Rotatividade em Unidades Hoteleiras: Gestão de RH
Rotatividade em Unidades Hoteleiras: Gestão de RH
2016
INSTITUTO POLITÉCNICO DO PORTO
Porto, 2016
ii
Marli Isabel Dias Cunha
Membros do Júri
Presidente
Mestre Ana Cláudia Rodrigues
Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão – Instituto Politécnico do Porto
Porto, 2016
iii
AGRADECIMENTOS
iv
ÍNDICE
v
Referências bibliográficas ...................................................................................... 59
Anexos ................................................................................................................... 70
Anexo A - Questionário Sócio Demográfico........................................................... 71
Anexo B - Guião de Entrevista Semiestruturada ................................................... 72
Anexo C - Consentimento Informado para a Entrevista ......................................... 74
vi
ÍNDICE DE TABELAS
ÍNDICE DE FIGURAS
vii
ABREVIATURAS
viii
RESUMO
ix
práticas mais desenvolvidas são o recrutamento & seleção, a participação e
envolvimento dos trabalhadores e o plano de formação; (3) todos os participantes
consideram que a Gestão de Recursos Humanos tem impacto na rotatividade de
pessoas; (4) os elevados níveis de rotatividade na hotelaria tendem a manter-se; (5)
a gestão de recursos humanos tende a ser, cada vez mais, uma gestão estratégica.
x
ABSTRACT
xi
Keywords: Turnover, Human Resources Management Practices, Hospitability Units,
Human Resource Managers
xii
INTRODUÇÃO
1
rotatividade de pessoas, (4) compreender em que medida, a rotatividade de
pessoas, afeta as UH do Grande Porto.
Neste estudo, procurar-se-á direcionar a análise a unidades hoteleiras com
diferentes tipos de segmentação de público-alvo, na medida em que as estratégias
traçadas dependem muito das preferências e peculiaridades dos seus potenciais
clientes. Assim, uma UH de negócios apresenta períodos sazonais diferentes das
UH de família ou de lazer. Estas oscilações na procura podem dar origem a
variações na oferta, especificamente no caso do emprego, a novas contratações na
época alta ou a despedimentos na época baixa. De acordo com o estudo de Diniz
(2015) sobre “os efeitos da sazonalidade da atividade turística na gestão de recursos
humanos no setor hoteleiro”, a sazonalidade está relacionada com a flexibilidade
laboral.
Medlik e Ingram (2002) consideram que o maior desafio do setor hoteleiro é
manter e desenvolver os colaboradores. De acordo com estes autores, a gestão está
cada vez mais consciente de que os seus colaboradores são a base para o sucesso
organizacional. Paralelamente, segundo Rodriguez (2002) gerir a motivação do
profissional do setor hoteleiro, assume um papel fundamental por parte da gestão. A
saída de um colaborador, em organizações hoteleiras, provoca desequilíbrio nas
operações, gera custos financeiros, perda de tempo e de recursos originando,
consequentemente, novas admissões e novas saídas (Martins, 2007)
Para uma melhor compreensão da rotatividade de pessoas nas UH, importa
compreender especificamente se os picos de sazonalidade influenciam o aumento
das taxas de rotatividade de pessoas nessas unidades em estudo.
No capítulo seguinte é apresentada a revisão de literatura no âmbito da
rotatividade de pessoas, especificamente no setor hoteleiro. Segue-se uma
exposição do papel da gestão de recursos humanos neste setor. No capítulo II é
explorada a metodologia deste estudo seguindo-se, no capítulo III, a apresentação
dos principais resultados. Finalmente, no capítulo IV são discutidos os resultados
obtidos e são apresentadas as principais conclusões, contributos, limitações e pistas
de investigação futura.
2
CAPÍTULO I – REVISÃO DA LITERATURA
3
Rocha e Neto (1997) realizaram um estudo com trabalhadores de um Centro
comercial em Florianópolis e concluíram que na praça de alimentação, a rotatividade
de pessoas é maior do que noutros setores. Os mesmos autores (Rocha e Neto,
1997) sugerem que há práticas de Gestão de Recursos Humanos que podem
influenciar a rotatividade. Concretamente, confirmaram que no setor da restauração,
o recrutamento, a selecção e a formação são feitos de forma informal, isto é, a
principal fonte de recrutamento é a indicação de candidatos pelos próprios
funcionários; a formação ao novo colaborador decorre no dia-a-dia de trabalho; o
que compromete a eficácia do processo na medida em que reduz a possibilidade de
recrutar outros candidatos com mais competências. Neste contexto, salienta-se a
falta de formação e planos de motivação para os colaboradores. A alta rotatividade
também poderá estar fortemente relacionada com a falta de acompanhamento e
avaliação dos colaboradores de uma dada organização (Rocha; Neto, 1997).
Neste contexto, importa conhecer toda a envolvente e detetar as causas que
levam à rotatividade de pessoas, visando evitar custos (tangíveis e intangíveis) e
desgaste nas organizações (Mobley, 1992). De acordo com Mobley (1992), as
organizações competitivas não dispensam uma gestão eficaz da rotatividade de
pessoas. Bancaleiro (2007) reforça o argumento de que a taxa de rotatividade, pelos
impactos consequentes da saída de colaboradores, constitui um dos indicadores de
eficiência da Gestão de Recursos Humanos mais importantes.
Simultaneamente, outros autores (e.g. Harris & Ogbonna, 2001; Stavrou &
Brewster, 2005), com base em evidência empírica, defendem que a performance e
os resultados organizacionais são fortemente influenciados pela existência de
práticas de Gestão de Recursos Humanos, aplicadas em conformidade com a
estratégia organizacional, sobretudo quando evitam a rotatividade de colaboradores.
4
com os seus líderes; escassa oferta de formação; falta de um plano estratégico de
identificação e retenção de talentos.
Chiavenato (1995) defende que as causas da rotatividade podem estar
relacionadas com (1) a política salarial e de benefícios adotada em cada
organização, (2) as oportunidades de progressão de carreira oferecidas, (3) o tipo de
supervisão e política disciplinar ou (4) com as condições físicas e ambientais de
trabalho.
Santana (1996) acrescenta que as características do trabalho são um fator
indicativo da satisfação do trabalhador, o que por sua vez, reduz as taxas de
absentismo e rotatividade, influencia a produtividade, a motivação e o desempenho
dos trabalhadores.
Segundo Cline et al. (1997), a eficácia motivacional pode ser transmitida aos
colaboradores através de recompensas significativas, sendo assim essencial que os
incentivos sejam definidos, visando assegurar que a relação entre o esforço do
colaborador e a recompensa baseada no incentivo, seja direta, clara e
compreendida por todos. Estes autores defendem que programas de incentivos bem
organizados podem criar um sentimento de pertença e de responsabilidade no seio
das organizações. Brannick (1999) e Epstein (1999) consideram que formações
inadequadas, a falta de incentivos, as políticas organizacionais e o tipo de relação
entre o colaborador e a cultura da organização podem constituir, também, causas da
rotatividade de pessoas.
No que respeita à relação entre a política salarial e a rotatividade de
trabalhadores, as recompensas monetárias nem sempre são as mais motivadoras.
Por sua vez, as recompensas como reconhecimento público e as oportunidades de
formação académica, entre outras, terão muitas vezes maior impacto na motivação
(Rogers e Slinn, 1993; Câmara, Guerra & Rodrigues, 1997).
Martins e Machado (2005) consideram que melhores oportunidades de
emprego podem ser outro fator determinante da rotatividade. Assim, salienta-se a
importância da melhoria do ambiente de trabalho como estratégia de diminuição da
rotação de pessoal (Martins & Machado, 2005).
Para Ghiselli et al. (2001) importa, ainda, distinguir a rotatividade de pessoal
ao nível da gestão e ao nível operacional. A rotatividade ao nível da gestão é
influenciada, inevitavelmente, pela satisfação no trabalho, a capacidade de
desempenho da função, satisfação pessoal, a oportunidade de progressão de
5
carreira, as práticas e políticas da empresa, as remunerações, a criatividade, a
segurança, e as próprias condições de trabalho. Salientam que a idade poderá,
também, influenciar a rotatividade, verificando-se uma maior taxa de rotatividade em
colaboradores mais jovens.
