pedido esteja em contradição com a causa de pedir ou quando
se cumulem causas de pedir ou pedidos substancialmente incompatíveis entre si. Com efeito, o objectivo principal
do legislador é o de impedir que uma acção que se encontre viciada por falta ou contradição interna da matéria ou
objecto do processo possa prosseguir por não ser possível, atenta a estrutura da acção, um acto unitário de
julgamento (MENDES, João de Castro, Direito Processual Civil III, ob. cit., p. 47).
304
Formalismos da acção de embargos de terceiro
comprou determinada fracção predial da qual por isso tem a posse material, pois que faltam os
factos e circunstâncias de factos relevantes ou integrantes dessa posse”987.
987
Ac. do TRL, de 7 de Julho de 1994, proc. 0083541, in [Link].
988
Quanto à manifestação do corpus na posse, divide-se a doutrina clássica entre a prática efectiva de
actos materiais sobre a coisa (Jhering) ou, ao invés, sobre a mera possibilidade de prática desses actos materiais
(Savigny), sendo certo que a concepção de posse adoptada pela civilística portuguesa aproxima-se da tese sufragada
por Savigny, bastando, pois, uma mera relação de subordinação da coisa à vontade da pessoa, embora, no caso da
aquisição originária por usucapião, se assista a uma aproximação à teoria defendida por Jhering (cfr., a este
propósito, ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 90).
989
Quanto ao animus na posse — concebido como a intenção de agir como o titular do direito a que o
exercício do poder de facto se refere (ASCENSÃO, José de Oliveira, Direito Civil – Reais, ob. cit., p. 91) —, a doutrina
subjectivista de Savigny distancia-se diametralmente da doutrina objectivista de Jhering, sendo certo que o Código
Civil abraçou a concepção subjectivista da posse, tal como melhor resulta do disposto no art. 1253.º, a), do CC.
990
Vide, quanto à causa de pedir e ao ónus de alegação nos embargos de terceiro fundados em posse, o
Ac. do STJ, de 13 de Março de 1997, processo 697/96 – 2.ª Secção, in [Link], bem como o Ac. do STJ, de 4
de Outubro de 2007, proc.2370/07 – 7.ª secção, in [Link]. Cfr., em sentido contrário, o Ac. do STJ, de 13 de
Janeiro de 2000, proc. 1025/99 – 7.ª secção, in [Link], segundo o qual o embargante apenas tem de invocar
o corpus sobre a coisa, não carecendo de alegar o animus uma vez que, exercendo de antemão os poderes de facto
sobre a coisa, beneficia desde logo da presunção da posse em nome próprio, ao abrigo do disposto no art. 1252.º,
n.º 2, do CC.
991
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 24 de Maio de 2001, proc. 1240/01 – 7.ª secção, in [Link].
305
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
992
Vide, a este propósito, o Ac. do TRP, de 16 de Junho de 1987, in [Link].
993
Quanto ao facto de apenas os direitos reais serem susceptíveis de posse, cfr. ALMEIDA, L. P Moitinho,
Restituição de Posse e Ocupação de Imóveis, ob. cit., p. 37. Vide, no mesmo sentido, o Ac. do STJ, de 16 de Março
de 1976, in BMJ, 25.º, p. 184.
994
MESQUITA, Miguel, Apreensão de Bens em Processo Executivo e Oposição de Terceiro, ob. cit., p. 102.
995
Quanto ao facto de a onerosidade da prova recair sobre o embargante, cfr. FREDERICO CARPI;
MICHELE TARUFFO, Commentario Breve al Codice di Procedura Civile, ob. cit., p. 1841.
996
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 30 de Outubro de 2003, proc. 0334119, in [Link].
997
Cfr. o Ac. do TRL, de 29 de Abril de 1993, proc. 0056646, in [Link].
306
Formalismos da acção de embargos de terceiro
998
SOUSA, Miguel Teixeira de, Sobre a Teoria do Processo Declarativo, ob. cit., p. 42.
999
Consistindo o pedido típico dos embargos de terceiro no levantamento da penhora sobre os bens
embargados, qualquer outro pedido reveste natureza acessória e pode ser suprimido por completo sem que tal
circunstância altere o âmbito ou a natureza dos embargos de terceiro (cfr., nesse sentido, ANGEL FERNANDEZ,
Miguel, Derecho Procesal Civil III, ob. cit., p. 380).
1000
A este propósito a jurisprudência divide-se quanto à questão de saber se a prestação de caução poderá
ser determinada oficiosamente pelo tribunal ou se devem ser as partes a requerer essa prestação. Com efeito, o Ac.
do TRP, de 15 de Junho de 1998, proc. 9850511, in [Link], veio determinar que “[E]m embargos de terceiro,
não tendo sido requerida por qualquer das partes prestação de caução, não pode o tribunal ordenar que o
embargante preste caução para salvaguarda dos interesses do embargado, sendo nulo o respectivo despacho.”
Contudo, não se afigura que tal interpretação seja a mais correcta, tanto mais quanto é certo que do art. 356.º do
CPC parece resultar claramente que a prestação de caução poderá ser determinada oficiosamente pelo tribunal –
vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 28 de Janeiro de 2002, proc. 0151830, in [Link], segundo o qual “a
restituição provisória da posse, a efectivar se o embargante a pediu, pode, no despacho que receba os embargos de
terceiro e já decretado arresto, ser oficiosamente condicionada à prestação de caução”. Todavia, o juiz só poderá
sujeitar o embargante à prestação de caução até ao proferimento do despacho de recebimento dos embargos, não
podendo fazê-lo oficiosamente em momento posterior.
1001
No sentido de o art. 356.º do CPC atribuir ao juiz um poder discricionário e não vinculado no que
concerne à liberdade de dispensar ou não a prestação de caução, bem como quanto ao juízo se ela é ou não
necessária para alcançar o fim visado pela lei, cfr. o Ac. do STJ, de 5 de Março de 2002, proc. 320/02 – 6.ª
secção, in [Link].
1002
Cfr. o Ac. do TRC, de 11 de Julho de 2000, proc. 1815/2000 – 1.ª secção, in [Link]: “É através
do incidente de embargos que o terceiro, não sendo parte na acção executiva, pode ser restituído provisoriamente à
posse do bem.” Cfr., também, o Ac. do TRP, de 18 de Abril de 2002, proc. 0230100, in [Link].
307
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
nada obsta a que o embargante preste de imediato e de forma voluntária uma caução1003 pelo
valor correspondente ao direito invocado pelo embargante ou o dos bens atingidos pela diligência
se este for inferior1004. Em caso de extinção dos embargos de terceiro por inutilidade
superveniente da lide (por exemplo, se tiver caducado a providência cautelar relativamente à
qual tenham sido deduzidos por apenso os embargos), deve ser oficiosamente determinada pelo
tribunal a restituição da caução ao embargante1005.
Assim, os embargos de terceiro apenas podem reconduzir-se ao pedido de levantamento
da penhora por violação do direito ou por ofensa da posse, bem como ao pedido cautelar e
acessório de restituição provisória da posse, dado que é essa a finalidade do incidente de
embargos de terceiro, tal como surge configurado pelo disposto nos arts. 351.º e 359.º do CPC.
Nesta medida, não é admissível, em sede de embargos de terceiro, a formulação de um pedido
de declaração de nulidade da penhora ou de reconhecimento de vícios da execução1006, uma vez
que a eventual nulidade da penhora deve ser arguida pelas próprias partes, maxime pelo
executado, no processo principal1007.
De igual modo, fica também vedada ao terceiro a possibilidade de suscitar em sede de
embargos a inexistência de título executivo ou a inexequibilidade do direito que o exequente
pretende fazer valer em sede executiva, porquanto essa defesa extravasa manifestamente o
âmbito objectivo dos embargos de terceiro1008.
Assim, o pedido deduzido pelo embargante em sede de embargos de terceiro deve
reconduzir-se, quer ao levantamento da penhora sobre os bens indevidamente penhorados por
não integrarem o património do executado — ainda que tal pedido implique uma apreciação
1003
Cfr. o Ac. do TRL, de 12 de Dezembro de 2003, proc. 0081202, in [Link]: “Não tem cabimento
nos autos de prestação de caução a discussão e solução da inadmissibilidade da oposição por embargos de
terceiro, sendo nos autos de embargos que o juiz terá de verificar a existência dos requisitos respectivos.”
1004
Cfr. o Ac. do TRL, de 11 de Outubro de 1990, proc. 0018566, in [Link].
1005
Cfr. o Ac. do TRL, de 8 de Março de 2001, proc. 0015108, in [Link].
1006
Cfr., nesse sentido, o Ac. STJ, de 20 de Novembro de 2003, proc. 2795/03 – 1.ª secção, in
[Link].
1007
MONTELEONE, Diritto Processuale Civile, 2.ª ed., CEDAM, Pádua, 2000, p. 165, apud FREDERICO
CARPI; MICHELE TARUFFO, Commentario Breve al Codice di Procedura Civile, ob. cit., p. 1842.
1008
Cfr. a sentença da CSC It., proc. 974/1968, e, na doutrina, PASQUALE CASTORO, Il processo di
esecuzione nel suo aspetto pratico, Giuffrè, Milão, 2002, p. 816, apud FREDERICO CARPI; MICHELE TARUFFO,
Commentario Breve al Codice di Procedura Civile, ob. cit., p. 1842.
308
Formalismos da acção de embargos de terceiro
4. REGISTO DA ACÇÃO
Nos termos do art. 3.º, n.º 1, a), do CRPred., estão sujeitas a registo as acções que
tenham por fim, principal ou acessório, o reconhecimento, a constituição, a modificação ou a
extinção de algum dos direitos referidos no artigo anterior, bem como as acções de impugnação
pauliana.
Nesta exacta medida, embora a lei não faça qualquer referência expressa aos embargos
de terceiro, sempre que esteja em causa a dedução de embargos de terceiro fundados num
direito incompatível com o âmbito ou a finalidade da diligência e que possam importar o
reconhecimento, a constituição, modificação ou extinção de um direito real sobre um bem
sujeito a registo, é obrigatório o registo desta acção atento o facto de ter por objecto o
reconhecimento da existência e titularidade de um direito invocado sobre o bem atingido pela
penhora ou pelo acto judicial de apreensão ou entrega de bens1010.
Ademais, importa referir que a data do registo da acção de embargos de terceiro
relativamente à data de registo da penhora pode ter implicações decisivas quanto à eventual
procedência ou improcedência dos embargos de terceiro1011.
1009
Vide, a este propósito, o Ac. do STJ, de 9 de Dezembro de 2004, proc. 2573/04 – 2.ª secção, in
[Link].
1010
Cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 306.
1011
MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo Comum à Face do Código Revisto, ob. cit.,
p. 343.
309
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
310
Tempestividade
SECÇAO II
TEMPESTIVIDADE
Nos termos do art. 353.º, n.º 2, do CPC, os embargos de terceiro com finalidade
repressiva devem ser deduzidos no prazo de trinta dias a contar da data em que a diligência foi
efectuada ou em que o embargante teve conhecimento da ofensa1012 1013
, mas nunca depois dos
respectivos bens terem sido já vendidos ou adjudicados (terminus ad quem)1014 1015.
1012
Cfr. o Ac. do TRL, de 23 de Maio de 1991, proc. 022876, in [Link].
1013
A este propósito o Tribunal Constitucional julgou inconstitucional, por violação do artigo 20.º da CRP, a
norma do art. 237.º, n.º 3, do CPPT, quando interpretado como determinando o início da contagem do prazo para
dedução dos embargos de terceiro a data da realização da penhora, arresto, ou qualquer acto judicialmente
ordenado de apreensão ou entrega de bens, mesmo nos casos em que o terceiro só toma conhecimento do acto
ofensivo da posse ou do direito subsequentemente à realização deste, mas antes da venda do bem (cfr. o Ac. do TC
n.º 468/2001, in DR, II Série, n.º 276, de 28 de Novembro de 2001).
1014
O Código de Processo Civil de 1876 não fixava qualquer prazo para a dedução dos embargos de
terceiro, determinando apenas que este processo só poderia ser deduzido antes da adjudicação definitiva ou da
arrematação (REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 432).
