A Igreja de Cristo Não é Um Partido Político: Formação e construção do fiel e
eleitor assembleiano na política brasileira
Elba Fernanda Marques Mota
SEMED-MA
elbamota22@[Link]
1.1A imprensa assembleiana: periódicos como instrumentos de evangelização
Analisar a imprensa como instrumento de informação e formação de leitores nos
permite entender as possibilidades de utilização da mesma por parte de grandes grupos,
sejam estes políticos, religiosos ou culturais. No que concerne à nossa pesquisa, a
imprensa religiosa se constitui elemento particularmente eficaz de construção de uma
memória, convencimento de um fiel e, especialmente, um meio de informar quanto à
postura a ser seguida pelos membros do grupo.
A história dos protestantes ou evangélicos está ligada, desde o seu início, no
século XVI, mais do que a dos católicos romanos, às novas tecnologias de comunicação
social. No entanto, a propalada “vocação midiática” dos evangélicos precisa ser vista à
luz de suas estratégias missionárias, pois, minoritários nos países católicos da América
Latina, e em confronto com outras religiões na América, o protestantismo não descobriu
outra alternativa senão assumir uma postura de todo arrivista: polemista e proselitista
(CAMPOS,2008).
Atrelada a esta predileção pelos meios de comunicação mais modernos, como
televisão e rádio, a imprensa escrita sempre obteve seu espaço de atuação junto aos
evangélicos, especialmente por meio de seu jornal oficial e, posteriormente, por revistas.
Entendemos esta escolha pelo uso dos meios de comunicação como uma nova forma de
relacionar religião e comércio, mas, ainda assim, com o enfoque principal em uma visão
missionária e evangelizadora, utilizando para tanto, todos os meios de comunicação
inventados pelo homem.
Percebemos que o conteúdo em si não pode ser dissociado do lugar ocupado pela
publicação na História da Imprensa, e, particularmente, da História da Leitura, visto que
se faz necessário reconhecer as relações que o periódico manteve ou não com o mercado;
a publicidade, o público a que visava atingir, o objetivo proposto que direciona a sua
1
editoração. E, sobretudo, em se tratando de imprensa evangélica, analisar quais os seus
objetivos, e a quem ele está direcionado. Essas nuances se apresentam de maneira bem
específica, na forma como a importância da leitura era enfatizada nas páginas do jornal
Mensageiro da Paz, com o sentido de orientar os fiéis da seguinte forma:
Os crentes não devem desprezar a leitura. Não seria conveniente
uma crença baseada na ignorância, no obscurantismo, no
fanatismo. IMPORTA CRER! Interessa, porém, que a crença
seja lúcida, consciente. A convicção não ilumina o
conhecimento, ao contrário, aproveita-o. É recomendável,
todavia, que a leitura seja orientada e selecionada. (SANTOS,
1963, p.4) (Grifo do autor).
Dentro deste contexto, na história da Assembleia de Deus, a leitura sempre esteve
presente desde os anos iniciais, com a distribuição dos panfletos nas ruas, pelos primeiros
membros e, posteriormente, com a escola dominical e com a leitura da Bíblia. No início
da década de 1920, as primeiras lições vinham como suplemento do jornal Boa Semente,
que circulou em Belém, no estado do Pará. O suplemento era denominado Estudos
Dominicais, escritos pelo missionário Samuel Nystrom, pastor sueco de vasta cultura
bíblica e secular, que produziu lições da Escola Dominical em forma de esboços, feitas
para três meses.
Em 1930, na primeira convenção geral das Assembleias de Deus realizada em
Natal (RN) deu-se a fusão do jornal Boa Semente com outro similar que era publicado
pela Igreja do Rio de Janeiro, O Som Alegre, originando o Mensageiro da Paz. Nesta
ocasião (1930), foi lançada no Rio de Janeiro a revista Lições Bíblicas para as Escolas
Dominicais1.
Neste contexto, em 1940, o presidente Getúlio Vargas determinou, através de um
decreto, que todos os jornais fossem registrados no Departamento de Imprensa e
Propaganda (D.I.P.), órgão que regulava a imprensa. O decreto estabelecia também que
1
A Escola Bíblica Dominical surgiu no Brasil em 1855, em Petrópolis (RJ). O jovem casal de missionários
escoceses, Robert e Sarah Kalley, chegaram ao Brasil naquele ano e logo instalaram uma escola para ensinar
a Bíblia para as crianças e jovens daquela região. A primeira aula foi realizada no domingo, 19 de agosto
de 1855, contando inicialmente com cinco crianças. Posteriormente, no Rio de Janeiro, estas reuniões deram
início à Igreja Evangélica Congregacional, no país. No dia 3 de novembro de 1783, é celebrada a data de
fundação da Escola Dominical, ela nasce na Inglaterra, sendo seu iniciador, o jornalista Robert Raikes.