Num outro estudo, Ghiselli et al. (2001), envolvendo empresas ligadas ao
setor da restauração na hotelaria, inquiriram os vários diretores de diferentes UH e
verificaram que o setor está a perder os seus colaboradores à medida que
envelhecem, perdendo Know-how. Segundo estes autores, a maior parte dos
inquiridos mostra-se descontente com as condições de trabalho apesar de acharem
que eram bons no desempenho da função. É possível que este descontentamento
possa estar relacionado com as características do setor, nomeadamente o número
excessivo de horas de trabalho, trabalho por turnos, o que poderá originar
inconvenientes na vida pessoal de cada um.
A literatura (Boella, 1992; Chen, 2011; Dialamícua, 2014) sugere, assim, que
a rotatividade de pessoas no setor hoteleiro é explicada pelas baixas remunerações
comparativamente com outras áreas de atividade, piores condições de trabalho
(maior numero de turnos de trabalho), distribuição desajustada da quantidade de
trabalho, práticas de recrutamento, seleção, integração a carecer de reajustes e
escassa qualidade da gestão e supervisão.
Martins e Machado (2005), num estudo realizado na Região do Porto e Norte
de Portugal, afirmam que os responsáveis de UH não têm ainda consciência que
não é apenas o nível remuneratório que retém os colaboradores. Estratégias como a
formação e acompanhamento, o feedback do desempenho e o aumento do
envolvimento dos colaboradores na tomada de decisão são mais eficazes, por
serem mais motivadoras e integrarem uma maior componente de aposta nos RH.
Hinkin e Tracey (2000) relacionam a elevada rotatividade com a escassa
supervisão dos colaboradores, uma vez que não lhes é dada responsabilidade e
autoridade no desempenho das suas funções, das suas tarefas, sendo estas
repetitivas e, muitas vezes, em condições de trabalho pouco favoráveis. Os mesmos
autores defendem, ainda, que as remunerações são baixas, considerando a
interação colaborador-clientes e salientam o imperfeito cumprimento das práticas de
Gestão de Recursos Humanos por parte da generalidade dos responsáveis
hoteleiros.
6
De acordo com Chiavenato (2010), a rotatividade não é causa, mas o efeito
de algumas variáveis internas e externas. Ao nível das variáveis externas, poderá
ser consequência da oferta e procura do mercado de Recursos Humanos, da
conjuntura económica ou das oportunidades de emprego no mercado de trabalho.
Ao nível interno salientam-se a política salarial e os benefícios oferecidos pela
organização, o tipo de gestão, as oportunidades de crescimento interno, o desenho
dos cargos, as relações interpessoais, as condições físicas e psicológicas de
trabalho, a estrutura e a cultura organizacional.
O aumento da rotatividade de uma dada organização pode ser desencadeado
por uma sobrecarga de trabalho, devido a elevadas taxas de absentismo e a um
número insuficiente de recursos humanos, gerando a insatisfação dos colaboradores
(Silva e Marziale,2003 e Alves, 1995).
Crawshaw e Game (2015) defendem que pode haver relação entre a
rotatividade de pessoas e a perceção e/ou expetativas do colaborador face às
oportunidades de progressão ou desenvolvimento interno. No entanto, e em razão
inversa, a desconcordância com os valores da organização poderá resultar num
aumento dos índices de rotatividade, na medida em que os colaboradores sentem
que as suas ambições profissionais não são levadas em conta (Silva, 2001)
7
Hom e Griffeth (1995) denotam, por outro lado, consequências positivas
suscitadas pela rotatividade, na medida em que más performances podem constituir
uma oportunidade de mudança e introdução de novos conhecimentos e de novas
tecnologias e, por vezes, novas oportunidades de negócio. Segundo estes autores, a
rotação de pessoas pode constituir uma forma de reduzir os custos com o pessoal,
podendo simultaneamente, transformar-se em oportunidades em termos de
promoção e enriquecimento para os que ficam.
Deery e Shaw (1997), com base num estudo realizado sobre a rotatividade de
pessoal na indústria hoteleira na Austrália, apresentam duas formas de ver a
problemática da rotatividade. A primeira como sendo um problema; a segunda como
algo inevitável e até necessário e desejável, na medida em que a mobilidade permite
a obtenção de novos conhecimentos e competências.
Considerando que no setor hoteleiro, a interação entre o colaborador e o
cliente determina a qualidade do serviço prestado, poderá o sucesso da organização
como um todo, ser ameaçado (Denvir & McMahon, 1992; Santos, 2013).
As organizações com melhores práticas de recrutamento retêm mais
colaboradores (Mark & Kay, 2002), isto é, um recrutamento inadequado, influencia a
rotatividade que, por sua vez, origina mais despesas para as organizações. No
entanto, segundo McGunnigle e Jameson (2000), uma indústria onde ainda há níveis
excecionais de rotatividade de pessoas e onde se gastam somas extraordinárias em
recrutamento e seleção, há ainda um longo percurso a percorrer antes de se poder
concluir que existe uma cultura de compromisso e que é praticada uma efetiva
Gestão de Recursos Humanos.
Um alto índice de rotatividade remete-nos para uma perda de produtividade,
lucro e saúde organizacional, afetando a motivação dos colaboradores e o
comprometimento destes com a organização. Por sua vez, a alta rotatividade, tende
a gerar mais absentismo, podendo interferir com a credibilidade da organização na
sua relação com os seus clientes (Pomi, 2005).
8
1.2. ROTATIVIDADE NO SETOR HOTELEIRO
9
Porém, as dificuldades económicas enfrentadas pela Europa durante a
Grande Guerra (entre os anos 1914 e 1918), determinaram a estagnação do turismo
e a destruição de hotéis, transformando-os em hospitais de guerra.
No período pós-guerra (nas décadas de 50 e 60), fruto de investimentos
americanos, assiste-se a uma reativação dos fluxos, aumento das viagens aéreas e
do número de agências de viagens, aumento da capacidade hoteleira, diversificação
da tipologia hoteleira e incorporação dos avanços técnicos. Em 1952 nascem as
redes Holiday Inn. Neste período surgem, ainda, os parques de campismo e os
bangalôs, emergem as escolas profissionais de hotelaria e as cadeias hoteleiras
Sheraton e Hilton (Bulher, 2009)
Nas décadas de 70 e 80 do século passado assiste-se a uma globalização
cultural e económica, através da diversificação do produto hoteleiro e da definição
de novos segmentos do público-alvo, nomeadamente, turismo de negócio, de lazer,
convencional, de saúde, ecológico, entre outros. Verifica-se uma mecanização dos
sistemas de contabilidade e controle e passa a haver preocupação com a formação
e especialização dos colaboradores. Nestas décadas surgem as redes Marriot,
Accor, Intercontinental e Meridién.
Os anos 1990 são marcados pela otimização dos processos de gestão, pela
expansão das tipologias hoteleiras, pela certificação ISO, pela preocupação com a
qualidade do serviço prestado. Nesta altura, passa a ser feita uma gestão dos
preços apresentados de acordo com a sazonalidade e emerge a maior cadeia de
hotéis do mundo, a Hospitality Franchise System (Buhler, 2009).
A tendência do turismo nas últimas décadas do sec. XX deve-se à forte
envolvência da comunicação dos transportes mundiais, consequentes da
internacionalização das economias (Andrade, 2000).
A evolução dos meios de transporte, suscita a necessidade de meios de
hospedagem. A hotelaria surge com a necessidade de alojamento por parte dos
seres humanos que se deslocavam para locais diferentes da sua residência habitual.
O setor hoteleiro apresenta características organizacionais e de
colaboradores díspares, de acordo com o tipo de classificação dos hotéis, tais como
a localização, a acessibilidade e meios de transporte, propósito e duração da estadia
(negócios, eventos, lazer), serviços disponíveis, tamanho ou número de camas
disponíveis, categoria e a administração do hotel - cadeia de hotéis ou propriedade
individual (Mullins, 2004)
10
Os mercados de trabalho do setor hoteleiro são mecanismos considerados
imperfeitos, devido à natureza das qualificações exigidas, à sazonalidade e ao
regime de trabalho por turnos, horários de trabalho sociais e não sociais, resultando
numa fácil transferência de competências entre os vários estabelecimentos
hoteleiros, originando elevadas taxas de rotatividade de pessoas. (Martins, 2002)
No setor hoteleiro, a mão-de-obra vive de subjetividade no que respeita à
avaliação dos diferentes serviços oferecidos. Assim, nomeadamente o “serviço de
acolhimento”, é passível de diferentes opiniões por parte de quem usufrui deste,
dependendo dos gostos pessoais de cada um (Riley, 1991). Os serviços são
caraterizados como sendo atividades intangíveis, variáveis, inerentes e perecíveis,
diferenciando-se através da ação humana.