Porque tal preceito levantava dúvidas quanto à tempestividade para a dedução dos embargos de terceiro,
nomeadamente no que concerne à questão de saber se os embargos podiam ser deduzidos antes da adjudicação
ou arrematação, mas já depois de decorrido um ano sobre a data da penhora, o Código de Processo Civil de 1939
passou a determinar expressamente no seu art. 1037.º que os embargos deviam ser deduzidos no prazo de vinte
dias a contar da prática do acto ofensivo da posse ou da data em que o embargante teve conhecimento dele.
311
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
O art. 1040.º, n.º 1, do CPC , dispunha que os embargos de terceiro deviam ser deduzidos, como
1961
dependência do processo em que tivesse sido ordenado o acto ofensivo da posse, nos vintes dias seguintes àquele
em que foi praticado o acto ou em que o embargante teve conhecimento dele, mas nunca depois de os respectivos
bens terem sido judicialmente vendidos ou adjudicados.
1015
Ao contrário do que sucede no sistema processual português, no âmbito do direito espanhol não se fixa
qualquer prazo para a dedução da tercería de domínio. Com efeito, nos termos do art. 596., n. 1, da LEC, “[L]a
tercería de dominio podrá interponerse desde que se haya embargado el bien o bienes a que se refiera, aunque el
embargo sea preventivo.”
1016
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 26 de Junho de 2003, proc. 03B1342, in [Link].
1017
Cfr. o Ac. do TRP, de 28 de Maio de 1987, in CJ, tomo III, 1987, p. 175, o Ac. do TRL, de 2 de
Fevereiro de 1989, in BMJ, 384.º, p. 646, o Ac. do STJ, de 22 de Abril de 1997, proc. 766/96 – 1.ª Secção, in
[Link], e o Ac. do STJ, de 30 de Novembro de 2006, proc. 4244/06 – 7.ª secção, in [Link].
1018
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRL, de 14 de Abril de 2005, proc. 425/2005-2, in [Link].
1019
Cfr. o Ac. do STJ, de 22 de Junho de 2004, proc. 2111/04 – 6.ª secção, in [Link].
1020
Ac. do STJ, de 26 de Junho de 2003, proc. 03B1342, in [Link].
1021
Cfr. o Ac. do TRL, de 23 de Maio de 1991, proc. 022876, in [Link].
312
Tempestividade
Nos termos do art. 353.º, n.º 2, do CPC, a dedução de embargos de terceiro nunca
pode ter lugar após a venda judicial do bem penhorado1024 1025.
1022
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 16 de Junho de 1992, in BMJ, 418.º, p. 872.
1023
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 14 de Dezembro de 2006, in [Link].
1024
A este propósito impõe-se salientar que a lei processual não admite a dedução de embargos de terceiro
contra a própria venda de bens no âmbito da acção executiva (cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 11 de Março de
2003, proc. 443/2003, in [Link].
1025
Nos termos do art. 596.2 da LEC, a oposição de terceiro deve ser intentada até ao momento em que se
verifique a transmissão do bem penhorado a favor do credor ou de um terceiro que o tenha adquirido em hasta
pública, motivo pelo qual a oposição será liminarmente indeferida se vier a ser intentada em momento posterior a
essa transmissão do bem penhorado. Com efeito, uma vez que a tercería de dominio tem por finalidade principal
313
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Quid iuris, porém, se essa venda tiver sido objecto de um pedido de anulação ao abrigo
do disposto no art. 908.º do CPC?
A este propósito poder-se-ia argumentar que, estando pendente um pedido de anulação
da venda executiva, deixar-se-ia de verificar a limitação imposta pelo art. 354.º do CPC, pelo que
só com o trânsito em julgado da decisão que confirmasse a validade da venda é que se
verificaria a extemporaneidade efectiva para a dedução de embargos de terceiro.
Não se afigura, contudo, aceitável tal solução. Ainda que a venda executiva do bem
objecto de embargos de terceiro tenha pendente um pedido de anulação da venda, os embargos
de terceiro deduzidos nessa fase processual são intempestivos e, como tal, devem ser
liminarmente indeferidos pelo tribunal1026.
impedir a execução forçosa do bem penhorado, esta deve ser intentada antes que se verifique a alienação ou
adjudicação coactiva do bem em sede executiva. Uma vez que a lei processual civil espanhola determina que a
tercería de domínio só pode ser deduzida até que se verifique a transmissão do bem de acordo com a lei civil
substantiva, importa estabelecer algumas distinções quanto ao momento até ao qual poderá ser intentada a
oposição de terceiro. Assim, estando em causa a penhora de dinheiro ou de saldos de contas bancárias, a oposição
só poderá ter lugar até à sua entrega ao exequente; no caso de penhora de acções ou de participações sociais, até
que se verifique a sua entrega material ou uma traditio ficta; no caso de bens móveis, até que se verifique a entrega
bem ao exequente adjudicatário ou a um terceiro; tratando-se de bens imóveis, até à transmissão do auto de venda
ou de adjudicação (cfr. MONTERO AROCA, Juan, El Nuevo Proceso Civil – Ley 1/2000, pp. 766 e 767).
1026
Cfr. o Ac. do TRC, de 22 de Novembro de 2000, in CJ, tomo V, 2000, p. 22.
1027
As férias judiciais encontram-se regulamentadas no art. 12.º da LOFTJ e decorrem desde Domingo de
Ramos a Segunda-feira de Páscoa, de 1 a 31 de Agosto e de 22 de Dezembro a 3 de Janeiro.
314
Tempestividade
O prazo reveste natureza judicial quando apenas determina o período de tempo “para se
produzir um determinado efeito processual”, ou seja, quando se destina a “regular a distância
entre os actos do processo”, pressupondo, assim, a existência de um processo.
Por sua vez, os prazos substantivos dizem respeito ao exercício de direitos materiais,
motivo pelo qual lhes são “aplicáveis as regras da caducidade, a menos que a lei se refira
expressamente à prescrição” (artigo 298.º, n.º 2, do CC), tendo o seu decurso como
consequência, sem prejuízo das regras respeitantes à necessidade da sua indicação em juízo, a
extinção do respectivo direito.
Na redacção que lhe foi dada pelo Decreto-Lei n.º 457/80, de 10 de Outubro, o art.
144.º, n.º 3, do CPC dispunha que “o prazo judicial suspende-se, no entanto, durante as férias,
sábados, domingos e dias feriados”1028, sendo certo que o n.º 4 da aludida disposição legal
determinava que “o disposto no número anterior não se aplica aos prazos de propositura das
acções, com excepção dos embargos de terceiro, nem aos prazos de interposição dos recursos
extraordinários”.
Na sua actual redacção, o art. 144.º, n.º 4, do CPC determina que “[O]s prazos para a
propositura de acções previstos neste Código seguem o regime dos números anteriores.” Por
sua vez, o n.º 1 da aludida disposição legal preceitua que “[0] prazo processual, estabelecido
por lei ou fixado por despacho do juiz, é contínuo, suspendendo-se, no entanto, durante as férias
judiciais, salvo se a sua duração for igual ou superior a seis meses ou se tratar de actos a
praticar em processos que a lei considere urgentes”.
Alguma jurisprudência tem vindo a sustentar que, sendo de caducidade o prazo de 30
dias previsto para a dedução de embargos de terceiro de natureza repressiva, a sua contagem
1028
Através do Assento n.º 8/94, o Supremo Tribunal de Justiça veio determinar que “a suspensão dos
prazos judiciais, estabelecida no artigo 144.º, n.º 3, do Código de Processo Civil, não é aplicável ao prazo judicial de
propositura de acção previsto no artigo 382.º, n.º 1, a), do mesmo Código”. Com efeito, o Supremo Tribunal de
Justiça considerou que embora “os prazos de propositura de acções sejam caracterizados, em regra, como prazos
substantivos de caducidade, os mesmos podem também assumir uma natureza judicial sempre que o prazo esteja
relacionado com outra acção e o seu decurso tenha somente um efeito de natureza processual e não o da extinção
de um direito material”. Nesta medida, embora o prazo para a dedução de embargos de terceiro tenha a natureza
de prazo judicial, mostrava-se fundamentada a excepção introduzida no art. 144.º, n.º 4 do Código de Processo Civil
“pelo facto de o embargante não ter sido parte, em regra, no processo onde se ordenou a diligência judicial, e ter
por isso necessidade de preparar, no prazo de 20 dias, a acção destinada à defesa da sua posse, o que se não
verifica na acção tendente a evitar a caducidade de providência cautelar.”
315
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Dispõe o art. 353.º, n.º 2, do CPC, que o embargante deve deduzir a sua pretensão
mediante petição nos trinta dias subsequentes àquele em que a diligência foi efectuada ou em
1029
Cfr. nesse sentido o Ac. do STJ, de 11 de Julho de 1989, in BMJ, 389.º, p. 638, bem como o Ac. do
TRC, de 1 de Abril de 2008, proc. 5166/06.3TBLRA-B.C1, in [Link].
1030
Cfr. o Ac. do TRC, de 1 de Abril de 2008, proc. 5166/06.3TBLRA-B.C1, in [Link].
1031
Cfr. o Ac. do TRL, de 16 de Março de 2006, proc. 11249/2005-6, in [Link], o Ac. do STA, de 6
de Fevereiro de 1990, in BMJ, 394.º, p. 510, e o Ac. do TRL de 13 de Novembro de 1990, in BMJ¸ 401.º, p. 629.
1032
Cfr. o Ac. do TRC, de 3 de Fevereiro de 1987, in BMJ, 364.º, p. 952. Em sentido contrário, SALVADOR
DA COSTA sustenta que o prazo para a dedução de embargos de terceiro reveste a natureza de prazo substantivo,
embora seja contado nos termos do art. 143.º do CPC (cfr. COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit.,
p. 224).
1033
Cfr. o Ac. do TRL, de 25 de Maio de 2000, proc. 0024326, in [Link].
316
Tempestividade
que teve conhecimento da ofensa. Nessa exacta medida, o prazo processualmente previsto para
a dedução de embargos de terceiro assume a natureza de um prazo de caducidade porquanto é
extintivo do respectivo direito potestativo de acção1034.
Deste modo, coloca-se a questão de saber se o tribunal pode conhecer oficiosamente da
extemporaneidade dos embargos e proferir, consequentemente, um despacho de indeferimento
liminar, ou se, pelo contrário, tratando-se de um prazo de caducidade, a intempestividade dos
embargos apenas poderá ser conhecida mediante a respectiva invocação pelo(s) embargado(s).
No versão do Código de Processo Civil anterior à revisão de 95/96, a jurisprudência era
maioritária ao sufragar o entendimento de que, tratando-se de um prazo de caducidade, estava
vedado ao tribunal o conhecimento oficioso da intempestividade dos embargos de terceiro.
Desse modo, ao abrigo do disposto nos arts. 303.º, 333.º, n.º 2 e 342.º, n.º 2, todos do CC,
impendia sobre o embargado o ónus de invocar a extemporaneidade dos embargos, já que a não
expiração do prazo era um elemento constitutivo do direito do embargante1035. No entanto,
admitia-se a possibilidade de conhecimento oficioso da caducidade dos embargos sempre que
estes fossem deduzidos depois de os bens terem sido judicialmente vendidos ou adjudicados1036.
Em contrapartida, no actual regime do Código de Processo Civil, a jurisprudência tem
vindo a apresentar decisões contraditórias quanto à possibilidade de conhecimento oficioso pelo
tribunal quanto à tempestividade da dedução dos embargos. Por um lado tem vindo a ser
sufragado o entendimento de que o prazo para a dedução dos embargos de terceiro é extintivo
do respectivo direito potestativo da acção, pelo que, tratando-se de um prazo de caducidade, a
sua intempestividade deve ser invocada pelos embargados e não pode ser conhecida
oficiosamente pelo tribunal1037. Deste modo, tratando-se de um prazo de caducidade estabelecido
1034
Cfr. o Ac. do STJ, de 13 de Julho de 1988, in BMJ, 379.º, pp. 561 a 565.
1035
Cfr. nesse sentido, o Ac. do STJ, de 17 de Julho de 1988, in BMJ, 379.º, p. 561: “O embargante não
tem de fazer a prova da tempestividade da dedução dos embargos, que, no entanto, lhe cabe alegar, ao embargado
cabendo, na subsequente fase contraditória, provar o facto em que se funde a caducidade do direito de propor a
acção, em conformidade com a norma geral do art. 343-2 CC.”