Hoje, a Escola Dominical conta com mais de 60 milhões de alunos matriculados, em mais de 500 mil igrejas
protestantes no mundo. Disponível em: <[Link] Acesso
em 10/12/2013.
2
somente entidades com personalidade jurídica poderiam possuir jornais. A fim de que
pudesse continuar a publicar o Mensageiro da Paz e as Lições Bíblicas, a Assembleia de
Deus direcionou, de uma forma mais organizada, sua produção editorial, com a fundação
da Casa Publicadora da Assembleia de Deus (CPAD). Este interesse, no seu início, atrela-
se, especialmente, ao caráter evangelizador que a produção escrita alcançaria em todo o
país, posto que o pensamento da Igreja fosse o seguinte:
Um bom livro que aparece entre nós deve ter a devida “cobertura”. Nem
todos conseguem frequentar cursos regulares, nem todos podem assistir
a escola bíblica. O livro, no entanto, através da viagem, em casa, nas
filas, no bonde, no ônibus, numa estrada, enquanto é aguardada a vez
na barbearia, quando se espera o trem, o livro vai transmitindo cultura
e doutrina. (SANTOS, 1963, p.4).
Estes são os aspectos norteadores da preocupação editorial da Assembleia de Deus
no país: a disseminação de sua doutrina, fortalecendo a religiosidade do fiel e a
possibilidade da alfabetização de milhares de leitores. Dentro desta postura de
diferenciação, e com a preocupação em doutrinar seus membros, a leitura era direcionada
para que houvesse uma ampliação do número de fiéis, mas, especialmente, para que os
seus membros não migrassem para outras denominações religiosas. Esta atenção com a
escrita, a leitura e sua circulação, se inserem no contexto da época, uma vez que, ao longo
das décadas de 1960 e 1970, era perceptível o acréscimo em produção literária no país,
razão pela qual crescia a necessidade de uma produção especificamente evangélica:
Nunca em todas as épocas, se escreveu tanto como nos dias atuais.
Literatura de todos os tipos invade o mercado! Mais de 90% da
literatura distribuída em todo o mundo é prejudicial à vida espiritual, e
quiçá, à moral! (...) Como não podemos ir pessoalmente, podemos ir
por meio da literatura (palavra impressa). Podemos ir por meio de rádio,
etc. A palavra Impressa é um dos grandes meios de evangelizar.
Devemos fazer todo o possível, para conseguir fazer circular a
mensagem escrita e assim estaremos cooperando com a Igreja na
evangelização do mundo. (APOLONIO, 1963, p.4).
Sendo assim, como se caracterizava esta produção editorial evangélica? São poucos
os estudos que se preocupam com esta temática e, dos existentes, são em grande parte, da
área de comunicação social, como exemplo, o estudo de Ephraim Beda, em que o autor
elenca as principais características da produção editorial das igrejas evangélicas,
classificando-as em três: didático, em linguagem acessível a todos os leitores; polêmico,
3
destinados a refutar os periódicos católicos; e de evangelização, a fim de arregimentar
novos fiéis.
Em sua primeira edição, o editorial de O Mensageiro da Paz afirmava ter por
objetivo levar “a visão do evangelismo e a divulgação da doutrina pentecostal por
intermédio da imprensa” (Mensageiro da Paz, 1930). A descrição vai além e estabelece
por si própria o paralelo com a imprensa tradicional: “Embora siga os mesmos padrões
do jornalismo secular, a redação da CPAD apresenta estilo próprio, desenhado por um
manual de redação que segue a linguagem do meio cristão evangélico”. (CPAD,2013).
Esta postura editorial se torna clara pelos editores do periódico advertirem que
apesar de entenderem a postura de grande parte dos jornalistas enquanto destoante, eles
observaram que “apesar de tudo isto, a imprensa ainda é o meio de comunicação por
excelência para moldar o pensamento das massas. Para o mundo político, a página
impressa é de grande valia na guerra ideológica que está sendo travada”. (Mensageiro da
Paz,1980). Assertiva que assinalará as mudanças no discurso, ao longo das década de
1960 e 1970, passando por conflitos quanto a uma presença de manchetes sobre questões
políticas.