As peculiares características do setor hoteleiro, exigem práticas eficazes de
gestão de recursos humanos. Segundo Choy (1995) e Dialamícua (2014), o setor
hoteleiro é caraterizado como sendo criador de emprego sem valor. A própria
sociedade vê o trabalho deste setor como sendo de um status inferior, sendo esta
depreciação notória logo no processo de recrutamento (Baum, Amoah e Spivack,
1997). Segundo estes autores, a reputação negativa do setor hoteleiro deve-se a
fatores históricos e contemporâneos sendo que, oportunidades de desenvolvimento
de carreira acabam por influenciar a retenção de colaboradores com potencial.
Deery e Shaw (1997) fizeram um estudo sobre a rotatividade de pessoas no
setor hoteleiro na Austrália, e apresentam duas formas de ver as vantagens e
desvantagens desta problemática. Para Deery e Shaw (1997), a rotatividade de
pessoas pode ser vista como um problema ou mesmo como algo positivo e
desejável. Assim, a rotatividade de colaboradores tende a ser vantajosa para estes,
na medida em que permite que adquiram conhecimento, competências e até
progridam na carreira. Já do ponto de vista organizacional, a rotatividade de pessoas
é, geralmente, vista como uma perda.
De acordo com Denvir e McMahon (1992), especificamente no setor hoteleiro,
elevadas taxas de rotatividade, tendem a comprometer os standards de serviços e a
qualidade destes, diminuindo a produtividade e acabando por gerar desmotivação. A
equipa de trabalho tende a ficar menos coesa, verifica-se quebra de eficiência,
comprometendo a fundamental interação colaborador/cliente e, consequentemente,
o sucesso organizacional.
11
Hornsey e Dann (1984), citam Shamir (1978) para defender que o setor
hoteleiro vive particularmente do trabalho de equipa, do trabalho interdependente
por parte de todos os colaboradores, sendo um fator que acaba por influenciar
diretamente o sucesso ou insucesso organizacional.
Davies (2002) explica que, para que seja possível administrar corretamente
um estabelecimento hoteleiro, importa compreender as regras das principais áreas
de um hotel, nomeadamente a administração, alojamento, alimentos e bebidas,
marketing e manutenção.
Shamir (1978) acrescenta que, mediante a heterogeneidade e a
imprevisibilidade que carateriza o setor hoteleiro, cabe à gestão gerir a flexibilidade a
nível dos seus recursos humanos, assim como elevar a sua coordenação. Importa à
gestão de Recursos Humanos prever e analisar as necessidades, através de um
entendimento objetivo do que influencia o número de colaboradores no hotel,
capacidade fulcral a deter pelos gestores de Recursos Humanos, visando assim,
evitar custos de RH desnecessários.
Cho e Wong (2001), através de um estudo aplicado a gestores de hotéis de
Hong Kong, identificaram fatores determináveis da mão-de-obra necessária nas UH,
tais como: taxas médias de ocupação, receitas totais, classificação do hotel e
standard do serviço, taxa de rotatividade de pessoas e produtividade dos
colaboradores.
A elevada taxa de rotatividade de pessoas do setor, aliada à exigência
implícita da prestação dos serviços dificulta, muitas vezes, o planeamento correto da
mão-de-obra necessária nas UH, tornando fulcral uma eficaz organização das
funções por parte da gestão.
A industria hoteleira é ainda caraterizada pelo regime de trabalho temporário,
regime pelo qual não são celebrados contratos permanentes ou sem termo, dando
resposta a épocas sazonais que afetam o setor (Tregaskis, 1997).
Ora, de acordo com Camisón & Monfort-Mir (2012), a imagem negativa que
carateriza o setor surge como uma barreira à retenção de pessoal qualificado. Nessa
medida, os colaboradores veem o setor como uma oportunidade de emprego
temporária, viável somente enquanto não surge uma oportunidade de emprego
melhor.
Neste sentido, Chung (2000) ressalva que a desmotivação e a falta de
satisfação no trabalho no setor hoteleiro, não só afeta a mão-de-obra como também
12
os próprios recém-gestores. Estes reúnem esforços para obter formação de nível
superior, acabando por se dececionarem perante uma profissão exigente no que
concerne a horários e horas de trabalho, acabando até por se sentirem explorados,
comparativamente com outros setores.
Assim, no sentido de manter colaboradores detentores de talento, por um
maior período de tempo, Lashley & Lee-Ross (2003) salientam que importa à gestão
de Recursos Humanos identificar quais as motivações de cada colaborador,
entender os seus comportamentos e atitudes.
A complexidade e diversidade de funções inerentes ao setor hoteleiro requer
que a sua gestão, seja portadora de um vasto conhecimento, visando um eficaz
cumprimento dos objetivos traçados (Campos e Gonçalves, 1998).
13
nos últimos anos, o que revela que este aumento acompanha o aumento da
atividade turística no país (tabela 1). Verifica-se um crescimento de 2041
estabelecimentos hoteleiros em 2008, para 3578 estabelecimentos no ano de 2014
(tabela 2).
As pensões são, em 2008, o segmento hoteleiro mais visível, com 847
pensões em todo território Português. Este número tem vindo a diminuir
consideravelmente nos últimos anos, passando para 448 pensões em 2014.
Contrariamente, no que respeita aos hotéis, verifica-se um acentuado aumento,
passando de 659 em 2008, para 1121 hotéis em 2014 (INE, 2014).
A informação do INE revela ainda que as pousadas e as estalagens tendem a
diminuir ao longo dos anos, verificando-se uma maior aposta em motéis e
aldeamentos turísticos.
Nº de Estabelecimentos Hoteleiros (Série 2002-2008) por tipo e por localização geográfica (NUTS - 2002)
Açores 83 37 26 2 2 0 7 0 9
Madeira 193 55 51 24 1 0 34 1 27
14
alojamento local, o que justifica a discrepância de valores entre a coluna “Nº Total” e
o somatório das colunas restantes.
Açores 163 66 0 0 2 0 3 0 11
Madeira 356 72 26 18 1 0 33 1 9
15
impõe uma grande flexibilidade e, consequentemente, precariedade laboral. Neste
contexto, cabe à gestão encontrar o equilíbrio, procurando evitar empregos precários
(Rebelo, 2005). Esta autora define “trabalho precário” como trabalho incerto,
imprevisível e ariscado do ponto de vista do trabalhador, nomeadamente trabalho
temporário, contratos a termo certo, trabalho a tempo parcial, recibos verdes e
rotatividade. Diniz (2015), neste contexto, salienta que nos dias de hoje, os estágios
profissionais constituem trabalho precário, pois contribuem significativamente para a
rotatividade de pessoas.
De acordo com o INE (2014), o tipo de contrato mais abundante em Portugal
é o contrato sem termo. Contudo, importa referir que de 3.611 mil trabalhadores por
conta de outrem, 644,4 mil são detentores de contrato com termo e 130,1 mil
possuem outro tipo de contrato de trabalho, sendo no setor de serviços que existe
maior percentagem de precariedade laboral (tabela 3).
Trabalhadores por conta de outrem segundo o setor de atividade principal (CAE-Rev. 3), por tipo de
contrato de trabalho
Portugal – 2014
Unidade:Milhares
de indivíduos
Agricultura,
produção
Indústria, construção,
Tipo de contrato de trabalho Total animal, caça, Serviços
energia e água
floresta e
pesca
16
trimestre anterior e 1,6% relativamente ao trimestre homólogo de 2013 (87,0 mil
pessoas). Concretamente, no setor de “Alojamento, restauração e similares” verifica-
se uma acentuada diminuição da população empregada (289,0 mil empregados em
2013 para 276,4 mil, em 2014). Destaca-se ainda o ano de 2014, com o menor
número de população ativa dos últimos anos no setor de “Alojamento, restauração e
similares”.
