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Conceitos de Estigma e LGBTIfobia

O documento aborda conceitos como estigma, preconceito, discriminação e LGBTIfobia, destacando suas definições e implicações sociais. Também discute a interseccionalidade e as consequências da homofobia internalizada, além de apresentar possíveis respostas e estratégias de enfrentamento à LGBTIfobia. Por fim, enfatiza a importância da competência cultural e do respeito à diversidade nas interações sociais.

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Conceitos de Estigma e LGBTIfobia

O documento aborda conceitos como estigma, preconceito, discriminação e LGBTIfobia, destacando suas definições e implicações sociais. Também discute a interseccionalidade e as consequências da homofobia internalizada, além de apresentar possíveis respostas e estratégias de enfrentamento à LGBTIfobia. Por fim, enfatiza a importância da competência cultural e do respeito à diversidade nas interações sociais.

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ALGUMAS CONCEITUAÇÕES
Estigma: em seu sentido clássico da Grécia antiga, o estigma era uma
cicatriz ou uma marca no corpo que identificava escravos e criminosos. Na
atualidade, o estigma ou a estigmatização social diz respeito a pessoas que por
alguma característica deixam de ser consideradas “normais” e passam a ser
desqualificadas ou menos valorizadas socialmente por causa dessa
característica (GOFFMAN, 2004).
Preconceito: é uma primeira compreensão, em geral, parcial, incompleta,
fosca, de alguma coisa. Uma opinião formada sem reflexão. Talvez, por isso,
muitos preconceitos têm um sentido negativo. O preconceito pode ser um ponto
de partida que, se for bem desenvolvido, pode tornar-se um conceito, ou seja, um
conhecimento mais amplo e completo. O preconceito só se torna negativo
quando ficamos nele, sem desenvolvê-lo. Aí ele nos limita, nos impede de ver as
coisas de uma maneira mais desenvolvida, ampla, transparente (BORGES, 2006).
Discriminação: embora se trate de um marco normativo internacional
destinado ao enfrentamento da discriminação na educação, a Convenção
relativa à Luta contra a Discriminação no campo do Ensino de 1960, da UNESCO,
fornece uma definição bastante abrangente deste fenômeno que não se
restringe apenas ao ambiente educacional e, sim, se aplica à sociedade como
um todo:

o termo "discriminação" abarca qualquer distinção, exclusão, limitação


ou preferência que, por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião,
opinião pública ou qualquer outra opinião, origem nacional ou social,
condição econômica ou nascimento, tenha por objeto ou efeito destruir
ou alterar a igualdade de tratamento em matéria de ensino, e,
principalmente: (...) impor a qualquer pessoa ou grupo de pessoas
condições incompatíveis com a dignidade humana (BRASIL, 1968).

LGBTIfobia: a aversão, discriminação e violência baseadas em diferenças


de orientação sexual e identidade e expressão de gênero têm sido nomeadas e
são conhecidas - grosso modo - como comportamentos de LGBTIfobia, sendo
direcionados à população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais,
pessoas intersexo e pessoas de outras orientações sexuais e identidades de
gênero diversas (LGBTI+) (REIS, 2012). É um conceito que se refere à hostilidade,
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à intolerância e ao desprezo a todas as orientações e identidades sexuais


diferentes ou divergentes da heterossexual (HEREK, 1991; UNAIDS, 2007).
Às vezes, em vez do termo genérico LGBTIfobia, são utilizados termos
mais específicos, como homofobia que se refere à aversão a pessoas
homossexuais, isto é, gays e lésbicas, e transfobia, que é a rejeição específica a
pessoas transexuais, mas também pode abarcar pessoas travestis. Outros
termos específicos incluem lesbofobia, que é a hostilidade contra mulheres
lésbicas e implica uma dupla discriminação que sofrem essas pessoas, como
mulheres e como homossexuais; e bifobia, que é a discriminação contra pessoas
bissexuais e traz implícita a ideia de que todas as pessoas devem situar-se nos
extremos do par binário heterossexual-homossexual (REIS, 2012).
A LGBTIfobia pode se expressar em diferentes formas de violência verbal
ou física contra pessoas LGBTI+, na sua exclusão estrutural e institucional e na
restrição de seu acesso a direitos, espaços e reconhecimento. Em sua forma
mais explícita, a LGBTIfobia inclui diferentes formas ativas de violência verbal ou
física e vitimização; em sua forma mais sutil, a rejeição silenciosa de pessoas
LGBTI+ (GALÁN et al., 2007).
Há ainda o fenômeno geralmente chamado de “homofobia internalizada”,
quando a própria pessoa homossexual assimila os valores negativos
predominantes na sociedade acerca da homossexualidade e se percebe sob
essa ótica. Borrillo vê isso como um processo de opressão e dominação “em que
se faz o indivíduo discriminado aceitar a natureza essencial de sua diferença -
que torna possível alimentar regularmente a resignação dos dominados ao
status atribuído pelo dominante” (BORRILLO, 2009, p. 31).
As consequências da homofobia internalizada variam desde tentativas de
seguir o padrão heterossexual, às vezes recorrendo ao casamento com alguém
do sexo oposto a fim de cumprir as expectativas alheias ou na esperança de
deixar de ser homossexual; negação da própria orientação sexual (do
reconhecimento das suas atrações emocionais e sexuais) para si mesmo e
perante os outros; desprezo por pessoas LGBTI+ mais assumidos;
defensividade; raiva e/ou ressentimento; vergonha e/ou depressão; até práticas
sexuais inseguras e outros comportamentos de risco e de autodestruição
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(BLUMENFELD, 1992). Tanto Blumenfeld quanto Borrillo afirmam também que a