É interessante notarmos, também, o reconhecimento da utilização da imprensa
para moldar o pensamento das massas, postura que irá focar diretamente na forma como
assuntos do meio civil seriam trabalhados no jornal. Ao admitir moldar a forma de pensar
de seus leitores, a Assembleia de Deus reconhece o seu interesse em utilizar a imprensa
como manobra de interesse próprio, em qual o objetivo fosse convencer os seus fiéis do
melhor caminho a ser seguido dentro desta lógica do mercado religioso.
No caso da imprensa evangélica, ela nos permite ampliar o conhecimento sobre
como diversos grupos religiosos se utilizam de vários meios de comunicação, dentro do
contexto histórico de seu tempo para comunicar mensagens, ainda que estas não sejam
consideradas como pertencentes ao mundo secular, como a inserção na vida política, a
aprovação da lei do divórcio, o uso da contracepção feminina, o homossexualismo,
tabagismo e bebidas alcoólicas, para situarmos algumas das temáticas problematizadas
pelos periódicos assembleianos ao longo da segunda metade do século XX.
1.2 “Nada será como antes”: a Assembleia de Deus na década de 1960
4
Ao longo da década de 1960, os evangélicos eram menos de 5% da população
brasileira e, especificamente, no ano de 1960, a Igreja Assembleia de Deus contabilizava
700.000 membros em todo o território nacional (ARAÚJO,2007). Em 1949, o número era
de 120.000 fiéis.2 Fundada em 1911, em Belém, capital do Estado do Pará, se distinguiu
por ser a única igreja pentecostal fundada na região Norte, e a partir dali iniciar seu
processo de expansão.
O período de 1950 a 1970 é considerado pelos pesquisadores denominacionais,
ligados à Assembleia de Deus, como “áureo”, posto que foi quando a Igreja alcançou seu
maior crescimento até então, com grandes construções de templos, mas também, de
institutos bíblicos, com o novo prédio da Casa Publicadora da Assembleia de Deus
(CPAD), com a ampliação de publicações na imprensa escrita, e a comemoração do
cinquentenário da fundação em solo brasileiro.
Iniciava-se, assim, o momento presidencialista do governo de Jango. No entanto,
o que se viu a seguir foi o agravamento da crise em torno de sua liderança, seja por suas
propostas de governo, aglutinadas em torno das Reformas de Base3 seja pelo seu
isolamento político, sintetizado pela oposição entre um conservadorismo político
contundente e as esquerdas presentes na cena partidária brasileira.
No início de 1964, houve uma série de manifestações intituladas “Marcha da
Família com Deus pela Liberdade”, elas foram organizadas pelo clero católico e
organizações femininas. No entanto, o que é pouco mencionado é a presença contundente
das principais religiões do país, como representantes do espiritismo, religiões afro-
brasileiras, judaísmo e protestantismo:
Enquanto fenômeno social, as Marchas inserem-se em um momento em
que diversificados setores da população saíram às ruas em repúdio ao
governo nacionalista de João Goulart, que, segundo acreditavam, tinha
2
É importante destacar que nesse período, os Censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-
IBGE, não delimitavam o pertencimento religioso das igrejas protestantes, abarcando a todos dentro da
nomenclatura protestante. Somente com a contagem de 1980 é que haverá a delimitação por parte do
instituto. Até então, as igrejas faziam suas próprias pesquisas. Contudo, há que se ressaltar a parcialidade
destas, muitas vezes elevando consideravelmente o número de fiéis.
3
Um conjunto de propostas que visava promover alterações nas estruturas econômicas, sociais e políticas
que garantissem a superação do subdesenvolvimento e permitissem uma diminuição das desigualdades
sociais no Brasil. Sob a denominação de Reformas de Base, elas constituíram a plataforma do governo João
Goulart e fonte de oposição da classe conversadora.
5
aspirações comunizantes e caminhava para a destruição dos valores
religiosos, patrióticos e morais da sociedade. (SÁ MOTTA,2002 p.19)
Elas surgem no contexto de um movimento anticomunista, que seriam “os
indivíduos e grupos dedicados à luta contra o comunismo, pela palavra ou pela ação”.
(SÁ MOTTA,2002). Sua base ideológica estaria centrada em uma postura de recusa
militante ao projeto comunista, entendido como síntese marxista leninista originadora do
modelo soviético e, especialmente, o seu maior temor, uma infiltração comunista no
governo brasileiro.
O interesse pelo comunismo, por parte das principais religiões do Brasil, se
centraliza, especialmente, no papel que estas denominações terão, posteriormente, com a
deflagração do golpe que destituirá João Goulart da Presidência e provocará o início da
Ditadura Militar. Neste sentido, o próprio Presidente notará o teor religioso dos protestos,
e, especialmente, a característica principal das Marchas da Família com Deus pela
Liberdade:
Nas grandes passeatas os cartazes não eram dirigidos contra a pessoa
do Presidente ou contra as reformas de base por ele preconizadas. Todos
visavam a atingir o sentimento profundamente religioso do povo e
mostrar o perigo iminente da tomada do poder pelos comunistas.