1036
Cfr. nesse sentido, o Ac. do TRL, de 10 de Fevereiro de 2000, proc. 0084368, in [Link].
1037
Cfr. nesse sentido o Ac. do STJ, de 3 de Maio de 2001, proc. 1035/01 – 7.ª secção, in [Link]
“O juiz não pode conhecer oficiosamente da intempestividade dos embargos de terceiro, devendo a mesma ser
alegada e provada pelo embargado”, bem como o Ac. do TRC, de 1 de Abril de 2008, in [Link], com voto de
vencido do Sr. Juiz Desembargador Nunes Ribeiro, com a seguinte declaração: “Não aceito, por um lado, que o
tribunal não possa conhecer oficiosamente da extemporaneidade dos embargos de terceiro nem, por outro, que à
317
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
em matéria inserida no âmbito da disponibilidade das partes, mesmo que o tribunal se aperceba
do seu decurso, não se pode pronunciar oficiosamente sobre essa matéria por força do disposto
no art. 303.º do CC ex vi do art. 333.º, n.º 2, do CC1038.
Em sentido contrário, tem vindo a entender que o art. 354.º do CPC veio clarificar a
possibilidade dos tribunais conhecerem oficiosamente da intempestividade dos embargos atenta
a sua formulação legal [“Sendo apresentada em tempo (…)”]. Assim, esta disposição veio
estabelecer uma excepção ao normativo ínsito no art. 333.º, n.º 2, do CC, permitindo aos
tribunais o conhecimento oficioso da caducidade do direito de embargar, pelo que o juiz deve
rejeitar os embargos com fundamento em extemporaneidade se, analisada sumariamente a
prova apresentada, se convencer que os embargos foram deduzidos mais de trinta dias após o
conhecimento da diligência ofensiva da posse ou do direito incompatível1039.
A última tese apresentada é a que melhor se coaduna com o actual regime processual
dos embargos de terceiro. Na verdade, atenta a formulação legal do art. 354.º do CPC, a petição
inicial de embargos de terceiro deve ser indeferida liminarmente quando seja intempestiva. No
entanto, para que o tribunal se possa pronunciar oficiosamente sobre a caducidade do exercício
do direito, devem constar da petição inicial os factos que demonstrem de forma inequívoca em
que data o embargante teve conhecimento da diligência ofensiva da sua posse ou do direito1040.
Assim, o tribunal pode conhecer oficiosamente da excepção de caducidade dos embargos de
terceiro se, pelos factos constantes da petição inicial, constatar que o embargante teve
contagem do prazo para a sua dedução se apliquem as regras do art.º 279º do C. Civil. Resulta claramente do art.º
354º do [Link] vigente – como, aliás, vem acontecendo desde 1939 (vide Processos Especiais, de Alberto dos
Reis, vol. I, pág. 441 e segs) – que a dedução dos embargos fora do tempo é (e sempre foi) motivo de
indeferimento liminar ou de rejeição.”
1038
Cfr. o Ac. do TRL, de 13 de Março de 1997, in BMJ, 465.º, p. 628, o Ac. do TRC, de 2 de Maio de
2000, in BMJ, 497.º, p. 451, e, mais recentemente, o Ac. do TRE, de 15 de Fevereiro de 2007, proc. n.º 2348/06-
3, bem como o Ac. do TRC, de 1 de Abril de 2008, ambos in [Link].
1039
Cfr. o Ac. do TRL, de 2 de Fevereiro de 2005, in [Link], bem como o Ac. do TRL, de 25 de Maio
de 2000 proc. 00241326, in [Link].
1040
Cfr. o Ac. do TRL, de 16 de Março de 2006, proc. 11249/2005-6, o Ac. do TRC, de 23 de Outubro de
2007, proc. 233/[Link]-C1, bem como o Ac. do TRL, de 12 de Junho de 2007, proc. 2365/2007-1, todos in
[Link].
318
Tempestividade
1041
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRP, de 13 de Novembro de 2004, proc. 0456103, in [Link]: “Na
fase introdutória dos embargos de terceiro o juiz pode conhecer, oficiosamente, da tempestividade da sua
apresentação em juízo, devendo rejeitá-los, por extemporâneos, se analisada a prova, se convencer que foram
deduzidos mais de 30 dias após o conhecimento, pelo embargante, do acto que este considera ofensivo do seu
direito.”
1042
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 10 de Fevereiro de 2000, proc. 0084368, in [Link].
1043
Cfr. o Ac. do STJ, de 13 de Julho de 1946.
1044
Vide, nesse sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 314. Cfr. o Ac. do
TRP, de 12 de Outubro de 1995, proc. 9530642, in BMJ, 450.º, p. 560, o Ac. do TRP, de 13 de Janeiro de 2000,
in [Link], o Ac. do STJ, de 18 de Fevereiro de 2003, proc. 4562/02 – 6.ª secção, in [Link]., e o Ac. do
TRP, de 14 de Janeiro de 2008, proc. 6898/07, in [Link].
319
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
relativamente à data do conhecimento efectivo da ofensa1045. Assim, caso o tribunal não tenha
indeferido liminarmente ou rejeitado o incidente de embargos de terceiro por não dispor de
elementos no processo que lhe permitissem decidir oficiosamente quanto à caducidade da
propositura da acção de embargos de terceiro, os embargados podem alegar e provar que os
embargos foram deduzidos de forma extemporânea1046.
Quanto a esta questão, o Tribunal da Relação de Lisboa, por acórdão de 25 de Fevereiro
de 2000, veio sufragar o entendimento de que cabe ao embargado o ónus da prova de que os
embargos foram deduzidos fora de tempo, “nada tendo o embargante de alegar e provar quando
à sua dedução tempestiva”1047. Esta questão não reúne o consenso doutrinário e jurisprudencial.
Com efeito, se por um lado se sustenta que ao embargante cabe apenas o ónus de alegar o
conhecimento superveniente1048, por outro defende-se que não basta a mera alegação, cabendo
também ao embargante a prova dessa superveniência1049.
Atenta a redacção do art. 353.º, n.º 2, do CPC, torna-se evidente que sobre o
embargante não incide apenas o ónus de alegar o conhecimento superveniente. Na verdade, de
acordo com a aludida disposição legal, ao deduzir a sua pretensão, o embargante deve
apresentar de imediato todas as provas, as quais se destinarão não só a provar o mérito da sua
pretensão, como também a sua tempestividade em caso de invocação de superveniência
subjectiva, porquanto o art. 354.º do CPC permite ao tribunal indeferir in limine a petição de
embargos sempre que estes não sejam apresentados em tempo. Deste modo, se já passaram
mais de trinta dias a contar da data em que se verificou a realização da diligência, recai sobre o
embargante o ónus de demonstrar ao tribunal que só teve conhecimento dessa diligência
1045
CASTRO, Anselmo de, A Acção Executiva Singular, Comum e Especial, ob. cit., p. 357. Cfr. também o
Ac. do STJ, de 29 de Abril de 1998, in BMJ, 476.º, p. 341 e o Ac. do TRP, de 31 de Maio de 2001, proc. 0130809,
in [Link].
1046
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TR, de 14 de Março de 1994, in BMJ, 435.º, p. 898, bem como o Ac. do
TRP, de 14 de Janeiro de 2008, proc. 6898/07, in [Link].
1047
Cfr. o Ac. do TRL, de 25 de Fevereiro de 2000, proc. 0033776, in [Link].
1048
Cfr., nesse sentido, Sousa, Miguel Teixeira de, A Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 314, bem como o
Ac. do TRP, de 16 de Novembro de 1985, in BMJ, 352.º, p. 430 e o Ac. do TRL, de 10 de Abril de 2006, proc.
2783/2006-6, in [Link].
1049
Cfr. o Ac. do TRL, de 16 de Março de 2006, proc. 11249/2006-6, in [Link].
320
Tempestividade
1050
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 28 de Abril de 1987, in CJ, tomo II, 1987, p. 236, o Ac. do STJ,
de 13 de Julho de 1988, in BMJ, 379.º, p. 561 e o Ac. do TRP, de 18 de Abril de 2002, proc. 0230166, in
[Link]. Vide, ainda, pela sua pertinência, o Ac. do TRP, de 23 de Maio de 2000, proc. 0020504, in
[Link]: “Deve ser indeferida liminarmente a petição de embargos de terceiro se dela não consta ter o
embargante tido conhecimento da diligência pretensamente ofensiva há 30, ou menos, dias se esta teve lugar há
mais tempo do que esse prazo.”
1051
No que concerne às finalidades deste princípio importa destacar que o contraditório, além de garantir à
parte um direito de audição prévia antes que o tribunal se pronuncie sobre determinada decisão — nomeadamente
quando esta lhe possa vir a ser desfavorável —, garante-lhe ainda um direito de resposta e de tomar uma posição
definida sobre a pretensão ou conduta da parte contrária (cfr. o Ac. do TRC, de 23 de Setembro de 2008, proc.
465-A/2002.C1, in [Link]).
1052
Relativamente à configuração do princípio do contraditório enquanto garantia da imparcialidade do
tribunal perante as partes, vide SOUSA, Miguel Teixeira de, Sobre a Teoria do Processo Declarativo, ob. cit., p. 48.
1053
COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 226.
1054
De todo o modo é evidente que ainda que o tribunal não indefira os embargos de terceiro com
fundamento na sua intempestividade, nem por isso fica precludida a possibilidade da dedução da extemporaneidade
dos embargos pelos embargados (cfr., nesse sentido, o Ac. do TRL, de 14 de Junho de 2008, proc. 5225/2008, in
[Link]).
321
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
ter lugar quando o juiz tenha proferido um despacho de recebimento por ter formado a
convicção, com base na factualidade invocada pelo embargante, de que os embargos foram
deduzidos de forma tempestiva1055. Trata-se, na verdade, de uma solução que se conforma com o
regime processual previsto no art. 496.º do CPC, o qual permite ao tribunal conhecer
oficiosamente das excepções peremptórias cuja invocação a lei não torne dependente da
vontade do interessado1056.
1055
Será o caso em que o embargante vem invocar a superveniência subjectiva quanto ao conhecimento da
penhora ou da diligência ofensiva, isto é, de que só teve conhecimento desse acto depois de já terem decorrido
mais de trinta dias após a data da realização efectiva da diligência, pelo que a sua dedução será tempestiva. Nesse
caso, o embargado terá o ónus de demonstrar que o embargante teve conhecimento efectivo da diligência em data
anterior à que foi invocada na petição inicial de embargos, pelo que a sua dedução será intempestiva.
1056
Cfr. o Ac. do TRL, de 3 de Fevereiro de 2005, proc. 467/2005-6, in [Link].
1057
Cfr. o Ac. TRL, de 2 de Junho de 2005, proc. 2981/2005-8, in [Link]: “o prazo de caducidade a
que alude o artigo 353º/2 do CPC não se aplica tratando-se de embargos de terceiro com função preventiva; nestes
a tempestividade é aferida pelos limites definidos no artigo 359º do CPC. que visa precisamente os embargos
deduzidos, antes de realizada, mas depois de ordenada a diligência ofensiva da posse ou de qualquer outro direito
incompatível com o seu âmbito.”
1058
Cfr. o Ac. do TRL, de 2 de Fevereiro de 1994, proc. 0072751, in [Link].
322
Tempestividade
poderão ser instaurados logo que o autor tenha conhecimento da sentença que tiver decretado a
entrega da coisa1059.
Deste modo, os embargos preventivos não podem ser deduzidos antes de ordenada a
diligência, já que, até esse momento, não existe qualquer receio de ofensa da posse ou de um
direito incompatível. Por sua vez, os embargos também não devem ser deduzidos depois de
realizada a diligência, dado que ,em tal caso, carece de justificação o carácter preventivo dos
embargos1060. De qualquer forma, se os embargos forem deduzidos com uma finalidade
preventiva, ou seja, no pressuposto de que a penhora ainda não foi realizada, mas se forem
efectivamente deduzidos depois da penhora ter sido já realizada, nem por isso deverá o tribunal
indeferir os embargos com fundamento na sua intempestividade, devendo, ao invés, se
admitidos, com as necessárias adaptações em termos de alegação factual, enquanto embargos
de natureza repressiva1061.