homofobia internalizada pode ter consequências fatais:

o homossexual sofre solitário o ostracismo ligado à sua


homossexualidade, sem nenhum apoio de seus próximos e
frequentemente em um ambiente familiar hostil. Ele é, portanto, mais
vulnerável a uma atitude de aversão a si mesmo e a uma violência
interiorizada que pode levá-lo ao suicídio (BORRILLO, 2009, p. 33).

Bullying: O termo bullying se refere a um conjunto de comportamentos


agressivos, físicos ou psicológicos, direcionados por uma ou mais pessoas,
majoritariamente estudantes no ambiente educacional, de forma repetida, sem
motivo aparente, contra outro(a) que não consegue se defender da agressão
(ANTUNES; ZUIN, 2008). Estes autores se aprofundam na definição da seguinte
forma:

conjunto de comportamentos agressivos, físicos ou psicológicos,


como chutar, empurrar, apelidar, discriminar e excluir, que ocorrem
entre colegas sem motivação evidente, e repetidas vezes, sendo que
um grupo de alunos ou um aluno com mais força vitimiza um outro que
não consegue encontrar um modo eficiente para se defender. Tais
comportamentos são usualmente voltados para grupos com
características físicas, socioeconômicas, de etnia e orientação sexual,
específicas (ANTUNES; ZUIN, 2008, p. 34).

Em 2015, foi sancionada a Lei Federal nº 13185, cujo objetivo era instituir
o Programa de Combate ao Bullying. A Lei define o bullying, ou intimidação
sistemática, como todo ato de violência física ou psicológica, intencional e
repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo,
contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la,
causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder
entre as partes envolvidas (BRASIL, 2015).
Violência: especificamente em relação às violências praticadas contra a
população LGBTI+, a UNESCO fornece a seguinte definição: Violência baseada
na orientação sexual e na identidade/expressão de gênero, também conhecida
como violência homofóbica e transfóbica, é uma forma de violência baseada em
gênero (...). Ela inclui violência física, sexual e psicológica, além do bullying e
outras formas de violência UNESCO, 2017).
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Interseccionalidade: de relevância para esta discussão sobre preconceito


e discriminação é o conceito de interseccionalidade, que se refere a situações
em que o mesmo problema de subordinação ou até de preconceito e
discriminação se manifesta em diversas seções, ou segmentos, da população.
Para Crenshaw (2002, p. 177), a interseccionalidade:

é uma conceituação do problema que busca capturar as


consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais
eixos da subordinação. Ela trata especificamente da forma pela qual o
racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas
discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as
posições relativas de mulheres, raças, etnias, classes e outras.

O inverso também pode acontecer, no sentido de uma pessoa ter características


que atraem diversas formas de subordinação, preconceito e discriminação. Por
exemplo, pode acontecer de uma mulher pobre, lésbica, negra e com deficiência
ser quadruplamente inferiorizada.

POSSÍVEIS RESPOSTAS, COM ENFOQUE EM LGBTI+


Aplicar a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre atos LGBTIfóbicos:
em 13 de junho de 2019, o STF concluiu o julgamento conjunto da Ação Direta
de Inconstitucionalidade por Omissão (ADI) nº 26 e do Mandado de Injunção (MI)
nº 4733. Decidiu a favor da criminalização de atos LGBTIfóbicos, equiparando-
os ao crime de racismo, previsto na Lei nº 7716/1989, até que o Congresso
Nacional desenvolva uma legislação específica para LGBTIfobia.
Um trecho do julgamento traz uma consideração muito relevante em
relação à liberdade de expressão e à liberdade religiosa, muitas vezes utilizadas
como justificativas para vilipendiar pessoas LGBTI+:

A repressão penal à prática da homotransfobia não alcança nem restringe


ou limita o exercício da liberdade religiosa, qualquer que seja a
denominação confessional professada, a cujos fiéis e ministros (...) é
assegurado o direito de pregar e de divulgar, livremente, pela palavra, pela
imagem ou por qualquer outro meio, o seu pensamento e de externar suas
convicções de acordo com o que se contiver em seus livros e códigos
sagrados, bem assim o de ensinar segundo sua orientação doutrinária e/ou
teológica, podendo buscar e conquistar prosélitos e praticar os atos de
culto e respectiva liturgia, independentemente do espaço, público ou
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privado, de sua atuação individual ou coletiva, desde que tais


manifestações não configurem discurso de ódio, assim entendidas
aquelas exteriorizações que incitem a discriminação, a hostilidade ou a
violência contra pessoas em razão de sua orientação sexual ou de sua
identidade de gênero (BRASIL, 2020, p.59).