(PRESOT, 2010.p.320).
Nesta ótica, o que se percebeu foi um apelo ao sentimento religioso da população
brasileira por parte de representantes da “direita”, que faziam um apelo coletivo, pedindo
a saída do Presidente eleito democraticamente .
Acusavam o governo de corrupção, mas, especialmente, instituíram o “medo”
como plataforma principal de manifestação, este caracterizado sob o terror da ameaça
comunista. Jango notou que “Exploraram os sentimentos cristãos do povo na mistificação
de um anticomunismo (...) Não podem ser levantados os rosários da fé contra o povo, que
tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade de suas esperanças”. (PRESOT,
2010). Contudo, foi o que ocorreu, não só com a participação de representantes da religião
católica, principalmente, empunhando seus rosários, mas também, e, de maneira mais
silenciosa, por meio dos protestantes.
6
Esta breve exposição nos ajuda a chegar a um ponto particular da crise, que teve
como consequência a conjuntura de radicalização ideológica que levou à deposição do
Presidente da República, e, para nós, possui um interesse particular, por ser a união dos
princípios entre religião e política4, porque a religião foi utilizada enquanto como
justificativa para posicionamento político, através da oposição ao governo de João
Goulart.
Ao longo da década de 1960, a igreja Assembleia de Deus adotou a postura de se
pronunciar por meio de seus periódicos sobre os principais acontecimentos do Brasil e do
mundo, diferentemente do que notamos nas décadas de 1940 e 1950, quando, em sua
maioria, as notícias pontuavam questões religiosas. O ano de 1961 inaugura, do ponto de
vista da instituição, a comemoração de seu cinquentenário, em território brasileiro, tendo
em vista que a mesma foi fundada em 1911, em Belém do Pará.
Em 1961, especialmente, notaremos uma ampliação de notícias que tem por
objetivo orientar os fiéis quanto aos fatos que ocorriam no Brasil e no mundo, se
utilizando, para tanto, de noticiário publicado pela imprensa secular e por artigos
produzidos por seus redatores, membros da denominação. Podemos elencá-los dentro de
uma temática que abordava aspectos políticos e de costumes.
O jornal Mensageiro da Paz e a revista evangélica A Seara foram os responsáveis
por tornarem público, na década de 1960, o pensamento da igreja Assembleia de Deus.
Na área de interesse político, notamos dois aspectos principais com ampla publicação: o
comunismo e o ecumenismo. Na conjuntura do golpe de 1964 no Brasil, os dois temas
foram usados como recursos para a igreja apoiar a deposição do Presidente, e,
particularmente, como o mal que devia ser combatido.
No caso das igrejas protestantes, a alternativa foi proteger-se quanto à série de
mudanças por que passava o país e, especialmente, apresentar-se como alternativa de
compensação em um momento de crise para a população mais pobre, no sentido de ser a
demonstração de equilíbrio para fiéis que viviam em período de crises familiares e com a
4
Cabe lembrar que esta relação entre religião e política sempre marcou a história do Brasil republicano,
ainda que pela Constituição brasileira ocorra a separação formal entre Estado e a Igreja.
7
assistência social, através da realização de mutirões, realizando doações de roupas e
alimentação e conforto espiritual, por meio dos grupos de oração e no próprio culto
Na década de 1940, a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã do Brasil 5
possuíam cerca de cinquenta mil membros cada uma e, dez anos depois, esse número
havia praticamente duplicado. Mas a década de crescimento exponencial foi a de 1950
para os representantes da Assembleia de Deus. (SIPIERSKI, 2003).
Todo este potencial humano, representado por mais de setecentos mil membros,
começou a ter o seu olhar orientado para ver o comunismo como o mal a ser combatido,
pensado como inimigo, ligado diretamente à sombra, às trevas, ao medo e ao terror, capaz
de destruir os três pilares da sociedade livre: Deus, pátria e família, na concepção cristã
dos protestantes.
Notamos na década de 1960 uma mudança de postura significativa, uma espécie
de ecumenismo anticomunista, em que as principais denominações cristãs do país se
uniram contra o inimigo em comum. Dentre as quais, as Igrejas cristãs reformadas,
judeus, espíritas e até umbandistas. A Igreja Católica foi a principal liderança no sentido
de fortalecer o movimento, passando a ideia pública da “união das Religiões contra o
comunismo” (SÁ MOTTA,2002).