1059
Cfr. o Ac do. TRL, de 27 de Junho de 1995, proc. 0004631, in [Link].
1060
Cfr. o Ac. do TRL, de 2 de Junho de 2005, proc. 2981/2005-8, in [Link].; Ac. do TRL, de 15 de
Dezembro de 1999, proc. 0055802, in [Link].
1061
Vide, nesse sentido, CARDOSO, Eurico Lopes, Manual da Acção Executiva, ob. cit., p. 388.
323
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
324
Fase introdutória dos embargos de terceiro
SECÇÃO III
FASE INTRODUTÓRIA DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
1062
Cfr. o Ac. do STJ, de 27 de Junho de 2006, proc. 1239/06, in [Link].
1063
Embora o despacho liminar tenha sido eliminado, pelo menos enquanto regra, no domínio da
tramitação processual declarativa com a reforma de 95/96, a verdade é que o legislador continuou a consagrar
algumas situações excepcionais em que a citação do réu é precedida de uma apreciação liminar pelo juiz (art.
234.º-A do CPC).
1064
Nos termos do art. 596., n. 2, da LEC, “[E]l tribunal, mediante auto, rachazará de plano y sin
sustanción alguna la demanda de tercería de domínio a la que no se acompañe el principio de prueba (…), así como
325
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
Deste modo, além de poder indeferir liminarmente a petição de embargos nos casos
previstos no art. 234.º do CPC1065, maxime quando esteja em causa uma situação de manifesta
improcedência do pedido1066, o juiz pode ainda indeferi-la quando resulte da factualidade alegada
que a mesma é extemporânea1067 ou quando seja evidente que o embargante carece de
legitimidade para intentar os embargos de terceiro (art. 351.º, n.º 1, do CPC)1068.
Quanto à “manifesta improcedência do pedido”, o tribunal deve indeferir liminarmente a
petição de embargos de terceiro se o embargante não alegar nem demonstrar desde logo que da
diligência judicial resultou a ofensa da sua posse1069 ou de um direito incompatível com o âmbito
ou a finalidade da diligência judicial1070. Vale isto por dizer que a manifesta improcedência do
pedido deve ser aferida somente em função da petição de embargos de terceiro e sem o recurso
à análise de elementos exteriores, os quais só em momento posterior, de recebimento ou
rejeição dos embargos, conjuntamente com o resultado das diligências probatórias realizadas,
podem ser utilizados para se concluir se há ou não probabilidade séria da existência do direito
invocado pelo embargante1071.
No que concerne à extemporaneidade dos embargos, o embargante deve oferecer na
sua petição inicial prova sumária do seu direito e dos factos em que fundamenta a sua
pretensão, bem como da data em que teve conhecimento da diligência ofensiva da sua posse ou
la que se interponga con posterioridad al momento en que, de acuerdo com lo dispusesto en la legislación civil, se
prduzca la transmisión del bien al acreedor o al tercero que lo adquiera en púbica subasta.”
1065
Cfr. o Ac. do TRP, de 16 de Junho de 1987, in CJ, tomo III, 1987, p. 272.
1066
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 16 de Junho de 1987, in CJ, tomo III, 1987, p. 203.
1067
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRL, de 19 de Janeiro de 1993, proc. 0065211, [Link]: “Devem ser
liminarmente indeferidos os embargos de terceiro quando se torna evidente que foram apresentados para além dos
oito dias sobre o conhecimento do acto feridor da posse, ainda quando a verificação desse prazo de oito dias
advenha de conhecimento oficioso reportado a outro processo.”
1068
Cfr. COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 227.
1069
Cfr. o Ac. do STJ, de 20 de Junho de 1995, proc. 087224, in [Link]: “Deve ser liminarmente
indeferida a petição de embargos de terceiro na qual se não alinham factos que permitam concluir pela existência
de um "corpus" e de um "animus" para se chegar à posse referida no artigo 1037 e seguintes do Código de
Processo Civil.”
1070
Cfr. o Ac. do TRL, de 11 de Janeiro de 1994, proc. 0074351, in [Link]: “É de manter o
indeferimento liminar da petição de embargos de terceiro se sai indiciado que o embargante não é titular do direito
de propriedade do prédio e que deste não tem a posse útil imediata.”
1071
Cfr. Ac. do TRL, de 22 de Junho de 2004, proc. 554/04, in [Link].
326
Fase introdutória dos embargos de terceiro
2. DESPACHO DE APERFEIÇOAMENTO
1072
Vide, a este propósito, o Ac. do TRL, de 22 de Fevereiro de 2001, proc. 0016976, [Link],
1073
“Em embargos de terceiro, na fase adminicular, o juiz pode oficiosamente indagar sobre o prazo ou a
tempestividade de embargos de terceiro.” (cfr. o Ac. do TRP, de 13 de Novembro de 2004, proc. 0456103, in
[Link]).
1074
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 22 de Junho de 1989, in BMJ, 388.º, p. 426, segundo o qual não
é parte o réu em relação ao qual tenha ocorrido a desistência da instância ou que foi afastado da causa por
transacção.
327
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
1075
Cfr., a este propósito, PIMENTA, Paulo, A Fase do Saneamento do Processo Antes e Após a Vigência do
Novo Código de Processo Civil, Almedina, 2003, p. 175.
1076
Quanto à noção de “factos essenciais”, enquanto factos que integram e que constituem a causa de
pedir, cfr. SOUSA, Miguel Teixeira de, «Apreciação de alguns aspectos da Revisão do Processo Civil - Projecto», in
ROA, ano 55, vol. II, 1995, p. 359.
1077
Cfr., a este propósito, SOUSA, Miguel Teixeira de, «Apreciação de alguns aspectos da Revisão do
Processo Civil - Projecto», in ROA, ano 55, vol. II, 1995, p. 362.
1078
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRL, de 29 de Março de 2007, proc. 4958/2006-2, in [Link].
1079
Cfr. BAPTISTA, José João, Processo Civil I – Parte Geral e Processo Declarativo, ob. cit., p. 76.
328
Fase introdutória dos embargos de terceiro
Esse convite ao aperfeiçoamento do articulado poderá ainda ter lugar quando o tribunal
verifique que a parte não juntou ao processo um documento essencial para o julgamento do
mérito da causa (v. g. quanto à titularidade de um direito incompatível com a finalidade ou o
âmbito da diligência)1080.
3. PRODUÇÃO DE PROVA
Ainda que o tribunal não indefira liminarmente a petição de embargos, tal não significa
que os embargos de terceiro devam ser automaticamente recebidos.
Na verdade, o tribunal deve dar início a uma fase instrutória tendencialmente sumária
destinada à apreciação do mérito dos embargos de terceiro, sendo certo que recai sobre o
embargante o ónus da prova de que o acto de penhora ofendeu a sua posse ou um direito que
se revele incompatível com o âmbito ou a finalidade dessa diligência (art. 342.º, n.º 1, do CC)1081.
Em sede probatória, o embargante tem o dever de apresentar a prova com a petição de
embargos, sendo certo que não se encontra limitado quanto ao tipo de prova admissível1082.
De todo o modo, o tribunal pode, oficiosamente, ordenar a produção de qualquer outra
prova que entenda que se revele necessária para uma correcta ponderação quanto à admissão
ou rejeição dos embargos (art. 265.º do CPC). Assim, o juiz deve ouvir as testemunhas arroladas
1080
Neste particular não se concorda com o sentido ínsito no Ac. do TRL, de 2 de Março de 2000, proc.
0007526, in [Link], segundo o qual “no domínio de embargos de terceiro, tornando-se necessário, para além
da inquirição das testemunhas arroladas, outros meios de prova, designadamente documentais e, não tendo a
parte, no momento próprio apresentado os documentos pertinentes mas outros, não o poderá fazer posteriormente
a coberto da faculdade concedida pelo artº 508º do actual CPC.”
1081
Cfr. o Ac. do STJ, de 21 de Fevereiro de 2008, proc. 15/08 – 7.ª secção, in [Link].
1082
Vide, a este propósito, a sentença do Tribunal Supremo de Espanha, de 12 de Dezembro de 1989,
segundo a qual “[L]a prueba de los hechos constitutivos de la acción de que se trata se puede lograr por cualquier
medio, de acuerdo con las reglas generales.” No entanto, quando esteja em causa a invocação da exceptio dominii
pelo embargante, nesse caso a prova deve ser feita através de prova documental (cfr., a este propósito, a sentença
do Tribunal Supremo de Espanha, de 2 de Abril de 1990, segundo a qual “la adquisición del dominio por el
tercerista antes del embargo puede constatarse mediante cualquier principio de prueba documental, sin necesidad
de la inscripción registral, y producirá efectos siempre que no exista duda respecto a la realidad de la transmisión
operada”.
329
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
e examinar as outras provas oferecidas pelo embargante na sua petição inicial1083, podendo
também ordenar qualquer outra diligência instrutória que se revele essencial para a formação da
sua convicção quanto à probabilidade séria da existência ou não do direito do embargante.
No entanto, as diligências probatórias não carecem de ser exaustivas, bastando apenas
que delas resulte a probabilidade séria da existência do direito invocado, atenta a natureza
provisória que a oposição assume nesta fase1084. Deste modo, o tribunal só deve proceder à
inquirição das testemunhas se os restantes elementos factuais e probatórios constantes do
processo não justificarem por si só a admissão dos embargos de terceiro1085, sendo certo, por
outro lado, que a inquirição das testemunhas oferecidas na petição inicial se destina apenas ao
apuramento das provas decisivas para o recebimento ou rejeição dos embargos1086. Importa
também referir que ainda que o embargante se tenha limitado a apresentar prova documental,
omitindo a indicação de qualquer testemunha, tal circunstância não implica a rejeição ou o
indeferimento automático dos embargos1087.
Quanto ao ónus da prova relativamente ao mérito dos embargos de terceiro, cabe ao
credor embargante demonstrar a posse ou a titularidade de um direito incompatível com a
realização ou o âmbito da diligência1088.
Nos termos do art. 354.º, 2.ª parte, do CPC, os embargos de terceiro devem ser
recebidos ou rejeitados conforme haja ou não probabilidade séria da existência do direito
invocado pelo embargante1089 1090. A formulação utilizada pelo legislador — “probabilidade séria da
1083
Ao abrigo do disposto no art. 595., n. 3, da LEC, na petição de embargos de terceiro deve o
embargante apresentar um princípio de prova por escrito que permita demonstrar o fundamento da sua pretensão.
1084
Cfr. o Ac. do TRP, de 30 de Abril de 2002, proc. 0220408, in [Link].
1085
COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 127.
1086
Ac. do STJ, de 30 de Outubro de1995, proc. 087732, in [Link].
1087
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRP, de 17 de Maio de 2001, proc. 0130608, in [Link].
1088
Cfr. SALVATORE SATTA; CARMINE PUNZI, Diritto Processuale Civile, ob. cit., p. 730.
1089
No Código de Processo Civil de 1876 levantava-se a questão de saber se este despacho seria apenas
para apreciar a prova informatória da posse ou se, pelo contrário, poderia ir além dessa apreciação,
330
Fase introdutória dos embargos de terceiro
existência do direito” — demonstra que nesta fase processual os embargos de terceiro seguem
uma tramitação característica dos procedimentos cautelares porquanto o juiz deve nortear-se por
um juízo valorativo sumário quanto ao preenchimento dos pressupostos de que depende a
procedência dos embargos de terceiro.
Sendo proferido após a realização das diligências instrutórias, o despacho de
recebimento ou de rejeição visa evitar que os embargos possam prosseguir quando, pelo exame
das provas oferecidas, se verifique que os embargos deduzidos não têm fundamento legal1091.
Assim, se o juiz constatar que se encontram preenchidos os pressupostos que permitem a
dedução do incidente de embargos de terceiro, maxime de que o embargante é terceiro perante
a acção e de que foi ofendida a sua posse ou um “direito incompatível”1092 com a diligência
judicial, e se concluir, atenta a prova produzida, de que existe uma probabilidade séria da
existência do direito invocado pelo embargante ― fumus boni iuris ―, então deve proferir um
despacho de recebimento dos embargos. Deste modo, e.g., devem ser liminarmente admitidos
os embargos de terceiro opostos à execução por quem não era parte nem interessado nela e
331
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
onde foi penhorado um imóvel posteriormente adquirido pelo embargante, mediante escritura
pública, que logo registou a aquisição a seu favor na Conservatória do Registo Predial, quando
desta ainda não constava registo da penhora1093.