Os resultados do INE (2014) permitem, ainda, concluir que o setor de
“Agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca” apresenta o maior decréscimo
de população ativa, entre os anos 2014/2013 (14,1%), seguido do setor de
“Alojamento, restauração e similares” (4,4%). Em 2014, o setor dos “Serviços” era o
setor com o maior número de população empregada, no qual se destaca o subsetor
do “Comércio por grosso e a retalho” com 669,7 mil trabalhadores (Tabela 4).
17
Tabela 4 - Nº de trabalhadores por setor de atividade (2011 – 2014)
Milhares de indivíduos %
18
Das 4.499,5 mil pessoas empregadas (tabela 5), 588,7 mil trabalham em
regime de tempo parcial, dos quais, 326,8 mil trabalham no setor de “serviços”.
População empregada segundo o setor de atividade principal (CAE-Rev. 3), por regime de duração do
trabalho
Portugal – 2014
Unidade: Milhares
de indivíduos
Agricultura,
Indústria,
Regime de duração do produção
Total construção, Serviços
trabalho animal, caça,
energia e água
floresta e pesca
19
Tabela 6 - Nº de trabalhadores segundo o setor de atividade, por antiguidade no emprego atual
- 2014
População empregada segundo o sector de atividade principal (CAE-Rev. 3), por antiguidade no
emprego actual
Portugal – 2014
Unidade: Milhares de
indivíduos
Agricultura,
Indústria,
Antiguidade no emprego produção
Total construção, Serviços
actual animal, caça,
energia e água
floresta e pesca
20
1.3. PRÁTICAS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS RELACIONADAS COM A
ROTATIVIDADE DE PESSOAS
21
de que as práticas de gestão de pessoas devem ser parte integrante da estratégia
de negócio.
Este novo conceito de gestão estratégica de recursos humanos permite que
os colaboradores se sintam parte integrante das organizações, sendo as suas
críticas e sugestões valorizadas pela gestão, havendo lugar a uma maior interação
entre chefias e colaboradores (Branco, 2005).
A gestão estratégica de pessoas aposta no conhecimento e competências
dos seus recursos humanos, como diferencial competitivo, investindo e valorizando
primordialmente o seu capital humano (Vasconcelos e Mascarenhas, 2004). Neste
sentido, a GERH procura, cada vez mais, gerar conhecimento internamente,
inovando através de técnicas e metodologias, visando aumento de conhecimento
dos RH da empres (Vieira e Garcia, 2004).
Segundo Ferreira e Freire (2001), num contexto de competição globalizada, a
rotatividade de pessoas surge como uma preocupação crescente por parte das
organizações. Esta competitividade suscita uma maior preocupação em oferecer
produtos e serviços de qualidade, tornando-se fulcral apostar em práticas de Gestão
de Recursos Humanos, que possibilitam a permanência dos colaboradores que, por
sua vez, deverão desenvolver as suas funções com eficiência e eficácia. Os autores
Ferreira e Freire (2001) reforçam esta ideia, definindo a rotatividade como a ponta
de um iceberg de distorções na política de recursos humanos.
Uma cada vez maior competitividade no mercado de trabalho impõe que as
organizações procurem evitar um elevado índice de rotatividade de pessoas,
procurando, assim, reter os seus talentos humanos (Vieira, 2009). De acordo com
Vieira (2009), a perda de pessoas nas organizações revela problemas
organizacionais e desafios a serem combatidos pela Gestão de Recursos Humanos,
na tentativa de reter conhecimento, capital intelectual, inteligência, domínio de
processos, conexões com clientes, de mercado, de negócios, de investimentos em
formação e de recursos financeiros.
Segundo Kaya et al (2010), a Gestão Estratégica de Recursos Humanos
compreende atividades de aquisição (recrutamento e seleção), retenção (políticas
específicas adequadas às necessidades do contexto organizacional e das pessoas
que o constituem), empowerment (nomeadamente através de formação e
desenvolvimento) e motivação dos colaboradores (podendo considerar-se, por
exemplo, incentivos, feedback, entre outros).
22
Já Kasinath e Pradesh (2011) defendem que a Gestão Estratégica de
Recursos Humanos deve focar-se em práticas como planeamento de Recursos
Humanos, recrutamento e seleção (visando ter a pessoa certa no lugar certo),
formação e desenvolvimento (procurando uma evolução a nível dos conhecimentos,
capacidades e até de aspetos relacionados com a personalidade), sistemas de
recompensas e relações humanas. Neste contexto, Martins e Silva (2013) e Martins
(2005), com base na realização de alguns estudos sobre a Gestão de Recursos
Humanos em Portugal, consideram que nas empresas Portuguesas predominam,
ainda, práticas de Gestão de Recursos Humanos de índole operacional
(recrutamento & selecção, formação profissional, desenvolvimento e análise de
funções), verificando-se ainda a escassez de aplicação de práticas estratégicas de
Recursos Humanos (como por exemplo, sistemas de recompensas, planeamento e
desenvolvimento de carreia, gestão de redução de efectivos).
Uma das exigências colocadas à Gestão de Recursos Humanos do setor
hoteleiro é a de conseguir manter ou elevar a competitividade através da qualidade
do serviço prestado, sendo estes colaboradores considerados a mais importante
vantagem competitiva da organização (Riley e Szivas, 2009). Neste sentido, Hoque
(1999) defende que os colaboradores em contacto direto com os clientes deveriam
surgir no topo da pirâmide hierárquica de toda a indústria hoteleira, e não na sua
base.
A importância do capital humano, em organizações que vivem da prestação
de serviços, expressa a necessidade de criar e desenvolver o comprometimento dos
colaboradores com a organização, através de partilha de valores, desenvolvimento
de competências e inovação, visando atingir um nível de qualidade superior. O
mesmo autor (Hoque, 1999) reforça a importância de diversas práticas de Gestão de
Recursos Humanos, nomeadamente, o recrutamento, a formação e o
desenvolvimento de competências e salienta, ainda, a importância da gestão e da
liderança, as quais influenciam a forma como os colaboradores vêem a organização.
Neves (2002), baseando-se em evidências empíricas no âmbito da Gestão
Estratégica de Recursos Humanos, salienta as práticas mais utilizadas nas
organizações, tais como, recrutamento e selecção; formação; higiene e segurança;
remuneração; avaliação de desempenho; comunicação; integração; análise e
descrição de funções; gestão de carreiras. Saxena e Tiwari (2009) identificaram o
desenvolvimento de carreira, as recompensas e benefícios, a comunicação interna e
23
a formação como sendo práticas de Gestão de Recursos Humanos primordiais nas
organizações.
Marinho (2012) acrescenta que, as práticas de Gestão de Recursos Humanos
são mais eficazes quando estão alinhadas com a estratégia organizacional,
permitindo um maior envolvimento na atração, motivação, desenvolvimento e
retenção de colaboradores. Assim, fomentar as práticas de Gestão de Recursos
Humanos nas organizações é uma forma de reter colaboradores (Allen, 2001).
Martins e Silva (2013), afirmam que os gestores de RH das organizações
demonstram querer incluir componentes estratégicas nos seus modelos de atuação.
De acordo com Chiavenato (1995), as práticas de Gestão de Recursos
Humanos podem reduzir as taxas de rotatividade de pessoas, assim como,
consequentemente, influenciar a produtividade e qualidade de vida no trabalho de
cada colaborador. Ora, neste contexto, Oliveira e Gueiros (2004) acrescentam que
não é possível melhorar a qualidade dos serviços prestados, sem eficazes práticas
de recrutamento, seleção, desempenho, formação e programas de desenvolvimento.
Hoque (1999), com base em vários estudos, concluiu que apesar de serem
aplicadas práticas de Gestão de Recursos Humanos no setor hoteleiro, estas não
são aplicadas corretamente. O mesmo autor alerta, nomeadamente, para a
desmotivação gerada no interior das organizações, devido ao facto da mobilidade
ascendente não estar ao alcance de todos, mas somente a elementos da gestão. O
enriquecimento do emprego traduz-se somente no aumento da responsabilidade
para certos colaboradores, as reuniões de trabalho assumem basicamente carácter
expositivo e não um diálogo, assim como, o próprio desenvolvimento individual é
geralmente ignorado (Hoque, 1999).