No que se refere à Assembleia de Deus, ainda que não conjugasse do ideal
igualitário do ecumenismo, como veremos adiante, ela alinhou-se às demais
denominações ao construir um discurso semelhante de combate ao mal. Neste contexto,
a igreja se utilizou de seus principais periódicos para informar seus leitores/fiéis, quanto
ao inimigo a ser combatido.
A linha editorial de seus principais periódicos, o jornal Mensageiro da Paz e a
revista A Seara, apesar de possuírem o mesmo redator chefe, Emílio Conde, adotou
posturas diferentes, no que se relacionava a manchetes pertinentes aos aspectos políticos
do Brasil e do mundo.
5
A Igreja Congregação Cristã do Brasil foi fundada em 1910, e é a primeira a instituir o pentecostalismo
no Brasil. Enquanto a igreja Assembleia de Deus foi fundada em 1911, pelos suecos Daniel Berg e Gunnar
Vingren em Belém, capital do Estado do Pará.
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Especialmente no jornal, o que se notou foi a predominância do tom confessional,
com a preocupação em relatar os problemas da Casa Publicadora da Assembleia de Deus
(CPAD), a editora responsável pela produção e distribuição dos principais periódicos com
suas campanhas para angariar doações por parte dos fiéis, assim como a ênfase na
importância da leitura e o direcionamento que esta deveria ter na doutrina da igreja, ou
seja, o jornal Mensageiro da Paz era mais voltado para os costumes, enquanto a revista
A Seara possuía um olhar voltado para as discussões de teor político.
Neste sentido, em 1961, a revista A Seara inicia a sua edição de número 22, com
o seguinte pronunciamento:
O Jubileu de Ouro das Assembleias de Deus no Brasil, neste feliz ano
de 1961vem demarcar entre nós o fim de uma etapa, dando lugar a nova
época na vida da igreja. Na verdade, as circunstâncias atuais já não são
as mesmas de cinquenta anos passados. Dantes, havia somente os que
se convertiam e se filiavam à congregação. Hoje, já existe uma geração
formada dentro da Igreja, e outra, já em formação, filhos de crentes, que
precisam ter uma atenção especial. Dantes, havia um número bem
menor de igrejas, e, as existentes, possuíam número reduzido de
membros. Hoje, porém, tudo se multiplicou. A sociedade, antigamente,
possuía característicos mais conservadores que a sociedade moderna.
E, agora é tempo de progresso. O Jubileu bem nos induz ao progresso.
(A Seara, 1961.p.1).
No sentido de encaminhar ao progresso, entendido como modernizante, levando
a um novo tempo, a revista toma para si, em termos editoriais, a missão de direcionar ao
leitor/fiel, o caminho a ser percorrido. Será recorrente, nos números subsequentes ao ano
de 1961, relatos que destaquem a conjuntura de mudança do Brasil, mas também da
Assembleia de Deus. Para tanto, termos como progresso, crise, mudança serão
acompanhados de esclarecimentos e orientações quanto à solução pensada pela igreja, e
que deve ser do conhecimento dos assembleianos para segui-la.
Como principal problema, naquela conjuntura de crise e mudança pela qual
passava o Brasil, o comunismo é visto como o mais ameaçador, necessitando, para tanto,
de uma “tomada de atitude cristã”, palavras da revista, frente à realidade que se via no
país. Para tanto, foi produzido na edição 31 do periódico A Seara, referentes aos meses
de março e abril de 1963, capa com a seguinte assertiva “Ecumenismo: Sinal dos tempos,
pronunciamento das Assembleias de Deus”. Este é um número que merece uma
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problematização especial, ao notarmos a circunstância em que o mesmo foi produzido.
Exatamente com um ano de antecedência ao golpe militar, pelo ano de 1963 aglutinar os
momentos finais de crise do governo do presidente João Goulart. Contudo, especialmente,
por tornar pública uma tomada de posição de uma denominação religiosa que,
historicamente, optava, até então, pelo silêncio em tomadas de posicionamento frente ao
seu público leitor, com o que ocorria fora do ambiente doutrinário.