Todavia, essa decisão do tribunal não é definitiva quanto à titularidade da posse ou do
direito incompatível. Na verdade, só depois de ser apurada a pertinente e concreta factualidade
que integra a norma fundamentadora é que se poderá concluir, mediante a formulação de um
juízo jurídico-normativo, se determinada pessoa tem a posse ou é proprietária de determinado
bem1094.
A formulação legal que permite ao juiz decretar o recebimento dos embargos demonstra
que é suficiente uma apreciação sumária do direito invocado, não devendo, pois, o tribunal
apreciar as provas através de um critério exigente e severo1095 1096.
Assim, para que os embargos de terceiro sejam recebidos, é suficiente um juízo de mera
probabilidade ou verosimilhança quanto ao preenchimento dos pressupostos processuais e ao
1093
Ac. do TRP, de 3 de Abril de 2000, proc. 0050263, in [Link].
1094
Cfr. o Ac. do TRP, de 9 de Março de 1994, in CJ, tomo II, 1994, p. 191, bem como o Ac. do STJ, de 23
de Janeiro de 2001, in DR, Iª Serie-A, de 8 de Março de 2001.
1095
REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, ob. cit., p. 442.
1096
Cfr. o Ac. do STJ, de 17 de Novembro de 1998, proc. 820/98 – 1.ª secção, in [Link]: “I - Para o
recebimento dos embargos de terceiro a lei reclama tão só uma prova sumária, informatória, contentando-se com a
simples probabilidade ou verosimilhança da existência da posse e da qualidade de terceiro. II - No juízo sobre essa
prova - que não é um juízo definitivo, de certeza - não se deve ser muito exigente ou severo, tendo nomeadamente
em conta que estamos perante um despacho preliminar, uma decisão provisória ou interina, que só deve conduzir à
rejeição nos casos inteiramente infundados, isto é, que manifestamente não ofereçam condições de viabilidade.”
Cfr., ainda, o Ac. do TRC, de 1 de Abril de 2008, proc. 514/07.1, in [Link]: “Os embargos de terceiro, na sua
fase introdutória, são recebidos ou rejeitados, conforme haja ou não probabilidade séria da existência do direito
invocado pelo embargante. Tal como no procedimento cautelar, não se exige um juízo definitivo ou de certeza sobre
a existência do direito, mas antes um simples juízo de verosimilhança. O juízo definitivo restará para a sentença final
que, conhecendo do mérito, constitui, nos termos gerais, caso julgado quanto à existência e titularidade do direito
invocado pelo embargante ou por algum dos embargados.”
332
Fase introdutória dos embargos de terceiro
sucesso dos embargos1097 — sendo certo que o embargante goza da presunção da titularidade do
direito de fundo quando invoque a posse na petição de embargos. Deste modo, na sua fase
introdutória, os embargos de terceiro apresentam uma componente cautelar (art. 387.º do
CPC)1098, bastando, pois, a produção de prova meramente informatória para que o tribunal possa
deliberar no sentido de receber ou rejeitar os embargos1099. Não se exige, pois, ao tribunal um
juízo de natureza definitiva ou de certeza, mas de simples probabilidade ou de verosimilhança1100.
Na verdade, este despacho tem um carácter tendencialmente provisório e limita-se a
considerar sumariamente o direito invocado, só devendo haver lugar à rejeição dos embargos de
terceiro quando o tribunal entenda que estes se afiguram manifestamente inviáveis1101.
Ora, uma vez que basta uma probabilidade séria da existência do direito do embargante
para que o tribunal receba os embargos, essa decisão, porque não sujeita a uma apreciação
contraditória, não constitui a solução definitiva da causa1102. O proferimento do despacho de
1097
Cfr. o Ac. do TRL, de 14 de Março de 1996, proc. 0011562, in [Link]: “Na fase inicial dos
embargos de terceiro, ao admiti-los, o juiz emite um juízo de probabilidade e não um juízo definitivo.”
1098
Cfr., nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo Comum à Face do Código
Revisto, ob. cit., p. 315. Vide também o Ac. do TRP, de 14 de Março de 1994, in BMJ, 435.º, p. 898: “No despacho
de natureza provisória de recebimento dos embargos de terceiro, o juiz deve contentar-se com um juízo de
probabilidade e verosimilhança sobre os requisitos exigidos, bastando, assim, a alegação pelo embargante da sua
posse, em termos concretos.”
1099
Cfr. CASTRO, Artur Anselmo de, A Acção Executiva Singular, Comum e Especial, ob. cit., p. 342. Vide,
também, o Ac. do TRL, de 14 de Março de 1996, proc. 0011562, in [Link].
1100
Cfr. o Ac. do TRP, de 19 de Maio de 1997, proc. 9750203, in [Link]: “Nessa fase processual, o
que se exige do julgador é que fundamente a sua decisão num juízo de mera probabilidade, pelo que a dúvida que
na sua consciência venha eventualmente a pairar deve ser desembaraçada tomando posição pela pretensão do
embargante, pois haverá sempre a possibilidade de poder dissipar essas incertezas no julgamento posterior”. Vide,
no mesmo sentido, o Ac. do TRL, de 27 de Janeiro de 2000, proc. 0074716, in [Link], bem como o Ac. STJ,
de 29 de Janeiro de 2008, proc. 4489/07 – 6.ª secção, in [Link].
1101
Cfr. o Ac. do STJ, de 30 de Junho de 1989, in [Link].
1102
A este propósito, TEIXEIRA DE SOUSA sustenta que a apreciação do tribunal deve assentar num “juízo
de probabilidade especialmente qualificada” sobre a existência do direito do embargante, ou seja, o tribunal só deve
admitir os embargos se estiver convicto da sua elevada probabilidade de procedência (SOUSA, Miguel Teixeira de,
Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 315). Por sua vez, CASTRO MENDES entende que este despacho não é
proferido em termos de possibilidade ou de viabilidade (lato sensu), ou de impossibilidade ou inviabilidade,
porquanto a aceitação dos embargos exige um quantum de demonstração superior, um “juízo de probabilidade do
seu êxito” (MENDES, João de Castro, Direito Processual Civil,, ob. cit., p. 140).
333
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
recebimento dos embargos constitui tão só uma condição essencial para o prosseguimento do
processo, nada obstando a que essa probabilidade séria seja infirmada pela defesa deduzida
pelos embargados1103.
Uma vez recebidos, os embargos de terceiro passam a ter uma tramitação totalmente
autónoma relativamente à acção principal — ainda que corram por apenso em relação a esse
processo1104 — sendo certo que podem seguir uma forma de processo distinta em relação à forma
da acção principal dado que o seu valor, em regra, é também diferente.
1103
Cfr. CARDOSO, Eurico Lopes, Manual da Acção Executiva, ob. cit., p. 391.
1104
O simples facto de os embargos de terceiro passarem a correr por apenso não prejudica a sua natureza
enquanto acção declarativa autónoma relativamente à acção de onde resultou a penhora ou a diligência judicial
ofensiva da posse ou do direito incompatível do embargante. Na verdade, o seu processamento por apenso deve-se
apenas a motivos de natureza organizativa e funcional, atento o facto de os embargos serem deduzidos contra um
acto produzido na causa principal que veio desencadear por si só o surgimento desse novo incidente.
1105
Com idêntica formulação prevê o art. 598.1 da LEC que a admissão da tercería de domínio implica a
suspensão da execução relativamente ao bem a que diga respeito.
1106
O Código de Processo Civil de 1876 dispunha no art. 926.º o seguinte: “Recebidos os embargos ficam
suspensos os termos do processo de que forem dependentes e pode logo o embargante requerer a restituição
provisória da posse, prestando caução.”
1107
Cfr. o Ac. do TRP, de 30 de Abril de 1998, proc. 9830511, in [Link].
334
Fase introdutória dos embargos de terceiro
indevidamente atingidos pela diligência, o tribunal não pode proceder à venda executiva desses
bens após o proferimento desse despacho sob pena dessa venda ser anulável1108.
Estando em causa a dedução de embargos de natureza preventiva, determina o art.
359.º, n.º 2, do CPC, que, sendo os embargos de terceiro recebidos, a diligência ofensiva da
posse ou do direito não pode ser realizada até que seja proferida uma sentença final. De todo o
modo, o tribunal pode determinar nesse caso que o embargante preste caução.
1108
Cfr. o Ac. do STJ, de 22 de Março de 1974, proc. 065150, in [Link].
1109
Cfr. o Ac. do TRP, de 13 de Novembro de 2007, proc. 0720860, in [Link].
1110
No processo civil espanhol, o art. 598.2 da LEC determina que o tribunal, mediante audiência prévia
das partes, poderá condicionar a admissão dos embargos de terceiro mediante a prestação de uma caução pelo
terceiro embargante como salvaguarda face aos eventuais danos e prejuízos que possam resultar para o exequente
em virtude da dedução infundada dessa oposição.
1111
Tal como denota LEBRE DE FREITAS, enquanto no regime processual anterior, a restituição provisória
da posse só podia ter lugar mediante a prestação da caução, com a reforma de 95/96 passou o juiz a gozar de
discricionariedade técnica quanto à decisão de prestação de caução (FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui;
REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º, ob. cit., p. 624.
1112
De acordo com TEIXEIRA DE SOUSA, os embargos repressivos assumem a título acessório uma função
cautelar, na medida em que o embargante requer a restituição provisória da posse dos bens penhorados (SOUSA,
Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 300).
335
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
1113
Cfr. FREITAS, José Lebre de; PINTO, Rui; REDINHA, João, Código de Processo Civil Anotado, vol. 1.º,
ob. cit., p. 625.
1114
Cfr. o Ac. do TRE, de 12 de Dezembro de 1996, in BMJ, 462.º, p. 506, o Ac. do TRP, de 5 de Maio de
1997, proc. 9750414, in [Link], e o Ac. do STJ, de 23 de Abril de 2002, proc. 02A818, in [Link].
1115
Cfr. o Ac. do TRP, de 10 de Julho de 2000, proc. 0050762, in [Link].
1116
Cfr. o Ac. do TRL, de 29 de Novembro de 2005, proc. 2383/05, in [Link].: o recebimento dos
embargos de terceiro apenas assegura o seu prosseguimento, mas não assegura que a decisão final seja no sentido
da existência do direito do embargante, nem sequer assegura que a instância dos embargos se extinguirá pelo
julgamento, pois que poderá ocorrer a extinção por inutilidade superveniente da lide.”
336
Fase introdutória dos embargos de terceiro
tenha já transitado em julgado, nada impede que, na decisão final, venha a ser proferida uma
decisão judicial a julgar os embargos improcedentes1117.
O juiz pode, também, alterar o sentido da decisão inicialmente proferida de recebimento
ou de rejeição dos embargos. Na verdade, uma vez que o despacho de recebimento dos
embargos tem uma natureza provisória, tabelar e adjectiva, e sem qualquer “pendor decisório de
ordem substantiva”, se o tribunal concluir que devia ter recusado o recebimento dos embargos
de terceiro com fundamento na sua intempestividade, pode proferir, mesmo oficiosamente, um
novo despacho de rejeição dos embargos, sem que com tal procedimento viole o disposto no art.
666.º, n.º 1, do CPC, dado que esse preceito não tem aplicação àquele despacho atento o facto
de este não produzir efeito de caso julgado1118.
Com efeito, o despacho de recebimento dos embargos de terceiro, como se referiu
supra, tem uma natureza provisória e liminar, não decidindo do mérito da causa, mas apenas
quanto ao prosseguimento dos embargos com base nos factos sumariamente alegados e
provados. Nessa medida, face à sua natureza provisória, este despacho é livremente modificável
pelo tribunal se este se verificar alguma irregularidade nesse despacho. Por outro lado, a
possibilidade de alteração desse despacho permite evitar a prática de actos inúteis, sendo, por
outro lado, justificável semelhante comportamento ao abrigo dos princípios da economia
processual, da transparência e da boa-fé.