Para Pomi (2005), a rotatividade pode estar relacionada com a ausência de
eficientes práticas de Gestão de Recursos Humanos das organizações, mais
concretamente com a deficiência nas contratações, falta de conhecimento no que
respeita à insatisfação dos colaboradores com a liderança, falta de investimento em
formação, falta de um plano estratégico de identificação e retenção de talentos,
entre outros. Pomi (2005) considera, ainda, que se torna fundamental a entrevista de
desvinculação na medida em que esta possibilita controlar e medir os resultados da
política de recursos humanos desenvolvida por uma dada organização,
nomeadamente, permite aferir as principais causas da rotatividade de pessoas.
24
As pessoas são recursos fundamentais para o crescimento e
desenvolvimento organizacional, tornando-se fulcral gerir a rotatividade de pessoas
dentro de cada organização (Cardozo,2005). Importa, assim, investir na gestão de
pessoas de forma a evitar diversos fenómenos negativos para a organização,
nomeadamente, moderar o índice de rotatividade (Xavier, 2006).
Mais recentemente, Garcia (2016), num estudo sobre “Gestão de Recursos
Humanos na Indústria do Turismo em Portugal”, mostra que a Gestão de Recursos
Humanos nas UH de grande dimensão, foi implementada há relativamente pouco
tempo, sendo que as UH de pequena e média dimensão continuam, na sua maioria,
a apresentar uma estrutura tradicionalmente familiar, cabendo à gestão de topo
realizar as tarefas de Recursos Humanos. Garcia (2016) realça que as UH que
dispõem de Gestão de Recursos Humanos, a curto prazo, verão a Gestão de
Recursos Humanos como fundamental no dia-a-dia dos colaboradores, como um
investimento, no sentido que atraem e retêm talento e fidelizam os clientes (internos
e, consequentemente, externos). De acordo com o mesmo estudo, tanto as
organizações que dispõem de Gestão de Recursos Humanos, como as que
atualmente não dispõem, demonstram estar conscientes para a importância desta,
no presente e num futuro próximo para fazer face ao crescimento e exigências do
mercado.
Por outro lado, salienta-se um acentuado desconhecimento dos programas de
envolvimento dos colaboradores, falta de visão de curto/médio prazo por parte dos
gestores, assim como um desconhecimento da importância e o impacto que os
mesmos podem ter, ao nível motivacional, na promoção da satisfação e,
consequentemente, na retenção dos colaboradores (Martins; Machado, 2005).
Segundo Fitz-enz (2001) importa que os gestores percebam quem está a
deixar a organização, o porquê e em que altura da sua carreira e até mesmo,
percecionar qual a oferta da organização concorrente que motivou a saída voluntária
do colaborador. Martins e Machado (2005) afirmam que os hoteleiros começam a ter
consciência da importância da retenção num setor tão afetado pela rotatividade de
pessoas, embora ainda desconhecendo quais as melhores práticas de Gestão de
Recursos Humanos que no futuro serão mais muito eficazes na retenção de
colaboradores (Martins e Machado, 2005).
25
CAPÍTULO II – METODOLOGIA DE ESTUDO
Objetivo geral
Objetivos específicos
26
possibilidades de análise de um determinado fenómeno, enriquecendo e dando
profundidade às conclusões a que se chega (Ragin, 1994).
De acordo com Bardin (2013), a técnica análise de conteúdo não é válida em
inferências gerais, mas sim na elaboração de deduções particulares sobre um
acontecimento ou uma variável de inferência precisa.
Este tipo de análise carateriza-se pela fundamentação da inferência (variáveis
inferidas a partir de variáveis de inferência ao nível da mensagem) através da
presença do índice, nomeadamente um tema, uma palavra, e não pela frequência
com que surge, em cada comunicação individual (Bardin, 2013). Numa análise de
dados qualitativa, o investigador quer apreender “algo a partir do que os sujeitos da
investigação lhe confiam” (Amado, 2000, p. 60).
A escolha da metodologia deste projeto de investigação resultou da reflexão
entre a pergunta de partida e os objetivos definidos previamente.
Tratando-se de uma análise exploratória, este estudo envolve a realização de
entrevistas com as pessoas que tiveram experiências e contacto com o problema
pesquisado e que sejam capazes de estimular a compreensão do problema (Gil,
1991). Assim, a análise exploratória foi considerada a mais adequada para este
estudo, na medida em que visa proporcionar maior familiaridade com o problema,
com vista a torná-lo explicito.
Por sua vez, o método que melhor se aplica à presente investigação é o
método dedutivo. O método dedutivo surge como “um conjunto de técnicas de
análise das comunicações visando obter procedimentos sistemáticos e objetivos de
descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que
permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de
produção/receção (variáveis inferidas) destas mensagens”. (Bardin, 2013, p.44),
Os dados obtidos foram minuciosamente analisados através da técnica
análise de conteúdo, visando um estudo aprofundado das temáticas em análise.
A análise de conteúdo define-se como um conjunto de instrumentos
metodológicos, que se presta a analisar diferentes fontes de conteúdos, tendo por
base o rigor da objetividade e a fecundidade da subjetividade. Este tipo de análise
exige por parte do pesquisador, disciplina, dedicação, tempo, certo grau de intuição,
imaginação e criatividade, rigor e ética, fundamentalmente na definição das
categorias de análise (Freitas, Cunha, & Moscarola, 1997).
27
2.2. TÉCNICA DE RECOLHA DE DADOS
28
de tendência futura no que respeita a essa rotatividade (questão 9), assim como, à
própria Gestão de Recursos Humanos (questão 10).
2.3. PROCEDIMENTO
29
autora, a análise de conteúdo procura conhecer aquilo que está por trás das
palavras sobre as quais se debruça, é uma busca de outras realidades através das
mensagens. Esta técnica propõe-se a analisar o que é explícito no texto visando
obter indicadores que permitam fazer inferências.
A análise de conteúdo surge como um instrumento de diagnóstico, obtido
através da orientação comportamental do locutor, a fim de criar inferências
específicas ou motivações causais (George, 1959).
A divisão das componentes das mensagens analisadas em categorias não é
uma etapa obrigatória de toda e qualquer análise de conteúdo, no entanto, a maioria
dos procedimentos de análise organiza-se em volta de um processo de
categorização (Bardin, 2013). A análise por categorias é umas das técnicas da
análise de conteúdo e visa o “desmembramento” do texto em unidades, em
categorias segundo reagrupamentos analógicos. (Bardin, 2013)
A investigação qualitativa constrói-se através da síntese dos dados e das
citações recolhidas nas entrevistas, procurando expressar o significado das diversas
unidades de análise (Moraes, 1999; Santos, 2012).
Após leitura exaustiva dos dados obtidos em entrevista, estes foram
organizados em 5 dimensões, visando uma interpretação pertinente das diferentes
unidades de análise: (1) Práticas de Gestão de Recursos Humanos; (2) Papel da
Gestão de Recursos Humanos; (3) Causas de rotatividade; (4) Tendências de
rotatividade; (5) Futuro da Gestão de Recursos Humanos.
De acordo com Bardin (2013, p.145) “as categorias são rubricas ou classes,
as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registo) sob um titulo
genérico, agrupamento esse efetuado em razão das caraterísticas comuns destes
elementos”.
Assim, o processo de categorização remete-nos para a classificação de
elementos de uma mensagem, seguindo determinados critérios e representando o
resultado de síntese de uma comunicação, no qual se salientam os aspetos mais
importantes (Olabuenaga & Ispizúa, 1989).
Das UH inquiridas, duas calculam o Índice de Rotatividade Anual (UHA e
UHD) pelo que, através dos dados e percentagens fornecidas, foi-me possível refletir
a variação do índice de rotatividade em cada uma das UH através de um gráfico
(figuras 1 e 2).
30
2.4. PARTICIPANTES DO ESTUDO
31
Unidade C, unidade D, unidade E, unidade F, unidade G, unidade H e unidade I. A
cada unidade corresponde um responsável de Recursos Humanos.
Na tabela que se segue (tabela 7), é apresentada uma breve caraterização
dos nove participantes deste estudo.