Esta edição se pronuncia sobre o ecumenismo e o comunismo. Quanto a este, a
igreja torna pública a necessidade em explicar ao leitor o que vem a ser e, principalmente,
qual postura seguir, como membro da Assembleia de Deus. No artigo intitulado “Atitude
Cristã face ao Comunismo” (A Seara,1963, p.21), são elencados os quatro pontos a serem
tomados:
1. COMPREENSÃO: A primeira providência é procurar entender o que é
o Comunismo;
2. INSTRUÇÃO: Compreendendo o que é o comunismo, o passo seguinte
é instruir o povo para que evite o mal. A ignorância é o pior dos males;
3. EVANGELIZAÇÃO: Instruir ou educar o povo quanto ao Comunismo
não é o suficiente. É muito importante, mas não é o bastante. É preciso
espalhar o evangelho de Cristo, que é o poder de Deus para salvação de
tudo o que crê. Ninguém crerá se não houver quem pregue. A instrução
reforma, altera. O Evangelho transforma, regenera, salva.
4. DEDICAÇÃO: A evangelização só avançará com rapidez se houver
real dedicação por parte dos crentes. Havendo plena submissão a Deus,
o seu espírito operará em nós a dedicação pelas almas perdidas. É fato
reconhecido que milhares e milhares de filhos de Deus estão
escondendo seu talento, enquanto milhares vão sendo agrilhoados pelo
Comunismo e caminham para a perdição.
Pontuados os pontos principais dos caminhos a serem seguidos pelos fiéis,
merecem atenção especial os dois primeiros itens, pela revista se afastar de sua pauta
costumeiramente confessional e apologética, e aproximar-se de um discurso mais
próximo da imprensa laica, ou como os mesmos se referem, imprensa leiga.
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Para tanto, a preocupação inicial é identificar o que vem a ser o comunismo, no
item “Compreensão”, o que os mesmos fazem questão de conceituar logo no início das
treze páginas que foram destinadas a esta publicação.
A reportagem foi dividida em dois números da revista, das quais sete páginas na
edição de número treze, juntamente com o conteúdo referente à instrução e seis na edição
de número quatorze, para explicar a evangelização e a dedicação necessária para pôr fim
ao comunismo. Merece menção especial, a concepção de comunismo como uma religião,
para a igreja Assembleia de Deus:
O Comunismo não é apenas um movimento político, econômico ou
social. É mais que isso. Ele é também uma religião que apela fortemente
à alma com sua filosofia, ideias e promessas baseadas inteiramente na
matéria e na ciência. Mas que espécie de religião é o Comunismo? É o
avesso do Cristianismo: isto é, a inversão completa da ordem divina
das coisas. É a doutrina da supremacia da matéria sobre o espirito, da
terra sobre o céu. Como religião, o Comunismo dá sentido diferente a
cada aspecto da vida humana, exigindo também lealdade absoluta de
seus adeptos. (A Seara,1963, p.23)
Portanto, para a igreja Assembleia de Deus, o comunismo era uma doutrina, uma
religião. A crítica da revista situava-o como o oposto do Cristianismo e, por este motivo,
o comunismo era um mal a ser combatido, posto que os que advogavam a seu favor,
viviam-no como um sentimento religioso atrelado à ciência, por pensá-lo racionalmente
ligado diretamente ao ateísmo, ao materialismo e ao determinismo econômico, que eram
consideradas como “hipóteses baseados em programas científicos”.
É intuito da publicação levar o leitor à compreensão, uma vez que “Odiar o mal
em nada contribui para seu tratamento. O ideal é ter um conhecimento racional do que o
Comunismo é” (A Seara,1963). Para tanto, eles se utilizaram das falas de Karl
Marx(1818-1883), Lenin (1870-1924), e Friedrich Engels (1820- 1895), entendidos por
eles, como os grandes responsáveis pela propagação do comunismo pelo mundo, posto
que “as obras de Marx e Lenin substituem a Bíblia como fonte de autoridade”.
Nesta concepção em compreender “racionalmente” o comunismo, vem a
importância em tornar claro para o leitor/fiel o que deve ser evitado. Partimos do
pressuposto que a analogia com a religião vem no sentido de aproximar a linguagem para
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este público que em sua grande parte lia somente literatura religiosa nas publicações da
igreja.
Ao identificar o comunismo como uma doutrina religiosa, o fiel assembleiano
passa a vê-lo como possibilidade de expansão para o Brasil, passa a temer as lideranças
que podem surgir deste movimento e, especialmente, com o teor dos artigos publicados,
passa a abominar qualquer pessoa, entidade, ou partido que tenha ligação com as práticas
comunistas.
No que se refere à política, a Assembleia de Deus pensa que “O Comunismo sai
da esfera da política para a da religião, e é aí que ele se arraiga no espírito dos incautos.
Está provado que a ignorância quanto a este assunto é geral: congressistas, civis e
militares, estudantes e professores” (A Seara,1963). Na concepção editorial estabelecida
pelo artigo, só havia uma saída, a instrução dos que ainda não conseguiam entendê-lo
como expressão do mal.