5.1. FUNDAMENTOS
1117
Ac. do STJ, de 30 de Outubro de 1995, proc. 087732, in [Link].
1118
Cfr. o Ac. do TRP, de 23 de Setembro de 1999, proc. 9930958, in [Link], bem como o Ac. do
TRP, de 9 de Fevereiro de 2006, proc. 0536694, in [Link].
337
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
procedência dos embargos, seja porque não existe uma probabilidade séria quanto à existência
ou à incompatibilidade do direito invocado pelo embargante1119.
Nos termos do art. 355.º do CPC, se o juiz proferir despacho de rejeição do incidente de
embargos de terceiro, essa factualidade não impede que o embargante possa propor uma acção
judicial em que peticione o reconhecimento da titularidade do direito que sustentou a dedução
dos embargos de terceiro ou na qual reivindique a coisa apreendida1120.
Na verdade, o despacho de rejeição dos embargos de terceiro não produz efeitos de
caso julgado material quanto à existência ou à titularidade do direito invocado, pois que a
decisão do tribunal assenta num juízo de prova sumária do direito invocado.
1119
Cfr. o Ac. do TRP, de 6 de Maio de 1999, proc. 9930661, in [Link].
1120
A este propósito, o STJ entendeu, por acórdão datado de 4 de Fevereiro de 1947 (in RLJ, 80.º, p. 108),
que o despacho de rejeição dos embargos de terceiro não pode ser invocado como caso julgado para o efeito de
obstar a que o embargante proponha acção para fazer valer o seu direito de propriedade sobre os bens objecto dos
embargos (REIS, José Alberto dos, Processos Especiais, vol. I, pp. 446 e 447); vide, no mesmo sentido, o Ac. do
TRC, de 1 de Abril de 2008, proc. 514/07.1, in [Link], e, na doutrina, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de
Processo Executivo à Face do Código Revisto, ob. cit., p. 342.
338
Fase contraditória dos embargos de terceiro
SECÇÃO IV
FASE CONTRADITÓRIA DOS EMBARGOS DE TERCEIRO
1121
Cfr., quanto à importância do princípio do contraditório no processo civil, SOUSA, Miguel Teixeira de,
«Arguição de nulidades processuais e diligência das partes», in ROA, ano 61.º, vol. III, 2001, p. 1469: “O processo
civil, cuja estrutura é dialéctica ou polémica, pois que se apresenta como um debate ou uma discussão entre as
partes, reclama que a cada uma delas se dê a possibilidade de deduzir as suas razões, de oferecer as suas provas,
de controlar as do adversário e de discretear sobre umas e outras: é o princípio do contraditório.”
1122
Vide o Ac. do TRL, de 7 de Fevereiro de 1995, proc. 0088431, in [Link].
1123
Tratando-se de uma verdadeira acção declarativa com autonomia própria, seria mais rigoroso falar-se
em “citação” em vez de “notificação”, dado que se verifica um chamamento das partes primitivas à acção de
embargos de terceiro. Nessa medida, existindo uma pluralidade de réus e terminando em dias diferentes o prazo
para contestar, nada impõe o afastamento do regime previsto no art. 486.º, n.º 2, do CPC em relação aos
embargos de terceiro (cfr. o Ac. do STJ, de 16 de Dezembro de 1999, proc. 1047/99 – 2.ª secção, in [Link].
1124
Cfr. o Ac. do TRP, de 2 de Março de 2000, proc. 0030286, in [Link].
339
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
processo ordinário ou sumário de declaração, conforme o valor (art. 357.º, n.º 1, do CPC)1125 1126.
Com efeito, ao contrário do que sucedia no regime processual anterior à reforma de 95/96, no
regime actual devem ser notificadas as partes principais da acção para exercerem o seu
contraditório relativamente à petição de embargos1127.
Se os embargados não contestarem a petição de embargos de terceiro, aplicam-se os
efeitos cominatórios previstos para o regime jurídico da revelia (arts. 383.º a 385.º do CPC)1128,
implicando a falta de contestação o reconhecimento pelos embargados da factualidade deduzida
pelo embargante no seu libelo (ficta confessio)1129.1130 Contudo, uma vez que a legitimidade
processual passiva implica a existência de um litisconsórcio necessário entre os embargados, se
algum deles contestar a factualidade invocada na petição inicial, deve a acção seguir os seus
termos sem que se verifique a admissão de factos por falta de contestação.
No que concerne ao fundamento para a contestação dos embargados, cumpre referir
que, em virtude da revogação do art. 1041.º, n.º 1, pelo Decreto-Lei n.º 329-A/95, de 12 de
1125
Ainda que os embargos de terceiro surjam no Código de Processo Civil como um incidente processual,
o prazo para a apresentação da sua contestação é o do processo ordinário ou sumário, e não o da oposição nos
incidentes processuais – cfr., nesse sentido, o Ac. do TR, in CJ, tomo II, p. 32 apud REGO, Lopes do, Comentários
ao Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 330.
1126
Na versão do Código de Processo Civil anterior à reforma de 1995/96, apenas era notificado para
contestar o embargado, ou seja, a parte que tivesse promovido a diligência ofensiva da posse [art. 1042.º, a), do
CPC ]. A acção seguia os termos do processo sumário (art. 1033.º, n.º 1, ex vi art. 1042.º, proémio, ambos do
1961
CPC ]. Contudo, não era admitida a resposta à contestação, salvo se o embargado invocasse a exceptio dominii
1961
1127
Tratando-se efectivamente, de uma citação e não de uma notificação, dado que a sua finalidade
consiste em chamar as partes primitivas ao processo de embargos para aí exercerem o seu contraditório, essa
notificação deve ser feita directamente às partes e não aos seus mandatários, sob pena de se verificar a nulidade da
citação (cfr. COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 235, bem como o Ac. do TRL, de 25 de
Junho de 1998, in [Link]).
1128
Vide, nesse sentido, o Ac. do TRL, de 7 de Junho de 1990, proc. 0025982, in [Link], bem como
o Ac. do TRP de 9 de Maio de 1995, in BMJ, 447.º, p. 585.
1129
Cfr., no mesmo sentido, o regime previsto no art. 602 da LEC, o qual determina que, caso os
embargados não contestem a oposição deduzida pelo terceiro, essa inactividade dos embargados implica a
admissão da matéria factual alegada.
1130
No sentido de se verificar um efeito cominatório pleno (e não semi-pleno) em consequência da falta de
contestação aos embargos — desde que não sejam incapazes nem se trate de uma relação jurídica indisponível —,
cfr. o Ac. do TRL, de 7 de Junho de 1990, proc. 0025982, in [Link].
340
Fase contraditória dos embargos de terceiro
1131
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRC, de 31 de Março de 1987, in BMJ, 356.º, p. 703, o Ac. do TRP, de
5 de Novembro de 2001, proc. 0151180, in [Link], e o Ac. do STJ, de 24 de Outubro de 2002, proc.
02B2728, in [Link], segundo o qual “Em embargos de terceiro à penhora é admissível ao embargado deduzir
a excepção da impugnação pauliana.”
1132
Cfr. o Ac. do TRL, de 28 de Abril de 1994, proc. 0082722, in [Link], bem como o Ac. do TRL, de
25 de Novembro de 2003, proc. 8057/2003, in [Link]. Vide, ainda, o Ac. do TRP, de 6 de Outubro de 2005,
proc. 0534229, in [Link]: “nos embargos de terceiro contra a penhora dum bem em acção executiva, pode o
exequente/credor opor-se mediante a alegação e prova dos pressupostos da impugnação pauliana. E não sendo
esta impugnação considerada por lei uma acção anulatória, pode ser requerida apenas por via de excepção, sem
dedução de reconvenção.”
1133
Cfr. o Ac. do TRL, de 12 de Outubro de 1995, proc. 0002592, in [Link].
341
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
intervenção principal espontânea modo a que este possa acautelar os seus interesses nesse
incidente (e.g. deduzindo uma eventual exceptio dominii contra a ofensa da posse invocada pelo
embargante)1134. Esta possibilidade de intervenção de terceiros no âmbito do incidente de
embargos tem também vindo a ser admitida na jurisprudência quanto à modalidade de
intervenção principal provocada. Deste modo, se E vem deduzir embargos de terceiro contra A e
B numa acção executiva movida por A contra B, C e D, não tendo C e D sido notificado (rectius
citados) para os termos do incidente de embargos, nada impede que o embargante ou o
embargado venham requerer a intervenção principal provocada de C e D no âmbito do incidente
de embargos de terceiro1135.
De todo o modo, alguma jurisprudência tem vindo a recusar a admissibilidade da
intervenção principal (espontânea ou provocada) do embargado que não tenha sido inicialmente
demandado em virtude do disposto art. 357.º do CPC. Na verdade, os embargos de terceiro são
frequentemente deduzidos apenas contra o exequente, dado que é a seu favor que é realizada a
diligência de penhora que afecta a posse ou um direito incompatível com o âmbito dessa
diligência. Nessa situação, algumas decisões judiciais têm defendido que, em tal circunstância, o
vício da ilegitimidade processual passiva encontra-se automaticamente sanado, porquanto, tal
como determina o art. 357.º, n.º 1, do CPC, a secretaria notifica oficiosamente as partes
primitivas para contestar.
Semelhante interpretação, contudo, não se afigura correcta. Com efeito, enquadrando-se
os embargos de terceiro no incidente da intervenção de terceiros na modalidade da oposição, o
qual, pela sua concepção, apresenta ab initio uma estrutura tripartida, os embargos de terceiro
devem ser intentados contra as partes primitivas da causa — situação que implica que as
mesmas sejam desde logo identificadas e individualizadas na petição inicial, tendo em conta,
nomeadamente, a sua estrutura autónoma em relação à acção principal —, sob pena de se
verificar um vício processual por preterição de litisconsórcio necessário passivo, o qual é
susceptível de sanação mediante o convite pelo tribunal à parte interessada para chamar o
1134
Cfr., a este propósito, o art. 600. da LEC, o qual determina que “[A]unque no se haya dirigido la
demanda de tercería frente al ejecutado, podra éste intervenir en el procedimiento com los mismos derechos
procesales que las partes de la terceria.”
1135
Cfr. o Ac. do TRC, de 10 de Outubro de 2000, proc. 1923/2000, in [Link]: “É admissível a
intervenção principal provocada de um requerido no incidente de embargos de terceiro.”
342
Fase contraditória dos embargos de terceiro
sujeito em falta em sede de intervenção principal provocada (arts. 265.º, n.º 2 e 325º, ambos do
CPC).
1136
Cfr. o Ac. do STJ, de 6 de Outubro de 1893: “Anulada uma execução, caducam também os embargos
de terceiro nela deduzidos” (GENTIL, Francisco, Dicionário do Supremo Tribunal de Justiça, ob. cit., p. 457).
1137
Cfr. o Ac. do STJ, de 24 de Outubro de 2006, proc. 96B576, in [Link].
1138
Nos termos do art. 834.º, n.º 3, d), do CPC, o exequente pode requerer o reforço ou a substituição da
penhora quando sejam recebidos embargos de terceiro contra a penhora.
1139
De igual modo, a instância de embargos de terceiro deve ser julgada extinta, por inutilidade
superveniente da lide, se a autora de uma execução para entrega de uma fracção de um imóvel tiver desistido da
execução, circunstância que retira qualquer utilidade aos embargos de terceiro, deduzidos por apenso à execução,
pois com a desistência deixou de existir qualquer diligência realizada ou ordenada que ameace lesar a posse dos
embargante (Ac. do STJ, de 8 de Fevereiro de 2001, proc. 3378/00 – 2.ª secção, in [Link].
1140
Cfr., a este propósito, a sentença da CSC It., proc. 1524/1971, segundo a qual, verificando-se em sede
executiva o levantamento da penhora, o terceiro que tenha deduzido oposição arrogando-se proprietário do bem
deixa de ter interesse em prosseguir com a execução.
1141
Vide, em sentido contrário, o Ac. do TRL, de 29 de Novembro de 2005, proc. 2383/05, in [Link]
343
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
4.1. ÂMBITO
A exceptio dominii encontra-se prevista no art. 357.º, n.º 2, do CPC1145. Com efeito,
quando os embargos apenas se fundamentem na invocação e ofensa da posse, pode qualquer
1142
Cfr. o Ac. do TRL, de 17 de Fevereiro de 1994, proc. 0062616, in [Link].