Unidade Hoteleira
A B C D E F G H I
Sexo Feminino Feminino Feminino Feminino Feminino Feminino Masculino Masculino Feminino
Idade 37 32 52 34 24 25 32 40 30
Estado civil Solteira Solteira Casada Casada Solteira Solteira Solteiro Solteiro Solteira
Habilitações Psicologia Economia Gestão Gestão Gestão
Direito RH RH Turismo
(Licenciatura) da saúde e Finanças Hoteleira Hoteleira Hoteleira
Dados do entrevistado
Segmentação Corporate
Lazer Lazer Corporate Corporate Lazer Corporate Corporate Lazer
público-alvo e Lazer
Experiencia
anterior em Sim Não Sim Sim Sim Sim Não Não Não
GRH
Experiencia
anterior em Não Não Sim Sim Sim Sim Não Não Não
GRH em UH
32
B, C, D) e de assistente de RH (unidade hoteleira F). No que respeita ao tempo de
atividade, a generalidade dos inquiridos assume a atual função há um ou dois anos,
com a exceção das unidades A e B (seis e quatro ano, respetivamente).
Dos nove participantes, cinco apresentam experiencia anterior em Gestão de
Recursos Humanos (unidades hoteleiras A, C, D, E e F), das quais, apenas quatro
(unidades hoteleiras C, D, E e F), no setor hoteleiro.
33
CAPITULO III – APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
Nº
Dimensão Categorias
respostas
R&S 9
Avaliação de desempenho 6
Gestão e desenvolvimento de carreira 5
Acolhimento e Integração 5
Inquérito de satisfação dos colaboradores 5
(1) PGRH
Participação e envolvimento dos trabalhadores 9
Planeamento anual 5
Retenção de colaboradores 6
Plano de formação 7
Impacto na rotatividade 9
(2) Papel da Rotatividade equilibrada 7
GRH Importância da retenção 7
Manter uma equipa fixa 9
Mau recrutamento 1
Inadaptação à hotelaria e aos horários 2
Inadaptação ao ritmo de trabalho 3
Novas oportunidades de progressão de carreira 5
(3) Causas de
rotatividade Rescisão por iniciativa do empregador 1
Tipo de gestão/Mau relacionamento com a chefia 1
Jovens com outros objetivos profissionais 3
Influência da conjuntura económica 7
Manter 5
(4) Tendências
Aumentar 2
de rotatividade
Diminuir 2
(5) Futuro da
GRH na GERH 6
hotelaria
34
3.1. PRÁTICAS DE GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS
35
colaborador entenda as suas funções, os seus objetivos e o sucesso do seu
desempenho, fornecendo à Gestão elementos para necessidades de formação,
promoções, possíveis progressões de carreira e desenvolvimento pessoal.
Esta categoria é adotada por seis dos nove inquiridos deste estudo. Embora
não seja uma prática adotada por todos os gestores de recursos humanos das UH, é
notória a importância dada à Avaliação de desempenho, verificando-se uma
necessidade de delegação desta tarefa, deixando de ser executada pela direção
geral, para ser assumida pela direção de recursos humanos. Serve de exemplo para
o exposto, a seguinte citação:
“O diretor geral é responsável pelo recrutamento e seleção, formação interna,
motivação dos colaboradores, avaliação desempenho. Recentemente foi contratada
uma Diretora de recursos humanos, para todos os hotéis do grupo, que está na sede
em lisboa e que passou a ficar responsável pelos diversos processos de recursos
humanos”. (UHH)
36
O processo de Acolhimento e Integração tem por objetivo facilitar a integração
e a adaptação plena de novos colaboradores numa dada organização, gerando uma
partilha da cultura organizacional e dos padrões de comportamentos considerados
aceitáveis pela mesma. Esta prática procura potenciar a performance de cada novo
elemento e, consequentemente, o desempenho organizacional, no menor espaço de
tempo possível. Esta categoria foi referida por 5 dos participantes. Embora não seja
uma prática adotada pela totalidade dos gestores de recursos humanos inquiridos, é
evidente a importância dada a esta. Os gestores que apostam na prática de
acolhimento e integração, reconhecem e valorizam a mesma, chegando a sentir
necessidade de aumentar o seu período de duração. A citação seguinte exemplifica
o exposto:
“Ate há pouco tempo a integração demorava um dia. Agora a integração
demora muito mais tempo e o colaborador faz cross training durante 1 semana, isto
é, tem a possibilidade de passar por todos os departamentos. O recrutamento é feito
com mais antecedência para poder integrar melhor e aumentar a formação “On the
job”. (UHD)
37
organização, o grau de satisfação com a organização e o nível de motivação com as
atividades que desenvolve. Esta prática revela uma aposta numa melhoria contínua,
promovendo a satisfação, a motivação e o bem-estar de cada colaborador,
procurando o sucesso na competitividade organizacional.
A prática Inquérito de satisfação dos colaboradores é aplicada por cinco dos
nove participantes deste estudo. Os gestores de recursos humanos consideram ser
uma boa prática que visa promover o bem-estar e a satisfação dos colaboradores,
tal como é testemunhado pela citação seguinte:
“As boas práticas fazem com que os colaboradores se sintam bem tratados,
nomeadamente com boas condições de trabalho, avaliação de desempenho e
autoavaliação, inquéritos de satisfação, planos de desenvolvimento pessoal, que
permitem que o colaborador fale com a chefia sobre o seu desejo de progressão,
entrevista a meio do ano e entrevista de desligamento, acolhimento e integração
(…). São realizadas reuniões trimestrais de informação aos colaboradores para
anunciarmos resultados. (UHC)
38
antecipar qual a força de trabalho e o talento humano necessários, em conformidade
com a estratégia do negócio. A prática Planeamento anual é aplicada por cinco dos
nove participantes deste estudo, através de reuniões anuais, nas quais é definida a
estratégia de recursos humanos, em conformidade com os objetivos
organizacionais. Tal facto pode ser observado através da citação que se segue:
“Realizamos reuniões antes de cada ano civil, é traçada toda a estratégia de
recursos humanos de acordo com o budget, de acordo com o dinheiro disponível,
tendo sempre por base o orçamento geral”. (UHD)
40
A categoria Importância da retenção remete-nos para o interesse dos
gestores de recursos humanos em manter colaboradores com talento na
organização. Esta categoria foi citada por sete dos noves inquiridos, os quais
defendem uma rotatividade exclusivamente interna, isto é, uma rotatividade dentro
da mesma cadeia hoteleira, evitando assim, perda de conhecimento. A citação que
se segue, remete-nos para o exposto:
“Rotatividade dentro da marca sim! Rotatividade para fora da marca não! É
importante reter as pessoas, o ideal é não haver rotatividade; desenvolver as
pessoas, o capital humano; as nossas pessoas são uma vantagem competitiva. Se
houver muita rotatividade, perdemos conhecimento, levam conhecimento e clientes.
Por exemplo, alguém do comercial que saia para outro hotel, pode também levar
clientes. Apostar no desenvolvimento e crescimento das pessoas”. (UHC)
41
exige um processo que nunca mais acaba, com provas, argumentos, etc., é um
processo difícil, porque tendencialmente os tribunais estão mais do lado do
trabalhador, e percebo ate certo ponto porque ainda se vê aí muita coisa que não se
deveria ver, mas quando se tratam de empresas certas e credíveis, que dão o
tratamento adequado ao trabalhador, a lei causa obstáculo, limita. Assim, quando as
pessoas estão efetivas, mas não estão a corresponder, temos que ficar com elas. A
lei não permite muito mais. Ou há um acordo (implica dinheiro) ou perde qualidade.
Sem dúvida que a inflexibilidade da lei portuguesa influencia alguma desta
rotatividade”. (UHA)
43
quais consideram que o setor hoteleiro propicia a procura de novas experiencias e
progressão de carreira, tal como revela o seguinte exemplo:
“Neste setor existe muita vontade de ter novas experiencias, progressão de
carreira, há pessoas que saem por motivos financeiros ou familiares, mas
maioritariamente saem para novas experiencias e progredirem profissionalmente”.
(UHB)
44
temporária. A categoria Jovens com outros objetivos profissionais, foi referida por
três dos nove participantes deste estudo. Esta categoria foi motivada, entre outras,
pela seguinte citação:
“As principais causas de desligamento passam por terem propostas melhores
e oportunidades fora da área da hotelaria, serem jovens e terem outros objetivos
profissionais, isto é, ser logo, à partida, algo temporário”. (UHG)
45
“Penso que a hotelaria vai ter sempre altas taxas de rotatividade porque é
desgastante, pelas exigências do trabalho em si. Há muitas pessoas que vão para a
hotelaria sem saber o que é, mas os turnos e os salários geram rotatividade.