E é neste ponto em especial que fica clara, por parte da igreja, a importância da
imprensa para propagação de sua doutrina, no que diz respeito à instrução dos fiéis,
quanto ao momento político vivido pelo Brasil. Especialmente no sentido de combate ao
comunismo, a revista A Seara elege cinco pontos principais: o rádio, a televisão, a escola,
a igreja e a imprensa.
Não nos passou despercebido, o fato de a publicação elencar o rádio e a televisão
separadamente da imprensa. Na concepção de seus editores, os dois primeiros eram mais
importantes no sentido de propagação de notícias, apesar de reconhecer a televisão como
meio de comunicação novo, em 1963, estava recém-chegada ao Brasil e oneroso do ponto
de vista de funcionamento. Para os assembleianos, ambos conseguiam alcance tanto no
campo quanto nas cidades. Além do rádio poder ser levado individualmente pelo ouvinte
aonde este fosse, sendo por isso grande fonte de instrução.
No que se refere à escola e à igreja, é interessante perceber como pode ser
contraditório o discurso produzido por esta denominação religiosa. Em sua concepção, o
papel ideal da escola seria o de dar uma:
Orientação sadia e imparcial, de acordo com a capacidade de
assimilação e do nível intelectual do aluno. Isto não vem sendo feito.
Ensinam, sim, a odiar o Comunismo. Mas este não é o caminho
12
eficiente. É preciso conhecer as ideologias, filosofias, leis e táticas do
sistema. (A Seara,1963, p.25)
Uma vez que segundo a publicação “É isto que avassala a mente do indivíduo”.
Ao subjugar a mente do sujeito, na sua concepção de educação padronizada, a igreja via
como importante ensinar as ideologias, o modo de pensar e agir do comunismo, ou seja,
criticavam o discurso de ódio contra o “mal”, mas terminavam por fazê-lo de forma bem
construída nas páginas de seus periódicos.
Outros dois pontos que merecem atenção são relacionados à igreja e à imprensa,
como veículos de instrução. A igreja, para o periódico, tem um papel importante a ser
utilizado tal qual:
Como corpo de Cristo é um organismo vivo e espiritual, porém, ela é
composta de seres humanos com seu lado social. A igreja é sempre
apolítica, por isso sua orientação nesse sentido sempre abrangerá o lado
religioso do Comunismo. O lado social da Igreja precisa ser advertido
nesse sentido. A instrução provida pela Igreja é sempre imparcial e livre
de quaisquer influências. (A Seara,1963, p.26) (Grifo Nosso).
Ao fazer propaganda da “imparcialidade” da igreja, fica evidente a total
parcialidade da publicação, inclusive por salientar o lado “apolítico” da Assembleia de
Deus, que neste período podemos pontuar como inexistente, pois no início dos anos de
1960, ficava evidente nas páginas de seus periódicos um maior interesse em tornar
público o posicionamento político desta denominação, inclusive pontuando o que deveria
ser combatido, para, consequentemente, obter a adesão por parte de seu fiéis. Neste
tocante, entendemos a importância dada à imprensa, posto que no entender da revista:
Esse campo é vasto, mas abandonado. Aí, estão os jornais, as revistas,
os boletins e livros dos tipos mais variados. No mínimo deveria ter um
livro texto sobre o assunto. A literatura é a grande arma do comunismo.
Suas publicações estão traduzidas em todas as línguas principais. Para
ele, o que as armas não têm feito a página impressa o têm. As
impressoras vermelhas não param noite e dia, para disseminar o
bolchevismo, enquanto do nosso lado, a democracia nada faz para
utilizar o poder desse meio de instrução. (A Seara,1963, p.26)
Há dois pontos que merecem nossa atenção nesta fala: a suposição de que a
propagação do comunismo se dava por meio da imprensa e, por este motivo deveria existir
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um livro que se propusesse ao combate do mesmo, fato justificável por tratar-se de um
importante instrumento de formação de opinião, sobretudo, em um país onde a sociedade
civil possui pouca tradição organizativa, seja do ponto de vista de grupos políticos ou de
manifestações individuais. Ao longo da história política e social brasileira, é comum
evitar conflitos diretos sobre questões de ordem política e religiosa. Fato que começa a se
modificar na atualidade, com o posicionamento contundente dos grupos religiosos na
cena partidária do país.