1143
Cfr., nesse sentido, o Ac. do TRC, de 27 de Junho e 2000, proc. 1406/2000 – 2.ª secção, in
[Link]:
1144
Cfr. o Ac. do TRL, de 5 de Dezembro de 2000, proc. 1496/2000, in [Link].
1145
O Código de Processo Civil de 1876 impedia a invocação da exceptio dominii, isto é, a invocação da
titularidade do direito de fundo pelo embargado, excepto quando estivesse em causa a dedução de embargos de
terceiro pelo próprio executado (art. 923.º) ou pela mulher do executado (art. 924.º).
Em contrapartida, o Código de Processo Civil de 1939 veio permitir a invocação da exceptio dominii como
forma de se evitar a propositura de uma acção de reivindicação pelo embargante vencido que pretendesse obter a
restituição da coisa objecto de embargos.
Por sua vez, dispunha na sua redacção primitiva o art. 1042.º, b), do CPC 1961 que, recebidos os embargos,
podia o embargado alegar, em sede de contestação, não só que era titular do direito de propriedade sobre os bens,
como também que esse direito pertencia à pessoa contra quem a diligência judicial fora promovida. Sendo invocada
a exceptio dominii, a acção seguia os termos do processo ordinário quando o valor da causa fosse superior à alçada
da Relação, caso em que o autor podia ainda responder à tréplica quanto à questão da propriedade [art. 1034.º, n.º
2, a) ex vi art. 1042.º, proémio, ambos do CPC ], ou os termos do processo sumário quando o valor da causa
1961
fosse igual ou inferior à alçada da Relação, situação em que podia ser deduzida resposta à contestação e resposta à
matéria desta quando fosse deduzida alguma excepção [art. 1034.º, n.º 2, b) ex vi art. 1042.º, proémio, ambos do
344
Fase contraditória dos embargos de terceiro
das partes primitivas pedir em sede de contestação o reconhecimento, quer do seu direito de
propriedade sobre os bens, quer de que tal direito pertence à pessoa contra quem a diligência
foi promovida1146.
Na verdade, tendo em conta o carácter autónomo da posse em relação aos demais
direitos enquanto fundamento para o recurso aos embargos de terceiro (art. 351.º do CPC), o
embargante não carece de invocar a ofensa do seu direito de propriedade relativamente ao bens
que entenda que foram ilicitamente penhorados, bastando, consequentemente, a invocação da
sua posse sobre o bem. Todavia, fundando-se os embargos de terceiro apenas na ofensa da
posse, correspondente ao exercício do direito de propriedade, do embargante sobre o bem
penhorado, pode ser invocado o direito de propriedade do executado sobre esse bem1147.
Deste modo, no âmbito da acção executiva, tanto pode o executado invocar a exceptio
dominii, pedindo o reconhecimento de que os bens penhorados lhe pertencem, como pode o
exequente pedir que seja reconhecida a propriedade do executado sobre o bem penhorado1148 ou
CPC ].
1961
Caso o embargante não impugnasse o direito de propriedade invocado pelo embargado , era 1145
imediatamente declarado improcedente o pedido do embargante e procedente o do embargado, ainda que este não
tivesse contestado a posse daquele (art. 1035.º do CPC , aplicável aos embargos de terceiro por força do art.
1961
1146
De acordo com ALBERTO DOS REIS, a invocação pelo próprio embargado de que o direito de
propriedade pertence à pessoa contra quem foi promovida a diligência configura uma situação de substituição
processual, isto é, o embargado substitui-se ao proprietário, dado que tem um interesse legítimo em fazer triunfar
sobre a posse do embargante o direito de propriedade do embargado (REIS, José Alberto dos, Processos Especiais,
vol. I, ob. cit., p. 457).
1147
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 23 de Setembro de 1998, proc. 467/98 – 2.ª secção, in
[Link]: “Não obstante a sua natureza de meio possessório, os embargos de terceiro soçobram perante a
alegação e prova de que o objecto da posse pertence ao embargado ou à pessoa contra quem a diligência ofensiva
da posse foi promovida (art.º 1042, al. b), do CPC. É uma natural consequência da institucional supremacia do
direito de propriedade sobre a simples posse, de que o art.º 1311, n.º 1, do CC, é mais uma manifestação.” Vide,
ainda, o Ac. do STJ, de 27 de Março de 2007, proc. 491/07 – 6.ª secção, in [Link].
1148
Caso em que o exequente actuará como substituto processual do próprio executado (vide, nesse
sentido, SOUSA, Miguel Teixeira de, Estudos sobre o Novo Processo Civil, Lex, Lisboa, 1997, p. 251). Com efeito,
345
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
a sua própria propriedade sobre esse bem quando esteja em causa, nomeadamente, uma acção
executiva para entrega de coisa certa1149 1150
. Nessa exacta medida, a invocação da exceptio
dominii tem por objecto a ilisão da presunção da titularidade do direito de fundo em função da
posse do embargante1151.
embora o exequente/embargado actue em seu nome (e não em nome de outrem, como sucede com o
representante) e no seu próprio interesse, litiga sobre direito alheio, tornando-se, desta forma, um substituto
processual (cfr. VARELA, Antunes; BEZERRA, J. Miguel; NORA, Sampaio e, Manual de Processo Civil, ob. cit.,
pp. 732 e 733).
1149
Vide, nesse sentido, MENDES, João de Castro, Direito Processual Civil,, ob. cit., p. 127.
1150
No domínio do processo civil francês não é permitida a discussão sobre a titularidade do direito real no
âmbito das acções possessórias. Todavia, o tribunal pode examinar os contornos do direito real que sustenta a
posse de forma a poder verificar se se encontram reunidas as condições que permitam atribuir a tutela possessória
ao interessado, sendo certo, porém, que a actividade probatória não pode versar sobre o direito real de base (art.
1265 do CPC Fr.). Nesta medida, se tiver sido intentada uma acção judicial fundada no direito real de base, fica
precludida a possibilidade de se instaurar simultaneamente uma acção possessória (art. 1266 do CPC Fr.).
1151
COSTA, Salvador da, Os Incidentes da Instância, ob. cit., p. 237.
1152
A este propósito, o Tribunal Supremo de Espanha, por sentença de 8 de Maio de 1986, veio considerar
que a acção de embargos de terceiro (tercería de domínio) se aproxima da acção de reivindicação, embora se
distinga dela pelas seguintes circunstâncias: “a) La acción reivindicatoria se interpone por el propietario no
poseedor, mientras que la tercería puede ejercitarse por el mismo propietario que posee el bien indebidamente
trabado; b) La acción reivindicatoria se actúa frente al detentador o poseedor, mientras que la tercería se interpone
al ejecutante que no posee ni detenta y frente al ejecutado que no siempre es poseedor, unidos estos últimos en el
litisconsorcio necesario que resulta del art. 600 de la L.E.C.; y c) La acción reivindicatoria pretende la recuperación
dominical de la cosa, en tanto que la acción de tercería se dirige al levantamiento del embargo.”
1153
Cfr., nesse sentido, o Ac. do STJ, de 27 de Março de 2007, proc. 491/07 – 6.ª secção, in [Link]
346
Fase contraditória dos embargos de terceiro
A exceptio dominii não pode ser oposta ao embargante titular de um direito real de gozo
que não caduque com a venda executiva, porquanto tal direito é incompatível com a propriedade
plena sobre o bem vendido. Com efeito, a invocação, pelo embargado, da titularidade do direito
de fundo não pode prevalecer sobre o título da posse do terceiro, dado que só pode ser alegado
como fundamento da exceptio dominii um direito real que não afecte a posse do terceiro. Tal
sucederá, por exemplo, na hipótese do embargante invocar a sua posse fundada no direito de
usufruto, caso em que o embargado só poderá invocar a nua propriedade sobre o bem, não lhe
sendo lícito opor a propriedade plena1157.
Nesta exacta medida, a invocação da exceptio dominii só poderá ser julgada procedente
quando a posse do terceiro que sustenta a dedução dos embargos deva caducar com a venda
executiva, isto é, quando o direito do embargante não seja oponível à execução por ter sido
registado ou constituído depois do arresto, penhora ou garantia1158.
1154
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 304.
1155
Cfr. o Ac. STJ, de 12 de Julho de 1994, proc. 085299, in [Link].
1156
Vide, nesse sentido, VARELA, Antunes; BEZERRA, J. Miguel; NORA, Sampaio e, Manual de Processo
Civil, ob. cit., pp. 322 e 323.
1157
SOUSA, Miguel Teixeira de, «A Penhora de bens na posse de terceiros», ob. cit., p. 81.
1158
SOUSA, Miguel Teixeira de, Acção Executiva Singular, ob. cit., p. 304.
347
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
1159
Cfr. o Ac. do TRP, de 3 de Outubro de 1996, proc. 0632837, in [Link].
1160
Cfr. CARDOSO, Eurico Lopes, Manual da Acção Executiva, ob. cit., p. 392. Vide, também, o Ac. do STJ,
de 1 de Julho de 1997, proc. 85/97 – 1.ª Secção, in [Link].
1161
Vide, em sentido contrário, o Ac. do TRP, de 1 de Outubro de 1996, in BMJ, 460.º, p. 805: “Invocado
pelo embargado na contestação o direito de propriedade do executado sobre os bens penhorados e pedido o
reconhecimento desse direito, se o autor não impugnar na resposta ou na réplica, é logo decidida a questão da
propriedade a favor do embargado.”
1162
Vide, a este propósito, SOUSA, Miguel Teixeira de, «Sobre a Exceptio Dominii nas Acções
Possessórias», in ROA, ano 52, vol. I, 1992, apud MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo à Face do
Código Revisto, ob. cit., p. 317, nota 899.
348
Fase contraditória dos embargos de terceiro
— Não podendo desde logo ser apreciada a questão da titularidade do direito de fundo, o
juiz deve ordenar a imediata manutenção ou restituição da posse, sem prejuízo do que venha a
decidir-se a final quanto à questão da titularidade do direito (art. 510.º, n.º 5, do CPC)1163;
— Os embargos de terceiro terão necessariamente que improceder (caso a exceptio
dominii seja julgada procedente), já que a posse cede perante o direito de fundo . De todo o 1164
modo, se o embargado não impugnar a posse invocada em sede de petição inicial, limitando-se,
tão só, a invocar a exceptio dominii sobre os bens penhorados, então em tal circunstância,
enquanto não for decidida a propriedade do bem, deve ser assegurado ao embargante a tutela
possessória do bem de que é titular.
Por último, importa referir que, em caso de invocação da exceptio dominii, nada obsta a
que o embargante venha arguir em sede de contestação a simulação1165 ou a inoponibilidade do
negócio jurídico que permitiu a transmissão do bem.
Nos termos do art. 510.º, n.º 5, do CPC, no domínio das acções destinadas à defesa da
posse, se o réu apenas tiver invocado a exceptio dominii, isto é, a titularidade do direito de
propriedade, sem, contudo, impugnar a posse do autor e se essa questão não puder ser desde
logo apreciada, o juiz deve ordenar imediatamente a manutenção ou a restituição da posse ao
autor, sem prejuízo do sentido da decisão final que vier a ser proferida quanto à titularidade do
direito1166.
Trata-se, na verdade, da concretização processual do regime substantivo previsto no
1268.º do CC, ao abrigo do qual o possuidor goza da presunção da titularidade do direito. Deste
1163
Isto porque, à luz do disposto nos arts. 1268.º e 1270.º do CC, “o possuidor goza da presunção de
titularidade do direito e deve ser mantido na sua posse enquanto não for convencido na questão do domínio” (cfr.
REGO, Lopes do, Comentários ao Código de Processo Civil, vol. I, ob. cit., p. 444).
1164
Cfr. o Ac. do STJ, de 12 de Julho de 1994, proc. 085299, in [Link], ao abrigo do qual “[A]
alegada posse dos embargantes é inoperante contra o direito de propriedade dos executados, o que conduz à
improcedência dos embargos de terceiro”. Vide, também, o Ac. do TRC, de 20 de Março de 2000, in CJ, tomo II,
2000, p. 22.