Enquanto Ministério Público, em casos comprovados de violações de


direitos das pessoas LGBTI+ motivadas por LGBTIfobia, que venham a ser
tratados no âmbito desta instituição, é importante garantir que tais casos sejam
registrados oficialmente como sendo motivados por LGBTIfobia e, também e
mais importante ainda, que sejam julgados como tais na justiça, com a aplicação
das penas previstas em consonância com a decisão do STF que equiparou atos
LGBTIfóbicos ao crime de racismo. Julgamentos desta natureza também têm
um teor educativo para a sociedade como um todo, de modo a contribuir para
mudanças positivas gradativas na forma como são vistas e tratadas as pessoas
LGBTI+ por algumas pessoas e alguns setores da sociedade.

Outras formas de enfrentamento à LGBTIfobia:


• Apoiar a promoção de políticas públicas afirmativas para LGBTI+
• Realizar eventos e campanhas de sensibilização para agentes públicos e
para a população em geral
• Educar para o respeito à diversidade humana, incluindo a diversidade
LGBTI+
• Garantir a aplicação da Lei Federal nº 13185/2015, de enfrentamento ao
bullying, e suas disposições, ou a aplicação de legislação municipal ou
estadual parecida.

Competência cultural: No âmbito individual, desenvolver a competência


cultural é uma forma de passar a conviver pacífica e tranquilamente com as
diferenças e as diversidades presentes na sociedade. Trata-se da capacidade de
uma pessoa interagir, trabalhar e desenvolver efetivamente relacionamentos
significativos com pessoas de várias origens culturais. A origem cultural pode
incluir as crenças, costumes e comportamentos de pessoas de vários grupos.
Adquirir a competência cultural é um processo que ocorre ao longo da vida toda,
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envolvendo o aumento da autoconsciência, o desenvolvimento de habilidades e


comportamentos sociais em torno da diversidade e a aquisição da capacidade
de defender os outros. A competência cultural vai além da tolerância, o que
implica estar simplesmente disposto/a a ignorar as diferenças. Em vez disso, a
competência cultural inclui o reconhecimento e o respeito à diversidade através
de nossas palavras e ações em todos os contextos (DE GUZMAN et al., 2016).

Escala de Competência Cultural Individual

Competente Cultural
Aceitante
Respeitador/a
Tolerante
Preconceituoso/a
Fundamentalista / dogmático/a
Fanático/a
Nazista

Fonte: Ruth Gunn Mota, facilitadora de curso ministrado em Curitiba em julho de 1997.

Para refletir:
“Como homens e mulheres de consciência, rejeitamos a discriminação em geral,
e em particular a discriminação baseada na orientação sexual e na identidade de
gênero. Quando indivíduos são atacados, abusados ou aprisionados por causa
de sua orientação sexual devemos nos manifestar [...] Sim, nós reconhecemos
que atitudes sociais são profundas. Mas não deve haver confusão: onde há
tensão entre atitudes culturais e direitos humanos universais, os direitos devem
prevalecer. A desaprovação pessoal, mesmo a desaprovação das sociedades,
não são desculpas para prender, deter, aprisionar, perturbar ou torturar ninguém,
nunca.” (Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, 10 de dezembro de 2010)
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REFERÊNCIAS
ANTUNES, D.C.; ZUIN, A. A. S. Do bullying ao preconceito: os desafios da barbárie
à educação. Psicologia Social, Porto Alegre, v. 20, n. 1, 2008. Disponível em:
[Link]
71822008000100004&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 25 set. 2011.

BLUMENFELD, W. J. (Ed.). Homophobia: how we all pay the price. Boston: Beacon
Press, 1992.

BORGES, Alci Marcus Ribeiro. Direitos humanos: conceitos e preconceitos. Jus


Navigandi, Teresina, v. 11, p. 1-9, 2006.

BORRILLO, D. A homofobia. In: LIONÇO, T.; DINIZ, D. (orgs.) Homofobia e


educação: um desafio ao silêncio. Brasília: Letras Livres, 2009.

BRASIL. Presidência da República. Decreto nº 63.223, de 6 de setembro de 1968.


Promulga a convenção relativa à luta contra a discriminação no campo do
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