No entanto, é inegável o grau de comprometimento dos jornais da imprensa leiga
com o anticomunismo, assim como o impacto causado por este sobre a sociedade, ainda
que, anteriormente, no próprio artigo, a revista deixe clara a maior abrangência da
televisão e do rádio. E, principalmente, a crítica feita à democracia brasileira que pela
“liberdade” disponível terminava por não aproveitar todo o potencial cabível. Aqui cabem
alguns questionamentos: a Assembleia de Deus não via com bons olhos a forma como o
jornalismo brasileiro tratava o comunismo, ainda que este fosse constantemente
criticado? Ou era esperado um discurso ainda mais ligado à teoria do mal? Próximo à
figura do pecado e destruidor da ordem, moral e segurança nacional? O fato é que com
tais argumentos, o jornalismo produzido pela Assembleia de Deus, por meio da imprensa
religiosa, contribuiu, do ponto de vista do discurso assembleiano, para todo o processo
anticomunista que se construiu no Brasil, uma vez que:
O temor expressado por eles durante a crise é efetivo. No entanto, o
contexto é de manipulações. (...) Foi construída uma imagem deturpada
da situação política, colocando os comunistas numa posição de força
muito maior que a real (...) A ocorrência de manipulações foi elemento
constante na história do anticomunismo brasileiro. (SÁ MOTTA,2002
p.276)
Isto porque notamos nos textos produzidos pela revista A Seara a ocorrência de
manipulações, com crenças, ideologias e a confiança para os eleitores deste periódico,
ocorrência constante na história do anticomunismo brasileiro. O terror anticomunista foi
paulatinamente construído na revista, em alguns momentos em falas camufladas, mas,
principalmente, pretendendo a obtenção de ganhos políticos e religiosos. No que se refere
ao comunismo, esta relação foi trabalhada para que o leitor percebesse a importância que
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os membros do Partido Comunista davam ao grupo político, fazendo mais uma vez o
paralelo entre dedicação religiosa e partidária:
O que tem feito o comunismo avançar é a dedicação de seus adeptos.
Todo Comunista está ligado ao partido como o sangue às veias. Ele não
tem vontade própria, mas a do Partido. Pelo Partido ele mente, engana,
mata, morre, etc. O indivíduo nada é, o Partido é tudo. (...) Os
Comunistas contribuem sem reservas. O lema deles é “metade da minha
renda é do partido. (A Seara,1963, p.26).
Fica evidente, portanto, o interesse em se construir, para o leitor, a importância
ideal que a coligação possuía para os membros do Partido Comunista, aproximando esta
relação com a de uma religião para os comunistas. Cabia, portanto, aos assembleianos
evitarem este mal que ameaçava a ordem estabelecida no país, mas, nota-se a intenção
implícita de reproduzir uma prática que demarcava a fidelidade partidária dos comunistas:
a de doar quantias consideráveis de seu salário a Bancada, especificamente, “metade” de
sua renda.
Afirmações como estas marcam a composição do discurso assembleiano sobre o
comunismo, marcado por manipulações, contradições e singularidades, ao compartilhar,
juntamente com a “grande imprensa” apesar das distintas conjunturas, um
anticomunismo, representado nas versões mais extremadas, como inimigos públicos da
sociedade brasileira.
Referências Bibliográficas
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A Seara, Rio de Janeiro, 1960-1979.
Mensageiro da Paz, Rio de Janeiro, 1960-1985.
2. Bibliografia Geral
ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
BEDA, Ephraim. Editoração Evangélica no Brasil: troncos, expoentes e modelos
(Doutorado em História) Programa de Pós-Graduação em comunicação social.
Universidade de São Paulo, 1993.
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CAMPOS, Leonildo Silveira. O papel do Rádio e da Televisão na expansão dos
Evangélicos no Brasil. In: O Sagrado e o urbano: diversidades, manifestações e análise.
BAPTISTA, Paulo Agostinho Nogueira; PASSOS, Mauro; SILVA, Wellington Teodoro
da. São Paulo: Paulinas, 2008.
PRESOT, Aline. Celebrando a “Revolução”: as Marchas da Família com Deus pela
Liberdade e o Golpe de 1964. In: ROLLEMBERG, Denise; QUADRAT, Samantha Viz
(org.). A Construção Social dos regimes autoritários: Legitimidade, consenso e
consentimento no século XX Brasil e América Latina. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2010.
SÁ MOTTA, Rodrigo Patto. Em Guarda Contra o “Perigo Vermelho”: O anticomunismo
no Brasil (1917-1964). São Paulo: Editora Perspectiva, FAPESP, 2002.
SIPIERSKI, Paulo. Contribuições para uma Tipologia do Pentecostalismo brasileiro. In:
GUERREIRO, Silas (Org.). O estudo das religiões: desafios contemporâneos. São Paulo:
Paulinas, 2003.
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