1165
Vide, nesse sentido, o Ac. do STJ, de 29 de Abril de 1949, in RLJ, 82.º, p. 22.
1166
Esta norma corresponde, com as devidas adaptações, à que se encontrava prevista no art. 1036.º do
CPC .
1961
349
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
modo, até que seja proferida uma decisão final nessa causa — sendo certo que o objecto do
litígio passa da posse para a propriedade1167 — o juiz deve ordenar a manutenção ou a
restituição da posse do autor em sede de despacho saneador, o qual corresponderá a uma
decisão de mérito da carácter provisório.
5. EFEITOS DA SENTENÇA
Determina o art. 358.º do CPC que a sentença de mérito proferida nos embargos
constitui, nos termos gerais, caso julgado1168 quanto à existência e titularidade do direito invocado
pelo embargante ou por algum dos embargados, quando seja invocada a exceptio dominii (art.
358.º do CPC)1169 1170.
Na verdade, ao contrário do que sucedia no regime processual anterior à reforma de
95/96, uma vez que actualmente os embargos de terceiro são configurados enquanto incidente
de intervenção de terceiros na modalidade de oposição, a questão material controvertida quanto
1167
FREITAS, José Lebre de; MACHADO, A. Montalvão; PINTO, Rui, Código de Processo Civil Anotado, vol.
2.º, Coimbra Editora, 2001, pp. 376 e 377.
1168
A respeito da instituição do caso julgado como teleologia do processo judicial refere TEXEIRA DE SOUSA
o seguinte: “Surge, desta maneira, como o meio por excelência para a satisfação dos interesses de cada um dos
sujeitos processuais. Através dele o órgão jurisdicional obtém um valor incontroverso para a sua actividade
decisória, mas é também nele que as partes encontram o instrumento adequado à garantia das situações
subjectivas que levaram a juízo” (SOUSA, Miguel Teixeira de, Sobre a Teoria do Processo Declarativo, ob. cit., p. 53.
1169
Em sentido contrário ao previsto no processo civil português, o sistema processual espanhol não admite
que a sentença proferida em sede de embargos de terceiro possa produzir efeitos de caso julgado em relação à
titularidade do bem objecto de embargos. Na verdade, dispõe o art. 603. da LEC que “[L]a tercería de domínio se
resolverá por médio de auto, que se pronunciará sobre la pertenecia del bien y la procedencia de su embargo a los
únicos efectos de la ejecución en curso, sin que produzca efectos de coza juzgada en relación con la titularidad den
bien.”
1170
Cfr., a este propósito, o Ac. do TRL, de 3 de Dezembro de 2002, proc. 8278/2002-7, in [Link]:
“A sentença proferida no âmbito de embargos de terceiro deduzidos contra a execução de mandado de despejo que
reconheceu a embargante como arrendatária constitui caso julgado oponível àquele que, na pendência dos
embargos, adquiriu a mesma fracção, atento o disposto no art. 271º do CPC”, bem como o Ac. do TRL, de 16 de
Dezembro de 2003, proc. 9004/2003-7, in [Link]: “Produz caso julgado material a sentença que no âmbito
de embargos de terceiro reconheceu a embargante como transmissária da posição de arrendamento por
falecimento da sua mãe.”
350
Fase contraditória dos embargos de terceiro
à titularidade do direito de fundo que venha a ser invocada em sede de embargos de terceiro
pode ficar definitivamente assente dado que estão presentes na causa todos os interessados.
Conforme se referiu supra, os embargos de terceiro, não obstante se encontrarem
sistematizados enquanto incidente processual de intervenção de terceiros, revestem a natureza
de uma verdadeira acção declarativa, pelo que a sentença que se vier a pronunciar sobre o
mérito da acção produz de forma plena os seus efeitos de caso julgado material, situação que
implica a impossibilidade processual da mesma questão de fundo poder vir a ser novamente
apreciada em sede de acção declarativa1171.
Note-se, contudo, que o efeito de caso julgado material da sentença apenas terá lugar
quando neles seja discutida a titularidade do direito de fundo1172. Na verdade, se apenas for
invocada a ofensa da posse, a decisão proferida em sede de embargos não produz qualquer
efeito de caso julgado material uma vez que apenas se debruça sobre a manutenção ou o
levantamento da penhora e se limita à apreciação da posse, nada obstando a que o embargante
proponha nova acção judicial autónoma de reconhecimento da titularidade do seu direito
material1173.
Por outro lado, importa salientar que a sentença proferida em sede de embargos de
terceiro quanto à titularidade do direito de fundo só produz efeitos de caso julgado material se a
titularidade desse direito for invocada em sede reconvencional. Não basta, por isso, a simples
invocação da exceptio dominii, enquanto excepção peremptória, para que o tribunal reconheça,
com força de caso julgado material, a titularidade desse direito de fundo. Na verdade, a
exigência da dedução desse verdadeiro pedido reconvencional resulta claramente da actual
redacção do art. 357.º, n.º 2, do CPC: “(…) pedir o reconhecimento, quer do seu direito (…)”1174.
1171
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «Embargos de terceiro, acção de reivindicação e caso
julgado», in Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, Coimbra Editora, 2002, p. 476.
1172
Cfr., a este propósito, o Ac. do STJ, de 29 de Novembro de 2001, proc. 01b3469, in [Link]: “a
sentença que reconheceu ao embargante o direito de propriedade sobre o prédio objecto dos embargos de terceiro
constitui caso julgado contra o titular inscrito que, tendo comprado o prédio no decurso da acção, registou a compra
posteriormente ao trânsito em julgado daquela decisão.”
1173
Vide, nesse sentido, MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo Comum à Face do Código
Revisto, ob. cit., p. 344.
1174
Cfr. MARQUES, J. P. Remédio, Curso de Processo Executivo Comum à Face do Código Revisto, ob. cit.,
p. 344.
351
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
No que concerne ao efeito jurídico da procedência dos embargos quando tenham sido
deduzidos contra a penhora de um bem, importa destacar que esse efeito consiste no
levantamento da penhora que incidiu sobre o aludido bem e não na extinção da acção executiva
onde tal acto teve lugar1175. Nessa exacta medida, se o embargante, vencido em sede de
embargos de terceiro onde tenha sido julgada a exceptio dominii em relação ao bem penhorado,
vier a intentar uma acção de reivindicação entre as mesmas partes e com o mesmo pedido e
causa de pedir após o trânsito em julgado da sentença proferida em sede de embargos de
terceiro, tal circunstância implicará a ofensa de caso julgado, devendo, consequentemente, o réu
ser absolvido da instância. Porém, tal já não sucederá se, em sede de embargos de terceiro, o
tribunal não se chegar a pronunciar sobre a titularidade do direito de fundo, caso em que nada
impede o embargante de intentar uma acção de reivindicação pela qual peticione a entrega da
coisa de que foi esbulhado1176.
Saliente-se, por último, que se o tribunal decidir imediatamente quanto ao mérito dos
embargos de terceiro sem observar o disposto nos arts. 354.º e 357.º do CPC — proferimento
de um despacho de recebimento ou rejeição dos embargos e notificação das partes primitivas
para apresentarem a respectiva contestação —, verifica-se uma nulidade processual por omissão
de actos previstos na lei, devendo tal nulidade ser arguida no recurso interposto daquela
sentença1177.
1175
Cfr. o Ac. do TRC, de 28 de Março de 2007, proc. 208-a/2002c1, in [Link].
1176
Cfr., nesse sentido, FREITAS, José Lebre de, «Embargos de terceiro, acção de reivindicação e caso
julgado», in Estudos sobre Direito Civil e Processo Civil, ob. cit., p. 479.
1177
Cfr. o Ac. do TRP, de 5 de Junho de 2001, proc. 0120573, in [Link].
352
Conclusões
CONCLUSÕES
353
Embargos de Terceiro na Acção Executiva
apenas relevando para efeitos de tutela através deste incidente processual a posse que se deva
manter após a venda executiva.
IV. Com a reforma de 95/96 assistiu-se à redefinição do âmbito objectivo dos embargos
de terceiro. Na verdade, embora a posse tenha permanecido enquanto fundamento principal
para a dedução dos embargos de terceiro, o legislador passou a admitir expressamente a
protecção e discussão do direito de fundo neste incidente processual, através da susceptibilidade
de recurso aos embargos de terceiro com vista à defesa de um direito incompatível com a
penhora ou uma diligência judicial de apreensão ou de entrega de bens.
VI. A determinação dos direitos que permitem o recurso aos embargos de terceiro
implica a análise do regime previsto nos arts. 819.º e 824.º do CC. Na verdade, se o primeiro
permite delimitar o âmbito dos poderes de disposição do terceiro sobre a coisa penhora —
cominando com a ineficácia relativa em relação à execução dos actos de disposição, oneração
ou arrendamento de bens penhorados —, por sua vez o segundo determina quais os direitos que
devem subsistir ou caducar em virtude da venda executiva e das respectivas finalidades dessa
diligência. Nesta medida, não permitem a dedução de embargos de terceiro os direitos reais de
garantia, porquanto, destinando-se a assegurar o pagamento de um crédito, os respectivos
credores encontram a satisfação do seu direito no esquema concursal da venda executiva. Por
354
Conclusões
sua vez, no que concerne aos direitos reais de gozo, se o direito tiver sido registado ou
constituído depois do registo ou constituição do arresto, da penhora ou da garantia, então o
direito caduca com a venda executiva, porquanto os actos de alienação, oneração ou
arrendamento de bens penhorados são inoponíveis em relação à execução (art. 819.º do Cc).
Porém, se o direito tiver sido registado ou constituído em data anterior ao registo ou constituição
do arresto, penhora ou garantia, então esse direito não se extingue com a venda executiva,
circunstância que permite ao titular deste direito deduzir embargos de terceiro contra a penhora
do bem em sede executiva. Estando em causa direitos reais de gozo que produzam efeitos em
relação a terceiros independentemente de registo, então estes direitos não caducam com a
venda executiva.
VII. No que concerne ao seu âmbito subjectivo, a reforma processual de 95/96 veio
alargar substancialmente a legitimidade activa para a dedução de embargos de terceiro, dado
que, por um lado, desvinculou-a da posse, admitindo-se, agora, que os embargos tenham por
fundamento um direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência, e, por outro,
atribuiu-a a qualquer possuidor, seja ele em nome próprio ou alheio. Assim, um terceiro só
poderá embargar desde que não seja parte na acção principal ou um sucessor jurídico da parte,
ainda que, em certos casos, pudesse ser parte na causa por se encontrar obrigado no título
executivo que serve de fundamento à execução. Por sua vez, no que respeita à legitimidade
processual passiva, a necessidade de garantir o efeito útil normal dos embargos, isto é, a
vinculação das partes primitivas em relação à sentença que neles vier a ser proferida e que
condiciona, naturalmente, os interesses do exequente e do executado, impõe a verificação de
um litisconsórcio necessário passivo natural.
VIII. Por último, no que se refere à sua natureza, embora os embargos de terceiro se
apresentem processualmente qualificados e sistematizados enquanto incidente de intervenção
de terceiros, a verdade é que este “incidente” aproxima-se da estrutura da acção judicial de
natureza declarativa, revelando uma autonomia e organização próprias relativamente ao
processo de execução em relação ao qual os embargos correm por apenso. Com efeito, tal
qualificação enquanto verdadeira acção declarativa resulta de três características essenciais. Os
embargos de terceiro seguem uma tramitação própria, caracterizada pela complexidade dos
seus termos e norteada pelos princípios basilares do processo civil. Por outro lado, este incidente
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processual comporta diligências de natureza cautelar e declarativa, sendo certo que, para além
da summaria cognitio quanto ao recebimento ou rejeição dos embargos de terceiro, o tribunal
pode determinar a restituição provisória da posse a favor do embargante. Além disso, ainda que
se apresentem como uma modalidade de oposição espontânea, é admissível a formulação de
um pedido de intervenção principal de terceiros, designadamente quando seja necessário
assegurar o efeito útil da acção, bem como a formulação de pedidos de natureza reconvencional,
na sequência da apreciação da titularidade do direito de fundo. Por último, o principal argumento
a favor da natureza declarativa e autónoma dos embargos de terceiro reside no efeito do caso
julgado da sentença que se venha a pronunciar sobre o mérito dos embargos de terceiro.
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