Qualquer hotel e qualquer restaurante paga mais 50€ e as pessoas saem”. (UHG)
46
Humanos, resultando num cenário organizacional competitivo, orientado para uma
visão sistémica e estratégica da organização, e para os resultados de curto, médio e
longo prazo. Esta categoria foi referida por uma grande parte dos participantes deste
estudo. Seis dos nove participantes acreditam num futuro da Gestão de Recursos
Humanos com uma forte ligação à estratégia organizacional, visando o
desenvolvimento do negócio a partir do desenvolvimento das pessoas. Os gestores
de recursos humanos percecionam uma Gestão de Recursos Humanos na hotelaria
com um papel cada vez mais preponderante, deixando de ser um departamento
administrativo e passando a assumir o desenvolvimento dos Recursos Humanos. A
citação que se segue é um dos exemplos que traduz o exposto:
“A tendência em Portugal é deixar de ser só processamento salarial, é ser
muito mais do que algo somente administrativo, ainda que haja uma carga
administrativa muito grande. Ser um departamento de RH como ferramenta de
desenvolvimento de pessoas e consequentemente do negócio. Em termos de
estabilização dos processos, já temos as coisas rotinadas. O departamento poderá
crescer, mais uma pessoa. Se bem que há sempre coisas novas a acontecer. O
mundo da gestão de pessoas é muito dinâmico, não é estático. Há processos que
são transversais a qualquer fator, mas ainda assim há coisas a inovar, apresentar
processos de avaliação desempenho diferentes, competências diferentes conforme
os objetivos que queremos que aquela pessoa desenvolva mais, adaptar à realidade
e à fase do projeto. Reflete-se na forma de gerir Recursos Humanos, nos seus
processos, na formação, avaliação de desempenho, gestão de carreiras dentro das
oportunidades que há”. (UHA)
47
Índice de rotatividade mensal = Nº demissões do mês / Nº
colaboradores no último dia mês anterior
39%
32%
23,11%
20,12%
48
A unidade hoteleira D apresenta, ao longo dos últimos 4 anos, uma variação
do índice de rotatividade de pessoas pouco acentuada, comparativamente com a
unidade hoteleira A. Esta unidade atinge a maior taxa de rotatividade no ano de
2013, com 15,63% (figura 2).
Figura 2 - Unidade Hoteleira D: Índice de rotatividade anual
15,63% 15,23%
13,27%
10%
“Nos primeiros dois anos tivemos uma rotatividade mais elevada, típica de
abertura. Nos últimos dois anos, deparámo-nos com maior estabilidade nesse
sentido”. (UHB)
“Esta unidade hoteleira só está aberta há um ano, verificou-se maior
rotatividade de pessoas na abertura, de fevereiro a julho de 2015”. (UHE)
49
Nas unidades C, G e I verificam-se situações esporádicas de rotatividade de
pessoas, pelo que consideram apresentar baixas taxas de rotatividade.
Particularmente, o entrevistado da unidade hoteleira F, salienta a importância da
sazonalidade no aumento da rotatividade, embora esta seja por decisão da
empresa, conforme sugere o entrevistado F.
50
CAPITULO IV - DISCUSSÃO E CONCLUSÃO DOS RESULTADOS
51
uma prática comum a todos os inquiridos, assim como o Plano de formação é
referido pela maioria dos inquiridos, desenvolvendo assim a teoria. Este facto leva-
nos a questionar o nível de subjetividade patente em causas de rotatividade como
“baixa remuneração”, “condições de trabalho”, “escassa oferta de formação”, assim
como, na prática “participação e envolvimento dos trabalhadores”. Neste sentido,
torna-se fulcral conhecer-se o ponto de vista dos subordinados.
No que concerne às principais causas de rotatividade, salienta-se a
Conjuntura económica, seguindo-se Novas oportunidades de progressão de carreira,
Jovens com outros objetivos profissionais e Inadaptação ao ritmo de trabalho. Estes
resultados reforçam o argumento de que é essencial uma articulação eficaz entre os
interesses organizacionais e os planos de carreira e desejos de desenvolvimentos
pessoais de cada colaborador (Câmara, Guerra & Rodrigues, 1997)
Os resultados deste estudo indicam que a rotatividade de pessoas no setor
hoteleiro tende a manter-se futuramente. Os gestores de recursos humanos
defendem que haja uma rotatividade equilibrada de pessoas, através da retenção de
elementos chave e evitando, principalmente, a saída destes para fora das cadeias
hoteleiras que representam. A rotatividade não é vista como um ponto negativo
desde que esta não se verifique em massa. Estes resultados estão em conformidade
com a teoria, isto é, muitos gestores do setor já se conformaram com as elevadas
taxas de rotatividade e encaram este facto como algo perfeitamente inevitável (Dann
& Hornsey, 1984). É algo inevitável e até necessário e desejável, na medida em que
a mobilidade permite a obtenção de novos conhecimentos e competências (Deery &
Shaw (1997).
No que respeita à importância dada à retenção dos colaboradores, é patente
uma preocupação com esta questão. Os participantes deste estudo referem que é
importante promover o envolvimento e reconhecimento dos colaboradores,
procurando que estes se sintam em casa e, parte integrante do negócio. Os
entrevistados destacam a importância da proximidade com o colaborador,
profissional e pessoalmente, procurando sempre uma estabilidade emocional e um
equilíbrio entre a vida pessoal e, consequentemente, profissional do colaborador.
Estes resultados acompanham a teoria pois, de acordo com Fitz-enz (2001), a
retenção surge com a preocupação em manter profissionais talentosos no
desempenho das suas funções e com os custos que advém da rotatividade de
pessoas. De acordo com este autor, a taxa de rotatividade espelha o resultado do
52
esforço efetuado para a retenção dos colaboradores, mede a preocupação por parte
da gestão em avaliar o que é possível fazer para reter dado colaborador. Neste
sentido, Souza (2013), afirma que para uma boa gestão de pessoas, o gestor
necessita de acreditar no ser humano e no seu potencial; motivar os liderados a
atingir padrões de desempenho mais elevados e ter gosto por auxiliá-los a
desenvolverem-se; manter uma relação de respeito, apoio e orientação com as
pessoas.
Por sua vez, Martins & Silva (2013) defendem que os Gestores de Recursos
Humanos do Setor Hoteleiro atuam ainda de forma maioritariamente operacional,
não considerando práticas estratégicas de RH, a fim de criarem impacto positivo no
desempenho organizacional. Os resultados deste estudo demonstram que os
inquiridos consideram aplicar práticas de Gestão Estratégica de Recursos Humanos,
afirmando desenvolver práticas de Gestão de Recursos Humanos de acordo com a
estratégia organizacional, verificando-se contudo, o predomínio de práticas “mais
diretamente ligadas à Gestão Administrativa-burocrática” (Martins & Silva, 2013).
Esta questão, à semelhança das conclusões de Martins & Silva (2013) e
Martins (2005), sugerem que a Gestão está consciente da necessidade de redefinir
as práticas de Gestão de Recursos Humanos, consciência essa motivada pela
crescente competitividade, o que acaba por surtir numa tentativa de incluir nos seus
modelos de atuação, as componentes cultural e estratégica. As autoras (Martins &
Silva, 2013) consideram que esta tentativa ineficaz de incluir a vertente do
Desenvolvimento Humano nos modelos de atuação, terá que ver com as
condicionantes culturais e económicas nacionais. Estamos, assim, perante uma
gestão de pessoas, envolvida num processo de transição, do “Instrumentalismo
Utilitarista” para o “Desenvolvimento Humano”.
Neste contexto, os resultados mostram que a maior parte dos entrevistados
perceciona um desenvolvimento da Gestão de Recursos Humanos, com tendência
inevitável para assumir um papel cada vez mais preponderante e capaz de criar um
crescente envolvimento na estratégia organizacional.
Os participantes deste estudo visam solidificar as práticas de Gestão de
Recursos Humanos aplicadas e, ainda, adotar outras novas práticas, procurando
diminuir a rotatividade de pessoas e, consequentemente, obter sucesso
organizacional. Importa salientar que, os resultados obtidos permitem diferenciar
dois grupos no que respeita aos participantes da amostra: (1) está patente uma
53
preocupação com o bem estar e motivação de cada colaborador; (2) prima pelos
interesses da organização e do negócio.
54
Conforme referido por Garcia (2016), a Gestão de Recursos Humanos nas
unidades hoteleiras de pequena e média dimensão continuam, na sua maioria, a
apresentar uma estrutura [Link]ão de topo realizar as tarefas de Recursos
Humanos. O mesmo se conclui com a realização deste estudo, não se verificando a
existência de departamento de RH na maioria das UH. Neste contexto, Martins e
Silva (2013) afirmam que a inexistência de intervenção integral do departamento de
recursos humanos no desenvolvimento das práticas de Gestão de Recursos
Humanos, tende a resultar num departamento de índole mais operacional do que
estratégico. As autoras, Martins e Silva (2013), referem que é percetível, por parte
dos responsáveis de RH, pouca sensibilização e adaptabilidade, para exercerem
uma gestão predominantemente estratégica.
Neste âmbito, os nossos resultados vão ao encontro da teoria estudada. Os
gestores de RH referem adotar práticas de Gestão de Recursos Humanos de acordo
coma estratégia organizacional, no entanto, estes contrariam-se quando se verificam
o recrutamento & seleção, a participação e envolvimento dos colaboradores e o
plano de formação, como práticas mais comuns entre os gestores de Recursos
Humanos das UH participantes neste estudo. Assim, os resultados desta
investigação vão ao encontro de alguns estudos específicos sobre a Gestão de
Recursos Humanos em Portugal (e.g. Martins, 2005; Martins & Silva, 2013), nos
quais se verifica que a Gestão de Recursos Humanos nas empresas portuguesas
está aquém de assumir uma perspetiva de Gestão Estratégica de Recursos
Humanos. De acordo com estudos realizados pelas autoras (Martins & Silva, 2013),
predominam as práticas de Gestão de Recursos Humanos de índole mais
operacional (formação profissional, recrutamento & selecção, desenvolvimento e
análise de funções) em vez de práticas de Gestão Estratégica de Recursos
Humanos (sistemas de recompensas, planeamento e desenvolvimento da carreira,
gestão de redução de efetivos).
A teoria defende ainda, Kaya et al (2010), que a Gestão Estratégica de
Recursos Humanos compreende atividades de aquisição (recrutamento e seleção),
retenção (políticas específicas adequadas às necessidades do contexto
organizacional e das pessoas que o constituem), empowerment (nomeadamente
através de formação e desenvolvimento) e motivação dos colaboradores (podendo
considerar-se, por exemplo, incentivos, feedback, entre outros). Neste sentido, os
resultados permitem concluir que há ainda um longo caminho a percorrer por parte
55
dos Gestores, para pontos-chave como são as atividades de retenção,
empowerment e de motivação dos colaboradores, nomeadamente, através da
aposta em práticas de avaliação de desempenho, gestão e desenvolvimento de
carreira, acolhimento e integração, inquérito de satisfação dos colaboradores e
planeamento anual.
Ora, conhecidas as práticas de Gestão de Recursos humanos adotadas pelos
gestores participantes deste estudo, importa conhecer quais as principais causas
passíveis de desencadear a rotatividade de pessoas. Neste âmbito, os resultados
deste estudo desenvolvem a teoria. Não são referidas pelos gestores de recursos
humanos, causas como baixas remunerações, escasso envolvimento dos
colaboradores nas tomadas de decisão, condições de trabalho e escassa oferta de
formação. Surgem como principais causas de rotatividade (1) inadaptação ao ritmo
de trabalho, (2) novas oportunidades de progressão de carreira, (3) jovens com
outros objetivos profissionais, (4) conjuntura económica. Torna-se, assim, fulcral
conhecer o ponto de vista dos colaboradores, no que respeita (1) à satisfação com
as remunerações que auferem, (2) se sentem ou não ter algum tipo de influência em
decisões respeitantes às tarefas que executam, (3) se estão satisfeitos com as
condições de trabalho e (4) se consideram ter acesso a suficiente e adequada oferta
de formação, para o desenvolvimento das suas tarefas. Importa ainda salientar que
o esforço, por parte da maioria dos inquiridos, para fomentar práticas como a
Participação e envolvimento dos colaboradores e o Plano de formação, desenvolve
por si só, a afirmação teórica de que são principais causas de rotatividade o escasso
envolvimento dos colaboradores nas tomadas de decisão e a escassa oferta de
formação. Perante tais dados, importa não descurar a possibilidade de existência de
desejabilidade social, aquando o momento de recolha dos dados deste estudo.
Assim, serão estas mesmas práticas aplicadas de forma rigorosa? Ou, por outro
lado, haverá plena consciência por partes dos gestores de Recursos Humanos
relativamente à importância destas práticas, suscitando nestes a necessidade de
demonstrarem que tais práticas são fomentadas de forma política e socialmente
adequada?
Por fim, visava-se investigar a perceção dos gestores de RH no que respeita
ao futuro da Gestão de Recursos Humanos, num setor afetado por elevadas taxas
de rotatividade de pessoas. É notória a consciência da importância da Gestão de
Recursos Humanos, assim como da necessidade de melhoria no que respeita ao
56
desenvolvimento desta, deixando de ser uma função meramente administrativa. Tal
como concluído por Martins & Silva (2013), caminhamos a “duas velocidades”: uma
grande parte revela desenvolver práticas tradicionais de Gestão de Recursos
Humanos, poucos são, ainda, os que revelam posicionar-se a um nível de Gestão
Estratégica de Recursos Humanos.
Os nossos resultados revelam, contudo, que os gestores de RH
percepcionam um futuro tendencionalmente de desenvolvimento da Gestão de
Recursos Humanos, através da solidificação das práticas de Gestão de Recursos
Humanos e da implementação de novas práticas, assumindo um papel cada vez
mais orientado para a estratégia organizacional e possibilitando uma “rotatividade
equilibrada” de pessoas.
57
Deste modo, sugere-se que em estudos futuros seja possível dar
continuidade a esta temática, alargando a amostra para Portugal Continental,
mantendo a aplicação da técnica de entrevista aos gestores de RH mas ainda,
procurar conhecer a perspetiva dos colaboradores. Seria interessante entender o
ponto de vista dos colaboradores no que respeita às práticas de Gestão de
Recursos Humanos aplicadas, procurando compreender o que os motiva a
permanecer nas UH.
Este trabalho de investigação permitiu uma maior familiaridade com a
realidade da gestão de pessoas no setor hoteleiro, percecionar as dificuldades com
que os gestores de recursos humanos se deparam diariamente perante um setor
particularmente complexo, devido ao tipo de trabalho que lhe está subjacente.
Considera-se fundamental que se verifique, cada vez mais, um departamento
vocacionado para a Gestão de Recursos Humanos nas unidades hoteleiras de
quatro e cinco estrelas. A complexidade do setor impõe que se verifique uma eficaz
gestão de pessoas, visando uma mudança de cultura e de mentalidade dos que
representam cada unidade de negócio, partindo esta do topo da pirâmide hierárquica
para a sua base. Assim, torna-se fulcral verificar-se uma gestão de pessoas,
minuciosamente ligada à estratégia do negócio, sendo necessário para tal, uma
aposta eficaz nas diversas práticas de gestão e desenvolvimento de recursos
humanos.
Em suma, considera-se que este trabalho de investigação poderá ter
contribuído para uma maior consciencialização relativamente ao impacto das
práticas de Gestão de Recursos Humanos na rotatividade de pessoas. Neste
sentido, caberá à gestão ser flexível à mudança, assumindo uma Gestão de
Recursos Humanos do futuro: uma gestão estratégica.
58
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69
ANEXOS
70
ANEXO A - QUESTIONÁRIO SÓCIO DEMOGRÁFICO
Sexo
Idade
Estado Civil
Habilitações Literárias
Unidade Hoteleira
Segmentação do público-alvo
Departamento
Cargo ou função
Tempo de atividade
71
ANEXO B - GUIÃO DE ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA
(Não esquecer de, antes de iniciar a entrevista, agradecer a disponibilidade para a mesma; explicar
qual o objetivo do estudo; abordar o consentimento informado para a entrevista e pedir que seja o
mais honesto possível, explicando que não há respostas erradas.)
72
Muito obrigada pela sua colaboração!
73
ANEXO C - CONSENTIMENTO INFORMADO PARA A ENTREVISTA
74
Assinatura da investigadora ___________________________
Assinatura do participante ___________________________
Data: __ / __ / 2016
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